1. INTRODUÇÃO
Do filho pródigo, que códigos? Do filho pródigo, que códigos são meus? O
código de micro, o livre arbítrio, o livre eu. O código de micro, o livre arbítrio o
clone e deus. E eu e Deus, e Deus e eu, e eu e Deus, e eu? Elétrica, elétrica,
elétrica. (MERCURY, Daniela. Elétrica, In: Daniela Mercury disco Elétrica,
1998)
Qual o papel do homem nessa nova ordem tecnológica mundial? É a indagação central
que dá origem e justifica este trabalho. Essa questão foi concebida ainda durante o período da
graduação, em uma aula de Comunicação Comparada, quando se discutia a obra de Mcluhan, ‘Os
Meios de Comunicação como extensão do homem’. A discordância com parte da turma ao
interpretar que, segundo o autor, a tecnologia amputa a capacidade humana, culminou em uma
busca por uma contra-argumentação a esta acepção. O primeiro pressuposto teórico que permitiu
um aprofundamento do problema foi encontrado em Lemos (1999) ao apontar que “a técnica é a
arte de construção da vida”. A partir desta frase, que talvez seja a essência desta pesquisa,
buscou-se a tentativa de estudar as transformações tecnológicas, principalmente as técnicas de
comunicação aplicadas a um setor da atuação humana.
Durante a folia carnavalesca do ano de 2000, ao observar a multidão que acompanhava a
cantora Daniela Mercury, surge a idéia de se estudar a tecnologia aplicada ao turismo. Naquela
ocasião, a denominada, ‘rainha do axé’, ao cantar a canção ‘Elétrica’, utilizada como epígrafe
neste trabalho, propunha ao seu público, extremamente diversificado, entre brasileiros e
estrangeiros, uma releitura dos conceitos sobre o que é ser homem, lançando o desafio da
compreensão desse novo mundo influenciado pela cibernética. A mistura de ritmos da melodia (o
12
toque percussivo da tradição do candomblé e o som distorcido da guitarra elétrica) e as
indagações contidas na letra da canção propuseram questionamentos sobre a função do homem e
da máquina nesse momento atual dominado pela cibercultura.
Em uma relação metafórica, o texto parece considerar os códigos de micro como novas
possibilidades de comportamento social e humano, podendo-se incluir, neste caso, os processos
de dominação que caracterizam a tecnocracia. O que sugere a cibercultura, então? Optar entre o
livre arbítrio e os códigos de micro? Usá-los para propagar a dominação social? Ou usá-los para
garantir o direito de ir e vir, como fez o ‘filho pródigo’?
Observa-se, atualmente, que o computador já faz parte de quase todas as ações e lugares
do mundo, redefinindo os comportamentos e espaços sociais. Intranet, extranet, pontos de
conexão, lugares digitais, a telepresença, o conhecimento do outro que continua estranho e mais
uma série de componentes são responsáveis por novas concepções de mundo e por novas formas
de interação humanas. Em casa, no trabalho, nas ruas, nas escolas, nas bibliotecas, tudo está
rendido às facilidades e encantamentos dessa máquina inteligente.
Estudiosos de diversas áreas convergem na acepção de que o mundo está vivenciando um
tempo digital vasto em informações e infraestruturas. Os potenciais e benefícios são grandes e o
momento da construção é tão rápido que nada foge a esse processo. Crescem uniões econômicas
e sociais, as normas e leis começam a ser reavaliadas, surgem medidas políticas para funcionar
em âmbito local e global, os espaços são transformados para adequar as novas tecnologias às
sociedades, os aspectos culturais definem as potencialidades econômicas, tudo girando em volta
desse complexo sistema em andamento de inovações tecnológicas e construções de novas
infraestruturas.
Nesse sentido, encontrar os códigos culturais requer uma tomada de ações conscientes,
que são ações livres, ações de livre arbítrio. Conhecer os limites entre os códigos de micro e os
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códigos humanos é justamente tentar compreender a função do computador junto aos sistemas
sociais, buscando como a máquina da cibercultura pode potencializar as funções dos locais. A
percepção dessas indagações, em um momento de multiculturalismo e descontração, ou
aproveitamento do tempo livre, culminou em um processo de elaboração do estudo dessas
transformações junto à atividade turística.
Considera-se, para tanto, que, com o desenvolvimento de tecnologias, a atividade turística
caracteriza-se enquanto fenômeno mundial, delimitando sua importância econômica e cultural.
Partindo deste princípio, pode-se conceber que, com a proliferação das tecnologias digitais, os
serviços turísticos passam a ser mais rápidos e mais eficientes, estabelecendo
um público
altamente exigente e com interesses diversos, obrigando os locais receptivos, a adaptarem-se às
novas realidades. A partir dessa percepção, entende-se que a relação entre turismo e tecnologias
começa a exigir um estudo detalhado, contemplando as questões identitárias, os novos códigos
culturais e a nova dinâmica social que emergem nos centros receptivos, a partir da utilização dos
novos aparatos.
Portanto, o objetivo principal desta pesquisa é entender como as tecnologias digitais estão
potencializando as ações que dinamizam o setor, tendo como referência o município de Porto
Seguro-Ba. A escolha do município deve-se à sua atual organização cultural, na qual o turismo
desponta como principal atividade socioeconômica, segundo dados do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística – IBGE (censo de 2000). Busca-se, para tanto, traçar um estudo sobre a
produção cultural contemporânea do destino, considerando o uso das tecnologias digitais,
enfatizando como a história, as manifestações artísticas e os fatores ambientais estão
representados nas mediações ciberculturais do município (representações na internet). Nesse
sentido, busca-se apontar um modelo de cidade virtual, adequado a potencialização da atividade
14
turística no local, que contemple o multiculturalismo como fator de estímulo à cidadania,
enfatizando fatores como educação, relações interpessoais e identidade cultural.
O fundamento para análise da cidade sobre a perspectiva da Revolução Digital é
encontrado na obra Telecommunications and the City de Graham e Marvin (1996) e na obra
‘Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea’ de Lemos (2002). Os autores
são contundentes na idéia de que a relação entre cidades e telecomunicações deve superar o
determinismo tecnológico e o futurismo utópico. Lemos apresenta em sua obra um panorama
sobre a cibercultura, mostrando o seu surgimento e como esta está manifesta nos locais e nas
ações do cotidiano popular. Também o autor apresenta um estudo sobre o imaginário da
cibercultura, enfatizando as expressões do underground, uma série de fatores e aspectos que
compõem a ambiência em uma atmosfera cibernética.
Graham e Marvin (1996) cogitam com quais finalidades devem ser aplicadas as
tecnologias digitais aos setores sociais para a promoção da melhor organização da sociedade. Na
obra, entende-se que somente a partir de um estudo detalhado e crítico dos
aspectos que
caracterizam a dinâmica de um local (políticos, econômicos, sociais e o desenvolvimento
humano) pode-se chegar a um entendimento dos impactos das tecnologias em toda a sociedade e,
então, criar perspectivas reais de como a tecnologia pode melhorar, ampliar e potencializar as
ações do local. Os autores entendem as transformações tecnológicas como fatores de
reconfiguração da sociedade, envolvendo e entrelaçando todos os seus aspectos.
A metodologia estipulada para o desenvolvimento deste estudo possibilitou um
levantamento de dados, com análise e avaliação, de aspectos socioeconômicos e humanos no
município de Porto Seguro, promovidos pela atividade turística no período de 1990-2000. Para
tanto, foram definidas quatro etapas de trabalho que envolveram pesquisa bibliográfica,
documental e de campo. Na pesquisa de campo, utilizou-se do método intencional não
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probabilístico por julgamento para coletar opiniões de nativos e de turistas e da etnografia para
apresentar uma descrição da dinâmica do município.
No processo de construção do texto, optou-se, quando necessário, pela utilização de box1
para completar as discussões, a partir da disponibilização de fotografias e textos complementares.
Informações sobre a história, a economia, o meio ambiente a as ações sociais bem como dados
estatísticos estão presentes nesta dissertação de modo a permitir a maior compreensão e
detalhamento dos aspectos contemporâneos do município. As informações coletadas foram
analisadas à luz de teóricos do turismo, da comunicação e de culturalistas, dando ênfase aos
estudos da cibercultura. Os estudos sobre turismo fundamentam-se em considerações de Bignami
(2002), Beni (2000), Dias (2003), Lage (2000), Minani (1996), Moesch (2000) e Oliveira (2000).
Para embasar os estudos sobre tecnologia e meio social, foram usados os teóricos
Habermas (1968), Benjamim (1994), Lemos (1999; 2001; 2002), Beyers (1996), Dechert (1970),
Graham e Marvim (1996), Leroi-Gourhan (1971;1984) Lévy (1996a; 1996b; 1999), Maffesoli
(1998), evidenciando a trilogia de Castells (1999). Esses teóricos apresentam conteúdos que se
completam, fornecendo conceitos, exemplos, análises e críticas à sociedade contemporânea bem
como descrevem o processo histórico do desenvolvimento tecnológico, suas implicações e
perspectivas para o convívio humano, considerando as questões culturais e identitárias, avaliando
como estas se relacionam com as tecnologias digitais.
Os estudos sobre processos comunicacionais estão delimitados a partir de Barbero (2001),
Bordenave (2002), Castells (2003), Debord (1997), Hall (2003b) e por Macluhan. (1964). Por
fim, para fomentar a discussão sobre a produção cultural contemporânea utiliza-se, como
fundamentais, as concepções de Benjamim (1998), Bhabha (1998), Canclini (1998),
1
De acordo com o Manual de Redação da Folha de São Paulo (2000), ‘box’ significa texto curto que aparece cercado
por fios, em associação com outros textos, que podem ser biografia, reprodução integral de um documento, pequena
entrevista, comentário entre outros elementos textuais.
16
Feathererstone (1997), Hall (2003a), Hannerz (1997), e Ianni (1999; 2000). Esses autores
apresentam conteúdos complementares, importantes para a análise e compreensão das atuais
transformações mundiais em seus aspectos políticos, econômicos e sociais, oferecendo uma
contribuição para o entendimento das formações identitárias e das expressões regionais.
O trabalho está divido em duas partes. Na primeira parte, estão o primeiro e o segundo
capítulos e o terceiro e quarto compreendem a segunda parte. Cada capítulo está dividido em três
tópicos, de modo que cada parte apresenta, ao todo, seis tópicos, com conteúdos específicos.
Optou-se por esse modelo de estruturação para melhor delimitar as discussões, dando-lhes o
aprofundamento necessário, de modo que a leitura não seja cansativa, considerando a dimensão
da dissertação, devido à complexidade dos temas abordados – desenvolvimento tecnológico,
complexidade social, turismo e comunicação on-line.
Na primeira parte, ‘O porto, a cidade, a
cibercidade: os sentidos da evolução
tecnológica’, tem-se uma discussão sobre a relação entre a formação cultural
e o
desenvolvimento tecnológico, com atenção voltada para a cibercultura. Esta temática está
centrada no primeiro capítulo – ‘O desenvolvimento tecnológico e seus usos pelas manifestações
culturais contemporâneas’ – que termina com uma abordagem envolvendo a relação entre
turismo e tecnologia. No segundo capítulo, ‘Aspectos do imaginário e da história importantes
para a construção da cidade virtual’ há uma acepção referente à formação do imaginário
turístico sobre Porto Seguro bem como sobre a atual dinâmica social do município, evidenciando
as práticas turísticas que emergem com a cibercultura.
A segunda parte, ‘O mundo digitalizado e seus impactos nas culturas locais’, o enfoque é
dado à relação entre internet e turismo. No terceiro capítulo ‘A cidade do ciberespaço’ apresentase uma contextualização sobre a comunicação social e sua interferência nas dinâmicas sociais,
trazendo uma abordagem sobre a internet, evidenciando as características e categorias de atitude
17
que delimitam sua particularidade, enquanto veículo de comunicação. Apresenta-se, entretanto,
uma análise de sites referentes ao município de Porto Seguro, cujos aspectos observados
correspondem à exploração das características do meio, à utilização das categorias de atitudes e
ao conteúdo veiculado, tendo como referência os estudos sobre o imaginário e a dinâmica social,
apresentados na parte anterior. No último capítulo, ‘ Navegar é preciso, viver é preciso também’,
apresenta-se uma sugestão sobre o modelo de cidade virtual adequada à potencialização da
atividade turística no município do Porto Seguro. Para tanto, mostram-se expectativas de
segmentos da população local com relação aos usos da internet.
Por fim, é importante ressaltar que, neste trabalho, tem-se um estudo cultural sobre
realizações contemporâneas que estão movimentando o turismo em Porto Seguro, não tendo
portanto, a pretensão de se apresentar um mapeamento e/ou uma enumeração dos recursos
tecnológicos disponíveis no município e utilizados pela população local. Assim, está-se
oferecendo uma modéstia compreensão de como o turismo e a cibercultura, enfatizando a
comunicação on-line, podem intensificar as potencialidades locais e ampliar as possibilidades de
melhoria de vida do homem, considerando tanto aspectos socioeconômicos, quanto questões
intelectuais e identitárias, contribuindo, desse modo, para que se possa edificar uma sociedade
mais justa e mais democrática.
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2. PARTE I:
O PORTO, A CIDADE, A CIBERCIDADE: OS SENTIDOS DA EVOLUÇÃO
TECNOLÓGICA
Nasce o sol e não dura mais que um dia./ Depois da luz, segue a noite escura./
Em tristes sombras, morre a formosura./E em contínuas tristezas, a alegria./
Porém se acaba o sol, porque nascia?/ Se é tão formosa a luz, porque não
dura?/Como a beleza assim se transfigura?/ Como o gosto na pena assim se
fia?/ Mas no sol e na luz falte a firmeza./ Na formosura não se dê constância./ E
na alegria sinta-se a tristeza./ Começa o mundo, em fim, pela ignorância./ Pois
tem qualquer dos bens, por natureza, / a firmeza somente na inconstância.
(MATOS, Gregório de. Da brevidade do gosto e das coisas. In:
www.secrel.com.br/jpoesia/gregoi10.html).
Os versos do poeta barroco, denominado ‘Boca do Inferno’, apresentam um
questionamento sobre a existência das coisas e a ocorrência dos fatos. A essência do poema está
centrada na mudança, que Gregório, metaforicamente, entende como a única característica fixa
do homem e das sociedades. A inquietação do poeta com a brevidade do gosto e das coisas
sugere ao homem uma indagação sobre a sua própria existência, sobre a veemência dos aspectos
de sua cultura e sobre a tenacidade dos seus indicadores identitários.
Começar o mundo pela ignorância é buscar a compreensão dos aspectos contemporâneos
para dinamizá-los em um tempo posterior, ou mesmo no próprio tempo. É buscar as contínuas
mudanças que impulsionam a dinâmica das sociedades e permitem a emergência de fatores que
potencializam as ações humanas, como a tecnologia. A associação do poema com esta primeira
parte do trabalho prende-se à indagação constante de como o desenvolvimento tecnológico pode
fomentar as alterações nos modos de vida, contribuindo para a fragmentação das estruturas
sociais existentes e excitando novas práticas culturais.
19
O propósito desta parte, é identificar o aporte do desenvolvimento tecnológico junto à
dinâmica das sociedades, evidenciando a relação desse fator com o desdobramento da atividade
turística. No primeiro capítulo, ‘O desenvolvimento tecnológico e seus usos pela manifestação
cultural contemporânea’ será discutido como a técnica contribui para a formação das culturas,
evidenciado a atual forma de cultura, a cibercultura, bem como se dá a relação entre
desenvolvimento tecnológico e a emergência da atividade turística, excitando uma discussão de
como a cidade virtual pode contribuir para a potencialização do setor turístico.
No segundo capítulo, ‘Aspectos do imaginário de da história importantes para a
construção da cidade virtual’, serão traçadas indagações sobre o município de Porto Seguro a
partir do momento histórico institucionalizado pela chegada dos portugueses. Serão apresentados
aspectos identificadores do município, considerando o imaginário turístico e a evolução dos
processos técnicos que podem caracterizar o local como Porto, como Cidade e como Cibercidade, notificando a movimentação turística que surge com a cibercultura. Este conhecimento é
fundamental para a compreensão e crítica do conteúdo turístico difundido nos sites referentes ao
município, cuja análise, está enfatizada na segunda parte.
20
2.1. O DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO E SEUS USOS PELAS
MANIFESTAÇÕES CULTURAIS CONTEMPORÂNEAS.
21
2.1.1. A cultura que emerge nas entrelinhas da tecnologia
Abrivos, túmulos; mortos das pinacotecas, mortos adormecidos atrás de portas
secretas, nos palácios, nos castelos e nos mosteiros, eis o porta-chaves feérico,
que tendo às mãos um molho com as chaves de todas as épocas, e sabendo
manejar as fechaduras mais astuciosas, convida-vos a entrar no mundo de hoje,
misturando-vos aos carregadores, aos mecânicos empobrecidos pelo dinheiro,
em seus automóveis, belos como armaduras feudais, a instalar-vos com todas
essas pessoas, ciosas dos seus privilégios. Mas a civilização fará delas uma
pronta justiça.
(Discurso que Apollinaire atribuiu a seu amigo Henri Hertz In:
www.inicia.es/de/m_cabot/el_surrealismo.htm - Acesso em 04 de janeiro de
2004)
O discurso de Apollinaire convida o seu amigo a questionar o tempo, o mundo e as suas
transformações, tendo como ponto de partida os insumos técnicos. Esse discurso suscita a
idéia central a ser debatida neste tópico – a relação entre tecnologia e formação cultural.
Assim, partindo dessa perspectiva surrealista, será traçada uma tentativa de se compreender
como as culturas humanas podem ser descritas pelo aporte tecnológico. Afinal, como ressalta
Benjamin (1994), o surrealismo foi o primeiro estilo literário a se preocupar com as energias
revolucionárias que transparecem a partir das inovações tecnológicas como as construções de
ferro, as fotografias, os objetos industrializados e toda a parafernália que proclama a moda e
os gostos e torna antiquadas as manifestações passadas.
Para Benjamin (1994), há uma relação direta entre as revoluções sociais e os objetos frutos da
criatividade humana que dá sentido e vez a toda uma produção cultural e que vai caracterizar
um tempo no espaço de dependências técnicas, cuja nomenclatura (império, feudo,
modernidade, revolução industrial, cibercultura...) deriva dos modos operacionais e
22
comportamentais bem como dos pensamentos desenvolvidos a partir das invenções e
inovações técnicas. Estas, por sua vez, sinalizam a tentativa do homem em aprimorar as suas
condições de vida e encontrar subsídios para melhor conduzir a realização de suas
perspectivas. Portanto, as ações, invenções e inovações que potencializam, dinamizam e
particularizam um local não só são elementos constitutivos da cultura como também são
indicadores do pensamento vigente em uma esfera social.
Assim, a tecnologia – o desenvolvimento de técnicas lógicas de ação ou, ampliando o
conceito de Castells (1999a), o uso de conhecimentos científicos ou não científicos para
especificar as vias de se realizarem as coisas e as atividades de uma maneira reproduzível –
coopera para a edificação e solidificação de estruturas sociais (grupos, organizações,
comunidades, cidades) e contribuem para a delimitação de práticas culturais que circunscrevem
modos de vida. Afinal, como observa Leroi-Gourhan (1971), a tecnologia é a única disciplina
etnológica que evidencia uma continuidade total no tempo, sendo, portanto, a única que permite a
compreensão dos atos humanos em uma ordem cronológica.
[...] o Homem aperfeiçoa os seus utensílios com tal eficácia que, de um ponto de
vista moral, artístico e social, está agora ultrapassado pelos seus próprios meios
de ação contra o meio natural, e este movimento de progresso técnico é tão
flagrante que, desde há séculos, todos os grupos que se exaltam nos seus
utensílios julgam-se ter-se também elevados em todos os outros domínios.
((LEROI-GOURHAN, 1984, p. 232)
Não é um desatino expressar que a cultura tem suas raízes fincadas no âmago do
fenômeno técnico. Contudo, compreende-se com Lévy (1999, p.22) que a técnica é um “ângulo
de análise dos sistemas sócio-técnicos globais, um ponto de vista que enfatiza a parte material e
artificial dos fenômenos humanos, e não uma entidade real, que existiria independente do resto,
23
que teria efeitos distintos e agiria por vontade própria”. Logo, os modos e os objetos técnicos
comportam-se como elementos sinalizadores das práticas culturais de um local (envolvendo a
totalidade das atividades humanas desde idéias até as construções materiais) e corroboram para a
edificação de sua narrativa identitária.
A relação entre cultura e tecnologia é fruto do modo como os atores sociais produzem,
utilizam e interpretam as técnicas no seu dia-a-dia. Leroi-Gourhan (1984) aponta que, muito
mais que um mecanismo de aperfeiçoamento operacional, os fatos técnicos cooperam para a
compreensão das causas e do desenvolvimento dos processos históricos. As invenções, as
inovações, as difusões entre técnicas oriundas de locais distintos, a inércia técnica ou mesmo a
tomada de técnicas antigas provocam alterações na dinâmica cotidiana da sociedade,
interferindo, conseqüentemente, em sua formação cultural, afinal, as descobertas tecnológicas
ocorrem em afluências, interagindo entre si em um procedimento dialético cada vez mais
intenso, indicando, em qualquer que seja o processo, que a inovação tecnológica não ocorre de
forma isolada.
Ela reflete um determinado estágio de conhecimento; um ambiente institucional
e industrial específico; uma certa disponibilidade de talentos para definir um
problema técnico e resolvê-lo; uma mentalidade econômica para dar a essa
aplicação uma boa relação custo/benefício; e uma rede de fabricantes e usuários
capazes de comunicar suas experiências de modo cumulativo e aprender usando
e fazendo. (CASTELLS, 1999 a, p.55)
A base do desenvolvimento tecnológico é também política e econômica uma vez que a
transformação da natureza representa alterações no comportamento humano e, por
24
conseguinte, em toda vida social. Nesse sentido, pode-se dizer que as inovações e invenções
do homem são ao mesmo tempo frutos das necessidades sociais e fomentadores de novas
práticas culturais. Portanto, “se a técnica se transforma na forma englobante da produção
material, define então uma cultura inteira – um mundo” (HABERMAS, 1968, p.55). Assim o
desenvolvimento tecnológico pode comportar-se como acelerador ou como freio das
transformações em uma localidade, afinal, como lembra Lévy (1999), associados às técnicas
estão projetos sociais, interesses políticos e econômicos, idéias, utopias e mais uma série de
fatores que completam a gama das atividades dos homens na sociedade.
As modificações nos sistemas sociais estão vinculadas às constantes reformulações
técnicas que se constituem como uma linha evolutiva contínua. Esse encadeamento descreve o
que Micthell (2000) denomina em seu E-topia de ‘metamorfoses tecnológicas’, permitindo que o
espaço esteja sempre movimentado por um processo de construção/desconstrução, no qual o
homem reformula o seu espaço, partindo sempre dos modelos existentes. Ou seja, o ponto de
partida de um novo sistema social é o atual. Ele completa o que está feito, estruturando um novo
modelo.
Vale ressaltar que as reformulações tecnológicas não criam novas condições de vida nem
novas necessidades, elas apenas as reinventam, transformando o funcionamento dos sistemas e
redistribuindo as atividades, estendendo-as por vários outros caminhos. Porém, como alerta
Mitchell (2000), à medida em que os sistemas tecnológicos modificam as operações sociais, o
homem tem que buscar entendê-lo, escolher suas opiniões, seus destinos e, cuidadosamente,
construí-los. Afinal, como aponta Dechert (1970), toda vez que se faz uma inovação tecnológica
e científica, o homem muda, reconstruindo seu pensamento sobre as coisas, sobre o mundo e
sobre si mesmo. Assim, pode-se dizer que as reformulações técnicas propõem novas
25
constituições sociais, transformando a vida e a concepção de vida em sua totalidade, provocando
a ruptura de conceitos, de crenças, de valores, apresentando respostas, por um lado, e, por outro,
gerando novas indagações.
Para Habermas (1968, 45), “na medida em que a técnica e a ciência pervadem as esferas
institucionais da sociedade e transformam assim as próprias instituições, desmoronam-se as
antigas legitimações”. Nesse sentido, as ‘metamorfoses tecnológicas’ rompem com as estruturas
que se apresentam sólidas e apontam novos ícones, símbolos e significados para a coletividade.
As constantes revoluções da produção estremecem sucessivamente as condições sociais,
transformando as relações concretas em sistemas envelhecidos. Tem-se a desconstrução de
elementos identitários do local e a edificação de novos indicadores, estabelecendo, então, um
processo ininterrupto de reconfiguração da identidade.
A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às
formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. É
definida historicamente e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes
momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente. Dentro de nós há
identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações
estão sendo continuamente deslocadas. (HALL, 2003, p.13).
De acordo com Castells (1999b, p.22), entende-se identidade como “a fonte de significado
e experiência de um povo” vigente em um determinado período. A identidade é responsável pela
organização dos significados de um grupo social para os indivíduos, sejam eles componentes ou
não do grupo. Porém, além da revolução nos modos de produção, deve-se compreender que há
uma série de fatores interferentes na construção da identidade como a formação étnica, os
aspectos ambientais, as mitologias e lendas que compõem as fantasias e crenças que giram em
torno de uma ambiência.
26
Permeado por essa compreensão, Leroi-Gourhan (1984) notifica que a evolução dos
modos de produção ocorre em um terreno instável, uma vez que os elementos constituintes dos
processos que compõem a unidade técnica derivam de diferentes grupos étnicos e de tempos e
espaços variados. A essa observância, acrescenta-se o fato de que em cada sistema técnico está
em voga uma concepção ideológica que prescreve ações filosóficas, sociológicas, econômicas,
políticas, comunicativas e administrativas (ainda que aparentemente imperceptível e inconsciente
nas primeiras civilizações) bem como os sentimentos de medo e encantamento do homem para
com os novos objetos.
As alterações nos processos técnicos, portanto, estão atreladas à complexidade das
sociedades e comportam-se como responsáveis pelo delineamento dos seus obstáculos e
possibilidades, dos seus paradoxos, das suas certezas, das suas coerências e ambigüidades. Por
isso, junto às ‘metamorfoses tecnológicas’ pode-se identificar funções específicas do
desenvolvimento tecnológico que podem contribuir para a compreensão de como as técnicas
interferem na identidade cultural. Nessas sentido, Hall (2003) observa que, a partir da
modernidade, as alterações sociais são mais profundas do que a maioria das mudanças
características de períodos anteriores, uma vez que as conexões entre culturas passam a ser mais
extensas e a interferir com mais intensidade no cotidiano popular. Faz-se importante salientar,
entretanto, que, em qualquer período, o desenvolvimento tecnológico encontra-se veemente
presente no imaginário social.
De um modo, o refletir sobre a utilização das energias hidráulicas e eólicas e sobre o
maquinismo e o automatismo que caracterizaram a produção técnica medieval, foi o fator
preparatório do homem para a acepção da modernidade, afinal, proporcionou a emergência de
novos códigos de procedimento nos quais a técnica era concebida como elemento impulsionador
27
das transformações do mundo. Todavia, é o Renascimento do século XV que vai permitir a
manifestação de uma revolução epistemológica capaz de somar ao pensamento de então ideais da
modernidade. O teocentrismo é superado pela razão humana difundida pelo empirismo de Francis
Bacon e pelo racionalismo de René Descartes. O ‘penso, logo existo’ tornou-se a metáfora
perfeita para a legitimação das descobertas científicas e do domínio humano sobre a natureza
inteligível.
A vigência desse pensamento racionalista começa a preparar a sociedade para a
conivência com o ritmo acelerado das inovações que vai, a partir do final do século XVIII,
caracterizar as revoluções industriais, quando a fusão entre o desenvolvimento técnico e a
organização social deixa de ser apenas um projeto da modernidade e torna-se um fato real.
Ações e inovações características da I Revolução Industrial, ocorrida entre os séculos
XVIII e XIX, a exemplo da máquina a vapor, a fiadeira e o tear mecânicos, a aplicação da força
motriz às máquinas fabris, a difusão da mecanização na indústria têxtil e na mineração, a
fabricação em série e o surgimento da indústria pesada além de potencializarem a produção,
possibilitaram a consolidação do capitalismo, o surgimento do sistema burocrático, o povoamento
dos centros urbanos e a formação de uma nova classe social – a classe operária.
A partir desse momento, as cidades começam a ser organizadas sob a lógica da
industrialização, (re)definindo suas funções (industrial, agropecuária, turística...). Por esse
contexto, começa-se a difundir, no pensamento popular, a crença de que o desenvolvimento
tecnológico significaria uma melhoria da vida e das relações sociais. Assim, tem-se a idéia de
progresso técnico associado diretamente à reformulação das estruturas sociais, articulando-se
técnica, trabalho e economia política, consolidando uma sociedade industrial, na qual onde a
tecnologia alastrava-se por todos os domínios da vida.
28
No entanto, pode servir como uma forma abreviada para designar o poder do
propriamente humano e portanto antinatural presente no trabalho humano
descartado acumulado em nossas máquinas – um poder alienado, o que Sartre
chama de a contra-finalidade do prático inerte, que se volta contra nós em
formas irreconhecíveis e parece constituir-se no horizonte distópico massivo de
nossa práxis coletiva e individual. (JAMESON,1997, p.61)
Essa condição pragmática e alienante da técnica vai se evidenciar a partir da segunda
Revolução Industrial, final do século XIX, ao promover a gênese de uma sociedade voltada para
o consumo. Essa revolução caracteriza-se pelo desenvolvimento da eletricidade, do motor de
combustão interna, de produtos químicos com base científica, da fundição eficiente do aço e pelo
aprimoramento das tecnologias de comunicação e de transportes.
O surgimento do sistema fordista e a apropriação de espaços comunicacionais, como a
fotografia o cinema e o rádio, como divulgadores de produtos industrializados, iniciaram o
processo de comunicação de massa que culminou na formação de uma nova prática cultural - a
cultura de massa – na qual o sujeito passa a ser compreendido como membro de uma
coletividade, estando mais centrado no cerne das grandes estruturas sociais. A concepção de
‘sujeito cartesiano’ é substituída por uma definição mais social do sujeito.
[...] a medida em que as sociedades modernas se tornavam mais complexas, elas
adquiriam uma forma mais coletiva e social. As teorias clássicas liberais de
governo, baseadas nos direitos e consentimentos individuais, foram obrigadas a
dar conta das estruturas do Estado-nação e das grandes massas que fazem uma
democracia moderna. As leis clássicas da economia política, da propriedade, do
contrato e da troca tinham que atuar, depois da industrialização, entre as grandes
formações de classe do capitalismo moderno. (HALL, 2003, p.29)
29
Essa concepção orgânica e funcional das relações sociais está imersa na racionalidade
ideológica da industrialização, que vigora durante o ápice da segunda revolução. Habermas
(1968), ao dialogar com Max Weber e com Herbert Marcuse, vai considerar essa racionalidade
como o conteúdo legitimador da dominação política, promotora das relações institucionalizadas.
Para o autor, ela está intrinsecamente direcionada à laboração de estratégias de dominação tanto
sobre a natureza quanto sobre o próprio homem social, comportando-se, dessa forma, como
‘exercício de controles’. Esse exercício condiciona-se à capacidade e ao interesse da delimitação
dos aspectos sociais, não estando associado (diretamente) à opressão e à exploração, embora
admita caráter repressor na medida que submete os indivíduos ao aparelho técnico e,
conseqüentemente, ao estatal, compondo uma sociedade totalitária de base racional, voltada para
a ampliação da comodidade da vida e intensificação da produtividade do trabalho.
Assim, ao impor ao homem a vivência de ações padronizadas (caracterizando a cultura de
massa), o desenvolvimento industrial contribui para a atuação do Estado. Esse promove a
organização do tempo e dos espaços sociais, uma vez que o incremento das forças produtivas,
associado ao desenvolvimento tecnológico e ao modo de produção capitalista, condicionava os
cidadãos a pensar que o contínuo aumento da produtividade e o domínio da natureza cooperavam
para a edificação de uma vida mais confortável.
O aumento das forças produtivas institucionalizado pelo progresso técnocientífico faz explodir todas as proporções históricas. Daí tira o enquadramento
institucional as suas oportunidades de legitimação. O pensamento de que as
relações de produção pudessem medir-se pelo potencial das forças produtivas
desenvolvidas fica cerceado pelo facto de que as relações de produção existentes
se apresentam como a forma de organização tecnicamente necessária de uma
sociedade racionalizada. (HABERMAS, 1968, p.48)
30
Nesse sentido, observa-se com Castells (1999a) que os ideais das revoluções industriais,
ao difundirem-se por todo o sistema econômico e permearem em toda a esfera social, servem de
base material para a continuação histórica das lutas humanas. Portanto, o desenvolvimento
tecnológico, ao mesmo tempo em que se comporta como a base da legitimação do poder político,
permite o surgimento de insólitos sistemas culturais, pois a racionalização inerente a tal processo
amplia as esferas ideológicas do trabalho industrial, abrangendo outros âmbitos da vida como a
urbanização, o tráfico econômico, as redes de transportes e de comunicação, as instituições de
direito privado, as escolas, a religião bem como o aproveitamento do tempo livre.
Então, se por um lado, a sociedade industrial retira do homem a sua autonomia, o
impossibilitando determinar pessoalmente a sua vida, por outro, cria subsídios para que se
formem grupos sociais. A utilização dos insumos tecnológicos e a reflexão sobre essa utilização
ultrapassam, no século XX, os limites institucionais, fazendo emergir uma complexa estrutura
social, caracterizada por conflitos de toda ordem.
São problemas inseridos mais ou menos nas guerras e revoluções, nas lutas pela
descolonização, nos ciclos de expressão e recessão das economias, nos
movimentos do mercado de força de trabalho, nas migrações, nas peregrinações
religiosas e nas incursões e tropelias turísticas, entre outras características mais
ou menos notáveis da forma pela qual o século XX pode ser visto, em
perspectiva geistórica ampla. São problemas raciais que emergem e se
desenvolvem no jogo das forças sociais, conforme se movimentam em escala
local, nacional, regional e mundial. Ainda que muitas vezes esses problemas
pareçam únicos e exclusivos, como se fossem apenas ou principalmente
‘étnicos’ ou ‘raciais’, a realidade é que emergem e se desenvolvem no jogo das
forças sociais, compreendendo implicações econômicas, políticas e culturais.
(IANNI, 1997, p.175)
Desse modo, pode-se considerar, de acordo com Castells (1999b), uma distinção entre três
formas e origens de construção da identidade, afinal, a constituição social da identidade ocorre
31
em uma conjunção marcada por relações de poder. Assim, tem-se a ‘identidade legitimadora’,
introduzida pelos grupos dominantes, que, no caso, corresponde à identidade formada a partir da
racionalização industrial; a ‘identidade de resistência’, característica dos grupos de oposição e a
‘identidade de projeto’ quando o grupo redefine sua posição na sociedade, transformando toda a
estrutura social. Estas duas últimas formas de identidade caracterizam os partidos políticos,
sindicatos de operários, ambientalistas, feministas, homossexuais, negros e demais grupos que, de
algum modo, lutam contra a cultura dominante com bases totalitária.
Pode-se entender que, ao proteger a legalidade da dominação, a racionalidade tecnológica
legitima uma sociedade totalitária de base racional, na qual as normas sociais são reforçadas por
sanções, caracterizando a tentativa do Estado-nação em delimitar os indicadores culturais
nacionais, fomentando a construção de uma identidade legitimadora. Em contrapartida, ao
abranger vários âmbitos da vida, a tecnologia industrial acaba por permitir a formação de
subsistemas culturais promotores da complexidade das relações sociais do sistema macro a que
pertencem, gerando, então, a formação de grupos com identidades de resistência e de projeto.
A constituição dos bairros e das camadas sociais, das associações (empresariais,
filantrópicas, étnicas...), dos partidos políticos, dos grupos de oposição, das tribos urbanas bem
como a formação dos guetos e das camadas do ‘undergrounded’ dá-se a partir da consolidação de
códigos sociais peculiares que permitem a emergência dos indicadores culturais de cada um
desses subsistemas. Assim, em meados do século XX, as sociedades industriais já não mais
poderiam ser concebidas como uma totalidade de indivíduos.
Quando se combinam industrialização, urbanização, secularização da cultura e
do comportamento, racionalização das ações e das instituições, mercado,
produtividade, competitividade, individualização e individualismo possessivo,
32
como ocorre habitualmente no capitalismo, o resultado pode ser um ambiente
social explosivo. Aí tendem a multiplicar-se as desigualdades sociais,
juntamente com a divisão do trabalho social, com a hierarquização do status e
papéis, com distribuição desigual do produto e do trabalho social. Esse o
ambiente em que indivíduos, famílias, grupos e classes, ou maiorias e minorias,
inseridos nas tramas das relações sociais, ou no jogo das forças sociais, podem
tanto integrar-se como tensionar-se e fragmentar-se. (IANNI, 1997, p.1888)
Nesse sentido, a evidência e o reconhecimento das diferentes identidades dos grupos
culturais suscita uma nova forma de organização social, pois o racionalismo industrial, mesmo
nas primeiras décadas do século XX, não se faz mais suficiente para manter a lealdade dos grupos
culturais ao poder ‘tecno-estatal’. Então, o progresso tecno-científico e o controle sobre ele vão
exigir uma nova forma de legitimação do poder político – a consciência tecnocrática.
A consciência tecnocrática é, por um lado, menos ideológica do que todas as
ideologias precedentes; pois, não tem o poder opaco de uma ofuscação que
apenas sugere falsamente a realização dos interesses. Por outro lado, a ideologia
de fundo, um tanto vítrea, hoje dominante, que faz da ciência um feitiço, é mais
irresistível e de maior alcance do que as ideologias de tipo antigo, já que com a
dissimulação das questões não só justifica o interesse parcial de dominação de
uma determinada classe e reprime a necessidade parcial de emancipação por
parte da outra classe, mas também afeta o interesse emancipador como tal do
gênero humano. (HABERMAS, 1968, p.80)
O sentido utópico da ‘vida boa’ vinculada ao desenvolvimento tecnológico perde a força
de sua projeção na totalidade social e torna-se uma ‘e-topia’ junto às diferentes perspectivas dos
grupos culturais, manifestando-se em suas lutas por acesso às melhorias de vida, o que assinala a
busca pela satisfação das necessidades privatizadas e uma tomada de consciência das massas
sobre o seu contexto sócio-econômico. Contudo, o reconhecimento dessa postura analítica
(vigente nos subsitemas), por parte dos grupos dominadores, vai tornar-se o fator responsável
33
pelo estabelecimento de regulações normativas direcionadas que despolitizam os sujeitos,
vinculando-os a funções determinadas. Assim o sistema passa a ser composto por subsistemas de
ações racionais dirigidas afins. É essa forma sutil de controle direcionada que caracteriza a
‘consciência tecnocrática’.
Contudo, a difusão dessa consciência exige um entendimento das idéias e práticas que
particularizam cada um dos subsistemas que compõem o (macro) sistema social. Este
entendimento pode ser adquirido, entre outros aspectos, a partir da compreensão das relações
econômicas e dos processos comunicacionais. Afinal, as sociedades capitalistas são, em essência,
sociedades de mudanças contínuas e rápidas, edificadas a partir das informações recebidas sobre
as suas próprias práticas e sobre as práticas de outros espaços.
De acordo com Marx (1982), a partir do potencial econômico, dá-se a constituição das
classes sociais, que vão, então, comportar-se como grupos culturais uma vez que se distinguem,
umas das outras, pela forma organizativa que definem os seus significados peculiares. Esses
significados estão impressos nos valores, nos modos comportamentais, nos ícones e nos símbolos
sociais, nas manifestações estéticas, artísticas e religiosas, nas posições partidárias, nas lutas em
prol dos direitos coletivos, dos usos e das reflexões sobre as transformações tecnológicas, e
principalmente nas experiências compartilhadas. Tais elementos, entre outros, constituem os
códigos que delimitam a identidade através da qual, a classe social torna-se reconhecida enquanto
produtora de uma cultura específica, constituindo-se como um grupo cultural.
Jameson (1997) aponta que a cultura deve ser pensada em termos de uma explosão, cuja
expansão abrange todas as esferas do domínio social. Dos valores econômicos e das peripécias
estatais às práticas e à própria estrutura da psiquê, tudo, na vida social, pode ser considerado
como cultural. Nesse sentido, Barbero (2001), chama atenção para a necessidade de se aceitar
34
uma pluralidade de culturas, que corresponde a diferentes modos de vida social, cujo
entrelaçamento vai fomentar o processo de hibridismo cultural (CANCLINI, 2000), o qual vai
ratificar o caráter dinâmico da cultura. Logo, pode-se pensar a cultura como um constante
processo de criação, de transformação de conhecimentos e vivências e de reformulação do
ambiente em que o homem vive e justamente por isso as identidades culturais estão sempre em
mutação.
O entendimento sobre esse processo pode permitir a identificação dos espaços enquanto
‘lugar’, ‘território’, ‘lar’... ‘nação’, cujos significados são apropriados pelas experiências
coletivas que se formam a partir da intersecção entre concepções individuais que vão definir
modos de vida. Ao agrupar-se em organizações comunitárias, as pessoas desenvolvem um
sentimento de pertença a uma identidade cultural, através da qual, sentem-se representadas e
motivadas a lutarem pelos propósitos tanto pessoais, quanto coletivos. Essa identificação é
componente de formação da ambiência de um grupo cultural ou sistema/classe social.
As pessoas se socializam e interagem em seu ambiente local, seja ela a vila, a
cidade, o subúrbio formando redes sociais entre seus vizinhos. Por outro lado,
identidades locais entram em intersecção com outras fontes de significado e
reconhecimento social, seguindo um padrão altamente diversificado que dá
margem a interpretações alternativas. (CASTELLS, 1999b, p.79)
Essas interações e interpretações compõem as ações comunicativas. Essas se configuram a
partir dos sentidos que o grupo emprega às informações que recebe, sejam elas, oriundas do
poder estatal, do desenvolvimento tecnológico ou de outros grupos quaisquer bem como a partir
da forma com que o grupo produz e faz circular, tanto interna como externamente ao sistema, as
suas próprias informações.
35
A comunicação simbólica entre esses seres humanos e o relacionamento entre
esses e a natureza, como base na produção (e seu complemento, o consumo),
experiencia o poder, cristalizam-se ao longo da história em territórios
específicos, e assim geram culturas e identidades coletivas (CASTELLS, 1999
a, p. 33)
A compreensão desse processo interativo e da construção de sentidos decorrente pode
proporcionar o entendimento dos códigos culturais, uma vez que a comunicação perpassa por
todas as esferas da sociedade, promovendo o elo entre os seus membros e a propagação das
alterações em sua dinâmica. E como as ‘metamorfoses tecnológicas’ são fomentadoras da
dinâmica social, pode-se conceber, com Lerói-Gourhan (1984), que o meio social é um ‘meio
técnico’ delimitado pelo poder econômico e pelos códigos culturais que o caracterizam. Nesse
sentido, afirma-se que a cultura emerge nas entrelinhas da tecnologia.
Portanto, as tentativas do homem em desenvolver, entender e firmar uma identidade
pessoal e coletiva a partir da revolução industrial compõe o cenário socioeconômico do século
XX, no qual o desenvolvimento tecnológico assume abertamente a sua condição de delimitador
das ações culturais. A complexidade dessa conjuntura perpassa por todos os aspectos da
sociedade. As relações políticas, os conflitos entre os grupos culturais, as expressões religiosas,
as manifestações artísticas, os sistemas administrativos e comunicacionais, a atividade turística, a
vida cotidiana e a totalidade de aspectos que compunham as ações humanas têm sua
funcionalidade a partir de uma ‘consciência high tech positivamente imperante’, que a partir da
década de 1970 toma caráter ubíquo, sendo incisiva para a edificação e consolidação, no final
deste século XX e início do atual, de uma sociedade viciada em tecnologias cibernéticas.
O desenvolvimento tecno-científico associado a instituições, empresas e a mão-de-obra
qualificada proporcionou o surgimento da Revolução Digital ou, como denomina Castells
36
(1999a), Revolução da Tecnologia da Informação ou Revolução da Informação, formando (ou
forjando?) a Sociedade da Informação e a Era do Conhecimento, que está transformando a cultura
material em mecanismos de um novo paradigma tecnológico, fomentando uma nova forma
cultural – a cibercultura – que está manifesta, de algum modo, em todas as áreas de atuação
humana contemporâneas, acelerando as trocas entre os grupos culturais e os situando em uma
dimensão global, formando uma nova realidade extremamente abrangente, complexa e, em
muitos casos, contraditória.
Mais uma vez, no final do século XX, o mundo se dá conta de que a história não
se repete no fluxo da continuidade, das seqüências e recorrências, mas que
envolve também tensões, rupturas e terremotos. Tanto é assim que permanece
no ar a impressão de que terminou uma época, terminou estrondosamente toda
uma época; e começou outra não só diferente, mas muito diferente,
surpreendente. Agora são muitos os que são obrigados a reconhecer que está em
curso um intenso processo de globalização das coisas, gentes e idéias. (IANNI,
1997, p.10)
É, portanto, uma nova perspectiva de novidade, de mudanças e de ruptura com o passado
repressor que vai caracterizar as últimas décadas do século XX e os primeiros anos do atual. A
humanidade mais uma vez se depara com uma nova realidade, com novas possibilidades e
ressurgem as indagações sobre a atuação humana, desta vez, pensada em uma ambiência
planetária. Assim, entram em negociação os valores locais e globais, redimensionando todas as
esferas da vida, desde as realizações mais banais do cotidiano até as mais complexas relações
políticas e econômicas entre as nações. Esse é o ambiente em que se prolifera a cibercultura, a
cultura contemporânea, que, de acordo com Lemos (2002), corresponde a uma atitude
influenciada pela contracultura americana que acena contra o poder tecnocrático, promovendo a
democratização da informação.
37
2.1.2. Qual é a ‘onda2’ da cibercultura?
[...] Acessando a internet você chaga ao coração da humanidade inteira sem
tirar o pé do chão. Reza Pai Nosso em hebraico, filosofa em alemão, entende
porque o Michael deu chilique na televisão. Kdi Vinil, quando é que tu vai
gravar CD? São milhões de megabits afanando a solidão, com a graças de Bill
Gates salve a globalização. Se o homem já foi a lua, vai pegar o sol com a mão.
Basta comprar um PC e aprender o abc da informatização. (BALEIRO, Z. Kid
Vinil. In: zeca-baleiro.letras.terra.com.br/letras/80229/ Acesso em 04 de janeiro
de 2005).
A epígrafe, um fragmento da canção Kid Vinil, está propondo reflexões sobre as
mudanças operacionais e comportamentais emergentes nesse momento de cibercultura. O texto
apresenta vantagens oferecidas pelo atual avanço tecnológico, mostrando as possibilidades que
esse novo sistema higt tech oferece ao homem, ao mesmo tempo em que traz questionamentos
sobre os usos da tecnologia por meio da metáfora que envolve Kid Vinil, um músico
colecionador de discos de vinil, que se recusa a gravar CDs. Assim, o compositor, convida seu
público a meditar sobre as novas possibilidades de relacionamento humano, de aquisição de
conhecimentos e informações e de operacionalização das ações.
Será realmente necessária a substituição das antigas técnicas por novas? A quem interessa
esse procedimento? O homem deve ser sempre dependente das inovações ou ele deve adaptá-las
às suas necessidades e desejos? Que interferências as novas tecnologias digitais provocam nas
culturas e como elas podem estabelecer suas identidades frente ao ininterrupto processo de
2
Expressão popular baiana, utilizada para propor uma questão. Geralmente substitui termos como ‘o que estar
acontecendo?’; ‘ o que houve’?; ‘qual é o problema?’
38
globalização? E até que ponto esse processo contribui para a melhoria das sociedades e da vida
humana? Qual identidade cultural forma-se com a cibercultura? Qual é a ‘onda’ da cibercultura?
Na efervescência conflituosa em que o homem busca delimitar e conceituar o tempo atual
como modernidade tardia (HALL, 2003) ou como pós-modernismo (JAMESON, 1997) ou como
pós-modernidade (FEATHERSTONE, 1997) vigora uma nova forma de pensar e agir, de
impulsionar os processos econômicos, políticos e sociais; uma nova forma de se buscar a
interação humana e a resolução de problemas que permeiam as sociedades; uma nova forma de
entender o homem e de se questionarem as suas ações e inter-relações e, logicamente, de
controlá-las. Formas estas de tal modo sinérgicas que proclamam sincretismos operacionais entre
o homem e a máquina, desencadeando uma série de novos processamentos, idéias e
conceituações acerca das próprias ações e dos espaços que as possibilitam.
A integração crescente entre mentes e máquinas, inclusive a máquina de DNA,
está anulando o que Bruce Mazlish chama de ‘a quarta descontinuidade’ (aquela
entre seres humanos e máquinas), alterando fundamentalmente o modo pelo qual
nascemos, vivemos, aprendemos, trabalhamos, produzimos, consumimos,
sonhamos, lutamos ou morremos. Com certeza, os contextos
culturais/institucionais e a ação social intencional interagem de forma decisiva
com o novo sistema tecnológico, mas esse sistema tem sua própria lógica
embutida, caracterizada pela capacidade de transformar todas as informações em
um sistema comum de informação, processando-as em velocidade e capacidade
cada vez maiores e com custo cada vez mais reduzido em uma rede de
recuperação e distribuição potencialmente ubíqua. (CASTELLS, 1999a, p.51)
Na busca da definição e da superação do próprio tempo, o homem acaba por produzir um
novo movimento de criação e de transformação do social, uma nova forma de cultura que resulta
da aplicabilidade científica sobre o desenvolvimento da técnica, fomentando uma revolução
operacional e comportamental, baseada na codificação da informação – a Revolução Digital.
39
Nessa nova conjuntura, o homem entra no processo de reconfiguração, ressignificação,
reconstrução das esferas sociais para adaptá-las ao presente, repensando as melhores maneiras de
reconstruir e reescrever (como este texto) a vida em sua totalidade de aspectos. Por outro lado,
Lévy (1999) chama a atenção para o fato de que essa revolução pode despontar como o ‘outro
ameaçador’ para aqueles que não se encontram diretamente envolvidos nos processos de criação
e de apropriação dos novos instrumentos digitais.
Para dizer a verdade, cada um de nós se encontra em maior ou menor grau nesse estado de desapossamento. A aceleração é tão forte e tão
generalizada que até mesmo os mais ‘ligados’ encontram-se em graus diversos, ultrapassados pela mudança, já que ninguém pode participar
ativamente da criação, das transformações, do conjunto de especialidades técnicas, nem mesmo, seguir essas transformações de perto (LÉVY,
1999, p.28).
A Revolução Digital é o sistema de produção motivado pela cibernética, a ciência de
controle e processamento de informações (DECHERT, 1970). As ações desenvolvem-se a partir
das redes de comunicação telemáticas, interligadas por ‘nós’, que permitem a troca e o
encaminhamento de informações. Essas informações são codificadas em dígitos binários, os
‘bits’, que se processam pela quantização de dados, delimitados pelo tempo em que se formam as
amostragens, que aparecem como os sinais ‘0’ e ‘1’. Uma vez agrupados, os sinais formam os
‘Bytes’ de informação, desencadeando uma nova ordem global, fundamentada pelas
telecomunicações digitais cuja evolução é ordenada em kilobis, megabits e gigabis.
Graham e Marvin (1996) observam que essas telecomunicações digitais estão sendo
difundidas rapidamente nas casas, nos locais de trabalho, nas ruas e em várias instituições
públicas. Para eles, o resultado dessa conjunção é um processo de convergência tecnológica e a
rápida penetração das chamadas redes telemáticas em todas as esferas de atuação do ser humano.
Essas redes compõem a infra-estrutura necessária para a ligação de computadores, acelerando os
40
processos de inovação nos usos e tratamentos da informação. De acordo com Lévy (1999), não
importa a natureza, um texto, uma imagem, um som... qualquer mensagem ou informação se
puder ser explicitada ou medida, certamente será traduzida pelas tecnologias digitais, sendo
processada, automaticamente, com bastante precisão, alta velocidade e em grande escala
quantitativa.
Contudo, muito mais que a conversão da informação do modo analógico ao digital, “o
nascimento da micro-informática (e da cibercultura) é fruto de movimentos sociais” (LEMOS,
2002, p. 111), caracterizando uma nova lógica em relação a essas tecnologias contemporâneas,
atribuindo-lhes qualidades lúdicas, criativas e enriquecedoras. Esse movimento, resultante de
convergências culturais, pode apresentar novos significados para a produção tecnológica,
divergentes daqueles definidos pela sociedade do consumo que a submetia aos interesses
econômicos dos grupos dominadores, uma vez que os cidadãos conectados podem utilizar as
novas tecnologias para o compartilhamento de emoções, a ampliação do convívio e para as
construções comunitárias. A cibercultura, então, pode ser entendida como uma nova forma de se
pensar e de se construir o mundo, forma esta que admite associação de vários segmentos culturais
e humanitários.
A partir dos novos potenciais interativos, o homem se depara com a possibilidade de
renegar e, portanto, abalar (e, quem sabe romper?) com os princípios deterministas e reguladores
que fundamentam a consciência tecnocrática imposta nos primórdios do mesmo sistema tecnocientífico. É, portanto, o vasto contingente de oportunidades que configura a cibercultura como
uma realidade sócio-técnica e como um movimento social, no qual o homem, inserido nesta nova
ordem, torna-se capaz de, ele mesmo, criar sua própria ambiência e interagir com os mais
longínquos espaços do planeta, dinamizando, ainda mais os processos de globalização.
41
A cibercultura pode estar manifesta ao mesmo tempo e ‘em tempo real’ nos mais distintos
e distantes locais do globo, sugerindo e permitindo ao homem a ampliação dos seus horizontes,
através da reconfiguração e reedição dos espaços e dos modelos políticos, econômicos,
educacionais bem como da produção e circulação de informações, a partir do uso das novas
tecnologias. Essas, por sua vez, não podem ser concebidas apenas como ferramentas
manipuláveis, mas como processos a serem desenvolvidos, podendo confundir (ou fundir) as
categorias de usuários e de criadores.
Segue-se uma relação muito próxima entre os processos sociais de criação e
manipulação de símbolos (a cultura da sociedade) e a capacidade de produzir e
distribuir bens e serviços (as forças produtivas). Pela primeira vez na história, a
mente humana é uma força direta de produção, não apenas um elemento
decisivo no sistema produtivo. (CASTELLS, 1999a, p. 51)
Mitchell (2000) observa que o homem está deixando o estágio de lidar com ícones e
comandos virtuais presentes no desktop, baseados em metáforas icônicas do uso de objetos reais,
para promover a incorporação da lógica digital aos próprios objetos, expressando noções de
interface e ambiente de respostas que podem gerar uma relação simbiótica entre o homem e o
computador. Como exemplo dessas apropriações, tem-se o modelo de pesquisa desenvolvido pelo
Massachusetts Institute of Technology (MIT) sob o nome genérico ‘Things That Think’ – coisas
que pensam. A partir desse modelo, Mitchell (2000) interpreta o software como o elemento
fundamental desse processo de reconfiguração dos espaços e da atuação humana, tornando-se o
pressuposto central da incorporação da lógica da programação aos lugares, objetos e ações do
cotidiano, edificando ações computacionais. Essa conjunção, portanto, de software e hardware
42
nas atividades diárias, estão transformando, adaptando e modificando a dinâmica dos sistemas
culturais.
Ao andar pelas ruas e locais das metrópoles ou mesmo das regiões interioranas, o homem
pode perceber e vivenciar essa conjunção. A tecnologia incorporada através de sensores ópticos,
códigos de barra, leitores de impressões digitais, sistemas de reconhecimento de faces, GPS,
dispositivos acústicos, eletromagnéticos, cartões de acesso, os bancos 24 horas, a telefonia
celular, entre vários outros insumos, sinalizam a convergência do local em uma conjuntura
cibernética, caracterizando a aplicabilidade da teoria da informação, que busca a redução dos
erros e aceleração dos processos, fomentados pela Revolução Digital.
Essa atual estrutura com base em tecnologias programáveis interfere nas relações de
tempo e espaço com a dinâmica das localidades que passam a ter as redes informacionais como
mais um fator condicionante de sua funcionalidade. Assim como as redes de água, esgoto e
eletricidade trouxeram novidades para o cerne social, proporcionando melhorias na infraestrutura urbana e na qualidade de vida nos centros urbanizados, as redes de informação
computacionais estão formatando um novo modo de vida, desenvolvendo a idéia de uma
sociedade eletrônica e digital focada no desenvolvimento do que Mitchell (2000) denomina
‘computers for living in’ – computadores para a vida. Para o autor, de eletrodomésticos às
vestimentas e assessórios pessoais tudo se insere na lógica de que podem se tornar utensílios
capazes de, alguma forma, transportar, transmitir, gerenciar e apresentar dados, transformando e
ampliando, conseqüentemente, as fronteiras das sociedades.
Fomentando o cenário da cibercultura, observam-se eventos e ações sociais como as raves
(festas alucinantes e liberadas), a ciber-moda tribal e presenteísta, repleta de materiais sintéticos,
piercings e tatoos, que proclamam novos padrões estéticos, os cyborgs protéticos e
43
interpretativos, os netcyborgs3, o hipercorpo4, as atitudes cyberpunk5 e a ciberarte (utópica,
futurista e funcional). Estes aspectos apontam para presença e permanência da essência ‘ciber’
como o motor das movimentações do homem contemporâneo. Ainda destacam-se os
cybercafes,(cafeterias eletrônicas que promovem agregação a partir das redes telemáticas) as Lan
Hauses (locais de jogos eletrônicos) e as novas projeções da arquitetura voltadas para adaptar as
tecnologias contemporâneas aos locais além de infinitos modos comportamentais criativos que
repercutem na estrutura dos sistemas sociais, potencializando as suas funções, garantindo as
metamorfoses tecnológicas e, evidentemente, trazendo toda a sua problemática.
A manifestação da cibercultura pode se percebida, inclusive, em expressões lingüísticas
cotidianas. Por exemplo, o verbo ‘unir’ está sendo comumente substituído por ‘lincar’ (derivado
de link). As relações entre grupos, empresas e organizações formam ‘redes organizacionais’
(lembrando as redes telemáticas); estar atento a um fato é atualmente ‘conectar-se’ (como a
internet); aderir a uma causa ou a um grupo passou a ser ‘plugar-se’ (de plug). E, entre várias
outras expressões lingüísticas, a mais popular, indubitavelmente, é o ‘virtual’, geralmente
substituindo o termo imaginário ou algo impossível de acontecer ou algo que só acontece em
pensamento (ainda que contrariando a teoria).
A cibercultura vai, pouco a pouco, redefinindo nossa prática de espaço e do
tempo, particularmente no que se refere ao novo nomadismo tecnológico e às
fronteiras entre o espaço público e o espaço privado. Com os telefones celulares,
os fax, os computadores portáteis, modem e satélites, estamos em casa o tempo
todo. Como disse Barlow num evento multimídia em Amsterdã, ‘minha casa é
meu e-mail’. O espaço privado se imbrica no espaço público e vice-versa, numa
3
Em Lemos (2002) cyborg protéico é uma pessoa, cujo funcionamento fisiológico, é ajudado por aparelhos
eletrônicos. O interpretativo constitui-se pela influência dos meios de comunicação de massa e os netcyborgs, são os
cyborgs interpretativos das redes, libertando-se da sociedade do espetáculo.
4
Para Lévy (1996) o hipercorpo constitui-se a partir do transplante de órgãos, criando uma grande circulação de
órgãos entre os corpos humanos, o que corresponde à virtualização do corpo.
5
De acordo com Lemos (2001) o cyberpunk é um reflexo da cultura contemporânea que se caracteriza por ser um
mistura de estilos, utilizando-se da sátira e de outras formas literárias, como o horror e o fantástico, para, ao mesmo
tempo, negar os fatores agressivos e repressivos e afirmar a luta contra a tecnocracia.
44
verdadeira publicização do privado e de privatização do público. (LEMOS,
2002, p.128)
Conforme Lévy (1996), pode-se dizer que esse conflito espacial corresponde tanto à
desterritorialização quanto ao efeito Moebius (passagem do interior ao exterior e do exterior ao
interior), caracterizando a virtualização do espaço e das ações. O processo de virtualização se
inicia quando as entidades (idéias, pessoas, ações, lugares, grupos culturais...) penetram em uma
atmosfera de mutação da identidade, passando do campo ontológico para um campo
problemático, onde se desprendem de suas bases estruturais, ficando disponíveis para a
coletividade, o que vai implicar, conseqüentemente, nas trocas de identidade e de funções entre
os fatores envolvidos. Nesse momento de trocas, as entidades tornam-se virtuais.
Por uma acepção filosófica, Lévy (1999, p. 49) entende o virtual como “aquilo que existe
apenas em potência e não em ato, o campo de forças e de problemas que tende a resolver-se em
uma atualização. O virtual encontra-se antes da concretização efetiva ou formal”. Portanto, o
processo de virtualização antecipa e põe em discussão os fatos, as ações e as idéias humanas,
possibilitando o surgimento de várias interpretações. E é justamente essa abrangência subversiva
que vai situar a virtualização em um campo problemático.
Assim sendo, através do processo de virtualização, tem-se a redefinição das práticas
cotidianas e, conseqüentemente, alterações nas funções e nas estruturas dos locais. Como
exemplo de estruturas contemporâneas virtualizadas, pode-se apontar a reconfiguração da
residência (privado/interior) em um ambiente de trabalho (público/exterior), fundindo os limites
que separam (ou separavam) o ócio do negócio. Como um outro protótipo, tem-se o surgimento
45
das máquinas inteligentes, que potencializam as relações assíncronas6 (intermediada pela
máquina), permitindo a ampliação das relações face-a-face (síncronas), além de uma série de
outros mecanismos fomentados pela emergência das tecnologias de informação e por sua
permeabilidade em todas as áreas de atuação humana.
Nessa nova conjuntura, as comunidades, instituições, organizações, cidades... têm a
perspectiva de estenderem-se para o ciberespaço, um plano metafísico e insistentemente
problemático que, de acordo com Lévy (1999, p. 92), corresponde a um “espaço de comunicação
aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores”. Ou
ainda pode-se pensá-lo como “um objeto comum, dinâmico, construído, ou pelo menos
alimentado, por todos que o utilizam” (LÉVY, 1996, p. 128), em que estão inclusos os sistemas
de comunicação eletrônicos enquanto transmissores de informações provenientes de fontes
digitais ou destinadas à digitalização.
Conectado às redes, o homem perde a referência espacial e temporal. No ciberespaço, ele
se depara com vários universos, rompendo as barreiras do conhecimento e até mesmo desafiando
a física newtoniana, ocupando, ao mesmo tempo, vários espaços em um só lugar. O homem
mergulha no ambiente digital e se enquadra à virtualidade. O longe tornou-se um lugar que não
existe mais mesmo. As distâncias são superadas e os deslocamentos e as ações ocorrem em um
tempo rápido e sem medidas, projetados em uma Realidade Virtual. O espaço se fragmenta de
acordo com as necessidades humanas. Tudo isso repercute nas estruturas socioeconômicas
nacionais, redefinindo os comportamentos culturais. A característica principal dessa atual
6
Não chega a ser uma novidade absoluta, afinal outras formas comunicativas como telefonemas e cartas nos
habituou em uma comunicação interativa, recíproca, assíncrona e à distância. Contudo, apenas as particularidades
técnicas do ciberespaço permitem que os membros de um grupo humano (que podem ser tantos quantos se quiser) se
coordenem, se cooperem, alimentam e consultam uma memória comum, e isto quase em tempo real, apesar da
distribuição geográfica e da diferença de horários. (LÉVY, 1999, p.49).
46
revolução não é a centralidade de conhecimentos e informações, mas sim, a sua aplicabilidade em
um processo continuum de realimentação cumulativa entre as inovações tecnológicas e seus usos.
Todo esse movimento social permite a incidência da ‘sociedade da velocidade’ e das
ações sinérgicas em que o hibridismo cultural e operacional vai desencadear, muito mais
rapidamente, a convergência de diversas culturas e contraculturas, de diversas manifestações
étnicas, indentitárias, éticas e estéticas, fomentando o tribalismo e diferentes formas de interação
do humano com as tecnologias digitais e, a partir delas, várias experiências coletivas espontâneas.
Constata-se um alastramento cultural tanto para além das fronteiras dos sistemas sociais,
pois as redes são mundializadas, como para os domínios regionais, municipais e domésticos,
possibilitando a conexão entre os mais distantes locais do globo terrestre. Desse modo, entendese que esse sistema digital constitui-se como uma nova forma de ligação entre os espaços,
podendo ser distinguidos os componentes das relações intracidades e intercidades (Mitchell,
2000). Há técnicas e custos diferentes para o desenvolvimento do sistema entre área local, área
metropolitana e redes de longas distâncias. As atuais redes de longas distâncias – ligações de
intercidades – são formadas por interconexão em centros de mudanças com alta capacidade,
cabos de fibra óptica, ligações por microondas ou via satélites. Esses centros de mudança são
Pontos de Presença – POPs – que constituem a base material das relações intracidades e
intercidades.
Os POPs, são, nada mais que, pontos de conexão entre localidades. Qualquer que seja sua
forma – portos, aeroportos ou computadores – são potenciais geradores de atividades
socioeconômicas em suas regiões. Esses pontos, portanto, constituem-se como a infraestrutura
necessária para a efetivação das trocas sociais e econômicas entre os sistemas culturais,
provocando súbitas mudanças em suas dinâmicas. Assim, o sistema de telecomunicações digitais
47
a longa distância tem criado novos tipos de interdependências entre regiões dispersas, exigindo
uma reformulação rápida dos conceitos e valores locais para adaptá-los aos modos globais. Esse
processo contribui para a flexibilização das identificações regionais em complexas ‘identidades
glocais’ como resultado de uma negociação ou de uma familiarização (FEATHERSTONE, 1997)
ou mesmo de um hibridismo entre as expressões culturais do local com as de outras regiões do
globo, evidenciando novas práticas em seus limites geográficos.
À medida em que as culturas tornam-se glocais, os seus elementos identitários vão
tomando cada vez proporções mais complexas, principalmente pensando-se em termos de cultura
de consumo7. Nesse caso, não se pode ignorar ou simplesmente considerar distantes, estranhos ou
exóticos, os novos signos, significados e ícones que provêem de outras culturas, uma vez que
estes passam a compor a nova atmosfera do lugar. Como sugere Featherstone (1997), para poder
entender e se situar nesse novo contexto, pessoas, governantes, organizações, cidades... devem
acostumar-se com a flexibilidade e a capacidade de mudanças de códigos das
práticas e
experiências com que se deparam, afinal, elas constituem as novas identidades culturais, reunindo
aspectos globais e locais. Essas identidades glocais desenvolvem-se através de processos
‘transculturais’ que indicam formas de afirmação, recuperação, invenção ou reinvenções da
identidade.
O transculturalismo é uma condição e um produto das migrações transnacionais,
dos movimentos dos indivíduos, famílias, grupos, coletividades, sempre
envolvendo diferentes etnias e distintos elementos culturais. Ao mesmo tempo
em que se formam bolsões, enclaves ou guetos, também multiplicam-se os
conctatos, intercâmbios, mesclas, hibridações mestiçagens ou transculturações.
Criam-se novos contextos sócio-culturais, outras possibilidades de produção
material e espiritual, contextos esses nos quais multiplicam-se as diversidades,
7
O termo cultura de consumo não apenas assinala a produção e o relevo cada vez maiores dos bens enquanto
mercadoria, mas também o modo pelo qual a maioria das atividades culturais e das práticas significativas passa a ser
mediadas através do consumo (FEATHERSTONE, 1997, p. 109).
48
as desigualdades, as intolerâncias, tensões, xenofobias, etnicismos e racismos.
(IANNI, 1997, p. 202)
Nesse sentido, em todos os níveis e em todas as esferas sociais, os POPs conduzem o
homem ao processo de aceleração das suas perspectivas. Todas as formas de produção social e
econômica, tanto a produção material quanto a espiritual bem como as empatias e antipatias entre
os grupos culturais podem ser inseridas nesse processo da ‘glocalização’ e então ampliarem seus
limites, ou, por uma expectativa mais positivista com relação às antipatias sociais, findarem-se.
É interessante notificar que, ao mesmo tempo em que sistemas culturais alargam suas
fronteiras, tornando-se cosmopolitas, reestruturam-se no âmbito interno criando também novos
horizontes e novas possibilidades em termos de localismo, (re)configurando, desse modo, as
relações intracidades, através da edificação dos Pontos de Presença Digital. Faz-se importante a
especificação POP Digital, para os locais de interação entre homem e tecnologias digitais uma
vez que aeroportos, rodoviárias e portos, por exemplo, são, de fato, Pontos de Presença e não
dependem necessariamente dessas tecnologias para sua funcionabilidade.
Pode-se considerar os POPs Digitais como ‘Digital Places’, termo concebido por Thomas
Horan (2000) para designar os locais onde as pessoas podem interagir com o computador ou
através dele, entrando simultaneamente em sinergia com o espaço físico e o virtual. Contudo a
principal característica desses locais é que podem funcionar como uma ágora cultural, na qual as
pessoas de uma mesma comunidade adquirem mais uma oportunidade de interação, como vem
ocorrendo nos ‘Espaços Internet Aveiro Digital8’ da cidade de Aveiro em Portugal e em centros
nacionais como Porto Alegre/RS nos ‘Telecentros9’ e no projeto intitulado, ‘Porto Digital10’, na
8
www.aveiro-digital.pt
www.portoalegre.re.gov.br
10
www.portodigital.org/instituto/contato.html
9
49
capital pernambucana, e em vários outros empreendimentos privados como os cybercafes e as
Lan Hauses. Esses espaços representam a tentativa do homem em potencializar as suas ações,
fortalecendo os laços comunitários e fomentando as relações intracidades.
Contudo, essa conjunção entre o físico e o virtual deve ser realizada após reflexões sobre
a melhor forma de integrar os objetos eletrônicos aos lugares, preocupando-se com a estética e as
funções do local e principalmente com as necessidades e desejos dos moradores. Essa adaptação,
portanto, deve ocorrer obedecendo às características locais e aos anseios da população, então,
reconfigurando o ‘senso do local ou o fluid locations’, que Horan (2000) entende como uma
superestrutura de auto-identificação do espaço físico através de sua memória, idéias, atitudes,
valores, preferências, significados e concepções. O senso do local é o que permite uma maior
interação entre comunidades vizinhas.
Essa reconfiguração exige uma ambientalização dos aspectos contemporâneos, impostos
pelas tecnologias digitais às características econômicas, sociais, estéticas e éticas locais, de modo
que o novo modelo possa contribuir para o processo de continuidade evolutiva11 das funções do
local, promovendo ao cidadão a melhoria da vida e maior sagacidade referente à sua identidade.
Horan (2000) alerta que para recombinar o design urbano devem ser considerados conhecimentos
os mais diversos como científicos, tecnológicos, políticos, sobre a arquitetura e, principalmente,
sobre as ações locais, agrupando-os na perspectiva de desenvolvimento junto aos digital places.
Esse, portanto, pode ser considerado como um deliberativo e interativo processo interdisciplinar
de reinvenção das bases e das circunstâncias sociais.
11
A continuidade evolutiva que se está cogitando refere-se aos processos materiais da cultura como agilização das
ações e das trocas econômicas, participação política... e não a uma continuidade cultural, que não pode ser
considerada, e ainda que fosse possível estaria condicionada além das metamorfoses tecnológicas, a vários outros
fatores como etnia, ambiente, religião, trocas culturais.
50
Fundamentado por Castells (1999a), pode-se conceber os digital places (e qualquer outro
POP) como ‘espaços de fluxos12’, afinal, proporcionam o processamento da informação, podendo
suprir uma lacuna junto à democratização da informação além de poder potencializar as diversas
atividades econômicas, políticas e sociais de uma localidade. Contudo, esses processamentos,
como informa o mesmo autor, materializam-se e concretizam-se em ‘espaços de lugares13’, o que
delimita a edificação dos pontos de presença às peculiaridades culturais e características físicas e
arquitetônicas do ambiente. Portanto, os POPs digitais são, ao mesmo tempo, espaços de fluxo e
espaços de lugar, sendo que no primeiro caso está-se considerando o processamento das ações e
enquanto ‘espaço de lugar’ cogita-se o local de concretização das ações.
Embora já tenha sido cogitado, é importante evidenciar que a edificação dos POPs deve
estar associada ao compartilhamento das decisões referentes a um local, implicando no cuidado
com os aspectos que compõe a sua ambiência e o torna peculiar. E nessa perspectiva de
‘democratização’, considera-se que a operacionalização através dos digital places, deve
possibilitar maior interatividade entre as pessoas, de modo que possam escolher os destinos do
seu local de moradia e dos locais de seus interesses, à medida em que a influência mútua entre a
organização material, as práticas sociais e as infra-estruturas tecnológicas atenta para a
importância da identidade cultural na reorganização espacial.
12
Para Castells (1999a), o espaço de fluxos refere-se à organização material das práticas sociais de tempo
compartilhado que funcionam por meio de seqüências intencionais, repetitivas, programáveis de intercâmbio e
interação entre posição fisicamente desarticuladas, mantidas por atores sociais nas estruturas econômicas, política e
simbólica da sociedade. A dominação estrutural dessa lógica provoca alterações no significado e na dinâmica dos
lugares.
13
Espaço de lugares fica entendido em Castells (1999a) pela independência das formas, das funções e dos
significados dos locais dentro das fronteiras da contigüidade física, podendo claramente ser identificável tanto na
aparência quanto no conteúdo. Ou seja, os espaços de lugares são locais que apresentam uma atmosfera peculiar
identificada pelo seu fluid locations.
51
Nesse sentido, pode-se estabelecer com Horan (2000) uma diferença entre ‘comunidades
de lugares’ e ‘comunidades de interesses’ para grupos que entram em conexão através do
ciberespaço. As primeiras são formadas por pessoas que habitam uma mesma localidade e as
comunidades de interesses ultrapassam as fronteiras locais, sendo constituídas por pessoas de
locais diversos que compartilham idéias e objetivos semelhantes. Ambas as comunidades podem
contribuir para a dinâmica do local no espaço físico.
Seja comunidade de interesse, seja comunidade de lugar, o fato é que a digitalização das
comunidades amplia suas ações e torna-se ponto de partida para que novas perspectivas sejam
projetadas em seu âmbito. Essa extensão vai então contribuir para a reconstrução do espaço
físico, criando um ambiente social, onde os cidadãos teriam mais oportunidades para se
aprofundar em questões do seu interesse, podendo gerar uma maior inter-relação social e
reformulação dos aspectos culturais.
Essas novas perspectivas estão provocando significativas mudanças na estruturação dos
grupos culturais conectados. As normas começam a ser criadas, pelo Estado e por organizações
internacionais, para regular serviços públicos e universais, as oportunidades de desenvolvimento
tornam-se as mesmas no interior e nos grandes centros, o que não implica em uma dispersão
espacial, mas em uma onda de urbanização generalizada. Com essa infraestrutura digital, torna-se
crescente a distribuição da sofisticação educacional, medicinal e de outros serviços vitais,
podendo, do ponto de vista operacional, gerar o desaparecimento das diferenças entre cidades e
fazendas, regiões centrais e periféricas.
Grupos da chamada contra-cultura e a maioria discriminada podem, através do
ciberespaço da internet, romper com as esferas sociais dos preconceitos e construir formas
organizativas de ação mais dinâmicas, mais velozes e mais abrangentes, divulgando idéias,
52
expressando
os
descontentamentos
cotidianos,
agrupando
e
mobilizando
pessoas
e
transformando, conseqüentemente, as questões localizadas em fenômenos globais. Desse modo,
os grupos podem fomentar um ativismo eletrônico, constituindo redes de movimentos sociais.
A essa organização cívica através do ciberespaço denomina-se ciberativismo, que pode
dinamizar as lutas e os interesses comuns das entidades civis a favor da justiça social. O
ciberativismo amplia as esferas dos movimentos sociais, proporcionando a manifestação dos
interesses e necessidades dos grupos culturais, sem submetê-los às determinações e hierarquias
tradicionais. Nesse sentido, formam-se redes de organismos independentes que favorecem a
intensificação de parcerias e a internacionalização dos propósitos locais, podendo-se cogitar a
formação de grupos mundiais de oposição aos efeitos nefastos da globalização, reunindo forças
para convertê-los em ações em prol dos direitos humanos.
Beyers (2000) notifica que, nesse novo contexto cibercultural, a produção industrial
começa a ser suprida pelo desenvolvimento da Economia de Serviços, que corresponde a
trabalhos de alta qualidade, com ênfase à inovação contínua e a uma busca constante por
flexibilidade, eficiência e responsividade. Negociantes vêm percebendo que começar a competir
em um mercado global (no tempo adequado e falando a língua certa) pode tornar-se mais
interessante que começar no espaço físico em que se encontra.
As ofertas podem ser ordenadas ou redistribuídas eletronicamente, crescendo facilmente e
alcançando mercados consumidores, os mais distantes possíveis. Por outro lado, enquanto as
empresas empurram seus produtos, os usuários atentam para as melhores aquisições. Portanto, ao
mesmo tempo em que as companhias desenvolvem sistemas alternativos de distribuição, estão
ameaçando a estabilidade e a existência de seus concorrentes. Não é surpresa, o conseqüente
53
crescimento de uma competição ainda mais violenta e a perpetuação das acirradas desigualdades
sociais.
Como em qualquer outro sistema de produção, o atual modelo virtual permite a existência
de tecnologias de controle para o fluxo de informações e serviços que formam o ciberespaço.
Aliás, como alerta Mitchell (2000), acreditar que a informação circula livremente no ambiente
digital é um mito, uma utopia, mas preocupar-se com o controle das informações é uma dystopia,
afinal, esses sistemas de controle do ciberespaço têm a mesma força e potência dos portões
físicos, o que alerta para a elaboração de conceitos cada vez mais contundentes sobre esse novo
contexto, uma vez que na sociedade glocal as estruturas de poder desenvolvem-se com
perspectivas globais, atuando como forças decisivas na criação e regulamentação dos processos
que disseminam o novo mapa do mundo. Evidentemente, essas estruturas não prescindem das
configurações nacionais e regionais, muito menos, dos sistemas de integração dos blocos
geopolíticos.
Umas vezes apóiam-se neles, assim como em outras combatem-nos. Isso fica
evidente nas controvérsias sobre como administrar a dívida interna e externa,
como desestatizar ou desregular a economia, reduzir tarifas, acelerar a
integração regional, etc. [...] São estruturas globais de poder, às vezes
contraditórias em suas diretrizes ou práticas, mas sempre pairando além de
soberanias e cidadanias nacionais e regionais. Parecem desterritorializadas, já
que deslocam-se ao acaso das suas dinâmicas próprias, deslocadas de bases
nacionais, do jogo das relações entre estados nacionais. E reterritorializam-se em
outros lugares, principalmente em cidades globais, trasncedendo nações e
nacionalidades, fronteiras e geografias. (IANNI, 1997, p.17)
Nesse sentido, ao considerar que as redes telemáticas são as atuais ferramentas para a
potencialização das relações comerciais, Graham e Marvin (1996) atentam para o fato de que elas
podem contribuir para a centralização do controle global e das funções de gerenciamento nas
mãos de pequenos grupos, manipulando locais em desenvolvimento (cidades ou países) apenas
como operadores e receptores de produtos, e assim, forjam a sociedade do conhecimento, criando
54
a ilusão de que tudo tende a harmonizar-se. Essas redes estão favorecendo a penetração de
regiões periféricas por organizações centralmente localizadas, designando um sistema de troca
inter-regional de bens, de informações e de serviços com desenvolvimentos cada vez mais
específicos para as diferentes localidades. Assim possibilitam o gerenciamento em tempo real das
ações nos grupos sociais, criando regras-chave na constituição do novo espaço social e
fragmentando por pedaços sua utilidade com maior nível personalizado, de acordo com as
diferenças socioeconômicas. Desse modo, constituem-se, ainda mais sutilmente que a consciência
tecnocrática da sociedade industrial, como uma forma de dominação completamente ‘cínica’ e
‘descompromissada’ com os direitos individuais e com a prosperidade coletiva.
Portanto, essa nova conjuntura cibercultural pode ampliar a capacidade, eficiência e
segurança das relações existentes, mas também pode tornar as relações humanas e a
administração pública, em sociedades em desenvolvimento, mais complexas, exigindo estratégias
de gerenciamento muitas vezes não satisfatórias para a maioria da população, como ocorrem, por
exemplo, com as privatizações, em que o governo passa a se eximir das responsabilidades pela
prestação de serviços de infra-estrutura básica. Assim sendo, essas novas infra-estruturas de
telecomunicações devem ser adaptadas aos locais, dando suporte à estabilização dos sistemas de
água, de energia, de transporte e demais necessidades da população, apresentando, aos
operadores, mais uma possibilidade de manutenção da qualidade dos seus serviços e, aos
consumidores, novas oportunidades de realizações cotidianas.
Segundo Graham e Marvin (1996), somente com um estudo detalhado e crítico dos
diversos aspectos que caracterizam a dinâmica de um local pode-se chegar a um entendimento
das interferências das tecnologias em toda a sociedade e, então, criar perspectivas reais de como a
tecnologia pode melhorar, ampliar e potencializar as ações do local. O entendimento da relação
55
entre cidades e telecomunicações deve, contudo, superar o determinismo tecnológico e o
futurismo utópico, com o objetivo de promover a construção social a partir da tecnologia. É
importante que as inovações tecnológicas sejam contextualizadas em ações sociais, identificando
aspectos positivos e negativos, demonstrando que as conseqüências da utilização de tecnologias
digitais na cidade tanto podem ser benéficas quanto maléficas. As telecomunicações podem ser
usadas na exploração e organização de novas áreas, promovendo o esvaziamento de outras,
recriando novos sistemas de uso e controle do espaço. Essa novidade tecnológica pode
perfeitamente ‘tornar-se um pesadelo tão medonho’ fazendo com que os habitantes das regiões
interligadas, principalmente nos locais periféricos, experimentem apenas os sintomas paradoxais
dessa nova ordem higt tech mundial.
Nesse sentido, envolto em uma visão pessimista, Virilio (1993) chama a atenção para o
fato de que o ciberespaço pode transformar os locais de convivialidade em espaços do vazio,
onde as ações humanas podem confundir-se com um sistema de audiência eletrônico, que
poderia causar uma série de interrupções (como ele denomina os fechamentos de empresas, o
desemprego, o trabalho autônomo, as privatizações, etc) e de turbulências capazes de
desorganizar o meio urbano, provocando o declínio e a degradação dos locais. Para o autor, com
a interface da tela, as coisas e os fatos passam a existir enquanto distância, compondo uma nova
representação sem visibilidade face-a-face, podendo fazer desaparecer a ambiência das ruas e
avenidas, daí a razão pela qual ele considera o ciberespaço como um espaço crítico.
A representação da cidade contemporânea, portanto, não é mais determinada pelo cerimonial de abertura das portas, o ritual das procissões,
dos desfiles, a sucessão de ruas e das avenidas; a arquitetura urbana deve, a partir de agora, relacionar-se com a abertura de um ‘espaço-tempo
tecnológico’. O protocolo de acesso da telemática sucede ao do portão. Aos tambores de portas sucedem-se os dos bancos de dados, tambores
que marcam os ritos de passagem de uma cultura técnica que avança mascarada, mascarada pela imaterialidade de seus componentes, de sua
redes, vias e redes diversas cujas tramas não mais se inscrevem no espaço de um tecido construído, mas na seqüência de uma planificação
imperceptível do tempo, na qual a interface homem máquina toma o lugar das fachadas dos imóveis, das superfícies, dos loteamentos...
(VIRILIO, 1993, p.10)
56
Evidentemente, essa perspectiva é um tanto dramática, assemelhando-se muito mais à
literatura de ficção científica ou a um roteiro da teledramaturgia do cinema norte-americano. Não
se pode prever, muito menos determinar, todas as implicações que um invento tecnológico pode
causar em uma sociedade. Não existem tecnologias do bem nem do mal, apenas a organização
social em consonância com a administração pública pode direcionar os destinos e os usos das
tecnologias em uma localidade, podendo impedir determinadas interrupções e turbulências.
Contudo, o posicionamento do autor, aponta para a necessidade de tomadas de decisões
perspicazes junto ao aproveitamento dessas novas tecnologias para que a cidade e os locais de
habitação humana não sejam pensados apenas como espaços de reprodução de ações digitais,
perdendo sua dinamicidade e peculiaridades.
É necessário estar atento aos novos significados que esse mundo digital está impondo e
como eles podem reorganizar o espaço habitado e, então, apropriá-los às diversas propostas do
ser humano. Compreender, portanto, as diferentes perspectivas das organizações culturais e
educacionais do local, as políticas governamentais e as atividades propostas pela comunidade em
uma versão adaptada aos debates do passado é procurar atribuir um novo sentido às interações
resistentes encontradas nas mesmas, forçando, assim, uma redefinição da democracia.
Políticas governamentais fortes com bases locais têm que ser instituídas para garantir que
o sistema digital não reduza a existência humana aos constantes conflitos do ‘ser ou não ser’ e do
‘ter ou não ter’. A continuidade do histórico processo evolutivo tecnológico mostra que, em
todas as mudanças ocorridas nas dinâmicas sociais, os ricos e poderosos sempre foram os
primeiros (e muitas vezes os únicos) a beneficiarem-se com as inovações. Por isso, cada vez
mais, surgem contundentes visões utópicas e/ou pessimistas sobre essa nova conjuntura. Mas é
preciso fazer bem melhor para escapar das ciladas do ingênuo determinismo tecnológico. É
57
preciso desenvolver uma ampla ação orientada para as perspectivas tecnológicas, econômicas,
sociais e políticas reais do que esteja acontecendo na sociedade.
É justamente para se evitar um colapso social que se deve pesar as melhores formas de se
adaptarem as tecnologias aos locais, preocupando-se, logicamente, com as sua funções. Cada área
de atuação exige direcionamentos específicos, assim as técnicas utilizadas devem partir da
necessidade de aprimoramento das ações, possibilitando a compreensão das complexas relações
que as envolvem. Assim, em tais aplicabilidades, devem ser identificadas funções características
do desenrolar técnico (dicotômica, dialética, sinalizadora e dinamizadora), de modo que seu
entendimento promova o aperfeiçoamento da ação, preocupando-se, evidentemente, com as
expressões que compõem a identidade cultural do sistema social em que se está imersa a
atividade.
Por essa perspectiva, no próximo tópico, será apresentada uma abordagem de como o
desenvolvimento tecnológico pode contribuir para o aperfeiçoamento da atividade turística,
preocupando-se com nativos, turistas e profissionais envolvidos no setor. A ênfase do estudo será
dada aos fatores tecnológicos (ou derivados dos usos da tecnologia) que impulsionam a prática da
atividade e aqueles fatores que podem culminar no seu aperfeiçoamento.
58
2.1.3. Desenvolvimento tecnológico, complexidade social e turismo
O gueto, a rua, a fé./Eu vou andando a pé,/ pela cidade bonita./ O toque do
afoxé e a força de onde vem?/ Ninguém explica, ela é bonita.(MERCURY,
Daniela. Canto da cidade. In: Daniela Mercury, disco Elétrica, 1998)
Contemplar as belezas arquitetônicas e naturais da cidade, vivendo a diferença e se
reconhecendo nela ao andar pelos guetos, ruas, festas, museus, igrejas, bares e restaurantes,
desvendando seus mistérios e realizando as mais inusitadas fantasias de consumo e de
convivialidade são fatos que enaltecem pessoas, promovendo evasão, distração e o encontro com
a diversidade, com a alteridade, e com a(s) sua(s) outra(s) face(s). Assim, ao andar pela cidade,
nesse movimento de contemplação dos espaços, muitas vezes, idealizados no imaginário através
dos programas de TV, das páginas de livros e revistas ou das projeções na internet, o homem
pode encontrar-se no outro, sem se preocupar com o tempo, com as ações, com as regras e
mesmo sem se preocupar com os excessos.
Todas essas idiossincrasias, sugeridas pela epígrafe, ocorrem pelo contato do homem
com um mundo, quando ele se permite entrar em um estado de apreciação e admiração do
espaço, ultrapassando, muitas vezes, os próprios limites culturais. Essas ações compõem a
atividade turística, interferindo nas estruturas dos locais onde ela se evidencia, criando
perspectivas as mais diversas possíveis entre nativos e visitantes14, através da potencialização do
contato humano. O turista, por analogia a Benjamin (1989), é o próprio flâneur que, no descanso,
14
Neste trabalho, os termos visitantes e turistas são usados como sinônimos, embora turismólogos e a própria
Organização Mundial de Turismo – OMT, considerem que o visitante só pode ser concebido como turista se
permanecer mais de um dia no local visitado.
59
vaga por espaços que o desvinculem do seu meio social, buscando viver os seus exageros sem
medo, realizando desejos que, por algum motivo, não podem ser experienciados no local de
residência.
Uma embriaguez acomete aquele que longamente vagou sem rumo pelas ruas.
A cada passo, o andar ganha uma potência crescente; sempre menor se torna a
sedução das lojas, dos bistrôs, das mulheres sorridentes e sempre mais
irresistível o magnetismo da próxima esquina, de uma massa de folhas
distantes, de um nome de rua. Então vem a fome. Mas ele não quer saber das
mil e uma maneiras de aplacá-la. Como um animal ascético, ele vagueia através
dos bairros desconhecidos até que, no mais profundo esgotamento, afunda em
seu quarto, que o recebe estranho e frio. (BENJAMIN, 1989, p. 186)
Assim como o flâneur descrito por Benjamin (1989), o turista busca enquadrar-se em
uma determinada ambiência, que lhe proporciona evasão em todos os sentidos e a
experimentação do outro em seu espaço natural, deixando fluir o(s) outro(s) de si em uma
condição de completo contentamento e encantamento. Contudo, enquanto o fâneur benjaminiano
vaga constantemente, sozinho, pelas ruas, como se fosse uma profissão, o turista busca nos locais
que ele elege como seu destino turístico a fuga da sua rotina cotidiana, em um tempo
determinado, no qual ele não somente consome o espaço (de acordo com seu poder econômico),
permitindo-se vivenciar uma variedade de cenas e de situações, como também edifica novas
interações humanas a partir de interesses comuns, por isso diz-se que essa é uma flanerie
burguesa temporária e comunitária.
Essa observância sobre a diversidade de facetas e a flanerie burguesa temporária e
comunitária como delineantes da atividade turística fundamenta-se a partir dos estudos de
Maffesoli (1998) sobre a multiplicidade do eu e a ambiência comunitária; a partir da concepção
de capitalismo desenvolvida por Marx (1982); dos estudos sobre a interferência da técnica no
60
meio social de Leroi-Gourhan (1971) e, principalmente, a partir do surgimento dos estudos
culturais, que, como já sinalizado, vão compreender as classes sociais como grupos culturais.
Enquanto o capitalismo vai segmentar a sociedade por capacidade de consumação,
delimitando-a enquanto classe de pobres e de ricos, os estudos culturais vão compreender as
diferentes perspectivas entre essas classes e, mesmo dentro delas, evidenciando valores, gostos,
modas, costumes, estéticas, éticas políticas e sociais, etnias, crendices peculiares que
particularizam cada grupo enquanto produtor de uma cultura específica. Cada um destes tem
reações próprias aos acontecimentos regionais e mundiais e que por isso não podem ser
compreendidos por uma totalidade de indivíduos, agrupados por montantes financeiros. Contudo,
a condição econômica é também um elemento delimitador de um grupo cultural.
O turismo é uma combinação complexa de inter-relcionamentos entre produção e serviços, em cuja
composição integram-se uma prática social com base cultural, com herança histórica, a um meio
ambiente diverso, cartografia natural, relações sociais de hospitalidades, troca de informações
interculturais. O somatório desta dinâmica sociocultural gera um fenômeno recheado de
objetividade/subjetividade, consumido por milhões de pessoas. (MOESCH, 2000, p..9)
Ao considerar todas essas perspectivas junto ao turismo, está-se situando a atividade em
um campo problemático, uma vez que esses fatores estão sempre em negociação, o que contribui
para o processo de mutação das identidades envolvidas na prática turística (turistas, nativos e
destinos turísticos). Para Moesch (2000), a compreensão dessa problemática implica no
entendimento de uma nova cultura, que extrapola o determinismo capitalista sobre o turismo.
Segundo a autora, esta nova cultura consiste em uma pressão crescente sobre a produção da
subjetividade social, promovendo um contínuo fluxo de ressignificações da realidade derivadas
da relação entre visitados e visitantes. Afinal, o turismo, deve-se ressaltar, caracteriza-se
61
basicamente como uma atividade de trocas, sejam elas econômicas, sejam elas sociais, cujos
efeitos e resultados só se observam após as temporadas turísticas – após as altas estações.
Assim, ao caracterizar-se como um processo de trocas contínuas, Lévy (1996) aponta
que o turismo é a mais virtual de todas as atividades econômicas, exigindo o entrelaçamento de
vários setores da atuação humana como a comunicação, a administração, a sociologia, a
economia, as medidas políticas, os meios de transportes e demais áreas das quais estão
dependentes a organização e o bom desempenho do setor.
O principal setor mundial em volume de negócios, lembremos, é o turismo. Viagens, hotéis,
restaurantes. A humanidade jamais dedicou tantos recursos a não estar presente, a comer, a dormir,
viver fora de sua casa, a se afastar de seu domicílio. Se acrescentarmos ao volume dos negócios do
turismo propriamente dito o das indústrias que fabricam veículos (carros, caminhões, trens, metrôs,
barcos, aviões etc.), carburantes para os veículos e infraestruturas (estradas, earoportos...), chegaremos
acerca de metade da atividade econômica mundial a serviço do transporte. O comércio e a distribuição
por sua vez fazem viajar signos e coisas. Os meios de comunicação eletrônicos e digitais não
substituem o transporte físico, muito pelo contrário: comunicação e transporte, como já sublinhamos,
fazem parte da mesma onda de virtualização geral. (LÉVY, 1996, p.51)
Portanto, ao situa-lo em um campo problemático e por evolver o deslocamento em busca
de peculiaridades e preferências culturais bem como alterações nas identidades dos destinos e das
pessoas envolvidas, o turismo pode ser entendido como uma atividade cultural da
desterritorialização e da virtualização, que se prolifera, entre outros fatores, a partir do
desenvolvimento tecnológico. Portanto, considerando com o autor da citação acima, que o meio
humano é também um meio técnico.,deve-se ressaltar toda a problemática social decorrente dos
usos da tecnologia não somente nos centros receptivos – destinos turísticos – mas também nos
centros emissivos – local de origem do turista.
62
Desse modo, os motivos que fomentam os locais como destinos turísticos e caracterizam
a sua identidade não estão centrados apenas nas suas peculiaridades culturais, mas também nas
características e exigências do grupo cultural a que pertence o turista – ‘grupos culturais
emissivos’. Considerando-se, inclusive, que as tentativas de satisfazer os desejos do visitante
interferem na organização dos destinos turísticos, contribuindo para as suas hibridizações
culturais e, conseqüentemente, para as alterações em sua identidade e em suas manifestações
socioeconômicas.
Assim, notificando que a invenção e utilização de tecnologias contribuem para o
reconhecimento, delimitação, dinamização e trocas das identidades culturais, é evidente a estreita
relação entre atividade turística, uma atividade social e econômica, e o desenvolvimento
tecnológico, relação esta que se constitui como uma ferramenta importante para se entender a
emergência e o incremento da atividade e suas adjetivações. Contudo, para se chegar a esse
entendimento da relação entre tecnologia e turismo, deve-se considerar a interferência da
tecnologia na dinâmica dos centros emissivos, já que se observa que a identidade dos destinos
turísticos está também atrelada ao local de residência do turista.
Para Benjamin (1989), as inovações tecnológicas obrigam as pessoas a se acostumarem
rapidamente com as mudanças sociais e com o novo ritmo das cidades em que convivem. Citando
Simmel, ele observa que o desenvolvimento dos meios de transportes coletivos, por exemplo,
trouxe para os habitantes dos centros urbanizados a situação nada acolhedora de terem que se
olhar reciprocamente por uma período de tempo sem se comunicarem. À luz do capitalismo, o
autor assinala que essa condição justifica-se pelo fato de as interações humanas nesses centros
tecnologicamente desenvolvidos estarem, em geral, determinadas por relações que instituem os
cidadãos, geralmente, como devedores e credores, vendedores e fregueses, patrões e empregados
e demais tipos individualizados que delimitam a vida em períodos abstrativos e racionais.
63
Ainda, analisando os escritos do poeta Balzac, em Modeste Migno, quando relata suas
impressões sobre determinadas ações e aspectos que compunham a cidade de Paris, na França,
Benjamin (1989), atenta para o fato de que o desenvolvimento tecnológico permite o controle e a
padronização da vida social, correspondendo ao que Habermas (1968), entendeu como o
‘exercício de controles’. Para o ficcionista, os locais de estacionamento, que registram os
momentos de chegada e de partida dos cidadãos, e a numeração dos imóveis, estabelecida por
cadastramento público, favorecem ao domínio da sociedade, constituindo-se como referências
adequadas para avaliar o ‘progresso’ da normalização.
Pode-se conceber, a partir das notificações de Benjamin (1989) e dos estudos de
Maffesoli (1998), que a padronização das ações e o surgimento das relações racionalizadas são
conseqüências do desenvolvimento tecnológico que podem provocar nas pessoas o desejo de
deslocar-se para locais, onde possam fugir da linearidade operacional e das normalizações
características dos centros urbanos, à medida em que são implementadas e absorvidas novas
técnicas de ação. Assim, nos períodos de descanso, surge como uma possibilidade de fuga da
rotina, o deslocamento para onde o homem ‘tecnicizado’ pode, espontaneamente, compartilhar as
emoções com aqueles que têm as mesmas necessidades de interação, já que, geralmente, estas
não podem ser experienciadas cotidianamente, por conseqüência da dinâmica do local em que
vivem. Por essa perspectiva, pode-se dizer que estar em outro local que não o seu de residência,
já é em si, uma forma de vivenciar a alteridade.
As padronizações e individualizações da sociedade tecnocrática restringem as relações
sociais ao processo de sociabilidade, que corresponde à institucionalização das interações
humanas segundo a visão de Maffesoli (1998). Em contrapartida, o autor define as relações
fundamentalmente empáticas que ocorrem por meio dos interesses comuns como relações de
socialidade. Nesse contexto, considerando que o turismo possibilita a fuga das normalizações
64
impostas pelo cotidiano racional e individualizado, aponta-se que
esta corresponde a uma
atividade de agregação social para indivíduos de um mesmo grupo cultural, o que vai caracterizar
a atividade como sendo eminentemente empática, colocando-a no âmbito da socialidade. E é a
partir das especificidades dos grupos culturais que surgem as segmentações turísticas,
constituindo o que se poderia chamar ‘comunidades turísticas’, cujo reconhecimento e
entendimento favorece à melhor organização e planejamento do setor.
Leroi-Gourhan (1971) evidencia dois tipos de fenômenos que contribuem para a
compreensão desta perspectiva em que se está correlacionando turismo e desenvolvimento
tecnológico. Os fenômenos de tendência, intrínsecos à natureza do desenvolvimento dos
processos tecnológicos, e os fenômenos de fato que estão associados ao meio em que ocorrem.
Para o autor, esses fenômenos são complementares, correspondendo a duas faces de uma
determinada ação, sendo o primeiro previsível e universal e o segundo condicionado a intenções e
a aspectos locais.
A essa concepção, acrescenta-se o posicionamento de Carvalho (1996, p.102), ao
apontar que “a realização das dimensões da essência humana é possibilitada, entre outras coisas,
pelos artefatos criados pelo trabalho humano, do homem para o homem, numa escala de tempo
cada vez mais historicizada”. A observância dessas realizações humanas permite, então, o
reconhecimento e a identificação daquilo que se evidencia como fenômeno de tendência e das
ações que surgem como fenômenos de fato. Para Leroi-Gourhan (1971), a tendência implica nos
resultados, considerando-se desde a invenção até a utilização dos aparatos. Essa implicação
corresponde a um movimento contínuo que pode estar sempre gerando um novo fato, provocando
mudanças peculiares na dinâmica dos locais, contribuindo para os hibridismos culturais e para as
mutações da identidade das entidades envolvidas no processo.
65
Como aponta Lévy (1999, p.23), “as técnicas carregam consigo projetos, esquemas
imaginários, implicações sociais e culturais bastante variados. Sua presença e uso em lugar e
época determinados cristalizam relações de força sempre diferentes entre seres humanos”. Desse
modo, compreende-se que o desenvolvimento tecnológico provoca diferentes ações e efeitos em
diferentes localidades e em diferentes grupos culturais, estando essas ações e efeitos dependentes
de aspectos históricos e das estruturas e relações socioeconômicas. Essas diferentes relações entre
técnica e lugar caracterizam a ambivalência ou a multiplicidade cultural que surge a partir dos
usos da tecnologia, podendo ser estes tratados como fenômeno de tendência ou como fenômeno
de fato.
Por este princípio, justifica-se que a relação entre turismo e desenvolvimento
tecnológico inicia-se a partir dos usos da tecnologia nos centros emissivos e completa-se na sua
utilização pelos centros receptivos. Ou seja, do ponto de vista sócio-técnico desenvolvido neste
trabalho, aponta-se que o turismo, emerge como uma atividade impulsionada pelo
desenvolvimento tecnológico, enquanto este a potencializa continuamente. Assim consideras-se
com Moesch (2000) que no turismo há um elemento dinâmico que é a viagem, e um elemento
estático que é a estada.
De acordo com a autora, viagem e estada ocorrem fora do lugar de residência da turista
e, a partir delas, este pratica ações diferenciadas do seu cotidiano, o que delimita o turismo como
um movimento particular temporário. A viagem, portanto, explica Moesch (2002), envolve uma
multiplicidade de ações institucionais e empresariais, de partida e de retorno e de diversos
encontros e trocas culturais, e que por isso mesmo esta situação se estende ao próprio turismo, o
setor da atividade.
Nesse sentido, ao envolver deslocamento, estada, trocas culturais e
econômicas, evidencia-se o uso de tecnologias, as técnicas lógicas de ação, junto à atividade,
apontando que estas interferem nas relações sociais dos moradores da cidade turística.
66
Portanto, quando considerada a relação ‘centro emissivo/tecnologia’, o turismo
comporta-se como fenômeno de fato, que vai gerar outro(s) fato(s), afinal a cidade turística tem
sua dinâmica própria e suas problemáticas cotidianas. Por outro lado, quando considerada a
relação ‘destino turístico/tecnologia’, observa-se não apenas estruturas potencializadas pela
técnica, mas também uma nova complexidade social15. Nesse caso, a tecnologia aplicada ao
turismo comporta-se como fenômeno de tendência (Ver diagrama que se segue).
Centro Emissivo
Complexidade Social
F. de Fato
F. de Tendência
Desen. Tecnológico
Centro Receptivo
Turismo
Poten. do Turismo
F. de Fato
Complexidade Social
O diagrama explica o contínuo movimento social causado pela inserção de tecnologias
nos locais, considerando suas peculiaridades culturais. Esse diagrama, contudo, representa uma
única perspectiva (e não uma realidade), entre tecnologia, complexidade social e turismo. Desse
modo, o indicador complexidade social, por exemplo, como fenômeno de fato nos centros
receptivos pode ser alterada por uma outra variável, como a agilização dos processos
comunicacionais, que, por hora não faz parte do estudo desenvolvido. Por outro lado, o diagrama
15
Entende-se complexidade social não somente como estruturas desorganizadas ou mal planejadas, mas como o
total de relações que compõem a dinâmica do local.
67
pode ratificar a idéia já apresentada de que não tecnologias benéficas nem maléficas, mas sim o
modo (e as intenções) de sua utilização pode determinar o seu fim.
É necessário insistir, de acordo com Maffesoli (2004, p.37) “que a vida não pode ser
reduzida à utilidade”, afinal existem aspectos contidos nos fenômenos sociais (intrínsecos ou não)
que os relativizam e põem em questionamento as práticas humanas, o que equivale a dizer da
própria problematização ou virtualização das atividades em que sentidos e valores estejam em
jogo. Por isso, acredita-se que o turismo, que se comporta, ora como fenômeno de tendência, e
ora como fenômeno de fato, está estreitamente atrelado a processos tecnológicos. Nesse sentido,
é oportuno salientar que as tentativas de entender o turismo devem buscar a inteireza de sua
complexidade sem rejeitar determinados aspectos (muitas vezes malditos) que também o
compõem enquanto atividade cultural.
Essa relação entre tendência e fato pode bem ser percebida através da história do
desenvolvimento tecnológico. A invenção da roda e a abertura de estradas que permitiram o
desenvolvimento dos meios de transportes terrestres assim como os meios que permitiram as
grandes navegações marítimas possibilitaram maior agilidade nos deslocamentos, ampliando os
horizontes do homem, permitindo-lhe conhecer novas culturas. Entretanto, esses veículos, a
princípio, foram construídos por motivos de guerras e conquistas, comércio, peregrinações
religiosas, saúde ou por razões políticas e de estudos, não sendo cogitada a idéia de serem
utilizados para fins outros, embora tenham possibilitado práticas com objetivos que hoje se
entendem por turísticas.
As estradas construídas por soldados com o objetivo de conquista durante o Império
Romano vieram, em conseguinte, permitir a intensificação das viagens de lazer e comércio a
praias e a spas, identificadas através das pinturas em azulejos, placas, vasos e mapas. Com as
peregrinações religiosas, surgem os primeiros serviços de atendimento aos viajantes, quando é
68
criada a Irmandade dos Trocadores de Moedas para atender à diversidade de moedas circulantes,
representando, assim, os primeiros cambistas. As navegações deram impulso às viagens de longo
curso, estimulando uma prática que mais tarde determinou-se como ‘turismo moderno’, como
denomina Oliveira (2000). Com as navegações, as escolas organizavam viagens para os
estudantes com o objetivo de aumentar os conhecimentos de seus alunos. Os professores eram
obrigados a escrever livros que traduziam os costumes e hábitos dos locais visitados,
constituindo-se, deste modo, como os primeiros guias turísticos.
A concepção de turismo enquanto atividade cultural surge a partir das mudanças
tecnológicas, econômicas e sociais decorrentes das Revoluções Industriais. O aparecimento da
indústria incrementou as relações sócio-econômicas internacionais, favorecendo a abertura do
mundo ao cosmopolitismo. Embora a industrialização tenha ampliado e tornado mais acirrados os
conflitos sociais, deve-se considerar que o surgimento da classe média, com salários definidos, o
aumento dos ganhos pelos grupos dominantes e o surgimento das indústrias de entretenimento
deram um impulso às viagens, possibilitando que cidades se preparassem para receber e acolher
pessoas, tornado-se centros receptivos, onde a qualidade de vida melhorava consideravelmente,
pelo surgimento da eletricidade e das redes de água e de esgoto.
Contudo é no final do século XIX, que os sentidos das viagens não mais se limitavam
àqueles genuinamente econômicos e de domínio, entrando em uma esfera do conhecimento e da
busca por diversão e evasão. A viagem tornou-se um meio de as pessoas penetrarem nas
particularidades culturais das sociedades distantes e de se envolverem com as tradições, com o
exotismo e com os novos modos de vida que passavam a conhecer, na tentativa de fuga do seu
cotidiano. O turismo despontava como uma nova possibilidade de vida, seja para quem procurava
por destinos turísticos, em fuga da sua rotina ou ostentando seu poder econômico, seja para quem
recebia nesses centros, que vislumbrava novas possibilidades de aumentar seus ganhos e
69
reestruturar a vida. Nesse cenário, são proliferadas as empresas hoteleiras, os restaurantes, as
indústrias de entretenimento, as agências de viagens e demais prestadores de serviços.
A multiplicação das trocas e o desenvolvimento das tecnologias de produção, de
transportes e de comunicação, as melhorias na infra-estrutura urbana bem como o progresso
técnico-científico tornaram-se fatores preponderantes para o incremento da atividade e o seu
enquadramento junto à dinâmica dos locais. Contudo, faz-se oportuno salientar, que além de ser
estimulado pelo desenvolvimento técnico, que cada vez mais amplia as trocas econômicas e
informacionais, também devem ser considerados como estimulantes da prática turística os limites
culturais atribuídos aos locais pelas produções literárias, pela imprensa e, principalmente, pelos
meios de comunicação de massa que surgem no século XX.
Retomando e correlacionando as teorias de Leroi-Gouhran (1971) e de Maffesoli (1998),
pode-se dizer que a abertura de estradas, as peregrinações, as navegações e as revoluções
industriais correspondem a fenômenos de tendências uma vez que as ações sociais, econômicas e
políticas delas decorrentes são possivelmente previsíveis, por estarem submetidas ao controle dos
grupos dominantes. Esses fenômenos contribuem para que se estabeleça uma maior delimitação e
padronização das perspectivas sociais ou mesmo uma consciência tecnocrática junto aos grupos
culturais por onde se alastram. É, nesse sentido, que se observam que os fenômenos de tendência
são delimitados por regras e normas que os institucionalizam e põem as relações humanas no
âmbito da sociabilidade, condicionando as práticas cotidianas às transformações tecnológicas, o
que contribui para que o homem busque espaços outros para a fuga da sua rotina, o que, muitas
vezes, culmina na atividade turística.
Por essa perspectiva, ratifica-se que a atividade turística é resultante de uma série de
fatores impulsionados pelo desenvolvimento tecnológico, que levam o homem a buscar
novidades e saciar seus desejos. Assim, qualquer que seja o motivo que estimule o deslocamento
70
(a busca por conhecimento, convivialidade, lazer ou erotismo), este está vinculado ao modo como
os grupos culturais em que vive o turista usam e compreendem as invenções e inovações técnicas.
Desse modo, as viagens a lazer, decorrentes da abertura de estradas, o surgimento de
serviços de atendimento aos viajantes, a própria denominação ‘turismo moderno’ correspondem a
fenômenos de fato, afinal são todas ações potencializadas a partir do desenvolvimento
tecnológico que, de modo geral, não estão vinculadas à lógica da institucionalização. Ainda,
pode-se incluir nesse contexto, o reconhecimento e a delimitação de cidades como centros
receptivos, o surgimento das empresas prestadoras de serviços turísticos bem como as várias
segmentações da atividade. Justamente por constituírem-se como fenômenos de fato, justificamse as dificuldades em se estabelecer controles e delimitações nos ambientes turísticos, que têm
suas problemáticas peculiares.
Considerando as interações dos turistas com aqueles que participam do seu grupo
cultural, com os nativos e com o ambiente como relações espontâneas, e considerando os
segmentos turísticos como constituintes de ‘comunidades turísticas’, situa-se a atividade no
âmbito da socialidade, embora, não estando totalmente livre das regulamentações políticas, das
imposições sociais, muito menos, das restrições econômicas, afinal, a tecnologia aplicada aos
centros receptivos constitui-se também como um fator capaz de delimitar a racionalização e a
individualização das relações humanas que se evidenciam nesses locais, principalmente,
considerando possíveis divergências de interesses entre moradores, empresários, e políticos.
Essa relação de tendência e fato entre desenvolvimento tecnológico e turismo torna-se
mais evidente com a emergência da cibercultura. Com as novas práticas sociais, possibilitadas
pelo desenvolvimento das Tecnologias de Informação e de Comunicação – TICs –, redefinem-se
as perspectivas junto ao desenvolvimento do setor turístico, nas quais se observam novas
circunstâncias sociais, em que se proliferam os fenômenos de tendência e de fato.
71
A cibercultura está potencializando as atividades desenvolvidas nos locais, criando
novas perspectivas para os seres conectados (e privilegiados) e mais obstáculos para os
desatualizados (geralmente os menos favorecidos). As rápidas conexões, a proliferação da
economia de serviços, ressaltando os serviços on-line, as maiores possibilidades de informação e
as flexibilidades do trabalho redimensionam a dinâmica dos locais e põem o homem em um
estado constante de negociação com a vida e com a sua sociedade. Ainda deve-se considerar a
desterritorialização dos locais, das empresas e dos grupos culturais que, projetados no
ciberespaço, cada vez mais têm seus limites ampliados (ou perdidos).
Contudo, ao mesmo tempo em que os grupos economicamente privilegiados vislumbram
novas possibilidades de interação e de conhecimento, os grupos menos favorecidos
economicamente continuam submissos às formas de controle, que só ampliam as divergências
sociais, entremeando de desigualdade e exclusão social todo o mundo. A vida na maioria dos
centros tomados pela cibernética torna-se mais veloz e cada vez mais segmentada. A tendência da
digitalização, da robótica e demais mecanismos da inteligência artificial é, sem dúvida, a
padronização das ações o que favorece o exercício dos controles e com ele as determinações e
imposições sociais na sociedade da informação.
[...] os termos desigualdade, polarização, pobreza, e miséria se enquadram no
domínio das relações de distribuição/consumo ou apropriação diferencial da
riqueza gerada pelo esforço coletivo. De outro lado, individualização do
trabalho, superexploração dos trabalhadores, exclusão social e integração
perversa são características de quatro processos específicos vis-a-vis as relações
de produção (CASTELLS, 1999c, p.95).
Estes termos estão condicionando a Era da Informação a perplexidades que sujeitam os
cidadãos contemporâneos às manipulações ideológicas por falta de clareza analítica nas
72
informações que circulam ‘livremente’. Por desigualdade, entende-se a apropriação desigual de
riqueza entre indivíduos de grupos culturais distintos; polarização é o processo em que o topo e a
base da escala de distribuição de renda e riqueza crescem mais velozmente que a faixa
intermediária, o que acentua as divergências sociais. A pobreza caracteriza os grupos que
sobrevivem com a renda mínima, considerada em uma sociedade, e miseráveis são aqueles que
estão abaixo da pobreza.
Com relação aos processos que caracterizam as relações de produção, Castells (1999c)
observa que a instabilidade nos padrões de emprego representa a tendência de se excluir
continuamente determinados segmentos da população dos mercados de trabalho formais. Assim,
ele entende individualização do trabalho como a forma desregulamentada de contratação,
ficando esta a critério da contribuição e condição do trabalhador no processo produtivo.
Superexploração indica as relações trabalhistas que submetem determinados tipos de
trabalhadores a condições piores do que as normas/regras que regem um dado mercado de
trabalho, em tempos e espaços determinados. Por exclusão social, entende-se o processo em que
grupos de indivíduos encontram-se impossibilitados de desenvolverem uma posição autônoma
dentro dos padrões sociais que compunham um dado contexto. E a integração perversa a que se
refere o autor, corresponde às formas de trabalho praticadas na economia do crime, ou seja, por
atividades geradoras de renda, que estão sujeitas às sanções legais cabíveis em um certo contexto
social, como o tráfico de drogas e a prostituição infantil.
Portanto, esse cenário segmentado também compõe a ambiência em que se propaga a
cibercultura que, enquanto acelera o ritmo de vida dos seres conectados, vai configurando
sucessivamente as relações sociais (considerando a relação entre pessoas de grupos culturais
economicamente privilegiados e aqueles desprivilegiados) como racionais e individuais. Assim, a
socialização em centros ciberneticamente desenvolvidos torna-se cada vez mais difícil, não
73
somente para quem vem sofrendo as conseqüências malditas do desenvolvimento tecnológico,
mas para toda a sociedade que se preocupa a todo o momento com a violência urbana, decorrente,
em grande parte, das diferenças sociais. As interações humanas ficam, continuamente, mais
críticas, mais embaraçosas e mais difíceis de se amenizarem. Cada vez mais ‘tecnicizado’, o
cidadão entra em um constante processo de solidão e de sociabilização, relacionando-se apenas o
necessário, ou quase nada, com as pessoas de sua cidade.
Contudo, as TICs têm permitido ao homem conectado criar formas alternativas de vida e
de trabalho, montando seus negócios e fixando residência em locais menos conturbados, sem
perder o contato com o mundo, caracterizando a Nova Economia. De acordo com Beyers (2000),
em seu estudo sobre o desenvolvimento da Nova Economia ou a Economia de Serviços, entre os
anos 1985 e 1992, produtores norte-americanos migraram para os pequenos centros em busca de
melhores condições de vida. Nesse período, as áreas de maior crescimento da Nova Economia,
nos Estados Unidos, foram as cidades de Las Vegas, Seattle, Atlanta, Orlando e St. Petsburg,
enquanto grandes centros – Los Angeles, Chicago e New York – tiveram baixo crescimento ou
perda da oferta de empregos.
Além da produção de mercadorias, a geração de informações orientadas também
movimenta essa nova economia. O pesquisador indica que empresas podem atuar exclusivamente
na resolução de questões intelectuais. As empresas de consultorias, os diversos campos de uso
dos softwares e o agenciamento de atividades turísticas on-line são algumas indicações ou nichos
de especializações que exemplificam a prestação de serviços sem envolver, necessariamente, a
circulação e produção de mercadorias. De acordo com a reportagem ‘A explosão da realidade
virtual’ na revista científica Galileu (Globo, Nº 158, p. 63, 2004), desde a prospecção e extração
de petróleo até os tratamentos médicos, passando pelo desenvolvimento de carros e visitações a
museus e destinos turísticos sem o deslocamento físico, há uma série de novas aplicações e
74
utilizações do virtual, proporcionadas pelo desenvolvimento das tecnologias de informação e de
comunicação.
Tais usos desterritorializam mais e mais o mercado consumidor das empresas inseridas
nessa nova economia. Assim, quanto ao modelo geográfico da localização de mercados, Beyers
(2000) identifica dois grupos. Um com forte poder econômico que atua em mercados
descentralizados os ‘Lone Eagles’, cuja metáfora da tradução literal ‘Águias Solitárias’ permite
contextualizar melhor as dimensões territoriais alcançadas e as potencialidades econômicas das
empresas dessa categoria. O outro grupo os ‘High Fliers’ é constituído por empresas que atuam
com maior força no mercado local e geralmente entram no mercado com poucos funcionários,
mas apresentam uma ‘Alta Inclinação’ a atuar em mercados externos. Nos sete anos delimitados
para a pesquisa, a maioria dos empregos gerados nos Estados Unidos estava associada a essas
novas empresas.
Esses empreendedores, porém, são pessoas ou grupos que buscam sua independência
com o objetivo de montar seu próprio negócio, correndo os riscos e oportunidades de qualquer
um outro, fugindo da problemática social dos grandes centros. Assim, as razões que culminam na
escolha do local de estabelecimento são a busca por melhor qualidade de vida e a procura por
novas possibilidades de negócios, o prestígio do local, a existência de prestadoras de serviços, o
nível educacional da população e por fim são avaliados os custos de vida, os impostos locais, a
existência de empresas fornecedoras e o custo com a mão-de-obra.
Essa flexibilidade da localização, inerente à Nova Economia, possibilita um
descongestionamento das grandes cidades, ao passo que promove a reestruturação de pequenos
centros e/ou áreas rurais. Contudo, o pesquisador relata uma mudança na administração das
empresas e não em sua lógica estrutural. A lógica continua sendo capitalista. De acordo com os
resultados da pesquisa, dependendo da disponibilidade de recursos e do conhecimento do
75
cidadão, este obtém mais facilidades em desenvolver seu próprio negócio, o que não garante mais
justiça social. Essa nova conjuntura socioeconômica pode ser constatada em centros turísticos
brasileiros.
Mesmo reconhecendo as novas possibilidades de emprego, não se evidencia uma
preocupação com a população desses ‘pequenos centros reestruturados’, o que vem ocorrendo
em muitas cidades turísticas, caracterizando a principal problemática social desses locais: o
conflito constante entre os ricos grupos prestadores de serviço e falta de oportunidades para a
população local. Esses ricos grupos prestadores de serviços turísticos montam suas empresas em
destinos bastante procurados, nas quais a população local, na maioria das vezes, constitui-se
como mão-de-obra barata ou tem seus pequenos negócios prejudicados com a concorrência
desleal, afinal, além de oferecerem geralmente melhores serviços, utilizando-se de insumos
técnicos mais adequados e que proporcionam maior conforto, através do ciberespaço da internet,
essas ricas empresas saem na frente da concorrência, mostrando e oferecendo seus serviços
diretamente na casa do consumidor (em qualquer lugar do mundo) muito antes que este chegue
aos locais.
Assim, em centros receptivos, como será demonstrado no próximo tópico deste capítulo,
pode-se observar os processos de individualização do trabalho, superexploração dos
trabalhadores, exclusão social e integração perversa, além das espetacularizações sobre as
expressões regionais do local como fatos que se contrapõem aos benefícios proporcionados pela
cibercultura. Portanto, ao mesmo tempo em que o desenvolvimento tecnológico estimula a
atividade turística e a estrutura, pode tornar-se um fator de determinações e imposições sociais
nos centros receptivos, corroborando para que as relações humanas nesses locais não estejam
totalmente livres das normalizações advindas dos usos da tecnologia.
76
De acordo com Graham e Marvin (2000), acredita-se que essa problemática é
conseqüência da falta de políticas públicas e de planejamento, da ausência de debates populares e
acadêmicos sobre os assuntos que envolvem a integração das tecnologias e, principalmente das
telecomunicações com a cidade, enfatizando que mesmo quando ocorrem, geralmente são
conduzidos pelo determinismo tecnológico, não sendo levados em conta as peculiaridades
culturais das localidades. Para os autores, esses debates devem analisar o contexto local e a
intervenção das tecnologias de comunicação como fator de interdependência entre cidades,
transportes e relações humanas ou sociais. Ainda, os autores sugerem que as políticas
internacionais (e acrescentam-se as interestaduais e as intermunicipais) devam corroborar para a
articulação entre a forma construída e o desenvolvimento sócio-econômico das cidades bem
como devem sugerir caminhos para a integração criativa das telecomunicações nas políticas e
estratégias urbanas locais.
Nesse sentido, sinaliza-se que a projeção das cidades no ciberespaço constituindo
Cidades Virtuais, pode tornar-se um fator de maior organização do espaço físico através da
disponibilização de informações e da possibilidade da execução de ações que podem promover
mudanças que contribuam para a melhor estruturação das localidades, usando ferramentas da
internet como chats, fóruns e e-mails. Assim, links que promovam transparência administrativa e
a divulgação e o fortalecimento da cultura local, chats e fóruns que estimulem a participação da
população nas decisões referentes aos destinos do patrimônio municipal e que estimulem a
criação de laços comunitários (que podem ampliar a luta contra a exclusão social) são fatores que
podem contribuir para a resolução dos problemas sociais que se proliferam nas localidades
turísticas, a partir das diferentes perspectivas de empresários e de moradores locais e das
diferentes formas como estes percebem e vivenciam os usos das tecnologias. Nesse sentido, deve
77
acrescentar a necessidade de se promover a democratização do acesso à informação e a
programas alternativos de educação.
Através da internet pode-se também propor que membros das comunidades turísticas
possam melhor interagir entre si, antecipando as relações de socialidade através das salas de patepapo com temáticas específicas, o que pode evitar, no espaço offline, determinadas intolerâncias
sociais, como discriminações e preconceitos. Por outro lado, turistas podem conhecer melhor e
mais detalhadamente os aspectos socioeconômicos e naturais dos destinos que promovam
atividades de sua preferência, através da simulação de um passeio virtual pelo local.
A reportagem da revista Galileu (Nº 158, p.63, 2004) evidencia que uma experiência de
simulação da cidade vem sendo realizada pelo Laboratório de Realidade Virtual, o primeiro da
América Latina, localizado na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). A
Caverna Digital, como é denominado o laboratório, é um ambiente de realidade virtual que exibe
simulações tridimensionais feitas em computador, em tamanho próximo ao natural. A pedido de
uma agência de turismo, foi produzido pela Caverna um software que simula um passeio virtual
pela cidade do Rio de Janeiro. A idéia do projeto, é que em vez de olharem apenas fotografias, o
turista, munido de óculos especiais, faça uma viagem pelas praias e pontos turísticos da cidade, o
que aumenta a vontade de experimentação do local, evitando possíveis decepções.
Contudo, as perspectivas de se utilizar as TICs como fator de potencialização da
atividade turística e de se amenizarem os problemas sociais que contextualizam o cotidiano da
população dos centros receptivos, sugere a necessidade de estudos direcionados e amplos sobre a
interferência das inovações tecnológicas nesses destinos e nas ações turísticas, de modo que
possa ser gerada uma compreensão melhor e mais detalhada dos aspectos culturais das sociedades
que permitam o entendimento do homem local e do seu meio, identificando as potencialidades
turísticas, como forma de se promover a melhoria na sua condição de vida. É preciso que se
78
busque a edificação de estruturas operacionais que permitam aos cidadãos participarem com
consciência e em pé de igualdade dos processos contemporâneos das mudanças sociais que
constituem a cibercultura.
Assim, no próximo capítulo, será edificado um estudo de como o desenvolvimento
tecnológico, enfatizando os processos comunicacionais e a edificação de vias de acesso ao local,
contribui para a organização da atividade turística, tendo como referencial o município de Porto
Seguro, localizado no Extremo Sul da Bahia. Também serão observadas as práticas culturais que
delimitam os aspectos ‘ciber’ do local, apontando como estes interem na atividade turística.
A tentativa que se segue, é de compreender que fatores cooperaram para que o município se
tornasse um dos mais importantes destinos nacionais, destacando os tipos de turismo praticados
(ou as potencialidades turísticas do município). Busca-se identificar elementos que compõem o
imaginário e a dinâmica do local, com o propósito de entender como estes devem estar
organizados na internet de modo a potencializar a atividade turística, criando perspectivas para
que se possa promover a democratização da informação e das tecnologias de informação no local,
como forma de contribuir para a resolução de problemas sociais que emergem com a exclusão
digital.
79
2.2. ASPECTOS DO IMAGINÁRIO E DA HISTÓRIA IMPORTANTES PARA A
PROJEÇÃO DA CIDADE NA INTERNET
80
2.2.1. Primeiro chão, primeira missa... o umbigo do mundo
Isso aqui é o umbigo do mundo! Onde a beleza tem muitas caras, cores e raças,
misturas raras. Peles de abano com sangue indígena, olhos que brilham como
esmeraldas. Caras mestiças de uma nova era, como o futuro que está chegando,
sob o sol, no umbigo do mundo e todo mundo está sambando... isso aqui é o
umbigo do mundo! É aqui o umbigo do mundo, poço sem fundo da imaginação,
Deus e diabo entre o céu e o chão, salva e cidade, litoral, sertão, ondas sonoras,
ritmo, paixão. Onde os amores se transformam em canção, onde as regras são
exceção. Vida batida na palma da mão. Isso aqui é o umbigo do mundo! Fonte
incessante de nova energia. Ponto de encontro entre o silêncio e o som. É o
tempo que samba na voz de João, na nova batida que inventa a nação. Na beira
da praia no eterno verão, na moça que passa na voz violão, no balanço da bossa
de Vina e de Tom. Num rio de poesias, no mar de canções. Isso aqui é o
umbigo do mundo! Ao som do mar e à luz do céu profundo. Fonte de esperança
de uma nova vida. Pulmão de uma raça morosa e sofrida. Que canta e que
dança e que veste de luz a força e a magia dos seus corpos nus, sob o sol, no
umbigo do mundo. Essa é a batida que vem lá do fundo. Isso aqui é o umbigo
do mundo! (MOTTA, Nelson. Umbigo do mundo. In: Daniela Mercury, disco
Eletrodoméstico, 2003).
A letra da canção Umbigo do Mundo, usada como epígrafe, pode representar o atual
imaginário turístico sobre Porto Seguro, delimitado pela idéia de possibilidade das várias ações,
dos hibridismos culturais bem como pela idéia de permissividade. O município, neste sentido,
torna-se um cenário mágico e paradisíaco ideal para a prática da flanerie burguesa temporária e
comunitária, onde o então flâneur poderia realizar muitos dos seus desejos e fantasias, incluindo
aqueles de consumismo, de convivialidade ou mesmo os de erotismo. Além de tudo isso, também
está impresso nesse imaginário, a idéia de um povo bom, festeiro e receptivo. Assim, pode-se
dizer que esse imaginário suscita a idéia de que, no município, parece ser possível a conciliação
de todas as misturas, de todas as etnias, de todas as crendices, de todos os ritmos e de todas as
tendências da contemporaneidade.
81
Nesse sentido, tem-se o umbigo do mundo, onde a moda cotidiana associa-se ao
underground e as técnicas de preservação da natureza e do patrimônio local harmonizam-se com
o consumismo do turismo. Em Porto Seguro, de acordo com o seu imaginário turístico, parece
que os conflitos que, geralmente, conturbam centros capitalistas não interferem na organização
social, embora grande parte da população nativa perceba as novidades e as possibilidades de
melhoria de vida promovidas pelo desenvolvimento tecnológico, mas sem experimentá-las. Tudo
isso compõe uma representação (podem existir varias representações) imaginária sobre o destino.
O imaginário desenvolve-se a partir das interações entre os fenômenos e ações sociais
com as contextualizações feitas sobre esses fenômenos e ações, quando estas constituem
processos comunicacionais, envolvendo a produção e a recepção de mensagens. Pela visão de
Bignami (2002, p. 16) pode-se dizer que um imaginário sobre um local “é fruto do acúmulo de
conhecimentos a respeito dele, decorrente de várias fontes e por meio de diferentes processos”.
Assim, está-se apontando que os relatos e observações de escritores, ficcionistas, jornalistas ou
quaisquer outros visitantes, ao se co-relacionarem, corroboram para a produção de um discurso
contextualizador de um local. Esse discurso vai se legitimar a partir das ideais que os receptores
das comunicações formulam sobre o espaço e das práticas desenvolvidas neste espaço a partir
dessas comunicações.
Portanto, as experiências coletivas praticadas em um local e as trocas culturais que
dinamizam a sua história, evidenciadas em processos comunicacionais implicam na construção
do imaginário que, com base nos estudos de Simões (1998), corresponde a uma ótica resultante
do horizonte de expectativa decorrente do universo cultural e vivencial que configura uma visão
de mundo do emissor (o produtor da mensagem) e posteriormente do receptor. Portanto, a
comunicação interfere na dinâmica do local atribuindo-lhe um sentido. A produção do
imaginário, desse modo, compreende um ciclo entre a história (os fatos observados), a
82
interpretação da história (a atribuição de sentidos ao local a partir da observância sobre os fatos) e
a reformulação da história (a nova concepção que os receptores das interpretações atribuem ao
local, incluindo os próprios moradores).
Pode-se perceber a formação do imaginário em três momentos consecutivos –
Inauguração, Propagação e Legitimação – envolvendo a interação entre processos
comunicacionais e práticas sociais. No caso de Porto Seguro, está-se identificando como o
primeiro momento, o da Inauguração, a Carta de Caminha, reconhecida como a primeira
comunicação oficial sobre o local. No segundo momento, identifica-se esse imaginário a partir
dos processos comunicacionais voltados para a promoção e a propagação da atividade turística no
município, sendo, então, o momento da Propagação. O terceiro e último momento aqui definido
é o da Legitimação, que corresponde ao pensamento dos turistas sobre o local e as praticas
turísticas ali evidenciadas. Entende-se que a conjunção desses momentos forma o Imaginário
turístico de Porto Seguro, podendo ser percebido a partir da correlação dos discursos presentes na
carta, em comunicações turísticas e em depoimentos de turistas. Este Imaginário constitui-se
como um dos fatores imprescindíveis para a projeção do município no ciberespaço.
Com base nos estudos de Sacramento (2001, p. 43) sobre memória imaginativa, aponta-se que
a Carta de Caminha representa “a primeira e mais fundamental experiência do tempo, via
subjetividade, diferente da dimensão coletiva ou social”. Esse registro de memória completa a
realidade local, atribuindo-lhe um sentido (e não o sentido), pondo em negociação, ou seja,
problematizando os fenômenos sociais que compunham a ambiência daquele local, naquele
tempo, uma vez que esse documento corresponde a um instrumento que institui imagens
dialéticas, que correspondem a sinais representativos de idéias pertinentes a um grupo cultural.
Estas imagens se fundamentam pelas possibilidades operacionais e também por desejos, por
ansiedades e por necessidades individuais e/ou coletivas que ao serem projetadas em uma
83
comunicação formam o imaginário sobre o fato observado, no caso, o município de Porto
Seguro.
Caminha, ao detalhar aspectos naturais do local em que desembarcara bem como as
edificações e comportamentos dos seres humanos ali encontrados, a partir de suas perspectivas e
de sua reação à alteridade, estabelece (para o local) a idéia de porto seguro livre das intempéries
e das barbáries que comumente eram vivenciadas durante o processo de colonização, afinal “todo
esse período foi marcado também pela busca de uma sociedade idealizada, utópica, a busca do
paraíso, que se encontraria talvez em terras estrangeiras” (BIGNAMI, 2002, p.79). Assim, a
exuberância da natureza e os costumes do povo encontrado no porto contribuíram para a
idealização do espaço ‘descoberto’ como o local do ‘se plantado tudo dá’ e do ‘se querendo tudo
pode’.
Portanto, o discurso do escritor português é tanto constatativo (objetivo) quanto
performativo (subjetivo), e desse modo a Carta de Caminha inaugura a substância ou essência
imaginária sobre aquele espaço atualmente, delimitado político e geograficamente, município de
Porto Seguro. Essa fase inaugural do imaginário pode ser observada através dos fragmentos do
texto do português descritos abaixo, organizados em três tópicos, mostrando a concepção do
emissor sobre a natureza, sobre o povo e sobre os costumes e a organização social.
A NATUREZA:
[...] Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto
houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes
barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia...
muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e
arvoredos -- terra que nos parecia muito extensa [...].
[...] Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de
metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares
84
frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo
d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal
maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das
águas que tem! [...].
[...] Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar
esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve
lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para
essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela
cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da
nossa fé! [...].
O POVO:
[...]A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons
narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso
de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara.
Acerca disso são de grande inocência. Ali andavam entre eles três ou quatro
moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas
costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras
que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam [...].
[...] Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles
a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma,
segundo as aparências. E portanto se os degredados que aqui hão de ficar
aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a
santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à
qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de
bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles qualquer cunho que lhe
quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos,
como a homens bons. E o Ele nos para aqui trazer creio que não foi sem causa.
E portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve
cuidar da salvação deles. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja
assim![...].
[...] E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece
outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim
tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu
a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se
Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos
serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se
alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque já então
terão mais conhecimentos de nossa fé, pelos dois degredados que aqui
entre eles ficam, os quais hoje também comungaram [...].
OS COSTUMES E A ORGANIZAÇÃO SOCIAL:
85
[...]E concordaram em que não era necessário tomar por força homens, porque
costume era dos que assim à força levavam para alguma parte dizerem que há de
tudo quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informação da terra
dariam dois homens desses degredados que aqui deixássemos do que eles
dariam se os levassem por ser gente que ninguém entende. Nem eles cedo
aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o
não digam quando cá Vossa Alteza mandar [...].
[...] Plantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiro lhe haviam pregado, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o
padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco, a ela, perto de cinqüenta ou sessenta deles,
assentados todos de joelho assim como nós. E quando se veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se
levantaram conosco, e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e então tornaram-se a assentar, como nós. E quando levantaram a
Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim como nós estávamos, com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que
certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção [...].
[...] E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação,
levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e
dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias -- duas ou três que lá
tinham -- as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves,
atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se
afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé [...].
[...] E segundo depois diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação, em
que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas, cada
uma, como esta nau capitaina. E eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e
cobertas de palha, de razoável altura; e todas de um só espaço, sem repartição
alguma, tinham de dentro muitos esteios; e de esteio a esteio uma rede atada
com cabos em cada esteio, altas, em que dormiam. E de baixo, para se
aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma
numa extremidade, e outra na oposta. E diziam que em cada casa se recolhiam
trinta ou quarenta pessoas, e que assim os encontraram; e que lhes deram de
comer dos alimentos que tinham, a saber muito inhame, e outras sementes que
na terra dá, que eles comem. E como se fazia tarde fizeram-nos logo todos
tornar; e não quiseram que lá ficasse nenhum [...]
[...] Terça-feira, depois de comer, fomos em terra, fazer lenha, e para lavar
roupa. Estavam na praia, quando chegamos, uns sessenta ou setenta, sem arcos e
sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem. E
depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E
misturaram-se todos tanto conosco que uns nos ajudavam a acarretar lenha e
metê-las nos batéis. E lutavam com os nossos, e tomavam com prazer. E
enquanto fazíamos a lenha, construíam dois carpinteiros uma grande cruz de um
pau que se ontem para isso cortara. Muitos deles vinham ali estar com os
carpinteiros. E creio que o faziam mais para verem a ferramenta de ferro com
que a faziam do que para verem a cruz, porque eles não tem coisa que de ferro
seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em
um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes,
porque lhas viram lá. Era já a conversação deles conosco tanta que quase nos
estorvavam no que havíamos de fazer [...].
86
Com sua carta, Caminha inaugura para o município, aquele, então, porto natural, a idéia
de natureza bela e exuberante, local de um povo receptivo, festeiro e inocente, capaz de
facilmente absorver costumes de outros povos bem como a idéia de uma sociedade aberta, onde
estrangeiros podem livremente transitar, sem se preocupar como o tempo, com os excessos,
muito menos, sem se preocupar em seguir regras (desse modo, este espaço é, sem dúvida, o
umbigo do mundo). Imaginário este que, em muitos textos, se confunde como do Brasil, vale
ressaltar.
Os fragmentos da carta apresentados notificam a consonância da idéia inaugural sobre o
local com as atuais comunicações específicas para a promoção do turismo e com as acepções dos
turistas. Esta coesão caracteriza o processo de incompletude textual, através da qual compreendese que o sentido dos enunciados está também atrelado à codificação. Contudo, não se pode
desconsiderar a noção de que um discurso (inclusive este que se está apresentando) nunca é
neutro, afinal, as reflexões sobre o contexto notificado apontam a subjetividade do emissor e,
portanto, a sua opção ideológica.
A
incompletude
do
texto,
esclarece
Sacramento
(2001),
estabelece-se
pela
intersubjetividade, levando-se em consideração que o texto compreende uma rede de relações e
de idéias concentradas nele próprio, suscitando a necessidade da intertextualidade – cruzamento
de idéias. E, a essa acepção da autora, acrescenta-se à rede das relações textuais a idéia de
hipertextualidade, que vai se caracterizar, conforme Lévy (1998, p.33), por “um conjunto de nós
ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, páginas, imagens ou partes de gráficos,
seqüências sonoras, documentos complexos que podem eles mesmos ser hipertexto”. Esses
pressupostos (intertextualidade e hipertextualidade) possibilitam o reconhecimento e o
entendimento das imagens estabelecidas em um discurso como promotoras do intercruzamento de
87
culturas, ao consentir o alongamento das idéias centradas no texto. Essa elasticidade faz com que
os elementos estabelecidos no discurso tornem-se imagens dialéticas.
Portanto, o que legitima a Carta de Caminha como a fase inaugural do imaginário turístico
no município de Porto Seguro é a verossimilhança do discurso do português como os discursos
das comunicações contemporâneas voltadas para o estímulo do turismo no local e,
evidentemente, as opiniões dos turistas que fazem menção às imagens da carta. Assim, quando
estas comunicações delimitam o município como o local das mil e uma possibilidades de
diversão, capaz de satisfazer aos mais variados gostos bem como o local da permissividade, onde
parece não haver discriminações, rejeições e repressões, observa-se a intertextualidade destes
com a carta.
Nesse sentido, diz-se que as comunicações turísticas correspondem à fase da Propagação
do imaginário sobre o destino Porto Seguro. Essa idéia pode ser constatada junto a panfletos de
eventos turísticos (Box 1), a informações jornalísticas (Box 2;3), a materiais de divulgação
elaborados pela prefeitura municipal e pela empresa de Turismo do Estado da Bahia – Bahiatursa
– (Box 4;5) bem como a partir de produções comunicativas locais como o livro intitulado
‘Descubra Porto Seguro: Terra Mater do Brasil’ (Box 6) do jornalista nativo, Fausto Rodrigues de
Almeida, e um CD sobre o município, que será evidenciado no tópico 2.2.3. Esse imaginário
também pode ser identificado em sites referentes ao município ou a empresas turísticas que
operam no local, como poderá ser observado no tópico 3.1.3.
Box 1: Panfletos de eventos locais
88
Os panfletos para festas são distribuídos diariamente em toda a cidade. Tanto nos locais turísticos, quanto nos locais de fluxo de
pessoas no centro urbano, grupos de jovens malhados e bonitos, às vezes performáticos, convidam os turistas a participarem dos
eventos noturnos. Cada casa de show apresenta uma programação específica, porém todas enfatizam a mistura de ritmos e os jovens
bonitos e descontraídos como principais atrativos.
Box 2: Revista na poltrona
Fotografia extraída da revista.
Com a natureza exuberante, boa estrutura turística e um povo
receptivo e festeiro [...] Principal localidade da chamada Costa
do Descobrimento, no litoral Sul da Bahia, ali em 1500,
aportaram as naus da esquadra de Pedro Álvares Cabral. Em
2000, a Unesco elevou a região à condição de Patrimônio
Natural Mundial. A cidade e seus distritos [...] se sucedem ao
longo de 90 quilômetros de praias limpas e livres de poluição,
algumas muito calmas e solitárias, outras fervilhantes e
badaladas. Nessa faixa litorânea, o turista pode apreciar
mangues, rios restingas, coqueirais, trechos de Mata Atlântica e
formação de arrecifes. As famosas falésias de areias vermelhas,
descrita na carta que Pero Vaz de Caminha escreveu à coroa
Portuguesa, permanecem contemplando o mar. [...] (Um Porto
Seguro para os sonhos. na poltrona, revista de bordo do grupo
Itapemirim. Ano 6, nº 81, julho de 2004.)
89
Box 3: Revistas Bahia Terra da Felicidade
A paisagem descrita na primeira reportagem turística sobre a
Bahia, há quase 500 anos, permanece deslumbrante e
praticamente inalterada em toda a Costa do Descobrimento. O
ilustre “jornalista” português, Pero Vaz de Caminha [...]
encantado com a paisagem, escreveu ao rei contado em detalhes
os encantos do país descoberto. Relaxar é palavra de ordem para
quem chega a este lugar paradisíaco, e nada melhor que um
mergulho revigorante em uma de suas belas praias, pra começar.
A noite em Porto Seguro começa inevitavelmente na Passarela do
Álcool. Aí, dezenas de barracas decoradas com arranjos de frutas
vendem os mais variados coquetéis de frutas e “capetas”[...]. O
comércio tem um horário atípico, muitos shoppings e lojas de
artesanato funcional até meia noite. A noite continua na orla com
reagge night, festas e músicas ao vivo na maioria dos restaurantes
e barracas de praias, que promovem luaus em diversos dias da
semana[...]. (Porto Seguro, Território livre do lazer. Bahia
Terra da felicidade. Produzida pela Bahiatursa).
Capa da revista.
Box 4: House-Organ Produzido Pela Secretaria De Turismo Da Prefeitura Municipal
.
Quem conhece Porto Seguro hoje percebe que não foi por obra do
acaso, que em 1500 os portugueses desembarcaram numa das
regiões mais privilegiadas do Brasil [...]. Com o passar do tempo
esse verdadeiro presente dos céus foi sendo lapidado até se
transformar em um dos mais importantes pólos turísticos, que aos
poucos vai sendo redescoberto também por visitantes de diversos
cantos do mundo [...]. Diversos equipamentos completam a infraestrutura colocada à disposição do turista, como as bem montadas
cabanas de praia para oferecer, conforto, diversão e muita alegra
a nossos visitantes.
Fotografias extraídas do House-organ.
[...] são inúmeras as opções de lazer, com roteiros ecológicos,
passeios de escuna e alternativas super especiais como o Litoral
Sul, que inclui o arraial D’Ajuda, Trancoso e Caraíva, com suas
praias paradisíacas e excelente culinária [...]. É por essas e outras
que as pesquisas de opinião indicam que mais de 90% dos turistas
que já conhecem Porto Seguro
desejam voltar. Quem não
conhece, alimenta o desejo de um dia conhecer a terra abençoada
onde tudo começou. (Porto Seguro: só falta você. Seja bem vindo! E
descubra porque desde 1500 Porto Seguro encanta tantos turistas.
Porto Seguro total. Secretaria Municipal de turismo e
desenvolvimento Econômico de Porto Seguro/BA. Ano I, nº 01,
90
Box 5: Folder produzido pela Bahiatursa
A atmosfera mágica que envolve e encanta os visitantes hoje é a
mesma que encantou os portugueses em 1500, nos primeiros
contatos com a terra e seus primitivos habitantes. [...] o Sítio
Histórico da cidade Alta de Porto Seguro – Cidade Monumento
Nacional e um dos primeiros núcleos habitacionais do Brasil.
Durante o dia, o visitante entrega-se aos prazeres das praias,
cavalgadas, caminhadas, passeios no mar ou na mata. A vida
noturna, é animadíssima. A programação começa na Passarela do
Álcool e continua nas barracas da praia e casas noturnas até a
madrugada. As vilas de Arraial Trancoso e Caraíva e a Aldeia
Pataxó de Barra Velha são visitas obrigatórias ao paraíso [...].
(Costa do descobrimento. Descubra porque desde 1500 não pára
de chegar gente aqui. Bahiatursa , 2000)
Fotografia extraída do folder.
91
Box 6: Livro Descubra Porto Seguro
Resenha descritiva do livro
‘Descubra Porto Seguro’ faz menção à cronologia
histórica oficial do município, enfatizando-o como
ponto inicial da civilização brasileira. O livro está
dividido em seis partes com dados referentes à
viagem de Cabral, às características gerais do
município, enfatizando festas e aspectos naturais. Na
quarta e quinta parte ele apresenta lendas e poemas
relacionados a Porto Seguro e por fim, Almeida faz
um relato da festas dos 500 anos do Brasil no
município, apresentado fragmentos do discurso do,
então, presidente da república, Fernando Henrique
Cardoso bem como críticas dos pataxós à igreja
católica. O autor apresenta uma relação dos
monumentos históricos, que, segundo ele, constituise como forma de preservação da história. Mas, são
em seus poemas (abaixo), que pode ser percebido, a
presença do imaginário da Carta de Caminha.
Capa do livro.
Os porto-segurenses
Meu Porto Seguro
O povo de Porto Seguro/ Cheio de vida e
amor/Tem no sangue o orgulho/Na existência
o labor! [...]/ Por isso os portose-gurenses
/hospitaleiros por tradição pregam numa
doutrina a harmonia em seu rincão/ que é uma
dádiva divina/ E o alicerce de uma nação!
(Pág. 142)
Meu Porto Segurodo mar sempre lindo/ da mata e
coqueiral,/ meu Porto Seguro, d’Ajuda e Trancoso,
do velho casario colonial, que atrai juventude / e na
‘Passarela’ tem luz e emoção,/ meu Porto Seguroque é Porto Seguro -/ meu porto Segurodo eterno
verão. (Pág. 149)
Ao fazerem menção à Carta de Caminha, mesmo implicitamente, os textos apresentados
podem conduzir o público a idealizar o município e a Costa do Descobrimento (que já não mais
podem ser desvinculados nos espaços comunicacionais) com imagens semelhantes àquelas que
compõem o imaginário do primeiro escritor oficial. Essa constatação reflete que a propagação de
um imaginário está vinculada a imagens já conhecidas historicamente, que, ao se repetirem nos
discursos dos interlocutores, permitem a contextualização de um local, que se dá a partir do
processo de aceitação, interiorização e reformulação dessas imagens sempre pré-estabelecidas,
por isso dialéticas.
92
Essa verossimilhança entre as comunicações apresentadas e a carta de Caminha,
caracteriza o processo de intertextualidade entre esses discursos. Processo este que permite a
compreensão de que as comunicações turísticas não estão instaurando novos sentidos para o
município de Porto Seguro nem para a Costa do Descobrimento, uma vez que as imagens que
compõem os textos apresentados, encontram-se já estabelecidas anteriormente no primeiro
discurso oficial sobre aquele local. Nesse sentido, a carta de Caminha comporta-se como suporte
a esse imaginário turístico contemporâneo.
Assim termos como ‘descubra porque desde 1500 não pára de chagar gente aqui’,
utilizada como chamada do folder produzido pela Bahiatursa; ‘Terra Mater do Brasil’, subtítulo
do livro escrito por um nativo e ‘terra abençoada onde tudo começou’, que fecha a chamada do
jornal produzido pela prefeitura municipal, sugerem ao leitor uma ligação com o momento
histórico da descoberta, narrado na carta. Os termos ‘atmosfera mágica’, ‘exuberância da
natureza’, ‘praias de águas límpidas e transparentes’, ‘praias limpas e livres de poluição’,
‘Parque Ecológico do Santuário cuidadosamente desenhado pela natureza’, entre outras
descrições que apontam a natureza local como espaço exótico e preservado, desencadeiam a idéia
de natureza vasta e formosa descrita por Caminha. Em alguns casos, como no periódico ‘na
poltrona’, esta associação é feita clara e diretamente, a exemplo do momento no texto referente
às falésias de areia vermelha, quando o emissor utiliza como referencial a descrição feita por
Caminha.
Com sua descrição sobre a nudez e a perfeição dos corpos dos nativos bem como a
descrição das danças e da passividade dos mesmos, Caminha inaugura, para os atuais moradores
do local, o status de sensuais e liberais e de povo receptivo e festeiro. Esse status pode ser
constatado junto a panfletos de divulgação das festas locais, como o referente ao Eco-parque do
Arraial d’Ajuda. Portanto, as ilustrações que evidenciam os corpos em bom estado físico e com
93
poucas roupas propagam a verificação do escritor português. Pode-se inferir também que no
panfleto de divulgação da cabana ‘Alcatraz’ há a idéia de uma festa caracterizada pela
permissividade, quando o anúncio convida ao público a descobrir o que acontecerá no local.
Além disso, nas duas comunicações, estão evidenciadas as misturas de ritmos que apontam para a
aceitação de várias tendências musicais, sugerindo a interação de várias tribos, usando o termo de
Maffesoli (1998), suscitando a emergência de um hibridismo cultural (CANCLINI, 1998).
Pode-se dizer que a intertextualidade entre a carta de Caminha e as comunicações
turísticas apresentadas compõem uma espiral de idéias representativas do destino Porto Seguro e
Costa do Descobrimento utilizadas por agentes que atuam no processo de construção da imagem
do local, que, na maioria das vezes, utilizam apenas esse imaginário de paraíso ecológico e local
da permissividade como fator de divulgação do turismo. Imaginário este que não permite ao
interlocutor visualizar aspectos outros, principalmente, os aspectos malditos da dinâmica
cotidiana do município, propondo, portanto, a construção de uma ‘ilusão referencial’ sobre o
destino.
Contudo, deve-se ressaltar, com Bordenave (2002), que essa ilusão referencial, não
necessariamente, é resultante da intencionalidade dos meios em perpetuar as intenções
contidas no documento português. Por um lado, deve-se considerar que não existe condição de
se evitar uma construção seletiva da sociedade, pelos meios de comunicação, levando-se em
consideração a impossibilidade de abranger toda a complexidade social em um único espaço
comunicacional. Por outro lado, a própria seleção dos fatos, pelos produtores, autores e
jornalistas, evidencia alguns aspectos mais relevantes, que traduzem e transmitem uma
realidade, tornando-se um fator de mediação entre a totalidade dos aspectos locais e a
imaginação das pessoas.
94
[...] os médias fazem um papel de mediação entre a realidade e as pessoas. O que ele nos entregam não é a realidade, mas a sua construção da
realidade. Isto é, dá enorme quantidade de fatos e situações que a realidade contém, os meios selecionam só alguns, os decodificam à sua
maneira, os combinam entre si, os estruturam e recodificam formando mensagens e programas, e os difundem, carregados agora de ideologia,
dos estilos e das intenções que os meios lhes atribuem (BORDENAVE, 2002, p.80).
Assim sendo, pode-se dizer que os discursos dos meios de comunicação sugerem uma
construção social do local, podendo ser considerada como uma estratégia de identificação cultural
e interpelação discursiva de que fala Bhabha (1998), apontando e delimitando as suas formações
culturais a partir da consignação, negação, transformação, invenção e transmissão das estruturas
funcionais e das experiências humanas como fluxos culturais que permitem, então, a idealização
do local. Assim, as imagens dialéticas contidas nas comunicações demonstradas traçam fronteiras
culturais do município de Porto Seguro, estabelecendo, o que Hannerz (1997) compreende como
‘limite cultural’.
Entende-se que as comunicações apresentadas estão promovendo a propagação do
imaginário do português sobre o local, sugerindo ações que podem comportar-se como
experiências fantasiadas. Portanto, aponta-se que essas comunicações fomentam a segunda etapa
da formação do imaginário turístico de Porto Seguro, a fase da Propagação, que de algum modo,
delimitam os desejos e fantasias dos cidadãos envolvidos na atividade turística local, a partir de
uma intertextualidade entre a carta e as comunicações apresentadas.
Por essa intertextualidade entre a carta e as comunicações turísticas, constata-se, com
fundamento em Albuquerque Junior (1999) que o imaginário turístico de Porto Seguro
corresponde a uma produção imaginético-discursiva, formada a partir de idealizações e
expectativas sobre o local, construída historicamente por processos comunicacionais. Essa
produção confere aos receptores uma consciência tal sobre o espaço, que dificulta a
95
divulgação de discursos outros sobre a história do local e sobre a atual dinâmica do município.
Desse modo, essas comunicações podem causar várias ilusões referenciais aos turistas, aos
nativos e a empresários a partir das perspectivas do grupo cultural a que pertencem.
O discurso das comunicações apresentadas sobre Porto Seguro pode tornar-se um subsidio
para que o turista e a população local construa em seu imaginário a visão de que o município
corresponda apenas a um local receptivo e acolhedor. Nesse sentido, pode-se vislumbrar,
conforme Debord (1997), que essas produções imagéticas podem estabelecer uma relação social
entre turistas e o local, constituindo um processo de espetacularização da cultura, que imputa aos
sujeitos envolvidos uma consciência tal, que o(s) espetáculo(s) torna(m)-se parte da sociedade
delimitada por uma visão de mundo que se objetivou. Para o autor, o espetáculo simultaneamente
representa o resultado e o projeto de um modo de produção existente. Assim, as comunicações
apresentadas neste estudo representam um modelo atual de vida existente no local, de modo que
sua sociedade torna-se uma unidade compartimentada em realidade e imagem.
Por outro lado, acredita-se que quando turistas confrontam os discursos das comunicações
turísticas com as suas experimentações do local, podem emergir várias e divergentes concepções
referentes àquele espaço idealizado, concepções das quais podem apresentar diferentes
significados sobre o local. Hall (2003) entende que essas diferenças de significados existem em
decorrência das diferenças culturais e dos significados que cada signo icônico veiculado pelas
médias representam nas sociedades, definindo níveis diferentes de conotação do signo visual.
Portanto, quando observadas as opiniões de turistas sobre o município de Porto Seguro,
percebe-se que ao mesmo tempo em que há um encantamento como o local, o que legitima o
imaginário propagado pelas comunicações, há também uma certa indignação com a estrutura
urbana, com as práticas turísticas e com as políticas públicas de organização da atividade. Então,
96
pode-se apreender, junto à opinião dos turistas, a legitimação da mensagem evidenciada a partir
da intertextualidade entre as comunicações e a carta, estabelecendo um ‘nó’ de conexão entre o
discurso dessas comunicações e as práticas turísticas. Não é difícil, portanto, conceber esta
conexão como fator constituinte de um hipertexto turístico, através do qual muitas outras
acepções podem surgir. Assim sendo, tem-se a contínua reformulação histórica a partir da
propagação do imaginário sobre o local.
Essa terceira fase da formação do imaginário sugerida neste trabalho, a da Legitimação,
tem como representação depoimentos de turistas sobre Porto Seguro, registrados no Caderno de
Opiniões do Centro Municipal de Informações aos Turistas, onde estes têm espaços para
escreverem suas realizações no local, suas experiências e apresentarem também reclamações e
sugestões com relação aos aspectos turísticos. Essas opiniões foram coletadas durante o período
de 07 a 14 de janeiro, pelo método intencional não probabilístico por julgamento, cujo critério de
seleção dependia da disponibilidade de acesso ao caderno bem como da originalidade das
opiniões, visto que, muitas vezes, estas eram repetitivas, acentuando apenas descrições do local
como um espaço paradisíaco, confirmando, apenas, o discurso de Caminha e das comunicações
turísticas.
Foram coletados ao todo dezesseis depoimentos, dos quais oito (que estão demonstrados
abaixo16) começam descrevendo o espaço com expressões de encantamento, mas acentuam que o
local precisa de melhor organização e estruturação.
Porto Seguro é uma cidade turística bonita. Com clima agradável e uma
cultura rica. Tenho muitas coisas para desfrutar aqui e espero levar para
minha cidade, que também é belíssima, muitas recordações agradáveis.
(turista, Pernambuco).
16
A transcrição foi feita na íntegra, não sendo realizada correções ortográficas nem gramaticais.
97
A cidade é tudo de bom. Mas falta mais organização (limpeza) e as agências
monopolizam demais os passeios. Quem está na ala norte não fica sabendo
dos movimentos da ala sul. Muita prostituição infantil explorado por
turistas (turista, Minas Gerais).
A cidade e as praias são lindas e tem tudo para atingir o mercado
internacional. Infelizmente a cidade ainda é precária na limpeza, por
exemplo, os banheiros dos restaurantes são sujos e muitas vezes a descarga
dos vasos está quebrada. Trabalho com turismo na Itália e espero mandar
muitos turistas para esta cidade, mas espero também uma melhoria
(turista, Itália).
Adoro Porto Seguro. Venho ano sim outro não e não entendo porque até
hoje não se construiu uma ponte. É uma vergonha. O país todo visita esta
cidade e esta balsa é uma vergonha. Um espelho de quem governa (turista,
São Paulo).
Apaixonei por Porto Seguro. Pessoas humildes, mas coração muito bom. As
pessoas não merecem ser esquecidas. Tem que haver um meio de vida
melhor. O governo precisa deixar o dinheiro girar aqui, cuidar do povo
d’aqui como gente (turista, Minas Gerais).
Região muito bonita, cidade muito agradável, mas falta o básico. Andando
pelas ruas, encontrei entulhos, lixos e muito buraco. Nas ruas e nas
calçadas. Eu vim aqui só como turista e quem mora aqui vai ficar no
abandono até quando? (turista, são Paulo).
A cidade é fantástica. Só precisa abaixar os preços das conveniências, pois é
a maior exploração, principalmente acerca dos guias turísticos (turista,
Minas Gerais).
A cidade é linda e com uma boa estrutura. Porém os responsáveis pelo
turismo deveriam dar atenção especial e cuidar melhor deste patrimônio e
também preservar/cuidar melhor da limpeza da cidade, colocando lixeiras
ao longo de toda a orla marítima. O que me chamou a atenção foram os
altos preços cobrados dos turistas. Até mesmo para estacionar os veículos
na praia estamos sendo cobrados. Isso espanta o turista!!! (turista, Rio
Grande do Norte).
Nesse sentido, constata-se a presença do imaginário inaugural e propagado sobre o
município e também outras extensões textuais, que não estão evidenciadas nas comunicações
turísticas, mas que apresentam uma verossimilhança com o discurso de Caminha quando sugere
98
ao rei que envie, àquele local, clérigos para catequizarem os nativos. Portanto, as sugestões de
melhoria na infra-estrutura urbana da cidade de Porto Seguro pode representar as expectativas do
turista de melhoria para o local, assim como, pode-se conceber que a preocupação em converter
aquelas pessoas encontradas no porto ao cristianismo correspondia a uma preocupação de
Caminha para com os moradores daquela região. Por outro lado, mesmo concebendo que o
português apenas queria atribuir os seus valores aos nativos, na tentativa de facilitar a dominação
sobre o local, pode-se verificar também uma semelhança com o discurso dos turistas, afinal, a
melhor organização do destino significa mais conforto, mais comodidade e mais segurança para o
estrangeiro.
Entende-se, então, que os discursos comunicacionais, quando conectados à imaginação do
interlocutor, orientam os sentidos e significados dos locais contextualizados. Assim sendo, a
comunicação vai fomentar o espaço como uma entidade identificável capaz de proporcionar a
concretização ou expansão da fantasia. Contudo, a experimentação do espaço cria possibilidades
para o receptor escrever uma história própria sobre o local, caracterizando a constituição de um
sistema hipertextual, afinal, a idealização do município é permitida a partir de interconexões das
imagens apresentadas sempre por experiências anteriores transmitidas (retomando que nenhum
discurso é neutro). Portanto, o hipertexto é também um conjunto de ações humanas, pensamentos,
perspectivas e sensações individuais ou coletivas que também podem eles mesmos ser hipertexto.
As informações textuais completam-se e reproduzem-se associadas à vivência e às
informações contidas no imaginário das pessoas. Esse processo refere-se à construção do espaço,
ou melhor, a uma meta-construção da estrutura do urbano e do próprio cidadão que o dinamiza.
Assim sendo, aponta-se que as imagens delimitam as informações da narrativa, mas também
proporcionam ao observador um ambiente ideal para se evadir e dar continuidade ao texto sob
sua perspectiva, quando este passa a experimentar o espaço (por isso são imagens dialéticas).
99
Assim pensa-se que a comunicação turística deve buscar cada vez mais a interatividade dos
sujeitos envolvidos na atividade.
De algum modo, essa superdimensão hipertextual vai contribuir para a promoção da
dinâmica dos locais, que vão eles mesmos continuamente modificarem-se em suas relações
sociais e econômicas a partir das mensagens produzidas pelo discurso hipertextual formado pela
sinergia entre o momento da propagação do imaginário e a sua legitimação, dando origem a
outros discursos e, conseqüentemente, a outras práticas sociais. Para Hall (2003) essa forma
discursiva tem uma posição privilegiada na troca comunicativa, considerando-se a circulação da
informação e que os períodos de ‘codificação’ e de ‘decodificação’, apesar de apenas
‘relativamente autônomos’ em relação à totalidade do processo comunicativo, são momentos
determinados.
Acredita-se, então, que essa movimentação se realiza sob a forma de um hipertexto
discursivo, pois é após a elaboração do discurso para os respectivos públicos que ocorrem as
práticas sociais, que vão então ser recodificadas, transformadas novamente sob a forma de
discurso e retransmitidas para a audiência. Contudo essa prática pode gerar perspectivas
diferentes entre nativos, empresários e turistas, considerando que estes correspondem a grupos
culturais diferentes que têm perspectivas peculiares, e que, talvez por falta de estratégias políticas
voltadas para a organização da atividade, podem gerar conflitos de interesses. Afinal, baseado no
imaginário que aponta Porto Seguro como um local mágico e paradisíaco, nativos e empresários
podem tentar explorar economicamente os turistas, enquanto esses podem estar esperando
encontrar realmente o povo ingênuo, feliz e receptivo das comunicações.
100
Essas divergências de perspectivas, acima apontadas, podem ser identificadas nos oito
restantes depoimentos coletados no Caderno de Opiniões do Centro de Informações Turísticas da
Prefeitura Municipal, descritos abaixo17.
Acreditamos que a cidade merece mais atenção no que conta à infraestrutura. A cidade histórica deveria ser cobrada uma pequena taxa, mas
com melhorias no jardim, banheiro, lugar para lanche assim como na
Passarela do Álcool. A história do Brasil deveria ser melhor explicada
através de placas. (turista de São Paulo)
Achei uma roubada visitar a cidade histórica. Um guia que nos
acompanhou por 45 minutos no local nos cobrou R$ 50,00 (cinqüenta reais)
por pessoa, dizendo que era credenciado. Discutimos e terminou em R$
25,00 (vinte e cinco reais) por cinco pessoas que estavam no carro. Por
favor, colocar tabelas porque se não não voltarei e não recomendarei tal
passeio” (turista, Minas Gerais).
Na minha opinião, várias medidas devem ser tomadas urgentemente: 1ª) os
guias do trevo (trevo do Cabral) são verdadeiros marginais que perseguem
os turistas e atrapalham os empresários; 2ª) limpeza e urbanização da
cidade e das praias; 3ª) conscientização dos moradores e dos comerciantes
para não praticarem a exploração de preços com os turistas (turista, São
Paulo).
Porto Seguro é um espelho de como os nossos políticos pensam o turismo. A
atividade turística que poderia ser um pólo de trabalho, torna-se uma ação
propícia à exploração e à alienação. Mas parece que não é interessante que
o povo tenha trabalho e não conheça as belezas e a história do nosso país,
pois ia mexer com seus interesses (turistas, Rio Grande do Sul).
Os hotéis e principalmente as muitas pousadas existentes em Porto Seguro e
em Arraial d’Ajuda não possuem informações sobre a programação
turística da cidade. Francamente sugiro urgentes providências nesse
sentido. A Secretaria de turismo não está investindo no futuro. A meu ver, a
fonte de turismo não passará poucos anos de vida. Precisam urgente
repassar informações a todos (turista, Minas Gerais).
A cidade cresceu em hotelaria, gastronomia e desenvolvimento local. Gostei
da fiscalização nas praias, no centro e da organização dos guias de turismo
17
A transcrição foi feita na íntegra, não sendo realizada correções ortográficas nem gramaticais.
101
(só não gostei dos preços dos guias, estão muito altos) (turista, Rio de
Janeiro).
Viemos para cá em nosso próprio veículo e quando planejamos nossa
viagem, não conseguimos um mapa da cidade através da internet. Nos sites
da região, encontramos vasta publicidade de hospedagem, mas o mapa que
era o mais importante não estava lá (turista, Espírito Santo).
A infra-estrutura não é das melhores. Porto Seguro se vale de lindas praias
e esquece das bases e, principalmente, que existem brasileiros vindo par cá.
O que acaba acontecendo é que tudo tem o triplo do preço por causa dos
estrangeiros e se torna uma cidade para estrangeiros, muito caro. Preços
exorbitantes nos afastam, não se esqueçam, moramos também aqui (turista,
Brasília).
Pode-se dizer que os depoimentos acima completam a superdimensão hipertextual
produzida pela correlação ente o imaginário propagado pelas comunicações turísticas e a
experimentação do local, ratificando a idéia de que esta correlação promove a acepção de
um novo discurso, de uma nova observação ou, usando o termo de Lévy (1996) um novo
‘nó’ de conexão. Os estímulos produzidos pelas comunicações são tão evidentes que,
segundo dados da Embratur, Porto Seguro é o segundo destino mais procurado na Bahia e
o quinto mais procurado no país. Apesar de todos os conflitos sociais, principalmente,
aqueles vivenciados por turistas, de acordo com dados da Bahiatursa, o município teve, na
década de 1990, a cada, ano a taxa de visitação aumentada.
Esse ciclo – propagação do imaginário de Caminha/aumento do fluxo de
visitações/conflitos sociais locais e reclamação de turistas – constitui-se como parte do processo
dialético autotransformador da cidade e é também responsável pelas transformações em sua
dinâmica. Assim, as observâncias dos turistas sobre aspectos degenerativos do espaço urbano não
marca o fim do turismo em Porto Seguro, mas caracteriza-se, de acordo com Bhabha (1998),
102
como um ‘entre-lugar’ da atividade no município, exigindo uma nova leitura da atividade no
local e dos processos comunicativos sobre o local. Nesse sentido, compreende-se que esse tempo
de ‘entre-lugar’ representa perfeitamente um ‘nó’ de conexão dentro da superdimensão
hipertextual discursiva que compõe a narrativa turística, dando continuidade ao hipertexto
característico do setor.
Portanto, com base em Benjamin (1987), é preciso examinar e divulgar as comunidades à
contrapelo, isto é, estuda-las a partir das perspectivas dos diversos grupos culturais que
fomentam a sua dinâmica. Assim, na elaboração de processos comunicativos, deve-se considerar
a capacidade política dos cidadãos em produzir uma abordagem contra-hegemônica das
mensagens emitidas por esses processos e apresentar, junto ao imaginário, também aspectos que
fomentam o cotidiano da cidade, incluindo conflitos sociais, mesmo porque, como aponta Roedel
(1999) não existe organização social, no sistema capitalista, que não tenha choques de interesses
entre classes ou grupos culturais, por menor e menos significativos que sejam.
Nesse caso, é preciso tentar entender a cidade, buscando delimitar suas características
principais e suas potencialidades turísticas de modo a evidenciar as possíveis práticas e, então,
estabelecer processos comunicativos direcionados para as respectivas comunidades turísticas e
para as comunidades locais. Partindo dessa perspectiva, será apresentado, no tópico que se segue,
uma discussão, evidenciando uma acepção sobre cidade e cidade turística, contemplando
questões históricas. Afinal, acredita-se que a cidade turística deve ser evidenciada nos espaços
comunicacionais e principalmente na internet (considerando as características do meio) não só
enfatizando o seu imaginário, mas também as práticas que compõem a sua dinâmica e fomentam
a sua complexidade social.
103
2.2.2. A vida social e a construção da cidade
Todo dia, o sol da manhã vem e lhes desafia. Traz do sonho pro mundo que já
não o queria. Palafitas, trapiches, farrapos, filhos da mesma agonia. E a cidade
que tem braços abertos no cartão postal, com os punhos fechados pra vida real,
lhes nega oportunidades mostra a face dura do mal. Alagados trenchtown, favela
da maré, a esperança não vem do mar nem das antenas de TV e a arte é de viver
da fé. Só não se sabe fé em quê! (VIANA, Herbert. Alagados. In:
http://paralamas-do-sucesso.cifras.art.br/cifra_2768.html, Acesso em 20 de
outubro de 2004 )
Sete horas da manhã. A cidade começa ser movimentada. Da sacada de um pequeno hotel no
centro, pode-se observar o abrir das lojas, das lanchonetes, dos restaurantes, dos escritórios, a
formação das filas bancárias além de vários outros artefatos que compõem a rotina vivida por
moradores de Porto Seguro, indicando que a cidade também pára e que sua população tenta
descansar, ao contrário do que disseminam algumas comunicações turísticas.
A movimentação do trânsito, a correria da garotada indo para a escola e dos trabalhadores do
centro urbano indicam que naquela cidade turística existe uma dinâmica social peculiar e
capitalista que fomenta a sua complexidade social, em que se observam, entre os aspectos
festivos e contemplativos, enfatizados pelo imaginário turístico, vários problemas de infraestrutura urbana como a falta de sinalização no trânsito, precários sistemas de saúde,
iluminação, educação e segurança pública, além de divergências socioeconômicas explicitadas
nas estruturas dos seus bairros, que separam, claramente, ricos e pobres. Assim, como
sinalizado pela epígrafe, a cidade que tem seu imaginário turístico difundido por veículos de
comunicação apresenta um lado maldito, que delimita constantes conflitos sociais e, talvez,
poucas perspectivas em melhorias de vida.
104
Essa constatação deu-se após pesquisa de campo, utilizando-se do método da etnografia,
baseado em Malinowski (1973), além de pesquisas bibliográficas e de entrevistas a representantes
de órgãos públicos bem como através de análises de dados estabelecidos em documentos e
relatórios elaborados pela Bahiatursa em parceira com o Programa Bahia de Desenvolvimento do
Turismo – Prodetur. Também foram consultados dados do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística – IBGE – e a Proposta de Delimitação das Áreas Tombadas dos Municípios de Porto
Seguro e Santa Cruz Cabrália elaborada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional – IPHAN.
A pesquisa foi realizada em três períodos distintos. O primeiro de 25 a 30 de julho de 2003,
momento de baixa temporada, foi observada a dinâmica do centro da cidade e realizada
pesquisa documental junto ao IPHAN e à Secretaria Municipal de Turismo. O segundo
período deu-se na alta temporada entre 7 a 14 de fevereiro de 2004, cuja pesquisa centrou-se
na observância da atividade turística além de terem sido realizadas entrevistas com o
presidente do Conselho Regional de Turismo da Costa do Descobrimento e com um
representante da Funai, além de entrevistas a turistas pelo método intencional não
probabilístico por julgamento nos distritos de Arraial d’Ajuda e de Trancoso. Parte dos
resultados obtidos nesta etapa da pesquisa serão evidenciados nos tópicos que se seguem.
A última etapa da pesquisa ocorreu de 11 a 16 de outubro de 2004, na semana que compreende
o período, denominado ‘sacola cheia’, cuja atividade turística é voltada para o público
estudantil do eixo Sul-Sudeste. Nesse período, foram visitados o bairro popular do Baianão, e
de classe média alta Paraíso Pataxós (Itaperapuã), estipulados, pela pesquisa, como
representativos dos conflitos sociais do local, uma vez que os dois bairros são habitados por
moradores locais, não tendo seus fluxos populacionais dependentes da atividade turística.
105
Nesse período, também foram realizadas entrevistas com índios da aldeia localizada no
município de Coroa Vermelha e com estudantes do local, cujos resultados serão evidenciados
no capítulo quatro.
Buscou-se traçar uma visão panorâmica do desenvolvimento da cidade de Porto Seguro, para
em consonância com teorias referentes à organização humana, apresentar uma acepção sobre
cidade turística. Para tanto, parte-se da compreensão de De Certeau (1999) de que a cidade
corresponde à produção de um espaço próprio, realçando aspectos ambientais e
comportamentais que comprometem a estrutura urbana, incluindo, inclusive, táticas dos
cidadãos que aproveitam ocasiões para reproduzirem opacidades da história, agindo com uma
determinada malícia e falta de ética do convívio que caracterizam um descomprometimento
com o desenvolvimento social.
Com Ortiz (1999, p.21), entende-se que “a categoria espaço é dessa forma ‘preenchida’ das
mais diferentes maneiras; tudo depende do conjunto das forças sociais às quais ela se refere”.
Nesse sentido, deve-se esclarecer com fundamento em Bourdieu (2001) que os critérios
observados constituem-se como ‘representações mentais’, podendo estas associar desde os
aspetos históricos às práticas contemporâneas, uma série de ações e artefatos que contribuem
para a compreensão de uma identidade local.
Partindo dessa perspectiva, o estudo inicia-se a partir de relatos históricos que oferecem uma
abordagem de como Porto Seguro elevou-se à categoria de cidade e de destino turístico. Nesse
espaço, busca-se observar as suas transformações sociais, na tentativa de apresentar indicações
de como potencializar a atividade turística a partir da cibercultura, preocupando-se com a
dinâmica da cidade, com questões identitárias e com a democratização da informação.
106
Paraíso (1998) entende que a organização atual do município de Porto Seguro, assim
como de várias outras localidades brasileiras, começa, no século XVI, com a necessidade de os
portugueses tomarem posse da terra recém ‘descoberta’, para impedir sua invasão por outros
povos europeus, como franceses e espanhóis. Antes porém, várias medidas foram tomadas para
evitar tal invasão. Entre elas, destacam-se o envio de armas para o policiamento das costas
litorâneas e a tentativa de evitar a presença de navios que estabeleciam comércio clandestino com
a população. Como essas ações não tiveram sucesso, os governantes metropolitanos instituíram,
na década de 1530, a criação de núcleos populacionais ao longo do litoral, sob a responsabilidade
e com financiamento de particulares, criando o sistema de Capitanias Hereditárias que, embora
tivesse uma estrutura organizacional previamente planejada, não foi suficiente para garantir o
povoamento em torno da, então, capitania de Porto Seguro.
Porém, enquanto Capitania Hereditária, foram construídas casas, fortes, capelas,
armazéns, ribeira das naus e forja, dando início à organização social local (conjunto histórico que
atualmente constitui-se como atrativo turístico). Acrescenta-se a essas construções, a edificação
de engenhos de açúcar que, eram como em outras tantas aldeias, pontos de apoio para posteriores
penetrações. Esses engenhos não prosperaram devido aos constantes ataques de índios e
corsários. Também foram organizadas, na vila, expedições de entradas e bandeiras em busca de
metais preciosos. Com a distribuição das sesmarias, houve a ocupação espalhada para o Norte e o
Sul, com a população dedicada à lavoura e à pesca, constituindo-se esta última no mais
importante meio de subsistência desses colonos.
Contudo, o pau-brasil foi a principal mercadoria de exportação e, por ser uma exploração
itinerante, não foi responsável pela criação de qualquer núcleo urbano regular e estável. Por outro
lado, localizada longe dos centros desenvolvidos, desviadas das rotas da Índia ou do rio da Prata,
embora no trânsito, a capitania de Porto Seguro contava apenas com seus próprios recursos. Além
107
desses fatores, os constantes ataques indígenas e a falta de escravos dificultavam o
desenvolvimento socioeconômico da vila. Esses fatores culminaram para que do início do século
XVII a meados do séc. XVIII a capitania entrasse em crise, quadro que só melhorá com sua
incorporação à Coroa.
A partir do século XIX, as ações que compunham a dinâmica do local passam a
consolidar-se na Cidade Baixa. Ali se concentraram as atividades pesqueiras, armazéns e casas
comerciais – em oposição à Cidade Alta, onde estavam os monumentos religiosos, as instituições
administrativas e a moradia das classes mais abastadas. Durante este século, a pesca e a
construção de embarcação ao lado do corte de madeira e da agricultura, constituíram a base
econômica da vila. Continuava, porém, o contrabando de pau-brasil e de pedras preciosas. Nesse
período, muitos viajantes, em sua maioria contrabandistas, passaram por Porto Seguro e deixaram
relatos de suas impressões sobre a cidade, através das quais pode-se perceber a dinâmica do local
naquele tampo. Esses relatos estão registrados na Proposta de Delimitação das Áreas Tombadas
dos Municípios de Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália elaboradas pelo IPHAN.
Em 1802, o inglês Thomas Lindley, preso como contrabandista de pau-brasil, ouro e
diamante, descreve Porto Seguro, relatando a situação de pobreza da cidade, mas observa que
existiam barcos que pescavam garoupas em abrolhos, salgando-as e enviando-as para Salvador:
As ruas são simplesmente largas, retas, mas dispostas de maneira irregular. As
casas têm geralmente um só pavimento, são baixas e mal construídas de tijolo
moles (abobes), pintadas com barro e recobertas de armagassa. Todas têm
aspecto sujo e miserável. Próxima da orla marinha, ergue-se uma série de casas
de pescadores, sombreadas de ondulentas palmeiras à frente, tendo cada uma seu
laranjal ao lado. Atrás dessas chapanas surge a vegetação baixa.
108
No documento, há registros de outros viajantes que não apenas confirmam esta
informação, como também apresentam uma descrição sobre a Cidade Alta. Em 1888, o
forasteiro Durval Vieira de Aguiar descreve a vila de Porto Seguro da seguinte forma:
Dois compridos amuados quase em seguida, pela margem do rio, e de um terceiro, onde se acha a velha Matriz e o estragado, porém bem
construído e assobradado edifício da Câmara, no alto da montanha, que é circulada em baixo pela povoação; de forma que substituindo-se
pela parte do mar, pode-se descer pelo lado oposto, e subir-se na rua de Pacatá, onde está o melhor comércio. A morada do alto é excelente
pela beleza da vista e bons ares; porém na parte baixa, onde ‘aliaz’ reside a maioria da população, é humilde e às vezes doentia.
Pode-se dizer, portanto, que Porto Seguro tem sua história marcada por constantes
períodos de decadência que delimitaram um estado de isolamento político e econômico. Contudo,
de acordo com o documento disponibilizado pelo IPHAN, essa condição foi positiva no que
concerne à preservação do patrimônio arquitetônico, que, para o instituto, representa o embrião
da atual civilização brasileira. Ainda, segundo o mesmo documento, aponta-se que o isolamento
também contribuiu para a preservação do patrimônio natural, mesmo considerando que esse
estado condicionou o local à decadência social e à calamidade urbana.
No final do século XIX, a vila é elevada à condição de cidade de Porto Seguro, mas é
somente a partir do século XX, que se inicia o processo de estratificação espacial da cidade, base
da atual organização urbana. A Cidade Baixa torna-se o local de habitação dos comerciantes, que
começam a concentrar a renda gerada no local, ficando a Cidade Alta para a classe dos
funcionários públicos e pessoas pertencentes a classes econômicas menos favorecidas. Contudo,
nas primeiras décadas do século passado, a população do município de Porto Seguro encontravase em condições precárias de sobrevivência, com sobrados arriscando desabar, falta de querosene
utilizado na iluminação, entre outros fatos que implicavam no esvaziamento do tecido urbano.
109
Esses aspectos comportavam-se tanto como conseqüências quanto resultantes da pouca
movimentação econômica do local.
Somente a partir da segunda metade do século XX, inicia-se o processo de
movimentação social responsável pelo delineamento de sua mais importante e lucrativa
atividade econômica até então, a atividade turística. Tal movimentação inicia-se a partir de
1954 com as obras de construção da BR 101, que possibilitando a ampliação do fluxo de
pessoas, de bens e de informações faz emergir uma nova fase na história daquele primeiro
porto. Até a edificação da estrada, esse fluxo era constituído basicamente por comerciantes
ambulantes, trabalhadores rurais e pescadores, que, em sua maioria, ainda praticavam a
cultura de subsistência.
Em 1973, o Ministério das Comunicações, gerido por Mário Andreazza, reconhece o
potencial turístico de Porto Seguro e institui uma campanha de divulgação do município como
um dos principais pólos turísticos do país, cujos atrativos eram a beleza natural e a riqueza da sua
história, instituída como ‘berço da civilização brasileira’. Campanha que, pode-se dizer,
oficializa a delimitação do imaginário turístico local a partir da carta de Caminha. Desde então, o
município começa a se desenvolver economicamente, tornado-se um importante centro receptivo
cada vez mais dinâmico tendo atual complexidade social fomentada a partir da década de 1990.
No período de 1990 a 2000, Porto Seguro passa por profundas transformações em sua
dinâmica cultural, em que se observam, por um lado, melhorias na sua infra-estrutura urbana e
nas condições de vida da população e, por outro, a emergência de uma série de conflitos
socioeconômicos decorrentes das diferenças de interesses entre grupos que compõem a dinâmica
e a identidade do local.
110
De acordo com dados do Plano de Desenvolvimento Integrado do Turismo
Sustentável na Costa do Descobrimento – PDITSCD – (2001), elaborado pela Prodetur e
pela Bahiatursa, na década de 1990, aponta-se um crescimento relativo de 78,1% na
geração de empregos diretos e indiretos na Costa do Descobrimento, concentrados, a sua
maioria, no município de Porto Seguro. Segundo o plano, 73,6% dos estabelecimentos
comerciais e de serviços da Costa do Descobrimento estão concentrados no município, o que
demonstra a sua importância para a economia da região, proporcionando benefícios em
termos de geração de renda, empregos, arrecadação de impostos e atração de novos
investimentos.
Na década de 1990, o município obteve bons resultados com relação à circulação de
capital e à sua estruturação urbana. Conforme o PDITSCD (2001), Porto Seguro
apresentou, na década de 1999, o 17º (décimo sétimo) maior Índice de Desenvolvimento
Econômico do Estado, sendo o 22º município com o maior Produto Interno Bruto – PIB.
Esses resultados, praticamente, devem-se aos investimentos realizados para dar suporte à
atividade turística, incluídos investimentos em meios de hospedagem, em restaurantes e em
parques temáticos e demais empresas de entretenimento.
De 1994 a 2000, o número dos meios de hospedagem (pousadas e hotéis dos tipos A,
B e C e aqueles não enquadrados na categorização)18, passou do total de 354 para 502,
ampliando de 4.635 para 10.204 o total de unidades habitacionais, e de 14.540 para 31.438 o
número de leitos no município. A cidade também tem o maior número de bares e
restaurantes da região (209), apresenta o maior número de prestadores de serviços de
18
Os meios de hospedagem distribuídos nos tipos A e B, segundo a Bahiatursa, são aqueles que oferecem maiores
opções de instalação e equipamentos para o conforto do hóspede (restaurantes, bar piscina estacionamento...). Os
considerados tipo C e não enquadrados, oferecem o mínimo de instalações.
111
entretenimento, cerca de 20 (vinte), considerando parques temáticos, boates, cabanas,
museus, além da preservação das edificações históricas, que, de fato, se constitui como um
dos principais fatores de atração turística. Na cidade de Porto Seguro, estão localizadas três
das cinco agências de viagem da região, além do centro de convenções, o aeroporto
internacional, seis agências bancarias (Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica
Federal, Itaú, HSBC e Real), que dão suporte a toda Costa do Descobrimento.
Junto a essas empresas, constata-se a utilização de tecnologias digitais na
operacionalização das ações cotidianas e turísticas, delineando o caráter ‘ciber’ da cidade. Os
bancos de auto-atendimento, os sistemas digitais de segurança, os ‘cybercafes’, os hotéis
inteligentes, que operam a partir de sistemas de controle digitais, os adesivos de operadores de
cartões de créditos e de cheques eletrônicos estampados nas vitrines das lojas sinalizam que a
cidade apresenta um potencial de operacionalização contemporâneo. Ainda, locais de diversão
como a ‘Tenda Cyber dance Café’, na Cidade Baixa, o centro de informação denominado ‘Guia
Virtual’ na Cidade Alta, além das constantes raves, do visual cyberpunk da juventude local e da
projeção da cidade no ciberespaço comunicam o caráter cibernético do local, de modo que se
pode pensar Porto Seguro como uma potencial ciber-cidade.
Todos esses resultados justificam o rápido crescimento populacional do município na
década de 1990. A população aumentou cerca de 47%, atingindo no ano 2000 um total de 95.665
habitantes, dos quais 83,1% concentraram-se na área urbana, constatando-se a predominância de
jovens com idade abaixo de 35 anos19. Este fato deve-se não somente ao desenvolvimento da
atividade turística, mas também devido à migração da população rural em função da decadência
da agricultura, principalmente, da lavoura cacaueira da região. Com esse movimento migratório,
19
Dados constatados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE
112
houve um constante aumento do número de bairros no município, dos quais, muitos deles,
caracterizam o processo de favelização. De acordo com o coordenador do setor de cadastramento
da prefeitura municipal, José Emanuel Simões, há atualmente na sede do município 31 (trinta e
um) bairros dos quais oito correspondem à classe média, nove, à classe média baixa, sete
constituem a classe baixa e seis bairros podem ser classificados como sendo de classe média alta.
Como aponta o presidente do Conselho Regional de Turismo da Costa do
Descobrimento, Laércio Gomes da Silva, esse movimento migratório em direção à cidade de
Porto Seguro, geralmente, em busca de emprego e de melhores condições de vida,
desencadeou uma série de fatores que tornam a organização social cada vez mais complexa
e carente de medidas públicas voltadas para a amenização das suas problemáticas.
Com a fama de que Porto Seguro era um Eldorado, as pessoas começaram a vir
para cá, principalmente pessoas de baixa renda. Com a administração criminosa
de ex-prefeitos de quatro em quatro anos, nasce uma sub-cidade em Porto
Seguro. Nós temos um crescimento médio maior de 10% ao ano, um dos
maiores do Brasil. Veja que nós não temos emprego para isso, devido a
sazonalidade da nossa economia. Nós não apostamos na indústria. Como falam
‘os verdes’ a indústria vai poluir, eles não acreditam em indústrias não
poluentes. Como Ilhéus fez. Nessa parte, Ilhéus deu uns passos, com o campo de
informática. Mas errou porque começou a comprar produtos prontos e virou só
carcaça, como é na Zona Franca de Manaus. Se ela apostasse nas indústrias de
informática e incentivasse indústrias de software e hardware, ela ganhava
dinheiro, ali se planejava, ali se produzia... mas mesmo assim conseguiu
bastante emprego. Não é como aqui que só é turismo, turismo, turismo. A
padaria, o mercado, a lavanderia, tudo esperando pelo setor. Então inchou a
cidade, mas houve benefícios para a população? Todo esse inchaço causa um
grave problema para o setor turístico e para a população nativa. Essa
especulação em torno do turismo não melhora em nada a vida do pequeno
empresário (SILVA, Laércio Gomes. Presidente do Conselho Regional de
Turismo da Costa do Descobrimento Em entrevista na segunda etapa da
pesquisa de campo).
Por conta desse inchaço populacional, observam-se processos de favelização, pressão
nos serviços de saneamento; aumento do volume de água consumida que se acentua nos
113
períodos de alta temporada entre os problemas que caracterizam a atual estrutura social da
cidade de Porto Seguro. Além desses fatores, percebe-se, através dos números apresentados
pelo PDITSCD (2001), que os centros médicos e hospitalares não são suficientes para
atender à demanda populacional muito menos à turística (2 Centros de Saúde, 10 Postos de
Saúde, apenas 1 hospital conveniado ao SUS e um total de 15 leitos contratados).
Também se observa que o número de unidades escolares é pouco para propor
educação com qualidade aos moradores. Além do número reduzido de escolas, Laércio
Silva, aponta que a falta de orientações sobre turismo nas escolas tem contribuído para a
formação de profissionais sem a devida preparação para atuar junto à atividade turística.
“Somos uma cidade turística e não temos turismo nas escolas públicas. Noções de turismo, de
cidadania... não temos”, relata o presidente. De acordo com o disposto no site20 da Secretaria
de Educação do Estado da Bahia existem no município, um total 106 escolas que oferecem o
ensino fundamental (quatro particulares, três estaduais e 99 escolas da rede municipal) e
apenas oito escolas oferecem o ensino médio (seis estaduais e duas particulares). Assim,
observa-se a dificuldade de concluir o ensino médio e ter acesso ao curso universitário,
embora existam universidades particulares próximas ao local (nos municípios de Santa
Cruz Cabrália e de Eunápolis), e um campus da Universidade Estadual da Bahia, no
município de Eunápolis.
Assim sendo, pode-se inferir que as poucas possibilidades de educação e qualificação
profissional, a quantidade rarefeita de unidades hospitalares, o processo de favelização e a
problemática na administração pública, como informou Laércio G. da Silva, tudo isso
associado a um desenvolvimento econômico desordenado que cada vez mais amplia os
20
www.sec.ba.gov.br
114
conflitos sociais, contribuiu, no final da década de 1990, para a classificação do município
como o 165º (centésimo sexagésimo quinto) em Índice de Desenvolvimento Social – IDS – da
Bahia. Dado que aponta para necessidade de medidas voltadas para melhor organização do
setor.
Partindo do princípio de que “morar na cidade visa elucidar as práticas culturais de
usuários da cidade no espaço do seu bairro” (DE CERTEAU, 2003, p. 37), admite-se que essa
categorização do IDS pode melhor ser compreendida através do confronto entre as estruturas
organizacionais dos bairros do Baianão, o mais popular do município, e o bairro Paraíso Pataxós,
localizado em uma área nobre. O bairro é um espaço dinâmico no qual a sua complexidade está
atrelada às ações cotidianas dos cidadãos que, por sua vez, delineiam as suas urgências enquanto
usuários da cidade. Assim sendo, pode-se perceber (Box 1.1 e 1.2), através do estudo sobre os
bairros estipulados, códigos e situações de diferentes grupos culturais, que fomentam a dinâmica
da cidade, podendo estes comunicar as divergências organizacionais, nas quais se observam
fatores representativos desse baixo índice de desenvolvimento social.
Box 1.1. Bairro Paraíso Pataxós:
115
Fotografias Moabe Breno
Situado no litoral Norte, em frente à praia de Itaperapuã, o Paraíso Pataxós é um dos bairros que
gozam dos melhores serviços públicos do município. Sinalização adequada para o tráfego de
transportes, boa iluminação, coletores de lixo nas residências, são, entre outros, fatores que
contribuem para a sua melhor organização. O bairro é puramente residencial, ficando suas ruas
quase sempre vazias. Os moradores são, em sua maioria, empresários do turismo oriundos de
outras regiões do Brasil ou de outros países.
Box 1.2. Bairro Baianão:
116
Fotografias Moabe Breno
O Baianão é o mais populoso bairro do município, e talvez, por isso o mais complexo. Em suas
ruas, comércio e moradia misturam-se, compondo a dinâmica local. Afastado do centro da cidade,
o bairro é povoado, em sua maioria por nativos, que, em geral, constituem a mão-de-obra barata
do setor turístico ou tem como fonte de renda pequenos negócios no próprio bairro. A própria
organização do Baianão já indica a complexidade social em que está circunscrito. De um lado,
ruas pavimentadas com casas que apresentam bom estado de conservação. De outro, ruas sem a
mínima infra-estrutura comportam casas que denunciam a situação de pobreza e de isolamento em
que vive a maioria da população.
A comparação entre a organização dos bairros, portanto, possibilita a percepção de
que vigora no município um processo de má distribuição de renda, característica do
capitalismo, que pode culminar em várias outras problemáticas sociais já mencionadas.
Esses conflitos também situam Porto Seguro no âmbito global das cidades capitalistas.
Afinal, as divergências entre classes caracterizam a racionalização típica do processo de
reprodução do capital, na qual a circulação dos lucros vai privilegiar uma classe ao passo
que põe em uma situação menos privilegiada outras. Nesse contexto, pode-se incitar a
emergência dos processos de integração perversa, superexploração, exclusão social e
individualização do trabalho, estudados anteriormente.
Com Roedel (1999) é possível compreender que esses conflitos promovem a
redefinição de comportamentos culturais, culminando na formação de blocos econômicos e
sociais que definem representatividades locais. Nesse sentido, aponta-se que, em escala
municipal, as associações de moradores e de profissionais ligados ao turismo, os sindicatos
dos trabalhadores e as lutas por direitos iguais fomentam uma nova dinâmica social, na
117
qual se nota que a população está, de certo modo, atenta às exigências da atualidade. A
esses fatores, acrescenta-se que há, por parte da população, uma busca por especialização e
melhores capacitações profissionais, podendo estas ser notificadas a partir da emergência
de cursos de idiomas e de informática no município, a partir de meados dá década de 1990.
Pode-se dizer, contudo, que Porto Seguro comporta-se como um centro regional,
atento às transformações mundiais. A essa observância, acrescenta-se o fato de que o
imaginário turístico sobre o município é o principal responsável pela atração de
empresários no setor para a Costa do Descobrimento, evidenciando dados registrados no
PDITSCD (2001).
Assim sendo, compreende-se que Porto Seguro comporta-se como
referência socioeconômica da Costa do Descobrimento e que através da afirmação de um
cosmopolitismo, a partir da atividade turística, tem delimitado o seu patrimônio cultural
como um patrimônio comum para a sociedade brasileira (e talvez mundial), afinal, existe
uma identificação do turista com o município enquanto produto turístico, que pode ser
comprovado a partir do crescimento contínuo do índice de visitação no local durante a
década de 1990. Pode-se considerar, entretanto, que essa interdependência também está
presente no imaginário das pessoas que migraram para o município nesta década,
vislumbrando novas possibilidades de vida, e que constituem o atual tecido urbano do local.
Pode-se inferir, portanto, que a cidade é um sistema integrado, onde seus elementos
interagem para a formação de um todo, com significado próprio, que pode ser
compreendida fora de suas fronteiras, a partir da identificação e reconhecimento dos seus
elementos. Trata-se de uma unidade formada pela interação de aspectos políticos,
econômicos, sociais, históricos e naturais para a delimitação de características que se
118
evidenciam pelas atividades desenvolvidas no âmbito local e que podem se proliferar por
vários outros campos, a partir de sua própria organização.
Nesse sentido, observa-se que a cidade é um sistema concebido pela busca da qualidade
de vida que toma forma própria à medida que se vão definido suas funções e especificando suas
atribuições e valores a partir das concepções de sua população e de sua significância frente à
região e ao Estado do qual faz parte. Por essa perspectiva, Lemos (2001) as concebe como uma
produção do homem para a promoção da vida em comum, de modo que sua organização pode
fomentar três aspectos importantes à sua identificação, a saber, o aspecto cósmico, o prático e o
orgânico.
O aspecto cósmico permite o entendimento da idéia que o local venha a desempenhar,
considerando a estruturação dos seus traçados que funcionam como representações culturais,
através das quais pode-se identificar o ‘senso do local’, usando o termo de Horan (2000),
delimitando fatos históricos e práticas contemporâneas fomentadas na cidade, apresentando e
comunicando a função que o lugar desempenhe. Desse modo, pode-se dizer, que as formas
arquitetônicas assim como as paisagens naturais podem sinalizar comportamentos possíveis de
realizarem nos locais, de modo que empresários e o próprio turista possam identificar as
atividades desenvolvidas em um dado espaço.
Um ambiente construído comporta diferentes maneiras de análises do significado da organização espacial, mediante a correlação com os
símbolos, signos, materiais, cores e formas de paisagem, ou seja, a análise por meio dos aspectos icônicos do ambiente. Dessa forma, o
significado do espaço deve representar um sistema, indicador da situação espacial, concebido por base nas relações entre elementos e pessoas
que se interagem. Os princípios que regem essa relação usuário/ambiente ocorrem dentro dos diversos aspectos de organização social,
cultural, econômica e política (MINANI 1996, p. 118).
Assim, em Porto Seguro, evidencia-se a possibilidade de se realizar o turismo ecológico, a
partir da sua riqueza ambiental, prática turística que caracteriza o ócio criativo (DE MASI, 2000)
a partir da preservação do patrimônio material na Cidade Alta, no Quadrado, em Trancoso, nas
119
tribos indígenas e na Passarela do Álcool e mesmo em outros locais que ainda não estão inseridos
nos roteiros de turismo do local. Constata-se, na rua do Mucugê, no Arraial d’Ajuda, e em praias
mais distantes da movimentação massiva, geralmente entre Trancoso e Caraíva, o fomento a
práticas sociais a partir da disseminação da ciberarte e da ciber-moda (objeto de estudo do
próximo tópico). Fomenta-se também o turismo de eventos pelos investimentos em espaços
adequados à realização de shows e eventos de qualificação profissional ou de negócios. Ainda,
cogita-se no município o turismo de lazer, considerando a diversidade de praias e o clima tropical
bem como a potencialidade receptiva e festiva da cidade que se observa na constituição das
cabanas, restaurantes e espaços públicos projetados para acolher o maior número possível de
pessoas no ritmo das músicas e danças contemporâneas.
O outro aspecto da cidade – o prático – vai compreender os espaços habitados, onde são
desenvolvidas as relações comerciais e a dinâmica local. Nesse caso, evidencia-se o
desenvolvimento material voltado para a consumação e a circulação do capital. Assim sendo,
aponta-se que a dinâmica do centro da cidade e toda a movimentação e especulação em torno da
atividade turística, permitem a percepção do aspecto prático de Porto Seguro. O turismo provoca
uma transferência de recursos de uma região para outra por meio da movimentação de pessoas
que viajam em busca da satisfação de suas necessidades. O efeito econômico é o mesmo das
exportações, que resulta no ingresso da moeda internacional no país, porém é peculiar da
economia turística o deslocamento do consumidor até o local produtor, caracterizando o que
Oliveira (2000, p.49) define como “exportação invisível de bens e serviços”. Esses produtos
disponibilizam-se na forma de passeios, traslados, hospedagens, alimentação, ingressos, compras,
entre outros serviços característicos do local.
Nesse sentido, por oferecer tantos atrativos e produtos turísticos, a cidade de Porto Seguro
deve se preparar para receber e acolher pessoas com gostos e condições econômicas os mais
120
diversos possíveis. Afinal, a lógica econômica do setor é oferecer ao consumidor a maior gama
de produtos e serviços disponibilizados nas mais possíveis formas de pagamento, de modo a
ampliar constantemente o fluxo de capitais no local. Pode-se apontar que o município já opera
segundo critérios da Nova Economia, considerando o gerenciamento de informações direcionadas
aos seus segmentos, a partir da projeção de empresas turísticas no ciberespaço e a partir da
utilização de TICs como cartões de crédito e cheques eletrônicos. Essas especializações são
importantes para garantir o fluxo de informações entre os atuantes diretamente ligados ao setor
(empresários e turistas), potencializando a sua funcionabilidade, já que essas ‘informações
mercantis’, como denomina Beyers (2000), vão antecipar a relação entre o turista e a cidade.
Considerando os aspectos cósmicos e práticos, entende-se que a cidade turística, tanto
comporta-se como um espaço de fluxo, afinal há um constante fluxo de pessoas de capitais e de
informações, quanto como um espaço de lugar, uma vez que a cidade tem dinâmica e
complexidade própria, que ultrapassam as características delimitadas pela atividade turística.
Estas (dinâmica e complexidade) podem ser percebidas pela constituição dos seus bairros que
definem uma organização racional, caracterizando uma produção cultural glocal.
Nesse sentido, pode-se pensar a cidade turística como um corpo sistêmico ou um sujeito
universal (DE CERTEAU, 1999), que a partir de uma movimentação específica tem garantida a
sua funcionabilidade. Desse modo, evidencia-se o caráter orgânico da cidade, ou seja a
movimentação que a torna peculiar e permite a emergência da totalidade de ações que compõem
a sua dinâmica e, em conseqüência, a sua identidade cultural. A cidade turística, portanto, ao
reunir os aspectos cósmico e prático, acaba por constituir-se como um composto – uma mistura
de estilos, de sensações e de realizações – através do qual pode-se perceber a sua
funcionabilidade, a sua organicidade, ou seja, a sua vida própria. Por essa acepção, compreendese cidade turística como um ‘composto orgânico turístico’. Para tanto, considera-se que o
121
imaginário sobre o local, a totalidade das empresas e ações voltadas para a prestação de serviços
turístico bem como as concepções do nativo sobre a cidade (que será evidenciada no tópico 3.2.2)
devem sinalizar uma conjuntura socioeconômica que tem como eixo principal a atividade
turística.
Essa concepção da cidade enquanto composto orgânico turístico pode contribuir para a
potencialização da atividade, uma vez que a partir dessa compreensão pode-se melhor planejar os
tipos de turismo praticados no local. Nesse sentido, evidencia-se que “quando se trata de planejar
ações derivadas de qualquer agrupamento humano, deve-se compreender toda a complexidade
dessa abordagem, e aceitar que o planejamento deve corresponder às expectativas da sociedade
como um todo” (DIAS, 2003, p.88). Portanto, a tomada de decisões referentes à estruturação dos
segmentos turísticos deve ser entendida muito mais como uma forma organizativa delimitada a
partir de aspectos sociais e econômicos vigentes na sociedade bem como a partir do imaginário
sobre o local, considerando, evidentemente, as peculiaridades dos grupos culturais que
dinamizam os segmentos, constituindo as comunidades turísticas.
Desse modo, a cidade turística deve ser notificada a partir da organização dos seus
aspectos potencializados de modo a produzir a identidade do local e das formas como a cidade
possibilita emergir os fluxos que a caracterizam. A identidade, contudo, deve fluir das ações que
fomentam a dinâmica da cidade e não, apenas, de produções imagéticas de um espaço construído
para o consumo, afinal, está-se pensando a cidade como um composto orgânico, por isso “quanto
mais houver interações sociais, mais se propiciará a diversidade que dialeticamente levará à
realização de existências humanas mais ricas” (CARVALHO, 1996, p.100).
Assim sendo, aponta-se que essa concepção implica no entrelaçamento dos aspectos que
caracterizam a produção do senso do local, incluindo nessa perspectiva, a produção de espaços e
ações que espetacularizam a cultura, propondo, muitas vezes, aos visitantes apenas uma falsa
122
experimentação do espaço. Afinal, deve-se ressaltar que em um espetáculo, a cidade e turista
tornam-se, respectivamente, atração e público passivos, entregues às manipulações, produzindo e
desfrutando apenas o ilusório em um processo que se pode chamar de ‘alienação coletiva’.
Porém, é importante compreender como Debord (1997) que esse processo de espetacularização
da cultura também compõe a dinâmica do local.
Ao andar por ruas e estradas do município de Porto Seguro, não é difícil deparar-se com
pessoas vestidas com acessórios indígenas, vendendo objetos artesanais. Essa prática, em sua
maioria, representa uma teatralização da figura do índio, não correspondendo ao cotidiano atual
desse grupo étnico. Aliás, muitas dessas ‘figuras ilustrativas’ não compartilham das mesmas
perspectivas do grupo. Outro aspecto alienador pode ser constado na Cidade Alta, onde jovens
guias turísticos, muitas vezes reconstroem a história do local (sem as devidas especializações e
credenciamentos) para os turistas, cobrando altos valores pelo serviço.
Essas práticas representam a constituição de um processo de especulação, por parte dos
nativos, que, de algum modo, estão ávidos para explorarem os turistas, prática, que para muitos,
constitui-se em uma forma de sobrevivência. Segundo a visão de De Certeau (2003), pode-se
apontar que essas práticas constituem-se como acontecimentos-armadilhas ou lapsos da
visibilidade, reintroduzindo e reproduzindo as opacidades da história. Pode-se, entretanto,
reconhecer que essas práticas sociais denunciam aspectos malditos da organização pública, na
qual, pode-se inferir, considerando o depoimento do representante do Conselho Regional de
Desenvolvimento Turístico da Costa do Descobrimento, que não existe uma atuação política
voltada para a inserção dos grupos culturais menos favorecidos economicamente junto ao setor.
Contudo, admite-se que a produção artificial do lugar dificulta a estratificação da essência
do local, na medida em se oferecem apenas mercadorias para serem consumidas de forma
mecânica, limitando o produto turístico à mesma dimensão de qualquer um outro produto
123
industrial. A partir dessa limitação (um limite cultural) pode-se estar contribuindo para a
unificação das várias possibilidades de ações turísticas, uma vez que tudo passa a ser cogitado
apenas para a venda, atribuindo à cidade a condição de um parque de diversão qualquer. Por essa
razão, pensa-se que cidade turística deve, então, ser organizada dentro de um modelo que engloba
a originalidade, a simplicidade das ações e a autenticidade, garantindo a sua vida própria.
Portanto, compreende-se a cidade turística como um sistema orgânico, que, ao mesmo
tempo é prático, por dispor-se e facilitar o consumo, e cósmico, por apresentar aspectos que
despertam o interesse das pessoas em suas instalações, paisagens e ações, de modo a envolve-las
como um ‘composto orgânico vivo’, que tem uma dinâmica própria e funcional, através do
desenvolvimento de técnicas e espaços viabilizadores da constância dos fluxos de capital, de
informações e de pessoas.
Compreende-se que a constância desses fluxos vai contribuir, segundo a visão de Hall
(2003), para o processo de mutação da identidade dos destinos, promovendo o contínuo
surgimento de novas ações turísticas. Assim, evidencia-se que novas práticas econômicas e
sociais estão sendo cogitadas em espaços turísticos a partir das transformações mundiais
propostas pela cibercultura. Por essa acepção, no próximo tópico, será edificado um estudo da
atual cultura turística fomentada pela cibercultura no município de Porto Seguro, considerando
elementos que compõem o imaginário sobre o local e práticas que caracterizam expressões
culturais das tribos contemporâneas.
124
2.2.3. A movimentação turística fomentada pela cibercultura
Grupos de marinheiros saídos direto do porto, turistas solitários nervosos à caça
dos prazeres não listados nos guias, figurões do Sprawl exibindo enxertos e
implantes, e uma dúzia de diferentes, espécies de achacadores, todos
enxameando a rua numa intricada dança do desejo e do comércio. (GIBSON,
Willian. Neuromancer. 3 ed. São Paulo: Aleph, 2003)
A citação acima pode constituir-se como uma representação de práticas turísticas
contemporâneas, contribuindo para o entendimento de como a cibercultura está interferindo na
dinâmica das localidades globalizadas, corroborando para a edificação de novas estruturas
socioeconômicas. A literatura de Willian Gibson, aponta Jameson (1997), representa uma
inusitada realidade da ficção científica em um tempo em que predominavam as produções orais e
visuais. Difundindo o universo cyberpunk, a obra do ficcionista constitui-se como uma expressão
das atualidades das corporações multinacionais e da própria dinâmica global, mostrando as
possíveis transformações do social.
Por essa perspectiva, busca-se ratificar a idéia apresentada no primeiro tópico deste
capítulo, que aponta para um contínuo surgimento de novas práticas culturais, a partir do
desenvolvimento tecnológico, que desencadeiam códigos, formatos, padrões, pensamentos e
atitudes que caracterizam um local em um tempo. Portanto, pode-se dizer que esta nova
atmosfera ‘cyber...’ contribui para a redefinição dos sentidos da cidade, interferindo,
conseqüentemente, nas atividades em que trocas socioeconômicas estejam em jogo, como a
turística. Assim, notifica-se ressignificações e reconfigurações das ações e dos lugares a partir
dos usos de tecnologias digitais, que põem a atividade em uma esfera cibernética, fomentando
125
uma conjuntura turística em que se observa a associação das novas tecnologias às entidades
envolvidas na atividade, possibilitando a emergência de um ‘turismo cibernético’ – o turismo da
cibercultura.
Essa definição, contudo, não busca ressaltar uma nova modalidade de turismo (um novo
segmento) muito menos inferir a idéia de um determinismo tecnológico junto à atividade
turística, apenas, indica que existe a apropriação de aspectos característicos da cibercultura pelo
setor, capazes de potencializar ações já vivenciadas nas localidades. Assim, observam-se, em
Porto Seguro, agilizações em operações comerciais, maior controle e padronização das ações em
hotéis e aperfeiçoamento nos sistemas de seguranças dos empreendimentos. Além desses fatores,
pode-se dizer que a produção e consumação da ciber-moda e da ciberarte no destino intensificam
os seus aspectos festivos, ratificando a idéia de local da permissividade e de libertação.
Esses aspectos colocam o turismo em uma esfera cibernética constatada a partir de
edificações que se comportam como digital places, da estética dos locais que comunicam o uso
de tecnologias digitais e da predominância das chamadas ‘áreas liberadas’ nos distritos de
Trancoso e, principalmente, Arraial d’Ajuda, evidenciando, a estética e posicionamentos de
turistas que freqüentam esses espaços. Ainda, corroboram para essa constatação, as promoções
das festas raves, o designing dos flyers das festas locais, além de aqueles fatores que caracterizam
o destino como uma potencial ciber-cidade, como já se evidenciou. Assim, ao longo da pesquisa
de campo, descrita no tópico anterior, foram observadas e fotografadas ações turísticas, que
fomentam a emergência da cibercultura junto à atividade.
Os cybercafes, os bancos de auto-atendimento, o centro de informação chamado Guia
Virtual, na Cidade Alta, um espaço ressignificado, o espaço de entretenimento e comunicação
denominado ‘Tenda Cyber dance café’ indicam a edificação de digital places (Horan, 2000) no
126
local e sua utilização pelo setor turístico, como demonstrado nas ilustrações que se seguem (Box.
1.1; 1.2; 1.3 e 1.4).
Box 1.1: Cybercafes
Fotografia Moabe Breno: Cybercafe em Porto Seguro
Fotografia Moabe Breno: Cybercafe em Arraial d’Ajuda
Tornou-se incontável o número de cybercafes no município. No período de alta estação, na cidade de Porto
Seguro e nos distritos do Arraial d’Ajuda e em Trancoso, o funcionamento desses empreendimentos inicia por
volta das 9h00, quando os turistas começam a circular, ficando abertos, geralmente, até a meia noite, em Porto
Seguro, e muitas vezes perduram a madrugada, nos distritos. Principalmente os turistas de outros países
utilizam esses serviços, cujo valor varia de R$ 0,08 a R$ 0,15 o minuto.
Box. 1.2: Bancos de auto-atendimento 24 horas
Fotografias Moabe Breno: Posto de auto-atendimento em Porto Seguro
Durante a pesquisa, foram identificados oito postos de auto-atendimento bancário no centro da cidade de Porto
Seguro (Bradesco (2), Itaú (2), Real, Banco do Brasil, HSBC e um Banco integrado 24 horas), três no aeroporto
internacional (B. Brasil, Bradesco e C. Econômica) e dois postos no distrito de Arraial d’Ajuda (Cx.
Econômica e Banco do Brasil), e um em Trancoso (Banco do Brasil) os únicos de toda a Costa do
Descobrimento. Os horários de maior movimento nestes locais, são no início da manhã e no início da noite.
127
Box 1.3: Guia Virtual
Fotografia Moabe Breno.
Em meio à arquitetura colonial do centro histórico, na Cidade Alta, no final do percurso delimitado pelos guias
locais, há a devida adaptação da história à contemporaneidade. O guia virtual, um espaço ressignificado, é um
local onde o turista tem acesso a um hipertexto virtual, contendo características e algumas informações
turísticas sobre a Costa do Descobrimento. Este conteúdo é vendido em CD, que recebe o mesmo nome do
local, pelo valor de R$ 25,00. O conteúdo do CD vale-se de caracterização de aspectos históricos da Costa do
Desc., além de enumeração dos atrativos e produtos turísticos, propagando o imaginário da carta de Caminha.
Também estão enumerados na mídia hotéis, pousadas e restaurantes.
Box 1.4: A Tenda Cyber Dance Café
Fotografia Moabe Breno. O empreendimento e, ao lado, o proprietário.
No espaço de uma edificação antiga reconfigurada e ressignificada, A Tenda cyber Dance Cafe é um local
multiuso, situado na Cidade de Porto Seguro. Funciona tanto como cybercafe quanto como boate, que toca
apenas ritmos digitais como trance, house e tecno. Foi inaugurada no verão de 2004. A perspectiva do
proprietário, um clubber paulista que mora há 15 anos no município, era atender ao grupo de turistas que,
segundo ele, cada vez mais busca por rimos eletrônicos no local.
128
Outro fator que situa o turismo na esfera cibernética é a fixação de adesivos de operadoras
de cartões de crédito e de cheques eletrônicos nas vitrines e paredes das lojas da Passarela do
Álcool (fig. 2), o que contribui para a edificação de uma nova paisagem urbana.
Box 2: Passarela do Álcool
Fotografia Moabe Breno.
A Passarela do Álcool é o local de maior concentração de lojas para a venda de artefatos locais e de
restaurantes da Costa do Descobrimento. A movimentação maior da avenida tem início no final da tarde,
quando os turistas estão voltando das suas atividades diurnas, até à meia noite, quando começam as festas nos
centros de entretenimento noturnos. Em quase todos os estabelecimentos da avenida, os adesivos das
operadoras de crédito competem com os produtos oferecidos e com os traçados da arquitetura colonial. Ainda
configurando os usos das tecnologias digitais, na avenida, inúmeros vendedores ambulantes, em suas
barracas, oferecem aos turistas CDs e DVDs (piratas) de músicas e danças difundidas no local.
Pode-se dizer que essa paisagem urbana constitui uma nova estética para o local,
sinalizando operacionalizações econômicas através das tecnologias digitais, completando, desse
modo, a ambiência turística. Para Richard (2001), a estética comporta-se como um fator tradutor
e comunicador das ações e pensamentos produzidos em um local. Assim, pode-se compreender
que essa paisagem, que pode, muitas vezes, agredir aos padrões de beleza e as concepções
129
estilísticas do observador, sinaliza a potencialização de operacionalizações comerciais do destino,
a partir da cibercultura, podendo representar o que Maffesoli (1998) define como um ‘espírito de
tempo’.
Nesse sentido, aponta-se que essa apresentação física possibilita a percepção da
potencialidade tecnológica do local. Esta, em sinergia com a arte e com a arquitetura urbana,
redefinem
os
significados
locais
e
dinamizam
a
atividade
turística,
estimulando,
conseqüentemente, uma (re)organização socioeconômica.
Pode-se pensar que este seja o caso da estética que garante, desde então, a
sinergia social, a convergência das ações, das vontades, que permite um
equilíbrio, mesmo que conflitual, dos mais sólidos. Os historiadores mostram
que a arte stricto sensu pôde representar esse papel em inúmeras civilizações;
pode-se imaginar que a vida cotidiana enquanto obra de arte possa também
representá-lo hoje em dia (MAFFESOLI, 1996, p. 32).
Assim sendo, sem entrar na esfera do belo, admite-se que essas superposições de adesivos
bem como os outros espaços evidenciados neste trabalho comunicam uma reconfiguração das
ações a partir das tecnologias cibernéticas, definindo uma nova forma de pensar e encarar a
movimentação econômica junto à atividade turística, promovendo a inclusão do local no processo
de evolução tecnológica por que passa o mundo, o que contribui para ratificar a idéia de que
Porto Seguro comporta-se como cidade global da Costa do Descobrimento, apresentando caráter
glocal. Contudo, entendendo que muitos desses espaços analisados, em especial a Passarela do
Álcool, correspondem a áreas tombadas pelo IPHAN, comportando-se como espaços de
preservação da cultura nacional, admite-se que estas novas configurações e significações
apresentam-se dotadas de um certo grau de complexidade.
130
Por um lado, não se pode impedir comerciantes de comunicarem a potencialidade
tecnológica de seus empreendimentos somente para atender a questões estéticas anteriores
ao tempo contemporâneo. Em contrapartida, a paisagem urbana não deve estar submetida
aos interesses de uma entidade componente do trade turístico, afinal, fazendo uma analogia
a Maffesoli (1998), o marketing turístico não justifica essas loucuras dos empresários
estivais.
A sociologia dos usos visa assim entender o modo pelo qual usamos os
objetos técnicos no quotidiano, descrevendo uma perspectiva que flutua
entre a etnometodologia e a psicologia. Talvez seja mais apropriado falar
em astúcia dos usos, já que esse termo, mais aberto ao imprevisto, escapa à
idéia de ‘lógica’, como sustenta Perriault. Sabemos, com De Certeau, como
os usuários inventam o quotidiano, como eles investem conteúdos
simbólicos, imprimindo seus traços na mais banal ação do dia-a-dia. Não há
uma lógica, mas antes uma dialógica complexa (Morin) entre os objetos, os
usos e as obrigações funcionais destes mesmos objetos. (LEMOS, 2002, p.
259)
Assim sendo, entende-se que essas apropriações sinalizam tanto a utilização dos recursos
tecnológicos quanto representam as finalidades e funções contemporâneas do patrimônio
histórico. Pode-se dizer, entretanto, que a superposição de adesivos representa as expectativas de
os empresários locais aumentarem seus rendimentos a partir da atividade turística, afinal, essas
comunicações também podem ser interpretados como ‘convites à compra’ a partir das novas
possibilidades de pagamento.
Considerando essas possíveis expectativas dos nativos e empresários locais de
potencializarem as trocas econômicas a partir do turismo, pode-se admitir que essas
transformações na paisagem urbana são fatores que ocorrem naturalmente no local, contribuindo
131
para a peculiaridade da nova formação cultural. Assim, o que se está evidenciando é que, por
meio dessas transformações, percebe-se que a cidade de Porto Seguro está passando, mais uma
vez, por um momento de metamorfoses tecnológicas, iniciando, agora, um período que combina a
alta tecnologia aos espaços sociais, comunicando uma nova atmosfera do espaço, representada
por uma estética arquitetônica funcional assemelhando-se àquela apresentada por Gibson em seu
Neuromancer. Portanto, essa estética, longe de representar apenas uma ânsia capitalista, indica
um paradigma high tech da contemporaneidade, mostrando uma relação estreita entre a dinâmica
da atividade turística e as tecnologias digitais, fomentando a apropriação do imaginário da
cibercultura junto à atividade.
O imaginário da cibercultura aponta para a liberdade de expressão e para a popularização
da informação, através de fatores (realidade virtual, música eletrônica, imagens de síntese,
manipulações digitais...) que exprimem o “espírito transgressor, desviante e apropriador,
chegando à sua disseminação pelo corpo social, atingindo, mesmo indiretamente, todas as
pessoas que têm acesso às novas tecnologias” (LEMOS, 2002, p.258). Nesse sentido, observa-se
que as perspectivas delimitadas pelo imaginário da cibercultura encontram no imaginário sobre
Porto Seguro espaço ideal para se alastrar, possibilitando a emergência de novas práticas junto à
atividade turística, estimulando, desse modo, a produção e o consumo das novas tecnologias.
Panfletos de empreendimentos do circuito ‘Porto Nignt’, uma seqüência de cabanas na
beira da praia que oferecem a cada dia uma programação específica, assim como outras casas
noturnas comunicam diretamente manifestações da ciberarte. Por um lado, observa-se que o tipo
de letreiro utilizado faz parte do universo cyberpunk, assemelhando-se ao descrito por Gibson
(2003) – geralmente com maiúsculas retorcidas que imitam japonês impresso – no seu clássico
literário Neuromancer. Por outro lado, o destaque para os ritmos eletrônicos evidencia a absorção
da ciberarte junto às festividades locais (Ver Box. 3.1.).
132
Box 3.1: Panfletos de festividades noturnas
Esses são dois flyers representativos dos processos
comunicacionais utilizados na divulgação das
festividades. Nesses dois exemplos pode ser
percebida a presença do imaginário cyberpunk seja
através do letreiro, seja na comunicação dos ritmos.
Pode-se dizer que o imaginário da cibercultura associado ao imaginário sobre Porto
Seguro está propondo novas experimentações no local. Através da sinergia entre as imagens que
compõem esses imaginários, alguns espaços turísticos estão sendo formatados como centros
receptivos das tribos do underground, possibilitando, assim a efervescência de uma nova
comunidade turística no local. Nesse caso, deve-se ressaltar os distritos do Arraial d’Ajuda, de
Trancoso e de Caraíva.
Esse novo imaginário – um imaginário sinérgico – pode ser percebido em reportagens de
jornais de circulação estadual e nacional, que divulgam os distritos como espaços propícios à
associação do ‘clima legalize’ e da música alucinante da cibercultura à natureza exótica do
município. Desse modo, pode-se descrever esses espaços, conforme a obra ficcional de Gibson,
133
como uma ‘arcologia21 turística’, associando a arquitetura e a natureza a manifestações
comportamentais e artísticas características da cibercultura, corroborando para a formação de um
novo senso do local, e, ampliando a noção do que se está denominado turismo cibernético.
A reportagem ‘Arraial e Trancoso: para badalar’, da editoria de turismo do Jornal do
Brasil, de 20 de julho de 2002, delimita as localidades como destinos freqüentados pelos
‘moderninhos’, (termo referente aos adeptos da ciber-moda). Em meio à adjetivação das praias
como ‘badaladas’, ‘lindas’ e ‘deslumbrantes’, a reportagem destaca “as conhecidas raves, festas
eletrônicas que chegam a durar uma semana” como parte da programação dos locais que, como
sinalizado pelo impresso, correspondem a “marco de gente bonita e descolada”.
Com essa mesma perspectiva, a reportagem ‘Quatro séculos de Arraial d’Ajuda’, de 14
de agosto de 2002, da editoria de turismo do jornal, À Tarde, descreve o destino, apontando que
“o clima da vila é descontraído. Nas ruas, hippies convivem harmoniosamente com turistas que
procuram conforto”. Em outra reportagem, ‘Rumo à estação Caraíva’, de 24 de janeiro de 2003,
o mesmo jornal, após descrever o distrito como local de águas mansas, límpidas e piscinas
naturais, constituindo “uma da mais belas paisagens do litoral baiano” aponta que “no final da
tarde, jovens como colares de índio, ‘dread looks’, e clima legalize” se reúnem para olhar o pôrdo-sol, preparando-se para, em conseguinte, aproveitar a agitação noturna.
Esse aspecto pode melhor ser percebido através do depoimento de turistas que freqüentam
o local. Os depoimentos foram coletados na segunda etapa da pesquisa de campo, descrita no
tópico anterior. Foram entrevistados ao todo dez turistas, dos quais apenas quatro deixaram-se
fotografar e dois outros não permitiram, na íntegra, a reprodução de suas percepções. Como as
21
Conforme a descrição de Gibson, arcologia refere-se a grandes cidades contidas num único edifício. O nome,
surgido da junção das palavras arquitetura e ecologia, foi cunhado pelo arquiteto italiano, radicado nos EUA Paolo
Soleri (1919), no final da década de 1960, para descrever seu conceito sobre novas cidades planejadas. Está-se aqui
fazendo uma apropriação do termo para propor uma ratificação da idéia de turismo cibernético.
134
entrevistas foram realizadas durante as raves, não foi utilizado o recurso gravador, sendo as
respostas anotadas.
O método utilizado foi o intencional não probabilístico por julgamento, cujo critério de
seleção dos entrevistados deu-se a partir do visual que caracteriza a ciber-moda. Para tanto,
partiu-se do princípio de que a estética possibilita emergir formas de socialidade, que, ampliando
a idéia de Maffesoli (1998), pode-se dizer com Lemos (2003), representa a multiplicidade de
experiências coletivas baseadas no ambiente imaginário, passional, erótico e violento do
cotidiano dos homens. Nesse sentido, admite-se que a estética apresenta-se como um elo entre
membros de comunidades, que, por compartilharem de gostos e valores similares ou
convergentes, produzem então a identidade do grupo que se forma.
Foram propostas apenas duas questões aos entrevistados. Primeiro, pediu-se para
descreverem o local, em seguida perguntou-se sobre a utilização da internet, partindo do
pressuposto de que o imaginário da cibercultura envolve ações contínuas na rede mundial. A
partir das respostas referentes à primeira questão, pôde-se constatar a legitimação do imaginário
sinérgico, que se está evidenciando, sobre os distritos de Arraial e de Trancoso bem como a
forma natural com que os adeptos daquela comunidade turística convivem com a alteridade e
buscam saciar os seus desejos de interação e de descontração nesses destinos.
O empresário gaúcho, de 38 anos, descreve o Arraial e Trancoso como ambientes
ideais para fugir da sua rotina, contextualizando a idéia desenvolvida anteriormente, no
tópico 2.1.3.
Eu venho aqui há 15 anos. Vou vir sempre. Adoro viajar, porque trabalho
com antiquários, mas aqui eu venho descansar. Aqui é lindo. As pessoas são
descontraídas e descoladas, são bonitas. São livres, não é? Isso é muito bom,
quando venho aqui é porque estou cheio da minha cidade, aí eu venho ser
livre... fico entre Trancoso e o Arraial, é tudo muito bom.
135
O cabeleireiro mineiro de 36 anos, que esteve no município pela primeira narrou seu
encantamento com o local, mostrando-se tranqüilo como a diferença:
Arraial e Trancoso estão entre os melhores lugares que eu conheço. Aqui na
Bahia, não tem igual. Tudo é muito bonito. Esses bares todos
incrementados dão uma idéia de modernidade, mas ao mesmo tempo nos
remetem ao passado do país, principalmente aqui no Quadrado. Eu achei
fantástico esse lugar. Meus amigos vieram aqui no ano passado e ficaram
maravilhados com o local, com tudo. Eu só acho que é tudo muito caro aqui
e as pessoas usam muita droga por aqui. Eu não gosto, mas não me
importo, cada um faz o que quer de sua vida. Eu prefiro curtir a natureza...
não tem igual.
Para o turista da Nova Zelândia (32 anos):
Aqui (Arraial d’Ajuda) é muito bom. Aqui e em Trancoso. Aqui eu posso
ouvir trance, a música do meu país. Tem praias bonitas e pessoas bonitas
também e não tem muita gente, como em Salvador. É muito bom. Eu venho
ano sim, ano não, com meus amigos. Amanhã eu vou para Trancoso, para a
rave na praia.
A jornalista paulista, de 26 anos, relata:
Eu estou um pouco decepcionada com o local. Eu achava que aqui era mais
louco, mas não é muito. As raves não duram mais três dias como me
falaram, acabam 10h00, 11h00 da manhã, eu gosto de ficar sem parar, mas
mesmo assim eu estou gostando. Aqui é muito bonito, já estou aqui há um
mês e vou ficar todo o verão. Aqui tem um clima de ‘cybercultura’, eu gosto,
parece um pouco com a noite paulista, só que na praia.
O empresário mineiro de 29 anos, aponta ao mesmo tempo a tranqüilidade e a agitação
que, paradoxalmente, caracterizam o local. Em seu depoimento também se observa uma ênfase
ao multiculturalismo.
136
Loucura. Isso aqui é muito louco cara, é muito doido mesmo. Eu venho de
Miami todo ano. Passo Natal em Minas com minha família e depois venho para
cá. Venho ver o mar, além disso, eu gosto das raves e da mistura que rola por
aqui. Tudo fica misturado, todas as tribos, todos os gostos, todas as pessoas. Eu
‘acendo unzinho’ na praia, tranqüilo, à noite. Relaxo e depois curto a ‘night’
numa boa, até de manhã... Dou um mergulho e vou para o hotel descansar.
De acordo com os depoimentos acima, é importante atentar para dois fatos evidenciados
no tópico 2.1.3.. Pelo depoimento do empresário gaúcho bem como do cabeleireiro e do
empresário mineiros, observa-se a fuga dos seus respectivos cotidianos para enquadrarem-se
temporariamente em uma nova ambiência, onde possam interagir com pessoas que compartilham
de suas mesmas perspectivas em um espaço diferente daquele do seu convívio. Destaca-se desse
modo, a busca de interações que caracterizam o processo de socialidade, o que corrobora para a
compreensão do que neste trabalho, está-se denominando comunidade turística. Outro fator que
amplia essa compreensão está contido no depoimento do turista da Nova Zelândia e no da
jornalista paulista. Pode-se perceber, nestes dois casos, a busca de vivenciar ações semelhantes
àquelas experiênciadas em seus locais de origem, caracterizando, também, a tentativa de
encontrar manifestações culturais que correspondam às suas. Assim, ratifica-se a idéia de que,
para um determinado grupo de turista, estar em outro local que não o seu de residência, já é em
si, uma forma de vivenciar a alteridade.
Além dessas necessidades de liberdade e de interação, característica desse grupo turístico
que se está identificando, é importante ressaltar a estética da ciber-moda como um aspecto
indicador de integrantes desse grupo do underground, responsável pela sua coesão. Assim, por
trás do visual extravagante e exótico dessa tribo, que permite associar vários tipos de acessórios,
roupas de material sintético com cores destoantes, piercings, tatoos, parece estar implícita a
aceitação do outro em sua estética e conteúdo cultural bem como a busca de novos estilos de vida
137
e de apresentação física para uma possível adaptação. O que pode ser constado a partir do visual
e do depoimento de outros entrevistados durante a pesquisa (Box 4.1, 4.2; 4.3).
Box 4.1:. Designer, de 34 anos, paulista
Arraial e Trancoso são meus
lugares preferidos. Não é como
Porto Seguro. Aqui eu posso
usar minha moda fashion, que
ninguém se importa. Aliás aqui
todo mundo é fashion, por isso
eu exagero, eu adoro aparecer,
eu adoro cores... eu adoro isso
aqui. É muito ‘louco mesmo’.
Eu adoro dançar e conhecer
pessoas diferentes, e aqui eu
posso interagir com muita gente
diferente e de vários lugares
diferentes.
Fotografia Moabe Breno
Box 4.2: O clubber alemão (27 anos) exalta a qualidade da música eletrônica local
Fotografia Moabe Breno
Eu gosto muito desse lugar. Eu posso ouvir e dançar tecno, house, trence... a verdadeira música
eletrônica. Aqui toca a música que toca na ‘Parada Love’ em Berlim, que é a verdadeira música
eletrônica, a música de Goa, na Índia, onde tudo começou. Já tem quatro anos que eu venho aqui
com meus amigos e vou voltar todo ano.
138
Box 4.3: O estudante mineiro (25 anos) fala da liberdade e da permissividade:
O Arraial é tudo de bom. Belas praias, pessoas
legais e bonitas e as festas são alucinantes, eu curto
raves. Sem falar que aqui a gente pode fazer o que
quiser que ninguém importa. Ninguém está
preocupado com o que estamos fazendo, como
estamos vestidos, nem como nos comportamos. É a
primeira vez que venho ao Arraial e vou voltar todo
ano.
Fotografia Moabe Breno
Pelos depoimentos e estética dos entrevistados, pode-se legitimar a predominância do
imaginário da cibercultura junto à atividade turística local. Esse imaginário pode também ser
identificado nos dispositivos tecno-sociais que podem ser observados junto ao designing
arrojado da maioria dos bares e restaurantes do Arraial d’Ajuda e de Trancoso que reúne
materiais sintéticos, luzes de néon, combinando muitas cores em pinturas surrealistas. Nesses
ambientes, punks, clubbers, membros do GLBT, hippies, além de outros adeptos da contracultura constituem a maioria dos turistas, contribuindo para a promoção de uma verdadeira
mistura e associação de estilos de vida, cujas expressões ratificam esses locais como uma
‘arcologia turística’, onde estão associadas alta tecnologia, drogas (evidenciando as sintéticas) e
erotismo. Assim, com fundamento em Castells (1999b), pode-se considerar esses destinos como
‘áreas liberadas’, que, por sua vez, constituem-se como ambientes ideais para as manifestações
éticas e estéticas em que se observam gêneros próprios da cibercultura.
Entretanto, a produção e consumação dos ritmos eletrônicos, talvez seja o aspecto que
melhor caracteriza o Arraial e Trancoso como espaços onde se observa o imaginário da
139
cibercultura. A música tecno é tocada na maioria dos bares desses locais, atraindo, como o
clubber alemão, da amostragem, vários adeptos desse estilo, promovendo, e, ao mesmo tempo
exemplificando, novas formas de se tecer o laço cultural na contemporaneidade. Para tanto,
considera-se com Lévy (1999, p. 143), que a música tecno constitui a forma dinâmica “que define
a essência da cibercultura”, acrescentando, nesse sentido, que as festas raves constituem-se como
um nexo para a consolidação dessa ‘comunidade turística underground’.
Através das raves, pode-se perceber junto a essa comunidade, uma condição autoorganizadora, delimitando esses destinos turísticos a partir de peculiaridades culturais que
apontam para a edificação de um sistema social aberto, caracterizado por uma forma de dupla
polaridade, que, de certo modo, evidencia, por negar, as interações e ações que caracterizam
processos de sociabilidade, escancarando, muitas vezes, questões sociais que as administrações
públicas tentam sucumbir.
Entende-se melhor, nessas condições, porque as raves, que no fim das contas
certamente não oferecem mais tóxicos que as boates, e, de qualquer maneira,
fazem menos mortos que as saídas das festas de sábado à noite, tenham parecido
tão perigosos aos políticos. Nelas, o transe, ‘os produtos’, a violência são
integrados à festa e não deixados na porta (MAFFESOLI, 2004, p. 36).
Assim sendo, pode-se dizer que a ambiência das raves, geralmente afastada dos espaços
massivos e por se caracterizar, principalmente, pela falta de delimitações de todo tipo, põe em
questionamento os códigos racionais da tecnocracia, assinalando problemáticas sociais oriundas
das repressões dessa forma de dominação. Ao mesmo tempo, apresentam novas alternativas de
interação que podem caracterizar processos de socialidade, desmoronado barreiras políticas,
ideológicas, profissionais ou mesmo cultuais. Assim, evidencia-se junto as raves, um movimento
ou uma efervescência social, que, por apropriação aos estudos de Maffesoli (2001) sobre o
nomadismo, pode-se dizer que permitem aos turistas vivenciarem coletivamente experiências
140
culturais da contemporaneidade, acentuando ainda mais a idéia de ‘flanerie comunitária’
desenvolvida anteriormente.
Evidencia-se também uma prática cultural contemporânea voltada para a consumação. A
festa, as drogas, o sexo, e quaisquer outros excessos podem ser pagos nesses destinos turísticos,
e, a um custo alto, como ressaltou o cabeleireiro mineiro entrevistado. Assim, pode-se consolidar
a idéia da ‘flanerie burguesa temporária e comunitária’ e destacar, nesse sentido, uma nova
complexidade social no local, considerando, como já sinalizadas, implicações socioeconômicas
que se edificam a partir da inserção de tecnologias nos centros receptivos.
Assim sendo, ao considerar que o município de Porto Seguro tem uma dinâmica própria, é
preciso situar que junto às manifestações estéticas e artísticas características da cibercultura,
observa-se também uma série de conflitos, que, embora anteceda a inserção das tecnologias
cibernéticas nas ações locais, estão se proliferando com os usos não planejados dessas mesmas
tecnologias.
Aspectos que caracterizam problemáticas sociais contemporâneas no local podem ser
identificados através da reportagem ‘Porto Seguro pretende criar novas opções para turistas’ de
21 de maio de 2002 no jornal À Tarde. A matéria relata sobre o 1º Encontro Empresarial de
Porto Seguro, reunindo mais de trezentas pessoas que destacaram a necessidade de se ‘reiventar’
o destino turístico Costa do Descobrimento a partir de novas opções de lazer, maior valorização
das manifestações populares bem como melhores estratégias políticas junto às questões de
segurança, saúde, limpeza e informação.
As várias categorias representadas no encontro evidenciaram problemas e
perspectivas. Domingos Carvalho, representante dos pescadores, disse que as
tecnologias antigas e a falta de uma escola de pesca prejudicam a classe. Renato
Borges denunciou a concorrência desleal feita aos corretores imobiliários
regularmente credenciados. Para os produtores rurais, Pedro Vitório solicitou
141
passeios para que os turistas possam conhecer as roças onde se produzem os
alimentos consumidos na cidade. O vice-presidente da Associação Comercial,
Rogério Cardoso, cobrou uma informação mais pontual por parte do poder
público e uma redução na quantidade de ambulantes. ‘Nunca temos dados
oficiais sobre a saúde e segurança, as calçadas são ocupadas por barracas e nas
praias o assédio dos ambulantes aos turistas chegou a níveis insuportáveis’. O
presidente do Conselho Regional de Turismo, Wilson Spagnol, fez um apelo
para uma ação mais direta por parte da comunidade. ‘Precisamos saber quem
está dentro do barco’. (Jornal À Tarde, Editoria Municípios, caderno 4,
21/05/02)
Assim, observam-se processos que, como destaca Castells (1999b), estão condicionando a
era da informação a perplexidades. A corrida dos ambulantes em busca de turistas pode
caracterizar o processo de individualização do trabalho; a concorrência desleal pode culminar na
superexploração dos trabalhadores. Ainda pode-se dizer que a falta de técnicas modernas para a
pescaria, caracteriza o processo de exclusão social (e acrescentando a exclusão digital),
considerando que ricos grupos, geralmente nacionais ou multinacionais operam, no município, a
partir dos benefícios proporcionados pela cibercultura.
Nesse sentido, ainda ressaltando o processo de exclusão social, considera-se que a
emergência dos chamados hotéis inteligentes tem contribuído para a falência de pequenos
empresários da rede hoteleira local, afinal, além de oferecer serviços mais confortáveis aos
turistas, podem agilizar seus negócios pelo ciberespaço e saírem na frente da concorrência,
mostrando e oferecendo seus serviços diretamente na casa do consumidor, caracterizando práticas
referentes à Nova Economia.
Ratificando esse processo de exclusão social e apontando o processo de exclusão digital, o
presidente do Conselho Regional de Turismo da Costa do Descobrimento, Laércio Gomes da
Silva aponta que o município é carente de mão-de-obra especializada para atuar a partir dessas
novas tecnologias do ciberespaço.
142
Os grandes e médios hotéis são informatizados, fazem negócios via internet, compram não somente os insumos, pagam contas, e oferecem
serviços, mas a mão de obra aqui ainda é desqualificada, por isso eu digo que o povo vive entre o abismo e o céu. Falta educação digital.
Existem cursos caríssimos, para poucos. Nós estamos preparando os funcionários da Secretaria de Turismo. É uma ação exclusiva. Não temos
previsão de promover esses cursos para a comunidade, mesmo porque toda a problemática política dessa gestão, não possibilita uma
continuidade de ações. Mas na gestão anterior não tinha o pensamento de modernização. (SILVA, Laércio Gomes. Presidente do Conselho
Regional de Desenvolvimento de Turismo da Costa do Descobrimento, em entrevista para esta pesquisa)
Contudo, em hotéis que oferecem serviços pela internet ocorrem algumas situações
imprevisíveis, que o mesmo presidente (na entrevista concedida para este trabalho de pesquisa)
aponta também como conseqüência da falta de educação digital.
Hoje, por exemplo, eu estou com uma reclamação de um indivíduo que fez uma
reserva pela internet no hotel e não teve mais contato, quando chegou teve um
‘over book’ ele está sem quarto. Também tive notícias de uma operadora que fez
a reserva e não pagou e só hoje abril sua caixa e percebeu um e-mail frio de que
ele tinha sido transferido para outro hotel. (SILVA, Laércio Gomes. Presidente
do Conselho Regional de Desenvolvimento de Turismo da Costa do
Descobrimento, em entrevista para esta pesquisa)
De certo modo, essas ocorrências podem representar uma falta de credibilidade para com
as ações on-line. Por um outro lado, pode-se pensar nas projeções dessas empresas no
ciberespaço, como estruturas mal organizadas, nas quais o navegador (internauta) não dispõe de
formas comunicativas claras nem precisas junto à solicitação on-line de serviços. Assim sendo,
partindo do princípio de que comunicação e transportes constituem-se como pilares do
desenvolvimento das cidades turísticas surge a necessidade de se evidenciar um estudo sobre as
projeções de Porto Seguro no ciberespaço, compreendendo que essas extensões da cidade
completam o sentido do que se está chamando ‘turismo cibernético’.
Além dessa observância, foi constatado junto aos entrevistados que a internet pode tornarse um potencial meio de atração para turistas, afinal todos eles informaram estar conectados
freqüentemente, quando questionados sobre seus usos da rede mundial. Nesse sentido, pode-se
143
pensar esse ciberespaço como um ambiente ideal para a ampliação de relações entre turistas,
fomentando a constituição de ‘comunidades turísticas virtuais’. As comunidades virtuais, na
visão de Lévy (1999), formam-se a partir de afinidades de interesses e de conhecimentos e de um
processo de trocas e de cooperações que se dão em um ambiente no ciberespaço.
Assim, nos capítulos seguintes, será apresentando um estudo mais detalhado sobre
processos comunicacionais on-line, enfatizando as possíveis contribuições desse ciberespaço para
a potencialização da atividade turística. Após um estudo sobre a interferência da comunicação na
dinâmica dos locais, serão realizadas análises de sites referentes ao município de Porto Seguro,
observando como estão projetados o imaginário turístico e aspectos que compõem o cotidiano do
local bem como a disponibilização dos serviços on-line. Por fim, será apresentada uma indicação
de como a cidade virtual pode potencializar as ações turísticas e contribuir para a melhor
organização da cidade no espaço físico, preocupando-se com perspectivas de moradores locais.
144
3. PARTE II:
O MUNDO DIGITALIZADO
CULTURAS LOCAIS
E
SEUS
IMPACTOS
NAS
Criar meu web site, fazer minha home-page. Com quantos gigabytes se
faz uma jangada, um barco que veleje que veleje nesse informa, que
aproveite a vazante da informaré, que leve um oriki do meu velho orixá
ao porto de um disquete de um micro em Taipe. Um barco que veleje
nesse informar, que aproveite a vazante da informaré, que leve meu email até Calcutá depois de Hot-link, num site de Helsinque para
abastecer. Eu quero entrar na rede, promover um debate, juntar via
internet um grupo de tietes de Connecticut. De Connecticut acessar o
chefe de Macmilícia de Milão, um hacker mafioso acaba de solta, um
vírus para atacar programas no Japão. Eu quero entrar na rede pra
conhecer os lares do Nepal, os bares do Gapão, que o chefe da polícia
carioca avisa pelo célula, que lá na praça Onze tem um videopôquer
para
se
jogar.
(GIL,
Giberto.
Pela
internt.
http://vagalume.uol.com.br/letra/g/gilberto-gil/pela-internet.html, Acesso
em 17 de outubro de 2004)
Interação, comércio, serviços e várias outras ações estão sendo cogitadas pela internet, o
mais veloz e dinâmico meio de comunicação da contemporaneidade. As ações on-line, cada vez
têm tomado lugar no cotidiano das localidades, provocando verdadeiras mudanças na vida e nas
concepções das pessoas. Portanto, nesta parte da dissertação, será traçado um estudo de como têm
145
se comportado as representações comunicacionais de Porto Seguro no ciberespaço da internet
bem como as perspectivas sociais sobre a utilização deste meio.
No capítulo 3, intitulado ‘A cidade do ciberespaço’, serão apresentado conceitos e
características de Cidades Virtuais, envolvendo estudos sobre Comunicação Social. Em seguida,
será proporcionado um debate associando estudos teóricos sobre a interação entre governos,
empresas e cidadãos na rede, envolvendo aspectos considerados importantes tanto para a
dinamização e potencialização da atividade quanto para a melhor organização da comunidade
local. Por fim, será demonstrada uma análise de mediações on-line do município de Porto Seguro,
observando a presença dos aspectos estudados.
Já no capítulo 4, ‘Navegar é preciso. Viver é preciso também’, cujo título, evidentemente,
corresponde a uma remissão ao poeta Luis de Camões do século XVI, será apresentado um
estudo sobre a percepção de segmentos populacionais locais sobre cibercultura. Considerando
que a cultura do local caracteriza-se também pela mistura de etnias, serão apresentadas as
perspectivas de índios Pataxós sobre a internet, evidenciando quais as expectativas desse grupo
cultural sobre o meio, a partir da enumeração das principais problemáticas que estes enfrentam
atualmente. Será apresentada também a percepção de nativos sobre a internet, delimitando por
amostragem estudantes universitários e do terceiro ano do ensino médio.
Também se está evidenciando uma acepção de como a internet pode ser usada para propor
benéficos à sociedade local, a partir da sugestão de um modelo de cidade virtual, onde se possa
contemplar expectativas, intenções e interesses das entidades envolvidas na prática turística,
através da edificação de um processo comunicacional ético. Contudo, deve-se ressaltar que os
estudos sobre a população e etnicidade são apenas ilustrativos não tendo a pretensão de
estabelecer uma abordagem teórica. Mas esta noção é importante para que a proposta de
146
edificação da cidade virtual não corresponda a uma ação característica da tecnocracia, na qual um
olhar externo define as soluções para um dado grupo cultural.
147
3.3 A CIDADE DO CIBERESPAÇO
148
3.3.1. A bipolaridade da comunicação, a internet e a potencialização da atividade turística
Sigo o anúncio e vejo em forma de desejo o sabonete/ Em forma de sorvete
acordo e durmo na televisão/ Creme dental, saúde, vivo num sorriso o paraíso/
Quase que jogado, impulsionado no comercial/ Só tomava chá/ Quase que
forçado vou tomar café/ Ligo o aparelho vejo o Rei Pelé/ Vamos então repetir o
gol/ E na rua sou mais um cosmonauta patrocinador/ Chego atrasado, perco o
meu amor/ Mais um anúncio sensacional. (ALENCAR, Edison & MATHEUS,
Hélio Comunicação In: http://elis-regina.letras.terra.com.br/letras/45671/
Acesso em 04 de janeiro de 2005 ).
Eletro-doméstico, eletro-Brasil, eletro selvagem, futuro que ninguém. Efeito
colateral de quem precisa sair numa boa. Vem aí um baile movido a novas
fontes de energia. Chacina, política e mídia. Bem perto da casa que eu vivia.
(FALCÃO & YUCA, Marcelo. Eletro-doméstico. In: Daniela Mercury. Disco
Eletro-domético, 2003)
As epígrafes sugerem uma discussão fundamentada pela perspectiva de McLuhan (1964)
sobre as alterações na dinâmica social a partir de processos comunicacionais mediatizados por
dispositivos técnicos. Embora a ênfase do primeiro texto seja a televisão, pode-se, por
analogia, estabelecer uma relação direta deste com a interferência da internet nas ações diárias,
afinal a essência da canção procura enumerar transformações na vida cotidiana a partir do
meio de comunicação. Nesse sentido, a segunda epígrafe traz um conteúdo mais abrangente,
apontando para a idéia dos eletrodomésticos como ‘narcóticos sociais’, destacando as
transmissões mediáticas como fator promotor da complexidade social assim como a política e
as chacinas.
Faz-se importante salientar que, embora se admita com McLuhan a interferência dos meios de
comunicação na sociedade, há uma discordância quanto à forma como o autor entende essa
interferência. McLuhan (1964, p. 23) observa que “o meio é a mensagem porque é o meio que
149
configura e controla a proporção e a forma das ações e associações humanas”. Para o autor, o
conteúdo dos meios de comunicação embora diversos, são ineficazes na estruturação das
maneiras como os cidadãos se associam. Assim, a interação humana, a partir da comunicação
mediada por dispositivos técnicos, estaria dependente da forma como os cidadãos entendem
apenas o meio e não o conteúdo veiculado. Nesse sentido, distanciando-se de uma visão
menos interativa do receptor, o estudioso defende a idéia de que o conteúdo do meio “nos
cega para a natureza desse mesmo meio” (MCLUHAN, 1964, p. 23).
Contudo, ao limitar a característica do meio à sua natureza, o autor está negando a
popularização dos meios de comunicação e as várias oportunidades de interação a partir de
conteúdos específicos veiculados. Assim, a percepção de Mcluhan não engloba, por exemplo,
as interações pela internet ou de TV por assinatura, na qual o usuário é quem escolhe e
delimita o conteúdo, através do qual dá-se o processo de comunicação e interações humanas.
E, por essa lógica, a abordagem do autor parece também negar as peculiaridades dos grupos
culturais, e, com elas, a capacidade de decodificação dos cidadãos.
De acordo com Barbero (2001), as decodificações das mensagens estão vinculadas aos
aspectos culturais e à capacidade de os cidadãos receptores construírem seus discursos sejam
eles legitimando o conteúdo exposto, sejam eles contra-argumentando a abordagem
apresentada. E, nesse sentido, observa-se que o conteúdo transmitido também coopera para a
organização humana e, justamente por esse aspecto, existe uma diversidade de conteúdos
oferecidos pelos meios de comunicação, voltados para atender às mais diversas expectativas.
Considera-se, portanto, que as várias atividades da comunicação mediada, como jornalismo,
entretenimento, publicidade e propaganda, admitem linguagens específicas de acordo com as
características do veículo (televisão, rádio, impressos, internet). Do mesmo modo, admite-se
150
que cada veículo tem peculiaridades operacionais que acostumam seus públicos a suas
técnicas de produção e de transmissão de mensagens. Ou seja, o suporte e seu conteúdo
cooperaram para a produção da mensagem. Assim, observa-se que um meio de comunicação
não anula o outro, ao contrário, pode-se dizer que quanto maior a incidência de médias em um
local, mais direcionada tende a ser a comunicação, considerando a potencialidade conotativa
de signos e as especificidades das diversas linguagens mediáticas.
Segundo Bordenave (2002), esse enorme potencial conotativo dos signos e as possíveis
variações nas estruturas da mensagem, associados ao dinamismo social, contribuem para que a
comunicação mediada seja caracterizada como um processo de muitas facetas, provocando
efeitos os mais diversos possíveis, muitas vezes inesperados, junto às organizações e aos
grupos culturais. Nesse sentido, a formação de massa social, a delimitação e a propagação de
imaginários bem como a padronização das ações são, entre outros, fatos que estão vinculados
às transmissões mediáticas, dependentes da ideologia, do alcance e do poder de
penetrabilidade do meio de comunicação.
Também estão atribuídas aos médias a veiculação de informações e a prestação de serviços à
comunidade bem como entretenimento e possibilidades de ampliar os processos de interações
sociais que podem contribuir para o fortalecimento de laços comunitários. Logo, os
fragmentos das canções usadas como epígrafe constituem-se como convites a questionamentos
de como os meios de comunicação podem potencializar funções e aspectos de uma localidade
e propor novas práticas sociais, como bem foi enfatizado no capítulo anterior, sempre
associado aos meios de transportes.
Diga-se, aliás, que não por acaso os antigos gregos reuniam em uma única
entidade o deus Hermes, os atributos de comunicação (poder falar e convencer,
151
persuadir) e os do comércio. Hermes é o mensageiro dos deuses e aquele que
zela pelas estradas e viajantes, bem como o patrono dos oradores, escritores e
mercadores. Transportes de mercadorias e falar bem eram vistas como
atividades correlatas, uma vez que não bastava simplesmente transportar as
mercadorias, pois era preciso negociá-las com outros povos, os quais é preciso
saber encontrar, abordar (contactar), persuadir. Comunicação e transporte vêemse assim originalmente associados na atividade do comércio. (MARTINO, 2002,
p. 18-19)
Por este princípio, deve-se atentar para o fato de que a partir de instituições sociais, como
o comércio, surge a necessidade de se organizarem os processos comunicacionais para melhor
balizar o encontro com o estranho, com o estrangeiro e com a alteridade em práticas conscientes e
racionais, orientadas para determinado fim, de onde se pode extrair que a mente e a personalidade
interferem na experiência social através dos processos comunicacionais. Nesse sentido,
Bordenave (2002) entende que as entidades sociais (indivíduo, família, grupos culturais...)
formam-se também a partir da comunicação, cuja função principal seria promover o elo social,
contribuindo para a formação de uma identidade.
È importante salientar para o fato de que antes que a mensagem possa ter um efeito,
satisfaça necessidades, ou tenha um uso deve primeiro ser compreendida como um discurso
significativo para, em seguida, ser passível de uma suposta decodificação. Como Hall pontua
(2003, p.390), “é esse conjunto de significados decodificados que ‘tem um efeito’ influencia,
entretém, instruí ou persuade, com conseqüências perceptivas, cognitivas, emocionais,
ideológicas ou comportamentais muito complexas”. Existe uma relação de equivalência
estabelecida entre as posições de personificações – codificador-produtor e decodificador-produtor
– que estabelece graus diferentes de compreensão na troca comunicativa. Essa observância
equivale ao fato de que a comunicação mediada não se comporta como um aspecto independente
junto às transformações sociais, ou à indução de comportamentos.
152
Suas mensagens, explícitas ou subliminares, são trabalhadas, processadas por
indivíduos localizados em contextos sociais específicos, dessa forma
modificando o efeito pretendido pela mensagem. Mas a mídia, em particular a
mídia audiovisual de nossa cultura, representa de fato o material básico de
processos de comunicação. Vivemos em um ambiente de mídia, e a maior parte
de nossos estímulos simbólicos vem dos meios de comunicação. (CASTELLS,
1999a p. 360-361)
Nesse sentido, pode-se conceber que as mediações podem tanto propor práticas
promotoras da socialidade, quanto imputar aos processos comunicacionais, o caráter de
instrumentos a serviço do ‘exercício dos controles’. Assim sendo, ao se comportar como uma
estratégia de poder, compreende-se que essas mediações corroboram, em grande escala, para a
constituição das relações de sociabilidade, a partir de uma certa delimitação da opinião pública,
contribuindo fortemente para a edificação de grupos culturais com identidade legitimadora. Mas,
evidentemente, é a própria média uma das grandes responsáveis pela união e consolidação de
grupos com identidades de resistência e de projeto. Portanto, de qualquer modo, a comunicação,
pontua Bordenave (2002), constitui-se como técnicas intermediárias das relações sociais.
Ao se considerar a totalidade de aspectos que estão envoltos na construção das
identidades locais, pode-se dizer que há uma relação de reciprocidade e de complementação entre
a comunicação mediatizada e a complexidade social. Relação esta que contribui para o
ininterrupto processo de reconfiguração e de ressignificação dos lugares e das ações, uma vez que
os processos comunicativos comportam-se, a partir das revoluções industriais, como estratégias
de inserção do indivíduo na coletividade. Portanto, conforme, Hall (2003), existe uma
interdependência entre os processos de comunicação e a dinâmica social na qual os grupos se
alimentam das trocas de informação para continuamente (re)construírem seus modos de vida,
redefinindo as identidades culturais, afinal, essas informações possibilitam aos indivíduos
153
constantes
‘atualizações’,que exprimem, como já foi evidenciado no tópico 2.2.1, apenas
recortes da complexidade social.
Esses recortes podem ampliar os horizontes da percepção do social, redefinindo as
estruturas organizacionais dos grupos culturais tanto a partir da legitimação dos mecanismos de
controle, quanto favorecendo o surgimento dos grupos com identidades de resistência e de
projeto, considerando, neste caso, a capacidade de os cidadãos construirem um discurso contrahegemônico a partir da atividade de decodificação, ou seja, da forma como os cidadãos entendem
as informações (BARBERO, 2001). É, nesse sentido, que se aponta o movimento contínuo entre
médias e grupos culturais, consolidando a estreita relação de complementação entre essas
entidades.
Canclini (1998) observa que a urbanização predominante nas sociedades contemporâneas
está entrelaçada à serialização e ao anonimato das produções sociais reestruturadas pelos médias,
que contribuem para a modificação dos vínculos entre o público e o privado. Ainda com essa
perspectiva, o autor pontua que a comunicação mediada pode por em sintonia, pensamentos de
pessoas que habitam centros distantes e com culturas diferentes, como moradores dos centros
urbanos e dos centros rurais. As manifestações populares, as intenções políticas, as novidades da
moda, o aumento dos preços, os congestionamentos das ruas, as experiências comuns da vida
urbana têm sua ressonância a partir das transmissões mediáticas. Ao mesmo tempo em que os
médias atribuem sentidos à esfera pública, é esse espaço que fornece a matéria prima, que, por
sua vez, garante a funcionabilidade dos meios. É essa a complementação que subordina a história
e os acontecimentos públicos a construções imagéticas de longa duração, como se pôde observar
junto à propagação e à legitimação de um imaginário.
154
A cultura urbana é reestruturada ao ceder o protagonismo do espaço público às
tecnologias eletrônicas. Como quase tudo na cidade ‘acontece ´porque a mídia
diz e como parece ocorrer como a mídia quer’ acentua-se à mediatização social,
o peso das encenações, as ações políticas se constituem enquanto imagens da
política. Daí que Eliseo Verón afirma, de forma radical, que participar é hoje
relacionar-se com uma ‘democracia audiovisual’ na qual o real é produzido
pelas imagens geradas na mídia. (CANCLINI, 1998, p. 290)
Essa ‘democracia audiovisual’ certamente contribui para o processo de transformação das
informações, entretenimentos, idéias... em mercadorias para serem comercializadas e difundidas
em todo o globo. Programa de rádios, canais de TV, revistas, jornais e sites, cada um em seu
modo particular de penetrabilidade e em sua capacidade de alcance, uns mais outros menos,
atravessam as fronteiras mundiais e põem em conexão quase todos os lugares do mundo ao
mesmo tempo, de modo que as imagens (dialéticas) projetadas tornam-se a forma predominante
de comunicação, de informação e de fabulação.
Os médias cada vez mais condicionam seus públicos a visualizarem simulacros das
localidades, através dos quais pode emergir uma consciência coletiva mundial (de acordo com o
alcance do meio) sobre um determinado lugar, como já pôde ser observado junto à formação do
imaginário turístico sobre Porto Seguro. A difusão e a ampliação dessa consciência coletiva
provoca a desterritorialização e a reterritorialização dos lugares e a reconfiguração das ações.
Assim, ao mesmo tempo, acoplados em redes multimídias universais, os médias constituem a
realidade e a ilusão da aldeia global.
Quando o sistema mundial se põe em movimento e se moderniza, então o
mundo começa a parecer uma espécie de aldeia global. Aos poucos, ou de
repente, conforme o caso, tudo se articula em um vasto e complexo todo
moderno, modernizante, modernizado. E o signo por excelência da
modernização parece ser a comunicação, a proliferação e generalização dos
meios impressos e eletrônicos de comunicação, articulados em teias multimídia
alcançando todo o mundo. (IANNI, 1999, p.119).
155
Essa proliferação favorece à formação de uma cultura mundial, que envolve tanto as
produções locais e nacionais quanto as criações diretamente em escala global, o que contribui
para a justificação da acepção do termo ‘glocal’. Pode-se considerar que os médias eletrônicos
constituem-se como poderosos instrumentos a serviço da glocalização, expressando e
fomentando movimentos de integração e de fragmentação, multiculturalismo e hibridismos
culturais bem como conflitos e acomodações do homem em seu grupo cultural e a relação deste
com o mundo. Tudo parece está tomando forma global e, nesse sentido, tomando um caráter
virtual à medida em que as culturas, ao alcance do indivíduo glocalizado, passam, a ser
problematizadas, com seus signos espalhados por essa sociedade mundial em constante formação,
na qual o cidadão é, na maioria das vezes, convertido em consumidor.
Ianni (1999) observa que a base da aldeia global é a informatização e as técnicas
eletrônicas que fomentam as tecnologias da inteligência, às quais atribui-se o poder de
potencializar a transformação dos fatos e das relações humanas em hipertextos. Como observa
Dizard Jr. (2000, p.25) “a internet é o prático caminho para o ciberespaço e, além disso, o
software que vai pegar carona em todas as faixas da nova auto-estrada da informação eletrônica”.
Nesse sentido, pode-se cogitar a potencialização da transmissão de informações e entretenimento
ao homem conectado, envolvendo a tradução das particularidades dos locais globalizados com
uma inigualável capacidade de abrangência de conteúdos.
A inclusão das expressões culturais nesse meio de comunicação apresenta conseqüências
contundentes junto à movimentação social. De um lado, pode enfraquecer o poder das médias
tradicionais e as funções tecnocráticas, ao permitir que mensagens de todo tipo coexistam em um
mesmo espaço, possibilitando ao internauta, um cidadão anônimo, optar por seu conteúdo
156
preferido, entrando em sintonia com outros que compartilham das mesmas opções. Por outro,
tem-se a transformação do tempo e do espaço e a desterritorialização dos locais, que se
reintegram nesse ciberespaço por colagens de imagens que sucumbem, muitas vezes, à
diversidade dos sistemas culturais.
No entanto, não quer dizer que haja homogeneização das expressões culturais e
domínio completo de códigos por alguns emissores centrais. É precisamente
devido à sua diversificação, multimodalidade e versatilidade que o novo sistema
de comunicação é capaz de abarcar e integrar todas as formas de expressão, bem
como a diversidade de interesses, valores e imaginações, inclusive a expressão
de conflitos sociais. Mas o preço a ser pago pela inclusão no sistema é a
adaptação a sua lógica, a sua linguagem e a seus pontos de entrada, a sua
codificação e decodificação. Por isso é tão importante para os diferentes tipos de
efeitos sociais que haja o desenvolvimento de uma rede de comunicação
horizontal multimodal do tipo da internet, em vez de um sistema multimídia
centralmente distribuído como uma configuração do vídeo sob demanda.
(CASTELLS, 1999 a, 396-397)
Assim sendo, ao abranger quase todo o espectro da comunicação humana, pode-se dizer
que a internet constitui-se como um mecanismo capaz de proporcionar às pessoas físicas e às
organizações processos comunicacionais interativos e individualizados que, por sua vez,
fomentam o surgimento das já referidas comunidades virtuais, comportando-se, nesse sentido,
como uma ágora cultural, na qual o cidadão conectado tem ao seu dispor um universo
informacional. Nesse ambiente, as informações encontram-se disponíveis na forma de ícones,
imagens, sons, textos, que, manipulados, compõem a interface do meio, funcionando como
representações ou simulações do mundo físico.
Conforme Lemos (2002), pode-se dizer que a internet é o espaço ideal para a interação do
indivíduo participante do fluxo de informações da contemporaneidade, sendo um ‘rito de
passagem’, que pode ser entendido como o processo de (re)construção das identidades,
imprescindível para os cidadãos da cibercultura. Nesse sentido, admite-se que, ao apresentar uma
essência hipertextual, este ambiente caracteriza-se como um local estratégico para reviver a
157
democracia e a disseminação de informações na sociedade por meio das suas ferramentas (fóruns,
chats, e-mails e sites) e características (metamorfose, heterogeneidade, multiplicidade,
exterioridade, topologia e mobilidade dos centros)22.
As ferramentas de conversão e de interação, fóruns, chats e e-mails, favorecem e
potencializam a comunicação pessoal à longa distância (ou mesmo podem reforçar os laços entre
as vizinhanças) e põem, em sinergia, pessoas com os mesmos propósitos e concepções,
fomentando as comunidades virtuais. Nesse sentido, apreende-se que a internet é um terreno
virtual de morada e de fluxos de informações, capaz de ‘interfacear’ os processos de criação e
gravação da informação, de simulação e de comunicação, proporcionando a interação das mais
diversas formas possíveis.
Assim, pode-se ter, conforme a imprensa, o rádio e a TV a comunicação unidirecional, na
qual a mensagem parte de um pólo emissor para vários receptores (através das malas diretas,
correntes de e-mails, e os próprios sites); também se pode ter um processo de comunicação
bidirecional, em que os envolvidos trocam particularmente suas informações, como
proporcionado pelo telefone (e-mails). Mas a grande façanha da internet é a possibilidade de
realizar uma comunicação multidirecional na qual várias pessoas envolvidas podem ser, ao
mesmo tempo, emissores e receptores, o que Lévy (1999) denomina dispositivo todos-todos.
Nesse, grupos, comunidades, cidades... podem constituir progressivamente e de forma
cooperativa um contexto comum.
Em uma conferência eletrônica, por exemplo, os participantes enviam mensagens que podem ser lidas por todos os outros membros da
comunidade, e às quais cada um deles pode responder. Os mundos virtuais para diversos participantes, os sistemas para ensino ou trabalho
cooperativo, ou até mesmo, em uma escala gigante, a WWW, podem todos ser considerados sistemas de comunicação todos-todos. Mais uma
vez, o dispositivo comunicacional independe dos sentidos implicados pela recepção, e também do modo de representação da informação.
Insisto nesse ponto, porque são os novos dispositivos informacionais (mundos virtuais, informação em fluxo) e comunicacionais
22
De acordo com Lévy (1998), essas são características do hipertexto, mas como se está considerando a internet
como uma ambiente hipertextual, optou-se por apontar, diretamente, essas características como sendo do meio.
158
(comunicação todos-todos) que são os maiores portadores de mutações culturais, e não o fato de que se misture o texto, a imagem, e o som,
como parece estar subtendido na noção vaga de multimídia. (LÉVY, 1999. p.63)
Nesse sentido, é importante investigar as características da internet, de modo a acentuar
teoricamente a especificidade deste meio, observando a forma como as novas técnicas de
transmissão e de tratamento da mensagem contribuem para a redefinição e/ou a reconfiguração de
ações e aspectos sociais.
Essas características ou princípios, como chama Lévy (1998), contribuem para que se
perceba a internet muito mais como um sistema emaranhado de informações conectadas,
constituindo um rizoma informacional, capaz de decodificar e ao mesmo tempo interfacear
estruturas organizacionais, pensando em uma esfera planetária. Assim, pelo princípio da
metamorfose (constante construção e renegociação) pode-se digitalizar a dinâmica das entidades
virtualizadas, de modo que seja possível propor, ao internauta, uma certa concepção das
alterações sociais que ocorrem naturalmente em um espaço. O princípio da heterogeneidade
(possibilidades de disponibilidade de várias formas comunicativas – sons, textos, ícones...) pode
propor conexões lógicas e/ou afetivas, através das várias possibilidades de simulação.
O princípio da multiplicidade (qualquer nó ou conexão pode revelar-se conforme uma
rede) pode apontar a complexidade social que está envolto de um determinado ícone, através das
inúmeras conexões que um ícone pode propor e, nesse sentido, fazendo um movimento inverso,
pelo princípio da exterioriadade (conexão com outras redes), o internauta pode chegar à entidade
digitalizada. Esses dois princípios portanto, direcionam para os outros restantes. O princípio da
topologia (tudo é perto na rede) aponta para a necessidade de conexão, afinal a informação não
pode circular livremente na rede, uma vez que a rede é o próprio espaço. O princípio da
mobilidade dos centros (não há um único centro na rede) vem a ratificar os aspectos
159
anteriormente analisados apontado para o fato de que a internet é uma rede cheia de ramificações
que esboçam detalhes, peculiaridades e sentidos, através dos quais, o ciber-cidadão pode
percorrer o mundo, abrindo apenas as janelas do seu micro.
Portanto, esse ambiente virtual, com seus dispositivos comunicacionais e informacionais,
cria a possibilidade de se enfatizar na tela de um computador, aspectos e peculiaridades das
localidades, ampliando, evidentemente, o processo de trocas culturais entre o local e o global.
Nesse ciberespaço, as cidades comportam-se como “uma descrição/narração onde os olhos não
vêem coisas, mas simulações de quase objetos, ícones, símbolos gráficos, como ruas,
monumentos” (LEMOS, 2001, p. 15). Nessas ‘Cidades Virtuais’, as únicas fronteiras são o
acesso ao microprocessador de dados e a possibilidade de ingresso no mundo em rede, onde as
pessoas podem se encontrar e interagir, baseadas apenas em seus interesses, deixando para trás,
questões como nome, posição geográfica ou social.
Portanto, através do vídeo, o homem penetra no ambiente ciberespacial, onde a
informação é transformada em uma metalinguagem que pode integrar no mesmo sistema as
modalidades escrita, visual e oral da comunicação humana (CASTELLS, 1999a). Por meio
do computador, o homem dinamiza os processos de observações e estudos e acelera as suas
tarefas cotidianas. Pagar contas, conhecer pessoas e organizações, fazer pesquisas e
compras, efetuar movimentações bancárias são algumas das ações realizadas através da
internet que o permitem acompanhar e participar da ordem tecnológica contemporânea.
Através das redes informatizadas, profissionais, governantes e cidadãos podem
intensificar a comunicação, dinamizando e ampliando os sistemas econômicos, políticos e sociais
das comunidades a que pertencem, ou mesmo encontrando um novo sentido para a vida
individual ou em grupo. Agora, mais do que nunca, o homem tem a possibilidade de manter
160
contato afetivo com os mais diversos lugares do mundo – o virtual Gemeinschaft – e/ou ampliar
suas áreas de abrangência profissional – eletronicamente Gesellchaft23. Assim enfatiza-se que as
redes informatizadas potencializam tanto as relações informais quanto as formais.
Todas essas características e novas possibilidades de ação e de interação apontam para a
efervescência de uma nova cultura, a cultura das redes, culminando no que Castells (2003)
denomina ‘galáxia da internet’. Para tanto, o autor compreende este média como um potencial
revolucionário que permite a coordenação das tarefas e a administração da complexidade das
estruturas sociais, proporcionando uma redefinição de tarefas, tanto em escala local como em
escala global, capaz de fornecer um novo modo de organização adequada para potencializar as
ações humanas. E, nesse sentido, pode-se inferir que a cultura da internet está moldando o meio
social.
A cultura da internet caracteriza-se por uma estrutura em quatro camadas: a
cultura tecnomeritocrática, a cultura hacker, a cultura comunitária virtual e a
cultura empresarial. Juntas, elas contribuem para uma ideologia da liberdade que
é amplamente disseminada no mundo da internet. Essa ideologia, no entanto,
não é a cultura fundadora, porque não interage diretamente com o
desenvolvimento do sistema tecnológico: há muitos usos para a liberdade. Essas
camadas culturais estão hierarquicamente dispostas: a cultura tecnomeritocrática
especifica-se como uma cultura hacker ao incorporar normas e costumes a redes
de cooperação voltadas para a cooperação de projetos tecnológicos. A cultura
comunitária virtual acrescenta uma dimensão social ao compartilhamento
tecnológico, fazendo da Internet um meio de interação social seletiva e de
integração simbólica. A cultura empresarial trabalha, ao lado da cultura hacker e
da cultura comunitária, para difundir práticas da Internet em todos os dominós
da sociedade como meio de ganhar dinheiro. (CASTELLS, 2003, p. 34-35)
As estruturas que fomentam a cultura da internet não podem constituir-se enquanto tal se
analisadas de forma isolada, afinal, como lembra o próprio autor, sem a tecnomeritocracia, os
23
Gemeinscheft e Gesellschaft são termos concebidos pelo alemão Ferdinad Tönnies. O primeiro é de natureza
afetiva e existencial, caracterizando-se por relações sociais informais; o segundo é de natureza racional, construído a
partir de um vínculo contratual aceito voluntariamente pelos sujeitos (MATTELART, 1994).
161
hackers constituiriam apenas uma comunidade de nerds (pessoas totalmente voltadas para a
atividade científica, socialmente inaptas) e geeks (especialistas em computadores). E, nesse
sentido, sem as iniciativas hackers e sem os valores comunitários não poderia haver a eminência
de uma cultura empresarial específica da internet. Afinal, a cultura, como já foi definido, é um
movimento social que envolve e entrelaça uma totalidade de aspectos, e, apenas a interligação
entre esses quatro pilares culturais é capaz de fomentar uma conjuntura cibernética junto aos
locais. Desse modo, deve-se retomar a discussão sobre o turismo cibernético pautado no final do
capítulo anterior, na tentativa de associar os princípios e características da internet às
necessidades organizacionais da atividade turística.
Partindo dessa perspectiva, pode-se dizer com Lemos (2002, p. 142) que “todas as formas
de socialidade contemporânea encontram nesse ambiente rizomático, um potencializador, um
catalizador, um instrumento de conexão”. Nesse sentido, compreendendo a prática turística como
uma atividade em que predominam as relações de socialidade, pode-se apontar a internet como o
meio de comunicação ideal para a potencialização do setor, capaz de acarretar efervescências
sociais, políticas e econômicas, ampliando o sentido das comunidades turísticas, que,
devidamente organizadas na rede, podem comportar-se, então, como comunidades turísticas
virtuais.
Assim sendo, deve-se atentar para o fato de que as comunidades turísticas são compostas
por comunidades de interesses (turistas e potenciais empresários) e comunidades de lugar
(nativos, políticos e empresários já estabelecidos no local). É importante também ressaltar que o
bom desempenho do setor deve-se em grande parte à interatividade entre essas comunidades, cuja
definição dá-se muito mais a partir da necessidade de se entender as expectativas dos envolvidos
no setor, não estando objetivando uma delimitação das ações desses atores. Assim, um
componente identificado como pertencente à comunidade de interesse pode muito bem
162
compartilhar das mesmas intenções e objetivos característicos dos componentes da comunidade
de lugar e vice-versa.
Por interatividade entende-se, conforme Lévy (1999, p.79), “a participação ativa do
beneficiário de uma transação de informação”, na qual subtende-se que o processo comunicativo
completa-se com as reações do(s) receptor(es). Portanto, a interatividade aparece como a chave
para a fomentação e proliferação de estruturas organizacionais com bases democráticas, nas quais
os cidadãos envolvidos podem, em pé de igualdade, definir os destinos dos espaços que
compõem uma ambiência turística (caso contrário, a internet pode vir a ser apenas mais um
narcótico social). Assim, em uma comunidade virtual de turismo ecológico, por exemplo, podem
participar do mesmo fórum de discussão, turistas, moradores do local, empresários e governantes,
de modo que as opiniões e interesses de cada um desses componentes estariam, ao menos,
manifestados.
Considera-se, nesse sentido, que as iniciativas políticas em organizar e planejar os
espaços turísticos constituem-se como fator imprescindível junto ao processo de formação das
comunidades turísticas com bases democráticas. Assim, ratifica-se a internet como o veículo
ideal para a fomentação desse processo, no qual as comunidades turísticas virtuais seriam
dispositivos práticos comunicacionais a serviço das ações de planejamento, e ao mesmo tempo,
está-se cogitando o processo de interdependência entre a comunicação e as ações sociais, já
evidenciado.
Castells (2003) atenta que o mundo social da internet é tão complexo quanto a própria
sociedade, contudo defende a idéia de que as comunidades virtuais operam a partir de duas
características – comunicação livre e horizontal – que podem sintetizar práticas de livre expressão
em âmbito global, o que contribui para a subversão dos conglomerados dos médias de massa e
das burocracias governamentais de controle. Portanto, através das comunidades virtuais, pode-se
163
cogitar a formação de organizações sociais autônomas que, através de uma ação coletiva, podem
atuar junto à construção de novos sentidos e significados das ações e dos espaços turísticos. Estáse pensando, assim, em um novo contexto (um contexto mais democrático) no qual se
reconfigurem as identidades culturais na era da cibercultura. Com essa expectativa, será traçado,
no tópico seguinte, um estudo sobre a interação, no ambiente virtual, entre as entidades que
compõem os espaços urbanos.
164
3.3.2. A interação entre governos, empresas e cidadãos no ciberespaço da internet
De meados da década de 1980 ao final da década de 1990, um imenso número
de comunidades locais passou a operar on-line. Com freqüência estavam
associadas às instituições locais e governos municipais, dando um cunho local à
democracia dos cidadãos no ciberespaço. De maneira geral, três componentes
diversos convergiram na formação dessas redes de computadores baseadas na
comunidade: movimentos locais pré-Internet em busca de novas oportunidades
de auto-organização e elevação da consciência; o movimento hacker em suas
expressões mais politicamente orientadas; e governos municipais empenhados
em fortalecer sua legitimidade pela criação de novos canais de participação do
cidadão. (CASLTELLS, 2003, p.199)
A epigrafe extraída do livro Galáxia da Internet, chama a atenção para ações que estão
sendo fomentadas através da rede, na tentativa de que sejam potencializados aspectos das
localidades. Empresas, governos e cidadãos, desde a década de 1980, vêm apostando na
utilização da internet como um espaço propício à democratização das questões políticas, às
manifestações sociais, às associações e compartilhamentos de pensamentos e idéias, à ampliação
do comércio ou mesmo como um novo mecanismo de controle. Essas possibilidades tornaram-se
possíveis pela decodificação e organização dos aspectos do urbano na forma de cidades virtuais.
Não é estranho, portanto, ressaltar que a cidade que ficava apenas de braços abertos no
cartão postal, agora pode estar de corpo e alma disponíveis na internet, na forma de uma Cidade
Virtual, em projeções capazes de descrever em bits o espaço físico da ação humana enquanto um
‘composto orgânico vivo’, onde as entidades sociais podem projetar suas características,
interesses e peculiaridades, constituindo um tecido urbano virtual. Nessa representação binária,
podem estar contempladas potencialidades econômicas, ações políticas e manifestações sociais,
165
constituindo uma nova forma de expressar a identidade e a cultura das localidades digitalizadas,
através de um sistema de signos e de significações, que se combinam na forma de ícones,
imagens, sons e textos para exprimir o senso do local.
A idéia central que envolve a discussão sobre a cidade virtual, observa Graham (2002),
propõe ações iterativas entre o computador e o usuário, à medida em que este navega entre os
vários links disponibilizados como representações dos espaços. Essa representação virtual
constitui um novo espaço para a promoção dos debates públicos e das manifestações sociais, ao
contrário do pensamento pessimista de alguns autores que cogitavam um isolamento humano a
partir da proliferação dos mecanismos de comunicação da internet. Aliás, quanto mais as pessoas
se comunicam maior é a probabilidade de encontros. Nesse sentido, Lévy (1999) aponta quatro
categorias de atitudes
– analogias, substituição, assimilação e articulação –
que podem
fomentar um processo operacional sinérgico entre o físico e o virtual.
As analogias aos espaços urbanos podem estimular as iniciativas de visitação e de ações
of-line a partir da descrição das funções e dos aspectos do local. Dados como horário de
funcionamento, principais ações a serem realizadas nas instituições e organizações locais bem
como informações sobre as regras e normas para a visitação constituem-se como analogias
representativas dos espaços. Essas projeções, entre outras, podem sugerir a valorização das
comunidades conectadas, propondo novas formas de interação em seu âmbito.
Nesse sentido, por uma perspectiva mais ampla, pensando na otimização da
funcionabilidade do local, a substituição das ações no espaço físico por ações on-line, apresentase como uma possível saída, operacional e econômica, para as organizações e cidadãos. As novas
técnicas de ação sugeridas pela internet permitem a amplitude e a simultaneidade das
participações dos cidadãos em vários ambientes sociais a partir das suas próprias residências, dos
seus locais de trabalho ou de quaisquer outros digital palces. Além da possibilidade de mudanças
166
para centros menos conturbados, como já foi evidenciado no capítulo anterior, com essas práticas
on-line, podem-se também cogitar melhorias na qualidade de vida nas grandes cidades,
considerando a possibilidade de descongestionamento dos centros urbanos e a redução da
circulação de automóveis, o que pode culminar na diminuição de custos com a locomoção.
A assimilação das redes de comunicação interativa às estruturas que já organizam e dão o
caráter urbano aos espaços sociais, constitui-se também como uma forma de pôr em sinergia a
internet e a cidade. Empresas vêem nesse universo multimídia um novo mercado de
equipamentos, de conteúdos e de serviços que podem ser usados a favor da instituição junto aos
processos de aquisição de benefícios. A assimilação dos recursos do ciberespaço possibilita a
essas entidades um maior controle sobre suas ações e sobre as ações dos seus respectivos clientes,
um fator a serviço da tecnocracia.
Contudo, Lévy (1999) entende que a forma mais coerente de se aproveitar a
potencialidade da internet a favor do desenvolvimento dos sistemas sociais dá-se a partir de uma
articulação entre esse ciberespaço e o território físico da atuação humana, fomentando um
processo contínuo de inteligência coletiva. Não se está aqui propondo uma idéia utópica nem
demagoga da edificação de massas eletrônicas, mas sim se está pesando na colaboração desse
mecanismo comunicacional junto aos processos de solução de problemáticas sociais a partir de
uma cooperação mútua, na qual governos, empresas e cidadãos poderiam co-relacionarem-se
mais facilmente, edificando um processo de socialidade.
Articular os dois espaços não consiste em eliminar as formas territoriais para
substituí-las por um estilo de funcionamento ciberespacial. Visa antes
compensar, no que for possível, a lentidão, a inércia, a rigidez indelével do
território por sua exposição em tempo real no ciberespaço. Visa também
permitir a solução e, sobretudo, a elaboração dos problemas da cidade por meio
167
da colocação em comum das competências, dos recursos e das idéias. (LÉVY,
1999, p.195)
A internet representa um novo espaço de convivência no qual estão sendo processadas
configurações de novas e incipientes práticas sociais. Formas de se pensar e de se fazer o mundo
e o cotidiano estão se tornando cada vez mais freqüente nessa ambiência
ciberespacial,
possibilitando aos usuários novas experimentações cognitivas e existenciais. Assim, entre o
imaginário e o mundo tátil, a internet constitui-se como o local alternativo de relações, nas quais
as analogias, as substituições, as assimilações e as articulações são fatores à disposição da
criatividade humana para a constante edificação de práticas democráticas e desterritorializadas.
O que antes se encontrava limitado, circunscrito às fronteiras geográficas e/ou
institucionais pode agora corresponder à amplidão, admitindo um caráter universal e
adimensional que contribui para a formação do processo de mundialização como “um fenômeno
social total que permeia o conjunto das manifestações culturais” (ORTIZ, 1994, p.30). Contudo,
as imagens que compõem as representações binárias da cidade correspondem apenas a uma
extensão dos territórios de uso do homem. Por elas, o navegante da internet pode perceber e, de
algum modo, participar de ações no local, mas sem experimentá-lo.
A cidade virtual deve ser antes compreendida como um espaço de socialidade, onde se
pode enfatizar a construção de sentidos e de significados junto aos grupos culturais. Desse modo,
esse ambiente comporta-se como um dispositivo comunicacional capaz de incitar o surgimento
de práticas sociais voltadas para a disseminação de expressões culturais e de valores locais ao
mesmo tempo em que propõe o surgimento de construções culturais inéditas, corroborando para a
reconfiguração das identidades desses locais digitalizados.
168
A estrutura comunicativa da rede não representa um caminho que regula
diretamente o pensamento e as ações humanas. Ela orienta apenas a
comunicação que tornará a aceitação de determinadas mensagens e informações
mais prováveis do que outras. É o sentido dado a conjuntos de mensagens que
delimita os campos de comunicação (listas de discussão, consultas, sites, chats
etc.) enquanto sub- ou microssistemas sociais. (STOKINGER, 2001, p.110)
Assim sendo, pode-se apontar que a própria estrutura comunicativa da rede, em essência,
já induz à democracia, afinal, é o próprio internauta quem escolhe e delimita as suas ações online, construindo os seus horizontes e limites informacionais e operacionais, o que vai dar sentido
às suas vivências nessa ambiência ciberespacial. Como alerta Castells (2003, p. 120) “a internet
não pode fornecer um conserto tecnológico para a crise da democracia”. Contudo, deve-se insistir
que a utilização dessa extensão territorial contribua para a promoção de benefícios junto às
localidades digitalizadas, em contrário, representaria um uso abstrato dos recursos tecnológicos.
Palacios (2004) aponta fatores que podem traduzir as expectativas sobre a interferência
das cidades virtuais nas relações sociais e econômicas. Transparência administrativa e
orçamentária, participação, democracia direta, desburocratização, acesso à informação e a
programas alternativos de educação e lazer são possibilidades propostas por esse espaço
comunicacional que podem incitar uma efervescência social mais justa e mais humana. E, nesse
sentido, a cidade virtual seria um dispositivo eficiente junto à divulgação e o fortalecimento da
cultura local, à criação de novos laços comunitários e de vizinhança, além de comportar-se como
fator de ampliação das lutas contra a exclusão social, constituindo, então, um processo de
regeneração do espaço público.
Para tanto, é preciso pensar formas adequadas de se propor ações políticas, econômicas,
educacionais, informativas, interativas e quaisquer outras componentes da cidade virtual,
cogitando um alargamento da democracia na sociedade. Nesse sentido, compreende-se com
Bobbio (1997) que o desenvolvimento da democracia está vinculado à sua transição da esfera
política (em que o indivíduo é concebido como cidadão) para a esfera social (na qual o indivíduo
169
é reconhecido por seu status). Assim sendo, pode-se inferir que o tratamento dado à política na
rede deve circunscrever-se a um aspecto cultural através do qual se propõe uma melhor
organização da sociedade, privilegiando as perspectivas e os direitos coletivos. Nesse caso, além
dos atos elaborados pelas representativas eleitas pela população também as ações e protestos
característicos de grupos culturais com identidade de resistência e de projeto devem caracterizarse como expressões políticas contemporâneas que fomentam uma efervescência social
democrática.
Uma vez conquistado o direito à participação política, o cidadão das
democracias mais avançadas percebeu que a esfera política está por sua vez
incluída numa esfera muito mais ampla, a esfera da sociedade em seu conjunto,
e que não existe decisão política que não esteja condicionada ou inclusive
determinada por aquilo que acontece na sociedade civil. (BOBBIO, 1997, p.
156)
As ações políticas, portanto, comportam-se como manifestações culturais nas quais os
cidadãos não apenas buscam por seus direitos, mas também procuram espaços para reafirmarem
seus pensamentos e propostas. Por essa perspectiva, pensar em uma democracia contemporânea,
como assinala Marques (2003), consiste na tentativa de se promover o acesso e a participação
coletiva junto às tomadas de decisões referentes aos destinos dos espaços, envolvendo os
sentimentos e interesses da população que participa e compõe o cenário social.
Nessa era da cibercultura, então, as cidades virtuais podem constituir-se como um espaço
de extensão das ações democráticas. Não se trata da elaboração de um novo tipo de democracia,
mas da utilização das ferramentas e características do meio hipertextual bem como da adequação
das categorias de atitudes on-line junto aos processos de desburocratização, clareza orçamentária
e administrativa entre outros fatores esclarecedores da atualidade local. Deve-se, também,
possibilitar e estimular o indivíduo social a participar das decisões futuras da comunidade em que
170
convive e que, de algum modo, se sinta responsável, considerando o processo de mundialização
da cultura, em que podem entrar em sinergia e concordância, as comunidades de interesses e as
comunidades de lugar.
As cidades virtuais possibilitam, através dos grupos de discussões, momentos de
argumentação racional sobre temas de interesses coletivos. Nesses chats, o cidadão não é
representado, mas pode com suas próprias palavras expor e compartilhar com o mundo suas
indignações e reivindicações de forma direta, sem interlocutores. Essa interatividade
característica da internet, permite o estabelecimento de uma esfera pública virtual.
Marques (2003, p. 189) observa que “diferentes pontos de vistas e soluções a
determinados problemas podem ser colocados neste âmbito de discussão, o que favorece a
integração de idéias (isso acaba se relacionando à noção de inteligência coletiva de Lévy)”. Nesse
sentido, aponta-se que este média pode contribuir para a fomentação de ações políticas com
abrangência até mundial, como já se pode citar os ‘flash mobs’, movimentos sociais instantâneos
organizados a partir da rede ou mesmo as práticas mais comuns de ciberativismo voltadas para
colaborar com as lutas principais de grupos com identidade de resistência e de projeto como no
caso do grupo de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Trangêneros, de grupos étnicos ainda
discriminados, como o indígena e de qualquer minoria social.
Os movimentos sociais do século XXI, ações coletivas deliberadas que visam à
transformação de valores e instituições da sociedade, manifestam-se na e pela
Internet. O mesmo pode ser dito do movimento das mulheres, vários
movimentos pelos direitos humanos, movimentos de identidade étnica,
movimentos religiosos, movimentos nacionalistas e dos defensores/proponentes
de uma lista infindável de projetos culturais e causas políticas. O ciberespaço
tornou-se uma ágora eletrônica global em que a diversidade da divergência
humana explode numa cacofonia de sotaques. (CASTELLS, 2003, p.115)
171
Assim, as movimentações sociais a partir da rede podem propor junto a uma nova
cidadania uma atenção voltada para a redefinição da esfera pública. Nesse sentido, estas ações
acabam por entrelaçar aspectos diversos da atuação humana. A própria estrutura rizomática da
rede compreende uma maior interação de atividades sociais. Assim, associando o entendimento
sobre esfera pública virtual e sobre grupo cultural (desenvolvido no capítulo anterior) pode-se
inferir que a interação on-line ultrapassa o domínio da cidadania, em seu sentido literal,
penetrando em questões econômicas, educacionais, informacionais, entre outros aspectos e
peculiaridades, que fomentam a dinâmica dos locais.
Projeções e movimentos sociais na internet estão fomentando junto a empresas uma
prática de comércio e prestação de serviços eletrônicos específicos para grupos manifestantes.
Em sites voltados para a prática do ciberativismo, como o site oficial do grupo gay de Portugal
(www.portugalgay.pt), evidencia-se a comercialização de uma série de produtos de consumo para
os usuários daquele espaço bem como a possibilidade de reservas de diárias em hotéis e de
bilhetes para shows e festivais, entre outros serviços. Essa prática cooperativa do portugalgay
representa uma nova conjuntura organizacional das empresas e uma nova forma interativa destas
como seus fornecedores, consumidores e concorrentes.
Nesse sentido, assinala-se com Castells (2003) que a utilização da rede como forma
organizacional da empresa afeta todo o seu processo de criação, de troca e de distribuição de
valor, fazendo emergir uma nova configuração sociotécnica, cuja compreensão é indispensável
para o êxito empresarial. O autor observa que a empresa da (e na) rede corresponde a uma
agência de atividade econômica estruturada em torno de projetos empresariais específicos, que
devem apresentar flexibilidade e adaptabilidade voltadas para uma economia global, na qual se
evidencia uma demanda em constante modificação, por isso a necessidade de incessantes
172
inovações e da disponibilização de informações rápidas, precisas e direcionadas, que devem
implicar na redução dos custos, eficiência e satisfação do consumidor.
Para tanto, a empresa virtual pode incluir uma quantidade infinita ou limitada de
componentes, dependo das operações e transações desenvolvidas, que podem estar atuando tanto
em esfera global quanto em esfera local. Nesse sentido, quanto mais houver interatividade e
personalização dos serviços, melhor a qualidade e o ajustamento entre a empresa e o seu público
(consumidores e fornecedores) no processo empresarial. O bom gerenciamento desses fatores,
por sua vez, permite uma maior administração da flexibilidade de modo que, enquanto é mantido
o controle das operacionalizações e transações empresarias pode-se ampliar o alcance do
mercado consumidor bem como se pode diversificar a composição da empresa (oferecendo novos
produtos e serviços, o que demanda novas relações).
Esses aspectos estão atrelados também ao reconhecimento da empresa no mercado
consumidor e na sua boa relação com o público, resultantes do uso adequado da marca da
empresa junto à sociedade. Indubitavelmente, a melhor maneira de ser manter uma boa imagem é
manter a alta satisfação do cliente, considerando desde o momento de acesso à empresa on-line,
passando pela execução da compra ou aquisição do serviço virtual, até o momento em que o
cliente utiliza o bem ou o serviço adquirido. Mas como propor a satisfação do cliente, partindo
desses três âmbitos (acesso, compra/solicitação de serviços e utilização do produto)?
É importante retomar, para tentar responder à questão proposta, a discussão sobre as
comunidades virtuais. Considera-se, a princípio, que as ações na rede geralmente estão envoltas
no processo de constituição de comunidades virtuais e que os membros desses espaços são os
principais divulgadores de artefatos dos interesses comuns, quando não são eles mesmos, os
selecionadores de seus caminhos virtuais. Isso não implica em uma organização planetária na
forma de um comunitarismo exacerbado. Assim como freqüentadores de um determinado bar do
173
centro da cidade não necessariamente se conhecem e interagem entre si, membros de uma mesma
comunidade virtual podem não ter relação nenhuma, mas têm as mesmas preferências e
tolerâncias, embora se reconheça que a internet parece ter um efeito positivo sobre a interação
social.
Contudo, é importante atentar, conforme Castells (2003), que os estudos sobre
comunidades virtuais ainda não são suficientes para se chegar a um posicionamento contundente
sobre interação social. Mas essa não é o centro da presente discussão. Interessa, por hora apontar,
com base na compreensão do mesmo autor, que essas comunidades constituem redes de laços
interpessoais capazes de proporcionar socialidade, informação, apoio mútuo e um senso de
integração e identidade cultural. Nesse sentido, a busca por informações, em uma determinada
comunidade, pode possibilitar uma certa compreensão das atividades preferenciais dos usuários.
Ainda, o estudo sobre os aspectos que compõem a dinâmica da comunidade virtual, que
representa um estudo sobre a identidade cultural, contribui para o delineamento das principais
características do referido grupo.
Esse estudo pode ser realizado a partir da observância sobre os temas em debates, dos
principais links disponibilizados, também a partir da freqüência de visitações aos espaços
virtuais, entre outros aspectos. Estudos sobre as características identitárias das comunidades
virtuais podem contribuir para um processo de produção customizada, na qual o produto final é
adaptado ao consumidor individual, o que contribui para a redução dos custos com a produção e a
distribuição.
Caminhando nessa perspectiva de melhoria e potencialização das ações bem como
admitindo que a comunidade virtual permite uma relação direta entre aspectos políticos,
econômicos e sociais, pode-se evidenciar a importância dessas representações binárias junto ao
desenvolvimento das cidades em seus espaços físicos, o que pode culminar, então, na melhor
174
estruturação de suas funções e aspectos. Considera-se, para tanto, que essas comunidades virtuais
devem estar organizadas na forma de uma cidade virtual. Ou seja, devem estar interligadas,
explorando ao máximo as características da internet (mencionadas no tópico anterior).
De fato, como já notificado por Graham (2002), muitos municípios e companhias privadas
estão atualmente estendendo-se para o ciberespaço da internet. Contudo, pode-se apontar que a
grande maioria dessas projeções funciona apenas como ‘uma banquinha de revistas na
esquina’não promovendo debates públicos nem a prestação de serviços à comunidade cível
(como será demonstrado no próximo tópico). Palácios (2004) observa que essa maioria funciona
como folhetos destinados a vender serviços turísticos, cuja preocupação é fornecer informações
sobre as características ambientais, festivas e folclóricas do local, exibindo paisagens e atrações
noturnas.
Como projetar, então, uma cidade nesse universo sem fronteiras? Como as cidades
virtuais podem proporcionar ao navegante o senso do local sem o seu deslocamento físico? Como
essas projeções podem contribuir para o desenvolvimento e organização do espaço urbano e
como podem promover o maior fluxo de informações, de capitais e de pessoas? Como o
imaginário e o cotidiano de um local turístico devem combinar-se na rede?
Diversas são as tentativas de digitalização das cidades e são também várias as referências
virtuais de uma cidade, cujas fronteiras ultrapassam o aspecto geográfico, como as cidades
turísticas. Contudo, muitas dessas representações não exploram e nem sequer sinalizam a
totalidade de aspectos que compõem a dinâmica local. Afinal, a cidade, como já foi evidenciado,
é uma totalidade de ações e de aspectos, na qual conflitos e harmonias; problemas e soluções
compõem a sua ambiência.
175
Desta forma, não é tarefa fácil digitalizar uma cidade e devemos ter em mente
esta complexidade para que a cidade digital não seja apenas uma metáfora
simplificadora. O design deve explorar o potencial de conexão entre as pessoas e
evitar ser uma simples transposição espacial do espaço. O modelo não deve ser
substitutivo, nem transpositivo, mas complementar. De certa forma, as
cibercidades devem insistir em formas de multiplicar você, já que podem
ampliar o poder da ação a distância (teleação) e potencializar a emergência de
redes de socialidade locais e empáticas. (LEMOS, 2001, p. 17)
A cidade digital deve exprimir o senso do local a partir da codificação simbólica das ações
reais desenvolvidas no espaço físico, sem que haja omissão dos aspectos não organizados ou das
regiões periféricas, mas, ao contrário, deve apresentar perspectivas de
soluções para essas
questões, bem como a capacidade do local em resolver eventuais problemáticas imprevisíveis.
Afinal, não existe organização capitalista sem conflitos sociais, econômicos e políticos, por
menores e menos significantes que sejam. Não se deve pensar a digitalização das cidades sem
situá-las no âmbito planetário como forma de reconhecimento e legitimação de uma nova fase
inaugurada pelo capitalismo. Esse processo revela o caráter civilizatório desse sistema, o que para
Roedel (1999, p.109) corresponde “à sua capacidade de impor novos valores e/ou assimilar
antigos traços culturais e denotar a eles novos sentidos mais adequados à globalização”.
A digitalização de uma cidade deve, portanto, evidenciar seus planejamentos estratégicos
e em longo prazo, configurando sua dinâmica cultural de modo que esta possa ser compreendida
por meio de leituras como prática semiótica, isto é, uma leitura que se completa pela interação
entre os elementos lingüísticos e contextuais (texto, imagem e som), permitindo ao cibercidadão
um entendimento imediato daquilo que está sendo informado. Afinal, como acentua Ferrara
(1996), cultura e representações, cultura e signo constituem um todo coeso que precisa ser
entendido para que seja atingido o significado de uma dada realidade, ainda que contraditória.
Também se deve buscar esse entendimento para se propor a intensificação da circulação
de informações, de capitais e de pessoas no local, pois a cidade virtual constitui-se como um
176
‘espaço de fluxo’ nesse período de cibercultura, devendo, então, intensificar a dinâmica do local e
de todos os seus aspectos, inclusive as trocas entre os cidadãos bem como a ocupação dos
espaços concretos da cidade. Por essa perspectiva, compreende-se como as cidades virtuais
podem cooperar para os processos de mutação das identidades locais, bem como para os
processos de hibridismo cultural e para a emergência de um multiculturalismo, onde se pode, de
fato, perceber o respeito à alteridade e a aceitação das diferenças, ao menos de modo virtual, mas
este pode ser um caminho (e uma contribuição da cibercultura) para a construção de uma
sociedade mais justa e mais humana.
Portanto, a busca pela melhor forma de transpor a cidade para o espaço virtual da internet
deve partir tanto do imaginário, que paira sobre o local, quanto dos aspectos que compõem o seu
cotidiano, relevando as perspectivas e necessidades dos cidadãos com relação ao uso do meio.
Em Lemos (2001), apreende-se três modelos de cidade virtual – ‘grounded cybercity’, ‘nongrounded cybercity’ e ‘metaphorical cybercity’ – que adequadas às características do local a ser
virtualizado, podem instaurar processos comunicacionais mais ágeis, fomentar ações mais
democráticas e permitir aos navegantes a percepção do senso do local.
O primeiro modelo, as cidades virtuais enraizadas em espaços urbanos concretos, “tem
finalidades mais diversas, desde a ampliação do espaço público, passando pela consulta a bancos
de dados, à criação de comunidades através de fóruns e chats, até a possibilidade de fazer
compras em shoppings virtuais e se entreter” (LEMOS, 2001, p.). Como um exemplo bem
sucedido dessas cidades enraizadas, tem-se a Aveiro Cidade Digital (www.aveiro-digital.pt ).
Esse modelo busca mobilizar a sociedade com projetos de intervenção no espaço concreto,
sugeridos pela própria comunidade, por meio de quiosques públicos, acesso a escolas e
bibliotecas, incluindo também várias iniciativas culturais. Representa uma tentativa de incorporar
177
tecnologias de comunicação à sociedade, promovendo igualdade de oportunidades e o acesso
público e universal à informação.
O segundo modelo, o non-grounded cybercity, geralmente fornece informações turísticas
e culturais de uma cidade, servindo como um guia, a exemplo das cidades dos portais TERRA,
UOL e AOL. Trata-se da enumeração de dados e paisagens, sem preocupação em exprimir o
senso do local.
Exibem paisagens exóticas ou o brilho dos néons, tentando-nos com os prazeres
da noite e da boa mesa, atraindo-nos para shows folclóricos ou visitas a museus
e galerias de arte, anunciando saudáveis caminhadas por aventurosas trilhas
tropicais ou relaxamento total em luxuosos spas cercados de montanhas
nevadas. (PALÁCIOS, 2004)
Esse modelo é pertinente por apresentar informações rápidas e precisas, mas não são
suficientes para atender perspectivas de agilização das ações da população local a partir da
internet. Ainda, como poderiam descrever cidades onde se evidenciam vários tipos de turismo,
como Porto Seguro e onde existe uma dinâmica social um tanto complexa? Então, o que
enfatizar? As paisagens naturais, os centros históricos, os espaços para eventos? Ou deve-se
organizar a cidade na forma de links pontuados em seqüência, onde poucos internautas têm
paciência de abrir um por um? Esses questionamentos valem também para o terceiro modelo, o
metaphorical cybercity, que não representam nenhuma cidade real, apenas assemelha-se a uma
cidade na construção das informações, constituindo metáforas da cidade, como o são os sites do
Geocities.
Contudo, considera-se que a cidade virtual pode propor aos atores sociais novas atitudes
voltadas para a complementação entre o território geográfica e politicamente definido e o espaço
da inteligência coletiva – o ciberespaço. Portanto, com base na teoria e na tentativa de averiguar
178
como esse ambiente está sendo utilizado pelas entidades que compõem o setor turístico, será
apresentada, no próximo tópico, uma análise de sites referentes ao município de Porto Seguro.
179
3.3.3. Um Porto virtual Seguro?
Quem quer levada? Tem; quem quer cocada? Tem; a massa que rebola, abará,
coca-cola. Quem quer miolo? Tem; quem quer crioulo? Tem. O plug a lata
d’água; prêt-a-porter, anágua [...]. Ta no tabuleiro ponto com mundo inteiro, o
balancê, balancê dos balangandâs, um ie, ie, ie, ie, ie, ie no sol das manhãs, na
rua te ver [...]. (DEL REY, Tenilson; VASCON, Paulo; ZARATH, Jorge.
Groove da baiana. In: Daniela Mercury, disco Sol da Liberdade 2000).
A epígrafe, um fragmento de texto extraído da canção Groove da Baiana, relaciona o
tabuleiro da baiana ao ciberespaço, enfocando a diversidade de conteúdos que podem compor a
atmosfera de ambos espaços. A enumeração de elementos do tabuleiro da baiana pode simbolizar
a organização da cidade na internet, apontando a versatilidade de opções que este espaço pode
oferecer. Os fatores destacados na canção, embora tenham uma relação sutil com questões sociais
e econômicas, deve-se considerar, são elementos culturais propulsores da atividade turística, por
comportarem-se como elementos simbólicos da cultura e da economia do Estado da Bahia.
Portanto, pode-se dizer que este fragmento de texto traduz, como uma analogia perfeita, a função
do ciberespaço junto ao desenvolvimento socioeconômico dos destinos turísticos, em que se pode
ressaltar a possibilidade de potencialização da atividade, a partir da comunicação dos aspectos
locais.
Ainda nessa mesma analogia, não bastasse os incontáveis produtos oferecidos, o tabuleiro
também é um espaço extremamente dinâmico e democrático, onde todos podem opinar, comprar,
comer e interagir com as mesmas possibilidades, iconizando a democratização da informação e
vários outros aspectos que fomentam a atividade turística. De fato, há, disponível na internet,
uma série de representações do município de Porto Seguro, das quais a maioria (ou todas elas),
180
está longe de representar a complexidade social do local bem como toda a potencialidade
turística. Estas representações apenas apontam aspectos voltados para o estímulo a práticas
festivas e à exaltação da natureza exótica. Esses locais virtuais, geralmente, constituem extensões
de empresas, sendo pouco voltados para o estímulo à democracia e à interação social, funcionado
apenas como um dispositivo de marketing.
Essa constatação deu-se após visitação e análise de sites, buscado o entendimento da
correspondência entre os aspectos sócio-econômicos locais e as potencialidades (as novas
possibilidades de ação e interação) da internet, observando-se também o imaginário turístico
propagado pelo meio. A pesquisa ocorreu no período de 26 de novembro a 06 de dezembro de
2004, depois de concluídos os estudos sobre o imaginário e a dinâmica do município, bem como
sobre os aspectos comunicacionais da internet.
A discussão com que se inicia esta pesquisa exploratória foi a definição da metodologia.
O desconhecimento sobre um método específico para análise de sites de cidades turísticas,
implicou em uma problematização acerca da melhor maneira de se entender as representações do
município nesse ciberespaço, considerando a exploração das várias práticas turísticas no local. A
princípio, pensou-se que o método adequado seria simplesmente o etnográfico, afinal tratava-se
de uma pesquisa em um espaço, o ciberespaço. Contudo, constatou-se que esse método não
corresponderia exatamente ao processo uma vez que o campo de pesquisa não permite a
experimentação do local.
O segundo método cogitado foi o intencional não probabilístico por julgamento, afinal,
como já tinha ocorrido uma visitação para reconhecimento do (ciber)campo a ser pesquisado,
verificou-se que era preciso selecionar alguns sites para análise, afinal pelo sistema de busca
utilizado, o Google, muitos deles se repetiam, outros estavam indisponível para visitação e outros
não apresentavam estrutura e conteúdo que merecessem maior atenção. Contudo, a necessidade
181
de deslocar-se pelos sites que seriam analisados e, considerando, possíveis sensações que estes
deslocamentos virtuais viriam a proporcionar, era preciso um método de pesquisa que também
privilegiasse uma vivência virtual.
Portanto, a metodologia estipulada para a pesquisa foi
definida como intencional não probabilística por julgamento etnográfica.
Através do sistema de busca Google (www.google.com.br), com o título Porto Seguro
Bahia, a pesquisa realizou-se em análises de sites selecionados a partir de sua atratividade e
facilidade de navegação, que ao estimularem uma flanerie virtual culminou em um processo
etnográfico de estudo. O sistema de busca escolhido deve-se à consideração de que este seja um
caminho para turistas encontrarem informações sobre o local que desejam experimentar.
Por atratividade foram definidas a velocidade de conexão e a organização e designer do
site. Assim, entendeu-se que quanto mais rápido a conexão mais facilmente o usuário pode se
deslocar pelo espaço virtual; quanto mais simples a arquitetura do site, com cores, tipos e
imagens harmoniosos e com efeitos que não desviam a atenção, mais conforto visual se propõe
ao navegante; e quanto mais direta as informações contidas nos links mais facilmente pode-se
conduzir o internauta aos outros links do site. Por fim considerou-se que esses três aspectos, a
partir das características do meio, podem proporcionar ao navegante uma rápida leitura
semiótica. Partindo desses pressupostos, dos 780 sites visitados, foram analisados 108 que
correspondem ao modelo non-grounded cybercity.
Para melhor apurar as sensações, a pesquisa foi realizada em períodos de tempos
estipulados em quatro horas consecutivas no turno matutino e quatro no turno vespertino, com
três horas de intervalo entre os períodos. Essa delimitação foi importante para que sensações
como cansaço e saturação, não interferissem no processo analítico. O ambiente também foi
preparado para deixar o pesquisador centrado apenas no que via pela rede, sem se envolver com
estímulos externos. Assim, durante o período da pesquisa, as portas e janelas do ambiente
182
mantiveram-se fechadas, bem como se bloqueou o máximo possível de intervenções como
telefonemas ou outros sons que pudessem desviar a atenção.
A pesquisa deu-se obedecendo aos critérios de um formulário (anexo 1) devidamente
organizado, baseado em um modelo disponível no site do grupo de Pesquisa em Cibercidades24
da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. O formulário está divido em
três tópicos que envolvem conteúdo, exploração das características do meio, categorias de
atitudes evidenciadas, além de uma lacuna destinada a observações feitas sobre o designer, a
velocidade de conexão e os tipos de links disponíveis. Os sites analisados estão enumerados no
anexo 2 (dois).
A estruturação do formulário deve-se às constatações feitas no capitulo anterior sobre o
imaginário turístico do município e sobre a sua dinâmica sócio-econômica bem como a partir dos
depoimentos dos turistas. Considerando que o desenvolvimento sustentável da atividade turística
resulta do entrelaçamento de aspectos econômico, político e social e, então, entendendo a cidade
virtual como uma extensão da cidade, buscou-se identificar nos sites uma concepção o mais
aproximada possível do senso do local, cogitando o inter-relacionamento, de modo sinérgico,
entre os membros de um mesmo grupo cultural e/ou de uma mesma comunidade turística.
Por essa perspectiva, estipulou-se como conteúdo de análise o mínimo possível de fatores
que podem ampliar a compreensão dos nativos sobre sua própria ambiência e que o estimulem a
opinar sobre ações políticas e socioeconômicas locais. Considerou-se, entretanto, que esse
conteúdo não apenas deva estimular o internauta turista ao deslocamento físico, mas também o
permita executar ações que agilizem o seu período de estadia na cidade. Assim concluiu-se que
era necessário encontrar em uma única representação virtual, informações gerais sobre a
localidade, informações jornalísticas, educação, prestação de serviço, comércio eletrônico e
24
www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/cibercidade
183
interatividade, que foram os aspectos estabelecidos como conteúdo para a análise dos lugares
digitais referentes a Porto Seguro.
A partir desses conteúdos, estimula-se que o internauta possa desenvolver uma
compreensão mínima sobre a dinâmica do local no espaço físico, o que pode proporcionar-lhe
uma concepção da cidade enquanto um composto orgânico vivo. Com essa perspectiva, admitese a possibilidade de se edificar (em longo prazo) uma coerência intelectual e operacional entre
turistas, empresários, políticos e nativos sobre as acepções acerca do local e as atitudes
desenvolvidas como práticas turísticas.
Como interação, foi evidenciada qualquer ação que proporcione o contato humano,
considerando a relação com o local representado ou com outras pessoas através de e-mails, chats
de conversação ou fóruns. Por prestação de serviços, incluiu-se a reserva de diárias e de
passagens, locação de automóveis e/ou outros serviços que dinamizem a atividade turística. As
informações estipuladas deveriam referir-se a dados estatísticos e geográficos, informações
históricas e da atualidade do município, ressaltado o número de bairros, de hospitais, de escolas,
de bancos (com seus respectivos postos de auto-atendimento) bem como qualquer informação
que amplie a descrição da cidade.
Compreendeu-se que a educação, nesses espaços virtuais turísticos, deve proporcionar
orientações para turistas e nativos sobre os cuidados com o meio ambiente e com o patrimônio
histórico bem como a disponibilização de estudos científicos, enfocando aspectos referentes à
atividade turística, à cultura e à organização social. Também se considera como educação,
orientações sobre os cuidados com perplexidades sociais e sobre a forma adequada de comportarse e vestir-se no local. Por fim, foram consideradas como e-comerce a venda e compra de
utensílios e objetos pela rede e, por jornalismo informações sobre o cotidiano do município, o
que poderia proporcionar uma concepção mais geral sobre a dinâmica do local.
184
Poder-se-ía comparar as atuais extensões do município no ciberespaço às cidades
européias do final da Idade Média, com seus problemas de infra-estrutura urbana, caminhando
para descobrirem suas verdadeiras vocações e funções. Assim, a batalha dos burgueses para a
edificação dos centros comerciais, pode corresponder às tentativas dos atuais webdesigners em
construírem edificações fiéis, através de signos, ícones e significações, no espaço virtual para
poderem sinalizar a potencialidade turística do município.
Hotéis, restaurantes, a Prefeitura Municipal, a Cidade Alta, a Passarela do Álcool e muitos
outros espaços de Porto Seguro estão presentes no ciberespaço, em locais que pouco ou quase
nada contribuem para a promoção de debates públicos e para a prestação de serviços à
comunidade
cívil.
Pode-se
dizer
que
apenas
um
dos
locais
analisados
-
www.citybrazil.com.br/ba/portoseguro - pode traduzir a sua complexidade sócio-econômica,
apresentando a preocupação em desenvolver a democratização da informação, ao disponibilizar
para a população local espaços em que possa expressar opiniões referentes ao cotidiano. Este site,
explora as características do meio e oferece ações que agilizam a estadia do turista no local.
Contudo, de modo geral, muito pouco ou quase nunca se fala na melhoria da localidade,
apenas exalta-se o multiculturalismo como uma forma de se propagar aquele imaginário turístico
identificado no capítulo anterior. Natureza exótica, sensualidade e liberdade são os principais
temas apresentados pelos sites. Em português ou em qualquer outro idioma, principalmente o
inglês, Porto Seguro está presente na rede como o local da diversão, da descontração e do ‘se
querendo tudo pode’, como está evidenciado nos textos abaixo retirados de sites analisados.
Porto Seguro [...] conhecido por ser o local do descobrimento do Brasil. Carnaval é especialmente animado e o local é conhecido por sua
agitada vida noturna e pelas comemorações do ano novo. Índios Pataxós, ainda vivem em Porto Seguro, pescando e fazendo artefatos para
venderem aos turistas no centro da cidade histórica, onde tem interessantes igrejas, adoráveis jardins e uma bela visão panorâmica. A área em
volta de Porto Seguro é uma densa reserva da Mata Atlântica. Cruzando a baía, chega-se ao Arraial d’Ajuda, um cenário admirável em um
185
penhasco irregular com tranqüilas praias. O centro é cheio de bares e restaurantes e tem uma boa vida noturna. Ao longo da costa, está
Trancoso, uma pequena e simples vila conhecida por ter as mais bonitas praias do Brasil.25
In:http://discoverbrazil.com/ntours/PortoSeguroPackageDN/index.cfm
Turista tem muito o que fazer nas noites 'arraialenses'[...] Não há espaço para o
tédio em um território repleto de bares, boates com infra-estrutura completa, bar
e ambientes com efeito hi-tech. O roteiro da nigth obrigatoriamente passa pela
Brodway, Estrada do Mucugê e Beco das Cores [...] Homens bonitos,
geralmente estrangeiros tostadinhos e gatinhas que capricham no visual (nada de
encarnar Gabriela Cravo e Canela e perambular por lá no modelito de chita, hein
meninas!) sobem e descem a ladeira de paralelepípedos, atentos a olhares, e
disparando olhares. Não sei que tipo de magia paira no ar, que faz com que
Arraial D'Ajuda desencalhe seus visitantes. Que lá todo mundo se arranja, ah!
isso é verdade.
In: http://www.cosmo.com.br/viagem/integra.asp?id=96051
Assim como nesses dois exemplos, em quase todos os sites analisados há a propagação do
imaginário turístico do local (evidenciado anteriormente) bem como construções que traduzem e
fomentam o processo de espetacularização da cultura local, como pode ser observado no primeiro
texto sobre os índios Pataxós. Logo, pode-se dizer que na maioria desses espaços virtuais, ou
melhor em todos o sites analisados, que oferecem informações sobre o município, estas estão
limitadas a propagar o imaginário já identificado em outros mecanismos de comunicação.
Nenhum dos espaços virtuais analisados contemplou todos os aspectos estipulados. Muitos nem
mesmo exploram as características do meio para a contextualização do município, o que poderia
permitir ao turista uma maior percepção do cotidiano. As informações, em sua maioria, referemse à descrição de hotéis e de alguns atrativos turísticos, em geral, evidenciando as praias e as
casas noturnas.
25
Porto Seguro, in the extreme south of Bahia – including Arraial d’Ajuda and Trancoso – is another Bahia
destination that has been selected by DiscoverBrazil.. Carnival here is especially lively and the town is known for its
vibrant nightlife and New Year’s Eve celebrations. Pataxo Indians still live near Porto Seguro, fishing and making
handicrafts to sell to tourists and the town itself has a historical city on top of the hill with some interesting churches,
lovely gardens and wonderful panoramic views. The area around Porto Seguro is a densely forested nature reserve of
original Atlantic forest. Across the bay lies Arraial d’Ajuda, which is set high on a cliff overlooking a rugged
coastline with idyllic beaches. The town is full of bars and restaurants and has a good nightlife. Further along the
coast is Trancoso, a simple little village known for having some of most beautiful beaches in Brazil.
186
Considerando o conteúdo estipulado para o critério informação, pode-se destacar, como o
melhor estruturado, o site www.portosegurotur.com.br . Este oferece um arsenal de informações
referentes ao município, constituindo-se como um bom local para a identificação de algumas
prestadoras de serviços úteis ao turista, e de um modo mais genérico também à população local.
Contudo, o site não proporciona prestação de serviços, nem educação, nem e-comerce.
Nesse site, pode-se encontrar informações gerais sobre o município, como aspectos
geográficos, localização, também enumeração de estabelecimentos comerciais, telefones e
endereços de prestadores de serviço como hospitais, postos de saúde, empresas de transportes e
bancos. Ainda constam informações sobre o calendário de eventos, sobre os centros culturais e
enumeração das principais atividades econômicas. O jornalismo, nesse site, apresenta caráter
sensacionalista, noticiando apenas aspectos positivos do município ou fatos que podem interassar
a um grupo específico de turistas que procura por festas e diversões. Além do mais, o site é
extremamente desatualizado. No período da pesquisa, a última notícia, por exemplo, datava do
dia 09/04/2003, o que não condiz com as idéias centrais sobre a internet: dinamicidade, agilidade
e instantaneidade da informação.
De modo geral, o jornalismo referente ao município é voltado para notícias turísticas,
pouco se decodificam as ações cotidianas. As realizações populares, os conflitos sociais, as
situações reais dos bairros (os bairros nem constam nos sites) e as perplexidades sociais não são
pautas da maioria dos sites que oferecem jornalismo. Da totalidade de espaços que apresentam
este conteúdo, apenas três são totalmente referentes ao município de Porto Seguro, as outras
notícias estão veiculadas em extensões de jornais impressos de circulação nacional ou em portais
que aproximam cidades turísticas.
Dos espaços referentes ao município que oferecem jornalismo o www.portonet.com.br e o
www.portosegurotur.com.br limitam-se a notícias voltadas para a contemplação do local,
187
divulgando apenas aspectos festivos e comemorativos. O www.muralnet.jor.br, uma revista
quinzenal local, apresenta uma dinâmica diferente, buscando utilizar o espaço como um local de
informação jornalística, tanto enfatizando as vivências e necessidades de informação da
população, decodificando as ações locais, quanto apresentando notícias referentes à pratica
turística. Assim, o site apresenta dois links jornalísticos denominados, “informações à
comunidade” e “informações aos turistas”.
No link ‘informações à comunidade’, tem-se notícias sobre a rotina da cidade. As sessões
temáticas estão divididas em sete temas, envolvendo políticas e administração pública,
educação, cidade, esportes, arte e cultura, cartas, gente. Assim, pelo site, pode-se ter uma noção
das realizações sociais e políticas do município. O outro link, “informações aos turistas”, no
período da pesquisa estava indisponível. Contudo, o site também propõe debates públicos, através
de uma enquete. Na ocasião da pesquisa, o tema referia-se à identidade nacional, questionando se
a história do Brasil deveria continuar a ser contada pela lógica dos dominadores ou se era preciso
rever a narrativa, esclarecendo as entrelinhas dos fatos (mais de 90% dos usuários tinham votado
na segundo opção).
Educação e e-comerce são os aspectos menos freqüentes na rede, referente ao
município. Oito sites apenas contemplam a educação, apresentando estudos científicos, versões
sobre a história local, inclusive um que apresenta linguagem infantil, de modo a orientar a criança
sobre as peculiaridades do local e explicações sobre a fauna e a flora, bem como sobre
construções arquitetônicas e sobre a cultura do município. Também constam orientações sobre a
forma
de
conduta
no
local
(evidenciando
o
respeito
à
natureza).
No
www.worldsexguide.org/porto-seguro.txt.html, um site voltado para o turismo sexual, há regras
contra prostituição infantil, ressaltando as punições legais nacionais (o site é voltado par o turista
estrangeiro), além de conter também normas para a utilização do site. Contudo, não há, em
188
nenhum momento alerta quanto à não destruição do local e o incentivo à de cenários naturais e
urbanos, fator tão relevante no depoimento dos turistas, registrado no capítulo anterior.
O e-comerce é pouco explorado. Este aspecto é freqüentemente encontrado em sites de
imobiliárias, que disponibilizam vendas on-line de imóveis. Como no caso do site
www.altodetrancoso.com.br , extensão de uma empresa paulista que vende loteamentos em
Trancoso. O negócio pode ocorrer em tempo real uma vez que o usuário pode entrar em contato
direto com o vendedor, através de uma caixa de diálogo. Esta prática sinaliza a emergência das
empresas Lone Eagles e High Fliers, apresentadas no capítulo anterior. Na busca também foram
encontradas vendas de obras de arte, produzidas por artistas locais bem como de outros objetos
(roupas, eletrodomésticos).
As empresas hoteleiras utilizam a rede para oferecerem seus serviços on-line. Estas, que
constituem a maioria das representações do município na internet, estão fomentando uma cultura
comunicacional virtual que envolve a organização de links que conduzem o usuário a trafegar por
todo o hotel e em alguns espaços exóticos do município, antes de realizarem as reservas de suas
diárias. Geralmente, essas extensões de hotéis apresentam em sua estrutura links denominados
‘Reservas’ (permitindo a execução de reservas diárias); ‘Contate-nos/Fale conosco’ (promove
interação do navegante com a empresa); ‘Serviços’ (descreve os serviços do hotel); ‘Conheça
nosso hotel’(apresenta as instalações do hotel).
Nessas extensões de hotéis, geralmente aparece o link ‘Passeio Virtual’, onde estão
enumerados alguns atrativos turísticos, demonstrados através de fotografias e um pequeno texto
com a função de estimular o ciber-cidadão ao deslocamento físico, exibindo paisagens exóticas,
praias tropicais, shows contagiados por multidões enlouquecidas, lindas mulheres e garotos fortes
e um pouco de história, propagando o mito do descobrimento. Contudo, outros serviços são
oferecidos na rede, por outras empresas (imobiliárias, agências turísticas, e demais prestadores de
189
serviço) como locação de automóveis, aluguel de casas para temporada, reservas de passagens
aéreas e/ou terrestres, matricula em aulas de dança, e entre outros, também a prestação de
serviços sexuais.
A interação, na grande maioria, proporciona uma relação direta apenas com empresa
prestadoras de serviços. Poucos sites oferecem chats e fóruns, ou caixas de diálogo ou enquetes.
Os fóruns dos sites locais são pouco freqüentados, o que se observa em alguns locais são espaços
para turistas disponibilizarem suas experiências ou deixarem seus recados. Não há de fato
estímulo à cidadania e à democracia, nas salas de bate papo. Apenas algumas poucas enquetes,
incitam a discussão.
De modo geral, constata-se que, de alguma forma, todos os sites oferecem algum tipo de
informação. A prestação de serviços ainda é limitada à rede hoteleira; não há exatamente o que se
poderia chamar de educação para o turismo, embora se registre a presença de sites que têm por
função fornecer pressupostos científicos sobre o turismo e sobre aspectos locais. A prática do ecomerce não contribui positivamente para a dinâmica do comércio local, ao contrário, apenas
ratifica a discussão do tópico 1.1.3 de que a cibercultura está fazendo proliferar as divergências
entre ricos e pobres, afinal, enquanto as empresas com maior capacidade técnica e financeira
alcançam cada vez mais públicos distantes, pode-se dizer que mais e mais as pequenas empresas
(geralmente as empresas locais) perdem espaço no cenário competitivo do mercado.
Ainda, o que se pratica como jornalismo reproduz, na maioria dos casos, a prática da
impressa marrom, noticiando apenas o ilusório, o espetáculo, em vez de usar o meio para
promover realmente a democratização da informação que é a função principal do jornalismo. E
falando em democratização é possível ratificar que o que se encontra por interação nas
representações virtuais de Porto Seguro são espectros de uma economia capitalista e de um
sistema tecnocrático. Por um lado, tem-se um montante de empresas voltadas para interagir com
190
possíveis clientes, no sentido de fazer-lhes reservas de seus serviços; por outro, sites que
apresentam chats e fóruns não oferecem temáticas capazes de fazer o usuário refletir sobre sua
condição humana nem mesmo sobre os aspectos contemporâneos de sua cidade.
Não existe uma interação entre a comunidade civil e os setores públicos e empresariais
que poderiam caracterizar uma democracia social e sinalizar uma melhor organização do local.
Não há também uma interconexão na rede nas representações de Porto Seguro. Assim, todos os
conteúdos estipulados para a pesquisa estão presentes na rede, na maioria das vezes, dissociados,
aparecendo com a freqüência identificada pela tabela que se segue (tabela 1.1)
Presença total dos conteúdos nos sites analisados
Conteúdo:
Interação
Prest. de Serviços
Informação
Educação
E-Comerce
Jornalismo
Número total de sites em que se
identificam os conteúdos:
Em 76 sites (e-mail – 70; fórum – 5; chat
– 5 caixa de diálogo 11)
Em 65 sites
Em 111 sites
Em 8 sites
Em 8 sites
Em 21 sites
Tabela 1.1
Com relação às características da internet, constata-se que estas não são devidamente
aproveitadas, o que dificulta ao usuário um melhor entendimento da dinâmica do município ou
mesmo melhor interagir com os locais, realizando ações que possam agilizar sua permanência
enquanto
turista.
Apenas
nos
endereços
www.citybrazil.com.br/ba/portoseguro/
www.cvc.com.br/brasil/aereo/portoabrolhossaba_8d/default.asp e www.freires.com.br foram
191
contempladas todas as características do meio. De modo geral, observa-se a exploração da
hipertextualidade e da heterogeneidade. Em poucos sites, observa-se o princípio da metamorfose,
este geralmente aparecem em espaços jornalísticos e em imobiliárias e agências. Também o
princípio da exterioridade não é tão evidente.
A maioria das representações do município apresenta estrutura fixa, principalmente
quando se trata de hotéis. Estas empresas utilizam muito da heterogeneidade, da
hipertextualidade e da mobilidade dos centros para apresentarem suas acomodações,
compartimentos e mostrarem os serviços oferecidos.
Por se tratar de edificações isoladas,
geralmente, não há exterioridade, por isso, na maioria das vezes, ao entrar em um hotel virtual, o
usuário não consegue deslocar-se para outro espaço, o que culmina também na não utilização do
princípio topologia, afinal, nesses hotéis virtuais estão aproximadas apenas as instalações da
própria empresa e alguns aspectos do cenário urbano e natural.
Em sites de imobiliárias ou agências de turismo, observa-se a exploração da topologia,
aproximando localidades em links, que, geralmente, não se convertem em ampliação do conteúdo
originário, mas sim, que levam o usuário a outro espaço, acrescentando-lhe outras informações
também superficiais. Nesses sites, fica fácil deslocar-se de hotel em hotel, ou, em poucos casos,
dar um passeio virtual pelo município. Mas esse é um caminho sem volta, afinal, muitas vezes
não há como retornar sem sair do site ‘linkado’.
Portanto, pode-se dizer que sites referentes ao municio de Porto Seguro ainda não
constituem verdadeiras representações do local, mas sim, simulacros isolados, que proporcionam
ao internauta apenas ilusões referenciais e limitadas. Como o demonstrado na tabela abaixo
(tabela 1.2), alguns recursos são mais explorados que outros, o que contribui para a necessidade
de planejar melhor o município de Porto Seguro no ciberespaço, na tentativa de representá-lo
como um composto orgânico vivo.
192
Características do meio encontrada nos sites analisados
Total de sites que apresentam a
característica
Hipertextualidade
Encontrada em 102 sites
Metamorfose
Encontrada em 43 sites
Heterogeneidade
Encontrada em 77 sites
Multiplicidade
Encontrada em 26 sites
Exterioridade
Encontrada em 15 sites
Topologia
Encontrada em 60 sites
Mobilidade dos centros Encontrada em 57 sites
Características
Tabela1.2
Partindo da necessidade de se pensar um modelo de cidade virtual adequado à
potencialização do turismo, enquanto uma atividade sustentável, deve-se ressaltar a importância
também da exploração das categorias de atitudes, verificando ‘a priori’ como estas vêm sendo
utilizadas nas atuais extensões do município. Assim, nos sites analisados, identificou-se a
utilização dessas categorias em representações de hotéis, agências de turismo e imobiliárias.
Apenas a categoria analogia aparece em quase todos os sites. A substituição foi identificada em
imobiliárias; a assimilação em hotéis virtuais e a articulação é uma categoria de atitude bastante
utilizada por agências de turismo e imobiliárias, pondo o usuário em contato direto com hotéis
ou, no segundo caso, com o locatário ou o proprietário de imóveis. O total de exploração das
categorias de atitudes pelos sites analisados está identificado na tabela abaixo (tabela 1.3).
Categorias de atitudes disponibilizadas nos sites
Total de sites que disponibilizam a
193
Tabela
1.3se edificar
A análise dos sites indica que ainda muito tem que ser feito e estudado
para
uma estrutura virtual capaz de realmente não só representar a dinâmica do município, como
também propor novas ações locais. É preciso, portanto, pensar em um modelo de cidade que
possa ampliar as bases de um desenvolvimento turístico sustentável, na qual o ciberespaço seria
um elo entre as várias comunidades que compõem o cenário e a dinâmica do município.
Conteúdos, características do meio e categorias de atitude devem ser melhor redefinidos junto às
projeções virtuais do local, de modo que os internautas possam realmente utilizar a internet como
um espaço de agilização das ações e de democratização sejam essas através da possibilidade de
participação nas decisões políticas e administrativas, sejam através da fomentação de uma
competição mais justa entre as empresas.
Contudo, essa redefinição deve partir do posicionamento da população sobre o próprio
local, sem o que seria constituiriam uma ação tecnocrática. Nesse sentido, a internet pode ser
usada como um espelho da sociedade, apresentando os ícones e símbolos eleitos pelos moradores
e visitantes do município. Também se deve pensar na edificação dessa estrutura virtual, como
forma de pôr em sinergia e em pé de igualdade, com relação aos destinos da cidade, ricos e
pobres, patrões e empregados e demais tipos antagônicos, que diariamente compõem a ambiência
do local, fomentando os processos de hibridismo cultural, multiculturalismo e de mutação da
identidade.
O processo é difícil e lento, afinal conciliar intenções capitalistas, se não utópica, é uma
atitude bastante prodigiosa. Contudo o estudo sobre a vontade da população, associado a um
estudo sobre o planejamento urbano pode ser um caminho para se chegar a um consenso acerca
194
de uma representação virtual da cidade. Para tanto, no próximo tópico, será iniciada uma
discussão sobre a melhor forma de se projetar o município no ciberespaço, a partir das
perspectivas de representantes da população local e de índios Pataxós (os donos do espaço !?),
entendo as expectativas destes com relação ao uso da internet junto à resolução de suas
problemáticas.
195
3.4. NAVEGAR É PRECISO. VIVER É PRECISO TAMBÉM
196
3.4.1. Por que não uma ‘aldeia global’ no ciberespaço?
Box 1. Escola Indígena Pataxó
Fotografias Moabe Breno.
Escola indígena Patoxó. Localizada na aldeia urbana, em Cora Vermelha,
município de Santa Cruz Cabrália. A escola apresenta uma boa infra-estrutura
comunicacional. TV com antena parabólica e internet via satélite estão disponíveis
para alunos, professores e demais integrantes da comunidade.
Estudar o município de Porto Seguro para propor a sua representação virtual não é tarefa
fácil diante da imensidão de aspectos e etnias que compõem a sua dinâmica. Assim, com base na
história, elegeram-se fatores preponderantes na sua identificação, de modo que na sua
transposição para o ciberespaço, deva-se privilegiar os elementos mais simbólicos do local,
buscando, evidentemente, tratá-los sem espetacularização, mas sim, criando perspectivas de
melhorias sociais e do próprio homem, que funcionem como estímulo à perpetuação da cidade
na rede.
Onde nasceu o Brasil? Indubitavelmente, o mito do descobrimento e a idealização do índio
enquanto ser puro e ingênuo são fatores de grande força na comunicabilidade turística
referente ao município, inclusive no ciberespaço, o que não poderia ser diferente, afinal em
197
qualquer livro de história do Brasil, esse local é determinado como o centro originário da
cultura do país. Contudo, deve-se propor ao usuário da internet, aproveitando as suas
características, uma visão menos utópica sobre o local, utilizando recortes das práticas sociais
que fomentam o seu cotidiano e sinalizam os diferentes grupos culturais que o dinamizam. É
esta a perspectiva, embasada pela idéia de vencidos e vencedores de Benjamim (1997), que se
fundamenta o estudo sobre o multiculturalismo do local a partir do grupo étnico indígena.
Em cada espaço do município, há diferentes realizações humanas, voltadas para suprir as
carências e as necessidades sociais, para propor a interação e unidade dos grupos humanos que o
dinamizam, firmando então uma identidade cultural. Nos bairros, nas associações, nas escolas,
nas igrejas e nos guetos há sempre uma forma política de organização que delimita os aspectos
característicos das práticas sociais. É essa dinamicidade que torna os centros funcionais e
alimenta a concepção da cidade, enquanto um composto orgânico vivo. Assim, estudar o turismo
no município de Porto Seguro exige uma acepção sobre a atual forma de organização indígena,
enfocando questões étnicas que ainda persistem após tanto tempo da ‘civilização brasileira’,
embora a cultura indígena do local já tenha passado por transformações e adaptações à
contemporaneidade.
Eletricidade, televisores, antena parabólica, telefone, receptor de ondas de satélite, cursos
de informática, internet estão representados no Box 1, utilizado como epigrafe. Tudo isso compõe
a ambiência dos índios Pataxós na aldeia em Coroa Vermelha, município de Santa Cruz Cabrália,
há alguns minutos de Porto Seguro. Pode-se dizer, sem dúvidas, que essa é literalmente uma
aldeia global, que se procura utilizar das inovações para propor a unidade do grupo étnico
Pataxó. Portanto, no título do tópico, a expressão aldeia global (fazendo menção a Mcluhan)
reúne metonímia e ironia para iniciar um estudo, sobre a relação dos Pataxós com as atuais
198
tecnologias de informação, evidenciando as expectativas destes para com a internet, de modo a
entender como esse ciberespaço pode proporcionar alterações na dinâmica da comunidade, que
venham a culminar na melhoria da vida.
Portanto, busca-se sinalizar, através do título, que os atuais Pataxós, ao contrário do que
delimitam comunicações turísticas, estão devidamente atentos às transformações mundiais. A
aldeia urbana, como os próprios índios denominam, é cenário das ações que promovem a
adaptabilidade do índio à contemporaneidade. Escolas, cursos, negociações e reuniões internas
são evidenciadas em Coroa Vermelha, propondo uma articulação geral entre os índios habitantes
da Costa do Descobrimento. Assim sendo, pode-se dizer que a aldeia vai tornando-se global à
medida em que vai absorvendo as influências mundiais, as utilizando em benefícios próprios.
Mas que ações reais estão sendo cogitadas a partir da internet? Ou que mudanças os Patoxós
esperam promover a partir da utilização deste média?
Na tentativa de entender como a internet pode potencializar as lutas indígenas,
contribuindo para organização e adaptação do grupo nessa era de cibercultura, foi aplicado
questionário (Anexo 3) a estudantes e professores índios atuantes na aldeia urbana, considerando
que estes podem representar a comunidade indígena da Costa do Descobrimento e, portanto, do
município estudado. Afinal, a própria dinâmica desse grupo cultural caracteriza-se pelo
deslocamento constante dos seus membros entre as aldeias. Assim, os índios transitam e residem
esporadicamente em aldeias diferentes, dependendo da sua atividade e das determinações gerais
do grupo. Portanto, pode-se inferir que tanto em Porto Seguro quanto em Coroa Vermelha há
uma mesma concepção sobre o mundo contemporâneo. A escolha pela realização da pesquisa na
tribo de Coroa Vermelha deveu-se à facilidade de deslocamento.
A partir de 1970, com a proliferação do movimento migratório para o município de
Porto Seguro, várias etnias começaram a misturar-se, gerando novas expressões culturais
199
(multiculturalismo, hibridismos), mas, por outro lado, ampliando problemáticas já
evidentes no local, como a luta pela posse de terra entre e índios e ‘não índios’. Um conflito
que ultrapassa os limites territoriais, penetrando na esfera da cultura, dos valores, da
intolerância, da exploração e especulação sobre os espaços privilegiados pela natureza e
sobre as produções do homem local. Em entrevista, na segunda etapa da pesquisa de
campo, ocorrida entre 07 e 14 de janeiro de 2004, a representante da Funai, chefe do setor
de educação do órgão, Irene Maria de Jesus, aponta que essas problemáticas têm sua
ampliação com a prática turística.
Existe uma série de problemas decorrentes da atividade turística junto à aldeia
indígena, principalmente pela presença, mesmo temporária, de não índios que
devido a essa troca de informações tanto benéficas quanto maléficas induzem a
práticas que acabam direcionando o que seria o natural dentro das aldeias para
situações antes não previstas. Nós temos sérios problemas de prostituição,
tráfico de drogas e a perda dos sentidos reais do que é ser índio, da cultura
indígena e a perca da referência do legado cultural (Irene Maria de Jesus, em
entrevista na primeira etapa da pesquisa)
Diante desse depoimento, ficou patente a importância de se desenvolver um estudo sobre
etnia, do modo que se possa melhor compreender a relação entre índios e turismo nessa era de
cibercultura. Assim, na ultima etapa da pesquisa de campo, aplicou-se questionário a dez
integrantes da aldeia urbana, pelo método intencional não probabilístico por julgamento. O
critério de seleção baseava-se no uso da internet e no grau de escolaridade.
Aplicou-se questionário, então, a cinco estudantes da oitava série do ensino fundamental,
o maior grau de ensino na escola indígena, e a cinco professores, respeitando as exigências e
peculiaridades da tribo, o que culminou na não interação direta entre pesquisador e amostragem.
200
Afinal, de acordo com a orientação do cacique, os questionários foram entregues a um integrante
do grupo, que ficou responsável por sua aplicação e recolhimento. Assim as respostas foram
recolhidas após o prazo de um dia, o período estipulado pelo próprio representante. As questões
eram três: O que é etnia?; Quais as principais problemáticas que o grupo étnico indígena
enfrenta?; e Como a internet pode contribuir para a solução dessas problemáticas? Dos dez
questionários, apenas sete foram devolvidos preenchidos.
A compreensão sobre um grupo étnico não é tarefa das mais fáceis. As razões da etnia
estão impressas no dia-a-dia das comunidades enquanto totalidade de indivíduos e em cada
pessoa que, por si própria, tenta encontrar seu lugar na complexidade das relações sociais. Tentar
se encontrar, tentar se descobrir e tentar se impor no universo do capitalismo selvagem, que
define a todo tempo divisões nas sociedades, requer uma autoconsciência de si, da sua
coletividade e da sua história.
Ao verificar que as relações humanas estão submetidas mais à seleção social que natural,
entende-se que é “o modo pelo qual, sob os efeitos das seleções sociais, os elementos
antropológicos superiores e inferiores se combinam em uma população que determina as
vicissitudes da história” (POUTGNAT & STREIFF-FENNAR 1998, p.34) e compreende-se,
então, o surgimento e o declínio das nações e no interior destas, a complexidade das comunidades
que dinamizam o cotidiano das sociedades e compõem diferentes grupos étnicos.
De acordo com Poutgnat e Streiff-Fennar (1998, p.34), entende-se etnia como “um modo
de agrupamento formado a partir de laços intelectuais, como a cultura e a língua”. Desse modo,
os grupos étnicos não podem ser identificados somente por suas características físicas nem
mesmo podem ser delimitados a localidades geográficas. Um grupo étnico deve ser reconhecido
por meio das práticas e hábitos cotidianos, das manifestações estéticas, culturais e ideológicas,
das reivindicações e lutas contra a intolerância e da luta por seus direitos bem como pelos
201
sentimentos comuns que sãos os responsáveis pelo estímulo e fortalecimento das relações entre
os indivíduos componentes de uma comunidade – um grupo étnico.
Considerando as necessidades de mudança e descoberta do homem bem como um arsenal
de informações, que a todo o momento invade seus espaços, compreende-se que existem
diferentes perspectivas entre pessoas que habitam uma localidade. Por isso, aponta-se que os
grupos ou comunidades étnicas não estão necessariamente reunidos em uma mesma área
geográfica, “eles existem apenas pela crença subjetiva que têm seus membros de formar uma
comunidade e pelo sentimento de honra social compartilhado por todos que alimentam tal
crença” (POUTGNAT & STREIFF-FENNAR, 1998, p.38). A etnicidade, portanto, fundamentase pelo modo de como são organizados e delimitados os estilos de vida assim como pela
evidência das características distintivas que estabelecem as contextualizações sociais.
Essa percepção pode ser identificada junto ao grupo da amostragem. Dos sete
questionários devolvidos, em todos, a etnia era definida a partir de um inter-relacionamento
humano através das ações e valores que compõem a cultura do grupo e também dos aspectos cosangüíneos. Nas respostas referentes à definição de etnia, estão associadas história, língua,
política, religião, entre outros aspectos, como elementos identificadores de um grupo étnico.
Como escreveu um índio Pataxó “etnia é um grupo de pessoas diferenciadas e munidas por
sentimentos e em contexto de pertencimento sócio-cultural: histórico, lingüístico, co-sanguíneo,
política, religiosa, econômico, territorial”. Contudo uma necessidade de adaptação à
modernidade também faz parte do contexto étnico descrito pelos índios Pataxós.
Assim
encontrou-se em uma das respostas que etnia “é nunca deixar suas origens, sua história e seus
costumes morrer. É deixar vivo o que está pouco a pouco sumindo e viver o que é real”.
De modo geral, pode-se, por inferência, identificar a existência de um sentimento comum
entre os componentes desse grupo étnico, que os possibilitam reconhecerem-se e identificarem-se
202
entre si, fomentando os sentidos da comunidade. Pode-se também inferir que é justamente esse
sentimento coletivo de pertença que possibilita, atualmente, a unidade de um grupo étnico, como
a comunidade Pataxó.
Para Weber, o fator decisivo continua sendo a comunidade política. Ela
corresponde ao que ele designa como a forma ‘mais artificial’ de origem da
crença no parentesco étnico, aquela pela qual uma associação racional (tal como
uma atividade comum de defesa do território ou do de conquista ou mesmo de
uma simples subdivisão administrativa) transforma-se em comunalização
étnica, atraindo um simbolismo de comunidade de sangue e favorecendo a
emergência de uma consciência tribal ou a eclosão de um sentimento de dever
moral ligado à defesa da pátria. (POUTGNAT E STREIFF-FENNAR, 1998,
p.39).
Portanto, entendendo a política como um aspecto organizacional das comunidades, como
já foi evidenciado no capítulo anterior, é preciso definir as principais problemáticas sociais
características do grupo cultural em questão, para, em seqüência, trabalhar a partir da própria
perspectiva do grupo, uma maneira de se utilizar a internet de modo a contribuir para a edificação
de soluções. Está-se desse modo fomentando um processo de inclusão digital que, conforme Silva
Filho (www.espacoacademico.com.br/024/24amsf.htm), deve resultar de uma política pública
voltada para a implementação de ações que promovam novas oportunidades ao grupo.
Nesse sentido, identificou-se, na segunda questão, as principais problemáticas enfrentadas
pelo grupo Pataxó; como: preconceito, condições desiguais de trabalho, precárias condições de
habitação, falta de demarcação justa de terras, desintegração cultural, pobreza e o desprezo.
Também foi evidenciada, a espetacularização da cultura indígena, devido à falta de
conhecimento dos não índios sobre a história e as peculiaridades do grupo. Pode-se dizer que
muitas dessas problemáticas indígenas correspondem a articulações que descrevem a intolerância
203
do homem frente às diferenças e que apontam para a urgência de ações que possibilitem o
fortalecimento dos grupos étnicos e das comunidades oprimidas, possibilitando-os interagir com
os seus ‘então opressores’ com as mesmas condições de sobrevivência. Na verdade, está-se aqui
estendendo a idéia de etnicidade para o espaço das relações, que, quando concentrado em
divergências econômicas, políticas, sociais, sanguíneas, ou sexuais, definem as hierarquias
sociais e as condições de sociabilidade, no sentido definido por Maffesoli (1998).
De fato, fundamentado em pressupostos capitalistas pode-se, de certo modo, justificar as
razões pelas quais predominam, entre diferentes grupos étnicos ou diferentes tribos, as condições
desiguais de sobrevivência e de participação nas decisões políticas locais. Contudo, quando se
consideram as diversas comunidades pelo ponto de vista cultural, reconhecendo que cada uma
tem seus próprios princípios, valores e desejos, não se pode entender, muito menos, aceitar tais
razões institucionalizadas. Todo grupo tem que ser valorizado e respeitado dentro de suas
perspectivas, sejam elas estéticas, de consumação, de convivialidade ou de erotismo.
Essa não aceitação ou indignação com as precárias condições humanas em que se
encontram grupos discriminados, faz emergir ações voltadas não somente para a resolução das
problemáticas, mas também para o esclarecimento ao público externo sobre os conflitos e sobre
as razões e expressões daquele grupo cultural oprimido. Nesse sentido, há, junto à comunidade
indígena, além das lutas por posse de terra, tão evidenciadas pelos meios de comunicação, ações
em prol da organização interna e da unidade do grupo, em que se buscam um estudo e a
valorização da cultura.
Hoje os professores indígenas têm uma organização. A Associação dos
Professores Indígenas do Estado da Bahia. Elas passam por um processo de
formação continuada e uma das reivindicações é a questão de dá suportes
tecnológicos para as escolas. Além do suporte físico, eles querem que todos as
204
escolas indígenas tenham computadores, estejam ligados à internet e a previsão
deles é formar uma rede de escolas indígenas, como uma comunidade virtual.
Em outros estados isso já acontece. Uma das principais atribuições atuais da
escola indígena é a realização de pesquisa sobre a cultura antepassada. Os
índios estão buscando encontrar no seu dialeto a denominação das inovações
contemporâneas, como a internet. A pesquisa ocorre em autonomia
metodológica, embora a Funai tenha um trabalho de orientação. Os próprios
índios discutem entre si a melhor forma de atividades no sentido não só de
resgate, mas de reconstrução da cultura, envolvendo tudo, material, espiritual,
tudo que envolve a tradição. (Irene Maria de Jesus, Chefe do Setor de
Educação da Funai. Durante a entrevista na primeira etapa da pesquisa de
campo.)
A escola indígena corresponde a uma tentativa de adaptação da cultura do índio às
transformações mundiais, buscando propor um movimento contínuo de construção e reconstrução
da cultura, fomentando um processo total de multiculturalismo, no qual a educação torna-se a
base das transformações sociais. Tem-se com essa iniciativa uma proposta de educação
intercultural, na qual se pode encontrar, subentendido, a noção de que uma cultura não se
constitui isoladamente, mas também das inter-relações com o ambiente externo. Assim, à medida
em que o índio penetra na sociedade entrando em negociação com outras culturas, ele, consciente
de sua etnia, pode cada vez se auto-afirmar enquanto índio.
Nesse sentido, o ciberespaço pode ensejar a transformação da diferença em informação,
promovendo, ao mesmo tempo, a ampliação dos sentidos da comunidade e o reconhecimento,
por outros grupos, das peculiaridades indígenas. Portanto, está-se conduzindo o processo de
desterritorialização e, conseqüentemente, de glocalização, da referida comunidade. É essa
perspectiva de desterritorilaização que os índios Pataxós atribuem à internet, o que pôde ser
identificado junto à análise da terceira questão do questionário sobre a utilização da internet para
solucionar problemáticas indígenas.
205
Em todos as respostas, esse ciberespaço foi evidenciado como um meio comunicacional
capaz de promover a divulgação das lutas da comunidade, ajudar na organização dos documentos
do grupo e na realização de pesquisas importantes para o seu desenvolvimento socioeconômico.
“A internet pode contribuir para divulgar as necessidades da aldeia, expressar as nossas idéias,
estar conectado com o que está acontecendo no mundo” expressou um Pataxó. Outro aponta que
“pesando em um mudo globalizado, a internet é um dos meios de solução, divulgando a
verdadeira situação que os povos indígenas enfrenta [sic] hoje e conscientizando o mundo, pois
índio também é gente e tem direitos!”.
Portanto, as perspectivas da comunidade indígena sobre a utilização da internet,
ultrapassam em muito as divulgações turísticas, em que estes aparecem como elementos da
exótica natureza da região. Ao contrário, o ciberespaço, é entendido pelos índios como mais uma
possibilidade
de fortalecimento dos laços comunitários do grupo, reforçando assim suas
respectivas identidades bem como um espaço de conexão com outras culturas.
É importante perceber, a partir dessas opiniões, que existe uma crença na potencialidade
do ciberespaço em ampliar os sentidos da luta pelos diretos coletivos, contribuindo para a
ampliação dos limites espaciais da comunidade o que pode culminar em uma prática de
‘ciberativismo’. Pode-se assinalar, contudo, que agora mais do que nunca a comunidade indígena
vislumbra a possibilidade de se desprender das fronteiras geográficas e culturais, ampliando seus
horizontes para espaços talvez nunca imagináveis, o que pode refletir no maior fortalecimento da
comunidade, criando bases políticas sólidas para vencer os preconceitos e a discriminação.
Pode-se afirmar que a comunidade Pataxó está atenta aos novos significados que esse
mundo digital está impondo e como eles podem reorganizar o espaço habitado e, então, apropriálos às suas diversas propostas.Contudo, pode-se apontar que existe uma certa utopia (ou seria
aquela ingenuidade atribuída ao grupo há 500 anos?) com relação ao uso da internet. Os
206
entrevistados parecem ainda não ter a compreensão de que, como em qualquer outro sistema de
produção, o atual modelo virtual também permite a existência de tecnologias de controle para o
fluxo de informações e serviços que formam o ciberespaço.
Os entrevistados demonstraram possuir uma certa compreensão das diferentes
perspectivas das organizações culturais, assim como uma postura política contundente e coerente
com seu grupo étnico. Ao proporem uma versão adaptada aos debates do passado, atribuindo-lhe
um novo sentido através da utilização do ciberespaço como intermediador das interações entre os
membros do grupo indígena, apontam para uma nova concepção da democracia voltada para o
desenraizamento dos propósitos da comunidade.
Ratifica-se, assim, que as novas tecnologias de informação, como o ciberespaço, não estão
criando novas concepções de mundo nem de identidade, nem de nação. Elas estão, sim,
ampliando os limites culturais dos grupos étnicos e desterritorializando ainda mais os seus
propósitos, tornado evidente que o conceito de etnicidade ultrapassa os limites territoriais. A etnia
pode ser entendida através de uma totalidade de aspectos que permeiam um contingente
populacional. São esses aspectos que permitem às pessoas o reconhecimento e a identificação
com o distante, geograficamente, em suas buscas, em suas viagens e em suas perspectivas
intelectuais, compondo, desse modo, uma comunidade, que pode ser identificada, então, como
um grupo étnico e suscitar uma nova prática turística.
Assim, a partir das expectativas indígenas sobre a internet, ratifica-se a necessidade de se
repensarem as representações virtuais de município, de modo a propor alternativas para a
comunidade construir suas próprias expressões virtuais e difundir suas concepções de mundo,
fortalecendo, desse modo, os sentidos da sua cultura. É preciso também percorrer as idéias dos
outros grupos culturais que fomentam o de processo multiculturalismo característico do
município, observando a concepção destes sobre a sua própria ambiência e destacando as suas
207
perspectivas sobre o uso da internet. No próximo tópico, será apresenta uma percepção dos
demais habitantes dos principais centros turísticos do município de Porto Seguro (Trancoso,
Arraial d’Ajuda e a cidade sede), identificando que aspectos estes entendem como
representativos do local.
208
3.4.2. Estudantes na esfera social da cibercultura
Pra mostrar que já estamos na era de lutar pela nossa razão, combater a pobreza
e a miséria do mundo vermelho tição. O vulcão que é filho da terra e a terra tem
seu valor, quando a tristeza se afaga derrama larva de amor. Saia de baixo meu
bem lá vem o vulcão da liberdade. Encontrar os limites na busca, cara a cara e
também olho a olho impondo a bandeira do sim tendo a certeza e a coragem do
povo. (Matéria, Tonho. Vulcão da liberdade. In: Daniela Mercury, 1998, disco
Elétrica)
Não faria sentido traçar um estudo sobre a dinâmica de um local na era da informação,
sem perceber o pensamento do nativo sobre o próprio local de residência e sobre as atuais
transformações mundiais, proporcionadas pela cibercultura. Afinal, a compreensão sobre as
concepções populares constitui-se como fator imprescindível para que seja sugerida a edificação
de uma cidade virtual, voltada realmente para a ampliação de ações com bases democráticas.
Assim, entender razões, anseios populares e seus limites sociais e econômicos pode ser um
caminho para conduzir os próprios cidadãos a edificarem realizações mais humanas, utilizando
das tecnologias digitais, capazes de combater a pobreza, a miséria e demais perplexidades que
dificultam a formação de uma sociedade mais justa e mais democrática.
Partindo dessa perspectiva, foi realizada pesquisa com estudantes nativos pelo método
intencional não probabilístico por julgamento, na última etapa da pesquisa de campo, em
novembro de 2004. Escolheu-se como amostragem estudantes universitários e do terceiro ano do
ensino médio, considerando-se que estes são mais atentos às transformações mundiais e às
inovações tecnológicas, além de estarem em fase preparatória para o mercado de trabalho, o que
leva a inferir que as perspectivas de vida estão aflorando.
209
Para a delimitação da amostragem escolheu-se uma escola pública da cidade de Porto
Seguro, uma do distrito de Trancoso e uma escola pública em Arraial d’Ajuda (representando as
classes baixa e média baixa). Também se escolheu uma entre as duas das escolas particulares
localizadas na cidade sede (únicas do município) e uma das duas faculdades particulares
próximas ao município como representantes das classes média alta e alta. Na pesquisa realizada
na faculdade, foram abordados apenas estudantes residentes em Porto Seguro. Em cada uma
dessas instituições foram aplicados questionários a dez alunos, somando um total de cinqüenta
questionários aplicados.
Com essa pesquisa, objetivou-se entender um pouco da percepção dos nativos sobre o
município de Porto Seguro, as suas concepções sobre a atividade turística bem como a freqüência
de uso da internet e as expectativas de como esse meio pode contribuir para a melhoria da vida no
município. O questionário (anexo 4) contou por onze questões subjetivas, elaboradas com base
nas teorias utilizadas neste trabalho e nas observações realizadas nas etapas anteriores desta
pesquisa.
Na primeira questão, pediu-se a sinalização de três aspectos que caracterizam o
município. Os estudantes da escola de Trancoso apontaram que as praias, a simpatia popular, os
centros históricos, o turismo, a união da comunidade, as possibilidades de emprego, o carnaval e
a precária infra-estrutura urbana, são aspectos que caracterizam o município de Porto Seguro.
Além desses, os estudantes representantes do Arraial d’Ajuda apontaram que o município
corresponde a uma das principais cidades turísticas do mundo por possuir um belo litoral e ser a
terra ‘Mater do Brasil’.
Os estudantes da amostragem de escolas públicas da cidade de Porto Seguro
acrescentaram aos aspectos já identificados pelos estudantes da amostragem nas escolas dos
distritos, a musicalidade do local e as barracas do circuito Porto Night como ícones do município.
210
Os alunos da rede privada identificaram, além da natureza e riqueza histórica, a sujeira, o intenso
consumo de drogas e a prostituição. Por fim, os estudantes universitários da amostragem, além de
ratificarem os aspectos citados pelos alunos do nível médio, apontaram a facilidade de acesso ao
local, a vida noturna ativa e desestruturada bem como a impunidade como características gerais
do município.
Por uma análise dessas respostas, pode-se inferir que o imaginário da carta de Caminha e
o mito do descobrimento se fazem presentes junto à concepção da população sobre o próprio
município. Observa-se, contudo, uma leitura mais crítica sobre o cotidiano quando os estudantes
apontam perplexidades sociais como impunidade, consumo de drogas, prostituição e precária
infra-estrutura urbana junto à caracterização do local. Constata-se, entretanto, que o turismo
constitui-se como a atividade econômica na qual os nativos depositam suas expectativas de vida,
deixando para trás outras potencialidades como a agricultura, a pecuária e a própria
industrialização, fato que pode ser decorrente (e/ou explicar) do enorme número de empresas
turísticas e a carência de empreendimentos voltados para a realização de outras atividades
econômicas.
Contudo, como o turismo é atualmente a principal atividade econômica do local, pediu-se
para que fossem identificados três aspectos positivos e três aspectos negativos provocados pelo
setor no município. De modo geral, foram apontados como aspectos positivos o aumento dos
vínculos empregatícios, desenvolvimento tecnológico, encontro entre etnias e as trocas culturais,
reconhecimento mundial do município, além das possibilidades de aumento da renda familiar e
melhoria de vida. Os aspectos negativos apontados foram poluição, urbanização descontrolada,
falta de capacitação dos moradores locais, prostituição, pesca predatória, violência, assaltos,
aumento do consumo drogas, comércio ilegal, divisão social aparente e também a falta de
respeito à cultura local por parte dos turistas. Ainda foi identificado, como aspecto negativo, o
211
aumenta dos riscos de contaminação da população com doenças venérias e a destruição do
patrimônio arquitetônico e natural.
Em muitas respostas, identificou-se como aspecto negativo o sentimento de liberdade do
turista, apontando que este o permite agir sem pudores e sem respeito à população, praticando
atos como a utilização de drogas em espaços públicos, práticas de vandalismo, não valorização
das expressões locais e a concepção de que as mulheres nativas todas estão disponíveis ao sexo.
Considerando o imaginário sobre Porto Seguro e a dinâmica dos principais centros emissivos
desse destino (São Paulo, Brasília, Minas Gerais), pode-se apontar que esse aspecto contextualiza
a idéia de flanerie burguesa temporária e comunitária, desenvolvida no capítulo anterior,
ratificando que o turista busca a evasão e a fuga do seu cotidiano para enquadrar-se em uma
ambiência, na qual ele se sente livre para executar ações que provavelmente não podem ser
realizadas em seu local de residência.
Evidencia-se, porém, que a identificação de aspectos negativos junto ao desenvolvimento
da atividade turística, vem a exigir um processo constante de organização urbana, no qual se
devem buscar elementos e dispositivos voltados para amenizar problemáticas sociais que também
contextualizam o local. Nesse sentido, é que se pensa a tecnologia como um fator capaz de
propor mudanças sociais benéficas à população, evidenciando o que se considerou como
fenômeno de tendência nos destinos turísticos. Contudo, reafirmando a percepção de fenômeno de
fato, junto aos centros receptivos, compreende-se que as expressões tecnocráticas e a
competitividade em torno da atividade turística, típica de qualquer ação capitalista, desencadeiam
tanto aspectos positivos quanto negativos em qualquer centro onde tecnologias (mecânicas,
eletrônicas ou cibernéticas) são utilizadas. Partindo dessa perspectiva, pediu-se, no terceiro ponto
do questionário, para os estudantes da amostragem apontarem três aspectos positivos e três
negativos provocados pela utilização de aparatos tecnológicos no cotidiano do município.
212
Velocidade nas informações, agilização das tarefas, desenvolvimento urbano, redução das
distâncias, conexão com o mundo, combate às doenças, aumento da produtividade, a
disponibilização de caixas bancários de auto-atendimento, novas possibilidades de trabalho, de
educação, de interação social e de lazer foram, de modo geral, aspectos identificados como
positivos. Deve-se destacar que, na maioria das respostas, foram evidenciadas as atuais
possibilidades de aquisição de informação e de conhecimento bem como a potencialidade dos
meios de transportes, o que sinaliza uma acepção coerente com essa atual ‘era da informação’.
A observação acima pode ser ratificada a partir da quarta questão do questionário que
pedia a enumeração em ordem de importância de três aparatos tecnológicos capazes de contribuir
para a melhoria de vida. Os aparelhos de comunicação e de transportes foram os mais citados.
Em 46 (quarenta e seis) questionários foram citados aparelhos de comunicação em especial o
computador, o celular e a televisão como os aparatos que mais contribuem para a melhoria da
vida. Fax, telefone fixo e rádio, também foram enunciados. Os meios de transportes apareceram
em 20 (vinte) questionários, destacando-se avião e automóveis particulares. Outros aparatos
como eletrodomésticos, aparelhos utilizados pela medicina, caixas de auto-atendimento,
maquinário utilizado no trabalho de infra-estrutura urbana e aparelhos identificadores de armas e
de drogas também foram enumerados como importantes para a melhoria da vida.
As duas questões anteriores também foram necessárias para que se pudesse chegar
sutilmente ao objetivo principal do questionário que é identificar a relação da população com o
computador, destacando a utilização da internet. Assim perguntou-se, na quinta questão, como o
computador poderia contribuir para a melhoria de vida. Pesquisas, interação, informações,
diversão, possibilidades de trabalhar na própria residência e agilização do trabalho em empresas,
movimentação econômica através do e-comece, produção educacional, novas possibilidades de
aquisição de emprego, avanços na medicina e a conexão do homem como o mundo foram ações
213
sugeridas pela utilização do computador capazes de potencializar e dinamizar as ações,
fomentando benefícios para os cidadãos conectados.
Também foi indicado, como uma possível melhoria da vida a partir do computador, o
processo de desenvolvimento social a partir da inclusão digital bem como o desenvolvimento de
comunidades virtuais que poderiam promover mais qualidade na educação popular. Contudo,
embora se tenha identificado um conhecimento sobre a potencialidade do computador,
contradizendo o depoimento do presidente do Conselho Regional de Turismo da Costa do
Descobrimento – CRTCD – , evidenciado no tópico final do capítulo anterior, pode-se inferir que
não há uma prática mais contundente da maioria dos moradores local com relação à internet pela
falta de acesso ao meio. Afinal, dos trinta estudantes da escola pública que responderam ao
questionário, apenas 10 (dez) possuem computador em casa e desses apenas três têm conexão
com esse média. Todos os estudantes da escola particular que compuseram a amostragem e sete
dos dez estudantes universitários possuem o parelho em casa, conectados à rede.
Esses números podem indicar não apenas um processo de exclusão digital, mas também
podem evidenciar a proliferação de um sistema social injusto e polarizador, no qual perpetua-se a
histórica condição social em que os ricos cada vez mais se beneficiam com as inovações
tecnológicas ao passo que os menos favorecidos economicamente permanecem à margem desses
avanços. Esse processo pode suscitar também a falta de políticas voltadas para inserção da
população no mercado de trabalho turístico. Portanto, diferente do que apontou o representante
do CRTCD, a falta de preparo da população local para atuar com a internet pode não ser
justificada pela falta de um pensamento de modernidade, mas sim pela falta de oportunidades de
especialização e de capacitação profissional.
Essa inferência pode ser também constatada pelo total de programas conhecidos e
utilizados pelos estudantes que compunham a amostragem, bem como pela freqüência de acesso
214
à internet e pelo tipo de site utilizado. Os programas mais conhecidos pelos alunos da rede
pública, que participaram da pesquisa, são word, excel, windows e internet. Estes acessam a rede
no máximo duas vezes por semana, na escola ou em cybercafes, o que aponta para um tempo
limitado de conexão. Geralmente freqüentam sites de busca com o propósito de efetuarem
pesquisas para trabalhos escolares, além de buscarem também por diversão.
Os alunos da rede particular (ensino médio) que responderam ao questionário informaram
conhecer e utilizar os programas word, excel, windows, corel draw, e power point, além de
internet. Estes acessam a rede, no mínimo, duas vezes por semana, na própria residência. Esse
detalhe conduz à inferência de que o tempo de conexão não segue uma delimitação institucional
(como o acesso na escola), nem financeira (como o acesso no cybercafe, onde um minuto de
conexão é bastante caro, considerando o valor do salário mínimo). Os sites mais freqüentados por
esses alunos da rede privada são os de busca para pesquisas, os de diversão, de jornalismo, de
interação e de e-comerce. Utilizam as informações geralmente para a confecção de trabalhos
escolares, também efetuam relações a partir das salas de bate-papo.
Por fim, os alunos universitários da amostragem utilizam mais dos programas de
processamento de texto e internet, cujo acesso dá-se várias vezes por semana em casa, no
trabalho e/ou na faculdade. Freqüentam sites de jornalismo, de buscas, de interação e de ecomerce. Geralmente utilizam a rede para pesquisas da faculdade e para a agilização no trabalho.
Nenhum dos estudantes que participaram da pesquisa, informaram conhecer linguagem de
construção de sites.
Considerando com (Ortiz, 1994, p.14) que “as idéias de sociedade da informática ou de
aldeia global sublinham a importância da tecnologia moderna na vida dos homens”, pode-se
inferir, a partir das
informações coletadas, que vem se manifestando, no município, um
pensamento de mundialização. Para o mesmo autor, esse pensamento corresponde ao elemento
215
fundamental para que sejam promovidas mudanças nas sociedades, no sentido de enquadrá-las
nos modos contemporâneos de produção tecnológica. Pode-se também apontar que esse
pensamento contribui para a concepção de Porto Seguro como cidade global da Costa do
Descobrimento, possuindo uma originalidade, uma vida
própria e, ao mesmo tempo, uma
conexão com o mundo.
Contudo, também se pode ratificar, a partir da pesquisa, a idéia iniciada no tópico 1.2.2,
que o município está longe de representar uma sociedade modelo de democracia, contradizendo o
que pode ser entendendido nas entrelinhas do imaginário propagando sobre o local, inferindo-se a
alarmante discrepância social, como observado na amostragem; na medida em que dos 30 (trinta)
alunos representantes das escolas públicas, apenas 10 (dez) possuem computador. Ao passo que
dos 20 (vinte) da rede privada - ensino médio e universitário – dezessete o detêm.
Portanto, pode-se identificar a existência de vários grupos culturais ou de vários
subsistemas sociais componentes do município de Porto Seguro, que, mesmo apresentando
concepções de mundo semelhantes, podem ter interesses e necessidades divergentes. Essa
constatação, por sua vez, vem a tornar ainda mais complexa a edificação de uma cidade virtual,
que venha a contribuir para o desenvolvimento socioeconômico desses vários grupos
que
compõem a ambiência do local. As várias identidades culturais, que estão por trás desse
referencial econômico e tecnológico utilizado, sugerem um estudo detalhado sobre os valores,
estilos de vida e as formas de pensar dos grupos que compõem a dinâmica do local. Por esse
estudo, então, pode-se buscar a virtualização do local, enquanto proposta de democracia.
O que se apresenta, então, já no final desse trabalho é mais um grande problema que
merece maior atenção, não se esgotando aqui sua discussão. A cidade turística, com base nos
estudos realizados no capítulo anterior, comporta-se como um espaço coletivo, onde se observam
interações humanas sinérgicas. Por outro lado, foram evidenciados, por uma amostragem da
216
população local, aspectos negativos que merecem determinada atenção no sentido de se
amenizarem perplexidades sociais, que resultam dessas interações turísticas, comuns em centros
capitalistas. A esse fato, deve-se associar interesses das várias comunidades de turistas que
desfrutam do local, dos grandes e dos pequenos empresários além dos interesses públicos e,
principalmente, dos interesses dos moradores locais, considerando as várias identidades culturais.
Por uma analogia à compreensão de Ortiz (1994) sobre o paradigma do world system,
pode-se dizer que a dinâmica turística e a utilização da internet fazem avançar o pensamento mas
não deixam de apresentar problemáticas, que, se ignoradas podem levar os sistemas sociais a
grandes impasses. Assim, a grande competitividade entre empresários, as diferenças sociais
evidentes, o desrespeito à população local por turistas, o crescimento urbano descontrolado, a
utilização da internet para a propagação de um imaginário, que, muitas vezes, deturpa o senso do
local bem como a utilização desse espaço para promover a prostituição junto à atividade são,
entre outros, impasses que exigem medidas urgentes. É preciso que o turismo, atividade
econômica mais lucrativa e fonte de esperança para a juventude nativa, não termine como mais
uma ações de exploração desenfreada, tal qual como ocorreu após o nascimento do Brasil, como
o pau-brasil, com o açúcar...
Nesse sentido, a projeção do município no ciberespaço deve partir do aspecto comum
entre os vários grupos que fomentam a sua dinâmica, de modo que todos esses segmentos possam
se identificar com essa representação virtual, e, então, dinamizá-la. Através desse trabalho, podese evidenciar que o ponto de intersecção entre esses segmentos é o imaginário sobre o local.
Afinal, tanto as comunicações tradicionais sobre o município (sendo elas institucionais ou não),
quanto os depoimentos dos turistas, bem como as representações virtuais analisadas e os aspectos
identificados por os estudantes da amostragem, contextualizam Porto Seguro como o local de
217
natureza exuberante e da festividade, propagando e legitimando o imaginário da Carta de
Caminha.
As respostas do último quesito do questionário aplicado aos nativos podem vir a ratificar
esse posicionamento. Pediu-se que fossem apontadas três características do município que
deveriam representar o município na internet. Centros históricos, a natureza, incluindo as áreas de
preservação da Mata Atlântica, os empreendimentos, as festividades e a culinária foram os
aspectos mais citados. Contudo, outros fatores foram enunciados como importantes, entre eles, a
descrição do perfil dos visitantes, os eventos, cursos de especialização, o comércio local, a oferta
de emprego, a arte popular, o folclore do município bem como a historia do povo local,
enfatizando a vida dos antigos morados. Também foi sugerida uma interconexão do município
com toda a Costa do Descobrimento.
Com essa perspectiva de associação e interconexão social é que será edificada, no
próximo tópico, uma abordagem sobre o modelo de cidade digital adequado para a representação
do município de Porto Seguro no ciberespaço, na tentativa de contemplar a sua dinâmica.
Entretanto, o enfoque principal da discussão que se segue é traçar um plano em que se possa
cogitar uma prática de democracia junto às decisões referentes aos destinos do município, de
modo a evidenciar não apenas os interesses dos segmentos com relação ao turismo, mas
realmente de se propor um processo de inclusão digital, na qual possa-se oportunizar uma
educação intercultural em que o multiculturalismo e os hibridismos culturais contribuam para
alterações efetivas, reduzindo as diferenças sócio-econômicas e os conflitos étnicos locais. Desse
modo, espera-se que a internet possa constituir-se, de fato, como um ‘vulcão da liberdade’,
confirmando, assim, a metáfora do texto usado como epígrafe.
218
3.4.3. Software da liberdade
Sob o sol da liberdade, liberdade em que se dança. Sob o sol da liberdade, ainda
sou criança. Ao penhor dessa igualdade, nosso povo que se esbalde em teu
samba retumbante. Brava gente brasileira, gente boa que se preze, nossa terra
tem palmeiras onde reina o samba reagge. O samba reagge rei. Salve salve o
meu país, salve salve pátria (mátria) minha. E a nossa amada batu, batu,
batucada. Somos notas, soltas notas, a compor a melodia, vinda das massas,
vindas das praças, vinda de onde não se ouvia. Do mangue beat do Recife que
resiste, do rap que repete a violência, do parintins que o índio existe. Pops
como pecado. Pops como pecado. Agora olhe pro céu, veja como ele está lindo.
Sob o sol da liberdade, liberdade em que se dança. Sob o sol da liberdade ainda
sou criança. O povo reza pra Deus ajudar, o povo canta seus hinos. O povo vai
aprender a falar é flor em teu solo se abrindo. Com a nosso pouca idade, com a
nossa alegria, sob o sol da liberdade neste instante, neste dia. Sob o sol da
liberdade a brilhar no céu da pátria. Neste dia, neste dia. (MECURY, Daniela,
Sol da liberdade. In: Daniela Mercury, disco sol da liberdade, 2000)
Liberdade talvez seja a palavra que melhor traduz ações na rede. Liberdade de expressão
em todas as dimensões, com todos os exageros do underground, com as necessidades de
reivindicação popular, com as cobranças sociais e com as metáforas identitárias dos grupos com
identidade de resistência e de projeto. Não por acaso, então, se escolheu a canção Sol da
Liberdade como epígrafe para finalizar este trabalho, mas na tentativa de explorar as entrelinhas
de seus versos para incitar uma discussão sobre as possibilidades de mudança social promovidas
pela rede e acima de tudo, cogitar sobre a capacidade popular de adaptação ao presente e a
preparação para o futuro.
Nesse sentido, compreende-se a necessidade de se enfatizarem elementos que compõem o
imaginário das localidades, que são, em muitos casos, motivos de orgulho e de auto-estima para o
povo nativo e, no caso da cidade turística, comportam-se como atrativos para empresários e
219
consumidores. Portanto, festividades, natureza exótica, mitos históricos e demais aspectos do
imaginário podem, acima de tudo, incentivar a
realização de novos vínculos sociais e
econômicos, capazes de ampliar as oportunidades de melhoria de vida para a população local.
Para tanto, é necessário que haja, junto às políticas de planejamento e organização social, um
processo comunicacional responsável, voltado não apenas para
difusão desses aspectos, mas
também para o estímulo à cidadania e à democracia.
A canção, utilizada como epígrafe, pensada para celebrar o meio milênio do Brasil,
comporta-se como um convite para o povo reformular suas ações e suas concepções sobre o
próprio país, valorizando suas expressões locais, mas sem perder de vista as exigências de
multiculturalismo e dos hibridismos culturais que promovem alterações nos aspectos identitários.
Exigências essas, tão evidentes no pensamento da cibercultura, têm nos meios de comunicação
um espaço ideal para se proliferar por toda a comunidade, considerando as peculiaridades de cada
meio. Assim, com atenção voltada para a
internet, admite-se que, em muitos processos
comunicacionais, principalmente nos turísticos, é preciso repensar as abordagens sobre as
localidades, enfatizando a utilização adequada das categorias de atitudes permitidas na rede e a
exploração incisiva das características desse meio.
A necessidade de conhecimento, a ânsia por informação, a vontade popular de munir-se
com as novas tecnologias da informação indicam uma potencial mentalidade cibernética, que
pode fazer da informação e das ações on-line ferramentas que promovam a democracia,
a
desburocratização e a interação social. E como não poderia deixar de ser, por esse mecanismo
comunicacional também podem ser apresentados conteúdos capazes de conduzir os usuários a
repensarem suas práticas turísticas, atentando para o respeito à diferença e à alteridade. Com a
promoção de uma educação intercultural, pode-se, paulatinamente, articular nativos, empresários,
turistas e políticos de modo a contribuir para a edificação de uma sociedade mais justa e mais
220
humana. É, nesse sentido, que se entende o software decodificador da cidade, como o software
da liberdade.
Contudo, entendendo o turismo como uma atividade cultural própria da sociedade de
consumo e uma vez identificadas alarmantes discrepâncias socioeconômicas no centro receptivo,
é importante ressaltar que, para a sua organização e posterior digitalização, devem estar
combinadas ações públicas e privadas na execução de investimentos financeiros e tecnológicos
de modo a preparar e potencializar o espaço físico para ser consumido a partir de suas
especificidades. Mesmo porque, uma cidade desorganizada não pode apresentar-se organizada na
rede. Assim sendo, é importante pensar a cidade turística como um espaço em continuum
planejamento. Entendendo-se planejamento turístico como o processo de organização, no qual
são considerados fatores sócio-políticos e econômicos do local, onde a atividade se evidencia,
envolvendo planos de longos prazos e projetos estratégicos.
De acordo com Beni (2000), a organização da cidade turística deve refletir a vontade da
população, garantindo o seu envolvimento e participação nas atividades de planejamento e
desenvolvimento, construindo uma ação integrada e sustentável. Esses planos referem-se às
metas e objetivos específicos da cidade e vinculam-se ao desenvolvimento futuro, enquanto os
projetos estratégicos direcionam-se à identificação e à solução de questões imediatas, orientandose para ações em curto prazo e ao encaminhamento de acontecimentos inesperados.
Os planos de longo prazo compreendem tanto a infra-estrutura urbana do local quanto a
construção de empresas de serviços, como hotéis, agências de viagens, centros de diversão e
restaurantes, evidenciando o aumento da oferta de empregos. Com relação à infra-estrutura
urbana, é preciso edificar e manter um sistema capaz de responder às necessidades da própria
população e da flutuante, oferecendo serviços de abastecimento de água, iluminação, redes de
esgoto, saneamento básico, transportes, serviços de comunicação, postos de saúde e
221
investimentos na segurança e limpeza pública, construção de centros de eventos, além de
investimentos em pontos de presença, incluindo os POPs digitais, uma necessidade da
contemporaneidade. Assim, deve constar do planejamento da cidade turística a construção e/ou
reformas de aeroportos, portos, rodoviárias e digital places.
Ainda deve fazer parte do planejamento a previsão de investimentos na qualificação do
profissional de turismo, o aumento de impostos nos cofres públicos, a melhoria do padrão de vida
da população bem como a existência de legislação que ordene a construção e a ocupação do
espaço físico. Devem ser criados cursos de idiomas e de informatização para profissionais
atuantes direta ou indiretamente no setor, ações em defesa do meio ambiente, além de normas de
punição e campanhas de conscientização voltadas para a fiscalização e denúncia das
perplexidades sociais como tráfico de drogas, prostituição infantil, exploração do trabalho e
espetacularização da cultura.
Esse processo deve ocorrer através de um estudo preliminar do espaço, identificando e
descrevendo a sua organização geopolítica e administrativa, os recursos ambientais e culturais da
cidade, bem como as suas características socioeconômicas e suas tendências de tráfego. Em
seguida deve ocorrer, na forma de diagnóstico, uma análise desses aspectos para, em
conseqüência, serem formuladas políticas e diretrizes de reorientação e programas de ação,
estabelecendo metas e projetos específicos para garantir a interação sustentável das inovações
tecnológicas aos aspectos políticos, sociais e econômicos.
Esse estudo e formulação de políticas para o desenvolvimento do setor turístico têm que
ser evidenciados a partir do reconhecimento e legitimação das questões identitárias, levando em
conta as concepções de valor da comunidade. Segundo Martín (2001), obtém-se a concepção de
valor pelo conhecimento do processo histórico de formação social, em que são identificados seus
valores materiais e imateriais em uma esfera que visa comunicar o que os objetos, as tradições e a
222
paisagem significam naquele espaço. Os valores a serem reconhecidos, portanto, devem ser
extraídos da dinâmica do local e da história, de modo que habitantes e visitantes reconheçam e
identifiquem tais valores como constituintes da memória e da identidade local. Assim, pode-se
edificar a prática do desenvolvimento turístico sustentável.
O estudo sobre o município de Porto Seguro, evidenciado no capítulo anterior, aponta
para a urgência de um plano de metas que contemple todos esses fatores, afinal, pode-se dizer
que a atividade turística ainda está em processo de organização, embora o local comporte-se
como grande centro receptivo do país. Contudo, essas ações de planejamento devem partir da
administração pública, envolvendo projetos e medidas estaduais, municipais e federais, voltadas
para promover a organização do espaço, estimulando a sinergia entre empresários, nativos e
turistas.
Após a etapa do planejamento urbano, aponta-se que a cidade turística pode ser
digitalizada, permitindo a identificação dos seus aspectos culturais e das formas como a cidade
possibilita emergir os fluxos que a caracterizam – de capitais, de informações e de pessoas
considerando as características da internet bem como as categorias de atitudes que podem
fomentar a dinâmica dos locais nesse ciberespaço. Então, fatores que compunham a dinâmica
local devem estar disponíveis da melhor forma para que internautas percebam práticas sociais,
econômicas, políticas, concepções e crendices que caracterizam e movimentam o cotidiano da
população.
A partir de estudos aqui realizados, identificam-se pressupostos necessários para se propor
a digitalização do município de Porto Seguro. Pelo depoimento dos turistas (no primeiro
capítulo), observa-se a necessidade de informações mais detalhadas e precisas com relação aos
aspectos urbanos, naturais e geográficos do município bem como detalhes do cotidiano popular.
A partir da análise dos sites do tópico 2.3.3, concluí-se que a maior necessidade dos empresários
223
é dispor de técnicas para ampliarem suas negociações e alcançarem mercados consumidores cada
vez mais longe, devendo-se incluir, nesse caso, empresários que ainda não têm suas projeções na
internet.
Pelo estudo sobre etnia e sobre as concepções da população nativa, evidencia-se a
importância de se promoverem debates públicos na rede e maior interação social, colocando em
contato, turistas, empresários e população local de modo que se possa incitar relações realmente
sinérgicas de modo que nos períodos de alta temporada, a beleza da cidade não seja sufocada
pela espetacularização da cultura, pela especulação econômica, nem pela sujeira e demais
perplexidades sociais, como a prostituição e a consumação exacerbada de drogas.
Pensando em uma forma de saciar essas necessidades, considera-se que as cidades virtuais
devem emergir como um espelho do espaço urbano, capaz de proporcionar um alto nível de
consciência política e social, constituindo-se como um suporte necessário à sobrevivência do
patrimônio natural e cultural. Assim, por uma representação da dinâmica atual do local e das suas
tradições, descrevendo os distintos bens patrimoniais, tanto os materiais quanto os imateriais,
pode-se possibilitar aos ciber-cidadãos informações necessárias sobre a diversidade e os valores
culturais desse espaço digitalizado.
A cidade virtual deve, então, exprimir o senso do local a partir da codificação simbólica
das ações reais desenvolvidas no espaço físico, sem que haja omissão dos aspectos não
organizados ou das regiões periféricas da cidade. Deve apresentar perspectivas de soluções para
esses problemas bem como a capacidade de o local em resolver eventuais complicações
imprevisíveis, o que aponta para a necessidade de se explorarem das características do meio e das
categorias de atitude, fazendo com que a cidade virtual, assim como no espaço físico, esteja em
constante organização.
224
As dimensões urbanas do município de Porto Seguro, as diferenças entre a infra-estrutura
das regiões periféricas e centrais e toda a complexidade social, política e econômica que o
caracterizam devem ser transpostas para a rede de modo a permitir ao internauta a percepção do
local, enquanto centro capitalista, que, embora apresente uma cultura peculiar, cujo imaginário
faz sobressair a festividade e a natureza exótica, também concentra conflitos de toda ordem.
Lage (2000) destaca possíveis ações on-line capazes de intensificar a importância da internet
junto ao desenvolvimento do setor turístico (essas ações podem ser identificadas segundo as
categorias de atitude de Lévy). As novas relações entre consumidores e empresas,
proporcionando coletas de dados, podem ampliar a qualidade dos serviços oferecidos
(assimilação). O novo marketing ativa a participação através de informações detalhadas, de
modo que o consumidor reflita sobre os atributos de suas compras antes da efetivação
(analogia); e, por último, o destaque dado à informação detalhada atendendo a todos os
interesses, inclusive divulgando a venda de pacotes de agências, hotéis, parques temáticos,
transportes, entre outros (analogia).
Ainda a autora identifica a ampliação do ‘self-service’, visto que a cidade fica disponível
vinte e quatro horas por dia, sete dias da semana, de modo que se pode promover uma maior
articulação entre empresários, consumidores e fornecedores, aumentando e potencializando os
contatos entre essas entidades. Assim, estimulam-se novas formas e variações de pedidos de
produtos para os suportes técnicos e prestação de serviços desde reservas de viagens até a
utilização do home banking (assimilação e/ou substituição). Por fim, a autora aponta a
credibilidade e agilidade de comunicação, que permite uma transmissão instantânea e imediata de
informações solicitadas, bem como o universo de oportunidades com enorme facilidade e mínimo
custo, tornando o negócio global, afinal, a localização já não é mais um obstáculo ao comércio.
225
Considerando as várias práticas turísticas e as várias comunidades que podem coexistir
em um centro receptivo, identificam-se também outras vantagens que a comunicação on-line
pode apresentar à cidade. O ciberespaço rompe com a supremacia dos meios de comunicação
tradicionais, permitindo a exposição de mais detalhes sobre as ações, podendo oportunizar
descrições mais detalhadas sobre determinados atos, geralmente, não divulgados pelos meios
tradicionais, como as áreas liberadas e os espaços de prostituição. Não se está fazendo apologia
ao turismo sexual, mas sim reconhecendo que ele existe e que precisa ser organizado junto aos
segmentos turísticos, inclusive para que esta ação desregulamentada não se torne a característica
predominante do local.
Pensando nestas e demais práticas turísticas, pode-se apontar que a comunicação
direcionada pela internet pode pôr os envolvidos em contato direto, mantendo, ao mesmo tempo,
o sigilo de suas identidades pessoais e fomentando o respeito a outras pessoas que não se sentem
à vontade junto a determinados grupos. Contudo, não se está cogitando a formação de guetos
virtuais, mas sim se fomentando um direcionamento junto a grupos turísticos, que, muitas vezes,
não compartilham das mesmas práticas e emoções. Assim, pode-se, simultaneamente, garantir o
direito de liberdade para as pessoas exercerem suas atividades e impedir determinadas situações
constrangedoras como discriminações, agressões e demais conflitos sociais.
Considerando essa possibilidade de uma comunicação mais direcionada, pode-se oferecer
elementos mais descritivos e mais objetivos, para as várias práticas, contemplando os desejos de
erotismo, as expressões estéticas e as manifestações das diversas comunidades turísticas, com os
exageros e, muitas vezes, ânsias de ruptura com padrões sociais discriminadores. Por outro lado,
podem-se apresentar também normas de conduta no local e as punições legais para os infratores
dessas normas, de modo a conduzir o usuário turista a não experimentar o destino sobre a lógica
da libertinagem, mas sim da liberdade. Evidentemente, toda e qualquer comunidade turística deve
226
obedecer a normas e conhecer as penalidades legais de infração ou desrespeito aos códigos de
conduta local, afinal, por mais global que seja o destino, há sempre aspectos culturais que os
particularizam e os fazem glocais.
Além desses fatores, devem ser enfatizadas as possibilidades de interação social e de
organização dos segmentos turísticos enquanto comunidades virtuais, pondo em conexão,
população, governantes, empresários e turistas. Portanto, informações detalhadas, jornalismo,
educação, prestação de serviços e e-comerce constituem-se como conteúdos básicos junto à
digitalização de uma cidade. Evidencia-se, entretanto, que cada um desses conteúdos deve
subdividir-se em vários outros, permitindo ao internauta uma flanerie virtual. Assim, por
exemplo, o conteúdo referente à informação deve não penas enumerar estabelecimentos
comerciais e atrativos do local, mas também proporcionar ao usuário da internet o conhecimento
de detalhes e o contato direto com o estabelecimento. E, nessa
perspectiva, devem ser
decodificados os bairros, os espaços de utilidade pública e os demais setores da sociedade em
questão.
Esse processo, aparentemente simples, pode incitar uma nova dinâmica ao local e
contribuir para a amenização de determinadas problemáticas (embora possa ensejar novos
problemas). A concorrência entre pequenas e grandes empresas e entre grupos locais e
estrangeiros pode ser reduzida, a partir da proximidade destas empresas na rede e também de uma
comunicação direcionada para seus respectivos públicos.
Portanto, a partir do estudo sobre turismo e cidade virtual, considerando a dinamicidade
do município de Porto Seguro, a potencialidade turista local e as expectativas populares com
relação à internet, sugere-se o ‘grounded cybercity’ como modelo de cidade virtual, capaz de
potencializar a atividade turística, fomentando práticas sociais, políticas e econômicas
características dessa era da cibercultura. Afinal, com esse modelo, pode-se mobilizar a sociedade
227
com projetos de intervenção no espaço concreto, sugeridos pela própria comunidade, por meio de
quiosques públicos, acesso a escolas e bibliotecas, incluindo também várias iniciativas culturais.
Além disso, a cidade digital enraizada, representa uma tentativa de incorporar tecnologias de
comunicação à sociedade, promovendo igualdade de oportunidades e o acesso público e universal
à informação o que se identificou como uma necessidade do local, a partir dos estudos junto à
fragmentos da população. Essa incorporação vai apenas ampliar o caráter ciber do município, já
identificado.
As escolas públicas, a ‘aldeia urbana’ o centro municipal de informações turísticas
podem ser espaços iniciais para a implantação de quiosques de acesso público à rede. Além da
necessidade de conexão, estudantes locais e os índios podem ser atores sociais capazes de
incitarem um processo comunicacional caracterizado por uma busca de práticas democráticas, e
difundi-lo pelos demais setores sociais. Essas práticas, por sua vez, podem e devem permitir que
moradores melhor se organizem e possam eles mesmos definir os ícones e símbolos que melhor
traduzam a contemporaneidade do local em que habitam.
E se se está cogitando um processo democrático de comunicação, ressalta-se que, por ele,
artistas, artesãos e pequenos empresários locais que, por algum motivo, não têm como
construírem suas representações no ciberespaço, podem agilizar seus negócios e ampliar suas
rendas com a prática do comércio eletrônico. Em síntese, muitas outras atividades e ações sociais,
que não cabem no domínio da previsibilidade, podem se ampliar e se proliferar no espaço físico,
a partir da sua melhor organização no ciberespaço.
Além disso, como um destino, onde são desenvolvidas várias práticas turísticas, eventos,
lazer, negócios... o município de Porto Seguro deve preparar-se para responder questões e atender
às exigências e necessidades de vários públicos diferentes, mas que estão conectados com/e
através das ações no ciberespaço. Então, informações, as mais diversas, prestação de vários
228
serviços, promoção da interação, educação e jornalismo responsável devem estar contemplados
nessa representação virtual, de modo que o possível visitante perceba a organização da sociedade,
que ele escolheu para gastar o tempo e o dinheiro, poupados durante suas jornadas de trabalho.
Portanto, a cidade virtual no modelo grounded cybercity pode constituir-se como um fator
potencializador da função turística do município de Porto Seguro, capaz de promover a melhor
organização social, maior interação entre a comunidade, abrangendo todos os seus setores:
políticos, empresários, turistas e, principalmente, a comunidade local. Contudo, deve-se admitir
que esse é um processo lento e que para sua operacionalização é necessária uma vontade pública
na elaboração de um projeto articulador dos segmentos sociais, propagando, assim, a concepção
da cidade turística, enquanto composto orgânico vivo.
Pode-se considerar, portanto, que a cidade virtual constitui-se como um protótipo de
dinamização social, voltado para a otimização de recursos, para controle e avaliação de
resultados. Para tanto, é preciso que o processo de edificação ocorra a partir de um compromisso
ético, entre políticos, empresários e população, que, por sua vez, faz-se imprescindível a qualquer
ação com objetivo de se proporem transformações no campo social. Assim, reconhece-se que é
importante, para a digitalização de uma cidade, uma dimensão ético-política capaz de organizar e
sustentar todo o processo, guiando (e não delimitando) os seus sentidos e os seus fins.
Por essas bases, a cidade virtual pode ser entendida como um processo lógico, à medida
em que seus conteúdos sejam precisos e sistemáticos, proporcionando um encadeamento racional
dos seus elementos e categorias de atitudes. Ainda, essa extensão territorial caracteriza-se como
uma técnica de cooperação e articulação já que aponta para a necessidade de compartilhamento
de opiniões e estabelecimento de parceiras, contemplando, assim, a prática de um mecanismo
comunicacional, resultado de uma construção coletiva, na qual os integrantes passam a ser
229
reconhecidos por suas ações, perspectivas e peculiaridades culturais e não apenas por recortes dos
meios de comunicação que delimitam apenas um único imaginário.
230
4. Conclusão:
O desenvolvimento tecnológico interfere nas estruturas sociais, causando mudanças na
dinâmica dos locais e no ritmo de vida das pessoas. Mudanças essas capazes de promover o
surgimento de fenômenos como o turismo, que apresenta novas perspectivas de melhoria de vida
e de sobrevivência, tanto para turistas, que se deslocam temporariamente para fugir da rotina,
quanto para nativos e empresários que redefinem suas atividades sócio-econômicas na tentativa
de satisfazer os desejos dos visitantes.
O turismo compreende e explica uma série de atividades de deslocamentos físicos que
exigem o aperfeiçoamento dos meios de transportes e de comunicação. Contudo, são os usos
tecnológicos junto à atividade que estabelecem a ligação direta entre turismo, setor econômico e
social, e tecnologia, a infraestrutura operacional para a sua dinamização. Nesse sentido, pensa-se
que as tecnologias de informação e de comunicação podem constituir-se como fatores de
potencialização do turismo, promovendo mais dinamicidade, agilidade e conforto junto à
execução dos serviços que fomentam a atividade.
Indubitavelmente, a aplicação de tecnologias digitais às ações e à emergência do
ciberespaço estão promovendo uma verdadeira revolução nas cidades, reformulando todos os
aspectos da vida contemporânea. Identificar essas transformações não é tarefa fácil e, mesmo
após um exaustivo trabalho de pesquisa, ainda apresentam incógnitas junto ao processo de
entendimento das ações humanas nessa era da cibercultura. O desejo é que essas inovações
realmente promovam melhorias na sociedade, acabando (amenizando, ao menos) as divergências
e a exclusão social.
Contudo, a cibercultura está potencializando a atividade turística no município de Porto
Seguro, o que pôde ser identificado a partir das inúmeras ações em que se observa a utilização de
231
tecnologias digitais, como o auto-atendimento em bancos 24 horas, a emergência dos cybercafes,
a utilização do dinheiro eletrônico junto às compras, a emergência dos hotéis inteligentes. Ainda,
nesse sentido, não se pode deixar de evidenciar os aspectos sociais que comunicam a emergência
do imaginário da cibercultura como as constantes raves que atraem adeptos de vários lugares do
país e do mundo, bem como a partir do visual cyberpunk não só desses turistas, mas também dos
nativos e empresários que participam e promovem essas festas. Também ratificam essa afirmação
os inúmeros sites referentes ao município, destacando-se que em sua maioria correspondem à
representação de empresas prestadoras de serviços turísticos como hotéis e agências de viagens.
Aponta-se, entretanto, que o pensamento dos segmentos populacionais entrevistados,
sobre a internet, contribui para ratificar a potencialização do turismo a partir da cibercultura.
Afinal, estes entendem o veículo como mais uma forma de agilizar ações socioeconômicas do
município, correspondendo, segundo os entrevistados, a uma nova oportunidade de melhoria de
vida. Portanto, mesmo considerando que a amostragem aprestada não é suficiente para
representar o município como um todo, pode-se inferir que há uma expectativa com relação ao
uso da internet como fator promotor da dinamicidade contemporânea do local, o que aponta para
uma mentalidade de mundialização.
Contudo, é importante ressaltar que a mesma técnica que estimula e potencializa ações
pode tornar-se também fator de ampliação da complexidade social nos centros turísticos, quando
nestes faltam políticas de planejamento social bem como estratégias públicas e privadas voltadas
para o incentivo à educação e à cidadania. Nesse sentido, evidencia-se a necessidade de serem
criadas diretrizes que impeçam a proliferação de fatores que submetem os cidadãos ao ‘exercício
dos controles’.
Ao mesmo tempo em que o desenvolvimento tecnológico é capaz de estimular a esfera
social, contribuindo para a sua organização, pode colocar-se como fator de determinação e
232
imposição junto a grupos culturais, gerando perplexidades sociais como foram evidenciadas junto
aos grupos de pescadores, agricultores, trabalhadores do mercado informal, além das várias ações
de espetacularização da cultura, decorrentes da especulação financeira sobre a atividade turística.
Logo, é necessário que o potencial técnico deve ser utilizado visando à valorização de grupos
culturais, levando em conta a complexidade sócio-econômica do local. É nesse sentido que se
evidenciou neste trabalho a internet como um fator de potencialização do turismo, e não como
um mecanismo que irá solucionar as problemáticas sociais.
Aliás, considerando a relação meios de comunicação e melhorias sociais, é importante
retomar, que a internet, assim como qualquer outro espaço de comunicação, por si somente, não
irá propor melhorias sociais, entretanto, estas dependem do modo como os administradores, seja
de que esfera forem, pública ou privada, utilizem os recursos do meio (características e categorias
de atitudes) para transmitirem o conteúdo desejado. E evidencia-se que o conteúdo veiculado tem
fundamental importância para o desenvolvimento do setor turístico, afinal,
as imagens
apresentadas irão plasmar ou resignificar o imaginário sobre o local, responsável pela atração de
turistas e empresários. Nesse sentido, pode-se ratificar que o conteúdo veiculado contribui para a
delimitação das práticas turísticas no local, daí a importância de se conhecer o conteúdo
transmitido como forma, não apenas, de divulgação dos atrativos turísticos, mas também para a
exposição da dinâmica do local.
Assim, acentua-se que, antes da projeção da cidade na internet, tem-se que buscar o
entendimento dos seus aspectos culturais no plano físico. Entendendo-se as políticas de
investimento na organização do espaço urbano, bem como as iniciativas públicas e privadas para
a ampliação e melhoria das ações que caracterizam a dinâmica das cidades, como o
entrelaçamento entre esses aspectos e a construção dos significados do local.
233
Portanto, compreende-se que a comunicação é fator essencial para o desenvolvimento da
atividade turística. Contudo, a utilização de um meio tecnológico de comunicação deve partir de
um estudo preliminar sobre as suas características e sobre a forma como este veículo vem sendo
usado para a promoção da atividade. Admite-se que as representações virtuais do município de
Porto Seguro-Ba carecem de melhor estruturação, de modo que possam vir a ampliar os limites
do local, e não apenas traduzi-lo segundo a lógica de um imaginário amplamente difundido, mas
que corresponda, de fato, à totalidade de aspectos de sua dinâmica socioeconômica. Assim,
considerando a atual movimentação turística, no destino Porto Seguro-Ba, fomentada pela
cibercultura bem como os demais aspectos do seu cotidiano, entende-se que a edificação de uma
grounded cybercity – cidade digital enraizada – poderia gerar subsídios para que se instalem no
destino, novas formas de ação e interação em torno do turismo.
Por essa perspectiva, compreende-se que essa prática comunicacional cibernética pode
contribuir para a reestruturação do sistema existente, a medida em pode propor a moradores,
turistas e empresários as mesmas possibilidades de acesso à informação e à movimentação do
capital.
Nesse sentido, observa-se que a identidade contemporânea e a memória local são
elementos imprescindíveis à identificação de uma região e de suas potencialidades na esfera
global. Contudo, compreende-se que é preciso uma atuação política competente junto à
organização dos espaços, bem como a realização de debates públicos e acadêmicos que
promovam a integração popular, evidenciando a prática da democracia. Portanto, conclui-se que a
constituição de Porto Seguro-Ba enquanto cidade virtual enraizada, a grounded cybercity,
prescinde de uma vontade pública em democratizar a informação, investindo na edificação de
POPs digitais gratuitos bem como no apoio a estudos sobre os seus aspectos culturais.
A internet, indubitavelmente, é um meio capaz de potencializar não apenas ações
turísticas, mas também de pôr em sinergia grupos sociais com características e interesses
234
divergentes, se forem explorados devidamente as suas características e categorias de atitude bem
como se forem delimitados conteúdos que possam apresentar uma idéia sobre a dinâmica do
destino, envolvendo suas peculiaridades socioeconômicas.
A interação dos cibersistemas aos
sistemas físicos deve funcionar no sentido de desenvolver, junto ao usuário, uma mentalidade
sobre o espaço o mais próximo possível da sua dinâmica. Essa representação do espaço e do
tempo pode permitir a interpretação do cotidiano e com ele a compreensão da cultura e,
continuamente, os novos valores e signos decorrentes do multiculturalismo e dos hibridismos que
cooperam para as alterações da identidade local.
Esse processo de digitalização da cidade amplia a visibilidade dos detalhes locais e cria,
antes do deslocamento físico, um estado de espírito adequado às modalidades do turismo. A
superação de barreiras e a acumulação de detalhes concentram, nesse espaço virtual, as
paisagens, as temperaturas, os sabores, as cores, as culturas e os valores regionais. Por essa
tecnologia virtual, todo o planeta fica ao alcance da imaginação e do bolso, deixando a cidade
compreensível, disponível e também à ‘venda’. Contudo, esse modo de projeção da cidade que
objetiva propor uma articulação entre o espaço físico e o virtual, pode potencializar a oferta de
emprego e a ampliação da renda do nativo, contribuindo para a melhoria do nível de vida e a
ativação de outros setores produtivos no destino, favorecendo, conseqüentemente, à
democratização. Para tanto, é preciso que o local tenha definidas as práticas turísticas (lazer,
eventos, congressos, convenções, conferências, encontros, festas) como forma de atrair não
somente consumidores para a região, mas também investidores no setor bem como, é preciso que
governantes
estejam
dispostos
a
investirem
nas
potencialidades
tecnológicas
da
contemporaneidade, sem o que, não há possibilidades de edificação de uma grounded cybercity.
Esse modelo de projeção da cidade pode, entretanto, contribuir para que o destino Porto
Seguro-Ba não mais seja entendido como um objeto caracterizado por pacotes comerciais, mas
235
sim, como um ‘composto orgânico vivo’, que se entrelaça e se define por sua capacidade
informacional, comercial, sua capacidade de promover interação, educação, prestação de
serviços, por seus atrativos culturais e ambientais, pelo traçado das suas casas, praças e
monumentos, por sua infraestrutura urbana, por suas vias de acesso e pela possibilidade de se
empregarem o dinheiro e o tempo poupados nesse processo atual de reconfiguração das coisas,
das ações e do espaço.
Contudo, é importante evidenciar que esse ciclo, que compreende espaço físico e
ciberespaço, só pode ser funcional se for fundamentado nas concepções do local, valorizando e
preservando sua identidade e memória. Tanto as viagens no ciberespaço como o consumo do
espaço físico devem proporcionar a visitantes e visitados uma troca espontânea de experiências,
evidenciando uma ‘inteligência coletiva’ em vez da alienação provocada pelas estetizações e
perplexidades sociais, ampliando, então, os conceitos de comunidade, socialidade e humanidade.
Por uma análise geral, reconhece-se que a relação entre tecnologia, complexidade social e
turismo sempre ultrapassam os limites intelectuais, de modo que é impossível abranger em uma
pesquisa de mestrado todas as implicações que surgem do entrelaçamento desses aspectos sociais.
Por ora, evidenciaram-se, junto à atividade turística, as relações de sociabilidade e de socialidade,
transformações sociais a partir das tecnologias digitais, aspectos comunicacionais e perspectivas
populares, através de uma abordagem metodológica, cujo ponto de partida foi o desenvolvimento
tecnológico e as implicações características do sistema capitalista. Portanto, acentua-se que, neste
trabalho, foi apresentado um caminho para se tentar entender parte da problemática que gira em
torno da atividade turística e dos usos da tecnologia.
Deve-se apontar, por fim, que as discussões desse trabalho estão longe de se esgotarem,
ficando temáticas como ‘flânerie burguesa temporária e comunitária’, ‘comunidades turísticas’
e ‘turismo cibernético’, carecendo de ampliação e mais detalhamento, que, por vários motivos,
236
inclusive o tempo, não puderam ser totalmente explorados aqui. Nesse contexto, destaca-se
também a necessidade de um aprofundamento teórico dos conteúdos estipulados para a projeção
da cidade turística na internet (interação, prestação de serviços, informação, e-comerce,
jornalismo, evidenciando o aplicado ao turismo, e educação). Portanto, reconhece-se que as
lacunas deixadas nesta pesquisa necessitam de maior atenção, devendo sofrer desdobramentos.
237
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ANEXO 1:
MESTRADO EM CULTURA & TURISMO UESC/UFBA
MOABE BRENO FERREIRA COSTA26
FORMULÁRIO PARA ANÁLISE DE SITES DA CIDADE TURÍSTICA:
26
Mestrando, orientado pela Dr.ª Sandra Sacramento, grupo de pesquisa ICER (CNPq). Comunicador Social
243
Endereço
____________________________________________________
__________
Entidade_______________________________________________________________
CONTEÚDO:
Interação: e-mail_________; fóruns_________ chats_________ outras___________
Prestação de serviços____________________________________________________
Informação____________________________________________________________
Educação______________________________________________________________
E-comerce_____________________________________________________________
Jornalismo_____________________________________________________________
EXPLORAÇÃO DAS CARACTERÍSTICAS DO MEIO:
Hipertextualidade________; Metamorfose;_________; Heterogeneidade________;
Multiplicidade___________; Exterioridade_________; Topologia______________;
Mobilidade dos centoros__________.
CATEGORIAS DE ATITUDES:
Analogia_______; Substituição________; Assimilação______; Articulação_______.
OBSERVAÇÕES:
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
_____________________________
ANEXO 2:
244
De modo geral pode –se dizer que não há ainda um aproveitamento total da internet
enquanto veículo de comunicação capaz de por em sinergias grupos culturais, empresas, cidadãos
e governantes. A exploração do meio ainda é genuína, e Por uma metáfora, pode-se dizer que
parece repetir as iniciativas de colonização dos portugueses, aproveitando-se apenas o superficial
e aspectos mais simples de serem trabalhados (no caso, hipertextualidade, analogia,
heterogeneidade e caixa de diálogo). Como pode ser verificado abaixo, na relação e descrição dos
sites analisados ainda há um universo cibernético a ser explorado pelo município de Porto
Seguro, curiosamente após 500 anos do início da exploração do espaço seu físico. Estes
endereços constituem-se como links no CD que acompanha este texto.
1- http://www.portonet.com.br
Portal da Costa do Descobrimento – Portonet. Possui chats, e-mails, enquete e mural de
recados como links de interação. Não oferece prestação de serviços nem educação nem ecomerce. As informações são referentes à agenda, dados geográficos e estatísticos sobre o
município, enumera as principais atividades econômicas, pontos turísticos e relata um
pouco da história oficial sobre o descobrimento. Apresenta hipertextualidade,
heterogeneidade (texto, fotografias e ícones), mobilidade dos centros, exterioridade e
topologia. Utiliza da analogia. Designer de fácil compreensão, facilita o deslocamento. O
site tem como função principal descrever os aspectos do local. apesar de utilizar da
hipertextualidade, esta tem um certo limite, afinal muitos dos links conectados não
oferecem continuidade ao texto. Pode-se dizer que este site tem limites estruturais e não
explora devidamente as características do meio, não possibilita a execução de ações. O
conteúdo apresentado é muito limitado e não fornece a percepção do senso do local. O
aspecto histórico apresentado apenas propõe um conteúdo propagado e difundido.
245
2- http://www.portosegurotur.com.br/
Site da Secretaria Municipal de turismo. Possui apenas e-mail com link de interação. Não
oferece prestação de serviço nem educação nem e-comerce. Oferece informações
geográficas e estatísticas sobre o município, enumera alguns estabelecimentos comerciais
como hotéis e restaurantes, apresenta um calendário de eventos. Apresenta
hipertextualidade, heterogeneidade (som, fotografia e texto), mobilidade dos centros e
topologia. Utiliza da analogia. O designer é simples e possibilita fácil navegação. As
informações são superficiais, não há uma atualização direta e o site vende o município a
partir da do imaginário de Caminha.
3- http://www.casinhasdabahia.com.br/
Hotel Casinhas da Bahia. Interação somente por e-mail. Oferece apenas prestação de
serviços (reserva de diárias) e informações sobre Caraíva e sobre as acomodações do
hotel. Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (ícones, fotografias e textos) e
mobilidade dos centros. Utiliza da analogia e da assimilação. O designer é agradável e
possibilita fácil navegação. Tem rápida conexão mas não permite uma acepção sobre o
local.
4- http://www.montepascoal.com.br/novo/default.asp?id=08
Hotel Monte Pascoal. Interação a partir de chats. Oferecer apenas prestação de serviços
(reservas de diárias) e informações sobre aspectos festivos do município, pontos
turísticos, aspectos geográficos e climáticos e sobre as instalações e serviços do hotel.
Apresenta hipertextualidade e heterogeneidade (fotografias e texto). Utiliza da analogia e
246
da assimilação. Apresenta rápida conexão, mas o designer é desagradável de se olhar por
muito tempo. As informações são superficiais e reproduzem o imaginário da Carta de
Caminha.
5- http://www.portodasnaus.com.br/hotel.htm
Hotel Porto das Naus. Interação apenas por e-mail. Oferece prestação de serviços (reserva
de diárias) e informação sobre a localização do município, distância das principais capitais
do país e sobre as instalações do hotel. Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade
(som, texto e fotografia), multiplicidade, topologia e mobilidade dos centros. Utiliza da
analogia e da assimilação. O designer facilita a conexão. as informações são restritas ao
hotel. Rápida conexão.
6- www.solardoimoerador.com.br
Hotel Solar do Imperador. Oferece interação por e-mail e informações restritas ao o hotel.
Apresenta hipertextualidade e heterogeneidade (texto e fotografia). Utiliza da analogia.
Designer agradável que permite fácil locomoção. Possui rápida conexão. o site funciona
como um cartão postal eletrônico não utilizando das potencialidades do meio.
7- http://www.portoseguropraiahotel.com.br/default.htm
Porto Seguro Praia Hotel. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços (reserva de
diárias) e informações sobre as acomodações e serviços do hotel e aspectos ambientais e
turísticos do município. Apresenta
hipertextualidade, heterogeneidade (ícones,
fotografias e texto) topologia e mobilidade dos centros.
Utiliza da analogia e da
assimilação. Designer agradável estimula e permite fácil navegação. Rápida conexão. o
247
site assemelha-se a um cartão postal eletrônico ou mesmo como um dispositivo de
marketing.
8- http://www.portal500.com.br/coqueiroverde/index.html
Hotel. Oferece interação via e-mail, prestação de serviço (reserva de diárias) e
informações turísticas e sobre as acomodações e serviços do hotel. Apresenta
hipertextualidade, heterogeneidade (texto e fotografia), exterioridade e mobilidade dos
centros. Utiliza da analogia e da assimilação. O designer é agradável e apresenta rápida
conexão o que facilita a locomoção. As informações são superficiais.
9- http://www.mucuge.com.br/alicerce/
Alicerce Engenharia e Projetos (Construtora do Espírito Santo). Oferece interação por email e enumera hotéis, pousadas e loteamentos em Porto Seguro. Apresenta
hipertextualidade, metamorfose, multiplicidade, exterioridade e topologia. Utiliza da
articulação. Site com rápida conexão, apresenta links que remetem o usuário a hotéis,
pousadas e loteamentos.
10- http://www.pousadaarigato.com.br/chegar.htm
Pousada Arigato. Oferece interação por e-mail, prestação de serviço (reserva de diárias) e
informações limitadas às características da pousada. Apresenta hipertextualidade,
heterogeneidade (texto e fotografia) e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia e da
assimilação. Designer agradável que possibilita fácil navegação. O site comporta-se como
um postal eletrônico.
248
11- http://www.terra.com.br/turismo/roteiros/2001/10/22/000.htm
Página do portal Terra. Oferece apenas informações sobre a história local e alguns
atrativos turísticos. Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (texto e imagem),
exterioridade e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia. O designer é agradável e
possibilita fácil navegação. Uma cidade metafórica sem pretensão de interação nem de
prestação de serviços. Com tudo as informações que oferece são superficiais e não
possibilita uma maior compreensão sobre atual dinâmica
do município, ressaltando
apenas o imaginário da carta de Caminha e evidenciando o local como o marco do
descobrimento.
12- http://ibahia.globo.com/plantao/noticia/default.asp?id_noticia=94747
Página do portal da Rede Bahia de Comunicação. Oferece jornalismo e como interação
enquete sobre a cidade e espaço para comentário da matéria. Apresenta hipertextualidade,
metamorfose, multiplicidade, exterioridade, topologia e mobilidade dos centros. Utiliza
da analogia. Com o designer de um jornal eletrônico, apresenta notícias referentes ao
cotidiano do local, proporcionando uma idéia da dinâmica do município. Notícias as mais
diversas compõem a dinâmica da página, as matérias são fácil e rápido entendimento com
linguagem apropriada para o meio.
13- www.chalesporto.com.br
Hotel Charles do Mundaí. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços (reserva de
diárias) e informações sobre as acomodações
do hotel e sobre a sua localização.
Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (texto e imagem) e mobilidade dos centros.
Utiliza da analogia e da assimilação. Designer agradável que permite fácil locomoção.
249
Apresenta rápida conexão, possibilita apenas a compreensão do hotel mas não promove a
descrição do município.
14- http://www.aluguetemporada.com.br/scripts/imovellist.cfm?Cidade=Porto%20Seguro
Imobiliária. Oferece interação por e-mail e caixa de diálogo tanto para locadores quanto
para locatários, as informações são apenas sobre os imóveis. Apresenta hipertextualidade,
metamorfose, heterogeneidade (Imagem e texto) e topologia. Utiliza da analogia e da
articulação. O designer é simples e agradável. Permite fácil locomoção. Os poucos links
perpetuam as informações iniciais.
15- http://groups.msn.com/BRAZILportoseguroBahia
Página do Portal MSN. Oferece interação por chats, jornalismo e informações sobre o
calendário de eventos e a história local. apresenta hipertextualidade, metamorfose,
heterogeneidade (texto e fotografia) e mobilidade dos centros. O designer é agradável e
proporciona fácil navegação. Página em inglês, contextualiza Porto Seguro a partir do
imaginário de Caminha.
16- http://www.casavaca.com/casavaca_house_information.php3/spanish/162/Alquiler_V
acacional_Casa_Porto_Seguro_Bahia_Brasil.html
Imobiliária. Oferece interação por e-mail e informações sobre os imóveis e um pouco
sobre o município. Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (texto e imagem) e
topologia. Utiliza da analogia. O designer é um tanto complicado para a locomoção os
títulos dos links não possibilitam um entendimento imediato dos seus respectivos
250
conteúdos. É difícil encontrar o link para interação. As informações sobre o município são
limitadas às festividades e a aspectos ambientais.
17- www.alugueltemporada.com.br/roteiros/ba-portoseguro.cfm
Imobiliária. Oferece interação por meio de caixa de diálogo tanto para locador quanto
para locatário. As informações referem-se à história local, aos aspectos ambientais e
eventos turísticos. Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (testos e fotografias) e
topologia. Utiliza da analogia. O designer é simples utiliza da barra de rolamento e
estimula a navegação. As informações sobre a história são superficiais e reproduzem o
imaginário da carta de Caminha.
18- http://discoverbrazil.com/ntours/PortoSeguroPackageDN/index.cfm
Agência de turismo – Discover South América. Oferece interação por e-mail, prestação de
serviços (reservas de pacotes turísticos) e informações sobre o município, sobre o país e
sobre serviços da empresa, que pode ser categorizada por uma Lone Eagle. Apresenta
hipertextualidade, metamorfose, heterogeneidade (texto e fotografia), exterioridade,
topologia e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia. O designer é agradável, facilita a
locomoção pelo site. Apresenta o município sobre a lógica do imaginário da carta de
Caminha, contextualizando o local como um destino cuja dinâmica é voltada apenas para
a diversão.
http://www.sac.ba.gov.br/Posto.asp?id=&CodUnidade=70
Serviço de Atendimento ao Cidadão -SAC. Oferece apenas informação sobre o endereço e
os dias e horários de funcionamento. Apresenta heterogeneidade (fotografia e texto) e
251
hipertextualidade e topologia para remeter o usuário a prestadoras de serviços, como
Embaza, Coelba e bancos. Utiliza da analogia.
19- http://www.braziltravel.com.br/german_porto.htm
Agência de viagem. Apresenta interação por e-mail e informações sobre o local.
Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (fotografia e texto) e topologia. Utiliza da
analogia. O designer é bastante simples, promove fácil deslocamento o texto é voltado
para atrair turista estrangeiro, com imagem que estimulam o turismo sexual.
20- http://www.packtours.com.br/dest/bahia/bps/
Agência de viagem. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços (reservas de
diárias) e informações sobre os atrativos turísticos, um pouco da história e sobre os hotéis
credenciados bem como apresenta
hipertextualidade,
metamorfose,
mapas de localização do município. Apresenta
heterogeneidade
(fotografia,
ícone
e
texto),
multiplicidade e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia, da assimilação e da
articulação. O designer é agradável proporciona uma fácil navegabilidade. O site é
voltado para o público exterior e apresenta o município com um forte apelo às práticas
festivas. Promove a articulação de empresas hoteleiras com usuários.
21- http://www.discountedhotels.com/porto_seguro_bahia/
Agência. Oferece prestação de serviços (reservas de diárias) e informações sobre hotéis
cadastrados. Apresenta
hipertextualidade, heterogeneidade (fotografia
e texto),
multiplicidade e topologia. Utiliza da analogia, assimilação e articulação. Página simples
252
com enumeração de hotéis. Cada hotel corresponde a um link que apresenta outros vários
links. Promove articulação entre empresas hoteleiras e usuários.
22- http://www.expedia.co.uk/daily/hotels/Brazil/PortoSeguro.asp
Agência de viagem. Oferece interação por caixa de diálogo, prestação de serviços
(reservas
de
diárias)
informações
sobre
os
hotéis
credenciados.
Apresenta
hipertextualidade, metamorfose, multiplicidade, exterioridade e topologia. Utiliza da
analogia e da assimilação.o designer é simples ,apresentando enumeração de hotéis que se
constituem com links.
23- http://www.sabiatravel.ch/index.cfm?nav=12,3,14,25,160
Agência. Oferece poucas informações sobre a história e aspectos ambientais e festivos do
município. Apresenta
hipertextualidade, heterogeneidade (fotografia e texto),
exterioridade e topologia. Utilizada analogia. O designer é simples semelhante a uma
página de jornal impresso. Site apenas informativo.
24- http://www.worldsexguide.org/porto-seguro.txt.html
Página voltada para
a promoção do turismo sexual. Oferece interação por e-mail,
prestação de serviços (contratação de garotas de programa), informações sobre
a
festividade praias e comercio sexual, educação (regras contra prostituição infantil e
normas de utilização do site) e e-comerce (vendas de vídeos e produtos eróticos).
Apresenta hipertextualidade, metamorfose e heterogeneidade (fotografias, texto e vídeo).
Utiliza da analogia, assimilação e articulação. Site voltado para
o turismo sexual.
Designer agradável, possibilita fácil navegação. Utiliza da metalinguagem da rede para
promover a perpetuação do imaginário local de paraíso sexual. Apresenta fotografias e
253
vídeo de sexo explícito, além de um texto na página principal que descreve as garotas
locais como fáceis e disponíveis ao sexo. O site é em inglês, voltado para o turista
estrangeiro. A página principal é voltada para o esclarecimento do conteúdo exposto. As
exposições de atos sexuais estão linkadas à página principal, de modo que não cause
impacto imediato aos navegantes. O site, contudo, atenta contra a prostituição infantil.
25- http://www.hirners.com/hotels/BR/Porto+Seguro.htm
Guia de hotéis. Oferece a conexão do usuário com empresas da rede hoteleira. Apresenta
hipertextualidade, metamorfose, exterioridade e topologia. Utiliza da analogia e da
articulação. Designer simples apenas apresenta uma listagem de hotéis que se constituem
com links.
26- http://www.blameitonrio4travel.com/porto-index.php
Agência. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços (reservas de diárias) e
informações sobre atrativos turísticos e a enumeração de bares e restaurantes. Apresenta
hipertextualidade, metamorfose, heterogeneidade (fotografia e texto), multiplicidade,
exterioridade e topologia. Utiliza da analogia, assimilação e articulação. O designer é
agradável, facilita a navegação.
27- http://membres.lycos.fr/damasceno/nordeste/ba/ba-psegu1.html
Oferece informação sobre a história e algumas características ambientais, utilizando da
analogia. A página é semelhante a uma página de revista impressa.
254
28- http://www.viajeya.com/sections/destinos/cityDestination.ihtml?countryId=BR&cityI
d=BPS
Oferece informações sobre aspectos históricas e sobre a natureza e costumes locais.
Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (fotografia e texto) e topologia. Utiliza da
analogia. O designer é simples, semelhante à revista impressa.
29- http://www.trendystyle.net/lifestyle/hotspots/tui/brazilie.html
Revista eletrônica. Oferece jornalismo e informações sobre restaurantes, hotéis, história,
natureza,
festividade,
além
de
receitas
culinárias
e
horóscopo.
Apresenta
hipertextualidade, metamorfose, heterogeneidade (fotografia e texto), topologia e
mobilidade dos centros. Utiliza da analogia.
30- http://www.roomplease.com/hotel61634
Hotel Tropical Oceano Praia. Oferece interação por e-mail e caixa de diálogo para
indicação do hotel a terceiros, prestação de serviços (reserva de quarto de hotéis e
locação de automóveis) e informações apenas sobre as instalações e serviços do hotel.
Apresenta hipertextualidade e multiplicidade. Utiliza da analogia e assimilação. O site é
voltado para descrever os aspectos do hotel, com designer usa de vários idiomas, contudo
não oferece informações sobre o município.
31- http://dg.ian.com/index.jsp?cid=10429&action=viewLocation&locationId=26759
255
World Sites Atlas. Oferece informações sobre a história e aspectos turísticos do município.
Apresenta hipertextualidade, metamorfose, heterogeneidade (fotografia e texto),
multiplicidade e topologia. Utiliza da analogia, da assimilação e da articulação. O
designer é semelhante à paginas de revista impressa. A página fornece informações
básicas sobre Porto seguro, limitando-se a aspectos turísticos e informações que remetem
ao mito do descobrimento. A página promove interação do usuário da internet.
32- http://www.bannerpromotion.it/bxsql-profile.php?memid=4384
Empresa de turismo espanhola. Oferecer interação por e-mail, prestação de serviços
(reserva de diárias e locação de veículos), informações sobre a história e aspectos
turísticos do município bem como características dos hotéis credenciados. Oferece
também a venda de roupas e
objetos
eletrônicos. Apresenta
hipertextualidade,
metamorfose, heterogeneidade (textos e fotografias), multiplicidade, topologia e
mobilidade dos centros. Utiliza da analogia, da assimilação e da articulação. O designer
da página inicial é simples com links que permitem e estimulam o deslocamento pelo site.
As informações propagam o imaginário da Carta.
33- http://www.melhorespraias.com.br/v_praias.asp?opc=1&id_est=3&id_praia=60
Revista eletrônica turística. Oferece interação por e-mail, informações superficiais sobre
aspectos turísticos do município e jornalismo, com notícias turísticas do âmbito nacional.
apresenta hipertextualidade, metamorfose, heterogeneidade (fotografias e texto), topologia
e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia e da articulação. O designer é semelhante a
revistas impressas. Esse é um site específico para informações turísticas nacionais. As
256
informações são superficiais e oferecem indicações de hospedagem, de alimentação e de
atividades turísticas das localidades.
34- http://www.correiodabahia.com.br/2004/11/26/noticia.asp?link=not000101812.xml
Correio da Bahia. Oferece interação por e-mail, informações referentes á localização e
como chegar ao município, bem como sobre alguns aspectos turísticos. Apresenta
hipertextualidade, metamorfose, heterogeneidade (texto e fotografia) e topologia. Utiliza
da analogia. Página específica sobre turismo do jornal. A análise foi referente à página e
não ao site completamente. Não há exploração devida sobre o jornalismo on-line, não há
conexão com outros sites sobre o município.
35- http://www.cidadesimples.com.br/sites/floridainn/index.htm
Hotel Florinda Inn. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços (reserva de
diárias) e informações limitadas à descrição das características e serviços do hotel.
Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (fotografia e texto), multiplicidade,
exterioridade, topologia e mobilidade dos centros. Site de fácil navegabilidade, com
designer agradável.
36- http://www.portobellohoteis.com.br/resrtabt.html
Hotel Porto Belo Resort. Oferece interação por e-mail e caixa de sugestões, prestação de
serviços (reserva de diárias) e informações sobre aspectos turísticos, a história, a natureza
e festividades, bem como sobre eventos populares além de oferecer informações sobre
257
hotel e sobre o município, listando hospitais farmácias, espaços culturais, bancos, jornais,
atividades econômicas, clima e temperatura. Apresenta hipertextualidade, metamorfose,
heterogeneidade (fotografia e texto) e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia e da
assimilação. O designer é agradável e permite fácil navegabilidade. As informações são
superficiais propõem uma certa compreensão sobre a dinâmica do município.
37- http://www.newsbrazil.com.br/mapaturismo/portoseguro.html
Oferece poucas informações sobre o município. Apresenta apenas heterogeneidade (texto
e fotografia). Utiliza da analogia. Página semelhante a de periódico impresso. Apresenta
rápida conexão.
38- www.hotel.com.br/cadastro.htm
Portal que enumera hotéis. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços e
informações sobre os direitos dos hotéis cadastrados. Apresenta
hipertextualidade,
metamorfose, heterogeneidade (fotografia e texto), multiplicidade, topologia e mobilidade
dos centros. Utiliza da analogia, da assimilação e da articulação. O designer é simples e
agradável e apresenta rápida conexão. Promove a articulação entre empresas,
fornecedores e usuários. Apresenta uma política de defesa dos direitos dos hotéis
cadastrados garantindo a privacidade dos dados cadastrais.
39- http://www.citybrazil.com.br/ba/portoseguro/
Portal do Território Brasileiro. Site em construção. Por sua estrutura, evidencia-se
interação por e-mail e fórum, prestação de serviços (reserva de diárias), informação, ecomerce e jornalismo. Apresenta hipertextualidade, metamorfose, heterogeneidade
258
(fotografia e texto), multiplicidade, exterioridade, topologia e mobilidade dos centros.
Utiliza da analogia, da assimilação e da articulação. O designer é simples e agradável,
permite ao internalta navegar pela cidade, conhecendo um pouco história e dos aspectos
do cotidiano. Há um certo estímulo ao debate público, através do links ‘A cidade fala’.
Dados estatísticos, informações gerais, destaques turísticos são algumas temáticas que
fomentam a dinâmica do site que se comporta côo um representação do município, capaz
de permitir ao internauta um panorama geral da sua dinâmica.
40- http://www2.ondehospedar.com.br/ba/porto_seguro.php
Onde hospedar – guia de hotéis e pousadas do Brasil. Oferece interação por e-mail e
disponibiliza
contatos
com
empresas
hoteleiras.
Apresenta
hipertextualidade,
heterogeneidade (ícones e texto), topologia e mobilidade dos centros. Utiliza da
articulação. O site oferece a enumeração de hotéis, promovendo a articulação destes com
o usuário.
Não apresenta detalhes dos hotéis muito menos informações sobre o
município.
41- http://www.cvc.com.br/brasil/aereo/portoabrolhossab_8d/default.asp
Agência de viagem CVC. Oferece informação por e-mail, reservas de pacotes turísticos e
poucas informações sobre aspectos naturais do destino além de informações sobre os
serviços
inclusos nos pacotes turísticos. Apresenta hipertextualidade, metamorfose,
heterogeneidade (fotografia e texto), multiplicidade, exterioridade topologia e mobilidade
dos centros. Utiliza da analogia, da assimilação e da articulação. O Site tem um designe
bastante agradável, representa uma prestadora de serviços turísticos e põe em sinergia
empresas e usuários.
259
42- http://www.canalkids.com.br/viagem/brasil/porto.htm
Canal Kids. Oferece informações sobre a história do município. Apresenta
hipertextualidade, heterogeneidade (ilustrações e texto) e topologia. Utiliza da analogia.
Este é um site informativo para crianças. Apresenta designer semelhante à de revista
impressa, proporcionando no texto, links que remetem a conteúdos explicativos que
ampliam o sentido do texto.
43- http://www.jornaldigital.com/noticias.php?noticia=2070
Jornal
digital.
Oferece
jornalismo.
Apresenta
hipertextualidade,
metamorfose,
heterogeneidade (fotografia e texto), topologia e mobilidade dos centros. Utiliza da
analogia. O site corresponde a uma revista eletrônica nacional.A matéria sobre Porto
Seguro aparece na página de Cultura. Não há a exploração das características do meio
para que seja gerada uma discussão sobre os aspectos do município. não há conexão com
outros sites referentes ao local.
44- http://www.pousadadoroballo.com.br/
Pousada do Roballo. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços (reservas de
diárias) e informações sobre o Arraial d’Ajuda e sobre a pousada. Apresenta
hipertextualidade, heterogeneidade (fotografia e texto) e mobilidade dos centros. Utiliza
da analogia, da assimilação e da articulação. O site tem um designer agradável e rápida
conexão que possibilitam fácil navegação. Utiliza do recurso visual, apresentando pessoas
malhadas e a natureza exótica, como parte do cenário local.
260
45- www.tursimo.gov.br/br/cidade/ver.asp?servicold=48&cid=20
Embratur. Oferece informações sobre o município e seus atrativos turísticos. Apresenta
hipertextualidade, heterogeneidade (fotografia e texto), multiplicidade, exterioridade e
topologia. Utiliza da analogia. O designer é semelhante ao de um periódico impresso.
Possibilita a conexão com sites referentes ao local. As informações reproduzem o
imaginário da Carta de Caminha. A análise foi referente à página sobre Porto seguro e
não ao site inteiro.
46- http://geocities.yahoo.com.br/brasil_tur/bahia.htm
Geocities yahoo. Oferece informações sobre o município
e a enumeração de
empreendimentos turísticos. Apresenta hipertextualidade e utiliza da analogia. O designer
e semelhante ao de um periódico impresso, não há detalhamento das informações que
apenas reproduzem o imaginário da carta.
47- http://www.doaj.org/abstract?id=28205&toc=y
DOAJ – Directory of Open Access Journals. Oferece interação por e-mail e educação.
Apresenta hipertextualidade e utiliza da analogia. O designer é simples e agradável. O site
é voltado para a disponibilização de estudos científicos. Explora da hipertextualidade
para ampliar as discussões e oferta de dados científicos.
48- http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102261X2001000300004&script=sci_abstract&tlng=pt
Sielo Brasil. Revista Brasileira de Geofísica. Oferece interação por e-mail e educação.
Apresenta hipertextualidade e utiliza da analogia. A página é simples, semelhante à de um
261
periódico impresso. Disponibiliza estudos científicos sobre o local e utiliza da
hipertextualidade para detalhar os conteúdos.
49- http://www.abbra.eng.br/portoseguro.htm
Abbra – Produtos e serviços. Oferece informação sobre a história e sobre aspectos
turísticos (festividades). Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (fotografia e texto),
multiplicidade, exterioridade e topologia. Utiliza da analogia. O designer assemelha-se ao
de um cartão postal. Apresenta informações superficiais sobre o local, propagando o
imaginário da carta.
50- http://www.marlim.com.br/abre.htm
Hotel Marlin. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços (reservas de diárias) e
informações sobre as acomodações do hotel e sobre a localização (oferece mapa).
Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (texto, fotografia e som) e mobilidade dos
centros. Utiliza da analogia e da assimilação. O designer é simples e agradável e site
possui rápida conexão, facilitando a navegação.
51- http://www.losmandalas.com.br/default.htm
Los Mandalas Resort. Oferece interação por e-mail e informações sobre as instalações do
resort e sobre os serviços de mergulho que oferece. Apresenta
hipertextualidade e
heterogeneidade (fotografia e texto). Utiliza da analogia. O designer é simples, as não
aproveita as os recursos do meio para potencializar as comunicação e agilizar as ações do
usuário.
262
52- http://www.cidadeshistoricas.art.br/portoseguro/ps_eve_p.htm
Cidades Ibest. Oferece informações sobre as comemorações festivas, sobre hospedagem, e
sobre meios de transportes de acesso, sobre hospitais, atividades econômicas,
características geográficas e informações sobre a temporadas turísticas. Apresenta
hipertextualidade e metamorfose e utiliza da analogia. O designer é semelhante ao de um
periódico impresso as informações turísticas limitam-se a um calendário festivo.
53- http://www.pousadaramona.com.br/index.htm
Pousada Ramona. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços (reservas de diárias)
e informações sobre a natureza e atrativos turísticos de Trancoso e sobre as instalações do
hotel. Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (fotografia e texto) e mobilidade dos
centros. Utiliza da analogia e da assimilação. O designer é simples e agradável, apresenta
rápida conexão, facilitando a navegação. As informações são superficiais e não dão conta
da complexidade sócio-econômica do local, sendo limitadas ao imaginário de carta.
54- http://casadamarlene.cjb.net/
Imobiliária. Oferece interação por e-mail, prestação de serviço (aluguel de casas para
temporada), e-comerce (venda de imóveis) informações sobre pontos turísticos e sobre
aspectos naturais do município bem como sobre as características dos imóveis
negociados. Apresenta hipertextualidade ,metamorfose, heterogeneidade (fotografia e
texto) e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia, da assimilação e da articulação. O
designer é simples e agradável, e apresenta rápida conexão, o que facilita a navegação.
Promove articulação entre usuário e proprietários dos imóveis.
55- http://www.netviagens.com/Microsite/microsite.asp?channelID=370
263
Agência de viagem (Portugal). Oferece interação por e-mail, prestação de serviços
(reservas de pacotes de viagens)
e informação sobre o local (história e aspectos
ambientais), sobre o roteiro da viagem e sobre hotéis. Apresenta hipertextualidade,
metamorfose, heterogeneidade (fotografia e texto) multiplicidade e topologia. Utiliza da
analogia, da assimilação e da articulação. O designer é simples e agradável. Explora a
hipertextualidade e a multiplicidade para conectar o usuário com diversas localidades. As
informações são restritas a descrição de alguns aspectos turísticos do município,
propagando o imaginário da carta.
56- http://www.portal500.com.br/coqueiroverde/index.html
Hotel Coqueiro Verde. Oferece interação por e-mail e informação sobre as características
gerais do município, preparando o turista para eventuais situações constrangedoras com
exploração do turista por cambistas. Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade
(fotografia e texto) e mobilidade dos centros. O designer é agradável e facilita a
navegação. As informações são precisas mas oferecem ao usuário uma concepção mas
prepara o usuário para eventuais problemáticas sociais.
57- http://www.macamp.com.br/_Campings/BA-PortoSeg-Caju.htm
MA Camping. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços (reservas de diárias),
informações sobre o Arraial d’Ajuda (festividades e natureza) e sobre o camping.
Também oferece educação, apresentando um regulamento de conduta no local. Apresenta
hipertextualidade, heterogeneidade (ícones, fotografia e texto) e mobilidade dos centros.
Utiliza da analogia e da assimilação. O designer é um pouco confuso. Muitos ícones e
264
muitas variações da fonte (diversos tamanho, cor, tipo, e estilos) causam um certo
desconforto à visão.
58- http://www.saudosamaloca.tur.br/
Hotel Pousada Saudosa Maloca. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços
(reservas de diárias – via e-mail) e informações sobre o hotel. Apresenta
hipertextualidade, heterogeneidade (fotografia e texto) e mobilidade dos centros). Utiliza
da analogia e da assimilação. O designer agradável e a rápida conexão facilitam a
navegabilidade.
59- http://www.freires.com.br/
Livro on-line – Freire’s on-line. Oferece informações sobre praias, festividades noturnas e
demais aspectos turísticos, incluindo perplexidades sociais conseqüentes da especulação
em torna da atividade. Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (fotografias e texto),
multiplicidade, exterioridade, topologia e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia. O
designer é semelhante à de uma revista impressa. Utiliza dos recursos do meio para
aprofundar as informações apresentadas. Utiliza da ironia para descrever o local,
compondo um texto original para apresentar ao usuário aspectos sociais negativos
provocados pela especulação em torno da atividade.
60- http://www.oscarararipe.com.br/pintor/contato.html
Galeria Atelier de Oscar Araripe. Oferece interação por e-mail e caixa de opinião e ecomerce. Apresenta heterogeneidade (fotografia e texto) e utiliza da assimilação. Página
265
de vendas de obras de arte. Assemelha-se a um catálogo sem fornecer informações
detalhadas.
61- http://www.losartesanos.com/brasil/bahia/porto_seguro.htm
Oferece informações sobre a história e aspectos turísticos do município. Apresenta
hipertextualidade e heterogeneidade (texto e
fotografia). Utiliza da analogia e da
articulação, estabelecendo um conexão entre artesão e usuário. A página possui um
designer agradável.
62- http://www.amazonaspress.com.br/htm-comunic/the_best/the_best_020701_mail.htm
Revista
eletrônica.
Oferecer
interação
por
e-mail
e
jornalismo.
Apresenta
hipertextualidade , metamorfose e topologia. Utiliza da analogia. A página assemelha-se á
um jornal impresso, apresentando editorias fixas. As chamadas ficam ordenadas uma
após outra, de modo que é necessário usar da barra de rolamento para visualizar todas
as notícias.
63- http://www.beijodovento.com.br/
Pousada Beijo do Vento. Oferece interação por e-mail e informações sobre as
acomodações e serviços
da empresa. Apresenta hipertextualidade e heterogeneidade
(texto e fotografia). Utiliza da analogia. O designer é pouco agradável e não estimula ao
deslocamento pelo site, uma vez que é preciso a barra de rolamento para percorrer todas
as informações e encontrar links de interação.
64- http://www.pousadacatamara.com.br/
266
Pousada Catamarã. Oferece prestação de serviço (reserva de diárias) e informações sobre
a localização, as acomodações e serviços da empresa e sobre
aspectos naturais do
município. Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (som, fotografia e texto) e
mobilidade dos centros. Utiliza da analogia, da assimilação e da articulação. Designer
simples e agradável e a rápida conexão facilitam a navegação.
65- http://www.kitesurfmania.com.br/ksm/viagem/estado.asp?estado=BA
Guia de viagem. Oferece interação por fórum, e informações sobre a história e atrativos
turísticos do município. Apresenta hipertextualidade, metamorfose, heterogeneidade
(texto e fotografia), multiplicidade, topologia e mobilidade dos centros. Utiliza da
analogia e da articulação, estabelecendo uma conexão entre o usuário e empresas do trade
turístico. O designer permite fácil navegação, por sua agradabilidade e rápida conexão.
66- http://www.brasilviagem.com/materia/?CodMateria=13
Agência de viagem (agência on-line). Oferece interação por e-mail, prestação de serviços
(reservas de diárias, de passagens e de pacotes turísticos), informações sobre a história e
aspectos turísticos do município. Oferece também jornalismo direcionado ao turismo,
ratificando o conteúdo das informações. As notícias são voltadas para vender o local
como produto turístico, não demonstrando um compromisso social.
Apresenta
hipertextualidade, metamorfose, heterogeneidade (fotografia e texto), multiplicidade,
topologia e mobilidade dos centros. Utiliza da Analogia, da substituição, da assimilação e
da articulação. O designer agradável e a rápida conexão facilitam a navegação pelo site.
Promove a articulação do usuário com empresas hoteleiras.
267
67- http://www.achetudoeregiao.com.br/BA/porto_seguro.htm
Site em construção, a análise foi feita a partir de sua estrutura e de alguns. Oferece
interação por e-mail e chats, prestação de serviços (canal de desaparecidos e de busca de
emprego), informações sobre aspectos turísticos e endereços úteis, educação (através dos
links ciência e meio ambiente). Oferece também jornalismo abordando notícias gerais.
Apresenta hipertextualidade, metamorfose, heterogeneidade (texto e fotografia),
multiplicidade, topologia e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia, da assimilação e
da articulação. O designer agradável e a rápida conexão facilitam o deslocamento pelo
site.
68- http://www.tropicalhotel.com.br/tarifas/oceano04.htm
Tropical Oceano Praia. Oferece informações sobre as tarifas e serviços do hotel. A página
é semelhante a um panfleto, tem rápida conexão utiliza apenas da analogia.
69- http://www.altosdetrancoso.com.br/
Empresa de Consultoria. Oferece interação por e-mail, além de disponibilizar um caixa de
diálogo na qual o usuário pode negociar em tempo real com a empresa. Oferece prestação
de serviços e e-comerce (aluguel e venda de imóveis) e informações gerais sobre
Trancoso e sobre os imóveis a ser negociados. Apresenta hipertextualidade, metamorfose,
heterogeneidade (fotografias e texto), multiplicidade, topologia e mobilidade dos centros.
Utiliza da analogia e da assimilação. O designer agradável e a rápida conexão facilitam o
deslocamento pelo site, que corresponde à extensão de uma empresa paulista que atua em
várias localidades. As informações disponibilizada propagam o imaginário da carta de
Caminha, enfatizando a natureza exótica, o mito de descobrimento e o multiculturalismo.
268
70- http://www.cosmo.com.br/viagem/integra.asp?id=96051
Revista eletrônica. Oferece interação por e-mail, informações gerais sobre o município e
jornalismo. Apresenta hipertextualidade, metamorfose, multiplicidade, topologia e
mobilidade dos centros. Utiliza da analogia. O jornalismo apenas propaga o imaginário
turístico, já difundido, sobre o local.
71- www.herbario.com.br/polui/tarbh.htm#log
Herbário. Oferece interação por e-mail e educação, utilizando da analogia. Apresenta
hipertextualidade, e topologia. O site disponibiliza estudos científicos sobre o meio
ambiente.
72- http://www.arvore.com.br/noticia/2004_1/n0706_3.htm
Projeto
Coral
Vivo.
Oferece
interação
por
e-mail
e
jornalismo.
Apresenta
hipertextualidade e utiliza da analogia. A página disponibiliza jornalismo científico. A
rápida conexão e o designer agradável facilitam a navegação.
73- http://www.brasilchannel.com.br/municipios/mostrar_municipio.asp?nome=Porto+Se
guro&uf=BA
Portal sobre o Brasil. Oferece interação por e-mail e enquete, jornalismo e informações
gerais a história, festividades, o comercio, espaços de fluxo e sobre atrativos turísticos do
município. Apresenta hipertextualidade, metamorfose, heterogeneidade (som e texto),
multiplicidade, topologia e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia. As informações
269
oferecidas correspondem ao imaginário da carta, o designer agradável e a rápida conexão
facilitam o deslocamento pelo site.
74- http://www.brazadv.com/passeios_ecol%C3%B3gicos_mapas/passeios_ecol%C3%B3
gicos_3a.htm
Site sobre eco-turismo. Oferece informações sobre os aspectos naturais do local,
enfatizando a potencialidade para a prática do eco-turismo. Apresenta heterogeneidade e
utiliza da analogia. O designer não é muito agradável, as cores fortes causam uma
poluição visual.
75- http://www.lami.pucpr.br/~dalton/websites2000/semestre2/TC/Rafael%20Figlarz%20e%20Roberta%20Marques/bahia.htm
Oferece informações sobre as festividades do município, enfatizando as cabanas do
circuito Porto Nigth. Apresenta heterogeneidade (fotografia e texto) e topologia. Utiliza
da analogia. O designer é agradável e a página disponibiliza informações permeado pelo
imaginário da carta.
76- http://www.hoteisemportoseguro.com.br
Hotel Distribution Network. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços (reservas
de diárias) e informações sobre as praias, locais de lazer, lista bares e restaurantes e
endereços e telefones de bancos, rodovia´ria, aeroporto e demais instituições prestadoras
de serviços públicos. Apresenta hipertextualidade, metamorfose, topologia e mobilidade
dos centros. Utiliza da analogia, assimilação e articulação. O site representa uma empresa
prestadora de serviços turísticos. Estabelece conexão entre o usuário e hotéis. As
informações disponibilizadas estão longe de representarem a dinâmica do município,
270
limitando-se a expor motivos turísticos. A rápida conexão e o designer agradável facilitam
a navegação.
77- http://www.brazils-hotels.com/porto_seguro_hotels.htm
Agência virtual de reservas de diárias. Oferece prestação de serviços (reserva de diárias)
e informações sobre aspectos turísticos da localidade. Apresenta hipertextualidade,
metamorfose, heterogeneidade (fotografia e texto) e topologia. Utiliza da analogia, da
substituição e da articulação. o designer agradável e a rápida conexão facilitam o
deslocamento pelo site, que corresponde a uma operadora virtual de serviços turísticos
que também articula usuários e hotéis.
78- http://www.muralnet.jor.br/capa.asp
Jornal eletrônico. Oferece interação por e-mail e enquete, informações para a comunidade
local e para turistas, além de uma prática jornalística voltada para a decodificação do
cotidiano local. Apresenta hipertextualidade, metamorfose, heterogeneidade (fotografia e
texto) e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia. Apresenta um vasto conteúdo
jornalístico, que possibilita
uma compreensão sobre a dinâmica do local. O rápida
conexão e o designer agradável facilitam a navegação.
79- http://www.carnaval.com/bahia/discovery/
Site de informações turísticas. Oferece informações sobre a história, o meio ambiente e
aspectos festivos do município. Apresenta hipertextualidade, multiplicidade e topologia.
Utiliza da analogia e da articulação. O designer simples e agradável e a rápida conexão
facilitam o deslocamento pelo site. Promove a articulação entre hotéis e usuários e
reproduz o imaginário da carta de Caminha.
271
80- http://www.topics-mag.com/edition11/porto-seguro.htm
Revista eletrônica. Oferece interação e informações sobre as festividades do município.
apresenta hipertextualidade e assimilação. Página semelhante á de um periódico impresso.
81- http://www.portoseguroresidencial.com.br/
Residencial Alto do Arraial. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços (reserva
de diárias) e informações sobre as acomodações do hotel e a enumeração de aspectos do
cotidiano local. apresenta hipertextualidade e heterogeneidade (ícone, fotografia e texto).
Utiliza da analogia e da assimilação. A rápida conexão facilita o deslocamento pelo site,
mas a utilização do flash causa um efeito desagradável. As informações são superficiais e
não dão conta da complexidade social.
82- http://revistaturismo.cidadeinternet.com.br/Dicasdeviagem/portoseguro.htm
Revista turismo. Oferece interação por e-mail, fórum e chat, prestação de serviços (espaço
para distribuição de currículos, espaço para anúncios, diversão – Karaokê – além de
serviços turísticos). Oferece jornalismo, voltado para
a decodificação de práticas
turísticas. Apresenta hipertextualidade, metamorfose, heterogeneidade (fotografias e
texto) e topologia. Utiliza da analogia e da assimilação. A página referente às reportagens
turísticas limita-se aos aspectos festivos
do local e às potencialidades naturais,
propagando imaginário da carta.
83- http://www.ivt-rj.net/caderno/anteriores/7/leila/leila5.htm
272
Caderno virtual de turismo. Oferece interação por e-mail e uma caixa de diálogo,
prestação de serviços (disponibiliza espaço para publicação de artigos científicos),
educação e jornalismo, trazendo reportagens referentes ás praticas turísticas. Apresenta
hipertextualidade, metamorfose r mobilidade dos centros. Utiliza da analogia e da
substituição. O designer agradável e a rápida conexão facilitam o deslocamento pelo site.
84- http://www.brazilspecial.net/menu/cities/other_cities/city.asp?city=Porto%20Seguro
Agência de turismo. Oferece interação por e-mail e caixa de diálogo, prestação de
serviços (reservas de passagens e de diárias) e informações sobre a localização e aspectos
turísticos. Apresenta hipertextualidade, metamorfose, heterogeneidade (fotografias e
texto), topologia e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia, da assimilação e da
articulação. A rápida conexão e o designer agradável facilitam a navegação. Utiliza da
hipertextualidade tanto para aprofundas as informações quanto para remeter o usuário a
outros conteúdos. Promove a articulação ente usuário e hotéis.
85- http://www.timberland.com.br/parques_montepascoal.htm
Hotel Shalimar. Oferece interação por e-mail e informações sobre as acomodações do
hotel e aspectos turísticos do município. apresenta hipertextualidade, heterogeneidade
(ícones, fotografias, som e texto) e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia. O
designer do site dificulta a navegação (barra de rolamento horizontal e vertical), contudo
utiliza de ícones, imagens e textos agradáveis. S informações reproduzem o imaginário da
carta.
86- www.timberland.com.br/parques_montepascoal.htm
273
Site sobre parques e reservas nacionais. Oferece informações (localização, distância da
capital, enumera hotéis, restaurantes e atrativos turísticos) e educação (detalhes da fauna
e flora, arquivo histórico e instruções de como se comportar no local). apresenta
hipertextualidade, topologia e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia. A rápida
conexão e o designer agradável facilitam a navegação, site específico para a comunidade
do turismo ecológico.
87- http://geocities.yahoo.com.br/webahia/bahiaweb/porto.htm
Geocity Yahoo. Oferece informações sobre a história e sobre socais de hospedagem.
Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (fotografias e texto) topologia e mobilidade
dos centros. Utiliza da analogia e da articulação. promove a articulação do usuário com
hotéis e locadoras de automóveis. O designer agradável e a rápida conexão facilitam o
deslocamento pelo site.
88- http://www.visualturismo.com.br/destaque.fwx?destino=PORTO%20SEGURO
Prestadora de serviços turísticos. Oferece interação por e-mail e informações sobre
peculiaridades locais (culinária, artesanato, atrativos turísticos, tipo de roupas e objetos
necessários para se usar no local). Apresenta hipertextualidade, metamorfose, topologia e
mobilidade dos centros. Utiliza da analogia e da articulação, pondo em conexão usuário e
empresas turísticas.
89- http://www.roteirosdecharme.com.br/textoestreladagua.php
Hotel Estrela d’água. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços (reservas de
diárias) e informações sobre o hotel e sobres Trancoso (história e aspectos ambientas).
274
Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (fotografia e texto) e mobilidade dos
centros. Utiliza da analogia e da assimilação. O designer agradável e a rápida conexão
facilitam o deslocamento pelo site.
90- http://www.hostels.com/es/availability.php/HostelNumber.172
Hotel. Oferece interação por e-mail e informações sobre o local e sobre as acomodações e
serviços do hotel. Apresenta hipertextualidade e heterogeneidade (fotografia e texto).
Utiliza da analogia e da assimilação. O designer é simples e utiliza da barra de rolamento
e da hipertextualidade para ampliar as informações sobre a localidade e para a prestação
de serviços.
91- http://www.stayxs.com/new/booking/hotel_list.asp?wsid=5&cityid=1349
Poty Praia Hotel. Oferece prestação de serviços (reserva de diárias) e informações sobre
as acomodações do hotel, utilizando da analogia. Página com poucas informações
apresentando apenas algumas informações sobre o hotel e a localização.
92- http://www.brol.com/trv_cty02weather.asp?ID=12
Agência de viagem. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços (reserva de
pacotes turísticos) e informações sobre o município (história, atrativos turísticos,
restaurantes e meios de transportes locais). Apresenta hipertextualidade, metamorfose,
heterogeneidade (texto e fotografia) e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia e da
assimilação. A lenta conexão e a utilização da barra
navegação.
de
rolamento dificultam a
275
93- http://www.bahiabonita.com.br/
Pousada Bahia Bonita. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços (reserva de
diária) e informações sobre as acomodações da empresa e sobre Trancoso. Apresenta
hipertextualidade, heterogeneidade (ícones, fotografias e textos) e mobilidade dos centros.
Utiliza da analogia e da assimilação. A rápida conexão e o designer agradável facilitam a
navegação. Os ícones são bastante criativos, comunicando imediatamente o conteúdo do
link (permitindo, então, uma leitura semiótica).
94- http://www.eztrip.com/dg_viewLocation_locationId-26759.html
Agência de viagem. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços (reservas de
diárias e de passagens aéreas) e informações sobre a história e aspectos turísticos do
município bem como sobre as instalações dos hotéis credenciados. Apresenta
hipertextualidade, metamorfose, topologia e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia,
da assimilação e da articulação. A rápida conexão e o designer agradável facilitam a
navegação. Promove a articulação de usuários com hotéis e as informações remetem ao
mito do descobrimento.
95- http://www.ervadoce.com.br/
Pousada e restaurante Erva Doce. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços
(reserva de diárias) e informações sobre as acomodações e serviços da empresa. Apresenta
hipertextualidade, heterogeneidade (fotografia e texto) e mobilidade dos centros. Utiliza
da analogia e da assimilação. A rápida conexão e o designer agradável facilitam a
navegação.
276
96- http://www.viajeros.com/article86.html
Site específico para turistas. Oferece interação por e-mail, fórum e enquete, prestação de
serviços (reserva de diárias) informações sobre a história e aspectos turísticos. Apresenta
hipertextualidade, metamorfose, topologia e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia,
da assimilação e da articulação. O objetivo do site é promover interação entre os usuários
bem como articulação destes com empresas hoteleiras. Apresenta espaço para
cadastramento e posterior disponibilização de suas experiências e fotografias.
97- http://www.zirinei.residencial.nom.br/
Apartamentos Zirinei residencial. Oferece interação por e-mail, prestação de serviços
(reserva de diárias) e informações sobre história e atrativos turísticos do município e
sobre
as
acomodações
e
serviços
da
empresa.
Apresenta
hipertextualidade,
heterogeneidade (fotografias e texto) e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia e da
assimilação. O designer agradável e a rápida conexão facilitam o deslocamento pelo site.
98- http://www.greatrentals.com/Brazil/12023.html
Hotel. Oferece interação por e-mail e forum, prestação de serviços (reserva de diárias) e
informações
sobre
Trancoso
e
sobre
as
acomodações
do
hotel.
Apresenta
hipertextualidade, heterogeneidade (fotografia e texto) e mobilidade dos centros. Utiliza
da analogia e da assimilação. Designer semelhante à de revista impressa, reproduz o
imaginário da carta.
99- http://www.hostelworld.com/hosteldetails.php/HostelNumber.7661
277
Casa Amarela Hotel. Oferece prestação de serviços (reserva de diárias) e informações
sobre as acomodações, serviços e localização do hotel. Apresenta hipertextualidade e
heterogeneidade (fotografia e texto) e utiliza da analogia e da assimilação. Possui rápida
conexão e designer agradável.
100-
http://www.hostels.com/de/hosteldetails.php/HostelNumber.172
Residencial das Araras. Oferece prestação de serviços (reserva de diárias) e informações
sobre as acomodações do hotel e sobre a localização. Apresenta hipertextualidade e utiliza
da analogia e da assimilação. Possui rápida conexão.
101-
http://www.lodgingcatalog.com/accommodation_1581.htm
Mata Nativa Pousada. Oferece interação por e-mail e informações sobre a pousada e
enumeração de atrativos turísticos. Apresenta hipertextualidade e utiliza da analogia.
Possui rápida conexão.
102-
http://www.hotelmais.com.br/P/psegur.htm
Guia virtual de hotéis. Oferece interação por e-mail e informações sobre as instalações
dos hotéis cadastrados. Apresenta hipertextualidade, metamorfose e topologia e utiliza da
articulação. A página é votada para promover a interação entre empresas hoteleiras e
usuários.
278
103-
http://www.portoseguro-online.com/
Cidade virtual. Oferece informações sobre a história, a localização dados estatísticos e
geográficos, enumeração de atividades econômicas, bem como lista telefones úteis, hotéis,
restaurantes e apresenta alguns aspectos turísticos. Apresenta hipertextualidade,
heterogeneidade (fotografia e texto) e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia e
articulação. A rápida conexão e o designer agradável facilitam a navegação.
104-
http://www.clubmed.com.au/find_a_village/villages/Trancoso27.html
Club Med Trancoso. Oferece interação por e-mail, informações sobre as características e
serviços da empresa bem como sobre aspectos naturais e históricos de Trancoso. Oferece
jornalismo com notícias limitas ás ações da empresa. Apresenta hipertextualidade,
topologia e mobilidade dos centros e utiliza da analogia. A rápida conexão e o designer
agradável facilitam o deslocamento pelo site.
105-
http://www.sct.ba.gov.br/cyber/06_en.asp
Secretaria de cultura e Turismo do Governo do Estado. Oferece interação por e-mail e
informações sobre a história e atrativos turísticos do município. Apresenta
hipertextualidade, topologia e mobilidade dos centros. Utiliza da analogia. Rápida
conexão e o designer agradável facilitam a navegação. As informações reproduzem o
imaginário da carta.
106-
http://arraialdajuda.idoneos.com/index.php/259920
Pousada Tororão. Oferece prestação de serviços e informações sobre a localização e
acomodações da empresa. Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (fotografia e
279
texto) e topologia. Utiliza da analogia, da assimilação e da articulação. Conexão lenta e
designer desagradável dificulta a navegação.
107-
http://arraialdajuda.idoneos.com/index.php/259913
Pousada Acuarela. Oferece prestação de serviços e informações sobre a localização e
acomodações da empresa. Apresenta hipertextualidade, heterogeneidade (fotografia e
texto) e topologia. Utiliza da analogia, da assimilação e da articulação. Conexão lenta e
designer desagradável dificulta a navegação.
280
ANEXO 3:
MESTRADO EM CULTURA & TURISMO UFBA/UESC
MOABE BRENO FERREIRA COSTA27
QUESTIONÁRIO DE PESQUISA APLICADO A ÍNDIOS PATAXÓS:
1 - O que é etnia?
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________
2- Quais as principais problemáticas que o grupo étnico indígena enfrenta?
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________
3 – Como a internet pode contribuir para a solução dessas problemáticas?
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________
27
Mestrando, orientado pela Dr.ª Sandra Sacramento, grupo de pesquisa ICER (CNPq). Comunicador Social.
281
ANEXO 4:
MESTRADO EM CULTURA & TURISMO UFBA/UESC
MOABE BRENO FERREIRA COSTA28
QUESTIONÁRIO DE PESQUISA APLICADO A ESTUDANTES:
Instituição de ensino:____________________________________________________
1 - Aponte três aspectos que caracterizam a cidade de Porto Seguro.
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________
2 – Aponte três aspectos positivos e três aspectos negativos provocados pelo turismo na
cidade de Porto Seguro.
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________
3 – Aponte três aspectos positivos e três aspectos provocados pela utilização de aparatos
tecnológicos nas ações do dia a dia.
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________
4 – Enumere em ordem de importância três aparatos tecnológicos que podem contribuir
para a melhoria de vida.
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________
28
Mestrando, orientado pela Dr.ª Sandra Sacramento, grupo de pesquisa ICER (CNPq). Comunicador Social
282
5 – Como o computador pode contribuir para a melhoria da vida? (aponte três aspectos);
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________
6 – Possui computador?
Sim____________; Não_____________
7 – Enumere os programas que você conhece e utiliza:
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________
8 – Quantas vezes você acessa a internet por semana? Onde?
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________
9 – que tipo de site você freqüenta? Enumere os três preferidos:
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________
10 – Como você utiliza as informações que coleta pela internet?
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________
11 – aponte três características de Porto Seguro que você acha que deve estar na internet?
283
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________
Download

Moabe Breno Ferreira Costa