“Amazônia e o direito de comunicar”
17 a 22 de outubro de 2011 - Belém/PA
O AUTORITARISMO REPRESENTADO NA LEITURA DA CHARGE.
José Eduardo Pastana SILVA1
Lucilinda Ribeiro Teixeira 2
Universidade da Amazônia -UNAMA, Belém, PA.
RESUMO
Este artigo tem como objetivo principal analisar uma charge do artista paraense Arnaldo
Torres, a charge foi veiculada através da mídia impressa, o jornal o Diário do Pará. Este
estudo está baseado na perspectiva da analise do discurso, levando em consideração o signo
no processo de compreensão da leitura imagética. Para isso, abordar-se-ão os estudos
desenvolvidos pelos teóricos Michel Foucault, Pêcheaux, Bakhtin e Peirce.
PALAVRAS-CHAVE: Charge; Signo; Discurso
INTRODUÇÃO
Este artigo tem como objetivo mostrar a construção sígnica de uma charge sob a
perspectiva da Análise do Discurso. Por conta da amplitude de estudos que abarcam a
linguagem, não pretende-se aqui esgotar tudo que está relacionado a esta, tampouco tudo o
que diz respeito a Análise do discurso. A fundamentação teórica deste artigo pauta-se nos
estudos difundidos pelo teóricos, Bakhtin, Michel Foucault.
Caracteriza-se como objeto de análise deste trabalho a charge produzida pelo artista paraense
Arnaldo Torres, conhecido artisticamente como Atorres:
ATorres é editor executivo de arte do jornal Diário do Pará e trabalha há
mais de 23 anos na profissão. Foi preparado em Illustrator na WOC,
treinamento oficial da Adobe em São Paulo e participa desde 2004 de vários
workshops de aperfeiçoamentos com Getulino Pacheco, maior nome do
Illustrator no Brasil.É chargista premiado nacional e internacionalmente e
autor do livro "Antes Charge do que Nunca", reunindo os melhores trabalhos
publicados no jornal Diário do Pará. Todas as suas charges são produzidas
no Illustrator. Já ministrou em Belém os workshops "Photoshop &
Illustrator" em 2006 e "Arte Digital" em 2009 que abordaram entre outros
temas a relação do programa com o Photoshop, CorelDraw, InDesign e
Painter.3
1
Mestrando do curso de Mestrado em Comunicação, Linguagens e Cultura da Universidade da Amazônia-Unama, email:
[email protected]
2
Orientadora do trabalho. Professora do Curso de Mestrado em Comunicação, Linguagens e Cultura da Universidade da
Amazônia, email: [email protected]
3
Extraído de http://www.atorres.com.br/at/index.php?option=com_content&view=article&id=54&Itemid
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Sua produção artística é divulgada, diariamente, nas páginas do jornal ―Diário do Pará‖, que é
veiculado em Belém, no estado do Pará.
A charge é um signo não-verbal que possui como principal caraterística a crítica
social produzida por meio do humor. Por ser um gênero discursivo presente nas mídias
impressas, como revistas e jornais, faz parte da rotina diária de qualquer leitor destas mídias.
Mas afinal o que é uma Charge?
A charge é um signo não-verbal construída a partir de imagens, desenhos e
enunciados. Sua utilização é recorrente nas mídias impressas, como jornais e revistas. Seu
objetivo principal é revelar uma crítica social com o uso do humor, por meio da criatividade
artística no que tange ao processo de construção e produção.
Possenti (2010) trata da questão de como se pode abordar acontecimentos através do
humor e afirma no que se refere à charge:
As charges, por exemplo, são tipicamente relativas a fatos ―do dia‖ . Apenas
eventualmente, e raramente, têm como pano de fundo acontecimentos menos
instantâneos, como uma campanha eleitoral. Textos (piadas ou charges) ditos
de humor negro são produzidos em grande quantidade após acontecimentos
breves, além de tipicamente classificáveis no rol das ―desgraças‖.POSSENTI
(2010, p.27-28)
E Gregolim (2007, p.23) completa a questão do humor quando diz que:
Imerso nessas mensagens (e a mídia é delas uma fonte inesgotável) que
repetem certas idéias, o leitor é instado a concordar com aquilo que é dito e a
acatar o aparente consenso instaurado pelo riso. Essa é uma das funções do
humor, pois o riso entorpece.
Souza e Machado (2005, p.62) afirmam que ―é comum a charge apoiar-se apenas no
desenho para a emissão de um sentido. No entanto, há charges que também apresentam o
texto verbal, e esse conteúdo verbal refere-se tanto às palavras propriamente ditas quanto tão
somente à presença de sinais de pontuação‖.
Por apresentar um padrão de enunciados estáveis, isto é, ao ser construída uma charge,
remete-se a uma estrutura composicional, uma forma que se repete e, por conta dessa
repetição, desse padrão de linguagem, pode-se, assim, considerar a charge como um gênero
textual-discursivo. Segundo Bakhtin (1992, p.279) ―qualquer enunciado considerado
isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos
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relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso‖. E
demonstra que o uso dos diferentes gêneros discursivos se dá por conta da adequação e
finalidade do uso da língua:
Todas as esferas da atividade humana, por mais variadas que sejam, estão
relacionadas com a utilização da língua. Não é de surpreender que o caráter e
os modos dessa utilização sejam tão variados como as próprias esferas da
atividade humana. (BAKHTIN, 1992, p.279)
A análise do discurso ao tratar de um enunciado, não deixa de considerar as condições
de produção. A relação com a história deste enunciado está imbricada de tal maneira que não
se pode desassociá-lo do seu contexto histórico-social, afinal, o ser humano interage
socialmente, em um determinado momento e essa interação se dá de muitas formas quer seja
através das palavras, dos gestos, dos sons, das imagens, é a comunicação. É por isso, que
Maingueneau (1995) afirma que o Discurso, só pode ser discurso se ele interagir com as
diversas áreas e somente desta maneira, poderá dar conta das especificidades de cada estudo.
De minha parte, defendi a idéia de que (Maingueneau, 1995) o discurso não
pode se tornar verdadeiramente objeto de conhecimento se não for
abordadopor diversas disciplinas, que tem, cada uma , um interesse
específico. MAINGUENEAU (1995 apud SIGNORINI 2008, p. 142-143)
O signo
Não se pode falar de charge sem primeiramente entender um pouco sobre signo. O
signo vem sendo tratado pelos linguistas, como Saussure que via o signo linguístico, na sua
dicotomia, signo= significante + significado, mas deixava de lado o sujeito social, o falante, o
exterior à língua.
Charles Sanders Peirce, estudioso norte americano desenvolveu a teoria semiótica nos
Estados Unidos no século XIX. A semiótica Peirciana (2005) estuda o signo em todas as suas
formas de produção. Conforme Santaella (1983, p.13) ―a semiótica é a ciência que tem por
objeto de investigação todas as linguagens possíveis, ou seja, que tem por objetivo o exame
dos modos de constituição de todo e qualquer fenômeno como fenômeno de produção de
significação e sentido.‖ Para Peirce (2005) o signo possui uma relação triádica em que se tem
o significante (representamen) e significado (Interpretante) e o referente (objeto).
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O estudo dessa relação sígnica estabelece a relação de compreensão necessária
realizada em qualquer tipo de linguagem. Santaella (1983, p.58-60) diferencia bem essas três
entidades.
O signo é uma coisa que representa uma outra coisa: seu objeto, ora o signo não é o
objeto. Ele apenas está no lugar do objeto.O interpretante é a ação que o signo cria
na mente do intérprete divide-se em imediato (consiste naquilo que o signo está apto
a produzir numa mente interpretadora qualquer) e dinâmico (aquilo que o signo
efetivamente produz na sua mente, na minha mente, em cada, mente singular) e o
objeto que divide-se em Imediato (dentro do signo, no próprio signo) e dinâmico
(aquilo que o signo substitui).
O signo para Bakhtin é dialógico e ideológico, isto é, para que haja a compreensão do
signo deve haver uma a comunhão de determinadas entidades, como o código em comum, o
contexto situacional, a intertextualidade, tudo isso colabora para que se entenda a significação
dos enunciados entre os falantes e a decodificação sígnica.
Todo signo , como sabemos, resulta de um consenso entre indivíduos
socialmente organizados no decorrer de um processo de interação. Razão
pela qual as formas do signo são condicionadas tanto pela organização social
de tais indivíduoas como pelas condições em que a interação acontece.
(BAKHTIN, 2009, p. 45)
E Neves (2009, p.69) ratifica essa ideia afirmando que:
Em Bakhtin, o conceito de signo é ideológico e se circunscreve em uma
outra perspectiva semiótica. Não entra em questão uma estrutura fechada. O
sentido se realiza na interação com o Outro. E o significado não está
aprisionado nas fronteiras frágeis das palavras. Para ele ―Tudo que é
ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo.
Tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia
Neves (2009, p.68) continua a definir signo de acordo com a teoria Bakhtiniana:
Para Bakhtin a definição de signo pressupõe a alteridade. Sem o outro, a
significação não se realiza, pois ele a define como uma tensão de relação do
eu com o outro. A compreensão é uma resposta a um signo por meio de
signos. Não existe resposta sem o outro.
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Como se observa, somente por meio da interação entre os sujeitos é que podemos
considerar e determinar a significação de um signo. O contexto-histórico e a interação social
tem papel fundamental na compreensão sígnica.
Foucault (1999) trata sobre o conteúdo do signo e como esse pode despertar no sujeito
sua interpretação. O signo para ele não é uma verdade absoluta, mas algo que se relaciona
com outros signos e permitem que este sujeito, ser social e dentro de um contexto histórico,
possa intervir, inferir e desvendar o mistério da linguagem:
No século XVI, a linguagem real não é um conjunto de signos
independentes, uniforme e liso, em que as coisas viriam refletir-se como
num espelho, para aí enunciar, uma a uma, sua verdade singular. É antes
coisa opaca, misteriosa, cerrada sobre si mesma, massa fragmentada e ponto
por ponto enigmática, que se mistura aqui e ali com as figuras do mundo e se
imbrica com elas: tanto e tão bem que, todas juntas, elas formam uma rede
de marcas, em que cada uma pode desempenhar, e desempenha de fato, em
relação a todas as outras, o papel de conteúdo ou de signo, de segredo ou de
indicação. (FOUCAULT, 1999, p.47)
No dia 24 de fevereiro de 2011, o leitor do jornal ―O Diário do Pará‖ deparou-se com
a seguinte charge na parte inferior da capa do jornal:
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Figura 1- Charge 1- Então, Tá explicado!!, Atorres (2011)
Fonte: Diário do Pará, 24 fev. 2011, p. 01.
As condições de produção da charge
O prefeito de Manaus, capital do Amazonas, Brasil, Amazonino Mendes ao fazer uma
visita em uma área de desabamento em um bairro chamado Santa cruz, se depara com alguns
moradores que não pretendem deixar o lugar , pois estes moradores dizem não ter para onde
ir. O prefeito começa, então, a dialogar com uma moradora e valendo-se de sua posição de
poder, ele acaba demonstrando preconceito contra a mulher. Principalmente, quando ele
pergunta de onde ela é e a mesma responde dizendo que é do Pará .Como resposta ele diz:
―então, tá explicado!‖. Com este enunciado o prefeito coloca em circulação um discurso
preconceituoso contra os paraenses.
O fato teve repercursão nacional , gerando uma série de repúdios por parte dos
políticos paraenses. A internet, como espaço de circulação de discursos, está cheia de links em
que se pode conferir todo esse cenário, como por exemplo os links a seguir, em que temos o
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posicionamento da Senadora Marinor Brito do Psol-Pa e dos vereadores de Belém difundidos
pelas televisões RBA e TV Liberal4.
Ao mesmo tempo, no cenário mundial, mais precisamente na Líbia, Muammar AGaddafi, ditador que guerreia de forma autoritária, mata e massacra rebeldes que se opõem ao
seu governo, na tentativa de o tirarem do poder. Fazendo uso de seu poder bélico, tenta
eliminar seus inimigos de forma atroz e a mídia vem veiculando as ações do ditador.
Podemos observar que a atitude do prefeito e do ditador estão filiadas a uma memória
em que o autoritarismo dá o tom.
A memória discursiva remete o sujeito a fazer inferências, hipóteses daquilo que está
enunciado e segundo Pêcheux (1999, p.52):
Tocamos aqui um dos pontos de encontro com a questão da memória como
estruturação de materialidade discursiva complexa, estendida em uma
dialética da repetição e da regularização: A memória discursiva seria aquilo
que, face a um texto que surge como acontecimento a ser lido, vem
restabelecer os ‗implícitos‘ (quer dizer,mais tecnicamente, os préconstruídos, elementos citados e relatados,discursos-transversos, etc.) de que
sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio legível.
Os implícitos mencionados por Pêcheux (1999, p.52) são bem definidos por Achard (1999, p.
13):
Do ponto de vista discursivo, o implícito trabalha então sobre a base de um
imaginário que o representa como memorizado, enquanto cada discurso, ao
pressupô-lo, vai fazer apelo a sua (re) construção, sob a restrição ―no vazio‖
de que eles respeitem as formas que permitam sua inserção por paráfrase.
Mas jamais podemos provar ou supor que esse implícito (re)construído tenha
existido em algum lugar como discurso autônomo .
É o que de fato ocorre na leitura de uma charge, uma memória armazenada e um consenso
entre os sujeitos do discurso sobre os implícitos para que haja o sentido esperado pelo artista.
4
Ver em : http://www.youtube.com/watch?v=UZ4uUzqfJmc&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=YISa336UVqE&NR=1
http://www.youtube.com/watch?v=sid8Li8-pxk&feature=related
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Análise visual da charge
Pode-se visualizar na charge as seguintes imagens : Uma televisão com a imagem
audiovisual do prefeito Amazonino Mendes e uma mulher, a paraense Laudenice; uma figura
que remete ao ditador Gadaffi sentado em uma cadeira.
A charge é composta de três enunciados: 1- ―Então, tá explicado!‖; 2- ―Morra, morra‖
fala do prefeito acima da televisão; 3- ―Êpa, Essa Borjão é meu, seu invejoso‖ enunciado do
desenho que remete ao Ditador Muammar A-Gadaffi.
Ao observar tais imagens e enunciados o receptor da charge, se estiver inteirado com
os acontecimentos e meios de produção da charge, perceberá que o signo que para Peirce
(2005) seria a charge em si e que é construída pelas imagens e enunciados, retrata uma
questão de preconceito e autoritarismo.
Os imagens para Peirce seriam o que ele denominou de objeto estático (as imagens em
si) em que o leitor apenas reconhece as figuras, mas que por falta da situação de produção,
não vai além do reconhecimento das imagens e o objeto dinâmico em que as imagens
possuem outros sentidos, no caso da charge as imagens demonstram a violência e o
preconceito do prefeito em relação aos paraenses.
O Humor se dá nesta charge pelo fato de Atorres comparar o prefeito com o ditador.
Esta charge vai muito além do humor, seus implícitos, do ponto de vista do discurso, ativam
uma memória discursiva que remete a questões ideológicas de poder, de autoritarismo e
violência.
O chargista por meio de sua arte evidenciou como ocorrem as relações de poder, quem
manda, quem deve obedecer e como o Estado, de maneira geral, trata aqueles que o
contrariam.
O discurso na charge
Segundo Althusser (1985) os Aparelhos Ideológicos do Estado (AIE) são várias
instituições que contribuem para a manutenção e reprodução de uma ideologia.Estas
favorecem para que não se cessem os meios de reprodução da produção. Somos levados,
assim, a fazer o que exatamente o que as classes dominantes querem que façamos. Por isso,
nós não somos tão livres quanto imaginamos, existem regras, determinações e leis que nos
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prendem, nos limitam. A ideologia age no inconsciente, são várias vozes que contribuem para
a nossa formação e atitudes.
Todo aparelho ideológico é repressor, Althusser destaca o Estado aquele que mais
reproduz os meios de dominação das classes dominantes .
Em outras palavras, a escola(mas também outras instituiçõesdo Estado,
como a igrejae outros aparelhos como o Exército) ensina o ―know-how‖ mas
sob formas que asseguram a submissão à ideologia dominante ou o domínio
de sua ―prática ALTHUSSER, (1985, p.58)
o Estado como aparelho idelógico, reprime:
o Estado é, antes de mais nada, o que os clássicos do marxismo chamaram
de o aparelho de Estado. Este termo compreende: não somente o aparelho
especializado (no sentido estrito), cuja existência e necessidade
reconhecemos pelas exigências das práticas jurídicas, a saber: a política – os
tribunais – e as prisões; mas também o exército, que intervém diretamente
como força repressiva de apoio em última instância. ALTHUSSER (1985,
p.62)
A classe dominante, historicamente, tenta eliminar tudo o que não se adequa aos seus
padrões, isto acontece na linguagem, no social. Se você não parece comigo, não pensa como
eu, não faz o que eu determino, você está fora dos padrões e precisa se adequar ou
desaparecer. Essa eliminação se dá através dos preconceitos e de maneira mais cruel através
da extinção fisica. É o que acontecia com a maioria dos imperadores, ditadores que
justificavam a morte dos outros por conta das suas ideologias e o que acontece no governo de
Muammar Al-gaddafi, que manda eliminar aqueles que não admitem sua continuação no
poder.
Como dizia Marx. Até uma criança sabe que uma formação social que não
reproduz as condições de produção ao mesmo tempo que produz, não
sobreviverá nem por um ano.portanto a condição última da produção é a
reprodução das condições de produção. ALTHUSSER (1985, p. 53)
No caso da charge o artista enfatiza o enunciado do prefeito que diz a uma pessoa do
povo, ―Morra! Morra!‖. Esse enunciado traz alguns implícitos com ele, demonstra o grau de
compromisso social que aquele político possui para com o povo, representa o verdadeiro
sentimento de desprezo, descaso e despreocupação com a situação do povo. Demonstra que o
prefeito não se importa realmente com situação caótica que vive a grande maioria da
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população, sem educação, sem moradia, sem um bom salário, sem saneamento e
principalmente sem uma vida digna. O artista retrata e explora muito bem o enunciado.
A televisão na charge, como já foi mencionado é uma imagem audiovisual que foi
veiculado na mídia televisiva, Atorres a partir dos enunciados que foram apresentados na
televisão, cria um novo enunciado ―esse borjão e meu, seu invejoso‖, isso se dá por conta das
informações discursivas veiculada na televisão. A televisão que está presente em quase todos
os lares dos brasileiros, está ai na charge, mostranto que deu na tv, o que será que vai
acontecer?, foi filmado e mostrado pra quem quiser ver, quais as consequências disso?. Hoje,
não podemos ignorar que a mídia é um dos mais poderosos Aparelhos Ideológicos do Estado
Toda esta leitura e compreensão sígnica da charge só ocorrerá se o receptor da
mensagem realmente estiver a par de tudo que está acontecendo ao seu redor, ou seja, a
enunciação e a recepção desta charge dependem das condições de produção. Sem conhecer o
momento histórico, o leitor pode sim fazer a interpretação, só que ela será bem diferente
daquela que o chargista espera.
Pode-se observar que embora a charge de Atorres não indique o local de sua
produção, sabe-se que se trata de uma questão local, isto é, a posição do prefeito em relação
aos paraenses, mas em virtude do aparecimento da imagem do ditador da Líbia, isto remete a
uma memória mais mundial e global. Assim, a charge oferece condições para que um receptor
de outra localidade possa criar interpretações, a partir dela, mesmo ignorando a fala do
prefeito.
CONSIDERAÇÕES
A charge sob o ponto de vista do não-dito do discurso é uma excelente ferramenta para que o
leitor cidadão possa refletir sobre os assuntos diários que o cerca. A produção de sentido existente
na charge se dá através da compreensão do signo charge segundo Peirce (2005) e suas imagens e
enunciados. Pode-se perceber que os discursos produzidos nela representam ideologias, e estas
ideologias são mostradas através de referências sociais que nos fazem refletir sobre os seus
posicionamentos e nos influenciam ao ponto de refletirmos sobre os nossos comportamentos.
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TORRES, Arnaldo. Então, tá explicado.. Diário do Pará, Belém, 24 fev. 2011. p.01.
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