UNIRIO Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro EDUCAÇÃO INTEGRAL / EDUCAÇÃO INTEGRADA E(M) TEMPO INTEGRAL: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA Mapeamento das experiências de jornada escolar ampliada No Brasil: Estudo Qualitativo RUSSAS - CE NATAL - RN RECIFE - PE SÃO SEBASTIÃO DO PASSE - BA COLATINA - ES NOVA FRIBURGO - RJ OLIMPIA - SP SÃO PAULO - SP UNIRIO SETEMBRO DE 2010 2 EXPEDIENTE MEC Ministro de Estado da Educação Fernando Haddad Secretário Executivo José Henrique Paim Fernandes SECAD André Lazaro Diretoria Educação Integral, Direitos Humanos e Cidadania (DEIDHUC) Jaqueline Moll Equipe de pesquisa na UNIRIO Lígia Martha C. da Costa Coelho - Professora Doutora (Coordenação) Ana Maria Villela Cavaliere - Professora Doutora (UFRJ) Cláudia de Oliveira Fernandes – Professora Doutora Janaína Specht da Silva Menezes – Professora Doutora Lúcia Velloso Maurício – Professora Doutora (UERJ/São Gonçalo) Nailda Marinho da Costa Bonato – Professora Doutora Bruno Adriano Rodrigues da Silva – Doutorando em Educação (UFRJ) Valdeney Lima da Costa – Mestrando em Educação Karen Victorino Regis – Graduada em Pedagogia Caroline Marchiori – Graduanda em Pedagogia (UFRJ) 3 SUMÁRIO I- Experiência Russas – CE........................................................................................................4 .... II- Experiência Natal – RN .....................................................................................................52 III- Experiência Recife – PE.................................................................................................... 119 IV- Experiência São Sebastião do Passe – BA........................................................................167 V- Experiência Colatina – ES....................................................................................................199 VI- Experiência Nova Friburgo - RJ...........................................................................................253 VII- Experiência Olímpia - SP...................................................................................................297 VIII- Experiência São Paulo – SP..............................................................................................341 4 I – RUSSAS - CE Lúcia Velloso Maurício Valdeney da Costa Lima Foto 1. Casa de cultura de Russas (Fonte: http://www.russas.ce.gov.br/index.php?) Pra mim a escola boa ainda é a pública, pra mim ela é melhor do que a particular. Pra mim ela é muito mais fincada no chão da realidade, ela é muito mais contemporânea, ela tem muito mais vida ... a gente (deve) aproveitar todas essas vantagens que a escola pública tem e tornar ela eficiente no desenvolvimento da proposta curricular. Então no meu modo de entender, eu precisava dar mais tempo a essa criança pra poder cobrar dela. Aí eu quero que a criança que não tem pai letrado, que não tem mãe que acompanhe, que não tem biblioteca em casa, que não tem local nem pra estudar, porque senta no chão... aí com todas essas condições que ela não tem na família e com pouco tempo na escola, eu quero que ela vire a mesa. É impossível. Não posso querer respostas diferentes fazendo as mesmas coisas. (secretária de Educação de Russas) 5 Foto 2. Casario de Russas (Fonte: http://www.russas.ce.gov.br/index.php?page=10) 1. INTRODUÇÃO 1.1. O MUNICÍPIO Entre os critérios acordados entre as universidades participantes para a escolha dos municípios e estados, destacaram-se os seguintes aspectos no caso de Russas, que fica no Ceará: Na pesquisa quantitativa, o Ceará foi o segundo estado do Nordeste em porcentagem de municípios respondentes – 35,3%, correspondendo a 65 municípios – indicando que a ampliação da jornada escolar é uma ação significativa no momento atual para esse estado. Por outro lado, o Ceará foi o primeiro da região em porcentagem de municípios com experiências, entre aqueles que responderam ao questionário na fase quantitativa – 41,5%, correspondendo a 27 municípios, entre os respondentes. Finalmente, o estado apresenta um IDEB (3,5) abaixo da média municipal para o Brasil (4,0), mas considerado médio para o Nordeste. 6 Figura 1. Localização geográfica do município no mapa do estado do Ceará http://www.wikipedia/commons/thumb/c/c0/Ceara_Municip_Russas.svg/502px Em relação à seleção do município de Russas, o questionário da primeira fase da pesquisa indicava que ele apresentava dois tipos de experiência denominadas, respectivamente, Tempo integral e Jornada ampliada; que ambas as experiências já estavam implantadas há 3 anos, e que haviam ampliado sua abrangência numérica de escolas e alunos no decorrer do período. Além disso, é um município de porte médio, com 67.960 habitantes (IBGE 2009), e do interior, atendendo ao critério de buscar revelar a diversidade de experiências e cenários. O número de alunos atendidos chegou a alcançar 50% das matrículas municipais no ensino fundamental. Finalmente, no contato telefônico, tivemos como interlocutora a mesma pessoa que preenchera o questionário na fase quantitativa, mostrando continuidade da experiência, informações precisas sobre elas e disponibilidade e interesse para participar da pesquisa. O povoado de São Bernardo das Russas, nome dado inicialmente, foi elevado à categoria de vila em 6 de agosto de 1801, com a denominação de vila de São Bernardo do Governador, passando à categoria de cidade, em 1859, por meio de uma resolução do presidente da província do Ceará na 7 época, Bernardo Manoel de Vasconcellos. A denominação oficial – Russas – passou a vigorar em 31 de março de 1938. A origem do nome Russas tem sido motivo de divergências, contando com três versões (ROCHA, 2001): o nome estaria ligado à presença de pedras de cor ruça nas redondezas da região; ou à semelhança com a Serra das Russas, em Pernambuco; finalmente, à criação de éguas de cor ruça, pertencentes a um fazendeiro da região, de nome Bernardo. A primeira versão parece ser a mais aceita entre os pesquisadores. A evolução econômica do município está ligada a dois fatores importantes: a presença do rio Jaguaribe e de árvores chamadas carnaubeiras. O rio propiciou atividades de pecuária e agricultura em suas margens, além de servir, na época em que era navegável, para o escoamento da produção; a carnaubeira representou a força econômica local, entre o final do século XIX e o início do século XX. As festas em homenagem à Nossa Senhora do Rosário, padroeira do município, a 7 de outubro, e Russas Folia, carnaval fora de época, que acontece no mês de dezembro, são as principais atrações do calendário festivo do município. Outro evento de destaque é o Show de Integração Educacional, um festival que acontece todos os anos, sempre no mês de outubro, reunindo estudantes de todas as escolas do município para apresentações artísticas e culturais à comunidade russana, numa praça pública comumente conhecida por Praça do Estudante. As melhores apresentações discentes são premiadas com medalhas, troféus e outros brindes. Em relação à demografia, Russas tem população de 67.960 habitantes (IBGE 2009), como já mencionado. Destes, a população com 10 anos ou mais sem escolaridade corresponde a 7.876 habitantes, ou seja, quase 12% do total, e a população com renda até 1 salário mínimo corresponde a 15.121 habitantes, ou seja, mais de 22%. A área territorial de Russas é de 1.588 quilômetros quadrados. Desde o ano de 2005, a organização administrativa do município é composta pelos distritos de Russas, Bonhu, Flores, Lagoa Grande, Peixe e São João de Deus. 8 Russas dista 162,1 quilômetros da capital do estado, Fortaleza (GUIA MUNICIPAL, 2009/2010, p.194), ligando-se a ela e a outros municípios pela rodovia federal BR-116. Em termos de economia, tem produção industrial de sapatos (Dakota), telhas e artefatos de cerâmica em geral; produção agrícola de milho, arroz, feijão, tomate, abacaxi, melancia, cana de açúcar, caju; e criação de ovinos, bovinos e galináceos. Sua receita é de 44,6 milhões e seu PIB per capita de R$ 5.896,00. 1.2. EDUCAÇÃO NO MUNICÍPIO Com dados do IBGE e do INEP, elaboramos os quadros a seguir, com número de escolas, de docentes e de matrículas por nível de ensino e dependência administrativa; além do último quadro, que apresenta o resultado do IDEB para o Brasil, o estado do Ceará e o município de Russas em 2005, 2007 e 2009. Quadro 1 Número de escolas por dependência administrativa Escolas: Nível de ensino/gestão Municipal Estadual Privada TOTAL Pré-escolar 45 – 7 52 Ensino Fundamental 46 3 7 56 Ensino Médio – 4 1 5 Quadro 2 Número de matrícula docente por nível de ensino e gestão Docente: Nível ensino/gestão Municipal Estadual Privada TOTAL Pré-escolar 79 – 31 110 Ensino Fundamental 339 33 70 442 – 95 23 118 Ensino Médio 9 Quadro 3. Número de matrículas discentes de Russas em 2009 Ed. Infantil Creche Pré-escola Ensino Fundamental A. Iniciais A. Finais Dependência EJA Ens. Ensino Médio Funda- EJA Ens. Médio mental Estadual 0 0 0 618 2.761 94 373 Municipal 640 1.506 5.696 4.253 0 434 0 Privada 48 356 773 512 267 0 0 Total 688 1.862 6.469 5.383 3.028 528 373 Fonte: Censo Escolar 2009, INEP Os números mostram que quase 85% das matrículas do ensino fundamental são municipais, completadas por pouco mais de 10% na rede privada, restando para o estado cerca de 5%. A presença do estado é pequena no ensino fundamental, ficando restrita à sua área de competência, o ensino médio, onde atende a mais de 90% das matrículas. Mas a presença do estado continua pouco marcante, pois é baixo o número de matrículas no ensino médio se comparado ao do ensino fundamental: 25,5%. Os dados mostram que o número de escolas particulares é pouco expressivo: mantém-se na faixa de 13% na educação infantil e no ensino fundamental, subindo para 20% no ensino médio. O número de matrículas de alunos na rede privada tem outra configuração: começa com quase 16% na educação infantil, passando para quase 11% no ensino fundamental, abaixando para 8,8% no ensino médio. Este quadro revela o limite de renda da população, dado confirmado pela diminuição do número de matrículas global do ensino fundamental para o médio. Apesar do investimento municipal na ampliação da jornada escolar, tanto em termos de abrangência de alunos, cerca de 50%, como em tempo de implantação, três anos, esta ação ainda não se visualiza na média-turno, pois os dados disponibilizados pelo INEP sobre média-turno são de 2006, portanto 10 quando o investimento municipal na ampliação da jornada escolar apenas iniciava. Quadro 4. IDEB instituições públicas: Brasil, Ceará, Russas SÉRIES INICIAIS Ano 2005 Ano 2007 Ano 2009 BRASIL 3,6 4,0 4,4 CEARÁ 3,2 3,5 4,2 RUSSAS 3,3 3,4 4,3 Ano 2005 Ano 2007 Ano 2009 BRASIL 3,2 3,5 3,7 CEARÁ 2,8 3,4 3,6 RUSSAS 3,0 3,7 4,0 SÉRIES FINAIS Fonte INEP, 2009 O IDEB do Ceará e de Russas é menor que o do Brasil, para instituições públicas nos anos iniciais, nos três anos calculados. Entretanto, o crescimento deles, de 1 ponto, foi maior que o do Brasil, chegando quase a alcançá-lo, com 4,2 no Ceará e 4,3 em Russas. Nos anos finais, este processo se repete; no entanto o crescimento de Russas, de 1 ponto, faz com que seu índice ultrapasse tanto o do Ceará como o do Brasil, atingindo 4,0. Os anos iniciais, foco da política de ampliação da jornada escolar em Russas, como veremos mais adiante, teve seu maior crescimento no município no intervalo de 2007 para 2009, indicando uma resposta favorável à política educacional que vem sendo implementada. 1.3. DINÂMICA NO CAMPO PLANEJAMENTO SEGUNDO DADOS DO QUESTIONÁRIO E DO CONTATO TELEFÔNICO O questionário indicou o desenvolvimento de dois tipos de experiências de ampliação da jornada escolar: uma denominada de Tempo integral e a outra Jornada ampliada. 11 A modalidade Tempo integral evoluiu de duas escolas em 2006 para três em 2007, quatro em 2008 e seis em 2009. Esta experiência, que envolvia 218 alunos dos três primeiros anos de escolaridade em 2006, passou a abranger 759 alunos do 1º. ao 5º. ano de escolaridade em 2008. A proposta de tempo integral implica carga horária de 50 horas por semana para o aluno, desenvolve-se dentro do espaço escolar, com atividades mescladas com as aulas regulares ou no contraturno, dependendo da escola. Oferece atividades de reforço escolar, esportivas, artístico-culturais e informática. Os professores, concursados ou contratados, são os responsáveis pelo projeto que é implementado pela Secretaria de Educação e coordenado pelos diretores das escolas envolvidas. A proposta de tempo integral, que está inserida no projeto pedagógico das escolas, é uma política pública municipal, financiada pelo próprio município, mas não está normatizada em lei orgânica. A experiência denominada de Jornada ampliada começou em 2006 em 38 escolas, fixando-se em 35 nos anos seguintes, atendendo a alunos do ensino fundamental. O número de alunos envolvidos tem variado entre 5 e 4 mil, o que corresponde a 50% das matriculas municipais no ensino fundamental. A carga horária atinge 30 horas por semana para o aluno, ampliando o horário regular em pelo menos 2 horas diárias. As atividades são oferecidas no contraturno e envolvem reforço escolar, esportes, informática e atividades artístico-culturais. A jornada ampliada é prevista no projeto pedagógico das escolas e acontece no espaço escolar. A proposta é uma política da secretaria de educação, não normatizada, financiada pelo próprio município, a não ser no primeiro ano de implementação, em que recebeu recursos federais. As atividades são desenvolvidas por professores efetivos e contratados e por monitores. Nosso contato telefônico se deu com a professora Maria Bernadete de Santiago Ribeiro, a profissional que preencheu o questionário no ano anterior. Ela coordena as ações de ampliação da jornada escolar no município e tem completo domínio sobre as informações dadas. Orientou a seleção das escolas a serem visitadas, pessoas a serem entrevistadas e preparou nossa agenda para visita ao município. Como, por uma série de circunstâncias, só conseguimos realizar nossa pesquisa de campo de 7 a 10 de dezembro, 12 sabíamos que poderíamos realizar todas as entrevistas e fazer observação nas escolas de horário integral, mas que isso não aconteceria em relação ao projeto de jornada ampliada, cujo calendário seria encerrado em 30 de novembro. Assim planejamos visitar duas escolas funcionando com horário integral – a mais antiga, situada numa área rural e a de maior abrangência e urbana; entrevistar as gestoras do sistema municipal; e se possível manter contato com a direção e professores da jornada ampliada, mesmo sem poder realizar observação na escola. Nossa visita foi então planejada para ocorrer em três dias: o primeiro dedicado exclusivamente ao CAIC Senador Carlos Jereissati, tanto para observação como para a coleta de dados e entrevistas; o segundo dedicado também exclusivamente à escola Luis Ferreira Lima, para a coleta de dados, entrevistas e observação; e o terceiro dia para entrevistar a secretária de educação, professora Maria Bernadete e uma diretora responsável por escola com jornada ampliada, já que não teríamos possibilidade de fazer observação. PESQUISA DE CAMPO Todas as ações foram desenvolvidas conjuntamente pela dupla de pesquisadores Lúcia Velloso Maurício, professora-adjunta e coordenadoraadjunta do Mestrado em Educação da UERJ/FFP, com longa experiência em escola de horário integral, e por Valdeney da Costa Lima, mestrando em Educação da UNIRIO, cearense que, além de ter familiaridade com a região, está desenvolvendo sua pesquisa sobre ampliação da jornada escolar no município de Russas. Chegamos a Russas no dia 7 de dezembro, pela manhã, e fomos recebidos pela professora Rosélia, subsecretária de educação de Russas, que nos recepcionou, na ausência da secretária e da professora Maria Bernadete, que estavam participando de um evento na cidade de Teresina (PI). Por meio de transporte cedido pelo município, Rosélia nos conduziu até a primeira 13 escola a ser visitada, onde nos apresentou pessoalmente ao diretor do CAIC, professor Francisco Gleydson de Oliveira. Ficamos no CAIC de 10.30 até 17.30, tendo almoçado na escola. Além de partilharmos a visita, fotografando cada espaço da escola, conversamos com alunos do horário integral, dentro de sala de aula, e realizamos entrevistas individuais ou coletivas com diversas equipes. Não entrevistamos os monitores que ficam no horário do almoço, porque só ficamos sabendo de sua existência na própria visita. Não tivemos contato com pais de alunos que não fossem professores da escola. Abaixo discriminamos as entrevistas realizadas no dia 7 de dezembro, no CAIC. Coletiva, com as oito professoras das turmas de Horário Integral. Individual, com a coordenadora das turmas de Horário Integral, professora Josinara Araújo Rodrigues. Coletiva, com cinco professoras que não têm turma de Horário Integral. Individual, com o diretor professor Francisco Gleydson de Oliveira, que nos prestou muitas informações anotadas durante a visita aos espaços escolares, conduzida por ele. Todos os entrevistados assinaram o termo de consentimento para uso de informações e o diretor assinou a autorização para uso de imagens. Estes cuidados não faziam qualquer sentido para os entrevistados, que tinham grande orgulho em mostrar seu trabalho. Abaixo a relação dos documentos recolhidos no CAIC: Projeto Criança Alfabetizada, criança feliz – escola de tempo integral Registro diário do planejamento do professor Controle de frequência de estudo e planejamento dos professores Calendário com horário de atendimento no centro de multimeios, sala de jogos e desafios e sala de leitura por turma; com horário de estudo e planejamento dos professores; proposta curricular por série; e descritores de desempenho por série. Gráficos da prova ampla (avaliação anual aplicada pelo município) Ficha individual de aprendizagem – desempenho mensal 14 A visita à Escola Municipal Luis Ferreira Lima, no dia 8 de dezembro, estendeu-se de 10h às 17h, período em que fizemos observação, fotografamos e entrevistamos direção, equipe pedagógica, professores, alunos e uma mãe. Almoçamos com a equipe pedagógica à beira do rio Jaguaribe. Tivemos oportunidade de observar atividade do projeto Jornada Ampliada, que atende aos alunos das outras turmas da escola, tendo em vista que ainda não haviam completado seu calendário, devido ao período que a escola deixou de funcionar por causa do alagamento do rio. Não entrevistamos o monitor da atividade e não recolhemos documentos escritos sobre o funcionamento do horário integral. Abaixo os instrumentos de dados coletados: Coletiva com sete professoras das turmas de horário integral Coletiva com as três professoras da equipe gestora: diretora, diretoraadjunta e coordenadora pedagógica Individual com uma mãe No último dia, conforme planejado, fizemos três entrevistas na Secretaria de Educação. A primeira, com a professora Bernadete, responsável pelo acompanhamento das ações de jornada ampliada; a segunda com a diretora Maria Lindosvalda Costa Fonseca, cuja escola tem jornada ampliada no contraturno; finalmente, com a secretária de Educação, Lindalva Pereira Carmo, professora aposentada da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e ex-subsecretária da Secretaria da Educação do Estado, até 2005. 2. DESCRIÇÃO DAS EXPERIÊNCIAS 2.1 Tempo Integral O primeiro registro de experiência de ampliação da jornada escolar em tempo integral remonta ao ano de 2002, quando um projeto-piloto foi desenvolvido na Escola Municipal Luís Ferreira Lima, localizada na zona rural do município. Segundo a atual diretora da escola, professora Débora: o tempo integral começou ainda na época do Gleydson; surgiu uma oportunidade da gente participar de um curso do ciclo 15 básico de alfabetização em Fortaleza. Eu e outra professora, nós fomos pra esse curso. E lá, no Canindé, já tinha uma escola que tinha sido implantado o tempo integral, foi apresentado o projeto. Quando eu cheguei, a gente conversou com o Gleydson, eu e a colega que foi comigo, e ele se interessou... na época era outra gestão municipal, né? A gente elaborou um projeto dentro da nossa realidade e mandamos e no início do ano já começamos o tempo integral. A experiência de tempo integral na escola continuou nos anos posteriores, menos em 2005, quando o diretor foi transferido para o CAIC, com o objetivo de lá implantar o horário integral, tendo em vista o sucesso alcançado na escola rural. Com a professora Débora na direção, o horário integral é retomado no ano seguinte, com o apoio da Secretaria de Educação do município, mesmo ano em que foi implementado no CAIC. Em 2007, foram três escolas; em 2008, quatro; em 2009, sete. Segundo a secretária de Educação quando eu vim pra cá eu tive medo de falar de novo em ciclos, porque há uma ideia solta de que os ciclos não têm resultado, não sei mais o quê, mas eu me baseei nos fundamentos dos ciclos, sem reorganizar a escola, mas reorganizando... eu não quero um tempo integral pelo tempo integral. Eu quero um tempo integral que não consiga ser a escola do lazer num horário e a escola do aprender no outro. E que é muito isso que a gente vê nos tempos integrais... daqui a pouco os meninos não vão querer ir mais pras aulas, só vão querer ir pro lúdico. Eu quero que as aulas sejam lúdicas, sejam interessantes, sejam motivadoras, que você vá misturando as coisas. A secretária explica que ―tínhamos indicadores muito ruins e na minha visão era quase impossível reverter com um mínimo de quatro horas‖. A referência se deve aos resultados obtidos no Sistema Permanente de Avaliação do Ceará (SPAECE), particularmente naqueles relacionados à alfabetização. Nesse sentido, foi pensada a ampliação da jornada para que a atividade de leitura pudesse ser beneficiada... 16 quando os meninos passarem da segunda pra terceira série, eles precisam estar lendo muito bem para que as outras aprendizagens possam vir a ocorrer. Então, quando a gente iniciou a jornada ampliada foi pras crianças de seis a oito anos... Tendo em vista este histórico, decidimos visitar a escola rural, experiência mais antiga de horário integral escolar no município, e o CAIC com a melhor infraestrutura, além de maior visibilidade, gerando impacto na política de educação municipal. É indispensável frisar que estas duas experiências foram implantadas pelo mesmo diretor, pessoa muito ativa, determinada e bem articulada. CAIC SENADOR CARLOS JEREISSATI A escola, situada na periferia da cidade, em bairro carente, funciona em prédio de CAIC, inaugurado em 1996, e atende ao seu projeto original: berçário, maternal e ensino fundamental, totalizando 60 turmas. Tem 1.425 alunos, 88 professores, 149 funcionários e, a partir de 2006, três turmas em tempo integral, hoje sete turmas envolvendo 268 alunos do 1º. e 2º. anos do ensino fundamental e do maternal. Ao entrar nesta escola, chama a atenção inicialmente o fato de que todos os seus profissionais usam uniforme, o mesmo uniforme, o diretor, a coordenadora, as professoras, até o porteiro, as merendeiras e o pessoal da limpeza. 17 FOTO 3. Prédio CAIC (arquivo da pesquisadora) A escola atende do 1º. ao 9º. ano do ensino fundamental de manhã e de tarde. Dentre as turmas do 1º. ao 5º. ano, cujo quantitativo está demonstrado abaixo, só o 1º. e o 2º. anos têm horário integral, totalizando sete turmas com 10 professores envolvidos, além dos monitores no horário de meio-dia e do pessoal de apoio. O projeto tem, entre outros objetivos, ―ampliar, com qualidade, o tempo pedagógico destinado ao processo inicial de leitura e escrita‖ (CAICSCJ, 2006). Quadro 5 - MATRÍCULAS DO CAIC EM 2009 Etapa Menos de 7 horas de duração 7 horas ou mais de duração Total Creche 115 60 175 Pré-escola 167 0 167 Total Educ. Infantil 282 60 342 Anos Iniciais EF 453 208 661 Anos Finais EF 422 0 422 Total Ens. Fundamental 875 208 1083 18 Menos de 7 horas de duração Etapa TOTAL GERAL 1.157 7 horas ou mais de duração 268 Total 1.425 Fonte: Censo Escolar 2009 FOTO 4. Diretor no Laboratório de Informática (arquivo da pesquisadora) Quadro 6: Número de turmas por série nos anos iniciais do E. Fundamental SÉRIE 1º. 2º. 3º. 4º. 5º. NO. TURMAS 3 4 4 5 5 Segundo a coordenadora, a prioridade de atendimento aos dois anos iniciais do ensino fundamental deve-se à compreensão de que a alfabetização é condição para o sucesso escolar. O objetivo do projeto é uma educação integral, envolvendo tanto conteúdos como a socialização. A abordagem pedagógica do projeto tem base em Emilia Ferreiro, com a ficha de controle do processo de alfabetização agrupando os alunos em pré-silábico, silábico, silábico-alfabético, alfabético. Também é registrada a quantidade de letras que conseguem escrever. 19 Todo o tempo em que o aluno está na escola é aproveitado com atividades diversificadas e lúdicas planejadas para desenvolver seu aprendizado em espaços variados e não apenas em sala de aula. As professoras destas turmas endossam que o horário do aluno de horário integral é todo regulado, criando uma rotina e levando à aquisição de hábitos. Nas sextas-feiras à tarde, não há aula, pois é dia de planejamento das atividades da semana. As professoras, com regime de trabalho de 40 horas semanais, permanecem o dia inteiro na escola, com horário semanal previsto para o centro de estudos, que ocorre no horário das atividades motoras e artísticas da sua turma. As professoras têm período de descanso no horário de almoço, quando são substituídas por monitores contratados para esta finalidade. Quadro 7 – MATRÍCULA em ATIVIDADES COMPLEMENTARES em 2009 no CAIC Áreas Matrículas* ARTES E CULTURA Dança 80 Banda Fanfarra, Percussão 57 ACOMPANHAMENTO PEDAGÓGICO (REFORÇO ESCOLAR) Letramento e alfabetização 65 ESPORTE E LAZER Vôlei, Basquete, Handebol, Natação. 36 Futebol e Futsal 111 INCLUSÃO DIGITAL E COMUNICAÇÃO Informática e tecnologia da informação e comunicação 14 ATIVIDADES DE INICIAÇÃO PROFISSIONAL Atividades de iniciação profissional 14 20 Áreas Total Matrículas* 363 * O aluno pode estar matriculado em mais de uma atividade FOTO 5. Sala de leitura (arquivo da pesquisadora) As turmas que não têm horário integral podem ampliar seu tempo de permanência na escola através da inscrição em atividades complementares. O quadro acima ilustra as atividades que são oferecidas a estes alunos que podem participar em mais de uma atividade. As turmas em horário integral, da mesma forma que todas as outras turmas até o 5º. ano, têm uma hora por semana na sala de leitura e uma hora por semana na sala de jogos e desafios, no seu horário regular. Têm ainda atividades motoras, atividades artísticas e atividades complementares duas vezes por semana; as atividades motoras e complementares são planejadas semanalmente pelas professoras com a coordenação; já as atividades artísticas são realizadas em forma de oficina e seguem um cronograma que varia a cada semana: artes plásticas, teatro, dança, pintura, dobradura, modelagem etc. No horário do meio-dia, as turmas são assistidas por monitores e desenvolvem atividades que se revezam a cada 15 ou 30 minutos, 21 dependendo da atividade: banho, almoço, higiene bucal e relaxamento para 1º. e 2º. anos; vídeo educativo e brincadeira livre, só para o 2º.; cantiga de roda, só para o 1º. Segundo as professoras, estas atividades visam desenvolver interação e autonomia dos alunos, aquisição de hábitos, além da prática em si de alimentação e repouso. FOTO 6. Centro de Estudos (arquivo da pesquisadora) Entre as atividades dos professores está o Centro de Estudos, cuja sala foi inaugurada em 2009. Este estudo é planejado e seu desenvolvimento é registrado numa ficha de frequência e acompanhamento, preenchida por cada professor, finalizando com a indicação da possível relação entre a temática estudada e as atividades de sala de aula. Cada ficha é assinada pela coordenadora e pelo diretor. O plano de aula diário de cada docente, da mesma forma, é encaminhado para as observações da coordenadora, que assina e envia para o diretor. Outra tarefa do professor é completar a Ficha Individual de Aprendizagem, com periodicidade mensal, constando de um parecer descritivo para língua portuguesa e matemática. Estas tarefas são tão incorporadas às funções docentes que eles reconhecem que estes registros ajudam o planejamento individual e coletivo. 22 Segundo os gestores da escola, apesar de o prédio ser grandioso, a maioria de seus espaços está ocupada, gerando limitações para o atendimento ao horário integral e para a formulação de outros projetos. Na visão da coordenadora, a falta de espaço é a maior dificuldade para o desenvolvimento do horário integral. Entretanto, o recurso a espaço externo como centro cultural, ou o ônibus ―brincarte‖, é utilizado eventualmente, não se constituindo em alternativa para ampliação da disponibilidade espacial. Segundo o diretor: FOTO 7. Horário dos professores (arquivo da pesquisadora) Eu busquei espaços físicos dentro da própria comunidade, mas o trabalho se torna um pouco inviável, porque no próprio instante que as atividades começam a ser desenvolvidas em outros espaços fora da escola, nós não dispomos de recursos humanos para estar nesses espaços direcionando o trabalho. Em relação aos sujeitos, o diretor trouxe algumas professoras da escola rural, que deram continuidade ao trabalho com horário integral no CAIC, para as turmas em processo de alfabetização (1º e 2 anos). Ampliado o número de turmas de três para sete, os critérios para inclusão de professoras nas turmas de horário integral foram a identificação com criança nesta faixa etária e ter passado pelo processo de formação do Programa de Alfabetização na Idade Certa (PAIC). Este critério mostra que realmente o processo de alfabetização 23 funciona como eixo para a implantação do horário integral. O projeto Criança Alfabetizada, criança feliz, proposto pelo diretor e escrito pela coordenadora do horário integral, professora Josimara Araújo Rodrigues, foi debatido pela equipe gestora e adequado às características das professoras. A discussão sobre implantação do horário integral foi restrita às professoras das turmas envolvidas. FOTO 8. Refeitório (arquivo da pesquisadora) As professoras gostam de trabalhar com horário integral, conforme se verifica nos depoimentos abaixo: eu tive esse privilégio de ser convidada pra participar do grupo do tempo integral, foi um grande presente pra mim e tem sido uma experiência muito agradável. Ano passado eu peguei uma turma um pouco complicada de aprendizagem... um índice muito baixo de aprendizagem, mas graças a Deus eu consegui, com a ajuda do grupo, porque aqui a gente trabalha em grupo... o planejamento é em grupo, tudo é em grupo ... Sem falar no nosso reconhecimento, né? Nós somos muito reconhecidas, graças a Deus, pela direção, pelos pais, não é a toa que eles procuram a escola de tempo integral... e pelos 24 nossos colegas de outras turmas, né? Eu me sinto assim altamente invejada por eles, né? É uma inveja boa, né? FOTO 9. Merendeiras uniformizadas (arquivo da pesquisadora) As professoras não indicaram qualquer ponto negativo nem fizeram sugestões de melhorias na proposta de horário integral. Reconhecem que o foco maior em suas atividades, tendo em vista o interesse do diretor no projeto, traz maior exigência sobre suas ações. Mas este fato é incorporado num contexto de expectativa muito positiva sobre o resultado de seu trabalho. Daí a pertinência de observações como a que se segue: Tem uma coisa assim, tanto do aluno quanto da professora com o aluno. Porque a gente tem uma interação mesmo, passa o dia inteiro com esses alunos... muito maior do que se fosse em turnos diferentes. E muitas vezes nós professores temos mais facilidade de detectar quando a criança está com algum problema, do que os próprios pais. Quando ele está doente, está com algum problema a gente chama os pais. De acordo com a coordenadora, não se registra evasão nas turmas de horário integral. Para as professoras, ela é pequena e decorrente de crianças com frequência irregular, mesmo após a visita de uma comissão de professores que vai à casa dos alunos faltosos, no sentido de tentar evitar a 25 possível evasão. Essa situação ocorre com uma ou duas crianças por turma, no 1º. ano de escolaridade, que não se adaptam ao horário integral, e cuja família não estimula a permanência na escola. Segundo as professoras, é uma situação lamentável, porque há grande procura pela matrícula em horário integral, com pais dormindo na fila. O material didático do 2º ano, que tem todas as atividades programadas, é comum para todo o município. Os alunos do horário integral são beneficiados por terem mais tempo para seguir todas as orientações. Mesmo assim registrase reprovação, após o 2º ano de escolaridade, abaixo de 5%, apesar de ser oferecida aula de reforço desde o início do ano. Quadro 8 – IDEB DO CAIC SENADOR CARLOS JEREISSATTI Segmento Ano 2005 Ano 2007 Séries iniciais 2,7 3,5 Séries finais 3,0 2,4 Em geral, as mães trabalham na fábrica de sapatos Dakota, que fica nas adjacências da escola, ou em casas de família como domésticas, e recebem bolsa família. Os responsáveis são presentes na instituição, tanto para observar o funcionamento da escola ao meio-dia, horário em que as crianças ficam com os monitores, como para participar da reunião com a presença dos alunos. Os pais de cada turma são convidados a permanecer um dia inteiro na escola para conhecerem as atividades dos filhos. Pais e alunos gostam da escola. Segundo a coordenadora, a maioria dos pais procura retribuir o trabalho da escola da forma possível para eles, com presença nos eventos, inclusive ajudando para sua realização. Percebe-se o resultado das turmas em horário integral pelo comportamento mais tranquilo do aluno, pois a rotina inteiramente monitorada inclui repouso após a refeição. A alimentação do horário integral é diferenciada, por isso eles comem na sala, para evitar despertar a expectativa dos outros alunos. O ponto positivo destacado pela coordenadora, e endossado pelas 26 professoras, tanto para a escola como para o município, é o resultado da aprendizagem. O quadro abaixo ilustra o desempenho dos alunos do 2º. ano no sistema de avaliação do estado, comprovando, segundo a coordenadora, o acerto do investimento no horário integral das turmas em processo de alfabetização. A proficiência média alcançada em língua portuguesa foi 171,6, ou seja, no nível desejável. Quadro 9. Alunos do 2º. Ano do EF. por Nível e Padrão de Desempenho do Sistema Permanente de Avaliação Educacional do Ceará (SPAECE-ALFA) Níveis de desempenho SPAECE-ALFA % Padrão Não alfabetizado 2,65% 0-75 Alfabetização incompleta 4,42% 75-100 Intermediário 13,27% 100-125 Suficiente 13,27% 125-150 Desejável 66,37% 150 ou mais O diretor é visto como peça fundamental neste projeto. As professoras partilham a mesma visão sobre o diretor, estendendo-a à equipe gestora. Há pessoas que deixam de colocar seu filho em escola particular para tentar matrícula no CAIC. Muitas professoras têm seus filhos estudando na própria escola em que trabalham. As professoras gostam do centro de estudos, sentem-se valorizadas e realizadas profissionalmente. Uma das camisetas que foi escolhida, em ano recente, para uniforme revela o sentimento desta equipe em relação ao seu trabalho: 100% CAIC. Além de ―vestir a camisa‖, causaram a ―inveja‖ dos demais professores de Russas. Segundo a coordenadora, a viabilidade de manutenção do projeto, inteiramente financiado pela prefeitura, depende desta disponibilidade e compromisso da equipe. O diretor da escola, o professor pedagogo Gleydson, além de muito ativo e cheio de iniciativas, levanta a autoestima de todos os profissionais da casa, seja pelo uso comum do uniforme; seja pelo quadro de retratos dos profissionais que espalha pela escola; por mandar construir uma sala 27 confortável para o Centro de Estudos ou, ainda, pela condecoração de mérito aos profissionais ou parceiros do município que se destacaram no ano em prol da educação, premiados numa cerimônia de gala. Tanto é uma pessoa que controla tudo, como prestigia todos. Estes dois lados distintos, de certa forma, se revelam também no incentivo às atividades artísticas, criativas por um lado, e a decoração com desenhos da Disney. Esta diversidade de características não deixa de fazer dele uma unanimidade, como se pode constatar no depoimento de uma professora: Nós não podemos esquecer da força maior, a escola que nós temos, a nossa direção. A direção da escola contribui assim o máximo que pode fazer pra ajudar nessa batalha. Eu acho que faz a diferença ... eu acho não, faz a diferença quando tem o núcleo gestor da escola que faz tudo pra saber o que está acontecendo, pra chegar mais próximo de você, pra fazer reunião, pra fazer planejamento. Tudo que pode o nosso diretor, a nossa coordenadora está fazendo. ESCOLA LUIS FERREIRA LIMA No dia 8 de dezembro, nos dirigimos às oito horas da manhã para a Secretaria da Educação. Como não havia transporte disponível, pois todos os carros da secretaria estavam mobilizados para a realização da Prova Ampla (avaliação externa do município), fomos de táxi para a escola rural, acompanhados pela professora Rosélia, que nos apresentou aos gestores escolares e informou sobre as finalidades de nossa visita à escola. Deixou-nos à vontade para a realização do trabalho, avisando que não ficaria conosco durante o dia, visto que tinha outros compromissos naquele horário. Fomos recepcionados então pela diretora da escola, professora Débora Cristina Santiago, pela vice-diretora, Maria de Fátima Sombra Rosa e pela coordenadora, professora Francisca Hildamar Barreto. De início, ficamos na sala dos professores, onde nos apresentamos e informamos sobre o que faríamos na escola. Neste ensejo, os membros gestores também se apresentaram, bem como organizaram, em seguida, nossa visita pelo espaço escolar. 28 Começamos pelas turmas que estudam em horário integral, um total de cinco turmas: uma de 1º. ano, duas de 2º. e duas de 3º. Juntas, as turmas somam 129 alunos, revelando uma média de 26 alunos por turma. Apesar de não ser um número excessivo por sala, nesta escola os espaços não são amplos. O horário integral acontece por adesão, ou seja, os alunos frequentam se quiserem. Segundo as professoras, quase ¾ dos alunos fazem opção pelo horário integral nestas turmas. As turmas que não têm horário integral são atendidas pelo projeto de Jornada Ampliada, cuja participação também é opcional. Quadro 10 - MATRÍCULAS na ED. INFANTIL e ENSINO FUNDAMENTAL 2009 Etapa Menos de 7 horas 7 horas ou mais Total Creche 13 0 13 Pré-escola 39 0 39 Total Educação Infantil 52 0 52 Anos Iniciais E. Fundamental 85 129 214 Anos Finais E. Fundamental 107 0 107 Total Ensino Fundamental 192 129 321 TOTAL GERAL 129 373 Fonte:Censo Escolar 2009 244 29 FOTO 10. Paisagem em frente à escola Luis Ferreira Lima (arquivo da pesquisadora) A seguir, apresentamos a descrição da dinâmica das turmas de horário integral realizada por uma das professoras. Como, nesta escola, o horário integral é optativo, as atividades de ampliação acontecem no contraturno. Isto favorece, como se vê, neste depoimento, que as atividades chamadas de tempo integral sejam consideradas aquelas que acontecem após as aulas curriculares, revelando uma noção pouco articulada entre elas. Pela manhã eles frequentam a série que eles estão, né, tendo as aulas normais. E quando termina o horário da aula é que começam as atividades de tempo integral... as meninas e os meninos vão para o banho, depois do banho tem o almoço. Após o almoço eles vão pro escovatório, né, aí vão pra uma sala, todo mundo bota os colchões...já tem os colchões na sala, aí vão dormir. Tem uns assim que chegam já dormem...Aqui quem dá o banho no aluno é o professor. Quem acompanha o aluno na hora do repouso é o professor, quem acompanha o aluno na hora da refeição também é o professor. Enquanto nos encaminhávamos para as salas de aula, percebíamos os espaços e a estrutura da escola. Se por um lado ela se revelava pequena, simples, com poucos recursos, por outro exibia grande empenho em oferecer naquele lugar um ambiente acolhedor. Um bom exemplo desta dedicação 30 estava no impressionante jardim cultivado por um funcionário ―faz tudo‖. Parecia um oásis no deserto, revelando que, em meio à precariedade, emerge a vontade de fazer. Mais abaixo, mostra-se a foto do jardim. FOTO 11. Corredor de acesso a salas de aula (arquivo da pesquisadora) Visitamos inicialmente uma sala de 3º ano, em que a professora contava histórias para os alunos. O acompanhamento desta atividade foi feito pelas integrantes do núcleo gestor da escola, despertando nosso interesse em presenciá-la. Em cada sala que passamos, fomos apresentados à professora e aos alunos, momento aproveitado para uma rápida conversa. Um aluno estranhou o dialeto da professora Lúcia, reconhecendo não ser o mesmo do local. O mais interessante foi saber que, coincidentemente, a professora estava ensinando os diversos dialetos do povo brasileiro... A escola Luis Ferreira Lima conta com uma boa quadra esportiva coberta, reformada recentemente; belo e bem cuidado jardim já mencionado; uma saleta para as atividades de artes plásticas; um laboratório de informática, composto por cinco computadores e uma impressora, mas que também abriga um aparelho de TV e um de DVD; dois banheiros para uso exclusivo dos alunos e uma modesta cantina. As salas de aula são bem cuidadas, mas visivelmente pobres; recorre-se a um anexo, a cerca de 100 metros da escola, para comportar a creche. Finalmente um pátio que, como fica no centro da escola, serve para tudo, inclusive de refeitório na hora do almoço para os 31 alunos do horário integral. Há reconhecimento, por parte da equipe gestora, das limitações impostas pela ausência de espaço físico ou de recursos humanos, como se pode ver: FOTO 12. Quadra e jardim (arquivo da pesquisadora) A gente queria que a cada ano ... não parasse na terceira série, já seguiria na quarta série, da quarta pra quinta. Mas por conta de espaço físico ... não adianta a gente querer dar uma passada maior do que as pernas, né? ... a gente só faz o que está ao nosso alcance e mais um pouquinho. E eu gostaria que existissem mais recursos humanos, mais profissionais direcionados pra determinadas áreas dentro do processo do projeto de tempo integral. Se não existir na escola, se todos não derem as mãos, perceberem a dificuldade e realmente abraçarem a causa, não tem condições de um sobreviver sem a ajuda do outro; professores, principalmente, que abraçam a causa, porque são eles que estão diretamente ali com a mão na massa com os alunos, né? Presenciamos diversas atividades, como o banho, a preparação da refeição, o desenvolvimento dela, apresentações. Constatamos como a falta de condições materiais sobrecarrega o trabalho de todos. O banho ocorre na situação mais improvisada possível. São dois banheiros, um para meninos e outro para meninas, tão pequenos para aquela quantidade de crianças que não 32 dá para acompanhar como eles se entendem, como sabem onde está e qual é a sua toalha, onde está sua roupa e coisas desse gênero. É surpreendente, mesmo com ajuda de uma mãe ou outra. FOTO 13. Sala de aula com contadora de histórias (arquivo da pesquisadora) A refeição é outro malabarismo diário. As merendeiras, numa cozinha mínima, preparam alimentação para mais de 100 pessoas, porque além dos alunos, estão presentes as professoras e os próprios funcionários que lá permanecem o dia inteiro. Quem serve? A equipe pedagógica, inclusive a diretora, para dar um certo descanso às professoras, que permanecem o dia inteiro com os alunos, e para cobrir o pessoal da cozinha, que não dá conta de preparar a comida, lavar utensílios e servir. Não há tumulto, uma grande tranquilidade. As crianças comem sentadas no chão. É a maneira possível de atendê-las. Transcrevemos o depoimento de uma professora: O principal seria o refeitório, porque as nossas crianças comem tudo no chão. Essa é uma escola com muito tempo em tempo integral, não era mais pra existir as crianças comendo no chão. Nós não temos quase banheiro, temos um banheiro e muitas vezes temos que nos deslocar lá pra uma creche vizinha pra banhar as meninas, porque o banheiro não dá. 33 A necessidade de espaço é claramente explicitada pelas professoras das turmas de horário integral. Quando perguntadas sobre o que falta para a implementação desta modalidade de atendimento, a resposta é imediata: refeitório, banheiro, sala para o sono. É de se frisar a preocupação com a higiene, seja para a sala de aula onde as crianças vão dormir, que é lavada no horário do almoço, seja para a refeição – o pátio é rigorosamente limpo antes das crianças sentarem no chão para comer; as pessoas que servem estão, inclusive, com touca para prender o cabelo. Procura-se o melhor, dentro das circunstâncias. Outra carência que as professoras apontam é de recursos humanos. A rotina, já descrita acima em depoimento de professora, implica que no horário entre 11 e 13 horas desenvolvam-se atividades específicas das turmas de horário integral: banho, almoço, escovação de dentes e repouso. Para esta atividade há uma escala: três professoras a cada dia são responsáveis pela tarefa, de maneira que numa semana cada uma desempenha esta função duas vezes e na seguinte uma vez. A partir das 13 horas, vêm as atividades chamadas de horário integral: de 13h às 15h é o reforço, que é dado pela professora da própria turma. Depois do lanche da tarde, começam atividades de artes, vídeo, ou recreação. Neste horário, uma das professoras é liberada para seu centro de estudos, de forma que as outras dão conta das atividades. Os depoimentos abaixo ilustram a difícil jornada do professor, sua disponibilidade para o trabalho e também um certo ressentimento: A gente não tem professor pra dá recreação e não temos professor pra arte. Todo trabalho tudo só com a gente... arte e educação é mais maneiro você dá na sala de aula...a parte mais cansativa é de educação física que é na quadra, né? Como você já está um pouco esgotada da semana todinha, quando chega na quadra, você já não tem esse rebolado todo não. Mas é claro que a gente dá atividades bem diferentes ... recreação, mas fica um pouco puxado por conta disso. 34 Foto 14. Pátio onde almoçam e jardim (arquivo da pesquisadora) Gostar a gente gosta de trabalhar, a gente só acha ruim assim, porque faltam recursos humanos. Existem algumas escolas que têm tempo integral e existe professor pra educação física, professor pra artes, existe aquela equipe só pra dormir. Porque se a gente pudesse dormir também ... eu não ligo não, eu me deito no chão junto com eles. Aí você chama a atenção de um e de outro. Porque quando você menos imagina tem um aqui mexendo naquele que tá querendo dormir. A gente se cansa! Em suma, as professoras, quando estão responsáveis pelo horário de 11h às 13h, trabalham 10 horas por dia, de 7h às 17h. No CAIC, como vimos, há monitores para este horário intermediário. Nos outros dias, as professoras trabalham 8 horas, com intervalo de duas horas para o almoço, podendo ir para casa, se quiserem. Neste carga horária está incluído o Centro de Estudos, que não é atividade com aluno, mas é horário de trabalho. Pelo depoimento das professoras, ele é mais dedicado a planejamento e preparação de atividades do que estudo propriamente. É um tempo individual, mas as professoras consideram muito bom poder dispor dele. A reunião do grupo, quando ocorre, é nas sextas-feiras, que não tem horário integral. 35 FOTO 15. Mãe ajudando o banho dos alunos (arquivo da pesquisadora) Professoras e equipe gestora conjugam o entendimento de que a justificativa para a implantação do horário integral é a aprendizagem dos alunos. Consideram que o horário integral na escola é mais produtivo do que se a criança ficasse este tempo em casa, onde não tem oportunidade de dar conta de suas tarefas ou de adotar rotina mais rica em hábitos ou atividades. Indicam que o tempo mais longo de contato entre alunos e professores favorece a aprendizagem porque o professor conhece melhor as dificuldades de cada aluno e tem tempo, na parte da tarde, de intervir no aspecto mais crítico. Entre os argumentos em favor do horário integral, foi mencionado o recorrente ―tirar a criança da rua‖. Por outro lado, a diretora acrescentou um argumento inovador: com esse tempo integral a gente não tem mais do que reclamar ... porque você sabe que a escola vive jogando a culpa pra família, quando a criança não aprende, não é assim? Então, aqui nós não temos mais esse problema. Se o menino aprendeu, ótimo ... fomos todos nós. Se o menino não aprendeu, ainda temos de tentar descobrir como ele vai aprender e motivá-lo a querer aprender. 36 FOTO 16. Jornal da escola (arquivo da pesquisadora) Como no CAIC, as turmas em horário integral são as que estão em processo de alfabetização. Perguntadas sobre como foram escolhidas as professoras para a função, elas próprias falaram que tinham carga horária de 40 horas e que já exerciam o magistério nessas turmas. A equipe gestora acrescentou que essas professoras já tinham passado por processo de formação no Pro-letramento, no PAIC1 e outros projetos de alfabetização. Sobre esta seleção, a equipe acrescenta: Aqui na escola, o professor de tempo integral, ele se doa de todas as formas pra realmente acontecer. Não que os outros não gostem de trabalhar, mas por outros interesses, até por estarem em outras áreas, eu acho que eles não fazem questão de estar em tempo integral. Geralmente a gente conversa bastante com eles e aqueles que têm vontade de participar do tempo integral, a gente dá uma chance da pessoa tentar se engajar com essas coisas que acontecem na escola, dentro da rotina. Às vezes a gente precisa que os professores se dediquem, que cedam mais, que se dediquem mais. E tem vezes que se dedicam numa boa, mas tem vezes que já têm família e que não podem se doar tanto. Porque não adianta ele se comprometer, que vai ficar no tempo integral, e na hora do pega pra capar: não, não posso porque eu tenho 1 Projeto Alfabetização na Idade Certa 37 compromisso, porque eu tenho a minha família. Então eles são bem conscientes, sabem muito bem da importância da seriedade do tempo integral e quando as pessoas assumem o compromisso no início do ano, no meio do ano não pode pular do barco. Tem começo, meio e fim. FOTO 17. Mural com fotos de eventos da escola (Arquivo da pesquisadora) Tanto a equipe gestora como as professoras consideram que o horário integral tem participação efetiva na aprendizagem dos alunos e que isso se reflete nas avaliações externas, como se pode ver no quadro abaixo. Quadro 11: Desempenho na avaliação estadual Níveis de desempenho SPAECE-ALFA % Padrão Não alfabetizado 1,79% 0-75 Alfabetização incompleta 5,36% 75-100 Intermediário 23,21% 100-125 Suficiente 26,79% 125-150 Desejável 42.86% 150 ou mais Segundo a diretora: O resultado é a prova das nossas avaliações, né? A nossa escola é uma escola de tempo integral há alguns anos e as 38 nossas dificuldades de aprendizagem, temos, claro, ainda temos, ainda temos muito o que melhorar, mas no spaece-alfa, principalmente, o resultado foi muito bom. De quinta, precisamos melhorar muito, muito mais, mas quase fomos premiados no spaece-alfa. Mas há entendimentos variados sobre a função do horário integral. Podemos ver professores que consideram a necessidade de reprovação para que a mãe dê valor à escola, apesar de reconhecer que o horário integral traz resultados, como no depoimento a seguir, O aluno de tempo integral, o rendimento dele é ótimo... o aprendizado é totalmente diferente. A criança hoje não tem um acompanhamento em casa. A família só espera pela escola.. Então é um presente grandioso pra família, esse tempo integral, só não aprende mesmo se não quiser. Mas existe caso de reprovação porque infelizmente algumas famílias ainda não mandam a criança pra ficar o dia todo, mandam só pelo período da manhã. A criança não quer vir e a mãe não manda. Já tem criança que chora pra vir e a mãe não deixa. Eu acho que o pai não deixa porque tem pena “ do meu bichinho passar o dia inteiro na escola“. E aqui tem os horários a cumprir, , os pais não mandam eles pro tempo integral, justamente porque eles não querem cumprir essas regras. Outra coisa assim, que eu culpo... é a criança porque na primeira série, por não poder reprovar, a mãe não valoriza. Tinha aluno ... que no último dia de junho é que ele veio. Aí passa pra segunda série ...não tem condições uma criança que não frequenta a primeira série, na segunda série desenrolar. Eu acho errado, a primeira série era pra reprovar, porque aí a mãe ia dar valor, ia mandar o filho pra escola, porque essas crianças que ficam em reprovação são as que mais faltam. Professores que não são responsáveis por turmas de horário integral têm conhecimento do projeto, apesar de não terem participado de sua discussão. Todos reconhecem que a proposta de horário integral faz parte do Projeto Político Pedagógico da escola e que ele repercute de forma positiva no trabalho que desenvolvem em suas turmas. Alguns destes professores fizeram referência à proposta de jornada ampliada. 39 2.2. Jornada Ampliada No ano de 2006, se iniciou a jornada escolar ampliada de 6 horas diárias, que atendeu toda a rede escolar municipal. A Jornada Ampliada atendeu aos anos iniciais e finais do Ensino Fundamental, subsidiada por recursos provindos de uma verba recebida pela SEMED, por meio de financiamento do Ministério da Educação (MEC). O projeto teve a vigência de um ano, de julho de 2005 a julho de 2006. No ano seguinte, apesar da Secretaria ter submetido projeto ao MEC, não foi atendida porque não foi priorizada segundo os critérios fixados. No entanto, a proposta educacional continuou nos anos subsequentes, constando inclusive como meta para o Ensino Fundamental, conforme o Plano Municipal de Educação (PME) 2006/2009. Implantação progressiva da jornada escolar em tempo integral, prioritariamente para crianças de 6 a 8 anos de idade e, em paralelo, implementar jornada ampliada, pelo menos de 4 para 6 horas diárias, favorecendo o desenvolvimento de uma ação curricular competente, dinâmica, criativa e interessante. ( p.47) A proposta apresentada pelo município no edital do MEC se enquadrava em ações do projeto ―Escola Viva: uma Escola Legal!‖, que previa o desenvolvimento de atividades sócio-educativas nas 38 escolas públicas da rede municipal, oferecendo oficinas de artes plásticas, teatro, dança, música, xadrez e jogos populares, como campeonato de bilha (bolinhas de gude), peão, arraia (pipa), pula-corda, jogo de pedra (RUSSAS, 2005). A realização dessas atividades implicou o aumento de horas diárias na jornada escolar, porque os alunos frequentariam as oficinas num horário em que não estivessem nas aulas regulares. Segundo a secretária de Educação: a jornada complementar está em praticamente todas as escolas. Infelizmente não alcança 100% dos alunosmas eu dependo da própria família,“meu filho não pode ir em outro horário, porque ele tem que apanhar castanha, pra vender, tomar conta dos irmãos mais novos”. Mas a ideia que a gente implantou foi de ser extensivo a quem queira, principalmente 40 os alunos que estão apresentando dificuldades maiores de aprendizagem. Porque no mesmo jeito que a gente tem outros programas de teatro, de dança, de canto, de jornal escolar, todas essas coisas que a gente faz, mas tem o reforço escolar que é preciso ter pros meninos que têm dificuldades de aprendizagem. No ano de 2007, deu-se continuidade com a jornada ampliada em todas as escolas da rede municipal. Em 2008, mesmo com o processo de nucleação de escolas, que reduziu de 38 para 36 as unidades públicas de ensino do município, a jornada ampliada teve continuidade, desta feita promovendo a integração com projetos de outras secretarias. No ano de 2009, pouco articulada com projetos das demais secretarias, atendeu um quantitativo de 3.810 alunos. Percebeu-se uma diminuição do atendimento da jornada ampliada em relação aos anos anteriores e a justificativa para este fato é que, segundo informações da própria Secretaria da Educação, o foco do atendimento passou a ser somente o primeiro segmento do Ensino Fundamental, concorrendo assim para essa redução. Para o ano de 2010, está previsto o atendimento de aproximadamente 12.500 alunos em jornada ampliada nas 36 escolas públicas municipais. Destas, 8 instituições estão programadas para funcionar em regime integral. Esse quantitativo de alunos a serem atendidos revela a ―universalização‖ da jornada ampliada na rede municipal de Russas. Nas palavras da secretária: A gente tem que fazer com o dinheiro que a gente tem e aí as parcerias são coisas muito informais, uma pessoa da comunidade, uma mãe na escola que ajuda. Faz a diferença, porque a boa vontade da comunidade é fundamental. Pra mim já é uma grande parceria você ter uma mãe, um pai que ajudam acompanhando o filho; a parceria da família é fundamental pra isto, ele querer que o filho vá, ele ir à escola pra conversar com o professor. A jornada ampliada de seis horas é vivenciada nos moldes de turno e contraturno. Assim, o aluno estuda as disciplinas clássicas do currículo escolar em um turno, e, no outro, volta à escola para realizar atividades diversificadas como práticas artísticas, esportivas e reforço escolar, com apoio do Programa 41 de Aceleração da Aprendizagem (PADA). O aluno da jornada ampliada almoça em sua própria residência, porém recebe um lanche no intervalo do contraturno. A nosso ver, esta organização da jornada ampliada constitui um grande desafio a ser superado, porque há casos de crianças que não retornam para o contraturno devido à distância de suas casas ou por precisar ajudar nas tarefas do lar. Segundo a secretária: A jornada ampliada, infelizmente, ela é aquela coisa determinada, aquele menino tem uma aula e vem no outro horário pra jornada ampliada. Mesmo assim eu procuro fazer com que os ventos que sopram na jornada ampliada penetrem na sala de aula. A jornada ampliada tem que ser uma atividade ligada ao currículo. Não pode ser uma coisa solta que acontece, como quando você vai a uma festa. A gente já está conseguindo isso em Russas? Tenho certeza que não, mas estamos lutando por isso. Quanto às atividades oferecidas pela jornada ampliada, há uma diversificação em sua oferta pelas escolas. Nos primeiros anos dessa proposta, o leque de atividades era sugerido pela Secretaria de Educação, porém, devido à insuficiência de profissionais da educação para trabalhar nas oficinas, a mesma deixou que cada escola decidisse sobre a oferta das atividades diversificadas, levando-se em conta a realidade concreta de cada comunidade educacional. A partir de então, cada escola elabora e apresenta sua proposta de atividades no contraturno escolar, solicitando à Secretaria o devido apoio financeiro para a realização dos trabalhos. Para a realização destas atividades, comumente são contratados estudantes universitários ou educadores bolsistas, muitas vezes da própria comunidade ou de suas adjacências. Em algumas escolas, pode haver a presença de um profissional ou sujeito voluntário. O corpo de profissionais para trabalhar no contraturno escolar tem sido objeto de preocupações tanto das escolas, quanto da própria secretaria, que reconhecem a insuficiência de pessoal capacitado disponível para a condução de algumas atividades ou oficinas. 42 Segundo Valda, diretora de uma das escolas que desenvolve a jornada ampliada, é difícil a articulação entre os professores do turno regular e os da jornada ampliada, depende da carga horária do professor: Mensalmente a gente se junta... mas é difícil, os professores do horário da manhã, no mês em que a reunião é feita à tarde, esse professor que trabalha na outra escola, a gente não vai contar com esse mês, né? Porque o professor que tem o dia inteiro na minha escola, não importa o dia que eu faça reunião durante o mês, ele está ali. Mas aquele outro, nesse período ele não pode. Então as vezes é necessário até ter mais de uma no mês, depende da situação que a gente está vivendo na escola. Um mês a gente para de manhã, no meio do horário, a gente para pra reunir, pra ver, pra avaliar, ou pra programar, né ... ou então à tarde. Para o desenvolvimento das atividades da jornada ampliada, em geral, costuma-se aproveitar as salas ociosas naquele turno, assim como as demais dependências intraescolares. Assim, existem atividades realizadas desde a quadra de futebol, até o pátio escolar. Por outro lado, as atividades que acontecem fora da escola, em geral, são aulas de campo e visitas que acontecem de maneira esporádica, não mantendo assim uma periodicidade. O espaço é um problema para muitas escolas conseguirem oferecer jornada ampliada. A secretária considera indispensável: ... botar na cabeça das pessoas que elas podem potencializar os espaços que elas têm, né? Porque aí termina sendo inviável. Se eu, pra implantar uma jornada ampliada na escola, se eu tiver que duplicar os espaços que eu já tenho, eu nunca vou fazer isso, porque eu não vou ter dinheiro pra fazer isso. De acordo com a diretora Valda, já se podem ver os resultados. Embora a jornada ampliada não envolva todos, já se vê o aluno mais preocupado com a escola, com mais responsabilidade, maior compromisso com a escola. A jornada ampliada ―foi uma maneira diferente de mostrar pro aluno o que a escola pode ser, né? Acho que eles agora veem a escola com outros olhos”. E de tal forma que os alunos querem sempre mais. Raramente a escola deixa de 43 abrir em final de semana, porque tem atividade da escolinha, da igreja, do esporte, do ensaio da dança ou do coral. Sempre tem um motivo. Para finalizar, um depoimento da secretária de Educação com observação curiosa sobre os professores: Para mim o ganho maior é do aluno, professor também; de certa forma os professores que estão envolvidos nessas atividades que desenvolvem jornada ampliada, também aprendem muito, seja pelo amor, seja pela dor né...? A gente tem lutado muito pra não termos professores contratados na rede, mas é interessante como o professor contratado, ele se envolve, eu não sei o que é isso, assim eu não quero acreditar nisso, mas, por exemplo, a maioria das pessoas que estão na escola rural que você visitou são contratadas e no CAI, são 70% contratados. 3. CONTRIBUIÇÕES E DESAFIOS Além dos números que foram relatados para selecionar Russas como um dos municípios para a realização da pesquisa qualitativa – 50% dos alunos de ensino fundamental beneficiados, ou pelo horário integral, ou pela jornada ampliada e 3 anos de implantação –, a observação das escolas e as informações colhidas em entrevistas confirmaram que, em Russas, a ampliação do tempo de atividades pedagógicas para o aluno vem se consolidando como uma política municipal, apesar de não estar normatizada, e que esta diretriz implementada pela Secretaria Municipal de Educação está assentada em princípios claros, objetivos e coerentes. Pra mim a melhoria do IDEB não é só em função do tempo integral e da jornada ampliada. A melhoria do IDEB é o esforço conjunto, de mecanismos utilizados no foco nos problemas que a gente tem de aprendizagem. É isso que tem que ser atacado. A jornada ampliada serve pra isso, o tempo integral serve pra isso. Tempo de maior estudo pros meninos, pro professor (secretária) A gente fez isso na tentativa de melhorar todos os indicadores, porque o IDEB, ele está aí pra dizer que a gente precisa melhorar, de fato. Mas independente disso a gente viu que 44 precisava fazer alguma coisa pelos nossos alunos, porque a grande maioria deles, o único espaço é a escola. (Coordenadora) A secretária, que está em sua segunda gestão, conta com a confiança de uma equipe que conseguiu consolidar, entre outros aspectos, porque se beneficia da credibilidade que desfruta junto ao prefeito. Para assumir a função, estabeleceu condições; por exemplo, é ordenadora de despesas, ou seja, os recursos da educação são decididos na Secretaria de Educação. Mas o crédito do prefeito não seria suficiente, se ela não gozasse da evidente confiança que desfruta entre os profissionais de educação que trabalham nas escolas. Porque essas coisas do (governo) Estado se acabam no meio do caminho. Aí eu vim pra ponta (município), porque é aqui que as coisas acontecem. A gente pensou tanta coisa lá (na Secretaria Estadual) e ela não chegava na ponta. E eu estou vendo que de fato...não fica muito claro pras pessoas que estão na ponta, as coisas vem muito de cima pra baixo. (secretária) Como afirmado pela secretária, “a escola básica é o meu chão, é o meu teto e o meu espaço pra trabalhar as coisas na universidade”, no centro das políticas adotadas está a preocupação com a aprendizagem das crianças e é neste sentido que está inserida a proposta de ampliação da jornada escolar, atingindo o horário integral ou não. Se alguém pega o jornal da prefeitura de Russas, constata que a notícia mais importante diz respeito à educação; e se lê o boletim da Secretaria Municipal de Educação, salta aos olhos a diversidade de investimentos que estão sendo feitos – esporte, arte, dança, música, leitura, informática e muitos outros – na escola, na praça, no ônibus Brincarte, em clubes, nos mais variados espaços. Mas poderia ser só propaganda, se não ficássemos convencidos da sua concretude nas escolas e da familiaridade que alunos, professores, pais têm com as propostas desenvolvidas. Porque assim, o menino que faz dança, a gente queria envolvê-lo ... a gente sempre pediu que os meninos que estivessem com alguma dificuldade, eles estivessem envolvidos em alguma atividade, pra ver se ele começava a ganhar estímulo de querer, de participar ... pra ajudá-lo, de 45 certa forma, e até motivação pra voltar pra escola, pras atividades ... que a gente diz que são as atividades regulares (coordenadora na Secretaria Municipal de Educação) Assim se vê que apesar dos recursos escassos de que o município dispõe para aplicação no sistema de ensino, eles têm um eixo orientador, qual seja, o processo de aprendizagem, além de sentido de prioridade na aplicação dos mesmos, o foco na alfabetização. Segundo a professora Bernadete, a arrecadação municipal, ela não é grande coisa, infelizmente. A gente não tem muitas fábricas no município, a gente sobrevive basicamente das transferências... tipo FUNDEB, salário educação. Tem um dinheiro que vem pro transporte escolar, uma parcela bem grande.... merenda escolar ... a jornada ampliada, assim, não tem um dinheiro destinado pra esse segundo tempo da criança. como não conseguia ampliar em tempo integral para todos, vamos oferecer a jornada ... pra garantir mais tempo. (A secretária) disse muitas vezes: tempo com qualidade. Porque muitas vezes o dificultador é esse, é dar qualidade a esse tempo que essa criança passa na escola. Vimos que na introdução da política de ampliação da jornada, a secretaria entendeu o professor como peça-chave para sua efetivação. Ficou clara a necessidade de investir na formação do professor, como também de oferecer condições de trabalho apropriadas para que os resultados pudessem emergir. Assim, estabeleceu-se uma diretriz de reorganização da rede de escolas eliminando, sempre que possível, as turmas multisseriadas, ação denominada nucleação. Nós estamos organizando a Rede. Ano passado a gente conseguiu nuclear dezoito escolas. Não é fácil ... Porque a comunidade quer a escola lá na comunidade, bem pertinho dela. A gente entende, mas a gente também entende que não adianta o professor ficar trabalhando com um número elevado de séries, quando ele não consegue dar uma assistência. E não porque eles não queiram, é porque não dá, é impossível. Então eu tenho uma primeira série que os meninos são 46 diferentes. Aí eu junto uma primeira, uma segunda e uma terceira e boto com um pobre de um professor tomar conta disso e querer dar resultado... espera aí, você não está querendo bons resultados, né? A gente tentou mostrar isso pros pais. Mesmo assim tem alguns que não admitem, não compreendem ... (secretária) De outro lado, foi estabelecida carga horária remunerada para que o professor tenha seu tempo de estudo e planejamento na escola. Uma ação como esta, pode se desdobrar em outras dentro do espaço escolar, como se viu, por exemplo, na ousadia / rebeldia de um diretor para construir, instalar e promover a utilização do Centro de Estudos, dentro do CAIC. É um avanço que denota uma compreensão de educação e um sentido de prioridade: um investimento que proporciona ampliação de conhecimentos, integração pedagógica, identificação com o trabalho realizado e com o espaço profissional, e explica, entre outras ações, o orgulho da equipe em usar com tanta vibração a camiseta ―100% CAIC‖. eu implantei o piso salarial com as horas de estudo na escola. Todo nosso professor ... se tem vinte horas, ele tem seis horas de estudo na escola, se tem quarenta, ele tem 12. É quase um terço; o professor tem que ter os direitos dele assegurados. Quero um plano de formação do professor na escola. A vida inteira eu defendi que o melhor local da formação do professor era a própria escola. A formação só vem pra Secretaria nas palestras que eu trago, num projeto específico, como é o PAIC que tem todo um apoio do governo do estado, aí vem pra cá o pessoal, mas na verdade é investida a formação do professor na escola, dentro das dificuldades, dentro dos problemas dele. (secretária) Como nós implementamos o piso com seis horas de estudo pra cada vinte horas ... os estudos passaram a ser nas escolas. Cada escola elaborou um calendário de formação... quais as suas maiores dificuldades? No primeiro ano? No segundo? No quinto? E aí o coordenador pedagógico, dentro daqueles tempos, fazia a formação com o professor. Então o tempo era pra formação, planejamento e pra registro. (coordenadora) 47 Como se reconhece que o bom desenvolvimento do projeto depende do professor, é necessário que ele compreenda algumas condições que estão implicadas na adoção de políticas de ampliação da jornada. Segundo a secretária, é indispensável ―o professor aceitar, o professor querer, o professor se sentir parte daquele sucesso” ...E para isso há “as desaprendizagens que o professor tem que fazer”. Segundo a secretária, “eu não posso mexer na escola se eu não dou oportunidade pro professor ver coisas diferentes”. Ela afirma que determinados lugares-comuns que são repetidos reiteradamente pelos professores têm que ser desconstruídos. Por exemplo, ―ah, „porque o menino não quer nada‟. Será que não quer nada, ou não teve oportunidade de ver outras coisas diferentes?”. A professora Bernadete lembrou outro aspecto: a separação que alguns professores fazem entre o conteúdo e a atividade lúdica, como se o conteúdo não pudesse ser introduzido de forma lúdica. Também é verdade que esta compreensão poderia se desenvolver mais se, no próprio planejamento do tempo, houvesse espaço maior para brincadeiras ou atividades livres, além das que são previstas no horário do almoço: Porque outra coisa que a gente tem tentado também colocar na cabeça do professor, principalmente daqueles que trabalham em tempo integral, que as atividades elas não precisam ser de manhã as atividades difíceis, que são as atividades de conteúdo e à tarde todas as atividades lúdicas. A gente tem dito que as atividades elas têm que estar o tempo todo assim. (coordenadora) O sucesso da ampliação da jornada escolar em Russas também se evidencia na autoestima de alunos e professores, que é estimulada de várias formas. O clímax deste processo se dá com o show da integração, que ocorre anualmente. Neste evento, grupos de alunos das diversas escolas exibem para os cidadãos de Russas o resultado do seu aprendizado em artes, literatura, esporte e tudo o mais que tenham desenvolvido, relacionado à temática lançada no início do ano para todas as escolas do município. Eles se apresentam na praça principal, no mesmo espaço em que se apresentam 48 artistas profissionais quando contratados pela prefeitura. Os alunos vibram e os professores sentem orgulho pelo trabalho realizado. Se você pegar o regulamento do show da integração e ler, você vai ver que nós empurramos a escola pra começar a construir o show da integração no primeiro dia de aula. Nós temos um tema que vai ser desenvolvido ao longo do ano e aí você monta as danças em cima do tema, monta peças de teatro. Foi assim desde o começo? Claro que não foi. A gente foi aprofundando ... O primeiro show da integração, quando eu vi as atividades, eu falei assim: meu Deus, não fizemos nada. Então, vamos pro segundo. Vamos montar um regulamento “vixe professora, mas vai burocratizar? Não, é bom fazer um regulamentozinho, né?”. Então fizemos um e ainda não alcançamos o suficiente. No show deste ano, como o regulamento orientava melhor, eu fiquei morta de feliz. A gente montou umas tendas, uma tenda era das linguagens e aí a gente expôs todos os cordéis que os meninos fizeram Fizemos uns painéis com as poesias que eles criaram ... porque a gente fez sarau de poesia nas escolas. Porque isso é uma forma de aprender português de forma interessante, feitas pelos meninos. Nós tivemos um festival da canção, onde ele tinha que escrever a letra da canção. Fizemos um palco de artista e eles iam se apresentar. O mesmo palco que a prefeitura contrata pra fazer a grande festa do município foi contratado pros meus artistas das minhas escolas. Claro, eu quero que esse meu menino tenha autoestima, se sinta uma pessoa competente, porque isso vai ajudando na aprendizagem dele, né? Eu fiquei muito feliz com o show da integração deste ano. O salão de feitos históricos e cenários geográficos, apareceu coisa lá. E aparece porque os professores se esforçam, buscam. Eu sempre digo que o grande parceiro nosso tem que ser o professor. É ele quem tem que comprar a idéia e querer fazer. (secretária) Este longo depoimento ilustra a identidade que vem se criando da criança e do professor com a escola, neste processo de investimento na ampliação da jornada escolar. A própria secretária se refere aos ―meus artistas das minhas escolas‖, indicando que este sentimento de posse, que poderia ser lido com ressalva por uma apropriação personalizada do trabalho coletivo 49 realizado, de fato indica um profundo sentimento de identidade com o que vem sendo desenvolvido pela rede de ensino de Russas. Esse orgulho é visível em cada canto das duas escolas visitadas, mesmo que tão desiguais nas condições de implementação dos projetos: os painéis de fotografias, as apresentações, o campeonato, a fala das professoras e coordenadoras e o incansável trabalho das equipes. Mesmo na Secretaria de Educação, nada ali tem o ranço de burocracia – a sala da secretária é usada para diversas finalidades, interpretada da mesma forma como devem ser os espaços polivalentes nas escolas. Projeto Nota Dez? Longe disso. Faltam recursos, faltam espaços, faltam profissionais. A gente tem tentado mostrar pro professor que não precisa ter um espaço próprio pra desenvolver atividade. Eu tenho que começar a fazer atividades aproveitando os espaços que a escola pode oferecer. Porque de fato a nossa cultura ainda é muito de prédio. A escola não tem uma sala, tem que ter uma sala. E nem sempre precisa da sala. De repente a gente tem a sala e a atividade nem acontece da forma que deveria acontecer, né? (Secretária) Tem uma escola aqui que ela tem uma árvore enorme, ela dá uma sombra legal. Então os meninos fazem atividade de música lá, embaixo da árvore. Por quê? Porque às vezes todas as salas estão ocupadas. Então ele não vai deixar de ter uma atividade ... a gente vai criando alguns espaços. Lógico, não é ainda o espaço, às vezes ideal, eles não têm aí todas as condições físicas. (coordenadora) Eu queria que todos tivessem teatro, todos tivessem dança, todos tivessem artes plásticas, todos tivessem música. Mas aí você não encontra lá uma pessoa que faça isso. Aí você imagina eu mandar daqui pra Lagoa Grande todo dia uma pessoa... esse distrito fica a cinquenta quilômetros da sede. Eu não consigo uma pessoa pra mandar lá. Então eu pretendo localizar lá alguém que possa se envolver, se enquadrar. (coordenadora) 50 Mas há uma compreensão clara do que se faz necessário para o processo de aprendizagem das crianças das classes populares por parte da secretária e de sua equipe e de gestores e professores das escolas visitadas. Esta compreensão abrange todos os profissionais? Não. Mas há vontade de fazer e uma grande dedicação ao trabalho, por parte de muitos deles. Há indícios destas conclusões no depoimento que se segue. Eu acho que você não tem que estar inventando a roda, né? Então o trabalho realizado tem o que a gente viu nas outras pessoas, nos outros municípios, nos outros estados. E a vontade que a gente tem de fazer diferente, de tentar fazer com que a escola fique mais alegre, mais interessante, porque também eu acho que o menino que vive solto na rua, correndo e jogando lata, pelada ... não gosta de ficar dentro de uma escola carrancuda, horrorosa, punitiva, não gosta não. E eu não posso aprender sem gostar, eu tenho tempo disponível pra aprender e pra isso eu tenho que ter um professor que crie essa motivação pra aprender. Então, além de ampliar o tempo dele, eu preciso estar mexendo na cabeça do nosso professor, que eu brinco com eles e eles não gostam, que na verdade durante muito tempo a gente esqueceu que a escola era a escola da aprendizagem e virou a escola da ensinagem ... infelizmente. (secretária) REFERÊNCIAS CAIC SENADOR CARLOS JEREISSATI. Projeto Político Pedagógico 2009. IBGE. Cidades: Russas, CE. http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow. htm. INEP. Censo Escolar 2005 e 2007. http://www.inep.gov.br/basica/censo/default. asp. MEC/SECAD. Educação Integral / Educação Integrada e(m) Tempo Integral: Concepções e Práticas na Educação Brasileira, 2009. http://portal.mec.gov.br /index. php?option=com_content&view=article&id=12372&Itemid=817. 51 PREFEITURA DE RUSSAS. http://www.russas.ce.gov ROCHA, Limério Moreira da. Russas: 200 anos de emancipação política. Fortaleza: Banco do Nordeste, 2001. 52 II – NATAL - RN Janaína Specht da Silva Menezes 1. Introdução Este relatório apresenta os resultados da pesquisa de campo realizada em Natal/RN, o qual tem por objetivo descrever as experiências de jornada escolar ampliada no ensino fundamental implementadas pela Secretaria Municipal de Educação, na perspectiva da educação integral dos alunos envolvidos. Na condição de integrante da etapa quantitativa de uma pesquisa desenvolvida em âmbito nacional, a rede municipal de Natal foi selecionada 2 para a realização do estudo de caso devido ao fato de, entre os municípios da região Nordeste3, apresentar quatro experiências de jornada escolar ampliada4, todas com tempos de implantação distintos (uma com quase quinze anos e as demais, mais recentes), as quais contemplam um número significativo de alunos, bem como por ter evidenciado avanço no seu IDEB, no período 20052007. Além disso, a rede se destacou por apresentar um projeto educacional que tem como uma de suas diretrizes a educação (em tempo) integral. A esse respeito, vale observar que a Secretaria Municipal de Educação contempla em sua estrutura organizacional um setor denominado Setor de Educação em Tempo Integral (SETI). 2 Os critérios de seleção levaram em consideração: (1) o número de experiências, (2) o número de alunos envolvidos, (3) o tempo de implantação, (4) o avanço do IDEB e, (5) a possibilidade de contemplar a diversidade. 3 Da região, foram selecionadas também as redes municipais de Recife/PE, São Sebastião do Passe/BA e Russas/CE, cujas análises constam em relatórios específicos. 4 Constavam no questionário respondido pelo município quatro experiências: Ações Educativas Complementares, Educação Integral, Pelotão de Saúde e Grêmios. A pesquisa de campo permitiu perceber que as duas últimas experiências citadas ocorrem durante o turno regular, não constituindo ampliação da jornada escolar, motivo pelo qual foram excluídas da etapa qualitativa da pesquisa. Por sua vez, a denominação “educação Integral” abarca tanto o Programa Mais Educação quanto as Oficinas de Aprendizagem em Língua Portuguesa e Matemática, ministradas no contraturno escolar, além dos Núcleos Educacionais de Apoio ao Educando. Sendo assim, a etapa qualitativa da pesquisa incidiu sobre as seguintes experiências de jornada escolar ampliada: Ações Educativas Complementares, Oficinas de Aprendizagem em Língua Portuguesa e Matemática, Núcleos Educacionais de Apoio ao Educando e o Programa Mais Educação. 53 A pesquisa5 foi realizada no período compreendido de 5 a 9 de abril de 2010, ocasião em que (1) se conheceu a Secretaria Municipal, e de forma mais detalhada o Setor de Educação em Tempo Integral e o Departamento de Atenção ao Educando, (2) foram realizadas visitas a quatro escolas e a uma unidade dos Núcleos Educacionais de Apoio à Criança e ao Adolescente (Tributos), bem como (3) foi visitado o Centro Municipal de Referência em Educação Aluízio Alves (Cemure). Durante este período foram entrevistados: No âmbito da Secretaria Municipal de Educação: o secretário municipal de educação, a diretora do Departamento de Atenção ao Educando, a chefia do SETI, a coordenadora geral do Programa Mais Educação/SETI e cinco assessoras pedagógicas. No âmbito das escolas: diretores (quatro), coordenadores da experiência (quatro), monitores (doze), alunos (nove) e mães de alunos (cinco). No Núcleo Educacional de Apoio à Criança e ao Adolescente: coordenadora administrativa, alunos (dois) e mães de alunos (seis). Os contatos iniciais foram realizados por telefone, diretamente com o Setor de Educação em Tempo Integral e, desde o primeiro momento, todos os envolvidos revelaram grande receptividade e disponibilidade em colaborar com a pesquisa. Destaca-se que, além das visitas, das entrevistas e dos grupos de discussão (realizados com monitores, alunos e mães de alunos), foi disponibilizada uma quantidade significativa de documentos – legislações, relatórios, apresentações em power point, fôlderes de eventos, entre outros –, utilizados na elaboração deste relatório. Tendo por base as considerações anteriores, este documento está organizado em quatro partes. A primeira contextualiza o município de Natal. A segunda focaliza a educação, tomando como referência a Secretaria Municipal de Educação, suas responsabilidades para com os diferentes níveis da 5 A pesquisa de campo foi realizada pela professora Janaina Specht da Silva Menezes, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e pela bolsista Caroline Machiori, estudante do curso de Pedagogia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 54 educação básica e seus indicadores educacionais. Já a terceira, parte do estudo da educação (em tempo) integral em Natal para descrever as experiências de jornada escolar ampliada que vêm sendo postas em prática pela Secretaria Municipal de Educação. Por fim, embora durante a descrição das experiências o texto abarque seus avanços e desafios, a última parte resgata, de forma geral, algumas contribuições e desafios comuns a elas. Ressalta-se que este relatório, em função, entre outros aspectos, dos limites de tempo impostos à realização da pesquisa, não tem a pretensão de analisar a temática de modo completo. Pretende apenas contribuir com as reflexões acerca das experiências de jornada escolar ampliada, postas em prática pela rede municipal de ensino fundamental de Natal. Nesse sentido, espera-se que este estudo possa contribuir para o aprofundamento das experiências, bem como orientar outras pesquisas... 2. Natal: Cidade do Sol Só em Natal tem essas coisas. A estrela repetida no forte da pedra...Uma cidade coberta de elísios, embalada pela canção dos pescadores, enfeitada de um lado e de outro, rio e mar, pelos azuis e verdes e pelas jangadas. Que cidade maior e melhor? Não existe. Nenhuma. (NAVARRO6, 1974). A cidade de Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte, está situada no litoral leste potiguar, localizado no Nordeste do Brasil. Fundada pelos portugueses, em 25 de dezembro de 1599, é banhada pelo rio Potengi e pelo oceano Atlântico. Dotada de muitas belezas naturais, sua proximidade com a linha do Equador faz com que se constitua em uma das cidades com o maior número de dias de sol no País, motivo pelo qual é conhecida como a Cidade do Sol. O município de Natal ocupa uma área de aproximadamente 170 quilômetros quadrados, com uma população estimada, em 2009, de 806.203 66 Nascido em Natal, Newton Navarro (1928-1992) destacou-se como dramaturgo, poeta, desenhista e pintor. 55 habitantes, apresentando uma densidade demográfica de 4.734,07 hab/km² (IBGE, 2009). Com o objetivo de promover a descentralização gerencial, em 1989, o município foi dividido em quatro regiões administrativas: Sul (mais nova e, também, a mais rica), Leste (mais antiga, detentora dos bairros mais tradicionais), Oeste (abriga a população menos favorecida) e Norte (a maior, e também pouco favorecida economicamente). A economia de Natal está assentada, prioritariamente, no turismo e na indústria têxtil, sendo que seu Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), em 2000, foi 0,788, superior aos índices médios do Rio Grande do Norte (0,637), do Nordeste (0,610) e do Brasil (0,699). Embora esteja na primeira posição no ranking estadual, ocupa a 838ª posição nacional deste indicador (UFMS, 2010). A esse respeito, vale destacar que estudo realizado pela Secretaria Municipal de Planejamento e Gestão Estratégica revelou que, apesar do Índice de Desenvolvimento Humano de Natal ser considerado bom, o município é marcado por fortes desigualdades, em termos de qualidade de vida, entre as regiões mais ricas e as mais pobres da cidade (BARROSO, 2003). No período de 1996 a 2007, sua população apresentou um crescimento da ordem de 18,5%, resultado, especialmente, de processos migratórios do campo para a cidade (interior para a capital). Nas últimas décadas, o crescimento do município foi tamanho que acabou conurbando com os vizinhos, de modo que, atualmente, sua taxa de urbanização é de 100% . Os impactos dos processos migratórios vêm contribuindo para o aumento das demandas sociais no município, onde ―há desequilíbrio entre oferta e demanda no atendimento de necessidades básicas: moradia, emprego, saúde, educação, segurança e saneamento‖ (NATAL, 2005a, p.12, grifo nosso). Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad)/2008, o Rio Grande do Norte possui a quinta maior taxa de analfabetismo do país (20,74%), sendo superado apenas por Alagoas, Piauí, 56 Paraíba e Maranhão. Em meio a este contexto, a taxa de analfabetismo de Natal – 11,9%, em 2000 –, até pode parecer não tão significativa. O Plano Estratégico de Desenvolvimento Sustentável da Região Metropolitana de Natal apresenta a capital como uma metrópole em formação, caracterizada por tendência ao dinamismo econômico e por uma evolução sobre um sítio físico de grande fragilidade ambiental, marcado pela presença significativa de populações socialmente vulneráveis. Nesse sentido, é importante destacar que o preço elevado do solo tende a empurrar, gradativamente, os mais pobres para as áreas de proteção ambiental (UFRN, 2010)7. Com vistas a focalizar de forma detalhada a educação na rede municipal de Natal/RN, a próxima seção apresenta inicialmente algumas considerações sobre a Secretaria Municipal de Educação de Natal, para, na sequência, destacar alguns de seus indicadores educacionais. 3. A educação em Natal: A Secretaria Municipal de Educação e seus indicadores educacionais Compete à SME: Elaborar e coordenar a execução das políticas e diretrizes educacionais para o Sistema de Ensino do Município. (Lei n° 5.339/2001, art. 6°, inciso I) A Secretaria Municipal de Educação de Natal (SME) foi criada em 19 de dezembro de 1959, passando a se constituir o órgão gestor da rede municipal de Natal. Em 10 de dezembro de 1992, por meio do decreto n° 4.927, foi instituído o Sistema Municipal de Ensino8, o qual, atualmente, está regulamentado pela lei n° 5.339, de 27 de dezembro de 2001, passando a se denominar Sistema de Ensino do Município de Natal. A esse respeito, no que tange ao contexto estadual, convém evidenciar que, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, apenas 15 (9%) dos 167 municípios 7 http://www.cchla.ufrn.br/rmnatal/relatorio/metro2.pdf A constituição dos sistemas municipais de ensino no País deve-se ao fato de a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional ter previsto sua criação (art. 18, incisos I, II e III). Essa possibilidade jurídica só foi possível devido a Constituição Federal de 1988 ter alçado os municípios à condição de entes federados e, sob a esta possibilidade, poderem, se assim o desejarem, constituir sistemas próprios de ensino . 8 57 integrantes do Rio Grande do Norte apresentavam sistemas de ensino próprio (IBGE, 2010)9, fato que coloca em destaque, neste contexto regional específico, pelo menos no que tange às condições organizativas, a educação destes municípios e, em especial, a educação de Natal, capital do estado. O Sistema de Ensino de Natal é integrado pela Secretaria Municipal de Educação, o Conselho Municipal de Educação (CME), as escolas da rede municipal de ensino, as escolas privadas conveniadas de educação infantil, as creches públicas municipais, as creches privadas conveniadas, a Secretaria Especial de Esporte e Lazer (SEL), a Secretaria Municipal de Trabalho e Ação Social (Semtas) e a Fundação Cultural Capitania das Artes (Funcart) (lei n° 5.339/2001, art. 5°). Observa-se que a integração efetiva destas três secretarias (SME, SEL e Semtas), entre si e com a Funcart, faz-se de grande importância para o desenvolvimento da educação, na perspectiva da formação integral do aluno, imbricando educação, esporte, cultura e, sempre que necessário, ação social. Importante reiterar aqui que compete ao referido sistema, em caráter de obrigatoriedade e gratuidade, o atendimento prioritário à educação infantil e ao ensino fundamental, inclusive nas modalidades educação de jovens e adultos e educação especial (lei n° 5.339, art. 4°). De acordo com a Resolução n° 04/2007, aprovada pelo Conselho Municipal de Educação de Natal, o ensino fundamental está organizado em nove anos de escolaridade. Com início aos seis anos de idade, está distribuído em anos iniciais (do 1° ao 5° ano) e anos finais (do 6° ao 9° ano). A estrutura básica da SME-Natal encontra-se regulamentada pelo decreto n° 8.777, de 2 de julho de 2009, e, conforme seu organograma, compõe-se de dois órgãos de execução programática: a Secretária Adjunta de Gestão Pedagógica10 e a Secretaria Adjunta de Gestão Escolar11. 9 O mesmo estudo mostra que, em 2009, dos 5.565 municípios brasileiros, apenas 2.898 (52,1%) haviam constituído sistemas de ensino próprios. 10 Integrada pelos Departamentos de Educação Infantil e de Ensino Fundamental e seus respectivos setores. 11 Integrada pelos Departamentos de Gestão Escolar e de Atenção ao Educando, pelo Centro de Referência em Educação Aluízio Alves e pelo Departamento de Engenharia e Arquitetura (art. 2°). 58 Partindo desta breve apresentação da Secretaria Municipal de Educação de Natal, passa-se agora à análise de alguns de seus indicadores estatísticos associados ao ensino fundamental, nível de ensino observado nesta pesquisa. Destaca-se, a priori, que, segundo os dados do Educacenso, a rede municipal de Natal, em 2009, contou com 71 escolas de ensino fundamental, totalizando 40.227 matrículas. Com o objetivo de apresentar um indicador de desempenho educacional associado ao ensino fundamental da rede municipal de Natal, a Tabela 1 apresenta resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB)12. Tabela 1 IDEBs observados em 2005, 2007 e Metas – Brasil e Natal Anos Iniciais Total Pública Federal Estadual Municipal Privada Brasil Rio Grande do Norte Estadual Municipal -Natal Anos Finais IDEB Metas IDEB Observado Observado 2005 2007 2007 2021 2005 2007 3,8 4,2 3,9 6,0 3,5 3,8 Dependência Administrativa 3,6 4,0 3,6 5,8 3,2 3,5 6,4 6,2 6,4 7,8 6,3 6,1 3,9 4,3 4,0 6,1 3,3 3,6 3,4 4,0 3,5 5,7 3,1 3,4 5,9 6,0 6,0 7,5 5,8 5,8 Dependência Administrativa 2,6 3,0 2,6 4,8 2,6 2,7 3,3 3,7 3,3 5,5 3,0 3,2 Metas 2007 3,5 2021 5,5 3,3 6,3 3,3 3,1 5,8 5,2 7,6 5,3 5,1 7,3 2,6 4,6 3,2 5,0 13 Fonte: MEC/INEP Os dados mostram que os resultados do IDEB para o ensino fundamental da rede municipal de Natal aumentaram de 2005 para 2007, sendo que a meta de 2007 para os anos iniciais (3,3) foi superada (3,7), revelando a tentativa da rede, inserida em uma região detentora de baixos resultados, associados a indicadores sociais, de qualificar sua educação. 12 O IDEB constitui-se em um índice de desenvolvimento educacional que considera tanto informações associadas à média de desempenho de estudantes em exames padronizados do INEP (SAEB, para as unidades da federação e para o país, e a Prova Brasil, para os municípios), bem como informações sobre o fluxo escolar (taxa de aprovação, obtida a partir do censo escolar) (FERNANDES, 2007). 13 Disponível em: http://portalideb.inep.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=6&Itemid=6 59 Todavia, há que se destacar que os resultados, tanto para os anos iniciais como para os anos finais do ensino fundamental, encontram-se abaixo da média das redes municipais, bem como das médias para o País, durante os anos de 2005 e 2007. Os baixos resultados associados ao IDEB do ensino fundamental da rede municipal possibilitam concluir que apresentou baixo desempenho educacional associado às taxas de aprovação e/ou aos resultados da Prova Brasil/Saeb, durante os anos de 2005 e 2007. Partindo desta constatação, a Tabela 2 fornece subsídios para investigar esta afirmação de modo mais detalhado. Tabela 2 Ensino fundamental regular – Anos iniciais: Taxa de aprovação, Prova Brasil – Brasil, 2005 e 2007 Taxa de Aprovação Saeb/Prova Brasil SL 1ª 2ª 3ª 4ª 2005 Brasil: redes municipais Natal: rede municipal 88,9 93,9 71,7 95,1 76,1 90,3 81,0 95,6 82,4 65,6 Matemá tica 174,86 159,80 2007 Brasil: redes municipais Natal: rede municipal 92,1 95,9 78,6 96,5 80,6 95,2 85,2 96,3 85,9 70,9 190,06 172,52 Língua Portuguesa 165,07 152,00 172,35 155,20 Fonte: MEC/INEP – Prova Brasil, SAEB e Censo Escolar No que tange aos primeiros anos do ensino fundamental, a análise dos dados permite observar que, embora a rede municipal de Natal, em 2005 e em 2007, tenha apresentado taxas de aprovação bem acima da média nacional (a exceção ocorreu no último ano, em que a taxa de aprovação apresentou resultados significativamente inferiores aos nacionais), os seus resultados na Prova Brasil e no Saeb apresentam-se na direção diagonalmente oposta, ou seja, abaixo da média das redes municipais do País. Vale evidenciar ainda que, embora os dados não estejam aqui apresentados, situação idêntica (altas taxas de aprovação associadas a baixos resultados nas provas padronizadas) pode ser constatada para os anos finais do ensino fundamental. Todavia, a possibilidade de ocorrência deste problema com o IDEB foi detectada por ocasião da discussão conceitual acerca das suas propriedades, que sugerem que ele ―incentiva as unidades escolares (escolas e redes de ensino) a operarem com baixas taxas de reprovação‖ (FERNANDES, 2007, p.16). Em meio a um cenário educacional que evidencia desafios a superar, a ampliação da jornada escolar, como alternativa para o avanço da qualidade da educação, constituiu-se estratégia da SME-Natal. Nesse sentido, a Tabela 3 60 apresenta dados sobre as matrículas no ensino fundamental em tempo parcial e integral. Tabela 3 Natal: Matrícula inicial no ensino fundamental regular, as redes municipal e estadual de ensino – 2009. Dependência Estadual Municipal Anos Iniciais Parcial Integral Total 11.181 4.642 15.823 21.715 3.557 25.272 Parcial 19.710 13.772 Anos Finais Integral Total 4.785 24.495 1.183 14.955 Ensino Fundamental Parcial Integral Total 30.891 9.427 40.318 35.487 4.740 40.227 Fonte: MEC/INEP Os dados possibilitam concluir que 17,5% das matrículas no ensino fundamental nas redes municipal e estadual em Natal, durante o ano de 2009, apresentavam tempo integral. Evidenciam que o primeiro segmento do ensino fundamental concentrou maior percentual destas vagas, sendo que, no caso específico da rede municipal, 14,1% das matrículas nos anos iniciais e 7,9%, nos anos finais do ensino fundamental apresentaram tempo integral. Partindo destes resultados quantitativos, a próxima seção tem por objetivo apresentar evolução da educação (em tempo) integral na rede municipal de Natal, especialmente a partir de aspectos normativos. 4. Educação (em tempo) integral em Natal Toda a pessoa tem direito a uma educação de qualidade, que garanta o pleno desenvolvimento da personalidade humana (Declaração Universal dos Direitos Humanos, art.26). Segundo o documento ―Educação Integral: Comunidade Educadora – Uma Ferramenta para a Cidadania‖ (SME, 2007c), a implantação da educação (em tempo) integral na rede municipal de Natal tem origem na intenção de realização de um trabalho que tenha como foco o desenvolvimento de crianças e jovens em sua totalidade, o qual se faz associar ao atendimento a um dos princípios do ensino, qual seja, a ―garantia de padrão de qualidade‖, disposto na Constituição Federal de 1988 (art. 206, inciso VII), bem como apresenta sustentação no art. 34 da LDB, que determina a ampliação progressiva do período de permanência na escola (Idem; SME, 2008c). A análise do Plano Municipal de Educação 2005/2014, aprovado em 20 de janeiro de 2005, evidencia o compromisso para com a formação integral, em 61 Natal. O Plano destaca o papel insubstituível da educação escolar, a qual deve possibilitar: Uma educação pautada em valores e princípios universais: solidariedade, respeito às diferenças, preservação e promoção da vida, que desenvolva os educandos nos aspectos cognitivo, afetivo e sociocultural, propiciando a formação de sujeitos reflexivos, criativos, comunicativos, autônomos e solidários (p.19). Partindo desta compreensão, a Secretaria de Educação de Natal estabeleceu quatro princípios para a educação municipal: - A educação é um direito social; - Todos os seres humanos são capazes de aprender e o fazem em ritmos diferentes; - Uma pedagogia que promova a construção da autonomia é fundamental para o desenvolvimento pleno do educando; - A educação escolar é o espaço propício para a construção de uma cultura solidária de amor à vida, respeito às diferenças e promoção da paz (Idem). Sem deixar de valorizar o conhecimento historicamente sistematizado, o Plano apresenta que a educação escolar deve abarcar, de forma imbricada, os aspectos multidimensionais do ser humano, como o sociocultural, o psicológico, o moral, o físico e o afetivo, possibilitando-lhes uma formação integral, condição para seu pleno desenvolvimento e exercício da cidadania. No que tange especificamente ao ensino fundamental, nível de ensino objeto dessa pesquisa, o Plano Municipal de Educação, a partir de três diretrizes – que tratam da universalização do acesso, da permanência e da qualidade, além do avanço da relação entre a Educação e a Ciência e Tecnologia –, apresenta, entre outras, os seguintes objetivos e metas diretamente associados à ampliação da jornada escolar e à educação integral no ensino fundamental: 3. Implantar, gradativamente, o ensino em tempo integral, como experiência piloto, em escolas da rede municipal de ensino; 4. Fortalecer as parcerias entre as instituições públicas e privadas, abrindo espaço à participação da comunidade em atividades pedagógicas, socioculturais, artísticas e desportivas; [...] 12. Apoiar e incentivar as manifestações culturais e esportivas, mediante o desenvolvimento de projetos e atividades integrados ao currículo, que contemplem diversas linguagens (p. 26-27, grifos nossos). 62 Estes objetivos e metas aceleraram o movimento da Secretaria Municipal de Educação, no sentido de reunir subsídios, agregar conhecimentos e instalar competências, com vistas à elaboração de uma proposta de educação em tempo integral para o ensino fundamental em Natal. Sob esta orientação foi posto em prática um conjunto de atividades que incluía, entre outros aspectos, a revisão de literatura sobre educação integral e visitas a instituições com experiência na área em Natal/RN, Belo Horizonte/MG, São Paulo/SP e Uruguai (SME, 2007b, p.08), bem como Nova Iguaçu/RJ (SME, 2008b). Nessa mesma linha de trabalho, em dezembro de 2006, a Secretaria Municipal de Educação, em parceria com a Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação) e o Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária) realizou o ―I Seminário Tecendo Redes para a Educação Integral: uma conquista social‖ 14, cujo objetivo consistia em ―irradiar a temática às instituições governamentais e não governamentais, bem como divulgar as discussões e experiências existentes que contribuam para a sensibilização de possíveis parceiros para a implementação de Educação Integral‖ (SME, 2006a, p. 2). O entendimento de que a ampliação da jornada escolar deveria se fazer acompanhar da ampliação dos espaços educativos, tanto dentro, como para além dos limites da escola, constituiu-se fator que contribuiu para a definição da temática do Seminário. Segundo a coordenadora geral do Programa Mais Educação/SME, um dos objetivos do Seminário consistia em realizar um levantamento das práticas de contraturno existentes, pois este conhecimento interessava àqueles que estavam construindo um arcabouço teórico-prático sobre educação (em tempo) integral: A grande intenção, na realidade, era dar um direcionamento pra isso, dar uma unidade, porque sabemos que acontecem diversas atividades no país inteiro, em espaços cedidos por ONGs, ou não. Mas eu acho que se torna um problema quando a educação não toma conta disso, se essas crianças estão em outras atividades, que interferência isso está tendo no avanço intelectual delas, enquanto conhecimentos científicos que lhe 14 O Seminário, com coordenação técnica do Cenpec, ocorreu no período de 6 a 8 de dezembro/2006, e sua programação contemplou conferências, comunicações, relatos de experiências, além de apresentações culturais de alunos das escolas municipais. 63 são cobrados na escola e que devem ser desenvolvidos? Então, temos que ter o retorno. Eu acho que essas atividades de contraturno, de ampliação, seja qual for seu nome, elas têm que ser organizadas, monitoradas pelo órgão que compete tomar conta da educação, que é a Secretaria Municipal de Educação. Então existia essa preocupação: vamos ver se a gente articula a escola com esses outros espaços, porque às vezes nem as escolas sabem que atividades os seus alunos estão fazendo no contraturno. Foi também durante este mesmo ano, ―a partir do interesse da prefeitura e da Secretaria Municipal de Educação de ampliar tempo e espaços para a prática da educação integral‖ (Andréa Bezerra, assessora pedagógica), que foi publicada a Portaria n° 47/SME/GS, de 16 de junho de 2006, que, tendo por referência a as metas dispostas no Plano Municipal sobre a educação (em tempo) integral associada ao ensino fundamental, designou os servidores que deveriam compor a Comissão de Estudos e Elaboração de Documento sobre o Ensino em Tempo Integral nas Escolas Municipais de Natal. A Comissão, tendo por base um Plano de Ações (SME, 2006c) elaborado para o período de junho a dezembro de 2006, apresentou, em abril de 2007, o documento ―Educação Integral: Espaços de Aprendizagem – Subsídios para a organização de espaços físicos‖, que consistia na proposta de educação integral para o município de Natal. O documento partiu de um estudo sobre educação integral em tempo integral, com especial atenção sobre os espaços educativos, para propor a construção de um estabelecimento de ensino (centro de referência)15 que possibilitasse aprendizagens voltadas para as áreas do conhecimento de língua portuguesa, matemática, artes (música, artes visuais, teatro e dança), educação física (voleibol, basquete, futebol de salão e de campo, handebol, ginástica olímpica e rítmica desportiva, atletismo e natação, entre outros) e informática. O estabelecimento – que remete à lembrança da Escola Parque, concebida por Anísio Teixeira – possibilitaria a realização destas atividades no turno inverso aos alunos matriculados em duas escolas municipais de ensino fundamental situadas no bairro Guarapes. A escolha do Guarapes para sediar a experiência piloto levou em consideração o fato de, segundo o documento, apresentar, em 2003, Índice de 15 O documento em foco trazia em anexo as plantas baixas da experiência piloto, então denominada de ―Escola de Tempo Integral‖. 64 Qualidade de Vida (IQV) igual a zero, fato que o ―coloca em último lugar entre os bairros de Natal‖16 (SME, 2007a, p.11). A seleção do bairro também considerou a solicitação da comunidade, expressa no orçamento participativo, associada à construção de um espaço para que suas crianças realizassem outras atividades. Observa-se ainda que, embora a comissão defendesse que a proposta de educação em tempo integral lançasse mão de parcerias para a utilização dos equipamentos culturais do território em que a escola está localizada, a opção por elaborar um projeto em que as práticas educativas no turno inverso estariam centradas no próprio estabelecimento educacional deveu-se às limitações e ao contexto social que caracterizam o bairro. A referida proposta, ainda em processo de construção, foi apresentada durante o ―II Seminário Tecendo Redes para a Educação Integral: uma conquista social‖, realizado nos dias 22 e 23 de maio de 2007. Sua apresentação, na ocasião, buscava agregar maiores subsídios para a implementação da educação integral no Sistema Municipal de Ensino da Cidade de Natal. Ressalta-se que o II Seminário, coordenado pela Comissão de Estudos sobre Educação Integral, tinha por objetivo: Ampliar as discussões em torno da educação integral, através de temas que propõem reflexões não apenas no que diz respeito ao tempo de permanência do aluno na escola, mas, sobretudo, acerca de estratégias para potencializar tempo e espaço onde ocorra a aprendizagem em seus múltiplos sentidos (SME, 2007b, p.01). No que tange aos dois seminários, destaca-se que, se o primeiro buscou subsídios para elaboração de uma proposta de educação integral para o município, o segundo, realizado no intervalo de apenas cinco meses, centrou suas discussões em temas polêmicos como tempos, espaços e parcerias, para, além de buscar aperfeiçoar a proposta em construção, auxiliar na implementação da educação integral em Natal. A programação do II 16 A respeito do bairro, segundo o documento, vale destacar ainda que: (1) 33,31% dos responsáveis pelos domicílios eram analfabetos ou detinham menos de um ano de estudo (p.13) e (2) suas duas escolas municipais de ensino fundamental apresentavam altas taxas de desperdício escolar, sendo que, em uma delas, a soma das taxas de reprovação e evasão atingiu 56,7%, em 2005 (p.14). 65 Seminário17 foi composta por palestras e oficinas, com foco na socialização de experiências desenvolvidas por diferentes instituições/entidades/ONGs, que atuam em áreas como educação, saúde, lazer e religião, buscando possibilitar tanto à comunidade escolar, quanto àquelas instituições ―o acesso a informações e práticas que serão referências para o enriquecimento e extensão das atividades a serem oferecidas nos espaços de educação integral‖ (SME, 2007b, p.43). Ainda em relação ao II Seminário, observa-se que a palestra da secretária municipal de educação, grande defensora da implantação da educação em tempo integral no município, versou sobre o Programa Mais Educação/MEC, o qual, implantado em Natal em 2008, será apresentado no decorrer desse estudo. As discussões relativas à implantação da educação (em tempo) integral, que ganharam força a partir do Plano Municipal, fizeram-se associar à necessidade de elaboração de um documento que apresentasse a proposta pedagógica que iria subsidiar a organização e estruturação de uma alternativa de ensino em tempo integral. Nesse sentido, ainda em dezembro de 2007, o Departamento de Ensino da Secretaria Municipal de Educação de Natal divulgou o documento ―Educação Integral: Comunidade Educadora – Uma Ferramenta para a Cidadania‖, o qual apresenta as concepções, princípios, fundamentos, organização institucional e curricular para diversos espaços de aprendizagem, na perspectiva da educação integral. Segundo o documento: A Proposta de Educação Integral para o ensino da Rede Municipal de Natal/RN é uma busca de superar alguns dos vários problemas sociais e de aprendizagem, em que todos participem de um processo de gestão transformadora, em que aprendem, ensinem e pratiquem cidadania, conhecendo novas idéias de espaços de aprendizagem (SME, 2007c, p.08). A leitura do texto possibilita concluir que a proposta de educação integral anunciada parte de uma concepção filosófica do homem integral, a qual tem por base ―o desenvolvimento global do indivíduo nos aspectos cognitivo, 17 Para o evento foram convidadas 244 instituições, entre elas, rádios, jornais, emissoras de televisão, sindicatos, conselhos municipais, conselhos comunitários, escolas privadas, entidades religiosas, centros desportivos, centros culturais, clubes e organizações não governamentais. 66 afetivo, psicomotor e social‖ (Idem), além de corporais e espirituais. Em linhas gerais, a proposta apresentada está alicerçada nos seguintes pontos fundamentais: (1) turno e contraturno, com integração articulada dos conhecimentos envolvidos nos dois momentos; (2) currículo, construído de forma integrada com a escola, com foco na cidadania participativa; (3) novas oportunidades de aprendizagens associadas, por exemplo, à arte, ao esporte, à língua portuguesa, à matemática e à educação ambiental; (4) atividades pedagógicas do contraturno organizadas a partir das demandas da comunidade escolar e ―conduzidas por profissionais previamente selecionados pela Secretaria Municipal de Educação‖ (SME, 2007c, p.12); (5) jornada escolar ampliada com utilização de alguns espaços alternativos; (6) estabelecimento de parcerias que possam unir esforços em prol da proposta de Educação Integral; (7) organização institucional na forma de comunidade educadora, associada a duas etapas: (a) mapeamento das potencialidades dos alunos envolvidos e das aprendizagens não exploradas na comunidade escolar, bem como dos espaços e projetos existentes no entorno, com potencialidades de efetivar parcerias e (b) mobilização da escola e da comunidade em prol da ação educadora, sensibilizando-os para os ganhos resultantes de uma educação integral. O processo que envolveu a implantação da educação em tempo integral no município de Natal incluiu a criação, em 2008, do Setor de Educação em Tempo Integral (SETI)18, vinculado ao Departamento de Ensino Fundamental da Secretaria Municipal de Educação (NATAL, 2008a). Responsável por ―desenvolver, executar e acompanhar projetos e programas realizados no contraturno escolar‖ (SME, 2008c, p.01), o SETI tem como atribuições: • Desenvolver e viabilizar projetos e programas sociopedagógicos, com a finalidade de manter o aluno em tempo integral na escola; • Intermediar parcerias com instituições públicas e privadas, visando ampliar as oportunidades de aprendizagens dos alunos da Rede Municipal de Ensino; 18 A LC n° 092/2008 criou o cargo comissionado de chefe do Setor de Educação em Tempo Integral, sendo que o referido setor passou a constar na estrutura básica da SMENatal, a partir do decreto n° 8.777, de 2 de julho de 2009. 67 • Desenvolver projetos focados para a permanência da criança na escola, assistida integralmente para o pleno exercício da sua cidadania (Idem). A proposta de educação em tempo integral em Natal foi consolidada com a publicação da Portaria n° 133/08-GS, de 2 de outubro de 2008, que, ao criar o ―Programa de Educação em Tempo Integral – Caminho para a Cidadania‖, associado ao SETI, institucionalizou-a no município. A Portaria apresenta que o Programa tem como finalidade ―proporcionar aos alunos da Rede Municipal de Ensino a ampliação das oportunidades de aprendizagem, através da expansão da jornada escolar com oficinas de aprendizagens e atividades culturais e esportivas, em diferentes espaços e/ou equipamentos‖ (art. 1°). Destacam-se aqui três, entre outros artigos, que, se atendidos, qualificam ainda mais o Programa, na perspectiva da educação integral: Art. 3° As oficinas e atividades pedagógicas, organizadas a partir da demanda da comunidade escolar, deverão estar articuladas com a Proposta Pedagógica da escola. Art. 4° As atividades no contraturno serão desenvolvidas sob orientação de um coordenador pedagógico, lotado em escola, com quarenta horas semanais de trabalho nos turnos matutino/vespertino.[...] Art. 8° As oficinas e atividades pedagógicas do contraturno serão exercidas por universitários e/ou pessoas com experiência comprovada e reconhecida na área de atuação, que deverão ser pré-selecionados pela Secretaria Municipal de Educação e contratados em caráter de estágio (Grifos nossos). No dia 4 de novembro de 2008, após o período de eleições municipais19 e, portanto, a dois meses do início da nova gestão municipal, a secretária municipal de educação apresentou oficialmente o Programa de Educação em Tempo Integral no auditório do Centro Municipal de Referência em Educação Aluízio Alves (Cemure). Mas, o que aconteceu com o projeto de uma experiência piloto de educação em tempo integral, apresentada como meta no Plano Municipal de 19 As eleições municipais de 2008 ocorreram em primeiro e segundo turnos, respectivamente, nos dias 5 e 26 de outubro. No caso específico de Natal, a candidata Micarla de Sousa, filiada ao Partido Verde (PV), oposição à administração então vigente, foi eleita prefeita do município no primeiro turno, tendo tomado posse em 1° de janeiro de 2009. 68 Educação 2005/2014, e que estava planejada para ser construída no bairro Guarapes? Segundo a chefia do Setor de Educação em Tempo Integral, na ocasião em que o projeto se encontrava na fase final de planejamento, ocorreu o lançamento do Programa Mais Educação no País: No mesmo momento em que estávamos pensando nessa estrutura, o Governo Federal anunciou o Programa Mais Educação. Então, foi considerar tudo o que tínhamos visto e receber o Programa como a prática de tudo o que vinha sendo estudado na comissão. Aí, não se tornou mais necessário o investimento na construção dessa estrutura do Guarapes porque o próprio MEC considerou para as primeiras experiências de educação em tempo integral as escolas que eram mais carentes. Então, com isso, não houve a necessidade de criar os centros de referência. Afora o centro de referência no Guarapes, a Comissão de Estudos e Elaboração de Documento sobre o Ensino em Tempo Integral também concebeu uma proposta experimental de educação integral para três escolas do município – E.M. Profª Mareci Gomes, E.M. Laércio Fernandes e E.M. Prof. Otto de Brito Guerra –, a qual também teve suspensa sua continuidade, a partir do entendimento de que o Programa Mais Educação contemplava esta proposta (SME, 2008f, 2008g, 2008h). No contexto atual, o Setor de Educação em Tempo Integral tem sob sua responsabilidade, especialmente, (1) a coordenação geral do Programa Mais Educação no município, (2) a formação dos monitores que atuam nos Núcleos de Apoio à Criança e ao Adolescente – Tributos e, (3) a formação dos profissionais que atuam em oficinas (letramento e Matemática) no contraturno escolar. Na sequência, descrevem-se as experiências de jornada escolar ampliada no ensino fundamental, desenvolvidas pela SME-Natal, a saber: (1) Núcleos Educacionais de Apoio à Criança e ao Adolescente (Tributos), (2) Ações Educativas Complementares, (3) Oficinas de Aprendizagem em Língua Portuguesa e Matemática, e (4) o Programa Mais Educação. 69 4.1. Núcleos Educacionais de Apoio à Criança e ao Adolescente – Tributos Os Núcleos Educacionais de Apoio à Criança e ao Adolescente fazem parte do Programa Tributo à Criança20, instituído pela Portaria n° 007/97, de 7 de abril de 1997, o qual se constitui em uma política de transferência de renda e inclusão social que tem por objetivo assegurar às famílias assistidas mínimos sociais para que seus filhos tenham condições de usufruir da política educacional (SME, 2009a). Em março de 2009, o Programa assistiu 4.785 famílias, totalizando 9.686 crianças (SME, 2009d). O Programa, por meio dos Núcleos Educacionais, também conhecidos por Tributos, possibilita, no contraturno escolar, apoio educacional e psicossocial às crianças e adolescentes que necessitam de atenção diferenciada, decorrente da situação de vulnerabilidade social21 em que se encontram (SME, 2009c). Mais especificamente: Os Núcleos objetivam viabilizar a permanência e o êxito de crianças e adolescentes na escola; oferecer às crianças e aos adolescentes em situação de risco social, ações sócioeducativas em horário complementar ao da escola; contribuir para a inserção social das famílias de baixa renda assistidas pelo Programa; criar mecanismos de proteção à criança e ao adolescente, de combate ao trabalho infantil, à permanência desses nas ruas e à situação de abandono (Idem, p. 1). Esses objetivos deixam claro que os Núcleos não são escolas, ―mas foram constituídos a fim de contribuir com o desenvolvimento integral da personalidade das crianças e adolescentes, com a efetiva absorção e permanência destes no sistema de educação formal‖ (Idem). De acordo com a assessora pedagógica, professora Tereza Faria, o número total de crianças e adolescentes nos Núcleos Educacionais corresponde ―Em média umas 200 crianças em cada (turno de cada) Tributo; nunca passou de 1.500 no total, mesmo quando estava funcionando a todo vapor‖. 20 O Programa, com contornos do bolsa-família, atende alunos da faixa etária de 6 a 15 anos e 11 meses, cursando o ensino fundamental na rede pública e residindo há mais de dois anos em Natal. Atualmente, as mães das crianças beneficiadas com o Programa recebem entre R$ 60,00 e R$ 120,00, dependendo do número de filhos naquela faixa etária. Como contrapartida, os filhos devem apresentar, no mínimo, 85% de frequência dos dias letivos escolares de cada mês. Importante observar que todas as famílias dos alunos integrantes nos Núcleos Educacionais (mas não só estas) são beneficiadas pelo Programa Tributo à Criança. 21 O Programa considera como de vulnerabilidade social os locais onde existem altos índices de criminalidade, violência, evasão escolar e baixa estrutura urbana. 70 De acordo com a professora, por ocasião da sua criação, o Tributo à Criança estava vinculado ao Conselho Municipal da Mulher e, na perspectiva de uma política de proteção social, as assistentes sociais percorriam alguns locais e ruas, especialmente à noite, recolhiam as crianças e jovens e, a partir do contato com seus responsáveis, as orientavam a permanecer em um turno na escola e, em outro, em um dos Núcleos Educacionais. Muitas destas crianças e jovens eram encaminhados aos Tributos por solicitação do Conselho Tutelar. Ainda segundo a professora Tereza Faria, não muito tempo depois da sua criação, o Programa Tributo à Criança e, consequentemente, os Núcleos Educacionais foram transferidos para a responsabilidade da Secretaria Municipal de Educação. A oferta da bolsa, associada à possibilidade da criança e do adolescente ficar sob a responsabilidade da SME, durante o contraturno escolar, contribuiu para que a própria comunidade, buscando por melhores alternativas para seus filhos, passasse a ter a iniciativa de procurar por vagas nos Núcleos Educacionais. No contexto atual, segundo a coordenadora do Departamento de Atenção ao Educando, a seleção das crianças e adolescentes para os Núcleos Educacionais tem por base os critérios do bolsa-família, adicionados à condição de maior vulnerabilidade social, sendo que, em geral, as crianças e adolescentes são indicados pelas escolas e pelos próprios coordenadores dos Tributos. Atualmente, a SME tem sob sua responsabilidade quatro Tributos 22: Guarapes (Zona Oeste), Mãe Luiza (Zona Leste), Quintas (Zona Oeste) e Felipe Camarão (Zona Oeste). Estes Núcleos Educacionais funcionam em imóveis alugados, em geral, residências adaptadas, sendo que, raramente suas atividades são realizadas fora do seu espaço circunscrito. Segundo a coordenadora administrativa do Tributo das Quintas, sua rotina inclui o desenvolvimento de aulas de reforço escolar (letramento e matemática), nos primeiros horários, seguidas de oficinas de artes, esportes, 22 Por ocasião da concepção dos Tributos, foi planejado que cada uma das quatro regiões administrativas teria um núcleo. 71 educação ambiental, entre outras, as quais são oferecidas a partir do interesse do grupo e da comunidade. A separação das turmas se dá por faixa etária e interesses comuns e não pelo ano em que o aluno está matriculado na escola regular, possibilitando o contato com colegas de diferentes escolas, bairros e experiências de vida. A entrevista da referida coordenadora permite perceber a problemática que envolve o universo social das crianças e jovens que integram os Núcleos Educacionais: A maioria dessas crianças mora em área de risco e o Tributo, para elas, é como se fosse uma segunda casa onde ficam abrigados, com direito a estudo, a reforço escolar, a praticarem as atividades complementares como capoeira, dança, teatro, atividades manuais, e o nosso carro-chefe mesmo que é o reforço escolar.[...] O objetivo mesmo do Tributo é exatamente esse, cuidar dessa criança para que ela não se exponha, não seja escravizada, não seja desviada de sua conduta, violentada, então esse é o objetivo maior do Tributo. A parte educacional também é importante, por nossas mães serem semianalfabetas, então o reforço começou por isso, mas o nosso objetivo maior é a formação social, é integrar essa criança na sociedade. A pesquisa revela que são significativos os avanços e que não são poucos os desafios dos Tributos, os quais, muitas vezes, se inter-relacionam, conforme se pode observar na sequência deste relatório. Um primeiro desafio está associado à divisão de responsabilidades em relação aos Núcleos Educacionais dentro da estrutura organizacional da SMENatal, disposta de forma resumida na Figura 1. Figura 1 ESTRUTURA ORGANIZACIONAL DA SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO - SME SECRETARIA Secretaria Adjunta de Ges tão Pedagógica Secretaria Adjunta de Ges tão Es colar Depto de Ens ino Fundam ental Depto de Atenção ao Educando Setor de Educação em Tem po Integral Setor de Tributo à Criança Fonte: Organogram a adaptado do original dis ponível em : http://www.natal.rn.gov.br/s em urb/paginas /ctd-346.htm l 72 Atualmente, os Núcleos Educacionais de Apoio à Criança e ao Adolescente, em termos de estrutura organizacional, estão sob a responsabilidade do Setor de Tributo à Criança, integrante do Departamento de Atenção ao Educando, que, por sua vez, faz parte da Secretaria Adjunta de Gestão Escolar. A esse respeito, a Portaria n° 133/2008, ao criar o Programa de Educação em Tempo Integral, com vistas a possibilitar a articulação de todas as ações pedagógicas associadas ao contraturno, determinou que as atividades desenvolvidas nos Núcleos Educacionais de Apoio à Criança e ao Adolescente fossem transferidas para a responsabilidade daquele Programa (art. 10, parágrafo único). Esta determinação se faz associar a possíveis avanços em relação ao trabalho pedagógico desenvolvido nos Tributos, uma vez que encaminha a formação pedagógica para um setor que trabalha com a formação na perspectiva da educação (em tempo) integral. Por outro lado, o Programa de Educação em Tempo Integral está ligado ao Setor de Educação em Tempo Integral / Departamento de Ensino Fundamental / Secretaria Adjunta de Gestão Pedagógica. Resumindo, conforme Figura 1, o setor responsável pelas áreas administrativa e financeira dos Núcleos Educacionais faz parte de uma Secretaria Adjunta (Gestão Escolar) e o setor responsável pelas ações pedagógicas e, por conseguinte, pela formação dos monitores que atuam nos Núcleos, integra outra Secretaria Adjunta (Gestão Pedagógica) da SME-Natal. Esta configuração organizacional impõe como desafio a articulação entre estes setores, departamentos e secretarias adjuntas, com vistas ao fortalecimento das ações pedagógicas associadas aos Tributos, desafio este que é acrescido da seguinte dificuldade: estes setores e departamentos estão localizados em prédios distintos, situados em bairros diferentes. Em 2009, foi apresentada a proposta intitulada ―Programa Tributo à Criança: Proposta Pedagógica‖, cujo objetivo geral consiste em ―fortalecer a permanência e o êxito da criança e do adolescente na escola formal em que estuda‖ (p. 6). Para tal, segundo o documento, os Núcleos Educacionais não trabalharão nos padrões formais de uma escola: Primeiramente, destacamos o fato de que não ministrarão conteúdos. Trabalharão buscando reforçar nas crianças e 73 adolescentes assistidas habilidades, por exemplo, como leitura, que lhes proporcionarão a base necessária para absorver os conteúdos ministrados nas escolas em que estudam (SME, 2009c, p. 7). Sob esta perspectiva e tendo por referência a intersetorialidade – se acompanhada uma real integração entre os setores envolvidos –, os Núcleos Educacionais deixarão de apresentar caráter prioritariamente assistencial, para avançar na direção da proteção integral, a qual articula proteção social e educação integral, conjunção necessária para, além de tirar as crianças e adolescentes da situação de vulnerabilidade social, possibilitar-lhes uma educação que busque o seu pleno desenvolvimento e, sob esta perspectiva, ―perceberem-se sujeitos de direito em sua inteireza humana‖ (SETUBAL, 2006, p. 3). Ainda em relação ao fato de as ações associadas aos Núcleos Educacionais estarem distribuídas entre dois setores, a assessora pedagógica, professora Andréa Bezerra, evidenciou: ―o que dificulta o trabalho do Tributo ser conservado no nosso setor (SETI) é que nós somos responsáveis pela formação, mas não somos responsáveis pela seleção dos monitores‖, a qual é realizada no Departamento de Atenção do Educando. Segundo a professora, a contratação dos monitores para os Núcleos Educacionais, em 2009, não levou em consideração os critérios que o SETI julga fundamentais, entre eles, o de que os candidatos às vagas sejam estudantes universitários e/ou pessoas com experiência comprovada e reconhecida na área de atuação. Nesse sentido, foram relatados alguns problemas com origem na dicotomia seleção-formação e que apontaram para o desafio de estabelecer formas de colaboração entre os setores envolvidos, de modo a construir uma unidade em relação aos critérios de seleção dos monitores e/ou, até, se for o caso, determinar que tanto a seleção quanto a formação dos monitores devem ficar a cargo de um mesmo Setor. Outro desafio associado aos monitores dos Tributos diz respeito ao valor da bolsa. Segundo a assessora pedagógica, professora Tereza Faria, o referido valor vem contribuindo para que haja significativa rotatividade nos Núcleos, pois ―assim que os monitores conseguem um emprego melhor, 74 saem‖. Vale destacar que, em 2010, o valor da bolsa passou de R$ 340,00 para R$ 380,00, sendo que os monitores (considerados estagiários) recebem este valor por 20h de trabalho, inclusive no período de recesso, durante por, no máximo, dois anos. Segundo os integrantes do Setor de Educação Integral, outro desafio dos Tributos, que está buscando ser superado, é a sua falta de conexão com a escola regular. De acordo com a professora Tereza Faria, ―Isso era uma falha no Tributo, praticamente não havia ligação com a escola, era mais no sentido de deixar um papel na escola e, no final do mês, passar pra pegar a frequência‖. Por sua vez, o relato da coordenadora administrativa do Tributo das Quintas permite antever avanços na percepção da necessidade dos Núcleos Educacionais de Apoio à Criança e ao Adolescente realizarem um efetivo acompanhamento da vida escolar do aluno: No ano passado, nós começamos a ter esse objetivo (acompanhamento da vida escolar do aluno) [...] Esse ano nós vamos trabalhar nisso, com o reforço, ver os resultados do aluno que está no Tributo, ver qual foi o progresso dele na escola. Nós vamos fazer isso esse ano. Inclusive nós temos uma assistente social e uma psicóloga, que estão formando uma equipe para visitar as escolas para ver a situação do aluno, fazendo esse intercambio entre escola e Tributo. Importante incluir nessa equipe multidisciplinar a presença de um pedagogo. A esse respeito, observa-se que, de acordo com um levantamento realizado nos dias 26 e 27/2/09 e 3/3/09, pelo Setor de Educação em Tempo Integral, apenas um dos quatro Núcleos Educacionais apresentava coordenador pedagógico. Logo, contratação de coordenadores para cada um dos Tributos, segundo a chefia do SETI, revela outro desafio associado aos Tributos. A coordenadora do Tributo das Quintas também apresentou a necessidade de aumento do espaço, melhoria da estrutura física e dos equipamentos dos Núcleos Educacionais: Já que a gente trabalha com essas crianças carentes, que tivesse espaço, uma boa quadra de esportes, um ambiente confortável, para tirá-las daquela rotina de pobreza, de insatisfação, pra que elas sentissem prazer. [...] Se elas começarem a conhecer esse mundo melhor, elas não vão mais 75 se interessar por aquele mundo pequeno, mesquinho, cheio de problemas, de coisas desagradáveis, porque elas moram em ambientes muito desagradáveis. O levantamento anteriormente mencionado já evidenciava alguns desafios associados à estrutura física de dois dos quatro Núcleos Educacionais, como: ―acervo muito pequeno de livros infantis [...] salas de aula com pouca iluminação, sem ventilação (não possuem janelas)‖ (Núcleo Guarapes); ―A área disponibilizada para lazer e atividades esportivas [...] não possui ventilação, não há janelas e as portas precisam ficar fechadas, pela segurança de todos, uma vez que não há grades‖ (Núcleo Quintas). Uma grande preocupação revelada pelas mães entrevistadas diz respeito ao futuro de seus filhos ao completarem 16 anos (idade em que não podem mais permanecer nos Tributos): ―Eu acho que quando chegassem àquela idade de 16 anos, eles tivessem outro programa pra eles irem, tipo Primeiro Emprego. Eu tenho dois lá em casa que saíram do Tributo, mas não têm emprego...” A publicação da Portaria n° 133/2008, que criou o Programa de Educação em Tempo Integral, teve como decorrência a necessidade de atualização da Portaria n° 007/97, que regulamenta as ações do Setor de Tributo à Criança. Sendo assim, segundo a Proposta para Possível Atualização da Portaria n° 007/199723 - que, quando publicada resultará significativos avanços para os Tributos, uma vez que responderá a muitos desafios aqui destacados – os Núcleos Educacionais deverão se constituir como Núcleos de Base e trabalhar a parte educativa por meio das ações educativas complementares e do reforço escolar, no turno inverso ao que o aluno está matriculado na escola regular. Além disso, os Núcleos Educacionais deverão realizar o acompanhamento pedagógico dos seus alunos por meio do Departamento de Ensino Fundamental/Setor de Educação em Tempo Integral, os quais deverão articular com a Secretaria Executiva toda a política pedagógica do Programa, tendo como foco a educação integral. A proposta 23 Por ocasião da realização da pesquisa de campo, a proposta ainda estava em fase de discussão, tendo se constituído uma iniciativa do Departamento de Atenção ao Educando/Setor Tributo à Criança. 76 determina, ainda, que os monitores deverão ser oriundos de cursos de licenciatura de instituições de ensino superior, sendo que sua formação será de responsabilidade do Setor de Educação em Tempo Integral. Destaca-se, ainda, a prioridade associada aos egressos dos Núcleos Educacionais em programas de qualificação para o trabalho e/ou geração de renda, vinculados à prefeitura municipal. Um significativo avanço associado ao Programa Tributo à Criança e aos Núcleos Educacionais diz respeito ao fato de, embora se constituir em um Programa da Prefeitura de Natal, atender a crianças matriculadas tanto nas escolas municipais quanto nas estaduais. O Programa avança ao perceber e buscar enfrentar as necessidades do município percebido em sua totalidade, para além da sua municipalidade. Por fim, vale ressaltar que todas as mães entrevistadas no Tributo das Quintas evidenciaram satisfação em relação ao Núcleo Educacional. Apresenta-se aqui a entrevista concedida pela sra. Cristina, mãe de dois alunos do referido Tributo: No caso do meu filho mais velho, ele disse que quando crescer vai ser arquiteto. Disse que queria que eu pagasse uma aula de flauta pra ele. Eu já fui atrás, é R$ 480,00 lá na Capitania das Artes... Eu não tenho condições pra pagar. Eles estão tendo uma forma de ver o mundo mais além, mais lá na frente um pouquinho, já têm uma certa escolha do que querem ser. Por que arquiteto? Aqui não ensina arquitetura, mas são aquelas artes, construir casa com palito, isso vai desenvolvendo uma certa ansiedade na criança, um sonho. A primeira vez que ele desenhou foi o Pateta, eu teimei que não tinha sido ele, e ele disse que foi ele sim. Eu perguntei de onde ele tirou esse Pateta e ele disse que foi do livro da professora do Tributo. Ele desenvolveu tanto, de um jeito... Aqui as crianças são bem tratadas, são respeitadas... [...] Ele desenha o que a senhora pedir e ficou em primeiro lugar, leu 20 livros no ano passado. Por fim, é possível deduzir que os Tributos se constituem importante conquista na área da proteção social de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social. Ao mesmo tempo, evidencia que os trabalhos dos Tributos estão avançando na direção de um maior desenvolvimento destes jovens na área educacional, estando em processo de discussão uma proposta que associa proteção social e educação integral, como objetivo dos Núcleos 77 Educacionais. Nessa perspectiva, o Setor de Educação em Tempo Integral, ao ter sido responsabilizado pelas ações pedagógicas e pela formação dos monitores que atuam nos Tributos (Portaria n° 133/2008), poderá contribuir para potencializar as ações educacionais destes Núcleos. 4.2. Programa Ações Educativas Complementares24 O Programa Ações Educativas Complementares teve início em 2004, com recursos federais25, sendo que, em 2009, passou a ser totalmente mantido pela Secretaria Municipal de Educação de Natal. Executado pelo Departamento de Atenção do Educando/SME, o Programa tem como objetivo ―promover, no ambiente escolar, ações de inclusão social, ampliando o tempo de permanência diária do aluno, criando possibilidades de uma educação de qualidade‖ (SME, 2008e). Nesse sentido, constituem-se objetivos específicos do Programa: • Garantir a redução da exposição de crianças, adolescentes e jovens a situações de risco, desigualdade, discriminação e outras vulnerabilidades sociais e ambientais. • Promover o ingresso, o regresso, a permanência e a motivação dos alunos, por meio da transformação da escola em um espaço atrativo e de melhor qualidade. • Possibilitar a participação ativa da comunidade no processo de transformação da realidade social e na construção de saberes e cidadania (NATAL, 2005b, p. 1). O Programa amplia o tempo de permanência das crianças e adolescentes na escola em que estão matriculados, a partir do desenvolvimento, no turno inverso, de oficinas de esportes, artes – dança (pastoril, maculelê, entre outras), música e teatro – apoio pedagógico (reforço 24 A construção desta seção tomou por base vários documentos repassados pela diretora do Departamento de Atenção ao Educando (DAE), bem como as entrevistas realizadas com a referida diretora; com a assessora pedagógica, professora Vânia Lúcia de Lima; bem como com a secretária da direção do DAE, Magna Cabral Damasceno. Infelizmente, devido, entre outros motivos, ao fato de a Prefeitura não ter efetuado o pagamento da bolsa-auxílio dos monitores, referente ao mês de dezembro, o Programa Ações Educativas Complementares – por ocasião da realização da pesquisa de campo em Natal – ainda não havia iniciado, situação que impossibilitou tanto a observação das suas oficinas, quanto a realização de entrevistas com os monitores e demais envolvidos nas escolas. 25 O Programa teve origem na Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad/MEC). 78 escolar), oficinas temáticas, a citar, direitos humanos, saúde, cultura, sexualidade, uso de drogas e meio ambiente. Destacam-se aqui as oficinas de Protagonismo Infanto-Juvenil que visam à criação de grupos de discussão sobre temáticas relacionadas, por exemplo, ao Estatuto da Criança e do Adolescente, violência, ética e cidadania. Devido à limitação do número de alunos, as vagas são destinadas, prioritariamente, para as crianças e adolescentes submetidos à situação de risco social, trabalho infantil, violência, exploração e abuso sexual (SME, 2009b). Cada escola pode selecionar até três oficinas, sendo que, em 2008, o Programa atendeu 35 escolas da rede municipal e três Núcleos Educacionais, totalizando 1.050 participantes nas oficinas de média ou longa duração; 1.000, nas oficinas de curta duração (oficinas temáticas e palestras) e 400, nas oficinas de Protagonismo Infanto-Juvenil (SME, 2008e). Já em 2009, segundo a diretora do Departamento de Atenção do Educando, o Programa de Ações Educativas Complementares atendeu a 30 escolas e aos quatro Núcleos Educacionais. No que tange aos monitores responsáveis pelas oficinas, sua inscrição junto ao Departamento de Atenção ao Educando é realizada a partir da indicação dos diretores das escolas, priorizando moradores das comunidades adjacentes. Sua atuação se dá na condição de ―serviço voluntário‖ 26, o qual tem por base a lei n° 9.608, de 18 de fevereiro de 1998 (SME, 2008e). De acordo com o relatório do Programa, referente ao ano de 2008, os monitores das oficinas de capoeira, dança, teatro e música, em geral, têm como formação o nível médio (algumas vezes incompleto). Já os monitores das Oficinas Temáticas e de Apoio Pedagógico, em sua maioria, são universitários. Embora, em um primeiro momento, a formação dos monitores conduza a questionamentos sobre os resultados de suas ações, ambos os relatórios do Programa de Ações Educativas Complementares (2008 e 2009) elogiam sua atuação e compromisso. 26 Sob esta condição, os monitores de Apoio Pedagógico e Oficinas Temáticas, que desenvolvem suas atividades durante um período que totaliza de 10 a 12 horas semanais, recebem R$ 300,00, já pelas atividades das demais oficinas, que totalizam 5 horas semanais, os monitores recebem R$ 200,00, a título de ressarcimento das despesas geradas pelo desempenho de atividades voluntárias (lei, n° 9.608, art. 3°). Estes valores foram atualizados, durante o primeiro semestre de 2010. 79 Geralmente, estes monitores são pessoas da comunidade, sendo este um dos pontos altos do Programa, pelo entusiasmo e compromisso da maioria deles (SME, 2009b, p. 2). A bolsa-auxílio representa um ganho adicional, mas mesmo nos meses em que o Programa sofreu descontinuidade, os monitores, em sua maioria, permaneceram, voluntariamente, nas escolas realizando as oficinas, com marcante presença daqueles que residem na mesma localidade da escola (SME, 2008e, p. 8) A participação dos monitores da comunidade representou 70% do sucesso do projeto. O contato direto do DAE com os monitores, incentivando-os, apoiando-os, representou um grande indicador de sucesso (Idem, p. 15). O compromisso dos monitores foi reiterado na entrevista da assessora pedagógica, professora Vânia Lima: “Eles são muito dedicados, se envolvem demais com as crianças. Estão o tempo todo aqui junto com a gente, mostrando o trabalho deles.” No entanto, o relatório do Programa referente ao ano de 2009, sem maiores explicações, apresenta como dificuldade que ―o Programa é pouco valorizado pela parte pedagógica, por ser executado por pessoas leigas (sem formação acadêmica)‖ (SME, 2009, p.02). Importante destacar que, ao final de cada ano, é realizado um grande evento com apresentações dos alunos envolvidos no Programa: em 2005, foi realizado um auto de Natal; em 2006, o espetáculo foi denominado de ―Miscigenação – povo brasileiro‖; em 2008, ―Cantos e Encantos de Natal‖ (aproximadamente 1.200 alunos envolvidos); em 2009, ―Entre o Rio e o Mar―, o qual, devido a problemas de financiamento, deverá ser realizado durante o primeiro semestre de 2010 (SME, 2009b). Os relatórios do Programa de Ações Educativas Complementares 2008/2009 evidenciam os seguintes avanços decorrentes da sua implantação: O Programa Ações Educativas Complementares tem se mostrado eficaz na elevação da autoestima da criança e adolescentes e em tornar a escola mais atraente e interessante para o aluno. Por outro lado aproxima a família da escola, melhora o relacionamento aluno-aluno, aluno-professor, paisfilhos. Oferece, ainda, oportunidades a pessoas da comunidade e estudantes universitários de atuarem no seu campo de interesse e de prestar serviços relevantes à comunidade, 80 fortalecendo as atividades de solidariedade, respeito e participação (SME, 2008e, p.16). Os referidos relatórios pontuam, ainda, as seguintes contribuições do Programa: Possibilitou acreditar que o saber está no mundo (e não só na escola). Incentivou a frequência escolar e a participação em outras atividades escolares. Aumentou a colaboração nos trabalhos em grupo. Possibilitou a escola trabalhar com pessoas da comunidade. Aproximou a comunidade da escola e a escola da comunidade. Incentivou a utilização de espaços da comunidade e da cidade. Reduziu a violência na escola. Possibilitou a melhoria da disciplina. Em relação aos desafios associados ao Programa de Ações Educativas Complementares, a professora Vânia Lima salientou a necessidade de maior divulgação, a fim de lhe possibilitar ―uma maior visibilidade para que a sociedade veja a importância dessas Ações, que não são só assistencialistas, vão muito além disso, são educativas, ajudam a tirar as crianças da violência e também criam uma cultura de paz nessas crianças‖. Outro desafio que se destacou nas entrevistas foi a necessidade de aumentar o financiamento do Programa (incluindo aí o aumento da bolsaauxílio para os monitores), o qual, contraditoriamente, segundo a diretora do Departamento de Atenção ao Educando, vem passando por cortes nos últimos anos, dificultando e impondo limitações à sua execução: Esta é (a Proposta Orçamentária) para 2010. Colocamos aqui que já vamos selecionar as escolas e, aí, o que percebemos? Como a verba passou a ser só municipal... A gente tinha um valor de 100%, acho que era 200 mil reais ao ano para desenvolver esse Projeto. No ano passado, ficou 40% para o tempo integral / para o Departamento de Ensino Fundamental e a gente ficou só com 60%. Esse ano, dos 60%, a gente vai ter que dividir 20 com o Projeto Justiça e Escola. Aí começa a diminuir a ação do projeto, quando ele começou atingia quase 100% das escolas, eram 65 escolas. Hoje, a gente está com 34, e, esse ano (2010), talvez a gente ainda diminua. Então 81 qual é o critério que estamos utilizando para atender as escolas? Estamos dando prioridade para quem não tem o Mais Educação, que é para ter a amplitude total da rede (contemplada com atividades que ampliam a jornada escolar). Umas cinco escolas foram criadas esse ano e estamos dando a oportunidade desses projetos para essas escolas. Os problemas associados ao financiamento do Programa vêm obstaculizando a realização de uma logística financeira que possibilite, entre outros aspectos, a compra de materiais específicos para a realização das oficinas. Esse problema foi apresentado pela diretora do Departamento de Atenção do Educando: A dança precisa essencialmente do próprio corpo, aí o professor vai lá e desenvolve suas atividades. Já o professor de xadrez precisa de material pra levar para essas 30 crianças que ele atende, aí ele tem dificuldades, por ser um monitor de periferia, por ganhar pouquíssimo, e não ter como dar o suplemento para que melhorem essas oficinas. A diretora observou, ainda, que a diminuição de dez para seis oficinas no Programa Mais Educação, fez com que as escolas que integram este Programa tenham solicitado mais quatro oficinas ao DAE, de forma a darem continuidade às suas ações relacionadas ao tempo integral. Lembra-se aqui que, de acordo com o decreto n° 6.253/2007, as instâncias subnacionais só podem receber recursos diferenciados do Fundeb para o tempo integral, caso os alunos matriculados permaneçam nas escolas, durante sete horas ou mais, por cinco dias da semana. Nesse sentido, a possível ampliação dos recursos, por parte da Prefeitura Municipal, para o fortalecimento do Programa Ações Educativas Complementares, além de contribuir para a consolidação do tempo integral nas escolas, se fará associar ao recebimento de recursos para o tempo integral, discriminados no Fundef. Ou seja, um maior investimento da prefeitura no Programa, na perspectiva da implantação do tempo integral, resultaria em um maior retorno de recursos por parte do Fundeb. Provavelmente, ao ―economizar‖, ela está perdendo recursos. De acordo com a professora Vânia Lima, o ideal seria que o Programa de Ações Educativas Complementares: ... ganhasse a condição de uma política pública, porque atenderia toda rede de ensino municipal e com isso todas as 82 escolas seriam beneficiadas. Seria importante que esta proposta fosse levada até a Câmara de Vereadores por meio de um projeto de lei que possibilitasse o Programa agir de forma efetiva em toda a rede, e que não apenas uma parcela das escolas fosse atendida, mas todas, porque com isso o próprio município iria ganhar, o departamento também seria mais valorizado, porque é um departamento muito importante. [...] ampliar pra chegar o momento ideal, que seria o nosso sonho, de atender toda rede municipal. No contexto normativo atual, a União passou a ter a função de impulsionar a implementação de ações, programas e políticas em nível nacional. Nesse sentido, no estágio inicial, o governo federal auxilia no financiamento e fornece apoio técnico para que as instâncias subnacionais tenham condições de desencadear e consolidar o processo que envolve a implantação da ação/programa/política. Com o passar do tempo, o governo federal vai se afastando, e a responsabilidade para com a manutenção e desenvolvimento das ações, políticas e programas vão sendo transferidas para a alçada dos municípios e estados (PERONI, 2003). Este foi o processo que envolveu a implantação das Ações Educativas Complementares no País e em Natal. 4.3 – Oficinas de Aprendizagem em Língua Portuguesa e Matemática As Oficinas de Aprendizagem, com início em 2008, constituem-se em uma ação da Secretaria Municipal de Educação de Natal com vistas ao atendimento a alunos que apresentam baixo desempenho em leitura, escrita e Matemática (conhecimento lógico-matemático), bem como àqueles com defasagem idadesérie associada a dificuldades de aprendizagem. A ação, implantada em 2008, propõe-se a contribuir para a superação destas dificuldades, por meio da oferta de oficinas de aprendizagem no contraturno escolar (SME, 2009e). Mais especificamente, de acordo com a chefia do Setor de Educação em Tempo Integral e com a coordenadora geral do Programa Mais Educação em Natal, ―Não se trata de um Programa, nem de projeto. É uma ação dentro de uma proposta de Educação Integral, considerando a ampliação da jornada escolar do aluno com a realização de oficinas de aprendizagem (reforço escolar)‖. 83 Interessante historiar a origem dos profissionais e, consequentemente, destas ações/Oficinas de Aprendizagem. Segundo a chefia do SETI: Em 2008, os CEMEIs (Centros Municipais de Educação Infantil), que antigamente eram creches vinculadas à Secretaria de Assistência Social, passaram para Secretaria Municipal de Educação. [...] Antes da transição, quando ainda eram creches, foi feito um concurso para educador infantil, para ir pra esses CEMEIs novos. No que foi feito o concurso, esse pessoal que trabalhava nas creches, muitos fizeram o concurso e muitos não passaram, então eles ficaram ociosos. [...] E aí, como eles já eram pagos pela prefeitura, esse pessoal veio pra cá pra Secretaria Municipal de Educação, ficando sob a responsabilidade do Setor de Tempo Integral, fazer uma triagem [...] A gente fez essa triagem considerando quem tinha nível superior em Pedagogia, quem era universitário, fizemos também entrevistas, eles escreveram redação. Então a gente ficou com poucos... [...] inicialmente eram uns 70 profissionais, dos quais a gente ficou com 40. No ano passado, em 2009, foi que, com a passagem de todas as creches (para a Secretaria Municipal de Educação), a gente tinha uns 300 (para realizar a triagem). Então, desses 300, ao todo a gente trabalha com aproximadamente 100, que estão nas escolas desenvolvendo aulas de reforço para primeiro a quinto ano. Esses profissionais, selecionados pelo SETI especialmente por meio da análise do seu currículo e do interesse demonstrado em trabalhar com o reforço escolar, em sua maioria são estudantes de Pedagogia, graduados e/ou pessoas com experiência em alfabetização, sendo que o seu trabalho deve estar associado ao coordenador pedagógico e aos professores que apresentam alunos nas oficinas de aprendizagem. Estas ações, realizadas no contraturno, devem se apresentar dispostas no projeto político-pedagógico das escolas (SME, 2009e). Vale destacar que, durante todo o segundo semestre de 2009, o Setor de Educação em Tempo Integral realizou encontros quinzenais, objetivando a formação continuada dos profissionais que atuavam com essas oficinas (SME, 2009 f). Em 2010, o SETI conta com 94 profissionais, atuando em 65 escolas, cada qual com carga horária de 40 horas semanais. De acordo com a chefia deste setor, o critério para a distribuição dos professores está associado ao IDEB, sendo que o número de profissionais destinados a cada escola solicitante oscila de um a dois. 84 As contribuições em relação a esta ação se fazem associar ao significativo percentual de alunos que, tendo participado das oficinas, apresentam melhorias no seu desempenho, conquistando sua aprovação. Este fato contribui para que as oficinas sejam solicitadas pela maioria das escolas. A seguir, destaca-se a apreciação da diretora da E.M. Professor Zuza acerca das Oficinas de Aprendizagem: Diante do resultado (alto percentual de aprovação entre os alunos que frequentaram as oficinas de aprendizagem), vimos que esse projeto é fundamental na rede pública, considerando que esses alunos, em sua maioria, não possuem condições na família para investimento pedagógico (SME, 2009g). Os desafios associados às oficinas de aprendizagem recaem especialmente na formação dos profissionais. Segundo a chefia do SETI: Mesmo após essa triagem a gente percebe que esses profissionais, pela sua prática anterior, de ter trabalhado só em creche, têm dificuldade em realizar esse trabalho. Então em 2008 e 2009, a gente começou a formação com esses profissionais, a cada 15 dias a gente tem encontro com eles... No que tange à organização dos espaços e dos tempos da experiência, observa-se que a ampliação do tempo (as oficinas, conforme evidenciado, ocorrem no contraturno escolar) remete à necessidade de ampliação dos espaços, já que as escolas foram organizadas para atender à demanda da comunidade em dois ou mais turnos27. Nesse sentido, observou-se que as escolas têm (re)organizado o seu espaço intraescolar de forma a possibilitar o desenvolvimento destas oficinas. No entanto, a conjunção destas com outras atividades e/ou programas no âmbito intraescolar está impondo alguns desafios relacionados, entre outros, ao uso destes espaços em prol de avanços na aprendizagem de seus alunos, conforme aponta a chefia do SETI: Esse trabalho (oficinas de aprendizagem), que começou em 2008, agora está gerando uma discussão em relação ao Mais Educação, porque o Mais Educação também tem Letramento e tem Matemática. Além disso, o Mais Educação já não tem espaço na escola pra desenvolver essas atividades, o que é um grande problema, e esses profissionais também estão lá, desenvolvendo essas mesmas atividades, também sem ter espaço. Então, a gente está vendo a possibilidade de 27 Em Natal, o turno intermediário foi extinto em 2007 (Resolução n° 001/06 – CME). 85 remanejar esses profissionais para outras escolas que ainda não tenham o reforço ou até mesmo deixá-los ajudando o coordenador do Mais Educação. Ainda está indefinido o que vai acontecer com esse profissional de reforço agora em 2010. Por fim, observa-se que a conjugação – expressa no projeto político pedagógico construído coletivamente – das oficinas de aprendizagem em Língua Portuguesa e Matemática com as Ações Educativas Complementares poderá fortalecer a política de educação integral do município de Natal. 4.4 - O Programa Mais Educação em Natal O Programa Mais Educação (PME), normatizado28 pelo decreto n° 7.083, de 27 de janeiro de 2010, integra as ações do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE)29 na condição de uma estratégia para promover a ampliação da jornada escolar e a organização curricular nas escolas públicas, com vistas à educação integral. Nesse sentido, tem por finalidade ―contribuir para a melhoria da aprendizagem por meio da ampliação do tempo de permanência de crianças, adolescentes e jovens matriculados em escola pública, mediante a oferta de educação básica em tempo integral‖ (art. 1°). Em Natal, conforme destacado anteriormente, o Programa Mais Educação foi apresentado à comunidade educacional pela secretária municipal de educação, durante a realização do ―II Seminário Tecendo Redes para a Educação Integral: uma conquista social‖, ocorrido em maio de 2007. Na condição de integrante do PDE, o Programa foi amplamente divulgado no país. 28 O Programa Mais Educação foi criado pela Portaria Normativa Interministerial n° 17, de 24 de abril de 2007. 29 Lançado em 24 de abril de 2007, o PDE tem por objetivo a qualidade na educação básica. Com vistas a este fim, busca dar consequência às metas quantitativas do Plano Nacional de Educação. Tendo por referência uma visão sistêmica da educação, o PDE se organiza em torno de quatro eixos norteadores – educação básica, educação superior, educação profissional e alfabetização – para os quais constam mais de quarenta programas/ações (MEC, 2007). 86 Segundo relato30 da chefia do Setor de Educação em Tempo Integral e da coordenadora geral do Programa Mais Educação, no início de 2008 o MEC entrou em contato com a Assessoria de Planejamento da Secretaria Municipal de Educação; na ocasião, a professora Justina Iva estava à frente desta Secretaria. Por considerar que a proposta viria a contribuir para o avanço do processo de ensino e aprendizagem da rede, a SME-Natal imediatamente aderiu ao Programa. Na sequência, o MEC encaminhou, por e-mail, o manual e outros materiais informativos do Programa, bem como a relação das escolas cujo IDEB possibilitaria sua inclusão no Mais Educação. Ainda segundo informações das professoras, com vistas a estabelecer estratégias de trabalho, foi realizada uma reunião geral na SME-Natal em que foi definido que ficaria sob a responsabilidade do Setor de Educação em Tempo Integral organizar toda divulgação necessária para a compreensão do Programa: reuniões e seminários com apresentação para a rede municipal, bem como para profissionais da própria secretaria, incluindo todos os projetos, ações e programas associados à educação (em tempo) integral. De acordo com a chefia do Setor de Educação em Tempo Integral e com a coordenadora geral do Programa Mais Educação, após a etapa de divulgação, entremeada por vários contatos com o MEC, com vistas a maiores informações, o SETI, tendo por base o manual do Programa, realizou reunião com os diretores das escolas relacionadas com vistas a apresentar a proposta do Mais Educação. Ainda segundo as professoras, após adesão ao Programa por parte das escolas, foi promovida a escolha pela comunidade escolar dos coordenadores do Programa, ocasião em que o SETI começou a atuar com eles, os quais, consequentemente, passaram a trabalhar com os profissionais de sua escola. No contexto atual, de acordo com a chefia do Setor de Educação em Tempo Integral, as funções do Setor em relação ao Mais Educação estão associadas, especialmente, ao assessoramento e acompanhamento do Programa junto às escolas: 30 As informações referentes ao processo de implantação do Programa Mais Educação pela SME-Natal foram repassadas pela chefia do Setor de Educação em Tempo Integral e pela coordenadora geral do Programa Mais Educação junto à rede municipal. 87 Realizamos sistematicamente encontros com coordenadores e diretores para discussão tanto em nível administrativo, quanto pedagógico. No setor, aqui na SME, também atendemos frequentemente as escolas auxiliando na execução do Programa: escolha de monitores, organização do horário, escuta sobre dificuldades e avanços, tira-dúvidas com o MEC, são todas as orientações que a escola precisa para a boa realização do Programa. O setor disponibiliza horário de segunda a sexta-feira para esse trabalho. Além disso, segundo o mesmo relato, por ocasião da inclusão de novas unidades escolares no Programa, o SETI auxilia na realização de levantamentos sobre as possibilidades de realização de parcerias direcionadas à ampliação dos espaços educativos. A Tabela 4, que tem por objetivo evidenciar a evolução do Programa Mais Educação na rede municipal de ensino fundamental de Natal, revela um crescimento no número de estabelecimentos atendidos pelo Programa da ordem de 200%, de 2008 para 2010. Tendo em vista que a rede municipal de Natal apresenta 71 estabelecimentos de ensino fundamental, conclui-se que 71,8% das suas escolas, durante o ano de 2010, integram o Mais Educação. Tabela 4 Natal (RN): Número de escolas municipais de ensino fundamental que integram o Programa Mais Educação – 2008 a 2010. Anos 2008 2009 2010 N° Escolas 17 43 51 N° Alunos 3.727 6.937 8.215 Fonte: SME/SETI Em relação ao número de alunos inscritos no Programa Mais Educação, observa-se um aumento de 120%, de 2008 para 2010. Partindo da informação de que o número de alunos matriculados na rede municipal foi de 40.227, conclui-se que o Programa, em 2010, abarca 20,4% das matrículas do ensino fundamental da rede. Diante da dificuldade de se investigar todas as escolas da rede municipal de ensino fundamental de Natal atendidas pelo Programa, foram selecionadas quatro para integrarem esta pesquisa: (1) Escola Municipal São José (EMSJ) (Zona Sul), (2) Escola Municipal Herly Parente (EMHP) (Zona Norte), (3) Escola Municipal Profª. Almerinda Furtado (EMAF) (Zona Oeste) e (4) Escola Municipal Juvenal Lamartine (EMJL) (Zona Leste). A seleção das 88 escolas levou em consideração basicamente dois aspectos: (1) o tempo de implementação do Programa – todas elas integraram o Mais Educação desde o seu primeiro ano de implantação (2008) –, importante fator para que se possa realizar uma avaliação mais precisa sobre o Projeto; (2) sua localização; no caso, optou-se por investigar escolas situadas, cada qual, em uma das quatro regiões administrativas de Natal, de modo a abarcar toda a geografia municipal. Na prática – considerando que o Programa Mais Educação31 está voltado, prioritariamente, para o atendimento de escolas de baixo IDEB, situadas nas capitais, regiões metropolitanas e grandes cidades com territórios marcados por situação de vulnerabilidade social que requerem convergência prioritária de políticas públicas e educacionais (MEC, 2009a) –, este fato revela a condição desfavorável de um número significativo de escolas de ensino fundamental da SME-Natal frente àquele índice, bem como a necessidade de enfrentamento de situações de vulnerabilidade social a que, possivelmente, estão sujeitos seus alunos. No que tange ao IDEB, a Tabela 5 apresenta os resultados deste indicador para as escolas investigadas na pesquisa. Tabela 06 Natal (RN): IDEBs observados por segmento do ensino fundamental, segundo a escola – 2005, 2007 Escola E.M. São José E.M. Herly Parente E.M. Profª. Almerinda Furtado E.M. Juvenal Lamartine 2005 Anos Iniciais Anos Finais 2007 3,8 3,4 2,3 - Anos Iniciais 3,7 3,8 3,0 2,5 - 2,8 Anos Finais 2,4 Fonte: MEC/INEP. Disponível em:< http://ideb.inep.gov.br> Embora existam muitos aspectos que as diferenciam entre si, tais como o IDEB, número de alunos, espaço físico e localização geográfica, as quatro 31 Em 2009, a implementação do Programa Mais Educação priorizou as ―unidades escolares de ensino fundamental, municipais ou estaduais, localizadas nas regiões metropolitanas ou no entorno das capitais com mais de 100 mil habitantes, com IDEB apurado em 2007, baixo em relação à média do município e com mais de 99 matrículas no Censo Escolar de 2008‖ (MEC, 2009b, p. 01). 89 escolas selecionadas infelizmente apresentam em comum a situação de vulnerabilidade social que envolve o cotidiano de significativa parcela de seus alunos: A comunidade precisa que esses meninos estejam mais próximos da escola, porque é um bairro de vulnerabilidade social muito alta. Aqui a questão das drogas e da prostituição é muito marcante. A gente tem a necessidade de trazer essas crianças pra escola porque aí nós estamos protegendo, cuidando e educando melhor... (EMSJ, coordenadora do PME). A exemplo deste, vários outros excertos poderiam ser extraídos dos relatos de modo a configurar o cenário de vulnerabilidade que envolve parte significativa dos alunos das escolas pesquisadas. Em meio a este contexto, os diretores entrevistados em sua maioria evidenciaram que, embora o seu primeiro movimento em relação à indicação da inclusão da sua escola no Mais Educação fosse de resistência e de angústia, esta dificuldade inicial foi superada pelo entendimento de que o Programa traria grandes benefícios para os alunos, tanto em relação ao avanço da aprendizagem, quanto em relação ao combate à vulnerabilidade social, bem como no que tange a aspectos relacionados à sua formação geral de forma mais ampla: Eu fui até resistente devido à falta de espaço, não queria aderir ao programa, mas também reconheci que traria benefícios, inclusive visando à melhoria do índice de aprendizagem, então abracei. (EMSJ, diretora). Quando recebemos a indicação do Mais Educação na escola, primeiro ficamos muito angustiados porque não temos espaço físico na escola pra isso. A escola tem um espaço físico muito restrito e teríamos que ter espaço para realizar as oficinas... Mas, ao mesmo tempo, o que levou a gente a correr atrás disso foi a necessidade que a comunidade da escola tem de estar ocupando esse seu tempo ocioso, porque aqui tem muitos alunos que estão em grupos de risco, aqui na comunidade existem muitos problemas com drogas e com marginalidade. Então, o Mais Educação vem para ajudar para que essas crianças não caiam nisso aí. Se a gente está com eles um tempo a mais na escola, estamos tirando eles das ruas, das lan houses, das más companhias. Então, estes foram os grandes motivos para a gente abraçar essa proposta, e, aí, depois foi só correr atrás da estrutura da escola (EMHP, diretora). 90 A coordenadora do Programa na E.M. Herly Parente complementou a entrevista da diretora, ao apresentar que ―a direção da escola viu que havia necessidade de melhorar não só a qualidade do ensino dos nossos alunos, mas a maneira de eles viverem, de aprenderem, de se portarem. Vimos que isso era necessário para eles e que o Programa iria possibilitar que aprendessem isso também‖. Essa mudança de comportamento do gestor é reiterada na entrevista da chefia do Setor de Educação em Tempo Integral: Eles (os gestores) inicialmente resistem muito, principalmente em relação ao espaço, mas também entram problemas de outra ordem, como o aumento mesmo de trabalho. Contudo, temos percebido que é um comportamento inicial, porque depois que entram temos depoimentos belíssimos de gestores que a gente jamais imaginou que agiriam de forma diferente, que pudesse elogiar, que pudesse se sensibilizar, que pudesse abraçar o programa, desses que foram realmente contra e que, hoje, são fortes aliados. Depois de passado o impacto inicial e a decisão de implantar o Mais Educação, as escolas pesquisadas realizaram reuniões com vistas a definir algumas questões fundamentais, tais como: (1) indicação do coordenador do Programa no âmbito do estabelecimento de ensino, (2) escolha e formação de turmas para as oficinas, (3) seleção dos monitores, (4) seleção dos alunos beneficiados pelo Programa, (5) estabelecimento de parcerias e (6) organização dos tempos e dos espaços, dentro e fora da escola. Antes de apresentar cada um destes pontos, vale destacar que, após terem estabelecido as condições básicas para implantar o Mais Educação, as escolas reuniram-se com os pais. No caso específico da E.M. Herly Parente, segundo sua diretora, houve ―uma grande assembleia onde apresentamos o Programa, apresentamos as atividades que iríamos desenvolver, apresentamos a estrutura do Programa na escola e pedimos o apoio dos pais”, cuja “aceitação foi imediata”. Voltando aos itens anteriormente mencionados, o entendimento de que o coordenador do Mais Educação no âmbito da instituição escolar deveria se envolver no processo de implantação do Programa desde o seu início, contribuiu para que a escolha deste profissional se constituísse em uma das primeiras medidas a serem tomadas nas escolas pesquisadas. Embora não 91 tenha sido possível definir os critérios, mas apenas alguns dos motivos 32, que as escolas levaram em consideração para selecionar estes coordenadores, a pesquisa possibilitou perceber algumas características que lhes são comuns, tais como, apoiam novas idéias e aceitam desafios; apresentam sensibilidade para compartilhar problemas dos estudantes, das famílias e da comunidade; além de acreditarem no sucesso do Programa e nos seus benefícios para os alunos. Eu não sei se sou muito entusiasta com essa questão, mas, assim, eu gosto de desafio, nunca fui muito dado à coisa da mesmice. Então, quando li o Manual do Mais Educação, quando tive esse contato, eu comecei a perceber que era o caminho que eu queria trabalhar, era o caminho que eu, pessoalmente, me realizo [...] Eu até me emociono de falar isso (possível término do Programa), não gosto nem de imaginar uma coisa assim, hoje é muito difícil eu não me ver trabalhando com esse Programa (EMAF, coordenador do PME). Eles (os alunos) não teriam essas oportunidades na família deles, de esporte, de lazer... Não tem, só ficam na rua. Rua é uma coisa maravilhosa, mas é muito perigosa. [...] Na rua também tem esportes, mas é perigoso porque não tem controle por causa dos amigos da droga. Então eu acho que a gente consegue tirar muitos garotos desse caminho, muitos. Muita gente acha que não, mas a gente consegue (EMJL, coordenador do PME). É uma causa que eu abracei, vesti a camisa, o que posso fazer eu faço, coisas que estão até além do meu alcance, porque é uma coisa que eu acredito. É muito bom trabalhar com uma coisa que você acredita, porque você defende... (EMSJ, coordenadora do PME). 32 No que tange à seleção dos coordenadores do Programa nas escolas, diferentes motivos resultaram na sua definição. Uma das escolas levou em consideração o fato de a professora apresentar amplo conhecimento e envolvimento com as questões sociais, educacionais e culturais do bairro e da escola. Outra escola teve por base, entre outros aspectos, o fato de a professora vir realizando, há algum tempo, trabalho como voluntária em uma casa de recuperação para toxicômanos, experiência que contribui para que defenda a necessidade de se trabalhar com os alunos em situação de vulnerabilidade social, desde cedo e, especialmente, na escola. Os dois outros coordenadores foram selecionados pelo seu envolvimento com os alunos e por apresentarem formação (Artes e Esportes) associada às oficinas que as escolas possivelmente iriam implementar, fato que, por exemplo, facilitaria tanto a seleção dos monitores, quanto o acompanhamento e desenvolvimento das atividades do contraturno. 92 A pesquisa revelou, ainda, que todos os coordenadores entrevistados, sem exceção, apresentam grande envolvimento com os alunos, com a escola e com o Programa, estando empenhados para o seu sucesso. No que tange à escolha das atividades/oficinas do Programa Mais Educação, no macrocampo ―Acompanhamento Pedagógico‖ – único em que deve ser selecionada pelo menos uma atividade (MEC, 2009b) –, todas as escolas pesquisadas optaram por trabalhar com Letramento. Partindo desta constatação, a Tabela 7 evidencia as oficinas que estão sendo trabalhadas, durante o ano de 2010. Tabela 7 Natal (RN): Total de alunos matriculados no ensino fundamental e no Programa Mais Educação e oficinas oferecidas, segundo a escola da rede municipal – 2010 Total de alunos Número de alunos Mais Educação Oficinas E.M. São José 180 100 E.M. Herly Parente 500 120 1.100 340 800 375 Letramento, Matemática, Recreação, Xadrez Tradicional e Futsal Letramento, Matemática, Informática, Danças, Xadrez Tradicional, Horta Escolar Letramento, Canto Coral, Dança Contemporânea, Desenho, Jornal Escolar, Taekwondo. Letramento, Matemática, Canto Coral, Jornal Escolar, Rádio Escolar, Banda Fanfarra, Futebol, Futsal, (2) Voleibol, Judô Escola E.M. Profª. Almerinda Furtado E.M. Juvenal Lamartine (2) (1) (1) Em 2010, a escola deixou de oferecer a atividade de Matemática pelo Programa Mais Educação, a qual vem sendo oferecida por duas professoras da SME que atuam exclusivamente com as Oficinas de Apoio Pedagógico/Reforço Escolar. (2) Em função das determinações do Programa, a escola, em 2010, teria que diminuir o número de oficinas para seis; na ocasião da pesquisa, esta questão estava em estudo. Conforme se pode observar no relato da coordenadora geral do Programa, a escolha das oficinas, num primeiro momento, esteve associada ao fortalecimento de atividades que já vinham sendo desenvolvidas nas escolas: Uma coisa que podemos dizer também é que o Programa Mais Educação trouxe muitas coisas, mas muitas escolas aproveitaram o que já faziam para participar do Programa. Então inscreveram atividades que já eram desenvolvidas na própria escola, por exemplo, se a escola já tinha horta, então inscrevia essa modalidade no Mais Educação, [...] se já tinha laboratório de informática, então inscrevia também [...] porque continuava a atividade que já existia e recebia recursos para fortalecê-la ainda mais. É interessante colocar isso, na verdade o Mais Educação veio pra somar, muitas atividades que as escolas escolheram já eram realizadas. 93 A escolha destas e de outras oficinas também se fez associar ao entendimento de que elas contribuiriam para o desenvolvimento dos alunos de uma forma mais ampla, envolvendo o currículo escolar, mas ultrapassando-o para abarcar também diferentes dimensões do ser humano. Por exemplo, a escolha da E.M. Profª Almerinda Furtado associada às artes marciais deveuse, entre outros aspectos, ao alto índice de violência entre os alunos. Neste caso, a coordenação, após estudos e consultas decidiu trabalhar com a oficina de Taekwondo, que ―tem uma filosofia, que leva para o diálogo, para o ouvir, que é de se defender e não de atacar‖ (EMAF, coordenador do PME). A escolha da oficina de Xadrez se deveu, entre outros fatores, à possibilidade de ―auxiliar na concentração e no desenvolvimento do raciocínio lógico dos alunos‖ (EMHP, coordenadora do PME); a opção por Dança se fez associar, por exemplo, ―à oportunidade de possibilitar momentos de relaxamento, alongamento e música a alunos que convivem diariamente com situações de estresse‖ (Idem). Ou seja, diferentes fatores levaram à escolha das oficinas, durante o primeiro ano de implementação do Programa nas escolas pesquisadas. Contudo, é possível perceber nos relatos que está ocorrendo um movimento, cada vez maior nestas escolas, no sentido de buscar apreender quais as outras oficinas, tendo em vista a realidade de seus alunos, apresentam melhores e maiores condições de ampliar suas possibilidades de aprendizagem e de formação geral (na perspectiva integral). Além disso, conforme se poderá constatar posteriormente, observa-se o empenho de parte significativa dos monitores no sentido de potencializar os resultados da oficina sob sua responsabilidade. Em relação à formação das turmas das oficinas, os relatos sobre as quatro escolas, referentes aos anos iniciais do ensino fundamental, evidenciaram que tomaram por orientação os níveis de aprendizagem dos alunos. Nós fizemos um diagnóstico nas turmas. Quando vamos separar os grupos do Programa, misturamos as turmas e, aí, separamos os grupos por níveis de aprendizagem, tanto pra facilitar para eles (monitores e alunos) quanto para haver uma mistura de turmas, para não ficar tal e qual, até porque ficaria enfadonho ficar de manhã e à tarde com os mesmos (colegas) (EMSJ, coordenadora do PME). 94 Já as entrevistas dos alunos da única escola pesquisada que apresenta anos finais do ensino fundamental, E. M. Juvenal Lamartine, evidenciaram que a separação das turmas, deste segmento, abarca dois anos concomitantemente, por exemplo, sexto e sétimo anos juntos. A seleção dos monitores nas escolas pesquisadas levou em consideração as orientações do MEC e do SETI33, priorizando (1) candidatos matriculados ou formados em cursos, preferencialmente de nível superior, relacionados às atividades que pretendem desenvolver no Mais Educação, bem como (2) membros da comunidade com conhecimentos compatíveis com as atribuições que se fazem associar à atividade/oficina que pretendem desenvolver. Nesse sentido, a coordenação geral do Programa Mais Educação observou: Por orientação do MEC, nós pedimos que as escolas procurassem nas suas redondezas quem eles identificavam como profissionais com perfil para atuar nas oficinas. Por que nas redondezas? Porque o valor da bolsa não é significativo pra considerar transporte e alimentação. Então, de fato, a escola tem total autonomia pra fazer a seleção desses monitores. Nós até traçamos o perfil do profissional que gostaríamos que a escola tivesse. Contudo, existem oficinas que não demandam conhecimento científico tradicional, mas muito mais técnico, e nessa parte do conhecimento técnico temos pessoas que não têm qualificação em nível de formação educacional, entretanto ele desenvolve uma oficina de dança, uma oficina de rádio, capoeira, xadrez... Cabe destacar que, de acordo com a Resolução n° 3, de 1° de abril de 2010, as atividades desempenhadas pelos monitores são consideradas de natureza voluntária, na forma da lei n° 9.608, de 18 de fevereiro de 1998, e, sob esta condição, o auxílio-financeiro que recebem – cujo valor máximo, atualmente, é de R$ 300,00 – tem por fim o ressarcimento das suas despesas com transporte e alimentação (art. 15, § 10; art.16). Ainda no que tange à seleção dos monitores, evidencia-se que, segundo a chefia do Setor de Educação em Tempo Integral, o referido setor conta com um banco de currículos, cuja organização foi divulgada nos meios de comunicação e que 33 Portaria n° 133/08-GS, de 2 de outubro de 2008, que cria Programa de Educação em Tempo Integral – Caminho para a Cidadania (art. 8°). 95 dispõe, por exemplo, de cadastros de muitos universitários e de alguns professores aposentados. Nós temos um banco de currículos, as pessoas quando souberam – porque isso foi divulgado no jornal e em outros meios de comunicação –, então, quando as pessoas souberam e viram que existia essa possibilidade, muitos vieram até o setor, perguntaram como é que funciona o Programa e deixaram o currículo [...] A escola tem liberdade de buscar na comunidade essas pessoas (monitores), no entanto quando não encontram procuram a gente, que abre esse banco de currículos para que escolham. A autonomia de escolha é deles. Observa-se que, nos casos em que a escola seleciona um monitor que não consta no banco de currículos, o setor solicita que lhe sejam repassados os seus dados, a fim de que possa, entre outros aspectos, ter acesso à sua formação e as atividades que estão desenvolvendo. Foi possível perceber que os diretores e coordenadores do Mais Educação, no âmbito da escola, buscam lançar mão de critérios associados não só à qualificação, mas também ao envolvimento dos monitores com a educação e com causas sociais. Destacam-se aqui alguns relatos dos monitores, que evidenciam seu envolvimento com os alunos, bem como sua percepção a respeito do desenvolvimento das atividades que têm sob sua responsabilidade: Nosso trabalho (jornal escolar) é feito no laboratório de rádio e de informática. Nós fazemos o seguinte, trabalhamos a parte teórica na sala de aula e, na outra aula, nós vamos para o Laboratório de Informática, quando eles escrevem os textos que depois a gente vai corrigir, fazendo uma análise crítica do que escreveram, transformando isso numa matéria. Geralmente o texto é passado para o setor de radio e lá é feita a divulgação do que eles escreveram. [...] Esse ano a gente pretende ampliar esse trabalho, fazer esse trabalho integrado com Letramento, Geografia e outras disciplinas; estamos também com a intenção de criar o Jornal Mural, onde eles vão mostrar na prática o trabalho deles, com informações sobre a escola, sobre os professores, projetos que a escola detém, divulgar as ações que são realizadas dentro da escola. [...] Apesar do pouco tempo que eu cheguei aqui, que foi no ano passado, eu já tenho uma idéia de como eles cresceram, principalmente na parte de redação. Redação é o bicho-papão pra todos os alunos do ensino fundamental e do ensino médio e eles mostraram que já estão trilhando esse caminho com maior facilidade. No Jornal, a gente chama a primeira chamada de “cabeça” e eles já fazem tudo certinho, já têm uma ideia do 96 que vão colocar no texto... Então, isso aí, foi um progresso que a gente conseguiu. E também a gente tem trabalhado muito no lado cidadão, na formação dele como pessoa, mostrando a eles que são valiosos, porque muitos deles chegam dizendo que não valem nada, e a gente diz pra eles que não, que cada pessoa tem o seu valor, cabe a ele descobrir esses valores e colocar para fora esse tipo de valor (EMJL, monitor34 de jornal escolar). Eu tenho que trabalhar com eles da maneira que eles não levem para o lado do “reforço”, e sim da brincadeira, dos jogos. Alguns percebem e outros não, que ali estão trabalhando o raciocínio. A gente trabalha de uma maneira que eles não acham cansativo. [...] Eu também estou trabalhando para que eles venham realmente a entender as brincadeiras, os jogos, não só na parte de competição, mas da socialização: valorizar o amigo, valorizar aquele que não sabe... (EMHP, monitora35 de Matemática). No meu caso a gente trabalha na área artística de música e dança, a gente trabalha na perspectiva de montar sempre espetáculos. Na verdade, a gente tem um foco em musicais, daí nesse trabalho as crianças têm oportunidade de conhecer outros lugares, como teatros, e terem uma perspectiva artística também. [...] É uma cantoria só, eles se empenham pra cantar, apesar de não terem uma musicalidade, apesar de os pais não contribuírem pra isso, porque são alunos de uma comunidade bastante carente. A gente vê carência em tudo. Musicalmente a gente vê carência no ritmo, na afinação, mas, independente disso, eles fazem coisas que, pra mim, estão acima das minhas expectativas, como memorizar textos quando não sabem ler. Hoje a gente está trabalhando com 10 músicas, eles sabem cantar todas inteiras sem errar a letra, tem a dificuldade da dicção que é uma coisa que a gente vem trabalhando, mas eles têm um empenho tamanho que às vezes surpreende as nossas expectativas. [...] As atividades que a gente faz no canto, de respiração, de concentração, com certeza contribuem na vida escolar deles como um todo (EMAF, monitor36 de canto coral). Conforme evidenciado anteriormente, o Setor de Educação em Tempo Integral constitui-se no responsável pela formação dos monitores do Mais Educação; segundo a chefia do setor, por ocasião do levantamento dos dados para a pesquisa, ―embora haja um esboço inicial, a formação realmente ainda não aconteceu‖. 34 Trabalha há mais de 25 anos com jornalismo, tendo também atuado em rádio FM. Formada em Pedagogia, cursando Psicopedagogia. 36 Estudante do Curso de Música da UFRN. 35 97 No que tange à seleção dos alunos para o Programa Mais Educação, as escolas pesquisadas utilizam basicamente dois critérios: (1) dificuldade de aprendizagem associada ao Letramento e à Matemática e (2) situação de vulnerabilidade social: São dois critérios básicos. Primeiro a dificuldade de aprendizado que o professor detectou em sala, e o segundo crianças na área de risco, que são crianças que ficam sozinhas em casa porque a mãe tem que trabalhar e deixa a criança trancada em casa, ou crianças que têm pai alcoólatra ou drogado, que é a nossa realidade aqui, tem muita criança que convive nesse ambiente. Essas crianças foram priorizadas (EMHP, coordenadora do PME). Embora os critérios sejam os mesmos, as estratégias diferem. As duas escolas menores – São José e Herly Parente – selecionam os alunos a partir de uma triagem interna, que leva em consideração um levantamento realizado pelos professores em suas turmas. Nessas escolas, os alunos integrantes do Mais Educação participam de todas as oficinas. Já as duas escolas maiores abrem inscrição para a participação no Programa. A seleção leva em consideração especialmente o levantamento realizado pelos professores de turma sobre os alunos com maiores dificuldades, as ―situações críticas‖ nas áreas de Letramento e Matemática. As vagas que permanecem em aberto, que, em geral, são poucas, são preenchidas com alunos que querem participar voluntariamente e que se inscreveram. A participação dos selecionados nas oficinas de Letramento e Matemática é obrigatória, nas demais é por adesão. Vale ressaltar que: (1) a participação no Programa é voluntária – embora haja uma seleção realizada pelos professores –, os alunos decidem se querem ou não participar, (2) todas as escolas levam em consideração solicitações dos pais para a possível inserção dos filhos no Programa e, (3) a inclusão dos alunos está condicionada à autorização dos pais; em alguns poucos casos, isso não ocorreu. Em relação às parcerias, observa-se que as escolas pesquisadas orientaram sua busca na perspectiva da ampliação dos espaços escolares, com vistas a possibilitar o desenvolvimento das oficinas relacionadas ao 98 Programa Mais Educação, uma vez que o espaço intraescolar se apresenta exíguo até para a realização das atividades do turno. Vale destacar, a priori, que a conquista de parcerias na perspectiva da ampliação dos espaços escolares vem se constituindo em um dos principais desafios do Programa Mais Educação. Como a maioria das escolas foi planejada para atender a dois ou mais turnos, as quais, em grande número das vezes, trabalham com sua capacidade máxima de atendimento, a ampliação da jornada escolar por meio do Programa Mais Educação está condicionada à necessária ampliação dos espaços escolares, sem a qual, e/ou se mal administrados em termos da sua organização, poderá inviabilizar a implantação do tempo integral. A realização de parcerias por parte das escolas pesquisadas é acrescida do fato de estarem localizadas em áreas de vulnerabilidade social, em que existe uma grande dificuldade para encontrar parceiros e/ou espaços públicos adequados e próximos (parques, praças públicas, quadras comunitárias, por exemplo) para a realização de atividades no contraturno escolar. A seguir, um relato que evidencia esta dificuldade: Esses espaços, quando a gente analisa o raio de distância entre a escola e o parceiro para as atividades serem desenvolvidas, observamos que em torno das escolas não tem de fato essas estruturas. Poderíamos até considerar um clube, mas os clubes que temos aqui em Natal estão na Zona Sul, ou em áreas privilegiadas de Natal, esta é a nossa realidade (SME, coordenadora geral do PME). A assessora pedagógica, professora Giovanna Quaresma, ao apresentar as dificuldades que a SME-Natal vem enfrentando para a conquista de outros espaços, evidencia que, no contexto em que estão localizadas grande número das escolas municipais de Natal, A comunidade, ao invés de ter pontos que sirvam para apoiar a escola, a escola que é o ponto para apoiar a comunidade, em tudo que você possa imaginar, em práticas de adultos que vão lá para jogar futebol, uma festa de casamento, uma festa de 15 anos, um encontro de uma igreja, então tudo acontece dentro desse espaço escolar e não fora dele. Os diretores e os coordenadores do PME das escolas pesquisadas relataram que, desde que implantaram o Mais Educação, deram início à busca 99 por parcerias. Em meio a muitas recusas, poucos foram os resultados positivos. O próprio Programa diz que a gente tem que ter parceiros. No entanto, eu acredito que a sociedade ainda não acordou para a parceria voluntária. É necessário haver investimento na educação e a responsabilidade pela educação está muito focada na escola, sendo que, hoje, a responsabilidade pela educação é uma questão social. Então quando vamos em busca de parceiros, a gente encontra, mas ainda não é uma coisa muito fácil (EMJL, diretora). Importante destacar que o relato aponta para a necessidade de se desencadear um processo de conscientização e mobilização da sociedade a respeito da importância das parcerias com as escolas, entre outros aspectos, com vistas à ampliação de seus espaços. Afora isso, há a necessidade urgente de as instâncias governamentais estabelecerem políticas que venham a favorecer/beneficiar àqueles que aceitam participar destas parcerias e que, na maioria das vezes, têm associado aumento de despesas a este aceite. O depoimento a seguir evidencia sugestões com vistas à ampliação do número de parcerias com as escolas: Eu acredito que tem que ter incentivos, acho que se trata de políticas públicas, tem que ter incentivos para os parceiros. Por exemplo, se a pessoa contribuir com espaço para escola, então deve ser deduzido do Imposto de Renda ou do IPTU. Talvez seja uma utopia minha, mas eu acho que é você dar e receber. [...] Hoje em dia vivemos num mundo capitalista, mas é um mundo que está se sensibilizando que a educação é prioridade na vida de todo mundo, não só nos períodos de campanha (política), mas se você faz um investimento desde a base, consequentemente, terá um país melhor, um país mais limpo e com o meio ambiente mais preservado. Então, eu acho que se houver incentivos fiscais para essas empresas, pessoas, com certeza o ceder do espaço vai ser mais tranquilo, e não um pedido de parceria, mas o ceder pra ter um benefício (EMJL, diretora). Observa-se, ainda, que as poucas parcerias estabelecidas pelas escolas pesquisadas, especialmente aquelas situadas nas áreas mais carentes do município, em geral, estão associadas a entidades, associações locais que, usualmente, não dispõem de fontes estáveis de recursos para sua manutenção e desenvolvimento, fato que se reflete nas condições dos espaços oferecidos. Afora estas questões, em geral os poucos equipamentos públicos destes bairros carecem de conservação: 100 E no geral o espaço do bairro é todo muito ruim, por exemplo, essa pracinha aqui perto, é toda deteriorada, toda destruída, que seria um espaço alternativo que a gente poderia usar, mas não tem condições (EMHP, diretora). Nesses casos, faz-se urgente a realização de obras em praças, parques, quadras comunitárias e outros equipamentos públicos próximos às escolas, bem como, na forma de contrapartida ao Programa, sejam alugados imóveis que possibilitem a ampliação e a melhoria dos espaços escolares. A SMENatal, de acordo com a coordenadora geral do Programa Mais Educação, está dando início a este tipo de ação: Temos três ou quatro escolas que contam com espaços locados pra acontecer o Mais Educação. Já é alguma coisa, os espaços estão avançando, as crianças já estão saindo da escola e circulando pelo bairro. A comunidade vai começar a perceber e, aí, existe a chance maior de interação. O tópico referente à organização dos tempos e dos espaços educativos, dentro e fora da escola, apresenta grande parte de seu conteúdo diluído no texto. Todavia, convém destacar (e até reiterar) alguns pontos: Todas as escolas da SME-Natal que integram o Mais Educação, inclusive aquelas que não fizeram parte da pesquisa, optaram pela configuração turno e contraturno, em que no turno são desenvolvidas atividades do currículo regular e, no contraturno, as oficinas do Programa. Todas as escolas pesquisadas conseguiram ampliar os espaços para a realização de suas oficinas: três delas por meio de parcerias, a citar, Conselho Comunitário, Quadra Comunitária, Igrejas, Associação de Idosos, SESC/SESI/SENAI; sendo que uma, a E.M. Herly Parente, conseguiu com que a prefeitura de Natal alugasse um prédio onde funcionava uma escola particular para desenvolver suas atividades. As escolas com espaços parceiros desenvolvem suas oficinas nestes locais; já a escola que conquistou o prédio alugado, dividiu o ensino regular e as oficinas entre os dois prédios; todos os dias há deslocamento dos alunos de um local para o outro, já que somente o prédio da SME dispõe, entre outros aspectos, de cozinha, chuveiros, biblioteca e laboratório de Informática. 101 De acordo com os relatos, a conexão dos professores do turno com os monitores do contraturno tem se dado especialmente por intermédio do coordenador do PME no âmbito da escola, que ―faz a ponte‖, repassando aos monitores as informações, os pedidos dos professores. Isso corre especialmente porque não há um horário comum para a realização de planejamento conjunto, já que a maioria dos professores do quadro apresenta 20 horas semanais37 e trabalha no horário contrário ao dos monitores que estão com seus alunos. A implantação do Programa Mais Educação se fez acompanhar de avanços – (1) aprendizagem e inclusão social de alunos; (2) valorização da escola; (3) envolvimento dos alunos com o Programa; entre outros – e desafios – (1) integração dos pais e dos professores do turno com o Programa; (2) atualização do projeto político-pedagógico na perspectiva da escola (de tempo) integral; (3) integração entre os professores do turno e os monitores; (4) conquista de horário integral para professores que atuam em escolas de tempo integral; (5) formação dos monitores e dos coordenadores do Programa e; (6) atendimento (e aumento) da contrapartida da Prefeitura em relação ao Programa. A priori, destacam-se três aspectos sobre estes avanços e desafios. Primeiro: por se apresentarem, em geral, de forma inter-relacionada, tornou-se difícil dicotomizá-los na redação do texto. Segundo: embora quantitativamente os avanços se apresentem em número menor, suas conquistas qualitativas são extremamente significativas para o ensino fundamental. Terceiro: o principal desafio do Programa, segundo todos os entrevistados, constitui-se na ampliação dos espaços de forma a possibilitar o desenvolvimento das oficinas; todavia, por esta temática estar diluída no decorrer de todo este relatório, acredita-se desnecessário destacá-la novamente. Entre os avanços destacam-se os associados ao processo de aprendizagem, à formação geral, social e cultural, na perspectiva da conquista da autonomia e da inclusão social dos alunos. As entrevistas que mencionaram contribuições do Programa para a melhoria da aprendizagem, em geral, vieram 37 Destas 20 horas, 16 são em sala de aula e quatro para planejamento. 102 acompanhadas de justificativas que apontam para a utilização de metodologias mais envolventes associadas a jogos e brincadeiras. Conforme se pode observar nos próximos relatos, além destes aspectos, também evidenciaram melhorias no comportamento, na disciplina, na concentração, como contribuições àqueles cujo Programa é direcionado: Eu acho que o principal ponto positivo que nós temos observado é o crescimento deles (alunos) como cidadãos. Nós estamos apostando na inclusão desses alunos, a maioria mora na periferia, a gente já sente a preocupação de alguns deles em participar das coisas da comunidade, participar da igreja, de um conselho, então esse trabalho está muito focado nesse lado: de ele ser um ser social dentro da comunidade. Eu acho que se a gente conseguir levar isso à frente o sucesso do Programa esta garantido. O ponto positivo é exatamente esse, a formação geral, cultural, social, do aluno e do futuro cidadão (EMJL, monitor de jornal escolar). Muitos professores de sala de aula disseram que muitos alunos de Letramento e Matemática que participaram do Mais Educação, que se empenharam, tiveram uma melhora, tanto no lado pedagógico quanto no lado disciplinar. Alguns não, mas muitos tiveram um desempenho melhor, principalmente em atenção em sala de aula. [...] Outro lado positivo que eu vejo é a alegria deles de participar do Programa, de estar na escola, a grande maioria deles, porque eles gostam de participar, principalmente dos esportes, aí a gente faz a troca do esporte com a questão pedagógica, depois eles se envolvem com a questão pedagógica. A gente trabalha com o professor para que ele não utilize a mesma estratégia de sala de aula, isso é um ponto positivo, eles usam outro tipo de estratégia, com jogos, com brinquedos, que funcionem com a parte pedagógica. Então acho que um ponto positivo é essa alegria que a grande maioria deles tem de participar do Programa, principalmente esporte, que é o carro-chefe. E eles gostam muito na música dessa parte de batucada, então nós colocamos percussão agora nessa nova versão (EMJL, coordenador do PME). Eu acho que o impacto tem sido positivo na melhoria deles enquanto pessoa também, além da parte da aprendizagem. Até na autonomia deles, o ato de terminar o almoço e tomar banho, eles têm que contar com eles mesmos. Eu acho que tem um impacto positivo, dele realmente se cuidar, cuidar da aprendizagem, cuidar dele, e até na questão da alimentação também, porque aqui eles têm uma alimentação sadia, uma alimentação favorável ao desenvolvimento deles. Eu acho que o Programa é muito bem pensado, ele envolve tudo, alimentação, vestuário, aprendizagem, espaço. Uma coisa também que eu acho muito relevante é a socialização, porque a gente sabe que essa idade há muito choque, e esse contato diário melhora muito o estar junto da escola, então com isso 103 também reduziu a questão da violência na escola. Além dos outros projetos que a escola desenvolve, eu acho que o programa beneficia essa parte também (EMJL, diretora). Em relação à mudança de atitude de alguns alunos, de aprendizagem mesmo, como tem o reforço em Letramento e Matemática, tem as aulas de xadrez que ajudam muito a questão da concentração. A gente tem o relato de professores dizendo que alguns alunos avançaram e tiveram melhoras no processo de aprendizagem e de comportamento. A gente sabe que tem alguns alunos que estão ali simplesmente pra não estarem na rua e não captam a mensagem do Mais Educação, mas 80% dos alunos realmente querem alguma coisa, e aí é onde tem surtido efeito positivo (EMHP, diretora). O positivo, nós estamos vendo muitos pais dizerem que o filho melhorou até dentro do relacionamento em casa. Os professores dizem que alguns alunos melhoraram, alguns alunos, não vamos dizer que todos, isso já seria um sonho. Então esses são alguns aspectos positivos, além do aprendizado, porque aprende brincando, aprende com o número menor de crianças em sala, o monitor tem mais espaço, nem sempre físico, mas ali no convívio, são alunos de outras salas também, então eles têm aprendido [...] Quando no final do ano eu fiz entrevistas com algumas crianças, elas disseram que era um aprendizado diferente, elas estavam aprendendo brincando, então houve um progresso sim (EMHP, coordenadora do PME). Outra contribuição do Programa, apresentada nas entrevistas, esteve associada a uma maior valorização da escola por parte dos alunos, dos pais e da comunidade: A minha observação com relação a isso é que muitos pais não queriam mais que os filhos estudassem aqui e, a partir desse Programa e de outras coisas que têm acontecido na escola, os pais começaram a confiar mais na escola. Muitos pais que tiraram os filhos daqui, dizendo que aqui era uma escola problemática [...]; eles estão mudando o sentido disso e recolocando os filhos pra estudarem aqui. [...] Então ao longo desses últimos três anos a escola tem recuperado muitos alunos que tinham deixado a escola, por isso que eu acho que o Mais Educação e outros projetos que têm envolvimento dos professores em sala de aula, têm trazido mais alunos pra cá e o olhar da comunidade tem melhorado (EMJL, coordenador do PME). O meu (filho) (durante as férias) vivia perguntando quando ia começar as aulas e quando ia começar o Programa, ele gosta muito (EMJL, mãe de aluno). 104 Em relação ao envolvimento dos alunos, dos pais e dos professores com o Programa, a pesquisa possibilitou perceber comportamentos distintos: ao mesmo tempo que grande parte dos alunos está envolvida/integrada com o Programa, os pais, embora apoiem, apresentam lacunas em relação à sua participação; já no que tange aos professores revela-se uma resistência que, em alguns casos, vem sendo superada. Conforme observado, os relatos dos coordenadores, diretores, monitores e especialmente dos próprios estudantes evidenciaram envolvimento da maioria dos alunos com o Programa: Já, não vou dizer que está 100%, porque seria até estar falando com leviandade, mas eu vejo as crianças tendo o respeito pelo Programa. Ontem, por exemplo, estava chovendo e eu achei que as crianças não iam vir, eu me assustei, elas chegaram molhadas, trouxeram uma roupa dentro do saco plástico, mas vieram. Isso por quê? Porque tem alguma coisa que chama atenção dessas crianças, senão elas não iam enfrentar aquela chuva, isso é sinal de que está sendo proveitoso (EMHP, coordenadora do PME). Com o Programa ficou mais legal de vir pra escola, porque de manhã a gente ficava em casa sem fazer nada. Aqui a gente se movimenta, brinca, se alegra e esquece das coisas ruins, das preocupações do lado de fora, brigas de família, violência [...]. No Mais Educação a gente aprende nas aulas, a gente aprende a melhorar a nossa letra, a estudar mais e interagir sobre isso (EMJL, aluno do 7° ano). Quanto aos pais, os relatos evidenciam que a aceitação do Programa foi praticamente imediata. A esse respeito, a diretora da E.M. Herly Parente evidenciou: Quando a gente falou (para os pais) que íamos receber o Mais Educação e que as crianças iriam passar mais tempo na escola e que teriam outras atividades, principalmente a questão do reforço em Letramento e Matemática, a procura foi imensa. Se fôssemos atender a todos os pais que querem, a gente não ia dar conta, estamos atendendo 120 e tem, no mínimo, 50 crianças na lista de espera. Tendo por base o relato anterior, observa-se que a demanda por vagas no Programa é tal, que todas as escolas pesquisadas apresentam ―lista de espera‖. Contudo, embora o Mais Educação tenha uma boa aceitação por parte da maioria dos pais, alguns entrevistados evidenciaram que, embora valorizem 105 a inclusão dos filhos no Programa, sua participação na vida escolar deles – incluindo as atividades do Programa ainda se constitui desafio a superar: Nós temos notado exatamente esse problema nas nossas aulas, os pais não demonstram muito interesse em participar, estão muito ausentes na parte da escola, de discutir os problemas dos alunos. Eu acho que poderia haver uma maior participação dos pais, e isso poderia ser resolvido através da coordenação, ela tem que chamar os pais pra gente mostrar o serviço que a gente tá fazendo, as pessoas que estão trabalhando na formação dos filhos deles (EMJL, monitor de jornal escolar). O envolvimento dos pais é principalmente de que o aluno venha pra escola o dia todo com acesso a alimentação, ensino, oficinas. [...] Eu sinto muito quando nós convocamos os pais para alguma reunião na escola e a grande maioria não vem, alguns trabalham e não podem vir, mas muitos não têm interesse (EMJL, coordenador do PME). A seguinte entrevista fornece ―pistas‖ no sentido de possibilitar alternativas para o desafio de ampliar a participação dos pais no cotidiano escolar de seus filhos: No colégio particular tem um dia chamado “Vivenciando com os pais”, que os pais vêm para o colégio fazer as atividades que as crianças fazem. Eu estava pensando que a gente podia fazer isso aqui no colégio público: hoje os pais vão vir para reunião e vão praticar o esporte que as crianças praticam, junto com elas! Aí o pai passa a conhecer, a achar legal, e quando a criança vai para competição eles têm aquela vontade de assistir. Então, a gente tem que incentivar os pais também, está faltando a parte da gente também (EMAF, monitor38 de Takewondo). Embora contando com o apoio dos alunos, pais, monitores, coordenadores e diretores das escolas, a integração dos professores do quadro e dos funcionários com o Programa tem se revelado um dos desafios do Mais Educação: 38 Morador de área de vulnerabilidade social, cursou a educação básica em escola pública, onde teve acesso a um projeto social em que conheceu o Takewondo: ―Eu posso dizer que se eu não tivesse conhecido esse projeto hoje eu seria um drogado, um marginal, porque eu tinha amizades ruins e eu parei com essas amizades por causa do projeto. Comecei a treinar, a me dedicar, comecei a ganhar as competições, comecei a me dar com pessoas que eram do meio esportivo, que pensavam no futuro, e isso foi mudando minha cabeça. Eu nunca tinha tido vontade de fazer faculdade de nada, e o esporte proporcionou isso pra mim, eu faço faculdade na Facex (Faculdade de Ciências, Cultura e Extensão do RN), ganho uma bolsa, participo de competições, fui visto nacionalmente. Aí, a Facex me deu uma bolsa, eu faço Marketing lá” 106 Outro problema sério que a gente enfrentou foi a rejeição por parte de alguns integrantes da equipe docente e administrativa da escola, que rejeitaram muito a vinda do Mais Educação pra cá, por não acreditar no Programa e por achar que ia ser um tumulto, que iam ser 120 meninos circulando por aqui (no horário do almoço e do banho), sem espaço, e que não ia ter um trabalho, que era um trabalho de faz de conta, então isso foi muito complicado. Hoje, depois do Programa já iniciado e do conceito positivo de muitos professores, ainda escutamos pessoas que acham que o Mais Educação é como se fosse fora da escola. Tem pessoas que se referem dizendo que quem fez isso foram os “alunos do Mais Educação”, como se eles não fossem alunos da escola... Então existe ainda essa discriminação e essa rejeição, por serem meninos de grupo de risco, mais trabalhosos, com problemas familiares muito fortes, que repercutem no comportamento deles, por serem crianças muito ativas, muito rebeldes (EMHP, diretora). Tendo em vista que esses alunos em geral advêm de um extrato social vulnerável e, nesse sentido, apresentam pouquíssimas oportunidades educacionais fora da escola, apresentar obstáculos a estas possibilidades dentro da (provável) única instância institucional a que têm acesso, se faz associar, entre outros, à necessidade de profunda reflexão sobre os fins da educação. Depreenderam-se das entrevistas três aspectos associados à dificuldade de integração do professor do turno com as ações do Programa: (1) sua concepção de ensino e de aprendizagem, alicerçada no entendimento da supremacia dos conteúdos tradicionais do currículo; (2) questionamentos em relação à qualificação dos monitores que atuam no contraturno e, (3) ausência de tempo disponível para a realização de planejamento conjunto (professores/coordenador pedagógico & monitores/coordenador do Mais Educação). A coordenadora geral do Mais Educação junto à SME-Natal aponta possibilidades para a superação das dificuldades associadas à integração ao programa, por parte de alguns professores e funcionários das escolas: Muito depende da formação que temos que realizar com o coordenador do Programa nas escolas, para que ele possa desenvolver um trabalho com os professores de modo a que todo mundo venha ver a escola como única, e não como de manhã um turno e que os da tarde (que vêm pela manhã) estão invadindo esse turno. 107 Todavia, vale destacar que, embora o Programa seja relativamente novo, já que sua implantação data de setembro de 2008, segundo a chefia do Setor de Educação em Tempo Integral, já é possível perceber avanços no que tange a uma maior receptividade dos professores do turno: ―os próprios professores, que antes eram contra, têm percebido o resultado na própria sala de aula com seu aluno que está no Mais Educação, então isso tem favorecido uma maior aproximação.” Se, inicialmente, a valorização do Programa, por parte dos professores do turno, estava associada, essencialmente, ao Apoio Pedagógico (Matemática e Letramento) oferecido no contraturno, a pesquisa revela que os resultados das demais oficinas vêm contribuindo para a mudança de concepção destes professores: Ele (professor) passa a ter outra visão, ele saiu muito da ideia do reforço, de que a criança precisa só de reforço, antes parecia que a salvação da sala de aula era o reforço. Só que esse menino queria muito mais do que esse reforço, esse menino queria atenção, queria mostrar que ele pode escrever e também cantar, dançar, competir. [...] Se eu chegar hoje na sala e disser que preciso de ajuda financeira pra inscrever dois meninos num campeonato, eles metem a mão no bolso e dão, porque eles já têm uma compreensão disso; então eu acho que isso foi uma conquista muito grande pra gente (EMAF, coordenador39 do PME). A pesquisa revelou como desafio a necessária atualização do projeto político-pedagógico (PPP) de todas as escolas pesquisadas na perspectiva da educação (em tempo) integral almejada, não só pela comunidade escolar, mas pela comunidade de modo geral, o qual, entre outros aspectos, deverá incluir 39 Este coordenador, com vistas a, entre outros aspectos, promover a integração entre alunos, professores, monitores e comunidade em torno do Programa Mais Educação, organizou um musical, em que todos os professores e monitores da escola se envolveram, ou melhor, foram envolvidos. O musical, intitulado Toda criança tem direito a... Ser Criança: um sonho para o Futuro – Quando o direito a ter direito não é respeitado, foi apresentado no auditório do Centro Municipal de Referência em Educação Aluízio Alves: ―Os pais foram assistir. Nós conseguimos, junto à Secretaria, para a apresentação, seis ônibus para a comunidade inteira. Muitos desses pais estiveram num teatro ou numa sala pela primeira vez. Assim também como esses meninos.‖ Segundo o coordenador, o referido musical constituiu-se em um ―divisor de águas‖ no que tange ao envolvimento, no âmbito da sua escola e da comunidade de modo geral, com o Programa. 108 as atividades/oficinas do contraturno e que configuram, em termos curriculares, o referido tempo integral. A assessora pedagógica Giovanna Quaresma destaca a necessidade de a construção do PPP se dar de forma integrada entre aqueles que atuam no turno e no contraturno – com destaque para os coordenador pedagógico da escola e para o coordenador do Mais Educação –, buscando estabelecer os alicerces da escola (de tempo) integral. Isso eu acho que é um dos desafios também: articular a questão do projeto político-pedagógico da escola com o coordenador pedagógico da escola junto com o coordenador do Mais Educação, para estar fazendo um trabalho paralelo integral, que tenha um acompanhamento, que eles possam estar falando as mesmas linguagens, pra que o aluno não tenha numa hora uma prática, uma linha de pensamento, e na outra hora tenha uma linha completamente diferente. A atualização do PPP das escolas, construído de forma a representar o coletivo, na perspectiva da escola (de tempo) integral, sem dúvida, contribuirá para o enfrentamento do desafio anunciado por alguns entrevistados: maior interação entre os professores do turno e os monitores do contraturno, de modo a integrar suas atividades em prol da(s) aprendizagem(ns) dos alunos envolvidos. Foi possível observar pela pesquisa que o coordenador pedagógico da escola e do Mais Educação estão em contato, no sentido de possibilitar o fluxo de informações entre os professores de sala e os monitores de Letramento e de Matemática. No entanto, não foi possível observar se o mesmo acontece com os monitores de outras oficinas. Além disso, revelou que, até a data do levantamento dos dados, não havia sido realizada nenhuma reunião envolvendo estes dois grupos. Meus professores de Letramento e Matemática já têm isso, porque eles têm encontro com a coordenação pedagógica da sala de aula. A professora, por exemplo, da terceira série, ela diz que os alunos da sala nove estão trabalhando tais coisas, estão com dificuldades em tais coisas, aí a coordenadora (pedagógica) toma nota, me chama e passa essas informações. Aí eu levo professora do Reforço pra conversar com a coordenadora. Não tem contato de professor pra professor, porque ainda não tem esse tempo, porque aí eu teria que tirar um dia, e não seria um dia porque na verdade todos 109 os dias têm planejamento nessa escola, de segunda à sexta tem turmas planejando (EMAF, coordenador do PME). Conforme se pode observar na entrevista anteriormente destacada, outro desafio que se apresenta não só para o Programa, mas para a implantação da escola (de tempo) integral, é a necessidade de o seu quadro docente ser composto por professores de 40 horas, de modo que as escolas de tempo integral sejam fortalecidas por professores de tempo integral, os quais, sob esta condição, terão reais possibilidades para realizar um planejamento mais amplo, cuja interdisciplinaridade tenha condições práticas de se efetivar. Além disso, conforme apresentado no depoimento a seguir, este professor, com 40h em uma mesma escola, teria uma ampliação do seu próprio tempo para investir na melhoria do seu trabalho: Para haver esse encontro entre os professores (e monitores), eles teriam que ter carga horária disponível para esse encontro, se eu tiro eles (professores do turno) da sala de aula pra esse encontro eu vou ter um prejuízo para o aluno. Se o professor realmente fosse professor integral (40 horas) na escola, aí sim você teria um salto de qualidade muito grande. [...] Isto seria um sonho, quem sabe, você está fazendo essa pesquisa aí e futuramente a gente consegue isso. [...] Eu vou dar uma opinião particular, que quando eu falo de ampliação de tempos, poderia ser também a ampliação da programação de sala de aula do professor. Eu sei que o programa trabalha em forma de oficinas, eu sei que o programa trabalha pra melhora da aprendizagem dos alunos, eu sei que tem todo um contexto, toda uma preparação, mas a ampliação do tempo poderia ser nesse sentido, se eu tiver o professor 40 horas na escola, ele passa a ter o tempo de ampliação dele, quer dizer, o programa passa a ter investimento também; eu acho que esse contexto seria muito melhor, mas é uma opinião minha, um olhar meu (EMJL, diretora). Os integrantes do Setor de Educação em Tempo Integral demonstraram preocupação com o que consideram um desafio associado diretamente ao próprio setor, qual seja, a formação dos monitores do Programa Mais Educação. A questão não se fez associar à competência técnica do monitor relacionada ao conhecimento específico da atividade/oficina que trabalha, mas à formação pedagógica para atuar junto a estudantes. Esse desafio com os monitores, realmente é uma coisa que preocupa muito a gente, porque pelo valor que o Programa paga pro monitor é necessária essa abertura, essa liberdade que a escola tem de selecionar as 110 pessoas dentro da própria comunidade. É até um facilitador pra escola, é uma pessoa da comunidade, que já está perto da escola e vai aceitar esse valor pra trabalhar, todo mundo conhece ele, ele já está ali perto. Mas em compensação (em alguns casos) deixa muito a desejar essa questão da qualificação. [...] Então, a gente sente uma necessidade muito grande de esclarecer de que forma se pode trabalhar [...] (realizar) esse acompanhamento mesmo, essa formação, seja com que oficina for, mas principalmente essas que a gente imagina que sejam mais livres como arte, teatro, dança, que são ferramentas importantíssimas. Eu acho que arte é talvez a melhor ferramenta que se tem aliada à educação, e (em alguns casos) está sendo utilizada de maneira equivocada [...] Então essa preocupação do setor, de formação dos monitores, pra saber o que está sendo levado pra sala de aula, o que os alunos estão recebendo, o que estão trabalhando, enquanto desenvolvimento humano daquela pessoa (SME, coordenadora geral do PME). Observa-se que esta também é uma preocupação da SECAD/MEC, a qual vem descentralizando recursos para que as universidades públicas realizem esta formação40. Por fim, um último desafio associado ao Programa Mais Educação, constatado em todos os relatos, diz respeito à dificuldade da Prefeitura/SMENatal em cumprir com a contrapartida do município a um Programa federal que vem repassando, recursos para grande parte de suas escolas de ensino fundamental. Especialmente, dois problemas foram destacados nos relatos: repasses de recursos associados à merenda escolar e pagamento da carga suplementar (20 horas a mais) para que os coordenadores do Programa tenham 40 horas, no âmbito da escola. A questão da merenda, porque segundo a portaria ministerial o ministério dá uma parte e a prefeitura dá outra, então a gente não tem a parte da prefeitura pra merenda, a gente tem em relação ao pagamento da carga suplementar do coordenador, só isso, apesar de ter sido uma luta, eu acho muito pouco o investimento (EMJL, diretora). O ponto negativo disso é a contrapartida no caso do acordo feito entre União e município, porque um diz que entra com uma coisa e outro com outra, a União chega, o município não chega. Por exemplo, [...] eu abri mão de um outro trabalho que 40 A este respeito, consultar editais/2009 no portal do MEC. 111 eu tinha pra vir pra cá e receber uma carga suplementar, era a contrapartida da secretaria em relação a isso. Então passou de fevereiro a junho até eu receber isso num pacote em julho, isso é o que desmotiva, então muitos dos meus colegas desistem (EMAF, coordenador do PME). Recebi (a carga suplementar) só setembro, agora nesse mês de março eu recebi outubro, novembro e dezembro. O mês de março disseram que não vão pagar a carga suplementar, só vou receber a carga suplementar a partir de abril (EMHP, coordenadora do PME). Duas importantes sugestões que visam contribuir para o avanço do Programa Mais Educação emergiram dos relatos: (1) possibilitar apoio psicológico para algumas crianças, sendo que, neste sentido, surgiram propostas, tais como, incentivar projetos à semelhança do Amigos da Escola, com dedução, por exemplo, no imposto de renda dos profissionais que viessem a participar, e (2) possibilitar apoio à segurança das crianças nos momentos de descolamento, sendo que nesse caso foi sugerido como exemplo o auxílio da polícia militar Por fim, destaca-se a fala da diretora da E.M. Juvenal Lamartine, a qual apresenta que a escola e o Programa se complementam, um não supera o outro, se fortalecem na conjunção: [...] tem que ser os dois caminhando juntos, e a gente sempre diz aos meninos que não adianta eles participarem do programa se na sala de aula não tem um retorno. O que é ter um retorno na sala de aula? É que a aprendizagem que está sendo dada na sala de aula é tão importante ou mais do que o próprio programa. Então o programa não supre a sala de aula e a sala de aula não supre o programa, os dois se complementam (EMJL, diretora). 5. Contribuições e desafios das experiências Toda pessoa tem o dever de contribuir para que os direitos de todos sejam respeitados... (Declaração Universal dos Direitos Humanos, art. 29). Destaca-se a priori que a política de educação (em tempo) integral em Natal vem sendo construída já há algum tempo. Em 2008, foi criado no âmbito 112 da Secretaria Municipal de Educação o Setor de Educação em Tempo Integral, o qual é responsável pelas ações de contraturno voltadas para a ampliação da jornada escolar, na perspectiva da educação integral. Nesse sentido, vale destacar que a adesão ao Mais Educação por parte do município decorre de uma proposta de educação (em tempo) integral que já vinha sendo desenvolvida no âmbito da SME-Natal. No que tange às contribuições e desafios associados às experiências de jornada escolar ampliada desenvolvidas em Natal, embora tenham sido relatados no decorrer da apresentação de cada uma delas, ressaltam-se aqui apenas alguns aspectos que lhe são comuns. Um desafio que perpassou todas as experiências analisadas diz respeito ao espaço físico, na forma da sua ampliação e, algumas vezes, na sua adequação ao uso educacional com jornada ampliada. Conforme evidenciado, os prédios escolares, não só em Natal, mas no País, foram planejados para atender a dois ou mais turnos. Ou seja, na maioria das vezes, a construção destes prédios não partiu de um projeto de educação (em tempo) integral, contribuindo para que a ampliação da jornada escolar se apresente diretamente relacionada à conquista de novos espaços, quer na forma de parcerias, de aluguel, de reformas ou da construção de prédios. A pesquisa revelou dificuldades para a realização destas parcerias em Natal. Embora o Setor de Educação em Tempo Integral apresente a firme determinação de estabelecê-las com vistas a, entre outros aspectos, possibilitar a realização e atividades no contraturno escolar, elas esbarram em obstáculos como (1) grande parte das escolas municipais está localizada em áreas com pouquíssimos ou cujos equipamentos públicos integrantes do bairro carecem de conservação, além de (2) não haver benefícios financeiros aos parceiros, os quais, em geral, tendem a ter aumento de despesas. Vale destacar que esta foi uma sugestão apresentada por uma das professoras entrevistadas: possibilitar benefícios tributários de forma a estimular o estabelecimento de parcerias com as escolas, na perspectiva da ampliação de seus espaços. Outro aspecto a ser observado, quando se analisa a possibilidade de ampliação dos espaços escolares em Natal, diz respeito ao fato de a taxa de 113 urbanização do município ser de 100%, característica que dificulta a aquisição de terrenos para construção e/ou ampliação dos espaços escolares. Essa problemática foi destacada na fala do secretário municipal de Educação: Há determinados bairros aqui que não têm mais terrenos para construir, então temos que desapropriar, entrar com pedido e desapropriar casas para construir uma escola. Se construirmos em outro lugar, temos que ter transporte. Temos 40 ônibus alugados para levar crianças de um bairro para outro, porque não temos mais vagas naquele bairro, então tem que trazer lá da zona Norte para zona Oeste, temos que alugar ônibus. Nova alternativa sugerida, neste contexto específico, foi a reforma na perspectiva da ampliação vertical das escolas (EMSJ, coordenadora do PME). Outro desafio presente em todas as experiências diz respeito à necessidade de a educação (em tempo) integral contar com um quadro de professores também de tempo integral (40 horas). Esta necessidade se faz premente nas escolas com jornada escolar ampliada, entre outros aspectos, para estabelecer uma maior relação entre os professores do turno com os monitores/professores do contraturno, com vistas a qualificar as aprendizagens dos alunos, sejam associadas aos conteúdos curriculares ditos formais, ou associadas ao esporte, às artes, à cultura, valorizando as possibilidades de interdisciplinaridade e intersetorialidade. Mais especificamente, a sustentabilidade da política de educação (em tempo) integral se faz associar a uma política de valorização dos profissionais da educação que, atendendo às determinações do art. 6741 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, ultrapasse-o nas suas conquistas ao estabelecer o regime de 40 horas, com dedicação do professor a uma mesma escola. Nesse sentido, vale destacar que o Plano Municipal de Educação de Natal, no que tange especificamente ao magistério da educação básica, apresenta como meta ―Instituir, a partir de 2006, gradativamente, o regime de tempo integral para os educadores da rede municipal de ensino‖ (p.36). O plano avança ao instituir o regime de trabalho de horário integral, todavia, a forma lacunar com que sua redação foi apresentada – não contempla, por exemplo, os percentuais de professores que, a cada ano, devem ser beneficiados com o regime de tempo integral; bem como não 41 Trata da valorização dos profissionais da educação. 114 explicita o prazo máximo para a consecução da meta – contribui para que o Ministério Público tenha dificuldades para fazer valer a garantia do direito. Ainda na perspectiva dos desafios, observa-se a dificuldade de contrapartida municipal aos programas federais associados à ampliação da jornada escolar. No que tange especificamente ao Mais Educação, alguns entrevistados mencionaram a falta de regularidade no pagamento da carga suplementar para o coordenador do Programa no âmbito de cada escola, bem como dificuldades associadas à contrapartida municipal associada à merenda escolar. Em relação às Ações Educativas Complementares, a pesquisa revelou que quando o governo federal se retirou do financiamento, a instância municipal não manteve os patamares anteriores. Partindo desta constatação – e tendo por base a compreensão de que, no contexto atual, a União tem como papel fomentar a implantação de ações, programas e políticas nos contextos subnacionais, possibilitando-lhes, por um determinado período, apoio financeiro e técnico –, espera-se que, com o passar do tempo, os municípios adquiram autonomia técnica e financeira para gerir a política de educação (em tempo) integral, ocasião em que o governo federal deverá estar retirando o apoio ao Programa Mais Educação. É importante destacar que o investimento municipal no financiamento, na ampliação e na conjugação dentro de uma mesma escola, por exemplo, das Ações Educativas Complementares com as Oficinas de Aprendizagem em Língua Portuguesa e Matemática, de modo a caracterizar o tempo integral possibilita, caso o município respeite as determinações do decreto n° 6.253 (art. 4°), a aquisição de recursos diferenciados do Fundeb associados ao tempo integral. Em relação aos avanços, em todas as experiências foram mencionados aspectos associados à melhoria da aprendizagem e à inclusão social dos alunos. Melhoria no rendimento escolar, aumento da concentração, da autoestima, resgate do prazer de estar na escola, aumento da colaboração nos trabalhos em grupo, aproximação da comunidade e das famílias da escola, melhoria da disciplina dos alunos, redução da violência nas escolas, foram alguns aspectos mencionados. 115 Parafraseando o poeta Navarro, que contribuições maiores e melhores para a educação? Não existe. Nenhuma. REFERÊNCIAS BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 1996. —————.Lei n° 9.608, de 18 de fevereiro de 1998. Dispõe sobre o serviço voluntário e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 19 fev.1998. —————.Portaria Normativa Interministerial n° 17, de 24 de abril de 2007. Institui o Programa Mais Educação que visa fomentar a educação integral de crianças, adolescentes e jovens, por meio do apoio a atividades sócioeducativas no contraturno escolar. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 26 abr. 2007. —————.Decreto nº. 6.253, de 13 de novembro de 2007. Dispõe sobre o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação – FUNDEB, regulamenta a Lei no 11.494, de 20 de junho de 2007, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 14 nov. 2007. —————. Decreto nº. 7.083, de 27 de janeiro de 2010. Dispõe sobre o Programa Mais Educação. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 27 jan. 2010. FERNANDES, Reynaldo. Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).Brasília: INEP, 2007. Ministério da Educação (MEC). Plano de Desenvolvimento da Educação: Razões, Princípios e Programas. Brasília, DF, 2007. —————. Programa Mais Educação: Passo a Passo. Brasília, DF, 2009a. —————. Manual de Educação Integral para obtenção de apoio financeiro através do Programa Dinheiro Direto na Escola – PDDE, no exercício de 2009. Disponível em: <www.fnde.gov.br/index.php/...manualpdde2009escolaintegral/download> Acesso em: 18 jun.2009b. —————. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Resolução n° 3, de 1° de abril de 2010. Dispõe sobre os processos de adesão e habilitação e as formas de execução e prestação de contas referentes ao Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), e dá outras providências. Brasília, DF, 2010. 116 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Estimativa das populações residentes, em 1° de julho de 2009, segundo os municípios. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/estimativa2009/POP2009_ DOU.pdf> Acesso em: 16 ago. 2009. —————. Pesquisa de Informações Básicas Municipais 2009 (Munic 2009). <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/perfilmunic/2009/tabelas_pd f/tabela_MUNIC_60.pdf > Acesso em: 01 jun. 2010. NATAL/RN. Lei Orgânica do Município, de 3 de abril de 1990. Natal: Câmara Municipal, 1990. —————. Prefeitura Municipal de Natal. Secretaria Municipal de Educação Conselho Municipal de Educação. Lei n° 5.339, de 27 de dezembro de 2001. Dispõe sobre o Sistema de Ensino de Município de Natal e dá outras providências. Natal, 2001. —————.Lei nº 5.650, de 20 de maio de 2005. Aprova o Plano Municipal de Educação do Município de Natal e dá outras providências. Natal: Câmara Municipal, 2005a. —————. Prefeitura Municipal de Natal. SME recebe kits de projetos educativos. Natal (RN), 2005b. —————.Lei Complementar n° 092, de 30 de abril de 2008. Altera os dispositivos da Lei Complementar n° 020, de 2 de março de 1999, modificados pelas Leis Complementares n°s 031, de 10 de janeiro de 2001; 042, de 30 de dezembro de 2002; 053, de 9 de janeiro de 2004; 061, de 2 de junho de 2005 e 076, de 28 de novembro de 2006, e dá outras providências, nos termos do art. 55, incisos VI e XVI, da Lei Orgânica do Município. Natal: Gabinete do Prefeito, 2008a. —————.Prefeitura Municipal de Natal. Decreto nº. 8.777, de 2 de julho de 2009. Dispõe sobre as competências, a estrutura básica e o Quadro de Lotação de Cargos Comissionados da Secretaria Municipal de Educação – SME, e dá outras providências. Natal: Gabinete do Prefeito, 2009. —————.Prefeitura Municipal de Natal. Secretaria Municipal de Educação. Departamento de Atenção do Educando. Setor de tributo à Criança. Proposta para possível atualização da Portaria n° 007, de 7 de abril de 1997. Natal, 2009. Secretaria Municipal de Educação de Natal (SME). I Seminário Tecendo Redes para Educação Integral: uma conquista social (Fôlder). Natal/RN, 2006a. —————.Departamento de Ensino. Portaria n° 47/GS, de 16 de junho de 2006. Designa servidores para comporem a Comissão de Estudos e Elaboração de Documento sobre o Ensino em Tempo Integral nas Escolas Municipais de Natal. Natal/RN: GS/SME, 2006b. —————.Departamento de Ensino. Ensino de tempo integral: Plano de Ação. Natal/RN, 2006c (mimeo). —————. Conselho Municipal de Educação. Resolução n° 001/06. Altera o art. 1º da Resolução nº 001/03 do Conselho Municipal de Educação, que 117 dispõe sobre a extinção do Turno Intermediário nas Escolas Públicas Municipais de Natal. Natal/RN, 2006d. —————.Departamento de Ensino. Educação Integral: Espaços de aprendizagem – Subsídios para a organização de espaços físicos. Natal/RN, 2007a (mimeo). —————.Departamento de Ensino. II Seminário Tecendo Redes para a Educação Integral: uma conquista social (relatório). Natal/RN, 2007b (mimeo). —————.Departamento de Ensino. Educação Integral: Comunidade Educadora – Uma Ferramenta para a Cidadania. Natal/RN, 2007c (mimeo). —————.Departamento de Ensino. Relatório sobre a viagem a Nova Iguaçu: Experiência Bairro-Escola. Natal/RN, 2008b. —————.Departamento de Ensino Fundamental. Setor de Educação em Tempo Integral – SETI. Natal/RN, 2008c. —————.Portaria n° 133, de 2 de outubro de 2008. Cria o Programa de Educação em Tempo Integral – Caminho para a Cidadania e dá outras providências. Natal/RN, 2008d. —————.Departamento de Atenção ao Educando. Programa de Ações Educativas Complementares (Relatório 2008). Natal (RN), 2008e. —————.Departamento de Ensino Fundamental. Setor de Educação em Tempo Integral. Educação em Tempo Integral: Projeto para a Escola Municipal Profª Mareci Gomes. Natal (RN), 2008f. —————.Departamento de Ensino Fundamental. Setor de Educação em Tempo Integral. Educação em Tempo Integral: Projeto para a Escola Municipal Prof. Otto de Brito Guerra. Natal (RN), 2008g. —————.Departamento de Ensino Fundamental. Setor de Educação em Tempo Integral. Educação em Tempo Integral: Projeto para a Escola Municipal Laércio Fernandes. Natal (RN), 2008h. —————.Diretrizes para o funcionamento das unidades de ensino da rede municipal. Natal/RN, 2009a. —————.Departamento de Atenção ao Educando. Programa Educativas Complementares (Relatório-2009). Natal (RN), 2009b. Ações —————.Departamento de Ensino Fundamental. Setor de Educação em Tempo Integral. Programa Tributo à Criança: Proposta Pedagógica. Natal (RN), 2009c. —————.Departamento de Atenção ao Educando. Setor Tributo à Criança. Assuntos implantados nos 100 primeiros dias da nova gestão – 2009. Natal (RN), 2009d. —————.Departamento de Ensino Fundamental. Setor de Educação em Tempo Integral. Ofício n° 08/09, de 21 de maio de 2009. Natal (RN), 2009e. —————.Departamento de Ensino Fundamental. Setor de Educação em Tempo Integral. Ofício n° 12/09, de 15 de julho de 2009. Natal (RN), 2009f. —————.Escola Municipal Professor Zuza. Ofício n° 034/09, de 13 de março de 2009. Natal (RN), 2009g. 118 PERONI, V. M. V. Política educacional e o papel do Estado: no Brasil dos anos 90. São Paulo: Ed. Xamã, 2003. SETUBAL. M. A. O ressurgimento da educação integral. Cadernos Cenpec. São Paulo, 2006. RIO GRANDE DO NORTE. Constituição do Estado do Rio Grande do Norte. Natal: Assembléia Legislativa, 1989. SILVA, Anelino F. Migração e crescimento urbano: uma reflexão sobre a cidade de Natal, Brasil.. Scripta Nova (Barcelona). Barcelona, v. 74, n. 94, p. 1-11, 2001. Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Matriz Intersetorial de Enfrentamento da Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes. Disponível em:< http://www.caminhos.ufms.br/matrizdados/rn/natal.html > Acesso em: 30 maio de 2010. Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Plano Estratégico de Desenvolvimento Sustentável para Região Metropolitana de Natal. Disponível em: http://www.cchla.ufrn.br/rmnatal/relatorio/metro2.pdf> Acesso em: 28 mai. 2010. 119 III – RECIFE - PE Ana Maria Villela Cavaliére Bruno Adriano Rodrigues da Silva Foto 01: alunos da rede municipal de Recife, “Semana Luiz Gonzaga“, dez. 2009, Ginásio Geraldão, Recife (arquivo pesquisadores) ABC DO SERTÃO Zé Dantas e Luiz Gonzaga (1953) Lá no meu sertão pro cabôco lê tem que aprender um outro ABC 120 O J é Ji, o L é Lê O S é Si, mas o R tem nome de rê O J é Gi, o L é Lê O S é Si, mas o R tem nome de rê Até o Y, lá é “pissilone” O M é Mê e o N é Nê O F é Fê, o G chama-se Guê Na escola é engraçado Ouvir-se tanto Ê A, Bê, Cê, Dê Fê, Guê, Lê, Mê Nê, Pê, Quê, Rê Tê, Vê e Zê Fonte: Memorial Luiz Gonzaga 1. Introdução 1.1 O município Recife, capital do estado de Pernambuco, é uma cidade com fortes tradições culturais e políticas. Sendo uma das mais importantes cidades da região Nordeste, apresenta as contradições sociais e a riqueza e diversidade cultural dessa região. O município de Recife tem 1,56 milhão de habitantes, ocupando uma área de 217 quilômetros quadrados. Trata-se de uma metrópole composta por um conjunto de 14 municípios, perfazendo a Grande Recife, isto é, um aglomerado de 3,73 milhões de habitantes que concentra 65% do PIB estadual. Sua vida econômica se organiza principalmente por meio do comércio e dos serviços, destacando-se também a construção civil. Tem três universidades públicas, a saber, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Universidade de Pernambuco (UPE). 121 Destaque-se ainda a Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), além de 22 instituições particulares de ensino superior. O atual prefeito é do Partido dos Trabalhadores e cumpre seu primeiro mandato (2009-2012). As duas gestões anteriores (2001-2004 e 2005-2008) tiveram à frente um mesmo prefeito, também do Partido dos Trabalhadores. 1.2 A escolha de Recife Na pesquisa de caráter quantitativo anteriormente realizada (Secad – MEC, 2009), 48 municípios do estado de Pernambuco responderam o questionário e desses, 15 relataram a existência de 22 experiências de ampliação da jornada escolar. Dentre as 22 experiências relatadas pelos municípios pernambucanos, 15 tinham origem em programas de âmbito federal, tais como PETI, Segundo Tempo, AABB comunidade (Banco do Brasil), Escola Aberta, Ações Educativas Complementares, Mais Educação/Educação Integral. Nas demais, seus nomes revelavam uma concepção de complementação do trabalho escolar, tais como ―Reforço escolar‖ (duas experiências) ou envolviam a ideia de tempo como ―tempo complementar de aprendizagem‖ e ―tempo integral‖ (cinco experiências). Conforme definido pela equipe de pesquisa, a escolha do município a ser visitado levou em conta a correlação entre os seguintes critérios: percentagem de alunos participantes em relação ao conjunto de alunos do município; tempo de existência da experiência; carga horária semanal das atividades da experiência; média-turno do município e IDEB do município. A partir dos questionários e levando-se em conta os critérios definidos, quatro municípios pernambucanos foram pré-selecionados como potenciais campos de investigação: Araçoiaba, Santa Cruz do Capibaribe, Limoeiro e Recife. Foram os contatos telefônicos que esclareceram a situação real das experiências nesses municípios, um ano após o preenchimento dos questionários. Enquanto três deles, devido às mudanças administrativas 122 decorrentes das eleições municipais, haviam abandonado, redirecionado ou restringido muito as experiências, Recife mostrava que a experiência ―Educação Integral‖ – ligada ao Programa Mais Educação42 – havia progredido enormemente. A título de exemplo, o número de escolas envolvidas havia passado de 35 em 2008 para 123 em 2009, com a participação de cerca de 10 mil alunos do sistema educacional da capital. 1.3 A educação no município de Recife43 A rede pública municipal de Recife registrava, segundo dados do Censo Escolar de 2009 (MEC-INEP), um total de 77.287 alunos matriculados no Ensino Fundamental – divididos em 60.612 nos anos iniciais e 16.675 nos anos finais – e 16.527 alunos matriculados na Educação Infantil. O número de alunos do Ensino Fundamental da rede municipal vem diminuindo, seguindo a tendência nacional de diminuição do crescimento populacional. No Ensino Fundamental, o percurso escolar está estruturado, desde 2001, em quatro ciclos, distribuídos de 6 a 8 anos, de 9 a 10 anos, de 11 a 12 anos e de 13 a 14 anos. Essa organização em ciclos é parte do projeto político pedagógico da Secretaria de Educação, Esporte e Lazer (SEEL). A maioria das escolas da rede municipal está localizada em regiões periféricas da cidade, em favelas ou áreas socialmente excluídas. Praticamente não há escolas da rede municipal na região central da cidade. As escolas públicas que existem nas áreas centrais são da rede estadual, em geral dos anos finais do Ensino Fundamental e de Ensino Médio. 42 Programa criado por meio de Portaria Interministerial, em 2007, com vistas à promoção da educação integral de alunos da rede pública de ensino básico do país, através de um conjunto de ações educativas e da aproximação das escolas com as famílias e as comunidades. 43 As informações que se seguem sobre o sistema educacional municipal de Recife têm origem nas seguintes fontes: entrevista realizada com o secretário adjunto de Educação, professor Flávio Brayner; sítio eletrônico da Secretaria de Educação, Esportes e Lazer de Recife; IBGE – Cidades; INEP-MEC (Censo Escolar 2009 e IDEB 2007 e 2009). 123 No que tange à atuação da Secretaria de Educação, Esportes e Lazer (SEEL), seu sítio oficial apresenta um conjunto de programas e ações, que afirma, de modo geral, a busca da melhoria da qualidade da educação pública. Destacam-se, dentre outros, os seguintes itens44: Formação de Leitores; Informática na Educação; Inclusão Educacional; Alfabetização e Letramento; Educação Ambiental; Programa de Animação Cultural, Orçamento Participativo da Criança; Formação de Jovens e Adultos para a Cidadania; Grupo de Trabalho sobre Orientação Sexual; Recife nos Trinques; CD musical ―Recife e suas Águas‖; Grupo de Trabalho em Educação das Relações Étnico-raciais; Brinquedoteca; Programa Mais Educação. Ainda de acordo com as informações do sítio, bem como do secretário adjunto de Educação, o foco dos investimentos está na universalização da educação infantil, na diminuição do analfabetismo e na melhoria da qualidade do ensino por meio da ―ampliação do parque escolar, da valorização do corpo docente e do fortalecimento das ações pedagógicas em todos os níveis de ensino‖ (Recife, SEEL, 2009, p.1) Grande parte da oferta de ensino público dos anos iniciais do Ensino Fundamental está sob a responsabilidade do poder municipal. As informações do Censo Escolar (INEP-MEC, 2009) mostram que o sistema estadual teve sob sua responsabilidade, em 2009, 10.155 matrículas dos anos iniciais do Ensino Fundamental no município de Recife, em contrapartida às já citadas 60.612 sob responsabilidade do sistema municipal. Quanto à oferta dos anos finais, ela está principalmente sob a responsabilidade do governo do estado de Pernambuco e apenas 35 escolas da rede municipal oferecem esse tipo de ensino. Segundo o secretário adjunto, há conversações com a secretaria estadual de Educação com vistas a estadualizar todo o segmento dos anos finais do Ensino Fundamental, visto que a estrutura municipal pretende se concentrar na universalização da Educação Infantil. 44 Maiores informações vide: Secretaria Municipal de Educação, Esportes e Lazer: http://www.recife.pe.gov.br/2007/7/02/mat_144789.php. 124 A rede escolar municipal é frequentada pelos setores sociais mais desfavorecidos de Recife, município onde, de acordo com o IBGE, a condição de pobreza atinge 39,46% da população total (IBGE, 2003). Relata o secretário adjunto que o alunado é composto por alunos ―muitas vezes fragilizados, oriundos de famílias desestruturadas e que vivem em bolsões de miséria‖. A classe média da cidade não frequenta a escola pública e um contingente significativo da população escolar – 69.719 matrículas – frequenta o Ensino Fundamental na rede privada (Censo Escolar 2009). Município Dependência Ed.Infantil Creche RECIFE Ensino Fundamental PréEscola Anos Iniciais Anos Finais Estadual 0 372 10.155 69.896 Federal 0 0 0 840 Municipal 5.076 11.451 60.612 16.675 Privada 6.029 26.046 38.889 30.830 11.105 37.869 109.656 118.241 Total Censo Escolar 2009 (MEC-INEP A Secretaria de Educação, Esportes e Lazer tem parcerias com empresas e fundações tais como Ayrton Senna, Roberto Marinho, Alfa e Beto, mas que não estão envolvidas na experiência aqui relatada. O IDEB correspondente à rede pública municipal, em 2007 e 2009, está abaixo da média nacional, como se pode ver na tabela abaixo, embora tenha acompanhado a tendência de crescimento do país. Tabela 1: IDEB Educação Fundamental 2007 e 2009 – Brasil, Pernambuco e Recife IDEB 2007 2009 anos iniciais e anos finais anos iniciais e anos finais 4.0 e 3,5 4.4 e 3.7 Educação Fundamental Brasil (redes públicas) 125 Pernambuco(rede 3,5 e 2,5 3.9 e 3.0 3,8 e 2,5 4.1 e 2.7 estadual) Recife(rede municipal) O IBGE informa que o sistema municipal tinha, em 2008, 3.217 docentes de Ensino Fundamental e 576 de Educação Infantil. O secretário adjunto relata em sua entrevista que, em 2009, foram chamados 550 professores concursados dois anos antes, para atuar nos anos iniciais do Ensino Fundamental, o que representa um crescimento considerável da rede. Ainda segundo ele, a rede municipal tem professores com diversas qualificações, a maior parte deles graduados ou especialistas e, no momento, a SEEL investe na regularização da situação dos professores sem nível superior e também dos estagiários que atuam como professores. O primeiro concurso público para professor da rede municipal somente foi realizado em 1986. Segundo Flavio Brayner, até então, ―professores e diretores eram indicados por vereadores e outros políticos‖. Isso revela que a profissionalização do sistema, como de resto na maior parte do país, é relativamente recente. Há um processo em curso de eleições para diretor de escola, com previsão de realização para junho de 2010, havendo comunicados a esse respeito no sítio eletrônico da Secretaria. 1.4 A pesquisa: metodologia, instrumentos, dinâmica em campo Os primeiros contatos com o setor da secretaria municipal de Educação de Recife que coordenava o Programa Mais Educação (PME) foram feitos ao final do mês de novembro de 2009. A equipe de pesquisa, formada pela professora Ana Maria Cavaliere (UFRJ/NEEPHI) e pelo doutorando em Educação da UFRJ e membro do NEEPHI, Bruno Adriano Rodrigues da Silva, travou contatos telefônicos com dirigentes da SME e chegou-se à definição do período da visita. A proposta da pesquisa foi bem-aceita e confirmou-se que o 126 período letivo se estenderia até 20 de dezembro, devido ao início tardio do segundo semestre provocado pela prevenção à epidemia de Gripe H1N1. A equipe da pesquisa programou a visita para os dias 10 e 11 de dezembro. Entretanto, às vésperas da viagem, a equipe foi procurada pelo coordenador do Programa Mais Educação da SME de Recife, esclarecendo que, justamente nos dias marcados, haveria uma atividade de culminância da parceria entre o Programa Mais Educação e o Memorial Luiz Gonzaga, instituição ligada à prefeitura de Recife. Essa atividade iria acontecer no Ginásio de Esportes Geraldo Magalhães (Geraldão), de 9 a 11 de dezembro, e consistiria entre outras atividades, na apresentação dos filmes de curtametragem, realizados pelos alunos do PME, em homenagem ao compositor Luiz Gonzaga, a partir de suas músicas. O PME, em parceria com o Memorial Luiz Gonzaga, propiciou os meios e a orientação para a elaboração dos curtas de animação, pelos alunos do Programa. Cada escola escolhia uma música de Luiz Gonzaga e recebia o material necessário para as filmagens. Um profissional da área de produção de vídeos acompanhava o trabalho na escola, fornecendo apoio técnico aos professores. Foto 02: listagem de parte das escolas participantes da “Semana Luiz Gonzaga”, dez. 2009, Ginásio Geraldão, Recife (arquivo dos pesquisadores) 127 A seguir, a programação do evento: Programação do MEMORIAL LUIZ GONZAGA - Recife – PE SEMANA LUIZ GONZAGA 2009 9 a 13 de dezembro Passados exatos 20 anos do falecimento de Luiz Gonzaga, sua importância para a música e cultura popular nacional ainda precisa ser afirmada, mesmo descoberta, por grande parte da população brasileira. No mês de seu nascimento, o Memorial Luiz Gonzaga, com a parceria de importantes instituições acadêmicas e de memória, realiza uma semana de palestras, oficina e mostras que pretende contribuir para a melhor compreensão e dimensionamento do artista que representa um dos pilares fundamentais de nossa música. Toda a programação é gratuita. Parceiros: SEEL – Programa Mais Educação (MEC) UNICAP – UFPE – UFRPE – UFPB – UFC FUNDAJ – MISP 2ª MOSTRA DE CURTAS DE ANIMAÇÃO LUIZ GONZAGA Ginásio de Esportes Geraldo Magalhães (Geraldão) 9 de dezembro – das 13h às 18h 10 de dezembro – das 8h às 12h30 e das 13h30 às 18h 11 de dezembro – das 8h às 13h Em sua segunda edição, a Mostra de Curtas de Animação Luiz Gonzaga é a culminância de um trabalho desenvolvido ao longo do ano letivo com alunos da Rede Municipal de Ensino do Recife, através do Programa Mais Educação, utilizando os recursos da tecnologia digital com apoio da DGTEC. Tendo por base as músicas do Lua, os estudantes mergulham no universo de Gonzaga, e produzem seus próprios curta-metragens. Neste ano de 2009, foram 87 escolas participantes, com cerca de 4.500 alunos envolvidos. 128 Optou-se por manter o trabalho de pesquisa, na data prevista, aproveitando-se a atividade de grande porte, fruto do PME, como um dos aspectos a serem observados. Considerou-se que o momento de culminância de um trabalho envolvendo diversas escolas poderia ser muito oportuno a uma observação. A tarefa de pesquisa, portanto, revestiu-se de uma característica particular, cabendo aos pesquisadores uma observação exterior aos prédios escolares. Durante todo o dia 10 de dezembro, os pesquisadores observaram a referida atividade e entrevistaram uma diretora de escola, quatro professoras tutoras e seis monitores do PME, de quatro escolas diferentes. Dos 11 profissionais entrevistados, 10 eram mulheres, e apenas um monitor era do sexo masculino, o que nos levou a adotar, quando da identificação individual dos entrevistados, o tratamento no gênero feminino, a fim de preservar a identidade no único monitor do sexo masculino. Quadro 1: Entrevistas realizadas Escola Número 1 Diretor Tutor Monitor entrevistado entrevistado entrevistado 1 1 Número 2 1 2 Número 3 1 2 Número 4 1 2 Ainda que tenhamos obtido a autorização de todos os entrevistados para a transcrição das entrevistas, e ressaltando que um trabalho de pesquisa nunca pretende julgar os seus entrevistados ou prescrever ações da prática, mas sim situar uma determinada realidade em suas limitações e possibilidades, analisando-a à luz do conhecimento teórico sobre os fatos sociais, optamos por manter o anonimato das escolas e seus profissionais. Dessa forma, as escolas foram denominadas Escola Número 1, Escola Número 2, Escola Número 3 e 129 Escola Número 4, e seus respectivos profissionais designados apenas pela função que nelas ocupam. Quadro 2: Informações sobre as quatro escolas integrantes do PME obtidas nas entrevistas com seus profissionais ESCOLA Nºde alunos no PME Nº de alunos da escola Bairro Número 1 160 400 Afogados Número 2 100 200 Córrego do Jenipapo Número 3 Sem informação Sem Informação Pina Número 4 50 700 Campo Grande As entrevistas foram realizadas no próprio local do evento, com música ao fundo e crianças no entorno. Se isso, por um lado, dificultou, em alguns momentos, a concentração e a sequência do plano de trabalho da equipe, por outro, trouxe uma dimensão concreta às entrevistas, permitindo a percepção do tônus e de aspectos múltiplos da prática dos atores (profissionais e alunos) do Programa Mais Educação em Recife. 130 Foto 03: arquibancada no evento “Semana Luiz Gonzaga”, dez. 2009, Ginásio Geraldão, Recife, (arquivo dos pesquisadores) A atividade presenciada envolveu, ao longo do dia, cerca de 600 alunos e inúmeros professores, monitores e diretores de diversas escolas. A equipe assistiu aos filmes elaborados pelos alunos e lá permaneceu durante todo o dia, realizando entrevistas e vivenciando o momento. O segundo dia de trabalho em Recife foi dedicado ao conhecimento do programa no âmbito da secretaria de Educação. A equipe entrevistou o coordenador do Programa Mais Educação em Recife à época, professor Erisvelton Sávio, e entrevistou, em seu gabinete, o então secretário adjunto de educação do município de Recife e também professor da Universidade Federal de Pernambuco, Flávio Brayner. Os profissionais das escolas entrevistados durante o evento relataram o seu trabalho no dia a dia do PME em suas escolas, não se limitando a comentar a atividade daquele momento. As informações assim obtidas podem conter imprecisões que procuramos minimizar através da busca de informações adicionais e do cruzamento dos diferentes relatos dos profissionais das escolas e dos dois profissionais da hierarquia da SEEL. Ressaltamos, entretanto, que este trabalho de pesquisa se constituiu em um 131 estudo exploratório, no qual se buscou apreender e caracterizar alguns aspectos da experiência educacional, isto é, apenas aqueles aspectos que uma imersão de dois dias no campo nos permitiu conhecer. Portanto, ainda que documentos e informações de variadas fontes tenham sido utilizados, este texto não tem a pretensão de reportar uma investigação empírica exaustiva sobre a totalidade do PME em Recife. Particularmente o item 3, ―Contribuições e desafios da experiência‖, constitui-se em um ensaio analítico, que problematiza, de forma não exaustiva, alguns aspectos que se destacaram no material recolhido pelos pesquisadores. 2. A experiência Durante o ano de 2008, o PME esteve presente em 35 escolas da rede municipal de educação de Recife. Esse número foi ampliado em 2009 para 123 escolas. Nesse segundo ano, as atividades começaram, de fato, no segundo semestre, quando o alcance do Programa, segundo informação do coordenador, se aproximou de 10 mil alunos da rede municipal. Tanto os profissionais da Secretaria de Educação como os profissionais das escolas referem-se à experiência quase sempre como ―Mais Educação‖, e raramente como ―Educação Integral‖ e por isso, neste relatório, optou-se por denominar igualmente a experiência estudada de ―Programa Mais Educação‖ – PME. No momento da visita, a equipe do PME da Secretaria de Educação que de fato atuava no evento era de duas pessoas: o próprio coordenador e uma professora. De acordo com o coordenador, as escolas participantes do PME têm cada uma entre 8 e 10 monitores contratados, e de 1 a 2 tutores, que são professores da rede, com ampliação de carga horária. 132 Cada atividade desenvolvida no turno alternativo às aulas tem duração de uma hora e meia, sendo duas atividades diárias para cada grupo de alunos, matutinas ou vespertinas, dependendo do turno que frequentam, todos os dias da semana. Assim, a jornada para esses alunos, que era de quatro horas, foi ampliada para sete horas, além do tempo do lanche e almoço. Somando-se as quatro escolas, foram relatadas atividades de judô, xadrez, matemática, letramento, recreação, jornal escolar e quadrinhos, informática, canto-coral, futebol, futsal, capoeira, dança, horta e viveiro, higiene e limpeza, preservação do meio ambiente. Cada uma das quatro escolas cujos profissionais foram entrevistados pela equipe tem em torno de cinco atividades diferentes ligadas ao Programa Mais Educação. As atividades citadas pelos monitores e tutores inseriam-se nos macrocampos listados nos documentos do MEC, tais como o Manual de Educação Integral para obtenção de apoio financeiro por meio do Programa Dinheiro Direto na Escola (MEC-Secad,2008) e o texto Programa Mais Educação – Passo a passo (MEC – Secad, s/d). Em todas as escolas – e de acordo com a recomendação desses documentos – havia atividade do macrocampo ―acompanhamento pedagógico‖. Do que pudemos apreender com as entrevistas, além desse último, as atividades citadas por tutores e monitores compunham, em seu conjunto, os seguintes macrocampos definidos nos documentos do MEC: ―meio ambiente‖, ―cultura e artes‖, ―promoção à saúde‖, ―esporte e lazer‖, ―inclusão digital‖ e ―educomunicação‖. A prefeitura de Recife oferece o lanche e o almoço para os alunos do PME. Em algumas escolas, como os estudantes voltam para casa para tomar banho e almoçar antes de retornarem para as atividades do Mais Educação, em vez de almoço, é oferecido jantar. De acordo com o coordenador do PME, essa inversão foi resultado de reivindicação de pais de alunos junto à coordenação do Programa que ―procura dialogar sempre com as escolas e pais de alunos‖. 133 Ainda segundo o coordenador, no PME de Recife a percentagem de alunos atendidos por escola variou, em 2009, de 30% a 40%. Mas entre as informações prestadas pelos profissionais entrevistados, registramos uma variação de 7% a 50%, conforme já apresentado no Quadro 2. 2.1 Histórico do projeto O programa iniciou-se em 2008, com os 3º e 4º ciclos (anos finais do Ensino Fundamental) nas 35 escolas da rede municipal que atendem a esse nível de ensino. Funcionou inicialmente com animadores culturais45, setor já existente na rede, na condição de estagiários da prefeitura. O coordenador do PME afirma que, nessa época, experiências que já existiam dentro do sistema de ensino, como o ―Barco Escola‖, as visitas a museus, cinema e teatro foram articuladas ao PME, de acordo com as diretrizes do MEC. Em 2009, o professor Erisvelton Sávio, mestre em antropologia e professor da rede municipal, assumiu a coordenação geral do PME em Recife, que nesse mesmo ano alcançou 123 escolas da rede municipal, a maior parte delas, a partir desse momento, de 1º e 2º ciclos (anos iniciais do Ensino Fundamental), embora o programa tenha sido mantido nas 35 escolas de anos finais do Ensino Fundamental. Em 2008, ele já participava do PME, antes de ser coordenador geral. Ela relaciona o fato de ter sido convidado para o cargo com a sua formação de antropólogo. Diz que tanto os que o convidaram, como ele mesmo, entenderam que a dimensão cultural do trabalho a ser feito no PME, ―envolvendo os saberes locais, a inserção comunitária, a discussão com os grupos locais‖ era muito importante. Lembra que ―já houve uma proposta de educação integral em Recife‖, em 1982/83, quando existia uma associação da Secretaria de Esportes com a Secretaria de Cultura 45 Em 2007, o setor de animação cultural da Secretaria de Educação, Esportes e Lazer tinha cerca de 150 animadores culturais. O Programa atendia a 60 escolas da Rede e, em parceria com o Programa Escola Aberta do MEC, atuava em 105 escolas, com ações de formação de grupos culturais a recreações organizadas por coordenadores, professores comunitários e voluntários. 134 para desenvolver atividades em horário contrário ao que os estudantes estavam em sala de aula. Recupera ainda o Movimento de Cultura Popular (MCP) que ―pensava o ambiente como sendo um ambiente educador‖. Retoma Paulo Freire como sendo um representante pernambucano da ideia de que o ambiente é educador e significativo para a aprendizagem: ―quando a gente começou a ler sobre o Mais Educação a gente começou a identificar muita coisa semelhante ao que já vinha sendo desenvolvido anteriormente, mas que, infelizmente, por mudanças de gestão, não teve continuidade.‖ Portanto, a chegada do Programa em Recife parece ter repercutido na memória de experiências passadas, o que ajudou na sua compreensão e implementação. O coordenador é professor de história da rede municipal e foi também professor do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco. Relata suas dificuldades na coordenação do Mais Educação, devidas, às vezes, ao próprio MEC e, às vezes, à Secretaria Municipal de Educação. ‖(...) antes de ser do Programa, antes de ser da gestão, eu sou funcionário público, como os outros, eu também sou professor. Então se a gente que está na ponta, não consegue dar encaminhamentos pra fazer o que a gente acredita valer realmente, o que adianta?‖ Considera que o Programa vem responder a uma dívida social com a maioria da população e lembra que ―a educação integral já existia para um pequeno grupo social: os colégios internos, as escolas particulares, as escolas religiosas, nas quais o aluno tem acesso não apenas aos saberes escolares, mas a todos os outros saberes‖. 135 Lembra ainda as dificuldades do turno regular, das salas superlotadas, dos espaços incompatíveis com a aprendizagem e se mostra atento às contradições da realidade. Sua grande mobilização para atuar no Programa Mais Educação vem da concordância com seus princípios básicos, tais como a corresponsabilização pela educação entre escola, pais e comunidade, e a necessidade de enriquecer as práticas educativas: ―o programa dá outra dimensão e visibilidade para os estudantes, na medida em que eles conseguem romper com a barreira do local, ver que existem outras possibilidades nas quais eles podem também estar inseridos.‖ O coordenador ressalta que procura trabalhar sempre incentivando um regime de decisões coletivas dentro das escolas, mas que o envolvimento e a vontade de participar das decisões variam muito de escola para escola . 2.2 Descrição da experiência 2.2.1 Os diretores A implementação do Programa em Recife iniciou-se com reuniões da equipe da secretaria com os diretores de escola, que em seguida levaram as informações para o interior de cada unidade. Em 2008, o procedimento de adesão das escolas ao programa foi confuso, pois as informações sobre o cadastramento chegaram no limite do prazo e em período de festas juninas, as quais têm grande importância e difusão no estado de Pernambuco. Não houve tempo para que as escolas se organizassem: 136 E quando nós fomos comunicados que as escolas deveriam fazer os seus cadastros foi justamente um ou dois dias antes, aí impossibilitou essa discussão que nós fizemos agora em 2009 (coordenador do PME). Já no cadastramento de 2009, as escolas puderam discutir com antecedência, tendo já as diretoras uma visão do que era possível ser feito no âmbito do programa. Segundo Sávio, as sugestões de atividades partiram do interior das escolas e as diretoras trouxeram as propostas no momento do cadastramento de cada unidade no programa. O preenchimento dos formulários de cadastramento foi realizado na SME, que disponibilizou vinte computadores para esse fim. Segundo o coordenador, houve alguma desconfiança das escolas em relação ao PME, pois há uma descrença generalizada em qualquer novidade apresentada, mas a participação e o maior diálogo nessa fase de cadastramento ajudaram a envolver as equipes escolares. A diretora de escola que entrevistamos, presente no evento, relata que a escola Número 1 foi escolhida para participar do PME e que aceitou, tendo hoje 160 alunos no programa, o que representa 40% de seu alunado. É a assistente de direção que faz o papel de professora-tutora, voluntariamente, pois não pode receber uma segunda complementação por carga horária. Os motivos pelos quais a escola não escolhe um outro professor para assumir a função não foram explicitados. A diretora informa que, por falta de recursos, a quantidade de monitores foi diminuindo a cada mês, passando de 14 no mês de agosto para 8 em dezembro. Lembrando-se que a escola tem 160 alunos no PME, pode-se imaginar que essa diminuição tenha sido resultado de uma adequação entre número de monitores e número de alunos, que, entretanto, a diretora interpretou como ―perda‖ devido à falta de recursos. A diretora relata que a escola tem parceria com uma igreja e com o Sesi: 137 ―a gente trabalha tanto dentro quanto fora da escola. Dentro trabalhamos com letramento, com matemática, trabalhamos com informática. Fora a gente trabalha com futsal, recreação, música, expressão corporal, xadrez e o coral.‖ Solicitada a fazer uma avaliação do projeto, reclama do isolamento, da falta de recursos e de um maior apoio da secretaria de Educação, mas afirma que ―é uma coisa que melhorou muito a comunidade. Em termos da alimentação da criança, do almoço que está tendo. Muda totalmente a vida social da criança, tanto no comportamento... eles querem participar. A gente está nesse projeto aí... tivemos apresentação. Então isso tudo é um entusiasmo pra eles, incentivando mais...‖ Havia outras diretoras presentes no evento, acompanhando os tutores, monitores e alunos. 2.2.2 A “formação”, os materiais e o projeto político-pedagógico da escola Em 2009, segundo o coordenador, como a ―formação‖46 do Mais Educação, feita com os diretores, foi anterior à semana de discussão dos projetos político-pedagógicos das escolas, isso facilitou a integração das atividades do programa aos projetos das escolas. Inicialmente houve ―formação‖ do PME para mais de 400 pessoas, entre diretores, coordenadores pedagógicos e membros da comunidade. A participação desses últimos era variável e dependia do nível de organização de cada comunidade. 46 No jargão local, as atividades de formação dos professores e demais profissionais, com vistas, no caso, ao PME, são chamadas simplesmente de ―formação‖. 138 Posteriormente, foram os monitores que passaram por uma ―formação‖, sendo informados sobre o programa, suas diretrizes, objetivos e contexto da rede municipal de ensino. Vários profissionais afirmaram a importância das atividades de ―formação‖, que entretanto parecem ter sido insuficientes: ―A gente teve capacitação, justamente com o coordenador. A gente teve dois dias de formação, quando eles passaram as planilhas do projeto, tudo bem esclarecido. E foi legal, pra um início (...) a gente então foi bem encaminhada‖ (monitora escola Número 4). ―Houve algumas capacitações, não acho que o suficiente, porém houve algumas capacitações. Só que eu achei um pouco limitada. Pro tamanho do projeto, acho que tanto para os tutores, como para os monitores, certo? Então ficou um pouco solto. Só não ficamos muito soltos, porque nós temos o Escola Aberta também na escola. Então já tínhamos uma noção de como seria o projeto‖ (tutora escola Número 3). Segundo o coordenador do PME, a ligação com o projeto políticopedagógico foi vista como fundamental: ―Se não se estabelecesse o elo entre o fazer pedagógico do horário regular com as atividades complementares do contraturno, não iria ter realmente significado. Iriam ser atividades por atividades e iríamos cair no vazio, de algo que seria apenas mais um trabalho para a escola e não era isso que a gente queria, mas sim que realmente fosse visto como um direito que o aluno tem de ampliação de jornada, um direito que ele tem de aprendizagem.‖ 139 Após a ―formação‖, a coordenação instou os professores tutores e monitores a prepararem um quadro com objetivos e metodologia de trabalho, a fim de propiciar uma avaliação futura. Em duas escolas, os profissionais entrevistados afirmaram a ligação das atividades do PME ao projeto político-pedagógico da escola. Em uma delas (abaixo), essa relação foi explicitada apenas no seu aspecto complementar ao trabalho de sala de aula. ―Tudo que é feito é mais ou menos ligado com a escola. Por exemplo, a gente procura saber um pouco da sala de aula, da escola. Então a escola está precisando disso, leitura, matemática,, então pra sala de aula, então o que a gente pode ajudar?‖ (tutora escola Número 3) Contudo, a mesma tutora se dá conta de que o projeto poderia ajudar mais aos alunos em dificuldade se houvesse uma melhor articulação com os professores. ―Haveria necessidade de um encontro, pelo menos uma vez por mês, para que os professores e os monitores travassem um diálogo.‖ Já na escola Número 4, a tutora afirma que o PME na escola não é uma coisa à parte. No momento da seleção para as oficinas, o assunto foi levado para o conselho escolar, foi discutido, foi levado também para a comunidade. A tutora afirma que a direção da escola sempre leva todas as informações sobre novos projetos para a comunidade, fazendo reuniões dentro da escola: ―a escola tem uma boa relação com os pais, que estão começando a mudar a ideia que tinham de que as atividades do Mais Educação são apenas brincadeira. Eles veem que a criança fica com mais equilíbrio, mais centrada.‖ Nas outras duas escolas, os profissionais afirmaram que a relação do PME com o projeto político-pedagógico era ―complicada‖ e que a escola não se envolvia. 140 ―A escola não se envolve. Somente a vice-diretora, antes mesmo de eu assumir como tutora, ela que foi atrás dos monitores, ela é envolvida sim. Eu tenho o suporte que eu preciso da escola e eu tento dar o suporte necessário, também aos monitores‖ (tutora escola Número 2). ―A verba veio e a gente entrou de cara, a gente quer fazer um trabalho sério. Tanto é que a gente faz a participação, está presente em todos os momentos com a criança, mas ainda falta mais envolvimento do grupo dentro da escola pra ver essas atividades.‖ (tutora escola Número 1) As escolas compraram kits de materiais a serem usados nas atividades, tendo antes apresentado à Secretaria de Educação a lista desses materiais. Em relação à remuneração dos monitores, o regime é de ressarcimento de voluntariado, com base na Lei no 9.608/1998. Em ambas as situações, o recurso chega diretamente do MEC para as escolas, por meio do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Uma monitora da escola Número 2 ressaltou, sobre os recursos do PME: ―O governo veta muito alguns materiais que a gente quer comprar pra desenvolver, porque não está na listagem deles. Mas são coisas que talvez sejam necessárias pra gente desenvolver no dia a dia e que vão ajudar o aluno, inovações, adequações. Então eu creio que tem essa parte, fora o aumento da renda, não é? E a motivação do profissional que é o mais importante também.‖ 2.2.3 Os monitores O cadastramento dos monitores do programa foi feito pela secretaria municipal de Educação. O coordenador do PME relata que em 2009 foram analisados cerca de oitocentos currículos, a maioria de estudantes 141 universitários. Além disso, a secretaria procurava as próprias escolas e associações, na busca de pessoas habilitadas para diferentes tipos de atividades e oficinas. Embora a maior parte do monitores contratados tenha sido de estudantes universitários, não houve exigência de títulos para essa função. Um capoeirista reconhecido, independentemente de sua escolaridade, poderia assumir a função de monitor do PME e caberia ao professor tutor fazer a associação do trabalho do monitor com a proposta pedagógica. Em geral, cada monitor permanece um dia inteiro por semana na escola, e nesse dia orienta quatro oficinas para quatro grupos diferentes. Para o secretário adjunto de Educação, ―o professor também se forma com a ajuda dos oficineiros (monitores), com a ajuda das pessoas que vêm da comunidade para se integrar ao programa e oferecer conhecimentos aos alunos‖. Entre os seis monitores que entrevistamos, dois eram estudantes de Pedagogia, um tinha nível superior e três eram especialistas. Eram cinco mulheres e um homem. A tutora da escola Número 2 afirma que os monitores trabalham mais ou menos nas suas especialidades: ―O professor (a tutora chama os monitores de professor) da atividade ‘jornal‘ tem formação em jornalismo. O professor (monitor) da atividade ‘quadrinhos‗ tem formação em letras. A de ‘letramento‗ tem formação em Pedagogia, já o de ‘judô‗ tem o Ensino Médio e é mestre em judô. O professor (monitor) de ‘xadrez‗ tem experiência em xadrez e estuda Ciências Sociais.‖ Encontramos um caso em que a monitora entrevistada (e vários outros da mesma escola) era ex-aluna da escola. Das seis monitoras entrevistadas, apenas uma morava no bairro da escola. 142 A maioria das monitoras entrevistadas se mostrou entusiasmada com o programa. Dentre as entrevistadas, uma apresentou um discurso extremamente negativo em relação aos alunos e aos pais: ―tirar esse aluno, essas crianças pequenas que recebem muita influência da sociedade e da comunidade que não é lá essas coisas, que não é muito boa. Então é muita influência negativa pra eles, pro desenvolvimento deles. Então quanto mais tempo ele passar na escola aprendendo coisas novas e desvirtuando um pouco daquela má cultura que está sendo imposta nele, isso vai ser sempre construtivo pra ele, sempre vai ser enriquecedor. Nesse ponto o projeto é bom, tem uma proposta muito boa, mas muitas vezes força colocar numa escola que não tem o porte de sustentar aquele projeto, e as vezes cria uma dificuldade.‖ (monitora escola Número 2) Todas reafirmaram as difíceis condições de vida dos alunos, e ainda que a visão predominante entre elas seja a de que a atividade serve para ―tirar as crianças da rua‖, ideia repetida inúmeras vezes, pelo menos quatro das entrevistadas vão além do discurso assistencialista, apresentando uma visão positiva dos alunos e de suas capacidades. ―... eu realmente gostei muito do projeto e ele faz com que a gente perceba a capacidade também da criança. Porque tem muitas crianças que têm um potencial muito grande, como nós descobrimos, por exemplo, tem um aluno que tem um potencial muito bom pra desenho. A prova é que a capa do nosso DVD foi o desenho que ele fez do Luiz Gonzaga. Então isso aí é um potencial que a gente pode o quê? Pode orientar a mãe pra procurar uma instituição que possa ajudar essa criança a se desenvolver e futuramente ser um desenhista. Então ele foi eleito o desenhista da escola.‖ (monitora escola Número 3) 143 Algumas monitoras mostraram que estão refletindo sobre a concepção do programa: ―É uma atividade muito dinâmica, foge do cotidiano escolar, do que eles estão acostumados, das quatro horas que eles ficam. Então essa ampliação é uma coisa mais dinâmica, é uma coisa mais diferente. Então é uma rotina, que eu creio que os alunos, eles gostam‖.(monitora escola Número 4) Outra monitora considera que o Mais Educação veio numa hora boa, pois é uma maneira de aproximar a criança da cultura, especialmente da cultura local: ―Porque é muito fácil você falar da cultura de fulano, de outro país, mas por que não a gente viver a nossa cultura?‖ (monitora escola Número 2) Uma monitora da escola Número 3 considera necessário o desenvolvimento de atividades interdisciplinares, de exibição de filmes relacionados ao que os alunos estão estudando, documentários, visando ampliar o olhar crítico sobre a sociedade, ―saindo um pouco da sala de aula e levando para o mundo‖. A monitora afirma que a escola tem equipamento de DVD, mas que falta material. Todas as monitoras entrevistadas se referiram aos problemas de espaço para a realização das atividades. ―A nossa maior dificuldade na escola é a falta de espaço... Neste momento eu estou neste corredor, que é a parte detrás da escola. Enquanto o sol não vem, a gente trabalha com ela. Aí daqui a pouco o sol vem, não dá pra continuar, aí a gente vai pra frente da escola. Enquanto o sol não vem , aí daqui a pouco chega a hora do recreio, aí não dá mais pra ficar ali, vamos pra trás da escola. É assim, está entendendo? então fica difícil você dá um prosseguimento melhor nessas atividades. Mas a gente faz o que pode‖. (monitora escola Número 2) 144 ―Eu moro nesse bairro, mas assim realmente não está havendo uma integração entre a comunidade e a escola. A gente até tentou pegar o espaço de uma creche, mas não foi possível. E aí nós nos resumimos lá mesmo na escola.‖ (monitora escola Número 2) Os monitores da escola Número 2 relataram que trabalham em conjunto. Para que as atividades tenham continuidade, um monitor começa a atividade e o outro continua. A insuficiência de tutores (as quatro escolas têm apenas um tutor em um dos turnos) foi apontada por todos os monitores como um dos principais problemas do PME. 2.2.4 Os professores tutores O professor tutor é um professor da rede municipal, que assume, na escola onde atua, a função de tutor do PME, cujo papel ―é de estar coordenando, no sentido de dar a conotação pedagógica às atividades, fazendo um elo com a sala de aula, pois sem esse elo com a sala de aula fica uma atividade vazia‖ (coordenador do PME). Nos documentos do MEC do Programa Mais Educação, essa função é denominada ―professor comunitário‖ mas em Recife assumiu a designação de professor tutor. Além da matrícula que corresponde a 145 horas-aula/mês, esse professor é remunerado por mais 125 horas-aula/mês, passando para um regime de 270 horas-aulas/mês, ou seja, um regime de horário integral. Esses professores mantêm suas funções docentes como afirma a tutora da Escola 2 que trabalha no turno da tarde, com uma turma do segundo ano do segundo ciclo. Reclama que, sendo a única tutora da escola, é procurada quando está em seu horário de aula, pois o programa funciona durante todo o dia: ―Aí as vezes eu digo assim: à tarde, eu sou professora! Mas tem coisas que só se resolvem comigo...‖ 145 A coordenação do Programa planejou ter 100 alunos no PME por escola em 2009: o ideal nosso para este ano é que as escolas tivessem 100 alunos, divididos em dois grupos, com 50 pela manhã e 50 à tarde. E os 50, também divididos em dois grupos, 25 e 25, então ficariam dois tutores por escola, um no horário da manhã e outro no horário da tarde. Essa proposta não pode ser inteiramente cumprida, pois faltaram professores com condições de acumular a função. De acordo com o coordenador, seriam necessários 240 tutores e a Secretaria de Educação conseguiu 186. A dificuldade em conseguir mais tutores deveu-se ao fato de que um professor que já tivesse algum acréscimo de carga horária não poderia acumular com as horas do Mais Educação . Nas escolas onde não foi possível ter pelo menos um professor-tutor, os próprios diretores ou coordenadores pedagógicos assumiram a coordenação do trabalho do PME. Dentre as quatro professoras tutoras entrevistadas, três reafirmaram os depoimentos das monitoras, de que o principal problema que vivenciam é a falta de espaço: ―Tudo acontece num pátio e, quando chove, tem uma salinha muito pequena, muito pequena mesmo, que não comporta todos os alunos. É uma sala com livros, mas não chega a ser uma biblioteca, é muito pequena. Quando chove ficam todos ali, apertados. Aí eu estou pensando como é que vai ser no inverno. Enquanto não resolverem a questão da compra do prédio, enquanto não fizerem a coberta. Porque se tivesse coberta, seria melhor‖. (tutora escola Número 2) 146 Na escola 4, o espaço utilizado foi cedido pela comunidade pois a escola não tem nenhum espaço. Apenas o futebol acontece num terreno atrás da escola, para o qual há uma proposta de construção de quadra de esportes. De acordo com a tutora dessa escola, quando ―o sol está muito quente‖, o monitor faz trabalhos de recreação com os alunos menores. Quando são os alunos maiores, ―eles jogam debaixo do sol‖ e a tutora diz que o professor (trata-se do monitor) ―avisou que está descobrindo talentos‖. A tutora afirma que a escola conseguiu se acomodar a esses espaços, mas que as atividades estão limitadas. Algumas tutoras revelaram pouca familiaridade com a concepção do programa, ou visões distintas sobre seus objetivos. Uma delas, conforme assinalado no parágrafo anterior, refere-se aos monitores como ―professores‖. Outra refere-se às atividades como ―aulas‖ e aos monitores como ―parceiros‖. ―Como tutora eu dou uma orientação, ajudo na questão da disciplina, porque os alunos já me conhecem, mas a questão da execução é mais com eles. Então, se não tivesse tido essa parceria, não teria acontecido‖. (tutora escola Número 2) Retornaremos à questão das diferentes concepções de parceria ao final deste relatório. Também demonstrando pouca familiaridade com o Programa, a tutora da escola Número 3 afirma que não há parcerias no PME em sua escola, mas, uma monitora da mesma escola relata em detalhes a existência dessa parceria, com um clube local, para a utilização do espaço. As contradições e os equívocos captados podem estar relacionados ao pouco tempo de existência do PME na rede escolar, e também à dificuldade, aludida pelo coordenador, em encontrar professores com o perfil adequado para assumirem a função de tutores . 147 Ainda que a amostra deste estudo seja aleatória e não representativa, não deixou de registrar a variedade da realidade, tendo a tutora da escola Número 4 revelado grande familiaridade com a proposta do Programa e forte engajamento profissional: ―... a gente está apostando muito no projeto. Quando eu digo mesmo assim, eu dou tudo de mim, eu faço tudo aquilo que está dentro das minhas possibilidades. E o que eu posso também na direção, que está apostando muito também.‖ Sobre as visões divergentes, registramos o depoimento da tutora da escola Número 3, que relata a existência de controvérsias sobre o PME no interior da escola. Afirma que a tutora anterior considerava que nada deveria ser igual à sala de aula. Já ela considera que ―só a forma deve ser diferente, mas que os mesmos conteúdos devem ser trabalhados na sala de aula e no Mais Educação‖. 2.2.5 Os alunos Em relação à seleção de alunos feita nas escolas, para o PME, a orientação da coordenação da SME era para que não se selecionassem apenas os alunos problemáticos ou com dificuldades. A orientação dada às escolas foi de fazer uma mistura de alunos ―com‖ e ―sem‖ problemas. ―Porque se a gente desse uma orientação que apenas fossem os alunos que têm dificuldade (...). aí a gente começou a ver isso como exclusão também, e não era o que a gente queria. Porque como é que a gente vai potencializar a educação como um todo se a gente faz a divisão dos fortes e fracos, dos que conseguem e dos que não conseguem?‖ (coordenador do PME) 148 Entretanto os depoimentos das tutoras e monitoras mostrou que, nas quatro escolas estudadas, esse objetivo não foi alcançado. Os critérios não levaram em conta a diversidade pretendida pelo coordenador. Na escola Número 2, os critérios foram relatados com precisão pela tutora, sendo selecionados os alunos: com dificuldade de aprendizagem; que ficassem sozinhos e ociosos; que fossem do segundo ano do segundo ciclo (quinta série). Na escola Número 1, de acordo com a tutora, a escolha concentrou-se nos alunos que “estão muito sem o olhar da família, que ficam assim, muito na rua; crianças que apresentam uma certa indisciplina, um comportamento mais alterado, mais complicado, que dificulta o trabalho da professora regular na sala de aula. São esses os critérios que nós estamos utilizando.‖ Como veremos adiante, predominou nessas escolas, no que diz respeito aos alunos participantes, a orientação contida nos documentos do MEC relativos ao PME. Sobre a organização do tempo dos alunos, destacamos, além da citação de uma monitora da escola Número 4, já reproduzida na p. 20 deste relatório, a seguinte observação: Está tudo dividido, tempo, espaço, são duas turmas por período, são duas turmas de manhã e duas turmas à tarde, uma hora e meia pra cada uma, dá pra trabalhar. Não é aquele trabalho cansativo que as crianças (...) porque geralmente criança não tem muita paciência pra estar lá e a gente explicando. Não é uma coisa de vai levar quatro horas com eles, sabe? E é muito bom, muito bom. (monitora escola Número 3) 149 Em geral, os depoimentos sobre a dinâmica do programa em relação à rotina dos alunos foram favoráveis, afirmando que, em sua maioria, os alunos gostam de participar das atividades. Em relação à frequência e participação dos alunos nas atividades do PME, a tutora da escola Número 3 afirma que o maior obstáculo são os pais. Diz que em sua escola a frequência baixou muito, por falta de apoio dos pais, que oferecem muita resistência e não entendem que o programa não é só brincadeira. Sobre os que permaneceram, a mesma tutora lembra ―o depoimento dos professores, que eles melhoraram em sala de aula em termos da violência, do conteúdo, do interesse ...‖. Já a monitora da mesma escola, estudante de Pedagogia, afirma que ―A participação, bom, eu posso falar pelas minhas oficinas, né? Eles participam, digamos, 80%, porque sempre tem um que chega e está cansado, tem o trabalho pela manhã, está cansado, está com sono, aí fica quietinho. E tem outros que estão querendo correr, estão pensando na oficina de futsal, na oficina de recreação que dividem comigo. Então alguns não participam por conta disso, mas são crianças. Só que a grande maioria participa sim.‖ 2.2.6 As parcerias Foi criado um grupo intersetorial, na prefeitura, de acordo com as recomendações do PME (Brasil, MEC, 2008) do qual participam, além do setor da educação, os setores de assistência social, saúde, direitos humanos, associados também ao PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil). Nesse sentido, o secretário adjunto entende a ideia de parceria como ―se fazendo também dentro da estrutura da prefeitura e não apenas em direção a parceiros privados‖. 150 Para o coordenador do PME, o objetivo da articulação interna dos órgãos municipais é ver os alunos como indivíduos integrais e também dar atenção aos pais desses alunos. No âmbito do PME, fora do poder público, há parcerias com igrejas, associações de bairros, clubes e com o exército que cedeu espaço em alguns quartéis. As parcerias consistem, em geral, em cessão de espaço, cuja falta é um grande problema da rede escolar pública de Recife. Segundo o coordenador do PME: ―As escolas são pequenas e localizadas em bairros de difícil acesso, de periferias, onde os alunos não têm tanta liberdade pra estar circulando no entorno, até por questão de violência.‖ São as próprias escolas que firmam as parcerias. Em alguns casos, as escolas são procuradas, como aconteceu com as bibliotecas de bairro, trazendo os contadores de histórias para as escolas. Muitas igrejas católicas cederam os salões paroquiais, e também igrejas evangélicas e terreiros. O coordenador afirma que ―as igrejas, elas não dão aula de religião, elas cedem. Mas geralmente a gente tem monitores que fazem parte lá da igreja e que negociam os espaços. Então, é uma forma de (...) a partir do momento que os monitores são de lá, então a gente percebe que há uma aceitação maior‖. Para as monitoras da escola Número 4 151 ― O Programa Mais Educação é um projeto interessante para a continuação da escola num outro espaço, porque está funcionando em um outro espaço que é uma associação. E estou dando a oficina de letramento, e assim, a gente trabalha com diversos tipos de leitura e com a escrita bem dinamizada, pra que eles melhorem o complemento da escola.‖ Outra monitora afirma ―Olha, a gente usa o clube (...) Como eu não moro no bairro, eu não sei muito, mas a capoeira é lá, por conta da falta de espaço da escola. Então tem mais um outro espaço para oficina de percussão, de capoeira‖. (monitora escola Número 3) Na escola Número 4, o processo que levou à parceria deu-se da seguinte forma: a escola procurou as pessoas da comunidade e fez contato com duas associações. Em uma não foi possível um acordo, mas a outra se colocou à disposição. Trata-se de uma associação de moradores, que estava inativa, em más condições, mas com espaço. É uma casa, próxima da escola, com um salão grande, um menor e banheiros. A escola comprou o material necessário para a limpeza e a própria associação arrumou o espaço. Segundo a tutora ―a associação diz que foi um presente para a comunidade pois agora a casa está funcionando todos os dias‖. 2.2.7 O programa e a cidade O tema do ano letivo de 2009, de toda a rede municipal, foi “Recife, cidade educadora‖. O secretário adjunto refere-se à ideia de ―Bairro Escola‖. Diz que ela envolve a articulação com todos os equipamentos urbanos que estão em torno das escolas, como praças, postos de saúde, campos de futebol, clubes de dominó. 152 No sítio da secretaria de Educação há um documento de 2006, chamado ―Recife, cidade educadora‖, que ainda não se refere ao PME, o que reforça a compreensão de que o programa encontrou na cidade uma estrutura prévia favorável à sua implementação. Segundo o secretário adjunto, ―a intenção é que os espaços da cidade possam ser apreendidos, utilizados pela população, de uma forma republicana, que é o que a gente está chamando de ‘Bairro Escola‘ .Eu acho que o Mais Educação faz exatamente isso, faz o caminho inverso, num certo sentido, daquilo que a gente imaginou, às vezes de forma um pouco ingênua, de que a escola prepara o cidadão. Prepara, sem dúvida, mas a cidade também deveria preparar a escola.‖ No âmbito do Mais Educação, muitos tutores e monitores começaram o ano de 2009 mostrando o próprio bairro às crianças, que, em muitos casos, têm receio de circular por ele. Num segundo momento, os monitores levaram os alunos para conhecerem o Centro da cidade. Os alunos visitaram também o Espaço Ciência e o Zoológico da cidade de Recife. ―... tem bairro aqui, não precisa nem ir muito longe, que guarda características rurais muito fortes, de pessoas que migraram, às vezes muito recentemente. Pessoas que nunca vêm à cidade, pessoas que nunca viram o mar, morando aqui e nunca foram à praia‖ (secretário adjunto de Educação). Houve intercâmbio entre os bairros, com pequenos campeonatos dentro das RPAs (Regiões Político-Administrativas) de Recife. As escolas, por iniciativa própria, organizaram essa troca. Houve campeonatos de judô, de xadrez, de futebol e de canto-coral. De acordo com o coordenador do PME, em 2009 a programação de saídas da escola transpôs o âmbito da cidade do Recife, indo até a cidade de 153 Caruaru. Trinta escolas participantes do Mais Educação foram a essa cidade para que os alunos conhecessem sua feira típica e o Alto do Morro e ―pudessem verificar o contraste entre o que é chamado de sertão e o que é a capital‖. Essa atividade foi articulada ao trabalho do Memorial Luiz Gonzaga, já parceiro da Secretaria de Educação. Para as viagens, a coordenação do PME atuou em conjunto com o Conselho Tutelar e com a prefeitura, para a organização do transporte e da alimentação. Segundo o coordenador, o Mais Educação pode proporcionar esse tipo de atividade, anteriormente feita esporadicamente pela Secretaria de Educação, para um número maior de escolas e alunos. 2.3 As escolas de tempo integral de Recife Correlatamente à experiência do PME, a rede municipal de Recife tem cinco escolas de tempo integral, que foram criadas em 2002. São escolas situadas nas fronteiras da cidade com os municípios de Olinda, Camaragibe, Jaboatão dos Guararapes e Moreno. Iniciou-se como um projeto intermunicipal no qual as escolas receberiam alunos de diferentes municípios, sendo partilhadas as participações financeira, administrativa e logística. Pelo fato de Recife ser um ―polo de atração‖ e dispor de mais recursos, acabou por assumir todos os encargos, e a própria idéia de intermunicipalidade desapareceu. Segundo o secretário adjunto, essas escolas ficaram com sérios problemas devido aos altos custos. ―Elas dobram tudo e não dobra o financiamento. Nesse momento eu estou tentando fazer com que... são escolas que estão declinando, não receberam mais apoio. Elas estão declinando de uma forma assim, quase que levadas à inanição por desligamento dos aparelhos. E eu estou tentando dar um pouco uma volta por cima e fazer com que elas se tornem um piloto dessa experiência de integração e de reflexão. Então, se afoga, mas reaparece vivo lá na frente. Então eu estou tentando fazer um pouco isso nesse momento, com essas cinco escolas, mas a gente aos poucos vai ter que 154 integrá-las à rede normal, elas vão deixar de ser escola de tempo integral.‖ Segundo o secretário adjunto essas cinco escolas de tempo integral têm o Ideb muito bom em relação aos padrões do município e algumas até mesmo em relação ao padrão nacional. O alunado não é selecionado, são os alunos da região e dos municípios vizinhos. Os alunos têm quatro refeições na escola. A intenção da secretaria é fazer com que essas escolas deixem de ser de tempo integral e se integrem num projeto mais amplo, passando, segundo o secretário adjunto, de escola de tempo integral para o conceito de educação integral: É, o que fazer? Então eu estou tentando não perder isso e fazer com que elas saiam da situação de escola de tempo integral para se integrarem a esse projeto mais amplo que a gente está pensando aqui. Então, a escola de tempo integral eu acho que foi uma ideia republicana, sem dúvida, Darcy Ribeiro que era um homem de fortíssimas convicções republicanas, claro que inspirado no seu saudoso mestre que era Anísio Teixeira, sem dúvida, Escola Parque e tudo isso, Bahia, Rio de Janeiro. Mas eu acho que hoje a gente pode progredir da escola de tempo integral para o conceito de educação integral. Eu acho que é um pouco isso que a gente está tentando fazer. 3. Contribuições e desafios da experiência 3.1 limites e possibilidade da análise O fato da experiência aqui analisada existir há apenas dois anos no momento da visita da equipe de pesquisadores, sendo que há um ano com alcance mais expressivo, permite apenas uma avaliação sincrônica do programa. A análise contida neste relatório, por ser em grande parte baseada em depoimentos, não pode revelar aquilo que efetivamente acontece na prática 155 cotidiana das escolas do PME, o que exigiria uma pesquisa de cunho etnográfico, ainda que a atividade presenciada tenha fornecido alguns elementos dessa prática. A análise se baseia, principalmente, no que pensam os atores do PME em Recife, em suas elaborações próprias, a partir de expectativas e frustrações baseadas em sua prática. Como em toda pesquisa desse gênero, revela também o que esses atores imaginam que deles se espera, em termos de suas competências e ação. A atividade de culminância presenciada era um resultado de grande porte do PME, mas que representava apenas uma parte do trabalho realizado durante o ano de 2009. O secretário adjunto e o coordenador do PME, entrevistados pela equipe, eram as pessoas da hierarquia da SME que conheciam o programa e estavam envolvidas diretamente em sua execução. Entretanto, pudemos perceber que problemas político-administrativos internos à secretaria vinham trazendo dificuldades. Pouco depois da visita, o secretário adjunto Flávio Brayner exonerou-se do cargo e com ele o coordenador do PME em Recife. Uma carta aberta foi divulgada pelo secretário adjunto, no momento de sua demissão, revelando sua discordância frente a uma ―política de resultados‖, ―gerencialista‖, em detrimento dos princípios e preocupações efetivamente educacionais. O coordenador do Programa, Erisvelton Sávio, ao afirmar na entrevista concedida aos pesquisadores que o maior desafio do PME em Recife era ―tornar-se uma política pública estável, de maneira a garantir, de forma legal, sua continuação e sustentabilidade, independentemente do Governo que se instale‖, já demonstrava a percepção dessa instabilidade. A situação reedita uma espécie de ―sina‖ da educação brasileira, que resulta da fragilidade das instituições em geral e que gera a instabilidade administrativa que com frequência leva à interrupção ou ao abandono das experiências, antes mesmo que uma avaliação efetiva possa ser realizada. Mas não é possível afirmar aqui ser este o caso do PME em Recife. Para tal, um retorno ao campo seria necessário. Desde o momento da visita (inclusive) até o término deste relatório, o item referente ao PME no sítio da SME apresenta apenas a reprodução da 156 apresentação e das instruções do próprio MEC, não se referindo à ação efetiva do Programa em Recife e nem ao evento em parceria com o Memorial Luiz Gonzaga que presenciamos. 3.2 A repercussão da experiência no conjunto da rede Apesar da ausência de divulgação externa, internamente, a repercussão do PME no conjunto da rede parece ter sido grande. De acordo com o secretário adjunto, alguns projetos da secretaria que estavam semidesativados, com poucas pessoas na equipe e sem infraestrutura, foram reativados a partir do PME. O Mais Educação teria sido ―uma porta de entrada pra que eles fossem relacionados à proposta pedagógica da secretaria e chegassem às escolas por uma outra via‖. Os macrocampos definidos pelo PME teriam permitido a incorporação de atividades pulverizadas e sem regularidade. Dentro dos limites da pesquisa de campo, baseada nos depoimentos e na observação, concluímos que o PME teve impacto sobre a rede. Do ponto de vista quantitativo, a estimativa feita pelo coordenador, de 10 mil alunos participantes, é significativa para um sistema com cerca de 83.676 alunos de Ensino Fundamental. Do ponto de vista qualitativo, parece ter não somente incorporado novos recursos e ações, como também potencializado recursos preexistentes, articulando e dando suporte a projetos que se encontravam parcialmente desativados. 3.3 Os problemas e dificuldades Dentre os obstáculos mais citados, estão a falta de espaço e de infraestrutura, tanto para a concretização do programa como para a ―formação‖ dos profissionais. A falta de espaços para a realização das atividades no turno alternativo às aulas é recorrente. Das quatro escolas entrevistadas, três apresentaram depoimentos contundentes sobre a falta e precariedade dos espaços. Nas três escolas que realizaram parcerias com instituições da comunidade, os espaços 157 assim conseguidos foram ainda insuficientes, tendo em vista o número de monitores e as possibilidades de sessões semanais. Muitas atividades são feitas em áreas externas, ao ar livre, sujeitas ao tempo, chocando-se com outras atividades da escola e vice-versa. A insuficiência da ―formação‖ também ficou evidente. Sabendo-se que a formação de professores e outros profissionais é um processo contínuo e que os resultados não são imediatos e nem iguais para todos os sujeitos envolvidos, é natural que tenhamos nos deparado com discursos de monitores e tutores dissonantes em relação à concepção do programa e às orientações da coordenação municipal. Os poucos encontros para fins de formação, a novidade do programa e também seu pouco tempo de vigência levaram a informações às vezes incompletas ou contraditórias vindas dos profissionais das escolas. O problema maior parece ser a ausência de uma programação contínua e regular de formação específica para os profissionais em atividade no PME. ―a gente tem que saber o que a gente está trabalhando, e para que a gente está trabalhando, e muitas vezes não se sabe. Então isso faz com que não aconteça uma conscientização, não aconteça um encantamento mesmo, o abraçar, porque não se sabe o objetivo final, não se sabe o que é. E a questão de um querer, de uma compreensão no âmbito mais geral dos três governos, municipal, estadual e federal‖ (coordenador do PME) Com exceção de uma escola, na qual a tutora e os dois monitores relataram ter discussões permanentes sobre o trabalho do PME com o conjunto dos colegas, nas demais, os tutores e monitores referem-se à ―formação‖ como um momento do passado, como algo que aconteceu e acabou, antes de o programa entrar em atividade. 158 Alem disso, essas escolas não realizam atividades rotineiras de debate sobre as ações do programa e de integração de suas monitoras às discussões pedagógicas da escola, o que as deixa à parte do conjunto da escola. Outro problema recorrente, apontado pelos profissionais das escolas e da secretaria de Educação, é o regime de urgência em que tudo é sempre feito. Tanto do coordenador do PME como dos monitores, ouvimos depoimentos críticos quanto à pressa e à falta de um melhor planejamento para as novas ações. ―...e o próprio MEC mesmo, que a gente acha às vezes falho, pela forma como são repassadas as informações. Não são repassadas, são jogadas.‖ (coordenador do PME) ―Porque é tudo assim jogado, né, muito em cima, não deu pra se preparar. Então nesse recesso eu vou procurar saber o que a gente vai fazer, com a direção, como vai arrumar. Aí já vai ser bem melhor. Por quê? Porque eu vou ter material, eu vou ter espaço, eu sei o que eu vou poder trabalhar.‖ (tutora escola Número 3). Esse problema está relacionado à instabilidade e insegurança quanto à continuidade das políticas públicas, já aludida neste relatório, isto é, à tradição de não continuidade das políticas quando das mudanças de governo, que transforma todas as ações em ―urgentes‖. 3.4 Possibilidades e limites das parcerias Quanto às parcerias que pudemos registrar, à exceção do Sesi (Serviço Social da indústria) e do Memorial Luiz Gonzaga, as demais eram instituições locais de pequeno porte (clube, associação de moradores e igreja). Detectamos, na amostra, duas modalidades de parceria. A primeira, com o Memorial Luiz Gonzaga, representa um tipo de parceria que se estrutura a 159 partir das instâncias de governo, por meio de articulações que não passam, a princípio, pelas escolas, que, entretanto, as recebem de bom grado e aparentemente sem contestações. Em geral, as escolas e seus profissionais aceitam pragmaticamente esse tipo de iniciativa, em que a proposta chega já organizada, e com os recursos necessários. Sentem-se valorizados, bem como a seus alunos, pela atenção do poder público a eles dispensada. O segundo tipo encontrado constitui-se em empréstimo de espaço e decorre da iniciativa da escola. Nesse sentido é o tipo de parceria que mais se aproxima de práticas de promoção da aproximação entre a escola, as famílias e as comunidades, mediante atividades que ―visem a integração dos equipamentos sociais e comunitários entre si e à vida escolar‖, tal como sugerido na proposta do PME (BRASIL, 2007). Entre elas, encontra-se a parceria com o Sesi, instituição de grande porte, localizada próximo a uma das escolas, que cedeu espaço para as atividades do PME. Em todos os casos do segundo tipo de parceria, não há propriamente ação educativa dos parceiros, que apenas cedem espaços, colaboram com a escola mas não chegam a formar uma comunidade educativa. As atividades que ocorrem nesses espaços são inteiramente organizadas pelas escolas, através dos tutores e monitores do PME. Algumas vezes esses espaços cedidos servem às atividades de ―complementação pedagógica‖, ou seja, atividades tipicamente escolares, ainda que alguns monitores tenham frisado que procuram fazer essa complementação de forma diferente do trabalho realizado em sala de aula. Nesses casos, esses espaços são apenas ―espaços avançados‖ da própria escola. Ainda nesse segundo tipo de parceria, estão incluídas aquelas com entidades religiosas. De acordo com o coordenador do PME, em geral elas são fruto de relações pessoais de monitores e tutores com a entidade religiosa. Isso, por um lado, esboça a formação de uma comunidade educativa efetiva, estando os monitores ligados tanto à escola como à instituição parceira, isto é, criando-se a possibilidade de um encontro de projetos e não apenas de cessão de espaço. Lamentavelmente, por outro lado, esse tipo de parceria pode colocar em risco o princípio da laicidade da educação pública. Ainda que essa 160 pesquisa não tenha se dedicado especialmente a esse problema, a parceria com instituições de caráter religioso, realidade frequente e altamente provável, não apenas em Recife, merece uma atenção especial, em termo de sua normatização. Um terceiro tipo de parceria, no caso relatada pelo coordenador e em prática no PME de Recife, constitui-se de iniciativa de instituições públicas locais, como as bibliotecas públicas dos bairros, que procuraram as escolas para realizar trabalhos conjuntos. Aqui também pode-se encontrar um esboço de encontro de projetos educativos, e de ação educativa negociada, com origem exterior às escolas. Os monitores, designados por alguns profissionais como ―parceiros‖ e por outros como ―professores‖, foram, em grande parte, incorporados ao PME a partir de um processo de seleção organizado pela secretaria de Educação. Nem sempre esses profissionais estão ligados ao bairro da escola em que atuam e nem sempre trazem consigo uma proposta educativa, individual que seja. Se inserem, assim, em sua maior parte, de forma pedagogicamente ―subordinada‖ à escola e, salvo exceções, não preenchem os requisitos de ―parceiros‖, ainda que muitos dos que entrevistamos tenham expressado a convicção de que sua tarefa é fazer um trabalho diferente daquele que é feito nas salas de aula. 3.5 A relação da experiência com o PPP das escolas Sobre a inserção das atividades do PME no projeto político-pedagógico das escolas, cabem alguns comentários. A inserção do trabalho do PME no projeto político-pedagógico das escolas foi confirmada por todos os entrevistados, mas não foi possível averiguarmos o nível de desenvolvimento ou a efetividade prática desses projetos ou dessa inserção. A evidência de que as atividades tiveram um papel importante na ação pedagógica das escolas veio da intensa mobilização de monitores, tutores e 161 alunos, todos com atitudes muito participativas e positivas, conforme pudemos observar na atividade de culminância. A mobilização dos participantes não significa necessariamente que as atividades compõem um projeto políticopedagógico, mas significa que, no mínimo, existe um projeto de ação, um planejamento articulado e que integra a comunidade escolar. Mesmo que, no momento, as atividades ainda não sejam parte de uma estratégia de fato traçada em cada escola, por sua comunidade escolar, em função de sua realidade específica, as atividades do programa podem vir a favorecer o processo de estruturação dessa estratégia e de construção de projetos políticopedagógicos. 3.6 O MEC, a Secretaria Municipal de Educação e as escolas O PME em Recife, no momento da visita, funcionava, de modo geral, seguindo as orientações do MEC, contidas em documentos oficiais. O tipo de trabalho, inclusive as modalidades de atividades encontradas nas quatro escolas, cujos profisisonais entrevistamos, era muito parecido, o que demonstra uma espécie de contradição intrínseca entre a expectativa de iniciativa e valorização das ações que emergem da própria unidade escolar e a padronização regulamentar oriunda do PME em âmbito nacional, bem como da SEEL de Recife . O processo de cadastramento de monitores, já comentado neste relatório, é um exemplo disso: foi liderado pela secretaria de Educação, o que parece ter assegurado critérios adequados, preservando-o de práticas clientelistas, mas levou à seleção, de uma só vez, e não de acordo com o ritmo e necessidades próprias de cada unidade escolar, de uma grande maioria de monitores estudantes universitários. Possivelmente essa foi a melhor solução, dadas as condições objetivas, tais como os limites de tempo e o tamanho reduzido da equipe de coordenação do PME. Entretanto, ela pode ter contribuído para a ―escolarização‖ das atividades do programa, visto que, sendo uma boa parte dos monitores atuantes constituída de futuros professores, e mesmo de professores já formados, prevalece a tendência de 162 reprodução dos métodos e da cultura tipicamente escolar. As entrevistas que realizamos, ainda que não possam ser consideradas como representativas do conjunto, mostraram essa realidade em relação aos monitores. Cabe lembrar que, conforme relato do coordenador do PME, outros tipos de profissionais, em menor número, atuam no programa. Dentre as práticas que favorecem a construção progressiva da autonomia da unidade escolar, está a chegada de recursos diretamente à escola. O PME insere-se no sistema PDDE, que induz à formação de conselhos escolares e dá às escolas uma nova margem de autonomia e responsabilidade. Os depoimentos críticos de diretores, tutores e monitores sobre a escolha dos materiais a serem comprados para utilização nas atividades, e sobre a quantidade e a qualificação dos monitores são um exemplo desse novo papel da unidade escolar e seus profissionais. Mesmo que se considere que a construção de projetos pedagógicos pelas escolas é um processo ainda em desenvolvimento, em Recife como em todo o país, a chegada de recursos às unidades escolares, através do PME, serviu ao atendimento de necessidades reais, seja de pessoal ou de material, e representou um fortalecimento para as escolas envolvidas. 3.7 Quais destinatários? De acordo com os profissionais que atuam nas escolas, a escolha dos alunos obedeceu aos critérios contidos em documento do MEC abaixo reproduzido: Recomenda-se às Unidades Executoras que criem critérios claros e transparentes para a implementação da educação integral, para seleção das turmas que irão participar do programa, como: .alunos que apresentam defasagem série/idade em virtude de dificuldades de aprendizagem; .alunos das séries finais da 1a fase do ensino fundamental (4o e/ou 5o anos), onde existe uma maior evasão de alunos na transição para a 2a fase; 163 .alunos das séries finais da 2a fase do ensino fundamental (8o e/ou 9o anos), onde existe um alto índice de abandono após a conclusão; .alunos de anos onde são detectados índices de evasão e/ou repetência, e assim sucessivamente; .a educação integral deverá ser implementada com a participação de, no mínimo, cem alunos. (Brasil. MEC – Secad, p. 2, 2008) Ainda que o coordenador do PME tenha apresentado outra visão a respeito desses critérios, conforme já relatado, a seleção foi feita entre os alunos em atraso escolar, ou com problemas de sociabilidade ou agressividade. Entre a orientação do coordenador e a orientação do PME, prevaleceu esta última. A proposta do MEC parece ter tido melhor repercussão junto às escolas, que buscam resolver seus problemas de fracasso escolar. Pode-se também associar essa escolha à predominância de visões ―assistencialistas‖, muito evidentes no discurso de alguns profissionais das escolas. Não se trata de desconsiderar a percepção desses profissionais, pois ela está baseada em problemas reais por que passam uma parcela significativa dos alunos da rede municipal de Recife. O problema se dá, quando essa percepção se transforma em preconceito, faz cessar a busca pelas potencialidades e transforma o fracasso escolar em destino necessário, seja pela queda vertiginosa das expectativas, seja pela falta de investimentos na busca das soluções pedagógicas adequadas. A discussão, política e teórica, sobre a possibilidade de que programas voltados especialmente para alunos (ou escolas) que apresentam problemas de rendimento e/ou de integração social criem o fenômeno da ―guetização‖ é antiga e se mostrou em toda a sua atualidade na pesquisa aqui realizada. Ainda no que se refere aos destinatários do PME, a opção pela mudança de modelo das cinco escolas de tempo integral da rede municipal, que apresentam bons resultados, segundo o secretário adjunto, nos obriga a uma reflexão. 164 A decisão parece ser uma renúncia à experiência que é fruto de iniciativa municipal, completando sete anos de existência no ano de 2009, e que enfrenta dificuldades. São escolas mais caras, segundo o secretárioadjunto, entre outras coisas porque os alunos têm quatro refeições diárias. De acordo com as palavras de Brayner, reproduzidas neste relatório, a decisão estaria relacionada à transformação dessas escolas de tempo integral em escolas de educação integral. Entretanto, a permeabilidade entre escolas e seu entorno, a incorporação de outros agentes educativos para além dos professores, não é incompatível com a existência de uma estrutura escolar em tempo integral, com professores suficientes, espaços e recursos adequados. Nesse caso, estaria um projeto de âmbito nacional, desestimulando, ainda que não intencionalmente, ações ligadas ao poder local? E ainda, não haveria aqui uma reprodução da ―sina‖ do encerramento precoce de experiências interessantes? Assim como uma estrutura, principalmente baseada em parcerias, tem que estar atenta ao perigo da precarização da ação educativa, tema que abordaremos no item seguinte, uma estrutura principalmente baseada na instituição escolar tem que estar atenta à limitação da atividade educativa, isto é, ao seu empobrecimento. Numa fase em que se buscam novas práticas, novas experiências, em que se tenta reencontrar os sentidos e possibilidades da educação escolar pública, não seria interessante manter-se a diversidade de propostas? 3.8 Regulação governamental e localização das iniciativas Percebeu-se que alguns profissionais das escolas foram sensibilizados em relação à possibilidade de envolvimento efetivo de atores locais no processo educativo, porém, dentre os depoimentos recolhidos, nenhum revelou que isso estivesse acontecendo, ainda que o envolvimento de ordem colaborativa tenha sido encontrado (cessão de espaços) , o que não é pouco significativo dada a baixa ocorrência desse tipo de prática na tradição educacional brasileira. 165 Esse caminho pode levar a uma futura colaboração educativa efetiva, em que as parcerias representem enriquecimento e democratização da experiência escolar, mas pode também, dependendo do tipo de prática que venha a prevalecer, levar à precarização das ações educativas emanadas do sistema público, com a aceitação de instalações inadequadas e de profissionais sem qualificação – não entendida aqui apenas como qualificação acadêmica –, sem a contrapartida de criação de uma efetiva comunidade educativa, com a participação de escola, pais e organizações locais. Os monitores entrevistados, por serem estudantes universitários, ou mesmo professores já graduados, sentiam-se de fato como profissionais da escola e seus discursos foram emitidos a partir da visão intraescolar. Nesse sentido, pouco contribuíram para a verbalização de uma atividade educativa de outra ordem. É preciso lembrar, entretanto, que o PME em Recife tem monitores oriundos da comunidade e portadores de saberes não escolares. Certamente, seus depoimentos revelariam ações ou intenções diferentes. Em síntese, a proposta do PME pretende induzir a autonomização das unidades escolares, que devem formar redes locais de compartilhamento, envolvendo o entorno da escola e agentes, institucionais ou não, externos às escolas. Do que pudemos observar em Recife, esse processo é ainda muito incipiente, sendo seu traço mais relevante os acordos travados com instituições locais para a utilização de espaços, mas que não contam com um projeto ou com a ação educativa desses parceiros. A relação das escolas com o bairro e a cidade foi em grande parte estimulada pela secretaria de Educação, tais como os passeios articulados pelo nível central. Além disso, as escolas tomaram iniciativas nessa direção, promovendo passeios no bairro e trocas entre escolas. O PME é um programa de iniciativa governamental e suas ações, até aqui, foram induzidas seja pelo próprio MEC, seja pela esfera municipal de governo. Caracteriza-se assim uma realidade em que são os níveis centrais que difundem e propõem a autonomia das escolas, a busca das soluções locais e a descentralização das ações. 166 Ao mesmo tempo, por ser um programa em grande escala, que entre outras ações distribui recursos às escolas, inevitavelmente tem procedimentos regulamentados e padronizados. A convivência entre as estruturas reguladoras de governo e a indução de soluções locais para a implementação de uma ―educação integral‖, nos moldes expressos no PME, apresenta, nos discursos dos atores, suas contradições intrínsecas. Essas contradições nos parecem inevitáveis, em função da dimensão e da estrutura administrativa das esferas públicas brasileiras. Por outro lado, o fortalecimento das unidades escolares e a valorização da iniciativa de seus profissionais, caminho que nos parece incontornável para a melhoria da qualidade da educação brasileira, depende desse incentivo dos poderes constituídos. Como lidar com as contradições a partir daí geradas? Serão elas insuperáveis? São as questões com as quais terminamos este relatório. Referências BRASIL, Ministério da Educação – Secad. Educação integral/educação integrada e(m) tempo integral: concepções e práticas na educação brasileira. Mapeamento das experiências de jornada escolar ampliada no Brasil. Brasília, 2009. BRASIL. Portaria normativa interministerial no 17, Brasília, 2007 BRASIL. Ministério da Educação – Secad. Manual de educação integral para obtenção de apoio financeiro por meio do Programa Dinheiro Direto na Escola – PDDE, 2008. BRASIL. Ministério da Educação – Secad. Programa Mais Educação – Passo a passo. s/data. BRASIL. Ministério da Educação – INEP. Censo Escolar 2009. IBGE. CIDADES.Mapa de pobreza e desigualdade-Municípios Brasileiros, 2003. IBGE. CIDADES. Matrículas, docentes e rede escolar, 2008. RECIFE, Secretaria de Educação, Esportes e Lazer, Boletim Educação, 2009, disponível em http://www.recife.pe.gov.br/2007/07/02/mat_144789.php. 167 IV – SÃO SEBASTIÃO DO PASSÉ - BA Cláudia de Oliveira Fernandes Karen Victorino Régis Quando veio essa ideia da escola em tempo integral a gente pensou: essa coisa é boa... Vamos implantar a escola de tempo integral. (Ana Maria Gonçalves – gerente das escolas do campo) 1. INTRODUÇÃO Este relatório apresenta a pesquisa de campo realizada em São Sebastião do Passé, já na segunda fase qualitativa da pesquisa em que se objetivou conhecer as experiências mais significativas daquelas mapeadas na região Nordeste. O município demonstrou potencial em sua experiência, a partir dos critérios definidos previamente para a escolha daqueles que 168 poderiam ter suas experiências visitadas, além da qualidade das respostas no questionário, depois de uma leitura mais direta dessa fonte. A partir de agora, portanto, serão descritos os dados e as análises construídas. A freguesia de São Sebastião do Passé foi criada em 11 de abril de 1718. Nesta época, registrava-se uma população de 2.600 habitantes. A região ainda contava com oito engenhos, quatro capelas (uma principal e três filiais). Até 1926, São Sebastião do Passé era considerado distrito do município São Francisco do Conde. A partir daí foi criado o município de São Sebastião do Passé, que atualmente tem 41.758 habitantes, numa área total de 585 quilômetros quadrados, estando 58 quilômetros de Salvador. Faz parte da Grande Salvador e caracteriza-se por ter a sede e a área rural. Maracangalha, Lamarão de Passé, Banco de Areia e Nazaré de Jacuípe são os quatro distritos que formam o município, situado na microrregião homogênea do Recôncavo baiano e integrante da 3ª Região Administrativa da Bahia. A cidade fica às margens da BR-324, entre Salvador e Feira de Santana, as duas maiores cidades do estado da Bahia. Na produção agrícola, destaca-se o cultivo de mandioca e, na pecuária, destacam-se os rebanhos de bovinos, equinos e muares. Situa-se em uma rica região petrolífera, tendo alguns poços de petróleo: Nós fazemos parte da região metropolitana e estamos no polo dos municípios de extração de petróleo. Só que São Sebastião é o município que menos arrecada nessa região. A gente tem, em média, municípios que arrecadam 8 milhões, 10 milhões... 25 milhões como... São Francisco do Monte. Mas, meu Deus, como que 11 quilômetros quadrados arrecada quase 10 milhões, 8 milhões. E nós arrecadamos, no máximo, uns 5 milhões por mês. (prefeita Tânia Maria) 169 Os mapas abaixo apresentam a localização do município de São Sebastião do Passé dentro da Grande Salvador, situado na região petrolífera . 170 1.1. A educação no município O município conta com uma rede de 54 escolas municipais que atendem da educação infantil ao ensino fundamental e educação de jovens e adultos, com um total de 6.161 alunos47. Desse total, cinco escolas são rurais, todas funcionando em tempo integral, de 7:30 às 16:30. O quadro abaixo mostra o município em números. O IDEB do município vem crescendo. O IDEB das escolas visitadas não pôde ser verificado, já que a Prova Brasil é aplicada em escolas de zona urbana e com turmas de mais de 20 alunos. 47 Dados colhidos em 2008 na Seduc do município. 171 São Sebastião do Passé - Bahia Contexto socioeconômico Estimativa mais recente da população municipal 2009 41.758 Valor do Fundo de Participação dos Municípios 2007 11.598.279,43 PIB municipal total 2007 291.571 Números da Educação Número de estabelecimentos de ensino da rede pública municipal 2008 54 Matrícula total da rede pública municipal 2008 7297 Funções docentes* na educação básica 2008 336 Percentual de docentes com curso superior 2006 178 * O mesmo docente pode atuar em mais de um nível / modalidade de ensino e em mais de um estabelecimento Índice de Desenvolvimento da Educação Básica - IDEB Séries Brasil Estado Município (rede municipal) (rede estadual) (rede municipal) 2005 2007 2005 2007 2005 2007 Anos Iniciais 3,4 4,0 2,6 2,6 3,0 3,7 Anos Finais 3,1 3,4 2,6 2,7 2,6 2,8 Programas do município ligados à educação48 1. Projovem _ Programa socioeducativo para adolescentes de 15 a 17 anos em parceria com o governo federal onde são ofertadas as atividades: encontros, palestras, dinâmicas de grupo, atividades esportivas e de lazer. 2. Programa de assistência Integral a família PAIF – O Programa tem como objetivo contribuir para a prevenção e o enfrentamento de situações de 48 As informações foram retiradas da página da internet oficial da prefeitura de São Sebastião do Passé (http://www.saosebastiaodopasse.ba.gov.br/) 172 vulnerabilidade e risco social; fortalecer os vínculos familiares e comunitários;, promover aquisições sociais e materiais às famílias, com o objetivo de fortalecer o protagonismo e a autonomia destas comunidades; emancipar as famílias referenciadas através de suas ações. As atividades do PAIF são desenvolvidas no CRAS – Centro de Referência de Assistência Social, que atende a 3.500 famílias. Os serviços ofertados pelo CRAS são: atendimento social, atendimento psicológico (terapia grupal), encaminhamento de demandas diversas, visitas domiciliares, encaminhamento para INSS (beneficio de prestação continuada), concessão de benefícios eventuais, projeto de inclusão produtiva, grupos de convivência, projeto CINE CRAS, palestras educativas e informativas. 3. Centro de Treinamento e atividades desportivas CATE – Desenvolvido com recursos próprios – Aulas gratuitas de segunda a sexta das 6h ás 22h, e aos sábados, das 8h às 18h, com aproximadamente 1.200 alunos. Desenvolve 18 modalidades esportivas – Kick Boxing, futebol de campo, futsal, boxe, basquete, handebol, arte dança, capoeira, Tae Kwon Do, dança de salão, jiu jítsu, judô, ginástica melhor idade, técnicas de dança, fitness, karatê, ginástica livre e voleibol. 4. Programa Segundo Tempo – em convênio com o Ministério do Esporte e a prefeitura municipal de São Sebastião do Passé, oferece reforço escolar, atividade esportiva e distribuição de lanche para 3 mil crianças em idade escolar, cada núcleo é composto por um coordenador, dois monitores esportivos e um monitor de reforço escolar. O programa conta com 45 monitores, sendo 30 esportivos e 15 de atividades complementares. Além disso, possui 15 coordenadores de núcleo, um coordenador setorial e um coordenador geral. Possui oito núcleos, assim distribuídos: Lamarão (matutino e vespertino); Jacuípe (matutino e vespertino); Araçatiba (matutino e vespertino); Jacaré (matutino e vespertino); Km02 (vespertino); Banco de Areia (vespertino); Santo André (Matutino) e IV etapa da Urbis (matutino e vespertino). 173 5. Projeto Aconchego – Atende a 75 idosos em grupo de convivência, a partir de 60 anos de idade, de ambos os sexos. Tem como objetivo assegurar aos maiores de 60 anos seus direitos sociais, fortalecendo os vínculos familiares, a autoestima, a socialização e a autonomia. As atividades são aulas de canto, artesanato, oficina de memorização e oficina de alfabetização. 6. Programa Bolsa família – programa de transferência direta de renda, que beneficia famílias pobres e extremamente pobres e vincula o recebimento do benefício ao cumprimento das condicionalidades nas áreas de saúde, educação e assistência social. Beneficiados em São Sebastião do Passé: 4.578 (setembro de 2009). 7. O Programa Caindo na Rede consiste na realização de cursos de inclusão produtiva para os beneficiários do programa Bolsa Família, no município. Os cursos oferecidos são: corte e escova, corte e costura, culinária básica, penteados e tranças, alimentação alternativa, lanches comerciais, customização em pedrarias e miçangas, informática básica. 8. O Projeto Dançarte tem como finalidade promover a inclusão social do adolescente através de atividades socioeducativas, proporcionando o acesso a conteúdos essenciais à sua preparação integral para o exercício pleno da cidadania, tendo como referência o crescimento pessoal, a valorização da família, a busca da autonomia e o respeito às diferenças individuais, visando fortalecer os vínculos familiares e comunitários. O projeto é realizado em parceria com a UNAMSP – União das Associações de Moradores de São Sebastião do Passé e Petrobras. Na área cultural, a prefeitura desenvolve o Projeto Cinema na Rua, Jazz na Praça, Caixinha de Música e espetáculos e oficinas de arte na Casa de Cultura Maestro Manoel Gomes. Durante todo o ano de 2006, as atividades contaram com um público de mais de 25 mil pessoas. 174 1. 2 A pesquisa Os procedimentos de pesquisa obedeceram à metodologia traçada para todas as visitas programadas pelos diferentes pesquisadores, sem que tal diretriz ferisse as especificidades da experiência, do município, da(s) cultura(s) local(is), das escolas, seus professores e alunos, bem como da cultura escolar e culturas das escolas. Como a(s) cultura(s) de um grupo está(ão) fortemente relacionada(s) aos seus princípios e valores, compreendemos que as formas de conceber a educação, bem como as formas de organizá-la, estão fortemente relacionadas aos valores e princípios que balizam o projeto educativo. Sabemos que tais ações e decisões são permeadas não só pela cultura escolar (Sacristán, 1996; Forquin, 1993), mas pelas diferentes culturas que constituem e são constituídas pelos sujeitos na escola (Candau, 2000). A equipe de pesquisa que realizou o trabalho de campo constituiu-se de uma professora e uma estudante de mestrado, bolsista da pesquisa. Foram realizadas entrevistas com a prefeita, a secretária municipal de educação, a gerente das escolas do campo (responsável pelas escolas de tempo integral), os três diretores e coordenadores itinerantes49 das escolas, as seis professoras das escolas visitadas50, quatro funcionárias/merendeiras das escolas e duas responsáveis (uma mãe e uma avó). As entrevistas tiveram por base um roteiro preestabelecido e também o questionário respondido pela Seduc. No segundo dia de visita à Seduc e às escolas, foram feitas mais algumas perguntas, introduzidas a partir das observações realizadas inicialmente, bem como a partir da leitura e análise do Projeto de Educação Integral do Campo, documento obtido no primeiro dia da visita. 49 Adiante serão explicitadas as características dessas funções. Do total de cinco escolas que funcionam em tempo integral, uma estava em obras. A professora dessa escola estava atuando com sua classe em outra escola visitada. Dessa forma, foi entrevistada, sem que pudéssemos visitar a escola em questão. A escola Leonor Bahia Dantas é a única que conta com duas professoras e duas classes, como veremos adiante. 50 175 As entrevistas não foram consideradas como um simples encontro a fim de obter informações a respeito da temática pesquisada. Foi considerado o caráter de interação social da entrevista, espaço no qual entram em jogo as percepções do outro e do entrevistador, expectativas, preconceitos e interpretações de ambas as partes. Considerou-se também que: 1) O significado é construído na interação. 2) O assunto sobre o qual o entrevistador está querendo conhecer, muitas vezes, estará sendo organizado e sistematizado pela primeira vez, pelo entrevistado, na entrevista, posto que a narrativa exige uma certa organização de pensamento, organização esta que estará sendo feita na interação com o entrevistador. 3) Os objetivos da entrevista devem estar claros, assim como a informação que se pretende obter. Por fim, considerou-se que uma entrevista estruturada pode dificultar a investigação de significados subjetivos e a perspectiva de que, na interação, outros aspectos antes não considerados podem se tornar relevantes ao longo da entrevista. Por essa razão, optou-se por roteiro semiestruturado de entrevista, mas não menos objetivo por isso51. O roteiro de entrevista encontrase em anexo. Além disso, foram feitas observações nas escolas, do cotidiano 52 das mesmas e das classes em funcionamento. Foram também aplicados questionários a todas as professoras regentes de turma das escolas. O modelo do questionário também encontra-se em anexo. Foram visitadas quatro do total das cinco escolas do campo que compõem a experiência da escola de tempo integral, posto que uma delas se encontrava em reforma e as crianças e a professora estavam tendo aulas em 51 Trabalhos que contribuíram para a estruturação dos roteiros e para as análises das entrevistas: Zaia Brandão, Entre questionários e entrevistas, Edições Loyola, 2002, e Heloísa Szymanski, A entrevista na pesquisa em educação: a prática reflexiva, Editora Plano, 2002. 52 Entendendo-se por cotidiano aqui, não o dia a dia, mas o funcionamento do dia ou diário das escolas. 176 outra escola próxima, também de tempo integral, a Escola Municipal Rosa Garcez. Para as visitas, as pesquisadoras se dividiram, visitando, cada uma, duas das escolas, sempre acompanhadas de dois diretores itinerantes. A pesquisa de campo se realizou em dois dias inteiros, com saída de Salvador às 7h e retorno às 20h. As fotografias e entrevistas foram autorizadas pelas professoras e por alguns dos responsáveis das crianças. Apenas essas aparecem nas fotos que ilustram esse relatório. 2. A EXPERIÊNCIA Iniciamos a descrição da experiência, destacando a concepção da função social da escola na fala da secretária de educação do município, Jucinalva Pinto Peruna: Essa escola de tempo integral ela tá servindo pra muitas reflexões, né? Quebrar, inclusive, paradigmas. Quando você coloca assim, o que é o fazer escolar, na visão genérica? É trabalhar a Língua Portuguesa e a Matemática e outras disciplinas... Entretanto, o fazer focado no livro e no caderno, na caneta, e no lápis... E quando a gente vem... até você... trabalhar no sentido de quebrar outros paradigmas... quando eu coloco que é uma ação financiada pelo recurso da educação... comprar tinta, tecido, tesoura, botão... é... dentre outras coisas mais. Sim e você aprende só com a mão, com o lápis a caneta? E a gente foi fundamentando esse fazer do dia a dia na escola de tempo integral, porque através da arte eu também aprendo, né? Então, a música e a horticultura... e num primeiro momento, eu acredito que a gente ainda vai avançar nesses programas tão fechados e limitados do que pode e do que não pode, né, com o recurso. A gente respeita e entende e vamos... até procurar parceria. Porque a escola quer fazer uma horta, não tem como comprar semente com o recurso da educação, mas o meu aluno aprende o solo, a geografia, né? Ele aprende a biologia, ele aprende a botânica, a ciência, ele aprende a como se alimentar nos programas de saúde. Então, esse é um processo de aprendizagem, mas não é financiável, né? É um instrumento, é um recurso e aí é que é o papel da 177 comunidade, se envolvem de tal forma, que fazem a sua sementeira, separam né, pra mandar pra escola. A parceria com a secretaria de Agricultura e Meio Ambiente, presente assim com a gente acompanhando, subsidiando. 2.1 Histórico do projeto E aí nós tentamos fazer um projeto, o projeto foi feito de uma forma muito simples, reconheço que o projeto tem que ser... eu já lhe disse, né, quando a gente conversava por telefone que deve ser implementado algumas coisas no projeto, mas eu não vi projeto nenhum em lugar nenhum, não tive orientação de como concluir esse projeto, e o pouco que teve nós tentamos construir o projeto. Nunca visitei uma escola de tempo integral, apesar que diz que em Salvador tinha uma, mas o que eu ouvi falar, eu disse: Está longe da nossa realidade. Lá em Salvador eu ouvi dizer que tinha biblioteca, tinha a sala de vídeo, e eu digo: Minha Nossa Senhora, essa realidade não é a nossa, nós só temos uma sala, como é que vai ser? Mas a gente começou com essa uma sala, com muita ousadia. (fala da gerente das escolas do campo) A experiência denominada de Educação Integral do Campo 53 iniciou-se em 2006, como um Projeto Piloto de Escola Integral em três escolas municipais rurais: Rosa Garcez, Maria Clara Mariane e Cândido Santos. A avaliação de que o projeto piloto deu certo, fez com que a Seduc o ampliasse no ano de 2008, sendo mais uma escola incorporada, a Leonor Bahia Dantas, e, no ano de 2010, a quinta escola municipal, José Ferreira. E aí a gente implantou e a gente... é... Conversávamos com as alunas a princípio na escola, depois nós marcamos reunião com os pais, falamos com eles como que seria essa escola, que eles tinham que liberar o menino pra ficar na escola o dia todo, ele ia chegar de manhã e só iria embora à tarde, ele ia almoçar na escola e os pais não acreditaram que isso é uma 53 Esse é o nome que aparece na capa do projeto. No texto em seu interior, aparece a denominação Escolas de Tempo Integral (p. 6). No questionário respondido pela gerente do projeto na Seduc também foi escrita a denominação Tempo Integral. 178 coisa que eles nunca imaginaram na vida, apesar que aqui no município já tem creche, na zona rural tem isso, mas eles não estavam acreditando. Eu disse: Acredite que isso vai acontecer, eu sempre dizia: Acredite que isso vai acontecer. A gente conta com o apoio de vocês para que eles fiquem o dia todo, porque senão não adiantava colocar e não ficar o dia todo. Por isso é que eu digo, os pais são os nossos grandes parceiros porque eles nos ajudaram. Então assim, a gente começou com a escola bem... tinha escola que quando a gente começou não tinha nem um fogão, depois veio fogão, a gente tomou emprestado aqui, tomou [fala simultânea inaudível] (...) tomou emprestado na outra escola, pegou panela em casa, pediu no comércio e começou a fazer ... Então assim, esse início foi muito duro, muito duro, e a prefeita foi ser nossa grande aliada... A gente pedia as coisas, falava: “Prefeita, falta isso”, ela ia liberando... (fala da gerente das escolas do campo) Durante a entrevista com a gerente das escolas do campo, foi perguntado se a experiência era pioneira ou se houve no município, anteriormente, outra experiência de educação integral em tempo integral. Ana Maria respondeu que não. Contou que foi pesquisar sobre experiências de escola de tempo integral no município e obteve a seguinte informação: (...) Quando eu fui buscar lá na frente a informação ... E... A professora Marlene Ventura, que é uma professora muito conhecida, eu a procurei e ela disse assim: Por que você não procura informações com professoras leigas, antigas no município? Aí eu fui em busca... aí eu tive a informação de duas professoras que trabalhavam nessa perspectiva, mas que assim, ela trabalhou de dentro da casa dela porque ela precisava de... um tempo maior para ela aprender. Foi a professora Chiquinha e a finada Inês, todas falecidas, assim... Duas professoras que davam esse indício, que elas trabalhavam dessa forma. Mas era uma iniciativa pessoal delas, não um investimento, não uma política do município. Aí eu descobri isso na pesquisa e achei interessante.54 54 As falas foram reproduzidas na sua forma original, tal qual expressas pelos entrevistados. 179 O depoimento acima indica que há na concepção da escola de tempo integral em São Sebastião do Passé, conforme veremos mais adiante pelos depoimentos, observações do espaço, das relações entre crianças e professoras, enfim foi possível analisar que há uma concepção de escolacasa, de tempo-casa, espaço-casa. A origem buscada pela gerente da Seduc para estudar a possibilidade de implantação do projeto encontra-se nas casas de professoras leigas que ensinavam às crianças dos arredores, responsabilizando-se pelas refeições, aprendizado, educação das crianças. A Escola Municipal Leonor Bahia Dantas tem uma história semelhante. A professora Maria das Graças Santos Batista dá aulas há 22 anos nessa escola. Seu pai foi professor na escola e agora é ela quem dá aulas lá. Tem o curso superior completo de Pedagogia feito a ―duras penas‖ na garupa de motos, boleia de caminhão, à noite, dormindo tarde e acordando cedo, estudando em Salvador, a 58 quilômetros de casa. A escola encontra-se no terreno ao lado de sua casa, que também foi de seu pai. A cozinheira da escola é sua nora. Maria das Graças Santos Batista, carinhosamente chamada de Gracita pelos colegas e pais, trabalha com uma classe multisseriada de crianças mais velhas que estão cursando do 4º ao 5º ano. Hoje a escola tem mais uma turma, com crianças do 1º ao 3º ano, cuja professora é jovem e com pouco tempo no magistério. Ela diz que foi ―adotada‖ pela professora mais experiente. Embora a coordenação e direção sejam itinerantes, é Maria das Graças Santos Batista quem assume as funções de direção da escola no cotidiano. Essa experiência, nessa escola, não retrata as cinco escolas de tempo integral, mas em todas elas encontramos a concepção de escola-casa, de uma forma ou de outra. As professoras são escolhidas ―a dedo‖ (palavras da gerente das escolas do campo) para trabalharem nessas escolas. O critério não é morar perto, mas principalmente disposição para estarem oito horas diárias, cuidando integralmente das crianças. Nisso, todas as professoras concordam: optaram por trabalhar no projeto. 180 Foto 1. A zeladora (nora de Maria das Graças), as professoras Claudia Santos Souza e Maria das Graças Santos Batista e os alunos na porta da Escola Municipal Leonor Bahia Dantas. O depoimento abaixo foi dado pela professora Maria das Graças Santos Batista, que aparece na porta da escola. Perguntamos à professora: Os alunos, eu já vi que são superfelizes na escola, né? Pelo que eu vi na recepção, na chegada ... Essa fala é uma referência ao fato de termos sido recepcionadas pelos alunos cantando músicas em nossa homenagem e termos ganhado presentes vindos das casas das crianças: jacas, laranjas, mangas, castanha de caju, aipim (macaxeira). Até a professora fez um doce de aletria. O almoço do dia foi preparado esperando nossa chegada. Em que o fato de trabalhar com essa experiência, numa escola de horário integral, traz para vocês, enquanto professoras, profissionais, educadoras e mulheres, né? A professora Maria das Graças Santos Batista responde: 181 Olha, pra mim traz muita vantagem, pelo motivo assim, porque na escola integral quer dizer que eu levo mais tempo com os meninos na sala, entendeu? Aí quer dizer que um dia pra mim é dois. Então eu tenho mais tempo de ensinar a eles, né? A professora Claudia Santos Souza complementa: E a gente fica gratificada quando a gente vê o resultado. Quando a gente chega no final do ano a gente vê esse resultado. E as mães ficam maravilhadas, choram com a gente ... Foto 2. Professora Maria das Graças, Ana Maria, Hamilton (diretor itinerante) e a nora de Maria das Graças (cozinheira/zeladora) na cozinha da Escola Municipal Leonor Bahia Dantas. 2. 2 Motivos da Implantação Os motivos que levaram à implantação do projeto Escolas de Tempo Integral no campo foram vários: baixo índice de aproveitamento dos alunos (reprovações), trabalho infantil, recuperar o tempo pedagógico retirado dos 182 alunos no período do inverno, que faz atrasar e/ou afastar o professor da escola nessa época. (Seduc, 2009, p.4) Além desses motivos encontrados no documento da secretaria, a fala de Ana Maria Gonçalves (gerente das escolas do campo) corrobora a ideia de que os índices de reprovação e evasão foram um motivo de peso na decisão: Nós começamos assim, com os baixos índices que vinham apresentando essas escolas, na maioria sempre se apresentavam com maior índice de reprovação, então o que a gente viu, o que estava acontecendo? É assim, eram escolas que tinham cinco séries e um turno só, então como a professora sozinha dá conta dessa diversidade toda? Às vezes numa série daquelas, tinha menino que era reprovado, do tipo assim, 3º ano às vezes todos eram reprovados ou só um era reprovado, então a gente estava notando que o tempo não tava dando pra trabalhar com todas estas séries. (fala da gerente das escolas do campo) No depoimento da secretária de educação do município, encontramos tanto os motivos quanto as ênfases do projeto, sua concepção: A gente não vê uma escola de tempo integral, onde o menino esteja apenas dentro da escola. Há o empenho na segurança que a família tem, mas também na possibilidade que a gente tem de potencializar naquele aluno várias aptidões que ele tenha... E que a gente não vem no horário normal de aula trabalhando. E nesse contraturno, através das artes, através dos movimentos diversos, do lúdico, a gente vai estar reforçando esse fazer pedagógico, esse trabalho... A gente agora tá... ampliando o quadro de profissionais para atuar, a gente trabalha com uma... é... estrutura de teatro... Trabalhamos com artes manuais... Educação física, a gente ta ampliando agora a prática de desporto... né? Pra que a gente tenha a prática desportiva. Não é a disciplina de educação física, mas a prática de esportes nas escolas. Mais a capoeira, que é algo assim... muito peculiar da cultura da gente, que os meninos têm desenvolvido muito, o desenvolvimento motor e o controle emocional também é assim muito bom. Então, a gente 183 vem investindo na perspectiva de que se educa também não apenas na letra, na caneta, mas em outros saberes. Então a gente tá nessa trilha pra ver se a gente acerta. A alimentação, o controle nutricional, o que de fato é necessário para a educação alimentar, são trabalhados. Porque a gente faz a suplementação do que é necessário, no caso do da merenda escolar, mas a gente vai além. A gente vê o que realmente é necessário pra que ele esteja bem alimentado, pra que ele possa produzir com qualidade. A gente tem uma nutricionista que acompanha e que vai in loco, né?... Os depoimentos denotam uma concepção de educação integral em tempo integral e não apenas uma jornada ampliada para os meninos e meninas, um contraturno em que os estudantes ficam fazendo tarefas de reforço escolar apenas. Há uma preocupação em oferecer diferentes oportunidades e há uma concepção de educação escolar para além das disciplinas formais. Há o entendimento de que o papel social da escola vai além de ensinar a ler, escrever e contar e, em especial, para os filhos do campo. Em visita à Escola Municipal Rosa Garcez, assistimos a uma apresentação de capoeira das crianças, demonstrando um grande empenho, responsabilidade naquilo que estavam fazendo, como também atribuindo importância àquilo que é oferecido pela escola, segundo depoimento de algumas delas. A capoeira surgiu de uma demanda dos próprios estudantes. Eles jogavam na escola e a secretaria de educação foi atrás de um professor que pudesse, então, trabalhar com as crianças. O projeto começou nessa escola e depois se estendeu para as demais. A capoeira surgiu como uma possibilidade de trabalhar a indisciplina que era grande entre os alunos, assim como o horário de tempo integral. Outro motivo para a implantação pode ser encontrado na fala da secretária de educação: Outro aspecto é a identificação do homem do campo com o seu lugar comum. E valorizando esse lugar. Porque diferente do que a gente teve nos anos anteriores... eu tive que sair do campo pra vir pra cidade pra estudar... Outros ficavam e dizia- 184 se que a educação do campo era uma educação sem qualidade. Então, quem ficava no campo... é... era quem não tinha a possibilidade de estar no centro... e nós fizemos um... estamos numa construção... de valorizar, de mostrar que o que é dado ao campo é dado em igual condição, né... E aí quando a gente falou pra fazer o planejamento da secretaria, sob esse olhar cuidadoso com a prefeita, a gente priorizou a adequação das escolas do campo em detrimento das escolas da sede e dos centros, dos distritos... Criou... Foi uma mudança... Foi um choque... E as pessoas, no início, não compreendiam porque o usual é a escola da cidade é linda, tem tudo. A do campo se sobrar uma cadeira, vai... A gente foi num viés diferente... Nós acreditamos que a gente precisava requalificar. Até porque esse aluno do campo, em algum momento, ele vem pra cidade. Porque... Como são escolas muito pequenas [as do campo], no segundo segmento do ensino fundamental e no ensino médio, eles vêm aqui pra sede. Eles têm que vir preparados. Outro destaque é o lugar que passa a ser ocupado pela escola na vida social e das famílias das crianças que estudam na escola. A secretária de educação destaca essa grande mudança provocada pela escola, que passou a ser muito mais atuante no seu entorno e para sua comunidade. Entretanto, vale ressaltar que as falas apontam que tal situação se dá numa ação conjugada de implantação do tempo integral com outras ações e medidas de outras secretarias e órgãos do município, como já foi destacado na fala da prefeita. O estabelecimento de confiança na escola é tamanho, porque até uma mudança que o pai pensa em fazer na vida do filho, ele vai pra escola pra conversar, né. O acompanhamento médico que a gente faz, essa ação casada, né, os agentes comunitários, e os agentes de endemias que trabalham na região onde a escola tá, a gente faz casado. Se houve um problema de ordem social, pessoal, a escola tem conhecimento, a escola encaminha pro tribunal, pra assistência social. (secretária de educação) 185 DESCRIÇÃO DO PROJETO A Escola de Tempo Integral é descrita como um projeto desafiador para as escolas de classes multisseriadas do município. O projeto foi estabelecido pelo Plano de Governo da prefeitura, apoiado pela secretaria municipal de educação e elaborado pela gerente da educação no campo. O documento do projeto traz em sua fundamentação teórica a perspectiva sócio-interacionista, apontando que essa abordagem propicia a formação de um sujeito ―capaz de construir novas formas de pensar‖ . (Seduc, 2009, p.6) Tal fundamentação adotada permitirá, segundo a argumentação no projeto, que o professor ―promova em sua sala de aula, a interação com o meio social, a história de vida, o cotidiano (...) além de garantir o sucesso acadêmico do alunado, principalmente das escolas com alto índice de reprovação e violência‖ (Idem, Ibidem). A justificativa do projeto com o intuito de combater a violência, indisciplina e alto índice de reprovação também apareceu nas falas da gerente do campo e dos diretores itinerantes. Estes se deslocam entre as cinco escolas semanalmente, realizando acompanhamento do ponto de vista pedagógico junto às professoras. Pelo menos, uma vez na semana, os três diretores se encontram na sede da secretaria de educação para trocar entre si as experiências e traçar estratégias em comum. A metodologia que embasa as práticas nas cinco escolas de tempo integral é a Pedagogia da Escola Ativa ou Escola Nova. Essa fundamentação aparece citada no projeto tendo como referência o documento Fundescola do MEC de 1999. Alguns princípios são elencados no projeto: ―ensino individualizado, metodologia ativa, utilização de fichas de aprendizagem elaboradas pelo professor, promoção automática e utilização de diversos quadros-negros, cantinhos da aprendizagem, trabalho em grupo, gestão estudantil, participação da comunidade, formação continuada dos professores.‖ (Idem, p. 7) 186 Alguns depoimentos ressaltam a importância da metodologia relativa à Escola Ativa para as possibilidades de trabalho com classes multisseriadas em tempo integral. A professora de Artes relata a importância do trabalho com monitores. Estratégia didática destacada em seu depoimento: Pra mim foi um choque quando eu comecei a trabalhar, porque a gente vai trabalhando através do desenvolvimento do aluno ... Um demora mais pra aprender, o outro já pega rápido, o outro ajuda. E assim a gente vai se inserindo, né, no contexto. Aí também tem a questão que a gente encontrou ... Com o projeto Escola Ativa, através de monitores. Então eu aprendi muito com os monitores. A gente selecionava os alunos e: “quem vai ser o monitor aqui do grupo?” Ou então: “você que aprendia mais, ou que era mais participativo ... vamos embora ajudar o coleguinha que não sabe”. Então a gente estava dando chance também deles se desenvolver e aprender. Talvez do jeito que eu passo a minha atividade, o coleguinha não aprendeu, mas com o seu colega do lado aprendeu. Tem uma forma mais simples de passar, aí ele vai e passa e o aluno aprende. Então é mais divertido, é mais interessante, é estimulante trabalhar. Então eles estão ali vendo o assunto, eles estão ali vendo o tema. E a partir do momento que joga, eles estão ali prestando atenção. Ele não está ali solto. Então ele está ali dentro do contexto. Então ele vai aprender esse contexto. (Conceição, profª de artes) A professora Maria das Dores dos Santos, carinhosamente chamada de Dora, da Escola Municipal Candido Santos, fala sobre a metodologia da Escola Ativa: Aí eu disse: então vou enfrentar oito horas de escola de tempo integral55. Bem, quando a gente começa a trabalhar numa escola multisseriada de tempo integral é fogo. Mas eu conversei com a coordenadora, minha amiga. Nós começamos junto o trabalho, com muita dificuldade, porque primeiro, segundo, terceiro e quarto nesse ano. E ao mesmo tempo você 55 A professora se refere ao momento em que foi convidada a trabalhar na Escola Candido Santos que passou a ser de tempo integral com a implementação do projeto. 187 atender todas essas quatro séries é muito difícil. Tem que ter pique, tem que ter muito planejamento, pra que quando você está trabalhando com uma turma, a outra ter ... Cada turma dentro da sua série ter a sua tarefa pra que você possa também estar chegando mais perto das dificuldades, né? Normalmente aqueles que têm mais autonomia [os alunos], que é o caso meu, de Fátima e de todas56 que temos aquele aluno que sabe mais, que ajuda os que têm mais dificuldade... Essa parte do monitor foi uma ajuda do projeto Escola Ativa, que a Escola Ativa é que trabalha com o monitor. A Escola Ativa foi assim um elo muito grande com a gente, porque nós aprendemos muita coisa da Escola Ativa pra trazer pra escola de tempo integral. As crianças da escola de tempo integral, como a Fátima está dizendo, eu vou só acrescentar a fala dela... Eles não faltam, eles não têm falta. Às vezes está com febre, com dor de cabeça, mas eles não faltam. Não é por causa do alimento ... Se bem que eu volto atrás, porque eles têm uma comida balanceada que é feita e organizada nos dias da semana através da nutricionista, onde [quando] eles[os alunos] são pesados. Em visita de campo, o ambiente das salas de aula é organizado de forma a ser coerente com tal perspectiva pedagógica: há os cantinhos, há o alunomonitor, há a horta (em algumas escolas, variando com as questões sazonais). As fotos a seguir ilustram esse cotidiano. 56 Refere-se ao fato de que todas as professoras têm e terão alunos com mais dificuldades ou facilidades que outros. 188 Foto 3. Profª Maria das Graças, da escola Leonor Bahia Dantas, num dos cantinhos de leitura da sala de aula. Foto 4. Alunos da Escola Leonor Bahia Dantas organizados em pequenos grupos. A organização do espaço na sala de aula foi um critério didático importante realçado pelas professoras das escolas, para a metodologia utilizada. 189 Foto 5. Profa Maria de Fátima Reis Santos da Escola Rosa Garcez mostrando os cantinhos de Geografia e Ciências da sala de aula. Foto 6.Os cantinhos, os grupos na Escola Municipal Maria Clara Mariani. 190 Foto 7.A sala de aula organizada em grupos na Escola Municipal Rosa Garcez. Foto 8.Trabalho dos alunos sobre o entorno da escola Rosa Garcez com a indústria Caraíba Metais / Paranapanema. 191 O projeto tem por objetivos: Incentivar a participação da comunidade na tentativa de diminuir as desigualdades sociais; Reduzir os altos índices de violência e reprovação; Promover a ampliação da carga horária, elevando a qualidade do ensino; Desenvolver as habilidades da leitura e da escrita do educando, bem como suas tendências e habilidades; Manter os alunos em atividades enquanto os pais buscam o sustento da família; Ampliar o conhecimento dos professores inseridos nas escolas de tempo integral; Abolir o trabalho infantil; Reforçar a aprendizagem dos alunos com dificuldade (Seduc, 1999, p.11) Em relação aos objetivos estabelecidos, a fala da professora Maria das Dores dos Santos, carinhosamente chamada de Dora, da Escola Municipal Candido Santos, nos ajuda a avaliá-los melhor: Na escola de tempo integral não existe evasão. Transferência nem pensar. Eu estou aqui passando uns dias57 ... Eles [os alunos] me disseram: pro58, que dia que a gente volta pra escola? Eu disse: quando terminar, nós vamos voltar. Ah! Eu tô gostando daqui, mas eu tô com saudade da minha casa. Estão com saudades. Dizem: lá é nossa casa. Por enquanto nós vamos ficar aqui bonitinhos. E aí a escola de tempo integral com a história de passar um tempo maior, de passar esse tempo na escola, eles têm esse tempo maior na escola com a ajuda das agentes que também nos dão uma mão muito grande. E nós observamos que o resultado cresceu. Ana [Gonçalves] tinha uns índices de aproveitamento antigos e ela trabalha nisso há muito tempo ... Depois do tempo integral, 57 A escola Candido Santos estava em reforma, então a Escola Rosa Garcez, por ter espaço e ser próxima, acolheu a professora com seus alunos durante o período da reforma. 58 Em todas as entrevistas, as professoras se referiam ao chamamento dos alunos em relação a elas de ―pro‖ de professora. 192 a repetência praticamente diminuiu, né Ana? Tínhamos um índice de repetência muito grande na zona rural. E o mais bonito e que eu acho o bom é que nós, do tempo integral, nos planejamentos, no AC59, todo mundo quer sentar junto com a gente, é uma guerra. O grupo fica muito grande, porque elas querem a experiência do grupo integral. A fala de Dora, acima, ainda revela a importância da experiência de tempo integral para a formação dos professores. Vale ressaltar que o regime das professoras que atuam nas escolas de tempo integral é de 40 horas semanais. As parcerias estabelecidas são com as secretarias do próprio município (Saúde, Esportes, Cultura, Ação Social, Desenvolvimento Econômico), com os pais de alunos, a comunidade local, o conselho tutelar. A única empresa que faz parceria com o projeto é a Caraíba Metais (Paranapanema) que fica próxima à Escola Rosa Garcez, cujas crianças e famílias têm seu sustento a partir do trabalho na fábrica, representada em maquete, em foto acima. A prefeita e a gerente das escolas do campo, Ana Maria, em nossa entrevista, disseram que foi intencionada uma parceria com a Petrobras, por conta da exploração de petróleo na região, mas que nunca lograram êxito. Em relação à parceria com a comunidade, o depoimento da professora de Artes que atende a todas as cinco escolas do projeto: A gente fez um trabalho de fuxico. E as mães fizeram o bordado, levaram pra casa e muitas hoje fazem e ganham o seu dinheiro através disso. Porque a gente também tem essa parceria com a comunidade. E na escola sempre tem uma mãe que está nas aulas participando. Em outras escolas eu já não tenho esse acesso às mães porque são longe as casas ... Mas essas escolas que são mais próximas as mães vêm, participam das aulas. Elas têm aquela empolgação: “minha filha está bordando. Minha filha está fazendo isso em casa, ela já me ensinou”. Ele me falou assim: “Conceição, as mães da Cancela estão fazendo flores e vendendo na feira”. Eu disse: “meu Deus ... aquela aula que eu dei, aquela oficina?” Ela disse: “aquela oficina que você fez na festa do dia das mães, hoje as mães 59 Ac – Acompanhamentos Coletivos é o nome do programa de formação continuada dos professores da rede. 193 estão ganhando dinheiro com isso”. Aquilo me alegrou tanto que eu tive mais empolgação... O depoimento da professora Maria das Graças (Gracita) da Escola Rosa Garcez nos dá pistas da importância da participação da comunidade, em especial dos pais, para o funcionamento da escola de tempo integral, numa concepção de educação integral: E outra, a escola integral ela não funciona só, tem que ter o apoio de todos, de pai, de mãe, de pessoa da comunidade, de coordenador, zelador, professor, tudo. Ela sozinha não funciona. Mesmo não tendo condições, eles fazem o máximo possível, os pais e os alunos. Sabe por que isso? Porque um ajuda o outro. Quando um vê uma necessidade, aquele chega e já dá uma visão ali: você vai fazer isso desse jeito. Então a escola integral não anda sozinha, tem que ter o apoio de todos As escolas funcionam 8 horas diárias, com atividades de aulas regulares mescladas às atividades de apoio e oficinas e esportes. Há o horário livre de 11:30 às 13h, quando as crianças almoçam e descansam. Aquelas que querem dormir, dormem; as que querem ver TV podem e as que querem ajudar nas tarefas de organização e limpeza dos espaço também o fazem. Segundo o relato da professora Maria das Graças, não há uma regra rígida. Entretanto, as construções cotidianas fazem parte das diferentes culturas escolares construídas pelos sujeitos envolvidos. De toda forma, o depoimento da professora, as observações, as entrevistas e a leitura do documento que rege o projeto demonstram uma prática de construção coletiva das práticas pedagógicas nas escolas. É importante ressaltar que, no projeto inicial, estava planejado que as atividades regulares aconteceriam pela manhã, e as atividades de apoio pedagógico (a expressão reforço escolar não é utilizada nem no papel, nem 194 aparece nas falas das professoras) e oficinas e esportes pela tarde. Entretanto, as práticas cotidianas e as necessárias adequações ao longo do tempo fizeram com que as atividades acontecessem de forma mesclada. Ou seja, o currículo oficial, planejado originalmente, deu lugar ao currículo praticado (ESTEBAN,2003; OLIVEIRA, 2005) ou currículo real (Moreira, 1994; Silva, 1999). Na avaliação das professoras, a ―mistura‖ (fala de uma delas) foi muito melhor, referindo-se ao fato das atividades regulares acontecerem de forma alternada com atividades de artes e esportes. Tal organização dos componentes curriculares e disciplinas finda por atribuir ao projeto, conceitualmente, o status de escola integral de tempo integral. Ou seja, o projeto não se configura apenas como um contraturno ou uma jornada ampliada, mas uma escola na qual as crianças passam 8 horas diárias, almoçam, estudam, brincam, se exercitam. Há somente um aspecto ainda a ser superado e que é desejado, nas palavras da gerente do projeto: o banho. As escolas não possuem banheiros que possam atender a essa demanda. Exige a construção dos banheiros e um problema maior a ser superado que é do saneamento. Como são escolas rurais, algumas não têm água encanada. Todos os alunos das cinco escolas têm aulas de capoeira e artesanato com professores especializados, concursados da rede municipal. As aulas de capoeira são muito valorizadas pela equipe de professores e da secretaria, tendo surgido como solicitação das próprias crianças. As aulas de artesanato cumprem um papel pedagógico e social, pois servem às crianças ―para aprender um ofício e ensinar aos pais, como mais uma forma de sustento‖, nas palavras das professoras e diretores. Ainda existem outras atividades como horta, danças, realizadas pelas professoras, e variando de escola para escola. 3. CONTRIBUIÇÕES E DESAFIOS DO PROJETO Segundo os depoimentos da secretária de educação, da gerente das escolas do campo, bem como dos diretores e orientadores itinerantes, os índices de aproveitamento têm sido bastante satisfatórios, com um baixo índice 195 de reprovação em comparação ao que se tinha antes da implantação do tempo integral. Os índices de evasão são quase igual a zero, tendo as mudanças das famílias das crianças de lugar de moradia e não uma evasão propriamente. Quanto à formação dos professores, a experiência em São Sebastião do Passé é bastante interessante, pois aponta um movimento de valorização do professor das escolas multisseriadas no campo associado à implantação do tempo integral. Podemos ver isso no depoimento da secretária de educação: Outro aspecto importante no fazer dessa escola é que... numa trajetória comum, entendia-se que o professor do campo, ele tem que ter a formação específica pro campo e mais nada, bastava e que acabava sendo segregado. E a gente... resgatou isso... é um fazer da educação do município. Que tem a educação integral na comunidade A, que trabalha a cultura tal, e na comunidade B, que trabalha com a cana de açúcar, na outra que é a mandioca, na outra que planta, na outra que não planta, que sobrevive da fazenda, de um trabalho agropecuário. E esse professor não pode estar isolado do fazer da educação do município. Até porque esse aluno não vai ficar isolado naquela comunidade, ele vai pra vida, do município, do estado, do Brasil, do mundo. Então, a gente... uma coisa assim que nos aproximou muito dos educadores... A gente tem o foco pra educação de tempo integral no campo, na escola integral, onde ele está inserido. Mas ele participa de todo o processo de formação da rede, como um todo. Isso a gente recebeu como uma ressalva muito positiva, não foi Ana, no ano passado? Diziam: Ah, até que enfim, porque parecia que a gente não era da rede... de ensino... Tal era a relação de afastamento do campo. Então ... Quando ele vem com essa experiência de tempo integral, ensino que você fala. Disse: Ah, na minha escola... Quem ensinou o que significa? Ah, a gente tem uma instrutora de capoeira, a gente tem um instrutor de artes, que tem uma oficina com o pai e com o aluno. Então o trabalho da professora não é só com o aluno, é também com a sua família, né? Então, a gente tá enriquecendo muito, está fazendo a gente refletir... Eu acredito que a gente deva trabalhar pra ter mais recursos, né, prefeita? Porque o Mais Educação que financia essa escola integral, a gente na região metropolitana ainda não foi integrado. Inicialmente, fez-se para cidades com mais de cem mil habitantes ou em situação de risco, de risco social. 196 Outra importante conquista com a implantação da escola de tempo integral é a redução do trabalho infantil, da indisciplina na escola e o sentimento de que a escola é o lugar do respeito, da aprendizagem, do compromisso. As famílias se comprometem muito mais com a escola após a implantação do projeto, segundo a avaliação das professoras entrevistadas, assim como da prefeita60, segundo seu próprio depoimento: Você sabe que eu fiz uma pesquisa... Eu faço sempre pesquisa, né?[Uma alusão, talvez, ao fato de ser professora universitária] É pra avaliar a administração. E fizemos uma específica em dezembro com a educação. E os pais sinalizam que eles preferem muito mais reuniões. Pelo menos, uma vez no mês, eles querem estar dentro da escola. E é muito pequeno o percentual daqueles que queriam bimestral, trimestral, semestral... Pelo menos uma vez por mês, o pai quer estar na escola, a mãe quer estar na escola. Então, achei isso interessante. Essa coisa dessa relação que a gente precisa. A gente fala tanto disso na universidade... que a gente tá... vendo isso amadurecer aqui... Essa necessidade deles acompanharem a vida de seus filhos. O desafio também é apontado na fala da prefeita: A gente tem trabalhado muito com as secretarias em conjunto. Os programas nossos são todos casados... Tanto o adulto, quanto a criança... e a gente tem ... eu acho que é uma ferramenta interessante pra gente articular as ações, até setoriais... a gente tem trabalhado muito... né? Esporte, educação, cultura, assistência social, saúde, trabalho. 60 Tânia Maria Portugal da Silva é pedagoga especialista em Metodologia do Ensino Superior e Mestra em Educação, professora licenciada da Universidade do Estado da Bahia – UNEB. Na área da Educação, trabalhou na Escola Anísio Teixeira (São Sebastião), foi professora do Colégio 2 de Julho, Colégio Estadual Edvaldo Brandão Correia, Faculdade Adventista (Cachoeira). Exerceu a função de coordenadora pedagógica da Faculdade de Administração – Facex (SSA) e consultora pedagógica da Faculdade de Administração – Facemp (Santo Antonio de Jesus). Exerceu o cargo de diretora de Cultura no município 197 Além desse desafio, a prefeita aponta a questão do tempo da política distinto do tempo da escola: O que a gente percebe é que ... na verdade, quatro anos de governo, ele é muito pouco pra quem quer fazer um trabalho e que a educação é um processo. A gente tá no segundo mandato, a gente sabe assim que vamos avançar em muita coisa, mas que em outras a gente vai precisar de muito mais tempo. Então, a gente tem que pensar na continuidade desses projetos porque a educação... Agora a gente tem um investimento maior na educação infantil, antes era só conveniado. Agora, a gente tá investindo na educação infantil da Rede mesmo. A educação do campo é... Fomos buscar também a ampliação da participação do adulto, do jovem e do adulto, a gente tinha pouco jovem estudando, e adulto estudando... Agora, a gente tem uma demanda muito grande, então a gente tem que dar estrutura. Eu acho que... a educação é sempre um processo, né... longo, demorado... O grande desafio é fazer com que a escola de educação integral em tempo integral passe a fazer parte da política do município e não seja apenas uma política desse governo atual. Esse é o grande desafio de Ana Maria Gonçalves: Se conseguirmos deixar minimamente a política pública assentada para que a política partidária. não rompa com as iniciativas... Porque é muito perverso, né? Se a gente pensar na família, no aluno, na criança, no jovem, professor, que tá lá, com a mudança no governo, quando rompe... quer dizer, você tem tudo... quer dizer, como assim? Então, agora meu filho não fica mais oito horas na escola?, Agora, o professor vai trabalhar de outro jeito, que é o que ele acredita? Mas a gente pensa que... Como essa proposta de educação integral, que a gente tá implantando aqui, é um caminho sem volta. Porque o pai está dentro da escola, a comunidade tá dentro da escola. E saindo, esse pai vai dizer: por que podia e agora não pode mais? O projeto das escolas de tempo integral em São Sebastião do Passé se configura com uma concepção de educação integral em tempo integral 198 (Coelho, 2004; Cavalieri, 2007) e não apenas como uma experiência de jornada ampliada. Ele acontece nas escolas do campo do município com características próprias a essas escolas e de classes multisseriadas. Ao serem perguntadas se o projeto poderia se estender para as escolas da sede (como são chamadas as escolas regulares da área urbana), tanto a secretária e a gerente das escolas do campo responderam que este seria um enorme desafio que o município não teria, por enquanto, condições de implementar, mas que ―ter todos os alunos na escola em tempo integral, entendendo educação como uma ação para além de ensinar as disciplinas clássicas e obrigatórias, seria um sonho‖ REFERÊNCIAS CANDAU, Vera. Cotidiano escolar e cultura(s): encontros e desencontros. In: CANDAU, Vera (org.) Reinventar a escola. Petrópolis, Ed. Vozes, 2000, p. 61-78. CAVALIERE, Ana Maria. Tempo de escola e qualidade na educação pública. Educ. Soc., Campinas, v. 28, n. 100, out. 2007. Acesso em 22 de junho, 2010. COELHO, Lígia Martha. Educação Integral: concepções e práticas na educação fundamental. 27ª Reunião Anual da ANPED, Caxambu, 2004, http://www.anped.org.br/reunioes/27/gt13/t137.pdf, acesso em 22 de junho de 2010. ESTEBAN, Maria Teresa (org.). Escola, currículo e avaliação. São Paulo, Ed. Cortez, 2003. FORQUIN, Jean Claude. Escola e cultura. Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1993. OLIVEIRA, Inês Barbosa. Criação curricular, autoformação e formação continuada no cotidiano escolar. In: FERRAÇO, Carlos Eduardo. (org.) Cotidiano escolar, formação de professores (as) e currículo. São Paulo, Ed. Cortez, 2005, p. 43-67. SACRISTÁN, J. G. Escolarização e Cultura: A Dupla Determinação. In: HERON, L. da. et alii (orgs.) Novos mapas culturais/ Novas perspectivas educacionais. Porto Alegre, Ed. Sulina, 1996, p. 34-57. SEDUC – São Sebastião do Passe, Projeto de Educação Integral do Campo, 2009. http://www.sspasse.ba.gov.br. Acesso em 17 de maio de 2010. 199 V – COLATINA - ES Nailda Marinho da Costa Bonato Programa AABB comunidade Aula de natação Educação integral “É pensar educação na sua amplitude, desenvolvendo as habilidades, não só o menino aprender na sala fechada de aula, que ele pode aprender em outros espaços, ele pode desenvolver as suas habilidades, as suas competências, em outros espaços que não o da sala de aula, desenvolvendo também seus hábitos e seus valores. Eu me lembro que numa reunião em 2005, diziam que os meninos nossos do transporte escolar ficavam o dia inteiro na escola, mas não sabiam se comportar direito dentro do veículo, aí eu jogava a responsabilidade para nós dizendo que então nós estávamos falhando em alguma coisa, porque no nosso entendimento a educação integral vai abordar tudo isso, não só os conteúdos específicos”. (Secretária Municipal de Educação de Colatina) 200 1 INTRODUÇÃO Embora Colatina se apresentasse no questionário aplicado pela equipe na pesquisa quantitativa como um município que possuía apenas uma experiência em horário ampliado, ele foi o escolhido para a visita de campo no estado do Espírito Santo, entre os quatro que responderam ao questionário, uma vez que essa experiência em curso existia há oito anos e ocorria durante os cinco dias da semana, em 8 horas diárias, atendendo a critérios preestabelecidos pela equipe de pesquisa. Além do mais, o questionário foi preenchido pelo Coordenador do Projeto de Escola de Tempo Integral 61 da Secretaria Municipal de Educação de Colatina, sinalizando estar o projeto situado dentro da SEMED, o que foi confirmado posteriormente. No contato inicial por telefone e e-mail com a coordenadora do Projeto de Escola de Tempo Integral, foi esclarecido que a ele estavam vinculadas três experiências, a saber: o Centro Educacional Jornada Ampliada Santo Antonio – CEJA; O Programa Integração AABB Comunidade e o Tempo Integral na Escola Municipal de Ensino Fundamental Adwalter Ribeiro Soares propostas à visita da equipe, o que aumentou sua representatividade em relação aos outros municípios respondentes no mesmo estado. 1.1 O MUNICÍPIO Com uma área territorial62 de 1.423 quilômetros quadrados, Colatina é uma cidade onde residem 112.711 habitantes, sendo 21. 413 no meio rural (Revista Minha, 2009). Faz parte de um conjunto de 78 municípios que compõem o estado do Espírito Santo. Está situado no vale do Rio Doce, a 135 61 Na época de aplicação do questionário o coordenador do Projeto de Escola de Tempo Integral era o professor Anderson Mendes Batista dos Anjos que o respondeu. Tivemos a oportunidade de conhecê-lo rapidamente, pois quando da visita muitos professores estavam participando de um congresso sobre educação em Curitiba. Em março de 2009 a função foi ocupada pela professora Solange Dutra Martins. 62 Fonte: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1 201 quilômetros de Vitória, capital do estado, fazendo limite com os municípios de Marilândia, Governador Lindenberg, São Domingos do Norte, Pancas, Baixo Gandu, Itaguaçu, São Roque do Canaã, João Neiva e Linhares 63. Sua topografia varia de ondulada para montanhosa, predominando o clima quente úmido, típico do vale do Rio Doce, com inverno seco. A temperatura média é de 28ºC. Veja o mapa64 de localização do município, a seguir: O polo de confecção de Colatina e região é um dos maiores do Brasil e o maior do estado. A maior riqueza mineral é o granito. Na produção agrícola, destaca-se o café. Possui ainda um aeroporto com uma pista de 1,3 mil metros de extensão, preparado para voos noturnos. A avenida Beira-Rio, a estátua do Cristo Redentor, a ponte Florentino Ávidos e o pôr do sol de Colatina, que foi classificado na década de 1960 pela revista americana Time como um dos mais bonitos do mundo, são seus pontos 63 Fonte: http://www.es.gov.br/site/images/espirito_santo/mapas/amp/DivisaoRegional_Microrregioes.jpg 64 Fonte: http://www..comkuatro.br/images/mapa.jpg 202 turísticos. O rio Doce passa por todo o centro da cidade, sendo o maior do estado65. Sua história66 está ligada às tentativas de colonização do vale do Rio Doce. Em 1876, italianos, alemães, suíços, poloneses, e também brasileiros, foram se instalando rumo ao rio Doce, formando propriedades agrícolas. Durante muito tempo esse rio desempenhou no estado do Espírito Santo o papel de limite natural entre a zona povoada e a região desconhecida do norte. A partir de 1921, ocorre a emancipação política da então Vila de Colatina67 do município de Linhares, ao qual pertencia. Pela lei estadual nº 1307, de 30 de dezembro de 1921, passou a denominar-se Colatina. Conhecida como a Princesinha do Norte, a cidade tinha um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em 2000 de 0,773. 1.2 A PESQUISA: METODOLOGIA, INSTRUMENTOS E DINÂMICA EM CAMPO Antes da visita aos espaços das experiências fomos68 à Secretaria Municipal de Educação de Colatina, situada no bairro Esplanada. No primeiro dia, a equipe foi recebida pela coordenadora de Jornada Ampliada da SEMED (Secretaria Municipal de Educação), responsável pelo Projeto Escola de Tempo Integral que assumiu o cargo em março e no dia seguinte pela própria 65 Fonte: http://www.colatina.es.gov.br/acidade/ Fonte: O que se segue tem como referência os dados disponíveis em http://www.colatina.es.gov.br/acidade/ e http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1 67 Denominação recebida em 9 de dezembro de 1899 em homenagem a Colatina de Azevedo Freire, paulista da cidade de Campinas, nascida em 24 de novembro de 1864. Esposa de José de Mello Carvalho Moniz Freire, governador do Espírito Santo por duas vezes, com quem teve dez filhos. 68 A visita foi realizada pela pesquisadora relatora e pela bolsista Carolina Merchiori, aluna do curso de Pedagogia da UFRJ que fotografou in loco e contribuiu para a produção desse relatório com a busca de alguns sites nele relacionados. 66 203 secretária de Educação, a professora Maria Auxiliadora Torezani de Oliveira, que concederam entrevistas69. Nos espaços onde as experiências acontecem foram entrevistadas a coordenadora das experiências, os professores e alunos em grupo e/ou individualmente e a diretora da escola visitada. Além do uso dos roteiros das entrevistas semiestruturadas, fotografaram-se os espaços das experiências, seus ambientes e as atividades em curso, conforme critérios preestabelecidos. Tanto as gravações quanto o registro fotográfico foram autorizados pelos gestores e/ou entrevistados. 1.3 EDUCAÇÃO NO MUNICÍPIO DE COLATINA E A SEMED Pode-se observar melhor a estrutura da SMED de Colatina através do organograma70 abaixo. 69 Registramos que gentilmente a SEMED colocou um carro com motorista a nossa disposição. A professora Solange nos apresentava e retornava à Secretaria. 70 Fonte: http://www.colatina.es.gov.br/educacao/?pagina=estrutura 204 Na Secretaria de Educação recebemos um exemplar da Revista Minha, edição especial de educação 2009. Dedicada à educação em Colatina em homenagem ao dia do professor, entre outros dados significativos, traz uma reportagem intitulada Escolas de Tempo Integral no município. Matéria dessa revista informa que o município possui um total de 91 unidades escolares, sendo 18 centros de educação infantil, 31 escolas de ensino fundamental (anos iniciais e finais) e 42 escolas uni e pluridocentes de ensino fundamental (anos iniciais). É importante sinalizar que a Secretaria Municipal de Educação propicia a formação continuada71 para os profissionais da educação em serviço – Projeto FOCO, que teve início em 2002, ocorrendo dentro da escola e na Secretaria com a seguinte dinâmica: Em 2002 nós começamos de forma bem incipiente, fora do horário e tal. Depois eu disse que eu queria que o professor tivesse dentro da sua carga horária tempo pra estudar. Então dia de segunda-feira nenhuma escola de nossa rede municipal tem aula de história, é dia para os professores de história estudar. Uma vez por mês nós temos um formador, eles vêm para o auditório, todos os professores de história da rede vêm para o auditório, e as três segundas-feiras eles estudam na escola com o seu coordenador pedagógico. [...] Na terça são os professores de geografia, enfim, cada dia uma matéria. Para os anos iniciais, do ensino fundamental, é uma vez por mês, só que como nós temos muitos professores, nós damos formação todo dia, então nós temos um grupo de professoras que estão terminando a faculdade e que também têm uma formação, um outro modelo de formação, com a professora Cacá, elas se preparam e vão para sala de aula para que essas professoras venham estudar. 71 Destaca-se também que em Colatina, conforme a professora Solange, o curso de Pedagogia a distância oferecido pela UAB já cobriu a demanda, por isso acabou. A prefeitura municipal de Colatina, por meio da SMED, aderiu ao Sistema Universidade Aberta do Brasil do MEC, de apoio presencial à metodologia de educação a distância, com um polo em 2008. Mantém a estrutura física do pessoal do polo para o desenvolvimento dos cursos de graduação, especialização e aperfeiçoamento que são oferecidos pela UFES e pelo Instituto Federal do ES. No período de 2001 a 2006, por meio do antigo sistema CRE@AD/Ne@AD, uma parceria entre a Prefeitura Municipal de Colatina e a UFES, foram graduados mais de 400 alunos de Pedagogia. (Revista Minha, 2009, p.42). 205 Em relação ao IDEB, a tabela a seguir apresenta a situação do município de Colatina, quando comparado ao IDEB nacional, ao do estado do Espírito Santo e ao de sua capital Vitória. O resultado positivo alcançado é atribuído pela secretária Municipal de Educação, entre outros motivos, à implantação da jornada ampliada no município. [...] o nosso IDEB está acima do IDEB estadual e do nacional, e isso eu atribuo à formação continuada dos professores, que para mim é o primeiro ponto, e também à jornada ampliada, porque nós primamos pelas crianças em situação de vulnerabilidade social e também as crianças com dificuldade de aprendizagem, a gente está ajudando para que elas melhorem o IDEB. TABELA 1 IDEB de Colatina, em relação aos IDEBs do Brasil, do estado do Espírito Santo e de sua capital Vitória72 IDEB – Anos Iniciais 2005 2007 BRASIL 3,8 4,2 Estado do Espírito Santo 3,7 Vitória (capital) Município de Colatina IDEB – Anos Finais 2005 2007 4,1 3,5 3,6 4,1 4,2 3,5 3,6 4,4 4,7 4,5 4,5 Pela tabela acima se verifica que o IDEB observado referente aos anos iniciais do ensino fundamental no município aumentou em 2007, se comparado à meta projetada, se mantendo estável para os anos finais. Apesar disso, seus índices ainda são maiores em relação à média nacional para os anos iniciais desse segmento de ensino e em relação aos do estado do Rio de Espírito 72 Fonte: Prova Brasil e Censo Escolar e http://ideb.inep.gov.br/Site/ 206 Santo e de sua capital Vitória para todo o ensino fundamental, confirmando o que disse a secretária de Educação. Vejamos o IDEB da Escola de Ensino Fundamental Adwalter Ribeiro Soares, que oferece horário integral para parte de seus alunos dos anos iniciais, por ter sido a escola visitada entre as seis que oferecem horário integral, o que só foi possível saber durante a visita. TABELA 2 IDEB de 2007 para os anos iniciais da escola visitada em Colatina73 Escola visitada em Colatina IDEB - Anos Iniciais 2005 2007 - 4,6 4,4 4,7 (4,4) Escola Municipal de Ensino Fundamental Adwalter Ribeiro Soares Município de Colatina Conforme se pode constatar pela tabela acima, o IDEB observado para os anos iniciais do ensino fundamental da escola em 2007 foi maior do que o observado em 2005 para o município de Colatina. Objetivando detalhar as três experiências visitadas que vêm funcionando em Colatina em jornada ampliada, passa-se a descrevê-las, apresentando inicialmente o histórico de cada uma delas e, em seguida, o seu funcionamento. Mas antes é preciso explicar que as experiências se inserem no Projeto Escola de Tempo Integral da Secretaria Municipal de Educação como uma política de governo. 73 Fonte: Prova Brasil e Censo Escolar e http://ideb.inep.gov.br/Site/ 207 2. AS EXPERIÊNCIAS 2.1 PROJETO ESCOLA DE TEMPO INTEGRAL As experiências visitadas se articulam ao Projeto Escola de Tempo Integral, existente no município desde 2001. A implantação da jornada escolar ampliada em Colatina foi uma iniciativa da administração do prefeito João Guerino Balestrassi. Nesta perspectiva, o Integral Marista foi o primeiro a ser implantado, uma parceria entre a Prefeitura Municipal de Colatina e o Colégio Marista. A secretária de Educação esclarece que foi e é um programa do governo municipal, como parte do Plano Municipal de Educação: [...] era programa de governo olhando nosso pedaço de chão, era uma necessidade do município. [...] Foi municipal, porque em 2001 o governo federal nem acenava ainda com essas possibilidades. Então foi uma política municipal a partir da realidade do município, teve um diagnóstico, foi programa de governo do prefeito eleito. E havia aqui na época um trabalho que eles realizaram, chamado cooperativa, as crianças saíam das escolas e iam para esses espaços onde faziam e vendiam picolés, bordavam, faziam tapetes; e aí com o Estatuto da Criança e do Adolescente e em cima disso, nós desconstruímos isso que havia, aí redimensionamos. Nós não pusemos essas crianças para fora, elas continuaram ali no Centro de Jornada Ampliada, mas com outra dinâmica de trabalho, trabalho voltado para o desenvolvimento de suas habilidades e competências, mas nada de produção. A secretária informou que, logo após a sua posse no cargo, visitou as experiências para conhecê-las in loco “considerando a especificidade de localização, o formato de funcionamento” de cada uma delas, e assim poder propor uma dinâmica de acompanhamento. No início do ano eu fiz visitas in loco, até para conhecer cada unidade e como funcionava, porque o funcionamento é específico, o que acontece na AABB não acontece no Santo 208 Antonio, não acontece no Adwalter; [...]. Então foram propostos dois encontros com toda a jornada ampliada, um foi em julho, com o Core, um educador de São Paulo, e um para fechar o ano, onde estaríamos todos reunidos relatando atividades, e foi nesse contexto, nesse sentido que a gente fez esse encontro, para fechar o ano, pra buscar mais gás e nos aproximarmos mais desse pessoal que se envolve e que trabalha. (secretária de Educação) De acordo com as entrevistadas o Projeto Escola de Tempo Integral, desde sua implantação, vem sendo avaliado constantemente pela Secretaria e novas ações são implementadas ou revistas; assim, é considerado um projeto em construção. A secretária de Educação explica que o Projeto Escola de Tempo Integral abarca modalidades diferentes de experiências. Suas palavras são esclarecedoras quanto à educação integral no município de Colatina sob sua responsabilidade: Na verdade o município prioritariamente se responsabiliza pela educação infantil e ensino fundamental, então nós temos 15 mil alunos na rede, e sentimos necessidade de iniciar um trabalho em que a criança ficasse um tempo maior na escola, para atender as necessidades da família também, porque Colatina é uma cidade polo de confecções, então as mães são trabalhadoras de fábricas, e nós percebemos que essa meninada estava solta por esses morros e eram presas fáceis nas mãos do crime organizado, dos traficantes, e ora acontecia um caso ali, ora aqui, então nós começamos de forma incipiente em 2001 com algumas parcerias, com a AABB, com a escola Marista, com entidades Cáritas Diocesanas [Centro de Acolhida da Criança e do Adolescente], que é chamada assim mas as crianças estudam na nossa escola, na sala comum de ensino regular e no outro turno na casa da acolhida, então nós mantemos lá os professores, os oficineiros para trabalhar com essas crianças várias atividades diversificadas, diferente daquilo que acontece na sala de aula comum da escola regular; no sentido de desenvolvimento das suas habilidades e competências, no sentido de proporcionar cultura e esporte dentro desse projeto. Então começamos e a cada dia nós percebíamos que precisávamos avançar, precisávamos melhorar a qualidade desse atendimento, quando nós iniciamos em 2001 tínhamos uns 300 ou 400 alunos envolvidos, depois nós fomos ampliando e hoje nós temos cerca de 930 nessa modalidade. A gente sente que tem 209 contribuído com a aprendizagem da criança também lá no ensino comum porque tem um suporte pedagógico, um apoio pedagógico, e eu costumo dizer pras nossas coordenadoras que se o menino não aprender, não fizer as tarefas de casa, não adquirir bons hábitos, nós vamos culpar quem, porque ele fica conosco o dia todo, então a nossa responsabilidade é muito grande, eu faço sempre essa reflexão com elas, porque é muito comum todas essas dificuldades a gente atribuir à família, só que ele só vai em casa pra dormir praticamente e os finais de semana, então nós ficamos com esse aluno, essa criança, esse adolescente, muito mais tempo que a família. Fica claro que o perfil dos alunos envolvidos e atendidos pelo Projeto envolve aqueles que ―estão em situação de vulnerabilidade ou risco social‖ e que são alunos ―regularmente matriculados em unidades de ensino da rede municipal de ensino‖ (Ibid.). Essa tônica da vulnerabilidade ou risco social está explicita na fala de todas as professoras entrevistadas e do único professor entrevistado. A professora Solange, coordenadora do Projeto, complementa quanto aos tipos de experiências: Nós temos onze tipos, porém três de parcerias, prefeitura de Colatina em parceria com AABB (Associação Atlética do Banco do Brasil), nós temos a parceria da prefeitura com o colégio Marista e também com a Cáritas Diocesana. Nós temos dois CEJAs, Centro Educacional de Jornada Ampliada, que são espaços educacionais nas instituições sociais que atendem alunos provenientes de várias escolas regulares, e temos seis escolas de tempo integral, que são espaços onde a criança estuda no ensino regular daquela escola e no contraturno, que é o horário inverso ao do ensino regular, ela recebe atendimento de oficinas e atividades no formato integral na própria escola. O Projeto privilegia crianças da educação infantil, a partir dos 4 anos de idade, e do ensino fundamental até a 4ª série, no período inverso ao do turno regular, com atividades de apoio escolar, oficina de dança, capoeira, oficina de música, recreação, caratê e futebol. Contando com professores da rede municipal, também é oferecido um atendimento aos alunos de 5ª à 8ª série do 210 ensino fundamental74, no contraturno escolar, com as seguintes oficinas: dança, caratê, empreendedorismo, escotismo, futebol, pintura em tela, capoeira. [Na Escola Municipal do Ensino Fundamental] Belmiro Teixeira e na [Escola Municipal do Ensino Fundamental Oséas Rangel de Amorim] os meninos de quinta à oitava vêm num contraturno para atividades de artes. Mas esses não estão contando nos 930 não, esses 930 se alimentam na escola, e esses não, eles vêm no turno inverso, mas eles se inscrevem por habilidade, por exemplo, pintura em tela, eles se inscrevem, eles fazem a opção de que atividade ele quer participar. (secretária de Educação) Nós temos também atividades em formato de jornada ampliada que eu não citei anteriormente, que são atividades pontuais com os alunos. Que atividades são essas? Os alunos de quinta à oitava série que não estão inclusos em jornada ampliada, em alguns espaços, não são todos, eles realizam também atividades pontuais de oficinas de pintura em tela, capoeira, caratê e futebol, nós temos essa experiência em três escolas formais em que o aluno vai no contraturno e realiza também essas atividades pontuais; mas não no formato de jornada ampliada, onde ele fica todo tempo não, são atividades extras, pontuais. (coordenadora Solange) O critério de acesso da criança ao Projeto/jornada ampliada ocorre da seguinte maneira: a equipe gestora da escola faz uma triagem, tendo em vista a vulnerabilidade social à qual a criança pode estar exposta, aliada à dificuldade de aprendizagem; só então é indicada pela escola. Todas as escolas gostariam de participar do Projeto ―todas as nossas escolas gostariam de ter, tem procura, até na área rural nós conseguimos atender [...] a um pequeno grupo.” (secretária de educação) Quanto à receptividade por parte dos professores da rede municipal a essa nova proposta de Escola de Tempo Integral emanada da Secretaria, diz a secretária de Educação: 74 Em 2009, o município estava no processo de implantação dos nove anos para o ensino fundamental, atendendo ao dispositivo legal. 211 Os que já trabalhavam nesse regime de cooperativa são resistentes até hoje a nossa proposta, porque na cabeça deles foi construída essa história do menino, que é melhor trabalhar do que ficar na rua, então a gente trabalha muito essa questão com esse grupo. Nosso maior desafio é conseguir recursos humanos, gente que compreenda a filosofia do projeto, que não basta tirar a criança da rua, tirar a criança da rua é importante, mas não é tudo, nós precisamos fazer mais. E o profissional que nós temos não tem essa compreensão, às vezes nós temos uma proposta de trabalho bacana, de música, por exemplo, a gente percebe lá no Bela Vista que as crianças são musicais, elas têm essa coisa para música, mas nós não temos pessoas formadoras, não temos oficineiros, temos uma ou duas pessoas, o que não dá para atender 930 alunos. Ao descrever uma visita a um outro município, visando conhecer as experiências de educação em tempo integral, esclarece que em Colatina todos os envolvidos no Projeto Escola de Tempo Inteiro são profissionais da rede municipal com formação acadêmica, seja como contratado ou efetivo. Precisam ser professores, nós não temos nenhum que não tenha uma formação pedagógica, é uma política nossa, nós não contratamos se não tiver formação, nós até fomos mês passado a Goiânia e vivenciamos uma experiência lá, que eu vi que eles tinham muitos oficineiros sem formação pedagógica [...], eles pegam a pessoa que tem uma habilidade e botam para dar as oficinas; e aqui nós não temos isso, a nossa política é que a pessoa tem que ter formação pedagógica, e formação pedagógica atrelada a essas habilidades aí, nós somos carentes de pessoal. [..] (secretária de Educação) A professora Solange reforça que todos os profissionais são ligados à área de educação, sendo este um dos critérios para poder ser agregado ao Projeto por ela coordenado. Se o profissional não tiver formação, não estiver pelo menos cursando, não tem como ser acolhido, ele não fará parte desse quadro. E, acreditando na proposta que abraçou, expressa sua concepção de educação integral. 212 Eu acho que é um espaço de acolhimento onde você deve pensar na criança e no adolescente como um todo, considerando a diversidade e a individualidade, sabendo que cada um é um, o que contribuirá nesse trabalho de oposto, e se preocupando com a autoestima dele. Porque quando a gente fala que a escola sinaliza a questão do cognitivo, o que mais uma criança precisa, o que está faltando na vida dela? Eu vejo que esse espaço de tempo integral deveria ter esse caráter de acolher a criança e o adolescente como um todo, considerando o seu histórico de vida; é um espaço que deve ser lúdico e trabalhar mesmo a autoestima, e acolher a individualidade, e trabalhar mesmo nesse sentido. (coordenadora do Projeto) Solange explica que ligada a sua coordenação existe um coordenador da jornada ampliada em cada unidade. Dependendo do tipo da experiência em alguns espaços tem um diretor da escola municipal e o coordenador da jornada ampliada. Considerando suas especificidades, a seguir passa-se a descrever as três experiências ligadas ao Projeto Escola de Tempo Integral visitadas nos espaços onde acontecem. 2.1.1 PROGRAMA INTEGRAÇÃO AABB COMUNIDADE 2.1.1.1 HISTÓRICO E DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA O histórico da experiência denominada AABB Comunidade no município de Colatina foi elaborado a partir de diversos materiais cedidos pela coordenadora da experiência, Isabel Cristina Dias Dutra, chamada carinhosamente por todos de Bel, a saber: (1) Cópia do Regimento do Programa direcionado aos pais e responsáveis para conhecimento das instruções gerais sobre o Programa; (2) Agenda AABB Comunidade 2009; (3) Termo de autorização do responsável para participação do menor no Programa; (4) Autorização do uso de imagens e cessão de direitos para o Programa Integração AABB Comunidade – educandos; (5) Caderno de Procedimentos AABB Comunidade contendo o seu histórico; as normas 213 pertinentes; o material a ser fornecido pelo Programa; o fluxo para estabelecimento das parcerias; os intervenientes e suas atribuições; os documentos necessários a sua efetivação e, ainda, (6) as entrevistas concedidas por (a) uma professora contratada designada, neste ano, pela Prefeitura para trabalhar no Programa porque gostava do social (professora). Fez um concurso, foi aprovada, mas ainda não foi chamada; (b) pela coordenadora do Programa Integração AABB Comunidade em Colatina e professora efetiva da rede municipal; (c) e pela aluna da sétima série (oitavo ano) da Escola Marista São Marcelino Champanha, 13 anos de idade, participante do Programa. As AABBs – Associações Atléticas Banco do Brasil – estão presentes em quase todos os municípios onde existem agências do Banco do Brasil. Em 1987, foi criado pela FENABB – Federação Nacional das AABB, ―um projeto que abriu as portas das Associações para crianças e adolescentes da comunidade, o Programa Integração AABB Comunidade‖ (Agenda 2009) de ambos os sexos, visando disponibilizar as: instalações [das AABBs] nos momentos ociosos para crianças e adolescentes de famílias de baixa renda que frequentassem escolas da rede, na faixa etária de 7 a 16 anos de idade, para desenvolvimento de atividades lúdica e reforço escolar. (Caderno de Procedimentos, p.3). Em 1996, a Fundação Banco do Brasil aliou-se à FENABB, visando a expansão do Programa que passa a contemplar 16 AABBs e a atingir 2.266 crianças. A estrutura material necessária ao seu funcionamento é fornecida pelos instituidores. Para atingir seus objetivos tem como parceiros, além das prefeituras municipais, instituições públicas e privadas sem fins lucrativos das regiões onde funciona. Por se constituir em uma parceria entre a Prefeitura (Secretaria de Educação) e a FENABB, que é a Federação das AABBs e a Fundação do Banco do Brasil, a coordenadora do Programa em Colatina costuma dizer que eu tenho três patrões. (professora Isabel) 214 Os educadores que trabalham e orientam os participantes (alunos) do Programa são capacitados pelo Núcleo de Trabalhos Comunitários – NTC/PUC – SP. A proposta metodológica desenvolvida por esse Núcleo tem ―como princípio a Pedagogia dos Direitos, a ludicidade e a leitura da realidade social do educando, da família e da comunidade‖. (Caderno de Procedimentos AABB Comunidade, s.d.). Em 2009, o Programa atingiu cerca de 400 municípios, entre eles o de Colatina, em 26 estados e Distrito Federal. Destaca-se que o seu principal objetivo é o de ―contribuir para a inclusão, a permanência e o desenvolvimento educacional de crianças e adolescentes de famílias de baixa renda na escola, integrando as famílias, a escola e a comunidade‖. Seus idealizadores entendem que ―programas educacionais complementares podem constituir ações conjuntas entre o poder público e a sociedade civil, na busca por melhorias na educação, não eximindo o Estado de sua responsabilidade‖ (Agenda AABB Comunidade, 2009). Atualmente atendendo a uma faixa etária de 6 a 18 anos incompletos, o Programa tem como dispositivo legal de fundamentação o Estatuto da Criança e do Adolescente ―no que tange ao desenvolvimento de ações de proteção integral a esse público‖ (Agenda 2009). Observa-se a mudança de faixa etária no atendimento, em relação a ano de origem. Esse olhar é expresso na fala de sua coordenadora local em Colatina: O nosso maior público alvo é a criança que está em vulnerabilidade social e com desafios na aprendizagem e no convívio com ele e com o outro. A nossa meta é tentar resgatar e mudar essa realidade, a nossa meta é fazer nosso aluno virar cidadão de fato e de direito, é isso que nós precisamos e é isso que a própria FENABB vê. Quanto à faixa etária dos participantes e a abrangência do Programa, a dinâmica das atividades/oficinas e o espaço onde acontecem, ela esclarece: Nós atendemos 80 crianças por causa do nosso espaço, porque é um clube que está disponível para nós e as nossas oficinas, você vê que nós temos várias oficinas acontecendo 215 ao mesmo tempo no salão, sem paredes, mas isso é bom, porque a gente percebe a socialização, o carinho de um menino com o outro. Nosso público vai de 6 a 17 anos, e de várias escolas, tem dos bairros mais carentes, que são Cleris, Osés Rangel de Amorim, Manhães de Andrade, Ayrton Senna, esses são os bairros que a gente atende. Nós atendemos do IBC, nós atendemos uns oito bairros, e as crianças são alojadas em cinco escolas, e o que é bacana também, que a gente faz sempre, é ter esse link com a escola, esse contato com a escola. (coordenadora do Programa) O material de base que foi apresentado e com o qual a professora Isabel e os professores trabalham são os Cadernos Pedagógicos, vol. I e Atividades Lúdicas, vol. II, elaborados pelo Núcleo de Trabalhos Comunitários – NTC – PUC/SP, datados do ano 2000. O AABB Comunidade acontece desde 2001 no turno inverso escolar. À época, a Secretaria de Assistência Social se juntou à Secretaria de Educação apoiadas pelo prefeito e procuraram o Banco do Brasil, que tinha o espaço – AABB, para estabelecer a parceria. A entidade mantenedora dá uniforme completo para as crianças, tanto de banho quanto para as atividades das oficinas. Atende a 80 crianças de cinco escolas municipais do ensino fundamental, da 1ª à 8ª série. A atual coordenadora do Programa em Colatina está na função há 3 anos, designada pela Secretaria de Educação. Quando o Programa AABB Comunidade foi apresentado às escolas, elas aceitaram e gostaram da idéia, querendo muitas vagas para seus alunos, o que não é possível. O espaço da AABB onde funcionam as atividades é aberto em sua totalidade aos alunos participantes. As crianças podem usar a piscina e todos os outros espaços da AABB de forma orientada pelos educadores sociais, denominação dada pelo Programa AABB Comunidade aos profissionais que nele trabalham, como visto anteriormente. No dia da visita, estavam organizando um churrasco que aconteceria no dia seguinte. Registra-se que algumas salas para o desenvolvimento de atividades se tornam pequenas. 216 Foto 01: Espaço AABB Comunidade utilizado pelas crianças Acervo: pesquisa Quanto à utilização do espaço, Isabel explica que de manhã os sócios começam a utilizá-lo somente a partir das 10:30 em diante, hora em que as crianças já estão praticamente tomando banho para ir embora. O tempo do professor no Programa envolve horário para estudos. Toda segunda-feira, na parte da manhã, quando o clube está em manutenção, os professores se reúnem para o estudo do material elaborado pela PUC-SP, enviado pela FENABB. ―São módulos de formação de educadores sociais. Esses módulos são devolvidos após serem respondidos pelos professores.‖ Diz Isabel que ―além de trabalhar nós ainda temos o estudo com certificado”. Embora sejam professores da rede, aqueles que atuam no Programa são classificados como um educador social e para isso precisam ter perfil. Então na verdade, essas oficinas, no social, na escola de tempo integral, a criança tem que ter prazer em estar, então o que acontece, ela tem que ter afinidade com o professor, a gente tem batido muito de frente, o professor tem que ter perfil para trabalhar com essa criança, ela chega pra nós muito, muito sem nada, então o professor que está com ela tem que ter perfil, ele tem que saber o toque que vai fazer a diferença; então esse professor é que nós precisamos, o professor que 217 não tiver perfil tem que arrumar a mala e trabalhar em outra coisa, menos escola. (coordenadora do Programa) E nem sempre esse professor parece estar preparado para trabalhar com o social ―tanto na escola de tempo integral, na escola de segundo tempo e na escola de tempo regular, o professor tem que ter perfil‖ (Isabel). Ao se referir sobre o seu entendimento sobre educação integral, a concepção de que serve para tirar a criança da situação de risco social se confirma: Eu acho que a educação integral veio pra mudar muita coisa, para o positivo. Quando você me faz a terceira pergunta, sobre o tempo escolar ampliado, eu acho que alguns professores e alguns diretores falam que a criança cansa, por isso que eu te falo que a gente tem que ser muito maleável, às vezes a criança fala que não quer e você tem que parar tudo e conversar. A educação integral veio nos ajudar a resgatar realmente, não tem outro nome. O menino ficava onde antigamente? Na rua, e não ficava aprendendo nada, então essa educação integral veio proporcionar esse convívio dessa criança e fazer dela um sujeito melhor, essa é a minha opinião; agora, que tem falhas tem, também se a gente se sentisse completo a gente nem aqui estaria, o desafio acontece todos os dias. (coordenadora do Programa) Essa compreensão sobre a atuação do Programa fica clara para os alunos. Uma aluna de 13 anos da sétima série da Escola Marista São Marcelino Champagnat se expressa da seguinte forma Eu adoro a AABB, a AABB é um projeto educacional que tira a criança da rua, isso me ajudou bastante, eu gosto de tudo aqui, não tem uma aula que eu goste mais que outras, eu gosto de tudo, tem capoeira, natação, tem quadra, a gente aprende muita coisa aqui. Eu estou há uns três anos aqui na AABB porque meus pais são separados desde que eu tinha uns 5 anos de idade e foi muito difícil pra mim. E esclarece como divide o tempo entre as atividades do Programa e a sua escola de origem: 218 O ônibus passa pela minha casa às 6:40, chego aqui mais ou menos umas 7h. Mas eu não volto de ônibus, eu saio daqui umas 11:30 e a minha escola já é perto aqui da AABB, eu já estou até com o uniforme aqui. Sobre os sujeitos que atuam diretamente na experiência, é importante reafirmar que são professores efetivos ou contratados da rede municipal de Colatina. ―Isso, eu vim pra cá pra coordenar o projeto, eu trabalho para a prefeitura.” (coordenadora local) Eles têm formação em nível superior e alguns com pós-graduação. Isabel é professora do primeiro segmento do ensino fundamental, possuindo pós-graduação lato sensu em artes; e a professora Iramar é formada em Ciências Contábeis e estava em 2009 terminando o curso de Pedagogia, com pós-graduação lato sensu em Planejamento Educacional. Atua em uma EMEF com turmas do 2º ano do Ciclo Básico de Alfabetização a 8ª série do ensino fundamental. Os professores são do município, as serventes são do município, o presidente da AABB é muito ativo aqui também, ele vem e participa dos estudos conosco, o gerente do Banco do Brasil, a nossa superintendente de ensino que é a Solange, e pais, alunos e a comunidade, nós estamos sempre juntos. (coordenadora do Programa) Devido a problemas gerados em concursos anteriores, o município não chamou ainda a professora concursada. Assim, a coordenadora é efetiva da rede e a professora Iramar é contratada. Entende-se, assim, que a instituição mantém alguns professores efetivos da rede e outros contratados. As atividades desenvolvidas no Programa AABB Comunidade, bem como a sua integração com as escolas de origem de seus alunos/participantes, merecem destaque. Conforme o Caderno de Procedimentos AABB Comunidade, tendo em vista o Programa consistir em ―uma proposta de complementação educacional, baseada na valorização da cultura do educando e de sua comunidade‖, deve-se proporcionar ―atividades lúdicas desenvolvidas em torno de áreas como saúde e higiene, esporte e linguagens artísticas, possibilitando a construção de conhecimentos e acesso à cidadania‖ (p. 3). 219 Essas atividades devem ser desenvolvidas ao longo do período letivo, no mínimo três vezes por semana, com 4 horas diárias. Entre as atividades propostas estão as práticas em todas as áreas: esporte, arte, educação, complemento educacional e atividades direcionadas à higiene e à saúde. Para seu pleno desenvolvimento, os educandos recebem kits com uniformes, objetos de uso pessoal, enfim todo o material necessário (Agenda 2009). Foto 02: Trabalho produzido pelas crianças na aula de artes Acervo: Pesquisa Segundo as entrevistadas, em consonância com a proposta do Programa AABB Comunidade se trabalha com várias oficinas e atividades como recreação, natação, capoeira, música, complemento educacional, arteterapia e computação, higiene e saúde. 220 Foto 3: Oficina de computação Acervo: pesquisa A oficina de arte, por exemplo, ocorre todo dia para três turmas de dez crianças, com duração de 1 hora cada uma. O professor de capoeira, que é da prefeitura, por exemplo, dá aula duas vezes por semana, assim como o de música. A professora Iramar, que trabalha especificamente com a oficina de artes, diz que em todas elas são trabalhados valores sociais de forma interativa. ―Dependendo do conteúdo que se trabalha na oficina de apoio pedagógico, a professora trabalha um texto, eu trabalho a arte, a higiene já trabalha o que é voltado à saúde, tudo dentro de um contexto.” Explica que houve inúmeras mudanças no comportamento das crianças desde sua entrada e ao mesmo tempo sinaliza um trabalho de interação com a escola: Vou falar daquela criança que entrou. Eu pego da primeira atividade que nós fizemos para as últimas, quando a criança chega aqui, ela chega mais como espectador, hoje ela já sugere, já faz intervenções; às vezes dentro de um projeto as coisas mudam, por exemplo, nós trabalhamos folclore, tinha 221 uma ideia focada pra fazer uma coisa, no meio as crianças começaram a dar sugestões, já veio a integração dos trabalhos nas escolas, aí aquilo que nós vimos que já estava acontecendo nas escolas nós desviamos para não ficar cansativo. (professora Iramar) O complemento educacional (reforço escolar) é uma das atividades bastante valorizadas, inclusive na ajuda à alfabetização. A professora informa que o Programa atende a crianças de algumas escolas municipais. ―Elas comentam o que estão fazendo na escola, e trazem para fazer, e trazem sugestões, as crianças que já estão no programa há mais tempo falam do que fizeram e pedem para fazer de novo.” A aluna entrevistada diz gostar de todas as atividades, mas as preferidas são as de quadra. Ainda assim, se expressa sobre a ajuda e importância do complemento educacional/reforço escolar. Bom é que aqui a gente tem complemento educacional com a Flavia, ela ensina a gente, se a gente tem algum dever pra fazer a gente faz na aula dela. E toda primeira aula de todos os dias é aula pra gente fazer os deveres, eles já falam aqui que em primeiro lugar vêm nossos deveres de escola e depois vêm os deveres da AABB; aqui eu também aprendo crochê, aprendo um monte de coisa que eu depois faço em casa. Ajuda, quando eu estou com dever pra fazer, às vezes eu não sei fazer, e ensina muito aqui, a minha mãe mesmo fala para eu pedir ajuda aqui na AABB, e eles ajudam bastante aqui mesmo. Na perspectiva do planejamento, de acordo com a coordenadora do Programa, existe um plano de ação anual elaborado pelo Programa, discriminando quais escolas e nelas quais alunos o integram e, pelo lado das escolas, há o registro em seus projetos político-pedagógicos de que a parceria existe, se especificando o percentual de crianças participantes. Perguntada sobre a integração com as escolas dos alunos participantes, a coordenadora da experiência se expressa da seguinte maneira: 222 Qual é o objetivo maior do programa? Trabalhar a ludicidade, o beabá, o 1,2,3, ele aprende lá na escola; nós damos o apoio e o suporte para ele entender esse mecanismo que acontece na sala de aula, às vezes o menino aprende a ler aqui conosco, brincando, ele aprende a contar aqui brincando, nós temos vários jogos, graças a Deus a gente disponibiliza, e é coisa simples, não é coisa cara não, nós criamos muitos brinquedos com eles, trabalhamos essa questão de reaproveitar com dignidade. (coordenadora do Programa) Acrescenta que, de acordo com a professora Solange, coordenadora do Projeto Escola de Tempo Integral a partir de 2010, ela e os professores do AABB Comunidade irão participar dos Conselhos de Classe das escolas. Explica qual é a dinâmica atual: Como acontece hoje? Dá o final do bimestre, eu ligo para diretora da escola, converso com a supervisora de turma e pergunto se teve avanço, se piorou, o que está precisando, e aí já sei o que eu preciso atingir. E nós fizemos um projeto de valores resgatando os valores das crianças o ano inteiro, então eu tento jogar todos esses desafios dentro do projeto, eu faço esse intercâmbio, por exemplo, num menino agressivo, nós estamos trabalhando a gentileza. Dá pra você ser gentil e agressivo ao mesmo tempo? São essas as falas, textos voltados para realidade. Na questão da matemática damos problemas diversos ligados à questão da gentileza, eu estava num supermercado comprando tal coisa e vi uma velhinha e eu abaixei para pegar alguma coisa pra ela..., esse tipo de coisa. Para a professora Solange a integração do Programa AABB com as escolas ainda acontece de forma tímida, por isso a necessidade de sua coordenadora participar dos Conselhos de Classe. ―[...] é meta para o ano que vem esse link maior com as escolas regulares, porque a gente precisa estreitar mais esse laço pra acompanhar mais de perto a vida dos meninos.” (Solange). A coordenadora Isabel afirma ainda ser difícil captar o reflexo da atuação do Programa nas escolas em relação à melhoria da aprendizagem dos alunos e alunas envolvidos; e sua fala revela existir para ela um preconceito em relação à escola de segundo tempo: 223 Sim, a gente conversa com a direção da escola e com o supervisor. Não é fácil, até porque nós sentimos muito pesar porque existe muito preconceito com a escola de segundo tempo achando que os meninos vão lá só para brincar, e não é. Eu sempre falei para os meninos aqui: você está aqui pra aprender a ser gente. E eu falo, eu digo para as diretoras para elas respeitarem meus meninos que lá nós trabalhamos e muito. (Coordenadora do Programa) Sua fala revela ainda a experiência como diretora por 13 anos, tendo a oportunidade de dirigir uma escola de segundo tempo, a EMEF Oséas Rangel de Amorim, fato que foi mais bem entendido quando se visitou a experiência da Escola Municipal de Ensino Fundamental Edwalter Ribeiro Soares. Ao ser perguntada como ocorre a seleção dos alunos para participarem do Programa, defende o horário integral em consonância com a política municipal maior, nesta perspectiva: Ele é encaminhado para cá por dois meios: a própria escola pede quando ela vê uma criança com risco de vulnerabilidade muito grande, e aqui eu tenho uma lista de espera que acontece aqui no clube, tem 280 na lista de espera, e eu acho que esse ano se eu tiver só vão ser três vagas para o ano que vem, porque o aluno com vulnerabilidade precisa aprender a conviver, então eu não posso tirar esse menino agora. Esse ano eles estão pensando em ficar um ano no integral, teve a melhoria, saiu para dar vaga para outro porque tem muita criança precisando. Se tivéssemos em Colatina, em cada cantinho um integral seria melhor. (coordenadora do Programa) Para ter acesso ao Programa, a criança deve ser indicada pela escola e o responsável deve fazer uma entrevista com a coordenadora da experiência, sendo que às vezes esta ainda visita a casa da criança para confirmar o perfil. Neste sentido, a professora entende que há uma integração com a escola, pois é ela quem faz a identificação dos alunos com perfil para o Programa. A aluna entrevistada responde que entrou no Programa desta maneira: Teve um dia que a Bel foi na minha escola e aí eu perguntei para ela se tinha uma vaga na AABB para mim, no dia 224 seguinte ela pediu para eu ir na AABB falar com ela e no dia mesmo eu já fiz a matrícula e já comecei aqui. A integração do Programa com a escola dos alunos, conforme a professora ocorre através da atuação da coordenadora Isabel que faz a mediação com a escola, porém explicita sua forma de integração com as professoras da escola regular, assim como com os professores/educadores sociais no âmbito da dinâmica pedagógica do Programa. Sua fala também deixa clara a presença de um parceiro eventual de um setor representativo de economia da cidade: a fábrica de costura. [...] às vezes, por exemplo, a criança trouxe o dever de casa, mas não trouxe a matéria aplicada na sala de aula e está com dificuldade, eu mando um bilhetinho para a professora explicando a dificuldade da criança, aí no outro dia ela manda aquilo pra gente. [...] Foi bem interessante que nós ganhamos uns retalhos de uma fábrica de costura, tem muitas aqui em Colatina, era uma malha tipo feltro que nós guardamos, aí chegou a época de Natal e resolvemos fazer umas lembrancinhas paras as crianças levarem para casa, aí fizemos botinha, sininho, um professor doou miçanga, outro doou outra coisa, começamos a fazer o trabalho, cortando o acabamento das botinhas, ensinando a costurar, dar o ponto, aí já temos a interação porque eu trabalho junto com a professora de higiene e saúde que também tem muitas habilidades [...] E apesar do Banco do Brasil, existe uma parceria com a padaria Veneza, desde quando começou o projeto. A padaria fornece pão toda manhã. 2.1.2 CEJA – CENTRO EDUCACIONAL JORNADA AMPLIADA SANTO ANTONIO 2.1.2.1 HISTÓRICO E DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA 225 Existem dois CEJAs em Colatina, a saber, o Centro Educacional de Jornada Ampliada Emilson Coutinho e o visitado pela pesquisa, o qual passa a ser apresentado. Os dados que se seguem têm por base as entrevistas concedidas pela (a) coordenadora da jornada ampliada, Maria Lucinéia Caseli Castro; (b) por Áurea Kapitzky da Silva (professora leiga aposentada); (c) por uma dupla de alunas indicada, sendo as duas estudantes da EMEF Amélio Forechi, a primeira de 14 anos de idade, que entrou no CEJA com 6 anos, cursando atualmente a 8ª série (aluna 1), e a segunda de 8 anos, cursando a 2ª série (aluna 2); e através do questionário respondido pela (d) professora Lucinéia Fernanda Ramos Fontana, da rede municipal, que atua no CEJA e na escola de turno regular. O Centro Educacional Jornada Ampliada Santo Antonio se localiza na rua Afonso Cláudio, s/n, bairro Santo Antonio, Colatina-ES. Atende a 120 crianças de ambos os sexos, na faixa etária de 6 a 14 anos, oriundas de cinco escolas municipais da 1ª à 8ª série, estando subordinado diretamente à Secretaria de Educação. O acesso à matrícula segue os dispositivos legais emanados pela Secretaria de Educação e normas traçadas pela equipe: o candidato deve estar matriculado numa escola regular, morando no bairro ou próximo a ele. Porém o critério principal é explicitado por sua coordenadora, em consonância com os objetivos da Secretaria de Educação. ―a aprendizagem lenta e vulnerabilidade escolar, crianças que ficam sozinhas em casa, que não tem quem tome conta. [..]. Então esse é o espaço onde a criança está segura, a mãe sabe que ela pode sair com a consciência tranquila, sem ter a preocupação de que o filho está numa área de risco.‖ (coordenadora da experiência) O CEJA tem como objetivo ―tirar a criança da vulnerabilidade escolar, dar apoio a aprendizagem lenta e ocupar a mente das crianças [,,,] com coisas novas‖. Eventualmente se aceitam crianças trazidas pela própria família e não diretamente através da escola. O Centro tem uma procura maior de matriculas do que pode suportar. 226 O período de inscrição de matrícula é logo após o das escolas regulares. Então são oferecidas as vagas para as escolas selecionarem os alunos dentro do perfil necessário ao Centro. No início, a equipe ia diretamente às escolas conversar com as crianças, explicar o projeto. A matrícula sempre é efetivada por um responsável que apresenta a certidão de nascimento da criança. O número de matriculados oscila devido ―a muita mudança, criança que vai de uma localidade para outra ou que vem de fora‖. Das escolas atendidas, duas apresentam um número maior de crianças matriculadas no Centro: a Escola Municipal de Ensino Fundamental Maria da Luz Gotti e a Escola Municipal de Ensino Fundamental Amélio Forechi, que se localizam no mesmo bairro do CEJA. No espaço onde hoje funciona o CEJA, já esteve uma escola estadual. Com a criação de outra escola no bairro, foi ocupado por uma cooperativa onde hoje funciona o Centro. A cooperativa também era um projeto da prefeitura. Era um espaço onde as crianças, no contraturno escolar, faziam e vendiam picolés, tapetes, bordavam e vendiam o fruto do trabalho. A partir de dispositivos legais como o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente e do PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, que impediam a venda de picolé ou qualquer outro produto fruto do trabalho infantil, a proposta foi redimensionada para se implantar a jornada ampliada, explicou a Secretaria de Educação Municipal. Acabar com a cooperativa no início foi difícil para todos, no caso dos alunos, ganhavam ―um bônus por aquilo que faziam [na cooperativa], então acabou o bônus e eles perderam o interesse‖ (coordenadora da jornada ampliada), o que gerou também resistência dos próprios profissionais da cooperativa à mudança. Como parte do Projeto Escola de Tempo Integral emanado da Secretaria Municipal de Educação de Colatina, o CEJA visitado tem sua origem na extinção dessa cooperativa, diz a coordenadora. ―[...]. É muito gratificante pra gente ouvir as mães falarem assim: ‗Graças a Deus que meu filho está no Centro de Jornada ou na cooperativa (que eles chamam), porque ele está fora do risco social que está lá fora.‖ Na gestão do prefeito João Guerino Balestrassi, com a proposta de jornada ampliada escolar já apresentada, o 227 CEJA foi implantado. ―[...] a prefeitura lançou o projeto e nós entramos nele‖, diz sua coordenadora, que, afirma ainda que quando chegou ao Centro ainda se fazia picolé, porém não mais era vendido diretamente. A estratégia era a de enviar para as escolas, que por sua vez os vendiam e repassavam o produto da venda para o CEJA. Era uma fonte de renda para comprar material para as atividades de artes e didático. Os professores que atuam no CEJA são efetivos da rede municipal de Colatina ou contratados com designação temporária. A prefeitura “paga os professores e a merenda e o material que a gente precisa para trabalhar” (coordenadora). A coordenadora da jornada ampliada, Maria Lucinéia Caseli Castro, trabalha há nove anos no Centro. Formada em Pedagogia, com pósgraduação em planejamento escolar e supervisão em nível de especialização, pertence ao quadro efetivo da Prefeitura de Colatina, atuando há 26 anos, e foi designada para coordenar o Centro. Antes foi por três anos diretora do CEJA Edmilson Coutinho, quando ainda era cooperativa. ―Se eles me tirarem eu vou sair, mas eu vou sair triste, porque eu gosto do que eu faço, não é no sentido financeiro não, porque não compensa‖, diz. O tempo da coordenadora pedagógica inclui horário para participar das reuniões de formação da Secretaria de Educação e com diretoras de outras unidades escolares quando o assunto diz respeito às EMEFEs de ensino regular que sejam de interesse também do CEJA. A professora entrevistada divide seu tempo de trabalho exercendo a docência no 1º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Amélio Forechi no turno contrário ao seu horário no CEJA, uma das escolas atendidas pelo Centro. Tem 27 anos, formada em Pedagogia, possui dois anos de experiência docente. No Centro está há dois anos e um ano na escola regular por designação temporária, como regente de uma turma de primeiro ano do ensino fundamental. A professora leiga aposentada Áurea Kapitzky da Silva é a mais antiga da escola. Com 30 anos de magistério, é moradora do bairro e vizinha do Centro, conhecendo sua realidade e a maioria dos pais das crianças matriculadas, esclarece. Naquele espaço trabalha há 19 anos, passando por toda a história de construção dos projetos até chegar ao CEJA. 228 O corpo de professores do CEJA atualmente é solicitado pela coordenadora à prefeitura, mas ainda não possui o contingente necessário de professores capacitados para as atividades desenvolvidas. Tem professor que fica pouco tempo no projeto ―porque ele não tem o perfil social‖ necessário à função. Citando o caso do professor de música: [...]ele sabe música, mas não sabe cativar a criança para aquilo que ele está ministrando. E aí não dá, a criança faz bagunça, a criança manda. Você sabe o que é lidar com o social? Você tem que ter um planejamento, você tem que pensar naquilo que você faz, e você tem que mostrar e com planejamento [...](coordenadora) A secretária de Educação considera a rotatividade dos profissionais que trabalham em jornada ampliada como um desafio a ser vencido em 2010. Embora faça parte da rede escolar municipal, o CEJA se diferencia das outras por, entre outros aspectos, não possuir cargo de direção e sim de coordenação. Não se constitui como uma escola de jornada ampliada ―porque integral é quando a escola só dá assistência àquela escola, a mesma escola de origem, e nós somos um centro catalisador‖. A partir de 2009, entrou no censo como uma unidade escolar da rede municipal, assim acredita a coordenadora que conseguirá recursos próprios oriundos da Prefeitura como as outras escolas. Para captação de recursos próprios realizam festas como as juninas, rifas e conseguem doações. No início, o prédio do espaço ocupado pelo Centro ―estava sem estrutura nenhuma, então com uma parceria da comunidade com a prefeitura conseguimos reformar‖, diz a coordenadora. A prefeitura entrava com a mão de obra e os doadores com o material de construção. ―Isso logo que mudou o governo, porque estava meio precário [...] não tinha como ministrar aula aqui dentro, estava um barracão abandonado.” No final do ano (da reforma) já havia uma estrutura melhor, ―aí a prefeitura já começou a colocar mais coisas‖ como uma empresa que presta serviços para prefeitura e que faz o serviço de limpeza. (coordenadora) 229 A comunidade, que no início foi resistente à mudança por motivos já explicitados, aderiu à proposta porque ―estruturou um lugar arcaico e velho que se tornou prazeroso, até pelo visual. Eu lembro que na inauguração as pessoas diziam que a escola deu vida ao bairro, e isso é muito bom de escutar” (coordenadora da experiência). Localizado no alto de uma ladeira do bairro, seu espaço físico se constitui de salas de aula, refeitório, cozinha, secretaria e pátio externo amplo, mas sem calçamento, utilizado para a realização de atividades físicas, recreativas, pintura, entre outras adaptações, um espaço de circulação de pessoas. Foto 4: Quadra onde acontecem as atividades esportivas Acervo: pesquisa A aula de dança é realizada no espaço do refeitório, que é apertado. Há apresentações fora do espaço do CEJA. As apresentações ocorridas no espaço são filmadas e fotografadas. Não se convida a comunidade para assistir por falta do espaço físico. Quando tem reunião de pais, os filhos apresentam alguma dança ou outra atividade para eles. Como exemplo, nos foi apresentada uma coreografia de cunho religioso no refeitório. 230 Porém, avaliar como bem-sucedido o trabalho que vem sendo desenvolvido é ver o aluno considerado problemático se transformar. ―O sucesso é quando você vê aquele aluno que você pega com tantos problemas, que é aquele calo do seu sapato, e que você o vê transformado‖ (coordenadora do CEJA) na vida social e na escola. ―Na escola também, agora, quando ele dá problema aqui ele está dando lá também. Então aí a gente faz uma parceria com os pais também―. Ver ex-alunos que passaram pelo Centro sendo pessoas dignas, muitas vezes bem-remuneradas, as torna felizes. Considera-se que há integração entre o Centro e a escola de origem de seus 120 alunos, devido haver sempre ―contato com os diretores das escolas, principalmente em relação à aprendizagem dos alunos, a tarefas escolares‖ (coordenadora da experiência), embora a coordenadora reconheça que deve haver uma maior integração para que os objetivos do CEJA sejam alcançados. O ―reforço escolar‖ aparece como atividade importante por colaborar para que as crianças ―tenham uma aprendizagem melhor na escola regular‖ [...] ―Você sabe que a maior dificuldade hoje em dia é a criança fazer a tarefa de casa, eu acho que isso é em âmbito nacional, não é só o nosso caso‖. (coordenadora da experiência) Além do ―apoio escolar‖ todos os dias, há também oficinas de artes e artesanato incluindo a confecção de bonecos, reciclagem, bordado, crochê; intercaladas a essas oficinas tem as de recreação e música. 231 Foto 05: Oficina de artes Acervo: pesquisa As atividades que a aluna 2 citou como as que mais gosta são as aulas de pintura e da ajuda nos ―deveres difíceis‖ que não sabe fazer. No CEJA ―tem alguém‖ para ajudar. ―[...] eles ensinam, e a gente já fica pronto para o colégio.‖ A aluna 1 reforça a importância das atividades de ―reforço escolar‖. Para ela: ―É bom [..]. Ano passado eu trazia muito dever de matemática que eu não conseguia aprender com a explicação da professora lá, porque é muita bagunça na sala de aula, aí a Lúcia me ensinava as coisas, a Lucinéia também me ensinava muito, aí eu aprendi.‖ (Aluna 1) A aula de reforço como significativa para aprendizagem na escola regular aparece também na fala da aluna 2. ―[...] às vezes a professora passa alguns deveres que eu não sei, aí eu ia para casa e era difícil de eu ficar aprendendo, aí a minha mãe me botou aqui para eu aprender‖; importância reforçada pela professora do CEJA e da EMEF Amélio Forechi, ao considerar que embora as atividades desenvolvidas no Centro não façam parte do PPP de sua escola, acredita que a experiência interfere no seu trabalho em sala de 232 aula “pois recebem apoio escolar, na qual oferece um grande suporte de aprendizagem a esses alunos”, percebendo diferenças dos alunos que participam da experiência em relação àqueles que não participam. ”São alunos que trazem as tarefas realizadas de casa” (professora). O esporte vai aparecer logo a seguir na preferência das alunas, aqui entendido como pique queimado, pular corda, entre outras brincadeiras infantis. As atividades de passeios, quando ocorrem, são vistas como ―prêmios‖ concedidos às crianças que cumprem as normas, são respeitosas, que participam das oficinas. As atividades estão em consonância com as orientações emanadas pela Secretaria de Educação, como já explicitado. Conforme a coordenadora pedagógica do CEJA, antes era o professor Anderson o responsável pela jornada ampliada – o que respondeu o questionário da primeira fase da pesquisa. A mudança para a professora Solange em 2009 ocorreu após a troca de governo: ―[...] era o Anderson e agora é a Solange, depois que mudou o governo, era o Guerino e agora é o Leonardo; e a Solange tem experiência porque ela trabalhou no integral do Marista, e ela está aqui nos ajudando e apoiando.‖ (coordenadora da experiência) Eu acho que a integração com as escolas é favorecer essas crianças que realmente precisam de ajuda, dá uma visão de mundo melhor a elas, que elas tenham condições de ter um futuro melhor, que não é porque são pobres e carentes que elas têm que ficar à margem, que elas podem participar da sociedade como qualquer outra e ter um futuro brilhante. (coordenadora pedagógica) Para ela, a atuação do Centro ajuda muito na educação e na aprendizagem das crianças; ainda na perspectiva acima, se expressa: Eu acho que ajuda muito, porque essas crianças não têm ajuda em casa, nós somos a ajuda delas, como se fosse uma segunda família, tanto na parte intelectual, na parte moral, na parte espiritual, a gente está aqui ajudando, para que elas 233 possam crescer vendo que tem alguém que se interessa por elas. Nós trabalhamos com amor e com o coração. (coordenadora) Porém acredita que a importância de se oferecer um tempo escolar ampliado ―é dar uma oportunidade maior a essas crianças de ampliar os conhecimentos, de ter uma visão melhor do mundo que cerca aí fora‖ (coordenadora da experiência). O CEJA funciona no turno inverso da escola regular. O tempo diário de escolarização é distribuído da seguinte forma para as crianças: algumas, após sair do Centro, antes de seguirem para a escola regular, passam em casa para trocar de roupa, colocar o uniforme específico e pegar o material escolar; outras, que moram mais longe (em número menor), trocam de roupa e vão direto. A rotina diária no Centro ocorre da seguinte forma: as crianças chegam às 7 horas da manhã e saem às 11h, tendo cada aula/atividade a duração de uma hora e dez minutos. Às 8:10 é servido o café da manhã; às 10:40 tem um momento de oração e reflexão e logo a seguir almoçam; saem às 11 horas. As alunas entrevistadas estudam na parte da manhã na escola de origem, chegando ao CEJA às 13h, saindo às 16:40. A aluna 2 considera ser bom estudar o dia inteiro e a aluna 1 diz: ―É bom estar estudando lá e aqui porque lá a gente aprende uma coisa e aqui outra, aprende mais.‖ O Centro no ano de 2008 elaborou seu próprio projeto pedagógico que ainda não dialoga com os projetos pedagógicos das escolas de origem das crianças, o que se pretende que aconteça em breve. Esse PPP foi reformulado em função disso, mas não se teve acesso a ele. Apesar de a Prefeitura fornecer a infraestrutura, para conseguir fazer a reforma em suas instalações físicas, parcerias foram feitas através de doações do tipo material para construção, como já dito. Existe também uma parceria com o supermercado local, que fornece fruta, verdura, ―para sempre dar uma qualidade melhor à merenda‖. A coordenadora diz que quando não procura os comerciantes eles ―ligam perguntando se eu quero coisas‖. Os comerciantes 234 ―são receptivos [..] e ajudam constantemente, mas se eu precisar eu posso recorrer que eu consigo‖. Já existiu uma parceria com a Unesc [Centro Universitário do Espírito Santo], que, através de seus alunos do curso de enfermagem, propiciava palestras sobre os males do consumo de drogas e do álcool, da prostituição, do risco de gravidez na adolescência, além da importância da alimentação. No ano de 2009, a parceria ocorreu somente no turno da tarde, com os alunos de medicina, com projetos sobre a velhice – problemas de criança bater em avó, entre outros. 2.1.3 ESCOLA MUNICIPAL DE ENSINO FUNDAMENTAL EDWALTER RIBEIRO SOARES75 2.1.3.1 HISTÓRICO E DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA Considerando a definição da coordenadora do CEJA Santo Antonio sobre se considerar jornada ampliada/integral quando as atividades no contraturno são desenvolvidas pela própria escola, atendendo apenas a seus alunos, encontramos na Escola Municipal de Ensino Fundamental Edwalter Ribeiro Soares localizada no bairro de Santa Terezinha um exemplo dessa concepção como parte do Projeto Escola de Tempo Integral. Considerando suas características próprias, os dados que se seguem têm por base as entrevistas concedidas pela (a) diretora da escola, a professora Elza Maria Bonatto; (b) um grupo de professores, incluindo a coordenadora pedagógica da experiência Liana Signorelli Maciel; (d) um grupo de alunos com idade entre 9 e 10 anos de idade participantes da experiência; (e) uma professora do horário regular que não participa do integral, mas que já teve experiência em uma escola desse tipo. 75 Cabe registrar que a equipe foi recebida com um ―banquete‖ preparado carinhosamente pela equipe do integral. 235 A escola funciona com turmas de primeira à oitava série do ensino fundamental, e em 2009 começou a receber alunos a partir de quatro anos do primeiro período da educação infantil, atingindo um contingente de aproximadamente 520 alunos. Sua experiência de jornada ampliada em horário integral se diferencia das experiências relatadas anteriormente por atender alunos da própria escola, do primeiro período da educação infantil à 4ª série. Embora os critérios de seleção desse aluno sigam o de estar a criança em estado de vulnerabilidade social, de aprendizagem lenta, que os pais trabalhem fora ou sejam alcoólatras. A noção do horário integral como proteção aparece na fala das crianças. Tenho 10 anos, estou na terceira série. Eu acho interessante porque em vez de ficar na rua sem fazer nada, pelo menos a gente está aqui estudando. (aluno 1 – há um ano e meio no integral) Tenho 10 anos, estou na terceira série. Eu acho que é bom ficar no integral porque as mães se sentem mais seguras de deixar a gente aqui, sabe que aqui é um lugar seguro e que a gente não vai andar aprendendo coisa errada. (aluna 2 – há um ano e meio no integral) Tenho 10 anos, estudo na segunda série. Eu acho muito importante também, porque a tia ajuda nos deveres, dá arte e dá muitas coisas legais, tem capoeira, recreação, música, então eu gosto de ficar aqui para não ficar na rua brincando. (aluno 3 – há um ano e meio no integral) Tenho 9 anos, eu gosto de ficar aqui porque a gente aprende mais coisas, e a gente fica longe da violência. (aluna 5 – há três anos no integral) São selecionadas numa faixa etária de 4 a 12 anos para estudar em horário integral. Do contingente de 175 alunos do primeiro período à 4ª série do ensino fundamental, o integral atende atualmente a cerca de 80, sendo a procura maior do que a oferta. O responsável coloca na ficha de matricula dos 236 alunos novos para a escolarização de horário regular que tem interesse no integral; a partir dessas fichas, é feita a seleção dentro dos critérios acima descritos. Outra forma de seleção é feita entre aqueles alunos da escola já conhecidos e avaliados como necessitados do horário integral. Majoritariamente, as selecionadas moram no bairro, embora muitas mães que trabalham nas confecções – uma das bases econômicas de Colatina, moradores de outros bairros, procurem vaga no integral, demanda que a escola não consegue atender. A origem da experiência é a mesma do CEJA, ou seja, a partir da extinção da cooperativa e da fábrica de picolé. A coordenadora do integral é quem conta um pouco mais dessa história, dizendo que chegou à escola para trabalhar por volta do ano 2000: Meu nome é Liana, eu estou aqui como coordenadora da experiência, quando eu vim para cá era tipo uma cooperativa, eu vim sozinha para cá, com a cara e a coragem, e a gente trabalhava mais com alunos de quinta à oitava, aí a gente ensinava às crianças, era uma aula de arte por semana para cada turma, eu ensinava o ponto marca, e os meninos iam para aula de técnicas agrícolas, que ainda tinha. [...] Depois vieram as crianças do primário, tinha uma faixa de 30 crianças, eram dois professores, eu e uma outra, a gente ficava de primeira à quarta, aí o projeto foi dando certo, foi aumentando, a gente parou com o negócio de ensinar bordado, porque crianças pequenas não tinham como; mas foi uma experiência muito válida, hoje eu encontro as meninas que eram do bordado já com filhos e tão bordando até hoje, então a gente se sente muito gratificada de saber que a gente passou alguma coisa. (coordenadora do integral) A implantação do horário integral está no bojo da iniciativa conjunta da Secretaria Municipal de Educação e a de Assistência Social, após pesquisa no bairro da necessidade de ali se implantar esse tipo de educação, considerando que: muitas crianças não tinham com quem ficar em casa, e a família também não tinha orçamento para pagar alguém para tomar conta dessas crianças. Antigamente as crianças 237 ficavam brincando na rua, na frente de casa, mas as coisas foram ficando cada vez mais complicadas, aí foi feito um trabalho de assistência social e chegou-se à conclusão de que havia necessidade de deixar essas crianças na escola em tempo integral, e a nossa escola foi contemplada, porque aqui tem três bairros que juntando dão um só bairro, então esse bairro ganhou essa escola de tempo integral. (diretora da escola) Mas a mudança efetiva ocorreu a partir da chegada da atual diretora da escola, a professora Elza Maria Bonatto, em 2004, que é do quadro estadual. A escola antes estadual foi municipalizada. Quem estava, permaneceu como professora do estado podendo ficar até se aposentar, explica a diretora. O grupo de professores entrevistados que compõem a equipe do integral é composto pelas professoras Maria Aparecida, Roberta Baptista, Dermites, Delmira e Marcelo. Todos os professores são da rede municipal e possuem curso superior. Marcelo dá aula de capoeira há aproximadamente 20 anos, sendo oito deles no integral dessa escola. Confirmam o que foi dito pela Secretaria de Educação e pela coordenadora do Projeto Escola de Tempo Integral, ao relatar que participam de 15 em 15 dias de um grupo de discussão na escola e na Secretaria de forma intercalada. Toda sexta-feira os alunos são dispensados, para essas reuniões que ocorrem somente com o grupo da escola ou com todos. A dispensa dos alunos é motivo de reclamação dos pais. Uma vez por mês há as oficinas na Secretaria para planejar e trocar experiências. A mãe da aluna 2 trabalha como faxineira na escola. A professora do ensino regular entrevistada tem formação em Pedagogia e especialização em Gestão Integradora, possuindo 10 anos de docência, está há 11 meses na escola Adwalter, atuando com uma turma de 2ª série do ensino fundamental. Como professora da rede municipal, teve uma experiência com escola de horário integral no CAIC denominado atualmente 238 EMEF Belmiro Teixeira Pimenta76. Conhece bem a experiência de horário integral da escola. ―Meus alunos (a maioria) frequenta, participamos de conselhos de classe‖, diz. Acredita que o integral interfere positivamente em seu trabalho em sala de aula. ―Acompanhamento dos alunos nos reforços, integração.‖ Conhece os professores que atuam na experiência, pois ―As ações acontecem no mesmo espaço das reuniões coletivas‖. Percebe diferença de desempenho nos alunos que participam das experiências de forma positiva. ―Entretanto percebo que ao final da semana os alunos estão mais cansados.‖ Explica que não teve participação na seleção dos seus alunos que participam da experiência. A escola ocupa um espaço bastante amplo e arejado, suficiente para as atividades do integral, mas não para abarcar o contingente total de alunos, diz a diretora. Para isso muitas mudanças deveriam ocorrer nas instalações físicas e no plano pedagógico, como a presença de um outro coordenador pedagógico como a professora Liana, coordenadora do integral existente. Em termos pedagógicos seria interessante que tivesse um integral ofertado aos alunos de quinta à oitava série, já que esses alunos ficam em casa na parte da tarde, fala a diretora. Falta profissional e espaço físico. O espaço físico é privilegiado, com área verde, com horta, campo de futebol, quadra, parque infantil e pátio arborizado. Possui 15 salas de aula, pátio interno com jardins, biblioteca, laboratório de informática e sala de vídeo. Estão construindo um posto de saúde no espaço escolar, o que provocou a derrubada de algumas árvores. 76 Com instalações amplas composta de dois pavimentos, a escola atende no horário matutino de 7h às 11:30 e no vespertino de 12:40 às 17:10 a alunos do 1º ano CBA à 8ª série e anexo o integral, que atende no turno vespertino, em média 322 alunos. (Revista Minha, 2009, p. 56) 239 Foto 07: Pátio interno Acervo: pesquisa As atividades desenvolvidas são as de arte, música, reforço escolar, reciclagem de material, de ―valores e resgate da autoestima”, tarefa de casa e capoeira. Meu nome é Roberta, trabalho com reforço, eles trazem tarefas aqui da escola regular e fazem aqui comigo o que eles têm mais dificuldade, e dou apoio às professoras quando necessitam. Sou professora, trabalho com a segunda e a terceira séries, são crianças que trazem como as outras todas uma história de vida; trabalhamos com complemento educacional, aprendizagem, e atividades criativas, artísticas, valores, resgatando a autoestima dessas crianças; é um trabalho realmente gratificante, porque é sempre um desafio, cada dia é um desafio que a gente encontra. Cada dia é um novo dia, a gente acha que eles nunca vão conseguir e depois a gente descobre o potencial de cada um deles. (professora Dermide) 240 Eu trabalho com primeiro e segundo CBA77 que agora já vai ser segunda série. Pra mim também é uma experiência, eles trazem muita tarefa de casa e eu ajudo no que posso, mas são meninos carentes, com muitos problemas, a gente tem que tentar entender cada um, essa individualidade; para mim também é muito gratificante trabalhar aqui. (professora Delmira) Foto 08:Sala de aula de reforço escolar Acervo: pesquisa O professor Marcelo conta que os alunos gostam de jogar capoeira, porém alguns não participam da atividade por questões religiosas, sendo este um desafio a ser transportado, pois para ele a capoeira ajuda na aprendizagem do aluno. Algumas crianças que não gostam ou até a religião não permite, aí a gente tenta botar que capoeira não é religião, é esporte, mas alguns não entendem. [...] algumas mães não deixam, aí eu peço para mãe vir conhecer, porque é ainda discriminada por causa da umbanda e do candomblé. (professor Marcelo) 77 Ciclo Básico de Alfabetização. A Prefeitura em 2009 inicia o processo de extinção do sistema de Ciclo no ensino fundamental. 241 Sendo uma atividade dinâmica e prazerosa para a maioria, a falta dela representa uma penalidade: ―às vezes a gente até dá uma penalidade para um, diz que não vai fazer capoeira se não tiver bom dentro da sala, e ele dá uma melhorada na sala, tem que existir essa troca.‖ (professor de capoeira) O integral tem material para ser utilizado nas atividades do tipo berimbau, bola de futebol e de vôlei, corda, rede de vôlei, entre outros. As crianças explicam que utilizam sucata para reaproveitamento e produzem coisas interessantes com elas. Demonstrando uma consciência ecológica diz a aluna 2: ―Além da gente estar reutilizando os materiais, a gente preserva a natureza, que em vez de ser jogado na natureza a gente transforma esse material que ia prejudicar em uma coisa que a gente usa.‖ Foto 09:Trabalhos produzidos pelas crianças e as professoras na oficina de artes De acordo com a diretora da escola, todo final de ano é feita uma avaliação pela equipe das atividades desenvolvidas, apontando-se os seus pontos negativos e positivos, verificando-se a necessidade de mudanças e continuidades das mesmas no ano seguinte, sempre considerando as 242 orientações da coordenadora da jornada ampliada da Secretaria de Educação, a professora Solange. Os alunos gostam das atividades, as consideram importantes porque aprendem e citam alguns exemplos, como a confecção de uma mandala com a qual fomos presenteadas. Nós já fizemos a árvore [de natal] com pau brasil, agora nós vamos enfeitar, nós já fizemos mandalas para botar em casa, pra gente lembrar como as professoras do integral foram boas e deram muitas atividades pra gente. [...] Eu mostrei um fuxico, um agulheiro, e minha mãe falou assim que tanta coisa que no mundo jogam fora pode prestar para fazer algo bom, para enfeitar nossas casas, e quantas atividades eu já ganhei, está tudo lá enfeitando. (aluno 3) A aluna 2 só tem um senão ao integral, é quanto à alimentação, que diz ser forçada a comer, mesmo sem querer. Reconhecendo a necessidade da alimentação, critica a imposição. A única coisa que eu não gosto do integral é que antes eles forçavam as pessoas a comer, se uma pessoa não queria feijão eles forçavam a comer o feijão, eu sei que às vezes tem que forçar pra pessoa se alimentar, mas muitas pessoas não gostam de alguma coisa, e não deviam forçar a comer o que não gostam. (aluna 2) Certamente a alimentação oferecida se situa na perspectiva da educação alimentar. Opinião diferente é expressa pelo aluno 3. Eu ficaria muito triste de não ficar mais no integral, de ficar na rua ou ficar em casa, aqui tem as tias que educam, ajudam no dever, ajudam na arte, e as serventes dão comida e as comidas são muito gostosas, e também eu ficaria muito triste de não ver essas professoras mais, que foram tão legais comigo. (aluno 3) Mas a aluna 2 sinaliza mais uma crítica ao integral, agora no aspecto pedagógico da aula de artes, que merece ser considerada e avaliada. 243 Eu acho que a tia não precisava fazer tudo igual ela faz, como quando a gente foi fazer a árvore de Natal, ela já cortou o papelão, eu queria que ela não desse cortado, eu queria fazer mais coisas ainda. Queria fazer com as minhas próprias mãos para aprender tudo. [...] Desde o começo até terminar. No Natal ela cortou, deu para gente tudo pronto e a gente só fez pintar e enfeitar, eu queria que a gente pudesse fazer desde o início. (aluna 2) Ela gostaria de ter outras atividades como natação (aluna 1) e jogos esportivos igual aos alunos de quinta à oitava que se apresentam jogando vôlei, diz a aluna 4. (10 anos, 3ª série) Funcionando no turno inverso da escola regular, a rotina escolar funciona da seguinte maneira: os alunos chegam às 6:50, vão para o refeitório, para o momento de reflexão e de oração; a seguir, se encaminham para a sala onde se realiza a primeira oficina, que vai de 7:20 até 8:20; o revezamento entre as turmas para a segunda oficina que acontece de 8:20 até 9:20. Pausa para o recreio onde é oferecida a merenda escolar, porém alguns trazem lanche de casa ou compram na cantina. Após esse momento, há a terceira oficina às 9:50; às 10:40 se inicia o banho para a troca de uniforme, já que usam dois uniformes, um para o integral e um para o regular. Logo após almoçam e escovam os dentes, para então haver o momento de relaxamento: espalham-se colchões na sala, coloca-se uma música e dormem até 12:20, quando bate o sinal acabando o período do integral e se encaminham à sala de aula do ensino regular, permanecendo na escola até aproximadamente as 17:30. Algumas ficam até às 18h, por dependerem do transporte escolar particular que só chega neste horário. Assim, ficam o dia inteiro na escola. As mães [...] se sentem mais seguras deixando a criança aqui na escola do que deixar em casa com qualquer pessoa. (diretora) Esse horário de funcionamento foi revisto pela Secretaria de Educação, que informa existir dessa forma apenas nessa escola, já tendo sofrido modificações nas outras cinco escolas que oferecem horário integral. O motivo alegado é a percepção de que a criança que estuda de manhã no integral 244 rende pouco na sala de aula do ensino regular à tarde, enquanto que o inverso não acontece. Assim a ideia é que também nessa escola esse horário de atividades seja invertido. Então nós estamos estabelecendo isso, estamos conversando com as escolas, só o Adwalter que ainda é assim, ele estuda à tarde na sala comum de ensino regular e de manhã ele tem as atividades complementares, lá ainda é assim, mas nas demais nós trocamos, chega de manhã, ele tem um lanchinho e aí ele vai direto para sala regular, aí 11:30 é que ele sai, almoça, escova dente, descansa um pouco e aí ele vai para as oficinas e atividades de reforço. (secretária de Educação) No integral, os alunos são distribuídos por três turmas durante a parte da manhã: A, B e C. Na turma A, estão os alunos menores, do primeiro e segundo período; na turma B, os do primeiro e segundo ano do Ciclo Básico de Alfabetização; e na turma C se encontram os alunos da segunda e terceira série do ensino fundamental. O dia de atividades no integral é dividido em três horários, por exemplo, enquanto a turma A está na capoeira, a turma B está na oficina de artes e a C no reforço escolar, de modo que todos passam por todas as atividades porque cada uma delas ocorre uma vez só por semana, com exceção da recreação, que acontece duas vezes. As atividades são desenvolvidas também na forma de projetos, como os pertinentes ao folclore, à família, ao Natal, à gentileza, trabalhados em 2009. No final da visita a equipe foi presenteada com alguns produtos das atividades/projetos. No final de cada projeto há a culminância, quando os pais são convidados a comparecer à escola para conhecer o resultado, sendo apresentados os trabalhos desenvolvidos. Uma das professoras conta que muitas vezes os pais choram de emoção e alguns têm os trabalhinhos de seus filhos guardados desde que entrou no integral. Conforme a diretora, o Projeto Escola de Tempo Integral integra o projeto político-pedagógico da escola que tem como perspectiva a formação do desenvolvimento intelectual e social do aluno na perspectiva da educação 245 integral. Para ela deve se trabalhar com “a criança uma boa formação, um desenvolvimento educacional, de respeito, você trabalha a consciência da partilha, do respeito ao colega, da higienização; então ela tem uma globalização‖. E o tempo ampliado ajuda a se trabalhar não apenas ―a questão social da criança [...] também a questão de rendimento escolar.‖ De acordo com a coordenadora do projeto, no PPP da escola está se elaborando uma nova parte para integrar melhor o integral. Para manter suas atividades a escola também faz algumas parcerias com a comunidade local. Por exemplo, toda sexta-feira recebe doações de pães de uma padaria do bairro. Quando realiza festas, também solicita doações da comunidade, sendo atendida. Porém: nós trabalhamos muito sozinhos, com recursos próprios, nós achamos que ainda poderia haver participação de outros órgãos. Já trabalhamos com algumas empresas aqui do bairro, mas hoje com a evolução de muitas fábricas, de muitos outros projetos, se dividiu muito essa questão dessa partilha, de poder contar com outras entidades. (diretora da escola) No discurso das professoras dessa escola, vai aparecer a pouca participação da família no acompanhamento das crianças na escola também como uma dificuldade a ser solucionada, chegando ao ponto de alguns pais trocarem o número de telefone e celular sem avisar à escola. Esse comportamento acarreta problemas como o já ocorrido de alunos terem passado mal e a escola não poder entrar em contato com a família de imediato. Por outro lado, para algumas professoras isso pode se traduzir na total confiança que a família deposita na escola. E se muitas mães não reconhecem o trabalho da escola e do filho, outras ―vêm só para agradecer mesmo, depois de tudo, reconhecendo o trabalho que foi desenvolvido‖, no integral, diz uma das professoras entrevistadas. A coordenadora do projeto acredita que essa ausência dos pais é parte de sua própria condição de vida. A falta de parceiros que auxiliem o projeto financeiramente, visando sua maior abrangência, também é outra dificuldade colocada. Além da necessidade 246 de se construir uma parceria mais efetiva entre as professoras do regular com as do integral. O professor de capoeira acredita que se as crianças tivessem uma melhor alimentação e atendimento psicológico, ou mesmo psiquiátrico, o trabalho desenvolvido teria uma maior eficácia, pois ―tem criança que precisa‖. Relata que em 2008 houve atendimento psicológico para os pais, mas não para as crianças. O aluno 3 aponta uma questão que vale a pena sinalizar, ele é negro e se ressente e diz do racismo: ―os meninos ficam me maltratando, ficam me chamando de preto‖, inclusive uma menina também negra. Os alunos apontam como positivo o fato de estudar de manhã e à tarde, quando a professora ensina, eles já sabem. Outro ponto é o fato de a mãe não precisar se preocupar enquanto estão na escola, pois lá quando brigam a tia corrige. 3. CONTRIBUIÇÕES E DESAFIOS DO PROJETO Após nove anos de trabalho, o pessoal da Secretaria de Educação acredita que já há uma valorização por parte do professor em relação a essa experiência em curso, e alguma mudança em relação à concepção inicial sobre ele, principalmente devido à contratação de novos professores para nele trabalhar: Hoje, depois de nove anos de trabalho, a gente já percebe a valorização desse tempo da criança na escola, e percebemos também que a maior dificuldade está naqueles que são efetivos, que já tinham um histórico com regime de cooperativa. Não sei se onde você passou alguém falou dessa história, então esses ainda são os mais resistentes, mas já começam depois de nove anos de trabalho e formação, sempre trazendo alguém para trabalhar a questão do educador social, indicando leituras, então a gente já percebe um avanço significativo. É construção, e percebemos que já avançamos muito, nós não estamos focados na produção e sim no desenvolvimento das habilidades e competências, 247 enfim, o grupo já não é tão resistente a isso. Já abriram espaço para outras artes, que eles eram muito focados só na tapeçaria, hoje já pensam em teatro, em dobraduras, em pinturas. (secretária de Educação) Para a secretária de Educação, não basta apenas deixar a criança mais tempo na escola, esse tempo precisa ter qualidade, ―com profissionais de muita responsabilidade naquilo que nós estamos propondo que é o aprender por meio do esporte, por meio da arte‖. Porém, reconhece que a ampliação da jornada escolar é um projeto muito dispendioso, com problemas de recursos humanos e financeiros dentro do que se propõem, como, por exemplo, de só trabalhar com ―profissionais capacitados‖ e fornecer mais de duas refeições diária e lanches, entre outras necessidades, por isso o Projeto Escola de Tempo Inteiro só abarca aproximadamente 10% do total do alunado municipal. Para a coordenadora da jornada ampliada, a professora Solange, por ser uma experiência em curso, muito ainda se há de fazer e ampliando as necessidades coloca melhorar os espaços onde as experiências funcionam, pois muitas ainda acontecem em espaços adaptados dentro das escolas. Para ela, a relação com as famílias e mesmo com as escolas ainda precisa ser conquistada, apesar de haver muita procura por parte da família, assim como das escolas. Embora nem todos os gestores escolares estejam sensibilizados para o projeto, reivindicam muito, inclusive, como não podemos atender a todas ―elas ficam atrás de mim pedindo atividades extras, dizendo que eles têm lá uma quadra ou um espaço e querendo que eu arrume professor de capoeira e futebol, então a reivindicação é muito grande‖. (professora Solange) Outra questão é a articulação das experiências de horário integral com os projetos pedagógicos das escolas, o que está para ser construído efetivamente, ressaltando que está há pouco tempo no cargo. Há muita coisa para ser feita, diz. Esse ano a gente está começando essa discussão para poder construir a proposta pedagógica para o projeto. Eu comecei esse ano aqui, eu já era coordenadora do tempo integral do Marista, fui diretora de escola, fui coordenadora pedagógica, aí fui convidada para esse cargo e assumi esse ano, então estou também conhecendo muita coisa, estou me envolvendo, me 248 inteirando agora do funcionamento do município, existe uma proposta que eu vi que já foi construída, mas que precisa ser modificada, repensadas algumas questões, a gente está discutindo o melhor caminho, o que mais vai contribuir no sentido de montar um documento para embasar esse projeto. (coordenadora da jornada ampliada/SEMED) Considerando o entendimento do tipo de clientela que o aluno da escola integral tem que possuir – a de estar em situação de vulnerabilidade social, a coordenadora da experiência coloca como um dos desafios a repensar é se a criança que frequenta esse espaço é realmente o cliente de uma escola de tempo integral, se precisa estar ali. (coordenadora do AABB Comunidade) No discurso das professoras da EMEF Edwalter Ribeiro Soares, vai aparecer a pouca participação da família no acompanhamento das crianças na escola também como uma dificuldade a ser solucionada. Esta também é uma questão para a coordenadora do Programa AABB Comunidade que em sua realidade aponta a pouca participação da família dos alunos como um problema, o que contrasta com a opinião da coordenadora do CEJA, que destaca a participação dos pais como positiva: ―Os pais são carentes, são trabalhadores, ou assalariados, ou autônomos, mas que são do tipo pedreiros ou ajudante de pedreiro; bem carentes‖, mas segundo ela frequentam as reuniões e ―são muito participativos‖. Diz a coordenadora do Centro: ―Então eu nunca tive problemas com os pais, se eu preciso chamar eles vêm, quando a criança tem algum problema que a família tem que nos ajudar e nós ajudarmos a família, então os pais estão sempre presentes‖ (coordenadora do CEJA). Na linha da falta de recursos, as professoras do integral da EMEF Edwalter Ribeiro Soares colocam como dificuldade a falta de parceiros que auxiliem o projeto financeiramente, visando sua maior abrangência. A secretária de Educação coloca como fator positivo a melhora do IDEB; a participação da família que vem aumentando através dos conselhos escolares; o fato de não haver criança pedinte pela rua. 249 As professoras entrevistadas78 colocam como fatores positivos a melhoria no comportamento das crianças que participam da jornada ampliada, principalmente no social, na convivência com o colega e no respeito às diferenças; aprendizagens ocorridas que são replicadas na família. Como exemplo, a coordenadora do Programa AABB Comunidade cita a produção de um livro de receitas com casca de abóbora e de uma mandala com restinho de retalho. Mas a aprendizagem cognitiva através do reforço escolar também vai aparecer como positiva tanto para as professoras quanto para as alunas. Para a aluna entrevistada, participar do Programa AABB vem proporcionando melhoria em sua aprendizagem, devido à ajuda nos deveres de casa e no seu comportamento escolar. [...] antes de entrar aqui eu não fazia dever de casa não, eu nem queria saber da escola, eu levava ocorrência todo dia. Depois que eu entrei aqui na AABB, eles ajudam a gente, eu parei de levar ocorrência, eu não sou mais bagunceira, porque eu era, eu ia pra coordenação direto, agora eu sou a santinha da sala. A fala da secretária de Educação sobre o que pensa da educação integral revela mais uma experiência ligada ao Projeto de Escola de Tempo Integral – a Pedagogia da Alternância, na área rural de Colatina, ainda um desafio. [...] a educação integral para nós, é a escola que faz isso, a educação que faz isso, que desenvolve hábitos, valores, habilidades, competências; e a gente percebe isso de forma muito bacana até no desenvolvimento da oralidade desses meninos. Houve uma inauguração aqui no Ceasa e uma criança nossa da área rural que fica no integral, é uma alternância, nós temos 80 crianças, acho que a Heloisa não colocou essas 80 crianças aqui, da escola agroecológica, ficam o dia todo. 78 Estou me referindo no feminino devido a, do conjunto de entrevistas realizadas com os docentes, apenas um ser do sexo masculino – o professor de capoeira da EMEF Edwalter Ribeiro Soares. 250 A Pedagogia da Alternância é uma experiência ainda inicial em Colatina, contando com 80 alunos em 2009. Nela o aluno estuda uma semana na escola com os monitores e uma semana ele fica em casa. A dificuldade encontrada é quanto à permanência dos profissionais que foram formados para essa pedagogia. A escola e os profissionais são da Prefeitura. Foi feito um concurso específico para lá. Uma nova experiência de escola de tempo integral está em forma de projeto, que se consolidará em 2010, também se apresenta como um outro desafio, mas ao mesmo tempo como solução. Será inaugurada a Escola Municipal de Ensino Fundamental Airton Senna, localizada em um dos bairros mais carentes de Colatina: ―[...] está sendo construída com toda a estrutura que uma escola precisa, com laboratórios de ciência, de informática, com auditórios, com sala interativa, com quadras.” (secretária de Educação). Ela será dirigida por uma das ―melhores assessoras [...] da Secretaria‖, diz a secretária de Educação. Está sendo construída para atender em torno de 750 alunos em jornada ampliada. Continua dizendo que ―é um projeto grandioso, o prefeito está encantado, ele quer que isso aconteça‖. Como parceiro terá o Ministério Público, que está montando lá um projeto chamado ―bairro feliz‖ em parceria com a polícia militar, da sociedade, das empresas, voluntários, esportistas, para fazer várias atividades aproveitando o espaço da escola no final de semana e à noite, será uma escola aberta à comunidade. [...] nós estamos fazendo o que a gente acredita que é o melhor para aquele bairro, é um bairro de periferia mesmo, então nós queremos formatar que os alunos dos anos iniciais vão ficar direto, horário integral; os de quinta à oitava a gente precisa tomar muito cuidado para atender ao interesse desses meninos, aí nós vamos fazer a chamada, nós vamos fazer as oficinas no contraturno, as mais diferentes modalidades, capoeira, caratê, música, dança, e eles vão se inscrever, vão fazer a opção, os maiores, os de quinta à oitava, senão a escola pode virar um castigo para eles. (secretária de Educação) 251 Na visão de que todos os envolvidos no Projeto Escola de Tempo Integral sejam profissionais contratados pela Secretaria, principalmente os professores, perguntou-se se eles serão contratados em horário integral, a secretária responde colocando algumas questões ainda a solucionar: Nós estamos ainda um pouco angustiados, porque nós temos um sindicato que é muito forte aqui, e ele está me apertando para que eu abra essas vagas para os professores da rede, nós temos professores da rede, mas nós estamos um pouco temerosos porque é uma escola com uma modalidade diferente e a gente queria fazer um processo diferente, mesmo abrindo para rede, mas passar por um processo seletivo, a nossa idéia é essa, pegar os professores da rede e fazer um processo. Nós estamos amadurecendo isso pra não criar um conflito com o sindicato. (secretária de Educação) A ideia é a de contratar o professor no regime de 40 horas em dedicação exclusiva, mas isso ainda é uma questão a ser decidida. [...] A escola está ficando linda, mas a nossa maior preocupação é com o pessoal, nós estamos costurando, vamos constituir uma equipe gestora, um diretor pedagógico, um diretor administrativo, coordenadores pedagógicos, coordenadores disciplinares. Quanto ao Projeto Escola de Tempo Integral, finaliza a secretária: [..] essa é uma experiência que está sendo construída, está sendo costurada a cada dia um pedacinho, a cada dia a gente vai avaliando e percebendo aquilo que precisa mudar e o que pode permanecer, temos certeza que o caminho é esse, que a criança precisa ficar com a família sim, que bom quando tem a família, mas as crianças que não têm essa possibilidade têm a escola, não é só a questão da pobreza, tem a mãe que é trabalhadora e tal. A gente vê que o tempo maior na escola é o caminho certo para melhorar o desenvolvimento integral da criança. 252 De modo geral os desafios ao projeto Escola de Tempo Integral na visão da Secretaria de Educação a ser vencidos são: (a) espaços adequados para realização das atividades; (b) uma maior participação das famílias; (c) conseguir que as atividades do horário integral sejam integradas aos PPP das escolas; (d) que não se estabeleçam diferenças entre o aluno da escola regular e o aluno da jornada ampliada/integral; (e) acabar com o entendimento de que as experiências são dinheiro jogado fora; e (f) que não haja divisão entre os professores. Até então não, agora, esse ano, que a coisa já está mais efervescente. Havia essa resistência, eu tive que brigar muito para que eles pudessem entender que aqueles alunos eram alunos nossos da rede, que eram alunos da escola, que não queria mais ouvir falar ―meninos do Caic‖, ―meninos do CEJA‖, havia uma divisão muito grande, eles não incluíam os meninos de jornada ampliada e integral, e achavam que aquilo ali era dinheiro jogado fora, que podia dar em aumento para os professores, e aí já faziam divisão dos professores também dos professores de ensino regular.[...] Os diretores se dividiam muito, eles não queriam se envolver muito com os meninos do integral, hoje a gente felizmente já percebe o envolvimento de que aquele menino é aluno da escola, não é o menino do lado de cá e o menino do lado de lá não, aquele é o menino da escola Adwalter Ribeiro Soares, havia essa divisão. Nós estamos conquistando isso, então finalizando o ano de 2009 a gente já termina com um pouco mais de alegria porque já percebe que a maioria das escolas já veem que aquele aluno é aluno da escola, só que ele está ali em tempo maior, só isso. (secretária de Educação) Referência Revista Minha. Especial Educação 2009. Colatina – ES, setembro 2009. 253 VI – NOVA FRIBURGO - RJ Lígia Martha C. da Costa Coelho Ana Maria Villela Cavaliere Cláudia de Oliveira Fernandes Lúcia Velloso Maurício Nailda Marinho da Costa Bonato FOTO 1. Estandarte confeccionado por alunos do projeto Tempo de ser Feliz (acervo das pesquisadoras) (...) Pra mim foi uma experiência muito boa, eu adoro isso aqui. Minha mãe até costuma falar – “mas você vai pra muito longe, é muito longe... e agora estando grávida, é cansativo”... mas não, sabe, eu falo: “só saio dali se a prefeitura ou o estado me mandar embora. Ou só se a escola aqui acabar...” (Entrevista 1 – professora da Escola Municipal CEFFA Rei Alberto I, que trabalha com a experiência da Pedagogia da Alternância). 254 Foto 02- Caminho para a Escola Municipal CEFFA Rei Alberto I (acervo das pesquisadoras) 1.INTRODUÇÃO 1.1. O MUNICÍPIO Dentro da região Sudeste, a UNIRIO ficou responsável pelo trabalho quantitativo e qualitativo referente aos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo79. Especificamente no que tange ao estado do Rio, é importante lembrar que, dos 92 municípios que o compõem, dezessete enviaram instrumento de coleta de dados informando que desenvolviam experiências de jornada ampliada. O município de Nova Friburgo destacou-se dos demais por apresentar, naquele instrumento, o maior número de experiências (cinco), a saber: Pedagogia da Alternância; Pedagogia Waldorf; Turma Integral; Tempo de ser Feliz e AABB Comunidade. Essas propostas tinham de 31 a 144 meses de existência e envolviam 21 das 99 escolas municipais, ou seja, aproximadamente 23% do total daquela rede de ensino. O questionário preenchido pela diretora do Departamento de Educação da Secretaria Municipal de Educação de Nova Friburgo, à época, informava ainda que três dessas experiências funcionavam em tempo integral (oito horas), enquanto duas outras estavam com uma pequena ampliação de jornada (quatro horas e meia a cinco horas de carga horária diária); três desenvolviam 79 O estado de Minas Gerais, que também pertence à região Sudeste, ficou sob a responsabilidade da UFMG. 255 as experiências mescladas às aulas regulares e integravam seus projetos pedagógicos e todas trabalhavam com professores (concursados ou contratados). Nesse sentido, mesmo não contemplando um quantitativo significativo de alunos, o fato de serem várias experiências, cuja diversidade era visível nas informações prestadas, chamou a atenção das pesquisadoras e Nova Friburgo foi, assim, o município escolhido, dentro do estado do Rio de Janeiro, para que a visita de campo se concretizasse80. Situado na região serrana do estado do Rio de Janeiro, e distando aproximadamente 142 quilômetros da capital, o município de Nova Friburgo possui área total de aproximadamente 933 quilômetros quadrados, altitude de 846 metros e população estimada em 178.653 habitantes. Entre suas atividades econômicas mais importantes destacam-se o turismo, a indústria de moda íntima, a agricultura e o setor metal mecânico. Seu PIB, em 2009, era de R$ 8.118,20 per capita (Fonte: <www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1>;<www.ibge.gov.br/home/estatis tica/ economia/pib municipios/2003_2007/tab1.pdf>) Limitando-se com os municípios fluminenses de Cachoeiras de Macacu, Silva Jardim, Casimiro de Abreu, Macaé, Trajano de Morais, Bom Jardim, Duas Barras, Sumidouro e Teresópolis, Nova Friburgo está incrustado na Mata Atlântica. Seu clima frio e seco intensifica o turismo de inverno. Nesse sentido, possui a maior rede hoteleira do estado, oferece um diversificado roteiro gastronômico e favorece a realização de variados e bucólicos passeios, além da prática de esportes radicais. (Fonte: www.pmnf.rj.gov.br/dados_n.php;www.pmnf.rj.gov.br/turismo_conheca.php) 80 A escolha do município do estado do Rio de Janeiro a ser visitado foi da pesquisadora Nailda Bonato. 256 Fonte: http://www.kuatro.com.br/images/mapa.jpg Sua história inicia-se em 16 de maio de 1818, quando D. João VI, visando ampliar o contingente populacional do país, delegou a Sebastião Nicolau Gachet, suíço de nascimento, que estabelecesse uma colônia de famílias suíças na Fazenda do Morro Queimado. Com o tempo, famílias de outras nacionalidades foram se juntando ao rincão primeiro, constituindo um núcleo maior, de propriedades rurais. Em 1871, a localidade tornou-se uma vila e em 1890 foi elevada à categoria de cidade. No início do século XX, sua economia cresceu e o turismo transformou-se também em mais uma fonte de renda para o município. (Fonte: http://www.pmnf.rj.gov.br/turismo_historia.php) 1.2. A PESQUISA: METODOLOGIA, INSTRUMENTOS E DINÂMICA EM CAMPO Assim como nas demais visitas realizadas, os quatro Roteiros de Entrevista elaborados pelo grupo interinstitucional de pesquisadores foram levados para a investigação de campo. O objetivo desses roteiros foi o de constituir um conjunto de questões que possibilitasse o detalhamento da implantação e implementação da(s) experiência(s) e, quando da elaboração dos relatórios, auxiliasse cada dupla nas análises a serem efetuadas. 257 No entanto, desses quatro roteiros de entrevista, apenas dois foram efetivamente utilizados neste município, a saber, o preparado para (1) gestores municipais de educação e/ou responsáveis pela(s) experiência(s) e gestores das escolas a serem visitadas e o de (2) profissionais que atuavam diretamente com a(s) experiência(s). Em nenhuma das três visitas realizadas foi possível organizar um grupo de pais e responsáveis que pudesse acrescentar detalhes sobre a implantação das experiências que se conheceu. Já em relação aos alunos, na Escola Municipal Batista foi possível entrevistar dois discentes, em conversa informal e na presença da diretora, sem gravação de suas falas a respeito da participação na experiência denominada Tempo de ser Feliz. Os primeiros contatos com o município foram realizados por meio telefônico e por email, com a professora Mônica Monerat, da Secretaria Municipal de Educação, que informou que, das cinco experiências citadas no instrumento de coleta de dados81, duas não estavam funcionando mais. Sendo assim, a pesquisa aconteceria a partir da visita a escolas que estavam trabalhando com as três outras propostas, a saber, Pedagogia da Alternância; Pedagogia Waldorf e Tempo de ser Feliz. Essa mesma funcionária agendou, de comum acordo com as pesquisadoras, para a primeira semana do mês de novembro de 2009, uma visita à Secretaria Municipal de Educação e a três escolas da rede: Escola Municipal CEFFA Rei Alberto I, que trabalha com a Pedagogia da Alternância; Escola Municipal Cecília Meireles, cujo trabalho se baseia na Pedagogia Waldorf e Escola Municipal Batista, uma das atendidas pelo Tempo de ser Feliz. Conforme decisão tomada anteriormente, cinco das seis pesquisadoras do NEEPHI – Núcleo de Estudos – Tempos, Espaços e Educação Integral participaram desta primeira visita de campo realizada pelo grupo. O objetivo foi o de, a partir da investigação de campo em Nova Friburgo – município do estado do Rio, portanto mais próximo do local de trabalho das pesquisadoras – 81 No questionário constava ainda Turma integral e AABB comunidade. 258 avaliar os possíveis desafios e os pontos convergentes dessas visitas, visando contribuir para as sete pesquisas de campo que se seguiram. Fizeram parte da equipe as professoras Ana Maria Cavaliere, do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRJ e vice-coordenadora do NEEPHI; Claudia Fernandes, atual coordenadora e professora do Programa de PósGraduação em Educação da UNIRIO; Lígia Martha Coelho, igualmente professora do Programa da UNIRIO, e coordenadora do NEEPHI; Lúcia Velloso Maurício, professora e vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da FFP/São Gonçalo e Nailda Marinho da Costa Bonato, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UNIRIO. Todas as pesquisadoras têm larga experiência com os estudos relacionados a jornada escolar e formação integral, bem como de elaboração de artigos de divulgação dessas temáticas. O grupo de pesquisadoras optou por realizar as visitas em subgrupos; foram quatro dias de trabalho no município de Nova Friburgo, com duas visitas à Secretaria Municipal de Educação, a primeira com as professoras Ana Maria, Claudia e Lúcia; e, posteriormente, as professoras Lígia Martha e Nailda. Para as escolas municipais CEFFA Rei Alberto I, foram as professoras Ana Maria, Claudia e Lúcia; para a Cecília Meireles, professora Ana Maria, e para a Batista as professoras Lígia Martha e Nailda. Por ocasião das visitas, foram utilizados os roteiros de entrevista já citados, no sentido de servirem de base às entrevistas gravadas, quando houve permissão para fazê-lo82. As pesquisadoras também fizeram uso de observações, anotações em diário de campo e tiraram fotos dos ambientes e instituições, quando autorizadas pelos gestores escolares. 82 A diretora da Escola Municipal Batista não autorizou a gravação da entrevista concedida às pesquisadoras. 259 1.3. EDUCAÇÃO NO MUNICÍPIO DE NOVA FRIBURGO E A SEMED Foto 3. Plantações na Escola Municipal CEFFA Rei Alberto I (acervo das pesquisadoras) Dados do IBGE, atualizados até o ano de 2008, informam que o município de Nova Friburgo possui um total de 167 escolas de Ensino Fundamental, das quais 93 são municipais, 24 estaduais e 50 pertencentes à rede privada. Nestas instituições, estão matriculados 27.547 alunos, sendo 13.905 nas escolas públicas municipais; 726 docentes trabalham com esse contingente discente, do total de 1.842 profissionais existentes no município. (Fonte consultada: www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1) Em relação ao IDEB, o quadro a seguir apresenta a situação do município de Nova Friburgo, comparado aos IDEBs nacional, do estado do Rio de Janeiro e de sua capital: QUADRO 1. IDEB de Nova Friburgo, em relação aos IDEBs do estado do Rio de Janeiro, da capital e do Brasil IDEB - Anos Iniciais IDEB – Anos Finais 2005 2007 2005 2007 260 BRASIL 3,8 4,2 Estado do Rio de Janeiro 3,7 3,8 Rio de Janeiro (capital) 4,2 4,5 3,7 4,3 Município de Nova Friburgo 4,6 4,2 4,2 4,0 Fontes: Prova Brasil e Censo Escolar ; http://ideb.inep.gov.br/Site/ Analisando o quadro anterior, verifica-se que os IDEBs para o Ensino Fundamental observados em 2007, no município, sofreram um decréscimo, se comparados aos seus próprios IDEBs, no ano de 2005 – quatro décimos nos anos iniciais e dois décimos nos anos finais desse nível de ensino. Mesmo assim, seus índices são maiores, ou pelo menos empatam com os observados no Brasil, no estado do Rio de Janeiro e na capital, esta, no índice referente ao ano de 2005. Se o olhar investigativo se detiver nos índices das escolas que foram visitadas no município, o quadro 2, a seguir, deixa algumas dúvidas: Quadro 2 – Escolas municipais visitadas em Nova Friburgo e seus respectivos IDEBs Escolas municipais visitadas em Nova IDEB - Anos Iniciais Friburgo E.M.Batista 2005 2007 5,1 4,7 (5,1) E.M.Cecília Meireles Não divulgado E.M. CEFFA Rei Alberto I Não divulgado Município de Nova Friburgo 4,6 4,2 (4,7) Conforme se pode observar em relação à Escola Municipal Batista, verificase que seu IDEB, nos dois anos, foi maior do que o do município de Nova Friburgo, havendo, no entanto, um declínio de 2005 para 2007, o que também se pode constatar nesse índice, no próprio município. 261 Contudo, das três instituições escolares visitadas, apenas a Escola Municipal Batista teve seu IDEB divulgado. Como o INEP, órgão federal responsável por esse trabalho, apresenta em sua página alguns critérios para essa não divulgação, e levando em consideração informações recolhidas durante a pesquisa, provavelmente este fato se deu porque (1) a E.M. CEFFA Rei Alberto I é uma escola rural; (2) as E.M. CEFFA Rei Alberto I e E.M. Cecília Meireles teriam menos de 20 alunos matriculados nas séries avaliadas, conforme declarado no Censo Escolar 2006; (3) ambas seriam escolas em que a rede de ensino solicitou revisão nos dados declarados no Censo Escolar 2007 ou, ainda, (4) ambas tiveram menos de 10 alunos comparecendo àquela avaliação.Fonte:http://sistemasprovabrasil2.inep.gov.br/ProvaBrasilResultados/ home.seam Esta situação não possibilita, assim, um acompanhamento das três instituições escolares visitadas, em relação ao desempenho naquele índice que, atualmente, baliza várias das ações educacionais no país. No entanto, a partir das inferências iniciais apresentadas, algumas questões nortearam a ida ao município: Quais são os pressupostos teóricos e metodológicos que norteiam as experiências apresentadas em Nova Friburgo? Levando em consideração a mudança ocorrida na gestão municipal, como essas propostas estarão se desenvolvendo? A Secretaria de Educação de Nova Friburgo não possui uma página na Internet, ou seja, as informações específicas que veicula são acessadas por meio da página da prefeitura do referido município. Deste modo, os dados apresentados nesta seção são decorrentes de informações recolhidas durante as entrevistas concedidas pelas professoras Mônica Monerat, subsecretária, e Maria Elena, assessora da secretária municipal de educação, professora Ledir Ferreira Porto, que não pôde receber as pesquisadoras por conta de tarefas agendadas anteriormente83. 83 A subsecretária também não autorizou a gravação da entrevista que concedeu. 262 Nas falas, verificou-se que as entrevistadas, devido à mudança de governo, ainda não estavam totalmente familiarizadas com os detalhes de funcionamento das propostas de jornada ampliada que existiam na rede municipal de ensino. Segundo a assessora da secretária, (...) Então, o primeiro momento é onde está quem, quem é quem, quem está em que escola, quem são as pessoas ... porque é uma rede com mais de duas mil pessoas. É uma rede significativa, com 133 escolas, só de creche são 34. (Entrevista 6 – assessora da Secretaria Municipal de Educação) Mesmo assim houve um esforço, por parte de ambas, no sentido de apresentar as três experiências que ainda funcionam no município, pois como já relatado, , duas das cinco experiências apresentadas no instrumento de coleta de dados já não vigoravam nas escolas. As propostas Turma Integral e AABB Comunidade, que atendiam, respectivamente, alunos de uma e de quatro escolas da rede, estavam desativadas, continuando a acontecer as experiências Pedagogia da Alternância, Pedagogia Waldorf e Tempo de ser Feliz. Segundo a subsecretária, professora Mônica, o projeto Waldorf mantinha-se em duas escolas da rede – a Escola Municipal Vale da Luz e a Escola Municipal Cecília Meireles. Já o projeto Tempo de ser Feliz era conhecido; no entanto, não possuía ainda informações mais precisas sobre o seu funcionamento, nem o número exato de escolas que essa experiência atendia. Em relação a projetos e ações da atual gestão, a professora Maria Elena referiu-se a constantes idas da secretária e equipe às escolas da rede, no intuito de conhecer de perto cada realidade; à necessidade de resolver problemas jurídicos que vêm impossibilitando a realização de concursos públicos para professor e à elaboração do PDE de cada escola: ... Então tomar pé de tudo isso, problemas de obra, de infraestrutura, de professor, de diretor, de concursos (...) porque nós temos um concurso de 99 que não resolve, está no Supremo há dez anos e a gente não consegue resolver o problema do concurso. Tem o concurso de 2007 que não pode suprir as carências, porque o de 99 não resolve (...) são 263 situações muito complicadas. Então nós temos professores contratados mensalmente, todo mês acaba contrato, renova contrato... é uma loucura! (Entrevista 6 – assessora da Secretaria Municipal de Educação) (...) tudo isso envolve muito tempo da gente. E mais os PDEs, nós estamos implantando o PDE em todas as escolas, independentemente dos recursos do MEC. Então é muito ao mesmo tempo, e é por isso que a secretária está saindo todos os dias, ela está indo escola por escola. (Entrevista 6 – assessora da Secretaria Municipal de Educação) Objetivando detalhar as três experiências que vêm funcionando em Nova Friburgo, passa-se a descrevê-las, apresentando inicialmente o histórico de cada uma dessas propostas e, em seguida, seu funcionamento nas escolas visitadas. 2. AS EXPERIÊNCIAS Nesta seção, optou-se pela apresentação individual de cada experiência, no sentido mesmo de seu detalhamento. A sequência levou em consideração a apresentação do projeto mais antigo para o mais novo implantado no município de Nova Friburgo. 2.1. PEDAGOGIA DA ALTERNÂNCIA “A continuidade da ação formadora na descontinuidade das atividades” (Ibelga – Instituto Bélgica-Nova Friburgo) 264 Foto 4. Entrada da Escola Municipal CEFFA Rei Alberto I (acervo das pesquisadoras) 2.1.1. HISTÓRICO E DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA O histórico da experiência denominada Pedagogia da Alternância e, como consequência, da escola municipal que a adota, em Nova Friburgo, pode ser elaborado a partir de diversos materiais e instrumentos, a saber: (1) fôlderes do Instituto Bélgica-Nova Friburgo / Ibelga e da União Nacional das Escolas Famílias Agrícolas do Brasil / UNEFAB; (2) apostilas do Ibelga sobre seu histórico; a legislação pertinente e os instrumentos pedagógicos que utiliza; (3) caderno didático do 1º. bimestre de 2009 do CEFFA Rei Alberto I e, ainda, (4) entrevistas concedidas pelos professores e pelo orientador pedagógico do CEFFA Rei Alberto I. No caderno didático do 6º. ano – 1º. bimestre/2009 – da Escola Municipal Centro Familiar de Formação por Alternância (CEFFA) Rei Alberto I, encontrase um texto curto, de uma lauda, que sintetiza a história da instituição. Por seu intermédio, verifica-se que foi fundada com o nome de Fazenda Escola Rei Alberto I, em 15 de setembro de 1993. Nessa época, oferecia o segundo 265 segmento do ensino fundamental a um quantitativo de 30 alunos. Sua constituição deu-se por meio de ―convênio celebrado entre o Instituto Bélgica – Nova Friburgo – Ibelga e a ONG belga DISOP, que diligenciou o subsídio financeiro proporcionado pelo governo da Bélgica e pela Comunidade Econômica Europeia‖ (caderno didático, 2009, p.3). Esse convênio foi celebrado com o objetivo de implantar ―Centros Familiares de Formação por Alternância – CEFFAs – que utilizam a Pedagogia da Alternância‖ (fôlder Ibelga, s/d). No ano de 2006, a escola passou a se denominar Escola Municipal Centro Familiar de Formação por Alternância (CEFFA) Rei Alberto I. Em 1998, foi fundado o Colégio Estadual Agrícola CEFFA Rei Alberto I, que funciona na mesma área, em outro prédio, atendendo a alunos do ensino médio com educação profissional. As duas instituições escolares ocupam uma área rural de 273 mil metros quadrados, dentro do município de Nova Friburgo. Segundo os materiais anteriormente citados, a Pedagogia da Alternância é um ―sistema educativo surgido na França, em 1935, e que chegou ao Brasil em 1968‖ (fôlder Ibelga). Esse sistema parte do pressuposto de que ―o processo de ensino e aprendizagem desenvolve-se a partir da experiência e da realidade concreta dos educandos, onde o meio sócio-profissional-familiar representa o eixo principal desta proposta pedagógica‖ (apostila Ibelga, p.2). Nesse sentido, entende-se a necessidade de grandes espaços/instituições rurais – o Centro Familiar de Formação por Alternância (CEFFA) – funcionando ―em regime de Alternância, que consiste na organização da formação em espaços e tempos diferenciados, alternando períodos no centro educativo e períodos no meio sócio-profissional-familiar, variando sua duração de acordo com as peculiaridades de cada região‖ (fôlder Ibelga). Os CEFFAs – e, no caso, a escola municipal visitada – tem então, como objetivo, orientar a formação profissional dos jovens do meio rural, baseandose em quatro pilares: (1) responsabilidade das famílias e instituições, organizadas como associações; (2) formação por alternância: meio sócioprofissional e escola, em tempo integral, com descontinuidade de atividades; (3) formação integral e (4) dinâmica de desenvolvimento local. (fôlder Ibelga). 266 Segundo o caderno didático já apresentado, ―a ideia é fazer da propriedade uma extensão da unidade educacional‖, caracterizando-se pela ―formação integral do jovem rural abrangendo aspectos profissional e intelectual, humano e social, ético e espiritual‖ (p.4). A Pedagogia da Alternância trabalha, assim, com três momentos integrados: o do meio sócio-profissional, cuja natureza é observar; o do meio escolar, que tem no refletir sua base e, por último, novamente o meio sócio-profissional, em que o experimentar se converte em novas interrogações e pesquisas. Essa tríade acontece em tempo integral – quando no espaço da escola. Para a concretização desses objetivos, constituintes da Pedagogia da Alternância, o CEFFA Rei Alberto I mantém, com o Ibelga, uma parceria significativa. É por seu intermédio que acontecem os Cursos de Formação de Educadores, capacitando docentes e diretores nessa metodologia, por meio de ―dez módulos presenciais e concluído com a apresentação de Projeto Pessoal de Experimentação Pedagógica a uma Banca Nacional‖ (apostila Ibelga, p..2), uma vez que o curso é elaborado pela equipe pedagógica nacional da UNEFAB84. Cada professor imprime seu ritmo ao desenvolvimento dos módulos de formação. Nesta escola, nenhum deles, nem mesmo a coordenadora, completou os dez módulos. O Instituto Ibelga constrói apostilas para esse curso. Entre elas, encontra-se a que apresenta e explica a natureza dos diversos Instrumentos pedagógicos utilizados pela Pedagogia da Alternância. Segundo esse documento, os instrumentos podem ser (1) de pesquisa (Planos de estudo; folhas de observação; estágios e visita de estudo): (2) de comunicação/relação (Colocação em comum; tutoria/acompa-nhamento personalizado; caderno de acompanhamento da alternância e visita à família e comunidade); (3) didáticos (Caderno da realidade; visitas e viagens de estudo; serão de estudo e intervenções externas; cadernos didáticos; atividades retorno/experiências e 84 UNEFAB – União Nacional das Escolas Famílias Agrícolas do Brasil, organização social dirigida por agricultores e agricultoras familiares e profissionais interessados na promoção e no desenvolvimento sustentável e solidário do mundo rural através da formação de jovens (fôlder UNEFAB). 267 projeto profissional) e, por último, instrumentos de avaliação (Avaliação semanal e avaliação formativa). Cada um dos instrumentos enumerados no parágrafo anterior tem uma natureza própria e exerce função específica dentro do que é denominado ―processo de pedagogização da alternância‖ (apostila: Os instrumentos pedagógicos, p.2). Os professores, além da função docente de acordo com a disciplina de cada um, têm outras tarefas como, por exemplo, exercer a tutoria de um determinado número de alunos, o que implica visitar a família desses alunos, em períodos determinados, para acompanhar o desenvolvimento das atividades sócio-profissionais. Além disso, cada professor é responsável pela construção do plano de estudos de uma turma, demandando discussões coletivas de acordo com os interesses dessa mesma turma. O plano de estudos individual é construído em articulação com o plano de estudos da turma. Em relação à documentação legal, outra apostila informa que, no Brasil, a Pedagogia da Alternância encontrou formas para se difundir na Lei 9394/96 (artigos 22 a 24; 28 e 34), e nos Pareceres CNE/CEB no. 5/1997 e no. 1/2002 que tratam, respectivamente, do trabalho efetivo em sala de aula e das diretrizes para a educação básica nas escolas do campo. A visita à Escola Municipal CEFFA Rei Alberto I aconteceu à tarde, quando foram conhecidas suas instalações físicas, o corpo gestor e administrativo, alguns docentes e discentes, bem como realizadas as entrevistas que possibilitaram entender a dinâmica da experiência. Com relação ao espaço físico, pode-se afirmar que seus já citados 273 mil metros quadrados, nos quais estão plantados os prédios da escola municipal e do colégio estadual, contribuem com a natureza da experiência da alternância. Embora esse espaço não contemple todas as construções que são consideradas importantes na ótica dos professores: ―A gente está batalhando por uma quadra, porque no dia que chove...” (Entrevista 1 – professores), é preciso destacar que a referida pedagogia centra seu foco nas atividades rurais e, nesse sentido, o espaço é amplamente adequado, conforme se pode visualizar por meio de fotos já anexadas ao relatório (fotos 3 e 4). 268 A prefeitura disponibiliza um ônibus escolar que leva e traz alunos e docentes que necessitem de transporte. Em geral, as EFAs funcionam em sistema de internato, mas não é o caso desta escola, daí o recurso ao transporte escolar. O número de matrículas não atinge 150 alunos. Além dos dois prédios escolares, há um outro para biblioteca e laboratório de ciências e informática, além de um pequeno auditório. Este conjunto foi construído em um vale, muito bonito. O refeitório, amplo e envidraçado – a região é fria – fica numa esquina da escola, com janelas para dois lados, dando uma sensação muito grande de integração com a natureza. Atrás dos prédios há uma grande horta, da qual se colhem os legume e verduras utilizados nas refeições. Foto 5. Prédios da Escola Municipal CEFFA Rei Alberto I (acervo das pesquisadoras) Sobre a relação com o tempo, há várias formas de abordá-lo, a partir do que se conheceu sobre a experiência. Em primeiro lugar, pode-se dizer que ficou clara a questão mesma da alternância: as crianças ficam durante uma semana na escola, em tempo integral, realizando atividades que constam dos Cadernos Didáticos, participando dos Serões de estudo, dos Passeios, completando seu 269 Plano de Estudos etc. Na semana seguinte, estão em casa, desenvolvendo atividades sócio-profissionais com a família. No 6º ano, este revezamento ainda não ocorre, eles permanecem em horário integral na escola, visto ser este um ano de preparação para a alternância, que vai ser seguida a partir do 7º. ano. Essa sistemática é entendida pelos docentes e orientadores como um tempo integrado de teoria/prática: Temos o sexto ano, sétimo, oitavo e o nono. E a gente vê a Pedagogia da Alternância como uma pedagogia que tem os dois ambientes – a escola e a família, um meio sócio-cultural ... como um todo, né? Em uma semana o aluno estuda, na outra ele também estuda, mas com a família, coisas que ele leva pra lá e de lá ele traz pra cá. Então a gente tem uma troca muito grande entre o que é realmente aqui da escola com o que é do meio do aluno. (Entrevista 2 – orientador pedagógico) E: Eles levam trabalho pra fazer? PF: Levam, levam também das matérias. Mas a gente fala que tem muito essa coisa da interação, porque eles têm matérias que são pra interagir com a família. Então eles vão levar trabalho de agricultura que não é pra eles sentarem e fazerem sozinhos em casa, é um trabalho de formação humana, um trabalho de formação familiar (...) geralmente vai além do sentar sozinho e fazer. (Entrevista 1 – professores) Pelas falas de alguns entrevistados, o tempo pode ser entendido, ainda, como integrado entre sujeitos. Em outras palavras, o fato de alunos e professores estarem juntos, durante oito a nove horas diárias, por vários anos letivos – ”começa às sete e quarenta e termina às quatro e cinco da tarde‖ –, cria uma relação mais significativa entre eles: PF: ... semana passada eu peguei o caderno de uma aluna, estava lendo, aí embaixo estava assim: Socorro! Preciso conversar com urgência com você. A lápis, ela nem escreveu a caneta, nem nada. Aí fui, cheguei perto dela: por que 270 socorro? Não, porque eu estou preocupada (...) quer dizer ... é aquilo que eu falei ... ela está no segundo ano, desde a quinta série que eu acompanho essa turma... ( Entrevista 1 – professores) Chamou a atenção do grupo de pesquisadoras o envolvimento dos sujeitos com a proposta da Pedagogia da Alternância, fato destacado em todas as entrevistas concedidas: Eu sou apaixonada ... vim, fiquei, porque eu gosto muito da pedagogia da escola, eu vejo que tem um diferencial, é um amarrado, tem todo um planejamento. Então a gente tem um plano de formação ... (Entrevista 2 – orientadora pedagógica) Eu me formei, fui trabalhar em revendas e fundos agrícolas, enquanto fazia faculdade (...) eu trabalho com essa revenda até hoje por consultoria, não deixei de ser técnica agrícola, mas nesse meio-tempo eu fiz Letras e aí voltei pra dar aula aqui. (Entrevista 1 – professora A) Quando entrei aqui foi por contrato e eu me apaixonei. Então quando fiz o concurso mesmo e passei, eu queria vir logo pra cá, pensei logo em vir pra cá, porque aqui é um outro mundo, é uma outra visão, uma outra realidade... (Entrevista 1 – professora B) Ainda sobre os sujeitos que atuam diretamente na experiência, é importante ressaltar três pontos: (1) a situação funcional; (2) a formação e (3) o trabalho docente na escola. Em relação ao primeiro ponto, devido a problemas gerados em concursos anteriores, o município não realiza seleções periódicas. Assim, a instituição mantém alguns professores concursados e um bom número de docentes contratados. No entanto, não se percebem diferenças de atuação por conta desta situação funcional. Há, ainda, dois técnicos do Ibelga que atuam com as disciplinas técnicas e as oficinas; e também funcionários da escola que, em alguns momentos, assumem funções nessas oficinas: 271 O: Isso é mais ou menos assim. A gente não tem técnico do município. E: Mas quem remunera esses técnicos? É o Ibelga? O: Isso, é o Ibelga... pra poder manter essa questão da pedagogia. E: Qual é a quantidade de professores e a quantidade de técnicos que a escola tem? O: Temos hoje como técnicos o Alzemiro, a Namico e temos o Dirceu, que é inspetor de alunos mas é técnico agrícola também, então ele nos ajuda com as turmas, já há muitos anos. Quando eu cheguei aqui ele já estava. Ele é ex-aluno ... E: Só três técnicos? O: Só três. E: E quantos professores? O: Nós temos... me parece que um total de dezessete. (...) Essas três pessoas, elas atuam em sala de aula com a disciplina técnica e atuam nas oficinas da escola. As oficinas são essas três, mais a de economia doméstica, que também é uma inspetora de aluno que ensina a dar bainha, pregar botão, fazer bordado. E temos uma merendeira, que é muito boa em salgados. Então ela ensina também salgados pras crianças. São rodízios ... são turminhas que vão lá e aprendem. (Entrevista 2 – orientadora pedagógica) Sobre a formação e o trabalho docente na escola, segundo as entrevistas, os professores têm uma formação específica sobre a Pedagogia da Alternância, realizam-na e participam dela com comprometimento; no entanto, tanto os docentes quanto a orientação ressentem-se da ausência também do tempo integral para que participem mais do processo que envolve tanto a formação quanto a experiência em questão – planejamento das atividades: PF: A gente até está voltado pra isso, né? Nesse nosso módulo, agora, a gente se propôs a fazer... E: Você já falou várias vezes em módulo... o que são esses módulos? 272 PF: Nós entramos agora na Pedagogia, então na verdade é um estudo (...) a formação... porque na verdade você não chega aqui e dizem – a Pedagogia da Alternância é isso, isso e isso. Você vai trabalhando de acordo com que você vai descobrindo... (Entrevista 1 – professores) E: Você tem algum professor de tempo integral? O: Nós não temos. A gente gostaria. Porque se tivéssemos tempo integral a gente conseguiria de repente organizar a parte diversificada pra tarde, conseguiria ter mais um apoio pra visita às famílias, que é um foco nosso, até pros próprios instrumentos da alternância. Porque a gente não trabalha só com a aula em sala, o professor ele tem vários outros compromissos, já devem ter falado pra vocês. (Entrevista 2 – orientadora pedagógica) E: O fato de ficar o dia inteiro junto tem a ver com isso? PF: Eu acredito que sim, que ajuda. E: Porque a gente pensa no horário do dia inteiro pro aluno, mas isso também acontece com o professor e isso tem consequência. PF: É. Às vezes só se encontram... PF: Nem se encontra, às vezes não conhece nem o colega. (Entrevista 1 – professores) As atividades desenvolvidas na Escola e sua integração correspondem a outro ponto que se deve destacar na experiência. Segundo os entrevistados, elas compreendem língua portuguesa, inglesa, artes, física, matemática, ciências, história e geografia, além de formação humana e educação familiar. Há, ainda, a parte relacionada às técnicas agropecuárias. Essas atividades acontecem mescladas, todos os dias; porém, segundo a orientadora, O nosso grande sonho é toda tarde com aulas só diversificadas, educação física, artes... mas nós caímos em um problema, que é o de o município mandar um professor com dezessete tempos, que também já trabalha com outra matrícula em outra escola ... e é longe. Esse professor vem e atua aqui em dois dias inteiros. Então nós não podemos ter aula só à tarde. A gente mescla, uma turma tem artes de 273 manhã, a outra vai ter à tarde. Nós temos que ir encaixando os horários. Esse o sonho de só termos as tardes diversificadas, não temos ainda. (Entrevista 2 – orientadora pedagógica) Metodologicamente falando, há a possibilidade das atividades se integrarem, mediante o Plano de Estudos realizado por cada aluno: Então a gente começa com esse plano de formação, ele dá um caminho pra todos os planos de estudos... porque a gente trabalha com planos de estudos, que é uma pesquisa que o aluno elabora aqui, faz perguntas, quais as dúvidas que ele tem, junto com os professores e ele leva para casa. Faz essa pesquisa, traz de volta e aqui a gente monta toda uma síntese, todo um texto com eles. (Entrevista 2 – orientadora pedagógica) Dois outros fatores importantes e que devem ser destacados dizem respeito à gestão e à parceria. A escola está num processo de transição, porque ela tornou-se municipal há relativamente pouco tempo. Existe um compromisso da prefeitura com os recursos materiais e humanos para a instituição, mas há também uma adequação da escola às normas municipais. Assim, a direção é responsável pela negociação que vem sendo feita desde a municipalização. Um grande facilitador é que boa parte da equipe de professores já trabalhava antes na escola, portanto muitos já estavam em processo de formação, além do fato evidente que é o compromisso com a proposta pedagógica. Quanto à parceria, ela é realizada com a Ibelga – Instituto Bélgica, que oferece o suporte pedagógico da Pedagogia da Alternância, incluindo a formação dos professores e o pagamento dos dois técnicos que trabalham com as atividades agropecuárias na escola. Segundo a orientadora, a Escola Municipal CEFFA Rei Alberto I foi municipalizada em 2007; no entanto, a municipalização manteve a experiência em funcionamento: 274 Então eu não percebo grandes mudanças, porque o município apoia a pedagogia, apoia a escola, o quadro de funções, de tarefas, eles não intervêm, pelo contrário, estão sempre auxiliando ... também o quadro de funcionários. O que aconteceu? Tivemos uma rotatividade de professores, por quê? Porque tivemos agora concursados... a mudança, vamos dizer, maior, talvez tenha sido essa. Agora vai ser uma coisa mais regularizada, quem está aqui, está por concurso, porque realmente foi uma escolha. Muitos poderiam estar numa escola mais próxima, escolheram a nossa justamente pela pedagogia, pela vontade de conhecer, por ouvir falar. Então, eu me sinto muito realizada, né? (Entrevista 2 – orientadora pedagógica) Fechando o relato da experiência encontrada na CEFFA Rei Alberto I, é interessante destacar a fala a seguir, visto que ela leva em conta o perfil do aluno que frequenta a instituição: O: É. Então é um desdobramento novo aí, que a gente está tendo até que lidar. Porque antes tinha assim todo um olhar direcionado pra agricultura, pra zootecnia, a gente pensava assim de uma forma mais fechada. E agora a gente já está tendo todo um cuidado, com um outro olhar. Esse ano tivemos um seminário sobre ERNA, que são o quê? As atividades rurais, não agrícolas da região. Então a gente está tendo esse cuidado de olhar realmente, de observar essa mudança, que existem outras tendências, que não só mais agricultura. E: Pequeno artesanato, coisas desse tipo? O: Turismo. Então nós temos um plano de formação... A coordenadora explicou que o perfil do aluno que procura esta escola está mudando. Hoje, há alunos que vivem na cidade. Entretanto, é condição para ser aceito ter acesso a uma área agrícola em que possa desenvolver as atividades do seu plano de estudo. Este é um critério do qual não podem abrir mão, porque entraria em conflito com o objetivo desta proposta de formação dos jovens para desenvolvimento profissional rural. Por outro lado, esta mudança de clientela leva a escola a reconhecer que o trabalho rural vem se 275 modificando, portanto a preparação para ele também precisa de constante atualização. 2.2 PEDAGOGIA WALDORF “Conforme sobrevêm as estações do ano – assinaladas pelas festas anuais – novas atividades são trazidas para o dia a dia. Assim, os pequenos participam do grande ritmo anual da natureza e, interiormente, vivenciam o que cada ciclo pode lhes inspirar” (Escola Municipal Cecília Meireles – Pedagogia Waldorf) 2.2.1. HISTÓRICO E DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA A Escola Municipal Cecília Meireles situa-se no bairro Cascatinha, e tinha, à época da pesquisa de campo, 154 alunos em turmas de educação infantil e de anos iniciais do ensino fundamental, em horário integral, trabalhando de acordo com a Pedagogia Waldorf. A escola foi criada em 1999, como anexo da escola comunitária Vale de Luz. Nesse espaço, foi possível entrevistar a diretora, professora Mara Rúbia, que detalhou a proposta e apresentou um documento institucional denominado ―Escola Municipal Cecília Meireles – Pedagogia Waldorf‖. Esse documento caracteriza-se pela exposição da proposta pedagógica da experiência, mais especificamente em relação ao trabalho com a educação infantil. O cerne de todo o trabalho educativo encontra-se nessa pedagogia que, segundo a diretora, ... nasceu com o impulso da trimembração social do início do século, da importância do homem se entender como ser trimembrado, não só um ser que é social ou um ser só de ação ou só do âmbito do entendimento intelectual do mundo. Então foi elaborada a pedagogia Waldorf que trata o ser humano 276 nesses três âmbitos. Tudo que tem a ver com a antroposofia e a pedagogia Waldorf tem que ser observado de uma forma trimembrada, uma forma de atender esses três âmbitos de atuação do homem no mundo (...)Uma visão integral do ser humano. E é muito interessante que ela foi feita no início do século, com o trabalho de Rudolf Steiner (...) e atualmente se fala em inteligência emocional, se fala da importância da ação no mundo, não só da cognição ou dos sentimentos. (Entrevista 3 – diretora da Escola Municipal Cecília Meireles) O prédio escolar foi construído de acordo com a concepção de utilização dos espaços da Pedagogia Waldorf. A construção tem um formato circular e as salas de aula se abrem para uma área comum interna. Cada sala tem os equipamentos e materiais de trabalho, colchões para o descanso e uma cozinha, com utensílios, onde os professores preparam pequenas refeições em conjunto com as crianças. As salas de aula são repletas de trabalhos expostos, muito coloridas e alegres. Parecem antes pequenas casas do que salas de aula convencionais. Há uma cozinha geral da escola que prepara as quatro refeições do dia, para alunos e professores, que comem nas próprias salas. O espaço ao ar livre é de bom tamanho, mas em terreno irregular, o qual é aproveitado com criatividade. Cada turma tem o seu canto no jardim. Há brinquedos e criações das crianças expostos por toda a escola, tais como bonecos, ―bumba meu boi‖, pinturas. A construção do prédio recebeu recursos da Associação Crianças do Vale de Luz. Essa associação criou inicialmente a escola comunitária Vale de Luz, em 1991, municipalizada em 1996 e posteriormente a escola Cecília Meireles, em 1999, municipalizada em 2004. O público visado eram crianças das regiões pobres da cidade de Nova Friburgo. A mesma associação mantém hoje uma escola de formação de professores para a Pedagogia Waldorf. A associação, por sua vez, é mantida por organizações governamentais como o Governo do Estado do Rio de Janeiro – FIA, o Projeto Curumim, a Prefeitura Municipal de Nova Friburgo e por agências internacionais (Freunde Der Erziehungskunst Rudolf Steiner e V., International Hulpfonds, Ecole Vale de Luz e Padrinhos da Espanha) 277 Portanto, trata-se de uma escola cujo nascimento teve origem em iniciativa particular; segundo a diretora, problemas de manutenção levaram a uma campanha dos pais e outros interessados por sua transformação em instituição pública. Apesar de pública, continua recebendo recursos complementares da Associação Vale de Luz, inclusive para pessoal, sob a forma de professores auxiliares ou de complementação salarial dos professores concursados da rede municipal que lá atuam. Assim se apresenta a associação em seu sitio na internet: Somos uma Organização da Sociedade Civil gerada há 12 anos a partir do sonho de tirar crianças carentes das ruas de Nova Friburgo, oferecendo-lhes a oportunidade de despertar a esperança para a construção de um futuro mais digno por meio da arte, da educação e do convívio social. Assim surgiu a Escola Comunitária Municipal do Vale de Luz, na área rural da cidade de Friburgo e, depois, a Escola Municipal Cecília Meireles, na área urbana do bairro de Cascatinha. A arte é um elemento fundamental da pedagogia praticada na Escola Municipal Cecília Meireles. Há uma sala/oficina para trabalhos criativos de todo o tipo. O teatro é uma atividade permanente. Sobre o tempo, observou-se que a escola funciona em tempo integral, das 7:30h às 16h, podendo este horário ser ampliado – das 6.30h às 18h – em decorrência do horário dos pais, alguns deles empregados no setor de confecções. À pergunta de uma das pesquisadoras, sobre um possível cansaço das crianças menores em relação a essa carga horária, a diretora explicou que esse tempo é trabalhado de forma integrada, ou seja, as atividades são organizadas a partir de expectativas oriundas da faixa etária das crianças, independentemente de mescla de atividades, ou da divisão em atividades do turno e atividades do contraturno. Nas palavras da diretora, (...) como eu estava te dizendo, a criança tem esses três âmbitos. Então uma criança que seja imatura socialmente, dificilmente ela vai conseguir esse trabalho o dia todo, porque 278 é uma relação social o dia inteiro. Ela está o tempo todo em relação social com o grupo. Então o que acontece? A gente tem que ter muita habilidade nisso, nas atividades que a gente vai dar pra essa criança durante a tarde, para que elas sejam bem de acordo com a idade dela. E o professor tem que ter muita consciência disso, da exigência que ele vai ter. Por exemplo, o quinto ano faz teatro, então eles estão todos envolvidos nesse trabalho de teatro, de tarde... isso vai ao encontro de uma necessidade dessa idade. (Entrevista 3 – diretora EMCM) Há uma espécie de rotina na organização de cada atividade, bem como na sua frequência semanal. Essas práticas cotidianas auxiliam as crianças a compreender melhor o tempo, possibilitando outra lógica em relação a ele, segundo palavras da diretora: ... na Educação Infantil o que acontece? Eles arrumam o ambiente pra entender que toda tarefa tem começo, meio e fim. E aí vão pra uma atividade dirigida, que a professora vai encaminhar. Cada dia da semana tem uma atividade dirigida. Na segunda, eles fazem um desenho; na terça, uma pintura em aquarela, eles fazem o pão, fazem um trabalho de modelagem. Cada dia da semana eu tenho uma atividade dirigida específica. Então toda terça-feira eles sabem que é aquela atividade. E isso também dá uma noção de tempo pra eles. (Entrevista 3 – diretora EMCM) Para que haja integração entre as atividades, ou ainda a rotina a que a diretora se referiu, interdisciplinaridade, é em um necessário trabalho que os que envolva realmente a sujeitos responsáveis pela experiência tenham formação e condições de trabalho que levem em conta essas especificidades da Pedagogia Waldorf. Na visita à escola, confirmou-se a existência de auxiliares – ―parceiros‖, segundo a diretora – e de dezesseis professores ocupando a função de vinte, visto que dois deles efetuam uma ―dobra‖ de carga horária, o que não é a situação adequada, segundo a gestora: ... não tem condição, é um extremo sacrifício o professor fazer isso. Ele conhece muito bem o aluno, mas o desgaste do professor é infinito. O magistério não pode passar de vinte 279 horas semanais. É impossível, senão o professor vai ter a durabilidade de dez anos. Não é possível, ainda mais nos dias de hoje. E o parceiro, qual é a importância do parceiro? É a troca, é um outro olhar pra esse aluno. Então o professor acompanha esse aluno e ele tem um outro parceiro, que às vezes não acompanha tanto, mas ele tem um olhar da tarde, que é um outro olhar. A criança à tarde é diferente ... o sol está se pondo, ela tem uma outra relação, até de vitalidade. Então é importante no conselho de classe esse grupo de professores. (Entrevista 3 – diretora da EMCM) Também é importante registrar que esses docentes possuem horário de planejamento e de reflexão pedagógica – ―são duas horas de planejamento. Uma vez por semana, quinta-feira, as crianças não ficam na escola, no Ensino Fundamental, porque todos os professores se reúnem para a tarde pedagógica:. estudo, assuntos práticos onde a gente resolve tudo da escola juntos e as questões pedagógicas”. Quanto às atividades desenvolvidas, há peculiaridades no desenho curricular da escola, descritas tanto no documento apresentado quanto na fala da gestora. A Pedagogia Waldorf trabalha com o que denomina ―ritmo anual‖, ou seja, ―o ritmo das festas ou estações do ano. Tanto o jardim Waldorf quanto o maternal seguem esse ritmo, modificando-se as atividades de cada classe de acordo com as idades e as necessidades inerentes a estas‖ (p.18). Esses ―ritmos‖ ou projetos acontecem também no ensino fundamental, durante aproximadamente quatro semanas cada um, e relacionam-se às festas e às estações do ano. Assim, tem-se o planejamento de outono; da festa da lanterna e São João; do vento e do inverno; da primavera; das chuvas e pastores, entre outros (Documento). Presenciou-se uma turma trabalhando, junto com a professora, no pátio interno, com uma balança antiga, fazendo experimentos com os pesos e outros objetos. Presenciou-se, ainda, alunos fazendo artesanato, cantando, lendo e tocando flauta. No ensino fundamental, especificamente, há ―épocas‖ para a apreensão da matemática, da língua, da geografia... 280 No Ensino Fundamental eles entram às sete e meia e vão direto ao trabalho com o professor. O trabalho com o professor começa com uma roda, uma roda rítmica, onde eles trabalham o movimento, a linguagem oral, os poemas, com a flauta doce ... todos eles começam a tocar flauta, desde o início. Então a linguagem oral é muito trabalhada e muito enriquecida com esse trabalho de todos os dias. Eles fazem isso durante três semanas, pelo menos. Porque o trabalho do Ensino Fundamental é feito por épocas. É uma época de português, uma época de matemática, uma época de zoologia, dependendo do currículo. Eles trabalham com a vigília e com o sono, com o esquecimento, trabalham a época intensamente. Depois dessa época, eles descansam. Estão trabalhando a matemática, aí não entram coisas novas, entra apenas exercitação do que eles aprenderam nessas semanas. E: E também se o período é o período da língua portuguesa, vamos supor, naqueles dias ele não vai estudar matemática? D: Não, ele estuda por épocas. E aí a gente faz um mergulho quantitativo na matéria e não qualitativo, é quantitativo. (Entrevista 3 – diretora EMCM) Perguntada sobre a adoção dos Parâmetros Curriculares, ou de alguma política municipal própria que, de alguma forma, não se compatibilize com essa especificidade da Pedagogia Waldorf, a diretora afirmou ter conhecimento dessas políticas, mas que se faz uma compatibilização entre elas, no sentido de uma concepção mesmo de ensino integral: ―tem alguma coisa que nós estamos trabalhando no quinto, que lá só se trabalha no sexto, ou nós estamos trabalhando algo no quarto que trabalharia só no quinto. A gente entende o ensino como um ensino integral, do primeiro ao nono ano.‖ (Entrevista 3 – diretora EMCM). Parece que a escola sente-se à parte do sistema público municipal de Nova Friburgo e nos foi relatado, tanto pela subsecretaria de Educação como pela própria diretora da Escola Municipal Cecília Meireles, um conflito que se passava à época da visita, acerca da utilização de computadores nas turmas dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Essa prática não seria recomendada pela Pedagogia Waldorf, para essa faixa etária, mas a Secretaria de Educação 281 a recomendava e inclusive pretendia enviar os equipamentos para a escola, que não os queria receber. Finalizando, a presença, o envolvimento e a disponibilidade da direção durante a visita das pesquisadoras à instituição; suas explicações e detalhamento da experiência da Pedagogia Waldorf e de sua aplicabilidade na Escola Municipal Cecília Meireles demonstraram que o trabalho de gestão é muito estruturado, tendo a diretora um papel proeminente. Demonstraram também a forte adesão da diretora à pedagogia com a qual trabalha. Seu comprometimento é enorme e parece ultrapassar a esfera de um compromisso meramente profissional. Acredita na efetividade da Pedagogia Waldorf e na sua capacidade de transformação. Os professores com os quais a pesquisadora conversou mostraram-se perfeitamente sintonizados com a proposta e uma professora relatou que já trabalhava na escola, como auxiliar, quando fez o concurso para professor público do município, sendo direcionada para a escola. A pesquisadora não teve contato com pais ou responsáveis, mas, segundo a diretora, eles são presentes na escola. A instituição pratica de fato uma concepção de educação integral. A intenção educativa é muito ambiciosa e pretende desenvolver integralmente as potencialidades dos alunos. São trabalhados os aspectos da formação individual e da socialização, mas fica a impressão de que o trabalho pedagógico está afastado da realidade local e das demais escolas, pois segue um formato padrão, utilizado pela Pedagogia Waldorf em todo o mundo. Finalizando, as crianças da escola Cecília Meireles pareceram estar bem integradas, ativas e alegres. A experiência acumulada da escola com o horário integral bem como o trabalho com a arte interessa ao debate sobre a educação integral brasileira e pode trazer contribuições. 2.3 TEMPO DE SER FELIZ 282 “A gente quer realmente tirar essas crianças da ociosidade, tirar as crianças da rua, tirar as crianças desse mundo de violência que elas vivem, não só em casa, mas ... pelo que eu te falei do abandono ... o nosso público alvo são de crianças que não têm um acompanhamento.” (Coordenadora do Projeto Tempo de ser Feliz) FOTO 7. Trabalho de aluno que participa da experiência Tempo de ser Feliz (acervo das pesquisadoras) 2.3.1. HISTÓRICO E DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA A visita realizada pela dupla de pesquisadoras a esta experiência deu-se em dois momentos: em primeiro lugar, foi visitada a Escola Municipal Batista, uma das que recebe o Tempo de ser Feliz; no dia seguinte, visitaram-se as dependências do Clube Roqueano, onde a proposta se materializa, no contraturno escolar. Ao contrário das duas experiências anteriores, o projeto Tempo de ser Feliz não acontece dentro do espaço escolar: Ele se constitui como uma proposta assistencial cuja sede já esteve em, pelo menos, dois locais diferentes. Segundo informações coletadas com a professora Maristela, funcionária da Secretaria Municipal de Educação, e com a professora Tânia, coordenadora do projeto atualmente, até aproximadamente o ano 2000, a proposta denominava- 283 se Curumim, e tinha como objetivo trabalhar atividades de capoeira e esportes com crianças em risco social, pertencentes basicamente ao bairro de Olaria, no contraturno escolar. Quando a proposta perdeu a verba que recebia do governo do Estado, ―eles ficaram com uma demanda que precisava ser atendida. Então a prefeitura assumiu‖ (Entrevista 5 – coordenadora TSF), o projeto trocou de nome, mantendo os mesmos objetivos e passou a contar com a parceria das Secretarias de Esporte e Cultura: ...o Tempo de ser Feliz deu continuidade a essa proposta. Aí começou a ter uma parceria com a Secretaria de Esporte e Cultura. Então foram as três Secretarias – Educação, Esporte, Cultura. A Secretaria de Educação ficava com a parte de organização, a direção, a parte de atividades de reforço escolar, merenda ... a Cultura mandava alguns professores pra aula de circo, de teatro, de música que eles tinham ... E o esporte também, né? Tinha a capoeira, os jogos, a gente tinha dificuldade com a questão dos jogos, porque como o espaço que era alugado era uma quadra de escola de samba, então tinha uma dificuldade, o pessoal de Esporte reclamava. (Entrevista 6 – funcionária da Secretaria de Educação) A questão do espaço físico ocupado pela experiência foi um ponto recorrente nas falas da professora Maristela, da diretora da Escola Municipal Batista, e, também, da professora Tânia. Inicialmente, o Tempo de ser Feliz funcionou na quadra da escola de samba Imperatriz, situada no bairro de Olaria; mas havia problemas com a comunidade que frequentava esse local, o que ocasionou sua troca por outro lugar, dentro de um clube: ... Então a prefeitura assumiu. Como o Curumim já funcionava na escola de samba, continuou ali. Porém, quando a equipe percebeu que a gente não tinha a menor condição de continuar naquele espaço, a prefeitura na mesma hora resolveu, alugou aqui o espaço. Gente, eu acho que espaço físico é fundamental. (Entrevista 5 – coordenadora do TSF) 284 A professora Tânia, ao historiar o problema dos ambientes em que as crianças transitavam anteriormente, no projeto, e hoje em dia, assim se pronunciou: Olha, eu vou ser sincera. Não era um ambiente adequado pra criança, tá. Porque a gente ficava em duas salas e lá a minha experiência foi como professora, eu não era coordenadora. A gente ficava em duas salas minúsculas, sem ventilação, com uma quadra no meio. No meio da quadra tinha uma rede, então quando eles queriam, eles vinham e puxavam a rede e ficava a gente com as crianças dentro de duas salas. O banheiro era um banheiro coletivo. E tem a feira, que é na porta da escola de samba, as pessoas da feira entravam e usavam o banheiro das crianças. (...) Então eu acho que as pessoas precisam pensar que uma coisa é você ter a comunidade te ajudando, a comunidade participar. Igual aqui, eu acho que a comunidade aqui participa quando ela me dá um retalho, quando ela vem aqui e oferece um doce, uma coisa. Outra coisa é a gente botar as crianças e expor as crianças a determinados perigos que elas já estão expostas o tempo inteiro. (...) Durante o período que eles estão aqui, eles estão protegidos. Só vai entrar aqui quem eu quiser. Eles vão anunciar e se a equipe achar que deve entrar, entra. Senão não vai entrar, nem por lá, nem por aqui. Essa hora o portão está aberto porque é exatamente a troca de turno. Acabou, deu uma e meia, o último almoço fechou, eu tranco o portão. Então eu acho que o nosso grande problema na escola esse ano foi esse. (Entrevista 6 – coordenadora do TSF) FOTO 8 – Salas ambiente no espaço ocupado pela experiência Tempo de ser Feliz (acervo das pesquisadoras) 285 Ainda em relação ao espaço, a investigação possibilitou às pesquisadoras o conhecimento do local frequentado pelas crianças, atualmente. Dentro do clube, elas ficam em uma parte composta por uma grande área, onde há mesas que servem de refeitório; uma boa cozinha e banheiros. Devido à sua amplitude, nesse espaço acontecem também algumas oficinas. Descendo uma escada, encontram-se duas salas ambientes, almoxarifado e um local apropriado para atividades artísticas de pintura, com uma grande mesa retangular. No entanto, é preciso destacar que essa é uma parte restrita do clube, ou seja, nem todas as suas dependências são utilizadas pelas crianças: E: A gente viu uma piscina ali quando a gente chegou. As crianças usam a piscina? T: Não. Eu vou te mostrar, a gente lá embaixo tem um portão que isola. A parte de lá é só de uso do clube. A gente tem duas quadras, tem as salas, uma varanda grande onde eles fazem as oficinas de artes, tem esse espaço aqui em cima, mas a piscina ... (Entrevista 5 – coordenadora do TSF) Finalizando, lembra-se que o espaço do clube, utilizado hoje em dia pela experiência, situa-se em uma via expressa, o que acaba ocasionando absenteísmo, pois nem todos os responsáveis podem levar as crianças todos os dias ao projeto. Ao mesmo tempo, há crianças pequenas que vêm sozinhas, o que preocupa a coordenação: E: As crianças vêm sozinhas pra cá? T: A grande maioria vem sozinha. A gente agora até estabeleceu ... eu fiz uma circular pedindo que os pais assinassem, falando que os seus filhos estão vindo sozinhos e voltando sozinhos, porque a gente está na beira de uma via expressa. Essa questão abre o relato para outro ponto – os sujeitos que estão na experiência, como participantes da mesma, ou na situação de formadores. 286 Nesse sentido, é interessante destacar que há alguma controvérsia quanto ao número de escolas que o projeto abrange. Para alguns dos entrevistados, são doze escolas no entorno do bairro de Olaria; para outros, esse número ampliou-se para quinze instituições. Mas doze ou quinze, o fato é que a proposta tem hoje noventa alunos inscritos, nem todos assíduos, como afirma a professora Tânia, sua coordenadora: ... é um público flutuante. Durante o dia a gente tem cinquenta, sessenta crianças aqui. Às vezes tem mais de manhã, às vezes tem mais à tarde. Eu tenho um diário com noventa crianças matriculadas. (Entrevista 5 – coordenadora TSF) Essas crianças são enviadas pelas escolas, algumas diretamente para a experiência Tempo de ser Feliz; outras vêm indicadas pelo PETI85 que, agora, está conectado ao projeto e há, ainda, aquelas cujos pais solicitam sua inclusão na proposta: A gente nunca teve assim ... se chega aqui uma criança encaminhada ou pelo CRAS86, ou pela escola e que precisa de um espaço pra completar o horário dele, pra não ficar na rua, porque a intenção aqui é não deixar as crianças na rua e ter uma atividade cultural pra que eles possam ter o dia em segurança. A gente recebe ... não é um número muito grande, mas a gente tem crianças de colégios estaduais aqui. (...) Tem criança que chega aqui encaminhada pela própria comunidade: ah, eu soube por fulano que vocês têm esse trabalho. Meu filho estuda na escola tal e precisa de um lugar pra ficar durante o dia. Então a gente aceita e matricula ... e exige que ele esteja frequentando realmente a escola. A gente faz esse acompanhamento de frequência. E está aqui documentado justamente pras crianças que não estão frequentando, vou saber o porquê e se for uma coisa que não estiver ao meu alcance eu aciono a Secretaria de Assistência Social ... 85 Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. O CRAS – Centro de Referência da Assistência Social – é uma unidade pública estatal localizada em áreas de concentração de populações com maiores índices de vulnerabilidade e risco social, destinada ao atendimento socioassistencial dessas famílias. É um programa institucional do Ministério de Desenvolvimento Social (MDS). 86 287 Geralmente as nossas crianças, todas elas estão no Bolsa Família, porque são crianças carentes. Então esse contato com a assistente social... (Entrevista 5 – coordenadora do TSF) Quanto aos sujeitos formadores, a visita mostrou que, na constituição da experiência, todos são professores, embora suas situações funcionais sejam diferentes, ou seja, há os professores cuja contratação ocorreu via concurso público e há os que estão com contratação temporária, devido a problema ocorrido em seleção realizada no município, no ano de 1999. No entanto, todos têm habilitação para trabalhar nas oficinas em que atuam, como informa a professora Tânia: T: Dois são instrutores da Secretaria de Assistência Social, que são os professores de música. Vocês vão ver que o material todo que a gente recebeu veio da Secretaria de Assistência Social, os violões, as flautas, o material de percussão... da Secretaria da Educação são habilitados também. Os instrutores, o Rossi, ele é habilitado, é músico. O Jéferson, eu acho que ele não tem habilitação, mas ele estava fazendo faculdade. E: O Jeferson dá aula de quê? T: Ele dá aula de violão e flauta. (...) Ele tem o domínio, não tem ainda a formação acadêmica, mas tem o domínio. (Entrevista 5 – coordenadora TSF) Nas falas de alguns docentes que estavam no projeto durante a visita das pesquisadoras, observou-se o envolvimento com a proposta. Contudo, a integração com as instituições escolares de onde se originam as crianças não é forte, por parte desses profissionais, e bastante difícil em relação à própria coordenação, o que denota problemas de gestão na integração entre ambos. Além da distância entre os espaços escolar e não escolar, há ainda a ausência de planejamento entre ambos, no sentido de fazer coincidir reuniões que auxiliassem nessa proposição mais conjunta. Essa fala foi bem marcada na reunião com a diretora da Escola Municipal Batista e está presente nas 288 afirmações da professora Tânia: “Eu acho que a gente poderia fazer uma parceria melhor com as escolas. Eu sinto assim, que às vezes a gente chega na escola, é como se a gente estivesse incomodando. [...] . Mas infelizmente eu preciso das escolas.” Pensar na relação entre a escola e o projeto desenvolvido leva a pensar nas atividades que acontecem em ambos os espaços. Nesse sentido, é bom lembrar que, quando da visita à Escola Municipal Batista, verificou-se que seu currículo incluía as disciplinas tradicionais, mais aulas de reforço, no contraturno. Segundo a professora Tânia, quando o reforço acontece na(s) escolas(s) e no contraturno, há mais ausência das crianças no projeto que, por sua vez, conta com oficinas de artes, literatura e teatro – que acontecem conjuntamente – música, esportes e capoeira, além do próprio reforço escolar. É interessante lembrar que as crianças não são obrigadas a frequentar uma ou outra atividade: há opção, possibilitando a circulação por várias oficinas. No entanto, ―se ele começou aquela atividade, se ele está fazendo o fuxico dele, pelo menos ele vai terminar o fuxico. Nós temos uma lei assim, começou tem que terminar”, diz a professora Tânia. Essa situação remete ao tempo e sua organização por parte também das crianças, ou seja, são elas que, de certo modo, estruturam parte de seu tempo: pela manhã, estão na escola, cumprindo as atividades escolares; à tarde vão para o Tempo de ser Feliz, onde optam pelas oficinas que lhes atraem, durante um determinado período. Buscando verificar a relação entre a proposta do Tempo de ser Feliz e as escolas, foi visitada uma instituição municipal contemplada com o projeto. A Escola Municipal Batista possui um espaço cedido pela Igreja Batista da localidade em que se encontra – o bairro de Olaria. Os professores e funcionários de que dispõe são da Prefeitura, mas as melhorias no prédio são realizadas pela Igreja. O espaço comporta seis salas de aula, mais duas salas ambiente – onde estão a Sala de Leitura e a de Vídeo. Há ainda um auditório em construção e um pátio que também serve de quadra. O refeitório situa-se no segundo andar. 289 A Escola Municipal Batista trabalha com os anos iniciais do ensino fundamental. Pela manhã, funcionam as turmas de terceiro, quarto e quinto anos, das 7 às 11:30h. À tarde, das 12:45 às 17:15h, as turmas de primeiro, segundo e terceiro anos. Especificamente em relação à experiência a diretora, professora Carla Noêmia, informou que, no total, dos 300 alunos que frequentam a escola, aproximadamente 22 estão participando do projeto Aqueles que deixaram de frequentá-lo apresentaram algumas justificativas para a não continuidade no projeto, entre elas, (1) a distância do novo local, em relação às suas residências; (2) as brigas entre os alunos e (3) a postura de alguns pais, que achavam que seus filhos estavam mais indisciplinados. A diretora deixou claro que esses motivos foram alegados tanto pelos alunos e/ou pais, como também pelos professores. Devido às atividades regulares da escola, não houve oportunidade de conversar formalmente com os alunos. Informalmente, dois deles – que ainda frequentam o projeto – disseram que, quando estão no espaço Tempo de ser Feliz, jogam bola, frequentam atividades de violão, teatro e o ―tempo da tarefa de casa‖. A mãe de um desses alunos trabalha no projeto, nos dois turnos, como inspetora. Para eles, os colegas que desistiram o fizeram pela distância do novo local em relação ao lugar onde residem, ou ainda porque os pais não tinham tempo para levá-los. 3.CONTRIBUIÇÕES E DESAFIOS DOS PROJETOS O relato apresentado em relação às três experiências existentes, atualmente, no município de Nova Friburgo/RJ foi efetuado por meio de seis entrevistas concedidas às pesquisadoras por dois membros do corpo gestor da educação municipal, professores, orientadoras e gestoras de três escolas, além da coordenadora de um projeto específico, bem como por visitas realizadas a essas instituições. Também foi utilizado material impresso, recebido principalmente quando da visita às escolas CEFFA Rei Alberto I e Escola 290 Municipal Cecília Meireles. Este material possibilitou um melhor entendimento do processo que envolve a consecução das propostas Pedagogia da Alternância, Pedagogia Waldorf e Tempo de ser Feliz. Nesta última seção, procura-se refletir sobre algumas questões que comportam desafios a esses projetos, bem como contribuições percebidas ao longo da implantação e implementação das propostas de jornada ampliada em escolas públicas municipais de Nova Friburgo. Um primeiro ponto a ser destacado é que o município possui três experiências de ampliação da jornada escolar com natureza e características diferentes – enquanto a Pedagogia da Alternância e a Pedagogia Waldorf constituem-se como projetos pedagógicos oriundos de países europeus, desenvolvidos em três escolas da rede municipal para todos os alunos que nelas estudam, o Tempo de ser Feliz é uma proposta que acontece fora do espaço escolar, no contraturno e a partir da opção de alunos e/ou de seus responsáveis. Um ponto que se constitui como desafio diz respeito ao espaço físico das experiências em relação à opção pelas atividades desenvolvidas. Durante as visitas, percebeu-se que duas experiências funcionam em espaço escolar próprio, enquanto uma outra mantém uma área87 restrita, dentro de um clube da cidade, em que as atividades acontecem de segunda a sexta-feira. Verifica-se que, neste último caso, há problemas em relação à frequência e há intermitência na participação das crianças. A justificativa mais citada foi, exatamente, a distância do projeto em relação à moradia e/ou espaço escolar em que as crianças transitam. Nesse sentido, não se pode deixar de registrar que o projeto perde em abrangência, uma vez que um de seus objetivos deixa de ser alcançado com eficácia. Por outro lado, o fato da criança fazer a opção pela atividade/oficina da qual deseja participar é fator importante na constituição de sua autonomia e esta questão não está posta nas duas outras experiências, visto que todos os alunos frequentam todas as atividades desenvolvidas nas duas escolas, em tempo integral. 87 Nas entrevistas houve controvérsias quanto à situação dessa área restrita do clube que é ocupada – de segunda a sexta – pelo projeto, ou seja, se a mesma era cedida ou alugada. 291 Essa situação leva a refletir sobre a ampliação do tempo integral x opção pelo tempo integral, questão que já vem sendo levantada em referencial específico sobre o tema, sem que haja um consenso em relação à melhor estratégia – optar pela ampliação do tempo para todos os alunos? Ou, ao contrário, apostar na escolha das atividades pelos alunos, como forma de manter seu(s) interesse(s) em sua formação mais completa? (COELHO, 2010; CAVALIERE, 2007). Outro fator que pode ser destacado refere-se à integração das atividades de que o aluno participa. Os dados e relatos apresentados evidenciam que, nas experiências da Pedagogia da Alternância e da Pedagogia Waldorf – presentes respectivamente na CEFFA Rei Alberto I e Escola Municipal Cecília Meireles – há integração entre as atividades curriculares, até porque esse trabalho, desenvolvido pelos docentes e técnicos na primeira e por docentes e auxiliares na segunda escola, reflete sua formação em relação às duas pedagogias. Nesse sentido, é bom lembrar as falas de gestores e professores: Mas é interessante, a professora tem que ter a maior consciência dessa interdisciplinaridade, né? Saber o ponto que ela tem que trabalhar ... ela tem o conteúdo, mas ela está sempre atenta ao que ficou pra trás. É mais lúdico, social e cultural. Porque as atividades artísticas estão inseridas dentro da matéria, elas não são separadas. Então a matemática tem um ritmo, (...) tem uma música de acordo ... (Entrevista 3 – diretora Cecília Meireles) Leva também das matérias, leva. Mas a gente fala que tem muito essa coisa da interação, porque eles têm matérias que são pra interagir com a família. Então eles vão levar trabalho de agricultura, que não é pra eles sentarem e fazerem sozinhos em casa, é um trabalho de formação humana, um trabalho de formação familiar (...). geralmente vai além do sentar sozinho e fazer. (...) A pedagogia é embasada no que eles já sabem, e a gente já se baseia no que eles trazem, então pra eles fica mais interessante. E se é interessante eles vão interagir melhor. (Entrevista 1 – professores CEFFA Rei Alberto I) 292 Esta disponibilidade não está presente na experiência Tempo de ser Feliz. Apesar do envolvimento dos professores que estão no projeto, o fato de eles não conhecerem o trabalho que é realizado nas escolas – até porque as crianças que o frequentam vêm de, pelo menos, doze instituições escolares diferentes – faz com que a relação curricular entre as atividades escolares e as da experiência se fragmente. Considera-se este um desafio a ser rompido, caso se esteja pensando em tempo integral alicerçado a educação integral, relação que vem sendo colocada cada vez mais em pauta nas discussões sobre o tema (PARO, 2009). Discorrendo ainda sobre as atividades desenvolvidas nas experiências, é importante lembrar que, na Pedagogia da Alternância, as atividades escolares regulares e as diversificadas mesclam-se, ao longo do dia. Já na Pedagogia Waldorf e no Tempo de ser Feliz, elas acontecem na relação turno – contraturno sendo que, na Waldorf, são respeitadas a faixa etária das crianças e as necessidades dela decorrentes. No caso da CEFFA Rei Alberto I, a orientadora chegou a expressar seu desejo de trabalhar com a opção turno e contraturno; porém, a situação funcional dos professores não possibilita essa experimentação na escola. Este é um ponto polêmico quando se reflete sobre a ampliação da jornada escolar, uma vez que ele pode redundar em uma possível ausência de integração entre as atividades, como se discutiu anteriormente. É digno de nota o fato de que, embora no caso da Pedagogia da Alternância haja três técnicos agrícolas trabalhando com os alunos, as três experiências que funcionam em Nova Friburgo trabalham, todas, com professores concursados ou contratados pelo município. Tal situação confirma pesquisa anterior, que demonstrou a predominância desses sujeitos como responsáveis pela efetivação das experiências (SECAD/MEC, 2009). Um fator considerado relevante para que qualquer experiência se consolide em termos de política pública é a existência de legislação específica que a regule dentro do sistema de ensino que a implanta. Nesse sentido, é preciso registrar que a Pedagogia da Alternância possui essa normatização legal, evidenciada nos pareceres CNE/CEB no. 5/97 e CNE/CEB no. 1/2002, bem 293 como em convênio celebrado entre a Prefeitura e o Instituto Ibelga (cf. instrumento de coleta de dados/2008). Sobre a Pedagogia Waldorf, o único documento conseguido durante a pesquisa de campo foi a apostila citada anteriormente, que apresenta os fundamentos pedagógicos da experiência em sua implementação na Escola Municipal Cecília Meireles. O instrumento de coleta de dados preenchido em 2008 refere-se também a um convênio celebrado entre a Prefeitura e a Associação Crianças do Vale de Luz. Em relação à proposta Tempo de ser Feliz, as informações recebidas pelo instrumento de coleta de dados e no próprio campo levaram à conclusão de que não há legislação que a consolide enquanto política pública municipal. Um olhar sobre essa questão evidencia o risco que as experiências Pedagogia Waldorf e Tempo de ser Feliz correm de serem extintas, tendo em vista a ausência de regulamentação/legislação que as sustente em termos legais. Estudos realizados confirmam que, quando há normatização específica, as políticas públicas tendem a se manter e a se consolidar, o que não ocorre quando a situação se inverte (MENEZES, 2009). Concluindo, é importante fazer dois registros. Em primeiro lugar, a pesquisa de campo realizada no município de Nova Friburgo/RJ possibilitou o contato com três experiências diversas, tanto no tocante aos seus fundamentos e propósitos, quanto em relação aos espaços físicos que ocupa; atividades que contempla e práticas curriculares que desenvolve. Nesse sentido, parece que as experiências denominadas Pedagogia da Alternância e Pedagogia Waldorf estão mais consolidadas, uma vez que possuem legislação específica, ou ainda fundamentos teórico-metodológicos próprios sustentando suas ações pedagógicas. Ambas acontecem em quatro escolas municipais friburguenses – duas instituições com cada uma das propostas. Já o Tempo de ser Feliz, cuja experiência abarca alunos de doze escolas dessa mesma rede, evidencia um trabalho assistencial, ainda não consolidado devido a diversos fatores, como, por exemplo, a ausência de legislação específica; de um espaço mais próximo ao público-alvo que 294 pretende contemplar; de uma integração mais efetiva entre projeto, escolas atendidas e Secretaria Municipal de Educação, entre outros. Este último fator levantado leva em conta o segundo registro que se pretende fazer ao final deste relato e que, de certo modo, vem sendo recorrente nas descrições apresentadas: a situação das experiências em gestões municipais diferentes implicando, por vezes, objetivos e metas igualmente diferentes nas políticas implantadas no município. Assim, foram evidenciados descompassos ainda não resolvidos à época da visita de campo – novembro de 2009 – no sentido do conhecimento mais efetivo das experiências de jornada ampliada implementadas no município; da forma como as mesmas vêm se mantendo ativas, ao longo de vários anos de existência88 e das parcerias que auxiliam na manutenção de suas rotinas. Credita-se esta situação ao fato da atual gestão municipal ter assumido suas funções em janeiro desse mesmo ano, o que lhe facultou um período de aproximadamente 10 meses à frente da secretaria, tempo relativamente curto para tomadas de decisão que envolvem políticas de espectro mais amplo, como o caso da ampliação da jornada escolar. 88 Segundo dados existentes no instrumento de coleta de dados enviado ao grupo de pesquisa no ano de 2008, a experiência mais curta era a Tempo de ser Feliz, com 36 meses, à época. A Pedagogia Waldorf e a Pedagogia da Alternância aparecem, nesse documento com, respectivamente, 95 e 144 meses de duração. 295 FOTO 9. Trabalhos realizados por alunos da experiência Tempo de ser Feliz (acervo das pesquisadoras) Referências www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1 www.pmnf.rj.gov.br/dados_n.php www.pmnf.rj.gov.br/turismo_conheca.php) www.pmnf.rj.gov.br/turismo_historia.php www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1) http://sistemasprovabrasil2.inep.gov.br/ProvaBrasilResultados/home.seam Apostila: Pedagogia da Alternância – Legislação pertinente. Apostila: Instituto Bélgica-Nova Friburgo (Pedagogia da Alternância – Os instrumentos pedagógicos). CADERNO DIDÁTICO. 1º. bimestre/2009. Nova Friburgo, 2009. CAVALIERE, Ana Maria V. ―Tempo de escola e qualidade na educação básica‖. In: Educação e sociedade. Campinas, vol. 28, n.100, out/2007. COELHO, Lígia Martha C. da Costa. ―Políticas públicas municipais de educação integral e(m) tempo ampliado: Quando a escola faz a diferença‖. Trabalho apresentado durante o XV ENDIPE. Belo Horizonte, 2010. Fôlder: Ibelga – Instituto Bélgica-Nova Friburgo Fôlder: UNEFAB – EFA – Escolas Famílias Agrícolas (instrumentos pedagógicos) MENEZES, Janaína S. da S. ―Educação integral e tempo integral na educação básica: Da LDB ao PDE‖. In: Educação integral em tempo integral: Estudos e experiências em processo. Petrópolis: DPet Alii; Rio de Janeiro: FAPERJ, 2009. 296 PARO, Vitor. ―Educação integral em tempo integral: uma concepção de educação para a modernidade‖. In: Educação integral em tempo integral: Estudos e experiências em processo. Petrópolis: DPet Alii; Rio de Janeiro: FAPERJ, 2009. Relatório de Pesquisa: Educação integral/educação integrada e(m) tempo integral: Concepções e práticas na educação brasileira. Brasília, SECAD/MEC, 2009. 297 VII – OLÍMPIA - SP Lígia Martha C. da Costa Coelho Karen Victorino Régis Foto 1. Festival do Folclore de Olímpia (Foto acervo da SME/2008) ... Encarar a escola como um espaço que ofereça formação complementar ao aluno. Vão ficar na escola os professores que gostem e possam passar isso pros alunos, porque fazem o que gostam. Eu acredito que o professor, o que ele transmite basicamente pro aluno não é aquilo que está nos livros, porque isso a internet oferece muito facilmente. É a capacidade de sonhar, de acreditar e de correr atrás de seus sonhos... e de se apaixonar pelas letras, pelos números, pelo nosso passado, pelo espaço que nós ocupamos geograficamente. O professor que faz isso ensina. Então é esse professor que precisa ficar no período complementar, pra que os alunos também possam se encantar e ver o mundo de uma outra forma, encarar diferente... (entrevista com professora Eliana, secretária municipal de Educação) 298 Foto 2. Bandeira de Olímpia/SP (Acervo da pesquisadora) 1.INTRODUÇÃO 1.1. O município O trabalho realizado na primeira fase da pesquisa, de caráter quantitativo, possibilitou a elaboração de um quadro em que foram destacados todos os municípios respondentes, por estado da federação; número e denominação das experiências que mantinham; número de alunos envolvidos e duração da(s) experiência(s), em anos/meses, entre outros dados. Por meio desse quadro explicativo e de critérios que foram estabelecidos pelas quatro universidades, durante o processo, realizou-se a escolha e análise das experiências, visando a parte qualitativa do estudo. No âmbito do recorte empreendido nessa investigação, pela UNIRIO 89, o estado de São Paulo foi aquele que apresentou o maior número de municípios respondentes com experiências de jornada ampliada, bem como experiências que o grupo avaliou como significativas, levando-o a propor que, nesse estado, fossem visitados dois municípios: a capital – São Paulo, e Olímpia. A opção por Olímpia deu-se pelo fato desse município possuir uma única experiência implantada há aproximadamente 72 meses, na totalidade das 10 escolas municipais de ensino fundamental, para todos os alunos dos anos iniciais. 89 Nesse sentido, foi privilegiado o fato da experiência estar A UNIRIO ficou responsável por mapear e trabalhar, posteriormente, com municípios dos estados de São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro (região Sudeste) e Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia (região Nordeste). 299 aparentemente consolidada em toda a rede, e para todo o quantitativo do alunado dos anos iniciais do ensino fundamental. O instrumento de análise preenchido pelo município informava ainda que a jornada-base daquela experiência era de 8 horas; ocorria durante todos os cinco dias da semana, e era organizada no contraturno, por meio de oficinas temáticas que aconteciam nos espaços escolares. Essas atividades no contraturno integravam o projeto pedagógico das instituições e eram desenvolvidas por professores efetivos e/ou contratados. Em termos legais, o grupo de pesquisa recebeu cópia do decreto municipal, datado de 29 de janeiro de 2003, que dispunha ―sobre a criação do Projeto Escola de Período Integral, a ser desenvolvido no Ciclo I do Ensino Fundamental, nas Escolas Municipais‖, entre outros documentos legais. A partir desses dados informativos, o grupo avaliou que a experiência em Olímpia deveria ser visitada, uma vez que parecia consolidada, tanto em termos legais quanto em relação a aspectos que eram considerados significativos para uma reflexão mais aprofundada sobre a jornada ampliada e o conhecimento de seu processo90. Quadro 1. Mapa de São Paulo e localização de Olímpia 90 Avaliação realizada pela pesquisadora Lúcia Velloso Maurício, responsável pela análise das experiências do estado de São Paulo. 300 O município de Olímpia possui uma área de 804 quilômetros e população de 50.602 habitantes. Com um PIB estimado em R$590,873, suas atividades econômicas mais significativas são a agroindústria, o comércio e o turismo, destacando-se este último, impulsionado pela expansão do Clube Termas dos Laranjais, um dos mais importantes parques aquáticos do país, cujas águas termais, de fonte mineral, são naturalmente aquecidas. O município é ainda considerado uma referência em relação à cultura popular. Nesse sentido, ostenta o título de ―capital do folclore‖ devido, principalmente, à realização anual do Festival Nacional do Folclore, no mês de agosto, e ao Museu do Folclore, cujo acervo é um dos mais completos do país, sendo visitado por alunos e pesquisadores de vários estados da federação. Foto 3. Praça principal de Olímpia/SP (Acervo da pesquisadora) Em termos de localização geográfica, Olímpia situa-se no estado de São Paulo, a 430 quilômetros da capital, mais precisamente na mesorregião da Alta e Média Araraquarense e na microrregião de divisor Turvo-Grande, limitandose ao norte pelos municípios de Altair e Guaraci; ao sul, pelos de Tabapuã e Cajobi; a leste, pelos de Barretos e Severínia e a oeste, pelos de Guapiaçu e Uchoa. A sede municipal, com 506 metros de altitude, dispõe dos distritos de Olímpia (sede), Baguaçu e Ribeiro dos Santos. 301 Localizado na região do Aquífero Guarani, o município tem sua história marcada pela ligação com a água. Foi o desbravador Antônio Joaquim Miguel dos Santos quem, passando pelos aproximadamente 60 córregos e nascentes da região, batizou-a de Sertão dos Olhos-d´Água. Bem mais tarde, em 2 de março de 1903, eram doados os primeiro 100 alqueires de terra para a constituição do Patrimônio de São João Batista dos Olhos-d´Água, que deu origem a Olímpia. Naturalmente, o principal templo católico da cidade, situado na Praça da Matriz, é batizado com o nome de São João Batista, seu padroeiro. O distrito, com o nome de Vila Olímpia, foi criado em 18 de dezembro de 1906 e, segundo fontes do próprio município, ―foi o engenheiro Robert John Reid quem solicitou ao Dr. Antônio Olímpio Rodrigues Vieira, de largo prestígio político em Barretos, que, ao ser criado o distrito, fosse dado o nome de Vila Olímpia, em homenagem à Maria Olímpia, afilhadinha do engenheiro e filha única do ilustre chefe político‖. O município, com terras desmembradas do município de Barretos, foi criado em 7 de dezembro de 1917 tendo, hoje, 93 anos. (www.olimpia.sp.gov.br/index.php?abre=olimpia=sp=historia=de=olimpia). 1.2.Educação no município de Olímpia Foto 4. Pátio interno da Escola Municipal Theodomiro da Silva Melo (acervo da pesquisadora) 302 Segundo dados do IBGE atualizados até o ano de 2008, em relação aos aspectos educacionais pode-se dizer que Olímpia possui aproximadamente 6.323 alunos matriculados em 22 escolas da rede de ensino fundamental, sendo três instituições privadas e 19 públicas, das quais 10 são instituições municipais. Nessa rede trabalham 598 professores, em uma média de 10 a 11 alunos por docente. Mesmo não sendo objeto do estudo, é importante destacar que, pela mesma fonte de dados, constata-se que o ensino pré-escolar apresenta um quantitativo de 1.147 discentes matriculados em 16 escolas, sendo 11 delas instituições municipais. Essas escolas abrigam 1.007 alunos desse quantitativo. (http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1) Verificando dados do INEP relacionados ao IDEB, constata-se que, se comparado aos dados nacionais e aos do estado e da capital de São Paulo, o município apresenta-se acima da média, principalmente no ano de 2007 91 – um ponto percentual em relação ao Brasil e meio ponto percentual em relação à media do estado. Também é possível comparar esse índice dentro do próprio município. Nesse caso, verifica-se que houve um aumento de meio ponto percentual entre o IDEB dos anos de 2005 e de 2007, o que permite questionar se haverá alguma relação com o fato do município ter instituído – e mantido – a jornada ampliada enquanto política pública municipal. Quadro 2. Comparativo entre os IDEBs nacional, estadual e municipal, nos anos de 2005 e 2007 IDEBs selecionados 91 Anos iniciais Anos finais 2005 2007 2005 2007 Brasil 3,8 4,2 3,5 3,8 São Paulo (estado) 4,5 4,7 3,8 4,0 São Paulo (capital) 4,1 4,3 -- -- Olímpia 4,7 5,2 -- -- Até a elaboração deste relatório, os dados do IDEB/2009 não tinham sido divulgados. 303 Levando em consideração o fato de que Olímpia possui um número relativamente pequeno de escolas municipais, também se buscaram os IDEBs dessas instituições, encontrando a situação visualizada no quadro a seguir: Quadro 3. Escolas municipais de Olímpia e seus respectivos IDEBs Escolas municipais de Olímpia IDEB – Anos iniciais 2005 2007 E. M. Theodomiro da Silva Melo 6,2 6,6 E. M Luiza Seno de Oliveira 4,7 4,5 -- 5,1 E.M. Joaquim Miguel dos Santos 4,3 5,2 E. M. Professor Maurício César Alves 3,8 5,3 E. M. Professor Reinaldo Zanin 5,3 4,8 E. M. Santo Seno 4,8 5,1 E. M. Washington Junqueira Franco 5,2 5,0 E. M. Professora Zenaide Rugai 3,9 4,7 E. M. Jardim Helio Cazarini 4,6 4,7 Município de Olímpia 4,7 5,2 E. M. Professor Dimas Narcizo Pereira Fonseca Uma análise mais detalhada do quadro 2 revela que, das 10 instituições públicas municipais de ensino, apenas uma não ultrapassou o índice do estado de São Paulo, no ano de 2007 (E. M. Luiza Seno de Oliveira). No entanto, todas ultrapassaram os IDEBs nacional e da capital, nesse mesmo ano. Ficando no índice do próprio município, constata-se que metade das escolas não alcançou esse IDEB, no ano de 2007. Todavia, pode-se inferir que outra 304 metade manteve um bom crescimento, se forem comparados seus próprios IDEBs nos anos de 2005 e 2007. Sobre essas inferências que os números brutos permitem realizar, algumas perguntas ficaram no ar: Haverá alguma relação entre os IDEBs acima da média e o fato de Olímpia possuir uma experiência de jornada ampliada em toda a rede municipal, desde o ano de 2003? Quais são os pressupostos teóricos e metodológicos dessa experiência? 1.3. A pesquisa: metodologia, instrumentos e dinâmica em campo É preciso ressaltar que as quatro universidades componentes da investigação, em reunião conjunta, definiram os procedimentos e instrumentos a serem utilizados na pesquisa de campo. No entanto, pensando sobre as múltiplas possibilidades que poderiam ser encontradas quando das visitas aos municípios, acordou-se que cada grupo utilizaria os instrumentos mais adequados ao campo encontrado. Nesse sentido foram elaborados, como instrumentos de análise, quatro Roteiros de Entrevista, respectivamente para (1) gestores municipais de educação e/ou responsáveis pela(s) experiência(s) e gestores das escolas a serem visitadas; (2) profissionais que atuavam diretamente com a(s) experiência(s); (3) alunos e (4) pais ou responsáveis. O objetivo desses roteiros foi o de constituir um conjunto de questões que possibilitasse, em campo, o detalhamento da implantação e da implementação da(s) experiência(s) e, quando da elaboração dos relatórios, uma organicidade às análises efetuadas. De posse desse material específico, bem como das Cartas de Apresentação e Termos de Compromisso a serem assinados pelos gestores e profissionais que concordassem em participar da pesquisa, fizeram-se os primeiros contatos com o município de Olímpia, primeiramente por telefone e, posteriormente, por meio do correio eletrônico. Houve pelo menos três contatos anteriores à observação in loco e, em todas as ocasiões, o contato imediato foi 305 com o professor Ademir Antônio de Freitas, assessor da secretária municipal de Educação. A viagem foi marcada para a primeira semana de dezembro de 2009, quando uma dupla de pesquisadoras esteve na cidade de Olímpia durante quatro dias, visitando a Secretaria de Educação e três de suas dez escolas municipais. A dupla formou-se com a professora Lígia Martha Coimbra da Costa Coelho, coordenadora do NEEPHI – Núcleo de Estudos, Tempos, Espaços e Educação Integral e docente do Programa de Pós-Graduação em Educação da UNIRIO e Caren Victorino Régis, mestranda do referido programa, além de colaboradora desta investigação. Na ocasião, todos os quatro roteiros de entrevista citados anteriormente foram utilizados, servindo de base às entrevistas gravadas. A dupla de pesquisadoras também fez uso de observações e de anotações em diário de campo. 1.4. A SEMED: organograma, dados, princípios, projetos e ações A página do município, na internet, informa que ―A secretaria municipal de Educação tem como atribuições organizar, desenvolver e manter o Sistema Municipal de Ensino, integrando-o às políticas e planos educacionais da União e do estado nos termos da Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional; planejar, desenvolver, executar, controlar e avaliar a política educacional no município‖. (http://www.olimpia.sp.gov.br/admin=educacao.php). Na atual gestão92, a secretaria municipal de Educação de Olímpia, situada no centro da cidade, é representada pela professora Eliana Antonia Duarte Bertoncello Monteiro, secretária, e por seu assessor, prof. Ademir Antônio de Freitas. Durante a visita de campo, esses dois professores foram entrevistados, assim como Luciana e Edward (conhecido como Vadão), professores 92 Prefeito Geninho (DEM), gestão 2009-2012 306 responsáveis, respectivamente, pela Coordenação de Educação Fundamental e Coordenação Pedagógica do Período Complementar. Em entrevista gravada com a secretária municipal, conheceram-se alguns projetos da Secretaria, que acontecem por meio da intersetorialidade com outras secretarias – Saúde, Cultura, Esportes e Meio Ambiente – ou, ainda, de parcerias com a sociedade civil – Rotary, Lions e Usina Guarani, por exemplo. Alguns desses trabalhos são esporádicos; outros possuem uma periodicidade e outros, ainda, são permanentes. A professora Eliana destacou, entre eles, o Projeto Clínica Lions, em que fonoaudiólogos, psicólogos e dentistas atendem crianças das escolas por um preço de tabela, que é pago pelo ―padrinho‖ dessa criança – uma pessoa que a ―adota‖, perante o Lions, com essa finalidade. Como visto anteriormente, a secretaria de Saúde do município apresenta um trabalho semelhante, disponibilizando para a Educação uma equipe disciplinar que trabalha diretamente com os alunos, os pais e o professor. Já a secretaria do Meio Ambiente desenvolve vários projetos, como a visita à nascente do principal rio da cidade. A professora Eliana destacou ainda o projeto idealizado pela Usina Guarani: 1. (...) e aí entram os índios na história, porque nós estudamos muito a história de Olímpia a partir da chegada das pessoas que trabalharam na lavoura em função da fecundidade da terra. E a Usina Guarani, quando foi trabalhar a terra para o plantio da cana, encontrou vestígios da presença dos índios (...) são vasos, muito material que era dos índios. E contratou uma empresa que tem uma arqueóloga (...) Essa arqueóloga veio, fez um estudo de todo esse material e depois propôs pra nós que isso fosse pras escolas, para que as crianças aprendessem como foi a presença do índio na nossa história. E foi muito interessante porque as crianças falam muito em arqueologia. Fizeram nas escolas a simulação de terras, eles escavaram pra encontrar o material, depois lavaram, classificaram e o Vadão, que é esse nosso professor que é do período complementar, fez 307 até uma música pra culminância do projeto, falando da história dos índios (entrevista 1 –secretária municipal de Educação) Na ocasião, a professora Eliana comentou sobre outro projeto da mesma Usina Guarani – Presença da França no Brasil. Nessa proposta, as crianças foram à Casa de Cultura para uma sessão de desenhos animados franceses: ―era o cinema nos seus tempos áureos, com tapete vermelho (...), um corredor dourado (...) fitas e pipoca, refrigerante (...) o lanterninha e um apresentador que explicou como funcionava, interagiu com as crianças‖ (entrevista – secretária municipal de Educação). Quanto às ações da Secretaria, foram destacadas, na entrevista, (1) a disposição em construir prédios adequados à educação Infantil, visando preencher uma lacuna existente no município em relação à educação dessa faixa etária, bem como (2) a iniciativa de colocar o tempo integral das escolas como opcional, questão que será abordada a seguir. 2. A EXPERIÊNCIA 2.1. Histórico do projeto Foto 5. Aula de pintura em uma escola pública da rede municipal de Olímpia (arquivo SME/2008) 308 O município de Olímpia possui uma única experiência de jornada ampliada denominada, desde 2007, de Escola de Tempo Integral. Segundo informações recebidas por meio do ofício no 707/2008, assinado pela então secretária municipal de Educação à época, professora Maria Tereza Diniz Sachetim Barboza, essa proposta teve início em 2003, normatizada por meio da Resolução SME no 1, de 29 de janeiro de 2003, que dispunha sobre a criação do Projeto ―Escola de Período Integral‖, a ser desenvolvido no Ciclo I do Ensino Fundamental, nas escolas municipais. Nessa resolução, constata-se que a experiência foi implantada, inicialmente, na ―EMEF Santo Seno‖ (art.1º), contando com uma jornada diária de 10 horas (art.2º.). O período da manhã destinava-se ao ―ensino das matérias que compõem o núcleo comum‖, obedecendo a uma matriz curricular anexa ao documento legal. O período da tarde seria organizado pela instituição escolar, contando com disciplinas que seriam tratadas como Atividades de Enriquecimento da Aprendizagem (art. 3º). Com relação aos profissionais, a resolução previa o afastamento do pessoal docente, titular das redes municipal ou estadual, para trabalhar na experiência e, ainda, admissão de professores, em caráter temporário, bem como seu enquadramento no que foi denominado como Jornada Ideal de Trabalho Docente – um conjunto de ―horas em atividades com alunos, horas de trabalho pedagógico coletivo na escola e em local de livre escolha‖ (arts. 4º e 5º). A avaliação da proposta seria semestral e as demais unidades municipais poderiam solicitar sua inclusão no projeto, desde que estivessem em condições de desenvolvê-lo. Também foi previsto que sua duração seria de um ano e que seu prosseguimento estaria condicionado aos resultados positivos que fossem alcançados, bem como a necessidade do Conselho de Escola atuar na opção pela proposta e na inclusão de disciplinas e atividades (arts. 6º, 7º e 8º). Acompanha a resolução o Anexo citado anteriormente, que apresenta uma matriz curricular básica para o ensino fundamental, totalizando 309 27 horas semanais de componentes curriculares (25 horas) e parte diversificada (2 horas). Ainda segundo informações presentes no ofício supracitado, ―gradativamente o atendimento foi ampliado para as demais escolas, atingindo a totalidade‖. Nesse sentido, em 2007, o então prefeito de Olímpia, Luiz Fernando Carneiro, assinou o decreto no 4203, de 28 de setembro de 2007, que dispunha ―sobre Escola de Tempo Integral na Rede Municipal de Ensino de Olímpia‖. Este documento legal, após uma série de considerandos, decreta o funcionamento de toda rede municipal de Olímpia em período integral, a partir de 1º de janeiro de 2008 (art.1º). Para concretizar essa proposta, o art. 2º dispõe que o projeto político pedagógico de cada unidade escolar deveria prever as oficinas curriculares a serem desenvolvidas, e ainda que à secretaria municipal de Educação caberia fixar normas para composição curricular e diretrizes de organização e funcionamento da Escola de Tempo Integral (art.3º) Uma leitura atenta dos considerandos presentes nesse decreto expõe um conjunto de textos legais e duas definições básicas sobre a proposta de Escola de Tempo Integral que evidenciam o aspecto pedagógico da experiência. Em outras palavras, norteando os objetivos e metas da proposta estão (1) a deliberação do Conselho Municipal de Educação; (2) a Lei Orgânica do município e (3) o Plano Municipal de Educação; (4) a Lei 9394/96; (5) o Estatuto da Criança e do Adolescente e (6) o Plano Nacional da Educação, assim como duas assertivas: (1) ―prolongar a permanência dos alunos na escola pública municipal, de modo a ampliar as possibilidades de aprendizagem com o enriquecimento do currículo básico, propiciando vivência de situações que favoreçam o aprimoramento pessoal, social e cultural‖ e (2) ―ferramenta capaz de consolidar valores ensinados e praticados na escola aguçando a reflexão em direção às melhorias humanas e prevenindo comportamentos de risco pessoal e social na infância‖. O ofício encaminhado anexava também o decreto n o 4226, datado de 20 de novembro de 2007, em que, além das escolas de ensino fundamental e as creches do município de Olímpia, são nominalmente citadas quatro EMEIs que funcionariam igualmente em período integral, a partir de 1º de janeiro de 2008. 310 Esse conjunto de três documentos legais, que foi enviado ao grupo de pesquisa por ocasião da investigação quantitativa, possibilitou conhecer o histórico da experiência de jornada ampliada presente em Olímpia – uma proposta iniciada em 2003 que contava, então, com 84 meses de duração quando da visita de campo ao município. Por meio desse ordenamento legal, foi possível perceber o delineamento da proposta no tocante aos sujeitos nela envolvidos; a natureza das atividades a serem implantadas, bem como as atribuições do Conselho de Escola e a função do projeto político-pedagógico nas unidades escolares, em relação a essa proposta de jornada ampliada, até o ano de 2007. Junto a essa documentação, foram enviados ainda um CD, com texto informativo sobre a experiência na educação infantil e no ensino fundamental, além de inúmeras fotos dos trabalhos desenvolvidos, bem como o instrumento quantitativo de coleta de dados. No CD, as informações e as fotos corroboram com o que os documentos legais já dispunham. Quanto ao instrumento de coleta de dados, preenchido pela secretária municipal, professora Maria Teresa Diniz Sachetim Barboza, pode-se dizer que ele confirma e contempla as questões já descritas anteriormente, a partir dos três documentos legais apresentados. A título de reflexão posterior, é relevante apontar que, na questão sobre os locais dentro e fora da escola em que acontecia a experiência, nenhum local fora da escola foi assinalado como ambiente de realização de atividades; que os responsáveis pela execução das atividades continuavam sendo os professores concursados e contratados, e não quaisquer outros profissionais, e que, entre as várias possibilidades para a implantação da experiência, o município assinalou apenas a opção política pública municipal. Nesse sentido, a pesquisa de campo na cidade de Olímpia foi um movimento de mergulho na realidade dessa experiência, visando ao aprofundamento da percepção inicial, cuja temporalidade havia estancado no ano de 2008, apresentando toda a rede municipal em tempo integral e que denotava uma coerência que seria importante verificar in loco. 311 2.2. Descrição da experiência A pesquisa de campo aconteceu na primeira semana do mês de dezembro de 2009. A partir de roteiro previamente organizado pelo professor Ademir, assessor da secretaria municipal de Educação, no primeiro dia foram entrevistadas a secretária de Educação, professora Eliana; o assessor, professor Ademir e a coordenadora de educação fundamental, professora Luciana. Nesse mesmo dia, também foi visitada a Escola Municipal Theodomiro da Silva Melo. O segundo dia foi dedicado à entrevista com o professor Vadão, coordenador pedagógico do período complementar e à visita às Escolas Municipais Luiza Seno de Oliveira e Professora Zenaide Rugai Fonseca. Segundo o professor Ademir, as instituições escolares por ele escolhidas situavam-se em regiões diferentes da cidade, o que possibilitaria um conhecimento melhor da(s) realidade(s). As entrevistas concedidas pelo núcleo gestor municipal – professores Eliana, Ademir, Luciana e Vadão – constituíram, em síntese, um diagnóstico do processo criado pela experiência Escola de Tempo Integral no município. A partir das falas desses professores e gestores municipais, foram explicitadas tendências assumidas em gestões anteriores e na gestão atual, iniciada no ano de 2009, bem como ressaltados alguns dos entraves e avanços dessa proposta. É evidente que as falas não são neutras; em outras palavras, carregam os olhares e representações daqueles que as produzem. No entanto, são também formas de encaminhamento e aprofundamento do processo de implementação da experiência, o que sugere a necessidade de apresentá-las, no sentido de melhor conhecer e compreender as concepções e práticas que nortearam e norteiam a proposta da Escola de Tempo Integral de Olímpia. Optou-se, assim, por evidenciar pontos recorrentes nas quatro falas, ou ainda questões apontadas e reforçadas pelos entrevistados visando a elas retornar, em momento posterior – quando da descrição da proposta em cada escola. Nesse sentido, destacaram-se quatro questões consideradas relevantes para o entendimento da experiência e(m) sua continuidade. São elas (1) o espaço físico, em seus limites e possibilidades; (2) a ampliação da jornada escolar, e os entraves surgidos dessa ampliação; (3) os sujeitos que 312 atuam na experiência, sua formação e rotina de trabalho e (4) a concepção de educação subjacente à proposta implantada. O primeiro ponto destacado – o espaço físico, em seus limites e possibilidades – foi abordado por três dos quatro entrevistados. Para eles, uma experiência como a que se encontra em curso não pode prescindir de instalações físicas adequadas, o que não acontece na rede municipal de Olímpia. Em gestões anteriores, visando à continuidade da proposta, foram construídos anexos aos prédios escolares já existentes. No entanto, essas construções carecem de uma arquitetura mais condizente com o que se entende como prédio escolar. Em outras palavras, a construção horizontal, comportando aproximadamente mais quatro salas de aula, não se aproximou do esperado por esses gestores – espaços apropriados para uma ampliação de jornada: 2. A proposta do período integral, do ponto de vista teórico, é muito interessante, porque eu dou diferentes possibilidades pra criança desenvolver diferentes habilidades dentro da escola. Aí nós começamos a esbarrar numa série de dificuldades. Primeiro, a escola precisa ser ampliada. Então foi feita uma ampliação na escola. Lá eles mostraram pra vocês a ampliação. As salas ficaram abafadas, na época do calor é insuportável ficar na sala de aula. Eu não tenho espaço físico pra criança brincar fora da sala de aula (...) Então era muito difícil. Pro período integral dar certo tem que ter espaço, muito espaço, muito espaço. Não sei se você pôde dar uma olhada nas nossas escolas, a gente não tem esse espaço. (entrevista 2 – professora Luciana) 3. Todos os ambientes da escola foram ocupados e precisou-se fazer adaptação (...) e adaptação, ela se torna permanente, as crianças não ficam bem acomodadas. Isso faz com que as crianças tenham problemas, que a administração tenha problemas (...) Então a estrutura física dos prédios é um problema gravíssimo.(entrevista 1 – secretária municipal de Educação) 4. Mas uma coisa que eu ainda sinto que falta muito (...) uma das dificuldades maiores que eu senti nesse tempo todo é uma questão assim, de adequação de espaço pra essas atividades. 313 A pessoa vai trabalhar com música, ainda mais com os instrumentos de percussão! faz barulho, é barulhento o negócio. Aí tem outro professor dando aula ali de literatura, redação, leitura. Então esses conflitozinhos sempre tem (entrevista 7 – professor Vadão) Quanto à ampliação da jornada escolar, a maioria dos gestores entrevistados se referiu a ela e também a entraves que vêm ocasionando ao trabalho pedagógico. O problema mais citado foi, novamente, o referente à adequabilidade dos espaços físicos e, ainda, à alimentação – algumas crianças não conseguiram se adaptar ao cardápio, gerando conflitos para a gestão escolar. Também foram apresentadas outras questões, como, por exemplo, o aumento da carga horária, gerando cansaço e pouco aproveitamento pedagógico, bem como a atitude de alguns pais e a representação que têm em relação à ampliação dessa carga, embora também tenham aparecido falas que evidenciam aspectos positivos nessa ampliação: 5. A criança tem que comer a comida da escola. As crianças de diferentes idades, de diferentes níveis sociais, não se adaptam a determinada comida. E aí entra, um pai quer levar e o outro a criança passa mal (...) Qual é a proposta dessa criança o dia todo na escola? (...) eles ainda falavam assim pra mim: nós não queremos que eles fiquem enjaulados aqui o dia todo. Por que enjaulados? (...) ficam quatro professores dando aula de educação física juntos, um em cada canto da quadra. Então isso é totalmente inviável. Mas nós tínhamos que nos adequar, tínhamos que ficar com quinhentos alunos oito horas, nove horas na escola. (entrevista 2 – professora Luciana) 6. Foi muito difícil trabalhar com o período integral obrigatório. E o que a gente percebia? As crianças cansavam. Eles começaram a cansar (...) o primeiro problema que eu senti, a queda do rendimento deles no período regular. Por quê? Tudo bem, tem aula de tarefa e tudo, mas eles não estudam mais. (entrevista 2 – professora Luciana) 7. Porque eu particularmente acho muito interessante essa ideia de tempo integral (...) ainda mais nos dias atuais, onde a 314 gente vê e percebe assim esse grande desequilíbrio social. Tem criança que se não fica na escola (...) não é pra ter um caráter assistencialista da escola, não, mas também se não tem esse espaço pra poder desenvolver suas habilidades e competências, pra poder adquirir um conhecimento, não tem por onde. (...) então onde ele vai poder jogar, onde ele vai poder conversar, receber algum tipo de informação, ter contato com informática, ter contato com as artes, com a literatura, com toda essa gama de conhecimento, se não na escola? Então eu acho que ainda é o único braço do Estado que pode amparar uma sociedade nesse ponto, eu acho que ainda é o Estado, é a escola pra atender essa demanda. Então eu acho que tem sim, eu acho muito positivo a escola de tempo integral. (entrevista 7 – professor Vadão) 8. O professor fica exausto e com razão, porque as crianças não aguentam mais ficarem num determinado ambiente que é o de sala de aula. Mesmo que eles tenham aula de educação física, aula no pátio, chega um momento em que eles voltam pra sala, porque não pode manter todas as crianças no pátio, na quadra o tempo inteiro. E as crianças vão ficando mesmo muito agitadas, o professor no fim não aguenta mais e aí é uma situação (...) não é educacional, não é social (...) é uma situação de confinar crianças na escola. (entrevista 1 – secretária municipal de Educação) 9. O nosso sonho é que melhore mesmo, essa ideia possa prosperar, mas que antes de ser implantada, que nós tenhamos condições de abrigar essas crianças decentemente. Nos ambientes diversificados, não caracterizados como sala de aula, porque se ficar como está, caracterizado como sala de aula, só aumento de carga horária (...) Só quero enfatizar a questão do número de horas de permanência. Porque isso daí é uma coisa que eu não me conformo, da criança permanecer tanto tempo na escola. Eu já falei, mas eu quero enfatizar, porque foi de um extremo (...) ah, a criança fica pouco tempo na escola. Agora, fica muito tempo. Então nós precisamos colocar um meio-termo. E que nós consigamos ser aceitos dessa forma, resgatando a função da escola mesmo. (entrevista 1 – secretária municipal de Educação) 315 Ainda em relação a esse segundo aspecto, uma questão recorrente em algumas falas foi a polêmica obrigatoriedade X opção. Como visto anteriormente, a experiência Escola de Tempo Integral foi normatizada, em 2007, por meio de um decreto dispondo que toda a rede de dez escolas municipais funcionaria em período integral, a partir de janeiro de 2008. É bom lembrar que, nesse caso, a totalidade dos 3.051 alunos da rede municipal estava na Escola de Tempo Integral. Essa obrigatoriedade, segundo as falas dos entrevistados, gerou conflitos nas escolas, o que levou a atual gestão – iniciada em janeiro de 2009 – a transformar essa obrigação em opção para os pais e alunos: 10. No assumir a direção da escola, passou a ser obrigatório o período integral. E foi uma época muito difícil, por quê? Porque não são todos os pais que aceitam que as crianças permaneçam o dia inteiro na escola. Por que eles não aceitam? (entrevista 2 – professora Luciana) 11. Nossa proposta foi tornar o período complementar facultativo, não também porque nós achamos que essa é a melhor solução, mas porque alguns pais estruturaram a vida em função do período integral. E seria um problema muito grande pra essas famílias voltar a situação de dois períodos. E também na forma como a educação caminha no Brasil, isso é uma tendência e nós achamos que também significaria um recuo na história da educação no Brasil. Por isso nós ficamos no meio-termo. Nem nós recuamos na história, eliminando totalmente o período integral, nem nós obrigamos os pais e as crianças a ficarem na escola, se não se sentirem prontos para isso. Por isso que nós fomos para o período opcional. Colocamos como opção em janeiro de 2009, que foi quando nós chegamos aqui. Os pais fizeram a opção (...) o que aconteceu? Aí o nosso problema passou a ser não a obrigatoriedade, mas a opção. (entrevista 1 – secretária municipal de Educação) O terceiro ponto igualmente relevante para os gestores entrevistados foi o relacionado aos sujeitos que atuam na experiência, sua formação e rotina de trabalho. O assessor da secretaria, prof. Ademir, enfatizou os aspectos de rotina de trabalho que podem afetar o funcionamento da jornada escolar 316 ampliada, no município, e como vem tentando solucioná-los. Já os professores Eliana, Luciana e Vadão privilegiaram os aspectos formativos desses profissionais e de que forma essa formação pode contribuir para com a melhoria do processo iniciado pela proposta da Escola de Tempo Integral: 12. São todos professores habilitados, são todos profissionais da educação. Até por uma questão de contratação, por um aspecto legal, nós seguimos isso. (...) E a outra razão é porque faz sentido que seja um profissional da educação, mesmo que ele tenha outras habilidades, ele precisa ter uma formação de magistério pra ele poder compreender a fase de desenvolvimento das crianças, como motivar, como atuar. Então nós sentimos a necessidade de que seja professor no turno e no contraturno (...) nós temos projetos que são desenvolvidos fora do horário regular, porque aí o aluno vai para o projeto pela sua habilidade, aquele que gosta do esporte, é uma oportunidade pra ele desenvolver fora da sala de aula, fora do horário regular. Aí já não é mais relacionado ao período complementar, mas também a secretaria oferece isso e também é com professores. (entrevista 1 – secretária municipal de Educação) 13. (...) Eu sinto que há um despreparo por parte de alguns profissionais, sabe? Acho que muitas vezes não tem uma formação. Às vezes a pessoa tem uma formação pra atuar na base comum e às vezes pra suprir, né, somar aquelas horas, pega o período complementar. Só que às vezes ela não tem aquele perfil (...) como eu falei aqui no começo, tem que tirar da manga aquela experiência que você tem, extracurricular, vamos dizer assim, aquela bagagem, aquele algo mais, que você vai ter que precisar pra poder atuar com essas crianças no período da tarde. Porque ela já ficou a manhã toda na escola, num espaço fechado. Se você não tiver uma coisa interessante, motivadora pra segurar essa criança e poder desenvolver uma atividade legal, é muito difícil. Eu acho um ponto fundamental, uma formação mais direcionada pra poder atuar nessa área de período complementar.(...) Para que você possa partir, né, desse básico, desse lúdico pra poder atingir outras metas. Porque eu também vejo que o período complementar, ele também não é só pra ficar naquela parte artística, ele também não é só isso (...) também é pra reforçar aqueles conteúdos que são, né, da base comum, e de uma outra forma. Você pode fazer a pessoa reforçar aquilo através 317 de uma outra visão, de uma outra ferramenta, de uma outra linguagem, né. Então é isso, se você tem esses mecanismos artísticos, esse poder de variação e atrelado isso com as questões pedagógicas, didáticas e tudo mais, eu acho que você consegue um resultado bom.( entrevista 7 – professor Vadão) 14. Então ele tem uma jornada que atende o aluno e a outra jornada que ele tem hora de trabalho pedagógico na escola e hora de trabalho pedagógico de livre escolha. (...) por exemplo, é jornada ideal, ele fica 25 com o aluno, três ele fica na escola e duas ele fica de livre escolha. (...) aí a maior parte dos professores do período regular, do primeiro período são efetivos. Vamos abrir concurso pra mais 70 vagas, pra ficar nesse período todos efetivos. Já no segundo período (...) não comporta cargo. E não comportando o cargo (...) agora, não há um entrosamento ainda perfeito entre o regular e o complementar. O professor do regular, eles têm um horário de atividade pedagógica junto com os regulares. E o do período complementar junto com os dos períodos complementares. Então não há um entrosamento nesse aspecto. A falta de entrosamento fica um pouquinho difícil. (...) Uma coisa que a gente não gosta, mas é obrigado a engolir é o problema de acúmulo. O ideal não seria acúmulo. Então tem uma série de problemas (...) a gente tem que ver inclusive o problema das jornadas das 40 horas, de como é que vai ficar. São problemas que a gente ainda está engatinhando nesse sentido. (entrevista 2 – professor Ademir) O último ponto destacado pelos entrevistados refere-se à concepção de educação subjacente à proposta implantada. Os atuais gestores da experiência têm questões em relação à ampliação da jornada escolar e pensam, inclusive, em diminuir uma hora diária de atividades para 2010. Também têm dúvidas sobre como os pais e responsáveis entendem essa proposta e de quais rumos ela pode tomar, nesta gestão: 15. E também a questão de que os pais enxerguem o caráter educacional da escola, porque passou a ser encarado como caráter social. O que mais se discute na escola é a questão assistencialista (...) por que não deu uniforme? (...) é como se 318 fosse fácil assim, entrar em janeiro e fevereiro e ter 4.500 uniformes prontos (...) Então discute-se qualidade da merenda, uniforme e horário (...) nós vamos passar a oferecer oito horas, porque nós consideramos que é um bom tempo pra criança permanecer na escola, é uma jornada de trabalho de adulto. E os pais estão bravos, porque eles não querem oito horas. Fica pra escola não a questão do caráter formativo, daquilo que a escola deve oferecer no aspecto cognitivo, fica pra escola a questão da formação de valores. (entrevista 1 – secretária municipal de Educação) 16. A escola não dá mais conta de educar e a escola não dá mais conta de ensinar. Então nós perdemos o direcionamento da escola de horário integral. Por quê? O professor, ele ficou preocupado (...) nós tínhamos a preocupação de que os alunos não perdessem o interesse, porque começou a cair o rendimento. Aí eu começo a fazer adaptações pra que essa criança (...) exigir um pouco menos, fazer uma atividade. Tudo bem, até deu certo, mas caiu o rendimento, de maneira geral.. (entrevista 2 – professora Luciana) Além dos pontos destacados, considera-se relevante trazer duas falas que, de certa forma, levam em conta o papel do gestor municipal na concretização/consecução de propostas em sua pasta. No caso em questão, a secretária de educação, professora Eliana, enfatizou o papel das parcerias com o Rotary, Lions, outras secretarias municipais – notadamente as de Cultura, Saúde e Meio Ambiente –, além de, e principalmente, com a Usina Guarani. Já o professor Ademir reforçou as questões financeiras, que provavelmente levarão à diminuição da jornada escolar em uma hora, bem como à contratação de um coordenador único para os turnos regular e complementar. O assessor ainda comentou sobre as verbas oriundas de outros poderes que não são contadas em dobro, mesmo com o aluno duplicando sua presença na escola, em dois turnos: 17. (...) com a sociedade civil também. Nós temos proximidade muito grande com o Lions, com a Usina Guarani, que tem uma participação muito importante aqui na sociedade, de caráter econômico, social e tudo, porque emprega muita gente, tem 319 muita importância na economia. Então nós trabalhamos também bem próximos com a Usina Guarani, com a Associação Comercial. Isso acontece mesmo, justamente pra poder dar essa formação de caráter geral, e principalmente de um conteúdo significativo. Por isso que nós buscamos tanto a proximidade com essas entidades, porque nós temos percebido que o conteúdo, ele passa a se tornar significativo quando a criança sai do espaço da sala de aula, quando ela vai perceber que aquilo que ela prendeu é vida. (entrevista 1 – secretária municipal de Educação) 18. Ano que vem, como a gente vai tirar uma hora, como a gente está fazendo uma economia pra ver se a gente consegue acertar um pouco a Rede, então o período complementar não vai ter. O professor-coordenador vai ser professor-coordenador dos dois.(...) Nós temos a dificuldade, é que nesses agrupamentos de alunos a secretaria, entre aspas, perde, ela perde o quê? Ela perde a verba. Porque quando você pega todo o aluno do período regular e leva pro período complementar, pro segundo período, pro contraturno, inteiro, o MEC aceita no sistema e paga esses alunos. Agora, quando você pega a metade de uma classe e metade da outra e você junta num agrupamento, esses alunos recebem só como período parcial. Então esse é o grande prejuízo que tem. (entrevista 2 – professor Ademir) Apresentados que foram os principais pontos abordados pelos gestores entrevistados, descreve-se a seguir as visitas realizadas às três escolas municipais que o assessor da secretaria, professor Ademir, definiu como possibilidades de melhor conhecimento da proposta da Escola de Tempo Integral. Foto 6. Quadro pintado por aluno e professora da Escola Municipal Theodomiro da Silva Melo (arquivo da pesquisadora) 320 A visita à Escola Municipal Theodomiro da Silva Melo aconteceu em dois momentos – pela manhã e à tarde. Incrustada no centro da cidade, a escola possui um quantitativo médio de alunos, a maioria de classe média. As instalações estão, na sua maioria, limpas e organizadas, mas o espaço físico não é adequado para o desenvolvimento de uma jornada ampliada de oito horas diárias. Em outras palavras, o prédio é pequeno e, visando a ampliação do tempo escolar, foi construído um anexo, que é separado do prédio principal por um corredor. Foto 7. Frente da Escola Municipal Theodomiro da Silva Melo (arquivo da pesquisadora) Esses dois prédios comportam todas as atividades que acontecem nas oito horas diárias, no turno e no contraturno. O espaço é reduzido e chama a atenção a pouca luminosidade derivada, possivelmente, dessa compactação. No entanto, há um pátio interno muito bom, aparentemente pouco aproveitado. A sala ambiente destinada à informática encontra-se bem equipada e organizada. O mesmo não pode ser dito em relação ao espaço da biblioteca que, segundo a vice-diretora, professora Luiza, seria transferido, em breve, para outra sala da escola. Já a quadra é ampla e possibilita a realização de 321 várias atividades esportivas. Quanto ao refeitório, o espaço é amplo; ao longo de uma parede, bem como no centro desse espaço estão colocadas grandes mesas retangulares e bancos coletivos. No entanto, pelo fato de ser um lugar aberto, acredita-se que, no inverno, seja pouco adequado ao seu propósito primeiro. Professores, pais e alunos não se referiram ao espaço físico nas entrevistas. No entanto, as observações anteriores são corroboradas, de modo mais geral, pela vice-diretora, professora Luiza: 19. A escola, o prédio, o imóvel tem que se adequar pra ficar com essas crianças. Ter a sala de informática, isso nós temos (...) a sala da pintura (...) Sabe, é diferente. Então tem que ter estrutura, o imóvel tem que estar estruturado pra receber essas crianças com essas matérias aí que a gente quer colocar. (entrevista 3 – diretora Luiza) Em relação ao fator tempo, nesta escola, todavia, o grupo entrevistado foi bem enfático. Tanto para a vice-diretora quanto para alguns professores e alunos, a questão principal que, de certo modo, afetou a experiência, foi o fato de o tempo integral ser obrigatório, o que não aconteceu em 2009, visto que a nova gestão municipal tornou-o opcional. Em algumas falas, essa obrigatoriedade foi relacionada ao desinteresse pela aprendizagem, ou ainda à problemática das refeições dentro do espaço escolar – algumas crianças não se adequavam ao cardápio da escola: 20. O ano passado foi obrigado a frequentar integral (...) foi um caos. Era pai que vinha trazer comida, porque a criança não comia a comida da escola; era pai que vinha trazer lanche... (entrevista 3 – vice-diretora) 21.(...) no ano passado foi obrigatório o período complementar, então apesar de eu estar com a base comum, as crianças ficavam o período integral na escola. No meu ponto de vista não é viável. (...) pelo menos as minhas amigas 322 que dão aulas em outras escolas comentaram que o rendimento do aluno não é bom quando ele fica o dia todo na escola. (entrevista 4 – professor) 22. eu não estava dando aula pro período complementar, mas eu conversava com algumas mães que falavam assim: acho um absurdo eu ser obrigada a deixar a criança na escola, porque eu tenho com quem deixar meu filho. Só que essa mesma mãe, esse ano ela deixou. (...) essa escola foi a escola que mais teve conflito com os pais que não queriam deixar. E hoje, quantas salas tem de período complementar? (entrevista 5 – professor A) 23. Eu não gostei muito de ficar o dia inteiro, porque eu acho que ninguém gosta de ficar mais de quatro horas. Só que eu gostei um pouco por causa que tinha mais aulas assim, né, tinha aula à tarde e (...) sabe, eu não tenho como falar se eu gostei ou não gostei, eu gostei mais ou menos. (...) porque eu não gostava de almoçar na escola, eu gostava de almoçar com meus pais em casa. (entrevista 6 – aluno A) 24. Eu gostei de ficar em tempo integral, porque a gente tinha aula de expressão, de pintura, artesanato, educação física. Só que ficava assim, muito peso. (...) É, muita coisa. Aí eu queria que o ano passado fosse que nem esse ano, fosse opcional, quem quisesse ficar e quem não quisesse. (entrevista 6 – aluno B) Durante a entrevista com os dois pais indicados pela vice-direção, percebeu-se que eles não se colocaram contra a ampliação da jornada. O pai, inclusive, declarou que não entendia a polêmica criada especificamente naquela escola, porque as filhas gostavam das atividades, apesar de não terem optado por continuar no tempo integral. Para a mãe, o problema maior era a alimentação e o horário que, ao contrário da fala dos demais participantes, deveria ser maior, porque tanto ela como outras mães precisavam sair do trabalho para apanhar os filhos no atual horário ampliado da escola. 323 Em relação aos sujeitos que trabalham na experiência, as informações fornecidas no instrumento quantitativo de análise, bem como nas entrevistas com os gestores municipais se mantiveram – todos são professores. No entanto, há uma especificidade no município, que foi ressaltada basicamente nesta escola. Como há pendências judiciais em torno de concursos públicos realizados anteriormente, a secretaria municipal não pode realizar outros concursos. Assim, a contratação de professores é feita por meio de uma avaliação anual. Este fato cria muitas expectativas no corpo docente do município, mas, dependendo da classificação de cada candidato, há também a possibilidade de optar pela escola e pela natureza do trabalho a desenvolver – turno regular ou complementar: 25.(...) a gente presta uma provinha todo final de ano. Aí dependendo da classificação que a gente pega, a gente pode optar, né, qual classe, qual escola que a gente quer (...) no meu caso, quando chegou a minha vez na classificação, eu pude optar pelo período complementar aqui nessa escola, entendeu? Então é assim (...) vai do que você está buscando da sua classificação (...) é bem legal. (entrevista 5 – professor) Sobre a natureza do trabalho desenvolvido pelos docentes, a vicediretora comentou que há professores sem especialização naquilo com que trabalham no turno complementar. Esses professores podem vir – e vêm – de outras escolas para dar aula à tarde. Quando é um tempo só, o descompromisso acaba acontecendo, há ausências que desorganizam a estrutura da jornada ampliada na escola. Já em relação à carga horária docente, alguns professores avaliaram positivamente o tempo existente para reuniões e planejamento: 26. A gente tem o HTPC, que se realiza toda segunda-feira, são duas horas. O HTPC já é pra isso, pra você discutir com a coordenação, com a diretora (...) projetos que a escola está realizando ou vai realizar. O nosso dia a dia, o que a gente trabalhou durante a semana, o que a gente vai trabalhar. (entrevista 5 – professor) 324 Um outro fator significativo quando se pensa em ampliação da jornada escolar diz respeito às atividades desenvolvidas – sua natureza e integração ao projeto político-pedagógico da escola, bem como às atividades do turno regular. No caso da Escola Municipal Theodomiro da Silva Melo, no turno complementar há atividades esportivas, culturais e artísticas, além de educação alimentar. Os alunos destacaram educação física, pintura, informática, artesanato, música e ―tarefa‖, ou seja, o reforço escolar. Nas entrevistas realizadas com pais, alunos e professores, constatou-se que há quatro projetos que, no entanto, são desenvolvidos em todas as escolas da rede. São eles os de trânsito, meio ambiente, cultura afro e folclore. Educação alimentar é uma atividade também presente na totalidade das instituições. Sobre essa questão específica, identificaram-se professores comprometidos com o trabalho que realizam: 27. Eu fico com a parte da educação alimentar, que é a hora do almoço deles, né? Aí você tem toda uma orientação pra dar pra eles, um acompanhamento nesse horário. E dentro da sala de aula a gente trabalha atividades relacionadas aos projetos da cultura afro, trânsito, meio ambiente e o folclore. Mas também de recreação, brinquedoteca, jogos. São atividades também na parte recreativa. (entrevista 5 – professoras) Não havia certeza, por parte dos docentes, de que as atividades do turno complementar integravam o projeto político-pedagógico da escola; no entanto, a vice-diretora confirmou essa integração no documento. Aliás, essa é uma característica da proposta em Olímpia – a das atividades do turno complementar serem diferenciadas, escola por escola, e fazerem parte de seus planos anuais. Especificamente em relação ao entrosamento entre o turno regular e o complementar, questão abordada nas entrevistas com os gestores municipais, a fala de uma professora demonstrou sua existência: 325 28. De repente, quando ela quer que a gente passe alguma atividade diferenciada (...) no meu caso, ela me espera, porque ela sai meio-dia e eu entro meio-dia, então a hora que eu estou entrando, ela está saindo. Então praticamente a gente sempre se encontra, né? Quando ela quer que eu passe alguma coisa mais específica, alguma coisa diferenciada, que eu dê continuidade a alguma coisa que não deu tempo de terminar, então ela passa pra mim. (entrevista 5 – professoras) Finalizando as apreciações acerca da experiência na Escola Municipal Theodomiro da Silva Melo, é importante ressaltar a fala de um dos quatro alunos entrevistados, que afirmou ser muito bom ter outras atividades no contraturno, porque é possível conhecer outras habilidades, ou seja, é possível ser ―médica e pintora‖, a partir do que se conheceu na escola. Neste momento, visando melhor organizar a descrição da experiência existente nas Escolas Municipais Dona Luiza Seno de Oliveira e Professora Zenaide Rugai Fonseca, serão abordados os mesmos pontos que foram destacados, no que eles apresentarem de diferencial para a reflexão que compõe a última parte deste relato. Foto 8. Quadro pintado por aluno da Escola Municipal Dona Luiza Seno de Oliveira (arquivo da pesquisadora) A visita à Escola Municipal Dona Luiza Seno de Oliveira aconteceu na manhã do segundo dia de pesquisa em campo. A instituição situa-se na periferia da cidade, possui aproximadamente 500 alunos, de 1ª à 4ª série, e sua estrutura é semelhante à que foi visitada anteriormente. pesquisadoras foi recebida com bastante entusiasmo A dupla de pela direção, 326 coordenação das atividades complementares e do núcleo básico, cuja entrevista – coletiva – possibilitou conhecer melhor o funcionamento da experiência naquela instituição escolar. Primeiramente, foram visitadas todas as suas dependências e percebeuse que, ao contrário da Escola Municipal Theodomiro da Silva Melo, esta instituição escolar não possui um pátio interno com aquelas dimensões, mas há uma boa quadra de esportes e um pátio-corredor, situado entre as duas partes do prédio. Os demais espaços físicos estão limpos e organizados; porém, como já explanado anteriormente, são pouco adequados às atividades complementares desenvolvidas diariamente. Não houve tantos comentários acerca dessa questão nas entrevistas realizadas; as poucas intervenções nesse sentido, no entanto, caminhavam em outra direção: Foto 9. Pátio interno da Escola Municipal Dona Luiza Seno de Oliveira (arquivo da pesquisadora) 29. A única coisa que eu colocaria é a parte de estrutura da escola, lógico que todo mundo fala: ah, mas não tem estrutura. Então eu acho que deveria melhorar essa parte (...) Mas dentro das adaptações que a gente anda fazendo, a gente consegue trabalhar bem. (...) Mesmo sem ter uma sala só pra pintura, mesmo sem ter uma sala só pro artesanato, mesmo assim a gente consegue fazer as coisas, nenê? (entrevista 8 – direção e coordenadoras) 327 Já na sala da direção – pequena, se comparada à outra unidade escolar - foram mostrados vários trabalhos realizados pelas crianças nas atividades regulares e complementares, a maioria quadros pintados a partir da culminância do projeto referente à cultura afro. Também foi informado à dupla de pesquisadoras que a instituição recebeu prêmio, em 2008, pelas atividades desenvolvidas em prol da igualdade racial: 30.(...) E algo que foi gratificante pra gente, pra nossa escola e pro município foi essa premiação que nós recebemos em São Paulo, onde nós nos inscrevemos, envolvendo toda a escola, a base comum e o período complementar. E aí nós apresentamos atividades desenvolvidas na escola, tivemos a chance de concorrer com 32 escolas. Dessas 32, ficaram 16 e das 16, oito foram premiadas, inclusive a nossa. Foi uma honra receber esse prêmio em nome dos professores e dos alunos, né, porque foi um trabalho desenvolvido com eles, foi um trabalho deles. (entrevista 8 – direção e coordenadoras) Quanto ao fator tempo, as posições de alunos, professores e corpo gestor da escola apresentam diferença em relação às falas anteriores. Em outras palavras, a maioria dos entrevistados se posicionou a favor da ampliação da jornada na escola, geralmente apontando seus pontos positivos, apesar de se mostrarem inteirados sobre posições assumidas por outros sujeitos e outros espaços escolares: 31. Desta escola, eu posso dizer que todos concordam, todos gostam muito e todos se integram muito pra que isso seja uma proposta para o futuro. Na visão dos alunos também, eles se sentem muito felizes aqui na escola (...) Então aqui realmente funciona a escola de período integral. (entrevista 8 – direção e coordenadoras) 32. E eu falo, eu acho que isso daí é uma coisa que teria que continuar. Porque o ano passado era obrigatório, né, todas as crianças ficaram. Você percebe que esse ano que é opcional, a maioria fica também (...) Você percebe que a maioria fica e 328 que eles não estão aqui obrigados, feito (...) má vontade. Isso que a (...) falou, a gente está sempre em conjunto com a professora da manhã, essas brincadeiras de faz de conta que a gente tem. (entrevista 9 – professoras) 33. Eu gosto muito por causa que a gente aprende muitas coisas novas, né? E a gente faz alguma coisa, não fica em casa parado sem aprender mais, aí aqui na escola a gente está aprendendo alguma coisa, ao invés de ficar sem fazer nada. (entrevista 10 – aluno A) 34. Era ruim, eu chegava em casa não tinha nada pra fazer, ficava assistindo televisão, não tem ninguém pra conversar. É melhor ficar o dia inteiro. (entrevista 10 – aluno B) Quando o tema da entrevista se centrou nas atividades desenvolvidas no período regular e no complementar, as falas evidenciaram tanto uma integração entre ambas, na prática cotidiana, quanto a sua presença no projeto pedagógico da escola. A direção, inclusive, apresentou esse projeto políticopedagógico, em que se destaca o item 12 – Parte diversificada – onde se encontram a justificativa, os objetivos, o público-alvo e as atividades que ―serão realizadas de acordo com os espaços disponíveis nesta Unidade Escolar – laboratório de informática, pátios, salas de aula e quadra‖ (p. 46). A título de sistematização, insere-se o quadro curricular da parte diversificada, para o ano de 2009: Quadro 4 – Componentes curriculares / Atividades complementares da E. M. Dona Luiza Seno de Oliveira (PPP da escola) Componente Curricular 1º 2ºano ano 4asérie 3º 4º ano ano Educação alimentar 5 5 5 5 5 Orientação de atividades alfabetizadoras 2 2 2 --- --- Brincadeira de faz de conta 3 3 --- --- --- Projetos bimestrais 6 6 5 --- --- 329 Informática educacional 1 1 2 2 2 Educação física 3 3 2 1 1 Elaboração de tarefa com orientação --- --- 3 3 3 Língua estrangeira moderna (inglês) --- --- 1 2 2 Redação/leitura --- --- --- 2 2 Pintura --- --- --- 2 2 Artesanato --- --- --- 2 2 Música --- --- --- 2 2 Por intermédio do quadro anteriormente apresentado, pode-se verificar que a Escola Municipal Dona Luiza Seno de Oliveira trabalha com um conjunto de atividades complementares diferenciadas, em que educação alimentar, informática educacional e educação física são componentes curriculares para todos os anos iniciais do ensino fundamental e outras atividades aparecem para os três primeiros anos (orientação de atividades alfabetizadoras; brincadeira do faz de conta; projetos bimestrais) ou para o último ano/série (elaboração de tarefa com orientação, inglês, redação/leitura; pintura; artesanato e música), perfazendo um total de 12 atividades complementares, e carga horária de 20 a 21 horas/aula. Relacionando a realização das atividades aos sujeitos que com elas atuam, as falas evidenciaram a mesma situação apresentada pelos docentes da Escola Municipal Theodomiro da Silva Melo, ou seja, o entrosamento entre os profissionais e as atividades que desenvolvem, assim como a possibilidade de troca no horário reservado ao seu planejamento. Contudo, o detalhamento desse trabalho ficou mais explícito, como é possível constatar pela fala a seguir: 35. De repente eu falo assim: olha, tal aluno está com dificuldade em tal questão, principalmente porque nós temos 330 a aula da tarefa, né (...) tal aluno está com dificuldade nisso. Então a professora da manhã, ela vai e vê o que tem que trabalhar com esse aluno. E ela pede a nossa ajuda também. Às vezes ela fala: eu não deixei a tarefa pra esse aluno, mas você pode trabalhar nisso porque ele está com dificuldade nisso? E a gente trabalha através de jogos também, onde a criança se distrai (...) o faz de conta. (entrevista 9 – professoras) Ainda em relação aos sujeitos, houve retorno à questão do contrato temporário dos professores e falas em que o trabalho desenvolvido com as atividades complementares aparece como mais motivador, também para os professores: 36. E até pra nós professores é diferente. É uma experiência nova. Eu também falo que eu não trocaria o período complementar pela base comum. Eu não trocaria a minha sala, o meu trabalho, porque eu consegui me sobressair muito mais nessas aulas de projetos, que a gente faz artesanato, você está vendo, você está criando junto com eles, do que dentro da sala de aula. (entrevista 9 – professoras) Considera-se relevante destacar, mais uma vez, a fala de um dos dois alunos entrevistados nesta escola que, assim como a aluna da Escola Municipal Theodomiro da Silva Melo, percebeu a relação existente entre as atividades desenvolvidas no turno regular e no turno complementar na sua formação mais completa: 37. A1: É importante pro nosso crescimento, né. (...) a gente aprende alguma coisa na parte da manhã e aprende alguma coisa na parte da tarde. Se você está só até o meio-dia, por exemplo, eu não poderia, quando eu crescer, eu não poderia ser professora de música. Mas agora como eu estou aprendendo música, se eu quiser, quando eu crescer eu posso ser professora de música. E: E o que você acha que você quer ser? 331 A1: Veterinária. E: E aí, para ser veterinária, você vai precisar mais de que, do que você aprende de manhã, de tarde... A1: Ah, um pouquinho dos dois, né. E: Por quê? A1: Ah, eu gosto muito de bichos, né, dos animais. De manhã eu aprendo (...) sem a parte da manhã, sem matemática, português, sem eu poder completar até o terceiro colegial e a faculdade, eu não vou conseguir o meu sonho e ser veterinária. Eu posso até querer, mas só que sem isso eu não vou conseguir chegar lá. Aí a parte da tarde é bom porque a gente faz alguma coisa e também aprende (...) a gente conversa muito sobre o que a gente quer ser. (entrevista 10 – alunos) Foto 10. Número de dança afro em comemoração na Escola Municipal Professora Zenaide Rugai Fonseca (arquivo da pesquisadora) Já a visita à Escola Municipal Professora Zenaide Ruggai Fonseca foi rápida e aconteceu na tarde do segundo dia de pesquisa em campo. A instituição situa-se mais na periferia da cidade e o objetivo dessa visita, agendada pela secretaria municipal de Educação, foi assistir a uma festividade desenvolvida naquele dia e turno pelo corpo discente e docente da instituição. 332 Não houve entrevistas, nem visita aos espaços físicos que compõem a unidade escolar. A comemoração ocorreu no pátio coberto da escola, e houve possibilidade de assistir a, pelo menos, cinco números de música e dança relacionados principalmente às culturas indígena e afro. Os alunos estavam eufóricos com as apresentações; os professores, trabalhando junto com as turmas e o corpo gestor da escola, foram bastante presentes neste momento. A essa comemoração, a dupla de pesquisadoras foi acompanhada pelo professor Vadão, com quem também esteve à noite, durante evento na praça principal da cidade de Olímpia, quando de apresentação de música e dança encabeçada por alunos de outra das dez escolas da rede municipal. Na ocasião, o professor Vadão comentou que, anualmente, Olímpia organiza uma semana de cultura na praça principal e que, há alguns anos, os grupos de alunos das escolas municipais se apresentam, geralmente com números de dança, música e/ou canto, ensaiados nas atividades complementares da experiência Escola de Tempo Integral. Segundo ele, essa é uma forma de dar maior visibilidade à proposta, bem como trabalhar a autoestima dos alunos. 3. CONTRIBUIÇÕES E DESAFIOS DO PROJETO A descrição da pesquisa de campo efetuada em Olímpia/SP, realizada por meio de entrevistas concedidas à dupla de pesquisadoras por membros do corpo gestor da educação municipal, professores, alunos, pais e gestoras de duas escolas, bem como por visitas efetuadas a essas duas instituições, possibilitou um melhor entendimento do processo que vem sendo construído na experiência municipal denominada Escola de Tempo Integral. Nesse sentido, nesta seção procura-se refletir sobre alguns pontos que comportam as contribuições e os desafios desse projeto, visando melhor compreendê-los, e também levar à reflexão sobre as especificidades, conflitos 333 e possibilidades da implantação de propostas de jornada ampliada nas escolas públicas brasileiras. Um primeiro ponto a retomar diz respeito ao espaço físico em relação à ampliação da jornada escolar. Durante a visita, constatou-se que prédios escolares foram adaptados. Contudo, pode-se dizer que essa adaptação não levou em conta a natureza de uma educação integral, realizada em jornada ampliada, dentro de uma escola. Em outras palavras, não foram pensados espaços alternativos, cujas atividades não interferissem em outras que lhe fossem próximas (entrevista 4); além de que as ―adaptações‖ se transformaram em estruturas arquitetônicas permanentes (entrevista 3), sem uma concepção de educação que as constituísse enquanto tal. Estas situações são problemáticas para alguns dos entrevistados (entrevista 2); já para outros, elas se constituem como desafios para se pensar outras possibilidades de trabalho nos espaços e tempos disponibilizados no ambiente escolar (entrevista 29). É oportuno lembrar a existência de estudos que discutem a construção de ―anexos‖ às escolas como uma prática recorrente na história da educação brasileira, nem sempre adequada à melhoria da educação (ALGEBAILE, 2009). A título de reflexão sobre os pontos destacados no parágrafo anterior ficam então alguns questionamentos: (a) É o espaço físico escolar um ponto fundamental na constituição de uma proposta de ampliação da jornada escolar? (b) Em caso afirmativo, haveria um mínimo de espaço, com qualidade escolar, em relação ao qual não se poderia abrir mão, se o objetivo fosse a implantação de uma proposta com essa finalidade? (c) Não seria igualmente importante a utilização de outros espaços, fora da escola, para além de seu território, inclusive, no sentido de ampliar as experiências de aprendizagem dos alunos? (d) Em caso afirmativo, como se dariam essas utilizações de espaços extraescolares, a partir de qual(quais) planejamento(s) interno(s) à escola? (e) Caso a utilização de outros espaços se desse em turno contrário, como as relações entre as atividades regulares e as complementares se adensariam? Um segundo fator interveniente na experiência em análise foi a obrigatoriedade da proposta do tempo integral. Ao longo da pesquisa, percebeu-se que este fato causou dificuldades de gestão, embora essas 334 dificuldades tenham sido maiores em algumas escolas da rede do que em outras. Os motivos pelos quais os entrevistados se apresentavam mais resistentes à implantação da jornada ampliada como obrigatoriedade variaram, desde a adequação das crianças à alimentação escolar, passando pelo espaço físico não condizente com essa ―ampliação compulsória‖, até o cansaço dos alunos, gerando pouca aprendizagem (entrevistas 5, 6 e 8). Por outro lado, houve várias manifestações que evidenciaram a positividade dessa estratégia com alegações, inclusive, relacionadas à sociabilidade e à aprendizagem mais significativa para as crianças (entrevistas 9, 31, 33, 34 e 37). Em termos de política pública, ficou patente que a atual gestão municipal avaliou a questão e resolveu implantar o tempo integral como opcional, o que foi considerado pela maioria como uma atitude positiva, embora alguns afirmassem que esse fato não foi determinante na rotina da escola (entrevistas 22, 32). A situação posta pelo problema em destaque – obrigatoriedade do tempo integral x opção pelo tempo integral – leva a uma reflexão de âmbito mais político-social. Em outras palavras, constata-se que, no posicionamento a ser tomado pelas políticas públicas municipais, estão em jogo visões sociais de mundo que, embora não totalmente conflitantes, divergem em relação a questões como democratização da escola pública; função e natureza das atividades desenvolvidas no espaço escolar; papel do Estado e da sociedade civil em relação à educação pública e, ainda, livre-arbítrio dos sujeitos envolvidos, entre outras questões polêmicas. Estudos no campo da Educação vêm considerando estes fatores, quando discutem o tempo ampliado na escola, bem como as funções da escola pública na sociedade contemporânea (PERONI, OLIVEIRA e FERNANDES, 2009; COELHO e PORTILHO, 2009 e CAVALIÉRE, 2007) . Se o olhar investigativo se detiver no dia a dia da escola, outros fatores poderão ser incluídos na lista iniciada no parágrafo anterior, entre eles, a natureza das atividades desenvolvidas no tempo integral; sua integração às atividades ditas regulares; a função dos profissionais envolvidos no processo de ampliação da jornada; a formação e o papel dos professores que já 335 trabalham, ou venham a trabalhar nas escolas públicas com essa concepção; a ampliação das funções da escola para atividades que nem sempre são consideradas como “escolares” (alimentação, banho), entre tantas outras passíveis de estar neste rol. No caso específico da experiência existente em Olímpia, é preciso recordar que em seu percurso, de 2003 a 2010, há duas gestões diferentes, implicando propósitos e metas também diferentes nas políticas implantadas no município. Nesse sentido, o problema da obrigatoriedade do tempo integral x opção pelo tempo integral constitui uma dessas divergências de concepção e de prática(s), no campo educacional (entrevista 11). Corroborando com esse pressuposto, tem-se o fato de que a atual gestão reforçou seu propósito de, para 2010, diminuir uma hora do tempo integral na rede para garantir outras prioridades como, por exemplo, a construção de escolas de educação infantil o que, mais uma vez, confere um outro desenho à proposta inicialmente apresentada, quando do envio do instrumento quantitativo de dados, no ano de 2008. A esse respeito, duas observações podem ser feitas. Em primeiro lugar, é importante destacar que gestões imprimem sua marca quando se encontram no poder, e o caso de Olímpia é exemplo disso. Se é possível encontrar pontos positivos nesta tomada de posição, é também possível dizer que a descontinuidade de propostas, principalmente em políticas sociais como a educacional, acaba por descaracterizá-las, impossibilitando análises de seus resultados mais concretos. Em segundo lugar, pode-se dizer que a gestão anterior buscou legitimar a proposta que implantou a partir de dispositivos legais – uma resolução e dois decretos municipais. A atual gestão não se pronunciou acerca desta possibilidade, durante a visita de campo. Contudo, acredita-se que esta medida será tomada, uma vez que a existência de legislação específica sobre a experiência confere parâmetros que estão sendo modificados e que, nesse sentido, precisam igualmente legitimar-se por meio de outros dispositivos legais, sob pena de, não tendo sido os primeiros revogados, esgarçar o tecido social existente em relação à mesma. 336 A situação exposta no parágrafo anterior coloca em discussão outro ponto que nem sempre é chamado à pauta quando da implementação de experiências como a que se está relatando e analisando: a necessidade de legislação específica que norteie essas propostas93. Acredita-se que, em termos de política pública, a ausência dessa normatização fragilize a experiência, no sentido de pulverizar sua concepção e multiplicar práticas nem sempre compatíveis com o desenho inicial/original, o que pode dificultar a percepção de seus resultados. Por outro lado, essa ausência abre caminho para novos olhares em relação à proposta, encaminhando consequentemente outras práticas e possibilitando inovações ao projeto primeiro. Refletindo ainda sobre a experiência pesquisada, é pertinente lembrar que os sujeitos que nela atuam são todos professores. No panorama nacional, atualmente, existem experiências de ampliação da jornada escolar que se constituem a partir do trabalho e/ou colaboração de outros atores sociais – oficineiros, monitores, estagiários, por exemplo. No entanto, a par dessa possibilidade, existem também aquelas propostas que apostam na formação e profissionalização docente para trabalhar nessa jornada ampliada, como é o caso da Escola de Tempo Integral, em Olímpia. A visita realizada e as entrevistas concedidas deixaram entrever alguns desafios dessa experiência como, entre outros, no âmbito da formação, a ausência de uma formação continuada que solidifique conhecimentos e habilidades dos professores (entrevista 13) e, ainda, no que tange à profissionalização, de uma situação que transforme os contratos anuais e temporários em contratos efetivos (entrevistas 14 e 25). Especificamente na relação sujeitos x tempo integral, há uma contribuição efetiva na proposta de Escola de Tempo Integral: o horário de planejamento e estudo que, há tempos, tem sido apontado como fundamental em propostas de jornada escolar ampliada (COELHO, 1997). No caso específico de Olímpia, segundo alguns 93 Confirmando a reflexão apresentada, dados da pesquisa quantitativa que antecedeu esta investigação constatam que ―embora tenham sido destacados diferentes atos normativos, de acordo com os respondentes, 51,2% das experiências não apresentam nenhuma forma de normatização‖ (ver relatório denominado Educação integral / educação integrada e(m) tempo integral: Concepções e práticas na educação brasileira: Mapeamento das experiências de jornada ampliada no Brasil, Brasília,MEC, p.32). 337 entrevistados, esse processo ocasiona reflexões sobre a integração das atividades regulares às atividades complementares (entrevistas 26, 28 e 35), embora haja também falas que apontam a ainda incipiente integração (entrevista 14). Outro ponto relevante que pode ser considerado como uma contribuição da experiência pesquisada encontra-se nas parcerias. A entrevista concedida pela professora Eliana, secretária municipal de Educação, evidenciou parcerias com as secretarias de Saúde, Meio Ambiente e Cultura e ainda com instituições (Lyons, Rotary) e empresas (Usina Guarani). Nas situações apresentadas pela gestora municipal, foi possível perceber que há uma relação entre as atividades desenvolvidas por esses parceiros e a escola, ou seja, a centralidade da escola é mantida por meio do planejamento dessas atividades em consonância com o trabalho realizado nas instituições. A ida às nascentes dos rios (parceria com a secretaria do Meio Ambiente); as consultas com fonoaudiólogos (parceira com o Lyons) e as investigações arqueológicas (parceira com a Usina Guarani) são exemplos do que se expôs anteriormente. Finalizando, ressaltam-se duas falas que dão a dimensão do que uma experiência de tempo integral pode representar para aqueles que dela participam: 38. Aqui pra nossa escola a procura é grande (...) e pra outras escolas que eu conheço também. (...) Eu acho que teria que continuar do jeito que é esse ano, opcional. Por exemplo, aqui na nossa escola, mesmo sendo opcional a gente tem muitas crianças, inclusive das quatro às cinco. Porque o horário aqui é até as quatro e a gente teve que estender de quatro às cinco, porque de quatro às cinco, a gente tem mais de 200 alunos. (entrevista 9 – professoras) 39. Algumas pessoas gostavam de horário integral (...) mais ou menos, né? Algumas pessoas, tipo, quando crescer eu quero fazer medicina, mas eu quero também fazer uma aula de arte, eu quero ser pintora, a escola já teve essa aula, e aí eu já tenho isso aí em mente. E eu posso me destacar mais, 338 né, ser uma profissional de pintura (...) medicina... (entrevista 6 – alunos) A primeira fala constata a grande procura pelo tempo integral em algumas escolas da rede municipal de Olímpia, ao ponto de, na Escola Municipal Dona Luiza Seno de Oliveira, a gestão ter planejado mais uma hora de atividades de dança e esporte para alunos que ainda continuavam na instituição, a partir de seus interesses específicos (mais de 200, em um universo de aproximadamente 500 alunos)94. Nesse sentido é possível acrescentar, ainda, que a gestão anterior imprimiu um caráter bastante pedagógico à experiência da Escola de Tempo Integral, buscando integrar atividades regulares e complementares por meio do projeto pedagógico das escolas e do acréscimo de horas para planejamento e estudo docente, de modo a que os professores também se integrassem em um trabalho mais coletivo. Como a experiência estava disseminada em toda a rede municipal, e para todos os seus alunos, talvez esse tenha sido o germe para essa procura atual: os alunos buscam outras atividades e seus interesses específicos na escola – lócus privilegiado de sua formação. A segunda citação reforça fala anterior (entrevista 37), quando outra aluna evidencia, como esta, seu sonho profissional aliado ao também sonho artístico – e por que não? – o que só percebeu porque a escola lhe deu a chance de conhecer essas duas possibilidades formativas, a cognitiva e a artística. Nesse sentido pode-se dizer que, durante muito tempo, à escola pública se conferiram tarefas pedagógicas com um formato reduzido, fechadas em si mesmas. Cabe à contemporaneidade evidenciar uma outra escola possível que, sem perda de sua natureza formativa, amplie essa formação, de modo a contemplar todas as potencialidades humanas, integrando-as como elas se encontram integradas – mas, por vezes, adormecidas – em cada ser humano. É preciso acordá-las... e experiências de jornada ampliada, ou de tempo integral, podem se constituir como bases desse despertar. 94 A diretora informou que, nessa hora a mais, comparecem os alunos interessados em duas atividades específicas de esporte e dança, ou seja, é opcional para o atendimento àqueles interesses. 339 Foto 11. Quadro pintado por aluno do 3º ano da Escola Municipal Dona Luiza Seno de Oliveira (arquivo da pesquisadora) Referências ALGEBAILE, Eveline. Escola pública e pobreza no Brasil. A ampliação para menos. Rio de Janeiro, FAPERJ, 2009. CAVALIÉRE, Ana Maria V. ―Tempo de escola e qualidade na educação pública‖. In: Educação & Sociedade. Campinas, v. 28, n.100 – Especial, out/2007. COELHO, Lígia Martha C. da C. ―Escola pública de horário integral: Um tempo (fundamental) para o ensino fundamental‖. In: ABRAMOWICZ, Anete e MOLL, Jaqueline (orgs.). Para além do fracasso escolar. Campinas, Papirus, 1997. COELHO, Lígia Martha C. da C. e PORTILHO, Daniele Barbosa. ―Educação integral, tempo e políticas públicas: reflexões sobre concepções e práticas‖. In: COELHO, Lígia Martha C. da C. (org.). Educação integral em tempo integral: estudos e experiências em processo. Petrópolis, Rio de Janeiro: FAPERJ, 2009. Decreto no 4203, de 28 de setembro de 2007. Dispõe sobre Escola de Tempo Integral na Rede Municipal de Ensino de Olímpia e dá outras providências 340 EDUCAÇÃO INTEGRAL/EDUCAÇÃO INTEGRADA E(M) TEMPO INTEGRAL: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA. MAPEAMENTO DAS EXPERIÊNCIAS DE JORNADA AMPLIADA NO BRASIL. Relatório de Pesquisa. Brasília, SECAD/MEC, 2009. Fonte: http://www.olimpia.sp.gov.br/index.php?abre=olimpia=sp=acidade Fonte: http://www.olimpia.sp.gov.br/index.php?abre=olimpia=sp=historia=de=olimpia Notícia sobre a visita em Olímpia. http://www.olimpia.sp.gov.br/index.php?abre=noticias=ler&id=1243 Fonte: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1 Fonte: http://ideb.inep.gov.br/site/ Fonte: (http://www.olimpia.sp.gov.br/admin=educacao.php). PERONI, Vera Maria; OLIVEIRA, Regina Tereza e FERNANDES, Maria Dilnéia. ―Estado e terceiro setor: as novas regulações entre o público e o privado na educação básica brasileira‖. In: Educação & Sociedade. Campinas, vol. 30, no 108, out/2009. PROJETO POLITICO PEDAGÓGICO DA ESCOLA MUNICIPAL DONA LUIZA SENO DE OLIVEIRA. Olímpia, 2009. Resolução S.M.E. no1, de 29/1/2003. Dispõe sobre a criação do Projeto ―Escola de Período Integral‖ a ser desenvolvido no Ciclo I do Ensino Fundamental, nas escolas municipais. 341 VIII – SÃO PAULO - SP Lígia Martha C. da Costa Coelho Lúcia Velloso Maurício Bruno Adriano Rodrigues da Silva Foto 1. Atividade da Oficina de Circo – CEU Caminho do Mar (acervo das pesquisadoras) Eu estudei aqui no colégio da primeira à oitava série, né, e na sétima série tinha um grupo forte de xadrez e eu era da sala desse grupo forte, mas eu não sabia nada de xadrez, não conhecia nada, não sabia uma peça, não conhecia nada. (...) No seguinte, na oitava série, fiquei sabendo que o professor de educação física, o Igor, ele também dava aula de xadrez aqui na escola, como eu queria aprender mais, comecei a praticar, comecei nessa aula aí com ele, aí eu vi que não era um simples jogo, era um esporte, que eu podia competir com outras escolas, outros jogadores. Saí da escola na oitava série, no ano seguinte, no primeiro colegial, voltei para cá, comecei a ensinar como voluntário, (...) fui conseguindo ensinar mais e paralelamente fui evoluindo meu xadrez, comecei a participar de competições, sou um jogador federado até, da Federação Paulista de Xadrez, e atualmente participo dos jogos regionais e jogos abertos do interior (...); faço faculdade, tenho bolsa 100%, integral, justamente porque jogo xadrez, sou atleta da faculdade... (Ex-aluno e atualmente professor voluntário na EMEF Prof. Carlos Pasquale) 342 Foto 2. Bandeiras do estado de São Paulo, do Brasil e do município de São Paulo (Acervo da pesquisadora) 1. INTRODUÇÃO 1.1. O MUNICÍPIO O município de São Paulo foi escolhido pelo grupo de pesquisadores, no sentido de conhecer suas experiências de jornada ampliada. Entre os motivos que levaram a essa escolha, destacaram-se os fatos de o município ter apontado no instrumento de coleta de dados a existência de duas experiências: Jornada Ampliada, envolvendo todas as 477 escolas à época e São Paulo é uma Escola, abrangendo 220 instituições. Ambas aconteciam em tempo integral – 7 horas/dia –, tanto nos espaços escolares quanto em outros espaços, para os anos iniciais e os anos finais do ensino fundamental. Havia, ainda, um trabalho com várias atividades, mescladas às atividades regulares, ou no contraturno e, em ambos os casos, esse processo estava garantido no projeto pedagógico das escolas. Levando em consideração principalmente esses fatores, e também a situação socioeconômica e populacional do município em relação às demais cidades brasileiras, São Paulo não podia ficar de fora desta pesquisa de campo95.... Para falar do município de São Paulo, é necessário começar por sua história, que se inicia com os jesuítas José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, nos idos de 1553, quando aportaram em busca de um local seguro para a 95 A avaliação para a escolha deste município foi da pesquisadora Lúcia Velloso Maurício. 343 catequização, e que passa pela primeira missa celebrada no colégio jesuítico, construído próximo aos rios Tamanduateí e Anhangabaú, no dia 25 de janeiro de 1554, demarcando oficialmente o aniversário de criação da cidade. Quase cinco séculos depois, o que antes era um pequeno povoado abriga hoje cerca de 11 milhões de habitantes, em uma área de aproximadamente 1.530 quilômetros quadrados. Após 157 anos de sua fundação, passa a ser chamado de São Paulo e, em 1815, transforma-se na capital da Província de São Paulo, ganhando importância econômica anos mais tarde, por conta das grandes lavouras de café. Nelas, trabalharam imigrantes de todos os países do mundo e, mais tarde, também no crescente parque industrial da cidade. No século XX, mais precisamente na década de 1940, São Paulo ganhou importantes intervenções urbanísticas, principalmente no setor viário. A indústria se tornou o principal motor econômico da cidade e a necessidade de mais mão de obra nessas duas frentes trouxe brasileiros de vários estados, principalmente do Nordeste. Na década de 1970, foi a vez do setor de serviços. Hoje, a capital paulista é o centro financeiro da América Latina e notabiliza-se por ser considerado o motor econômico do país. Em termos econômicos, a cidade de São Paulo é responsável por aproximadamente 12%96 de todo o PIB nacional e coloca-se entre os quatro maiores PIBs do Brasil, ficando atrás, somente, dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Em termos de produção, o setor de serviços agrega 46,3% de suas atividades, cabendo 39,4% ao comércio e 11,9% à indústria. Historicamente, os setores da produção que melhor remuneram, no município, são a indústria de transformação e os serviços (excluídos os serviços domésticos), enquanto o setor do comércio, exigindo menos qualificação e especialização do trabalhador, sempre se posiciona abaixo da média municipal. Esses números expressam a importância desta cidade para a economia do país. No entanto, do ponto de vista da distribuição da riqueza, pode-se considerar que ela reproduz os altos índices de sua economia, ficando esta 96 http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/pibmunicipios/2005/tab01.pdf 344 concentrada em uma parcela significativamente menor da população. São Paulo, assim como os demais grandes centros urbanos brasileiros, vivencia elevados níveis de disparidade socioeconômica, mesmo estando em curso no país, desde o início da década, um processo de redução na desigualdade de renda, apontado por pesquisas e levantamentos realizados por instituições como o IBGE e o IPEA. De um ponto de vista mais geral, pode-se considerar que a cidade de São Paulo emprega um modelo de megacentros urbanos, não somente por sua grandiosidade econômica, mas também pelo caráter cosmopolita que apresenta, com uma extensa rede de entretenimento que inclui aproximadamente 160 teatros, 110 museus, 265 salas em 55 cinemas, 40 centros culturais, 54 parques e áreas verdes, sete grandes casas de espetáculos, seis estádios de futebol e um autódromo internacional. Dentro do conceito de megacidades, em São Paulo a divisão territorial expropria o direito de habitação da população menos afortunada no interior do centro urbano. Uma zona periférica que circunda a cidade constitui-se por imensos bolsões de pobreza, territórios de exceção97 vistos como prioritários em termos das escassas políticas sociais, focalizadas. Essa dinâmica segue modelo bastante difundido em outras cidades, pelo mundo. Quadro 1. Mapa do estado de São Paulo e localização do município de São Paulo 97 ―A combinação entre restrições materiais essenciais, implementação de políticas públicas caracterizadas por paternalismo e criminalização do território, e violência exercida por instituições dotadas de amplo instrumental bélico marca diretamente as favelas da cidade (...).‖ Maiores Informações: BUENO, Leonardo Brasil. Território de Exceção Enquanto Limite e Possibilidade para a Gestão Democrática em Favelas da Cidade do Rio de Janeiro. In LIMA, Carla e BUENO, Leonardo Brasil (org). Território, participação popular e saúde: Manguinhos em Debate. Rio de Janeiro: ENSP/FIOCRUZ, 2010. 345 1.2. EDUCAÇÃO NO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO: A SEMED Foto 3. Prédio da Educação Infantil – CEU Caminho do Mar (acervo das pesquisadoras) Segundo dados do censo educacional relativos ao ano de 2009, o governo municipal de São Paulo atende, por meio de um total de 671 escolas de educação infantil, 485 de ensino fundamental e oito de ensino médio, um número próximo a 900 mil alunos. Deste número, perto de 500 mil encontramse no ensino fundamental. Para tal tarefa, conta com mais de 30 mil professores, sendo cerca de 20 mil responsáveis pelas turmas desse mesmo ensino fundamental. Em relação ao Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB – , observa-se que a cidade de São Paulo ocupa lugar de destaque, em termos comparativos com o quadro estadual e nacional. No ano de 2007, a estimativa federal para a cidade, nos anos iniciais, ficava em 4,1, alcançando a cidade o índice de 4,3. Já nos anos finais, a meta projetada para o mesmo ano era de 4,1, alcançando a cidade 3,9, dois décimos abaixo do projetado, conforme se pode verificar no quadro a seguir: 346 Anos Iniciais Anos Finais 2005 2007 2005 2007 Brasil 3,8 4,2 3,5 3,8 São Paulo (estado) 4,5 4,7 3,8 4,0 São Paulo (capital) 4,1 4,3 4,1 3,9 IDEBs selecionados Quadro 2 – IDEBs nacional, do estado e da capital de São Paulo Como forma de expandir esses números e consequentemente melhor atender crianças e jovens do município, a Secretaria Municipal de Educação, em conjunto com a sociedade civil, busca o alcance de cinco metas, a saber: Ampliar e qualificar o atendimento da Educação Infantil, especialmente de 0 a 3 anos; Cinco horas de aula por dia a todos os alunos do Ensino Fundamental; Toda criança devidamente alfabetizada até o 2º ano do Ciclo I; Toda criança com aprendizado adequado à sua série; Valorizar os Profissionais da Educação98. Todas as ações implantadas pela SME caminham nessa direção, possuindo uma vinculação direta com a capacidade de melhor qualificar a rede educacional do município. Segundo dados coletados na página da secretaria, A eliminação do terceiro turno diurno no Ensino Fundamental em mais de 460 escolas e a consequente ampliação da carga horária para cinco horas de aula por dia; o fim definitivo das escolas e salas de lata, a construção de 260 novas escolas e novos CEUs, além de reformas e manutenção em toda a rede, são apenas alguns exemplos. Somam a eles a lei de reestruturação da carreira e melhor remuneração para o Magistério, a realização da Prova São Paulo, a fixação de 98 http://portalsme.prefeitura.sp.gov.br/AnonimoSistema/Palavra.aspx?MenuID=2 347 matrizes curriculares, os investimentos em capacitação e o crescente repasse de recursos diretamente para a escola, por meio das Associações de Pais e Mestres, uma aposta séria na autonomia e na participação da comunidade na vida escolar99. Nesse conjunto de ações focadas nas metas do município, pode-se compreender uma ação sincronizada, organizada no sentido do melhor gerenciamento da educação nos segmentos onde o município realiza seu atendimento. Com vistas a melhor gerenciar, também, as atividades de contraturno, e seguindo os caminhos de ampliação da jornada escolar presentes na legislação federal, foi criado o Programa São Paulo é uma Escola, no ano de 2005, por meio do decreto municipal nº 46.017, de 1º de julho, organizando um conjunto de ações socioculturais que pode ser visualizado na figura a seguir: Figura 1. Fonte: “São Paulo é uma Escola”. Secretaria Municipal de Educação, 2005. Segundo documento oficial sobre esse programa, sua ideia central gira em torno de propiciar aos estudantes do ensino fundamental, organizados em ciclos de escolarização, uma maior vivência no âmbito escolar. Considera-se a escola o locus privilegiado do ensino, o que faz com que o conjunto de atividades seja desenvolvido nesse espaço. Contudo, considera-se também que a 99 http://portalsme.prefeitura.sp.gov.br/AnonimoSistema/Palavra.aspx?MenuID=2 348 instituição escolar encontra-se imersa em outras possibilidades educacionais que não podem ser desprezadas – a cidade, o meio urbano, que são variantes potencialmente educativas. Nesse sentido, o programa consiste na mediação entre atividades próprias da escola e atividades oriundas da cidade, abrindo um canal de diálogo entre essas duas dimensões educativas, não somente através da incorporação de atividades complementares, mas também da capacidade de gerenciamento dessas ações no interior da escola. Convoca, ainda, pais e comunidades para esse diálogo e assume a perspectiva de que estes são partes fundamentais na constituição de uma instituição educacional de qualidade. Deste modo, o programa procura responder a uma série de complexas questões presentes no cotidiano dos estudantes e de suas famílias, unificando a ideia de educar e cuidar em um sentido prático. Também busca propiciar uma melhor organização das atividades cotidianas – tanto o trabalho dos pais, quanto as atividades próprias da infância e da adolescência ganham lugar de relevância. Por meio de uma educação integral, os alunos experimentam diversos tipos de vivências; seus pais e a comunidade ganham um espaço de participação e de interlocução. Nessa dinâmica, compreende-se que as ações do município voltam-se para outra perspectiva de atividade pública no âmbito da educação. Pensadas de maneira integrada, nesse programa, segundo o documento oficial, estão inseridas perspectivas de qualificação dos profissionais de educação, investimento na estrutura física das escolas, maior autonomia dessas instituições na capacidade de gerenciamento de suas ações e um programa de avaliação. O endereço eletrônico da secretaria não apresenta dados ou informações relativas à experiência denominada Jornada Ampliada que, como já visto anteriormente, foi indicada como uma das duas propostas de ampliação da jornada escolar existente no município. 349 Quando da visita realizada a dependências dessa secretaria, mais especificamente as que correspondem ao trabalho efetivo com aquela ampliação, a proposta da Jornada Ampliada também não foi destacada, ou seja, a partir de 2009, o programa São Paulo é uma Escola abarcou um conjunto de propostas, projetos e atividades que existiam na Secretaria Municipal de Educação com o objetivo de ampliação da jornada escolar, o que levou o grupo de pesquisadores a conhecer duas instituições escolares que fazem parte do referido programa. A visita citada no parágrafo anterior aconteceu duas vezes. Em ambas, o local foi a Assessoria de Projetos Especiais, situada em prédio que não integra a sede da secretaria municipal de Educação. Nessa Assessoria trabalham, entre outros, profissionais que coordenam atividades relativas a Esportes e Cultura. A professora Lílian Barone é uma dessas profissionais, responsável pela coordenação geral dos projetos desenvolvidos no programa São Paulo é uma Escola. 1.3. A PESQUISA: METODOLOGIA E DINÂMICA EM CAMPO Em relação aos procedimentos da pesquisa, pode-se dizer que a sistemática foi a mesma utilizada em outras visitas de campo. Houve um contato inicial, via telefone, por meio do qual foi agendada a semana em que o grupo iria ao município. Esse contato foi estabelecido com as professoras Marisa Ximenes e Lílian Barone, assessoras da Assessoria de Projetos Especiais da Secretaria Municipal de Educação. Quando da visita de campo, o grupo foi recebido pela professora Lílian Barone, que levou os pesquisadores às duas escolas previamente escolhidas por ela para essa finalidade. É importante destacar que a professora Lílian foi também a profissional responsável pelo preenchimento do instrumento de coleta de dados que possibilitou a escolha do município para a investigação, aspecto que foi considerado fundamental, uma vez que não ocasionou descontinuidade nas informações prestadas nesses dois momentos. 350 Foram visitadas duas escolas distintas da rede, ambas participantes do programa São Paulo é uma Escola. Uma delas situa-se na zona sul da cidade – o Centro de Educação Unificada Caminho do Mar – e a outra na zona leste, mais precisamente no Itaim Paulista – a Escola Municipal Carlos Pasquale. Em relação ao IDEB, verificou-se que o Centro de Educação Unificada Caminho do Mar não possui esse Índice na página do Ministério da Educação, uma vez que sua inauguração remete a 2008, não havendo tempo para esse dado começar a ser mensurado. Já a Escola Municipal Carlos Pasquale mostra relativa superação das metas previstas para a instituição nos anos iniciais e pequeno decréscimo nos anos finais do ensino fundamental100. No entanto, se comparado o índice dos anos finais aos do município de São Paulo, do estado de São Paulo e mesmo do Brasil, verifica-se que o percentual é bem maior e, quanto ao índice dos anos iniciais, ele só é menor em relação ao do estado de São Paulo, como se pode constatar no quadro a seguir: IDEBs selecionados Anos Iniciais Anos Finais 2007 2007 Brasil 4,2 3,8 São Paulo (estado) 4,7 4,0 São Paulo (capital) 4,3 3,9 E.M.Carlos Pasquale 4,4 4,5 Quadro 3. IDEBs nacional, do estado, da capital de São Paulo e da E.M. Carlos Pasquale Essas constatações, baseadas nos percentuais do IDEB de uma das escolas visitadas, possibilitam levantar a hipótese de se estariam esses 100 A meta prevista para a Escola Municipal Carlos Pasquale, no ano de 2007, era de 4,3 pontos para os anos iniciais e 4,6 pontos para os anos finais do ensino fundamental. A escola obteve, respectivamente, os índices de 4,4 e 4,5. 351 números positivos relacionados ao programa educacional de ampliação da jornada desenvolvido pelo município. Nesse sentido, conheceu-se a experiência São Paulo é uma Escola, consolidada no município de São Paulo, por meio da visita às duas instituições supracitadas, constituindo-se o grupo pelas professoras Lígia Martha C. da Costa Coelho e Lúcia Velloso Maurício, ambas pertencentes ao NEEPHI – Núcleo de Estudos – Tempos, Espaços e Educação Integral/UNIRIO e professoras pesquisadoras, respectivamente, dos Programas de Pós- Graduação em Educação da UNIRIO e da FFP/UERJ. Integrou ainda o grupo o doutorando Bruno Adriano Rodrigues da Silva, do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRJ. As visitas foram feitas nos dias 15 e 16 de março de 2010. Na ocasião, foram utilizados os roteiros de entrevista para gestores e coordenadores municipais da experiência; para gestores das escolas e professores que trabalham com as atividades que constituem essas experiências. Não foi possível realizar entrevistas com pais ou alunos, devido ao cronograma previamente estabelecido pela Assessoria de Projetos Especiais. Contudo, durante as visitas foram feitas anotações importantes para a elaboração deste relatório. 2. A EXPERIÊNCIA Como foi antecipado em seções anteriores, a experiência denominada Jornada Ampliada foi encampada pelo Programa São Paulo é uma Escola, mais abrangente em termos de objetivos e de metas do que a primeira. Quando se discorreu sobre os projetos e programas existentes na secretaria municipal de Educação de São Paulo, já se falou sobre essa experiência. Nesse sentido, no subitem a seguir, serão destacados apenas pontos que se consideram significativos para o entendimento da proposta, bem como o seu aspecto legal, consubstanciado basicamente no decreto n o 46.210, de 15 de agosto de 2005. 352 2.1. HISTÓRICO DO PROJETO São Paulo é uma Escola constitui-se em um programa implantado pela secretaria municipal de Educação, no ano de 2005. Segundo o decreto n o 46.210, de 15 de agosto de 2005, ele foi ―instituído nas unidades escolares da Rede Municipal de Ensino‖ através de decreto anterior – o de no 46.017, de 1º. de julho do mesmo ano, e o objetivo legal desta segunda normatização é o de regulamentar aquela experiência, o que é feito por meio de dez artigos. Lembrando as categorias de análise trabalhadas em todos os relatos desta investigação, pode-se dizer que o decreto 46.210/2005, para implementar o programa São Paulo é uma Escola, leva em consideração os espaços escolares e outros locais ―a serem determinados pela Secretaria Municipal de Educação‖ (artigo 4º.); o tempo escolar e o extraescolar, assim como a realização de diversas atividades – relacionadas a diferentes campos do conhecimento e expressão – no que denomina como horários pré e pósescola” (artigos 2º., 4º. e 5º.) e os sujeitos que poderão trabalhar com essas atividades, além das condições de realização desse trabalho (artigos 5º. e 6º ). Nesse sentido, verifica-se que o decreto 46.210 dispõe sobre vários fatores intervenientes na consecução do programa São Paulo é uma Escola, destacando ainda, em seus oito objetivos, questões atinentes à melhoria do processo ensino-aprendizagem (objetivos I, IV, VI e VIII) e ao acesso a bens socioculturais e a outros conhecimentos (objetivos II, III, V e VII) para todos os alunos e, ―excepcionalmente, as crianças e adolescentes em situação de risco poderão participar do programa‖ (artigo 2º. e seu parágrafo único). Na página da secretaria de Educação, encontra-se um documento que detalha os fundamentos e processos pelos quais a experiência denominada São Paulo é uma Escola vai se constituindo como um programa de grande abrangência. Nessa publicação, constituída por seis seções, apresentam-se os 353 fundamentos, objetivos e metas do programa, além dos projetos e atividades que desenvolve; seu cronograma de execução, avaliação e financiamento. Quando se analisa a Introdução desse documento, verifica-se a consonância do programa com os pressupostos da Cidade Educadora101, alicerçada em uma concepção de educação que transcende o espaço da sala de aula sem, no entanto, o deslegitimar: A partir da proposta educacional da escola é possível garantir que se desenvolvam práticas pedagógicas, sob a responsabilidade estrita desta, seja nos espaços da sala de aula, nas quadras de esporte, nas manifestações artísticas que se realizam em oficinas, workshops. Há espaços na cidade que estão para além da escola e que guardam um potencial formativo essencial, para a realização de um trabalho pedagógico relevante e coerente com a realidade dos sujeitos envolvidos no processo formativo. (...) Concebido desta forma, o Programa São Paulo é uma Escola é a resposta a uma série de questões colocadas no complexo contexto formativo e suas relações, que se estabelecem na cidade. (p. 5-6) O desenvolvimento da publicação apresenta os objetivos do programa, a maioria relacionada à melhoria do processo ensino-aprendizagem e à garantia de acesso aos bens sociais e culturais existentes na cidade. Em relação às metas, destacam-se a adequação, à época, de 21 CEUs – Centros Unificados de Ensino – no sentido de garantirem a sua consecução e a preocupação com a criação de condições ―objetivas para que todas as escolas recebam e apliquem adequadamente os recursos (...) e repasse de verbas‖ que garantirão a implementação do São Paulo é uma Escola. O documento possui, ainda, uma seção que configura o desenvolvimento do programa, reforçando que ele é realizado ―prioritariamente, nas escolas, nos CEUs e em outros espaços determinados pela secretaria municipal de Educação, durante toda a semana, incluindo sábados, domingos e feriados, bem como nas férias e recessos escolares‖ (p.17), abrangendo três 101 É importante lembrar que a cidade de São Paulo faz parte da Associação Internacional das Cidades Educadoras e que, em 2008, realizou-se, na cidade, o X Congresso Internacional de Cidades Educadoras. 354 dimensões: (1) acompanhamento da vida escolar dos estudantes; (2) promoção de ações culturais e esportivas e (3) promoção da saúde. Em relação aos CEUs, é preciso lembrar que esse projeto foi implementado na gestão municipal do PT, de 2001 a 2004, cuja prefeita, Marta Suplicy, entregou 21 unidades prontas. Apesar da mudança de partido na administração municipal e do projeto ter sido criticado pelo atual prefeito durante a campanha (FSP 26/11/2005), a proposta foi incorporada à sua gestão e, hoje, já são 44 as unidades em funcionamento. Visando conhecer melhor as concepções da experiência São Paulo é uma Escola na prática, foram visitadas duas instituições escolares: Um CEU – Caminho do Mar – e a Escola Municipal Professor Carlos Pasquale. 2.2. DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA: CEU CAMINHO DO MAR – PROFESSORA DULCE SALLES CUNHA BRAGA Foto 4. Prédio da Biblioteca e refeitório. Ao fundo, o prédio da Educação Infantil – CEU Caminho do Mar (acervo das pesquisadoras) O CEU visitado – CAMINHO DO MAR – foi inaugurado em outubro de 2008, no Jardim Lourdes, um dos bairros mais pobres do distrito do Jabaquara. De acordo com o Atlas do Trabalho e Desenvolvimento da Cidade de São 355 Paulo (2007), o bairro apresenta índice acentuado de população juvenil – 25% dela têm até 15 anos de idade. Têm baixa escolaridade – 10% estudam menos de quatro anos – e a taxa de desemprego entre os jovens de 15 a 17 anos chega a mais de 52%. Mais de 15% das crianças vivem em famílias com renda inferior a ½ salário mínimo. Segundo o Censo do IBGE, este é o bairro de maior densidade demográfica da cidade, com 260 mil pessoas concentradas em 15 quilômetros quadrados, reunindo 67 favelas, das quais 54 consideradas de alta vulnerabilidade social. O perfil do bairro levou à instalação de um CEU, projeto vinculado ao programa municipal ―Desenvolvimento de atividades no contraturno‖, cujo objetivo é a ampliação do universo cultural do aluno, preencher o tempo de ócio através da participação em oficinas diversas ministradas por ONGs conveniadas. Este CEU, como todos os outros, é um conjunto formado por três unidades educacionais – uma creche, uma escola de educação infantil e uma de ensino fundamental – além de um complexo poliesportivo e cultural – teatro, biblioteca, telecentro, conjunto poliesportivo, conjunto aquático – capaz de oferecer acesso a lazer, cultura, esporte, educação, educação profissionalizante, buscando transformar as condições de vida da população. Segundo o gestor dessa instituição, no ano de 2009, 14 mil pessoas se inscreveram para participar de atividades no conjunto poliesportivo e aquático. A biblioteca e o telecentro atenderam a uma média de 90 pessoas por dia. Nas três escolas estudaram 1.811 crianças de 0 a 14 anos: os 234 alunos da CEI ficam em horário integral; dos 470 alunos da EMEI, 377 são atendidos em horário integral; e dos 1.107 alunos da EMEF, 378 permanecem em horário integral. O objetivo não é apenas manter os alunos afastados de situações de risco social, mas de proporcionar atividades que contribuam para a qualidade de vida e para uma inserção social mais adequada. São 44 CEUs, nos diversos distritos de São Paulo, que oferecem oficinas com atividades desportivas diferentes das que têm na escola, como ginástica olímpica ou natação; atividades artísticas como teatro, dança, artes plásticas, e atividades de cultura popular como arte circense, maculelê e 356 outras; o objetivo das oficinas é a construção de conceitos, procedimentos e atitudes que articulem o projeto político pedagógico do CEU com a pluralidade cultural e a sustentabilidade. Localização dos CEUs Como se vê no organograma a seguir, o CEU é composto por três instituições educacionais articuladas ao chamado CEU Gestor. Esta instituição funciona como se fosse uma escola-parque, proposta por Anísio Teixeira, atendendo às unidades educacionais. É o centro promotor de projetos, portanto de articulação mais próxima tanto com a SEMED quanto com a comunidade. Nossa visita foi conduzida pela equipe do CEU Gestor. Ali conhecemos todos os espaços, o funcionamento das atividades, os responsáveis por elas e o público; pudemos observar a dinâmica do que estava sendo desenvolvido naquele momento, além de fazermos entrevistas com o coordenador da ação educacional Sérgio Souza e com o coordenador da ação cultural, Rodolfo Henrique. As unidades educacionais foram apenas visitadas, no sentido de que o que chama atenção, o que é diferente de outros lugares, o que permite a ampliação do horário é responsabilidade do CEU Gestor. 357 CEU - Estrutura CEU / Gestor CEI EMEI Conselho Gestor EMEF Telecentro Teatro Cultura Esporte Biblioteca Padaria / Cozinha Central Equipamentos Esportivos O espaço é grandioso: complexo aquático com três piscinas; instalações esportivas com quadra polivalente; equipamentos para atividades circenses; os mais variados espaços atendem a diversas atividades culturais e esportivas, que vão das artes plásticas a judô, capoeira e muitas outras, recebendo tanto alunos das escolas do CEU como de escolas do entorno, além da comunidade local. O teatro que funciona dentro do prédio conta com todos os recursos de um teatro profissional, com mesa de iluminação e de som com toda tecnologia necessária. As instalações primam pela funcionalidade e não pelo luxo, ou seja, foram planejadas para atender dignamente à demanda daquele quantitativo de usuários, incluída aí a comunidade. Percebe-se grande orgulho dos profissionais e alunos envolvidos em cada atividade, como querendo demonstrar que correspondem ao investimento feito. A alegria dos alunos é evidente. Como se pode ver no organograma, o CEU/Gestor conta com três coordenações – de ação educacional, cultural e esportiva – subdivididas, cada uma delas, em projetos externos e internos. A coordenação cultural é responsável pelo teatro e biblioteca e a esportiva pelos equipamentos correspondentes do complexo aquático e da quadra polivalente. 358 SME Diretoria Regional CEU/Gestor (como gerente Administrativo) Conselho Gestor Assistente Coord. Ação Educacional Coord. Proj.Ext Coord. Proj.Int Coord. Ação Cultural Coord. Proj.Int TEATRO Coord. Ação Esportiva Coord. Proj.Ext BIBLIOTECA Coord. Proj.Int Coord. Proj.Ext Equipes Esportivas Equipes Esportivas OBJETIVOS* • oferecer às crianças, adolescentes e adultos a oportunidade de freqüentarem um espaço criativo de construção de conhecimento; • ser um pólo de incentivo ao desenvolvimento educacional, cultural e esportivo da comunidade; • ser um pólo de experiências educacionais inovadoras; • Ser um centro de promoção da equidade social de seus usuários * regimento padrão dos CEUs, portaria 4672 de 05/12/2006 No Projeto Político Pedagógico 2010 do CEU Gestor, estão descritas as metas para o ano de 2010, que mantêm coerência com os objetivos do Regimento Padrão dos CEUS, citados acima, mas são mais específicas. Além da participação da comunidade em atividades de cultura, lazer e esporte, propõem ―favorecer a ampliação da bagagem cultural, através de atividades 359 extracurriculares, aos alunos das escolas situadas dentro e no entorno do CEU‖. Outros aspectos destacados são favorecer o trabalho coletivo das escolas e contribuir para uma educação multidisciplinar. Os objetivos do regimento são bastante amplos e, para se materializarem, dependem da operacionalização proposta no projeto do CEU. Este é ambicioso. Suas metas – articular escolas que são externas ao complexo, favorecer o trabalho coletivo e multidisciplinar – são de grande complexidade e exigem compromisso e habilidade de negociação da equipe gestora. Como este CEU tem pouco mais que um ano de existência, os resultados projetados ainda não podem ser avaliados. Entre os objetivos específicos do projeto, está a contribuição para a construção do trabalho pedagógico das escolas, buscando parcerias que colaborem com a formação dos educadores. O projeto pedagógico ―Construir com a pluralidade atitudes sustentáveis‖ prevê as seguintes ações: 1. Desenvolvimento de atividades no contraturno escolar. 2. Sala verde. 3. Horta escolar comunitária e reflorestamento. 4. Pluralidade cultural e étnico-racial. 5. Organização do grêmio escolar. 6. Ensino profissionalizante. 7. Parcerias para a formação de professores das escolas. 8. Sexualidade. 9. Saúde no CEU. 10. Atendimento à melhor idade. 11. Atendimento às famílias nos finais de semana. As atividades no contraturno escolar abrangem as escolas do CEU, as do entorno e alunos interessados em oficinas específicas, que são desenvolvidas por ONGs credenciadas pela SME. Serão oferecidas oficinas de teatro, dança, arte circense, modalidades esportivas (futsal, handebol, basquete e vôlei), artes marciais, artes plásticas, música e natação. 360 A proposta sala verde, em parceria com a FEMA, surgiu da observação de problema com lixo nas ruas e terrenos baldios, moradias em locais de risco e a existência de perímetros urbanos áridos. Assim, procura-se favorecer a construção de atitudes sustentáveis através de projetos de educação ambiental com alunos e funcionários das escolas envolvidas, com apoio de alunos da USP. A horta e o reflorestamento conjugam o mesmo objetivo. A pluralidade cultural, que foi trabalhada em 2009 através do projeto Africanidades em todos os Cantos, em parceria com a Coordenadoria do Negro, deverá dar continuidade a ações educativas de combate ao racismo e à discriminação, de fortalecimento de identidades e direitos e desenvolvimento de consciência política e histórica da diversidade. Neste contexto, será estimulada a organização do grêmio escolar com vistas a incentivar o protagonismo juvenil. O ensino profissionalizante fará atendimento a jovens através do Programa Educação para o Trabalho (PET), desenvolvido pelo Senac, já iniciado em 2009, e a adultos também em parceria com o Senac. A formação de professores será atendida por assessoria do Instituto Olinto Marques de Paula aos profissionais da educação infantil e creche, com duração de três anos, dispensando 90 horas anuais em diversas ações de formação. Pretende-se desenvolver ações que favoreçam a articulação das escolas com os oficineiros responsáveis pelas atividades no contraturno. A ação ligada à sexualidade será planejada junto com a EMEF, tendo em vista atingir os alunos do 4º. ano do Ciclo I ao 4º. ano do Ciclo II. O foco é a aquisição de conhecimentos sobre DST/AIDS e a construção de valores de aceitação da diversidade sexual. O projeto saúde está centrado na vacinação das crianças do CEI e da EMEI e dos funcionários destas unidades, além da prevenção de epidemias. O atendimento à melhor idade, inclusive com atividades em final de semana, se dá através do Clube da Caminhada, de atividades esportivas na quadra e piscinas, sessões de teatro e cinema, além da utilização da biblioteca 361 e de oficinas de artesanatos. Abaixo, reproduzimos um quadro com atividades culturais fixas em 2009. A biblioteca se pretende um espaço de aprendizagem e lazer. Tem como prioridade a articulação com os professores, desenvolvendo atividades integradas com eles. Entre elas, apresentação da estrutura e serviços da biblioteca, contação de histórias, exposições periódicas, formação de alunos monitores e programação mensal em torno de datas comemorativas. Este ano, a equipe pretende desenvolver Projeto de Memória e Clube de Leitura para a comunidade; Projeto Canto de Histórias, Jornal, Cartão de Natal e Pássaros para os alunos das escolas. Uma de suas responsabilidades está em divulgar o trabalho da biblioteca e controlar a frequência de usuários. EVENTO DIAS HORÁRIO LOCAL PÚBLICO Baile 3ª. idade 5ª– quinzenal De 18h às 21h Mezanino Acima 40 anos Cinema 3ª. id. 4ª – semanal 19h. Teatro Acima 18 anos Cinema Sábados 16h. Teatro Livre Cinema Domingos 16h. Teatro Livre Oficina teatro 6ª – semanal De 12h às 14h Mezanino Alunos Oficina violão 6ª e sábados De 9h. às 12h. Biblioteca Livre Pr. vocacional 3ª. e sábados Variados Mezanino Acima 14 anos Dança salão 6ª – semanal De 17h às 19h Mezanino 3ª. idade Teatro ped. 6ª – semanal 12h às 14:30 Teatro Alunos Visitamos as três escolas, que estão localizadas em cada andar de um mesmo prédio: creche no térreo; educação infantil no primeiro; ensino fundamental, acima em dois andares, um para cada segmento. Cada uma conta com acesso independente e tem infraestrutura própria de refeitório, cozinha, pátio para recreação, espaço multimídia e sala de leitura. Claro que 362 estes espaços não têm a dimensão nem os recursos do que vimos no CEUGestor. Os professores das escolas são efetivos da prefeitura; os funcionários são contratados através de firma, mas pertencem à comunidade. A meta do conjunto é oferecer escola com duração de 7 horas diárias. A frequência dos alunos às atividades do CEU Gestor é voluntária. Segundo o coordenador do núcleo cultural, no ENEI, que são as criancinhas, os menores, são os pais (que aderem). Os pais trabalham o dia inteiro, então eles deixam (os filhos) na escola, porque tem todo um trabalho ... o aluno que fez toda a parte na EMEI, no pós-aula, quando ele chega na EMEF, ele já vem diferente, porque ele teve todo esse trabalho quando era criança. No CEU Gestor, os coordenadores são professores estatutários, mas os diversos serviços são oferecidos por profissionais variados: podem ser professores da rede, que ganham horas adicionais para desenvolver projetos; profissionais especializados de ONGs, que são credenciadas pela SME; agentes culturais comunitários e voluntários. O núcleo de ação cultural desenvolve dois tipos de projeto: os que vêm da prefeitura, que são implantados, acompanhados e avaliados; e os que vêm da comunidade, são bandas locais, projetos de literatura, de teatro, todo tipo de projeto que envolva cultura e que deve ser direcionado para um desenvolvimento educacional. O coordenador de ação cultural explica: Qualquer tipo de artista local. O cara tem lá uma banda, ele não tem onde ensaiar, por exemplo. Então qual é o nosso trabalho aqui? Se for possível, tentar fazer uma parceria no sentido que ele vai ensaiar aqui durante um tempo, ele vai fazer uma apresentação aqui pra gente e daí ele possa ir pra outros lugares, apresentar em outros lugares. Então é esse trabalho de auxílio de equipamento, auxílio de espaço. As pessoas, elas têm vontade, elas têm projetos bons, muito bons, só que elas não têm onde apresentar e onde ensaiar. 363 Então os projetos vêm da comunidade, mas acabam indo pro mesmo lugar, todos pra comunidade. Em entrevista coletiva, os coordenadores do CEU reconheceram que a manutenção do complexo realmente é mais dispendiosa do que a de uma escola regular; entretanto, consideram que as vantagens também são maiores: É uma característica da periferia de São Paulo, não sei em outras cidades ... que são as crianças de vó ... são crianças que são netas, não são filhos de ninguém. E eu tenho essas avós aqui fazendo hidroginástica. E isso reflete na criança, né. Na horta que eu aumento a qualidade de vida do adulto, que é a grande ponte dessa criança com o mundo, eu estou indiretamente ampliando os horizontes da criança. Como é que você contabiliza isso numa escola que são quatro paredes e uma lousa? Os coordenadores afirmaram que a premissa do CEU é ser um trabalho unificado, ou seja, este é um centro educacional, cultural, esportivo num mesmo lugar. Não se faz a peça só pela peça ou o show só pelo show. Há todo um trabalho anterior, antes do espetáculo, e depois também, qual a idéia que ficou; ―aí surgem visões, leituras ótimas.‖ Pretende-se desenvolver a manifestação artística no indivíduo; o que se faz, em síntese, é principalmente um trabalho de formação de público, que tem sucesso, não apenas pela disponibilidade do espaço físico, mas pelo trabalho integrado entre as coordenações e os profissionais envolvidos. O CEU adota o regime de ciclos, tanto para os anos iniciais como para os finais. Os gestores consideram que os alunos devem desenvolver conhecimentos próprios da idade, que nada têm a ver com decorar informações. Lembraram que o projeto CEU foi beneficiado pela LDB, que já prevê a educação integral, diferentemente da época dos CIEPs, quando a lei ainda não vigorava. Na opinião dos coordenadores, os alunos que participam do projeto integral são diferenciados por terem esse trabalho pós-aula. Eles escolhem ficar, eles ficam porque eles querem. 364 O projeto do CEU é audacioso e acho que ele funciona de acordo com o que ele foi criado; isso depende muito de quem está à frente desses núcleos. O aluno que estuda aqui ... eu acho que ele vai ter uma visão, um senso crítico do mundo lá fora, diferente de um aluno que estuda numa escola normal, onde não tem um teatro, onde não tem uma piscina, onde não tem nada disso. Ele tem outras referências durante o período letivo dele. 2.3. DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA NA ESCOLA MUNICIPAL CARLOS PASQUALE Foto 5. Pátio / Teatro de arena na Escola Municipal Prof. Carlos Pasquale (acervo das pesquisadoras) Tudo o que idealizamos é para favorecer o pedagógico, razão máxima de nossa escola (Projeto pedagógico da EMEF. Prof. Carlos Pasquale) A visita à Escola Municipal Prof. Carlos Pasquale aconteceu na tarde do segundo dia de visita ao município. O trio de pesquisadores foi acompanhado pela professora Lílian Barone até à instituição escolar, onde foi recebido por 365 sua diretora, a professora Ana Inês Fernandez. A visita possibilitou conhecer todos os ambientes da escola; realizar entrevistas com a direção e professores das atividades e projetos e, ainda, receber documentos como (a) sua proposta pedagógica; (b) o projeto de xadrez e (c) o projeto ―nas ondas do rádio‖. A instituição fica no Itaim Paulista, periferia da zona leste da cidade, e localiza-se em rua de fácil acesso. O prédio onde funciona a EMEF Prof. Carlos Pasquale é antigo – data de 1970 –, e suas instalações encontram-se limpas e arrumadas. A escola possui aproximadamente 2.090 alunos e 170 funcionários e professores, trabalhando no turno regular, no pré e no pós-aula. Durante a visita, pode-se observar que a escola é pequena para esse número de alunos; mas todos os seus espaços são aproveitados e ―multiplicados‖. Em outras palavras, o espaço do refeitório serve também como local de realização de eventos, pois nele há um patamar que pode ser utilizado como palco; o pátio interno possui um espaço com cinco grandes degraus, o que viabiliza a realização de peças teatrais ou apresentações artísticas em geral (ver foto 5). Foto 6. Espaço próximo ao pátio interno – mesas para o projeto de xadrez (acervo das pesquisadoras) Além das 21 salas de aula, em cujas portas há sempre o ―nome‖ da sala relacionado a valores a serem cultivados pelos alunos, a instituição conta com 366 uma quadra relativamente pequena – que está em obras; pátio interno; salas de informática e de leitura; sala especial de aprendizagem; laboratório de ciências, em ambiente bem equipado; Sala para o projeto ―Nas ondas do rádio‖; um pequeno auditório, que funciona em uma sala de aula um pouco maior do que as outras; refeitório/espaço para reuniões e eventos; cozinha e cantina, além das salas de administração (direção, secretaria). No pátio interno, encontram-se mesas com tabuleiros de xadrez desenhados (foto 5), facilitando a execução dessa atividade. Percebe-se que há um comprometimento da gestão e do corpo administrativo na otimização desses espaços em ambientes agradáveis e capazes de criar condições para as atividades que acontecem diariamente na escola. Mesmo assim, os professores sentem necessidade de mais espaço adequado para a realização de seu trabalho: P: Eu acho que a gente ainda tem carências. Não basta você querer desenvolver um projeto, ter um diretor que quer que esse trabalho seja desenvolvido, uma comunidade que está aí precisando, mas assim (...) esse problema da quadra, a gente já está há mais de um ano nesse processo, de não ter praticamente espaço de trabalho, que já é pouco. (entrevista de professores da EMEF Prof. Carlos Pasquale) Ainda em relação aos espaços, perguntou-se a um grupo de professores que trabalham tanto com as atividades regulares quanto com as de pré e pósaula sobre a utilização de outros ambientes que não somente o da escola para a realização dessas atividades. A resposta levou em conta a importância do planejamento pedagógico quando ocorre essa situação: Muitas vezes a gente leva nossos alunos para este tipo de excursão, eles chegam lá e impressionam os monitores, que perguntam se eles são de escola particular. Eu falo que são da pública e eles ficam surpresos como eles sabem tanto, mas é que a gente faz um trabalho antes de chegar lá, não é chegar lá por acaso pra dizer somente que saiu da escola, tem todo um 367 trabalho por trás, é um complemento da aula. (entrevista de professores EMEF Prof. Carlos Pasquale) A fala destacada anteriormente possibilita a entrada em outra categoria de análise – as atividades desenvolvidas na escola, e sua integração com o projeto pedagógico da escola. O documento denominado ―Proposta pedagógica‖ reforça a existência de vários projetos, materializados em oficinas e atividades que acontecem no pré e no pós-aula. Entre eles, são enfatizados os de ―xadrez, teatro, rádio, ginástica, vôlei, basquete, monitorias, trabalhos manuais‖, que caminham junto às denominadas atividades regulares – português, matemática, ciências, geografia, história, artes, educação física, informática. O projeto de ―monitoria‖ chama a atenção pelo envolvimento que cria entre os alunos. Ele consiste na participação de alunos da turma, ou ainda exalunos, auxiliando o trabalho docente nas diversas aulas regulares. Durante a visita, conheceram-se alguns monitores, em função durante as aulas no Laboratório de Informática e no Laboratório de Ciências. Pelas suas falas, verificou-se o interesse que têm por essa atividade. Quanto à citada integração entre as atividades regulares e as complementares, foi possível percebê-la por meio do documento intitulado ―Projeto pedagógico: xadrez como prática esportiva em escolas municipais do Itaim Paulista‖. Nesse impresso, declara-se que existem na unidade escolar dois projetos em andamento, são eles: “xadrez na escola, preparando campeões para a vida” e “xadrezmática”, que tem como objetivo desenvolver o raciocínio dos alunos através do xadrez juntamente com a disciplina de matemática. 368 A fala do oficineiro que trabalha com o projeto de xadrez também contribuiu para que essa dinâmica fosse mais explicitada: o xadrez na escola tem um princípio pedagógico, competição, isso é outra história, pois dentro da escola ele tem um trabalho totalmente pedagógico, então nós acreditamos, como educadores, que ele desenvolva nos alunos atenção, concentração, tudo isso com o objetivo de melhorar na sala de aula, não como jogadores, desenvolvendo apenas habilidades intelectuais, mas também como melhores alunos. (entrevista de professores da EMEF Prof. Carlos Pasquale) Pelo objetivo e prática declarados nas citações anteriores, percebe-se a referida integração, uma vez que um projeto trabalhado ―antes, durante ou depois das aulas, visando alunos que tenham dificuldades de aprendizagem, disciplina, atenção e socialização‖ se conecta a uma disciplina tradicional no horário regular, bem como a uma concepção de educação que privilegia os aspectos pedagógicos. Esta possibilidade interdisciplinar foi citada pelos professores, durante a entrevista concedida ao trio de pesquisadores. Já o documento denominado ―Programa nas ondas do rádio – Gestão da informação e comunicação através das mídias na escola‖ apresenta outro projeto de bastante significância no espaço escolar. Por meio dele, os alunos criam programas e os veiculam, em horários determinados, por toda a instituição. Entre seus objetivos, destaca-se o ―contribuir para o desenvolvimento da competência leitora e escritora e da expressão comunicativa‖ que, de certa forma, reforça competências que são trabalhadas principalmente na disciplina de Português. Quando se visitou o ambiente reservado a essa atividade, o profissional responsável enfatizou a relação entre as ações desenvolvidas no projeto, as aulas de língua e as atividades da Sala de Leitura expondo, mais uma vez, a integração a que se vem referindo ao longo deste relato. 369 O tipo de trabalho realizado nos dois exemplos anteriores, mais integrado e sempre que possível referenciado no campo pedagógico, é possível de acontecer quando há, na instituição, sujeitos comprometidos com essa prática. Nesse sentido, é importante destacar que as diversas atividades existentes na escola são desenvolvidas tanto por docentes quanto por monitores – os alunos já citados – e oficineiros. Em relação a essa situação, os professores falam que P:Eu sou muito a favor dos oficineiros, aliás os professores da escola são muito capacitados, mas ficam muito sobrecarregados pra fazer tudo sozinhos (...) Eu posso dizer que no xadrez, com uma concepção a nível escolar em São Paulo inteiro, com os oficineiros os alunos conseguem tirar melhores resultados do que com os professores, porque os professores são professores de alguma matéria dentro da escola e o xadrez é um curso extracurricular, de pouco tempo. Então o que acontece? o oficineiro fica somente naquilo, é xadrez, é música, é teatro, é vôlei, então ele fica focado só naquilo. E: E o que você chama de oficineiros? P: Oficineiros são aqueles que não são professores, não são formados e que trabalham apenas com aquela modalidade. E: Não são formados para trabalhar com alunos em sala de aula? P: Isso, não têm uma formação pedagógica, mas têm a capacidade e são capacitados pra trabalhar aquela modalidade. (entrevista de professores da EMEF Prof. Carlos Pasquale) Durante a visita realizada à escola, houve oportunidade de verificar o entrosamento existente entre esses vários sujeitos, no momento mesmo das entrevistas. Foram entrevistados, concomitantemente, três professores que realizam atividades regulares, um oficineiro – ex-aluno da escola, e ainda dois docentes que trabalham com as atividades do pré e do pós-aula. Às perguntas elaboradas, as respostas fluíam no coletivo, com apartes de um ou de outro 370 participante que possibilitavam perceber essa proximidade de propósitos educacionais. Em relação às condições de trabalho em que esses sujeitos atuam, percebe-se que elas são diferenciadas, ou seja, enquanto os professores são concursados, os contratos dos oficineiros e voluntários são estabelecidos por meio de terceirização e nem sempre são mantidos com regularidade: P: No começo eu vim como voluntário, fiquei dois anos dando aula como voluntário. E atualmente nós temos contratos com ONGs e essas, por sua vez, têm contrato com a prefeitura. Então nós somos, de certa forma, terceirizados. (...) Muitas vezes fica muito tempo sem verba ... até verificar quem são as legais e as ilegais ... nesse momento o projeto está parado. Só que eu continuo por amor ao esporte .. (entrevista de professores EMEF Prof. Carlos Pasquale). Sobre o trabalho diário na escola, há tentativas de organizar momentos em que os professores tenham tempo para planejamento de atividades coletivas com os profissionais das atividades complementares, mas nem sempre essa situação é alcançada: P: Interdisciplinaridade é difícil. Eu acho que a grande dificuldade da interdisciplinaridade é o tempo. Na verdade, pra dar certo na escola, a interdisciplinaridade não teria que ser feita num turno único... E: O professor também teria que estar em tempo integral na escola pra interagir? P: Exatamente. Eu, por exemplo, faço interdisciplinaridade com ela, mas não faço com o Bruno, porque não encaixa o tempo, a gente faz na base da informalidade (...) eu conheço todo mundo. Mas às vezes o Bruno não conhece o cara da noite, não conhece o cara da manhã. Ele fica mais à tarde. Então é aí que as coisas pegam. 371 Pela fala anterior, percebe-se que uma integração maior entre as atividades depende de um planejamento coletivo que nem sempre acontece, na medida em que os sujeitos atuam em horários diferentes na escola. Nesse sentido, é importante destacar que o tempo do profissional, na mesma instituição, se torna um fator interveniente no processo de integração do desenho curricular desenvolvido em experiências como a que se conheceu. Em relação ao tempo enquanto ampliação da jornada escolar, um professor resumiu a opinião de todos os que estavam no grupo de entrevistados, afirmando que se ele se constituir qualitativamente, com projetos acontecendo e desenvolvendo as habilidades dos alunos, é gratificante e bemvindo. Caso contrário... P: Eu sou a favor, desde que haja projetos que possam atender as expectativas dos alunos, desenvolvendo as habilidades deles e sejam gratificantes para eles. Se for somente para aumentar mais o tempo que eles ficam em sala de aula, sem qualidade, aí eu sou contra, o importante não é a quantidade e sim a qualidade. (entrevista de professores da EMEF. Prof. Carlos Pasquale) Analisando especificamente a experiência em questão – São Paulo é uma Escola – verifica-se que o tempo é visto como um continuum que se desenvolve no pré-aula, no horário das aulas e no pós-aula, por meio do oferecimento de atividades que se consubstanciam em projetos diferenciados, por escola. Esses projetos devem estar presentes no projeto pedagógico da instituição, e se integrarem às aulas regulares, o que demanda aquele tempo do profissional, a que já se referiu em parágrafo anterior. Desta forma, na experiência em questão percebe-se que o tempo é compreendido como integral, intra e extraescolar, pré e pós-aula – elemento central na possibilidade de incremento qualitativo no processo ensino-aprendizagem. No entanto, para que essa performance no tempo escolar seja alcançada, é necessário haver um comprometimento por parte de todos os envolvidos nesse processo, o que coloca em questão a postura da gestão. No 372 caso específico da EMEF Prof. Carlos Pasquale, verifica-se a existência de uma direção que mantém o espírito coletivo no grupo e a positividade em suas ações. Há algum tempo na gestão da escola, a professora Ana Inês fala com orgulho dos projetos desenvolvidos; das adaptações realizadas no espaço físico; do corpo de professores; dos alunos e do retorno dos ex-alunos à escola, na qualidade de monitores, oficineiros, ou simplesmente visitantes. Essa disponibilidade e envolvimento são percebidos pelo grupo de profissionais que atua na escola: P: Vocês perceberam que não há piche nesta escola. Porque existem duas razões para isso. Quando o cara sai daqui, ele veste a camisa da escola, ele continua aqui, você pode ver que na monitoria a gente tinha monitor que era ex-aluno daqui. Então é monitor de sala de ciência, é monitor de informática, é monitor de sala de leitura que também são ex-alunos. E outra que a Ana consegue convencer o cara a não pichar, ao invés de pichar, convence o cara a fazer um desenho. (entrevista com os professores da EMEF Prof. Carlos PAsquale) Os relatos apresentados permitem reconhecer o corpo gestor de uma instituição como peça fundamental na consecução de políticas públicas de grande monta como, por exemplo, a da experiência São Paulo é uma Escola. Vale ressaltar que as atividades pré e pós-escola nesta unidade são anteriores ao projeto São Paulo é uma Escola. A professora Ana Inês, diretora, já tinha experiência com atividades além dos turnos a alunos da escola onde trabalhou anteriormente e percebeu o impacto positivo sobre a relação dos discentes com a escola e, em consequência, em seus desempenhos. Quando se candidatou a dirigir esta escola, entrou com a proposta que já desenvolvera antes, como professora, em outra unidade escolar. Em propostas deste porte, a possibilidade de parcerias é geralmente considerada. Na experiência em questão, essa possibilidade já se encontra indicada no decreto que a institui (art.6º.), bem como no documento impresso que a estrutura, como se depreende do excerto retirado dessa publicação, no item referente ao cronograma a ser executado: 373 Publicação do Edital de Chamamento Público, no diário oficial de 22 de junho de 2005, que implantou o Programa São Paulo é uma Escola, normatizando as condições para celebração de convênios da Secretaria Municipal de Educação com Entidades sem fins lucrativos, ONG‟s, Fundações, Institutos e Associações para o desenvolvimento de atividades apropriadas aos propósitos do Programa, através de Oficinas. (2005, p.28) É preciso ressaltar, no entanto, que a indicação dessas possíveis parcerias não prescinde de uma orientação essencial – ―as oficinas a serem realizadas deverão levar em conta as diretrizes da Diretoria de Orientação Técnica e Coordenadorias de Educação, para que se busque garantir a natureza formativa das atividades desenvolvidas‖ (p. 28). Em outras palavras, a busca por parcerias não deve olvidar a necessária relação que estas devem manter com a atividade educativa – natureza da educação escolar Na EMEF Prof. Carlos Pasquale, as parcerias também constam de sua proposta pedagógica, sendo organizadas com órgãos/instituições públicas e/ou privadas. No referido documento, são citadas como parceiras a Eletropaulo e ONGs, por exemplo. Em outro sentido que foge ao que se constituiu no parágrafo acima, a comunidade também pode ser vista como parceira da EMEF Prof. Carlos Pasquale, na medida em que participa bastante das atividades, inclusive motivando os alunos a mais e mais engajamento nas atividades desenvolvidas pela escola: P: posso dizer que eu conto com os pais pra qualquer coisa. E eles gostam de ir até a escola, de assistirem os filhos quando tem apresentação. Na hora da saída eles me encontram aqui pra qualquer dúvida ... é superlegal.(...)Quando tem festival de teatro a comunidade se faz presente aqui. Não é só os alunos..(...) Toda essa estrutura que vocês viram aqui, televisão do auditório, o armário do teatro ... tudo aquilo lá foi 374 com o dinheiro das festas juninas. E eles fazem questão de vir. (entrevista de professores da EMEF Prof. Carlos Pasquale) O final da entrevista com os profissionais da escola deu-se em clima bastante descontraído, próximo a salas de aula onde se viam crianças tirando dúvidas com os professores e outras jogando xadrez nas mesas de que já se falou. Clima de instituição em que as atividades educativas falam mais alto. 3.CONTRIBUIÇÕES E DESAFIOS DO PROJETO Pensando nos depoimentos coletados, bem como nas observações realizadas em duas escolas da rede municipal de São Paulo sobre a experiência São Paulo é uma Escola, é possível tecer algumas considerações que levam em conta tanto as possíveis contribuições da experiência para com a implantação da jornada escolar ampliada quanto os desafios que ainda precisa vencer no sentido de implementá-la. Uma primeira consideração diz respeito à mudança político-partidária nos governos municipais ocasionando, não raras vezes, o abandono de políticas públicas. No caso específico do município de São Paulo, o que se verificou foi a continuidade de uma experiência, no campo da educação, gerada no âmbito de mandato municipal anterior. No entanto, é preciso lembrar que esse mandato foi fruto de uma composição partidária em que uma das legendas se manteve 102, situação que facilita a não interrupção de projetos e ações já encaminhados. Nesse sentido, o Programa São Paulo é uma Escola não teve seu processo de implementação descontinuado, conforme reforçam as falas da assistente técnica educacional da secretaria municipal, professora Lílian e do coordenador de ação educacional do CEU Caminho do Mar, professor Sérgio: 102 No período 2004-2008, José Serra (PSDB) assume a prefeitura de São Paulo tendo, como vice, Gilberto Kassab (DEM). Com a renúncia de Serra para candidatar-se ao governo do estado de São Paulo, Gilberto Kassab assume o cargo e, na eleição seguinte (2008-2012), é reconduzido por meio do voto popular. 375 E: Houve uma mudança de governo ... L: E a meta continua sendo a mesma, escola de sete horas. S:(...) Porque você tem medo de começar a fazer as coisas e as coisas desmancharem todas. E isso não só na educação (...) O segredo dessa administração foi isso, foi manter os projetos. (entrevista com diretor do CEU Caminho do Mar e professora Lílian) De uma consideração mais ampla, parte-se para aquelas que, de certo modo, configuram a escola e sua(s) rotina(s) e verificam-se três contribuições desta experiência: (1) o ―protagonismo” da equipe que mantém o projeto pedagógico da escola e, como consequência, (2) a necessidade das parcerias gravitarem em torno desse projeto e, ainda, (3) a possibilidade de realização de um trabalho interdisciplinar. Analisando as duas primeiras contribuições, pode-se dizer que, tanto nas falas de professores e gestores, quanto nos documentos impressos, há uma perspectiva de centralidade da natureza educativa da escola, materializada em apoios e parcerias, na participação efetiva daqueles que estão envolvidos nessa instituição e, ainda, na presença de suas propostas no projeto pedagógico da escola: L: Fatores de sucesso é o empenho dos CEUs, a equipe, ela sempre está disposta ... as unidades que permanecem, também, têm toda uma disposição. A própria equipe, então eu acho que isso é importante ... os nossos professores, eles têm uma boa formação ... eu acho que tudo isso favorece mesmo. L: No início do ano é solicitado à gestão que se reúna com suas escolas, tanto a escola pertencente ao CEU, ou as escolas do entorno ... a própria unidade se reúne em conselho de escola, conselho gestor ... e que discutam pra chegar às atividades que realmente devem ser trabalhadas. Sempre ligadas ao projeto político pedagógico a ser desenvolvido no ano letivo. 376 E: Então está sempre ligado ao projeto político pedagógico? L: Sempre ligado ao projeto político pedagógico. (entrevista com assessoria técnica da secretaria) L: A ONG quando ela é contratada ... conveniada, né, que a gente fala ... ela automaticamente tem obrigação de sentar com as escolas, sentar com o coordenador e estabelecer as atividades e que viés é que vão dar pra essas atividades que serão realizadas. As falas destacadas dão a dimensão da importância do projeto pedagógico da escola materializar o desenho curricular para cada ano letivo, ou seja, por meio de reuniões organizadas pelo corpo gestor, os temas e projetos são escolhidos, as possíveis parcerias instituídas e, uma vez incluídos nesse projeto pedagógico, tornam-se evidências da proposta daquela escola na ampliação da sua jornada escolar. Já em relação ao terceiro ponto, pode-se afirmar que tanto os documentos recebidos como os depoimentos dos profissionais da EMEF Prof. Carlos Pasquale demonstram as tentativas do grupo em buscar uma prática mais interdisciplinar no desenvolvimento das atividades regulares e complementares. O projeto de xadrez é um dos exemplos mais concretos dessa estratégia que, ao procurar uma integração entre as áreas do conhecimento e habilidades a serem construídas com os alunos, de certa forma vai constituindo o que se denomina educação integral, uma formação mais completa do ser humano (Coelho, in Maurício, 2009) No entanto, essa contribuição pode se tornar um desafio, no caso de, devido ao tempo de permanência do profissional na escola, não haver possibilidade de encontro entre esses mesmos profissionais. Esta situação pode ocorrer, como se verificou por meio de alguns depoimentos de professores da EMEF Prof. Carlos Pasquale. Desta forma, como destacado em outros relatos, tempo(s) e espaço(s) continuam sendo fatores tanto de contribuições quanto de desafios das experiências visitadas. Em outras palavras, mesmo adequando os espaços existentes, nem sempre as instituições conseguem viabilizar as situações de 377 aprendizagem que pretendem a partir dos ambientes construídos e/ou (re)adaptados, o que não impede as tentativas várias de realização do melhor trabalho, nesse sentido. Vale destacar que a diversidade dos locais visitados coloca em destaque o engajamento e a articulação da equipe para além da disponibilidade espacial. Sem dúvida, o CEU conta com uma infraestrutura que facilita a implementação da educação integral em jornada ampliada; entretanto a Escola Professor Carlos Pasquale, que está longe de ter esta condição, não fica aquém, em nada, de alcançar os objetivos do projeto. Fotos 7 e 8. Piscina no CEU Caminho do Mar e Sala ambiente do projeto Nas ondas do Rádio – EMEF Prof. Carlos Pasquale (acervo das pesquisadoras) Referências DECRETO no 46.210, de 15 de agosto de 2005. PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO. Dispõe sobre o Programa ―São Paulo é uma Escola‖ instituído nas unidades educacionais da Rede Municipal de Ensino nos termos do decreto 46.017, de 1º. de julho de 2005. EMEF Prof. Carlos Pasquale. Projeto pedagógico: xadrez como prática esportiva em escolas municipais do Itaim Paulista EMEF Prof. Carlos Pasquale. Proposta pedagógica 2009. 378 MAURÍCIO, Lúcia Velloso (org). Educação integral e tempo integral. EM Aberto, Brasília, v.22, n. 80, abr.2009. PROGRAMA NAS ONDAS DO RÁDIO. EMEF Prof. Carlos Pasquale, 2009. PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO. Programa ―São Paulo é uma escola‖, 2005. http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/economia/pibmunicipios/2005/tab 01.pdf http://portalsme.prefeitura.sp.gov.br/AnonimoSistema/Palavra.aspx?Menu ID=2