O Conceito de alienação em O Capital: de conceito pressuposto a conceito posto
Resumo
Trata-se de uma apresentação crítica do conceito de alienação em Marx, abordando a continuidade do
conceito de juventude na produção madura do autor. Refletindo sobre o modo exposição do conceito de
alienação em O Capital, em sua articulação com a teoria do valor trabalho e com análise histórica da
gênese do modo de produção capitalista. Conduzindo o leitor pelo método de exposição de Marx de O
Capital, no qual a alienação surge como conceito pressuposto – condição dada ao desenvolvimento do
capital – e conceito posto – condição criada pelo próprio capital – demonstrando a não apenas a
permanência do conceito de alienação como sua centralidade na análise do modo capitalista de produção
elaborada por Marx.
Palavras-chaves: método de exposição; alienação; O Capital.
O Conceito de alienação em O Capital: de conceito pressuposto a conceito posto
José Pereira de Sousa Sobrinho1
O presente artigo apresenta uma reflexão a respeito do conceito de alienação em
Marx expressando sua centralidade categorial na análise sistêmica travada pelo autor em
torno da sociedade capitalista, tomando como primordial, o desenvolvimento de
questões por vezes secundarizadas nas análises marxistas do conceito, quais sejam: 1) a
base material do conceito de alienação; 2) articulação do conceito de alienação e
método de exposição em O Capital, combatendo as concepções que primam pelo
suposto corte epistemológico entre o jovem e maduro Marx; 3) por fim, a centralidade
do conceito de alienação para a análise econômica do sistema capitalista desenvolvida
em O Capital. Portanto, tomamos esses três pontos como essenciais para reflexão do
conceito de alienação em Marx, a serem desenvolvidos no presente artigo.
A necessidade de reafirmar o conceito de alienação em Marx passa por uma
constante depuração de qualquer resquício idealista de base hegeliana – negando
qualquer interpretação do fenômeno da alienação como engendrado no plano da
consciência ao mesmo tempo limitando a possibilidade de sua superação também
concebida no plano da consciência. A afirmação do conceito de alienação no contexto
de uma analise marxiana deve afirmar o seu conteúdo material, negando a crosta
idealista presente no conceito de alienação herdado do filosofo alemão.
Para Konder (2009, p. 30), Marx efetiva esse movimento de negação em torno
do conceito de alienação libertando-o de sua “acepção metafisica [...] decompondo-o,
recompondo-o, atribuindo-lhe novo conteúdo e dando-lhe novas dimensões”, em nosso
entendimento esse movimento de superação é efetivado na medida em que o fenômeno
da alienação é articulado com o fenômeno histórico no qual as condições subjetivas para
realização do trabalho são separadas das condições objetivas de trabalho, ou seja, tratase da alienação entre trabalhadores e meios de produção.
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Doutorando em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Bolsista da CAPES.
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Nos Manuscritos de 1844, momento no qual Marx trava um debate crítico com
as formulações idealistas da filosofia alemã e desenvolve os seus primeiros estudos de
economia política encontramos uma profunda exposição do conceito de alienação.
Apesar do caráter desconecto do diversos cadernos que compõem esse estudo do autor,
sua análise minuciosa nos permite aferir em um desenvolvimento ainda que embrionário
do método marxiano, o modo pelo qual Marx opera o movimento de superação dos
fundamentos idealistas inseridos no conceito de alienação.
Para tanto, uma análise crítica das teorias econômicas de Smith e Ricardo,
travadas nessa obra é essencial, desdobrando-se no percurso no qual Marx parte “dos
pressupostos da economia nacional” aceitando “sua linguagem e sua lei” (MARX, 2004,
p. 79), e por fim acaba por aplicar “aos problemas da economia as categorias da
dialética, tornada agora dialética materialista” (LUKÁCS, 2009, p. 180). De fato, ao
articular-se a uma base material concreta, Marx apropria-se dos conceitos hegelianos de
alienação e estranhamento superando a base idealista de seus conceitos, ofertando-lhe
uma base material vinculada à dinâmica de reprodução social do capital.
Dessa articulação entre dialética e economia politica está não apenas a base pela
qual Marx vem a superar a inversão metodológica hegeliana, mas também a base para
aferir ao conceito de alienação um fundamento material. Esse fundamento é expresso
por Marx já nos Manuscritos de 1844 na separação entre trabalho e produto do trabalho.
Contudo, tal fenômeno é explicado através da articulação entre esses dois conceitos:
alienação e estranhamento. Marx explica a alienação em seu encadeamento com o
estranhamento, no qual o segundo conceito expressa a dinâmica da sociedade do capital
de apropriação desigual do resultado do trabalho social, nos apresentando quatro
momentos dessa articulação nos Manuscritos de 1844:
1) A relação do trabalhador com o produto do trabalho como
objeto estranho e poderoso sobre ele. [...]. 2) A relação do
trabalho com o ato da produção no interior do trabalho [...]
como uma [atividade] estranha não pertencente a ele [...]. 3) do
ser genérico do homem [...]. 4) [...] estranhamento do homem
pelo [próprio] homem.” (MARX, 2004, p. 83-85).
Nossa reflexão a respeito dos conceitos marxianos nos permite tomar a categoria
da alienação em si como um momento da objetivação, momento positivo de
constituição do homem pelo próprio homem a partir do trabalho. Por sua vez, esse
momento da objetivação não pode ser compreendido como um fenômeno isolado ou
isento da dinâmica de reprodução social do capital, surgindo como expropriação do
produtor real. Portanto, Marx denuncia uma realidade social na qual a alienação que
deveria surgir como efetivação do trabalhador “aparece ao estado nacional-econômico
como desefetivação [...] do trabalhador, a objetivação como perda do objeto e servidão
ao objeto, a apropriação como estranhamento [...], como alienação” (MARX, 2004, p.
80).
A articulação desenvolvida por Marx entre alienação e estranhamento expressa o
processo de objetivação como momento de perda do objeto, como momento negativo da
alienação, desenvolvendo-se nos quatro momentos descritos acima como
desdobramento do processo de reprodução do capital. Nossa análise nos autoriza a
concordar com Ranieri (2001, p. 62) ao defender que a “apreciação marxiana desses
momentos e contrastes das formas de aparecer do trabalho e seus objetivos sob o
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estranhamento está sempre vinculada a exposição da alienação [...] como um elemento
concêntrico ao estranhamento”.
A identificação entre alienação e estranhamento surge das contradições entre
capital e trabalho, determinada pela apropriação privada do trabalho exteriorizado.
Portanto, no interior do sistema mercantil, a identificação expressa o conteúdo no qual
toda alienação adquire um conteúdo negativo, enquanto relação estranhada entre
produtor e produto; produtor e ato de trabalho. Ou seja, encontramos nessa obra, o
binômio alienação/estranhamento como expressão genérica das relações de propriedade
existente no interior do sistema mercantil, antecipando o conteúdo da análise presente
na obra de maturidade de Marx, em que há uma referência mais explícita à separação
entre as condições subjetivas e as condições objetivas de trabalho.
Ao identificarmos esse conteúdo interno no conceito de alienação articulado ao
estranhamento em Marx, encontramos a linha de continuidade desse conceito em suas
análises de maturidade. Desse modo, encontramos coerência na análise de Ranieri,
quando este considera a
A tematização sobre o estranhamento sofre uma continuidade
consciente no interior do conjunto da obra de Marx, uma vez que a
orientação de sua proposição teórica é a supressão definitiva do
trabalho estranhado, que será manifesto conceitualmente mais tarde
como trabalho abstrato, coisificação e fetiche sem, no entanto, deixar
de ser reconhecido como trabalho estranhado ao homem no interior de
um processo de exteriorização [...] do ponto de vista da atividade e, ao
mesmo tempo como apropriação, do ponto de vista do capital
(RANIERI, 2001, p. 15).
Contudo, o fundamento material expresso na identificação entre alienação e
estranhado como separação entre condições subjetivas e objetivas para realização do
trabalho permanece como pressuposto dos diversos fenômenos inerentes ao sistema
capitalista. Para tanto, o caráter de centralidade da separação entre trabalho vivo e
trabalho objetivado fica expressa nos Grundrisse, quando Marx afirma ser a “existência
da capacidade de trabalho viva como existência puramente subjetiva, separada tanto das
condições do trabalho vivo como dos meios de existência, meios de subsistência, meios
da autoconservação da capacidade de trabalho viva” (MARX, 2011, p. 380) como a
primeira condição essencial para que o “trabalho devenha trabalho ponente de capital”
(MARX, 2011, p. 380).
O caráter de centralidade atribuída em sua arquitetura teórica ao fenômeno da
separação entre as condições objetivas e subjetivas de trabalho, em acordo com a linha
argumentativa de Saad (2011, p. 51), pode ser definida como a “separação essencial”
existente “entre os trabalhadores assalariados e os meios de produção, monopolizados pela
classe capitalista”, conduzindo o trabalho a uma existência reduzida à “capacidade viva
de trabalho em sua indigência subjetiva e insubstancial” (MARX, 2011, p. 376).
Por fim, o caráter de centralidade da chamada separação essencial justifica-se
quando o próprio Marx enxerga nesse fenômeno a origem dos demais fundamentos da
sociedade capitalista. Dito de outra forma, encontramos a premissa capaz de autorizar a
venda da força de trabalho como pressuposto social decisivo para produção de
mercadorias, ou seja, segundo o próprio Marx, encontramos “a base realmente dada, o
ponto de partida do processo de produção capitalista” (MARX, 1985b, p. 156).
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Após essa prévia exposição, podemos compreender a centralidade da
dissociação entre trabalho e meios de produção para o edifício teórico do sistema
marxiano, descrita nos Grundrisse como as condições nas quais se cria continuamente
“a objetividade criada pelo próprio trabalho – como propriedade alheia: alienação [...]
do trabalho” (MARX, 2011, p. 424). Desse modo, encontramos o fenômeno da
separação essencial expressa em os Grundrisse como conteúdo do trabalho alienado.
A retomada do conceito de alienação nos Grundrisse nos permite defender não
só a continuidade desse conceito na fase madura do autor, como também desvendar já
no conteúdo alienação presente na sua obra de juventude – Manuscritos de 1844 – como
expressam da referida separação essencial. Interpretando, portanto, o conceito de
alienação como uma síntese da lógica interna do sistema capitalista, em sua capacidade
de efetivar a separação entre condições subjetivas e objetivas de trabalho.
Desse modo, alcançamos o entendimento a respeito da potência elucidativa do
conceito de alienação por expressar justamente uma síntese das condições materiais
essenciais da sociedade capitalista, portando, em si uma base também material,
encontramos, assim, uma linha de continuidade entre as obras de juventude e
maturidade do autor, no conteúdo imanente da categoria alienação. Pois, justamente está
em O capital à análise dos processos “históricos mediante os quais foi dissolvida a
combinação original dos meios de produção com a força de trabalho” (MARX, 1984, p.
30), expondo o trabalho objetivado como potência alienada de sujeito em contraposição
aos modos de produção anteriores, nos quais tais fundamentos “permaneciam unidos
como o caracol e sua concha” (MARX, Karl. 1985, p. 282).
Portanto, com os argumentos apresentados, encontramos uma base teórica –
alienação como expressão da separação entre condições subjetivas e objetivas de
trabalho – que nos permite sustentar o argumento da permanência do conceito de
alienação nas obras de maturidade do autor, inclusive em O Capital.
Mas, encontramos diferenças entre os Grundrisse e em O Capital quanto a
presença das nomenclaturas dos Manuscritos de 1844, especialmente em O Capital, em
que, em raras oportunidades, podemos encontrar o termo alienação ou estranhamento.
Mas no que se refere ao conteúdo da separação essencial, a formulação de Ranieri
(2001, p. 15) demonstra ser acertada ao justificar que no “desenvolvimento das
reflexões marxianas, estas categorias podem muito bem continuar presentes sem que
sejam, todavia, expostas nominalmente”.
Mas, de modo geral o que vamos demonstrar nas linhas que seguem é a
continuidade do conceito de alienação/estranhada em seu conteúdo nas obras de
maturidade do autor, como expressão efetiva da separação entre condições subjetivas e
objetivas do trabalho. No âmbito do conceito, as distinções que encontramos entre o
jovem e o maduro Marx em relação a utilização dos conceitos de alienação e
estranhamento trata-se de uma nova identificação, pautada na superação do binômio
alienação/estranhamento das obras de juventude para a articulação do conceito de
alienação com o processo histórico de separação entre as condições subjetivas e as
objetivas de trabalho – separação essencial.
Compreendemos, portanto, que na exposição de O Capital os elementos
positivos da alienação são apenas pressupostos, justo, pois estes estão subsumidos sob a
objetivação do sistema capitalista, ou seja, a alienação entre produtor e o produto do seu
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trabalho é posta em regra como expropriação do trabalho, expressando o processo o
qual nos Manuscritos de 1844 seria definido através do binômio alienação/estranhada.
Exposição da Alienação em O Capital: de conceito pressuposto e posto
Devemos entender a retomada de Marx do conceito de alienação nos textos de
maturidade, como uma superação das suas análises de juventude sob dois pontos:
primeiro, ao explicar a referida separação, articulada com a teoria do valor,
demonstrando o mecanismo pelo qual trabalho e meios de produção dissociam-se
continuamente, incorporando ao conceito de alienação uma força elucidativa ao associalo a análise do conceito de mais-valia na sociedade capitalista; segundo, nos Grundrisse
e em O Capital, Marx expõe o conteúdo histórico do trabalho alienado, o seu vir-a-ser,
apresentando dados históricos a respeito da gênese da separação entre condições
subjetivas e objetivas do trabalho concebida no interior do sistema capitalista, ou seja, a
acumulação primitiva ou originária. Nessa perspectiva, defendemos não somente a
existência do conceito de alienação nas obras de maturidade do autor como encontramos
uma superação qualitativa desse conceito, assumindo uma maior força explicativa ao
incorporar as análises da teoria do valor trabalho e a respeito da gênese histórica do
modelo de propriedade capitalista.
Apesar de afirmamos a permanência do conceito de alienação nas obras de
maturidade de Marx, é importante destacar que encontramos similaridades e
distanciamentos no modo como Marx trata esse conceito nos Grundrisse e em O
Capital. Podemos expressar essas distinções como da esfera método de exposição e as
aproximações como sendo da esfera do conteúdo do conceito. Defendemos, portanto, a
existência de uma identidade naquilo que se mantém central no conteúdo da alienação
presente nas duas obras: a separação essencial entre condições objetivas e subjetivas de
trabalho.
Para entendermos como o conceito de alienação apresenta-se em O Capital
devemos travar uma curta reflexão sobre as possibilidades de abordagem do objeto
presente nessa referida obra. Rubin apresenta-nos um recurso metodológico presente na
exposição de Marx, na qual este trata de analisar o seu objeto partindo da forma para
alcançar o conteúdo, ou seja, passando “analiticamente de formas acabadas a seu
conteúdo” (RUBIN, 1980, p. 133).
Guiados por esse recurso metodológico, encontramos o conceito de alienação em
quase todo o livro I de O Capital, como conteúdo presente no conceito de trabalho,
como condição histórica já dada, ou seja, a alienação não é posta na exposição, mas
surge dela como pressuposto. Para tornar mais clara nossa reflexão, Marx não define de
imediato o conceito de alienação, não nos apresenta a separação das condições
subjetivas e objetivas de trabalho, mas nos apresenta o processo de produção do capital,
fenômenos os quais somente podem ser concebidos sob os determinantes históricos da
alienação: transição da produção simples de mercadorias a produção capitalista;
processo de valorização; transformação de dinheiro em capital; compra de força de
trabalho e extração de mais-valia. Todos esses eventos próprios do sistema capitalista
desenvolvido têm, como pressuposto, a separação do caracol e sua concha.
Ao partir das formas acabadas, Marx termina por alcançar o conteúdo da
alienação como resultado do processo de extração de mais-valia e da acumulação
privada da riqueza. Em sua exposição em O Capital, o complexo da alienação exposto
como pressuposto somente surge como desdobramento das formas acabadas da
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reprodução capitalista. Todavia, à medida que os desdobramentos do processo de
reprodução vão sendo efetivados, emerge do interior da exposição uma nova relação
entre trabalho e propriedade. Compreendemos nesse movimento o meio pelo qual o
conceito de alienação vai sendo progressivamente enriquecido e posto, ou seja, a
explicitação, do “que na apresentação dialética é posição do que só estava pressuposto –
passagem de um em-si a um para-si –, [...] do que estava implícito” (FAUSTO, 1983, p.
156). Nesse meio, encontramos o modo como a alienação é exposta de forma
contundente no sistema do autor, quando esse trata da relação entre proprietários de
mercadorias, expressão da aparente igualdade e liberdade entre compradores e
vendedores2 da força de trabalho, uma relação da esfera da circulação simples, ou seja,
como fenômeno na esfera da aparência do capital. Como resultado dessa reflexão, Marx
revela a essência desse fenômeno, a lei de apropriação como negação das leis da
circulação simples – leis de equivalência e propriedade associado ao trabalho – e como
fonte da alienação do trabalhador, à medida que o produto do trabalho torna-se
propriedade em oposição ao trabalhador. Nas palavras do autor, os possuidores de
mercadorias são tratados com iguais direitos
e o meio de apropriação de mercadoria alheia [...] é apenas a
alienação da própria mercadoria e esta pode ser produzida
apenas mediante trabalho. A propriedade aparece agora, do lado
do capitalista, como direito de apropriar-se de trabalho alheio
não-pago ou de seu produto; do lado do trabalhador, como
impossibilidade de apropriar-se de seu próprio produto. A
separação entre propriedade e trabalho torna-se consequência
necessária de uma lei que, aparentemente, se origina em sua
identidade (MARX, 1985b, p. 166).
Marx parte da aparência, a lei da circulação simples, do “principio da
apropriação dos produtos pelo próprio trabalho” (FAUSTO, 1983, p. 190), para negá-la
e alcançar a essência da sociedade capitalista, desvendando na negação do princípio da
apropriação a força imanente do processo histórico de alienação do trabalhador.
Portanto, partindo da forma acabada, do conteúdo do comportamento do trabalho em
relação à propriedade, desvenda a alienação como um componente da forma trabalho.
Nesses termos “o trabalho vivo se comporta tanto em relação à matéria-prima quanto ao
instrumento e aos meios de subsistência requeridos durante o trabalho de maneira
negativa, como não propriedade” (MARX, 2011, p. 409).
Nos Grundrisse, também encontramos o percurso pelo qual Marx supera a
aparência da circulação simples, inserindo a relação de troca entre capital e trabalho,
como essência do fenômeno, como meio pelo qual a separação entre condições
subjetivas e condições objetivas são engendradas. Marx desvenda esse processo na
relação na qual o trabalhador aliena-se da riqueza social objetivada, produto de seu
trabalho, encontrando na venda da sua força de trabalho o ato pelo qual o capital compra
trabalho vivo como fonte universal da riqueza, desvendando o movimento contraditório
em que “a força criativa de seu trabalho se estabelece perante ele como a força do
capital, como poder estranho”. Desvendando na relação de compra da força de trabalho
o movimento pelo qual o trabalhador “aliena o trabalho como força produtiva da riqueza
[...] o capital apropria-se dele enquanto tal. A separação de trabalho e propriedade no
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produto do trabalho, de trabalho e riqueza, é posta, por conseguinte, nesse próprio ato de
troca” (MARX, 2011, p. 240).
Portanto, nas obras de maturidade, o conceito de trabalho alienado encontra-se
associado à teoria do valor trabalho, adquirindo maior potência explicativa ao expressar
não somente a relação na qual o trabalho está dissociado e alheio das propriedades
objetivas para sua reprodução, mas representa também as condições sobre as quais o
trabalho, para continuar produzindo a sua existência, somente pode fazê-lo ao produzir e
reproduzir continuamente a relação de antítese entre fundamentos subjetivos e objetivos
do trabalho. Como resultado desse fenômeno, Marx encontra a relação na qual o
“processo de produção capitalista reproduz [...] mediante seu próprio procedimento, a
separação entre a força de trabalho e condições de trabalho. Ele reproduz e perpetua,
com isso, as condições de exploração do trabalhador” (MARX, 1985b, p. 161). E tal
exploração somente pode ser concebida em escala social justamente porque “a produção
capitalista, uma vez estabelecida, não só reproduz em seu desenvolvimento essa
separação, mas a amplia em âmbito sempre maior, até que se tenha tornado a condição
social genericamente dominante” (MARX, 1984, p. 30).
De fato, ao constatamos na análise marxiana, o processo de produção capitalista
como fenômeno efetivado, chegamos à conclusão de que o trabalho produz-se e
reproduz-se de novo não somente como existência subjetiva, mas também as próprias
condições objetivas, que, contraditoriamente, surgem, como valores autônomos. As
condições objetivas, por sua vez, geram a relação na qual “o produto do trabalho,
trabalho objetivado, é dotado de alma própria pelo próprio trabalho vivo e se fixa diante
dele mesmo como poder estranho” (MARX, 2011, p. 373). O conteúdo da análise alcança,
portanto, o conteúdo do trabalho como trabalho alienado, como conceito, preponderante
para explicar o modo de produção capitalista.
Marx interpreta toda a equação na qual o capital vem a valorizar-se como um
resultado da unidade dialética entre condições históricas dadas e postas, entre as quais o
autor explicita a centralidade da alienação para a efetivação dessa equação. Chegando a
afirmar que a “riqueza existente na forma do dinheiro só pode se converter nas
condições objetivas do trabalho porque e quando essas condições” de trabalho “estão
separadas do próprio trabalho” (MARX, 2011, p. 414-5). Essa formulação de Marx
demonstra a centralidade da categoria trabalho alienado, como condição essencial do
sistema capitalista, enquanto fenômeno anexado associado a gênese e a constante
reprodução desse sistema.
Todavia, após essa análise, encontramos como premissa do sistema do capital, o
desenvolvimento da alienação, visto que “o mundo da riqueza se amplia
progressivamente como poder estranho contraposto ao trabalho” – isso porque, quanto
“mais ele se objetiva – o trabalho [–], tanto maior devém o mundo objetivo dos valores
que se lhe contrapõem como mundo estranho – como propriedade alheia” (MARX, 2011,
p. 374), ou seja, a propriedade do capital amplia-se com a contínua expropriação da
propriedade do trabalho, e a própria condição de separação entre trabalho vivo e
objetivado, aprofunda-se.
Alcançando desse modo a análise de O Capital, no qual encontramos de modo
implícito o caráter progressivo da alienação como forma imanente da equação
reprodutiva do valor, associada à expansão e acumulação do capital, ou seja,
incorporado à teoria do valor trabalho. Isso tomando, como ponto de partida da análise,
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a exposição na qual o fenômeno da alienação é tomado como pressuposto por Marx. o
próprio método de exposição, no qual o conceito de alienação é progressivo.
Mas o próprio método de exposição do autor no qual o movimento imanente do
real é reproduzido, conduzindo a um progressivo enriquecimento do conceito de
alienação, alcançando a condição na qual este torna-se uma categoria posta. Trata-se,
agora, de analisar o conceito de alienação como categoria efetivamente posta pelo autor.
Esse segundo momento da exposição do conceito representa um retorno dialético ao
fenômeno analisado por Marx, tomando como ponto de partida não a “forma acabada,
mas” o “próprio conteúdo [...] do qual segue-se necessariamente a forma” (RUBIN,
1980, p 133).
Nesse segundo momento, a separação entre condições subjetivas e objetivas de
trabalho não surge como pressuposto do capital, mas como condição posta pelo mesmo.
Isso significa dizer que encontramos na exposição marxiana uma inversão, na qual esses
pressupostos, “que originalmente apareciam como condição de seu devir [...], aparecem
agora como resultado de sua própria efetivação de sua efetividade, como condições
postas por ele – não como condições de sua gênese, mas como resultados de sua
existência.” Logo em seguida, Marx explica o porquê da reviravolta metodológica em
sua exposição: “Para devir, o capital não parte mais de pressupostos, mas ele próprio, e,
partindo de si mesmo, cria os pressupostos de sua própria conservação e crescimento”
(MARX, 2011, p. 378).
Portanto, o segundo momento da exposição do conceito de alienação em O
Capital exige tomá-lo não como causalidade dada ao capital, mas de apresentá-lo como
causalidade posta pelo capital, como pressuposto criado pelo mesmo. Essa análise está
presente em O Capital, quando Marx trata do problema da acumulação primitiva. A
força argumentativa do conceito de acumulação primitiva está em desvendar a gênese
do capital como um processo histórico, ou seja, o vir-a-ser do capital. Justamente em
consonância com esse conceito, Marx também apresenta o movimento histórico no qual
o trabalho vivo separa-se das condições objetivas necessárias a sua realização,
encontrando a alienação do trabalho na gênese do capital, e incorporando ao conceito de
alienação um conteúdo histórico, pois a “assim chamada acumulação primitiva é [...]
nada mais que o processo histórico de separação entre produtor e meio de produção”
(MARX, 1985b, p. 262).
Encontramos na acumulação primitiva, portanto, uma relação de determinação
sobre o trabalho, a qual é a própria determinação do capital. O significado dessa análise
no sistema marxiano está em demonstrar qual o nexo histórico operado pelo capital
capaz de realizar uma profunda transformação nas relações sociais em sua totalidade,
engendrando toda uma nova engrenagem reprodutiva. Portanto, a acumulação primitiva
representa o impulso histórico originário no qual a força expropriadora do capital é
posta em movimento. A partir dessa análise, apenas podemos entender o trabalho em
Marx a partir da relação de antítese travada com o trabalho objetivado, concebido como
existência autônoma e trabalho vivo.
Podemos concluir que o conceito de alienação está presente na exposição de O
Capital, no qual o autor aborda-o de distintas maneiras: a primeira, como pressuposto
presente no processo de reprodução; a segunda, como condição posta historicamente, à
qual está anexada toda uma exposição histórica do processo de expropriação do
trabalhador. Mas é importante enfatizarmos que, em toda a exposição do capital, o
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conceito de alienação está presente como força de transformação das relações de
produção e, consequentemente, de propriedade.
Considerações finais
Portanto, ao desvendarmos a base material do conceito de alienação – a
separação entre as condições subjetivas e objetivas para realização do trabalho –
encontramos a linha de continuidade entre o conceito de alienação presente nos
Manuscritos de 1844 e O Capital. Desvendando também a centralidade desse conceito
na investigação do sistema capitalista, à medida que Marx toma a alienação em sua base
material como pressuposto para realização do processo de valorização imanente ao
sistema capitalista.
Desse modo, rechaçamos qualquer inferência que aponte para a descontinuidade
do conceito de alienação na obra de maturidade de Marx, pois compreendemos não
apenas o resgate do fenômeno da alienação do trabalho, como seu enriquecimento
conceitual à medida que Marx incorpora a sua análise à teoria do valor trabalho e a
reflexão histórica, a partir da qual o expõe como condição pressuposta do capital e posto
pelo capital, unidade entre criador e criatura.
No modo de exposição do conceito de alienação, como categoria implícita ao
movimento do capital, está o limite daqueles que afirmam a ausência da alienação em
Marx. Por sua vez, ao desnudarmos as diferentes facetas pela qual o método dialético
reproduz o movimento do real, desvendamos na estrutura lógica do objeto – sistema
capitalista – a presença necessária da alienação em toda sua potência elucidativa do
fenômeno da expropriação do trabalho no capitalismo como momento imanente da
autoreprodução do valor.
Referências Bibliograficas:
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RUBIN, Isaak Illich. A teoria Marxista do Valor. São Paulo: Brasiliense, 1980.
SAAD FILHO, Alfredo. O Valor de Marx: economia política para o capitalismo
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