IÊ DOSS LAMPEDUSA, A FORTALEZA DA EUROPA Em outubro de 2013, 366 refugiados africanos morreram num naufrágio ao largo da ilha italiana de Lampedusa, num dos mais trágicos acidentes no Mar Mediterrâneo. A União Europeia aumentou a vigilância marítima e fechou ainda mais as suas fronteiras. Algo que não impede centenas de milhares de deslocados de arriscar a vida para chegar à Europa. Por Tiago Carrasco D © Amnesty International izem alguns dos que sobrevivem à travessia clandestina do Mar Mediterrâneo que, ao vislumbrarem as luzes bruxuleantes de Lampedusa se sentem ofuscados, como se um raio de sol lhes atingisse os olhos depois de uma eternidade na escuridão. Doentes, famintos e desidratados, os refugiados que ousam embarcar numa piroga desengonçada para alcançar a Europa já poucas forças têm quando a viagem se aproxima do fim. Muitos estão moribundos. Ver a costa no horizonte causa-lhes uma sensação de êxtase. Uma ressurreição. Era neste estado que se encontrava Fanus, uma rapariga eritreia de 18 anos, depois de ter pagado 1.175 euros a uma rede de traficantes para a ajudar a escapar aos tentáculos da ditadura militar que vigora no seu país, atravessando o deserto do Sara até à Líbia, para depois entrar com mais meio milhar de somalis e eritreus num barco sem quaisquer condições. Após 36 horas de viagem, o capitão parou o motor do barco a 800 metros de Lampedusa para ser detetado pela polícia marítima italiana, que seria depois obrigada a transportar todos os ocupantes para a ilha. Um procedimento habitual. Fanus estava prestes a pisar terra firme. Com o motor desligado, o barco começou a meter água e o capitão foi ao convés para resolver o problema. Contudo, não conseguiu voltar a ligar o motor e tomou uma decisão precipitada: despejou uma garrafa de combustível num cobertor e ateou-lhe fogo, para chamar a atenção das autoridades costeiras. Mas queimou Uma ação de busca e salvamento no Mediterrâneo Central integrada na operação Mare Nostrum a mão e deixou cair o cobertor, fazendo com que as chamas e o pânico se alastrassem pelo convés. Os passageiros precipitaram-se para a amurada de um dos lados do navio, que tombou lentamente para o naufrágio. Quando, três horas mais tarde, um pequeno grupo de pescadores avistou o acidente, era tarde demais. Dos 518 ocupantes do barco, 366 afogaram-se. Fanus foi uma das sobreviventes. A rapariga foi levada para o centro de acolhimento de refugiados de Lampedusa, concebido para receber 800 pessoas mas que, naquela altura, tinha um número de utentes dez vezes superior à sua capacidade. Os refugiados dormiam amontoados em beliches e espalhados pelo chão. Passados três meses, Fanus seguiu para Palermo, onde a identificaram através de DOSS IÊ © Xander Stockmans – Tussen Vrijheid en Geluk impressões digitais. Segundo a convenção europeia assinada em Dublin, em 2003, todos os refugiados têm de ser identificados no país a que chegaram e, no caso de pedirem asilo noutro país europeu, são forçados a regressar à nação que os identificou, mas Fanus não queria ficar em Itália. Assim, depois de tentar frustradamente queimar e desfigurar a ponta dos dedos, saltou a vedação do centro e fugiu para Roma, de onde, após pagar mais 700 euros por uma passagem aérea e um passaporte falso, voou para Estocolmo. Entretanto, já pediu asilo e aguarda resposta. Até março de 2014, apenas dois dos sobreviventes do naufrágio de Lampedusa conseguiram sair de Itália. “Não quero olhar para trás e lembrar-me da minha viagem”, disse Fanus ao jornal The Guardian. “Ninguém devia passar o que eu passei. Não o desejo nem ao meu maior inimigo”. A história de Fanus é apenas uma entre as centenas de milhares que se vivem entre o Norte de África, o Médio Oriente e o sul da Europa, nas águas e nas praias do Mediterrâneo. Só em 2013, 14.753 imigrantes desembarcaram em Lampedusa, exatamente o triplo da população daquela ilha do arquipélago das Pelágias. O impacto social na ilha, que vive do turismo sazonal, é gritante. A população divide-se entre movimentos de solidariedade para com os refugiados e pedidos de repatriamento imediato. © Amnesty International O choque causado pelo naufrágio de 3 de outubro de 2013 obrigou as autoridades italianas a agir. Implementou-se a mega-operação Mare Nostrum: cinco navios militares, helicópteros, bases de vigilância de tecnologia avançada, drones e 900 marinheiros, num patrulhamento constante das águas territoriais italianas. O custo diário da empreitada é de 300 mil euros (9 milhões por mês), uma despesa criticada pelos partidos da direita italiana. No entanto, em 2014, a operação já resgatou 60 mil pessoas do mar, muitas delas condenadas a uma morte certa. “Os que se queixam dos custos do Mare Nostrum deviam calcular as perdas no investimento de 4 mil milhões de euros feito pela Europa em políticas de emigração, dos quais apenas 17% foram dedicados a melhorar as condições de asilo. Tudo o resto foi para conter o fluxo de refugiados”, diz Riccardo Noury, porta-voz da Amnistia Internacional Itália. “Proteger os direitos humanos é mais barato que violá-los”. Noury diz que o único apoio com que Itália conta é com um navio esloveno. Pouco, muito pouco, para tão árdua tarefa. “Itália tem de convencer os outros Estados-membros a partilhar a responsabilidade. Não há forma de evitar que O navio italiano Virginio Fasan, durante uma ação de busca e salvamento no Mediterrâneo Central, com parte da operação Mare Nostrum, em agosto de 2014. Nesta ocasião recolheu a bordo mais de 1.000 migrantes oriundos de países como a Síria, Somália e Bangladesh entre outros IÊ DOSS © Amnesty International as pessoas fujam de zonas de guerra, então todos têm de colaborar, porque este não é um problema de Lampedusa, nem de Itália, mas sim de toda a União Europeia”. Lampedusa está muito mais sossegada que nos três anos anteriores. Em 2011, aquando da revolução tunisina e da guerra civil na Líbia, momentos houve em que alguns refugiados tiveram de pernoitar em casa do Presidente da Câmara. Susana Gaspar, ativista e coordenadora do Grupo Local 19 da AI Portugal, visitou Lampedusa nesta fase. “Lembro-me perfeitamente de ver os barcos empilhados na praia, as roupas esfarrapadas na areia e dos bancos de jardim cheios de escritos árabes”, diz. Segundo a ativista, falta informação sobre o que é um refugiado: “As gentes de Lampedusa compreendiam os motivos de imigração dos eritreus mas não dos tunisinos, porque achavam que na Tunísia se vivia bem e que aquelas pessoas só ali estavam porque queriam ganhar dinheiro. Mas, na verdade, devíamos compreender que ninguém quer sair do seu país e abandonar as suas famílias, ainda por cima arriscando a vida, se não tiver uma razão verdadeiramente forte”. Hoje, são apenas 300 os refugiados instalados no centro de Lampedusa, que se encontra em obras. A maioria dos recém-chegados é levada para centros na Sicília e daí encaminhados para outras instituições homólogas por toda a Itália. “O que se tem passado é que as autoridades italianas não têm identificado os refugiados, deixando-os à deriva pela Europa”, diz Riccardo Noury. “Até recebemos denúncias de permissões falsas, só para convencerem famílias inteiras a abandonar o país. Claro que foram intercetados na primeira fronteira e mandados voltar para trás”. Para o ativista da AI Itália, Fernando Chironda, o desrespeito pela convenção de Dublin por parte das autoridades italianas pode significar desprezo pelos imigrantes como também uma ação de pressão para com outros países europeus. As consequências são visíveis: milhares de refugiados acampam à entrada do Canal da Mancha, nas praças de Berlim e debaixo dos viadutos de Paris. “A Europa tem de seguir uma política de abertura de fronteiras para evitar as mortes no mar. Têm que se conceder mais vistos e abrir corredores humanitários desde a Síria e a Eritreia”, diz Fernando. Os números falam por si: 90% dos refugiados da Eritreia e de outras regiões em conflito que solicitam asilo na Europa, veem os seus pedidos aceites. “Então, porquê submetê-los às redes de mafiosos, à morte no deserto e ao perigo de afogamento se, no fim de contas, o visto é concedido? Não seria mais fácil deixá-los entrar de uma forma digna?”, questiona Fernando. Migrantes tunisinos em Lampedusa, em 2011 Esta é uma questão com que Majid, de 21 anos, natural de Jos, uma aldeia do norte da Nigéria, se confronta diariamente. Em 2011, viu o pai ser assassinado por motivos religiosos. Fugiu imediatamente até à fronteira com o Chade, daí para o Níger, pelo meio do deserto, sem parar, à boleia de camiões e a pé. “Estava profundamente traumatizado com a morte do meu pai. Não confiava em ninguém. Não tinha dinheiro e tive de mendigar para comer”, diz. Viveu durante dois anos em Tripoli, na Líbia, como comerciante de rua. Até que, em 2011, estalou a guerra civil e Majid foi sequestrado pelas milícias de Kadhafi, que o obrigaram a embarcar para Itália com outros imigrantes subsarianos, numa chantagem desumana para a Europa apoiar o ex-ditador líbio. “A viagem foi horrível. Não tínhamos destino que não a morte. Vi pessoas morrerem no meu barco, vi outro afundar com mulheres grávidas e crianças”, diz Majid. Acabou por chegar a Lampedusa mas, ao contrário do que julgava, as dificuldades estavam apenas a começar. “Trataram-nos como criminosos, revistaram-nos, meteram-nos os dedos no rabo. A comida era intragável, dormi no chão, fizeram-me sentir como se estivesse numa prisão”, diz Majid. Atualmente, o nigeriano vive em Roma com outros sobreviventes africanos. Diz que a zona da estação de Termini é um autêntico campo de refugiados e que muitos estão a morrer à fome. O seu objetivo, afirma, é evitar que outros passem pelo mesmo calvário. “Odeio a Europa”, conclui Majid. “Dizem-nos que aqui há igualdade, humanismo e democracia mas, na verdade, nem solidariedade existe. Se o meu país estivesse em paz, regressaria. Não posso. Então, vou lutar pelos direitos dos imigrantes até poder voltar à Nigéria”. Nota: no momento em que este texto está a ser escrito, estima-se que cerca de 800 mil pessoas em África e no Médio Oriente aguardem uma oportunidade de emigrar para a Europa.