ESTRATÉGICA Estratégica 11 E M o1 LU mer VO Nú ISSN 1519-4426 volume 11 • número 1 • junho 2011 Revista da Faculdade de Administração A profissionalização do gerenciamento de projetos no Brasil: um estudo comparativo dos resultados dos benchmarkings de 2004 e 2010 Armando Terribili Filho Armadilhas regulatórias presentes no setor elétrico brasileiro – análise crítica Ana Lúcia Rodrigues da Silva e Fernando Amaral de Almeida Prado Jr. O uso e a proteção de sinais não tradicionais no processo de identificação e diferenciação de uma marca José Carlos de Lima Júnior, Marcos Machado e Geraldo Luciano Toledo Top management team international dominant logic: a new linkage in the international diversification – performance link Douglas E. Thomas O Balanced Scorecard como instrumento da gestão do desempenho nas organizações do terceiro setor Igor Vovchenco Cabral Utilização de redes sociais na contratação de profissionais de nível gerencial Alexandre Augusto Tayer Gonçalves e Deisi Domenech VOLUME 11 CONSELHO DE CURADORES DIRETORIA EXECUTIVA Presidente Sra. Celita Procopio de Carvalho Diretor Presidente Dr. Antonio Bias Bueno Guillon Integrantes Dr. Benjamin Augusto Baracchini Bueno Dr. Octávio Plínio Botelho do Amaral Dr. José Antonio de Seixas Pereira Neto Sra. Maria Christina Farah Nassif Fioravanti Embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima Diretor Tesoureiro Dr. Américo Fialdini Jr. Diretor Cultural Prof. Victor Mirshawka ASSESSORES DA DIRETORIA Área Administrativa e Financeira Dr. Sérgio Roberto de Figueiredo Santos e Marchese Área Acadêmica Prof. Raul Edison Martinez FACULDADE DE ADMINISTRAÇÃO Diretor Prof. Dr. Tharcisio Bierrenbach de Souza Santos ESTRATÉGICA Revista da Faculdade de Administração FAAP e do FAAP-MBA Editor Tharcisio Bierrenbach de Souza Santos Editores Associados Armando Terribili Filho e Celi Langhi Conselho Editorial Alexandre Massote, Armando Terribili Filho, Celi Langhi, Emerson Piovezan, Jorge Marinho de Araújo, Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva, Marco Aurélio Xavier Soares de Mello, Marina Lindenberg Lima, Tharcisio Bierrenbach de Souza Santos e Walter Gomes da Cunha Filho. Arte / Editoração Eletrônica Agência FAAP Periocidade Semestral Publicação As correspondências, inclusive originais de artigos, devem ser endereçadas à Revista Estratégica Rua Alagoas, 903 – Prédio 4 – 2º andar Higienópolis – São Paulo/SP CEP: 01242-902 ou pelo e-mail: [email protected] www.faap.br volume 11 / número 1/ junho de 2011 ISSN 1519-4426 Rua Alagoas, 903 - Higienópolis São Paulo, SP - Brasil Estratégica/ Faculdade de Administração da Fundação Armando Alvares Penteado. Vol. 11, n. 1 (2011) - São Paulo: FA-FAAP, 2011 Semestral 1. Administração – Periódicos. I. Fundação Armando Alvares Penteado. Faculdade de Administração. ISSN 1519-4426 volume 11 / número 1/ junho de 2011 Sumário Editorial 7 A profissionalização do gerenciamento de projetos no Brasil: um estudo comparativo dos resultados dos benchmarkings de 2004 e 2010 Armando Terribili Filho 9 Armadilhas regulatórias presentes no setor elétrico brasileiro – análise crítica Ana Lúcia Rodrigues da Silva e Fernando Amaral de Almeida Prado Jr. 21 O uso e a proteção de sinais não tradicionais no processo de identificação e diferenciação de uma marca José Carlos de Lima Júnior, Marcos Machado e Geraldo Luciano Toledo 37 Top management team international dominant logic: a new linkage in the international diversification – performance link Douglas E. Thomas 51 O Balanced Scorecard como instrumento da gestão do desempenho nas organizações do terceiro setor Igor Vovchenco Cabral 65 Utilização de redes sociais na contratação de profissionais de nível gerencial Alexandre Augusto Tayer Gonçalves e Deisi Domenech 89 Orientações para os autores e para a elaboração de artigos científicos 99 6 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 Editorial Nesta edição apresentamos seis artigos que abordam temas relevantes da administração, com destaque para: gerenciamento de projetos, marketing, ferramentas de mercado, uso de redes sociais dentre outros. No primeiro artigo, Armando Terribili Filho mostra como a área de gerenciamento de projetos está cada vez mais profissionalizada no Brasil e faz um comparativo entre os resultados dos benchmarkings (2004 e 2010) que são realizados anualmente pelos chapters do PMI Brasil – Project Management Institute. Ao final, o autor deixa um alerta sobre a retração nos investimentos efetuados pelas organizações em treinamento e qualificação profissional. O segundo artigo, intitulado “Armadilhas regulatórias presentes no setor elétrico brasileiro – análise crítica”, é de autoria de Ana Lúcia Rodrigues da Silva e Fernando Amaral de Almeida Prado Jr. Este artigo procura à luz de exemplos do setor elétrico brasileiro, registrar a ocorrência de falhas ou lacunas na regulação provocadas por outras regulamentações produzindo efeitos indesejados e não previstos aos agentes e consumidores finais de energia. O terceiro artigo intitula-se “O uso e a proteção de sinais não tradicionais no processo de identificação e diferenciação de uma marca” e é de autoria de José Carlos de Lima Júnior, Marcos Machado e Geraldo Luciano Toledo. Os autores apresentam as diferenciações entre os sinais tradicionais e os sinais não tradicionais no processo de identificação e diferenciação de uma marca, destacando as formas de uso e proteção que esses novos elementos recebem em diversos países. O quarto artigo de Douglas E. Thomas, em língua inglesa, destaca a mudança acerca da importância do CEO (Chief Executive Officer) nas organizações. O ponto focal da nova proposta reside no TMT (Top Management Team) como locus importante de tomada de decisão, tornando esse grupo o foco central para a gestão. Os últimos dois artigos são subprodutos de nossos ex-alunos. Igor Vovchenco Cabral apresenta em seu artigo a aplicabilidade do Balanced Scorecard (BSC) nas instituições do Terceiro Setor, que foi tema de sua monografia do MBA, com o título “O Balanced Scorecard como instrumento da gestão do desempenho nas organizações do terceiro setor”. Finalmente, o sexto artigo, subproduto de um TCC da Faculdade de Administração aborda a utilização de redes sociais na contratação de profissionais de nível gerencial. Foram realizadas 19 entrevistas com profissionais de Recursos Humanos, headhunters, advogados trabalhistas e psicólogos organizacionais. Os autores do artigo são Alexandre Augusto Tayer Gonçalves e Deisi Domenech. Na próxima edição teremos a participação de um Conselho Editorial ampliado, com renomados e titulados professores, como: Angelo Palmisano (FMU - Facul7 dades Metropolitanas Unidas), João Carlos Néto (SENAC-SP), Marcelo Lampkowski (Instituição Toledo de Ensino), Marcelo Rodrigues dos Anjos (Fundação da Universidade Federal do Amazonas), Noêmia Lazzareschi (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - Faculdade de Ciências Sociais, Depto de Sociologia), Raquel da Silva Pereira (Universidade Municipal de São Caetano do Sul) e Sérgio Bairon (Universidade de São Paulo - Escola de Comunicações e Artes). Boa leitura! Prof. Dr. Tharcisio Bierrenbach de Souza Santos Diretor da Faculdade de Administração da FAAP Editor da Revista Estratégica 8 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 A profissionalização do gerenciamento de projetos no Brasil: um estudo comparativo dos resultados dos benchmarkings de 2004 e 2010 Armando Terribili Filho, PMP * Resumo: Este artigo apresenta a situação atual do gerenciamento de projetos no país, tendo por base o benchmarking conduzido em 2010 pelos 13 chapters brasileiros do PMI – Project Management Institute, que teve a participação de 460 organizações públicas e privadas. Resultados deste benchmarking comparados com o de 2004 (73 organizações) e observações práticas de mercado (anúncios classificados de empregos, crescimento nos cursos de pós-graduação e de extensão; valorização das certificações profissionais e lançamento de livros, revistas e sites especializados) evidenciam o crescimento e a profissionalização da área no Brasil. Do Benchmarking 2010, há um alerta sobre a retração nos investimentos efetuados pelas organizações em treinamento e qualificação profissional. Abstract: This article discusses the current situation in project management in Brazil, based on benchmarking conducted in 2010 by PMI (Project Management Institute) Brazilian chapters (13), in which 460 public and private organizations participated. The results of this benchmarking compared with the benchmarking conducted in 2004 (73 organizations) and observations from market practices (classified ads for jobs, growth in postgraduate and extension courses, appreciation of professional certifications, books release, new magazines and specialized websites) demonstrate the growth and professionalism in project management area in Brazil. However, the Benchmarking comparison highlights the downturn in investments made by organizations in training and professional qualification. Palavras-chave: Gerenciamento de Projetos. PMI. Benchmarking em Gerenciamento de Projetos. Escritório de Projetos. PMO. Certificação PMP. Keywords: Project Management. PMI. Benchmarking in Project Management. Project Management Office. PMO. PMP certification. * Doutor em Educação pela UNESP e mestre em Administração de Empresas pela FECAP. Professor da Fac. de Administração, da Fac. de Computação e Informática, do MBA e da Pós-graduação da FAAP. Professor convidado da Pós-graduação da Universidade São Judas Tadeu e no SENAC. Detentor da certificação PMP (Project Management Professional) em gerenciamento de projetos. Autor dos livros “Gerenciamento de Projetos em 7 passos” e “Indicadores de Gerenciamento de Projetos”. E-mail: [email protected]. A profissionalização do gerenciamento de projetos no Brasil: um estudo comparativo dos resultados..., Armando Terribili Filho, p. 9-20 9 Introdução O conceito de projetos remonta à antiguidade: a construção das pirâmides do Egito há mais de 4.500 anos, a Muralha da China há mais de 2.200 anos, o Coliseu de Roma há quase 2.000 anos, dentre outras obras que ainda podem ser admiradas em pleno século XXI são exemplos vivos de projetos bem sucedidos. Na Idade Média já se podia pensar na construção de grandes igrejas e nos projetos de navegação de Portugal e Espanha. O nível de profissionalização da gestão de projetos e aplicação de metodologias às épocas mencionadas são desconhecidas, porém, há uma certeza: o binômio “planejamento” e “execução/controle” era algo indissociável do dia a dia dos idealizadores e executores. Na atualidade, os projetos deixam de ser quase que exclusivamente das áreas de Engenharia e Arquitetura proliferando-se em praticamente todas as áreas do conhecimento humano: realização de uma feira internacional, desenvolvimento de um novo produto, desenvolvimento de softwares (votação eletrônica, por exemplo), implantação de um software aplicativo (por exemplo, SAP, Totvs, Peoplesoft e outros), realização de missão tripulada a outros planetas, realização de uma Copa do Mundo de Futebol (por exemplo, Brasil 2014), criação de um novo curso etc. Se o conceito de projetos é tão amplo e tão antigo, a pergunta que se faz é por que só recentemente é que as organizações começaram a trabalhar na modalidade de projetos? Os indicativos que evidenciam isto são: (i) anúncios classificados que requisitam profissionais para a área de gerenciamento de projetos; (ii) intenso crescimento dos cursos de pós-graduação e de extensão na referida área; (iii) aumento no lançamento de livros sobre gerenciamento de projetos, de revistas e sites especializados; e (iv) valorização das certificações profissionais (PMP e CAPM, por exemplo). As organizações vêm constatando que atuar na modalidade de “projeto” é extremamente positivo e pragmático, pois todo projeto tem um ou vários entregáveis que são únicos. Além disto, um projeto é um empreendimento temporário (finito em termos de prazos), que envolve recursos (materiais, logísticos, humanos, entre outros) e, por isto, exige orçamento prévio e gestão financeira amiúde dos investimentos realizados. Assim, trabalhar na modalidade de projeto representa que em um determinado espaço de tempo, um produto ou serviço único será gerado dentro de um orçamento previamente aprovado. Isto é mais profissional e vantajoso que aquilo que se fazia anteriormente, com execução de planos infindáveis (por vezes, utilizando o método de tentativa-erro), com desembolsos que cresciam a cada nova etapa e com resultados discutíveis na análise de custos-benefícios (TERRIBILI FILHO, 2011a). Quanto ao gerenciamento de projetos, só em 1969 foi criado na Pensilvânia, Estados Unidos, o Project Management Institute (PMI), com o objetivo de profissionalizar a área de gerenciamento de projetos. O PMI (2008, p. 435) por meio de sua mais importante publicação, o PMBOK (Project Management Body of Knowledge), define o gerenciamento de projeto como sendo a aplicação de conhecimentos, habilidades, ferramentas e técnicas para atingir os requerimentos de um projeto. 10 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 1 O PMI – Project Management Institute O PMI tem crescido rapidamente em nível mundial, tendo hoje 250 chapters (sendo que o termo “chapter” vem sendo traduzido por escritórios, seções ou capítulos) localizados em mais de 70 países, com afiliados e comunidades virtuais em 185 países. Os chapters têm por objetivo estimular e incentivar o desenvolvimento profissional da área de gerenciamento de projetos, organizando e/ou divulgando palestras, seminários, artigos, cursos e lançamentos de livros, além de eventos sociais para seus associados e convidados. A missão dos chapters é servir ao interesse profissional dos associados e contribuir com o desenvolvimento econômico e social, promovendo a ética e a responsabilidade em Gerenciamento de Projetos. O PMI tem publicações em nível mundial direcionadas para a comunidade de gerenciamento de projetos: o PMI Today e PM Network (ambas mensais) e o Project Management Journal, com periodicidade trimestral. O PMBOK é o conjunto de melhores práticas (best practices) em gerenciamento de projetos, estando em sua quarta edição, datada de 2008, evidenciando que se trata de um instrumento vivo e periodicamente atualizado por especialistas e grupos de discussão da área. As nove disciplinas contidas no PMBOK são: gerenciamento do escopo, comunicação, recursos humanos, riscos, tempo, custos, qualidade, aquisições e gerenciamento da integração. O PMBOK pode ser considerado um padrão “de fato” na área de gerenciamento de projetos. Outro item relevante para os praticantes em gerenciamento de projetos é o Código de Ética e de Conduta Profissional do PMI. Este documento não faz parte do PMBOK, porém, trata-se de um documento específico que norteia, de forma universal, as obrigações básicas de um gerente de projetos quanto à responsabilidade, justiça, respeito e honestidade (TERRIBILI FILHO, 2011c). É condição sine qua non a todo profissional filiado ao PMI ou certificado por este instituto sua aceitação e adesão ao referido código de conduta. O conceito de projetos e sua aplicação no dia a dia das organizações permitiram o desenvolvimento de novas metodologias, aplicação de técnicas e ferramentas, criação de programas para capacitação e certificação de profissionais e a alteração na estrutura das organizações como: criação de escritório de projetos e alteração da convencional estrutura hierárquica (departamentalizada) para estrutura projetizada. Mudanças culturais e processuais também ocorreram nas organizações, como, por exemplo, implantação de gestão de riscos e gestão da comunicação. Neste contexto, os projetos devem estar consistentes com o contexto estratégico da empresa, ou seja, o conjunto de projetos pode ser considerado como a tática organizacional para atingimento dos objetivos estratégicos definidos. 2 O PMI no Brasil Dos 250 chapters mundiais, 13 estão localizados no Brasil. O primeiro chapter brasileiro foi criado na cidade de São Paulo em 1998. No ano seguinte, surgem os chapters A profissionalização do gerenciamento de projetos no Brasil: um estudo comparativo dos resultados..., Armando Terribili Filho, p. 9-20 11 do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Segue-se de forma cronológica: Paraná (2000), Brasília e Rio Grande do Sul (em 2001), Bahia, Joinville, Manaus e Recife (em 2003). Em 2005 são criados outros três chapters no país: Espírito Santo, Fortaleza e Goiânia. No início de 2005, surge em Curitiba uma publicação bimestral especializada na área de gerenciamento de projetos: a Revista Mundo PM ou Revista Mundo Project Management, que apresenta artigos e matérias de autoria de profissionais e docentes do país e do exterior. A representatividade dos 13 chapters do PMI no Brasil pode ser considerada marcante se comparada com a América Latina que possui outros 20 chapters. Excluindo o México que conta com cinco chapters e a Argentina que tem dois, os demais países têm um único chapter, são eles: Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela (PMI, 2011a). Desde 2003 é realizado anualmente no país um benchmarking na área de gerenciamento de projetos. Esta iniciativa nasceu de forma local no chapter Rio de Janeiro e a última edição, realizada em 2010, teve a participação dos 13 chapters do PMI. Nestas oito edições pôde-se compreender a situação da área de gerenciamento de projetos no país e sua evolução, pois os resultados dos benchmarkings mostram as práticas mais utilizadas pelas organizações, as metodologias aplicadas, as principais ferramentas utilizadas, as áreas e as causas dos problemas, o nível de treinamento, a importância dada às certificações profissionais, as habilidades requeridas dos profissionais para gerenciar projetos e as tendências da área. Na edição de 2010 participaram 460 organizações que podem ser agrupadas em seis setores distintos: Consultoria, Engenharia & EPC (Engineering, Procurement and Construction), Governo (administração direta e indireta), Indústria, Serviços e Tecnologia da Informação (PMI, 2011b). 3 O Benchmarking em gerenciamento de projetos no Brasil Benchmarking é um instrumento para comparar e melhorar o desempenho de produtos, processos e sistemas das organizações tendo por base as melhores práticas, sejam internas à organização ou de mercado, que são chamadas de best practices. A primeira utilização do benchmarking ocorreu em 1979 nos Estados Unidos pela Xerox Corporation, em momento de intensa competitividade internacional no segmento de fotocopiadoras. Atualmente muitos autores abordam o tema benchmarking, com destaque para Mattos e Guimarães (2005) que apresentam quatro tipos de benchmarking: (i) interno, que é a identificação de melhores práticas na própria organização em áreas, unidades, filiais ou subsidiárias distintas; (ii) o benchmarking competitivo, que é a comparação com os concorrentes, quando se procura identificar a causa do melhor desempenho; (iii) o benchmarking de processo que é a comparação de processos similares utilizados em empresas não concorrentes; e, (iv) o benchmarking genérico que trata da comparação do uso de uma determinada tecnologia (TERRIBILI FILHO, 2011d). O benchmarking interno é o mais fácil de ser realizado, pois não há obstáculos impeditivos para obtenção da informação, que é relativamente fácil de ser coletada; no entanto, há uma limitação no universo de conhecimento, pois fica restrito ao ambiente 12 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 interno da organização. Por sua vez, o benchmarking competitivo é de difícil realização, sobretudo quando se pretende identificar as causas-raiz que geram o melhor desempenho do concorrente. Desta forma, os benchmarkings mais viáveis de serem realizados são os de processos e de tecnologia – exemplo disto foi o benchmarking realizado em 2010 pelos chapters brasileiros acerca do gerenciamento de projetos no país. Do Benchmarking em Gerenciamento de Projetos no Brasil (PMI, 2011b) participaram 460 organizações nacionais e multinacionais, de diferentes portes e segmentos de atuação. Em uma primeira avaliação, pode-se analisar as três dimensões que compõem a tradicional tríplice restrição: custo, prazo e escopo (afetando diretamente a qualidade). Da amostra investigada, 78% declarou ter problema com o cumprimento de prazos em seus projetos, 61% com problemas de custos e 44% com problemas de qualidade, ou seja, grosso modo pode-se dizer que em cada 5 organizações do país, 4 têm problemas de cumprimento de prazos, 3 têm problemas de custos e 2 apresentam problemas de qualidade em seus projetos. Outro ponto importante observado é a apresentação das causas dos problemas nos projetos. No resultado do Benchmarking 2010 foram apresentadas 18 causas de problemas com o respectivo percentual de organizações que citaram cada uma delas. As quatro causas que tiveram índice superior a 30% foram: não cumprimento dos prazos (60,2%), mudanças de escopo constantes (43,0%), problemas de comunicação (40,1%) e escopo não definido adequadamente, com 39,5%. Estes resultados demonstram a importância em se gerenciar efetivamente as áreas de comunicação e escopo de um projeto, evidenciando que os problemas atuais encontrados nos projetos são efetivamente gerenciais, passando ao largo por problemas que poderiam ser considerados de natureza técnica. Nos resultados do Benchmarking realizado em 2004, que contou com a participação de 73 organizações, utilizando-se o mesmo critério de seleção das causas dos problemas (itens com percentual acima de 60%), obteve-se: não cumprimento dos prazos estabelecidos (66%), mudanças de escopo constantes (64%) e problemas de comunicação (61%), ou seja, as causas dos problemas do Benchmarking 2004 (realizado seis anos antes do atual) permanecem praticamente inalterados, embora com significativa redução nos percentuais apresentados (PMI, 2004). Uma causa de problema relevante mencionada no Benchmarking 2010 (PMI, 2011b) e que foi mencionada por 15,6% das organizações participantes foi “estimativas incorretas e sem fundamento”. Uma provável causa (e que exige reflexão!) decorre do fato que muitas vezes as estimativas são elaboradas apressadamente, sem aplicação de uma metodologia e pesquisa adequadas e ignorando-se as lessons learned (lições aprendidas) de outros projetos anteriores similares. Ademais, as estimativas são, por vezes, realizadas por profissionais pouco especializados ou alocados em outros projetos, que no momento de elaboração das estimativas atribuem prioridade aos projetos em curso e não à elaboração de estimativas. Pode ocorrer que a intenção em “vender” um novo projeto (internamente à organização ou para um cliente, no caso de empresa de consultoria) faz com que haja um inA profissionalização do gerenciamento de projetos no Brasil: um estudo comparativo dos resultados..., Armando Terribili Filho, p. 9-20 13 tencional subdimensionamento de prazos e custos, sem uma consistente análise de riscos e negligenciando necessárias contingências de prazos e de custos. Com isto, o otimismo da venda (ou superficialidade de algumas questões importantes) pode se traduzir na entrega do projeto com atrasos e/ou aumento dos custos. 4 O Escritório de Projetos ou PMO (Project Management Office) Os professores da Universidade de Udine na Itália, Tonchia e Nonino (2007) definem o PMO - Project Management Office ou Escritório de Projetos como sendo a unidade organizacional que tem como objetivo a direção centralizada e coordenada dos projetos de uma organização. Ademais, mencionam a autoridade formal que o PMO tem para definir prioridade dos projetos, alocar recursos tecnológicos ou humanos (incluindo a definição do gerente e equipe do projeto), analisar os riscos de cada projeto para atingir a performance e os objetivos empresariais globais. Adicionam também, a captura e divulgação das lessons learned por toda organização e a assistência aos gerentes de projetos nas fases de início (start-up) e finalização de cada projeto. O PMO é uma estrutura específica e profissional para a área de gerenciamento de projetos, que tem diferentes níveis de autoridade e responsabilidade nas organizações. Em algumas, a responsabilidade PMO se restringe ao suporte aos Gerentes de Projeto; em outras, tem suas responsabilidades expandidas, pois fica responsável por definir metodologias, ferramentas e padrões, englobando: criação da documentação, divulgação, treinamento dos profissionais e monitoração quanto ao uso correto. Há ainda, organizações em que o PMO é responsável direto pelos entregáveis dos projetos, tendo sob sua gestão os Gerentes de Projeto e o Pool de consultores e especialistas. Este terceiro caso é aderente à definição atribuída a Tonchia e Nonino (2007). Assim, um PMO pode atuar como Centro de Suporte (apoio à execução dos projetos), Centro de Gerenciamento (responsável pela execução dos projetos) ou Centro de Excelência na organização, responsável pelo direcionamento, padronização e execução dos projetos (TERRIBILI FILHO, 2011b; VERZUH, 2000). O Quadro 1 ilustra os três principais tipos de Escritório de Projetos com suas respectivas funções e responsabilidades. 14 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 Quadro 1 – Tipos de PMO com suas funções/responsabilidades PMO Tipo de Escritório de Projetos “Centro de Suporte a Projetos" “Centro de Gerenciamento de Projetos" “Centro de Excelência” Consultivo e de apoio Executor Knowledge Management não não sim Implantar metodologias opcional opcional sim Monitorar o uso de metodologias opcional sim sim PAPEL PRINCIPAL METODOLOGIA E FERRAMENTAS Identificar e/ou desenvolver metodologias Definir padrões (ferramentas, documentação, etc.) Capturar e divulgar best practices não opcional sim opcional opcional sim não opcional sim POLÍTICAS E PROCEDIMENTOS Definir políticas e procedimentos Definir e implantar indicadores de desempenho não opcional sim Acompanhar resultados dos indicadores não sim não Auditar qualidade nos projetos não sim opcional Alocar/desalocar recursos aos projetos não sim opcional Planejar desenvolvimento e cursos dos profissionais não sim opcional GESTÃO DE RECURSOS Realizar coaching dos profissionais não sim opcional Planejar e acompanhar encarreiramento não sim opcional APÓIA EXECUTA ACOMPANHA EXECUÇÃO DE PROJETOS Fonte: Terribili Filho (2011b). No Benchmarking 2010 constatou-se que 38% das organizações pesquisadas possuem um PMO, 23% têm mais de um PMO e 39% delas não têm PMO. O Benchmarking 2004 apontava que 51% das organizações pesquisadas possuíam pelo menos um PMO. Se comparado com o resultado do Benchmarging 2010, houve um crescimento significativo na presença dos PMOs nas organizações, passando de 51% para 61%. Quanto às funções desempenhadas pelos PMOs, os resultados obtidos em 2010 comparados aos de 2004, indicam um moderado crescimento na participação dos PMOs nas organizações como Centro de Gerenciamento e Centro de Excelência, evidenciados pelo Quadro 2. Analisando-se o respectivo quadro, contata-se que das quatro funções qualificadas como “Centro de Excelência” (itens 1, 2, 5 e 11) duas tiveram seus percentuais aumentados, uma se manteve estável e outra teve queda. As funções relativas a “Centro de Excelência” são as funções de definição e acompanhamento no uso de metodologias, A profissionalização do gerenciamento de projetos no Brasil: um estudo comparativo dos resultados..., Armando Terribili Filho, p. 9-20 15 ferramentas e indicadores de desempenho de projetos, bem como, as de captura/divulgação de best practices internas à organização e de apoio à seleção e priorização de projetos. O destaque está no item “Suporte à Alta Administração” (item 5) que passou de 64% em 2004 para 88,5% em 2010. Ainda pelo Quadro 2 pode-se verificar que a função de “Centro de Suporte” (item 4), teve uma redução de 69% para 64%, comparando-se os resultados do Benchmarking dos anos de 2004 e 2010. Finalmente, das sete funções de atuação do PMO qualificadas como “Centro de Gerenciamento” (itens 3, 6, 7, 8, 9, 10 e 12), seis tiveram percentual aumentado, destacando-se os itens “Gestão de Documentos” (item 9) e “Controle dos Projetos” (item 3) com acréscimo de 9,3% e 9,1% respectivamente. Quadro 2 – Comparativo das funções do PMO: Benchmarking 2004 e 2010 Benchmarking Item Funções do PMO Tipo do PMO 2004 2010 1 Definição de padrões, metodologias e ferramentas Centro de Excelência 87% 85,8% 2 Apoio no Planejamento dos Projetos Centro de Excelência 82% 56,9% 3 Controle dos Projetos Centro de Gerenciamento 79% 88,1% 4 Suporte a software de Gerenciamento de Projetos Centro de Suporte 69% 64,0% 5 Suporte à Alta Administração Centro de Excelência 64% 88,5% 6 Coaching no Gerenciamento de Projetos Centro de Gerenciamento 64% 55,2% 7 Gestão do treinamento em Gerenciamento de Projetos Centro de Gerenciamento 56% 61,6% 8 Gestão do Portfólio de Projetos Centro de Gerenciamento 56% 59,9% 9 Gestão de Documentos Centro de Gerenciamento 51% 60,3% 10 Auditoria de Projetos Centro de Gerenciamento 41% 46,3% 11 Seleção e Priorização de Projetos Centro de Excelência 38% 47,0% 12 Pool de Recursos para Projetos Centro de Gerenciamento 28% 36,4% Fonte: PMI (2004); adaptado de PMI (2011b)1. 5 A certificação PMP O PMI concede cinco certificações distintas: PMP (Project Management Professional), CAPM (Certified Associate in Project Managament), PMI-SP (PMI Schedule Professional), PMI-RMP (PMI Risk Management Professional) e PgMP (Program Management Professio- 1 Os títulos das doze “Funções do PMO” contidas no Quadro 2 foram extraídos do relatório Benchmarking 2004 (PMI, 2004) e apresentados por ordem decrescente de percentual de organizações que mencionaram o item. Como não havia uma equivalência nos títulos apresentados no relatório Benchmarking 2004 com os itens mencionados no Benchmarking de 2010, coube ao autor deste artigo estabelecer uma correspondência biunívoca entre os doze itens, segundo seus critérios de interpretação. Ressalta-se também, que a classificação de cada função em “Tipo de PMO” contido no mesmo quadro para as doze funções é resultado de avaliação do autor, que em casos em que havia mais de uma possibilidade, foi considerado o predominante, o mais marcante. 16 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 nal). Para obtenção de qualquer certificação há exigências particulares relacionadas à experiência profissional e aprovação em exame específico. A certificação profissional mais conhecida na área de gerenciamento de projetos é a PMP. Para obtenção da certificação PMP, o candidato deve ser aprovado em um exame com 200 questões, que tem duração de 4 horas. O exame aborda as práticas contidas no PMBOK nas nove áreas do conhecimento: gerenciamento do escopo, da comunicação, dos recursos humanos, de riscos, do tempo, de custos, da qualidade, das aquisições e da integração. Para realizar o exame de certificação PMP, há dois requisitos: o primeiro é que o candidato tenha recebido um treinamento formal em gerenciamento de projetos de no mínimo 35 horas e ter experiência prática em gerenciamento de projetos de 4.500 horas (se o candidato tiver curso superior completo) e 36 meses de atuação nos últimos seis anos. Caso o candidato não tenha curso superior completo, as exigências mudam: 7.500 horas de experiência em gerenciamento de projetos e 60 meses de atuação nos últimos oito anos. A realização do exame somente é autorizada após a submissão do currículo do candidato, comprovando o atendimento aos requisitos. Durante a realização do exame, o candidato é monitorado por câmeras para evitar qualquer tipo de fraude, trazendo ao exame e à certificação credibilidade em nível mundial. A certificação tem validade por três anos, podendo ser renovada por novos períodos de três anos sem necessidade de realizar novo exame, desde que se comprove atuação profissional na área no triênio. Esta atividade engloba vivência, realização de cursos, atuação como docente ou palestrante na área, publicação de artigos e livros, participação em eventos etc (PMI, 2010; TERRIBILI FILHO, 2011f). O número de profissionais com certificação PMP no país tem crescido de forma representativa. Em março de 2005 eram 2.760 profissionais certificados (INFOEXAME, 2005); em junho de 2006, a quantidade de profissionais certificados era 4.063 (MIRANDA, 2006). No final de 2008, o PMI publicou um resumo das certificações no Brasil no PMI Today, apontando o total de 7.258 profissionais com certificação PMP ativa (PMI, 2009). Em junho de 2011, a quantidade de profissionais com a certificação PMP no Brasil atingia a marca de 10.569 (GP EM DESTAQUE, 2011). O Benchmarking 2010 (PMI, 2011b) apontou que 14% da amostra pesquisada possui um programa formal de preparação para a certificação PMP e 43% das organizações pesquisadas pretendem desenvolver algo similar. Quanto aos programas de treinamento, 29% da amostra declarou possuir um programa formal em Gerenciamento de Projetos, não incluindo programas para obtenção da certificação PMP. No Benchmarking 2004, os índices de programas de treinamento eram: 32% (geral em gerenciamento de projetos) e 24% (preparação PMP, implantado pela própria empresa ou por terceiros). A queda ocorrida nos dois índices no período 2004-2010: de 32% para 29% (treinamento genérico na área) e de 24% para 14% (treinamento específico para a certificação PMP), traz à tona uma reflexão quanto à prioridade e ao nível de investimento que as organizações brasileiras estão atribuindo à capacitação e desenvolvimento de seus profissionais e à busca de certificações na área de gerenciamento de projetos (PMI, 2004; PMI, 2011b; TERRIBILI FILHO, 2011e). A profissionalização do gerenciamento de projetos no Brasil: um estudo comparativo dos resultados..., Armando Terribili Filho, p. 9-20 17 Considerações finais É evidente que a área de gerenciamento de projetos tem tido uma expansão notória nos últimos anos, seja pelos resultados dos benchmarkings que são realizados anualmente pelos chapters do PMI no país, seja pelas observações do dia a dia: nos classificados de empregos, na oferta de cursos de especialização na área, no crescimento dos eventos e congressos que abordam o gerenciamento de projetos, na existência de revistas especializadas, no aumento do lançamento de livros direcionados à comunidade de gerência de projetos, na filiação de profissionais aos chapters do PMI e no aumento do número de profissionais certificados. Que esta evolução no conhecimento em gerenciamento de projetos, que é reconhecidamente multidisciplinar, seja aplicada no Brasil nas áreas públicas e privadas, trazendo benefícios às organizações, ao cidadão e, sobretudo, à sociedade na melhoria da qualidade de vida. Os resultados comparativos entre os benchmarkings de gerenciamento de projetos de 2004 e 2010 evidenciaram uma retração no investimento das organizações brasileiras em treinamento, na qualificação profissional e obtenção de certificações. Os administradores nesse país devem crer que a competitividade em um mundo globalizado, com prestação de serviços offshore (para um cliente fora das fronteiras do país onde está localizada a empresa produtora) tem na máxima “o plantio é livre, a colheita obrigatória” um alerta para sua gestão no século XXI. Referências GP EM DESTAQUE. Números PMI – Mundo x Brasil. 17/06/2011. Disponível em: <http://www. gpemdestaque.com.br/2011/06/17/numeros-pmi-mundo-x-brasil/>. Acesso em: 28 fev. 2012. INFOEXAME. Coleção Info: Certificação. São Paulo: Abril, 2005. MATTOS, José Roberto Loureiro de; GUIMARÃES, Leonam dos Santos. Gestão da tecnologia e inovação: uma abordagem prática. São Paulo: Saraiva, 2005. MIRANDA, Carolina Sanchez. Mais campo para gerente de projetos. Gazeta Mercantil. São Paulo, 30 nov. 2006. Caderno Plano Pessoal, p. C-8. PMI, Project Management Institute. Seção Rio de Janeiro. Estudo de Benchmarking em Gerenciamento de Projetos Brasil 2004, 2004. _______________. A guide to the Project Management of Body of Knowledge (PMBOK). 4. ed. Pensilvânia: Project Management Institute, 2008. _______________. PMI Today, March 2009. 18 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 _______________. PMI São Paulo. Certificação PMP. 2010. Disponível em: <http://www. pmisp.org.br/cert_pmp.asp>. Acesso em: 08 ago. 2010. _______________. PMI Chapters. 2011a. Disponível em: <http://www.pmi.org/Get-Involved/ Chapters-PMI-Chapters.aspx>. Acesso em: 27 fev. 2012. _______________. 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A profissionalização do gerenciamento de projetos no Brasil: um estudo comparativo dos resultados..., Armando Terribili Filho, p. 9-20 19 20 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 Armadilhas regulatórias presentes no Setor Elétrico Brasileiro - Análise Crítica Ana Lúcia Rodrigues da Silva * Fernando Amaral de Almeida Prado Jr. ** Resumo: Este artigo procura à luz de exemplos do setor elétrico brasileiro, registrar a ocorrência de falhas ou lacunas na regulação provocadas por outras regulamentações produzindo efeitos indesejados e não previstos aos agentes e consumidores finais de energia. Parte dessas “armadilhas” ocorre por falhas na concepção dos regulamentos e outros diplomas legais, por desvios da função de regulação. Essas falhas podem ocorrer na função precípua do regulador, mas podem se originar também em atividades de empresas públicas acessórias como EPE, CCEE ou ONS. O artigo utiliza a metodologia de busca empírica a partir de exemplos selecionados, onde se busca entender as causas destes efeitos colaterais. O artigo conclui pela necessidade permanente de aprimoramento da concepção e desenvolvimento de instrumentos regulatórios, sem que isso demande um aumento excessivo do número desses regulamentos. Abstract: This paper discusses the occurrence of failures or gaps in the regulation of the Brazilian electric sector that results in unwanted effects. Some of these “traps” occurred by design flaws in the regulations or deviations from the regulatory function. These failures may occur in the primary function of the regulator, but also could be originated in the state-owned enterprises like EPE, CCEE or ONS. The article uses empirical search method from a group of selected examples, which seeks to understand the causes of these side effects. The article concludes that there is a need of a continuous improvement in the design and regulatory instruments that will not demand an excessive increase in the number of regulations. Keywords: Risk. Regulation. Traps. Public Policy. Palavras-chave: Risco. Regulação. Armadilha. Política Pública. * Física, mestre, doutora e pós doutora em Planejamento de Sistemas Energéticos pela UNICAMP, autora dos livros “Monografia Fácil: ferramentas e exercícios”; “Marketing Energético” e “Comportamento do Grande Consumidor de Energia Elétrica”. Sócia da Sinerconsult Consultoria e Treinamento, Professora da Fundação Armando Alvares Penteado. E-mail: [email protected]. ** Engenheiro civil, mestre e doutor em Planejamento de Sistemas Energéticos pela UNICAMP. Professor Doutor da Escola Politécnica da USP, onde realizou seu pós-doutorado. Sócio da Sinerconsult Consultoria e Treinamento. E-mail: [email protected]. Armadilhas regulatórias presentes no setor elétrico brasileiro – análise crítica, Ana L. R. da Silva e Fernando A. de A. Prado Jr., p. 21-36 21 Introdução Em 1772, na Carolina do Norte, EUA, uma população enfurecida prendeu e enforcou em uma praça, reguladores públicos que propiciaram a cobrança de impostos abusivos sobre alimentos essenciais (VEIGA, 2009). Hoje os reguladores, graças aos avanços da civilidade e da consolidação das leis estão livres do risco de linchamento. Apesar disto, a função de regulador, em países ainda com pequena tradição nessa função, é muitas vezes não compreendida e obviamente sujeita a falhas. Enquanto em países como os EUA, a instituição regulatória é centenária, no Brasil, a ANEEL, primeira agência regulatória dita moderna em termos de uma nova concepção de prestação de serviços públicos por empresas privadas, possui apenas 14 anos. A solidez institucional dessas organizações de Estado às vezes é posta à prova, numa tentativa de transformá-las em órgãos de governo. Isto pode ser evidenciado pela priorização de atos regulatórios ligados a grandes problemas de cunho de formatação de políticas de Governo. O permanente conflito a que um administrador público pode ser submetido no exercício dessas novas funções, por ações publicas ou por iniciativa do Ministério Público, já foi objeto de exemplo por Kelman (2009) em seu livro, “Desafios do regulador”. Poucos setores da economia produzem tantos efeitos múltiplos, diretos ou colaterais, por decisões tomadas por formadores de políticas públicas como o setor de energia. Em nome da energia, de forma aberta ou velada, guerras já foram declaradas, crises políticas instaladas e incertezas políticas ampliadas. Tarifas e preços elevados atraem novos investimentos, mas reduzem a competitividade das empresas e limitam o acesso da energia aos mais pobres. A situação oposta contribui para preços estáveis, mais empregos e crescimento econômico, mas pode esbarrar na insuficiência de investimentos que promovam a segurança energética e a universalização do atendimento às necessidades energéticas da sociedade. Nesta complexidade é necessária ainda a consideração dos impactos ambientais, presentes em toda a cadeia produtiva da indústria de energia. Nesta questão, as emissões de carbono representam um potencial restritivo que poderá em pouco tempo alterar radicalmente a maneira como se produzirá e se consumirá energia. Neste contexto, o futuro da regulação é incerto, pois a desregulamentação dos antigos monopólios ditos naturais, a busca e o incentivo por fontes renováveis de energia, a interface com tecnologias que permitam e incentivem o uso de redes inteligentes representam alguns dos desafios que os reguladores energéticos já enfrentam ou enfrentarão com maior intensidade nos anos vindouros. Como exemplo dos impactos desses novos desafios aos reguladores, Hunt e Shuttleworth (1996) em seu livro clássico sobre competição e o poder de escolha na indústria de eletricidade, relatam o desânimo de um regulador diante da tarefa de regular as novas questões trazidas pela competição e para as quais não se sentia preparado. 22 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 A preocupação com os impactos da regulação pode ser tão relevante que o governo inglês criou uma força tarefa para identificar maneiras de promover melhores maneiras de estabelecer regras para os mais diversos segmentos de atividade, inclusive fora dos mercados competitivos, como por exemplo, o estabelecimento de regulamentos para entidades que promovem a caridade. Arculus (2004), coordenador dessa força tarefa em seu relatório de 2004, relata que estudos desenvolvidos nos EUA dão conta que o PIB americano é influenciado em cerca de 10% por atividades regulatórias, sendo 2,5% o custo para estabelecer o cumprimento dos relatos e registros requeridos de documentação a partir de exigência das Agências. 1 Armadilhas Ambientais O marco regulatório do setor elétrico de 2004, estabelecido ainda no primeiro governo Lula, definiu pela necessidade de regras para a expansão da geração que contemplassem a inclusão nos leilões apenas das obras que já tivessem a licença ambiental prévia, cuja responsabilidade de obtenção ficaria delegada a empresa de pesquisa Energética – EPE. Tal medida objetivava a redução dos riscos para os empreendedores após a obtenção das concessões, como acontecia no governo FHC, quando era possível a obtenção de uma concessão (com pagamento pelo uso do bem público em espécie monetária) seguida de uma recusa dos órgãos da emissão da licença ambiental. Ocorre, no entanto que a EPE nem sempre tem conseguido diligenciar um rol de opções de projetos de obras hidráulicas a licitar nos leilões de expansão que atendam a necessidade de energia futura projetada pelas Distribuidoras, consequentemente abrindo espaço para a necessidade de leilões de usinas térmicas nos leilões de disponibilidade. Assim, apesar do Brasil possuir um dos maiores, senão o maior potencial de hidroeletricidade do mundo, necessita recorrer à expansão térmica com os correlatos problemas de emissões, em uma espécie de contramão das políticas desenvolvidas no mundo. O leilão A-5 / 2008 foi pródigo nessa situação, conforme Tabela 1. Tabela 1 – Oferta de energia leilão A-5 em 2008 Ano Quantidade Hidro Biomassa Gás Natural Carvão Óleo Combustível Total 2008 MW 121 35 703 276 1990 3125 Fonte: Elaboração própria, a partir de informações dos sites <http//:www.acendebrasil.org.br> e <http//: www.ccee.org.br>. Acesso em: 17 out. 2008. O sistema elétrico brasileiro, como explicam Brito et al. (2009), com suas características de geração predominantemente hidroelétrica tem capacidade de regularização plurianual, isto é, os reservatórios seriam capazes de estabilizar a produção hidrelétrica mesmo que uma restrição hidrológica perdurasse por vários anos. A Figura 1 reproduzida de Brito et al. (2009) apresenta em unidades equivalentes ao volume da Baia da Guanabara, a capacidade de reservação de usinas construídas tipicamente nos anos 1960 e 1970. Como é possível avaliar são usinas com elevada capacidade de reservação. Armadilhas regulatórias presentes no setor elétrico brasileiro – análise crítica, Ana L. R. da Silva e Fernando A. de A. Prado Jr., p. 21-36 23 Figura 1 - Capacidade de reservação em volumes equivalentes da Baía da Guanabara SERRA DA MESA TUCURUI ILHA SOLTEIRA SOBRADINHO ITAIPU FURNAS 0 5 10 15 20 25 Fonte: Brito et al. (2009), XX SNPTEE. No mesmo trabalho, Brito et al. (2009) ensinam que maiores restrições ambientais tem feito com que as novas usinas sejam concebidas como usinas a fio d’água, como exemplificam as recentes usinas do Rio Madeira e Belo Monte, todas com essa concepção que totalizam conjuntamente mais de 17GW de capacidade instalada. Esta mudança de partido dos projetos indica uma redução projetada da relação entre Energia Armazenada Máxima (TWh) e a Energia Natural Afluente (TWh/ ano) dos atuais 41% (2010) para 32% (2020) indicando uma maior fragilidade do sistema em relação à segurança energética. Portanto, do ponto de vista da operação do sistema, a maior inserção de usinas fio d’água exige que maior necessidade de despachos térmicos venham a ser realizados nos próximos anos. Nas previsões de Brito et al. (2009) as emissões decorrentes dessa necessidade operativa evoluem de 30 milhões de T CO2 em 2010, para 170 milhões T CO2 em 2020, caracterizando uma armadilha regulatória, ou seja, por se exigir maiores cuidados ambientais na concepção dos impactos decorrentes de alagamentos de hidroelétricas, o Brasil enfrentará um crescimento das emissões de Gases de Efeito Estufa em mais de 460% em apenas 10 anos. Ainda em relação ao tema ambiental, parte importante do mercado das usinas de pequeno porte, consequentemente com menores impactos ambientais, por serem consideradas incentivadas tem o direito de um desconto, usualmente de 50% sobre as tarifas de uso do sistema (tarifas de fio). Para terem o direito a este desconto, que obviamente empresta competitividade ao mercado comprador desse tipo de energia, possuem uma restrição quanto ao seu porte ficando restritas a empreendimentos menores do que 30MW. Ocorre que para efeito escala nem sempre esta restrição leva a melhor concepção de projeto. Não raro se encontra em um mesmo sítio empreendimentos eólicos ou de térmicas de biomassa com potencias superiores a 30 MW. No entanto, para não perderem o benefício do desconto, são feitos arranjos societários como se fossem diversos empreendimentos, cada um limitado a 30 MW. 24 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 2 As armadilhas na expansão do sistema / Segurança energética O racionamento de 2001 provocou tamanha influência no comportamento dos dirigentes do setor elétrico, estatal ou privado, que a então Ministra Dilma Roussef chegou a afirmar que não faltaria mais energia ao Brasil “nem que a vaca tussa1”. Assim, o modelo regulatório vem priorizando a segurança como seu maior valor no processo de planejamento. Medidas estabelecendo a obrigatoriedade de contratação de 100% da necessidade energética pelos agentes distribuidores com contratos de longo prazo e diversas outras regras visando proteger os investidores foram implantadas desde 2004. Entre estas, pode-se citar a liberdade de localização geográfica de novos empreendimentos de geração térmica independentemente de riscos de sub-mercado (que são alocados aos consumidores finais de energia elétrica), criação de regras para leilões de disponibilidade com repasse automático dos custos variáveis à tarifa e forte participação do Estado em projetos de grande porte denominados como estruturantes. Do ponto de vista da segurança energética foram criados os mecanismos de níveis metas, leilões de reserva e cada vez, com maior frequência, despachos fora da ordem de mérito. Cada uma destas medidas provocou efeitos colaterais, que podem na concepção dos autores serem classificados como armadilhas regulatórias. Na sequência são analisados cada um desses efeitos. 2.1 Liberdade de localização geográfica de empreendimentos termoelétricos As regras dos leilões de disponibilidade visam à competitividade do processo (contribuição para a modicidade tarifária) e maior segurança dos empreendedores (maior atratividade para o empreendedor e atração do capital privado), inclusive transferindo ao consumidor final as eventuais distorções de preço entre sub-mercados. Ocorre que por razões de incentivo ao desenvolvimento regional, a região Nordeste possui incentivos fiscais inclusive oriundos de políticas do governo federal. Assim, a região se mostrou atrativa a maioria dos empreendimentos definidos nos leilões de 2007 e 2008. Castro et al. (2010) em recente texto de discussão da UFRJ analisam que a capacidade planejada dessas usinas não tem relação direta com o mercado de energia elétrica do Nordeste. Desta forma a energia produzida na região precisará ser reconduzida para outros centros de consumo, gerando investimentos não previstos no planejamento dos sistemas de transmissão (CASTRO et al., 2010). A necessidade destes investimentos contraria o senso comum que prescreve a alocação de empreendimentos térmicos o mais próximo das regiões de consumo. Obviamente esta situação redundará em prejuízo à modicidade tarifária. 1 Folha de São Paulo, edição de 29 de outubro de 2006. Armadilhas regulatórias presentes no setor elétrico brasileiro – análise crítica, Ana L. R. da Silva e Fernando A. de A. Prado Jr., p. 21-36 25 Ainda pior, em situações pontuais caso não ocorram os investimentos em transmissão, pode-se correr o risco de se dispor de usinas térmicas, contratadas, construídas e que não possam disponibilizar todo seu potencial por carência de sistemas de transmissão. É importante destacar também que a escolha locacional da usina com base em incentivos fiscais, muitas vezes está desconectada da questão da logística do fornecimento do combustível para a usina. 2.2 Custo variável com repasse automático às tarifas de energia elétrica A Empresa de Pesquisa Energética - EPE, a principal entidade organizadora dos leilões possui na opinião dos autores restrições de governança, uma vez que pelas suas caraterísticas de governo possui viés político com resultados esperados de contribuição às realizações do mesmo. Ou seja, é premida para garantir oferta de energia que permita níveis de segurança adequados ao suprimento de energia e se possível com oferta a preços módicos. A contratação por disponibilidade2 funciona, segundo Bezerra (2009), como uma opção de compra de energia para o consumidor: a receita fixa (RF, em R$/ano), corresponde ao prêmio da opção e o custo variável unitário (CVU) correspondente ao preço de exercício que incluí o reembolso dos custos operativos da usina, quando ela é acionada pelo ONS; e os custos de compra de energia na CCEE para atender a demanda, que seria “coberta” pela usina, quando a mesma não é acionada pelo ONS. O objetivo da EPE é selecionar as usinas que possuam o menor preço total, considerando-se a renda fixa esperada (e exigida) pelo investidor e o custo variável que depende da tecnologia (nível de inflexibilidade e diferentes níveis de investimento inicial) e dos combustíveis (diferentes custos de operação). 2 Contratação de usinas térmicas que complementam nos leilões, a oferta não realizada de usinas hidroelétricas que não foram estudadas ou não conseguiram a licença prévia. 26 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 Figura 2 - Frequência de despachos estimada segundo procedimentos dos leilões segundo procedimentos operativos do ONS em função do CVU (R$/MWh) 50% Premissas do Leilão 45% Premissas Operavas Despacho em % 40% 35% 30% 25% 20% 15% 10% 5% 0% 100 150 200 250 300 350 R$/MWh Fonte: Elaboração própria a partir de Veiga (2009). Como explicam Bezerra et al. (2009), o núcleo da composição do ICB3, indicador que conjuga a composição dos custos variáveis e dos custos fixos, depende do planejador (EPE) pela tarefa de estimar antecipadamente o valor esperado dos custos variáveis de cada usina candidata, em nome dos consumidores regulados. Assim, os resultados dos leilões, muitas vezes exaltados quanto à modicidade tarifaria obtida, não necessariamente representam o efeito que o consumidor de fato vai pagar a cada ano, e sim uma estimativa do que seria pago em média. Ainda segundo Bezerra et al. (2009), o único pagamento conhecido é o da parcela fixa. As demais parcelas variam a cada ano em função da hidrologia, nível de armazenamento dos reservatórios, balanço oferta × demanda, custo do combustível e muitos outros fatores. Veiga (2009) vem alertando que a metodologia utilizada pela EPE/MME não contempla os procedimentos operativos do ONS e consequentemente a frequência real de despacho dessas usinas, o que tem sido maior do que o previsto nas condicionantes dos leilões, assim custos adicionais serão repassados aos consumidores. A Figura 2 demonstra esta situação. 2.3 Atrasos em projetos contratados em leilões de expansão Os leilões concebidos no marco regulatório do setor elétrico brasileiro tem por objetivo dar segurança ao consumidor pela oportunidade da contestação pública entre diferente ofertantes garantindo as melhores condições de contratação (modicidade tarifária) e seus longos prazos de contratação garantiriam a estabilidade necessária para a financiabilidade dos projetos e a atratividade dos investidores. 3 ICB – Índice de Custo Benefício que pondera em R$/MWh a energia “comercializada” pela usina proponente. Armadilhas regulatórias presentes no setor elétrico brasileiro – análise crítica, Ana L. R. da Silva e Fernando A. de A. Prado Jr., p. 21-36 27 No entanto esta segurança pode ser afetada pelo não cumprimento dos compromissos dos empreendedores em relação aos prazos contratados. Obviamente existem penalidades para este descumprimento, sendo que atrasos exigem que o montante de energia contratada seja reposto e a usina inadimplente não recebe pagamentos enquanto não estiver em funcionamento, mas tem direito de ser ressarcida pela energia contratada para esta reposição. As regras de pagamento à usina com operação atrasada são severas e podem causar prejuízos pesados, pois estabelecem que o ressarcimento pela energia de reposição se dará sempre pelo menor valor entre quatro opções possíveis4. Atrasos podem ser decorrentes de várias razões: (i) dificuldades de obtenção das licenças ambientais5, (ii) dificuldades com a logística de contratação de combustíveis, quer pela localização do empreendimentos, quer pela dificuldade de estabelecer um contrato firme com volumes de combustíveis, uma vez que existe a incerteza da frequência da ordem de despacho, (iii) dificuldades de obtenção de financiamento agravadas pela crise financeira internacional de 2008/2009, (iv) dificuldades de obtenção de financiamento pela elevada concentração de multiplos projetos para um mesmo empreendedor. Ressalte-se que a existência de multas e da obrigação de comprar energia para reposição do volume não entregue em decorrência do atraso pode incentivar um circulo vicioso, onde o atraso por falta de financiamento gera penalidades e custos adicionais, o que torna mais dificil o saneamento da finaciabilidade do projeto. Destaque-se que a concentração de empreendimentos contribuí para este ciclo vicioso. Em relação ao fator concentração de projetos em um mesmo investidor , o diretor geral da ANEEL, Nelson Hubner, se pronunciou dizendo: (www.abrace.org.br, acesso em: 03 mar. 2011):. “Você pode ter tido um erro nesse leilão de térmicas. Até por ter permitido uma posição muito maior na mão de um comprador”, analisou, lembrando que o Grupo Bertin é, sozinho, responsável por seis empreendimentos fora de cronograma. Os demais pertencem à Fênix Energy, Floralco Açúcar e Álcool e Multiner/Gênesis. O diretor admitiu que “poder-se-ia evitar o que aconteceu”, mas deixou claro que não acredita na viabilidade de uma grande reformulação no modelo adotado pelo setor. A preocupação da ANEEL é ainda mais grave, pois por conta de liminares, não tem conseguido executar as penalidades e os agentes inadimplentes, com os prazos contratuais na produção de energia, não tem cumprido com os regulamentos vigentes. As usinas, que deveriam estar gerando para o sistema desde janeiro, também não depositaram garantias na CCEE e não compraram energia no mercado livre para garantir o cumprimento dos contratos que fecharam com as distribuidoras na ocasião do certame. Segundo Edvaldo Santana, diretor da agência reguladora, as usinas em atraso 4 A discussão destas regras está fora do contexto deste artigo, mas recomenda-se a leitura BOLETIM REGULATÓRIO - Edição 2009 Atrasos nas instalações de transmissão Aumento da CCC Obrigação de contratação de potência editado pela empresa PSR de 20/08/2010. 5 Neste caso responsabilidade do empreendedor. 28 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 somam uma inadimplência de R$330 milhões com a CCEE, que administra o mercado regulado de energia. O diretor lembrou que a falta de pagamentos decorrem de liminares já deferidas. Essa situação causa ônus a todos os agentes de mercado. Gomes e Baggio (2010), advogados do escritório Kaercher e Baggio, argumentam sobre outra questão que merece reflexão neste debate: qual é a real culpa do empreendedor? Seria desejável que a regulação contemplasse a responsabilidade de agentes de Estado em eventuais atrasos, o que configura ainda mais a tipologia de “armadilha regulatória”, pois culpa induzida pelo Estado redundaria em prejuízos “socializados” pelos demais agentes e consumidores. Finalmente, para complementar a análise de armadilhas decorrentes de atrasos em empreendimentos contratados, pode-se considerar que o despacho de usinas hidroelétricas por parte do ONS, considerando que as obras previstas performariam no tempo previsto, levam a um deplecionamento a maior dos reservatórios e consequentemente a uma maior necessidade de despachos fora de ordem de mérito (conforme abordado na seção seguinte deste artigo) e eventualmente, necessidades de revisões no status de gerenciamento das curvas de aversão ao risco e dos níveis das metas. A Figura 3 apresenta a revisão das curvas de aversão ao risco a partir da consideração em agosto de 2010, que várias usinas contratadas no leilão A-3 em 2008, teriam um atraso que se tornara irrreversível, resultando em um maior dispêndio para os consumidores de energia elétrica. Figura 3 - Curva de Aversão a Risco do Subsistema Nordeste Antes e Depois da Redução na Oferta Programada de Energia Térmica CAR 2010-2011 com oferta PMO junho/2010 CAR 2010-2011 vigente 59% 54% 50% 50% 50% 49% 47% Armazenamento (%EARmax) 43% 42% 41% 34% 30% 34% 34% 32% 31% 28% 27% 24% 36% 32% 32% 29% 29% 26% 22% 22% 19% 17% 10% 15% 13% 10% 10% ja n/ 10 fe v/ 1 m 0 ar /1 ab 0 r/1 m 0 ai /1 ju 0 n/ 1 ju 0 l/1 ag 0 o/ 1 se 0 t/1 ou 0 t/1 no 0 v/ 1 de 0 z/ 1 ja 0 n/ 11 fe v/ m 11 ar /1 ab 1 r/1 m 1 ai /1 ju 1 n/ 1 ju 1 l/1 ag 1 o/ 1 se 1 t/1 ou 1 t/1 no 1 v/ 1 de 1 z/ 11 12% 17% Fonte: Castro et al. (2010). Armadilhas regulatórias presentes no setor elétrico brasileiro – análise crítica, Ana L. R. da Silva e Fernando A. de A. Prado Jr., p. 21-36 29 2.4 Despachos fora de ordem de mérito Como já analisado em seção anterior deste artigo, o racionamento de 2001 promoveu enorme preocupação com os efeitos econômicos e políticos que a sua repetição provocou na sociedade brasileira. Esta preocupação faz sentido, pois entre os riscos incluem-se a visibilidade e sensibilidade da opinião pública para com os reguladores. Por esta razão em janeiro de 2008, em pleno período úmido quando se pressupunha reservatórios cheios e preços baixos no mercado “spot”, o Preço de Liquidação de Diferenças (PLD) atingiu seus patamares máximos e os riscos de déficit atingiram valores elevados, causando várias inadimplências no mercado e sinalizando preocupação política no Governo. A partir daí o Conselho Nacional de Política Energética - CNPE autorizou que o Operador Nacional do Sistema pudesse dar ordem de despacho fora da ordem de mérito econômico. Esta nova modalidade de despacho, além de gerar custos elevados em nome da segurança energética, diminui a transparência do processo operativo e reduz artificialmente o PLD, beneficiando os agentes que não estejam 100% contratados e prejudicando (pelo menos em tese) aqueles que cumprem a determinação regulatória de estarem contratados na totalidade de suas cargas. Para que se tenha uma dimensão dos impactos econômicos dessa decisão de priorizar a segurança energética a qualquer custo, basta comparar os valores de Encargos de Serviço do Sistema (rubrica apenas de serviços ancilares usuais) que perfizeram R$ 1,7 bilhão entre 2000 e 2008 e o mesmo encargo ESS, considerando-se a rubrica segurança energética (que contabiliza a remuneração do despacho fora de ordem de mérito) que alcançou a mesma cifra6 apenas entre fevereiro e outubro de 2008. Por coincidência a mesma cifra de R$ 1,7 bilhão correspondia à estimativa que Paulo Pedrosa, presidente da Abrace - Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres avaliava como sendo o dispêndio ocorrido em 2010 nesse encargo7. Os reguladores decidiram pela segurança energética, mas o custo foi repassado à sociedade. 3 Erros na Formulação das tarifas O modelo tarifário do setor elétrico brasileiro é bastante complexo e possui muitos detalhes em sua regulamentação. Sobre os custos que compõem o serviço de distribuição, o regulador estabeleceu duas tipologias de custos. A primeira com aqueles custos que seriam passíveis de serem gerenciados pelas distribuidoras (denominados custos gerenciáveis ou parcela B), onde se incluem operação, manutenção, salários, depreciação e custo de capital. 6 Cifras e conclusões apuradas pelos autores a partir de consultas aos relatórios da ABRACE, Encargos Setoriais - 3a edição de outubro de 2009 e Relatório Técnico de agosto de 2010. 7 Disponível em: <www.abrace.org.br>. Acesso em: 10 jan. 2011. 30 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 A outra tipologia denominada parcela A, seria composta de custos não gerenciáveis pelas empresas, ou seja, compostas pelas parcelas de compra de energia8, custeio de contas de combustíveis para os sistemas isolados, variações cambiais que impactam as tarifas de Itaipu entre outras. Para estas duas parcelas o tratamento regulatório é feito de forma diferente, como apresentado a seguir. Parcela A - VPA = custo médio da energia contratada (R$/MWh) * mercado de referência (MWh) + custo previsto para os encargos. Parcela B - VPB = (Receita do ano anterior (R$) – Valor da parcela A do ano anterior (R$)) * (IGPM- fator X) Onde o IGPM representa o indexador de inflação e o fator X , um índice de produtividade da concessionária que reduz a correção dos preços gerenciáveis. Assim, a tarifa referencial se constituí como T(R$/MWh) = (VPA + VPB) / (mercado de referência). Para compensar a variação, em alguns casos extremos de componentes da parcela A entre dois reajustes consecutivos, o Ministério de Minas e Energia- MME criou um mecanismo denominado como CVA- Conta de variação da parcela A, sobre a qual são aplicadas em uma conta gráfica correções financeiras baseadas na taxa de juro básica do Brasil. Por ocasião do próximo reajuste a CVA compensa financeiramente perdas e ou ganhos da distribuidora. Assim a tarifa de referência passou a ser calculada como T(R$/MWh) = (VPA + VPB + CVA) / (mercado de referência). Ocorre que alguns dos componentes dos encargos não são cobrados proporcionalmente ao mercado da distribuidora e sim por meio de uma previsão estabelecida pelo regulador. Como o mercado de referência é o do ano anterior e normalmente no Brasil existe elevado crescimento do consumo de energia, inclusive com taxas superiores aquelas do crescimento econômico, as componentes fixas de variação da parcela A provocam um ganho não previsto pelo espírito da regulamentação como proposta inicialmente. Como a CVA foi criada pelo MME por meio de uma portaria ministerial, a solução da questão ficou fora da alçada da ANEEL. Posterirormente o MME orientou a ANEEL para que procedesse a alteração dos contratos de concessão de forma negociada com as empresas, ação desenvolvida e precedida de uma Audiência Pública. 8 No Brasil o processo de compra de energia é feito por leilões onde as Distribuidoras estabelecem os montantes a serem contratados e o preço decorre dos mecanismos dos leilões estabelecidos pelos órgãos de governo. Armadilhas regulatórias presentes no setor elétrico brasileiro – análise crítica, Ana L. R. da Silva e Fernando A. de A. Prado Jr., p. 21-36 31 Permanece ainda não resolvida a questão de uma eventual devolução dos recursos recebidos indevidamente pelas concessionárias. Faz-se necessário registrar que, entre os argumentos apresentados pelas distribuidoras para contestar qualquer alteração das regras, dizia-se que em anos onde ocorresse uma redução do mercado no ano subsequente o procedimento registraria perdas para as empresas. Ocorre que exceto em anos com fatores extraordinários, como por exemplo, o racionamento de 2001, não tem sido registrados decréscimos no mercado das distribuidoras, mesmo em anos com baixo crescimento do PIB. Outro ponto bastante argumentado nessa temática foi o fator que a aplicação da regra não trazia em si nenhuma ilegalidade. Estima-se que a receita a maior registrada pelas empresas distribuidoras no Brasil entre 2002 e 2008 tenha alcançado a cifra de R$ 7 bilhões. 4 Armadilhas relacionadas a assimetria do processo de influência na regulação Conforme abordam Almeida Prado Jr. et al. (2011), entre 1998 e 2007 foram realizadas pela ANEEL 283 Audiências Públicas - AP e 68 Consultas Públicas - CP, sendo registrado um crescimento desses eventos ano a ano, o que permite inferir o crescimento da importância desses procedimentos no desenvolvimento de normas e procedimentos por parte da Agência. Nas APs e CPs, durante o período de 1998 a 2007, foram contabilizados 15.406 participantes, responsáveis pelo encaminhamento de 9.411 contribuições, que somaram 356 normas regulamentares entre resoluções, despachos e outros procedimentos por parte da Agência reguladora. No mesmo artigo de Almeida Prado Jr. et al. (2011) foi possível identificar grupos com interesses específicos voltados a regulação do segmento de geração de energia elétrica, sendo identificados 4 grupos distintos baseado na participação de 962 colaboradores identificados nas APs, a saber: (i) Grupo A – Empresas e/ou Organizações Associativas dos Agentes de Mercado ligados diretamente ao Serviço de Energia Elétrica; (ii) Grupo B9 – Órgãos de Governo na administração direta e indireta (federal, estadual e municipal, inclusive autarquias), Universidades e Outras Organizações vinculadas ou não ao Serviço de Energia Elétrica; (iii) Grupo C – Empresas, Consultorias, Organizações e Outros não vinculados diretamente ao Serviço de Energia Elétrica, e (iv) Grupo D – Consumidores ou Pessoas Físicas cuja contribuição na oportunidade não esteve vinculada a nenhuma organização formal. As Figuras 4 e 5 apresentam claramente a assimetria de participação desses diferentes agentes nos processos de discussão e de pressão para a formatação de novos regulamentos. 9 Neste Grupo excetuaram-se as empresas públicas do setor de energia elétrica, uma vez que as mesmas já estão enquadradas como agentes de mercado no Grupo A. 32 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 Figura 4 - Participação em APs do tema geração por grupo de interesse. C 108 14% D 35 5% B 56 7% A 569 74% Fonte: Almeida Prado Jr. et al. (2011). Figura 5 - Contribuições nas APs do tema geração por grupo de Interesse. C 401 15% D 75 3% B 139 5% Fonte: Almeida Prado Jr. et al. (2011). A 2.057 77% Embora seja relevante a iniciativa da ANEEL de propiciar a discussão pública e o recebimento de contribuições por parte dos agentes em temas relevantes, parece que esta iniciativa tem sido bem sucedida apenas parcialmente, pois os consumidores não conseguem participar ou não identificam relevância em sua inserão no processo decisório. É importante não permitir que os grandes números venham a ser considerados como os relevantes do processo participativo sem se considerar a participação relativa dos diferentes grupos de interesse, onde ainda é incipiente a participação do cliente. Armadilhas regulatórias presentes no setor elétrico brasileiro – análise crítica, Ana L. R. da Silva e Fernando A. de A. Prado Jr., p. 21-36 33 Conclusões Talvez mais de uma dezena de exemplos que caracterizam uma “armadilha regulatória” na opinião dos autores pudesse ser agregada a este artigo, por exemplo: (i) a alocação da parcela de energia dos empreendimentos estruturantes destinada ao mercado livre e auto produção como vetor de financiamento ao mercado regulado, (ii) os retrocessos nos direitos dos consumidores na resolução 414/2010 bastante caracterizados pelos grupos de pressão de interesse nas distribuidoras nas APs e CPs realizadas para sua consolidação; (iii) a própria complexidade do setor e o número expressivo de regulamentos já publicados desde a criação da ANEEL10, (iv) as dificuldades dos reguladores de coordenar11 aspectos conjuntos de combustíveis fósseis, uso da água e energia elétrica com políticas conjuntas. Este artigo procura demonstrar que existem oportunidades para uma melhor regulação, priorizando: (i) Consistência; (ii) Proporcionalidade; (iii) Documentação e registro; (iv) Transparência e (v) Objetivos. Particularmente o ítem (v) é o que guarda maior relação com o tema do artigo, onde as metas da regulação não devem ser contaminadas com outras decisões e nem contribuir para contaminá-las evitando-se futuras armadilhas regulatórias que causam prejuízos a toda sociedade. Como contribuição final se faz presente a necessidade da discussão da hierarquia entre as instâncias de governo, suas agências regulatórias e o plano de ação regulatório desejado. A Figura 6 apresenta de forma inspirada no Better Regulation Task Force Cabinet Office a consolidação deste conceito. Figura 6 - Concepção regulatória I - Regulação como forma específica de governo: conjunto de regras determinantes, frequentemente supervisionadas por uma agência administrativa ou de regulação específica. I II III II - Regulação como governança no sentido geral: esforço agregado de governos e agências regulatórias para influenciar na economia de acordo com metas e princípios pré-estabelecidos. III - Regulação no seu sentido mais amplo: qualquer forma de controle social. Fonte: Elaboração própria baseada em Arculus (2004). 10 Desde sua criação foram publicadas 8.783 resoluções dos mais diversos tipos pela ANEEL (até 8 de março de 2011). Winston Churchill disse certa vez: “Se você tem 10.000 regulamentos então você destrói o respeito à lei”. 11 Desde sua institucionalização a ANEEL, a ANP, a ANATEL e a ANA publicaram apenas três resoluções conjuntas. 34 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 Referências ALMEIDA PRADO JR; F. A. et al. Audiências Públicas – A experiência de formatação de políticas públicas no setor elétrico brasileiro, Revista de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), 2011, São Paulo. ARCULUS, David (org.). 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Durante anos, as marcas se apoiaram nos sinais tradicionais como elemento principal da sua identificação como logotipo, slogan e personagem. Nos dias atuais, com o desenvolvimento das novas formas de mídia, os sinais não tradicionais começam a ganhar destaque nas estratégias empresariais, incluindo elementos como som e aroma, cuja especialização o Marketing tem denominado de “Marketing Sensorial”. Neste ensaio, de natureza exploratória e qualitativa, os autores apresentam as diferenciações entre os sinais tradicionais e os sinais não tradicionais, destacando as formas de uso e proteção que esses novos elementos recebem em diversos países. Ao final, conclui-se que nos próximos anos os elementos não tradicionais serão cada vez mais utilizados como ferramentas integrantes do planejamento estratégico, uma vez que os sinais tradi- cionais já apresentam esgotamento na função de identificar e diferenciar um produto devido ao excesso de estímulos externos a que está exposto o consumidor. Caberá ao profissional de Marketing a função de pensar a melhor estratégia desses novos elementos, assim como planejar sob quais meios ocorrerão o uso e a proteção em países que não possuem uma legislação que os proteja integralmente. Palavras-chave: Marcas. Proteção e Uso. Sinais tradicionais e não tradicionais. Abstract: It is stated by a number of reasons, that the brand is one of the most important intangible assets of a company. For years, brands have relied on traditional signs as a core element of their identities as a logo, slogan and character. Nowadays, with the development of new forms of media, non-traditional signs begin to gain prominence in corporate strategies, including elements such as * Doutorando em Administração pela FEA/USP; Mestre em Administração de Organizações pela FEA-RP/USP. Professor FAAP Pós-graduação e PECEGE/ESALQ/USP. Pesquisador MARKESTRAT – Centro de Pesquisa em Marketing e Estratégia. E-mail: [email protected] ou [email protected]. ** Doutorando em Administração pela FEA/USP; Mestre em Administração pela PUC; Bacharel em Administração de Empresas pela FGV/SP e Direito pela USP. Co-autor do livro Gestão Estratégica de Marcas (edição brasileira de Strategic Brand Management de Kevin Keller). *** Doutor em Administração de Empresas pela FEA/USP. Professor titular do Departamento de Administração e do Curso de Pós-graduação em Administração do PPGA/FEA/USP. O uso e a proteção de sinais não tradicionais no processo de identificação..., José C. de Lima Jr., Marcos Machado e Geraldo L. Toledo, p. 37-50 37 sound and flavor, where Marketing specialization calls “Sensory Marketing”. In this trial, an exploratory qualitative study, the authors present the differences between the traditional signs and non-traditional signals, highlighting the use and protection that these new elements are given in several countries. At the end, it is concluded that in the coming years the non-traditional elements will be increasingly used as tools of strategic planning members, since the signs have already exhausted the traditional role of identifying and differentiating a product due to excessive external stimuli is exposed to the consumer. It is for the professional marketing function to think of the best strategy of these new elements, as well as planning ways in which occur the use and protection in countries that do not have legislation that protects them in full. Keywords: Brands. Protection and Use. Traditional and nontraditional signs. Introdução As marcas são ativos competitivos importantes para as organizações de todos os tipos. Entre as principais razões que justificam esta crescente importância das marcas está uma maior padronização entre produtos e serviços, sob o ponto de vista dos aspectos funcionais/ tangíveis; outra razão é o valor do tempo para os clientes/consumidores o que faz com que as decisões de compra sejam cada vez mais rápidas. Neste sentido, as marcas podem ser importantes diferenciais competitivos, facilitadores da tomada de decisão para clientes/consumidores com dificuldade de encontrarem diferenças perceptíveis de desempenho entre produtos e serviços, ou mesmo em casos em que se sentem pressionados pelo valor que o tempo assume no estilo de vida contemporâneo. Como afirma Keller (2008), marcas fortes podem ser atalhos seguros para decisões de compra cada vez mais difíceis. Nos dias atuais, constitui um desafio às empresas ter uma marca forte, eficaz, que de fato agregue valor a um produto ou serviço e que possibilite resultados positivos para a organização que a controla (em termos de vendas, preços superiores, fidelidade e participação de mercado). É possível crer que qualquer trabalho que, de alguma forma aborde aspectos que permitam aprimorar o processo de gestão de marcas pelas organizações em geral, são relevantes no cenário competitivo atual. A fronteira do branding ou da gestão de marcas, ainda tem muitos campos a serem estudados e aprofundados. No que diz respeito especificamente ao processo de identificação (uma das funções de uma marca), um campo ainda pouco abordado, notadamente no Brasil, é o uso de sinais não tradicionais. Este trabalho pretende abordar justamente este tema, “o uso de sinais não tradicionais”, destacando a teoria e ações práticas que começam a surgir neste campo. Desta forma, os autores esperam contribuir para o esclarecimento de um tema relevante às organizações de um modo geral, incentivando o aprimoramento de suas práticas de gestão e para novas discussões e pesquisas nesta direção. 38 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 1 Objetivo O objetivo geral desse ensaio é apresentar a visão de diferentes autores e relatar a experiência de algumas empresas, no tocante ao uso e proteção de sinais não tradicionais no processo de identificação e diferenciação de marca. Para alcançar o objetivo geral proposto, serão utilizados os seguintes objetivos específicos: • Revisão teórica para definição de marca e de elementos de marca; • Revisão teórica para diferenciação entre sinais tradicionais e não-tradicionais; • Análise do uso dos sinais não-tradicionais por diferentes empresas; • Análise no uso e proteção dos sinais não tradicionais por estas empresas. 2 Revisão Teórica 2.1 Definição de Marca Para se avaliar o papel dos elementos de marca, tema central deste ensaio, é importante revisitar a definição de marca mais aceita na bibliografia sobre o tema, que é a definição da AMA - American Marketing Association (2012) [...] marca é um nome, termo, símbolo, desenho ou combinação desses elementos que deve identificar os bens ou serviços de um fornecedor ou grupo de fornecedores e diferenciá-los dos da concorrência. Com base nesta definição pode-se observar, de forma sucinta, que uma marca possui dois grandes objetivos: (i) a identificação e (ii) a diferenciação dos produtos e serviços de um vendedor. Outro conceito importante para ser revisitado, ainda que rapidamente para se entender o papel dos elementos de marca, é o conceito de brand equity. Segundo Keller (2008), embora existam várias visões diferentes de brand equity, a maioria dos autores concorda que o conceito tem a ver com os efeitos de marketing atribuíveis exclusivamente a uma marca. Portanto, entender melhor o conceito de brand equity é chave para entender como os elementos de marca podem afetá-lo. Para Aaker (2000) o conceito de brand equity pode ser entendido como o conjunto de ativos associados a uma marca, seu nome e seus símbolos, e que podem ser somados ou subtraídos do valor proporcionado por um produto ou serviço. Tal capacidade está baseada em um conjunto de grupos de recursos: lealdade, conhecimento, qualidade percebida, associações da marca e outros ativos. Para Kapferer (2003) o conceito de brand equity está relacionado com a capacidade que uma marca tem como fator de vantagem competitiva e de redução de riscos para O uso e a proteção de sinais não tradicionais no processo de identificação..., José C. de Lima Jr., Marcos Machado e Geraldo L. Toledo, p. 37-50 39 seu detentor. Uma marca forte permite preços superiores, usufrui de lealdade dos consumidores e permite alavancar a lucratividade. 2.2 Elementos de Marca Segundo Keller (2008), elementos de marca são aqueles que servem para identificar e diferenciar a marca. Os principais elementos de marca são: nomes de marcas, domínios na internet, logotipos, símbolos, personagens, slogans, jingles e embalagens. Sob a ótica da gestão de marcas, as decisões de escolha e divulgação dos elementos de marca são feitas de modo a construir o maior brand equity possível. Neste sentido, não se deve perder a noção do papel que os elementos de marca podem ter em uma melhor identificação e diferenciação, principais objetivos de uma marca. Desta forma, elementos de marca podem ser escolhidos para: aprimorar conhecimento de marca; facilitar a formação de associações de marca fortes, favoráveis e exclusivas; ou provocar julgamentos e sentimentos de marca positivos. Uma boa forma de identificar a contribuição dos elementos de marca é avaliar o que os consumidores pensariam sobre o produto se conhecessem somente seu nome de marca, logotipo e outros elementos. Um elemento de marca que proporciona uma contribuição positiva para o brand equity, é aquele elemento por meio do qual os consumidores presumem ou inferem certas associações ou respostas valorizadas. Ainda segundo Keller (2008) há seis critérios para escolher elementos de marca: memorabilidade, significância, simpatia, transferibilidade, adaptabilidade e proteção. A memorabilidade é a facilidade com que um elemento de marca é memorizado. Significância está relacionada com as associações diretas de significados à que o elemento de marca remete. Simpatia é o julgamento subjetivo sobre a forma como um elemento de marca é aceito pelo público. Transferibilidade é a capacidade do elemento de marca ser utilizado em diferentes contextos, novas categorias, extensões de linhas etc. Adaptabilidade está relacionada com a flexibilidade do elemento de marca para atualizações ao longo do tempo. Finalmente, a proteção tem relação com as condições que a empresa tem para proteger o elemento de marca tanto legalmente como competitivamente. Os três primeiros critérios (memorabilidade, significância e simpatia) podem ser caracterizados como de natureza de “construção de marca” e referem-se ao modo como o brand equity pode ser construído mediante a escolha de um elemento de marca. Os três últimos, entretanto, são de natureza mais “defensiva” e relacionam-se com o modo como um elemento de marca pode ser preservado. Os elementos de marca até aqui citados (nomes de marca, domínios na internet, logotipos, símbolos, personagens, slogans, jingles e embalagens) podem ser classificados como os elementos de marca tradicionais. Tratam-se dos elementos mais abordados na literatura, aqueles que as empresas mais utilizam e, consequentemente, aqueles que estão mais adiantados em termos de possibilidades, proteção legal e competitividade. 40 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 No entanto, o principal objetivo deste artigo é analisar as implicações do uso dos elementos de marca não tradicionais, por parte das empresas. Tratam-se de novas oportunidades de identificação e diferenciação para marcas, elementos estes que estão sendo cada vez mais utilizados por diferentes empresas para se destacarem da concorrência. Entre tais elementos não tradicionais há o cheiro (marca olfativa), sinais sonoros, concepção arquitetônica e formato de produto, entre outras (Quadro 1). Justamente por serem elementos não tradicionais, tais elementos constituem no presente momento excelentes oportunidades pouco exploradas. No entanto, dado seu caráter novo, oferecem diversas limitações quanto à proteção legal e competitiva. 2.3 Tendências ao uso dos elementos de marca: sinais tradicionais e sinais não tradicionais Se fosse possível definir, em poucas palavras, uma das principais características que deve ser considerada pelo marketing do século XXI, certamente o excesso de estímulo externo a que está exposto um consumidor figuraria como elemento central. Segundo Lindstrom (2005), no ano de 1965, aproximadamente 34% dos consumidores americanos conseguiam fixar o nome de uma marca após a exibição de um comercial na TV. Trinta anos depois, somente 8% são capazes de fazê-lo. Para Lindstrom (2005), um consumidor com idade de 65 anos já esteve exposto a dois milhões de comerciais somente via televisão, número que equivale a uma média de seis anos de anúncios, assistidos durante 8 horas por dia, 7 dias da semana. Se antes um produto fazia uso de poucos canais para apresentar-se ao consumidor, nos dias atuais as formas de estimular esse mesmo consumidor foram potencializadas com o surgimento de novas mídias e da portabilidade de muitas delas. Para Volmer e Precourt (2010), assiste-se o início de uma era onde os enfoques tradicionais de marketing não são mais viáveis, pois gradativamente o comando passa a ser do consumidor. Fazendo uso do varejo, Esbjerg e Bech-Larsen (2009) citam a arena que se transformou um supermercado moderno, destacando a liberdade que o consumidor tem para fazer as suas escolhas. Se antes a arquitetura de uma marca se ocupava, principalmente, da relação marca/produto, em uma realidade mais competitiva, Esbjerg e Bech-Larsen (2009) afirmam que essa mesma arquitetura de marca também precisa se ocupar das formas e dos meios em que ocorre a imersão do consumidor nesse universo de marcas. Os sinais tradicionais de uma marca, como nome, logotipo, slogan, personagem, se tornaram insuficientes para chamar a atenção do consumidor, sobretudo após a internacionalização do comércio e o acirramento da concorrência. Surgem assim estudos realizados por vários pesquisadores (JIN NA et al., 2008; VAVER, 2005; KUMAR; JOSHI, 2006; RAZ et al., 2008; ESBJERG; BECH-LARSEN, 2009), que incluíram os sinais não tradicionais ao corpo teórico da literatura de marcas, como som, cheiro, design, o que Raz et al. (2008) denominam de Marketing Sensorial. O uso e a proteção de sinais não tradicionais no processo de identificação..., José C. de Lima Jr., Marcos Machado e Geraldo L. Toledo, p. 37-50 41 2.3.1 Sinais tradicionais Durante muito tempo, os principais elementos de uma marca foram o nome, o domínio de internet, logotipos, símbolos, personagens, porta-vozes, slogans, jingles, embalagens Para apresentar as promessas de um produto ao consumidor, esses elementos fazem uso da propaganda para que esse consumidor possa perceber os benefícios oferecidos pela organização e assim construir a identidade desta marca (CRAVENS; PIERCY, 2007). Para Alcock et al. (2003), uma marca forte é a melhor estratégia para uma empresa ser percebida entre vários competidores, razão que faz Keller (2008) afirmar que o emprego coordenado desses elementos deve permitir uma contribuição positiva para a marca. Historicamente, os meios impressos dominaram a comunicação das marcas durante muito tempo. Com o surgimento e o acesso do consumidor aos meios eletrônicos, como a TV e o rádio, essas novas mídias foram então utilizadas com o objetivo de divulgar a imagem para determinado produto. A partir dos anos de 1990, com o surgimento e o desenvolvimento da Internet, o mundo virtual passou a ser empregado nas estratégias corporativas, inicialmente por meio de um domínio URL, e posteriormente com a interação de serviços e redes criados exclusivamente para acesso de usuários fidelizados. Nos dias atuais, a portabilidade de equipamentos e o fácil acesso ao cyberespaço, ilustrado recentemente nos smartphones, os elementos tradicionais de uma marca gradativamente passam por um processo de adaptação, principalmente quanto à aplicabilidade, uma vez que o excesso de informação impacta diretamente na percepção do consumidor (ZEKOS, 2006; LINDSTROM, 2005). É possível afirmar que as mudanças vivenciadas pelos sinais de uma marca estão condicionadas às alterações que ocorreram nos meios de acesso ao consumidor. Quando os meios de informação eram reduzidos e o número de empresas ofertantes para determinado produto era igualmente menor, era possível inferir que o controle estava na organização. Com a ampliação dos meios de comunicação e o acirramento da concorrência, o consumidor passou a ter mais condições de escolha sobre o canal de que faz uso para se informar, motivo este que, ainda que não único, é por si só suficiente para o surgimento de estratégias de marketing mais eficientes que visam alcançar este mesmo consumidor em boa parte da sua trajetória diária. Assim, uma sala de cinema ou um passeio pelo corredor de um centro de compras se tornaram meios relevantes para as organizações. Porém estes lugares não seriam plenamente atendidos se estas marcas fizessem uso somente dos sinais tradicionais. Tem-se assim a necessidade de complementar a comunicação entre o produto e o usuário de maneira que ela se torne mais eficiente, razão esta que se faz crescer, nos dias atuais, o uso dos sinais não tradicionais. 2.3.2 Sinais não tradicionais Os sinais não tradicionais para comunicação da marca aos poucos estão sendo descobertos. A marca de cosméticos Nívea realizou recentemente uma ação nos 42 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 cinemas alemães em que, após a exibição de um filme de 60 segundos, a fragrância do seu protetor solar espalhou-se pela sala acompanhada do slogan “Nivea. The scent of summer” (Nivea. O Aroma do Verão). Esta técnica foi batizada de “Endorphin Branding” por C. Russell Brumfield e já faz parte do portfólio de mídia para potenciais anunciantes da rede Cinescent (BRANDING WEEBLY.COM, 2008). Ações de marketing olfativo fizeram com que empresas especializadas surgissem no Brasil, como a Biomist, cuja função é desenvolver aromas específicos para empresas de varejo, buscando ampliar o apelo emocional e distinguir a marca do anunciante (BIOMIST, 2012). Para a valorização da marca, os sinais tradicionais foram extrapolados para os cinco sentidos humanos, no que Vilhena Neto (2009) denomina de “Classificação Sensorial” ou “Marketing Sensorial”, denominação esta de Raz et al. (2008). Quadro 1 - Espécies de marcas não-tradicionais Perceptibilidade Visual Marcas tridimensionais Marcas compostas por cores isoladas ou combinadas Marcas compostas por hologramas Marcas compostas por slogans Marcas compostas por títulos de obras autorais Marcas compostas por imagens em movimento Marcas de posição Marcas gestuais Marcas prediais ou arquitetônicas Perceptibilidade Auditiva Marcas sonoras musicais Marcas sonoras não-musicais Perceptibilidade Olfativa Marcas olfativas Perceptibilidade Táctil Perceptibilidade Gustativa Marcas tácteis Marcas gustativas Fonte: Vilhena Neto (2009, p. 14-15). Outra fonte de sinal não tradicional e que recebeu um criterioso estudo por Kumar e Joshi (2006) foi o uso e o emprego das cores. Estes autores destacaram que as cores prevalecem no dia-a-dia do consumidor conforme a sua cultura, estando esta associada ao aspecto dominante que este mantém em sua própria personalidade, seja ela política, religiosa ou racial. Kumar e Joshi (2006) ilustram essa afirmação por meio do emprego das cores na política: o vermelho na ideologia comunista ou socialista, o azul nos partidos conservadores, o preto no fascismo ou neo-fascismo, o rosa nos partidos moderados, o amarelo nos liberalistas e o verde nos partidos com direcionamento ambiental. Tem-se assim uma importante observação: quando se considera que todo indivíduo vive imerso em um universo de marcas, entender a cultura e empregar corretamente as cores permitem um melhor estímulo às próprias aspirações pessoais desse consumidor, propiciando maior interação e reduzindo o universo competitivo das marcas por meio de suas próprias aspirações. Segundo Orozco e Conley (2008), todo consumidor tende a desconstruir a marca em elementos visuais, criando diferentes pontos de vista sob a mesma. Portanto, se O uso e a proteção de sinais não tradicionais no processo de identificação..., José C. de Lima Jr., Marcos Machado e Geraldo L. Toledo, p. 37-50 43 a função primária da marca é identificar e distinguir o produto (KAPFERER, 2003), todos os sinais presentes, tanto na marca como no produto, obrigatoriamente devem ser observados. Esta desconstrução, a princípio intangível no universo das marcas, é facilmente tangibilizada nos produtos quando se observa a migração de valor de designs ultrapassados por novos designs que oferecem valor adicional (CRAVENS; PIERCY, 2007), destacando o sinal não tradicional design ou “marca tridimensional”. Em matéria veiculada no The Wall Street Journal (OROZCO; CONLEY, 2008), esta situação foi bem ilustrada pelos mecanismos de proteção utilizados pela Apple para o iPod. A inovação do design do produto e o direito de propriedade intelectual tiveram que ser protegidos como elementos importantes da vantagem competitiva que objetivava a companhia, colocando não somente o design do produto, mas também as interfaces que este teria com o consumidor. Todo este conjunto-produto formado por cores, embalagens, configuração do produto, sinais, estilização, texturas e ornamentos em geral que seriam capazes de identificar o produto iPod e diferenciá-lo dos demais é denominado na literatura dos sinais não tradicionais de trade dres, e nos dias atuais é uma das áreas mais nebulosas de proteção da Propriedade Intelectual (DANIEL, 2006). Outro importante mecanismo de sinalização da marca é o som. A Intel conseguiu minimizar a necessidade visual da própria marca, sendo facilmente identificada pelos acordes veiculados em suas propagandas (ZOGBI, 2008). Outros exemplos também se destacam. Em matéria veiculada no Mundo do Marketing, o som nas marcas foi definido como “logosom” por profissionais da área, já sendo bastante difundida e utilizada por diversas empresas como Motorola, Nokia e TV Globo (ZOGBI, 2008). A partir da expansão dos sinais não tradicionais, a territorialidade da marca proposta por Kapferer (2003) é ampliada na personalidade e no estilo da marca como importante elemento de identificação em mercados cada vez mais competitivos, possibilitando, até em meios ainda não plenamente compreendidos plenamente pelo marketing, como o ciberespaço, um melhor posicionamento (ZEKOS, 2006), ou, nas palavras de Raz et al. (2008, p. 719), trata-se de uma “contínua inovação para a empresa manter-se na liderança”. 2.4 Possibilidades de Proteção para os sinais não tradicionais As possibilidades de proteção para os sinais não tradicionais ainda carecem de muitas regras em vários países. No Brasil, somente com a nova Lei de Propriedade Industrial datada de 14/05/1996 (Lei 9.279/96) é que o registro das marcas tridimensionais, um dos elementos não tradicionais, passou a ser contemplada. Os Estados Unidos foram os pioneiros ao ampliar o próprio conceito de marca, como fonte de identificação e diferenciação, e incluir as formas de proteção também para cores, sons, aromas, movimentos, hologramas e outras formas imagináveis de representação da marca (SIEMSEN; LEIS, 2010). Segundo Siemsen e Leis (2010, p. 4), “as cortes americanas já proferiram inúmeras decisões permitindo o registro de marcas não-tradicionais, baseadas no princípio de que o importante é a capacidade distintiva da marca, não importando sua natureza”. 44 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 A Europa, por meio da International Trademark Association, publicou um documento apresentando os atuais estágios de proteção de marcas dos 36 países que representa, destacando, principalmente, as cores e as marcas tridimensionais. No Quadro 2, são apresentados 24 países selecionados pela sua importância econômica, incluindo a União Europeia. É possível notar que o registro dos sinais não tradicionais ainda carece de regulamentação em vários países. Entre os principais motivos, Vadi (2009) apresenta a dificuldade de precisar o limite da lei pública, que observa os interesses da sociedade, da lei de proteção individual, que observa os interesses de um agente específico. Como afirma Correa (2004), quando este diz que a marca passa a estar inserida na infinita teia de sinais que formam as conexões entre o indivíduo e o mundo exterior. Com premissa tão ampla, é compreensível que exista muito campo para ser estudado nos próximos anos. Quadro 2 - Formas de proteção não tradicionais para cores e marcas tridimensionais – países selecionados País Marca por Cores Marcas Tridimensionais Albânia Não há restrição. É possível registrar uma cor ou uma combinação de cores sem nenhum design especial. É possível registrar, mas com algumas restrições. Alemanha É possível registrar combinações de cores, desde que seja diferenciado o emprego em bens ou serviços. É possível registrar somente a embalagem. A legislação alemã não aceita o registro do signo. Áustria A representação deve ser clara e permanente, devendo ser distinguido entre bens e serviços. Foca especificamente as embalagens. Benelux (Bélgica, Holanda, Luxemburgo) É possível registrar, mas precisa estar claro sob quais signos serão representados graficamente. É possível registrar, mas precisa estar claro qual a natureza e o emprego. Bulgária Aceita o registro somente de cores combinadas e jamais isoladas. Não há leis específicas de proteção. Estão subordinadas às leis do próprio país Dinamarca Todos os signos são passíveis de registro. As cores precisam ser especificadas quanto a sua aplicação. Somente algumas formas tridimensionais são aceitas, geralmente por critério de relevância. Espanha Tradicionalmente não permite o registro das cores, pois somente as cores não são passíveis de identificação suficiente. Permite o registro desde que detalhado as finalidades e funcionalidades, incluindo palavras e design. Finlândia Certamente é a que tem maior dificuldade de registro, pois devem ser apresentadas todas as diferenciações da cor em questão com relação às demais. Extremamente simples. Um original 3D já é passível de registro. França Aceita registro, desde que seja precisado a cor na escala internacional Pantone. Atualmente alguns registros são aceitos sem objeções, desde que sejam diferenciados. Grécia As cores sem outros elementos de identificação não são aceitos para registro. São aceitos registros. Hungria É possível registro. Solicita somente o emprego se para bens ou serviços. É possível registro. Continua... O uso e a proteção de sinais não tradicionais no processo de identificação..., José C. de Lima Jr., Marcos Machado e Geraldo L. Toledo, p. 37-50 45 Quadro 2 - Formas de proteção não tradicionais para cores e marcas tridimensionais – países selecionados País Marca por Cores Marcas Tridimensionais Irlanda Devido às leis não fazerem menção ao uso e emprego das cores, há dificuldade para registro. Há forte dificuldade no registro de marcas tridimensionais. As leis especificam somente palavras, design, letras, números e embalagens (extremamente genérico). Itália É possível registro. As leis aceitam cores e combinações em diferentes tonalidades. É possível registro, exigindo somente a natureza e o emprego. Polônia Desde junho de 200 são consideradas como integrantes de uma marca. Desde junho de 200 são consideradas como integrantes de uma marca. Portugal Deve-se distinguir o emprego para registro das cores. Há maior dificuldade. É possível registro. Reino Unido É possível registro desde que especificado o emprego e uso. É possível registro. República da Bósnia Herzegovina É possível registrar sem nenhuma restrição. É possível registrar sem nenhuma restrição. República Tcheca Desde abril de 2004 não são aceitos o registro de cores. É possível fazer registros somente para embalagens, apesar das marcas tridimensionais não serem usualmente diferenciadas. Romênia As cores e suas combinações constituem partes da marca. É possível registro. Formas 3D constituem partes da marca. É possível registro. Rússia Permite registro, mas há grande dificuldade, pois exige a especificação detalhada da aplicação. Não permite registro, pois são considerados como elementos funcionais de domínio comum. Suécia A lei atual apresenta dificuldade de interpretação, pois solicita o detalhamento para bens e serviços. Não considera as cores como parte funcional para registro de uma marca. Similar ao registro de marca de cores. Suíça É possível registro. É possível registro. União Europeia É possível registrar uma combinação de cores, mas deve estar claro os parâmetros de uso. É possível registrar, mas não diferencia a natureza do produto (bens/serviços). Fonte: Elaborado pelos autores a partir de International Trademark Association (2005). Considerações Finais É consenso que a competição tende a se acirrar nos próximos anos. Sendo a marca a melhor forma de identificação e diferenciação do produto, os elementos que a compõe receberão cada vez mais atenção conforme são intensificadas as relações de concorrência. No momento atual, é possível notar que o crescimento dos sinais não tradicionais destaca, simultaneamente, tanto o esgotamento dos sinais tradicionais na função primária de identificação e diferenciação, como a necessidade de ocupar um espaço na atenção, cada vez mais seletiva, do consumidor. 46 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 Partindo destas premissas, várias empresas já notaram as oportunidades e passaram a incluir em suas mensagens elementos não tradicionais. O alinhamento estratégico entre os sinais tradicionais e não tradicionais devem contribuir para o brand equity, porém precisam estes últimos observar os seis critérios propostos por Keller (2008): memorabilidade, significância, simpatia, transferibilidade, adaptabilidade e proteção. No entanto, é no último critério proposto por Keller (2008) que nos dias atuais reside o maior desafio, já que a proteção legal ainda carece de melhor definição para salvaguardar o proprietário da marca; conforme destaca Vadi (2009), há dificuldade de precisar os limites entre a lei pública e a lei de proteção individual. Em cenários de indefinição, é importante investir em ações de proteção competitiva, propiciadas principalmente pelas ferramentas de comunicação. Especificamente no Brasil, apesar de suscitar o questionamento sobre a normalidade de a legislação estar atrasada em relação a outros países e regiões, como Europa e Estados Unidos, há que destacar o pouco uso dos sinais não tradicionais pelas organizações locais. É possível supor que, em um futuro próximo, quando a atenção corporativa se voltar para esta nova forma de estar presente no cotidiano dos consumidores, deverão ser ampliados os investimentos na criação dos elementos não tradicionais, forçando assim a necessidade de modificar as atuais regras de registro no âmbito institucional. Sob os atuais condicionantes, as organizações enfrentam muitos riscos que são potencializados pela não proteção, destacando-se a possibilidade de cópia que é inerente no universo das marcas. Entretanto, é preferível para essas mesmas organizações atentar-se para esta oportunidade de valorizar a própria marca pelo uso destes elementos não tradicionais, ao invés de correr o risco de preterir o seu uso. 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Toledo, p. 37-50 49 50 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 Top management team international dominant logic: a new linkage in the international diversificationperformance link Douglas E. Thomas * Abstract: The shift away from the general focus on the importance of the CEO (Chief Executive Officer) of organizations is the basis of this paper. Their proposed new focal point of importance now lays on the Top Management Team (TMT) as the important locus of decision making, thus making this group the central focus for management analysis. The hypothesis that the firm itself (its structure and strategies) is correlated to the mindset of the TMT has been expanded to contemplate the firm’s diversification decisions and the relationship with firm’s performance. The author proposes four views of analysis to understand the relationships between the dominant logic for company management, being it international or not, and its performance. Keywords: Decision. Strategic management. Problem solving behavior. Introduction The past fifteen years of strategic management research has greatly increased our understanding of the importance of top management team (TMT) characteristics and composition in corporate strategy and performance. In general, management researchers have shifted away from a general focus on the importance of the firm’s chief executive officer (CEO) and introduced the TMT as focal point of study (FINKELSTEIN; HAMBRICK, 1996). This shift reflects the understanding that the TMT is the important locus of decision making in organizations and that the interactions ongoing within this group is the relevant level of analysis. Further, upper echelon theorists have hypothesized that the firm itself (its strategies and structure) is to a large degree a reflection of the top management team (HAMBRICK; MASON, 1984). In a related stream of research, the administrative heritage of the top management team or its dominant logic is posited to affect the way in which it develops and implements corporate strategy and firm outcomes (PRAHALAD; BETTIS, 1986; BARTLETT; GHOSHAL, 1989; BETTIS; PRAHALAD, 1995). A TMT’s dominant logic is defined as its “mind set or world view or conceptualization of the business and the administrative tools to accomplish goals and make decisions” which is stored as a “a shared cognitive map (or set of schemas) among the dominant coalition” (PRAHALAD; BETTIS, 1986, p. 491). The dominant logic, for example, has been theorized as a crucial link in the relationship between the firm’s level and degree of product diversification and firm financial performance (PRAHALAD; BETTIS, 1986). * Department of Management. Texas A&M University. E-mail: [email protected] Top management team international dominant logic: a new linkage in the international diversification..., Douglas E. Thomas, p. 51-64 51 In addition to diversifying along product lines, firms also diversify internationally. International diversification1 is the degree to which multinational firms expand their sales and operations abroad across national political boundaries. Recently, researchers have begun to extend upper echelon theory to explain the relationship between the TMT and the firm’s international diversification strategy (VOLKMAR, 1998; SAMBHARYA, 1996; ATHANASSIOU, 1995). The effects that international diversification has on firm financial performance has also been explored (GERINGER, BEAMISH, DACOSTA, 1989; HITT, HOSKISSON,; KIM, 1997; although mixed results have been found in empirical tests of this relationship (e.g., GRANT, 1987; DANIELS; BRACKER, 1989; COLLINS, 1990; BUHNER, 1987). For example, Hitt et al. (1997) found an inverted U relationship between international diversification and performance; further, they found that the level of firm product diversification moderates the relationship. Further, they suggest that management of international and product diversification may be an important link in the relationship. TMT researchers, however, have not specifically explored the relationship that the firm’s dominant logic, international diversification and performance may have with each other. This paper has several purposes. First, I propose a new construct to the strategic management literature that is theorized to affect the relationship between international diversification and performance: the international dominant logic. Following Prahalad and Bettis (1986), the international dominant logic is the dominant coalition’s (TMT) mindset toward and administration of its international business (sales and operations); it is stored as a shared cognitive map amongst TMT members. The international dominant logic differs from the dominant logic proposed by Prahalad and Bettis in the sense that the dominant logic has previously focused on the TMT’s towards managing its product diversified portfolio whereas the international dominant logic specifically focuses on management’s orientation towards managing its international portfolio of operations and the unique causes of this orientation. [In a more general sense, the author recognizes that this difference between the two may be a matter of semantics; in other words, in a purely theoretical sense, the construct of the dominant logic likely includes what I am calling here the international dominant logic. In this sense, what I am proposing here is not a separate “construct”; the use here, then, is for more practical reasons - to emphasize the international context of my argument. I don’t think this hurts my argument but welcome any suggestions or comments (e.g., maybe I shouldn’t be using the word construct here)] The international dominant logic construct builds on previous research in global strategic management research that has focused on firm management’s cognitive orientation towards its international operations. Researchers have suggested that the firms of management with certain (which will be further explained later in the paper) mind sets towards its international operations may be more likely to diversify internationally (SAMBHARYA, 1996) and may lead to improved firm performance (BARTLETT; 1 International diversification has been defined as “expansion across borders of global regions and countries into different geographic locations, or markets” (Hitt, Hoskisson, and Kim, 1997). (To this point this simple definition of international diversification is sufficient; however, later in this paper, a more refined definition will be necessary). 52 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 GHOSHAL, 1989; CALOF; BEAMISH, 1994). The second purpose of this paper then is to explore the antecedents of the TMT’s international dominant logic. For example, I identify previous international experience as an important source of the TMT’s international dominant logic. Third, I argue that the TMT’s international dominant logic is a crucial link in the relationship between a firm’s international diversification strategy and its performance. More specifically, I posit that management’s learned problem solving behavior and cognitive map with respect to its increasingly diversified portfolio of international operation is related to firm performance. Finally, I explore the relationship that the TMT’s dominant logic may have with its international dominant logic and any potential effects that this relationship may have on firm performance. The dominant logic As was previously mentioned, Prahalad and Bettis (1986) introduce the construct of managerial dominant logic in the strategic management literature. A TMT’s dominant logic is defined as a “mind set or world view or conceptualization of the business and the administrative tools to accomplish goals and make decisions” which is stored as a “a shared cognitive map (or set of schemas) among the dominant coalition” (p. 491). A schema is a knowledge system that represents a manager’s “beliefs, theories, and propositions that have developed over time based on the manager’s personal experiences” (p. 489). The dominant coalition is the top management team. The TMT’s dominant logic is “expressed as a learned, problem-solving behavior” (p. 491). The TMT’s dominant logic results from: 1. operant conditioning (positive reinforcement), 2. pattern recognition processes and 3. cognitive biases 4. personal experiences. TMT’s may have single or multiple dominant logics, depending on the strategic variety (e.g., the relatedness and unrelatedness of the firm’s product diversification portfolio) of the firm. TMTs working in one product line or business (i.e., an undiversified firm) may have a single dominant logic - only one paradigm by which they manage that business. TMT’s of firms that have diversified into unrelated businesses may have developed multiple dominant logics one dominant logic that that guides their decision making in one line of business and another in an unrelated business. Prahalad and Bettis (1986) suggest that because the dominant logic is a learned problem solving behavior that TMTs may learn to adjust the dominant logic according to the demands of managing the business. Significant changes in the demands necessary for managing the existing business (e.g., significant changes in the firm’s operating environment) of a firm with a single dominant logic TMT may require the TMT to make adjustments to its dominant logic in order for the firm to succeed. Further, TMTs may learn new dominant logics - adding to their existing dominant logic(s). The TMT of a single dominant logic firm may add an additional dominant logic(s) and become a multiple dominant logic TMT or the TMT of a multiple dominant logic firm may add an additional dominant logic(s). For example, when diversifying into a new product line or business, the TMT of a single dominant logic firm may adjust its dominant logic or add new ones depending on the relatedness of the diversification. If the new business is related or similar to the existing business, then the TMT may be able to manage it with Top management team international dominant logic: a new linkage in the international diversification..., Douglas E. Thomas, p. 51-64 53 the same dominant logic with which it has managed the existing business. Adding a new but dissimilar business will require a single or multiple dominant logic TMT to learn a new dominant logic that meets the demands of the new business in order for the diversification to improve firm financial performance. Thus, the dominant logic is malleable. It is a learned, problem-solving behavior; adjustments can be made to existing logics and new ones can be learned. As it is mentioned above, Prahalad and Bettis’s (1986) work on the dominant logic is specifically concerned with the dominant logic construct in the context of product diversification. In other words, the effects of the firm’s diversification strategy on firm financial performance is determined in part by the TMT’s dominant logic the problem-solving behavior with which it implements the strategy. At the same time, no such work has been done with respect to the construct of dominant logic and its international diversification strategy. The international dominant logic Building on the dominant logic construct developed by Prahalad and Bettis (1986) for product diversification, we can extend the construct to the firm’s international diversification portfolio. The TMT’s international dominant logic is the cognitive map by which it manages its portfolio of internationally diversified operations. The TMT has learned this problem solving behavior through the firm’s previous experience in the international arena, from the cognitive biases of the individual TMT members, and from the success or failures that it has experienced in conducting its firm’s operations internationally. Similar, to the dominant logic construct, a firm may have a single international dominant logic or multiple international dominant logics. The international dominant logic(s) of the TMT depend in part on the degree of similarity or relatedness of the markets in which it operates internationally; further, it depends on the nature of those operations (e.g., exports, wholly owned subsidiaries, etc.). This concept will be further developed later in this paper. However, first, previous literature that provides the foundation for the international dominant logic will be reviewed. Previous research that supports the international dominant logic concept Previous research in international business reveals that the idea that executives and managers of firms have general mind sets towards areas, cultures, and business environments foreign to their own which affects their implementation of firm strategy in the international arena is not new. [Mind set is understood here to be quite similar to the dominant logic; it is a cognitive orientation or attitude developed over time based on personal experience and biases.] Perlmutter (1969) developed a typology which identifies three different managerial mind sets that affect the way in which executives manage the firm’s international strategy and structure: ethnocentric, polycentric, and geocentric mind sets. 54 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 An ethnocentric manager has a strong home-country culture mind set in conducting firm operations overseas; strategies, structures, and other decisions are likely to reflect such a mind set. The dominant management mindset resulting from the firm’s home-country environment dominates management of the firm’s international operations. According to the typology, a firm led by predominantly ethnocentric managers will likely have an ethnocentric orientation. This assertion accords with upper-echelon theory that posits that the firm is a reflection of its top managers (HAMBRICK; MASON, 1984). A manager with a polycentric mind set recognizes that there are differences between the cultures, markets, and business environments in which it operates and manages firm operations in light of such operations; however, strategies and structures dominate in the home-country still dominate the corporate strategy, structure, and culture. The geocentric managerial mindset recognizes the importance of each culture, subsidiary, and area as integral parts of the firm’s global system of operations. The focus in such a corporation is on a global strategy, structure and culture where no homecountry managerial mindset dominates. Further, the geocentric managerial mindset recognizes the need for local adaptations. Corporate strategy, structure, and culture reflect the geocentric mindset of top management. The implicit assumption in this typology is that the three types of mind sets lie along a continuum, with ethnocentrism on one extreme and geocentrism on the other. Further, Perlmutter’s writings implicitly assume that geocentrism is positively associated with performance. He suggests that management of firms involved in international operations should develop a geocentric mindset. Thus, his typology is both descriptive of what reality is and prescriptive to what it should be like. The emphasis that I wish to draw from his work is that managers do have specific mindsets with respect to managing their portfolio of internationally diversified operations. More recently, other researchers have developed similar typologies. For example, Bartlett and Ghoshal (1989) observe three different types of firms - the international, multinational, and global firm - that reflect the executives of the firm and the strategies that they have implemented. The international, multinational, and global typology basically translates to the ethnocentric, polycentric, and geocentric typology developed by Perlmutter (1969). Bartlett and Ghoshal (1989) are prescriptive as Perlmutter in that they propose a particular “solution” to improving firm performance when managing an internationally diversified portfolio of operations: the transnational solution or transnational approach to management. Transnational management cuts across the typology; it includes elements of all three mindsets: international, multinational, and global. Transnational management is characterized by focusing on a both a global strategy and local responsiveness. Managers of such a firm recognize the need to integrate operations across borders within a global strategy. At the same time, their mindset is towards responding to the needs of individual, local markets. Operations around the world are part of an integrated whole. The firm’s culture, strategy and structure represent the transnational mindset of management. The location of headquarters or any other country or culture does not affect the mindset of the managers. An example of such a firm is Asea Brown Boveri (ABB) Top management team international dominant logic: a new linkage in the international diversification..., Douglas E. Thomas, p. 51-64 55 which is highly diversified internationally and which purposely has top managers from various culturally diverse areas. Their stated reason for doing so, is the idea that greater diversity amongst top managers brings the mind set necessary for managing a firm that is globally competitive but locally responsive. Bartlett and Ghoshal (1989) point out that the firm’s administrative heritage (which is quite similar to the dominant logic) is highly correlated with management’s mindset with respect to conducting its international operations. For firms wishing to follow the prescription, they point out that one way for managers to develop such a transnational mindset is through international experience. They suggest that in the future firm performance will be dependent to a large degree on management’s ability to adopt the transnational mindset. Both Bartlett and Ghoshal (1989) and Perlmutter (1969) suggest prescriptions for managers of multinational firms; they suggest that management’s adoption of geocentric or transnational mindsets with respect to managing international operations will have positive effects on firm financial performance. The main points to be taken from the two approaches is that managers have mindsets with respect to their firm’s international operations and that certain mindsets may have positive effects on performance. More recently, other researchers have specifically focused on the top management team and its relationship with firm international diversification strategy (the focus of the aforementioned authors was not on the TMT per se). For example, Athanassiou (1995) argues that TMT’s develop firm specific international business tacit knowledge through engaging in foreign operations. As firms diversify internationally, individual top management team members acquire international business tacit knowledge. Tacit knowledge refers to know-how or process knowledge that can not be written down. The international business tacit knowledge of individual TMT members is integrated across other TMT members to create a TMT level international business tacit knowledge. This idea stems from upper-echelon theory and its focus on group processes (HAMBRICK; MASON, 1984). The degree to which international business tacit knowledge is assimilated among TMT members can affect firm performance. Top managers use their international business tacit knowledge to manager their firm’s international operations. The international business tacit knowledge concept is similar to the concept of the international dominant logic – both are learned, problem solving behaviors that management uses to manage the firm’s international operations. Unfortunately, empirical tests of the hypothesized relationship between management’s international mind sets and firm performance are scant (i.e., that geocentric or transnational managerial mind set is positively correlated with performance). Calof and Beamish (1994), found that a geocentric mindset is positively related to performance based on the results of a questionnaire sent to executives of thirty-eight Canadian firms. Kobrin (1994) has convincingly argued and shown, in a survey of international human resource executives, that a geocentric mind set is not related to any specific international strategy or structure. “A centralized firm that is global in scope could be managed either ethno- or geocentrically, and it is also quite possible that a geocentric mind set could be prevalent in a firm that decentralizes responsibility but relies on 56 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 socialization of managers for control” (p. 496). He argues that “geographic scope, strategy and structure, and cognitive orientation are distinct concepts and that a geocentric managerial mind-set is not a necessary correlate of either a firm’s position on the strategic continuum or its organizational structure” (p. 496). However, he did find that geocentrism was positively associated with geographic scope which for the purposes of this paper is similar to international diversification (foreign sales/total sales, number of countries with manufacturing operations, and percent of employees abroad). (It should be noted that his main research concern was the sources of geocentrism; he wanted to find out whether or not certain strategies or structures led to certain mind sets). Thus, “geographic scope, [international] strategy and structure, and [international] cognitive orientation are distinct concepts” (p. 496). Thus, recent research suggests that the proposed relationship between mindsets as they have been hypothesized and operationalized to this point may not always hold. The attitudes and mind sets outlined by previous researchers then may not qualify under the domain of dominant which indicates that attitudes and mind sets are expressed in strategies and structures. One possible explanation for such a discrepancy is that it takes time for the effects of the dominant logic to effect strategies and structures. There also may be problems with the operationalization of the geocentric mind set. Because of the difficulties encountered in empirical tests of the aforementioned typologies and their hypotheses, I propose a broader construct – the international dominant logic. This broader construct matches TMT’s mind sets to their strategies and structures; although the matching process may take time. It is clear based on this review of the literature that managers of firms do develop specific mindset and attitudes with respect to their international operations. Further, the previously reviewed work has focused on management in general but has not appeared to upper echelon theory per se. Thus, I propose that the top management teams of firms develop and maintain dominant logics with respect to managing their internationally diversified operations. A TMTs international dominant logic is its mindset or towards its firm’s international operations. It is expressed in its way of conducting is foreign operations. It is its learned problem-solving behavior – the cognitive map by which it manages its international portfolio of operations. The firm’s international dominant logic is not necessarily evolving continually along a continuum from ethnocentric to geocentric as has been suggested previously (KOBRIN, 1994) also argues against the continuum concept); although some firms may follow such an evolution. Simply put, the international dominant logic of a top management team and its firm is its mind set towards its international operations which is also expressed in its international structure and strategy. Further, following Prahalad and Bettis (1986), the TMTs of firms may have multiple international dominant logics. For example, as was previously mentioned, Bartlett and Ghoshal (1989) identify the transnational mind set which represents elements of the other mindsets that they identify - multinational, international, and global. Managers with a transnational mindset simultaneously apply elements each of the three; in other words, they have learned and are using multiple international dominant logics to manage international operations. Top management team international dominant logic: a new linkage in the international diversification..., Douglas E. Thomas, p. 51-64 57 The international dominant logic concept deals with how top management conceives of and subsequently manages its international operations. Management of a firm may have operations in 18 different countries, spread out over 3 different regions; 12 in “developed” and 6 in “developing” countries. They may only source from some of these countries and export its product to others. In some they have wholly owned subsidiaries managed by local managers; in others their only contact is a third party who coordinates sales of the firm’s product to retailers. Management may have a dominant logic for managing in certain regions – one for its operations in Africa, another for operations in Europe. The difference for management in thinking about managing operations in the two regions may be based in cultural differences that it has learned through experience or from cognitive biases. When thinking of its goals for developed and developing countries it may use different dominant logics that it has learned over time. The separation of different dominant logics for managing the two different types of countries may be based in market characteristics, technological infrastructure, political riskiness, among other factors. Some of the country’s economies may be characterized as market-oriented and other more as centrally planned. Some of the countries in which it operates may be allies of the country in which the firm is legally incorporated (its physical, legal headquarters) and others as political enemies. Management likely has different dominant logics for managing such diversity in its international operations. A firm that is headquartered in the United States and whose foreign operations consist of exports to Canada and to England may successfully manage operations with a single dominant logic. Thus, the concept differs from the ideas developed by Perlmutter and Bartlett and Ghoshal in that they prescribe certain mindsets for management and they identify a typology of specific mindsets. For example, Bartlett and Ghoshal suggest that the transnational solution may be a universal solution that top management of all firms engaged in international business may need to adopt. The concept of the international dominant logic does not prescribe geocentrism, transnationalism, or any other specific solution for all firms. For the firm just mentioned a geocentric or transnational mind set may be inappropriate. Indeed, Perlmutter, for example, may well classify the management of this firm to be ethnocentric which according to his hypothesis would not be positively related to firm performance. Instead, the international dominant logic recognizes that firms likely have multiple international dominant logics that do not necessarily fit into a three-category typology. Sources of the international dominant logic Prahalad and Bettis (1986) suggest four sources of a firm’s international dominant logic: operant conditioning (positive reinforcement), pattern recognition process, and cognitive biases and personal experience. With respect to the international dominant logic it appears that these origins also apply. For example, top management team member international experience has been identified as an indicator of international mind set (PERLMUTTER, 1969; ATHANASSIOU, 1995). One researcher recently operationalized a top management team member’s international mindset by using the length of time he or she had spent in international experience (SAMBHARYA, 1996). International 58 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 experience, according to Sambharya (1996), represents three important issues for the firm. “First, international experience is a proxy for the reduction of uncertainty. Second, it is a surrogate for accumulating cultural knowledge. Third, international experience represents the response of firms to internationalize their TMT’s to the forces of an expanding global economy and markets.” (p. 741). International experience is likely an important source of the dominant logic of a firm’s top management team. Top management team members gain international experience in varied ways: overseas assignments, study abroad as part of higher education, living in foreign countries. Sambharya (1996) operationalized international experience as number of years spent abroad on assignment and/or higher education or spent in the international division. For the purposes of this paper, I suggest that international experience can come in varied ways. Managers develop their international mind set through direct experience but also through more indirect experience, including learning foreign languages, international travel (but not living abroad), studying international topics in college (e.g., majoring in international relations). For example, the CEO of a major corporation may not have ever lived in a foreign country; however, because of the high degree of international diversification of his or her company and frequent travel to foreign subsidiaries, he or she develops more international experience. This experience, though indirect, contributes to his or her individual international dominant logic and thus, to that of the firm. Further, there is evidence that top managers of a firm learn from the international experience of other top managers. For example, Athanassiou (1995) suggests that TMTs develop team-level international business tacit knowledge through individual members’ involvement in the firm’s overseas operations. International dominant logic: a crucial link in the international diversification – firm performance relationship Research in strategic management has also focused on the effects of international diversification strategies on firm financial performance. Most previous work has hypothesized a direct relationship between international diversification strategies and performance (GRANT, 1987; DANIELS; BRACKER, 1989; COLLINS, 1990; BUHNER, 1987). Also, as has previously been noted, the work on managerial mindsets towards firm international operations has focused on direct effects on performance. Empirical tests of the relationship between international diversification and firm performance have found mixed results (Hit et al., 1997). Positive (e.g., GRANT, 1987; DANIELS; BRACKER, 1989), negative (e.g., COLLINS, 1990) and intermediate (e.g., BUHNER, 1987) relationships have been found; other researchers (GERINGER; BEAMISH; DACOSTA, 1989; HITT et al., 1997) have found an inverted U relationship between international diversification and firm performance. The latter authors point out that as firms diversify internationally there is first a positive effect on performance but then a threshold is reached and performance begins to decline. Their findings suggest that international diversification only has positive effects up to a certain point when it actually begins to have a negative effect. Generally, it has been pointed out that as international diversification increases, so do the complexities that top managers Top management team international dominant logic: a new linkage in the international diversification..., Douglas E. Thomas, p. 51-64 59 have to manage. Coordination costs and control help explain such a relationship (HITT et al., 1997). What is important for my argument, is that how management manages the firm’s overseas operations is a key link in the relationship between its internationally diversified portfolio of operations. The idea that management plays a crucial role in the success of international operations is not new. Researchers have previously suggested that one of the most important constraints facing internationally diversified firms is the lack of international experience of managers (BARTLETT; GHOSHAL, 1992). Athanassiou (1995) argues that the degree to which individual top management team members assimilate international business knowledge tacit knowledge within the TMT will affect firm international performance. Barkema, Shenkar, Vermeulen, and Bell (1997) argue that as firms expand internationally they must “unlearn practices typical of their home countries” in order to have success in international joint ventures (p. 427). Finally, Hitt et al. (1997) note the “critical importance of the ability to manage…diversification” to firm performance (p. 793). Thus, following Prahalad and Bettis’ framework (reviewed earlier in paper) the outcome (firm performance) of firm strategy (diversification) depends on the dominant logic by which managers manage diversity. Thus, managing international diversity also depends on the TMTs international dominant logic. Prahalad and Bettis focus on the relatedness/unrelatedness or similarity/dissimilarity of the diversified businesses that the firms operates. The relatedness or similarity of international diversification can also be explored (as was previously noted in this paper). Similarity for international diversification may be in terms of culture, language, political regime, market orientation, economic development, among others. The management of a firm that’s international operations are diversified into foreign areas that are quite similar along these lines may be classified as a single international dominant logic TMT. Top management of firms that expand into dissimilar foreign areas along any of the aforementioned dimensions may need to learn an additional, new international dominant logic. Management of firms already operating in areas that are dissimilar along these lines that expand into new areas that are dissimilar to any of their firm’s own portfolio also may need to learn a new international dominant logic. Thus, as was previously suggested, TMTs of firms may have an international dominant logic for managing operations in developed countries and another for developing countries. The extension can also be to the other dimensions mentioned here. Another dimension that may affect the TMT’s international dominant logic is the mode of entry or method of operations in foreign countries. Firms enter foreign markets through exports, licensing agreements, managerial contracts, joint ventures, strategic alliances, wholly owned subsidiaries, etc. Firms may have different international dominant logics depending on the mode of entry. For example, they may manage exports with one international dominant logic and wholly owned subsidiaries with another. Further, interactions between the mode of entry dimension and the previously mentioned dimensions also may be important for managing international operations. For example, managers may use one dominant logic when managing exports to developed countries and another for managing exports to developing countries. 60 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 Thus, the international dominant logic is determining the effects of international diversification on firm performance. Managing dissimilar international diversification with a single international dominant logic may have negative effects on performance. For example, a single dominant logic firm that diversifies along dissimilar international dimensions and does not learn a new international dominant logic may not succeed (i.e., negative performance). Further insights from product diversification Hitt et al. (1997) studied the relationship between product diversification, international diversification and performance (see inserted figure; note it does not have Figure 1 – Appendix - or anything at the top it is a photocopy from Hitt et al’s paper). They found that product diversification moderates the relationship between international diversification. In other words, for highly product-diversified firms, as international diversification increases so does performance. The concept of the dominant logic and the international dominant logic may shed light on this relationship. It may be the case that performance is highest for firms that are highly diversified along international and product dimensions because their top management has developed the capability to learn to be flexible – to learn, develop, and add new dominant and international dominant logics as they expand. Higher levels of diversification along both dimensions has a positive effect on performance because the TMT recognizes the need to learn new dominant logics and also because the TMT recognizes when existing dominant and international dominant logics are appropriate for managing diversification. For example, a well known, highly diversified (product and international) firm is Proctor & Gamble (P&G). Imagine that Proctor and Gamble decides to launch one of its existing products into a new market – say Vietnam. Firm performance may be enhanced by the TMTs ability to successfully recognize whether an existing international dominant logic is appropriate for managing this expansion or whether a new one needs to be developed. P&G, by virtue of the fact that it has learned and developed multiple dominant and international dominant logic(s) may have the capability to recognize this and act accordingly. A methodological issue for future research in this area One problem with the research studying the effects of international diversification strategies (or degree of internationalization) on firm financial performance is the frequent operationalization of international diversification with foreign sales/total sales (FSTS) (SULLIVAN, 1994). This is important for the theories being proposed in this paper, because future research may test their hypotheses using a similar operationalization. Sullivan (1994) in an exhaustive review of seventeen empirical studies of international diversification and firm performance found that all had relied on some measure of foreign sales/total sales as the proxy for international diversification. Six found positive a relationship, six an intermediate, and seven a negative relationship between international diversification and performance. (HITT, et al.’s (1997) study, which was published after Sullivan’s review also used a measure of foreign sales to total sales (an entropy measure) for international diversification). Top management team international dominant logic: a new linkage in the international diversification..., Douglas E. Thomas, p. 51-64 61 Sullivan concluded that researchers’ consistency in using FSTS makes it impossible “to state with certainty that international diversification will improve the financial performance of a firm” (p.330). He proposes an index measure that includes three components of international diversification: performance, structural, and attitudinal. Performance measures include FSTS, Research and Development Intensity, Advertising Intensity, export sales/total sales, and foreign profits/total profits. He proposes two structural measures: foreign assets/total assets and number of foreign subsidiaries/total subsidiaries. The attitudinal components that he proposes are top managers’ international experience and psychic dispersion of operations (which is similar to cultural distance). Sullivan concludes that in his study he has established content validity for his measure of degree of internationalization while construct validity issues were left for future researchers. The main conclusion that can be made from this research is that foreign sales/total sales as a measure of international diversification likely is a very crude measure; this calls into question results obtained by previous studies of the international diversification – firm performance relationship2. Thus, in reality, little can be said conclusively about the relationship between the two. Any future tests of the theorized relationships included in this paper should take into account this methodological issue. Conclusion This paper contributes to the strategic management literature by (1) building on previous research in strategic management and international business to propose a new construct: the international dominant logic (2) proposing that the TMT’s international dominant logic is a crucial link in the relationship between international diversification and firm performance. More generally, this concepts explored in this paper provide a framework for better understanding the management of internationally diversified portfolio of operations. Empirical tests suggest that international diversification may or may not have positive effects on performance; thus, a better understanding of the role of the TMT in this process will help both academic and practical research. Future research on the international dominant logic should focus on developing propositions and hypotheses that can be tested. It is likely that in such tests alternative measures of the degree of international diversification (similar to those suggested by Sullivan (1994)) should be used. References ATHANASSIOU, N. The impact of internationalization on top management team characteristics: A tacit knowledge perspective; Unpublished Ph.D. dissertation The University of South Carolina, 1995. 2 Hitt, Hoskisson, and Kim (1997) note the limitation of their measure of international diversification and call for future research to utilize better measures. 62 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 BARKEMA, H.G.; SHENKAR, O.; VERMEULEN, F.; BELL, J.J. Working abroad, working with others: How firms learn to operate international joint ventures. Academy of Management Journal 40(2), 1997, p. 426-442. BARTLETT, C.A.; GHOSHAL, S. Managing across borders: The transnational solution. Boston: Harvard Business School Press, 1989. _______________. What is a global manager? Harvard Business Review 70(5), 1992. p. 124-132. BETTIS, R.A.; PRAHALAD, C.K. The dominant logic: Retrospective and extension. Strategic Management Journal 16(1), 1995. p. 5-14. BUHNER, R. 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PERLMUTTER, H.V. The tortuous evolution of the multinational corporation. Columbia Journal of World Business. 1969, p. 9-18. PRAHALAD, C.K.; BETTIS, R.A. The dominant logic: A new linkage between diversity and performance. Strategic Management Journal 7, 1986, p. 485-501. SAMBHARYA, R. B. Foreign experience of top management teams and international diversification strategies of U.S. multinational corporations. Strategic Management Journal 17, 1996, p. 739-746. SULLIVAN, D. Measuring the degree of internationalization of the firm. Journal of International Business Studies 25(2), 1994, p. 325-342. VOLKMAR, John A. Strategic response to declining international income in U.S. MNCs: The role of international experience in the top management team. Paper Presented at the annual Academy of International Business meeting, Monterrey, Mexico, 1998. Appendix – Figure 1 TMT International Dominant Logic International Performance and Overall Firm Performance International Diversification Strategy 64 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 O Balanced Scorecard como instrumento da gestão do desempenho nas organizações do terceiro setor Igor Vovchenco Cabral * Resumo: Este trabalho aborda a aplicabilidade do Balanced Scorecard nas instituições do Terceiro Setor. O Balanced Scorecard desenvolvido por Kaplan e Norton surgiu como uma ferramenta para mensurar, descrever e traduzir recursos intangíveis em real valor para a organização. A estratégia da instituição se reflete nas medidas de desempenho vinculadas entre si e demonstradas através de quatro perspectivas: financeira, cliente, processos internos, aprendizagem e crescimento. A gestão das organizações do Terceiro Setor objetivando um crescimento mais estruturado e efetivo buscam ferramentas que adaptadas às suas finalidades e especificidades contribuam para a melhoria da gestão. O objetivo do estudo é apresentar constatação teórica e prática da utilização do Balanced Scorecard na gestão do desempenho nas organizações do Terceiro Setor. Para isso foi constituído um referencial teórico sobre o Terceiro Setor, Gestão Social, Balanced Scorecard e realizado estudo de caso. Através da pesquisa realizada constata-se a viabilidade da utilização desse instrumento nas instituições do Terceiro Setor. Abstract: This work studies the applicability of the Balanced Scorecard in Third Sector institutions. The Balanced Scorecard developed by Kaplan and Norton has emerged as a tool to measure, describe and translate intangible resources into real value for the organization. The strategy of the institution is reflected in performance measures related to each other and is demonstrated through four perspectives: financial, customer, internal processes, learning and growth. The management of the Third Sector organizations, aiming at a more structured and effective growth, seeks tools to suit its purposes and specific features contributing to the improvement of management. The objective of this study is to present theoretical and practical Balanced Scorecard utilization in performance management in Third Sector organizations. A theoretical reference has been drawn from Third Sector, Social Management, Balanced Scorecard and a performed case study. Through this research it is concluded the feasibility of using this instrument in Third Sector institutions. Palavras-chave: Gestão do desempenho. Terceiro setor. Balanced Scorecard. Organização da sociedade civil. Keywords: Performance Management. Third sector. Balanced scorecard. Civil society organization. * Este artigo tem por base a monografia apresentada à FAAP-MBA Executivo, como parte dos requisitos para a aprovação no Curso MBA Executivo, sob orientação da Profa. Dra. Eloisa Helena de Souza Cabral. E-mail do autor: [email protected]. O Balanced Scorecard como instrumento da gestão do desempenho nas organizações do terceiro setor , Igor V. Cabral, p. 65-88 65 Introdução O aumento de organizações da sociedade civil com atuação na área social acirra a concorrência por contribuições, recursos financeiros ou parcerias necessárias para a sustentabilidade das ações sociais dessas instituições. A concessão de recursos financeiros por parte das fontes financiadoras tem ocorrido atualmente sob critérios mais exigentes do que no passado (FISCHER; FALCONER, 1998). Além disso, a Lei Nº 9.790 de 23/03/1999 (BRASIL, 1999) que qualifica as organizações do Terceiro Setor (TS) como Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs) define que uma das cláusulas essenciais do termo de parceria com o Estado é a previsão expressa dos critérios objetivos de avaliação de desempenho a serem utilizados, mediante indicadores de resultado. Dessa forma, é necessária a utilização de instrumentos de medição de desempenho que possibilitem aumentar a concentração na missão e geração de valor/impacto social, a responsabilidade por resultados, a prestação de contas aos seus financiadores e o alinhamento dos recursos humanos e financeiros em relação aos objetivos globais. Uma das ferramentas existentes para avaliação de desempenho e resultados é o Balanced Scorecard (BSC) desenvolvido por Robert Kaplan e David Norton. Ela permite a mensuração do desempenho organizacional, traduzindo a missão em objetivos estratégicos e indicadores de acompanhamento. Segundo os autores, mesmo tendo sido o setor privado o foco inicial do desenvolvimento do BSC, esse instrumento pode ser utilizado em instituições integrantes do Terceiro Setor (KAPLAN; NORTON, 1997). Apesar de não ter como razão essencial de existir os objetivos financeiros, o BSC das organizações do Terceiro Setor tem na sua missão o principal objetivo de esforço de medição (NIVEN, 2005). Nesse sentido, este artigo visa demonstrar a viabilidade e importância do uso do Balanced Scorecard como ferramenta de mensuração do desempenho a ser utilizada pelos executivos e gestores do Terceiro Setor. 1 O terceiro setor O termo Terceiro Setor foi utilizado pela primeira vez nos Estados Unidos na década de 1970 e pelos europeus na década de 1980, sendo que: [...] expressa uma alternativa para as desvantagens tanto do mercado, associadas à maximização do lucro, quanto do governo, com sua burocracia inoperante. Combina a flexibilidade e a eficiência do mercado com a equidade e a previsibilidade da burocracia pública (COELHO, 2000, p. 58). As organizações do TS não fazem parte do Estado, porém se dedicam a causas e problemas que estão afetas a políticas públicas e apesar de serem sociedades civis pri66 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 vadas, não tem como objetivo o lucro destinado a remunerar o capital investido e sim o atendimento das necessidades da sociedade (TENORIO, 2000). Uma tentativa de definição do setor é apresentada por Salamon e Anheier (1997), que avaliam cinco características estruturais-operacionais das organizações desse setor, quais sejam: a)Formais/Estruturadas: possuem certo nível de formalização de regras e procedimentos, ou algum grau de organização permanente. São, portanto, excluídas as organizações sociais que não apresentem uma estrutura interna formal; b)Privadas: não têm nenhuma relação institucional com governos, embora possam dele receber recursos; c) Não distribuidoras de lucros: nenhum lucro gerado pode ser distribuído entre seus proprietários ou dirigentes. Quando existente, os lucros devem ser investidos na missão da instituição; d)Autônomas: possuem os meios para controlar sua própria gestão e independência para tomada de decisão; e)Voluntárias: envolvem a participação voluntária (trabalho não remunerado). A participação de voluntários pode variar entre organizações e de acordo com a natureza da atividade por ela desenvolvida. Rodrigues (1998) também procura definir o setor, porém através da sua finalidade, dividindo-o em dois grupos: 1. Organizações constituídas para atender os interesses de seus membros: sindicatos, associações profissionais, associações de bairro, associações empresarias; 2. Organizações de interesse público e/ou coletivo: instituições de caridade, organismos de proteção ao meio-ambiente, entidades que apoiam portadores de determinadas doenças ou deficiência física etc. Fernandes define o Terceiro Setor, como sendo [...] composto de organizações sem fins lucrativos, criadas e mantidas pela ênfase na participação voluntária, num âmbito não-governamental, dando continuidade às práticas tradicionais da caridade, da filantropia e do mecenato e expandindo o seu sentido para outros domínios, graças, sobretudo, à incorporação do conceito de cidadania e de suas múltiplas manifestações na sociedade civil (FERNANDES, 1997, p. 27). O Balanced Scorecard como instrumento da gestão do desempenho nas organizações do terceiro setor , Igor V. Cabral, p. 65-88 67 Para Cabral (2008), a designação [...] Terceiro Setor engloba um conjunto de organizações privadas, baseadas no trabalho associativo e voluntário, cuja orientação é determinada por valores expressos em uma missão e com atuação voltada ao atendimento de necessidades ou reivindicações sociais. Estas organizações relacionam-se com o Estado através de uma regulamentação própria, pois respondem por iniciativas privadas em áreas nas quais o Estado atua através de políticas públicas (CABRAL, 2008, p. 1). São então organizações cujo lucro obtido é aplicado em suas próprias atividades, não sendo, portanto, destinado à apropriação privada de proprietários e acionistas, agindo sob uma lógica diferente da do capital, investindo não pelo retorno financeiro, mas pela transformação da realidade social alvo de sua ação (benefício social). Da mesma forma, não estão no governo e não se confundem com o poder do Estado mesmo que atuando em espaço público e produzindo bens públicos, uma vez que são constituídas por iniciativa própria da sociedade e com missão voltada a ações com fins públicos. 1.1 Surgimento do Terceiro Setor É após a Segunda Guerra Mundial, principalmente nos países europeus que se firma a ideia da responsabilidade do Estado na garantia de acesso ao direito universal da proteção social para os cidadãos (CABRAL, 2003). O período de 1950 até a metade dos anos 1970 é marcado pelos investimentos em programas sociais que garantissem retorno social e manutenção do bem-estar social. O Estado de Bem Estar Social (Welfare State) assume o provimento da proteção social, exercendo papel regulador na economia e na sociedade, provendo saúde, educação, segurança, assistência e seguridade social a todos, através de forte aparato burocrático centralizado. Em meados da década de 1970, contudo, esse Estado intervencionista e centralizado começou a dar sinais de esgotamento devido à crise do petróleo nos anos 1970 e a recessão dos anos 1980, requerendo do Estado redução de gastos. Surge o ideal neoliberal criticando o Estado do Bem Estar Social, questionando a intervenção pública na economia e pregando o livre mercado como condição ideal para uma economia competitiva e saudável. A crise do modelo de Welfare State pode ser destacada como uma das razões que proporcionaram o crescimento das Organizações do Terceiro Setor, já que abria espaços para movimentos e associações da sociedade civil no sentido de atender às necessidades sociais. Um dos motivos para que o crescimento do Terceiro Setor ocorra se deve à falência do Estado de Bem-Estar Social. O Welfare State, que surgiu após a II Guerra Mundial na Europa Ocidental com a finalidade de garantir condições de vida dignas a todos os seus cidadãos, sucumbiu nos anos 80 após uma crise que o impossibilitou de sustentar a sua ação social (COSTA JÚNIOR, 1998). 68 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 1.2 O Terceiro Setor no Brasil As organizações que compõem o Terceiro Setor não são novas. Do período colonial até 1930 a presença do poder público na área social era pontual e restringia-se a atendimentos emergenciais às camadas mais carentes da população. Pode-se mencionar as Santas Casas de Misericórdia portuguesas como as primeiras formas de intervenção social (filantropia e caridade). Na década de 1930 foi promulgada a lei que declarou de utilidade pública as entidades sociais (1935) e a criação do Conselho Nacional de Serviço Social (1938), que tornou as instituições sociais aptas a receberem subsídios governamentais. Mais recentemente as organizações do Terceiro setor resultantes dos movimentos sociais que emergiram contra o regime autoritário da ditadura militar entre os anos 1960 e 1980 e que tinham na terminologia – não governamental clara postura de oposição ao governo vigente, nos anos 1990 tornam-se parceiras do poder político para que o Estado, através de políticas neoliberais, exerça presença mínima (Estado mínimo) passando ao papel de regulamentador. Gohn (1997) afirma que Duas outras tendências se fortaleceram no cenário social brasileiro nos anos 90 [...]: o crescimento das ONGs e as políticas de parcerias implementadas pelo poder público [...]. Trata-se de novas orientações voltadas para a desregulamentação do papel do Estado na economia, e na sociedade como um todo, transferindo responsabilidades do Estado para as comunidades organizadas, com a intermediação das ONGs, em trabalhos de parceria entre o público estatal e o público não-estatal [...] (GOHN, 1997, p. 309-310). Neste cenário é que as organizações sem fins lucrativos ganham espaço na cena política, constituindo uma alternativa de eficácia à gestão das políticas sociais. As organizações da sociedade civil passam a assumir, em parceria com o Estado, ações sociais que possibilitam oferecer à população melhores condições de vida. Segundo Rodrigues (1999), são as seguintes as principais categorias do Terceiro Setor no Brasil: 1.Associações: baseadas em contratos estabelecidos livremente entre os indivíduos para exercerem atividades comuns ou defenderem interesses mútuos. Voltadas principalmente às necessidades dos próprios participantes, compreendendo atividades recreativas, esportivas, culturais, artísticas, comunitárias e profissionais; 2. Organizações filantrópicas, beneficentes e de caridade: voltadas para a promoção de assistência social e de serviços sociais nas áreas de saúde e educação; 3. Organizações não governamentais (ONGs): comprometida com a sociedade civil, com movimentos sociais e com a transformação social. Orientam-se para objetivos externos, não exercendo caridade; O Balanced Scorecard como instrumento da gestão do desempenho nas organizações do terceiro setor , Igor V. Cabral, p. 65-88 69 4. Fundações privadas: de conotação essencialmente jurídica. A criação de uma fundação se dá, segundo o Código Civil, pelo instituidor, que, através de uma escritura ou testamento, destina bens livres, especificando o fim a ser alcançado; 5. Organizações sociais (OS): organização pública não estatal destinada a absorver atividades nas áreas de educação, saúde, cultura, meio ambiente e pesquisa científica, constituída pelas associações civis sem fins lucrativos orientadas para o atendimento do interesse público. Segundo levantamento divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre as Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos (FASFIL), 338 mil Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos existiam oficialmente no Brasil, em 2005, representando 5,6% do total de 6 milhões de entidades públicas e privadas, lucrativas e não-lucrativas, que compunham o Cadastro Central de Empresas – CEMPRE daquele mesmo ano. Essas organizações sem fins lucrativos empregavam nesse período 1,7 milhão de pessoas, ou seja, 5,3% dos trabalhadores brasileiros (IBGE, 2005). A pesquisa também identificou que a idade média das FASFIL, em 2005, era de 12,3 anos, sendo que 41,5% delas foram criadas na década de 1990, devido ao fortalecimento da democracia e da participação da sociedade civil na vida nacional. Observa-se pela Tabela 1 que apesar do crescimento até o ano 2000, os dados de 2001 a 2005 podem sinalizar uma desaceleração no crescimento das organizações sem fins lucrativos no país. Tabela 1 - Distribuição das Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos segundo faixas de ano de fundação Ano de Fundação Quantidade % Até 1970 10.939 3,2% De 1971 a 1980 33.408 9,9% De 1981 a 1990 64.388 19,1% De 1991 a 2000 140.261 41,5% De 2001 a 2002 38.007 11,2% De 2003 a 2004 35.840 10,6% 2005 15.319 4,5% Total 338.162 100% Fonte: IBGE (2005) 1.3 Gestão do desempenho no Terceiro Setor Segundo Drücker (1989), as organizações sem fins lucrativos consideravam a gestão como algo não pertinente ao seu negócio. As mudanças no cenário econômico e mundial levaram essas organizações a considerar que as boas intenções não são substitutas para organização, liderança, responsabilidade, desempenho e resultado, resultantes da gestão e que tem início com o desenvolvimento da missão da organização. Drücker (1994) afirmou que 70 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 As instituições sem fins lucrativos existem por causa da sua missão (DRÜCKER, 1994, p. 33). Seu produto é um ser humano mudado. As instituições sem fins lucrativos são agentes de mudança humana. [...] isto é, toda uma vida transformada (DRÜCKER, 1994, p. XIX). Para o Terceiro Setor, a necessidade de explicitar a missão da organização é uma prioridade indispensável, uma vez que cabe à organização esclarecer para os financiadores e outros participantes o que está sendo feito com os recursos por eles disponibilizados. O crescimento do setor, a concorrência com demais organizações para obtenção de recursos, recrutar voluntários e contratar pessoal para gerir de forma competente a organização, as parcerias com os demais setores e a consequente maior exposição pública corroboram para a necessidade de uma gestão mais profissional, utilizando técnicas de planejamento estratégico, de gestão de recursos humanos, de controle de gestão, de planejamento e gestão de projetos. Para Cabral (2003), o controle de gestão não deve ser exclusivamente competência da gerência, mas responsabilidade de toda a organização, realizada de forma permanente, observando-se a cultura organizacional, sendo um instrumento de aperfeiçoamento dos resultados da instituição. Para Fischer et al. (2003) há uma dificuldade por parte das Organizações do Terceiro Setor (OTS) em estabelecer indicadores para mensuração dos processos, resultados e impactos dos seus projetos sociais. Dificuldade essa intensificada pela falta de experiência dessas instituições em trabalhar com indicadores e pela inexistência de ferramentas adequadas para um tipo de gestão que difere daquela praticada pelo mercado. 2 Balanced Scorecard O controle de gestão é ferramenta essencial para o desenvolvimento de qualquer organização, permitindo a análise contínua dos resultados esperados, possibilitando aos gestores conhecer a realidade da instituição. Para Gomes e Salas (1997) a estruturação do controle de gestão reside na arquitetura do sistema de informações e na determinação de indicadores de desempenho. O processo consiste na definição de objetivos e no planejamento para cada área ou unidade, na execução desse plano e na avaliação e análise dos resultados. Os objetivos devem estar ligados a indicadores que permitam a medição. Fernandes e Berton (2005, p. 181) afirmam que [...] o desenvolvimento de um sistema de medição, de forma consistente com os objetivos estratégicos, deverá contribuir de maneira decisiva para a efetiva implementação e consolidação de estratégias de melhoria do desempenho organizacional, impulsionando as necessárias mudanças, inclusive promovendo uma mudança crítica da cultura organizacional, quando for o caso. O Balanced Scorecard como instrumento da gestão do desempenho nas organizações do terceiro setor , Igor V. Cabral, p. 65-88 71 Uma das ferramentas de gestão existentes é o Balanced Scorecard. O seu desenvolvimento remonta a 1990 quando o Instituto Nolan Norton patrocinou um estudo entre diversas empresas privadas com o objetivo de desenvolver um novo modelo de medição de desempenho. Liderado por David Norton e tendo como consultor acadêmico Robert Kaplan, os participantes do estudo acreditavam que depender de medidas de desempenho baseadas em indicadores contábeis e financeiros estava prejudicando a capacidade dessas organizações de criar valor econômico para o futuro. Para Kaplan e Norton (1997), as medidas financeiras, adequadas para empresas privadas da era industrial, contam a história de acontecimentos passados, tornando-se inadequadas para orientar organizações da era da informação, que buscam gerar valor futuro investindo em clientes, fornecedores, funcionários, processos, tecnologia e inovação. As discussões levaram ao BSC organizado em quatro perspectivas distintas: financeira, do cliente, interna e de inovação e aprendizado. Para esses autores o Balanced Scorecard traduz a missão e a estratégia das empresas num conjunto abrangente de medidas de desempenho que serve de base para um sistema de medição e gestão estratégica. O BSC esclarece e traduz a missão e a estratégia; comunica e associa objetivos e medidas estratégicas; permite planejar, estabelecer metas e alinhar iniciativas estratégicas; melhora o feedback e o aprendizado estratégico, conforme Figura 1. Kaplan e Norton (2000) observam cinco princípios comuns nas organizações bem-sucedidas com a utilização do BSC na consecução do foco e do alinhamento estratégico: Princípio 1 - Traduzir a estratégia em termos operacionais: a estratégia não pode ser executada se sua compreensão não for possível, e não pode ser compreendida se não for possível descrevê-la. É importante que cada colaborador da organização compreenda as consequências das suas decisões e ações na formação dos indicadores. A descrição da estratégia através do mapa estratégico, indicadores balanceados, metas e iniciativas, fornecem um referencial para comunicar a estratégia de forma coerente, criando um ponto de referência comum e compreensível para todas as unidades do negócio e empregados. Os mapas de estratégia e os Balanced Scorecard constituem a tecnologia de mensuração utilizada pela gerência na economia baseada no conhecimento. (KAPLAN; NORTON, 2004, p. 21). Princípio 2 – Alinhar a organização com a estratégia: as organizações são compostas de vários setores, unidades de negócios e departamentos e cada um deles possuem sua estratégia particular. As instituições focadas na estratégia utilizam o BSC para extinguir esta dificuldade de integração, substituindo as estruturas formais de informação por assuntos e prioridades estratégicas, criando a sinergia necessária para a geração de valor aos stakeholders. Princípio 3 – Transformar a estratégia em tarefa de todos: qualquer organização precisa que todos os funcionários se envolvam com a estratégia e administrem suas 72 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 tarefas diárias de modo a contribuir para o seu êxito. As instituições bem sucedidas com o BSC utilizaram a ferramenta para comunicar, capacitar e esclarecer os objetivos e vincularam sistemas de incentivos e recompensas relacionando o desempenho pessoal e da equipe com a organização. Princípio 4 – Transformar a estratégia num processo contínuo: para administrar a estratégia, o BSC integra a gestão tática (orçamentos financeiros e revisões mensais) e a gestão estratégica em um processo uniforme e sucessivo. Através de reuniões de gestão e análise de resultados é possível avaliar a estratégia e adaptá-la, caso seja necessário, resguardando as iniciativas de longo prazo da pressão por um bom desempenho financeiro no curto prazo. Princípio 5 – Mobilizar a mudança através da liderança executiva: qualquer processo de implementação de estratégia exige mudanças significativas dentro da organização, e para isso, é necessário trabalho em equipe e este trabalho deve ser iniciado pelos líderes, que integram suas atividades cotidianas para definir e fortalecer os novos valores culturais da organização e exigir o rompimento da estrutura tradicional. Figura 1 - O Balanced Scorecard como estrutura para ação estratégica Esclarecendo e traduzindo a missão e estratégia • Esclarecendo a visão • Estabelecendo o consenso Comunicando e estabelecendo vinculações • Comunicando e educando • Estabelecendo metas • Vinculando recompensas a medidas de desempenho Balanced Scorecard Feedback e aprendizado estratégico • Articulando a visão compartilhada • Fornecendo feedback estratégico • Facilitando a revisão e o aprendizado estratégico Planejamento e estabelecimento de metas • Estabelecendo metas • Alinhando iniciativas • Alocando recursos • Estabelecendo marcos de referência Fonte: Kaplan e Norton (2000, p. 12). O Balanced Scorecard como instrumento da gestão do desempenho nas organizações do terceiro setor , Igor V. Cabral, p. 65-88 73 A partir da visão, missão e estratégia da organização, estabelece-se uma relação entre os objetivos estratégicos, seus indicadores (medidas), suas metas e suas iniciativas. O desenvolvimento das quatro perspectivas: financeira, do cliente, dos processos internos e perspectiva do aprendizado e crescimento, deve refletir e operacionalizar a missão e a estratégia da organização ou unidade de negócio em objetivos e medidas tangíveis em longo prazo. O Balanced Scorecard gera uma série de indicadores que servem como parâmetros para ações corretivas e preventivas. Mostra as estratégias assertivas e onde se encontram seus principais gargalos. A Figura 2 mostra a estrutura necessária para a tradução da estratégia em termos operacionais. Figura 2 - O BSC fornece a estrutura necessária para a tradução da estratégia em termos operacionais FINANCEIRA "Para sermos financeiramente bem sucedidos, como deveremos ser vistos pelos nossos acionistas?" Objetivos Medidas Metas Iniciativas CLIENTES PROCESSOS INTERNOS "Para alcançar nossa visão, como como deveríamos ser vistos pelos nossos clientes?" Objetivos Medidas Metas "Para satisfazer nossos acionistas e clientes, que processos são necessários?" Missão, Visão e Estratégia Iniciativas Objetivos Medidas Metas Iniciativas APRENDIZAGEM E CRESCIMENTO "Para alcançar nossa visão, como deveremos sustentar nossa capacidade de mudar e melhorar?" Objetivos Medidas Metas Iniciativas Fonte: Adaptado de Kaplan e Norton (1997, p. 12). 2.1 Perspectiva financeira Os principais indicadores e metas estabelecidos nessa perspectiva dizem respeito ao crescimento e mix de receita, à redução de custos e melhoria de produtividade, à utilização dos ativos e estratégia de investimento. Os objetivos financeiros servem de foco para os objetivos e medidas das outras perspectivas, em uma cadeia de relação de causa e efeito que culminam com a melhoria do desempenho financeiro. Kaplan e Norton (1997) sugerem que seja utilizada a pergunta a seguir para nortear o processo de montagem da perspectiva financeira: ”para sermos bem sucedidos financeiramente, como deveríamos ser vistos pelos nossos acionistas“? 74 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 Medidas genéricas para essa perspectiva são o retorno sobre o investimento e o valor econômico agregado. 2.2 Perspectiva do cliente Para nortear o processo de montagem da perspectiva do cliente, Kaplan e Norton (1997) sugerem a utilização da seguinte pergunta: ”para alcançarmos nossa visão, como deveríamos ser vistos pelos nossos clientes“? Os indicadores (medidas de resultados) dessa perspectiva representam metas para as operações, logística, marketing e desenvolvimento de produtos e serviços das organizações. Para Kaplan e Norton (1997), os indicadores essenciais de resultados dessa perspectiva são: • Participação de mercado: proporção de negócios em um determinado mercado; • Captação de clientes: intensidade com que novos clientes ou negócios são conquistados; • Retenção de clientes: intensidade com que uma unidade de negócios mantém relacionamentos contínuos com seus clientes; • Satisfação dos clientes: nível de satisfação dos clientes de acordo com critérios específicos de desempenho dentro da proposta de valor; • Lucratividade dos clientes: lucro líquido de cliente ou segmento, depois de deduzidas as despesas específicas para sustentar esses clientes. 2.3 Perspectiva dos processos internos A pergunta sugerida por Kaplan e Norton (1997) para nortear o processo de montagem da perspectiva dos processos internos é: ”para satisfazermos nossos acionistas e clientes, em que processo de negócios devemos alcançar a excelência”? Indicadores genéricos para esse processo são a qualidade, tempo de resposta, custo e lançamentos de novos produtos. No processo de inovação pesquisam-se as necessidades dos clientes para criação de novos produtos e serviços. Esses novos produtos e serviços são criados e oferecidos aos clientes no processo de operações. O último estágio da cadeia de valor é o serviço ao cliente após a venda ou entrega do produto ou serviço. O Balanced Scorecard como instrumento da gestão do desempenho nas organizações do terceiro setor , Igor V. Cabral, p. 65-88 75 2.4 Perspectiva do aprendizado e crescimento Quanto à perspectiva do aprendizado e crescimento, a pergunta sugerida por Kaplan e Norton (1997) é: ”para alcançarmos nossa visão, como sustentaremos nossa capacidade de mudar e melhorar“? Os objetivos estabelecidos nas demais perspectivas revelam onde a organização deve se destacar para obter um desempenho excepcional. Os objetivos dessa perspectiva identificam a infraestrutura que deve ser construída para gerar crescimento e melhoria no longo prazo, sustentando e criando condições para a realização dos objetivos das demais perspectivas. Devem ser vistos três eixos nessa perspectiva: Eixo 1. Capacidades dos funcionários: mudança e inovação estão atreladas ao conhecimento dos colaboradores que formam uma organização. O trabalhador do conhecimento, como elemento central para o contínuo processo de inovação na organização empresarial, é estimulado a participar e agregar com sua criatividade no processo decisório. Investir, gerenciar e explorar o conhecimento do colaborador passou a ser fator crítico de sucesso para as organizações (KAPLAN; NORTON, 1997). As medidas essenciais para os funcionários podem ser resumidas em: satisfação dos funcionários, retenção de funcionários e produtividade dos funcionários. Eixo 2. Capacidades dos sistemas de informação: o atual ambiente competitivo exige que os funcionários tenham informações sobre seus clientes, processos internos e as consequências financeiras de suas decisões. Eixo 3. Motivação, empowerment e alinhamento: o clima organizacional deve contribuir para motivação e iniciativa dos funcionários. Segundo Herrero Filho (2005, p. 156), ”é a perspectiva de aprendizado e crescimento que torna possível a integração dos ativos intangíveis da organização com os ativos financeiros, que, em conjunto, são as atividades criadoras de valor da empresa“. 2.5 Mapa estratégico e indicadores de desempenho O mapa estratégico, segundo Kaplan e Norton (2004) representa o elo perdido entre a formulação e a execução da estratégia. A visualização gráfica das relações de causa e efeito entre os objetivos estratégicos dispostos ao longo das quatro perspectivas fornece uma maneira simples, objetiva, uniforme e consistente de descrever a estratégia, facilitando a definição e o gerenciamento dos objetivos e indicadores, conforme Figura 3. 76 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 O Balanced Scorecard como instrumento da gestão do desempenho nas organizações do terceiro setor , Igor V. Cabral, p. 65-88 77 Qualidade Cultura Abastecimento Produção Distribuição Gerenciamento de riscos Processos de gestão operacional Preços Melhorar a estrutura de custos Fonte: Kaplan e Norton (2004, p. 11). Perspectiva de aprendizado e crescimento Perspectiva interna Perspectiva do cliente Perspectiva Financeira Liderança Seleção Conquista Retenção Crescimento Capital organizacional Capital da informação Alinhamento Identificaçnao de oportunidades Portfólio de P&D Projeto/Desenvolvimento Lançamento Processos de inovação Funcionalidade Capital humano Processos de gestão de clientes Seleção Serviços Expandir a oportunidade de receitas Valor a longo prazo para os acionistas Proposição de valor para o cliente Aumentar a utilização de ativos Disponibilidade Estratégia de produtividade Figura 3 - Mapa estratégico genérico Marca Trabalho em equipe Meio ambiente Segurança e saúde Emprego Comunidade Processos regulatórios e sociais Parceria Aumentar o valor para os clientes Estratégia de crescimento 2.6 O Balanced Scorecard no Terceiro Setor Mesmo tendo sido o foco inicial do desenvolvimento do BSC o setor privado, essa ferramenta pode ser utilizada nas organizações do TS (KAPLAN; NORTON, 1997). Apesar de não ter como razão de existir os objetivos financeiros, o Balanced Scorecard das organizações do Terceiro Setor tem na sua missão o principal objetivo de esforço de medição, seguido pelas perspectivas do cliente, processos internos, financeiros e crescimento do funcionário (NIVEN, 2005, p. 374). No Terceiro Setor, ”o desempenho precisa ser planejado e controlado, e isso começa com a missão, pois ela define os resultados pretendidos“. (CABRAL, 2003, p. 29). DRÜCKER (1989) esclarece que [...] as organizações sem fins lucrativos não estabelecem sua estratégia no dinheiro, nem fazem dele o centro dos seus planos [...] _o planejamento [...] começa com o desempenho da sua missão‘ (DRÜCKER, 1989, p. 89, tradução nossa). Kaplan (2001) destaca que para uma organização sem fins lucrativos, a missão representa a prestação de contas para a sociedade – a razão da sua existência. Sem poder mensurar o sucesso ou fracasso da sua missão, essas organizações não conseguem avaliar a continuidade, expansão ou mesmo finalização de um programa/ atividade, nem aprender com erros ou acertos, inviabilizando seu autoconhecimento e comparação com concorrentes. Dessa forma, a missão de uma organização sem fins lucrativos deve ser destacada e avaliada no nível mais alto do BSC, uma vez que os indicadores financeiros não demonstram se a organização está ou não cumprindo sua missão (KAPLAN; NORTON, 2000). A missão reflete o objetivo de longo prazo da instituição. Logo em seguida, as organizações podem inserir a perspectiva do doador e a perspectiva do beneficiário, uma vez que os doadores fornecem recursos financeiros enquanto outro grupo, os constituintes, recebe o serviço. Pode-se comparar pela Figura 4, a diferença na criação de valor e consequente mapa estratégico entre as organizações do setor privado e organizações do setor público e entidades sem fins lucrativos. Nestas, o critério de sucesso é o desempenho no cumprimento da missão, atendendo as necessidades dos clientes-alvo através do desempenho dos processos internos e apoio dos seus ativos intangíveis (aprendizado e crescimento). A perspectiva fiduciária reflete os objetivos dos contribuintes ou doadores que fornecem os recursos financeiros. 78 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 Figura 4 - Mapas estratégicos: o modelo simples de criação de valor Organizações do setor privado Organizações do setor público e entidades sem fins lucrativos ESTRATÉGIA MISSÃO Perspectiva financeira "Se formos bem-sucedidos como seremos percebidos pelos nossos acionistas?" Perspectiva do cliente "Para realizar a visão, como devemos cuidar de nossos clientes?" Perspectiva interna "Para satisfazer os clientes, em que processos devemos ser excelentes?" Perspectiva de aprendizado e crescimento "Para realizar nossa visão, como a organização deve aprender e melhorar?" Perspectiva fiduciária "Se formos bem-sucedidos, como cuidaremos dos contribuintes (ou doadores)?" Perspectiva do cliente "Para realizar a visão, como devemos cuidar de nossos clientes?" Perspectiva interna "Para satisfazer os clientes e doadores, em que processos de negócios devemos ser excelentes?" Perspectiva de aprendizado e crescimento "Para realizar nossa visão, como a organização deve aprender e melhorar?" Fonte: Kaplan e Norton (2004, p. 8). Nas organizações sem fins lucrativos, os doadores fornecem os recursos – eles pagam pelos serviços – enquanto que outro grupo recebe os serviços. Assim, as organizações definem objetivos estratégicos para os dois tipos de clientes, o que recebe o serviço (usuário ou beneficiário) e o que paga por eles (doadores, mantenedores). (SECAF, 2003, p. 2). 3 Estudo de caso: ESPRO - Ensino Social Profissionalizante A instituição analisada é o ESPRO – Associação de Ensino Social Profissionalizante, associação sem fins lucrativos fundada em 1979 por seis Rotary Clubes (São Paulo, Leste, Liberdade, Cambuci, Aclimação e República). Tem como missão promover a inclusão social de jovens por meio de ações educativas e inserção no mercado de trabalho através de duas frentes de atuação: O Balanced Scorecard como instrumento da gestão do desempenho nas organizações do terceiro setor , Igor V. Cabral, p. 65-88 79 • Capacitação Básica para o Trabalho: principal ação de inclusão social, oferece preparação técnica através de cursos gratuitos, visando a formação de jovens oriundos de famílias que recebam até três salários mínimos. Tem como objetivo capacitar jovens para participação nos processos seletivos em organizações na condição de aprendiz; • Programas de Aprendizagem: com base na Lei 10.097/00, Decreto Lei n° 5598/2005 e Portaria 1.003/2008, o ESPRO estabelece parcerias com organizações (empresas parceiras) a fim de formar jovens com idades entre 14 e 24 anos, matriculados ou concluintes em unidades da rede pública de ensino e de família cuja renda não ultrapasse a marca de três salários mínimos mensais. Capacita anualmente em torno de 12.000 jovens e conta hoje com cerca de 500 empresas parceiras em todo o Brasil. A sustentabilidade da instituição provem das parcerias em diversas regiões do país com organizações privadas e estatais através dos Contratos de Aprendizagem para capacitação de jovens nos Programas de Aprendizagem. Além da sua sede na cidade de São Paulo, possui filiais nas cidades do Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Recife, Campo Grande, Brasília, Campinas e 56 pólos regionais que atendem cidades que estão no raio de 100 quilômetros de sua localização. Sua capilaridade atual garante atendimento em mais de 900 municípios. É entidade certificada pela ISO 9001:2008 (escopo Gestão do Vínculo Empregatício dos Aprendizes que atuam na cidade de São Paulo) e NGO Benchmarking que atesta as melhores práticas em governança e padrões internacionais de gestão no Terceiro Setor. Desde sua fundação em 1979 mais de 69.000 jovens foram atendidos nas regiões onde atua. 3.1 Missão, visão e valores Em 2008, o ESPRO começou a descrever sua missão, visão e valores. Apesar de vivenciados no seu dia a dia, a descrição e alinhamento entre Conselho Diretivo e colaboradores foi o marco inicial para o delineamento da sua política da qualidade e desenvolvimento do Balanced Scorecard. 80 • Missão: Promover a inclusão social de jovens por meio de ações educativas e inserção no mercado de trabalho. • Visão: Ser uma instituição do Terceiro Setor reconhecida pela liderança, excelência, inovação e impacto social através de ações educativas. • Valores: ética, excelência, transparência e responsabilidade social. Estratégica, vol.11(01), junho.2011 3.2 O Balanced Scorecard do ESPRO Em 2009, com o apoio de uma consultoria especializada, o ESPRO envolveu seus gestores para iniciar o desenho do mapa estratégico da organização e desenvolvimento do BSC. A primeira etapa foi a análise SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunities, Threats), ou seja, análise das Forças, Fraquezas, Oportunidades, Ameaças, envolvendo os colaboradores da instituição, avaliando o ambiente externo quanto as ameaças e oportunidades, e criando consciência das forças e fraquezas (ambiente interno) da organização. A partir desse mapeamento, as perguntas que nortearam as definições dos desempenhos a serem mensurados foram: • Perspectiva dos clientes: para alcançar nossa visão, como devemos ser vistos por nossos clientes? • Perspectiva do aprendizado e crescimento: como podemos melhorar ou criar valor? • Perspectivas dos processos internos: em que temos que ser excelentes? • Perspectiva financeira: quais ações serão adotadas para manutenção da sustentabilidade? Para a definição das perspectivas do BSC do ESPRO, foram levadas em consideração as especificidades do TS. A perspectiva financeira deixa de ser utilizada como referencial para as demais perspectivas (como ocorreria em uma organização com lucro destinado á apropriação privada) estando a perspectiva do cliente no patamar. Dessa forma, os recursos financeiros obtidos através dos contratos de parcerias com as organizações privadas e estatais são utilizados para manutenção da Capacitação Básica para o Trabalho, dos Programas de Aprendizagem e operacionalização da missão através do seu quadro de colaboradores, processos e infraestrutura. O Mapa Estratégico 2009-2010 (Figura 5) possibilita uma melhor visualização dos objetivos estratégicos e das relações de causa e efeito existentes entre os objetivos das diferentes perspectivas, estando a missão da instituição dentro da perspectiva dos clientes, inter-relacionada com demais perspectivas. A disposição das perspectivas foi alinhada de forma que na base estivesse a perspectiva financeira e no topo a do cliente (jovem e empresa parceira). O Balanced Scorecard como instrumento da gestão do desempenho nas organizações do terceiro setor , Igor V. Cabral, p. 65-88 81 Fonte: ESPRO (2010). Figura 5 - Mapa estratégico ESPRO (2009-2010) A descrição dos objetivos de uma cada das quatro perspectivas do BSC: Perspectiva Financeira: • Reduzir custos da operação; • Aumentar faturamento global (aumentar faturamento de novas empresas parceiras e aumentar faturamento total em empresas parceiras). 82 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 Perspectiva do Aprendizado e Crescimento: • Desenvolver projetos de Ensino a Distância (EAD), Gestão da Marca e Impacto Social; • Fixar o DNA do ESPRO entre colaboradores, rede e parceiros; • Desenvolver projetos educacionais; • Capacitar colaboradores em gestão; • Capacitar colaboradores em processos; • Capacitar colaboradores em educação. Perspectiva dos Processos Internos: • Identificar novas demandas/necessidades do mercado; • Potencializar e/ou adequar produtos existentes; • Criar novos produtos customizados às demandas; • Processos operacionais críticos; • Avaliar desempenho dos aprendizes, empresas parceiras e rede. Perspectiva dos Clientes: • Aumentar satisfação das empresas parceiras; • Proporcionar crescimento profissional/educacional dos jovens/aprendizes; • Aumentar satisfação dos parceiros da rede; • Gerar impacto social através de ações educativas e inserção de jovens no mercado. A partir da definição do mapa estratégico, para cada uma das perspectivas, foi elaborado um painel do BSC, constando os objetivos de cada tema estratégico, indicadores de acompanhamento dos objetivos, a situação atual (métrica) desse indicador (quando existente), a meta a ser obtida dentro do prazo determinado e as iniciativas (plano de ação) necessários para alcançar o objetivo definido. Tendo como base o ano de 2009 como aprendizagem, ao final daquele ano a organização desenvolveu novo mapa estratégico, Figura 6, agora colocando no topo sua visão e missão e logo abaixo as perspectivas do BSC. O mapa estratégico do ESPRO comunica sua visão e missão e articula os objetivos e medidas (indicadores) em relação aos quais seu desempenho deve ser medido. 3.3 Indicadores de desempenho Os indicadores foram criados tendo como base os objetivos estabelecidos no planejamento estratégico da instituição elaborado em 2009. Ao todo foram estabelecidos 300 indicadores: • • • • Perspectiva Financeira: 30 indicadores Perspectiva do Aprendizado e Crescimento: 31 indicadores Perspectiva dos Processos Internos: 97 indicadores Perspectiva dos Clientes: 109 indicadores O Balanced Scorecard como instrumento da gestão do desempenho nas organizações do terceiro setor , Igor V. Cabral, p. 65-88 83 Em maio de 2010 a instituição passou a realizar acompanhamento mensal dos indicadores através de reuniões coletivas. Ao invés de encontros individuais que a gerência fazia com as áreas, a conferência do desempenho passou a ser realizada por processos, alinhando ações necessárias com todos envolvidos pelo desempenho do indicador. Dentre os indicadores estabelecidos para o objetivo estratégico ”propiciar crescimento profissional e educacional aos jovens“ e para sua missão, destacam-se: número de jovens formados na Capacitação Básica, aproveitamento das prospecções feitas pela capacitação x contratações, número de jovens capacitados em cursos de aprimoramento profissional, índice de evasão na Capacitação Básica para o Trabalho, índice de assiduidade na aprendizagem teórica, aproveitamento dos jovens vindos da capacitação básica nas contratações nas empresas parceiras, índice de evasão do programa de aprendizagem. Figura 6 - Mapa estratégico ESPRO (2010-2011) VISÃO proporcionar crescimento educacional e profissional aos jovens manter a satisfação dos jovens desenhar, implementar e melhorar processos críticos implementar sistemas de informação que atendam os processos críticos mensurar o desempenho dos jovens promover advocacy desenvolver diversificação (proj. de impacto social) desenvolver gestão da marca educar colaboradores: gestão de pessoas, processos e sistemas promover superavit aumentar o faturamento conquistando novas empresas parceiras aumentar o faturamento global aumentar o faturamento total nas empresas parceiras processos identificar novas demandas e criar produtos customizados aprendizado aumentar a satisfação das empresas parceiras financeira clientes MISSÃO Fonte: ESPRO (2010). 84 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 3.4 Análise dos dados A utilização do BSC no ESPRO auxiliou na solidificação, comunicação e esclarecimento da missão e visão da instituição, mais que isso, “possibilitou a união das ações de suas várias unidades em prol da sua missão”. A ferramenta permitiu integrar as ações da instituição, ligando a estratégia e a ação para cumprimento da sua missão. Além disso, propiciou mecanismo de mensuração de desempenho que desencadeia medidas de ajuste ou de mudança de curso de ação. Pode-se verificar no mapa estratégico da organização a relação de causa efeito entre as perspectivas e impacto em cadeia até a consecução da missão. Na base encontra-se a perspectiva financeira, necessária para manutenção das demais perspectivas que visam a execução da missão da instituição (no topo do mapa e que norteia as demais perspectivas). Na perspectiva financeira a intenção é além Na perspectiva do aprendizado e crescimento necessária nas OTS, a fim de manter o atendimento atual assim como ampliá-lo. Na perspectiva do aprendizado e crescimento, a capacitação dos colaboradores ganha destaque, tornando-se primordial para impactar de forma positiva e inovadora as demais perspectivas: processos internos e clientes. Os objetivos da perspectiva de aprendizado e crescimento oferecem a infraestrutura que possibilita a realização de objetivos ambicionados nas perspectivas a seguir. Os objetivos estabelecidos nas perspectivas processos internos e clientes revelam onde a organização deve se destacar para obter um desempenho excepcional. Dessa forma, o mapa estratégico do ESPRO vai ao encontro com Kaplan e Norton (2000) que destacam que a missão de uma organização sem fins lucrativos deve ser avaliada no nível mais alto do BSC. Também possui convergência com os autores Kaplan e Norton (2000), ao ter logo em seguida a perspectiva dos clientes (doador e beneficiário), uma vez que as empresas parceiras fornecem recursos financeiros enquanto os jovens recebem o serviço. Os resultados observados em relatório gerencial de indicadores do ESPRO (RG.01.21.02 – Monitoramento de Indicadores Consolidado) demonstram relação de causa e efeito entre os objetivos estratégicos, ou seja, o investimento em aprendizado e crescimento impacta positivamente nos indicadores da perspectiva processos internos e consequentemente na satisfação das empresas parceiras e jovens aprendizes. Nas reuniões coletivas para acompanhamento mensal dos indicadores participam os gestores da matriz e das filiais do ESPRO, possibilitando assim o alinhamento das ações em todas as unidades da organização. Cada gestor é responsável pela multiplicação da reunião e ações a sua equipe. O Balanced Scorecard como instrumento da gestão do desempenho nas organizações do terceiro setor , Igor V. Cabral, p. 65-88 85 No entanto, ainda não existe um indicador que possibilite medir o resultado social da missão após o período de aprendizagem na empresa parceira. Os indicadores atuais, de controle e acompanhamento da realização dos objetivos da organização referem-se a um controle interno, não identificando os resultados qualitativos para a sociedade. Esse indicador deve ser elaborado e perseguido pelo ESPRO para mensurar o sucesso da sua missão. Considerações Finais A ferramenta Balanced Scorecard, propicia a gestão do desempenho de forma mais fácil e precisa, contribuindo para o sucesso da organização. Além de possibilitar a análise das estratégias e do consequente cumprimento da missão, possibilita a identificação da relação de causa e efeito entre os objetivos estratégicos. Apesar das limitações de generalização decorrentes da pesquisa qualitativa exploratória, depreende-se pelo estudo de caso que a aplicação dessa ferramenta de acompanhamento de gestão do desempenho traz um benefício real para as instituições do TS, possibilitando comunicar e traduzir a missão e visão em estratégias a serem implementadas em cada unidade dessas organizações. Além disso, norteia novos voluntários ou colaboradores, que através do mapa estratégico identificam os objetivos da instituição e indicadores pelos quais são responsáveis ou avaliados. Conclui-se dessa forma que o BSC possibilita o controle e acompanhamento de resultados das OTS, sendo um desafio para as instituições do TS a definição clara e mensurável de um ou mais indicadores que avaliem o cumprimento ou não da sua missão na sociedade. Para estudos futuros indica-se a análise da correlação dos objetivos estratégicos entre as diversas perspectivas do BSC nas OTS e seu impacto sobre sua missão. Referências BRASIL. Lei Nº 9.790, de 23 de março de 1999. Dispõe sobre a qualificação de pessoas jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, como Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público, institui e disciplina o Termo de Parceria e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 24 mar. 1999. Disponível em: <http://www.in.gov.br/imprensa/visualiza/index. jsp?jornal=1&pagina=57&data=24/03/1999>. Acesso em: 17 jul. 2010. CABRAL, E. H. S. A Gestão social no Terceiro Setor e suas dualidades. Revista Administração em Diálogo, v. 2, n. 11 (2008). Disponível em: <http://revistas.pucsp.br/index.php/rad/article/view/2196>. Acesso em: 10 abr. 2010. 86 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 ______. Gestão social no Terceiro Setor: avaliação de processos e missão institucional. Oficina do Ces, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, 190, 2003. Disponível em: <http://www. ces.uc.pt/publicacoes/oficina/190/190.pdf >. Acesso em: 15 maio 2010. 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Abstract: This study focused on the understanding of the use of social networks for recruiting purposes, especially at management level. To accomplish this, an initial study of the main social networks available in the market as well as the recruiting process were the basis for formulating the research itself. The research revealed important facts on the use of social networks. During the process, 19 HR professionals, headhunters, labor lawyers and organizational psychologists were interviewed. It is important to study social networks from a scientific point of view in order to understand their full potential when using them and also to understand their relation to society. Palavras-chave: Recrutamento. Redes Sociais. Seleção. Contratação. Internet. Keywords: Recruitment. Social Network. Selection. Hiring. Internet. * Este artigo tem por base o Trabalho de Conclusão de Curso intitulado “Uso das redes sociais na contratação de profissionais em nível gerencial” apresentado ao final do 1º. semestre de 2011 na Faculdade de Administração da Fundação Armando Alvares Penteado sob a orientação do Prof. Dr. Armando Terribili Filho. Autores do TCC: Alexandre Augusto Tayer Gonçalves; Deisi Domenech; Marcus Fabricius Botelho Fernandes; Rodrigo André Valério; Silvio Tadeu Agostinho Junior e Stefano Gatti Weigand de Andrade Lima. ** Graduado em Administração de Empresas pela Faculdade de Administração da FAAP e Especialista em Marketing com Enfoque em Planejamento e Marketing Digital. E-mail: [email protected]. *** Graduada em Administração de Empresas pela Faculdade de Administração da FAAP e Empreendedora Social. E-mail: [email protected]. Utilização de redes sociais na contratação de profissionais de nível gerencial, Alexandre A. T. Gonçalves e Deisi Domenech, p. 89-98 89 Introdução Como afirma Qualman (2010), já não existe para empresas a escolha de participar ou não das redes sociais, a escolha está no quão bem irão participar. Mesmo que uma empresa se negue a ser ativa no universo social da Internet, usuários farão isso por ela, tomarão propriedade de sua marca e o controle deixará de estar nas mãos da empresa. Organizações inteligentes e bem sucedidas enxergam no universo das redes sociais um conjunto de excelentes oportunidades a serem trabalhadas. Sabem que devem se manter em contato com todos os usuários que de alguma maneira lhe procuram. Seja para fazer negócios, para defender a bandeira e valores da marca, para indicar os serviços a alguém ou até para reclamar e apontar defeitos, usuários estão ativamente movimentando um conjunto de recursos tangíveis e intangíveis relacionado às empresas, e devem, portanto, ser atendidos. A atualização constante dos dados online é outro fator chave a ser destacado sobre este universo. Centrais de Call Center não precisam mais telefonar continuamente para pessoas cadastradas em seu banco de dados para atualizar os contatos, pois as próprias pessoas alteram suas informações diretamente em suas redes sociais. Usuários querem ser encontrados, buscam fazer parte de algo maior e deixam seus canais abertos para conviver neste universo dinâmico. Nesta era da informação e globalização, se torna também dinâmico o plano de carreira do profissional. As novas gerações, como aponta Terribili Filho (2011), têm menos comprometimento com empresas que não lhe oferecem bons horizontes de crescimento tanto dentro como fora do plano monetário. Empresas, por sua vez, têm a difícil tarefa de reter e atrair estes talentos, não podendo comprometer sua produtividade com profissionais mal contratados e nem investir demais em treinamento, gerando mão de obra especializada para uma concorrência cada vez mais feroz. A relação da empresa com seus colaboradores e sua rede de candidatos a eventuais vagas abertas passa por uma fase turbulenta. O trabalho do profissional de Recursos Humanos é transformado por mudanças comportamentais da nova sociedade. Profissionais concorrem em nível global por uma mesma vaga e o tempo para consolidarem suas especialidades é curtíssimo. O mercado, por sua vez, já está reprimindo o mau comportamento nas redes sociais, segundo Dreher (2011), um levantamento feito pela empresa Proofpoint em 2010 indicou que 7% das empresas já demitiram por causa do mau uso das redes e 20% advertiram seus colaboradores. Este quadro complexo do universo das redes sociais e de sua influência na sociedade gera questões a serem discutidas tanto para profissionais quanto para empresas: é vantajoso o uso de redes sociais para fins de contratação? Existem riscos e medidas que devem ser adotadas no processo? Quem sai ganhando e perdendo com isso no mercado de recursos humanos? Existem aspectos legais e éticos a serem considerados? Existem limites de privacidade a serem respeitados? 90 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 Este artigo é baseado em um Trabalho de Conclusão de Curso de graduação que teve por objetivo responder a estas questões pertinentes a utilização das redes sociais, assim como, despertar e instigar aos demais pesquisadores e profissionais sobre formas inteligentes e produtivas de utilização no amplo e, aparentemente, “infinito” campo das redes sociais. 1 Metodologia A metodologia utilizada foi constituída por várias etapas, as quais foram organizadas de um modo lógico, sequencial e dinâmico para garantir a qualidade na coleta de informações em campo. No início, houve uma fase exploratória, caracterizada pelo aprofundamento de conceitos e referenciais teóricos. Em sequencia, foi adotado o método de Pesquisa Explicativa com base nos guias de Hernández Sampieri, Collado e Lucio (2006). Segundos os autores (2006, p. 107), os estudos explicativos “vão além da descrição de conceitos ou fenômenos ou do estabelecimento de relações entre conceitos, estão destinados a responder as causas dos acontecimentos, fatos, fenômenos físicos ou sociais“. Portanto, a metodologia adotada foi ao encontro do objetivo proposto na busca para entender o crescimento da utilização das redes sociais como forma alternativa para a contratação de pessoal, inclusive em altos escalões, assim como, se há e como estas variáveis se relacionam. Para tratar de assuntos relativos à contratação de pessoal em um ambiente repleto de novas ferramentas virtuais e tecnológicas, foi necessário realizar uma sondagem de opiniões de especialistas no assunto. Assim, o enfoque dominante do processo de pesquisa foi do tipo qualitativo, e a delimitação da amostra foi direcionado a “Amostra de Especialistas”, seguindo as mesmas metodologias adotadas pelos autores Hernández Sampieri, Collado e Lucio (2006, p. 272). Após o desenvolvimento e organização para a geração de ideias, o qual se transformou na formulação do problema de pesquisa, foram realizados roteiros de entrevista com enfoque de “Entrevista Estruturada”. Segundo, Marconi e Lakatos (20063) tal enfoque se caracteriza pela possibilidade de o entrevistador seguir um roteiro previamente estabelecido, o qual é efetuado com pessoas selecionadas de acordo com um plano. Foram elaborados três diferentes roteiros de entrevistas, um foi direcionado aos Gerentes/Diretores de Recursos Humanos e Headhunter (recrutadores terceirizados) e os outros dois roteiros direcionados aos Advogados Trabalhistas e Psicólogos Organizacionais. O objetivo foi cobrir um espectro mais aberto da questão levantada como tema, coletando assim, informações relevantes sobre aspectos legais, éticos, psicológicos, de mecânica do processo de recrutamento e seleção, e da atuação das empresas e profissionais nas redes. No total foram entrevistados 19 profissionais de grandes empresas ou de grande atuação no mercado, com 7 a 14 anos de experiência. Vale destacar, que foi determinado manter o caráter confidencial das informações pessoais obtidas sobre os entrevistados, tais como nome do profissional e empresa. Na Figura 1, é detalhado o total da Utilização de redes sociais na contratação de profissionais de nível gerencial, Alexandre A. T. Gonçalves e Deisi Domenech, p. 89-98 91 amostra de especialistas por área de atuação, tendo como prioridade os profissionais da área de Recursos Humanos (Gerentes e Headhunters). O processo de realização das entrevistas foi dinâmico, no qual o entrevistador seguiu um roteiro pré-determinado para criar com o respondente um ambiente propício para que o máximo de informações fossem reveladas. Figura 1 – Quantitativo de participantes especialistas por área Psicólogos Organizacionais 3 Advogados Trabalhistas 3 Headhunters 5 Gerentes e/ou Diretores de Recursos Humanos 8 Fonte: Autores deste artigo. Durante a análise dos dados, para manter a qualidade, foi importante a organização e classificação do material coletado ordenado em critérios, como por exemplo: cronologicamente; por unidade de análise e perfil de indivíduos participantes; e por tema tratado. Ao fim da tarefa analítica, foram destacados quatro pontos-chave na coleta de informações: utilização de redes sociais; ética e confidencialidade; comportamento e produtividade; e contratação. Estes destaques se tornaram a premissa para todo o desenvolvimento e conclusão sobre a utilização das redes sociais em contratação de nível gerencial. Vale citar, que o termo “nível gerencial” utilizado na pesquisa compreende qualquer posição que tenha outra subordinada a si e com responsabilidade significativa. 2 Redes Sociais As redes sociais estão evoluindo para serem centralizadoras de qualquer necessidade de uma pessoa navegando na Internet. Segundo o Kantar Group/TNS (2010), “o que começou como uma plataforma conectada a sua lista de amigos para envio e recebimento de mensagens se tornou um agregador de serviços: a parada única para qualquer necessidade de serviços online” . Hoje, a tecnologia de redes sociais converge com outras tecnologias e a rede se torna uma plataforma para uma gama muito grande de aplicativos diferentes: jogos, calendários, GPS, entre muitos outros. As redes, portanto, são classificadas por sua funcionalidade principal, dentre as de maior relevância no mercado: o YouTube é uma rede para transmissão de vídeo; o Twit92 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 ter para “micro-notícias” (micro-blogging); o Facebook para relacionamento pessoal e o Linkedin para relacionamento profissional. Na Figura 2, é possível observar um comparativo entre as principais redes sociais e suas instigantes peculiaridades. Um dos aspectos mais relevantes sobre as redes sociais é que seus usuários recebem informações de canais escolhidos por eles. Isto acontece, porque um usuário está conectado com outro usuário diretamente, e esta conexão foi aceita por ambos. Desta maneira, usuários, através das redes, filtram as informações de seu interesse por selecionar suas conexões. Na rede Linkedin, por exemplo, usuários podem “seguir” empresas que lhe interessam, recebendo notícias e atualizações diretas destas empresas. Este contato direto também é interessante pois o valor de informações trocadas é maior, já que vem direto de sua fonte. Figura 2 – Comparativo entre redes sociais rede TIPO VALOR NÚMEROS RELEVANTES PERFIL Vídeo Conteúdo Real 36 horas de vídeo por minuto Amador e Profissional Mural Integração 600 milhões de usuários Pessoal Microblog Notícias 25 bilhões de postagens em 2010 Pessoal e Profissional Mural Integração 23 milhões de usuários no Brasil Pessoal Multimídia Personalização 300 mil bandas/músicos Pessoal e Profissional Mural Comprometimento Fortune 500 - Executivos de todas as empresas são membros Profissional Fonte: Adaptada de Melaragno (2009). 3 Resultados da pesquisa 3.1 Quanto à utilização de Redes Sociais A utilização das redes é um fator unânime entre os 19 respondentes. Seja para uso profissional ou pessoal, todos os entrevistados fazem uso delas. Do lado profissional, fazem uso para diversos fins, sendo um deles a contratação. Alguns dos respondentes destacaram o uso para prospecção de clientes, divulgação da empresa, e inclusive a busca por parcerias de negócios. Estas parcerias se estendem ao ponto de serem chamadas de intercâmbio comercial, e vão muito além da troca de contatos. Muitas são buscadas internacionalmente. Utilização de redes sociais na contratação de profissionais de nível gerencial, Alexandre A. T. Gonçalves e Deisi Domenech, p. 89-98 93 Alguns respondentes, contudo, se apresentaram mais cautelosos, afirmando que o uso deve ser restrito a ser inteligente e produtivo ou para assuntos específicos pertinentes às atividades da empresa, que requerem o uso das redes sociais virtuais. A maioria dos respondentes afirmou que o uso é liberado para os colaboradores de sua empresa, e inclusive incentivado. Nenhum dos respondentes tem conhecimento sobre o uso feito por parte dos concorrentes. Neste ponto, as respostas foram objetivas, na maioria dos casos, um simples “não”. 3.2 Quanto à Ética e Confidencialidade Os três profissionais da área de Direito que foram entrevistados, abordaram a questão com o “bom senso” entre indivíduos como elemento mais importante, quando o aspecto legal não oferece regras claras e específicas sobre os limites quanto ao uso e investigação das redes sociais. Não é proibido colher informações sobre um candidato através das redes sociais. O artigo 5o da Constituição Federal de 1988 destaca a proibição quanto a violar a privacidade de correspondências, telefone e telégrafo, mas nada que se refira as redes sociais. 3.3 Quanto ao Comportamento e Produtividade Os três entrevistados da área de Psicologia comentaram que é impossível traçar um perfil de personalidade e comportamento profissional apenas observando o uso das redes sociais por uma pessoa. Para criar um perfil de personalidade são necessárias técnicas específicas. O que seria possível é ter uma indicação da atuação ou comportamento de uma pessoa. Observando a ligação do indivíduo com a respectiva família e amigos é possível ter uma ideia de sua sociabilidade profissional. Observar também menções referentes ao trabalho é importante, uma pessoa que tem o hábito de reclamar constantemente, por exemplo, pode ser uma pessoa que tem dificuldades de se engajar positivamente com a empresa em que trabalha. Alguém que fala repetidas vezes sobre seu trabalho ou se vangloria de suas tarefas constantemente, e inclusive por isso passa mais do que o tempo necessário trabalhando, por outro lado, pode ser afetada mais tardiamente por não ter seus momentos pessoais satisfeitos, e isto afetar sua produtividade profissional. O que se deve observar? De acordo com os entrevistados, a frequência do uso, que pode afetar sua produtividade. A sua exposição em imagens, especialmente quando ligada ao uso exagerado de álcool ou até de drogas. Erros graves de escrita. Conteúdo de suas postagens, que podem ser agressivas, ou geradoras constantes de polêmicas, indicando um potencial criador de problemas. Perceber se a pessoa é verdadeira. Uma pessoa que transparece falsidade, não interessa. 94 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 3.4 Quanto à Contratação O uso das redes para a contratação foi confirmado de forma unânime entre os respondentes. Alguns destacaram que preferem usar a rede de contatos particulares, seu network pessoal, mas mesmo estes afirmaram que fazem uso de redes sociais para conhecer maiores detalhes sobre seus candidatos em certos casos. A principal rede usada para fins de contratação é o LinkedIN, seguida do Twitter e Facebook. O uso do LinkedIN se justifica por ser uma rede criada para o uso profissional. Alguns respondentes reforçaram este aspecto defendendo que usuários devem estabelecer perfis diferenciados para cada rede e que o contexto muda de uma rede para outra. O Facebook foi mencionado como uma boa rede para conhecer o lado pessoal de candidatos. A frequência de contratações tendo o suporte das redes sociais é muito alta entre os respondentes. Apenas um caso apresentou uma taxa de 20% de contratações feitas diretamente por redes sociais. Os demais não deram números específicos, mas deixaram claro que sempre fazem o uso, mesmo em casos de investigações de candidato. O conteúdo que os recrutadores buscam sobre candidatos é principalmente o específico, ou seja, o que já é normal estar contido no currículo. A confirmação da veracidade de informações expostas por candidatos em currículo ou entrevista é também parte desta busca. Outro elemento destacado foi o número de contatos de um candidato na rede, um candidato com um grande número de contatos pode acrescentar valor para a empresa. Um dos cinco headhunters entrevistados, afirmou que seus clientes, muitas vezes, querem que seja feito o trabalho de investigação, que o headhunter atue como um verdadeiro detetive. Um dos aspectos chave foi a questão da indicação ou referencial de um candidato. Candidatos para cargos de nível gerencial normalmente são encontrados através de indicações. Mesmo após serem identificados, a questão das referências de cada candidato é fator relevante de análise. Um risco apontado no uso das redes foi o de obter informações falsas. Quem pesquisa sobre uma pessoa deve apurar seus resultados e validar a veracidade das informações disponibilizadas nas redes. Quanto à medição dos resultados obtidos com o uso das redes para contratação, apenas um dos respondentes utiliza um índice estatístico. Um segundo caso destaca o acompanhamento em números reais, sem um índice de correlação. A grande maioria não faz uso de métrica alguma. Utilização de redes sociais na contratação de profissionais de nível gerencial, Alexandre A. T. Gonçalves e Deisi Domenech, p. 89-98 95 Considerações Finais Evidencia-se a predominância quanto ao uso de redes sociais pelos entrevistados. Facebook e LinkedIn foram apontados como os mais utilizados, e em destaque o LinkedIn apresentou uniformidade quanto a seu uso perante os headhunters, como pode ser observado em maiores detalhes na Figura 3. Figura 3 – Utilização das redes sociais pelos respondentes Respondente 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 Área Psicologia Direito Recursos Humanos Facebook x x x x x Orkut x LinkedIn Twitter Demais x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x x Headhunter x Totais % uso 13 68% 5 26% x x x x x 12 63% x x x x 8 42% x 3 16% Fonte: Autores deste artigo. Mesmo diante de todas as evidências indicando o uso das redes sociais como pré-requisito, e não mais como um diferencial, empresas ainda lidam com esta atividade de maneira experimental e de certa forma insegura. Observa-se isto quando os dados coletados revelam que poucas empresas acompanham o uso por parte da concorrência e que apenas uma, citada nas entrevistas, tem um índice estatístico para fundamentar sua atuação. É importante que se crie a demanda por uma especialização nesta atividade por parte dos profissionais, assim como, promover a inovação e ser “evangelizadores” do uso como forma de ligação direta entre profissionais e empresas, mudando a cultura vigente. Tendo isto em vista, observa-se o ânimo nos respondentes ao mencionarem aspectos como a interatividade com seus candidatos via Internet; a oportunidade de fazer uma pré-seleção como apoio ao processo de contratação; o uso da rede como ferramenta de CRM (Customer Relationship Management), mantendo o contato vivo entre as partes e os casos de intercâmbio comercial. 96 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 A criação de aplicativos pelos recrutadores pode ser uma estratégia criativa e inovadora. Pode-se criar um aplicativo onde os candidatos entrem em um pequeno jogo de decisões, e que com uma simples resposta por dia, dentro de suas redes sociais, tomem decisões sobre um processo interno fictício criado para o jogo. Estas respostas levarão os candidatos a passarem por uma seleção natural, e na fase final a empresa entra e atua diretamente com os finalistas. Neste exemplo, a companhia não teria “reinventado a roda”, pelo contrário, teria aproveitado que seus candidatos estão diariamente nas redes e, assim como respondem a comentários de seus amigos, responderiam aos questionamentos deste jogo com um simples click por dia. Outra sugestão é a criação de um índice para o monitoramento dos resultados de ações na Internet voltadas à contratação. É importante que o uso seja otimizado para que o mercado profissional de contratação online não fique preso exclusivamente a ferramentas que cobram uma taxa de serviço de candidatos e de empresas, como por exemplo, a Catho (2011). Existem na Internet algumas ferramentas que realizam o acompanhamento da performance de marcas atuantes em redes sociais, como é o caso do IndexSocial (2011), que utiliza a mesma lógica das bolsas de valores. A criação de um índice para contratação talvez não seja tão simples quanto o IndexSocial, pois avaliaria um número maior de variáveis. Sua utilização, por outro lado, também seria muito maior. Portanto, tendo ao alcance um índice que guia a atuação, empresas podem fazer o trabalho de recrutamento por si mesmas, ou no mínimo ter mais controle do que estão fazendo e dos resultados de empresas terceirizadas que estão contratando. Pode-se afirmar que se está no caminho certo, rumo à eficácia no uso das redes sociais para identificação e contratação de profissionais para o alto escalão das organizações, mas ainda há a necessidade de quebra de paradigma para que a tecnologia seja aproveitada em todo seu potencial. Portanto, é preciso racionalizar o planejamento e análise de resultados no uso das redes, para que sejam utilizadas e aproveitadas de forma eficaz pela sociedade atual e pelas novas gerações. Referências CATHO. Disponível em: <http://www.catho.com.br/>. Acesso em: 26 mar. 2011. DREHER, Felipe. Regras de conduta. Information week. Fevereiro de 2011, p. 53. 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A escrita deve ser acessível ao público em geral. 2) Formato dos Originais Os textos devem ser submetidos no formato de arquivo eletrônico, enviados por e-mail, no programa Word, em Fonte Arial, tamanho 10. Considerando os gráficos e tabelas, cada artigo deve conter de 8 a 25 páginas, tamanho A4, com espaço 1,5 entre linhas. As tabelas e gráficos não preparados originalmente pelo autor e retirados de outras fontes não poderão ser colocados no artigo no formato de figuras, necessitando ser refeitos, e sempre escritos no mesmo idioma do texto em que estão inseridos. 3) Remessa de Originais Para o e-mail [email protected]. Além do arquivo em Word deverão ser encaminhados os demais arquivos contendo gráficos e tabelas, a fim de facilitar a edição do artigo. 4) Avaliação de Originais Os artigos serão submetidos aos pareceristas do Conselho Editorial, cujos nomes não serão informados aos autores. 5) Exemplares para os autores Os autores recebem 3 (três) exemplares da revista. 99 6) Assinaturas Informações sobre assinatura ou permuta da revista poderão ser obtidas pelo e-mail [email protected] 7) Cabeçalho do Artigo Título do artigo (fonte Arial, tamanho 20, negrito). Nome do autor (fonte Arial, tamanho 12, negrito). Indicar um breve currículo (até 6 linhas) indicando a titulação acadêmica, a ocupação atual e o e-mail para contato no rodapé da primeira página. Utilizar fonte Arial, tamanho 8. Cidade, UF, data completa (dia, mês e ano). 8) Resumo Preferencialmente em uma única frase, apresentar o tema e o contexto em que o tema se encontra. Escrever sobre: • O que foi a pesquisa, o problema, as hipóteses, os objetivos. • Descrição do método adotado, ou seja, onde os dados foram coletados (local específico) e como (que instrumento foi utilizado para coletar os dados), quem são os dados (classe de pessoas) ou o que (classe de objetos, fenômenos naturais, conceitos extraídos de textos) e o tamanho da amostra em números ou percentuais, e informar o referencial teórico que norteou a análise dos dados. • Resultados encontrados. • Conclusão da pesquisa. Palavras-chave: apresentar de 3 a 5 palavras, separadas por “.” (ponto). Formatação: sem margem, com fonte Arial, tamanho 10 e espaçamento simples. 9) Abstract Tradução do resumo para o inglês, inclusive com as palavras-chave. 100 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 10) Introdução Apresentar a pesquisa, contemplando os seguintes aspectos: a) Explicar por que foi escolhido o tema e apresentá-lo em determinado contexto (época, lugar) onde está inserido. b) Descrever o problema da pesquisa. c) Apresentar o(s) objetivo(s) que se espera atingir por meio da realização da pesquisa. d) Apresentar a(s) hipótese(s) que será(ão) confrontada(s) com os dados colhidos pela pesquisa. e) Fazer citações de trabalhos realizados por outros autores (conceitos, dados estatísticos gerados por outros pesquisadores, teorias). Tais citações devem ter conexão com o tema da pesquisa. 11) Desenvolvimento Criar subtítulos do tipo: método adotado (descrever o método que foi adotado par atingir o objetivo da pesquisa). Informar em que região geográfica foi realizada a pesquisa, no caso de pesquisa de campo. Para uma pesquisa puramente bibliográfica, deve ser informado o que foi feito, a fim de elucidar questões que diversos teóricos tenham pensado sobre o tema. Descrever o período de tempo dedicado à coleta de dados e apresentar a amostra (participantes) que selecionou. Apresentar os dados que coletou, lembrando que um conceito expresso por algum teórico ou um pensamento colhido durante uma entrevista, são dados. Informar qual foi “a referência teórica” adotada para realizar a análise dos dados. Elaborar um debate entre uma amostra de pensamentos produzidos por teóricos (revisão de literatura, de onde retirou citações e os dados que colheu em determinada realidade). Uma pesquisa puramente bibliográfica indica que os dados são “conceitos” colhidos na literatura que serão igualmente comparados, de acordo com “o problema” da investigação. 101 12) Conclusão Apresentar as descobertas de maneira lógica (ou seja, isso é consequência daquilo; isso causou aquilo), com vocabulário claro e conciso. Deve estar fundamentada nos resultados e na discussão anteriormente abordadas. Oferecer respostas sobre o problema investigado; informar se cada objetivo foi alcançado; se elaborou hipóteses, informar quais foram confirmadas e quais foram infirmadas (negativadas). Convém informar sobre as limitações encontradas e com as quais não foi possível lidar, entretanto, poderiam ser exploradas por outros pesquisadores, por outros trabalhos. Nenhuma citação de outros autores deve ser feita na fase de conclusão. A conclusão é do autor da pesquisa. 13) Referências Devem aparecer pelo sobrenome do autor em ordem alfabética, seguido do restante do nome e não devem ser numeradas. Devem obedecer as normas da ABNT. Todas as Referências citadas no texto devem constar ao final, na seção Referências. O título das obras usadas como Referências (das quais foram extraídas as citações) devem estar destacadas em negrito. 14) Apêndices / Anexos Devem vir ao final do trabalho. Vale salientar que os apêndices e os anexos, ao serem inseridos, não são contados como páginas. AVISO IMPORTANTE A responsabilidade dos artigos publicados é dos autores, não expressando qualquer opinião ou posicionamento da revista. 102 Estratégica, vol.11(01), junho.2011 103 104 Estratégica, vol.11(01), junho.2011