Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) Martin Scorsese e Hollywood: de Taxi Driver a Os Infiltrados Tiago Gomes da Silva O presente artigo objetiva discutir e comparar dois momentos - décadas de 1970 e 2000- da produção cinematográfica do cineasta ítalo-americano, Martin Scorsese. Cada um desses períodos serão trabalhados a partir de um filme representativo do momento: Taxi Driver (dir. Martin Scorsese, 1976) e Os Infiltrados (The Departed, dir. Martin Scorsese, 2006). Pretende-se mostrar como a análise dos longas-metragens e a reflexão sobre a trajetória do diretor escolhido permite explorar questões relacionadas à história do cinema norte-americano e às transformações ocorridas em Hollywood no recorte temporal analisado. Os filmes de Martin Scorsese sinalizam importantes mudanças ocorridas na indústria cinematográfica norte-americana entre as décadas de 1970 e 2000. Essas transformações dizem respeito não só aos aspectos técnicos (qualidade de imagem e som, inovações tecnológicas e outros), mas também a forma de organização e produção de Hollywood. Como o estudo proposto aqui utiliza de obras cinematográficas como fonte para a análise, mostra-se importante discorrer sobre algumas questões da metodologia de história e cinema. As pesquisas nessa área progrediram muito desde as formulações propostas por Marc Ferro na década de 19601. Diversos foram os caminhos apontados pelos estudiosos para se pensar o trabalho com as fontes fílmicas: o filme como uma contra-análise da sociedade; estudo que incorpora a semiótica; as películas como formas de um discurso histórico; entre outras. O historiador José D’Assunção Barros destaca que a metodologia de análise fílmica deve ser multidisciplinar e pluridiscursiva, explorando diferentes questões como: autor, sistema de produção, narrativa cinematográfica, estética, crítica, recepção e outros. Os filmes também podem ser estudados como “produtos da história”, pensando-os como forma de se analisar a sociedade que os produziram. Vale dizer, o cinema é “produto da história” – e, como todo produto, um excelente meio para observação do “lugar que o produz”, isto é, a Sociedade que o Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC) da UFRJ. Pesquisador do Núcleo de Estudos Históricos e Midiáticos das Américas e Europa (NEHMAE) vinculado ao Laboratório Tempo Presente (Tempo/UFRJ). Bolsista da CAPES. 1 Para um debate sobre a historiografia sobre história e cinema, cf. SANTIAGO JÚNIOR, Francisco das Chagas Fernandes. Cinema e historiografia: trajetória de um objeto historiográfico (1971-2010). História da Historiografia, v. 8, p. 151-177, 2012. 1 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) contextualiza, que define a sua própria linguagem possível, que estabelece os seus fazeres, que institui as suas temáticas. Por isto, qualquer que seja a obra cinematográfica – seja um documentário ou uma pura ficção- é sempre portadora de retratos, de marcas e de indícios significativos da Sociedade que a produziu (BARROS, 2008, pp.52-53). Ao se analisar os filmes Taxi Driver e Os Infiltrados busca-se estudá-los também como formas de representação dos Estados Unidos das décadas de 1970 e 2000, respectivamente. Os dois longas-metragens possibilita-nos pensar algumas temáticas e questões que foram trabalhadas nas obras e estão diretamente relacionadas à sociedade norteamericana no momento em que as películas foram produzidas. Martin Marcantino Luciano Scorsese nasceu em 1942. Seus pais eram filhos de italianos que tinham imigrado para os Estados Unidos no início da década de 1910. Durante a maior parte da sua infância e sua adolescência o cineasta viveu no bairro de Little Italy, tradicionalmente ocupada por italianos e seus descendentes. O diretor cresceu muito próximo de seus avós e o resto da sua família fazendo com que fosse criado em uma forte tradição ítalo-americana. Segundo ele, Little Italy era um bairro que “quem mandavam eram os tipos duros da rua e a Igreja” (THOMPSON E CHRISTIE, 1989, p. 138). Com pouca afinidade com os criminosos da região e ideias nunca realizadas de se tornar padre, Scorsese não seguiu nenhum dos dois caminhos, todavia, ambos elementos foram muito presentes em seus futuros filmes, assim como, seu bairro, que serviu de inspiração e cenário para muitas de suas histórias, principalmente seus primeiros filmes: Quem bate a minha porta? (Who´s That Knocking at My Door?, dir. Martin Scorsese, 1967) e Caminhos Perigosos (Mean Streets, dir. Martin Scorsese, 1973). Após sua formação na New York University (onde dirigiu seus primeiros curtasmetragens e atuou como professor por um tempo depois de se formar), Scorsese começou a dirigir longas-metragens, tendo seu primeiro filme lançado em 1969. Desde então, tornou-se um dos mais renomados e importantes diretores do cinema norte-americano. Responsável por uma vasta produção cinematográfica que perpassa diferentes estilos: curtas-metragens (What´s a Nice Girl Like You Doing in a Place Like This e It´s Just Not You, Murray), documentários sobre história do cinema (Minha Viagem e Itália), direção de episódios de série de televisão (Boardwalk Empire), documentários sobre música (No Direction Home), clipes musicais (Bad de Michael Jackson), mas principalmente, longas-metragens, em que explorou uma grande diversidade de gêneros: gângsteres (Os Bons Companheiros), musicais (New York New York), drama (Alice Não Mora Mais Aqui), drama de época (A Época da 2 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) Inocência), suspense (Ilha do Medo), infantil (A Invenção de Hugo Cabret), comédia (Depois de Horas), biografias (O Aviador), refilmagem de clássicos (Cabo do Medo), continuação de clássicos (A Cor do Dinheiro), entre outros. Martin Scorsese é também um dos mais premiados diretores do cinema norteamericano. Em 1997 foi homenageado com o AFI Life Achiviment Awards pelo conjunto de sua obra, assim como o Cecil B. DeMille Award, em 2010. O diretor recebeu seu primeiro e único Oscar de “melhor diretor” por Os Infiltrados, em 2006. O cineasta também conquistou importantes premiações no exterior, como: Palma de Ouro (1976) e prêmio de melhor diretor (1985) no Festival de Cannes e o Carrer Golden Lion (1995) no Festival de Veneza. Os dois filmes escolhidos para serem analisados são muito representativo de cada período da carreira do cineasta. Taxi Driver foi escrito por Paul Schrader, o elenco principal foi composto por Robert DeNiro, Jodie Foster, Albert Brooks, Harvery Keitel e Cybill Sheperd. Produzido por Julian Phillips e Michael Phillip, sendo distribuído pela Columbia Pictures. O filme foi inicialmente rejeitado pela maioria dos estúdios, a produção foi adiada por um tempo enquanto os envolvidos trabalhavam em outros projetos. O longa-metragem somente conseguiu ser realizado após o sucesso dos envolvidos em outros trabalhos, Martin Scorsese havia dirigido o bem sucedido Alice Não Mora Mais Aqui (Alice Doesn´t Live Here Anymore, dir. Martin Scorsese, 1974), Robert DeNiro tinha conquistado seu primeiro Oscar por O Poderoso Chefão II (The Godfather: Part II, dir. Francis Ford Coppola, 1974), o roteirista Paul Schrader havia tido seu primeiro roteiro filmado por um grande estúdio, Operação Yakuza (The Yakuza, dir. Sydney Pollack, 1974) e os produtores do filme haviam recebido recentemente o Oscar de Melhor Filme por Golpe de Mestre (The Sting, dir. George Roy Hill, 1973). O filme narra a história de Travis Bickle (Robert DeNiro), um veterano da Guerra do Vietnã, que começa a trabalhar como motorista de taxi. Ele trafega por bairros pobres e perigosos de Nova York durante a noite. A protagonista possui uma repulsa pelo ambiente a sua volta, marcado por violência, drogas, corrupção e prostituição. Travis inicia um relacionamento com Betsy (Cybill Shepher) que trabalha na campanha para a presidência do Senador Palantine. Ele conhece também Iris (Jodie Foster), uma jovem prostituta. Com o fracasso de sua relação com Betsy, Travis estabelece como missão resgatar Iris do ambiente de drogas e prostituição que ela vive. Lançado em 2006, Os Infiltrados é uma refilmagem de Conflitos Internos (Mou gaan dou, dir. Wai-Keung Lay e Alan Mak, 2002). Baseado no roteiro de William Monahan, o 3 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) filme foi estrelado por Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Martin Shenn, Alec Baldwin, Mark Wahlberg, Vera Farmiga e Ray Winstone. Produzido por Graham King, Brad Grey e Brad Pitt e lançado pela Warner Brothers. Na trama, Billy (Leonardo DiCaprio) e Colin Sullivan (Matt Damon) são dois agentes da lei em lados opostos no combate a gangues em Boston. Billy é um policial disfarçado que trabalha na gangue de Frank Costello (Jack Nicholson), chefe da máfia irlandesa, enquanto que Colin trabalha como um infiltrado na polícia para Costello. Ao mesmo tempo em que Billy começa a ganhar a confiança de Costello, Collin inicia sua ascensão dentro do Departamento de Polícia, sendo ele mesmo encarregado de encontrar o espião dentro da corporação. Ambos os personagens vivem uma vida dupla, correndo sempre o risco de serem descobertos a qualquer momento. Os dois filmes escolhidos foram realizados com uma distância de quase trinta anos. Em cada um desses dois períodos (décadas de 1970 e 2000), Hollywood apresentou formas de organização distintas. A análise dos longas-metragens e dos seus contextos de produção permite compreender como os filmes de Scorsese são representativos de algumas das mais importantes mudanças ocorridas na indústria cinematográfica norte-americana durante esse intervalo. Umas das principais características do cinema hollywoodiano das décadas de 1960 e 1970 foi o fim do studio system2 e a consolidação dos estúdios como pertencentes a grandes corporações. Durante a década 1960, muitos dos maiores estúdios de Hollywood foram adquiridos ou se fundiram com grandes conglomerados. A Music Corporation of America (MCA) tornou-se proprietária da Universal em 1962; a Paramount foi adquirida pela Gulf + Western, em 1966; a United Artist pela Transamerica, em 1967; no mesmo ano a Seven Arts comprou a últimas ações da Warner Brother, que em 1969 passou para a Kinney Corporation; no mesmo ano, a MGM passou a pertencer ao conglomerado comandado pelo empresário Kirk Kerkorian, que direcionou muito dos investimentos a realização de um cassino em Las Vegas (SCHATZ, 2008, pp:18-19). Essas séries de aquisições fizeram com que a maioria dos majors, antes companhias independentes, se incorporassem a grandes conglomerados, causando uma clara mudança na 2 O studio system foi uma forma de organização da indústria cinematográfica norte americana entre as décadas de 1920 até 1960. Nesse modelo, uma pequena quantidade de estúdios (os Majors: 20th Century Fox, RKO, Paramount, Warner Brother e MGM) controlavam uma parte considerável da produção cinematográfica norteamerica e todas as suas etapas: produção, distribuição e exibição. Esses estúdios tinham um quadro de profissionais fixos (técnicos, roteiristas, diretores e atores) e o processo de fazer um filme era comandado pelos grandes produtores e chefes de produção dos estúdios. Cf: SCHATZ, Thomas. O Gênio do Sistema. A Era dos Estúdios em Hollywood. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. 4 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) forma de organização da indústria. Nas palavras do próprio Scorsese: “Na época eu não sabia, mas em 1946 3 , Hollywood havia atingido seu apogeu. Duas décadas depois, quando eu abracei o ofício de cineasta, o studio system havia desmoronado e as companhias haviam sido absorvidas por grandes corporações gigantescas”(SCORSESE E WILSON, 2004, p.16). A década de 1970 (e final da de 1960) foi um período de grandes transformações em Hollywood que não se resumem a formação desses conglomerados. Scorsese fez parte de uma geração de diretores que ficou conhecida como a Nova Hollywood, outros importantes nomes do cinema norte-americano também se tornaram conhecidos nessa época, entre eles: Steven Spielberg, Francis Ford Coppola e George Lucas. Esses realizadores, muito influenciados pela ideia de cinema autoral defendida por cineastas europeus, representaram uma nova fase dentro de Hollywood, em que o diretor passava a ser a figura chave dentro do processo de realização de um filme. Os filmes da Nova Hollywood apresentaram muitos questionamentos e críticas à realidade dos Estados Unidos daquele período. As obras desses cineastas tratavam de temas controversos e pouco explorados no cinema americano, como por exemplo, prostituição infantil em Taxi Driver. Diversos valores da sociedade norte-americana são contestados, assim como alguns elementos são tratados de forma mais explícita, principalmente sexo e violência. Entre alguns dos principais longas-metragens desse período estão: Bonnie e ClydeUma rajada de balas (Bonnie and Clyde, dir. Arthur Penn, 1967), Perdidos na Noite (Midnight Cowboys, dir. John Schlesinger, 1969), O Poderoso Chefão (The Godfather, dir. Francis Ford Coppola, 1972), M.A.S.H (MASH, dir. Robert Altman, 1970) e Operação França (The French Connection, dir. William Friedkin, 1971). Nos anos 2000, a indústria cinematográfica norte-americana apresentava um perfil diferente, um novo modelo de organização. Os seis principais estúdios de Hollywood: 20th Century Fox, Columbia, Paramount, Warner Brothers, Universal e Disney são cada um deles parte de um dos seis maiores conglomerados midiáticos, respectivamente: News Corporation, Sony, Viacom, Time Warner, NBC Universal e The Walt Disney Company. A formação desses conglomerados iniciou-se em meados da década de 1980. Em 1985, o grupo News Corporation comprou a 20th Century Fox, último dos grandes estúdios a 3 O studio system começou a entrar em crise na segunda metade da década de 1940 principalmente devido a uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que estabelece o controle deles sobre a três etapas de produção como ilegal, sendo assim, os cinco majors são obrigados a se desfazerem de suas salas de cinema, perdendo assim o lucro gerado pela exibição. Outro fator que contribuiu para a diminuição das bilheterias durante essas período foi a concorrência da televisão. Cf: SCHATZ, Thomas. The return of the Hollywood Studio System. In: BARNOUW, Erik (et al.). Conglomerates and the media. New York: The New Press, 1997. 5 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) ser manter independente; a Warner Communication e a Time Inc. se fundiram em 1989 dando origem a Time Warner; no mesmo ano, a Sony adquiriu a Columbia-Tristar; em 1994, a Viacom tornou-se proprietária da Paramount;em 2003, a General Eletrics adquiriu a Universal, que até então pertencia a Vivendi, e criou a NBC Universal (SCHATZ, 2008, p.26). Essa nova organização da indústria foi apontada por estudiosos como um “retorno ao studio system” (SCHATZ, 1997). Em vez de cinco grandes estúdios controlarem todas as etapas de realização de um filme – produção, distribuição e exibição- seis grandes conglomerados midiáticos são responsáveis por grande parte dos negócios relacionados à indústria do entretenimento e da informação. A realização de um filme, sua promoção, exibição na televisão, produção de jogos eletrônicos, brinquedos e livros, todas essas etapas são agora realizadas pelas diferentes subsidiárias dessas corporações. Esses novos conglomerados midiáticos apresentam algumas diferenças que devem ser destacas em relação aos formados nos anos 1960. Primeiramente, alguns dessas companhias não têm origem nos Estados Unidos, como é o caso da Sony (Japão) e da News Corporation (Austrália) e atuam em escala global. Outra questão é em relação ao perfil de seus negócios, enquanto que empresas como a Gulf+Western, que adquiriu a Paramount em 1966, tinha investimentos em diferentes setores como serviços financeiros, ramo editorial e produção de açúcar (WASKO, 1994), as corporações que surgiram a partir de 1985 são referentes a produtos midiáticos. Por exemplo, a Time Warner, composta por duas companhias a Warner Communications e Time Inc (cujo principal produto é a revista Time), também é proprietária de ativos da News Line Cinema, HBO, Turner Brodcastin System (detentora de canais de televisão como CNN, TNT, TCM, Cartoon Network e Boomerang), DC Comics e outros. Os filmes de Martin Scorsese são muito significativos das mudanças ocorridas em Hollywood. Os Infiltrados e os outros filmes de Scorsese dos anos 2000 são representativos de um novo perfil da indústria, orçamentos mais caros e com a presença de grandes estrelas, essas obras contam com uma forte campanha publicitária para serem bem sucedidos comercialmente. Taxi Driver foi realizado com um custo na época de U$1,9 milhões e Os Infiltrados de aproximadamente U$90 milhões, mesmo calculando-se a inflação os dois filmes estudados apresentam uma grande diferença em relação ao seu orçamento. Os valores apontados indicam uma mudança no perfil de filmes produzido pelo cineasta. Os Infiltrados apresentou um custo consideravelmente superior. Esse filme foi um dos mais caros da carreira de Scorsese, seguindo uma tendência iniciada no início dos anos 2000. Muitos dos longas-metragens de Martin Scorsese realizados entre 2002 e 2010 6 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) (Gangues de Nova York, O Aviador, Os Infiltrados e Ilha do Medo) tiveram grandes orçamentos, mas também foram os mais bem sucedidos comercialmente (todas as quatro obras citadas se encontram entre as sete mais lucrativas do diretor). Enquanto que os filmes da década de 1970 (Sexy e Marginal, Caminhos Perigosos, Alice Não Moras Mais Aqui, Taxi Driver e New York, New York) somente dois deles (Alice Não Mora Mais Aqui e Taxi Driver) aparecem entre os dez mais bem sucedidos comercialmente nos Estados Unidos4. Sobre essa mudança nos tipos de filmes realizados por Martin Scorsese, Robert Phillip Kolker destacou: Não menos fascinado pelos gêneros e pelo trabalho de diretores que ele honra, ele parece mais interessado em fazer as audiências contentes (Ilha do Medo foi um grande sucesso comercial). Para melhor ou para pior, seus filmes mais recentes tenderam mais para o entretenimento do que para experimentação, talvez algo inevitável para um diretor tão tomado pelas transformações de Hollywood fazer filmes e talvez com um desejo de seguir essas transformações e se tornar um regular de Hollywood em oposição a um independente de Nova York (KOLKER, 2011, 261). Assim como a década de 1970, a forma de organização de Hollywood nos 2000 foi o resultado de mudanças iniciadas em décadas anteriores, no entanto, os cineastas da Nova Hollywood, devido ao momento de crise pelo qual passava a indústria e o sucesso comercial de seus filmes, conseguiram possuir certa liberdade criativa para realizar suas obras, sendo assim, a reestruturação da indústria cinematográfica norte-americana foi acompanha de uma renovação artística, em que novos cineastas puderam realizar suas produções de caráter autoral. Conforme dito anteriormente, ambas as produções devem ser pensadas como uma forma de se estudar a sociedade, trabalhando-as de forma a analisar a realidade dos Estados Unidos na década de 1970 e 2000. Os dois filmes retratam uma visão do cineasta (e outros envolvidos com a realização da obra) sobre o seu país, tratando de questões importantes, e muitas vezes delicadas, sobre o que se passava em ambos os períodos. Segundo Robert Phillip Kolker, um elemento muito presente nos filmes dos cineastas da Nova Hollywood é o relacionamento das personagens com o ambiente a sua volta, a incapacidade delas de se adaptarem ao meio em que vivem, sendo uma das características mais comum a esses indivíduos é a solidão, tratando-se, segundo o autor, de um cinema da 4 Dados do site: http://www.boxofficemojo.com/people/chart/?view=Director&id=martinscorsese.htm, acessado em 28 de julho de 2013. 7 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) solidão 5 . Taxi Driver seria um exemplo dessa tese. As audiências se relacionam com a história a partir da perspectiva de Travis, partilhando de sua solidão, de suas loucuras e paranoias. Esse ponto de vista acaba por alternar entre real e fantasia, sendo, por exemplo, a violenta cena final em que Travis vai “resgatar” Iris, uma “expressão exagerada da forma como um louco percebe e atua no mundo a sua volta” (KOLKER, 2004, p. 245). O filme retrata também importantes questões sobre a década de 1970, como: o crescimento da violência urbana mostrada a partir da representação das ruas de Nova York, marcada por criminalidade, corrupção, prostituição, drogas, o vazio do discurso de político personificados na figura do candidato a presidência - o senador Palantine é apresentado como uma figura carismática, mas com um discurso vazio- e o trauma do Vietnã representado por Travis. Taxi Driver apresenta uma visão mordaz de uma cultura que poderia produzir um Trais Brickle (...) a representação da sociedade americana é depressiva. Ação individual é demonizada. Políticos, representados na figura de Palantine, são “expostos” como vergonha. O fim sugere uma situação inalterável, e aparentemente imutável (GRIST, 2000, p.156). Em Os Infiltrados, percebemos uma representação dos Estados Unidos pós-11 de setembro. No longa-metragem, as relações, profissionais ou pessoais, são marcadas por mentiras, desconfiança, medo e traição, o ambiente que cerca os personagens acaba por os corromperem, não há moral, os dois lados da lei agem com excessos e violência, ambos não medem esforços para chegarem aos resultados pretendidos. O ambiente apresentado no filme retrata situação do próprio país, a questão de paranoia antes exposta em Taxi Driver, não diz respeito ao indivíduo, mas a nação. O próprio ambiente de companheirismo entre os criminosos presente em outros filmes de Scorsese como Os Bons Companheiros (The Goodfellas, dir. Martin Scorsese, 1990) deixa de existir. Nas palavras do próprio Scorsese: Eu sentia uma raiva pela história, pelo mundo em que ela se passa e como reflete o mundo em que estamos hoje (...) Tem a ver com a natureza da traição. A natureza da moralidade que, depois de 2001, passou a ser suspeita para mim. Estou preocupado com a maneira como vivemos, como estamos vivendo neste país e como são os nossos 5 Cf. KOLKER, Robert Phillip. A cinema of loneliness: Penn, Kubrick, Scorsese, Spielberg, Altman. Oxford University Press: New York, 1988. 8 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) valores (...) Na leitura mais rasa de Os Infiltrados, ninguém pode confiar em ninguém. Todo mundo mente para todo mundo. (SCHICKEL, 2011, pp:335-336). Taxi Driver e Os Infiltrados apresentam representações dos Estados Unidos, apesar de se tratarem de contextos diferentes, ambos os filmes desenvolveram um tom crítico e questionador da realidade norte-americana. Os dois longas-metragens estudados foram realizados em dois momentos distintos da indústria cinematográfica norte-americana, em cada um desses períodos, Hollywood apresentava uma forma de organização diferente. Taxi Driver foi produzido em um contexto de reorganização devido a crise de studio system e o surgimento da Nova Hollywood, em que devido ao sucesso das obras dos cineastas dessa geração, eles experimentaram de relativa liberdade criativa. Os Infiltrados foi lançado em um momento diferente, seis grandes conglomerados midiáticos são responsáveis pela indústria do entretenimento e donos dos principais estúdios. Os filmes para serem bem sucedidos comercialmente, necessitam cada vez mais terem grandes orçamentos, presença de astros, fortes campanhas publicitárias e concorrerem com os blockbusters e suas franquias. Contexto esse que a própria autonomia do cineasta de realizar a sua obra é cerceada pelo controle corporativo, tratando-se de segundo Scorsese “uma questão de ter ou não ter o que eles precisavam, o que a corporação precisa. E quanto esforço isso exigiria”, uma vez que, “em última análise, o mercado para filmes de grande orçamento significa que haverá menos experimentação neles” (SCHICKEL, 2011, p.351). Buscou-se mostrar como a análise dos filmes de um cineasta pode servir de fonte para se estudar outros elementos além da sociedade que o produziu, como a indústria cinematográfica que o realizou e a história do cinema hollywoodiano. As mudanças trabalhadas não são exclusivas dos filmes de Martin Scorsese. Ocorreu em Hollywood uma transformação da organização, dos princípios, métodos e objetivos. Essas diferenças possibilitam questionar a relação entre o cineasta e a indústria que ele faz parte, ou como indagado por Martin Scorsese: O que é preciso para ser um cineasta em Hollywood: Mesmo hoje em dia ainda me pergunto o que é necessário para ser um profissional, ou mesmo um artista, em Hollywood. Como você sobrevive à constante queda de braço entre a expressão pessoal e os imperativos comerciais? Qual é o preço que se paga para trabalhar em Hollywood? Você acaba com dupla personalidade? Você faz um filme para eles, um para você?(SCORSESE e WILSON, 2004, p.17) 9 Luna Halabi Belchior; Luisa Rauter Pereira; Sérgio Ricardo da Mata (orgs) Anais do 7º. Seminário Brasileiro de História da Historiografia – Teoria da história e história da historiografia: diálogos Brasil-Alemanha. Ouro Preto: EdUFOP, 2013. (ISBN: 978-85-288-0326-6) Referências Bibliográficas: BARROS, José D´Assunção. Cinema e história: entre expressões e representações. 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