TRABALHO E ESTÉTICA
Manoel Pereira Lima Junior (Departamento de Filosofia da Universidade Federal da Bahia)
Orientador: Prof. Dr. Edvaldo Souza Couto - Departamento de Filosofia, professor pesquisador (UFBA)
Resumo: O presente artigo tem por objetivo analisar a relação entre trabalho e estética,
tentando demonstrar que o desenvolvimento da estética é uma conseqüência direta do
desenvolvimento dos meios de produção. E que, portanto, um estudo sobre a estética deve levar
em conta o modelo de produção em vigor. Contudo, a dimensão estética (nesse contexto) surge
como uma abertura criativa, pois, a partir dela o homem pode engendrar novos modelos de
representação e de interpretação do mundo, isto é, de transformação social.
Palavras-chave: Trabalho, Estética, Meios de produção.
É
bem provável que todos já estejam cansados de ler e de ouvir falar que foi
Baumgarten, por volta de 1750 (com a publicação do livro Aesthetica), quem criou a
disciplina filosófica estética. Entretanto, no presente artigo, busca-se escapar da definição
dada por Baumgarten. O intuito, aqui, é mais na perspectiva de uma estética dos
sentidos, da sensibilidade do que de uma teoria da arte e do belo – sem, contudo,
desprezar ou abrir mão completamente da teoria da arte. Contudo, a partir dessa
perspectiva desejamos fazer uma crítica da estética e do seu modelo de produção dentro
da sociedade capitalista.
Assim sendo, evocar-se-á o conceito de estética como enriquecimento e manifestação
dos sentidos humanos. Mas tal enriquecimento e manifestação dos sentidos como uma
conseqüência direta dos meios de produção1 e de criação vigentes na sociedade. Deste
modo, ao mesmo tempo em que o homem desenvolve suas forças criativas e produtivas,
igualmente, refina os seus sentidos humanos, pois, o trabalho é o processo de libertação
do homem da natureza imediata e de humanização do natural, isto é, criação da cultura.
Não obstante, a redução dos produtos humanos (e até mesmo do homem) à condição de
mercadoria – de meio para um fim (econômico) –, no modo de produção capitalista, faz
precisamente o contrário: gera a perda da sensibilidade, a degenerescência do estético.
Esta é a grande contradição da sociedade capitalista: o desenvolvimento da
potencialidade do gozo humano pela produção dos produtos2 e o castramento do homem
1
É importante ter em conta que os sentido do homem não são dados, mas construídos (refinados e
aperfeiçoados se quiser). Portanto, o desenvolvimento da sensibilidade e da percepção passa pelo
desenvolvimento dos meios de trabalho de cada sociedade.
2
Existe uma diferença fundamental entre produto do trabalho para o uso (valor de uso) e a mercadoria (valor
de troca – feita para ser comercializada).
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pela mercantilização do direito ao gozo, ou seja, os objetos de desejo estão ali, mas para
serem usufruídos devem passar pela intermediação do dinheiro. Aqui, o problema
proposto vem à tona, uma vez que os objetos de arte não são produzidos para o prazer
sensitivo e sim com o objetivo do lucro. Por isso, na sociedade contemporânea, os
músicos, os artistas plásticos, atores e atrizes, dançarinos, poetas, etc., tornam-se
produtos e entram na esfera da circulação. Entretanto, enquanto mercadorias geram
riqueza para os empresários do ramo, mas nem sempre enriquecem os artistas.
Ademais, a arte moderna é produzida (mesmo pelo artista) para ser comercializada.
Por tudo isso, suspeitamos que, na contemporaneidade, a despeito de toda a produção
artístico-cultural, o estético surge como anestésico – anaesthesis –, quer dizer, como
torpor, perda da sensibilidade, como atrofia do olhar, do tocar, do ouvir, etc. Por
conseguinte, a sociedade capitalista é uma sociedade de sujeitos anestesiados3. Mais do
que isso, o anestésico surge como necessidade produzida socialmente. Assim, a estética
passa a desempenhar um importante papel na cena político-econômica. De que forma?!
Vejamos se conseguiremos dar uma resposta satisfatória: tudo passa a ser estético no
tempo presente. Só que de forma negativa. O corpo sai do ocultamento repressivo para a
exploração comercial4 (promessa de prazer). Assim, a medida do prazer será quanto
prazer pode-se comprar, ou seja, o corpo é livre desde que o indivíduo pague com o seu
trabalho e, desta forma, ele que produz tudo, precisa pagar se quiser consumir. Mas a
grande novidade, neste tempo, é que o prazer é o consumo e o consumo é o prazer.
Deve-se consumir para ser moderno: seja álcool, sexo, música, teatro, religião, cinema,
esporte, etc. Em outras palavras, o prazer é espectral, quer dizer, não está nas coisas,
mas no dinheiro – o sujeito sonha com o dinheiro, em ganhar muito dinheiro, assim,
compraria o mundo todo, mas não pensa em fabricar os objetos, em aprender a cantar,
tocar, pintar, dançar. É o que Marx em O capital chamava de fetichismo.
3
É importante distinguir o sujeito anestesiado do sujeito alienado, pois a concepção de alienação dada pela
tradição marxista é de uma falsa consciência, enquanto o conceito de anestesia ou torpor diz respeito
diretamente ao corpo, aos sentidos atrofiados, diminuídos ou alterados artificialmente.
4
Se em outros tempos o corpo era tido como um cárcere para a alma, hoje, ele é tido como o paraíso da
alma. Com a revolução industrial, a força de trabalho feminino passou a ser fundamental para o capitalismo,
pois, custava mais barato. Contudo, as mulheres para trabalhar no regime de indústria não poderiam parir,
visto que isso seria um grande empecilho para a produção. Eis que surgem os métodos contraceptivos
(Camisinha, pílula, etc.) – liberdade da mulher! Mas isso não deveria sair de graça: quem não quisesse
engravidar que comprasse (com o próprio salário) o seu anticoncepcional. O fato está consumado. As
mulheres só engravidam se quiserem, compram anticoncepcionais (circulação de dinheiro) e de brinde
podem transar com quem quiser, ou seja, o corpo está liberado, desde que se pague pelo seu consumo
(desde o local onde se desfruta o corpo até os tratamentos estéticos – as maquiagens).
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Todavia, todo esse prazer aparentemente vendável e revestido de uma suposta
liberdade, é constitutivo do falseamento, da desfaçatez da sociedade de consumo. Neste
modelo de sociedade, o sujeito não tem direito de escolha, ele só pode ser consumidor.
O mundo é um imenso supermercado onde o prazer está à mão nas prateleiras. Tal
situação, no entanto, é desesperadora, pois, o trabalhador (aquele que fabrica os objetos)
não ganha o suficiente para satisfazer o seu desejo de consumo, que é ilimitado e
artificial. Isso põe em relevância a dimensão estética do homem, visto que para suprir os
seus prazeres frustrados ele procura outras formas de prazer que o mantenham vivo, tais
como: a bebida, a igreja, o carnaval, a partida de futebol, a novela etc. Mas é preciso
analisar esse fato de maneira dialética, uma vez que se, de um lado, tal comportamento
demonstra um empobrecimento da sensibilidade humana – que fica viciada, limitada e
pouco criativa –, de outro, demonstra a liberdade criativa e a potência do sentido estético,
pois a estética tem essa característica de trazer o homem de volta às coisas por um
caminho diferente daquele escolhido por Husserl e Heidegger. A estética coincide com a
liberdade do fazer. E o fazer do homem estético coloca-o em contato imediato com as
coisas e abre-lhe um campo infinito a partir da criação estética.
É justamente pela natureza livre da estética que a arte entra em contradição com o
modelo capitalista, de modo que o fazer artístico (originariamente estético) implica uma
mudança do modo de produção. É preciso que o fazer humano desemboque num mundo
humanizado e concreto e não que ele redunde em entidades fantasmagóricas que sugam
a energia vital do homem. Portanto:
(...) o sujeito só pode contemplar, transformar e gozar humanamente o
5
objeto na medida em que não se deixa absorver ou escravizar por êle.
Mas a humanização dos sentidos é correlativa da humanização do
objeto. Os sentidos humanos se afirmam como tais mediante sua relação
com os objetos humanos ou humanizados correspondentes... Há uma
correlação entre o caráter humano do sentido e o sentido humano do
objeto (Sanches Vázquez, 1978, p. 84).
Aqui, Sanches Vázquez, naturalmente reforça a nossa hipótese, a saber: que o trabalho é
o fundamento do desenvolvimento estético do homem. Bem, a partir das contribuições de
Marx e do marxismo para o esclarecimento do conceito de trabalho, vê-se que existe uma
relação entre trabalho e estética. Mas isso não quer dizer que essa relação seja de
identidade, pelo contrário. O primeiro é a condição de possibilidade da segunda. Com
5
A grafia do pronome pessoal foi mantida para ser fiel à tradução antiga – década de 70. No correr do texto,
outras citações do livro de Sanches Vázquez aparecerão com a regra antiga da língua portuguesa, pois na
época da tradução era a norma culta em voga.
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efeito, sem o desenvolvimento do trabalho, para suprir as necessidades imediatas
humanas e sem a confecção de ferramentas, instrumento de trabalho e desenvolvimento
de técnicas, o homem não teria desenvolvido os sentidos e teria permanecido no reino
animal. Pois,
(...) para produzir o tipo de objetos que são precisamente obras de arte,
é forçoso que se tenha elevado previamente, e em grau considerável, a
produtividade do trabalho humano... O trabalho é assim, histórica e
socialmente a condição necessária do aparecimento da arte, bem como
da relação estética do homem com seus produtos (ibid.p. 72/73).
Desta forma, no processo histórico, o trabalho – produção de valor de uso, utilidade –
precedeu o sentido estético. Ambas as esferas expressam o homem como ser criativo.
Todavia, a estética surge como um desenvolvimento do trabalho, pois este satisfaz as
necessidades imediatas, já naquela, o homem está inserido numa esfera essencialmente
humana da subjetividade, da individualidade, na qual o significado e a significação que
são dados a cada objeto ultrapassam o limite do puramente natural – da natureza não
transformada pelo trabalho – e também o limite da utilidade imediata para, enfim, produzir
o artístico, isto é, o homem na sua dimensão mais rica.
Sendo assim, se o trabalho é uma dimensão humana, mas que o seu objeto é exterior ao
homem, a estética, por sua vez, é a dimensão humana da interioridade, da liberdade de
criação – a despeito dos condicionamentos históricos e sociais. Por conseguinte, se o
trabalho, dentro das condições capitalistas de produção, ao invés de afirmar o homem,
mutilá-o, a única via possível de afirmação plena do homem é a estética. Deste modo,
“buscando o humano, o humano perdido, Marx encontra o estético como um reduto da
verdadeira existência humana, e não apenas como um seu reduto, mas como uma esfera
essencial” (ibid. p. 52). É o que também achava Lukács ao dizer que a arte é „o modo de
expressão mais adequado e mais elevado da autoconsciência da humanidade‟
(Abbagnano, 2000, p. 369). Com isso não se deseja opor a esfera do trabalho à esfera da
estética. O primeiro é a condição necessária da segunda, mas está preso ao limite da
utilidade, enquanto a estética está caracterizada (também) pela ausência de necessidade
exterior. Por assim dizer, a estética assume o estatuto de trabalho livre 6 por não ser uma
imposição feita ao homem. Então, pode-se dizer com Marx,
6
A estética, de fato, na arte, faz-se trabalho livre e criativo e, apesar dos condicionamentos, o artista, por
necessidade pessoal (ainda que o trabalho artístico seja feito sob encomenda), ultrapassa os limites
históricos e sociais, de modo que o seu produto é fruto de um fazer livre.
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(...) que o trabalho é externo ao trabalhador, isto é, não pertence ao seu
ser, que ele não se afirma, portanto, em seu trabalho, mas nega-se nele,
que não se sente bem, mas infeliz, que não desenvolve nenhuma
energia física e espiritual livre, mas mortifica sua physis e arruína o seu
espírito. [...] O trabalho externo, o trabalho no qual o homem se
exterioriza, é um trabalho de auto-sacrifício, de mortificação (Marx, 2004,
p. 83).
E assim, fica evidente a superioridade da estética, enquanto dimensão humana da
liberdade, frente ao trabalho, sobretudo no modelo de produção capitalista.
Chega-se, então, a um ponto crucial: de que modo a produção dos objetos para o
mercado interfere na percepção humana? Isto é, de que modo os sentidos humanos
formatam-se ou são formatados aos produtos do trabalho? Ou são por eles formatados?
Como já fora exposto, a atividade artística só surge após grandes avanços do trabalho
sobre a natureza. E o trabalho humano, por seu turno, cria uma nova natureza
humanizada. E a partir desses novos objetos, fruto do trabalho, surge uma nova
percepção, um novo modo de sentir e de compreender o mundo. O próprio Marx afirma
isso ao dizer que “o objeto de arte, tal como qualquer outro produto, cria um público
capaz de compreender a arte e de apreciar a beleza. Portanto, a produção não cria
somente o objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto” (ibid. 1999, p. 33).
Assim, é possível afirmar que no modelo de produção capitalista os sentidos ou a
sensibilidade humana não são enriquecidos, educados, mas sim degenerados, reduzidos
à condição de mercadoria. Isto porque o trabalho produz para o consumo, de modo que
para cada novo produto cria-se uma nova necessidade, quer dizer, torna-se necessário
uma nova maneira de sentir e de perceber o mundo e os objetos. Com palavras
diferentes Walter Benjamin também concorda com este pensamento, pois ele afirma que
“no interior de grandes períodos históricos, a forma de perceber das grandes
coletividades humanas se transforma ao mesmo tempo que seu modo de existência”
(1994, p. 169). Isso significa que se o modo de existência capitalista atrofia, entorpece a
sensibilidade humana, é preciso buscar um modo de existência que a potencialize. Esse
mecanismo é a arte, isto é, a estética.7
Uma transformação estética desse nível causaria grande impacto na forma de
organização social, pois traria o homem de volta para a vida prosaica, só que através da
7
Os antigos romanos já sabiam disso. Não é à toa que eles criaram os combates na arena como forma de
controle e descarrego das energias estéticas acumuladas (panis et circences). São várias as adaptações
modernas desse modelo romano: a arena do futebol, o povo que se digladia nas avenidas do carnaval. Tudo
isso é válvula de escape, porque a energia criativa precisa ser controlada, caso contrário o caos político é
certo. Desse modo, a potência criativa fica limitada na sociedade capitalista e libera-se o prazer controlável.
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atividade prático-sensível. Por este caminho, talvez, o homem, enriquecendo os seus
sentidos e sua sensibilidade estética, construísse um comportamento mais prazeroso
para si mesmo e para o outro. É claro que não se deseja que o homem caia no
hedonismo individualista (aliás, esse é o modelo utilizado pelo capitalismo). Caso assim
seja, a atividade estética, sem ser confundida com a política, exercerá grande influência
sobre ela, uma vez que o sujeito terá descoberto que a sua própria atividade é uma fonte
inestimável de prazer consciente. Entretanto, é importante que a relação estética saia do
âmbito da relação de mercado sem deixar de ser consumida8. Se uma postura desse tipo
fosse efetivada, seria comparável a uma revolução (não estamos falando de revolução
violenta ou armada). Não só revolucionaria a forma de sentir e perceber o mundo, como
também o modo de entendê-lo, pois seria uma espécie de rompimento com o princípio de
não-contradição, isto é, passaríamos a conceber um mundo diferente a partir da
construção de novas possibilidades de sentir e representar o mundo efetivo. Desta forma,
pensar o contrário torna-se possível sem violar o princípio de não contradição, porque
dadas as novas condições de possibilidade, o mundo todo torna-se um campo em aberto
para a produção de novas sensações e formas de organização da experiência possível.
Isso poderia engendrar uma verdadeira difusão estética e enriquecimento da
sensibilidade humana a partir da produção voltada para o homem, pois se os produtos do
trabalho passarem a ser fim para o homem, e não meio de sobrevivência, é certo que a
relação dele com os objetos não será mais uma relação de estranhamento9. Com uma
forma de relação social estranhada não se pode esperar que o homem perceba e sinta o
mundo de modo prazeroso. Pelo contrário, é-lhe sofrível, pois fora do seu trabalho
penoso, o trabalhador não se sente humano, visto que suas necessidades estão restritas
ao comer e ao beber minimamente. Ou, como disse Marx:
Assim como a música desperta primeiramente o sentido musical do
homem, assim como para o ouvido não musical do homem a mais bela
música não tem nenhum sentido, é nenhum objeto, porque o meu objeto
só pode ser a confirmação de uma de minhas forças essenciais, portanto
só pode ser para mim da maneira como a minha força essencial é para si
como capacidade subjetiva, porque o sentido de um objeto para mim (só
tem sentido para um sentido que lhe corresponda) vai precisamente tão
longe quanto vai meu sentido, por causa disso é que os sentidos do
homem social são sentidos outros... (2004, p. 110).
8
O consumo é natural e característico das espécies: os animais e os seres humanos consomem dês de a luz
do sol e o ar até as frutas e produtos industrializados. A relação de mercado, por sua vez, implica o consumo
por via da compra e venda, de modo que se o sujeito que não tem dinheiro fica privado, enquanto no
consumo natural produz-se para a satisfação do da necessidade e, por que não dizer, do prazer estético.
9
Estranhamento (entfremdung): este é um conceito muito utilizado por Marx nos Manuscritos econômicofilosóficos. O termo designa a relação social que impede o homem de gozar dos produtos do próprio trabalho.
Portanto, é um conceito diretamente ligado à fruição sensitiva dos objetos (mas não só dos objetos, também
dos prazeres espirituais).
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Não obstante, é possível perguntar: onde está o caráter revolucionário da estética, da
obra de arte? Primeiro, um dos fatores que torna a obra de arte revolucionária é sua
irredutibilidade (total) à condição de mercadoria, por isso os grandes e geniais artistas (na
sociedade burguesa) afastam-se do grande público e meios de difusão em massa10. É
claro que pagam um preço caro, sendo lançados à miséria, à loucura ou à morte – para
na pós-morte colherem os benefícios do mundo burguês! Segundo, pela necessidade que
tem o artista de expressar a própria subjetividade (e fazer emergir a subjetividade criativa
de quem contempla de forma estética), trazendo sempre consigo o novo e o
revolucionário. Contudo, isso não é condição suficiente para que a mudança de
perspectiva promovida pela via estética provoque mudanças maiores (de ordem política,
por exemplo), visto que
(...) tão-somente uma mudança nas relações sociais pode fazer com que
o trabalho do homem recobre seu verdadeiro sentido humano e que a
arte seja o meio de satisfazer uma alta necessidade espiritual e não
simples meio de subsistência material, física. Daí resulta que a salvação
da arte, em última instância, está não na própria arte, mas na
transformação revolucionária das relações econômico-sociais que
tornam possível a degradação da produção artística ao fazê-la cair sob a
lei geral da produção mercantil capitalista (Sanches Vázquez, 1978, p.
95).
Então, o caráter revolucionário da estética reside na sua impossibilidade de ser
completamente reduzida à condição de mercadoria, pois, o trabalho artístico, como
trabalho concreto, preserva a qualidade individual e, assim, pela própria constituição não
é redutível ao trabalho abstrato, isto é, ao trabalho quantitativo.11 Apesar disso, tenta-se
reduzir o trabalho artístico a trabalho assalariado, o que implica em falseamento da arte.
No trabalho artístico, o valor não pode ser medido pelo tempo médio, pois não é
equiparável, não existe um tempo socialmente necessário que lhe diga respeito. Contudo,
ele pode ter preço (como tem)12, já que o preço pode expressar a magnitude do valor,
mas também pode ser completamente arbitrário.
10
Talvez, hoje, os artistas lidem melhor com as diversas mídias. Mas uma coisa é fato: não são os grandes
artistas que estão na grande mídia, quem está são os sub-produtos culturais, a conhecida cultura de massa.
Isso gera a divisão entre arte erudita e arte para a massa (não podemos confundir arte para a massa com
arte popular, pois a arte popular é uma expressão legítima da cultura de um povo – por exemplo, o samba de
roda do Recôncavo baiano).
11
Como nos ensina Marx em O capital, o valor do trabalho é medido pelo tempo socialmente necessário.
Mas este tempo mede o trabalho abstrato, quantitativo, desconsiderando as diferenças qualitativas. Com a
arte isso não pode acontecer, porque cada trabalho é singular e não se reduz ao trabalho abstrato. Como
diria Benjamim, cada obra de arte tem sua “aura”, seu “aqui e agora”.
12
Valor e preço são completamente diferentes. Só o trabalho gera valor, enquanto preço qualquer coisa pode
ter. De modo formal, o preço deveria ser a expressão do valor. Mas como valor algo que não tem medida
com a arte? Só especulando!
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Destarte, é bem verdade que o desenvolvimento técnico do trabalho ajudou na difusão da
arte. Mas, segundo Benjamin, foi justamente isso que arruinou a obra de arte, haja vista
que com “a reprodutibilidade técnica” a obra de arte ficou mais próxima, mais acessível
ao homem, porém, perdeu seu “aqui e agora”, ou seja,
(...) mesmo que essas novas circunstâncias deixem intato o conteúdo da
obra de arte, elas desvalorizam de qualquer modo, o seu aqui e agora.
Embora esse fenômeno não seja exclusivo da obra de arte, pode
ocorrer, por exemplo, numa paisagem que aparece num filme aos olhos
do espectador, ele afeta a obra de arte em seu núcleo especialmente
sensível que não existe num objeto na natureza: sua autenticidade
(1994, p. 168).
Desta forma, o sucesso da difusão em massa, atendendo as imposições do mercado é a
morte da autenticidade da obra de arte.
Aqui, surge a oportunidade para suscitar um problema: o do acesso à arte. Sempre as
classes dominantes tiveram acesso privilegiado à arte, enquanto as classes subalternas
colhiam as “migalhas” da arte. O que ocorre, contudo, no tempo presente, é mais grave,
pois o processo de reprodução técnica com fins econômicos sufoca inclusive a chamada
“arte erudita”. Resultado, o homem contemporâneo assume um estado de torpor social,
quer dizer, sofre os efeitos dessa anti-estética, da anestesia diretamente no corpo. De
fato, a reprodução da arte como mercadoria, ao mesmo tempo em que a popularizou,
também gerou seu empobrecimento. Até mesmo porque o interesse estético-cultural
perdeu lugar para o interesse político-econômico. Então, o que ocorre? O capital produz
necessidades, desejos e anseios estéticos, lançando novos objetos no mercado. Produz
um discurso convincente, utilizando a mídia e grandes artistas. E por fim, instauram as
novas maneiras de sentir e representar o mundo, ou seja, um outro padrão de
comportamento. Isto tudo sob a tutela do trabalho dentro do modelo capitalista. Todavia,
as necessidades e desejos produzidos no trabalhador não são satisfeitos. Primeiro
porque o seu poder de compra é limitado; segundo porque esse tipo de arte produzida é
degenerada, não é fruto da liberdade criadora humana, de modo que não preenche o
homem, mas esvazia-o. O que resta, então, para preencher o vazio estético, esta
necessidade de gozo? Resta anestesiar-se, entorpecer-se! Quer dizer, com a própria
impotência diante do capital, trabalhando e consumindo suas forças vitais e vendo que
não tem como fruir da sua produção, o homem entrega-se ao alcoolismo, à prostituição,
aos supermercados religiosos, à tv, etc, já que o capital direciona-lhe o desejo estético,
mas não tem como abafar uma necessidade verdadeira do corpo e do espírito humano.
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Neste ponto, o foco passa do estético ao político, pois a cultura de massa, juntamente
com os entorpecentes sociais supracitados, servem de agentes anestésicos e contrarevolucionários. Mas de forma muito escamoteada, de sorte que os estetas do capital
possam atuar, livremente, criando uma sociedade do simulacro, onde os sujeitos vivem
papéis, porém, na vida real, na sua solidão, têm de envenenarem-se, entorpecerem-se
para que a vida continue fazendo sentido. Ora, se o homem tem necessidade de gozar é
preciso
satisfazê-lo!
Mas,
se
satisfazê-lo
como
ser
humano
não
é
viável
economicamente, então, é melhor embrutecê-lo e tirar lucro disso (esse é o discurso do
capitalista). Mas esta situação não é vantajosa nem para o capitalista, visto que
(...) quanto mais o capitalista renuncia ao seu prazer, devotando seus
esforços, em seu lugar, à modelação deste alter-ego zumbi, mas
satisfações de segunda mão ele é capaz de colher. Tanto o capitalista
quanto o capital são imagens de mortos-vivos, um animado, apesar de
anestetizado; o outro inanimado, mas ativo (Eagleton, 1993, p.149).
Pode-se concluir, portanto, que existe uma íntima relação entre estética e trabalho e que
a forma de sentir e perceber a sociedade e a si mesmo do sujeito é uma grandíssima
força política. Assim, se o modo de existência da sociedade capitalista condiciona a
produção dos objetos e com isso direciona a forma de sensibilidade, através da esfera
econômica, é preciso uma mudança de perspectiva (à maneira de Picasso ao inspirar-se
em Cézanne, criando o cubismo e seus diversos ângulos de contemplar um objeto – o
que implica uma nova formatação). Faz-se necessário a instauração de um novo modelo,
no qual a dimensão estética do humano esteja no primeiro plano, pois esta é uma
dimensão da liberdade, da essência humana – não em sentido metafísico.
A mudança de perspectiva, portanto, não só é importante como é necessária, e passa
pela mudança do modo de produção13, e a transformação radical do modo de produção
deve trazer consigo um processo prático que não tenha os sentido humanos como
ferramenta ou meio de produção e que tenha os objetos do trabalho como uma extensão
dos sentidos humanos. E que, assim, o homem possa fruir dos seus objetos. Mais que
isso, que o homem possa objetivar-se artisticamente, expressando pela linguagem
artística a essência humana que não atinge o seu auge no trabalho, pois o trabalho tem a
natureza do puramente útil e deve ser ultrapassado – como o é – pelo estético, porque
esta é a dimensão do gozo, do prazer, enfim, é a dimensão que supera o dualismo corpo
13
A mudança do modo de produção capitalista tornou-se um imperativo. Não se trata mais só do problema
de quem tem meios de produção e quem não tem. Agora, extrapola os limites da individualidade, visto que
esta forma de organização social tem gerado grandes dificuldades para a humanidade (não só a fome e a
desigualdade social) e colocado a vida da espécie em risco pelo modo destrutivo de produzir.
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e alma, visto que une o que outrora fora separado: o corpo e o espírito. O primeiro com a
sensibilidade e a segunda com a liberdade.
Referências Bibliográficas:
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da arte. São
Paulo:
Brasiliense, 1994.
EAGLETON, Terry. A ideologia da estética. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.
______. Para a crítica da economia política. Coleção pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
SANCHES VÁZQUEZ, Adolfo. As idéias estéticas de Marx. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
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