II Seminário Internacional sobre Desenvolvimento Regional
Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional
Mestrado e Doutorado
Santa Cruz do Sul, RS – Brasil - 28 setembro a 01 de outubro.
DESENVOLVIMENTO REGIONAL E REDES DE DIFUSÃO DE TECNOLOGIA
Décio Estevão do Nascimento1
RESUMO
Distribuição de renda e poder de compra estão relacionadas com o nível e a
sustentabilidade do processo de desenvolvimento econômico de um país ou de uma região. O
desenvolvimento econômico de uma região, por sua vez, depende diretamente do nível
tecnológico e da eficácia da indústria local, que são derivados de sua capacidade de gerar ou
absorver inovações de processos ou produtos. A inovação é uma pré-condição do
desenvolvimento local. Ela é essencial para que as empresas locais não sejam condenadas a
desempenhar um papel marginal, ou pelo menos não muito marginal, no cenario das trocas
econômicas. Porém, inovações tecnológicas e organizacionais (competência das empresas
locais) devem vir acompanhadas também de inovações institucionais (competência das
instituições locais) que orientem e facilitem o desenvolvimento pretendido. Ou seja, o
desenvolvimento regional não pode prescindir nem de competências locais para criação e/ou
difusão de inovação, nem de competências e estruturas para mobilização e coordenação de
recursos necessários (humanos, técnicos, financeiros). O objetivo deste artigo é de apresentar
resultados de pesquisas realizadas no âmbito do doutorado em socioeconomia. O estudo
buscou a compreensão - em termos de natureza, dinâmica e espaço – dos processos e das
redes de difusão de tecnologias de produção e de organização em uma região em estágio
inicial de industrialização. A metodologia utilizada envolveu revisão da literatura
(desenvolvimento regional, inovação e redes) e pesquisa de campo. O setor agroindustrial do
Estado do Tocantins foi utilizado como estudo de caso. Entre outros resultados, a pesquisa
mostrou que, apesar da situação de isolamento geográfico e da baixa densidade de canais
distribuidores e geradores de inovação, as empresas obtêm um sucesso relativo na fabricação
de produtos de qualidade e competitivos. O estudo sugere que este sucesso relativo é fruto de
suas relações dentro de redes sócio-tecno-econômicas.
1 Doutorado em Socioeconomia (Université de Technologie de Compiègne – França),
ABSTRACT
Income distribution and power of purchase are related with the level and the
sustainability of the economic development process of a country or a region. The economic
development of a region, in turn, depends directly on the technological level and on the
effectiveness of the local industry, which are derived from its capacity to generate or to
absorb innovations of processes or products. However, technological and organizational
innovations (ability of the local companies) must also come with institutional innovations
(ability of the local institutions) which guide and facilitate the intended development. The
study, inserted in the PhD project, tried to understand - in terms of nature, dynamics and
space - the processes and the nets of production technologies diffusion and organization in a
region in initial period of training for industrialization. The methodology used involved
revision of literature (regional development, innovation and nets) and field research. The
agro-industrial sector of Tocantins State was used as a case study. Among other results, the
research showed that, despite the situation of geographic isolation and low rate of generating
and distributing innovation channels , the companies get a relative success in the manufacture
of competitive and qualified products. The study suggests that this relative success is a result
of its relations inside the social, technical and economical nets.
1 Introdução
O problema da desigualdade regional, de natureza econômica, social ou tecnológica, é
comum a todos os países, independentemente dos seus estágios de desenvolvimento. Os
debates em torno desta questão levantam interrogações sobre as diferenças inter-países e as
diferenças intra-países, tais como as diferenças intra-regionais ou intra-estados.
Em termos de desigualdade socioeconômica dentro de um mesmo país, um dos
exemplos mais citados por instituições e organismos internacionais e pela mídia de uma
maneira geral, devido à sua amplitude e as suas conseqüências, é o Brasil. No Brasil, as
disparidades de distribuição de renda são reforçadas por enormes disparidades econômicas e
sociais regionais. Além disso, como sublinha Droules (1992, p.412), o Brasil, com esta
"incurável dualidade social encontra-se confrontado com uma grave crise de crescimento que
corre o risco de afetar o potencial científico-tecnológico do país”. A autora completa
afirmando que no caso brasileiro, “o desenvolvimento tecnológico não parece suscetível de
Professor-pesquisador, CEFET-PR, Unidade Curitiba.
inverter a tendência de reforço das desigualdades regionais."
No que se refere ao desenvolvimento socioeconômico de uma região, é consenso de que
ele está diretamente relacionado ao nível tecnológico e eficácia da indústria local, que por sua
vez “está intensamente ligada às inovações de processo ou de produto que ela pode gerar ou
absorver”. (DROULES, 1992, p.404). Neste sentido, podemos afirmar que o desenvolvimento
regional é tributário de uma competência local de criação e/ou de divulgação de inovação e
competência de mobilização de atores e de objetos técnicos em torno de uma trajetória
tecnológica desejada. Contudo, não podemos esquecer que "dentro da dinâmica do
desenvolvimento econômico, as inovações são o motor mas não são apenas inovações
técnicas ou organizacionais; as inovações institucionais também determinam e orientam o
desenvolvimento" .(CORSANI, 2000, p.366).
Nesta perspectiva, Medeiros (1992, p.400) propõe que, “tendo em vista a falta crônica
de recursos, os países ou os territórios atrasados do ponto de vista tecnológico estimulassem
de maneira seletiva certas tecnologias novas a fim de garantir a sua inserção e a sua
competitividade no mercado, de maneira a conquistar uma relativa autonomia tecnológica em
certos setores”. Em paralelo, ainda segundo Medeiros, este espaço geopolítico deveria
aprender a capitalizar os investimentos em ciência e tecnologia integrando-os a projetos que
priorizam os setores tradicionais mais adequados às necessidades locais. De acordo com este
argumento, podemos evocar que, para uma grande parte das regiões, a chave da melhoria da
competitividade das empresas locais, e por conseqüência da economia local, não
necessariamente precisaria passar por novas pesquisas buscando novas soluções, mas,
simplesmente pelo acesso destas empresas à informações existentes em outros lugares.
Para isto, é necessário que se estabeleçam e sejam reforçadas as redes de informação e
de cooperação, em nível mundial e em nível local, para responder às necessidades daqueles
que contribuem para a criação de empresas (SCHMIDHEINY, 1992, p.203). Neste sentido,
defendemos que a mobilização e a coordenação de redes de cooperação, implicando atores
públicos e privados em projetos de “trajetórias de absorção e de atração de inovações
tecnológicas” (HAAS, 1995, p.83) seria uma das soluções adaptadas às necessidades de uma
indústria emergente. O que podemos observar com clareza no Brasil é a inexistência ou a
ineficácia de projetos regionais de desenvolvimento. Neste contexto, cabe uma proposição
muito simples, no entanto muito relevante, repetida por Dominique Voynet2: "não existem
territórios condenados e sim territórios sem projeto".
É em torno do problema regional que esta comunicação se desenvolve: a consideração
do papel do ator local em uma rede de relações competitivas, cooperativas, mobilizadas e
coordenadas, apoiando um projeto de desenvolvimento socioeconômico fundamentado no
estímulo ao desenvolvimento tecnológico da indústria local. De uma certa maneira, queremos
debater sobre a forma e a natureza das relações dos atores socioeconômicos de novos
territórios industriais que atuam no palco de um teatro com cenário de economia globalizada.
Precisamente, o estudo propõe-se a responder as perguntas seguintes:
-do ponto de vista do espaço industrial de uma região em estágio inicial de
desenvolvimento, qual é a natureza das redes existentes para a implantação local de
novas tecnologias e formas organizacionais em um cenário de economia globalizada?
-qual é o papel das instituições no processo de desenvolvimento tecnológico e
organizacional das empresas locais?
-quais são as limitações destas redes do ponto de vista de um projeto de
desenvolvimento tecnológico e econômico para a região?
Partimos da hipótese de que as desigualdades inter-territórios (nacionais, regionais....)
de desenvolvimento econômico são devidas, em parte, às desigualdades na concepção e/ou na
coordenação e execução dos projetos que implicam empresas locais. Em outros termos, o
problema de desenvolvimento tecno-econômico pode ser analisado a partir do contexto da
sociedade na qual a empresa está inserida, "ou seja, nas suas relações com o espaço educativo
e o espaço de C&T, mas também nas suas relações com diferentes atores de estratégias
industriais ou corporativas ou de políticas públicas, bem como das interações que concorrem
para definir o espaço industrial" .(D’IRIBARNE E GADILLE, 1998, p.6).
Estas diferentes relações entre os três espaços (industrial, educativo e de C&T) têm
lugar em redes que chamamos sócio-tecno-econômicas. Estas redes compreendem as relações
entre diferentes nós (indivíduos, organizações, instituições, regras, objetos técnicos),
implicados direta ou indiretamente em atividades de pesquisa, desenvolvimento, difusão e
2 Dominique Voynet (ex-Ministra da Organização Territorial e do Meio Ambiente da França), Prefácio do livro
« La Richesse des Régions – La nouvelle géographie socio-économique », Benko, G. e Lipietz, A., 2000, Paris :
adoção de tecnologias, bem como em atividades de produção, de distribuição e
comercialização dos bens e serviços. Nesta abordagem, supomos que há uma relação entre o
fraco desenvolvimento econômico e a fraca estruturação e mobilização das redes sócio-tecnoeconômicas locais.
2 Abordagem metodológica
Tendo em mente a complexidade do objetivo, propusemo-nos fazer o estudo, a partir da
socioeconomia, de um assunto que pode explicar uma parte do problema macro. Partimos do
princípio que um trabalho de investigação apoiado na análise de redes pode explicar o
funcionamento ou não do processo local de difusão e adoção de tecnologias, condição para o
desenvolvimento em um território em estágio inicial de industrialização. Em outros termos, a
análise de redes implicando agentes locais que se comunicam e/ou fornecem/adquirem bens e
serviços, pode ser pertinente para revelar uma parte do problema. A nossa abordagem é inter e
transdisciplinar. O problema é complexo, excedendo largamente a fronteira da economia.
Várias teorias de diferentes ciências, incluindo a Sociologia, a Filosofia, a Antropologia, a
Geografia, as Ciências Cognitivas e a Economia, evidentemente, fundamentam este trabalho.
O estudo procurou focar o espaço industrial, ou seja, o espaço no qual, segundo
d’Iribarne e Gadille (1998, p. 6-8), a empresa é compreendida e que contribui de maneira
essencial para a sua estruturação. Este espaço, segundo os autores, compreende sua
organização industrial, as suas relações com os seus agentes financeiros, fornecedores,
clientes, bem como suas relações com o sistema de ciências e tecnologia, e com o sistema
educativo e os seus diferentes espaços de formação e de educação, que participam na
construção da sua capacidade de inovação. Seria improdutivo fazer um inventário de todos os
mecanismos institucionais e de todas as organizações existentes nos sistemas de inovação
regional e nacional para tentar compreender o nível de desenvolvimento das empresas.
Concretamente, tentamos, acima de tudo, pôr em destaque os elementos do sistema
normalmente acionados pelas empresas, por conseguinte úteis, em diferentes situações de
inovação, levantando os seus contextos relacionais e ambientais.
A parte empírica do estudo foi efetuada no estado do Tocantins, um dos estados
brasileiros inseridos na "Amazônia legal". Este novo espaço geopolítico foi criado pela
Presses Universitaires de France
Constituição Brasileira de 1988, a partir do desmembramento de mais de um terço de Goiás.
De certa maneira, este novo estado pode ser considerado como parte integrante de uma nova
"fronteira" de desenvolvimento industrial do Brasil. Utilizamos aqui a noção de fronteira no
seu sentido convencional, ou seja, como "uma franja de desenvolvimento pioneiro, não
totalmente estruturado, e desta feita potencialmente gerador de novas realidades" .(BECKER
e EGLER, 1992, p.382).
O acesso a este campo de pesquisa deu-se, principalmente, pela nossa participação em
um estudo sobre a viabilidade de criação de uma Universidade de Tecnologia no Tocantins,
encomendado pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI) junto à Universidade de
Tecnologia de Compiègne – UTC (França). Na seqüência deste primeiro estudo, no âmbito do
doutorado, atuamos no Tocantins em uma pequena estrutura (Centro Consorciado de
Recursos Tecnológicos do Tocantins - CCRT), instalada pela CNI, de acordo com
recomendação do primeiro estudo. O objetivo desta pequena organização era a prospecção de
demandas e de competências tecnológicas do Tocantins, a difusão de informações
tecnológicas e a mobilização coletiva dos atores do desenvolvimento local em torno de
projetos inovadores. A estratégia era de melhor prospectar a região pelas atividades CCRT,
antes de tomar uma decisão sobre a pertinência da criação da Universidade.
Nos 5 (cinco) meses que permanecemos no Tocantins, realizamos uma pesquisa
exaustiva junto aos empresários/direção da indústria de alimentos e de bebidas local. Esta é a
atividade industrial mais importante do Tocantins, sendo responsável por 32% da produção.
(UTC, 1998 : 11). No que se refere ao tamanho, 93 % das empresas deste setor industrial
possuíam menos de 10 (dez) funcionários. (UTC, 1998, p.11).
3 Desenvolvimento tecnológico e políticas de desenvolvimento regional
Na medida em que a eficácia da empresa é ligada à maneira intensa das inovações de
processo, de produto e de gestão que ela pode gerar ou absorver, o problema é saber em quais
condições o desenvolvimento tecnológico poderia contribuir para reduzir as desigualdades
socioeconômicas entre as regiões. (DROULES, 1992, p.404).
Um novo modo de intervenção das instâncias públicas e privadas se impõe em um
processo de construção e de valorização da inovação tecnológica e organizacional,
fundamento do desenvolvimento tecnológico. Ao invés de grandes programas, "o novo
modelo reclama uma intervenção de natureza antes catalítica, ou seja, que procura boas
condições para o processo de aprendizagem". (COHENDET e al, 1992, p.74-5).
Polèse (1998, p.194) observa que há duas naturezas principais de políticas econômicas
regionais:
-as políticas regionais que visam a redução dos contrastes regionais, em termos de
níveis de rendimento ou de emprego, pela reorientação espacial das atividades
econômicas ou pela redistribuição direta dos rendimentos (transferência);
-as políticas de desenvolvimento regional para promover o desenvolvimento das regiões
alvo.
Em geral, os governos preferem - também por razões políticas - a aplicação de medidas
de estímulo à instalação de empresas em certas regiões menos favorecidas, pela atribuição de
uma ajuda financeira, a aplicação de punições contra as empresas que se localizam em regiões
favorecidas. No entanto, a experiência mostra que a geografia econômica de um país não se
altera com medidas como estas. A maioria dos países industrializados abandonou este tipo de
intervenção, ou o relegou ao segundo plano nas estratégias nacionais de desenvolvimento
regional. (POLÈSE, 1998, p. 194-5).
As políticas de desenvolvimento econômico são propostas geralmente pelo Estado
Central. Neste sentido, Polèse (1998, p.217) levanta a pergunta seguinte: por que não se partir
das dinâmicas locais para assegurar o desenvolvimento das regiões? O desenvolvimento local
- nomeado também "endógeno", "ascendente", ou ainda "comunitário" - exprime a esperança
de que o próprio local possa iniciar o seu processo de desenvolvimento, um desenvolvimento
regional baseado nas iniciativas de "saber fazer" dos atores locais - indivíduos e organizações.
Até pelo fato do desenvolvimento se tratar “de um processo social e não um processo
unicamente técnico". (COURLET, 1997, p. 283).
O adjetivo "local", de acordo com Polèse (1998, p.218-19), valoriza os fatores locais de
desenvolvimento regional, o papel do meio como fator de inovação e dinamismo, os
instrumentos existentes para incitar a concertação, a parceria e as suas redes. Concretamente,
o objetivo das políticas de desenvolvimento local não seria a redistribuição das atividades
econômicas entre as regiões de um país, mas a valorização dos recursos locais. É no local que
se organizam, voluntariamente ou de maneira espontânea, as formas de cooperação entre as
empresas, os indivíduos e as atividades. Enfim, é o ponto de encontro entre as formas de
mercado e as formas de regulação social. (COURLET, 1997, p.284). É importante observar
que “nas regiões mais desfavorecidas ou mais isoladas, as funções de animação e de
organização são as que se revelam mais úteis - sobretudo quando as estruturas políticas
estabelecidas pelo poder central são mal adaptadas às realidades locais. (POLÈSE, 1998,
p.238).
4 Análise de redes
No momento em que toda a atenção do mundo volta-se para a Internet, a "rede das
redes", que perturba as regras do jogo, perturbando o status quo socioeconômico em todo o
globo, falar do fenômeno "rede" é quase lugar comum. Nas últimas décadas, a paixão pela
"rede encontrou um largo eco nas ciências sociais". (ALLEMAND, 2000, p.22). Ao nosso
ver, esta abordagem de coordenação de interdependências é útil para a busca de respostas
parciais sobre a dinâmica socioeconômica de um território. A abordagem “rede” ajuda a
compreender o enquadramento sócio-institucional do processo de difusão e adoção de
tecnologias ou de informações tecnológicas em um espaço territorial teoricamente não muito
conectado - o caso das regiões não desenvolvidas.
Em primeiro lugar, na abordagem de rede é fundamental a noção de nó. De acordo com
Knoke e Kuklinski (1991, p.175), um nó evoca "o conjunto de indivíduos, de objetos ou de
acontecimentos sobre o qual a rede é definida. Estes elementos possuem alguns atributos que
os identificam como membros de uma classe para determinar a rede de relações entre eles".
Um nó pode ser visto também no singular, ou seja, pode se resumir a uma organização ou um
indivíduo na rede. Em todo o caso, "cada um destes nós terá um diferente olhar do mundo
com diferentes objetivos". (SWAN e WATSON, 1998).
A literatura apresenta outras representações estruturais e funcionais dos nós de uma
rede. Por exemplo, segundo Bakis (1993, p.82-83), há "os nós de redes sociais", definidos
como "qualquer lugar onde as pessoas se encontram de maneira informal". O autor levanta
diferentes tipos de nós de redes sociais:
« nós quase obrigatórios », como por exemplo "a cantina de empresa, a praça do
vilarejo » ;
« nós aleatórios », relativos “às comunicações interpessoais (encontro no mercado,
em uma fila de espera, corredores), e também as comunicações objeto-pessoa (out
doors, revistas...)» ;
« nós permanentes », em outros termos, as « ligações às redes permanentes (família,
amigos, membros de associações) ».
Para Castells (1998: 464-5), o local é "o lugar de funções estrategicamente importantes
que formam em torno de um papel chave da rede uma série de atividades e de organizações
localizadas. Um lugar situado em um nó é ligado a toda a rede... e as funções que cada rede
deve realizar definem as características dos lugares que se tornam os seus nós privilegiados ".
No entanto, há também lugares que são conectados a redes não pelos seus nós, mas pelos seus
"hubs". Neste sentido, Castells nota a existência de certos lugares que "são trocadores, cubos
de comunicação, que coordenam, com flexibilidade, a interação de todos os elementos
integrados na rede". Além disso, "tanto os nós como os cubos são organizados
hierarquicamente, de acordo com o seu peso relativo na rede. Esta hierarquia pode alterar-se
em função das atividades tratadas na rede. Pode acontecer que certos lugares sejam desligados
da rede". (CASTELLS, 1998, p. 526).
Numa rede os atores, os objetos e os eventos, podem ser analisados segundo dois
aspectos: os seus atributos e as suas relações. Os atributos, as propriedades das entidades,
persistem independentemente do contexto (idade, sexo, dimensão, PNB...). Em contrapartida,
as relações são "ações ou qualidades que existem num contexto específico e alteram ou
desaparecem quando o ator é retirado da interação (estudante/professor - não existe fora da
universidade; o casamento desaparece com a morte de um ou divórcio)". (KNOKE e
KUKLINSKI 1991, p.174). De acordo com Easton (1992) e Swan e Watson (1998), as
relações entre os nós de redes têm na realidade um caráter transdimensional: econômico,
social, técnico, logístico, administrativo, informativo, legal e temporal. Em termos de
conexidade das redes, um conceito topológico, Bakis (1993, p.41) afirma que ela caracteriza a
rede de relações de interdependência3 "entre subsistemas de uma rede territorial, onde uma
forte conexidade significa que as relações referem-se a numerosos elementos do sistema
considerado".
Em relação ao conceito de ator, não há uma definição, existem várias. Axelsson (1992,
p. 195), por exemplo, observa que no domínio das redes industriais o ator freqüentemente é
identificado como uma unidade jurídica ou uma firma. Na microeconomia, a firma é vista
3 Smith et Laage-Hellmann (1992), repetidos por Swan e Watson (1998), sublinham que "na teoria da troca
social o conceito geral de conexidade é tratado da maneira seguinte: duas relações, a-b e b-c, são ditas
como uma função de produção. Pode, também, ser olhada como uma organização,
estabelecendo um limite em termos de pessoas empregadas/não empregadas. Ainda segundo
um outro ponto de vista, ela é uma unidade controladora de recursos.
No que diz respeito à autonomia de um ator em rede, Lemieux (1999, p.73-4), citando
Richard Burt, mostra que existe uma relação entre a autonomia, a quantidade de buracos
estruturais4 no ambiente interno e a quantidade de buracos estruturais no ambiente externo.
Mais precisamente, "a autonomia é maior quando um ator encontra-se num ambiente interno
onde há poucos buracos estruturais, no contexto de um ambiente externo onde há muitos
buracos estruturais". Pelo contrário, a autonomia de um ator é menor quando encontra-se
num ambiente interno onde há muitos buracos estruturais, no contexto de um ambiente
externo onde há poucos buracos estruturais ". Ao mesmo tempo, a autonomia do ator
depende também de suas relações redundantes na rede. A esse respeito, ainda Burt, citado
desta vez por Lazega
(1998, p.76), assinala que quanto mais relações únicas, não
redundantes, um ator possuir na sua rede, mais ele tem possibilidades de ser bloqueado pela
sua estrutura.
O prestígio de um ator é uma outra noção inerente à análise de redes. De acordo com
Lazega (1998, p.46), "o número de escolhas recebidas é a medida mais simples do prestígio,
dado que permite medir a proporção de atores que escolhem o ator i. Quanto maior este
índice, mais popular é o ator.
No que se refere à sua estrutura, uma rede é mais que uma simples soma de relações
bilaterais. E isto pode ser constatado nas tentativas de separação de relações entre os
componentes de uma rede para lhes atribuir pesos e valores. Neste sentido, a noção de rede é
compatível com a abordagem sistêmica. Um sistema de inovação, por exemplo, é definido
como "o conjunto de fatores econômicos, sociais, políticos e organizacionais e institucionais
ou outro, que influenciam, através de suas relações, o desenvolvimento, a difusão e a
utilização da inovação. (EDQUIST, 1997, p.14). A este respeito, d’Iribarne e Gadille (1998,
p.4) defendem que a dinâmica e as particularidades dos sistemas de inovações, ou as redes de
inovações, devem-se às suas energizações pelo que eles chamam de "um triplo movimento de
estruturação:
conectadas quando a troca entra a e b afeta em certo nível a troca entre b e c, e vice-versa".
4 Segundo Burt, um buraco estrutural é a ausência de relações entre dois atores, dois contatos de uma fonte que
não mantêm relações entre eles (Burt, R.S., 1992 : “Structural Holes”, Cambridge, Mass : Harvard University
Press)
as especificidades ligadas ao setor de atividade ou à evolução de tecnologias genéricas
não podem ser negligenciadas, notadamente do ponto de vista da aplicação de políticas
tecnológicas que visam melhorar os desempenhos globais do sistema;
o nível supranacional ou internacional deve ser levado em conta, devido, por exemplo,
à influência política e institucional sobre os processos e os sistemas de inovação, ou
devido à influência da difusão de tecnologias entre diferentes países, de acordo com
diferentes mediações (empresas internacionais, patentes, cooperações, etc..) ;
os fenômenos de estruturação em nível regional ou local, tanto a partir de políticas e
estratégias de atores públicos (municípios, regiões, câmaras do comércio e da indústria,
etc..), e privados (empresas, associações, fundações, etc.), podem gerar processos
específicos de inovação ".
Embora a cooperação e a competição sejam dois processos dialéticos em uma rede, a
abordagem rede, coloca a tônica, sobretudo, na cooperação, na complementaridade e na
coordenação. Esta estrutura, coordenada por relações proporciona uma estabilidade às redes.
Mas uma rede estável não quer dizer uma rede estática. "A continuidade das interações entre
as firmas oferece, de um lado, a oportunidade para a inovação, a força maior na rede e, de
outro lado, a existência de um ambiente previsível e conhecido no qual pode ser realizada".
(EASTON, 1992, p.22-4). Uma hipótese básica de redes das relações é que uma parte
depende dos recursos controlados por outra, e todos ganham pelo compartilhamento de
recursos. Como Macneil (1985) sugeriu, o “cordão misturado” de reputação, amizade,
interdependência e altruísmo torna-se parte integrante da relação (POWELL, 1991, p.272).
Granovetter, na sua noção de "embedded", sublinha a influência do ambiente social nas
decisões e ações econômicas. Ou seja, a ação não pode ser explicada unicamente pela
motivação individual. O autor observa que "a ação" é impregnada em uma rede permanente
de relações pessoais". Nesta abordagem, a rede é interpretada "como um conjunto regular de
contatos ou conexões sociais similares entre indivíduos ou grupos" [GRANOVETTER e
SWEDBERG, 1992, p.9]. Brosseau insiste também no contexto social do comportamento
(negociado, estratégico, não ótimo) dos agentes. De acordo com o autor, "o comportamento
de um agente não é determinado diretamente por um objetivo final bem definido (como o
lucro), mas passa pela definição de uma estratégia”. Neste sentido, “uma dimensão central do
processo de construção de uma relação entre agentes poderá ser precisamente a construção de
objetivos comuns, ou pelo menos fortemente interdependentes". (Brosseau e al, 1997, p. 419).
Da mesma maneira, Llerena (1997, p.369) sugere que "a aprendizagem através de redes
de colaborações permite, sobretudo, o compartilhamento da interpretação dos fenômenos e de
informações para constituir conhecimentos compartilhados". Vale observar que o
"compartilhamento de interpretação é conseqüência de uma transformação da representação
individual do ambiente e que pode conduzir à uma modificação dos objetivos". (BROSSEAU
e al, 1997, p.419). Esta constituição pode fazer da rede "um mecanismo de seleção de
externalidades positivas, e de eliminação (pelo menos em parte) de externalidades negativas,
ou correções da falha do mercado (COHENDET e LLERENA, 1993, p.17) 5". Isto porque
baseia-se em relações de confiança". (MASSARD, 1997, p.344 ).
4.1 Centro de tradução
A Teoria Ator- Rede (Actor-Network Theory - ANT), formulada por Callon, Latour e
Law, tem o mérito de ressaltar o papel do mediador/tradutor em redes sócio-técnicas.
Segundo Callon (1999, p. 37-8), "os tradutores, perseguindo seus objetivos, consagram muita
energia para integrar, adaptar e criar compatibilidades." Sem este trabalho nenhuma
generalização seria possível. Os deslocamentos, os esforços, os investimentos e as adaptações
que isto implica, constroem as equivalências, traçam a rede, desenham as relações e as
interações. Cada ponto, resta naturalmente singular, irredutível a todos os outros, mas a
passagem de um ponto a outro, a ação de um ponto sobre o outro, chamada transmissão,
tornam-se possíveis: os diferentes atores podem comunicar e se compreender ".
Na realidade, de acordo com Callon e Law (1989, p.105-7), "um centro de tradução tem
três papéis a desempenhar: produção de dados representativos; elaboração de modelos que
vinculam estes dados; mobilização da rede local para produzir os intermediários (formação,
artigos científicos, receitas...), que vão tornar-se recursos aceitáveis por todos os aliados que o
apoiaram." Resumidamente, um centro de tradução tem por missão mobilizar, negociar,
reformular, calcular e codificar o conjunto de interesses, de naturezas e paixões individuais,
de forma a torná-los compatíveis, compreensíveis e satisfatórios para o conjunto dos atores da
rede.
Geralmente, os terceiros/mediadores/tradutores/cubos, podem ser consultores, institutos
de pesquisa independentes, universidades, associações de comércio, e profissionais e
5 Cohendet P. et Llerena P., 1993 : “ Apprentissage organisationnel et cohérence : l’importance économique de
la notion de réseau ”, Colóquio Internacional “ Limitation de la rationalité et constitution du collectif ”, Cerisy,
junho, França.
organismos governamentais e não-governamentais. Geralmente, não têm relações econômicas
com as partes mais importantes da rede mas, no entanto, têm, provavelmente, um impacto
contínuo nas operações da rede como um todo [EASTON e ARAUJO, 1992, p. 68). A
tradução implica um trabalho de interessamento, de recrutamento, de aliança. Quando as
relação se concretizam por aprendizagens progressivas, por interações, negociações e
adaptações, são construídas gradualmente as redes sócio-técnicas onde, em cada posição,
estão disponíveis conhecimentos e "saber fazer". (CALLON, 1999, p.41-3). As redes sóciotécnicas são mais ou menos longas e heterogêneas, combinando entidades humanas e não
humanas que se encontram mobilizadas sob forma de intermediários entre os quais figura,
notadamente, o que é conveniente chamar de conhecimentos ou de fatos científicos".
Albornoz (1992, p.423) por sua vez observa que o "desenvolvimento tecnológico é resultado
de decisões concretas que, os não menos concretos, produtores adotam em relação à
tecnologia que utilizam nos processos de transformação que possuem".
Contudo, o desenvolvimento do conjunto de um setor obriga que estas decisões e estes
atores sejam concertados. É aí que a tradução pode agir. Segundo Callon e Law (1989, p.107),
"o centro de tradução, pelas intervenções que organiza, é um centro de mobilização das redes
que ele traduz”.Transformando em recursos entidades heterogêneas, humanas e não humanas,
torna-se o agente essencial de um processo de produção". Finalmente, é sobre estas bases que
podemos afirmar que o sucesso de uma inovação obriga que a rede seja mobilizável. Os
recursos devem ser disponíveis e sob o controle - ou acessíveis - dos atores interessados no
sucesso da inovação. (EASTON, 1992, p.26).
Evocamos em todo momento a importância dos esforços de coordenação e/ou de
mobilização na dinâmica das redes. Mas, finalmente, do que se trata? Lundgren (1992, p.14851) traz uma contribuição importante concernente à relação entre, de um lado as noções de
mobilização, de coordenação e, de outro lado, a noção de mudança, numa perspectiva de rede
industrial. A coordenação de atividades pode ajudar a explicação da continuidade, enquanto a
mobilização de recursos e de atores pode explicar como as redes são transformadas.
5 Pesquisa de campo
Para dar maior consistência aos resultados, focalizamos a pesquisa no setor
agroalimentar, o setor industrial mais importante, tanto do Tocantins como do Brasil. De
acordo com a Pesquisa Industrial Anual (PIA) de 1997, elaborada pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e de Estatística - IBGE, a indústria agroalimentar brasileira cobre 16,6% do
conjunto das empresas da indústria nacional, emprega 18,5% do pessoal que trabalha na
indústria e é responsável por 20,2% da receita líquida de vendas de produtos industriais.
5.1 Apresentação das empresas entrevistadas
As 34 empresas pesquisadas pertencem a 4 setores da indústria agroalimentar do
Tocantins
industrialização de leite ;
Criação
ou
aquisição
Funcionários
Produtos
Mercado
1
1998
43
Queijos, leite (embalagem plástica Outros estados do Norte e do Nordeste
e Longa Vida), leite em pó
2
1993
11
Queijos provolone, muzzarella
Nordeste
3
1995
42
Queijos provolone, muzzarella
São Paulo
4
1995
5
Queijos provolone, muzzarella
São Paulo
5
1994
5
Queijo muzzarella
Tocantins
6
1997
3
Leite (embalagem plástica), queijo Município
muzzarella
7
1998
7
Queijos provolone, muzzarella
São Paulo
8
1999
5
Queijo muzzarella
São Paulo, Ceará
9
1999
48
Queijos prato e muzzarella e Pernambuco e Ceará
manteiga
10
1979
29
Leite (embalagem plástica), queijo Leite e manteiga para o Tocantins e queijo
muzzarella e manteiga
para São Paulo
11
1994
7
Leite (embalagem plástica), queijo Leite, para o mercado do estado e queijo, para
muzzarella
os estados do Rio de Janeiro e São Paulo
12
1992
7
Queijos provolone, muzzarella
Durante o inverno (seca) toda a produção é
destinada ao Tocantins, e durante o período da
chuva (verão) 60% para Goiás e Brasilia
13
1997
6
Queijo muzzarella
São Paulo
14
1997
2
Queijo muzzarella
São Paulo
Quadro 1 – Alguns atributos das 14 empresas de industrialização do leite.
Industrialização de carne (gado) ;
Criação
ou
aquisição
Funcionários
Produtos
Mercado
15
1997
223
Carne, miúdos, gordura, couro
Nordeste
16
1991
41
Carne, miúdos, gordura
Município
17
1999
75
Carne, miúdos, gordura, couro
Tocantins
18
1994
310
Carne, miúdos, gordura, couro
Nordest, Norte, Sudest, Centro-Oeste
19
1991
17
Carne, miúdos
Tocantins
20
1986
110
Carne, miúdos, gordura, couro, chifre, casco
Norte, Nordeste, Sudeste
21
1991
31
Couro wet bleu
Sudeste
Quadro 2 - Alguns atributos das 7 empresas de industrialização de carne
alimentos ;
Criação
ou
aquisição
Funcionário
s
Produtos
Mercado
22
1994
15
Conserva de palmito, geléia de abacaxi
Sul e Sudeste
23
1999
4
Extrato de tomate
Centro-Oeste
24
1989
180
Biscoitos
Todas as regiões do Brasil
25
1979
112
Plantio e industrialização de arroz
Nordeste
26
1994
5
Industrialização de arroz
Município
27
1981
70
Alimentação animal
Tocantins, Norte, Nordeste
28
1994
16
Briquete combustível de pallha do arroz
Município
29
1997
15
Composto, feito a partir da palha do milho, Sudeste e Norte
para alimentação animal.
Quadro 3 – Alguns atributos das 8 empresas de alimentos
bebidas (sodas alternativas).
Criação
Funcionário
s
Produtos
Mercado
30
1992
32
Sodas « alternativas »
Tocantins, Norte e Nordeste
31
1993
51
Sodas « alternativas »
Tocantins, Norte e Nordeste
32
1997
35
Sodas « alternativas »
Tocantins, Norte e Nordeste
33
1996
35
Sodas « alternativas »
Tocantins, Norte e Nordeste e CentroOeste
34
1997
15
Sodas e bebida alcoólica
Tocantins,
Centro-Oeste,
Norte
e
Sudeste
Quadro 4 – Alguns atributos das 5 empresas de bebidas.
5.2 Aplicação do questionário da pesquisa
Para a pesquisa, elaboramos um questionário composto de 23 perguntas principais que
estruturavam as entrevistas com os empresários/direção e que nos permitiam ter um panorama
geral dos ambientes interno e externo das empresas: mercado, mão-de-obra e a sua formação,
fornecedores, instituições, concorrência, características do empresário local, serviços de apoio
tecnológico, produção. Estas 23 perguntas principais implicavam outras 26 perguntas
secundárias, ou seja, o questionário permitiu tratar, no total, 49 perguntas.
Entre as perguntas da pesquisa, uma nos interessava particularmente. Pedimos aos
nossos interlocutores "a quem ou para onde as empresas se dirigiam, ou dirigir-se-iam, para
ter informações e/ou serviços/objetos, necessários à avaliação/tomada de decisão e/ou à
implantação de inovações no seio da empresa". Em tal processo, cada esforço de inovação
desencadearia o contato da indústria agroalimentar com diferentes atores locais e não locais,
os espaços indústria, ciências & tecnologia e educação. Para isto, em verdade, pusemos os 34
empresários/diretores inquiridos em 5 situações (entre outras) - listadas abaixo - relacionadas
aos esforços de inovação, em relação às quais o empresário deveria se posicionar para
responder às perguntas:
AE = Aquisição de equipamento;
MP = Melhoria de processo;
NP = Desenvolvimento de novo produto;
CE = Criação de empresa;
NM = Novo mercado;
Propusemos uma lista, composta de 12 nós "gerais", 11 externos e 1 interno à empresa.
Os 11 nós externos poderiam ser vistos como os 11 elementos de uma rede potencial cuja
empresa seria o décimo segundo elemento. Na realidade, supusemos que existia certa
equivalência estrutural regular entre as empresas do setor agroalimentar do Tocantins, ou seja,
que estas empresas mantinham os mesmos tipos de relações com os mesmos tipos de
entidades (os 11 nós externos). Cada uma das 5 situações incitaria o estabelecimento de uma
rede específica para ligação dos nós (entre os 19) competentes, em princípio, para apoiar a
empresa na realização dos seus projetos de inovação.
Resumidamente, tratamos as informações da pesquisa com a discriminação de 19 nós:
18 externos e 1 hierárquico (levando em conta as ações do empresário/direção, dos
assalariados e da empresa mãe). No que diz respeito aos 18 nós externos, fizemos a distinção
entre os "nós comerciais" (trocas comerciais) e os "nós de redes". No segundo grupo,
composto de 8 nós, não há troca que implique dinheiro e produtos, há apenas relações
interpessoais ou interorganizacionais de reciprocidade, solidariedade (que implica a família,
os amigos do ofício e as associações), e algumas relações de sentido único, ou seja, sem
obrigação de troca ou compromisso do indivíduo ou da organização (informações dos
concorrentes, das revistas, da televisão, as feiras e pela mala direta).
Nós da coordenação hierarquia
A hierarquia na qual agem: empresário/direção (o proprietário ou direção, e o nível gerencial
intermediário, que têm o poder de decisão na organização); os assalariados (os empregados
implicados nas atividades de produção, de compra e venda, sem ter o poder de decisão de
uma); a empresa mãe (que tem um controle sobre a empresa filial ou sucursal no Tocantins).
Nós da coordenação mercado
Universidade : no caso faz referência à universidade pública (UNITINS), à universidade
privada (ULBRA) e outras universidades de outros estados
Instituto : os institutos de pesquisa e de ensaios (não universitários).
SEBRAE :
SENAI :
Consultorias : consultorias independentes, que não são nem ligadas ao SEBRAE, ao SENAI
ou às Universidades.
Cliente : o cliente de primeira camada (não necessariamente o consumidor final)
Fornecedor6 : fornecedores de equipamentos e insumos industrializados.
Representante : indivíduos ou organizações sem relações hierárquicas com a empresa que
6 A pesquisa mostrou que os fornecedores de matéria-prima (produtos agrícolas) não participam absolutamente
das iniciativas de inovação de seus clientes (não são considerados ou acreditam que isto não lhes diz respeito).
fazem venda e distribuição de produtos.
Banco público : os bancos ligados à administração federal que gerem programas de fomento
à criação de empresas e de apoio financiamento para seu funcionamento.
Programa público : programas criados e/ou financiados e/ou geridos pelas administrações do
município, do Estado do Tocantins ou federais, a fim de incitar a instalação e funcionamento
das empresas (como doação de terrenos, de benefícios fiscais, de
infra-estrutura), de
prestar assessoria técnica às empresas e de facilitar a contratação de assalariados (agência de
emprego).
Nós da coordenação rede
Amigos do ofício : pessoas que conhecem o ofício da empresa e que, normalmente, não
fazem parte das relações de amizade pessoal do proprietário ou da direção.
Família : os membros da família do empresário ou da direção.
Associação: no nosso caso, são os sindicatos patronais e a Federação da Indústria local que
federa estes sindicatos.
Feiras : exposições de equipamentos e de produtos alimentares.
Revistas : revistas especializadas em processo e produtos da indústria agroalimentar.
Televisão7 :
Mala direta :
Concorrente : vigília concorrencial e tecnológica (busca de informação sobre/no
concorrente).
5.3 Apresentação dos resultados
O quadro 5, abaixo, apresenta o panorama das respostas nos cinco contextos de
inovação, levando em conta todos os atores. Por exemplo, no caso da aquisição de
equipamentos (AE) :
15/34 tentam obter informações visitando feiras ligadas às suas atividades;
14/34 contatam os seus fornecedores habituais de equipamentos;
10/34 procuram informar-se através de revistas especializadas;
10/34 consideram que inovação é um negócio e que é competência do
7 propusemos este nó como um possível vetor de inovação, tendo em vista a importância desta mídia na
sociedade brasileira. Há programas que apresentam temas ligados à gestão das empresas; que mostram
iniciativas empreendedoras brasileiras e internacionais; que tratam de aspectos técnicos da produção rural.
empresário/direção/empresa mãe (a hierarquia);
9/34 empresários recorrem aos amigos do ofício ;
9/34 esforçam-se em conhecer e/ou imitar as opções tecnológicas da concorrência ;
Para a apresentação e para o processamento dos dados, decidimos fazer as análises
classificando os atores de acordo com a natureza das relações (na empresa e/ou entre a
empresa-alvo e os nós externos da rede). Ou seja, entre os três modelos de coordenação
socioeconômica: mercado, hierarquia e rede. Não podemos tratar as relações sócio-tecnoeconômicas como se um tipo de coordenação reinasse absoluto na cena das trocas. Veremos
que, no que concerne aos esforços de inovação das empresas, as "divisões do trabalho" entre
os 3 (três) tipos de coordenação não são suficientemente evidentes para não se fazer as
análises com um olhar sobre o conjunto das relações. Ao nosso ver, considerar somente
relações de reciprocidade dos atores (coordenação rede), ou seja, excluir da análise as relações
(ou os buracos estruturais) de mercado e hierárquicas, impediria a visualização da essência
das trocas-redes que consideramos desejável.
Índices dos nós
Nós
Esforços de inovação
Hierarquia
AE
MP
NP
CE
NM
Prestígio
Ecletismo
10
27
8
34
15
94
5
5
Universidade
Instituto
4
SEBRAE
SENAI
Consultor
2
4
Cliente
2
3
Fornecedor
14
5
2
8
Representante
1
0
0
4
1
0
0
6
2
7
3
19
2
8
1
Banco público
12
12
1
Programa público
6
6
1
33
5
16
1
2
1
Total mercado
Amigos do ofício
18
0
9
21
6
18
4
10
11
16
Família
Associação
5
2
67
3
Feiras
15
3
2
20
3
Revistas
10
5
2
17
3
0
0
4
2
24
4
Televisão
Mala direta
2
2
Concorrente
9
9
Total rede
Total geral
4
2
45
25
14
29
3
116
73
52
43
81
28
277
Densidade
0,119
0,085
0,070
0,132
0,046
Empilhamento
5,00
5,98
2,20
8,46
3,50
Dispersão
0,474
0,316
0,579
0,316
0,211
Índices da ação
Quadro 5 – Nós implicados nos diferentes esforços de inovação da indústria agroalimentar.
Na realidade, supomos que os três modelos de coordenação são variavelmente
complementares e alternativos. Ao nosso ver, a compatibilidade entre a natureza da atividade
e as competências internas à hierarquia, determinará a intensidade e a diversidade das ligações
alternativas com atores com os quais serão estabelecidas relações comerciais e/ou relações de
reciprocidade (rede). Em contrapartida, no que diz respeito à complementaridade, somos
tentados a pensar que ela é mais evidente na coordenação rede que em termos de
coordenação mercado. Por exemplo, o fato de ir visitar feiras de equipamentos não diminui o
interesse ou a necessidade de ter também o parecer dos amigos do ofício ou de consultar as
revistas especializadas sobre um projeto de aquisição de um equipamento (complementares).
Em relação aos atores do mercado, diríamos que são mais substituíveis, mais alternativos, em
outros termos menos complementares.
No nosso exemplo (quadro 5), na ação AE (aquisição de equipamento), o fornecedor
habitual substitui o consultor, o SEBRAE ou o serviço de apoio técnico da universidade. Na
ação NP (desenvolvimento de novo produto), no setor da industrialização do leite (resultado
parcial), o SEBRAE substitui a universidade.
A análise dos resultados dos quadros foi feita de acordo com uma grade baseada em
índices encontrados na literatura (densidade, prestígio), apresentados anteriormente, e três
outros que acrescentamos (ecletismo, empilhamento8 e dispersão). Dividimos os índices em
duas categorias: uma com os mais relacionados aos atores (prestígio e ecletismo) e outra com
os mais relacionados à natureza dos cinco esforços de inovações analisados (densidade,
empilhamento e dispersão).
5.3.1 Prestígio
O prestígio reflete, ao mesmo tempo, a "popularidade" dos nós e a "popularidade" das
ações para as quais eles são solicitados (ligados). No nosso estudo da indústria agroalimentar
do Tocantins, os nós hierarquia (94), amigos do ofício (33), concorrentes (24), feiras (20),
fornecedores habituais (19), revistas especializadas (17) e família (16), são os sete "atores" de
mais prestígio" da rede sócio-tecno-econômica.
5.3.2 Ecletismo
Ecletismo, por sua vez, destaca a gama das competências dos nós, reais ou percebidos,
para satisfazer os diferentes pedidos das empresas. Este índice traduz a confiança, sobretudo a
baseada nas competências dos atores, que anima as relações diretas e indiretas na indústria
agroalimentar local, apoiando as trocas de informações nas formas de coordenação
hierárquica, comercial e, sobretudo, de rede. O seis nós mais receptivos (mais capazes) à
diversidade dos pedidos são: hierarquia (5), amigos do ofício (5), concorrentes (4), feiras (3),
cliente (3), e revistas especializadas (3).
5.3.3 Densidade
A densidade mostra a intensidade real das trocas (a demanda) em relação ao potencial
de troca do conjunto da rede (a empresa + os 18 nós mais ou menos "disponíveis" da
coordenação mercado e da coordenação rede). A densidade de conexão (n° de conexões/n°
máximo de conexões) indica a intensidade, a importância e a necessidade da ação para as
empresas do setor. A densidade exprime o nível de participação dos nós nas diferentes ações
efetuadas pelas empresas nas redes. No caso do quadro 6, o número máximo de conexões é de
612 (34 empresas x 18 nós). Na rede sócio-tecno-econômica da indústria agroalimentar do
Tocantins, temos a criação de empresa como o esforço mais denso de participação (0,132) 9,
em seguida a aquisição de equipamento (0,119), depois a melhoria de processos (0,085), o
8 O empilhamento foi quantificado pelo cálculo de desvio padrão.
9 De uma certa maneira, este resultado é « dopado » pela participação obrigatória dos empresários na criação de
desenvolvimento de novo produto (0,070) e em último lugar, o menos denso, a busca de um
novo mercado (0,046).
Realmente, na nossa pesquisa, as densidades são mais importantes nas ações
controláveis pelas próprias empresas. Por exemplo, entre as três ações mais densas temos
duas ações onde a hierarquia predomina sobre as redes e, sobretudo, em relação ao mercado
("criação de empresa" e "a melhoria de processo"). Em contrapartida, as densidades das ações
"novo produto" e "novo mercado" denotam que as empresas restringem os seus contatos
sempre que as conexões devem, em princípio, ser estabelecidas com atores do mercado,
presumidos mais competentes para estas ações. No entanto, nas ações onde os atores das
relações
não
comerciais
(da
coordenação
rede)
são
susceptíveis
de
participar
consideravelmente, por exemplo, no esforço de aquisição de equipamento, apenas três nós,
complementares, concentram 54% (39/72) das conexões: feiras (15/73), fornecedores
habituais de equipamentos (14/73) e revistas especializadas (11/73).
5.3.4 Empilhamento
Empilhamento indica a paridade entre os nós do conjunto da rede no que diz respeito as
suas implicações em um dado esforço de inovação. Empilhamento da ação na rede traduz ao
mesmo tempo a variedade de nós implicados na ação (a dispersão) e a freqüência das
conexões das 34 empresas com estes nós (a densidade). Mais que assinalar o poder em termos
de intensidade de mobilização da ação, como é o caso da densidade, o empilhamento nos
indica a faculdade da ação de mobilizar diferentes atores. Os valores de empilhamento foram
determinados através do cálculo do desvio padrão, ou seja, mostra em qual nível a situação - a
ação - induz o concurso dos diferentes nós da rede (potencial de indução da ação). Ao nosso
ver, os maiores desvios padrão denotam a existência de quase "monopólios de competências"
de um dos três modos de coordenação: hierarquia, mercado ou rede.
Os resultados mostram que uma maior paridade (menor empilhamento = menor desvio
padrão) acontece no esforço de desenvolvimento de um novo produto (2,20). Em outros
termos, onde existe uma distribuição mais homogênea das relações das empresas com os nós
da rede para o cumprimento da ação. Em segundo lugar, aparece o empilhamento do esforço
novo mercado (3,50). Neste caso, o empilhamento não indica uma distribuição homogênea
das relações entre os diferentes nós, mas a semelhança entre as empresas não investirem, ou
investirem pouco, na busca de novos mercados. O terceiro esforço, menos empilhado, é o da
suas respectivas empresas (34/34).
aquisição de equipamento (5,00). Em seguida, aparece o esforço de melhoria de processos
(5,98) e, o mais empilhado, é o esforço de criação de empresa10 (8,46).
Temos nestes dois últimos esforços uma grande concentração das relações dentro da
hierarquia. De resto, no esforço de melhoria de processos, não há nenhuma implicação do
mercado. Supomos que isto se deve, de um lado, à inexistência, em nível local, de uma
estrutura de mercado que favoreça a externalização das relações (como, por exemplo, os
serviços de consultoria técnica e de manutenção). E, por outro lado, a inexistência no local de
uma rede de serviços pode ser resultado da fraca demanda local (pequeno parque industrial).
Isto dito, não interpretamos este fenômeno como um exemplo de "conexão negativa"
(alternativa), ou seja, que provém das relações internas que afetam as relações externas
(concorrentes) nestas duas ações. Em contrapartida, os pequenos desvios tipo denotam
empilhamento mais fraco entre os diferentes atores, maior autonomia dos atores e mais forte
complementaridade ou mais forte "divisão do trabalho de informação" entre os três modos de
coordenação. Breve, como visto anteriormente, temos nas ações "novo produto" (2,20), "novo
mercado" (3,50) e "a melhoria de métodos" (5,00) um maior número de "conexões positivas".
5.3.5 Dispersão
O índice "dispersão" assinala o nível de variedade de nós efetivamente engajados na
ação em relação ao repertório de nós da rede. Ou seja, ela mostra em qual nível a ação (o
esforço) induz o concurso de diferentes nós da rede (potencial de indução da ação). Cada ação
conecta o ator "empresa agroalimentar" a um número específico de nós. Do mesmo modo, em
cada ação, há nós que são mais conectados que outros (são mais susceptíveis a certas ações).
O índice dispersão é o resultado da divisão do número de nós que a ação ativa pelo número
total de nós. Em termos relativos, o desenvolvimento de novos produtos é o esforço que
implica, que recruta, maior número de nós (0,579), ou seja, onde mais da metade do conjunto
de nós é impulsionado para esta ação. A segunda maior dispersão acontece no esforço de
aquisição de equipamento (0,474). Em seguida, temos a mesma dispersão (0,316) para os
esforços melhoria de processos e criação de empresa. Por último, o esforço novo mercado é
onde temos a menor dispersão (ou maior concentração). Apenas 21% dos nós da rede são
conectados para este esforço.
Ao nosso ver, o quadro 5 indica uma correlação entre a complexidade da ação para a
10 idem
empresa e a concentração ou a dispersão das conexões sobre os diferentes nós.
Concretamente, quanto mais a ação pede das empresas competências tecnológicas e
organizacionais, mais elas se voltam para uma maior diversidade de nós.
Observamos também no quadro 5, que há ações que são vistas e conduzidas, por razões
diversas, como situações que recorrem a competências de coordenação internas à empresa.
Por exemplo, o esforço que visa a identificação e o desenvolvimento de um novo mercado
utiliza, principalmente, competências ou informações existentes na empresa. Não há muita
demanda de ajuda de fora (15/28 das conexões integram atores da hierarquia).
Uma outra constatação que podemos fazer a partir do quadro 5, é que as empresas
inquiridas sentem-se competentes para resolver apenas um terço (94/277) dos problemas aos
quais são confrontadas na seleção/ implementação de inovações tecnológicas ou
organizacionais. O quadro 6 traz também outras informações práticas para a nossa pesquisa.
Primeiramente, verificamos a importância para estes esforços de inovação, do nó membro
permanente "amigos do ofício" que é implicado em todas as ações e com um grande prestígio
(33). Este nó participa em 11,9% (33/277) de todas as trocas de informações e de inovação
que acontecem no setor agroalimentar do Tocantins. Os "amigos do ofício" se evidencia,
sobretudo, como interlocutores para as ações de criação de empresa (11/81), aquisição de
equipamentos (9/73) e a melhoria de processos (6/52). Contudo, é necessário sublinhar o
aspecto seletivo, calculado, da escolha dos amigos integrados a estes tipos de ação. Não são
amigos casuais. De fato, são amigos formais no sentido que os atores dirigem-se a eles porque
fazem parte de um mesmo meio profissional. Os atores confiam neles em função da
freqüência e da intensidade dos seus contatos ("confiança na boa vontade"), mas também
devido à sua competência no ramo ("confiança competência”).
No que diz respeito à família, este nó é fundamental no processo de criação de empresa
(16/81). Podemos mesmo dizer a partir destes dados, que a criação de empresa neste setor no
Tocantins é um negócio “doméstico”, com todas as vantagens e todos os inconvenientes: o
apoio moral e diário de um lado e a improvisação técnica e de gestão do outro. Nas relações
entre os atores da indústria agroalimentar e os seus interlocutores mais próximos, não há uma
troca que implique dinheiro. Na realidade, estes atores fazem parte do que Woolcock (2000,
p.3) chama de "teia de segurança". Numa estrutura de relações fortes como esta, a moeda
corrente é a reciprocidade.
Quanto ao papel desempenhado pelas associações profissionais/sindicatos, os números
mostram uma implicação e mobilização muito fraca destas instituições. Isto pode parecer um
pouco paradoxal, de um lado a força das relações entre os amigos do ofício e de outro lado a
insignificância das associações. Ao nosso ver, isto é simplesmente um sinal de insuficiência
e/ou desarticulação das organizações locais.
Em relação à concorrência, de certa maneira, a importância dada às decisões tomadas
anteriormente pela concorrência, denota um comportamento de mimetismo dos atores locais,
por razões como a falta de competências tecnológicas no local - principalmente no que diz
respeito ao setor de serviços e formação de mão-de-obra. Para o empresário/direção, entre a
adoção de uma tecnologia desconhecida no lugar, ou seja, pouco difundida na região, e uma
outra já testada pela concorrência, normalmente a sua decisão deve pender para a segunda
opção. Isto explica também a fidelidade aos fornecedores habituais de equipamentos e de
insumos. A concorrência "é consultada", sobretudo, para as ações de melhoria de processos
(9/52) e aquisição de equipamentos (9/73). A pesquisa mostrou que o recurso às informações
da ou pela concorrência varia proporcionalmente à dimensão das empresas. No setor dos
frigoríficos, 5/7 empresas (71%) recorrem às informações dos concorrentes (dimensão média
das 5 empresas = 150 assalariados); no setor dos alimentos, 5/8 empresas (62%, dimensão
média das 5 empresas = 41 assalariados); setor de bebida, 2/5 empresas (40%, dimensão
média = 33 assalariados) e, finalmente, no setor do leite, 4/14 empresas (29%, média de 15
assalariados).
As "feiras" e as "revistas" são nós também importantes no processo de difusão de
inovações: 20/277 e 17/277 conexões, respectivamente. Este dois nós são particularmente
acionados pelas empresas na aquisição de equipamentos (15/45 e 10/45). É necessário
sublinhar que 81,8% das empresas que utilizam revistas têm também o hábito de ir às feiras.
O setor de alimentos é o setor mais ligado às feiras de equipamentos e de produtos: 6/8
empresas (média de 66 assalariados). Por outro lado, o setor do leite é mais ausente ou mais
indiferente (às feiras): apenas 4/14 empresas (as 4 empresas contam em média com 31
assalariados).
É
necessário
observar
também
que,
na
maioria
dos
casos,
os
empresários/direção têm necessidade de se deslocar cerca de 2.000 Km para visitar as feiras
mais importantes nos seus setores no Brasil (São Paulo e Rio de Janeiro).
Em relação a trocas comerciais, notamos a força de nós como os "fornecedores
habituais" de equipamentos e insumos industrializados, bem como os bancos públicos. Os
"fornecedores habituais" são os interlocutores externos mais importantes para as ações de
aquisição de equipamentos (14/73) e desenvolvimento dos novos produtos (5/43). Em relação
às conexões deste nó, verificamos um comportamento quase uniforme dos diferentes setores:
6/14 (43%) empresas do leite; 5/7 (71%) dos frigoríficos; 5/8 (63%) do setor alimentos; e 3/5
(60%) das empresas de bebida.
Em todo os estados brasileiros, o SEBRAE é associado fortemente aos esforços de
difusão junto às empresas, de informações de todas as naturezas, qualificação para a gestão
(financeira, organizacional e marketing) e criação de empresas (programas de estímulo ao
empreendedorismo, apoio às incubadoras de empresas...). No Tocantins, no entanto, a ação do
SEBRAE não é sentida ou percebida pelos empresários como um apoio importante à
inovação, à mudança. Mais precisamente, este centro de competência não é solicitado quando
as empresas decidem ou procuram adquirir um novo equipamento, melhorar os seus métodos,
desenvolver um novo mercado ou fazer o marketing. Apenas 4/34 empresas e,
exclusivamente, do setor do leite, vêem o SEBRAE como um parceiro para o
desenvolvimento de um novo produto. Em contrapartida, de acordo com a nossa análise, esta
organização é valorizada para apoiar a fase “pós-inovação”. O questionário buscou também
levantar quais seriam os nós associados ao serviço de apoio (consultoria) tecnológico,
organizacional e de marketing. Para isto, o SEBRAE é requisitado fortemente: 29% (10/34)
das empresas recorrem ao SEBRAE quando o objetivo é a gestão empresarial.; 18% (8/44)
para consultoria técnica; e 20% (3/15) para consultoria de marketing.
Na realidade, os resultados mostram que a inovação demanda consistência e presença de
suas fontes.
A inovação faz apelo a ações locais e implica, preferencialmente, atores
estabelecidos ou conhecidos localmente. Um outro pré-requisito fundamental, é que os atores
sejam mobilizáveis. Não é por acaso que os "amigos do ofício", a "concorrência", as "feiras" e
os "fornecedores habituais", fazem parte dos nós "mais populares" e "ecléticos" da rede de
difusão de informações e de inovações tecnológicas e organizacionais nesta região. Em
contrapartida, temos nós locais teoricamente muito implicados (missão institucional) nesta
problemática mas que, aparentemente, não se associam, ou não são associados aos reais
esforços de inovação dos atores industriais. Por exemplo: as universidades, os institutos de
análise e de investigação e o SENAI. Em outros termos, estes nós têm competências que não
são mobilizáveis (ou mobilizadas) pelo e no sistema local de inovação.
Cabe observar também que, de acordo com o quadro 5, o nó
"televisão" não
desempenha nenhum papel nas trocas sócio-tecno-econômicas. De acordo com os atores
entrevistados (o que se traduz nos números dos quadros), este meio de comunicação não é
importante nos processos de difusão de informações tecnológicas e/ou organizacionais e de
implantação de inovações. Este nó foi listado como potencialmente importante em função da
sua influência nos comportamentos da sociedade brasileira. Os resultados mostram que este
meio de comunicação não incita os atores industriais do Tocantins à inovação. O fraco
prestígio da mala direta é um segundo exemplo da ineficácia de meios impessoais de
informação nos processos locais de inovação.
Ainda analisando os resultados da pesquisa, sublinhamos que realmente as inovações
implementadas pelas empresas, notadamente aquelas ligadas à melhoria da qualidade,
buscavam, principalmente, o respeito às normas sanitárias e ambientais de produção e
comercialização de alimentos lácteos. As normas federais, que são aplicáveis aos produtos
exportados para outros estados, quase a totalidade da produção queijeira do Tocantins, exigem
a utilização de métodos de fabrico similares ou iguais aos utilizados pelas empresas de regiões
mais desenvolvidas. Resumidamente, podemos afirmar que as normas desempenham um
papel muito significativo no processo de informação tecnológica e de estímulo ao
desenvolvimento tecnológico das indústrias de regiões menos desenvolvidas.
Conclusão
Este estudo pôde mostrar a relação entre o estágio de (sub)desenvolvimento de um
território e as redes de relações entre os agentes. Para chegar ao resultado, interessamo-nos
pelo sistema no qual os agentes de uma região em estado inicial de industrialização,
interagem comunicando e/ou fornecendo/adquirindo bens e serviços inovadores. Através
desta diligência pudemos constatar que, no que diz respeito à natureza das redes numa região
de industrialização emergente, a inovação ou a informação tecnológica propaga-se dentro de
redes sócio-tecno-econômicas. Esta situação de rede de relações sociais que se sobrepõem às
relações de negócios, de certa maneira, proporciona meios de subsistência às pequenas
empresas. Este tipo de rede difere em relação à rede sócio-técnica defendida pela teoria atorrede (ANT), onde todas as coisas são estritamente calculadas. Para a tomada de decisão, de
acordo com o ANT, os atores com as suas próteses técnicas consideram apenas dados ou
fontes calculáveis.
A abordagem de rede sócio-técnica não explicaria, por exemplo, o papel da família no
processo de criação de empresa. Na realidade econômica, há muitas decisões que são tomadas
pelas instâncias competentes que nem de longe são fundamentadas em cálculos. Como
poderíamos calcular a paixão, o entusiasmo de um ator, a sua intuição, a sua confiança em si e
no sistema? Existiriam pessoas e seus objetos técnicos capazes de fazê-lo? Por outro lado, a
rede sócio-tecno-econômica também não é uma rede enorme e aleatória como são as redes
sociais de acordo com a abordagem de Granovetter. No nosso estudo constatamos, por
exemplo, que os amigos são muito importantes em vários esforços de inovação. Porém, não
são todos os amigos, mas apenas aqueles que conhecem o ofício. Ou seja, de uma certa
maneira existe um cálculo, uma seleção de relações, uma decisão interessada, na estruturação
da rede. Ou seja, as relações nas redes não são tão emaranhadas como sugere Granovetter.
Elas obedecem uma certa lógica.
A pesquisa mostrou também que em uma região em estágio inicial de desenvolvimento,
o ambiente institucional não é dinâmico. A indústria do leite no Tocantins, por exemplo, não
tinha interlocutor junto às instituições locais para exprimir os seus problemas, apresentar as
suas sugestões, defender os seus objetivos e para participar da concepção de projetos de
interesse do setor. Não há uma relação de troca entre o ambiente institucional e as empresas,
há apenas um canal de informação em sentido único, quer pelas normas escritas, quer pelas
visitas da fiscalização (sanitária, trabalhista), onde as instituições dizem às empresas o que
deve ser respeitado. O problema do acesso aos recursos necessários para as implementações
das recomendações oficiais parece não ser um problema das instituições. Mesmo com toda
esta pressão, o setor não nega o valor das normas oficiais de produção e de comercialização.
Este intermediário institucional tem o mérito de ser portador de informações de caráter
tecnológico, muito úteis em um ambiente pobre de produção de conhecimentos e difusão de
informações. Em resumo, o Estado controla qualitativamente a produção e não se sente parte
integrante do ponto de vista de sua mobilização, de sua dinâmica.
Sob um outro ângulo, a importância dada aos diferentes setores industriais em uma
região pode ser avaliada pela sua representatividade política e técnica no Patronato local. No
Tocantins, um Estado em construção, o setor da construção civil domina a atenção e a política
da instituição. Isto não é surpreendente já que a representação política, em todos os setores da
sociedade, privilegia as forças presentes em detrimento das emergentes.
Finalmente, este estudo sugere que as limitações da rede sócio-tecno-econômica, para
um projeto de desenvolvimento tecnológico e econômico local, situam-se em nível da sua
gestão. Na verdade, o desenvolvimento não resulta de uma evolução espontânea, nem de um
simples apelo à boa vontade dos atores. É necessário que ele seja articulado. E, para isto, os
nós de articulação de redes, como os centros de tradução, são de uma importância capital. A
missão do Centro Consorciado de Recursos Tecnológicos do Tocantins (CCRT), criado no
Tocantins, foi de justamente desempenhar este papel. O centro de tradução é desenhista,
mobilizador e coordenador de redes sócio-tecno-econômicas. A densidade de tradutores em
regiões mais avançadas é visivelmente muito mais alta do que em novas fronteiras de
desenvolvimento.
Os resultados deste estudo podem ser úteis na elaboração de políticas e implementação
de ações adequadas a esta realidade social, tecnológica e econômica. Em outros termos,
trabalhar no sentido da diminuição das desigualdades regionais, pela análise e posterior
reestruturação das redes locais.
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