Márcia Londero Ciências Sociais nas Organizações Edição revisada IESDE Brasil S.A. Curitiba 2012 © 2008 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ __________________________________________________________________________________ L838c Londero, Márcia Ciências sociais nas organizações / Márcia Londero. - 1.ed., rev. - Curitiba, PR : IESDE Brasil, 2012. 156p. : 28 cm Inclui bibliografia ISBN 978-85-387-3099-6 1. Sociologia organizacional. I. Título. 12-6855. CDD: 302.35 CDU: 3.07 20.09.12 08.10.12 039329 __________________________________________________________________________________ Capa: IESDE Brasil S.A. Imagem da capa: Shutterstock Todos os direitos reservados. IESDE Brasil S.A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br Sumário O surgimento da Sociologia e suas principais contribuições | 7 O desenvolvimento da Sociologia e a Sociologia do Desenvolvimento | 12 A Sociologia do Desenvolvimento | 13 Sociologia do Desenvolvimento, Sociologia do Trabalho e Sociologia das Organizações | 19 As contribuições da Sociologia clássica | 19 A evolução histórica do pensamento econômico no Brasil | 20 Diferentes formas de organização do trabalho | 22 Analisando racionalmente as organizações | 24 Conceitos básicos para a compreensão da vida social | 33 O objeto de estudo da Sociologia das Organizações | 33 Sociabilidade e socialização | 34 Convívio social, isolamento e contato | 34 Interação | 37 Relação indivíduo-sociedade | 40 Características e tipologias dos principais grupamentos sociais | 47 Grupos sociais | 48 Os agregados sociais | 50 Mecanismos de sustentação dos grupos sociais | 52 Organizações e sociedade | 59 Conceito de organizações | 59 Teorias das organizações: o enfoque sociológico | 60 Classificação e objetivos das organizações | 63 Novas abordagens teóricas das organizações | 69 A teoria das relações humanas | 70 A teoria dos sistemas | 74 A teoria contingencial | 75 O poder nas organizações | 81 O conceito de poder | 82 O poder organizacional | 83 As principais fontes de poder nas organizações | 85 Liderança nas organizações | 86 O estudo das empresas pela compreensão de sua cultura | 93 Definindo cultura | 93 Mudança social | 93 Cultura organizacional | 94 As subculturas organizacionais | 96 A mudança organizacional | 97 A inovação | 98 Grau de resistência à mudança | 100 As organizações e suas relações com o entorno | 105 A influência das culturas nacionais nas organizações | 105 As interdependências institucionais da empresa | 107 A empresa e a estrutura educacional | 107 A empresa e as relações com a estrutura hierárquica nacional | 108 A empresa e a família | 108 A empresa e o Estado | 109 Democracia e estrutura hierárquica nas organizações modernas | 110 Concluindo | 111 Aprendizagem organizacional | 119 As relações entre ator e empresa: a força do coletivo | 119 A empresa como produtora de cultura | 120 A aprendizagem cultural | 121 Quatro tipos de identidades no trabalho | 122 As organizações que aprendem | 123 Inovação tecnológica e organizacional | 131 As transformações impulsionadas pela implementação de novas tecnologias na empresa | 131 A influência da tecnologia para uma boa organização | 132 As relações entre tecnologia e estrutura | 133 A previsão das mudanças nas organizações | 135 Novas tecnologias, novos horizontes | 136 Novas perspectivas para a inovação nas organizações | 137 A globalizaçãoe as organizações | 143 As novas formas de organização | 144 As organizações em rede | 145 A organização pós-moderna | 146 A responsabilidade social | 147 Referências | 153 Apresentação Uma fronteira não é o ponto onde algo termina, mas, como os gregos reconheceram, a fronteira é o ponto a partir do qual algo começa a se fazer presente. Martin Heidegger (apud BHABHA, 1998, p. 19) Deparamos-nos hoje com imensas transformações políticas e econômicas de alcance mundial que abalam as formas mais íntimas de nos relacionarmos com o planeta. As noções de tempo e espaço relativizadas pelos avanços tecnológicos, principalmente nas áreas de informática e telemática, nos colocam grandes questões. As informações e os contatos com as pessoas feitos através dessas novas tecnologias vêm revolucionando o nosso modo de vida como um todo. Visões dicotômicas sobre o que é moderno e o que é arcaico, o que é real ou virtual, o perto e o distante, o possível e o impensável se revelam ultrapassadas. As novas tecnologias impulsionam modificações profundas e nos impelem para caminhos incertos, ainda não traçados. Perdemos o apoio das tradições, mas vivemos hoje em um cenário de possibilidades. As organizações, nessa conjuntura, sustentam e fazem crescer a globalização transformando-se em uma estrutura cada vez mais aberta e permeável às situações da sociedade como um todo. Apesar de tantas incertezas, as ciências continuam contribuindo para iluminar os novos caminhos ainda em construção. A realidade dinâmica de hoje nos ajuda a refletir sobre o novo, e o que era impensável até pouco tempo, hoje pode ser realizável. Por isso, esperamos que essa nova realidade global sirva de referência para a construção de novas atitudes e valores mundiais que devam ser assumidos por todos, mas destacamos neste trabalho o papel das organizações que objetivam construir uma sociedade mais justa e responsável. O surgimento da Sociologia e suas principais contribuições Márcia Londero* Ciência é um conceito presente em muitas de nossas falas e ao longo da história tem sido definida de diferentes formas. Em qualquer explicação que se dê ao termo, encontraremos: certeza, previsão, lei. Por mais distintas que sejam as explicações, todas elas convergem para a indicação de alguns quesitos indispensáveis para a sua compreensão. Ciência é conhecimento provado através da observação e da experimentação. Nesta definição entendemos que: ::: os conhecimentos articulados entre si formam uma teoria que constantemente está sendo posta à prova; ::: essa teoria ou conjunto de conhecimento foi gerada através de uma investigação criteriosa, metodológica com respeito à lógica ou à coerência; ::: a investigação é realizada de forma objetiva, sem opiniões pessoais dos pesquisadores que possam interferir no resultado; ::: investigação empírica significa que o conhecimento é obtido a partir de experiências e tentativas repetitivas, que podem assegurar os seus resultados. É possível existir conhecimento que não seja científico? Sim, se considerarmos que é possível assimilar um conjunto de informações acerca de fenômenos da natureza e de fenômenos que ocorrem na sociedade e na vida das pessoas em geral. No entanto, mesmo as experiências mais marcantes como, por exemplo, o nascimento de um filho ou a participação de um grupo de bombeiros em um incêndio, por serem exclusivas de uma pessoa ou de um grupo, * Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Graduada em Ciências Sociais pela UFRGS. 8 | O surgimento da Sociologia e suas principais contribuições não poderão ser reproduzidas sempre com o mesmo resultado. Um pescador pode, por exemplo, saber bem onde estão os melhores cardumes, um agricultor pode saber, pela experiência acumulada ao longo de anos de observação e trabalho, das melhores colheitas e do tempo, mas esta experiência é subjetiva, pessoal, não pode ser reproduzida por outras pessoas. Diante disso, podemos entender que a Ciência se diferencia do senso comum, do saber que o indivíduo acumula tendo como base informações de seu grupo, crenças pessoais. Todas as experiências que acumulamos são chamadas de conhecimento, mas nem todo conhecimento é científico, pois não advém da busca sistemática, metodológica e nem podem ser repetidas com o mesmo resultado. Contexto histórico do desenvolvimento das ciências: o surgimento da Sociologia Encontramos na Filosofia grega importantes subsídios para a divisão das ciências. Não poderia ser diferente, uma vez que a Filosofia antiga é a gênese de muitas ciências. Na Antiguidade, a Filosofia abarcava todos os conhecimentos. A primeira classificação das ciências foi dada por Aristóteles (384322 a.C.). Ele esquematiza as ciências da seguinte forma: ::: ciências teóricas (Física, Matemática, Metafísica); ::: ciências práticas (lógica e moral). As obras O Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam (1466-1536), O Leviatã, de Thomas Hobbes (1588-1679) e outras que as precederam, surgidas do Renascimento, tais como O Príncipe, de Maquiavel (1469-1527), Utopia, de Thomas Morus (1478-1535) e Nova Atlântida, de Francis Bacon (1561-1626), foram de suma importância para as Ciências Sociais e contribuíram para o desenvolvimento desta porque marcaram os primórdios das preocupações da ciência com o mundo social. Esses autores construíram análises sobre as diferentes formas de organização da política; estudos sobre o Estado e as formas de governar e também trabalharam teoricamente propondo comparações e requisitos para a construção de sociedades ideais, como foi o caso da obra de Francis Bacon, Nova Atlântida. Alguns anos depois, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), reconhece a decisiva influência da sociedade sobre o indivíduo em sua obra O Contrato Social (1762), ressaltando o poder da sociedade em transformar o homem, que, segundo ele, ao nascer, é por essência um homem bom e a vida social é que o corrompe. Mas foi no final do século XVIII, início do século XIX, com Auguste Comte (1798-1857), Herbert Spencer (1820-1903), Jean Gabriel de Tarde (1843-1904) e principalmente com Émile Durkheim (18581917), Max Weber (1864-1920) e Karl Marx (1818-1883), que a investigação dos fenômenos sociais ganhou um caráter verdadeiramente científico. Auguste Comte, referendado pelo crescimento das explicações científicas, baseia-se num princípio mais rigoroso para classificar a Ciência. Subdivide as ciências segundo sua complexidade crescente e sua generalidade decrescente, o que resulta no seguinte: Matemática, Mecânica, Física, Química, Biologia, Psicologia e Sociologia. Essas classificações ilustram como historicamente as concepções de ciência foram se configurando. Atualmente sabemos que não abarcam a totalidade das diferentes formas sistematizadas do conhecimento. O surgimento da Sociologia e suas principais contribuições | 9 A crescente credibilidade alcançada pelo pensamento científico contribuiu para o surgimento da Sociologia. Sob a perspectiva da população da Europa da época, eram vitoriosas as mudanças que a Revolução Industrial e a era dos inventos trazia para o modo de vida cotidiana. As ideias de progresso e avanço do controle da natureza pelo homem encantavam e aceleravam o crescimento científico com os investimentos dos próprios capitalistas industriais deste período nesta área. Se o homem pode controlar cada vez mais os fenômenos da natureza, por analogia poderá controlar também os fenômenos sociais. A Ciência volta-se então à análise do mundo social. Métodos sociológicos mais relevantes A preocupação em compreender o meio social trouxe à tona a necessidade de encontrar também o meio racionalmente mais adequado para chegar a este objetivo. Foi daí que vieram as primeiras discussões sobre o método científico das ciências sociais. O campo de estudos das ciências sociais recém constituído define, de forma ambiciosa, um conjunto de saberes acerca de aspectos da vida social ou da realidade social concreta. As disciplinas como Antropologia, Sociologia, Economia, Geografia, Psicologia, Etnologia, História e Ciência Política formam um conjunto sistemático, aceito como o bojo estrutural das Ciências Sociais. Nesse sentido, apresenta-se também para todas as Ciências Sociais a importância do quadro metodológico, válido indistintamente para cada uma das disciplinas elencadas. Veremos brevemente algumas características neste capítulo. A metodologia nas Ciências Sociais compõe um amplo conjunto de procedimentos usados para se chegar ao conhecimento com segurança e rapidez. São considerados os diferentes princípios e técnicas para a realização de uma investigação: ::: a indução; ::: a dedução; ::: a observação; ::: a coleta de dados; ::: os questionários; ::: a análise e interpretação de dados. A indução é o método que concebia o conhecimento como resultado da experimentação sucessiva e da utilização da manipulação empírica, ou seja, concreta, pregada por Francis Bacon (1561-1626) desde o fim do Renascimento. A Ciência é conhecimento objetivo porque podemos prová-la concretamente. Por outro lado, René Descartes (1596-1650) defendia a validade do método dedutivo, ou seja, aquele que possibilitava descobertas através do encadeamento lógico de hipóteses elaboradas a partir da atividade primordial da razão. Podemos dizer que a Ciência começa com a observação e que a observação produz uma base segura de onde deriva o conhecimento. A teoria é baseada na maneira rigorosa com que obtemos os dados a partir da observação e da experimentação. A Ciência é baseada naquilo que podemos observar com 10 | O surgimento da Sociologia e suas principais contribuições nossos sentidos, ver, ouvir, tocar etc. Mas também podemos dizer que para tornar mais preciso o nosso olhar, a observação científica da realidade necessita da teoria, uma não pode prescindir da outra. A coleta de dados orientada pela teoria e perpassada pela observação é o passo seguinte, em que selecionamos os dados relevantes para explicar o fenômeno que estudamos. Questionários, formulários, ou entrevistas fechadas e abertas são técnicas utilizadas pelos diferentes métodos e vão ser escolhidas a partir das características dos dados a serem coletados e do objeto a ser analisado. Esses dados podem ser levantados através de pesquisa bibliográfica, em documentos históricos ou através de material coletado por nós mesmos em entrevistas ou questionários. A análise e interpretação dos dados coletados aparece como o último passo a ser realizado para se chegar a uma conclusão sobre o fenômeno estudado. A pesquisa, portanto, engloba um conjunto de instrumentos para a investigação, cujo objetivo é tentar solucionar e explicar um problema ou um fenômeno. Em Ciências Sociais são usados diferentes métodos, alguns comuns a outras ciências, outros específicos das Ciências Sociais, a saber: Empirismo, Positivismo, Estruturalismo, Funcionalismo, Marxismo. O Empirismo acredita que a Ciência é baseada na observação dos fenômenos concretos, em oposição à influência religiosa que propunha a fé como explicação maior. O Positivismo, criado por Auguste Comte, baseia-se na suposição de que é possível observar a vida social e reunir conhecimentos válidos sobre como ela funciona. Esses conhecimentos então seriam utilizados para aperfeiçoar a vida social. A Sociologia deveria interessar-se apenas pelo que pode ser observado com os sentidos, de maneira que os críticos desta corrente apontam a falha da análise em não levar em consideração a subjetividade do real que não pode ser percebida pela mera observação dos fatos. O estruturalismo defende que existem, na sociedade, estruturas subjacentes, que não podem ser observadas diretamente, mas que são concretas e modelam a vida social, como por exemplo a estrutura social e a cultura. Pode-se também conceber o método como o referencial teórico ou conhecimento prévio a orientar a busca científica. Nas Ciências Sociais, utilizamos duas grandes correntes metodológicas ou dois grandes métodos: o Funcionalismo e o Marxismo. ::: Funcionalismo: também chamado de organicismo. Deriva da palavra “organismo”, que é a forma como entende a sociedade, tal como um organismo vivo, onde as partes estão integradas num todo, harmoniosamente vinculadas entre si. Qualquer problema ocasional que surja é tido como uma patologia, um caso anormal que a sociedade terá de sanar. Um autor clássico desse método é Émile Durkheim (1858-1917). O método funcionalista predominou como instrumento teórico até meados de 1950, e marcou trabalhos importantes na Antropologia e na Linguística. O Funcionalismo interpreta a realidade social pela harmonia e funcionamento equilibrado entre todas as instituições sociais. ::: Marxismo: também chamado de dialético e histórico-crítico. Embora considerado ao mesmo tempo uma filosofia da história, um método de investigação e, em alguns sistemas políticos, um dogma, a produção de Karl Marx (1818-1883) marca a introdução de conceitos obtidos da Filosofia, no sentido de estudar a vida social e sua dinâmica própria. A dialética compreende uma tese e uma antítese que se chocam constantemente e resultam em uma outra tese. O marxismo interpreta uma realidade social estimulada pelo conflito ou luta de classes. O surgimento da Sociologia e suas principais contribuições | 11 Principais pensadores e leituras clássicas das Ciências Sociais Os clássicos das Ciências Sociais interpretaram a sociedade e os problemas dela oriundos, cada um a seu tempo e momento histórico-cultural. Atualmente, as Ciências Sociais avançaram tanto em metodologia quanto em teoria, que compartilham o cosmopolitismo do universo científico, ou seja, hoje se pode adotar, com facilidade, diversos recursos metodológicos de diferentes correntes ao mesmo tempo, fazendo uso da melhor combinação entre eles para alcançar a compreensão do fenômeno estudado. Paulatinamente, está se construindo o conceito de que pertencemos a um mesmo grupamento e a uma mesma espécie, a espécie humana que, para os pessimistas, parece não estar dando certo. Sabemos que pensamos da mesma forma, mas encontramos no mundo social tantos problemas que é preciso encontrar respostas coerentes ou pelo menos que aliviem e tornem a existência humana um pouco mais compreensível. A leitura dos clássicos é de fundamental importância para alunos que se dediquem ao estudo da sociedade. Cada leitura ou obra postula uma seguinte, pois vislumbra mais aberta e ampla a paisagem. Para efeito de estudos num curso de Ciências Sociais, e tendo em vista o objetivo desta disciplina que enfoca organizações em particular, elencamos obras e autores de diferentes matizes que se tornaram clássicas pela abordagem que oferecem aos estudos nesse campo, mas é importante frisar que não pretendemos esgotar toda a gama de pensadores que contribuíram de forma importante na constituição do campo de estudos desta ciência. Embora classificados em uma delas, os pensadores, como já dissemos, incorporam no bojo de seus escritos o contexto histórico e político da época em que viveram. Na Sociologia, destacamos: ::: Émile Durkheim (1858-1917): principais obras – O Suicídio (1897) e da Divisão do Trabalho Social (1893); ::: Karl Marx (1818-1883): principal obra – O Capital (1867-1879); ::: Max Weber (1864-1920): principais obras – A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (19041905) e Economia e Sociedade (1922). Na Antropologia, deve-se consultar: ::: Michel de Montaigne (1533-1592) – em sua obra Ensaios (1588) o capítulo “Dos canibais” ; ::: Roger Bastide (1898-1974) – Brasil, terra de contrastes (1957); ::: Lévi-Strauss (1908-2009) – As Estruturas Elementares do Parentesco (1949). Na Ciência Política destacamos: ::: John Stuart Mill (1806-1873): Princípios de Economia Política (1848); ::: Vilfredo Pareto (1848-1923): Curso de Economia Política (1896-97); ::: Herbert Spencer (1820-1903): O Indivíduo Contra o Estado (1884). 12 | O surgimento da Sociologia e suas principais contribuições O desenvolvimento da Sociologia e a Sociologia do Desenvolvimento Ao aprofundarmos nossos estudos em direção ao objetivo deste curso, que é o de compreender a Sociologia das Organizações, focalizamos a preocupação dos teóricos das Ciências Sociais na questão econômica, ou seja, no próprio desenvolvimento do capitalismo industrial, pano de fundo do surgimento da Sociologia. Essa preocupação deu origem a uma disciplina chamada Sociologia Econômica, bastante comum no início do ensino acadêmico da Sociologia e posteriormente da chamada Sociologia do Desenvolvimento. As críticas ao evolucionismo, embutido neste conceito de desenvolvimento, fez com que recentemente esta nomenclatura fosse abandonada, mais precisamente no final dos anos 1980, quando surgiu a Sociologia do Trabalho de onde se derivou a Sociologia das Organizações. O quadro histórico do desenvolvimento do capitalismo Problemas conjunturais como as guerras mundiais, o monopólio das grandes empresas em lugar da livre concorrência e a intensificação da organização dos trabalhadores culminando com as revoluções socialistas revelavam as imperfeições do capitalismo e colocavam abaixo as esperanças de alguns sociólogos de democratização deste sistema. Em consequência, a burguesia se distanciava de um projeto de igualdade e fraternidade se comportando de forma mais conservadora e utilizando aparatos de repressão físicos e ideológicos para assegurar sua dominação. No cenário internacional surgem duas grandes potências econômicas: os Estados Unidos e a União Soviética, cada uma delas representando uma corrente política diferente, a saber, o capitalismo e o socialismo, respectivamente. O conhecimento também passa a submeter-se aos interesses dessa ordem e as Ciências Sociais são utilizadas como técnica de manutenção das relações dominantes, tanto em um sistema como no outro. Mas é com investimentos provenientes do capitalismo que a Sociologia vai se desenvolver através do surgimento da Escola de Chicago nos Estados Unidos onde os grandes pensadores da Europa, refugiados da Primeira Guerra Mundial, vão desenvolver os métodos de investigação de campo que serão plenamente testados na realidade. No século XX, a aceleração do processo de industrialização e o aumento de nações concorrentes na corrida imperialista fizeram com que um novo surto de modernização e formação de novos estados independentes atingisse os continentes asiáticos, africanos e também as recentemente independentizadas nações latino-americanas. Esse processo revelava a constante internacionalização do processo de industrialização e a expansão do modo de produção capitalista. As novas nações então adotaram um modelo de desenvolvimento baseado na expansão do capitalismo industrial ditado pelos países líderes do capitalismo na Europa. O papel dessas nações periféricas era, neste momento, o de possibilitar a expansão necessária, ao aumento da produção na Europa e nos Estados Unidos, dos mercados consumidores de produtos industrializados produzidos nestes países e também fornecer matéria-prima para estas indústrias. O surgimento da Sociologia e suas principais contribuições | 13 Para consumir esses produtos e fornecer as matérias-primas necessárias ao avanço da produção capitalista central, essas novas nações necessitaram passar por um processo de modernização de seus meios de transporte e produção de matérias-primas semelhante ao dos países industrializados, o que as aproximava do modelo capitalista industrial europeu. A partir dessa aproximação passou-se a interpretar o desenvolvimento da economia dessas nações novas como uma mera cópia do modelo do capitalismo central, concebendo como única diferença o grau de desenvolvimento e não de qualidade deste sistema. Nessa perspectiva, todas as nações do mundo pareciam marchar rumo ao desenvolvimento industrial. A Sociologia para interpretar estas mudanças As ex-colônias transformadas em nações capitalistas, consumidoras dos produtos industrializados dos países do capitalismo central e fornecedoras de matérias-primas para os mesmos, não podiam mais ser classificadas em categorias evolucionistas dos tipo “civilizadas” e “primitivas”. A Sociologia cria então novos conceitos para interpretar o recente processo de internacionalização do capitalismo. Junto com esse movimento de industrialização foi necessário a criação de técnicas nacionais e a importação de modelos, não só de industrialização, como também de conhecimento. Surgem novas universidade e novas teorias para explicar a situação específica dos países recém-industrializados ou dos países do chamado Terceiro Mundo. O objeto de estudo da Sociologia neste contexto, passa a ser justamente o desenvolvimento, que neste período era o foco das políticas econômicas nacionais e internacionais. As categorias de análise da sociologia do desenvolvimento buscam definir estas mudanças. O mundo passa a ser dividido em nações desenvolvidas, nações em desenvolvimento e nações subdesenvolvidas. A Sociologia continua a ampliar seus campos de análise, porém, as teorias sobre desenvolvimento e subdesenvolvimento passam a ser centrais principalmente para os países do capitalismo periférico e dentro deles localizamos os sociólogos brasileiros. A Sociologia do Desenvolvimento Na ânsia de explicar esta conjuntura em que as novas nações capitalistas buscavam copiar o modelo de desenvolvimento das nações do velho mundo, e não apenas isso, reproduzir também os modelos de organização das instituições políticas e econômicas, surge na Sociologia um novo tipo de evolucionismo chamado por alguns sociólogos como modelo desenvolvimentista. Estas análises acreditavam que as diferenças entre estas sociedades, chamadas então de desenvolvidas, para as conhecidas como subdesenvolvidas, estavam localizadas apenas no grau de desenvolvimento. Ou seja, os países subdesenvolvidos alcançariam os padrões dos desenvolvidos bastando seguir os passos que os últimos tinham percorrido. 14 | O surgimento da Sociologia e suas principais contribuições Assim, as Ciências Sociais contribuíram com suas análises no sentido de alcançar instituições que, aos moldes das que já existiam nos países da Europa Central e nos Estados Unidos, garantiriam uma transição segura do subdesenvolvimento para o desenvolvimento e do progresso prometido pelo capitalismo. As nações que apareciam como centros de dominação política e econômica passaram a construir modelos superiores a serem almejados por todos os povos para que alcançassem o progresso. A teoria desenvolvimentista difundia-se como explicação para os diferentes estágios de desenvolvimento econômico dos países capitalistas e servia como modo de manter a submissão dos países considerados subdesenvolvidos aos padrões e modelos dos chamados desenvolvidos. O norte americano William Wilber Rostow, em seu livro Etapas do Desenvolvimento (1974, p. 16) formula em 1967 uma teoria em que classifica as diferentes sociedades em cinco etapas de desenvolvimento: ::: as sociedades tradicionais; ::: as sociedades em processo de transição; ::: as sociedades em início de desenvolvimento; ::: as sociedades em maturação; ::: as sociedades de produção em massa. Este autor, portanto, acredita que todas as sociedades devem estar localizadas em algum desses estágios desconsiderando a possibilidade de diferentes caminhos para alcançar o desenvolvimento. Essa subdivisão, que serve de exemplo clássico da teoria desenvolvimentista, fundamenta-se na ideia de que o desenvolvimento do capitalismo e o modelo de organização da civilização ocidental europeia é o único modelo a ser seguido. Cada estágio entre esses cinco apresentados seriam lentamente alcançados através do desenvolvimento econômico do capitalismo. Muitos teóricos adeptos deste modelo buscavam identificar as causas do subdesenvolvimento nas formas tradicionais de organização das sociedades mais atrasadas e em explicações muitas vezes racistas e preconceituosas. Isso porque estes estudiosos ligavam as causas do subdesenvolvimento de países da América Latina e da África, por exemplo, às características étnicas e culturais destes povos. Índios e negros foram responsabilizados pelo atraso de uma civilização baseada em moldes europeus que eles nem conheciam e tampouco foram convidados a fazer parte. As teorias desenvolvimentistas, portanto, oportunizaram a proliferação desses preconceitos para explicar as causas do subdesenvolvimento, não reconhecendo aquilo que era o próprio efeito de um modelo de exploração capitalista colonial por eles mesmos praticada. Um crescimento baseado no imperialismo colonial que eles praticavam nos países mais pobres e da periferia do capitalismo. O surgimento da Sociologia e suas principais contribuições | 15 Textos complementares De que se ocupam as Ciências Sociais (OLIVEIRA, 2001) O comportamento humano é muito diversificado. Cada indivíduo recebe influências de seu meio, forma-se de determinada maneira e age no meio social de acordo com sua formação. O indivíduo aprende com o meio, mas também pode transformá-lo em sua ação social. Há comportamentos como andar, respirar, dormir – estritamente individuais que se originam na pessoa enquanto organismo biológico. São comportamentos estudados pelas ciências físicas e biológicas. Por outro lado, receber salário, fazer greve, participar de eventos, casar-se, educar os filhos são comportamentos sociais, pois se desenvolvem no contexto da sociedade. Ao longo da história, a espécie humana organizou sua vida em grupo. As Ciências Sociais (a Sociologia é um de seus ramos) pesquisam e estudam o comportamento social humano e suas várias formas de organização. Como ciência voltada para o social, tem um amplo corpo de conhecimento. O conhecimento teórico e técnico das Ciências Sociais é de tal forma amplo que pode ser aplicado tanto para entender um fato social como para elaborar e implementar desde pequenos projetos até estudos de política de governo. Objeto e objetivo das Ciências Sociais Pode-se dizer que as Ciências Sociais são o estudo sistemático do comportamento social do ser humano. Ocupando-se sistematicamente do comportamento social humano, o objeto das Ciências Sociais é, portanto, o ser humano em suas relações sociais. Tendo como objeto de interesse o ser humano em suas relações sociais, o objetivo das Ciências Sociais é ampliar o conhecimento sobre o ser humano em suas interações sociais. Assim, as Ciências Sociais contribuem para um melhor entendimento da sociedade em que vivemos e dos fatos e processos sociais que nos rodeiam. A investigação científica é o método usado pelas Ciências Sociais em suas atividades. 16 | O surgimento da Sociologia e suas principais contribuições Os índices do subdesenvolvimento (PEREIRA, 1970) As formulações mais elementares e vulgares recorrem, basicamente, à disposição num continuum de países ou religiões de baixa renda per capita, e de alta renda per capita; e tomam, explícita ou implicitamente, além da própria renda per capita, indicadores dessa baixa renda per capita, no caso dos países ou regiões ditos subdesenvolvidos. De fato, a renda per capita é tomada pelo lado do consumo de bens e serviços: precárias ou insuficientes condições de salubridade, de escolarização, de residência, dieta alimentar etc.; e tomada pelo lado da produção quando se apontam fatores próximos responsáveis por esta baixa renda per capita: estrutura pouco diferenciada do aparelho produtivo (predominância do setor primário), baixa produtividade, baixa taxa de investimento etc. Atividades 1. Pesquise em jornais, na internet ou em revistas, exemplos de comportamentos sociais. Não esqueça de referendar o título do assunto, a data e nome do veículo de comunicação que você usou. Escreva em uma folha, um resumo do texto. Depois, faça um comentário pessoal sobre o tema pesquisado. 2. Elabore com suas palavras o conceito, o objetivo e o objeto das Ciências Sociais. O surgimento da Sociologia e suas principais contribuições | 17 3. Houve modificações nas análises evolucionistas da Sociologia com o surgimento das novas nações? Por quê? 4. Qual a crítica de Luiz Pereira em relação aos índices escolhidos para medir o grau de desenvolvimento ou subdesenvolvimento dos países, apresentada no segundo Texto complementar? 18 | O surgimento da Sociologia e suas principais contribuições Gabarito 1. É esperado que o aluno inicie o processo de pesquisa em fontes primárias, use os conceitos explicados e reflita sobre o significado das interações que os indivíduos estabelecem no convívio com seus semelhantes. 2. As Ciências Sociais realizam estudos sistemáticos do comportamento social do ser humano. As Ciências Sociais contribuem para um melhor entendimento da sociedade em que vivemos e dos fatos e processos sociais que nos rodeiam. O objeto das Ciências Sociais é, portanto, o ser humano em suas relações sociais. 3. Não, porque as análises do surgimento das novas nações apenas reproduziram um modelo que deveria ser alcançado através do cumprimento de etapas e passos já percorridos pelos países considerados desenvolvidos. 4. A crítica do autor está relacionada ao fato de que não se pode medir o grau de desenvolvimento ou subdesenvolvimento de um país meramente comparando suas rendas per capita. Estas devem servir para interpretar dados mais complexos da economia.