7 Janeiro | 2008 entrevista José Eduardo Carvalho Presidente da Direcção da NERSANT Associação Empresarial da Região de Santarém reportagem Dar vida às margens do Tejo Zonas Ribeirinhas territórios Caminhos do Vinho Palmela Propriedade CCDR‑LVT Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo Rua Artilharia 1, nº 33 – 1269‑145 Lisboa Tel.: 21 383 71 00 | Fax: 21 383 12 92 www.ccdr‑lvt.pt Director António Fonseca Ferreira Director executivo Carla Gomes Projecto editorial, design e produção Fotografias [capa e contracapa]: Guto Ferreira DDLX [www.ddlx.pt] José Teófilo Duarte [Direcção] Eva Monteiro | Tânia Reis [Design] Sofia Costa Pessoa [Contacto] Colaboradores Carla Amaro Carla Maia de Almeida David Lopes Ramos Fernanda Câncio Luís de Carvalho Pedro Almeida Vieira Fotografia Guto Ferreira Pedro Soares Câmara Ardente, produções fotográficas Impressão e Acabamento Euro-Scanner T i r a g e m 2500 exemplares I S S N 1646‑1835 D e p ó s t i o L e g a l 224633/05 LV T # 7 – J a n e i r o | 2 0 0 8 | Q u a d r i m e s t r a l í n d ice Editorial Modernização da administração pública: Prestar contas e prosseguir................................................. 2 António Fonseca Ferreira Notícias Breves.........................................................................4 Opinião O mistério dos comerciantes que não querem vender......................................................12 Fernanda Câncio Entrevista José Eduardo Carvalho........................................................ 18 Carla Amaro Reportagem Dar vida às margens do Tejo........................................... 26 Carla Amaro Destaque Recursos Hídricos Rios de problemas... E de oportunidades...................36 Pedro Almeida Vieira Territórios O Resto não é Paisagem.....................................................40 Carla Maia de Almeida Acontecimento Open Days................................................................................ 48 Luís de Carvalho Património Caminhos do Vinho...............................................................50 Carla Maia de Almeida Roteiro Pão, queijo e vinho, Trilogia de Palmela...............................................................56 David Lopes Ramos Agenda Cultural.................................................................. 64 Editorial | António Fonseca Ferreira Modernização da administração pública: Prestar contas e prosseguir C om décadas de atraso, o actual governo desencadeou, em 2005, a reforma da administração pública, com a designação de PRACE – Programa de Reforma da Administração Central do Estado. Tarefa que tem tanto de prioritária como de ciclópica, pois parte de uma situação profundamente arcaica: organização desconexa, sectorializada e segmentada, com uma realidade herdada do antigo regime à qual se foram sobrepondo admissões sem nexo de qualificações e racionalidade; excesso de ministérios, serviços e funcionários, com uma lógica de emprego e não de neces- sidades; uma cultura de autocentramento e burocracia que tem ignorado o “utente” ou “cliente” dos serviços; e uma avaliação viciada que tradicionalmente não distinguia o mérito e a competência dos funcionários e chefias. A primeira fase do PRACE foi realizada e traduziu-se numa redução significativa de serviços e chefias: cerca de um terço. A segunda fase da reforma – o novo estatuto de vínculos e carreiras, designadamente a adopção do contrato individual de trabalho em lugar do emprego público vitalício, e a redução de efectivos através da mobilidade – parece estar mais difícil, pois os prazos sucessivamente anunciados pelo Governo têm sido ultrapassados, sem resultados, com excepção do Ministério da Agricultura, no que se refere à mobilidade. Mobilidade de Funcionários ■ Efectivos ■ Entradas ■ Saídas Entre 2003 e 2007 as transferências do Orçamento de Estado (OE) foram reduzidas em cerca de 35%. Definiu-se uma estratégia e con cretizaram-se as medidas para um forte aumento das receitas próprias, que se traduziu num reforço de 16%. Assim, a CCDR-LVT tem vindo a reforçar, significativamente, a sua autonomia financeira. Evolução das Receitas Cobradas Na CCDR-LVT, adoptámos uma Agenda Estratégica, que constitui uma importante inovação como instrumento de gestão na administração pública portuguesa e que traça as prioridades básicas sobre as quais se fundamenta o esforço de modernização, mudança e reforma deste Organismo. Definiram-se cinco domínios estratégicos de actuação: Reestruturação orgânica – racionalização de recursos e desconcentração dos serviços Apesar da lei orgânica das CCDR ter sido aprovada apenas em 2007, com quatro anos de atraso, a partir de 2003 encetámos a integração dos serviços transversais e a desconcentração de competências para os serviços sub-regionais. O esforço de reorganização dos serviços e racionalização da gestão permitiu, entre 2003 e 2007, reduzir o número de funcionários da CCDR-LVT de 508 para 392, o que representa uma redução de 116 efectivos (23%). Paralelamente, promovemos a desconcentração dos serviços, transferindo competências e recursos dos serviços centrais para as equipas de Setúbal, Oeste e Vale do Tejo. ■ Orçamento de Estado ■ Receita Própria ■ Outras Receitas . Racionalização de procedimentos e circuitos Face aos insustentáveis prazos de planeamento e de licenciamento urbanístico e ambiental, em 2005 propusemo-nos uma meta ambiciosa, e estamos certos de que a vamos cumprir. Reduzir para metade, no espaço de três anos, os tempos de aprovação de Planos Directores Municipais, Planos de Urbanização e de Por menor. A análise estatística feita em 2004 mostrou que os respectivos prazos eram: PDM – 9,9 anos; PU – 7,2 anos e PP – 4,4 anos. A publicação de um Manual de Gestão, que abrange os domínios do Ordenamento do Território, Ambiente e Administração Local, visou obter maiores objectividade e celeridade nos procedimentos e métodos de gestão, com resultados imediatos na redução dos prazos de aprovação dos instrumentos de planeamento. A Unidade de Verificação e Triagem permitiu o acompanhamento dos processos desde a sua entrada na CCDR-LVT até à emissão e expedição das decisões, o que se traduziu num encurtamento dos prazos (em média 2 meses). Melhorou-se a informação aos requerentes e libertaram-se as chefias e os técnicos de tarefas puramente administrativas. Da tradicional gestão por recursos, na administração pública, temos passado, progressivamente, para uma gestão por objectivos e projectos. Informatização e novas tecnologias Aprofundámos e intensificámos o uso de novas tecnologias de informação com base num Plano Director de Informática. Um passo fundamental que possibilita a racionalização dos recursos humanos, o rigor e celeridade dos processos. Simultaneamente, foram desenvolvidos sistemas de gestão processual e aplicações para licenciamento do Domínio Hídrico, processos do Ordenamento do Território, de Avaliação de Impacto Ambiental, das Contra-ordenações e de Monitorização Ambiental (Ruído, Ar, Resíduos) e Gestão do Caudal Sólido do Tejo. Em relação à vertente física do sistema de informação, saliente-se a implementação de uma rede VoIP nos edifícios dos serviços centrais e sub-regionais e a integral modernização do parque de equipamento informático. Formação profissional Entre 2003 e 2007, multiplicámos por quatro o número de funcionários envolvidos em acções de formação. Contudo, esta é uma área que, em nosso entender, não tem obedecido a uma adequada racionalização estratégica. Só em 2007 foi possível elaborar um Plano Estratégico de Formação, participado por todos os níveis de chefias e trabalhadores, que vai orientar as acções a realizar nos próximos anos, adequando-as às reais necessidades funcionais e humanas da CCDR e das pessoas que aqui trabalham. Sistema de Avaliação – SIADAP A CCDR-LVT foi um dos primeiros organismos do Estado a implementar o SIADAP, um importante instrumento de modernização da administração pública, através da contratualização e avaliação de objectivos e parâmetros de medição. A CCDR-LVT aplicou integralmente o novo sistema de avaliação em 2005, 2006 e 2007, com reflexos visíveis na responsabilização e resultados práticos. O alcance desta medida, criada pelo anterior governo, acaba de ser alargada com a publicação de uma lei (Lei 66-B/2007) que alarga a avaliação a dirigentes e chefias. Só nesta base é possível estabelecer a contratualização de objectivos, por forma a distinguir o mérito, a competência e a dedicação ao serviço público. Há muito tempo que defendemos a necessidade de reformar e modernizar a administração pública, como condição essencial para o progresso económico e social do país. Nos últimos dez anos, expressámos essa posição em diversos artigos publicados na imprensa e procurámos dar-lhe expressão prática na Comissão, desde que assumimos a Presidência, em 1998, com maior intensidade a partir da criação da CCDR-LVT, em 2003. A sociedade não se muda por decreto, mas a intervenção legislativa e impulsionadora dos governos é indispensável para a realização das reformas. Como necessária é a actuação pró-activa dos dirigentes da administração para a concretização das mudanças modernizadoras. Há mudanças fundamentais a fazer, com décadas de atraso, por exemplo a extinção dos Gabinetes de Apoio Técnico (GAT). Estes organismos foram criados nos anos 70, para apoiar o arranque das autarquias locais, então completamente destituídas de quadros técnicos, com excepção das de Lisboa e Porto. Mas o próprio diploma que criou os GAT - D.L. n.º 58/79, de 29 de Março – estipulava que os mesmos deveriam transitar “a curto prazo” para o poder local, à medida que este se fosse reforçando. Tal deveria ter acontecido em meados da década de 80, quando os GAT começaram a ser esvaziados de atribuições, com o apetrechamento técnico dos municípios e o recurso destes ao outsourcing. Ora essa extinção, várias vezes anunciada, ainda não se concretizou. O que implica desperdício de recursos humanos, técnicos e financeiros (mais de 600 funcionários em todo o país) e uma elevada carga salarial). Para que o esforço já realizado pelo Governo e por alguns sectores da administração pública, no sentido da modernização, não seja em vão, é necessário que o PRACE prossiga e aprofunde as mudanças. É preciso derrotar as inércias e o marasmo que persistem neste impor tante sector da vida nacional. O problema dos GAT é só um exemplo. É imperioso reduzir organismos, órgãos e funcionários excedentários. Única via para a necessária redução da despesa, a sustentabilidade das finanças públicas, o incremento da produtividade e a melhoria das remunerações dos que têm trabalho e avaliação de mérito. | NOTÍCIAS BREVES Programa Operacional Regional 2007-2013 Lisboa prepara-se para novos desafios O Programa Operacional Regional de Lisboa (PORL) teve a sua apresentação pública no passado dia 14 de Novembro, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. A par do programa Regional, foram ainda divulgadas as Agendas Factores de Competitividade e Valorização do Território. A sessão pública contou com a presença do ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento regional, Francisco Nunes Correia, e do ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Mário Lino, assim como do secretário de Estado do Desenvolvimento Regional, Rui Nuno Baleiras. 436 milhões é quanto caberá, dos 21,5 mil milhões de euros que o país vai receber, | à região de Lisboa. Os apoios, cerca de um oitavo do que a região recebeu nos ante riores quadros comunitários, vão ter de se focalizar em prioridades estratégicas bem definidas, nomeadamente a inovação e competitividade, a valorização territorial, incluindo investimentos na área do ambiente, e a coesão social. Estas prioridades estratégicas estão consignadas na Estratégia Regional Lisboa 2020, que está a entrar na fase de execução. A estratégia, que apresenta um conjunto de programas estruturantes para a região, será acompanhada e monitorizada pelo Fórum Metropolitano, um organismo que pretende representar a sociedade civil e cuja primeira reunião está prevista para Janeiro de 2008. O PORL está estruturado em quatro eixos: Competitividade, Inovação e Conhecimento, Valorização Territorial, Coesão Social e Assistência Técnica. Uma aposta forte será também a qualifi cação dos recursos humanos, pelo que a região de Lisboa vai beneficiar dos apoios previstos no Programa Operacional Temático Potencial Humano, com a concessão de mais 129 milhões de euros do Fundo Social Europeu, a juntar aos 307 milhões que recebe do FEDER no âmbito do PORL. A região de Lisboa terá ainda acesso a uma verba do Fundo de Coesão no âmbito do PO Valorização do Território. A região de Lisboa já ultrapassou a média comunitária do PIB per capita e é a primeira no país a integrar o Objectivo 2 das políticas de coesão, designado «Competitividade Regional e Emprego», razão pela qual o volume de apoios a receber a partir daqui é muito menor. Para efeitos da gestão de fundos comunitários, as NUT III do Oeste, Médio Tejo passam a integrar, no âmbito do QREN, o Programa Operacional Regional do Centro. Os fundos destinados à Lezíria do Tejo passam por seu turno a ser geridos pela CCDR do Alentejo. Neste âmbito, a região de Lisboa passa a coincidir geograficamente com a Área Metropolitana de Lisboa (Grande Lisboa e Península de Setúbal). No entanto, no que respeita às restantes áreas de competência da CCDR-LVT, nomea damente o apoio à administração local, o ambiente e o ordenamento do território, a área geográfica continuam a ser os 51 municípios de Lisboa e Vale do Tejo. PORL – FEDER 2007-2013 Síntese de objectivos e temáticas por eixo prioritário PO Lisboa (FEDER) Financiamento Comunitário (Milhões de Euro) Total PO e Eixo Prioritário 307 1. COMPETITIVIDADE, INOVAÇÃO E CONHECIMENTO 155 •.Incentivos.I&DT; •.Projecção.competitiva.da.Região.à.escala.internacional.(e.g..agências.internacionais,.iniciativa «Regions.for.economic.changes»,.instituição.superior.de.referência.internacional.no.domínio.do.Turismo, orientada.para.a.Inovação.neste.sector); •.Apoios.às.entidades.de.I&D.para.a.internacionalização; •.Acções.de.transferência.de.tecnologia; •.Criação.de.empresas.de.base.tecnológica.e.indústrias.criativas; •.Estímulos.à.capacidade.de.inovar.e.empreender/.FININOVA; •.Incentivos,.inovação.e.qualificação.de.PME.em.sectores.estratégicos; •.Organização.de.eventos.de.projecção.internacional; •.Estímulo.da.governabilidade.regional.(redução.dos.custos.públicos.de.contexto;.parcerias). 2. SUSTENTABILIDADE TERRITORIAL 71 •.Soluções.inovadoras.para.problemas.urbanos.(Acções.demonstrativas.no.âmbito.de:.Sistemas.Inteligentes de.Transportes;.Apoio.a.acções.de.micro-logística.local;.Apoio.a.acções.locais.na.óptica.da.eficiência.da.mobilidade da.população;.Incentivos.ao.reforço.dos.projectos.de.transporte.ecológicos;.Reforço.da.capacidade.de.planeamento; Estímulo.à.eco-eficiência;.Estímulo.à.reciclagem.e.reutilização.de.resíduos;.Apoio.à.criação.de.Eco-bairros; Estímulo.ao.aumento.da.eficiência.ambiental.nos.serviços.da.Administração.Pública); •.Ordenamento.e.valorização.da.estrutura.metropolitana.de.protecção.e.valorização.ambiental.(definida.no.PROT-AML). 3. COESÃO SOCIAL 71 •.Parcerias.para.a.Regeneração.Urbana.(foco.na.vertente.inclusão.social); •.Plataformas.de.inclusão.para.a.população.imigrante; •.Serviços.a.populações.com.dificuldades.especiais. 4. ASSISTÊNCIA TÉCNICA 10 | Sistemas de incentivos e modernização administrativa Candidaturas abertas Estão abertas as candidaturas ao Sistema de Apoios à Modernização Administrativa (SAMA) e às Parcerias para a Regeneração Urbana, assim como a dois sistemas de incentivos, no âmbito do Programa Opera cional Regional de Lisboa (PORL) 2007-2013. O SAMA está a receber candidaturas até 30 de Março e visa criar condições para uma Administração Pública mais eficiente e eficaz, através do desenvolvimento de operações estruturantes orientadas para a redução dos denominados «custos públicos de contexto» no seu relacionamento com os cidadãos e as empresas. Podem candidatar-se a estes apoios as entidades da Administração Local do Estado, da Administração Local Autárquica e as Agências de Desenvolvimento Regional de capitais maioritariamente públicos. O sistema de apoios «Parcerias para a Rege neração Urbana» visa apoiar entidades que se propõem elaborar e implementar um programa de acção comum de regeneração de uma área específica de uma dada cidade. As candidaturas podem ser entregues até ao próximo dia 30 de Abril. Sistemas de incentivos Desde 15 de Novembro, e até final de Janeiro, estão ainda abertas candidaturas aos Sistemas de Incentivos da Inovação e da Investigação e Desenvolvimento Tecnológico. No sistema de incentivos da Inovação estão abrangidas as tipologias Produção de Novos Bens e Serviços, Adopção de Novos Processos e Expansão de Capa cidades em Actividades com Dinâmicas de Crescimento, assim como os Projectos de Empreendedorismo Qualificado, Investigação e Desenvolvimento Tecnológico e Inovação. Como Projectos de Empreendedorismo Qualificado são elegíveis projectos que promovam a inovação no tecido empresarial através do estímulo ao empreendedorismo qualificado, incluindo o empreendedorismo feminino. Serão abrangidos investimentos na criação de empresas ou projectos de empresas nascentes (até 3 anos), classificadas como PME, dotadas de recursos humanos quali ficados ou que desenvolvam actividades em sectores com fortes dinâmicas de crescimento. As candidaturas podem ser entregues até 30 de Janeiro. | Quanto à Produção de Novos Bens e Serviços, cujas candidaturas estão abertas até 29 de Janeiro, visa por seu lado apoiar projectos de produção de novos bens e serviços, assim como a adopção de novos processos e a expansão de capacidades em actividades com dinâmica de crescimento. Os projectos candidatos deverão promover a inovação no tecido empresarial, pela via da produção de novos bens, serviços e processos que suportem a sua progressão na cadeia de valor e o reforço da sua orientação para os mercados internacionais. Podem ser apoiados projectos que promovam a produção de novos bens e serviços ou melhorias significativas da produção actual através da transferência e aplicação de conhecimento, a adopção de novos, ou significativamente melhorados, processos ou métodos de produção, de logística e distribuição, bem como métodos organizacionais ou de marketing e a expansão de capacidades de produção em actividades de alto conteúdo tecnológico ou com procuras internacionais dinâmicas. Até 1 de Fevereiro é possível ainda concorrer ao Sistema de Incentivos à Investigação e Desenvolvimento Tecnológico – Projectos de I&DT Empresas Individuais e em Co-Promo ção, que visa intensificar o esforço nacional de I&DT e a criação de novos conhecimentos com vista ao aumento da competitividade das empresas, promovendo a articulação entre estas e as entidades do SCT. Os projectos a apoiar deverão ser promo vidos por empresas e compreender actividades de investigação industrial e/ou de desenvolvimento experimental, conducentes à criação de novos produtos, processos ou sistemas ou à introdução de melhorias significativas em produtos, processos ou sistemas existentes. Enquadram-se neste sistema de incentivos os projectos individuais e em co-promoção. No entanto, no caso da região de Lisboa, não deverão ser incluídos investimentos a realizar noutras NUT II. Novos concursos em breve Brevemente estarão também abertos novos concursos para candidaturas, nomeadamente nas áreas dos Equipa mentos Escolares e Valorização Territorial. O objectivo da CCDR-LVT é ter as candi daturas todas abertas até Junho de 2008. Os avisos de abertura, legislação e formulá rios relativos a estes incentivos podem ser consultados no sítio da Internet do PORLisboa – www.porlisboa.qren.pt – do QREN – www.qren.pt – do Programa Operacional Factores de Competitividade – www.pofc. qren.pt – bem como na página da AMA – Agência para a Modernização Administrativa, IP – www.ama.pt, no caso do SAMA. POR Lisboa tem sítio na internet Já está on line a página de Internet do Programa Operacional Regional de Lisboa (PORL). A página, disponível através do endereço http://www.porlisboa.qren.pt, contém informações úteis sobre regulamentos e vai disponibilizar em breve também os formulários de candidatura. Neste sítio pode ainda descarregar o documento completo do programa operacional, que vai orientar a aplicação de fundos comunitários na região até 2013, no âmbito do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN). Para mais informações sobre o QREN, pode ainda consultar www.qren.pt e www.incentivos.qren.pt. PORLVT cumpre «N+2» O Programa Operacional Regional de Lisboa encerrou 2007 com resultados de execução muito positivos, tendo cumprido a regra «n+2» nos três fundos comunitários. O Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) foi fechado a 20 de Dezembro com 90,8 milhões de euros executados, com mais 6 milhões de euros do que o necessário para cumprir a regra «n+2», um requisito exigido pela Comissão Europeia. Quanto ao Fundo Social Europeu (FSE), a última certificação de despesas de 2007, reportada a 31 de Outubro, revela que o valor de execução necessário para cumprir a «n+2» já tinha sido ultrapassado, à data, em 15,3 milhões de euros. O Fundo Europeu de Orientação e Garantia Agrícola (FEOGA) também ultrapassou os valores de despesa exigidos por Bruxelas. A regra «N+2» dos regulamentos comunitários determina que os pedidos de pagamento à Comissão Europeia relativos à programação orçamental de um determinado ano («n») têm de ser apresentados até ao fim do ano «n+2», sob pena de perda da dotação financeira não executada nesse ano. Conferência das Regiões Periféricas e Marítimas da Europa em Lisboa Globalização e Coesão: CRPM promove seminário em Lisboa Depois de ter acompanhado junto da Comissão Europeia a criação de uma política marítima integrada, e de ter feito esforços para incluir no tratado da União Europeia referência à coesão territorial e ao papel das regiões, a Conferência das Regiões Periféricas e Marítimas da Europa (CRPM) alarga a sua experiência aos cinco continentes. A última reunião do Conselho Científico, que a CCDR-LVT acolheu em Lisboa entre 3 e 4 de Dezembro, serviu para ouvir relatar experiências de diversas regiões. – da Bretanha a Gorontalo na Indonésia – que procuram ter um papel activo no crescimento da economia e na melhoria da qualidade de vida das suas populações. O encontro, que contou com a participação de uma centena de representantes de regiões, instituições comunitárias, Nações Unidas, Organização para a Cooperação e Desenvol vimento Económico (OCDE), organizações de cooperação e investigadores universi tários, foi mais um passo na discussão de uma futura política global de coesão, partindo da experiência da União Europeia. «Temos de encontrar normas comuns para o ordenamento do território, assim como existem para o ambiente», referiu ainda Xavier Gizard, secretário-geral da CRPM, na sessão de encerramento do conselho. O Conselho Económico e Social das Nações Unidas assumiu o desenvolvimento territorial como uma prioridade até 2010, processo que está a ter o apoio e acompanhamento da CRPM. «Temos de criar mais planos de acção e investir na capacity-buiding das regiões», sublinhou o secretário-geral. Abdourahim Agne, ministro da MicroFinança e Cooperação Descentralizada do Senegal, salientou que os meios financeiros são, no entanto, essenciais para concretizar boas experiências de comunicação. Por outro lado, referiu a falta de comunidades locais, nomeadamente em África, que possam ser as interlocutoras dos processos de coesão territorial. Na sessão de abertura, a 3 de Dezembro, Valente de Oliveira, presidente do Conselho Científico, sublinhou a necessidade de «sair do contexto europeu e partir para o contexto global, com todas as suas complexidades». António Fonseca Ferreira, presidente da CCDR-LVT, salientou a ligação de Portugal e das regiões portuguesas à fundação e projectos da CRPM e saudou o esforço que a organização tem feito em criar uma governança para o fenómeno da globalização. As conclusões deste seminário constituirão a base da 2ª Convenção Internacional para uma Abordagem Regional da Governança e do Desenvolvimento, que decorrerá em Tânger entre 12 e 14 de Maio deste ano. O Conselho Científico da CRPM, em Lisboa, realiza-se na sequência da criação do FOGAR – Fórum Global das Redes de Regiões e da assinatura de um acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP) visando a concretização dos Objectivos do Milénio. A realização do encontro em Lisboa enquadrou-se na Presidência Portuguesa da União Europeia, que terminou no final de 2007. A Conferência das Regiões Periféricas e Marítimas da Europa (CRPM) foi fundada em Saint Malo (Bretanha), em Junho de 1973. Agrupa actualmente 159 regiões de 28 Estados, membros ou não da União Europeia, organizadas em seis comissões geográficas: Comissão Arco Atlântico; Comissão das Ilhas; Comissão Intermediterrânica; Comissão Mar do Norte; Comissão Mar Báltico e Comissão dos Balcãs e Mar Negro. | I Encontro Interregional da MARE na Moita Acções de mobilidade inovam na região O «Rodinhas», um mini-autocarro que faz a ligação entre a Portela e a estação ferroviária de Moscavide, no concelho de Loures, está a mudar os hábitos naquela zona da cidade. Este novo meio de transporte, que parte da estação a cada 15 minutos e em boa parte do percurso pára a pedido dos passageiros, sem paragens fixas, veio suprir uma lacuna na mobilidade dos moradores. Trata-se de um projecto promovido pela Câmara Municipal de Loures, com o apoio da Rodoviária de Lisboa e da CP, e apoiado no âmbito da MARE-Mobilidade e Acessibilidade Metropolitana nas Regiões do Sul da Europa (Operação Quadro Regional), que teve o seu primeiro Encontro Em parceria com a Ordem dos Economistas CCDR-LVT promove conferências internacionais | Interregional na Moita, no passado dia 24 de Setembro. – Novos sistemas e serviços informativos para a mobilidade no Sul da Europa. O encontro pretendeu fazer um ponto de situação sobre os cinco sub-projectos a decorrer no âmbito da MARE. No caso do «Rodinhas», está integrado no Sub-projecto ACFER – Acessibilidade às Estações Ferroviárias. A MARE (Operação Quadro Regional) é financiada ao abrigo do FEDER do PIC INTERREG III C – Espaço Sul e propõe-se encontrar novas soluções para os problemas da mobilidade e acessibilidade nas regiões parceiras, nomeadamente nas regiões de Lisboa (CCDR-LVT, parceiro português/Chefe de Fila), Ligúria (Município de Génova, Itália) e Comunidade Valenciana (Departamento de Infra-estruturas e Transportes da Região de Valência, Espanha). Os cinco sub-projectos em curso, no âmbito da MARE, envolvem 22 parceiros, entre eles municípios e operadores de transportes públicos, em torno de uma melhor mobili- dade. Além do ACFER e do MobQua, estão em curso os sub-projectos TRAMO – Transporte Responsável, Acções de Mobi lidade e Ordenamento, Flexis – Serviços Flexiveis para o Sul da Europa e e-Mobility O economista norte-americano Richard Florida será um dos convidados do ciclo internacional de conferências que a CCDRLVT promove este ano, em parceria com a Ordem dos Economistas. O objectivo é promover a reflexão sobre os desafios contemporâneos do desenvolvimento regional, que são também, cada vez mais, desafios globais. Mais informações em http://www.mare. ccdr-lvt.pt/ O ambiente e o planeamento energético, os factores de crescimento das cidades e regiões, a coesão social, a tecnologia e o papel das regiões num mundo globalizado vão ser alguns dos temas em destaque nesta iniciativa, que se realizará na Fundação Calouste Gulbenkian e deverá contar, entre outros, com a presença do sociólogo francês Michel Bonetti e de Pasqual Maragall, ex‑presidente da Generalitat da Catalunha. Administração Regional Hidrográfica A Comissão Instaladora da Administração da Região Hidrográfica do Tejo, I.P. (ARH do Tejo, I.P.) está já a funcionar nas instalações da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT), na rua Braancamp, n.º 7, em Lisboa. A ARH do Tejo, I.P. vai ter a seu cargo a gestão dos recursos e do domínio hídricos, no que diz respeito às águas interiores, de transição – estuários, assim como às zonas costeiras da região, que engloba toda a bacia portuguesa do rio Tejo e as bacias das ribeiras do Oeste. Manuel Lacerda e Nunes dos Santos foram nomeados, por despacho conjunto dos Ministros de Estado e das Finanças e do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional, respecti vamente, presidente e vice-presidente da Comissão Instaladora deste novo organismo. Caberá à ARH do Tejo, I.P., cuja criação foi prevista na Lei da Água, proteger e valori- zar as componentes ambientais das águas, bem como proceder à gestão sustentável dos recursos hídricos. Será ainda respon sável por criar planos específicos de gestão das águas, zelar pelo seu estado e aplicar o regime económico-financeiro nas bacias de cada área de jurisdição. Paula Cristina Cunha Vice-Presidente da CCDR-LVT Filipe Jorge, Argumentum Comissão Instaladora já está a trabalhar Mudança e Desenvolvimento 10 anos de projectos na região Paula Cristina Cunha, 42 anos, assumiu funções no dia 12 de Novembro como vicepresidente da CCDR-LVT, em substituição de Eurídice Pereira, que tomou posse como Governadora Civil do Distrito de Setúbal a 19 de Setembro. A nova vice-presidente, que actualmente detém o cargo de Directora dos Serviços de Desenvolvimento Regional da CCDR-LVT, vai acumular as funções nas áreas do planeamento estratégico e desenvolvimento regional com a área da gestão. Paula Cristina Cunha é licenciada em Sociologia pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, especializada como «Técnica de Desenvolvimento Organizacional», tendo uma pós-graduação em Gestão Autárquica pelo Instituto Superior de Gestão. Exerce funções dirigentes na Administração Pública ininterruptamente há 15 anos (áreas de administração financeira, recursos humanos, planeamento estratégico, organização e gestão, turismo e actividades económicas), dos quais onze como directora de serviços e é assessora principal da carreira técnica superior. A CCDR-LVT acaba de lançar o livro Mudança e Desenvolvimento, que faz um balanço dos principais projectos apoiados pelo Programa Operacional Regional de Lisboa e Vale do Tejo e que contribuíram para mudar a face da região na última década. A obra, produzida pela Argumentum – Edições, Estudos e Realizações, tem coordenação editorial e fotografia do arquitecto Filipe Jorge. Da parte da CCDR-LVT, a coordenação geral é de António Fonseca Ferreira, António Marques e José Moura de Campos. O livro revela por imagens a transformação que a região sofreu com a enorme diversidade de projectos apoiados por fundos comunitários, desde projectos de construção e recuperação de auditórios, bibliotecas e escolas a projectos de requalificação urbana e ribeirinha, que contribuíram para qualificar a paisagem e cultura dos 51 municípios da região, entre eles referências emblemáticas como o Parque Almourol ou as intervenções realizadas no âmbito do programa Polis em Setúbal, Costa de Caparica, Cacém e Tomar. | European Community©, 2007 Danuta Hübner Comissária Europeia da Política Regional «Espero que este programa operacional tenha um forte impacte no crescimento da região de Lisboa» Quais deverão ser, na sua opinião, as grandes prioridades da região de Lisboa nos próximos anos? A estratégia actual tem um forte enfoque no crescimento e no emprego, factores que poderão potenciar uma mudança na região. É muito claro o enfoque no conhecimento e na inovação, na competitividade económica, importantes elementos do Programa Operacional, mas também a aposta em sectores como os transportes sustentáveis e o investimento no desenvolvimento sustentável ou na reciclagem. Estas são também as grandes prioridades europeias, e pensamos que poderão ter um grande impacte no crescimento desta região, accionando as forças da inovação, da competitividade e conhecimento. Espero que este programa tenha um grande impacte no crescimento e desenvolvimento de capacidades na região. Considera que a «Lisboa 2020 – Uma Estratégia de Lisboa para a Região de Lisboa» foi bem desenhada? Estamos muito satisfeitos com as prioridades que foram estabelecidas. Encontrámos um grande entendimento quando definimos as prioridades para os próximos anos no financiamento europeu. Estamos muito optimistas em relação aos próximos anos e em relação ao enfoque que está a ser dado nos factores que podem ultrapassar os obstáculos ao crescimento. Como é que outras regiões europeias fizeram para continuar a crescer com menos fundos europeus? 10 | European Community©, 2007 Portugal já recebeu cerca de 50 mil milhões de euros desde que aderiu à União Europeia e vai receber ainda mais cerca de 21 mil milhões até 2013. Pensamos que houve muitas oportunidades criadas e que Portugal tem agora as condições para passar para a etapa seguinte do seu desenvolvimento. O desafio para Portugal é definir melhor as suas prioridades, reduzindo o investimento nas infra-estruturas para apostar mais em suplantar o gap de inovação e desenvolvimento tecnológico em relação à UE, com um forte investimento no sistema educativo, por exemplo. A mudança de prioridades com basicamente a mesma quantidade de fundos significa que Portugal tem agora outra grande oportunidade de investir no seu futuro. A Europa é cada vez menos a Europa dos Estados-nação. Qual o papel das regiões numa Europa mais federalista? Temos três níveis de decisão, o europeu, o nacional e o regional/ local. A Declaração de Berlim decidiu que a União Europeia tem de partilhar o poder de decisão por estes três níveis. Todas as grandes mudanças no mundo, como a globalização e as alterações climáticas, têm impacto distinto em diferentes regiões. Daí que precisemos de procurar soluções diferenciadas para problemas comuns, e daí que o nível da região seja tão importante nas decisões. O nível sub-nacional é determinante. A inovação, por exemplo, não depende directamente de uma decisão europeia ou nacional, mas das forças de crescimento e mudança que se desenvolvem no seio das regiões, das parcerias que se estabelecem e do apoio que surge por parte dos actores regionais. Qual é o balanço que faz dos Open Days deste ano? Sempre me interroguei porque é que as regiões portuguesas não teriam muita presença neste evento, e fiquei feliz por ver que este ano foi diferente. É muito importante podermos confrontar a nossa competitividade, as nossas forças e fraquezas com outras regiões e países. Acho que este ano se notou uma mudança clara em relação às regiões portuguesas. A presença de Portugal neste tipo de eventos tem vindo a evidenciar-se? Temos verificado que Portugal tem uma atitude cada vez mais aberta em relação à União Europeia e tem cada vez maior participação em programas transnacionais e projectos interregionais de cooperação, o que é um factor adicional de mudança. O que achou do tema escolhido, «A Água como Factor de Competitividade»? As zonas costeiras têm uma grande importância para um país como Portugal. Além disso, no âmbito das políticas europeias, tem havido um forte investimento na protecção dos recursos hídricos nas últimas décadas em Portugal. Achamos que Portugal poderia ter um papel determinante face à sua situação geográfica no contexto europeu e à sua ligação ao mar. Pensamos uma das grandes forças de Portugal pode ser esta proximidade ao mar e esta vivência das zonas costeiras. | 11 O mistério dos comerciantes que não querem vender Opinião | Fernanda Câncio 12 | Fotografia | Câmara ardente, produções fotográficas Inox rasca, azulejos de casa de banho, cadeiras de plástico, montras atabalhoadas, remodelações desastrosas, horários de há cinquenta anos. Desculpando-se com «a desertificação», «a crise do consumo» e a alegada «concorrência desleal» dos centros comerciais, muitos – a maioria? – dos estabelecimentos ditos «tradicionais» do centro de Lisboa parece fazer um esforço sincero para afastar clientes . À espera de quê? | 13 E m tempos, numa das esquinas da baixa, na rua da Prata ou dos Fanqueiros, existia uma loja com uma característica única: tinha montras em vidro abaulado. Montras redondas, portanto, memória de um estilo art-deco e de um tempo em que as lojas se desenhavam para serem diferentes e não iguais. Não sei que tipo de loja teria sido o da original, mas as montras magníficas permaneciam, milagrosamente intocadas décadas fora. Até que, em 2003 ou 2004, o estabelecimento fechou para obras. E, um belo dia, as montras redondas tinham desaparecido, substituídas por vulgaríssimas montras planas. Porque tinha de ser? Porque o vidro abaulado não cumpria a sua função? Porque a instalação do comércio em causa exigia montras planas? Não. A loja que abriu ali nada tem de extraordinário e tudo ficou mais ou menos como era. Mas, quem «desenhou» a transformação quis fazer igual. Uma loja igual às outras, uma esquina igual às outras. Anular a diferença. Destruir, numa palavra. Este exemplo é apenas simbólico no seu carácter gratuito. Decerto que nenhum instituto do património arquitectónico classifica montras de vidro dos anos 40 ou 50. Não são propriamente monu- mentos. São só coisas bonitas e especiais estupidamente estra gadas para dar lugar a coisas indistintas e banais. E isto passa-se todos os dias, há décadas, no comércio português, sem que, aparentemente, algo (regulamentos, leis, incentivos à conservação) o impeça. 14 | A estética dos estabelecimentos portugueses será aliás e para sempre um irresolúvel mistério para qualquer cidadão que tenha dado umas voltas pelo mundo. Donde virá o fascínio pelas portas de inox, o apego aos brilhantes, brancos (e broncos) azulejos e às luzes fluorescentes? Donde virá a irreprimida vontade de destruição de tudo o que é diferente e único? Do mesmo sítio, decerto, daquilo que faz com que na generalidade dos cafés e pastelarias sejam iguais os bolos, as sandwiches, o pão, o queijo flamengo, o fiambre fiambrino, o presunto ressequido, a manteiga planta, os folhados engordurados e os croquetes endurecidos, como se não houvesse mil outras possibilidades e a gastronomia portu- guesa (para não falar das outras) não permitisse outras variações. Como se não houvesse pães e queijos e enchidos nacionais muito mais atractivos que aquilo, e como se não houvesse procura de novidade e qualidade. Não: esforço nenhum, atenção nenhuma. «Não se vende», ou «As pessoas não querem isso», responde o gerente, como se soubesse do que fala, como se tivesse corrido mundo, como se se informasse do que as pessoas querem e do que são «as tendências», para a seguir se queixar «do negócio que está mau». Por causa dos centros comerciais, claro, e da crise, claro, e «da desertificação do centro», claro, mas nunca por causa das opções erradas que o próprio gerente tomou. Não, nunca, por sua culpa. Mas isso é lá possível, a responsabilidade individual. Há-de haver sempre uma conjuntura maléfica para explicar a decadência do comércio dito «tradicional» – que não a tradição de imobilismo e burrice da maioria dos comerciantes, a sua fascinante ausência de mundo, a sua impagável falta de sofisticação. Estou a ser injusta? Olhemos então à volta. Quarteirão a quarteirão, o centro tem sido selvaticamente desfeado. Arcos pombalinos cortados para dar lugar a montras quadradas, pedras originais tapadas com granito ou mármore, mobiliário nobre substituído por balcões de metal e vidro à dúzia e mesas e cadeiras de plástico num furor de igualizar e banalizar. Quanto mais especial e caracterís tica for a arquitectura da zona, mais certo é que as «adaptações» ou, pior, as «modernizações» queiram transformar o espaço numa espécie de geminação com o café dos pirolitos, em Massamá, ou o pronto-a-vestir homem mulher e criança de Carnaxide. Que ideia, respeitar os materiais e o espírito de um edifício ou de um bairro. Que disparate, manter o mobiliário. O mais extraordinário nisto nem será talvez o mau gosto, mas a estultícia económica: é que se gasta dinheiro, com este tipo de intervenção. A ideia de fazer «novo» e «moderno» parece porém demasiado atractiva para se intrometer na lógica do custo/benefício. É ver então os comerciantes portugueses a deitar fora aquilo por que outros pagam fortunas: relíquias com décadas, ambientes especiais, o charme do antigo. Qual quê. Este extraordinário e obstinado autismo, tão óbvio nas «remodelações» e apropriações de espaços, prolonga-se em todas as etapas da relação com os clientes, a começar pela fixação de horários. Como se fosse a si próprios e não a outros que visassem agradar e atrair, donos de cafés e pastelarias, lojas de roupa e lingerie, imitam os bancos no seu afã igualizador: se um balcão deve ser rigorosamente idêntico a outro, seja numa zona com três séculos ou numa nova urbanização, com horários rigorosamente alinhados, por que raio hão-de os comerciantes de pensar diverso? Aos dias de semana a partir das sete da tarde e aos fins de semana todo o dia, a zona do Marquês de Pombal, em Lisboa, é um deserto. «Ferreira do Alentejo», chamou-lhe numa crónica a jornalista do DN Ana Sá Lopes. Tal qual: no centro da cidade, onde tantas empresas estão sediadas e onde estão situados tantos hotéis – e onde tanta gente vive, apesar do que se diz – encontrar um café ou uma loja abertos (à excepção, obviamente, das «novas» lojas, como a Louis Vuitton, a Dolce & Gabanna, a Trussardi, a Tod’s ou a Timberland e o centro comercial do Tivoli, todos abertos ao sábado à tarde, e nos quais ninguém pensa quando fala de «comércio tradicional», apesar de serem lojas de rua como as outras) fora dos ditos «dias e horas de expediente» é uma tarefa ciclópica. O mesmo se passa nas chamadas avenidas novas: raros são os cafés abertos ao fim de semana, raras as lojas de porta para a rua que ponderaram alterar os horários de há 40 anos para outros mais compatíveis com os «novos» (com pelo menos 15 anos) ritmos urbanos. As coisas estão a mudar? Sim, estão: com a pressão do «inimigo», sobretudo – sendo o inimigo declarado aquilo a que se dá o nome de «grandes superfícies», mas, na verdade, correspondendo com mais probabilidade a comércios como a Zara, que com a sua política de horários, preços e trocas esmaga facilmente a concorrência. Mas também com a lenta substituição dos velhos comerciantes. Não necessariamente por novas lojas – coisa que, de resto, está a acontecer a um ritmo preocupante (o ideal seria que os velhos estabelecimentos, de cafés a retrosarias, fossem capazes de evoluir | 15 (…) encontrar um café ou uma loja abertos (à excepção, obviamente, das «novas» lojas, como a Louis Vuitton, a Dolce & Gabanna, a Trussardi, a Tod’s ou a Timberland e o centro comercial do Tivoli, todos abertos ao sábado à tarde, e nos quais ninguém pensa quando fala de «comércio tradicional», apesar de serem lojas de rua como as outras) fora dos ditos «dias e horas de expediente» é uma tarefa ciclópica. miseráveis. Ou seja, competem com os novos comércios com muito melhores condições objectivas: já estão nos bons sítios e por nada, tendo apenas os salários dos empregados e os produtos como despesa base. e de se aguentar) – mas por gerentes frescos. Aqui e ali, um espírito novo aparece, provando que é possível manter o mesmo negó cio, no mesmo sítio, com outra atitude. Mercearias que fazem obras para recuperar traças antigas, oferecem produtos de qualidade rebuscada, abrem ao sábado à tarde e têm serviço de entrega; lojas de tecidos que criam ateliers de costura para permitir um serviço global; artesanatos antigos que se reciclam em ofertas modernas (como o de sapatos à medida). A incapacidade de adequação à procura é, de resto, tanto mais difícil de entender quanto a maioria dos comércios mais antigos ocupam espaços nobres, muito bem situados, e pagam rendas 16 | É por esse motivo ainda mais (sê-lo-ia sempre) incompreensível que os representantes dos comerciantes ameacem juntar-se a uma greve geral convocada pelos sindicatos, imputando ao Estado/ governos a responsabilidade pela perda alegada, nos últimos cinco anos, de 250 mil empregos no sector. Não fazendo ideia de como se chegou a este número, e partindo do princípio de que é fiável, não se pode deixar de concluir que a ser verdadeiro aponta o dedo, antes de mais, aos próprios comerciantes. Que fizeram para evitar isso? Desculpam-se com «a crise» (do consumo, natural mente) e com a guerra que «as grandes superfícies» lhes fazem? O argumento é contraditório: afinal, as pessoas continuam a comprar, mas noutros lados. Se assim é, não deviam os «pequenos» comerciantes ter mudado a sua atitude, oferecendo aquilo que os grandes não podem oferecer – proximidade, ambiente, produtos especiais ou costumados, e tudo isto em horários compatíveis? Custa dinheiro abrir ao sábado e ao domingo? Decerto. Custa dinheiro ter produtos bons? Com certeza. Dá trabalho mudar de perspectiva e tentar perceber o mercado em vez de esperar que o mercado mude? Não há dúvida. Mas se calhar custa mais fechar. A não ser que, afinal, não custe assim tanto – há sempre uma coisa obscena chamada trespasse, em que o imobilista é compensado à conta de ter ficado imóvel. | 17 Entrevista | Carla Amaro Fotografia | Pedro Soares José Eduardo Carvalho Presidente da direcção da NERSANT, Associação Empresarial da Região de Santarém Licenciado em sociologia e depois de um curto percurso no ensino, decidiu fazer carreira no mundo dos negócios. Tinha 28 anos quando deixou de dar aulas no ISCTE, em Lisboa, para se tornar empresário em Torres Novas. Está há 13 anos à frente da quarta maior associação empresarial do país em número de associados, mas garante que daqui a dois anos, altura em que terminará mais um mandato, «dará» o lugar a outra pessoa. Cansado de «remar contra a maré», José Eduardo Carvalho espera ver desbloqueados os entraves que atrasam a conclusão de projectos importantes para o desenvolvimento e compe titividade da região: o Parque de Negócios, o Parque Almourol, o Plano de Inovação. E depois de 2013, conseguidas as mais-valias da integração da Lezíria e do Médio Tejo no Programa Operacional Regional do Alentejo (no âmbito do actual quadro comunitário de apoio), sonha com a integração da sua região na zona do litoral Oeste. 18 | | 19 Na altura em que foi aplicado o phasing out [transição da região da Lisboa e Vale do Tejo do objectivo I para o objectivo II], disse que a Lezíria e o Médio Tejo são os parentes pobres da Área Metropolitana de Lisboa (AML). Mantém essa opinião? Proferi essa declaração porque estas duas NUTS [Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos] foram seriamente prejudicadas no acesso aos fundos comunitários com a aplicação do phasing out e nesse sentido não há dúvidas que a Lezíria e o Médio Tejo foram os parentes pobres da AML. E se porventura as autarquias conseguiram atempadamente encontrar programas e intervenções para compensar as consequências mais nefastas do phasing out, o mesmo não sucedeu com as empresas. Toda a região lutou em vão contra esta medida. Mas com a entrada deste Governo a situação resolveu-se em 15 dias. Há quem diga que com a globalização as marcas pouco significado têm para o crescimento e para o desenvolvimento das regiões. Em certa medida, concordo com esta tese. A Renova venderá mais papel higiénico se a associarem à marca Ribatejo? Não creio. A Compal venderá mais sumos se a identificarem com a marca Ribatejo? Não creio. Eventualmente, serão dois os sectores que podem beneficiar com a afirmação da identidade territorial: o turismo e, eventualmente, o vinho. A necessidade de consolidar a marca Ribatejo surgiu na sequência da integração das NUTS Lezíria do Tejo e Médio Tejo noutra região. Tivemos necessidade de saber qual o sentimento da população sobre a identidade deste distrito. A marca Ribatejo foi a que reuniu maior concenso. Nesta fase, reafirmar esta marca como identidade territorial seria importante, mas não creio que a CCR do Centro e a CCR do Alentejo estejam dispostas a isso. É positivo neste momento estarmos no Alentejo porque estamos nas NUT de objectivo I, ou seja, estamos nas regiões plano de objectivo I, o que nos dá acesso a um conjunto de instrumentos financeiros que não teríamos se ficássemos na Área Metropolitana de Lisboa ou ligados à Região de Lisboa e Vale do Tejo. Mas do ponto de vista da estratégia e do desenvolvimento, a partir de 2013 penso que a Lezíria e o Médio Tejo não deviam ficar irreversivelmente integradas em regiões que não fosse a sua região natural: o Oeste. Sou favorável a uma unificação da Lezíria, do Médio Tejo e do Oeste. Concretamente, que prejuízos tiveram estas duas NUTS? Porquê? Desde logo, ao nível da captação de investimento, da modernização das empresas, do crescimento da sua competitividade. Durante três anos as empresas desta região foram seriamente afectadas por essa medida que vigorou no quadro comunitário anterior. Não é possível avaliar as consequências que, neste momento, ainda se fazem sentir pelo facto de termos estado tanto tempo com quebras de investimento muito acentuadas na região. Porque a integração não está a ser fácil. Tanto de um lado como do outro, as pessoas sabem que estão a servir de barriga de aluguer. Os principais actores – as CCR, os autarcas, as associações empresariais –, por um lado, respeitam a nossa integração e têm algum receio da dinâmica e coesão que aqui existe (temos alguma parceria público-privada com capital); por outro lado, preferem uma integração dentro dos seus planos de desenvolvimento estratégico. Esta região conseguiu alcançar a meta que definiu nos últimos anos, a de consolidar a marca Ribatejo no mercado. Até que ponto o sucesso de um produto advém da associação que se faz à região onde é produzido? Preferia a integração na região do Oeste? 20 | Prefiro estar incluído ou trabalhar numa parte menos rica de uma região rica do que numa parte mais rica de uma região pobre. A Área Metropolitana de Lisboa e a região de Lisboa e Vale do Tejo, pela sua força e motor de desenvolvimento, têm mais vantagem para nós. Se a sociedade portuguesa evoluir política e administrativamente para a criação de estruturas regionais que alterem por completo o sistema centralizado em que vivemos, será inevitável a integração da Lezíria e do Médio Tejo na região do Oeste. Dificilmente será outra coisa. Que mais-valias o Oeste poderá trazer à Lezíria e ao Médio Tejo? Por exemplo, desenvolvimento regional por via do turismo, que será um dos sectores que mais crescerá em Portugal. O potencial é enorme. Oeste. E que fosse racionalizadora dos investimentos e unificadora da estratégia destas três NUT. Acho que lhe dava coerência e não seria fracturante. É positivo neste momento estarmos no Alentejo porque estamos nas NUT de objectivo I, ou seja, estamos nas regiões plano de objectivo I, o que nos dá acesso a um conjunto de instrumentos financeiros que não teríamos se ficássemos na Área Metropolitana de Lisboa ou ligados à Região de Lisboa e Vale do Tejo. Mas do ponto de vista da estratégia e do desenvolvimento, a partir de 2013 penso que a Lezíria e o Médio Tejo não deviam ficar irreversivelmente integradas em regiões que não fosse a sua região natural: o Oeste. Sou favorável a uma unificação da Lezíria, do Médio Tejo e do Oeste. E o que beneficiaria o Oeste? Há bocado aflorou a questão da regionalização. Acha que está na altura do país voltar a falar do tema? Desde já, beneficiaria com o nosso aporte de desenvolvimento nas áreas agro-alimentar e energia (estão aqui os maiores produtores nacionais no domínio energético). Neste distrito existe um conjunto de grandes empresas com um VAB [Valor Acrescentado Bruto] extremamente importante, que o Oeste não tem. Acho que faz todo o sentido. Sempre fui a favor da regionalização. Existem bons e maus exemplos de regionalização em toda a Europa, mas acredito que se houver o cuidado de racionalizar os custos do Estado, evitando que ganhe maior expressão do que a que tem, a regionalização seria benéfica para o país. O que é preciso é reduzir o défice orçamental. 60% do eleitorado português (cinco milhões de pessoas) vive do orçamento geral do Estado. A situação é de tal maneira grave que é impossível que continue por muito mais tempo. Não está satisfeito com a integração no Programa Operacional Regional do Alentejo no actual quadro comunitário de Apoio? Do ponto de vista da optimização dos fundos estruturais julgo que a integração no Alentejo foi uma boa medida, se for experimental. Se for irreversível e se resultar numa divisão deste distrito a partir de 2013, discordo. Acho que se devia implementar o que está previsto: uma entidade que integrasse os três planos estratégicos que estão a ser feitos no Médio Tejo, na Lezíria do Tejo e no Mas Portugal é pequeno. Fragmentá-lo em regiões administrativas tornaria mais célere o «andamento» dos processos? Portugal é pequeno, mas está muito centralizado. O excesso de cen tralização não funciona e é prejudicial para o desenvolvimento. | 21 Veja o que acontece na áreas da inovação e da competitividade, ferramentas importantes para o sucesso de qualquer empresa. Nos países descentralizados, os grandes grupos económicos não necessitam de ter estruturas de desenvolvimento tecnológico porque eles próprios fazem as investigações. Mas isso é impensável no caso das PME [Pequenas e Médias Empresas]. Em Portugal é preciso criar estruturas (centros tecnológicos, centros de competências, por exemplo) que façam a intermediação entre as necessidades de desenvolvimento e inovação das pequenas e médias empresas e as universidade ou centros de saber. Nos países onde existe uma maior descentralização político-administrativa, os orçamentos regionais financiam os centros de investigação através de apoios muito grandes às empresas. Aqui não temos nada disso. mais-valias e riquezas criadas na economia. Precisamos de alterar tudo isto. Neste momento vivemos num dilema: ou o milagre ou a falência. O que impede esta região de captar investimento? Não é essa a ideia subjacente ao projecto dos Parques de Negócios? Esse é o objectivo, mas é normal que os investimentos acabem por fluir para regiões onde existem valorização e qualificação da mão-de-obra e uma política fiscal mais competitiva, como é o caso em Espanha. O Parque de Negócios é um investimento importante, só as infraestruturas implicam um gasto de 100 milhões de euros. Ou seja, temos 100 milhões de euros para investir há cinco anos e não conseguimos porque existem entraves aos licenciamentos. As tramitações processuais dos planos de pormenor, em Sempre fui a favor da regionalização. Existem bons e maus exemplos de regionalização em toda a Europa, mas acredito que se houver o cuidado de racionalizar os custos do Estado, evitando que ganhe maior expressão do que a que tem, a regionalização seria benéfica para o país. O que é preciso é reduzir o défice orçamental. 60% do eleitorado português (cinco milhões de pessoas) vive do orçamento geral do Estado. A situação é de tal maneira grave que é impossível que continue por muito mais tempo. Mas projectos não faltam. Um dos mais ambiciosos é a construção nesta região de cinco áreas de localização empresarial. Em que fase estão os Parques de Negócios? Estamos a perder investimentos para as regiões de Cáceres e de Badajoz devido aos apoios que os governos regionais espanhóis estão a dar às sociedades que gerem áreas idênticas às nossas. Apoios directos à venda de terrenos. A competitividade, o desenvol vimento das regiões consegue-se através da captação de investimentos, que passa por medidas como as criação de isenções fiscais, de incentivos, e, neste aspecto, os governos regionais em Espanha estão a dar cartas de como se pode correlacionar positivamente a descentralização com o aumento da competitividade pela atracção de investimento. O Estado português chegou a um ponto que para sobreviver e para se manter suga por completo todas as 22 | que é necessário fazer pequenas alterações a dois ou três artigos do PDM [Plano Director Municipal], demoram, em média, cinco ou seis anos. Estes entraves têm prejudicado mais o desenvolvi- mento do país do que a própria legislação laboral. Quer dizer que o projecto está parado? Parado não está e vai ser concluído. Mas vai demorar. Temos que esperar cinco ou seis anos para fazermos investimentos que ultrapassam os 400 milhões de euros, porque primeiro é preciso, por exemplo, naturalizar uma linha de água quase inexistente mas que está protegida há 15 ou 20 anos pela carta de RAN [Reserva Agrícola Nacional, integra um conjunto de áreas que, pelas suas características morfológicas, climatéricas e sociais, maiores potencialidades apresentam para a produção de bens agrícolas]. Isto só em Portugal. São estes obstáculos que atrasam tudo. A área em Rio Maior, por ser mais pequena, vendeu-se em seis meses. E há mais um lote que está neste momento a ser instalado. Todos os outros aguardam. O que me revolta mais é saber que para investimentos semelhantes, dentro da mesma área e para o mesmo tipo de equipamentos, o Governo desbloqueia cem hectares de RAN e REN [Reserva Ecológica Nacional], em leite de cheia, para a plataforma logística da Castanheira. Aqui, demora cinco anos a encontrar forma de alterar o uso do solo para dar andamento aos projectos. Quantos postos de trabalhos vão ser criados com os Parques de Negócios? À volta de 6994 postos de trabalho, num prazo de 10 anos, que é o tempo previsto para a concretização do projecto. Vamos ter parques extremamente competitivos. O de Torres Novas tem uma localização privilegiada, basta colocarmos um lote à venda que em poucos dias vende-se, é impressionante. No Parque de Rio Maior, a possível deslocação do aeroporto poderá comprometer um pouco as expectativas. Essa é outra questão: não consigo conceber que não se leve em linha de conta todos os investimentos que foram projectados a contar com essa infraestrutura. As acessibilidades que foram prometidas deviam ser respeitadas, nomea damente o traçado desde a Castanheira até Rio Maior, porque deram expectativas a agentes económicos. São acessos fundamentais para segurar e atrair investimentos. De resto, não vejo como é possível alguém fugir neste momento a essas responsabi lidades. Demoramos seis anos a implementar este projecto inovador de parques, que agora se começa a desenvolver em todo o país, e é bom que se saiba que surgiu aqui. Infelizmente, os obstáculos aos licenciamentos e o excesso de questões ambientais laterais estão a atrasar os processos. O projecto Parque Almourol não lhe causa tantas dores de cabeça... O Parque Almourol resulta de uma parceria público-privada entre uma associação empresarial (NERSANT) e três autarquias (Constância, Vila Nova da Barquinha e Chamusca), cujos orçamentos eram os mais frágeis da região. Trata-se de um projecto intermunicipal que tem como objectivo transformar 12 quilómetros de margem de rio no principal parque de aventura e turismo activo no país. Que actividades estão previstas? É possível optimizar naquele espaço um conjunto de investimentos se se conseguir conjugar três factores: água, ar e terra. A água não é problema, porque temos os rios Zêzere e Tejo, este na sua parte mais estreita. No âmbito do Programa Vale Tejo, que tencionava recuperar e dinamizar as margens ribeirinhas do Tejo, andamos a ver qual seria a parte do rio mais interessante, pedimos a opinião de consultores... Assumido o objectivo de construir um parque de aventura e turismo, havia que decidir quais os equipamentos, como é que podíamos compatibilizá-los com a valorização urbana e ambiental e como é que iriam ser distribuídos e geridos. Outro aspecto relevante foi a constituição da Sociedade Parque Almourol, uma empresa mista que continua a gerir, com base no planea mento inicial, este puzzle de equipamentos. | 23 Que peças faltam para completar o puzzle? Ainda está de pé a intenção de construir um hotel? Dos investimentos importantes pensados na primeira fase do projecto, faltam algumas peças. Falta a limpeza da ilha, que está cheia de caniço. Falta fazer o percurso pedonal ribeirinho de 12 quilómetros, desde Constância até Vila Nova da Barquinha. Falta construir o parque de aventura e turismo. E falta a conversão do Castelo de Almourol em museu. O ideal é que tivesse sido feita desde o início, mas negociar com o IPPAR [Instituto Português do Património Arquitectónico] é complicado. E mais difícil ainda é juntar o IPPAR a militares [o castelo é propriedade do Exército Português]. Depois de muita luta, de muitos problemas, de muitas propostas, chegou-se a uma fase em que o próprio Museu Militar, em Lisboa, fez o projecto e o IPPAR finalmente aceitou. Sim, temos esse grande investimento turístico privado na calha, um hotel de quatro estrelas, em Vila Nova da Barquinha, na margem do rio Zêzere. Já devia estar numa fase mais avançada, mas também aguarda pelo processo de alteração do uso do solo. E os militares deram um parecer negativo à sua construção. A recuperação urbana dos prédios devolutos existentes ao longo do rio, em Vila Nova da Barquinha e Constância, será feita na segunda fase do Parque Almourol? Sim, através de parcerias público-privadas. Os privados constróiem, as câmaras cedem os terrenos e depois haverá uma repartição das mais-valias que serão criadas com a venda das construções Há a economia da banca, da distribuição, da energia e das telecomunicações, que ganham bom dinheiro e remuneram bem os seus accionistas; e há a economia das indústrias transformadoras, que criam mais emprego na estrutura empresarial, que estão mais expostas à concorrência do mercado internacional, que têm problemas diabólicos devido à contracção do investimento no mercado interno. Estas são as duas economias existentes em Portugal. Enquanto uma cresce, outra definha. Em que consiste a intervenção no castelo? Essencialmente, na reprodução da vida medieval no interior do castelo. Na principal torre, os visitantes terão oportunidade de ver como viviam, como dormiam, o que faziam os habitantes do castelo durante a Idade Média. É uma coisa aparentemente fácil, mas, na verdade, tão difícil de concretizar. Andamos há sete anos para realizar uma ideia que não necessita de mais de um milhão de euros. É também preciso definir em que termos se vai fazer a exploração e a gestão do museu. Estas questões estão todas por tratar e espero que não demorem mais sete anos. Penso que devia haver mais dinâmica por parte da instituição militar para acelerar o processo. É inacreditável que se possa levar 12 ou 13 anos para criar um museu como este. Não percebo esta apatia. 24 | para fins comerciais e residenciais. Até agora foram autorizadas duas ou três habitações com pouca densidade. Neste momento ainda existe muita degradação nalguns prédios, mas se visse o estado daquela zona antes da intervenção... parecia o Iraque bombardeado. A construção na Barquinha já foi anunciada, ao abrigo desta parceria público-privada, e agora vai a concurso. Outra grande aposta da associação que dirige é o Plano de Inovação. Em que fase se encontra? Depois da definição do projecto, da negociação das parcerias com as universidades e da negociação com as autarquias quanto à sua localização, encontramo-nos na fase de pré-apresentação de candidaturas ao QREN [Quadro de Referência Estratégico Nacional]. Em termos de investimento físico na área da inovação, já foi construído em Abrantes o edifício onde funcionará um centro tecnológico alimentar, que irá ocupar-se de quatro produtos: pimento, marmelo, azeite e enchidos e prestará apoio ao nível da informação aos produtores e empresas que trabalham com estes alimentos. Pretendemos também construir um Centro Tecno lógico de Materiais de Construção em Fátima, desenvolvido pelo departamento de materiais de construção do Instituto Superior Técnico de Lisboa. Na Carregueira, Chamusca, surgirá um Centro de Competência na área dos Resíduos e Ambiente, pela proximidade a infra‑estruturas de tratamento como os CIRVER [Centros Integrados de Recuperação, Valorização e Eliminação de Resíduos Perigosos]. Em Ferreira do Zêzere está prevista a construção de um Centro de Competências de Recursos Florestais e em Almeirim será criado um Centro Tecnológico Agro-Alimentar vocacionado para produtos frescos. Em primeiro lugar, pela unificação do movimento empresarial. Foi por os empresários não terem uma voz única que falhou a tentativa de criação da Confederação Empresarial de Portugal. Há neste momento necessidade de resolver três ou quatro questões para melhorar a situação das empresas. A legislação laboral deve ser revista em alguns aspectos. Mais do que o défice orçamental, o desafio actual é a competitividade e nesse sentido deviam criar-se programas de apoio directo às empresas para que pudessem fazer aquisições, fusões, exportar, internacionalizarem ‑se (existem instrumentos para isso: titularizações das dívidas, investimentos grupados, fundos de investimento imobiliário, capital de risco, garantias mútuas...). As dívidas do Estado aos privados devem ser saldadas (não consigo admitir que haja arbitrariedade fiscal para a cobrança de impostos se o próprio Estado não é célere no pagamento do que deve às empresas). Tudo isto até 2013? E que debilidades diagnostica na estrutura empresarial portuguesa? É perfeitamente viável. Não são estruturas muito grandes, cada uma implica um investimento que ronda um milhão de euros ou um milhão e cem mil euros. De resto, o objectivo vale bem o investi mento: criar desenvolvimento, know-how e competências próprias na região, porque o grande problema é que está tudo muito centrado em Lisboa, é trazer bons quadros técnicos para cá. As pessoas que vivem a 100 quilómetros daqui preferem fazer a viagem de carro a instalarem-se cá. Porque os bons colégios para os filhos estudarem estão em Lisboa. Até lhe digo mais: hoje, um bom pai diz aos filhos para irem estudar para o estrangeiro. Acusa as associações empresariais nacionais de não se empenharem num modelo de competitividade que as faça progredir. Esse empenho passa pela adopção de que medidas? Falta de capacidade empresarial, falta de qualidade de gestão, estruturas empresariais de pouca dimensão, pequenas e sem capacidade financeira. Neste país há duas economias: há a economia da banca, da distribuição, da energia e das telecomunicações, que ganham bom dinheiro e remuneram bem os seus accionistas; e há a economia das indústrias transformadoras, que criam mais emprego na estrutura empresarial, que estão mais vocacionadas para o mercado interno, que estão mais expostas à concorrência do mercado internacional, que têm problemas diabólicos devido à contracção do investimento no mercado interno. Estas são as duas economias existentes em Portugal. Enquanto uma cresce, outra definha. | 25 Requalificar as zonas ribeirinhas tem sido, em todo o mundo, a melhor forma de aproveitar as mais-valias de um rio que atravessa uma cidade. Lisboa não é excepção, Almada e Seixal também não. Na margem sul do Tejo estão previstos projectos que prometem mudar radicalmente as zonas da Margueira, da Siderurgia Nacional e da Quimiparque, onde se espera que surjam espaços de lazer, de comércio e de habitação. Na margem norte também haverá intervenções de requalificação, em especial na baixa pombalina, na Ajuda ‑Belém e em Pedrouços. Para que a água comece também a ser falada não apenas como um bem escasso, que começará a faltar daqui a 20 anos em muitas regiões do mundo, mas como um factor de competitividade poderoso, capaz de alterar a imagem e o modus vivendi de uma cidade. As Docas de Alcântara e o Parque das Nações surgem exemplares no aproveitamento do potencial do Tejo: de zonas deprimidas transformaram-se em importantes pólos turísticos e económicos. 26 | Reportagem | Carla Amaro Fotografia | Guto Ferreira dar vida às margens do tejo I magem estranha a de um marceneiro num local onde não existe quase nada além de edifícios velhos com fachadas que ameaçam ruir a todo o momento. Os avisos afixados nas paredes tornam mais real o risco que até os menos atentos adivinham. O Cais do Ginjal, na margem sul do Tejo, ficará reduzido a escombros mais dia menos dia. E é no meio deste iminente cenário que Ramiro Gonçalves finaliza um móvel de cozinha. «Podem entrar. Aqui não há cão». Esclarecemos que «não somos clientes», que «não queremos encomendar nada». Que o que nos levou à espreitadela foi «a curiosidade de saber o que faz aqui no meio do nada». A resposta é pronta: «Trabalho. Estou a acabar um serviço que fiquei de entregar hoje à tarde». Da mesa onde Ramiro corta a matéria-prima vê-se «o lado de lá», Lisboa. Mas não é por «esta vista» que o artesão mantém a porta da marcenaria aberta. É pelo rio. Por ele permanece neste local, isolado. «É um privilégio estar a dois metros da água». Não há exagero na medição. O Tejo fica mesmo a dois metros da porta da marcenaria de Ramiro. Lisboa surge ao longe, iluminada pelo sol que nesta altura do ano é fugidio neste pedaço de marginal. Aqui é tempo de sombra e de muito vento. «Aparecem uns raio zitos à hora do almoço e vão-se logo embora, não ficam o suficiente para aquecer a gente». A marcenaria de Ramiro fica a meio do Cais do Ginjal, onde o aban dono é mais evidente. Quem sai dos barcos da Transtejo e vira para o lado direito, percorrendo o cais até ao fim – talvez por isso o último restaurante se chame Ponto Final, tem a sensação de entrar num cenário fantasmagórico produzido de propósito para um filme. Aqui se encontram as infraestruturas associadas à pesca do bacalhau: a antiga fábrica do bacalhau, a antiga fábrica de gelo, a antiga fábrica dos arrastões e as casas dos pescadores que partiam para a Terra Nova e por lá ficavam durante semanas enquanto não enchessem o barco de peixe – as casas estão em fase de degradação avançada, mas algumas, se não se engana quem passa e avança a informação, dão abrigo a «emigrantes do Leste». Este enquadramento resulta mais esquisito quando ficamos saber que foi Ramiro que fez os cenários do filme Afirma Pereira, a de António Tabucci, com Marcello Mastroianni no papel principal e onde entram também Mário Viegas, Joaquim de Almeida, Daniel Auteuil. «Às cinco da manhã eu já andava na rua Augusta a preparar o cenário para as gravações», a tirar todas as referências publicitárias que sugerem esta época e a substituí-los pelos placards de 1938. «Não pode falhar nada», porque um pequeno pormenor fora de época pode estragar tudo. Os móveis e o chão | 27 Ramiro na sua marcenaria, no Cais do Ginjal dos interiores onde eram gravadas as cenas «foram feitos por estas mãos ou conforme as minhas instruções». E quem não acredita no que Ramiro diz pode confirmar na ficha técnica de Afirma Pereira, onde o nome «Ramiro Golçalves» aparece como «Chefe de construção». Além da sua arte, Ramiro também colocou à disposição da produção algumas velharias da sua colecção: «O relógio que Mastroianni usa no filme é meu, assim como outros objectos: a máquina do café, a máquina registadora, a pedra do lava-louça...». Depois desta experiência cinematográfica, outros convites surgiram para construir os cenários de outros filmes, um espanhol e outro francês. E enquanto a ribalta não se lembrar outra vez dele, continuará a preencher os dias a fazer móveis a sério, que os dos filmes eram só a fingir, com a porta sempre aberta para não perder o Tejo de vista. Ramiro gosta deste sítio e não percebe como é que depois de t antos anos abandonado à sua sorte «ainda ninguém resolveu mexer nesta zona para tirar o maior proveito dela». O Cais do Ginjal tem potencialidades. A «colagem» ao rio torna-o um local apetecível a quem o associa a momentos de lazer e bem-estar. Tanto investidores como consumidores só têm a ganhar com a recu peração e qualificação de zonas ribeirinhas como esta. O Parque das Nações e as Docas são exemplos do que a devolução da vida a uma marginal abandonada pode trazer às pessoas, às empresas e ao próprio local. Espaços, usados como depósitos de contentores, transformaram-se nuns dos mais aprazíveis locais em Lisboa para passear, tomar um café, jantar... O pólo de atracção é, sem 28 | sombra de dúvidas, a água. Que o diga João, empregado de mesa do Doca Peixe, nas Docas. «Se o restaurante estivesse noutro sítio não tinhamos tantos clientes. As pessoas vêm aqui porque servimos comida de qualidade, é claro, mas o rio, a marina, é a razão principal. Estamos quase sempre cheios durante toda a semana, sobretudo ao jantar. Ao fim de semana então, não paramos. Chegamos a servir 150 refeições. É bastante bom neste negócio». Enquanto repõe o gelo no tanque do peixe – «olhe para isto, fresquinho que não há, acabadinho de chegar da lota» –, João lembra a utilização no passado de um espaço privilegiado como este. «Isto existe assim há uns 12 anos. Antes só havia aqui contentores. Os navios que chegam de África aportavam além no porto e lar- gavam aqui as mercadorias. Foi uma coisa positiva terem feito isto. É bonito, é agradável. Traz clientes. E acho que estão a pensar fazer o mesmo até Pedrouços, na antiga Doca Pesca, em Algés. Se for verdade vai ser muito bom para toda a gente». No Parque das Nações os testemunhos também não menos prezam a proximidade da água como uma mais-valia: «É óbvio que o facto de estarmos à beira-rio nos faz ter mais clientela. Aos fins-de-semana é um corropio de gente», garante Francisco enquanto tira um café atrás do outro no Bar Esplanada Azul Profundo, no Passeio das Tágides. O rio está a dois passos e apesar de ser ainda cedo para uma manhã de Outono fria, muita gente se levantou cedo e já passeia, anda de bicicleta, senta-se nas esplanadas a apanhar um pouco de sol, lê um livro, brinca com os filhos. Uma margem de rio vivida é geradora de vida, de saúde e de bem‑estar. A fábrica que em 33 anos de funcionamento reparou mais de cinco mil navios encerrou as portas em 2000 e, desde então, esses terrenos ficaram abandonados. Não houve uma única intervenção com vista à sua requalificação. Neste local, apenas os vestígios – ferro e mais ferro – de uma indústria que chegou a empregar 6100 pessoas. Mas o projecto para esta zona ribeirinha existe. Aliás, para esta e para outras na margem sul e na margem norte. Projectos que apresentam o mesmo denomidador comum: a água. João, empregado de mesa do Doca Peixe A própria Organização Mundial de Saúde, através do Projecto das Cidades Saudáveis, não se cansa de enaltecer a recuperação de áreas industriais deprimidas e inquinadas como forma de devolver a qualidade de vida às populações. Na área de Lisboa e Vale do Tejo, uma das zonas que encaixa na perfeição, como peças num puzzle, nesta caracterização é a dos terrenos da antiga Lisnave, na Margueira, do lado oposto do Cais do Ginjal. de requalificação destas zonas ribeirinhas pretendem valorizar o papel da água como agente de mudança das cidades. De resto, esta foi uma das questões inerentes ao tema em debate no evento em Bruxelas – «A água como factor de competitividade» –, e que foi apresentado pelo grupo de trabalho liderado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT). A fábrica, que em 33 anos de funcionamento reparou mais de cinco mil navios, encerrou as portas em 2000 e, desde então, esses terrenos ficaram abandonados. Não houve uma única intervenção com vista à sua requalificação. Neste local, apenas os vestígios – ferro e mais ferro – de uma indústria que chegou a empregar 6100 pessoas. Mas o projecto para esta zona ribeirinha existe. Aliás, para esta e para outras na margem sul e na margem norte. Projectos que apresentam o mesmo denomidador comum: a água. Potenciar o rio, devolvê-lo às populações, permitir-lhes que usu- Segundo o presidente do conselho de administração da Parque Expo, entidade que presta assessoria técnica nos domínios do ordenamento do território e do urbanismo a estes seis projectos, em declarações ao semanário Expresso na altura em que decorria o Open Days, o objectivo «é passar a encarar o Tejo como uma grande praça de água e uma cidade a duas margens com capacidade para desenvolver projectos num território pensado a uma escala metropolitana». Para Rolando Borges Martins, «o potencial do Tejo é imenso» e os seis projectos previstos para os próximos anos irão devolver o rio e a paisagem aquática às populações. fruam as duas margens do Tejo, tornar o Tejo como um factor de aproximação e não de separação entre a margem norte e a margem sul... é a ideia base subjacente em cada um desses projectos. Potenciar as frentes ribeirinhas Apresentados pela Parque Expo no âmbito do Open Days, que se realizou em Outubro passado em Bruxelas, contemplam as zonas da Baixa Pombalina, Ajuda-Belém, Pedrouços (na margem norte), Margueira, Quimiparque e Siderurgia (na margem sul). Com conclusão prevista para daqui a cinco anos (no caso da Frente Ribei rinha Ajuda-Belém) e 10 a 15 anos (os da margem sul), os projectos Isolado na sua marcenaria, Ramiro não faz ideia do que está planeado para o Cais do Ginjal, mas diz que se ouvem «coisas». Para os terrenos do antigo estaleiro naval «ouvi dizer que vão fazer daquilo uma coisa parecida com o Parque das Nações sem o Oceanário, é claro. Agora, aqui para o Cais do Ginjal, fala-se numa marginal com esplanadas e restaurantes até à Trafaria». Um percurso que a concretizar-se implicaria quase de certeza a demolição do seu estabelecimento. Ramiro garante não se importar, mesmo que isso lhe sacrificasse «a vista para o rio», o estar «a dois metros do Tejo» e fosse obrigado a deslocar-se com | 29 Se a estratégia para esta zona tiver pernas para andar, a Cacilhas da indústria naval ficará para sempre registada nos documentos em arquivo, mas nas gerações futuras a sua imagem estará associada ao lazer. Renovada, será uma zona de muito comercio mas também com gente a viver. O projecto, de nome «Almada Nascente», ou «A cidade da água», prevê a recuperação do antigo estaleiro naval na Margueira e o preenchimento do tecido urbano envolvente, numa área de intervenção contígua ao rio de 115 hectares. António, empregado do restaurante Farol, e João Carlos, marinheiro da Transtejo as ferramentas e as máquinas para um espaço reduzido e sem a água tão perto. Não se importa porque a requalificação desta zona vai beneficar a comunidade local, através a criação de postos de trabalho e a vinda de mais pessoas da outra banda. Isto tem condições para ser uma atracção turística muito forte. Olhe-me para este rio, não o vê assim em lado nenhum». Assim como? «Assim, tão perto, a pontos de lhe conseguirmos chegar. A senhora ajoelhe-se, estenda a mão e veja se não fica com ela molhada. Aqui o rio agarra-se com as mãos». A mesma opinião tem António, empregado do Farol, o primeiro restaurante com que se deparam os passageiros dos cacilheiros da Transtejo assim que colocam os pés em terra firme. E, tal como Ramiro, António tem bem fresca na memória a vida em Cacilhas, não faz muitos anos. A fábrica do gelo para conservar o bacalhau capturado na longínqua Terra Nova, as casas dos pescadores, a fábrica de bacalhau, a fábrica de arrastões, o movimento na Lisnave. «Isto tinha vida. Agora é um sítio de passagem, as pessoas chegam no barco para irem para casa, apressadas, e no dia seguinte voltam a apanhar o barco para irem para o emprego em Lisboa, apressadas». Continua: «Se quisessem fazer disto uma zona como ali as Docas, em Lisboa, isto desenvolvia-se. Assim não há maneira». António fala «de barriga cheia» pois se aqui há estabelecimento que vai «tendo boa clientela» é o Farol, onde trabalha desde 1968. Um cliente de todos os dias é João Carlos, antigo pescador e actual mente marinheiro da Transtejo que acabou de aportar em Cacilhas. E também ele se lembra e tem saudades de Cacilhas de outros tempos, dos «barcos com 40, 60 homens que andavam ao bacalhau», 30 | da «fila enorme de arrastões que ancoravam ao longo do Cais do Ginjal», «dos navios gigantes a serem consertados no estaleiro naval». Cacilhas, a nova Barcelona Se a estratégia para esta zona tiver pernas para andar, a Cacilhas da indústria naval ficará para sempre registada nos documentos em arquivo, mas nas gerações futuras a sua imagem estará associada ao lazer. Renovada, será uma zona de muito comércio mas também com gente a viver. O projecto, de nome «Almada Nas cente», ou «A cidade da água», prevê a recuperação do antigo estaleiro naval na Margueira e o preenchimento do tecido urbano envolvente, numa área de intervenção contígua ao rio de 115 hec- tares. Tudo indica que o «Almada Nascente» vingará, pois foi relançado na Waterfront Expo 2007, a mais importante conferência e exposição internacional sobre planeamento, concepção e desenvolvimento de frentes ribeirinhas, que ocorreu de 2 a 4 de Outubro, em Lisboa, e onde o conceituado Richard Rogers, arquitecto inglês que lidera o consórcio internacional que está a desenvolver o projecto, admitiu tratar-se de uma obra para «durar 15 anos e que poderá assumir semelhanças com a recuperação da frente ribeirinha de Barcelona». Os 850 mil metros quadrados de construção previstos no plano irão albergar cerca de «9500 novos residentes» e gerar «13500 postos de trabalho» – a informação foi adiantada na Waterfront Expo pelo presidente do conselho de administração da sociedade | 31 Tudo indica que o «Almada Nascente» vingará, pois foi relançado na Waterfront Expo 2007, a mais importante conferência e exposição sobre planeamento e concepção de frentes ribeirinhas, que ocorreu de 2 a 4 de Outubro, em Lisboa, e onde o conceituado Richard Rogers, arquitecto inglês que lidera o consórcio internacional que está a desenvolver o projecto, admitiu que a obra poderá assumir semelhanças com a recuperação da frente ribeirinha de Barcelona». que controla o fundo de investimento imobiliário Margueira Capital, Mário Donas. Mas para isso é necessário arrecadar junto de investidores nacionais e estrangeiros mil milhões de euros, quantia que Mário Donas não considera impossivel de conseguir, até porque o «Almada Nascente», «não é para ficar na gaveta». Ainda para a margem sul estão previstos outros projectos de revitalização de outras áreas industriais, que irão abranger os terrenos ocupados pela antiga Siderurgia Nacional e pela Quimiparque, no Seixal/Barreiro. Um novo cais e uma nova estação ferroviária, uma praça central com a imponência do Terreiro do Paço e a criação de espaços verdes, de lazer e de cultura são algumas das propostas incluídas no dossier da Quimiparque. Para a Siderurgia, o plano de reconconversão prevê não só a manutenção da indústria pesada mas também as componentes habitacional e de lazer, além da construção de uma ETAR (Estação de Tratamento de Águas Resi duais) que irá servir dois terços da população do Seixal (do ponto de vista ambiental, esta medida apenas peca por tardia uma vez que os resíduos são actualmente despejados no rio Coina sem o tratamento devido). Contemplados para a margem Norte do Tejo, os projectos Pedrou ços-Dafundo, Ajuda-Belém e Frente Ribeirinha da Baixa Pombalina consistem na reconversão e requalificação urbanística dos respec tivos locais. Segundo informações da Parque Expo, o objectivo da intervenção em Pedrouços-Dafundo é a sua transformação «num grande espaço de fruição pública dotado de equipamentos, que amplie e reforce a ligação dos cidadãos ao rio, que projecte a sua 32 | vocação marítima». Entre as estruturas a construir, de destacar «a instalação de um pólo de conhecimento avançado e de inovação, constituído por áreas de investigação básica e clínica da Fundação Champalimaud, bem como de um pólo náutico, de um pólo de turismo, de negócios e comércio, e de um pólo cultural». Com uma área de 47 hectares, esta zona de intervenção constitui, ainda de acordo com a Parque Expo, «um território singular, apresentando-se como uma porta Atlântica da capital portuguesa, quer pela relação com o rio/oceano, quer pela proximidade ao conjunto Torre de Belém/Mosteiro dos Jerónimos/Centro Cultural de Belém». Na Ajuda-Belém, pretende-se construir o novo Museu dos Coches, requalificar o espaço público da Calçada da Ajuda e outras praças, valorizar as áreas verdes inseridas na zona de intervenção, como o Jardim Botânico, o Jardim Tropical e outros jardins, praças e vias. Para promover a aproximação e a fruição do rio, estão previstas infra-estruturas e novos atravessamentos pedonais. O projecto traçado para a Frente Ribeirinha da Baixa Pombalina tem como objectivos «reforçar a complementaridade entre a frente ribeirinha e o conjunto da Baixa Pombalina» (Baixa-Chiado), con tribuir para uma «nova apropriação do Tejo» pelas pessoas, «conso lidar a centralidade da Praça do Comércio, captando novas formas de utilização», «promover uma vivência multifuncional» entre administração, serviços, comércio e equipamentos de recreio e lazer. No fundo, o que subjaz a estes projectos é a vontade de atrair para as margens do Tejo as pessoas. Seja pelo lazer, seja pelo negócio, | 33 seja pela habitação. Quem se lembra dos contentores junto ao rio nos terrenos hoje ocupados pelo Parque das Nações não adivinharia a cidade que aí viria a ser construída. Uma cidade onde se reside, se trabalha, se faz negócio, se visita. Como a pequena Francisca, que às dez da manhã de um sábado já se encontra nas bilheteiras do Oceanário para ir ver os tubarões e os pinguins, «os animais que mais gosto», são muitos os que nove anos depois da Expo 98 se sentem atraídos por esta zona ribeirinha. Francisca tinha dois meses quando a última grande exposição do século xx foi inaugurada e desde que os avós lhe deram como presente do seu 4º aniversário um bilhete do Oceanário não deixa passar um ano sem voltar a este espaço para rever os oito mil animais que habitam o Pacífico, o Árctico, o Antáctico e o Atlântico. Tal como Francisca, onze milhões de pessoas já se deslocaram ao Parque das Nações para visitarem o Oceanário (40% são estrangeiros e, destes, 15% são espanhóis). Enquanto Francisca se maravilha com as espécies que «vivem na água», na outra margem, na marcenaria rodeada por fábricas desactivadas que ameaçam ruir a qualquer momento, Ramiro vai trabalhando a madeira e alimentando esperanças de que um dia também o Cais do Ginjal possa recuperar o movimento de pessoas. Não o de outrora, industrial, mas o do futuro, que torne Cacilhas um importante pólo turístico, económico, residencial e de lazer. 34 | | 35 Destaque | Pedro Almeida Vieira Fotografia | Pedro Soares RECURSOS HÍDRICOS RIOS DE PROBLEMAS... E DE OPORTUNIDADES Não andam cristalinas as águas que atravessam as regiões do Oeste e Vale do Tejo. Os atrasos no saneamento urbano e a poluição causada pelas indústrias e agricultura continuam, exigindo uma nova abordagem, sobretudo tendo em conta que grande parte da população vive em pequenos aglomerados. Mas não é apenas a qualidade que é alvo de atenção do PROT desta região. Uma equipa do Centro de Estudos Geográficos inventariou cerca de 450 zonas críticas e 745 quilómetros quadrados de território que está sujeita a cheias. O novo regulamento irá, no futuro, evitar que haja problemas quando chover em demasia. L á diz o provérbio que a água corre para o mar e as coisas para o seu natural. Mas em Portugal, para alguma nossa infelicidade, quase sempre corre conspurcada, o que sendo «natural» – porque assim é há muitos anos – não deveria ser aceitável. Nesse aspecto, a região do Oeste e Vale do Tejo não foge à regra. No diagnóstico do Plano Regional de Ordenamento do Território desta região (PROT-OVT), o quadro traçado é bastante claro na forma como mostra que as águas correm sujas. Quer as que se vêem quer as que estão longe da vista. Com efeito, nas várias ribeiras do Oeste – por regra pequenos cursos de água, grande parte dos quais de carácter intermitente – não há nenhuma que se possa mostrar cristalina. «Todas se apre sentam extremamente poluídas ou poluídas, de acordo com a classificação do Instituto da Água», refere Amílcar Ambrósio, responsável pela empresa de consultoria Ambio e coordenador da área de saneamento básico do PROT-OVT. No caso dos cursos de água da bacia do Tejo – em que se destacam, para além desse rio, o Zêzere, o Alviela, o Almonda, o Trancão e o Sorraia –, o cenário não é também muito lisonjeiro. «De uma forma geral, mostram má qualidade física, química e microbiológica, sobretudo na região entre a foz do Zêzere e o Trancão», salienta Amílcar Ambrósio. Mesmo a principal origem de água do país – a albufeira de Castelo de Bode, no Zêzere –, que abastece cerca de dois milhões de por tugueses, não se encontra nas melhores condições. «Não está em risco de deixar de ser uma origem de água, porque é sempre tecni camente possível tratá-la, mas exigirá maiores custos», refere este técnico. E ainda bem que sim, até porque, malgrado os custos, as águas subterrâneas desta região apresentam também problemas. Na grande maioria das zonas, a sua qualidade é medíocre, incluindo num dos maiores aquíferos do país que se prolonga até à península de Setúbal. Estas situações devem-se, em grande medida, às actividades agrícolas – sobretudo na Lezíria do Tejo –, às pecuárias – com maior incidência no Oeste e Lezíria do Tejo, onde, por exemplo, estão localizados um terço dos suínos do país – e à poluição urbana. Neste último caso, diga-se, o problema é quase generalizado. De facto, apenas entre 50% e 65% da população residente no Oeste e Vale do Tejo tem a sua residência ligada a uma rede de esgotos, mas destas nem todas têm acopladas uma estação de tratamento (ETAR). E aqui está um problema que pode ser complicado de resolver nos próximos anos. Com quase 60% da sua população vivendo dispersa e em aglomerados com menos de dois mil habitantes, não se encontra nas prioridades do segundo Plano Estratégico de Abastecimento de Água e de Saneamento de Águas Residuais. «Para estas zonas ter-se-á de aplicar soluções integradas», advoga Amílcar Ambrósio. Nesta medida, este responsável destaca a necessidade de integrar as componentes «em alta» e «em baixa» quer dos sistemas de abastecimento de água quer dos de saneamento de águas residuais, diminuindo, consequentemente, o número de entidades gestoras. E isso implicará também melhorar o serviço de distribui ção de água – que atinge ainda pouco mais de 90% da população –, | 37 reduzir drasticamente as perdas de água – que rondam os 60% em alguns concelhos –, começar a aplicar taxas que possam financiar os sistemas e modificar a estrutura de gestão. Aliás, conforme salienta Amílcar Ambrósio, a avaliação de indicadores de desempenho da qualidade do serviço prestado aos utentes dos sistemas de abastecimento de água e de saneamento de águas residuais, realizada pelo Instituto Regulador de Águas e Resíduos, «permite concluir, sem controvérsia, que nos concelhos do Oeste a Vale do Tejo, por regra, os serviços prestados directamente pelas Câmaras Municipais e pelos Serviços Municipalizados denotam fragilidades e eficiências reduzidas»». Mas Amílcar Ambrósio deseja também que se aposte na eficiência do uso da água, sobretudo aproveitando as águas residuais depuradas. No Oeste estão já em curso alguns projectos municipais com uso destas águas para regas e lavagens, bem como para descargas em instalações sanitárias. A par desta origem de água não convencional, Amílcar Ambrósio é adepto da dessalinização. «Em algumas zonas, como no litoral e junto aos estuários, deveria ser avaliada, em termos de análise técnico-económica, em zonas costeiras e estuarinas, apresentando exemplos do que tem sido feito em Espanha, Reino Unido ou mesmo em África», defende este especialista que já realizou um estudo nesta vertente para as Águas do Algarve. «Nesse estudo mostra-se que o custo da água neste processo atinge cerca de 0,45 euros, o que torna competitivo, nem que seja em situações de seca», acrescenta. Mas se por vezes ocorrem secas, as cheias e inundações acabam por ser até mais frequentes nesta região. Por isso, para permitir criar instrumentos e estratégias para fazer face a estes fenómenos, uma equipa do Centro de Estudos Geográficos (CEG) da Universi dade de Lisboa está também a elaborar uma carta de riscos para inserir no PROT-OVT. «Pretende-se com isto elaborar normas que permitam compatibilizar usos e impedir que outros se mante- nham em zonas de risco», salienta Catarina Ramos, investigadora do CEG. Neste âmbito, a caracterização abrange quer as zonas sujeitas a cheias lentas quer a cheias rápidas ou repentinas. As primeiras atingem sobretudo as zonas da Lezíria do Tejo, mas que tendem a ser pouco perigosas. «Estas cheias, que provocam inundações por vezes por simples subida da toalha freática, são agora mais raras, por via do controlo que existe com Espanha», diz Catarina Ramos. «A regularização dos rios tem melhorado nos últimos anos, pelo que só por descuido podem provocar danos pessoais», acrescenta. Com efeito, a descarga de um grande volume de água a partir da barragem de Alcântara, junto à fronteira com Espanha, demora cerca de 11 horas a chegar à zona da Lezíria, o que permite evitar qualquer catástrofe humana. Somente quando não há articula- ção com a barragem portuguesa de Castelo de Bode podem existir cheias graves. Como, por exemplo, em 1979, quando aconteceu aquela que é considerada a mais grave cheia de que se tem registo. O nível alcançado por essa cheia foi, porém, o critério usado para estabelecer zonas de maior risco. Assim, o concelho da Golegã ficaria com 78% da sua área submersa, enquanto os concelhos de Azambuja, Cartaxo, Almeirim, Alpiarça, Salvaterra de Magos e Benavente sofreriam numa extensão entre 18% e 38% do respectivo território. No total, de acordo com o levantamento do CEG, cerca de 745 quilómetros quadrados da região do Oeste e Vale do Tejo estão em risco de sofrer inundações provocadas por cheias lentas. 38 | Porém, é certo que, mesmo com uma correcta regularização, haverá sempre regiões que, periodicamente, não ficam livres de ser inundadas ou isoladas pelas águas no Inverno, como são os casos das povoações de Reguengo do Alviela, Vale de Santarém ou as partes mais baixas de Almeirim ou mesmo de Alenquer. Já as cheias rápidas, mais perigosas e destrutivas, são mais frequentes nas ribeiras do Oeste. Associadas a precipitações repentinas e concentradas, o maior risco reside em zonas urbanas onde a impermeabilização do solo, causado pelas urbanizações ou alte rações do curso das ribeiras, pode implicar deslizamentos de terras ou arrastamento de bens e pessoas. «Os leitos de cheia deveriam apenas zonas de lazer, mas infelizmente durante anos assim não aconteceu», refere Catarina Ramos. Além disso, com os encanamentos das pequenas linhas de água – ou mesmo dificuldades no escoamento das redes de águas pluviais –, as inundações acontecem muitas vezes às primeiras chuvadas. Na região do Oeste, de acordo com o levantamento feito pelo CEG, existem várias centenas de «pontos negros» – que totalizam uma extensão de mais de mil quilómetros de linhas de água –, salientando-se, pela densidade populacional, as que se localizam em Alcobaça, Arruda dos Vinhos e Torres Vedras. Contas feitas, a equipa do CEG inventariou 450 pontos críticos onde existem construções, designadamente zonas residenciais e industriais. Mas, neste processo, houve também um trabalho suplementar de correcção de informação. «Nem sempre a carto- grafia das áreas de Reserva Ecológica Nacional e dos leitos de cheia estava correcta quer nos planos directores municipais quer na informação da Administração Central», diz Catarina Ramos, recordando o caso da delimitação na zona de Santarém onde não existia rigor nos dados do Instituto da Água. «Referia que as cheias podiam ir até às Portas do Sol que fica a 90 metros de altura, quando o máximo atingido por uma cheia são os nove metros», refere esta investigadora. A ideia agora será, a partir desta inventariação, estabelecer normas no regulamento do futuro PROT para evitar que as cheias causem mais estragos. Assim, quando for aprovado, de entre várias medidas, ficará interditada a construção em leito de cheia de novos equipamentos hospitalares e de saúde, escolares, de reclusão e de gestão de emergência e de socorro. Além disso, será proibida a construção de novas edificações em leitos de cheia nas áreas urbanas consolidadas ou em consolidação, excepto se corresponderem à substituição de edifícios a demolir. «Nesses casos, a cota do piso inferior da edificação terá de ser superior à da maior cheia conhecida do local e será preferível a construção tipo palafita», destaca Catarina Ramos. Por fim, também deixará de ser autori- zada a construção de novas edificações em leitos de cheia fora dos aglomerados urbanos, excepto os edifícios indispensáveis à actividade agrícola. No entanto, somente nas situações em que fique demonstrado não existir localização alternativa. Outra medida, esta mais no âmbito da protecção civil, é o desenvolvimento ou criação de sistema de alerta de cheia no rio Tejo e nos principais afluentes da sua bacia hidrográfica, designa damente rios Zêzere, Nabão e Sorraia. E, por fim, prevê-se também melhorar a articulação do sistema de previsão meteorológica do Instituto de Meteorologia com as redes de monitorização do Instituto da Água, sobretudo precioso para prever as cheias rápidas. Riscos e Protecção Civil perigo de cheia Parâmetros utilizados • Definição de leitos de cheia. (ref. 1979; escala 1:25.000) • Hierarquia fluvial. + presença de planície aluvial • Troços afectados por ruptura de barragens Área inundável (cheia lenta) = 745 km2 Tr. críticos (cheia rápida) = 1010 km 450 Pontos críticos perigo de cheias lentas por concelho Golegã 78 % da área do concelho. é afectada pelas cheias Alpiarça, Almeirim, Salvaterra, Azambuja, Cartaxo e Benavente entre 18 e 38 % dos respectivos territórios. são afectados pelas cheias perigo de cheias rápidas por concelho | 39 40 | Territórios | Carla Maia de Almeida Fotografia | Pedro Soares O Resto não é Paisagem Demasiado longe de Lisboa para se tornar um subúrbio, suficientemente perto para atrair novos residentes, o concelho de Palmela procura o equilíbrio ideal entre a cidade e o campo. Cerca de 53 mil pessoas escolheram o maior território da Área Metropolitana de Lisboa para viver, quase todos estarão perto de uma área de paisagem protegida. Ou então de uma indústria, de uma quinta agrícola ou de um campo de vinha. Ana Teresa Vicente preside à Câmara Municipal de Palmela desde 2002 e, no seu segundo mandato, insiste em conciliar modernidade com tradição. É difícil gerir a identidade do concelho mais extenso da Área Metropolitana de Lisboa? Seguramente, não é fácil. Cada território tem as suas características: as concentrações urbanas têm determinado tipo de problemas, a dispersão dos espaços rurais tem outros. O desafio é manter alguma harmonia entre a diversidade que se vive nestes cerca de 460 quilómetros quadrados. É mesmo o maior desafio de qualquer gestão, julgo eu. Quais são as características dessa diversidade? Temos praticamente um pouco de tudo o que caracteriza a Área Metropolitana de Lisboa (AML), exceptuando, enfim, a grande den sidade urbana. Os nossos maiores aglomerados, caso do Pinhal Novo, não têm uma excessiva concentração, mas já têm exigências muito próprias. Por outro lado, temos espaços de convivência entre o rural e o urbano, e espaços claramente rurais onde a dispersão é enorme. Por exemplo, no Poceirão, a freguesia mais agrícola do concelho, a população é bastante diminuta em relação ao conjunto do território. E aí temos outro tipo de problemas ligados às acessibilidades. Se se juntar a isto o grande desenvolvimento industrial dos últimos anos, em torno da A2 e da Autoeuropa, é outra característica do concelho. E, pelo meio, temos paisagens protegidas. Paisagens que sofrem pressões demográficas e urbanísticas. São interesses antagónicos? Procuramos respeitar a legislação dessas áreas, por um lado, e por outro definir perímetros urbanos com alguma contenção. Permiti mos também um outro tipo de ocupação do território: pequenos aglomerados nas zonas rurais, em vez de uma maior concentração urbana. Porquê? Para que as pessoas ocupem as suas propriedades, façam aí a sua casa ou a casa dos filhos. É agradável para quem | 41 lá vive, mas é uma opção obviamente cara do ponto de vista da gestão das infraestruturas. E enfrentam também o problema da construção clandestina. Temos construção e ocupação clandestina que data, em alguns casos, da década de 1960. Eu diria que é a maior luta que temos neste território, com vista à declaração de nulidade desses negócios junto dos tribunais e com processos de demolição. Esse é o maior atentado do ponto de vista ambiental e de ordenamento do território. Se fossemos permissivos e viabilizássemos a ocupação e divisão clandestina do território, estaríamos a cometer um crime e a criar condições para que a população duplicasse. Este é ainda um concelho predominantemente rural, mas a agricultura não gera muito emprego. Vemos crescer freguesias com outro tipo de população, pessoas que trabalham em Setúbal ou Lisboa. Palmela corre o risco de «suburbanizar-se»? Julgo que não. Estamos claramente num território de transição entre o urbano da AML e o rural do Alentejo, com o qual fazemos fronteira. Mas este concelho não é um dormitório. Tem a sua identi dade. Embora tenha muita população proveniente de outras zonas do país, a convivência com as características urbanas e uma certa modernidade em termos de equipamentos – e, por outro lado, com algumas tradições muito arreigadas –, faz deste um espaço onde as pessoas se integram facilmente. Percebemos isso pelo registo de inscrições nos clubes locais e desportivos, nas associações, nas sociedades tradicionais como as filarmónicas… Curiosamente, assistimos a um revitalizar das associações de moradores. Conhecer os vizinhos é um bom sinal e um bom indicador de integração e participação social. Há uma estratégia municipal que teve influên cia e que hoje é uma marca deste território: julgo que Palmela é o único concelho da AML onde o limite para a construção em altura corresponde a um terceiro andar. Foi uma regra do nosso Plano Director Municipal. Fizemo-lo com base numa convicção de ordem sociológica, a de que a altura dos edifícios tende a afastar as pessoas, em vez de favorecer uma lógica de proximidade. E a economia do concelho, em que fase está agora? Eu diria que não se afasta muito da situação do país. Não podemos falar de crescimento, de desenvolvimento, de uma grande dinâmica económica… Contudo, é verdade que o concelho de Pal42 | mela foi um dos que mais cresceu nos últimos anos; esse é um dado concreto e objectivo que se manifesta na instalação de novas empresas em torno da fileira automóvel, mas não só. O que vemos nos últimos anos, apesar de haver mais empresas – e isso nota-se nos impostos que pagam –, é uma diminuição dos lucros, das receitas. Mas, do ponto de vista da dinâmica, apesar da recessão económica geral, o concelho de Palmela continua a ser apetecível para a instalação de novas empresas. A nossa preocupação maior é a diversificação. Para que tipo de investimento? Todo. Gostaríamos de atrair um centro de investigação na fileira da indústria automóvel. Ou seja, garantir que os carros e os componentes aqui produzidos servem para a Autoeuropa, mas também para muitas outras empresas do ramo automóvel. Isso tornaria esta região mais competitiva na Europa e no mundo. Fazer aqui um pólo de conhecimento, um centro de excelência para a investigação científica na área da tecnologia automóvel e da metalomecânica em geral. Penso que a Plataforma Logística que está aprovada para o nosso território, a maior de Portugal, e que deverá iniciar-se em 2008, pode contribuir também para essa diversificação da actividade económica. No entanto, o maior desafio é equilibrar e manter alguma vitalidade no sector agrícola, acentuando sectores como o do vinho e da vinha. Este concelho já teve aqui a maior vinha da Europa e uma das maiores do mundo. Não sendo possível reabilitar essa realidade, julgo que podemos continuar a ter excelentes vinhos… Já vamos falar do vinho. Mas ainda a economia: há 12 anos que uma das melhores fábricas da VW opera em Palmela. Qual é o lugar da Autoeuropa no que toca à captação de empregos? A Autoeuropa é seguramente um grande contribuinte para o desen volvimento do concelho e da região, mas é essencialmente um grande contribuinte para o país. Tem expressão significativa no nosso PIB e nas exportações, gera um número muito importante de postos de trabalho – a Autoeuropa propriamente dita e os forne cedores – que no total ascende a uns sete mil postos. Mas estes são provenientes, em primeiro lugar, da AML, do distrito de Setúbal e só depois do concelho de Palmela. Tem que ver, naturalmente, com as características da própria mão-de-obra. Admito que esta realidade se vá invertendo, na medida em que a população do concelho de Palmela se for qualificando. A Autoeuropa vive, ao que se sabe, uma situação saudável, mas o fantasma da Opel da Azambuja está sempre próximo… Nós mantemos uma atitude observadora e optimista. É claro que toda a história da indústria automóvel é feita desses fantasmas; faz parte das suas características, em muitas partes do mundo, ter uma vida de curta/média duração. Recorde-se o caso da Renault, nos anos 80, como um dos factores que levou ao clima de grande empobrecimento do distrito de Setúbal. Como diz, o fantasma está próximo, mas acho que hoje as empresas têm a preocupação de estar no mercado com condições para enfrentar quaisquer transformações que aconteçam no sector-mãe. Não me parece credível, se por qualquer razão a Autoeuropa deixasse de produzir em Palmela, que todos os fornecedores se «deslocalizassem» atrás dela. Acho mais natural e desejável – e essa é uma das nossas preo cupações – criar na região alternativas que possam beneficiar deste investimento no automóvel. Daí que fale da importância do centro de excelência, para conseguirmos produzir para toda uma fileira que pode estar na região e pode estar no país e no mundo. Foi criado pela Câmara um Sector de Promoção e Apoio à Economia Local. Em que consiste? Faz parte de uma aposta de valorizar aquilo que é nosso. A tal estra tégia de diversificação do tecido económico passa por aí: por um lado, ter empresas e sectores de grande competitividade; por outro, ter pequenos nichos que permitam afirmar aquilo que é nosso. Ou seja, o nosso vinho, com as nossas características, produz-se aqui. O queijo de Azeitão produz-se aqui. O que nós procuramos nesta unidade orgânica da Câmara e na estratégia de intervenção junto dos agentes locais é apoiá-los e incentivá‑los, constituindo parcerias, investigando sobre pontos de apoio ou iniciativas a que se podem candidatar, de modo a melhorar o seu desempenho. É o caso do projecto PROVE, que vende cabazes de produtos hortícolas por encomenda? Exactamente. É a valorização do mundo rural junto dos nossos moradores e, ao mesmo tempo, uma forma de incentivo e de apoio directo aos pequenos produtores. Como é que eles têm condições de pôr o seu produto à venda, de chegar a um grande hipermercado? Nunca na vida terão condições para isso… Mas têm condições para satisfazer um certo número de consumidores, ávidos de produtos vindos directamente da terra e desta zona. Têm tido bons resultados? Sem dúvida, tem tido imensa procura. O problema coloca-se ao contrário: chegamos a um ponto em que não temos produtores em número suficiente para abastecer o número de cestos encomen dados. Mas esta teia pode alargar-se. É um projecto-piloto que mostrou grandes potencialidades e no qual vamos continuar a apostar. A cultura também é um factor decisivo para o desenvolvimento de uma região. As propostas da Câmara vão no sentido de dar espaço aos artistas e criadores da região ou, por outro lado, atrair o público de Lisboa para eventos de interesse mais abrangente? Temos as duas preocupações. Em primeiro lugar, temos uma política de apoio ao que se faz nesta terra. Por exemplo, ao movimento associativo, que é rico e diversificado. Temos entre nós colectivi dades centenárias, temos grupos de teatro de qualidade, temos uma companhia de dança residente, temos uma excelente escola de danças de salão… Depois, há outra linha de trabalho que consiste em apoiar projectos de outra natureza e de outra dimensão, e que também procuramos trazer para Palmela; caso do Festival Internacional de Artes de Rua (FIAR) ou do Festival Internacional dos Gigantes (FIG). Mas, sempre que possível, há nestes eventos uma integração dos nossos artistas e grupos locais. Os equipamentos culturais que têm são suficientes? Temos um equipamento clássico de grande valor, com algumas limitações técnicas que vamos resolver, o Cine-Teatro S. João. Temos a nova Biblioteca de Palmela, equipada com um auditório onde se podem realizar determinados espectáculos e iniciativas culturais. Temos um bom auditório em Pinhal Novo onde também se rea lizam espectáculos, cinema, etc. Temos um pequeno Centro Cultu ral na freguesia mais rural do concelho, Poceirão. Temos também um forte associativismo: mais de 200 associações e colectividades de todo o tipo, que, ligadas a esta política de descentralização de equipamentos e de iniciativas faz de Palmela um concelho culturalmente muito dinâmico. Foi ideia desta câmara a criação da Rota de Vinhos da Península de Setúbal, em 2000. Em que é que consiste e qual é o papel da Casa-Mãe, aqui em Palmela? É um projecto que tem como objectivo promover as nossas adegas e os nossos vinhos. Para além das visitas organizadas, faz-se neste projecto uma partilha de experiências que julgo ser útil a cada | 43 um dos produtores. Quanto a este espaço, a Casa-Mãe da Rota dos Vinhos, é um espaço bonito que serve para realizar pequenos eventos e serve também de apoio à mostra de cada uma das marcas. As pessoas podem comprar aqui os vinhos da região, ao mesmo preço que compram nas adegas. Também na Rota de Vinhos se nota o associativismo? O agricultor, em geral, é uma pessoa solitária na sua actividade. Provavelmente, vê os que estão ao seu lado como concorrentes e não parceiros. Daí a necessidade de participação das entidades públicas. Acho que ainda é preciso algum apoio e estímulo de terceiros, que não consegue acontecer só entre produtores, para estimular a ideia de que as pessoas têm de se associar, têm de concorrer juntas, e só ganham dimensão se se unirem. A concorrência saudável não é inimiga da parceria. Dou-lhe um exemplo: há dez anos, quando iniciámos a rota, a localidade de Fernando Pó tinha apenas um vinho engarrafado e com rótulo; neste momento, tem dezenas de produtores e dezenas de vinhos engarrafados, o que só está a aumentar a identidade da zona. Além do enoturismo, que outros produtos turísticos vão merecer atenção em 2008? Queremos um turismo que possa ter como valor as questões ambientais, as paisagens protegidas, o património. Não temos praia e mar, mas temos algumas das maiores lagoas da região, e os projectos turísticos em desenvolvimento cativam também turistas que valorizam o descanso, a saúde, o contacto com a natu 44 | reza, o golfe... Estão neste momento a ser apreciados projectos com estas características para zonas de grande valor no território. Rio Frio e Zambujal são duas das antigas herdades deste concelho com um valor patrimonial muito grande, com paisagens prote gidas no seu interior, e todos os projectos que ali possam acontecer têm de respeitar intransigentemente questões ambientais de grande exigência. Este tipo de investimento pode fechar o leque da diversidade económica neste concelho. De facto, o turismo, no sentido da oferta, é o que falta concretizar neste território. Fale-nos do que gostaria de mudar no concelho e ainda não teve tempo para fazer. Três ideias. Gostava muito de recuperar e requalificar o castelo e o centro histórico de Palmela, é um dos elementos mais fortes da nossa identidade patrimonial. Gostava muito de atrair pólos de conhecimento a este território; acho que a proximidade de Lisboa não é suficiente e não podemos esperar que os nossos jovens tenham todos como caminho as universidades tradicionais. Encontrar aqui pólos de desenvolvimento do saber noutras áreas pode ser um caminho para fixar e qualificar populações: escolas profissionais, academias, centros de investigação, tudo isso seria muito útil. Finalmente, gostava de concretizar um conjunto de equipamentos relacionados com a prática do desporto. Temos um único pavilhão municipal e muitas carências nesta matéria. Acho que o trabalho já feito no domínio dos equipamentos educativos é um bom exemplo daquilo que eu gostava de exportar para outras áreas, nomeadamente esta dos equipamentos desportivos. | 45 CULTURA Antes do Festival Internacional de Artes de Rua e do Festival Internacional de Gigantes, em Julho, o programa cultural do município inclui as comemorações do Dia Mundial do Teatro (27 de Março), Dia Mundial da Dança (29 de Abril) e Dia do Sapateado (25 de Maio), entre muitos outros eventos culturais. As Festas das Vindimas, as Janeiras, o Enterro do Bacalhau e a Queima do Judas são outras tradições de cariz mais popular do concelho. PERFIL SÓCIO-ECONÓMICO O concelho de Palmela contabiliza 53.350 habitantes (Censo 2001) e é formado por cinco freguesias – Palmela, Pinhal Novo, Quinta do Anjo, Poceirão e Marateca. Estas duas últimas compõem o perfil mais agrícola do concelho, sem prejuízo do grande desenvolvimento industrial, que tem na fábrica VW Autoeuropa o seu grande motor. Entre 1991 e 2001, Palmela registou um crescimento populacional de 21,6 %. HISTÓRIA Habitado pelo menos desde o Paleolítico Médio, o território foi alvo de ocupação romana e árabe. Em 1147, D. Afonso Henriques tomou o Castelo de Palmela e, após um período de conquistas e reconquistas, este foi entregue à Ordem de Santiago em 1186, que ali estabeleceu a sua sede durante os sete séculos seguintes. Palmela foi elevada a vila por D. Dinis, em 1323. O concelho chegou a ser extinto e integrado em Setúbal, no século xix, situação que foi restaurada a 8 de Novembro de 1926. 46 | NATUREZA As áreas de paisagem protegida correspondem a 212 k2, cerca de metade do território do concelho. Incluem valores ecológicos, paisagísticos, científicos e culturais sujeitos a regimes de protecção específicos, a saber: Parque Natural da Arrábida, Reserva Natural do Estuário do Sado, Reserva Ecológica Nacional, Reserva Agrícola Nacional e Espaços Florestais. PRODUTOS REGIONAIS Além de vinhos de qualidade certificada – branco, tinto e mos catel – e do famoso Queijo de Azeitão, produzido sobretudo na freguesia de Quinta do Anjo, o concelho é rico em doçaria tradicional. Podemos citar a fogaça de Palmela, o bolinho de amêndoa, o pudim de abóbora, os suspiros e o bolo de família. Outro produto certificado é a saborosa maçã riscadinha, sempre muito procurada nos meses de Verão. | 47 OPEN Acontecimento | Luís de Carvalho DAYS Durante três dias, em Bruxelas, responsáveis e decisores de politicas regionais reuniram-se para debater e encontrar novos modelos de desenvolvimento regional. A água, um dos bens inestimáveis para a sobrevivência humana, foi um dos temas discutidos. 48 | E ntre os dias 8 e 11 de Outubro decorreu em Bruxelas a Semana Europeia das Regiões e Cidades – Open Days –, organizada pela Comissão Europeia e pelo Comité das Regiões.Esta iniciativa, que contou com a presença de cinco mil peritos e decisores em politicas regionais, teve a presença da CCDR de Lisboa e Vale do Tejo, que liderou um consórcio de cinco regiões – Canárias, Sicília, Veneza, Algarve e Lisboa e Vale do Tejo. E, pela primeira vez, todos os Estados – Membros da UE estiveram presentes. Neste seminário debateu-se a ligação entre a preservação ambien- tal e o desenvolvimento económico, na sua forte ligação com a gestão da água e do ordenamento costeiro e da sua interacção com o turismo. Foram quatro dias preenchidos com seminários, workshops e exposições com o intuito de explorar novas ideias para o desenvol vimento regional e de melhorar os programas de politica de coesão, com a participação de organizações internacionais no sentido de reforçar, com outras regiões do mundo, a competitividade, a troca de experiências e informação em áreas como políticas de desenvolvimento e boas práticas de governação. As regiões onde as questões do turismo representam uma importância capital, nomeadamente na sua ligação com os valores estéti cos, históricos e culturais, foram desafiadas a abrir novos caminhos para a gestão e modelos de desenvolvimento que exprimam um novo paradigma na governação desses clusters. Este tema teve como interessados responsáveis, peritos e académicos interessados em politicas ambientais, territoriais e de turismo, incluindo os opera dores turísticos. Esta sessão teve como oradores José Félix Ribeiro, assessor DPP, Rolando Borges Martins, presidente do CA da Parque Expo 98, SA, José Miguel Caetano, CEO Mapa – Investimentos Turísticos, SA; Faustino Garcia Marquez, do Governo das Canárias, Giovanni Arnone, da Sicília e Maria Aigner, da Comissão Europeia. A água como factor de competitividade Café dos Investidores O tema do consórcio liderado pela CCDR de Lisboa e Vale do Tejo intitulou-se The Water-Based Competitiveness Network, com o objectivo de promover um olhar diferente sobre os recursos hídricos, de modo a geri-lo no seio de estratégias territoriais integradas. As políticas desenvolvidas neste âmbito propõem o desenvolvi mento sustentável das actividades ligadas à água, com vista ao crescimento económico, à qualificação do território e à criação de emprego. Um dos núcleos mais animados destes encontros foi o Investor’s Café, zona dedicada aos encontros temáticos com o seu próprio ciclo de seminários. Nestes encontros, onde a informalidade das conversas é acompanhada por um café ou chá, juntaram-se parcei ros públicos e privados em sete núcleos temáticos, cobrindo temas como os transportes, a energia, ambiente, sociedade do conhe cimento, saúde, investigação e inovação e engenharia financeira. No seminário que decorreu no dia 9, e que teve como moderador o Prof. Tiago Pitta e Cunha, o tema posto a debate foi a utilização da água como base da competitividade regional em áreas fundamentais como a energia, a biotecnologia, a economia do conhecimento, o lazer, entre outros. Pretendeu-se neste seminário dar relevância a politicas públicas que promovam a água como factor de crescimento, e que se dirigiu sobretudo a técnicos oriundos de áreas costeiras, ou de territórios onde a água tem desempenhado um papel fulcral no crescimento das comunidades. Neste painel temático participaram como orado res António Fonseca Ferreira, presidente da CCDR-LVT, Artur Ribeiro, administrador das Águas do Norte, Juan Carlos Pereira, chefe de planificação, projectos e obras da Direcção-Geral de Águas do Governo das Canárias, Felice Crosta, director-geral da Agência Regio nal para a Água, da Sicília, Cristiana Scarpa, assessora para o Ambiente da cidade de Veneza e Rui Godinho, administrador da EPAL. Francisco Cipriano, assessor do Secretário de Estado do Desenvol vimento Regional, foi o moderador da sessão, que decorreu nas instalações do Governo das Ilhas Canárias, sob o tema Enhacing Tourism Clusters: public bodies face the challenge of water and coastal preservation. Estes encontros destinam-se a promover contactos, no sentido de construir redes de relacionamentos e parcerias, com o objectivo de explorar, juntamente com as autoridades regionais e locais, modos de colaboração e estratégias. Neste ano, o Comité das Regiões programou mais de 50 conferências, seminários e workshops para os três dias em que decorreram estes encontros. Este pequeno fórum é também um canal privilegiado para partilha de informação, e contou com a presença de directores-gerais da Comissão Europeia que ali prestaram esclarecimentos sobre as políticas da Comunidade ligadas ao crescimento e criação de empregos. Empresas, bancos e instituições financeiras também ali estiveram a prestar esclarecimentos. Este ano o Café dos Investidores contou com a presença do Presi dente do Comité das Regiões, Michel Delebarre e a responsável pela Política Regional da Comissão Europeia, Danuta Hubner. | 49 Património | Carla Maia de Almeida Fotografia | Guto Ferreira Caminhos do Vinho A Rota de Vinhos da Península de Setúbal/ Costa Azul surgiu em 2000, para promover as adegas e os vinhos de uma região com identidade própria. Projecto conjunto da Câmara Municipal de Palmela, Região de Turismo de Setúbal e Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal, é a prova de que a união faz a força. Conheça os itinerários deste fascinante património. O moinho desengaçador ficou conhecido por «mata‑homens», tal era o fôlego e o músculo que exigia. À força de braços, os cachos de uvas eram mexidos e triturados sem clemência, até que deles se desprendesse a parte sólida, o engaço. Trabalho pesado, repetitivo. Hoje há máquinas que cumprem a mesma tarefa desta relíquia centenária; máquinas que não se cansam nem se queixam, mas que continuam a impor respeito por trás da fiada de dentes de aço. É assim a história da casa Venâncio da Costa Lima: um passar de testemunho dos objectos, o velho a dar lugar ao novo, o novo a dar lugar ao futuro. A era dos tonéis, por exemplo, está praticamente extinta. Os gigantes de madeira que aqui vemos, com estômago para guardar quase quatro mil litros de vinho, vão desaparecendo das terras do Sado à medida que desaparecem os seus tutores. Ainda há três tanoeiros na freguesia de Quinta do Anjo, mas já nenhum exerce a profissão. Foi um imigrante romeno de 44 anos quem ocupou o posto, depois de ter mostrado saber do ofício. A casa Venâncio da Costa Lima encontra-se no número 139 da rua com o mesmo nome que atravessa a aldeia de Quinta do Anjo. Venâncio da Costa Lima Pertence aos sucessores do empresário que em 1914 se lançou na produção e comercialização de vinhos, azeites e cereais, acabando por deixar uma herança próspera aos seis sobrinhos, filhos da única irmã. Com o tempo, os vinhos tornaram-se o produto exclusivo da Venâncio da Costa Lima, uma das adegas associadas da Rota de Vinhos da Península de Setúbal/ Costa Azul. No total, são dez adegas, distribuídas pelos concelhos de Palmela, Montijo e Setúbal. Junto com a Casa-Mãe, também uma antiga adega, formam um circuito promocional que pode ser um excelente ponto de partida para a descoberta dos vinhos da região, já men- cionados por D. Afonso Henriques no primeiro foral atribuído a Palmela, em 1185. Os solos arenosos e argilo-calcários predominam na península de Setúbal, emprestando características particulares aos vinhos – sobretudo no caso dos tintos, aqui em larga maioria. Se a casta tinta dominante é a Castelão (Periquita), nos brancos recorre-se principalmente à Fernão Pires e à Moscatel de Setúbal. A intro dução de castas internacionais é outra das características da produção vitivinícola da região. A Cabernet Sauvignon, uma das mais plantadas em todo o mundo, é bem acolhida nas encostas calcárias | 51 Casa Ermelinda Freitas Adega Cooperativa de Pegões da Arrábida; Chardonnay, Merlot, Syrah, Pinot Noir, Pinot Blanc e Cabernet Blanc são outras variedades que têm sido introduzidas com sucesso. Com a casta Moscatel, originária do Egipto (Moscatel de Alexandria é outra das suas designações), faz-se o generoso Moscatel de Setúbal e o especialíssimo Moscatel Roxo, elaborado com uvas tintas. Esta é, sem dúvida, a bebida mais simbólica das terras do Sado. A área foi geograficamente delimitada em 1907, mas há referências à exportação de 350 barricas de Moscatel de Setúbal no ano de 1675, tão apreciada era aquela doçura aromática nas cortes europeias. O «Moscatel de Setúbal Superior 2000», que este ano conquistou a medalha de prestígio no Concurso Nacional de Vinhos Engar rafados, é a jóia da coroa da adega Venâncio da Costa Lima, onde trabalham os enólogos Fausto Lourenço e Joana Vida. Destaca-se também o premiado «Palmela D.O.C. Escolha 1995», apresentado como um vinho de «cor granada intenso, aroma de fruta madura, compota e especiarias, sabor macio, taninos presentes e correc- tos, final muito equilibrado». Para outro segmento de consumo, daqui sai também o popular Serrinha, que já conheceu diversas fases de vida. Se dantes era o garrafão de cinco litros (vulgo «palhinhas») a mandar no mercado, agora, o que está na moda é o Bag in Box. Corta-se o cartão picotado, puxa-se a torneira do saco e já está: vinho para o dia-a-dia, numa embalagem que oferece melhor conservação depois de aberta, em relação à tradicional garrafa de vidro. Nestas coisas, o mercado é que manda; e se o mercado gostou do Bag in Box – contra os prognósticos de todos 52 | Casa Ermelinda Freitas José Maria da Fonseca os produtores, diga-se – haverá que o manter satisfeito. Para os mais conservadores, a Venâncio da Costa Lima tem ainda cerca de nove mil barris de madeira a circular por restaurantes e tabernas, desde a margem sul do Tejo à partilha do Algarve. Também estes, um dia, serão total e friamente substituídos pelas vasilhas inoxidáveis. Já se sabe: o mercado é que manda. Na Quinta do Anjo encontra-se mais uma adega integrante do circuito da Rota dos Vinhos: a Casa Agrícola Horácio Simões. Fundada em 1910, também ali se produz Moscatel de Setúbal e Moscatel Roxo, várias vezes premiados. E, porque estamos em terra de «pão, queijo e vinho», vale a pena referir outras especia lidades da casa: o queijo amanteigado e a manteiga de ovelha, duas carismáticas iguarias. Em Palmela, situa-se a Casa-Mãe da Rota dos Vinhos – o pólo dinamizador da rede, aberto ao público, que funciona como uma montra para os associados – e ainda a Adega Cooperativa de Palmela e a SIVIPA – Sociedade Vinícola de Palmela. Deixando a Quinta do Anjo e seguindo para a zona de Azeitão, deparamo-nos com mais três adegas associadas: a Quinta de Alcube, a Bacalhôa Vinhos de Portugal e a José Maria da Fonseca. Esta é a empresa mais antiga de todas, pioneira em Portugal na afirmação de marcas, numa época em que os vinhos de mesa só se vendiam a granel. Depois do «Moscatel de Setúbal», em 1849, José Maria da Fonseca criou no ano seguinte o «Periquita», um vinho encorpado feito a partir da casta Castelão, que ele próprio Casa-Mãe da Rota dos Vinhos trouxe para estas paragens. Cedo o «Periquita» se revelou um caso de sucesso, em especial no Brasil, para onde é exportado desde 1881. O rótulo, desenhado por um artista francês, não sofreu grandes alterações; agora um pouco mais estilizado, mantém a modernidade da concepção original. Se um dos objectivos da Rota de Vinhos da Península de Setúbal é sublinhar a identidade dos seus vinhos e adegas, a José Maria da Fonseca tem para mostrar um património notável. As visitas começam pela sala-museu, onde se podem ver rótulos antigos, medalhas, cálices, cerâmicas e tomboladeiras, entre outras peças carregadas de história. Nas paredes, encontram-se emoldurados os certificados de participação nas exposições universais do século XIX, entre as quais Barcelona (1888) e Paris (1889). A um canto, está uma das primeiras máquinas de engarrafar vinho, que atingia a velocidade estonteante de 200 garrafas por hora; hoje, no mesmo tempo, as quatro linhas da empresa têm capacidade para libertar 30 mil garrafas… Dos 18 milhões de litros produzidos anualmente, 75 por cento é destinado à exportação, estando o Brasil, a Suécia, a Itália, a Holanda e os Estados Unidos entre os principais mercados consumidores. Com a «Periquita» à frente das 33 marcas comercializadas, a pro dução da José Maria da Fonseca divide-se em vinhos tintos, brancos, rosés, espumantes e generosos. Neste último segmento, o «Moscatel de Setúbal José Maria da Fonseca» é também uma das marcas mais vendidas da casa, mérito da equipa de enólogos liderada por José Maria da Fonseca Domingos Soares Franco. Na Adega dos Teares Velhos repousam em cascos de carvalho os moscatéis mais antigos: vinte anos de estágio é a idade mínima exigida para se pertencer a este «clube» onde mal entra a luz do dia, e os frequentadores habituais são os morcegos, os ratos e as aranhas… Ah, e também alguma cobra ocasional, à procura do fresco no chão de terra batida. Mas não se assuste o leitor com a descrição, porque, embora o lugar inspire respeito, toda esta fauna está controlada e vive em sereno equilíbrio, praticamente invisível. Ainda que as teias de aranha possam impressionar – algumas parecem panos, de tão densas – também elas fazem parte do ecossistema. Mais: contribuem para a boa con servação dos moscatéis, na medida em que protegem a madeira de outra bicharada destrutiva. No projecto da Rota de Vinhos da Península de Setúbal há lugar para adegas históricas como a José Maria da Fonseca e para outras que começaram recentemente a fazer o seu percurso, enquanto produtoras de vinhos com marca própria. É o caso da Herdade da Comporta, que se lançou no mercado com o homónimo «Herdade da Comporta Branco», no Verão de 2004; e também da Casa Ermelinda Freitas, produtora e engarrafadora na localidade de Fernando Pó. Embora tradicionalmente ligada aos vinhos, foi na quarta geração que esta empresa familiar inflectiu num novo rumo, investindo na qualidade e na inovação. Em 1997, Leonor Freitas assumiu o legado de Ermelinda Freitas e encetou um pro- cesso de modernização que passou pela compra de mais 70 hectares de vinha e pela construção de uma nova adega, apetrechada com | 53 José Maria da Fonseca cubas-lagares de inox com temperatura controlada. Numa época em que o clima se mostra cada vez mais imprevisível, afectando as colheitas e o método de vinificação, só a evolução da tecnologia permite obter alguma garantia sobre os resultados. Os frutos deste investimento tornaram-se notórios nos últimos anos, com a atribuição de uma série de prémios nacionais e internacionais, em especial para as colheitas de 2003 e 2004. «Terras do Pó», um vinho tinto regional elaborado a partir da casta Castelão, foi o primeiro a receber rótulo próprio, iniciando a segunda vida da Casa Ermelinda Freitas. Junto com o seu equivalente branco, um vinho aromático e frutado, como é apanágio da casta Fernão Pires, constitui um dos cartões de visita do trabalho desenvolvido pelo enólogo Jaime Quendera. Do portefólio, sugerem-se também o «Dona Ermelinda», «Quinta da Mimosa» e «Leo d’Honor»; este último, pisado a pé no lagar, à maneira tradicional, depois esta- Adega Cooperativa de Pegões onde se organizam festas e acontecimentos, em associação com uma empresa de catering. Naturalmente, pontificam aqui os vinhos da casa. Com outro tipo de abordagem, as visitas das escolas são também uma das preocupações de Leonor Freitas, que criou junto à plantação um pequeno espaço a que chamou «vinha pedagógica», onde se cultivam dez castas diferentes. A poucos quilómetros da Casa Ermelinda Freitas e também sob a orientação do enólogo Jaime Quendera – sinal de uma concorrência salutar –, a Adega Cooperativa Stº Isidro de Pegões é mais um caso da diversidade existente na Rota dos Vinhos. Aqui, pro- giado em barrica nova e engarrafado em pequenas quantidades. duz-se a uma grande escala, tirando partido de uma área vinícola de quase mil hectares. Novamente, Castelão é a casta tinta predominante, representando mais de noventa por cento do encepamento. Cerca de cento e cinquenta produtores entregam aqui as suas uvas e todos os anos surgem pedidos de novos associados, o que é prova da fase ascendente que a cooperativa atravessa. A aposta no apuramento faz parte da ideologia da empresa. De três em três anos, renovam uma parte das 1100 barricas de carvalho, como forma de garantir a melhor qualidade dos vinhos de gama superior. Fundamental, para o reconhecimento de uma marca, é ir ao encontro do mercado, ter uma boa relação quali dade/preço e não descurar o marketing e a divulgação. Confiante nas potencialidades do enoturismo, Leonor Freitas considera essencial dar a conhecer as suas marcas ao público. Nas novas instalações, há lugar para uma sala de provas e para um salão Fundada em 1958, por iniciativa da antiga Junta de Colonização Interna, a Cooperativa de Pegões fez parte de um projecto estatal que trouxe para a região duas centenas de famílias vindas de todo o país. Cada uma teve direito a casa de habitação e a cerca de vinte hectares de terra, cultivando não só vinha como culturas de sequeiro e regadio. Em troca, cediam à cooperativa uma parte da produção. O projecto passou por diversas épocas e situações (incluindo a da ocupação popular, quando as reuniões da assembleia-geral se faziam com militares de G3 à porta…), até que no início da década 54 | José Maria da Fonseca de 1990 vingou a possibilidade de os casais serem adquiridos pelos agricultores, os chamados «colonos». Seguiu-se um período de forte renovação, ainda não concluído, durante o qual a Adega Cooperativa Stº Isidro de Pegões modernizou as instalações e investiu nas suas marcas, criando, por exemplo, o apreciado «Fontanário de Pegões», branco e tinto. Este ano, o «Adega de Pegões Syrah 2005» arrecadou boa parte das medalhas atribuídas em vários concursos internacionais, sendo sintoma da aposta numa imagem e consumo mais sofisticados. Hoje, pouco ou nada sobra daqueles 200 casais, que se mantêm perfilados à volta da cooperativa no seu estilo típico de casa portuguesa. Ao abandono, uns; convertidos em segunda habitação, outros; quase todos já foram vendidos pelos antigos colonos e são raros aqueles que ainda levam as suas uvas à adega. A história merece ser contada com mais vagar, sendo apenas uma das muitas curiosidades que a Rota dos Vinhos guarda. Quem quiser conhecê‑la de perto, pode dirigir-se à Casa-Mãe, onde será bem recebido e melhor encaminhado. Casa-Mãe da Rota de Vinhos da Península de Setúbal/ Costa Azul Largo de São João – Palmela De segunda a sábado, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 17h30. Encerra domingos e feriados Informações e marcações de visitas pelo telefone 212 334 398. www.rotavinhospsetubal.com Venâncio da Costa Lima | 55 Câmara ardente, produções fotográficas Pão, queijo e vinho, Trilogia de Palmela Roteiro | David Lopes Ramos Fotografia | Pedro Soares Pão com olhos, queijo sem olhos e vinho que salte aos olhos», é tudo o que muito «bico fino» considera necessário para que uma refeição seja memorável. Ora Palmela está em condições de nos oferecer o trio. O seu pão artesanal, cozido em fornos de lenha, é famoso, e com razão. Segundo informação da Câmara Municipal de Palmela, o Centro de Moinhos Vivos, situado na Serra do Louro, confecciona e comercializa pão de farinha de trigo proveniente dos seus moinhos. A autarquia sublinha o facto de «o valor patrimonial e cénico dos Moinhos de Vento da Serra do Louro» traduzir «a necessidade de se preservar uma tradição. Desta forma, com o apoio do Parque Natural da Arrábida, alguns dos seus proprietá- rios têm vindo a recuperá-los. É o caso do Centro “Moinhos Vivos” que mantém dois moinhos de vento em plena actividade, que produzem e comercializam pão a partir de farinha de trigo». Ao mesmo tempo, o Centro desenvolve uma actividade de Educação Ambiental, recebendo visitas de escolas e grupos organizados, com marcação prévia. Ora cá está uma iniciativa exemplar. Quanto ao queijo, ele é o famoso e saboroso queijo de Azeitão, elaborado com leite cru de ovelha, o qual é maioritariamente produzido na freguesia da Quinta do Anjo, remontando a sua origem ao século xix. Com o Serra e o Serpa, todos de leite de ovelha, o que constitui uma originalidade portuguesa a nível mundial, o Azeitão faz parte do terceto dos melhores queijos pátrios. Originalidade, pois, nos outros países, os queijos mais prezados são sobretudo os confeccionados com os leites de cabra e de vaca. | 57 O queijo de Azeitão continua a ser produzido segundo regras tradicionais e artesanais, sendo a respectiva qualidade assegurada por um rigoroso controlo de qualidade e certificação. O queijo do leite das ovelhas que pastam nas terras de Palmela, e também de Setúbal e Sesimbra, remete-nos para as Beiras e para o final do século xix (1830), quando Gaspar Henriques de Paiva chegou a Azeitão para se dedicar à actividade agrícola. Trouxe consigo ovelhas leitei ras e todos os anos mandava vir um queijeiro para lhe fazer queijos com o leite das ovelhas, tal como se fazia na Serra da Estrela. Só que as condições edafo-climáticas da Arrábida são diferentes das da Serra da Estrela. Apesar de, como acontece com o seu inspi rador, o de Azeitão também ser feito com leite cru de ovelha, sal e cardo, o seu aroma, textura e sabor são diferentes, embora igual- mente deliciosas. É que, a flora das pastagens da Arrábida é diferente da Estrela e o clima também. O queijo de Azeitão, salvo os do final da época (Abril/Maio) que chegam a ter um quilo e mais, mas são só para consumo caseiro, não têm mais de 250 gramas. Actual mente também se fazem uns de 100 gramas. A forma é cilindríca achatada, sem bordos vincados e de crosta amarelada. A pasta, de cor entre o amarelo desmaiado e o marfim, é amanteigada, untuosa, praticamente sem olhos e com uma zona de corte facilmente deformável. De aroma e sabor muito delicados e caracterís ticos, transmitem sensações moderadamente acídulas e salgadas, 58 | com notas ligeiras de amargo e picante. Este último acentua-se com o tempo, embora a maioria dos aprecidores goste de comer o Azeitão numa fase de meia cura. Façam-no sempre à fatia. Não lhe façam a desfeita de o comer à colher. O pão e um vinho da região são boas companhias. Há quem se incline para um tinto com alguma evolução. Eu prefiro um branco com alguma complexidade. Periquita e Moscatel Finalmente, o vinho. Melhor, os vinhos. Palmela e toda a Península de Setúbal, no conjunto «terra mãe de vinhos», podem orgulhar‑se de os ter todos: espumantes, brancos, rosés, tintos e generosos. Uma parte importante da história de Palmela está ligada à sua faceta de região vitivinícola. O solo e o clima são propícios, por isso desde a mais alta Antiguidade que têm fama os vinhos palmelenses. As suas castas de uvas também são bem conhecidas. Nos tintos, domi na a Periquita, agora de nome mudado para Castelão, depois de já ter sido Castelão Francês; nos brancos, a Fernão Pires e a Moscatel, esta também matéria-prima de um grande generoso português. Os historiadores admitem que a cultura da vinha foi introduzida no Vale do Tejo e Sado pelos tartésios (2000 anos antes de Cristo (a.C.). Mais tarde, os fenícios (século x a.C.) estabeleceram feitorias comerciais por aqui e assenhorearam-se do comércio do vinho. Mas foi com a chegada dos gregos à Penínsila Ibérica no século vi a.C. que a viticultura se desenvolveu, ganhando relevo a arte de fazer vinho. Um século depois, os celtas trouxeram novas variedades de videira e conhecimentos na área da tanoaria. Com a romani zação da Península (15 a.C.), a cultura da vinha, a elaboração e o consumo de vinhos deu um salto. A vila de Palmela recebeu o seu primeiro foral em 1185, outorgado pelo nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, e nele se mencionam a vinha e o vinho da região. Desde o final do século xix afluíram à região pessoas que ficaram na história pelo contributo dado à agricultura com um enfoque particular na vinha e no vinho. A mais importante foi José Maria dos Santos, o qual, a partir dos finais de oitocentos marcou a paisagem agrícola do concelho de Palmela. Em Pinhal Novo, no Poceirão, plantou a maior vinha contínua do mundo, a qual chegou a ocupar 2400 hectares, com seis milhões de cepas. A Região Vitivinícola da Península de Setúbal desdobra-se em três denominações distintas: D.O.C. [denominação de origem controlada] Palmela; D.O.C. Setúbal; e Vinho Regional Terras do Sado. As castas tintas, com cerca de 80 por cento do total, são as predominantes e, entre estas, distingue-se a Castelão, mais conhecida como Periquita, que ocupa 95 por cento da área das tintas. Dá origem a vinhos com boa cor, aromas limpos, frescos e atraentes, muito macios e gulosos, sobretudo se as vinhas estão implantadas em terras pobres e arenosas. Nos últimos anos, há outras castas tintas a chegar à região: Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah... Quanto aos brancos, as dominantes são Fernão Pires e Moscatel de Setúbal, destacando-se ainda a minoritária Moscatel Roxo, que dá origem a um vinho generoso do outro mundo! Embora o pão, o queijo e o vinho sejam produtos palmelenses que podem atingir um altíssimo nível qualitativo, não devem passar sem referência outras especialidades gastronómicas regionais. Nas sopas, a caramela e a de favas, que prestam vassalagem aos produtos hortícolas regionais. Nos pratos de resistência, têm que se citar o coelho guisado com feijão à camponesa, o frango à moda de Palmela, a cabidela de galinha do campo, o pato com arroz de forno, o ensopado de borrego, o cabrito assado no forno, o bucho de porco com feijão. Os que forem mais adeptos de mariscos e peixes também não ficarão desiludidos, pois o mar e a foz do Sado não ficam longe. Na fruta, sem esquecer as laranjas e os pêssegos, dê-se a primazia à bonita, perfumada e deliciosa maçã riscadinha. Por meados de Julho lá a vemos nas macieiras à nossa espera. Quanto à doçaria, abram-se alas para a chegada das fogaças, do pudim de abóbora, dos carolinos, dos suspiros, dos bolinhos de amêndoa e das pêras cozidas em Moscatel. Bom apetite! | 59 RECEITAS Sopa Caramela feijão‑catarino................................................500 gr Põe‑se o feijão de molho no dia anterior. O feijão é cozido com cenoura..............................................................200 gr a cebola picada, um pouco de azeite e a abóbora aos bocados. abóbora.............................................................. 150 gr Depois de tudo cozido acrescenta‑se água, deitando‑se em azeite......................................................................1,5 dl seguida a couve‑lombarda partida, as cenouras às rodelas, couve‑lombarda o restante azeite e os coentros. Deixa‑se cozer. cebola sal coentros Calducha bacalhau....................................................... 2 postas Num tacho leva‑se ao lume o azeite, um ramo de poejos, e quando azeite.........................................................................1 dl o azeite aquece deitam‑se dois dentes de alho, uma pitada de sal louro................................................................. 2 folhas e deixa‑se refogar. Desfia‑se o bacalhau, que entretanto foi cozido, alho..................................................................3 dentes deitando‑se no refogado com água suficiente para ensopar o poejos.............................................................. 1 molho bacalhau, bem como o pão. Mistura‑se tudo muito bem e deixa‑se pão duro ferver até enxugar. A água deve ser a de cozer o bacalhau. sal Favas à «Palmeloa» favas descascadas............................................1,5 kg Coze‑se o toucinho entremeado, os chouriços de carne e mouro; cebola média...............................................................1 pode também levar chispe e orelha que, nesse caso, devem ser toucinho entremeado...................................125 gr salgados de véspera. Depois de estar tudo cozido retira‑se e, no chouriço de carne...................................................½ caldo, cozem‑se as favas com hortelã e coentros. Logo que estejam chouriço mouro.......................................................½ cozidas servem‑se numa travessa com as carnes. hortelã e coentros.........................................1 ramo sal Lulas Recheadas à moda de Palmela Sarrafusca Coelho à Camponesa lulas...........................................................................1 kg Amanham‑se as lulas que devem ficar inteiras. Picam‑se os tentá margarina.................................................2 colheres culos e metade de um chouriço, que vão refogar num estrugido cebola picada..............................................................1 leve de margarina, cebola e alhos. Depois de refogar um pouco, alho picado..................................................2 dentes deita‑se o pão espremido, mexendo até estar tudo bem misturado, ovo cozido.....................................................................1 juntando‑se a salsa, pimenta e sumo de limão. Enchem‑se as lulas chouriço de carne até ao meio com este recheio e fecham‑se com um palito. Colocam miolo de pão escaldado ‑se em seguida, lado a lado, num tacho com margarina e um salsa picada pouco de vinho branco, cozendo em lume brando meia hora ou sumo de limão um pouco mais. Servem‑se com batatas salteadas ou puré. batatas cozidas com pele O toucinho deve ser cortado às tirinhas e posto a frigir, devendo bacalhau ..............................1 posta – 150/200 gr ser comprimido com um garfo para se obter bastante gordura. tomate maduro.........................................................1 Retira‑se o toucinho, e neste molho deita‑se o tomate e a cebola cebola....................................................................1 boa cortados às rodelas, deixando cozer. Num recipiente colocam‑se as toucinho.................................. 1 naco – 100/150 gr batatas às rodelas e o bacalhau desfiado (pode ser cru ou cozido) pimenta, sal e vinagre deitando por cima o molho bem quente. coelho médio (manso ou bravo)........................1 Na véspera parte‑se o coelho aos bocados e põe‑se numa feijão‑roxo...................................................... 1/5 litro marinada feita com bastante alho, louro, piripiri, sal, vinho cebola, alho, louro, pimento, salsa, piripiri, e a carqueja. Põe‑se o feijão de molho. No dia seguinte faz‑se um toucinho fumado, vinho tinto ou branco bom refogado com cebola, toucinho fumado, pimento às tiras, (conforme o gosto) e carqueja salsa e se necessário um pouco de banha. Tudo muito bem picado, sendo o toucinho aos rectângulos pequeninos para ficar mais harmonioso com o feijão. Retira‑se o coelho da marinada e junta ‑se ao refogado, deixa‑se ferver um pouco, acrescentando‑se então a marinada para acabar de cozer. Quando o coelho está quase cozido, junta‑se o feijão, previamente cozido e escorrido, deixando ‑se apurar. Se o coelho for manso e não se encontrar carqueja, deitar um pouco de cominhos; se for bravo não necessita. 60 | Galinha Acerejada galinha, chouriço de carne, cebola, arroz, A galinha era cozida com um bocado de chouriço de carne e uma sumo de limão, manteiga e sal cebola. Depois de cozida retirava‑se e no caldo cozia‑se arroz que era colocado no fundo dum tabuleiro de ir ao forno. Por cima do arroz colocava‑se a galinha rodeada de rodelas de chouriço, sumo de limão e uma «nozinhas» de manteiga ou margarina. Galinha com Grão galinha...........................................................................1 Coze‑se o grão que fica de molho de véspera. Faz‑se um refogado grão‑de‑bico....................................................500 gr com azeite, cebola picada, tomate, louro, salsa e pimenta; cebola picada..............................................................1 quando está a começar a alourar deita‑se a galinha aos bocados tomate.......................................................................... 2 e um pouco de água de cozer o grão. Quando a galinha está quase louro, salsa, pimenta, sal cozida deita‑se o grão escorrido e deixa‑se apurar. azeite Pombo Estufado pombo............................................................................1 Faz‑se um estufado com o pombo: cebola cortada às rodelas, alho azeite.........................................................................1 dl cortadinho, louro e azeite. Seguidamente abre‑se um pão de mis cebola média...............................................................1 tura ao meio, ficando um dos lados fechado, e coloca‑se o pombo alho..................................................................2 dentes dentro do pão juntamente com os miúdos igualmente estufados; louro.................................................................... 1 folha ata‑se o pão para não abrir e vai ao forno. pão de mistura Bolos de Banha toucinho cozido...............................................0,5 kg Desfaz‑se com a mão o toucinho e o chouriço e adiciona‑se chouriço de carne médio cozido........................1 a massa do pão previamente amassada. Mistura‑se tudo muito pão em massa.................................. 1 (aprox. 1 kg) bem, amassando: fazem‑se bolinhos ao critério da pessoa e colocam‑se num tabuleiro forrado de papel polvilhado com farinha. Vão ao forno a cozer. Fogaças pão em massa......................................................1 kg Amassa‑se o pão em massa com a banha derretida, junta‑se o ovo, açúcar.......................................................................1 kg a aguardente e o sumo de laranja, depois de bem amassado farinha.....................................................................1 kg junta‑se a farinha, a canela e a erva‑doce, ficando uma massa canela....................................................................50 gr homogénea. Estica‑se a massa com um rolo e corta‑se em vários ovo....................................................................................1 feitios; pinta‑se com gema de ovo e vai ao forno. erva‑doce.............................................................50 gr aguardente...................................................½ cálice sumo de laranja.........................................................1 banha................................................................. 100 gr Filhós de Abóbora abóbora‑menina.............................................2,5 kg Coze‑se a abóbora com água e sal. Depois de cozida escorre‑se, farinha.....................................................................1 kg reservando a água. Junta‑se um quilo de farinha, o fermento, fermento de padeiro.................................... 150 gr a raspa e o sumo das laranjas, bem como a aguardente. Amassa‑se raspa de laranjas...................................................... 2 até a massa correr, quando se pega; nem líquida nem a cair aos sumo de laranjas...................................................... 3 bocados. Polvilha‑se a massa, logo que pronta, com farinha e deixa aguardente..................................................... 1 cálice ‑se levedar. Deita‑se em óleo quente às colheres, para fritar. Para temperar estas filhós ferve‑se açúcar com canela e água, sem caramelizar. Filhós de Cenoura cenoura cozida, escorrida e moída.......300 gr Amassa‑se tudo até ficar numa massa espessa; deixa‑se repousar ovos................................................................................ 3 uma hora. Frita‑se em óleo bem quente. Polvilha‑se com açúcar açúcar........................................ 2 colheres de sopa branco. farinha...............................................................200 gr canela................................................1 colher de chá vinho moscatel............................................½ cálice sumo de laranja Receitas retiradas do livro «Sabores da Costa Azul», de Celeste Cavaleiro, editado pela Estuário Publicações em 2006. www.estuariopublicacoes.blogspot.com | 61 A Casa Mãe da Rota dos Vinhos está em condições de fornecer sugestões e fazer marcações que ajudem a fazer das visitas à região jornadas memoráveis. Foram organizados seis roteiros – Por terras de Santiago: História Património e Artesanato; Por terras da Arrábida: Vinho, Arte e Natureza; Por terras verdes: Vinhas e Golfe; Por terras de colonos, ferroviários e antigas povoações: Horizontes de Ruralidade; Por terras do Sado: Salinas e Natureza; e Por terras da baía dos golfinhos: Sol e Mar – e sobre eles, os profissionais da Casa Mãe da Rota dos Vinhos podem fornecer as melhores e mais precisas informações e indicações. Casa Mãe da Rota dos Vinhos da Costa Azul Câmara ardente, produções fotográficas Largo de S. João, Palmela Telefone: 212 334 398 Fax: 212 334 990 E-mail: [email protected] Site: www.rotavinhospsetubal.com Horário de funcionamento: De 2ª a sábado, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 17h30.. Encerra aos domingos e feriados Associação de Produtores de Queijo de Azeitão (APQA) Quinta de S. Gonçalo – Cabanas, Palmela Telefone: 212 888 142 Fax: 212 888 141 62 | RESTAURANTES Pousada de Palmela O Peixeiro Alcanena Aberto todos os dias Encerra à segunda-feira Encerra à quarta-feira Castelo de Palmela 2950-997 Palmela Telefone: 212 351 226 Carré de borrego Linguado com cerveja Pataniscas de camarão Lagoinha 2950-064 Palmela Telefone: 212 353 083 Perna de porco assada no forno Massinha de cherne Choco frito Rua Venâncio da Costa Lima, 99 2950-701 Quinta do Anjo Telefone: 212 870 150 Adega com buffet de pratos típicos Pato do campo com castanhas Galinha do campo de Cabidela Retiro Azul O Mestre Aberto todos os dias Encerra à terça-feira Avenida Visconde Tojal, 23 Cabanas 2950-601 Quinta do Anjo Telefone: 212 880 924 / 963 709 723 Pernil assado no forno Tábua terra e mar Largo do Chafariz 2950-234 Palmela Telefone: 212 350 021 Medalhão de vitela com banana flamejada Arroz de pato Tamboril à Bolhão Pato O Cantinho do Volante Avenida Alberto Valente, 19 Volta da Pedra 2950-313 Palmela Telefone: 212 350 335 Encerra ao domingo Ensopado de borrego Migas à alentejana Naco de vitela grelhado Terceira Geração Rua Serpa Pinto, 147 2950-260 Palmela Telefone: 212 350 152 Encerra à segunda-feira Bacalhau à Terceira Geração Coelho à Graciosa Carne de porco à marinheiro Manel das Codornizes Lagoinha 2950-064 Palmela Telefone: 212 331 945 Cozido à Portuguesa Caldeirada de peixe O Mirante Lancelote Encerra à segunda-feira Arroz de tamboril Feijoada de marisco Estrada Nacional 369 C.C. S. Julião 2950-302 Palmela Telefone: 212 334 609 A Moagem Travessa à Imperador dos mares de cada mês Aberto todos os dias Bacalhau à Mirante Rodízio de carnes mistas O Telheiro Rua Egas Moniz 2965-311 Poceirão Telefone: 265 995 520 Encerra ao domingo excepto o primeiro Caça brava Ensopado de enguias Cataplana de cherne ou tamboril Rua Hermenegildo Capelo, 12 2955 Pinhal Novo Telefone: 212 362 244 A Cepa 2000 Bifinhos de vitela na pedra Aberto todos os dias Aberto todos os dias Brejos do Poço CCI 5309 2965-221 Poceirão Arroz de tamboril Ensopado de enguias Cataplana de cherne O Pinto Mista de porco preto Arroz de tamboril Rua Augusto Cardoso, 10 2950-214 Palmela Telefone: 212 351 067 Rua Ferreira de Castro, Lote 65, R/c Esq 2955-185 Pinhal Novo Telefone: 212 362 106 Cantinho do Céu Codornizes Plumas de porco preto com fruta Encerra ao domingo Encerra à terça-feira Tábua de entrecosto Tirinhas do fundo Pérola da Serra Rua Dr Bernardo Teixeira Botelho, 46 2950 Palmela Telefone: 212 350 240 Encerra ao domingo Avenida da Liberdade, 110 2695-575 Águas de Moura Telefone: 265 912 228 Secretos de porco preto com fruta Frango no churrasco Veado e javali grelhados O Alqueva Encerra à terça-feira Rua Salgueiro Maia, Lote 8, Loja Esq Urb. Quinta do Pinheiro 2955 Pinhal Novo Telefone: 212 383 442 Açorda de marisco Carne de porco preto grelhada Bacalhau à Pérola da Serra Grãozada de marisco O Rei do Bucho Encerra domingo ao jantar e segunda-feira Tirinhas do fundo Tábua de entrecosto Avenida Alberto Valente, 68 Volta da Pedra 2950-439 Palmela Telefone: 212 353 331 Rédea Solta Bucho com feijão Cherne com amêijoas Encerra à terça-feira Pernil assado no forno Tábua de entrecosto Herdade de Rio Frio 2955 Pinhal Novo Telefone: 212 319 661 Encerra à segunda e terça-feira Rojões com açorda de legumes Migas com entrecosto Cozido à portuguesa Carne de porco à alentejana O Armazém do Cozido Espaço Lina Vaz, Lote 70 (Estrada Quinta do Conde / Makro) Vila Amélia 2950-805 Quinta do Anjo Telefone: 961 277 495 Fax: 212 102 107 [email protected] www.armazemdocozido.com Aberto todos os dias ao almoço e sextas e sábados ao jantar Dourada Bangkok Bifinhos com molho de ostras Pernil com molho de farinheira Roteiro de Restaurantes, editado pela Região de Turismo na Costa Azul, em Dezembro de 2005. | 63 ARTEMREDE Agakuke e a filha do Sol Na sequência do investimento realizado em conjunto com as autar quias na construção, recuperação, modificação de cine‑teatros e outros equipamentos culturais congéneres destinados à apresentação de espectáculos, maioritariamente financiado através dos fundos estruturais europeus, decidiu a CCDR-LVT – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo promover a realização de um estudo que identificasse os CRIANÇAS E JOVENS Agakuke e a filha do Sol lua cheia teatro para todos Sexta-feira, 11 janeiro | 10H30 Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra Sábado, 12 Janeiro | 16H00 Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra meios e instrumentos mais adequados à dinamização, qualificação e criação de condições de sustentabilidade desses equipamentos. A realização do referido estudo incluiu um trabalho de inventariação dos teatros e cine-teatros e de análise das dinâmicas culturais da Região, bem como uma ampla discussão e troca de ideias com as autarquias, ao nível, quer dos seus responsáveis políticos, quer de responsáveis dos departamentos culturais ou dos próprios teatros. Este processo culminou com a proposta de criação de uma rede DANÇA A Arte da Fuga criação artemrede em parceria com teatro camões Sábado, 5 Janeiro | 21H30 Teatro Municipal de Almada, Almada formal que integrasse os teatros e equipamentos culturais congé Sábado, 12 Janeiro | 21H30 neres da região, entendida como a melhor solução para dar res- Cine-Teatro de Sobral de Monte Agraço, Sobral de Monte Agraço posta às necessidades de qualificação, assistência técnica e desen Sexta-feira, 18 Janeiro | 21H30 volvimento que as autarquias sentem neste domínio. A criação da Cinema Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo Rede foi consubstanciada através da constituição de uma asso- Sexta-feira, 25 Janeiro | 22H30 ciação cultural privada sem fins lucrativos «Artemrede – Teatros Associados», integrando, presentemente, o projecto 15 autarquias: Abrantes, Alcanena, Alcobaça, Almada, Almeirim, Barreiro, Cartaxo, Entroncamento, Moita, Montijo, Palmela, Santarém, Sintra, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras. 64 | Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra A Arte da Fuga, criação Artemrede, em parceria com Teatro Camões Ministério do Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional