Edl~fio
rovlsta
.unpllada
cPh .D. em Pslcologla pda llrl.t 1111n1 tl1
llvros c mals de 120 artigos publicados t'lll n·1bl.1'
t•spcdalizadas nacionais e cstrangclras lt•rlonollt'ttt
lllliversldadcs particularcs c p(lblicas da cldadt· do Hlo tit•
janeiro. Eprofessor do Departamento dt• Pslrologl:t d.1
California State University, Fresno e professor vbil.llllt· 11.1
llnivcrsidade Gama Filho. Seus lrabalhos 1'111 l'~lrologl:1 Sml.tl
sc conccntram nas areas de alitudes, podcr soda it· : tlrlhttl~ . lo
de causalidade.
Am/do Nodrigues
IJ'veline Maria Leal Assmar e doutora em Pslcologla pl'ia IIFlU
e mestrc em Psicologia pela Funda~ao Get(l lio Vargas.
Graduou-se em Sociologia pel a PUC/~ e em Pslcologla pda
UFI~. Eprofessora titular do Program a de P6s-G rad11a~:w t'tll
Psicologia da Universidade Gama Filho. Eau lora de irHIIIIt'ros
artigos publicados em revistas especializadas nacionais t'
cstrangciras, concentrando seus trabalhos em Psicologla Soria!,
especial mente nas areas de jusli~a distributiva, alribul~ao dt•
causalidade e cren~as e valores.
Bemardojablonski e doutor em Psicologia pelo lnstituto
Superior de Estudos e Pesquisas Psicossociais da Funda~ao
Get(rlio Vargas. Eprofessor do Departamento de Psicologia da
PUC-Rio. Au tor de livros, capftulos de livros e artigos em
peri6dicos especializados nas areas de Psicologia Social,
Familia, Papeis de Genero e aspectos psicossociais ligados ao
casamento.
Aroldo Rodrigues
Eveline Maria Leal Assmar
Bernardo Jablonski
ISBN 978-85-326-0555-9
11 1111111111 1111111111
911 7 8 8 5 3 2 6 0 5 5 5 9
vozes.com.br
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Preconceito, estere6tipos e discrimina~oo
Afinal de contas, s6 existe uma ra(a: a humanidade.
George Moore
Poderfamos incluir no titulo acima as palavras racismo, sexismo ou segregacionislilll I odos estes termos referem-se, de uma forma ou de outra, a atitudes ou comporta1111 111os negativos direcionados a individuos ou grupos, baseados num julgamento pre' 111 que e mantido mesmo diante de fatos que o contradigam .
0 preconceito e tao velho quanto a humanidade, e, por isso, de dificil erradicac,;ao.
l'tl l' ira (2002) coletou exemplos que vao da Antiguidade romana- como historiador
1 o1nclio Tacito caracterizando, no livro que escreveu sobre a entao Germania, os che,,,.,cos de covardes e estultos; os suevos de sujos e preguic,;osos e os fenos , de salteadores
1 111iscraveis- ate manifestac,;oes na internet, datadas do inicio dos anos noventa, na qual
.tkmaes foram retratados por americanos como extremamente pontuais e pouco amisto.,o.,, fanaticos por cerveja e excessivamente conformados a regras, leis e regulamentos.
Estes exemplos, no entanto, nao fornecem a dimensao acurada dos males profundos que se escondem por tras do preconceito e de suas consequencias, ora sutis, ora
1 \ tremamente violentas. Assim, assistimos perplexos em meados dos anos 90 a convul sao que mostrou a verdadeira face do que pensavamos ser uma unida e pacifica Jugos lavia, com massacres perpetrados em nome de etnias, posse de territ6rios e poder.
\prendemos que, em certo sentido, "Jugoslavia" era uma especie de ficc,;ao nacional,
que encobria urn sentimento de 6dio renitente entre servios, croatas, b6snios e montenegrinos, ou, ainda, entre cat6licos e muc,;ulmanos. Fenomeno muito semelhante
ocorreu no Iraque. Uma vez liberados do controle rigido de Saddam Hussein, xiitas,
'> unis e curdos se mostraram pouco dispostos a uma conciliac,;ao nacional e as cenas de
violencia sectaria assumiram proporc,;oes de uma guerra civil. Na Africa, grupamentos
distintos ganham, de tempos em tempos, as manchetes dos jornais por suas cruentas e
mutuas agressoes. 0 mesmo pode ser dito sobre os genocfdios ocorridos na Armenia e na
Ucrania e os conflitos na Jrlanda do Norte, numa lista aparentemente sem fim.
E, no meio do seculo XX, talvez o exemplo mais estarrecedor de todos: o HolocausLo, quando milhoes de judeus foram massacrados na Europa. Como salientou Goldhagen (1996), "nao ha fato comparavel neste seculo, nem em toda a hist6ria da Europa
135
llllld1111.1 " lc\lrllllillill dr pnp1d.1~1H '> j11d,111 ,('> illll'll,l'>, ,1111'> d1 I I t~~ld,ul\ • orgalll i :ldlt
r ..,,..,,, lll,llllll'> , op11 . 1~1H''> p11'11H'dlt,llla'> dt· matanc,;a com n'qlllllll''> dr nul'ldadc : 11111i
Ll'> Vl'l'l''> ;l'> p:davm.., ..,,. 1110'>11 ;II II ddwis para rctratar o horror do que real mente !>igntli
1 ou o llolorau~Lo.
Ma.., , como disscmos acima, os efeitos do preconceito podem apresentar nfvci.., d 1 ~
em tcrmos da agressividade exibida. Assim , em meados dos anos 90, O.j. Silnp
..,on , heroi do futebol americana, astro e figura de grande notoriedade na socicd:u l1
none americana, foi acusado deter assassinado sua esposa e urn acompanhante. Sin1p
'> llll 1inha uma considenivel hist6ria de abuso e ameac;:as de violencia contra a espo'>a
Akm disso- embora nao houvesse testemunhas do crime- testes sanguineos con ln
111,11'<1111 haver amostras de seu sangue no local do crime, no seu carro, roupas, etc. LI
proprio comportamento do acusado, que tentou fugir, parecia prenunciar urn ju lg,,
IIH'Illo com final previsivel. Mas quando a defesa levantou a questao da existenc ia dt·
preconccito racial por parte da policia, o caso mudou de rumo e de perspectivas. Pr..,
quisas rcalizadas durante este julgamento, que mobilizou profundamente a opini:i11
publica americana, apontaram para uma notavel distinc;:ao: enquanto a maioria esma
gadora dos brancos acreditava na culpa de Simpson, o inverso foi observado entre a
populac;:ao negra. Nem pareciam estar falando do mesmo julgamento! Pode-se espec u
lar que a comunidade negra americana simplesmente "viu" no julgamento a possibi ll
dade de se vingar de sistematicas perseguic;:oes policiais. 0 fato e que O.j. Simpson l01
absolvido no foro criminal, mas a falta de harmonia na percepc;:ao de brancos e negro..,
parcce refletir com clareza uma inequivoca tensao nas relac;:oes humanas inter-racia i..,
naquele pais. Confira-se, por exemplo, urn estudo realizado por Skolnick e Shaw
( 1997) que, utilizando urn sistema de juri simulado, levou os auto res a concluir que t'
provavel que "rac;:a", mais do que o fa to de ser famoso, haja influenciado o veredicto no
caso Simpson (p. 503).
11nLo~
Ja \t' lll.llk , qn.dqmr g1 IIJHl "'"'·" · ~~ n:t11 .lptn,,.., ,1., nnntlll.l'> ptHk '>1'1 .dvo dl'
rl ttllt.l:ilo i\lt-111 dl'>'>ll , l''>I<IIIHh dl,lllll' til' 11111<1 Vta de lll<iO dupla , COil\ selllilllCillOS
IH I~ II ~ llt1i1Hio l.lmlwm da-, minoria'> para maiorias.
llhltlllt:IIIH'Ilte , entretanto , a ideia de sc encarar o preconceito como urn cons11\i.lltttll' lltllico emergiu apcnas ao Iongo dos anos 20, relacionado principalmente a
qiH''l iJil 1.11 wl. Ate en tao, c basicamente durante o seculo XIX, como aponta Duckitt
1 IIJ•.tJ,), qlta'>e toda a comunidade cienlifica americana e europeia nao se preocupava
1' ''" ,1!Jill''> lao porque partia da premissa de que realmente havia diferenc;:as entre as ra'I'~~' ..,,. , iam umas inferiores a outras. Logo, falar de preconceito racial nao tinha ne1\lillltl ..,,gnificado especial. As teorias da epoca preocupavam-se em explicar, por
C1npl11 , a suposta inferioridade dos negros, atribuindo-a a urn atraso evolutivo, alitnll 1\ "''" na capacidade intelectual e a urn excessive impeto sexual, entre outras "cautLI .., .., upostas diferenc;:as". Foi dos anos 30 para ca que se fizeram sentir mudanc;:as
ll 1i. vi..,, to do preconceito, passando este a ser encarado como irracional ou injustificado,
li [II II de dcfesas inconscientes, expressao de necessidades patol6gicas, influenciado
I''" 11111 mas sociais, manifestac;:ao de interesses grupais ou como inevitavel consequeni 1 1dn proccsso de categorizac;:ao social, que divide as pessoas em grupos: os seus pr6i" 111.., vnws os dos outros, como consequente despertar de respostas discriminat6rias
'''
11!1111.1 o grupo que nao o seu.
hla Outuac;:ao na imagem do tema em questao tambem se deu na psicologia, quanth• d.t pol cmica levantada em 1994 em func;:ao da publicac;:ao do livro The Bell Curve, de
I i.'11n stcin e Murray, que sugeria que as diferenc;:as encontradas entre os desempenhos
i.•. 11dt' mi cos de negros e de brancos nos EUA poderiam se clever a uma base genetica. 0
'I"' Vl'lll a acrescentar claramente a necessidade de se concentrar esforc;:os na busca de
11111 ula\;aO para os processos psicol6gicos subjacentes a chamada natureza do precon., 1111 , bern como as possiveis soluc;:oes para diminui-lo.
No Brasil, a escravidao teve consequencias 6bvias na convivencia entre brancos t'
ncgros. Por urn lado, a maioria dos brancos aqui aportou por escolha propria; por ou Lro , os negros vieram escravizados, trazidos a forc;:a da Africa. Mesmo ap6s a Lei Aurea,
em 1888, nao se criaram mecanismos efetivos para uma emancipac;:ao dos ex-escravos
c seus descendentes que permitisse a igualdade em termos de acesso a hens, educac;:ao,
oportunidades, etc. No entanto, a miscigenac;:ao etnica aqui ocorrida certamente con correu para distinc;:oes significativas, principalmente quando comparadas aos paises de
colonizac;:ao protestante, onde o preconceito racial seria ainda mais acirrado. Segundo
Buarque de Holanda (1995), "a simpatia transigente, comunicativa e mais universalista- ou menos exclusivista- infundida pela Igreja Cat6lica" trouxe urn matiz diferente
no que diz respeito as relac;:oes entre as diversas etnias que constituiram o Brasil. Nem
par is to deixou de subsistir entre n6s, ainda que em doses comparativamente menores,
"preconceitos contra a cor de parte de uns; contra a origem escrava, de parte de ou tros" (FREYRE, 1984) .
Na base do preconceito estao as crenc;:as sabre caracteristicas pessoais que atribui1110'> a pessoas ou grupos, chamadas de estere6tipos. 0 termo foi utilizado- ainda que
dt· forma nao muito precisa - pelo jornalista e pensador americana Walter Lippman
( 1922), para se referir a imputac;:ao de certas caracteristicas a pessoas pertencentes a
136
137
.
tcreotipos: a base cognitiva do preconceito
Niio ha qualquer prova de que seja vantagem pertencer a uma ra(a
pura. Algumas das ra(as mais puras atualmente em existencia sao
os pigmeus, os hotentotes e os aborigenes australianos. Os gregos
antigos eram os mais misturados e eram tambem os mais
civilizados.
Bertrand Russel
dt ' ll'ltllill;~dn., gtupn.,, .\n., q\1,\1., .,1' olll iiHll'lll dt'll'llll tt l:ldo., ,t..,pn lll'ollplln'o, l:llllHl lo)'.l
camtnlt , detiva de dua:-. palavra-, gn:gas: :.lcn·o\ e lupo~. !'ligndH.utdo "rtgido" e .. ,, ,,
~o " , rcspcctivamcntc. Para Lcycns ct al. ( 1994), o tcrmo foi cunhado por vo lt.t d{
1798, em referenda a um processo de molclagem . Antes dos psic6 logos sociais, os P'i
quiatras ja usavam a palavra "estereotipia" para descrever a frequente e quase mcc:1 111
ca repetic;:ao de um mesmo gesto, postura ou modo de falar, comuns em certos tipo., de
disturbios mentais graves.
Embora, hoje em dia, haja tantas definic;:oes de estere6tipos quanto estudioso!-1 dn
tema (MILLER, 1982), todas elas compartilham alguns trac;:os centrais, como a rd t
rencia a crenc;:as compartilhadas acerca de atributos- geralmente trac;:os de perso n:dt
dade- ou comportamentos costumeiros de certas pessoas ou grupos de pessoas. Mat
especificamente, podemos dizer que seja atraves de uma representac;:ao mental de um
grupo social e de seus membros, ou de urn esquema- uma estrutura cognitiva que·
representa o conhecimento de uma pessoa acerca de outra pessoa, objeto ou situa
c;:ao- tendemos a enfatizar o que hade similar entre pessoas, nao necessariame ntc•
similares, e a agir de acordo com esta percepc;:ao.
Os psic6logos sociais contemporaneos identificam o estere6tipo como a base CO).:
nitiva do preconceito. Como veremos adiante, os sentimentos negativos em relac;:ao .t
urn grupo constituiriam o componente afetivo, e a discriminac;:ao, o componente co nt
portamental. E verdade que, para alguns te6ricos, esta divisao nao se faria necessa ria ,
com o termo preconceito significando mais uma atitude intergrupal que engloba n;t
naturalmente estes tres componentes. Mas a maioria dos estudiosos- entre os qua"
nos incluimos- prefere analisar a questao em separado, examinando distintamente o'
estere6tipos, o preconceito e a discriminac;:ao.
0 estere6tipo, em si, e frequentemente apenas urn meio de simplificar e "agiliza r"
nossa visao do mundo . Como vivemos sobrecarregados de informac;:oes, tendemos a
nos poupar muito compreensivelmente de gastos desnecessarios de tempo e energia
No capitulo 3 vimos o conceito de "avaros cognitivos", propos to por Fiske e Taylor
(1991), pelo qual utilizamos atalhos ou heuristicas para evitar dispendios desnecessa
rios de tempo e de energia para o entendimento do complexo mundo social que nos ro
deia. Neste sentido, podemos dizer que estereotipar pertence a mesma familia concei
tual ali proposta. Seria, neste sentido, urn comportamento funcional, apesar de estarmos condenando o outro a uma especie de simplista - e muitas vezes equivocado "cterno desfile em trajes tipicos". Se pedirmos ao leitor que pense agora num italiano,
uma imagem lhe vira a mente. Se solicitarmos mais detalhes, surgira uma serie de parI icularidades: urn homem alto, moreno, que come massas, fala alto, gesticula muito,
gosta da mae, e fanatica por futebol, impulsivo e, talvez, bonito. Falso ou verdadeiro?
N.t vcrdade, falso e verdadeiro. Possivelmente, se nao todas, varias destas caracteristi138
1""1' 111 sc1 t'ltntnlntda.., t'llt alg111ll nnll;IIHt Mn.., um nwrador do No1l1' ou do Sui da
11\!lt
pt~t v .lvl'lltH'Illl'
n<lo del era stqucr um tcn,;o das caractcnsticas acima lcvantadas.
llll.tgiiH' qut ne!'ltc exato momcnto Lll11 professor de psicologia social em Milao,
it ~~~ . 1nu outrametr<'>polc italiana, esteja dando uma aula sobre este mesmo assunI
iiii\'IHamlo scus alunos a descreverem uma brasileira "tipica". Podemos imaginar
tnl•t " tllll'Sia "brasilei ra" cogitada por italianos: mulata- ou morena-, sensual, com
it ' " dt 1i1mo , bonita, li.berada, alem de impulsiva, expansiva e carnavalesca ... Ima111 ']lit' '> l'ria fruto da infiuencia dos meios de comunicac;:ao de massa, de filmes, rolti.ltl i' t ., ou ate dos relatos de viajantes mais entusiasmados que aqui possam ter estado.
'" '' nllte em volta, na sua sala de aula. Quantas "brasileiras assim tipicas" voce con11111 dclcctar?
I.J.,; uldo um procedimento experimental semelhante ao utilizado por Katz e Braley
Ferreira e Rodrigues (1968) realizaram urn estudo acerca de estere6tipos no
t ttttl]llt '> universitario da PUC-Rio, visando detectar como os estudantes de psicologia
l' i Jill VI'> LOS por seus colegas. Uma lista de aproximadamente 90 adjetivos foi apreseni,u.l:l ,, uma amostra de estudantes, sendo-lhes solicitado em seguida que dissessem
1111 11 ., dclcs mais se aplicariam aqueles que estudavam psicologia. Os autores esperatlitl , na cpoca, encontrar urn estere6tipo negativo em relac;:ao aos alunos de psicologia,
ltllllo pclo fato da ainda pouca receptividade de uma ciencia relativamente nova- sem
illtll.t accitac;:ao e, no entanto, ja algo deturpada em suas caracteristicas, metodos e fi!t_dldad es - quanta pela recente reforma ali ocorrida, quando as diversas faculdades,
lit 1 111ao dispersas, passaram a se concentrar em urn unico local, proporcionando uma
'tlll'1 1ante interac;:ao, ate entao inexistente, entre os alunos de cursos distintos.
( I '1\ I ).
Com os resultados fornecidos pelos 60 participantes da amostra foi construida
t.llll,ttabela de frequencia com os cinco adjetivos que, segundo a opiniao de cada sujeit•t , ntclhor caracterizariam os alunos do curso de psicologia. Tal tabela acha-se reprotlll •ida abaixo, dela constando os 13 adjetivos mais frequentemente apontados.
Tabela 6.1
Adjetivos mais apontados para os alunos de psicologia
Problematicos
Pesquisadores
ldealistas
Observadores
Humanos
lnteressados
Bem- intencionados
(18)
(18)
(18)
(17)
(16)
(14)
(14)
Dedicados
Angustiados
lnteligentes
Te6ricos
lsolados
Compenetrados
139
(1 0)
(9)
(8)
(7)
(7)
(7)
Coii11.111.111H'Illl' .w l'"JH'I,tdo pl'lo~ <lUIOil'.,, o., ,..,lud.11llt" d11 t "'"o <k Jl'>lrolo}',l
{oram catcgorizados pclos dcmais alunos da Univcr~1dadc """Pll'"llH'IlLC com alg1111
poucos adjetivos, a maio ria de conota<;ao positiva- em bora uma avaliar;ao do que .,rill
positivo ou negativo possa ser muito influenciada por fatores subjetivos. De qualqllt'r
forma, existe urn estere6tipo acerca do estudante de psicologia que o faz ser visto co nu1
dotado de certas caracterfsticas bern marcantes. Acreditamos que seria interessanLt' ,,.
alizar novos estudos, com metodologia similar, para saber a quantas anda nossa int .t
gem diante da comunidade. Sera que ela mudou? Para melhor ou para pior?
Se os psic6logos sao ou nao assim, e em que propon;:oes, s6 outras pesquisas, uti I
zando-se testes de personalidade, entrevistas ou outros instrumentos, poderiam co n
firmar. Mas a falta destas informar;;oes nao impede, como vimos, que tenhamos urn r.,
tere6tipo. Na mfdia, nas ser;;oes ou nos quadros de humor, e comum vermos os psi1.1
nalistas - gordinhos e de barbicha - sendo sempre retratados com urn bloquinho dt•
anotar;;oes na mao, atras de urn paciente deitado num diva. Algum dos leitores em tc r,t
pia ja esteve em urn psicanalista que anote as sessoes em urn bloquinho?
De modo geral os psic6logos sociais tradicionalmente usaram este sistema de li!->1a
de adjetivos para detectar estere6tipos. No estudo original de Katz e Braley, por exc m
plo, alunos da Universidade de Princeton foram solicitados a escolher 5 dentre 84 ad
jetivos que melhor descreveriam diferentes grupos sociais ou etnicos. Assim, na pc.,
quisa realizada por eles em 1933, 75% dos estudantes brancos selecionaram como m.
adjetivos que melhor retratariam os negros, as palavras: preguir;osos, supersticiosos, igno
rantes, musicais e imprevidentes. Quando se referiam a si mesmos, a descrir;;ao era oUlra:
trabalhadores, inteligentes, materialistas, empreendedores e progressistas. Este metodo
permite avaliar o conteudo de estere6tipos sociais, alem do grau de consenso em torno
dele. E tambern- como vimos neste caso- do preconceito igualmente envolvido. Para
uma especie de final feliz de paragrafo, podemos citar que estudos posteriores (KARLINS, COFFMAN&: WALTERS, 1969; DOVIDIO&: GAERTNER, 1986), evidenciaram uma mudanr;;a significativa no padrao de respostas em direr;;ao a uma avaliar;;ao
bern mais positiva. 0 final s6 nao e inteiramente feliz porque, em outro estudo, Dovidio, Mann e Gaertner (1989) ainda encontraram urn favorecimento sistematico de
brancos com relar;;ao a outros brancos, atribuindo-lhes comparativamente mais tra<;os
positivos. Nas palavras destes autores, "os negros nao seriam piores, mas os brancos
ainda seriam melhores" (DOVIDIO et al. 1989: 88). Camino et al. (2001), ao considerar estas e outras pesquisas, afirmam que hoje em dia o preconceito- no que diz respeito aos estere6tipos- estaria sendo expresso nao mais pela atribuir;;ao de trar;;os negativos, e, sim, pela negar;;ao de atributos positivos a urn grupo-alvo.
p.ulh IJI.IIIH'" que pcn.,t•m em 1l'llllOS de j>OitTiltagcns do grupo alvo, em vcz de
ii•1 d1d.1tk ("quantos por ccnto de inc.livtc.luos do grupo X poderiam ser descritos
11, ' '' ) Out ros procuram comparar caracteristicas do grupo estudado, estiman' 111111,, a popular;;ao em geral" (se os adjetivos se aplicarem a ambas popular;;oes,
11'"'1'" 11:\o s<lo discriminadores). Outros trabalhos ainda tern procurado saber o
j1hilllll u 110 1rar;o pode servir para urn determinado grupo alvo, utilizando para tanto
l,t•i do tipo Likert (BRIGHAM, 1971; McCAULEY&: STITT, 1978; TRIANDIS et
I' )II.') . Outros ainda usam atribuir;;ao de causalidade (DEAUX &: EMSWEILWER,
, ., IPIIIO rorma de detectar preconceito. Verificaram, por exemplo, que o sucesso
l1 ' 11111 IHimcm branco e geralmente atribuido a sua capacidade, enquanto que o sucesn dt 11111 homem negro e geralmente atribuido a seu esforr;;o.
I ;-;1t' ll'OLipos, pois, podem ser corretos ou incorretos. E tambem positivos, neutros
0 fato de, num primeiro momenta, facilitarem suas rear;;oes frente ao
tii1111d11 , l''>tonde a realidade de que, na maioria das vezes, estereotipar pode levar agel" ' di .II,'()CS incorretas e indevidas, principalmente quando voce nao consegue "ver"
11 111tl1v1duo com suas idiossincrasias e trar;;os pessoais, por tras do veu aglutinador
lt•l olnl't'>lipo.
t.nrdon Allport, em sua influente obra The Nature of Prejudice (1954), referia-se
1\l,tlll de estereotipar como fruto da "lei do menor esforr;;o". Referendando o que foi
1!11•• .11 1m a, ja que o mundo e muito complicado- e cada vez rna is- para que tenhamos
11111111t·'> diferenciadas sobre tudo e todos, optamos em economizar energia e tempo
1 ug1111 ivos", desenvolvendo opinioes, atitudes ou crenr;;as baseadas em conhecimenJ;;
profundos ou artificiais, tanto faz- que nos satisfar;;am na tentativa de entender o
i111111do que nos cerca. Dada nossa limitada capacidade de processamento de informa'""· "procuramos ado tar estrategias que simplifiquem problemas complexos" (FISKE
I AYLOR, 1991). Fazemos isto, ora negligenciando algumas informar;;oes para redu'' "t•xcesso de oferta cognitiva, ora usando em excesso outras informar;;oes, "para nao
I• 1 q11c procurar ainda outras" (ARONSON, 2004). Sem contar a possibilidade de acei! 11 .dtcrnativas nao tao boas, embora suficientemente boas ... Sao nossos limitados ret 111•,os cognitivos, diante de urn mundo cada vez mais complexo, que nos fazem optar
I"·" estes atalhos, que seas vezes nos poupam, cortando significativamente o caminho,
t'!ll outras, nos conduzem aos indesejaveis becos do preconceito e da discriminar;;ao.
li IICg.IIIYOS.
De algum tempo para ca, no entanto, outros metodos vern sendo desenvolvidos,
como intuito de aprimorar a aferir;;ao de estere6tipos. Assim, alguns autores solicitam
Devine (1989), em engenhosos estudos, cunhou uma distinr;;ao entre o que chamou
d1 .ltivar;;ao automatica e ativar;;ao controlada de estere6tipos. No primeiro caso, nao te'""" controle: crenr;;as muito disseminadas culturalmente nos sobreveem a mente assim
'1111' nos deparamos com certas pessoas em dadas circunstancias. Mas, ap6s a ativar;;ao
.11110matica, uma pessoa pode conscientemente checar e refletir sobre o que acabou de
prll<;ar sobre aquele membro de urn grupo que nao o seu e, consequentemente, reavaliar
140
141
ptlllH'It,t IIIIJlll'""·'o till .tv;dt:u,.lo. lo.,too.,t'l ia o qut• lkviiH· t lt.\111011 dr .tttv.u;:lo Ulltlllt
lada, c que poria tun lreio no processo de dbcriminac::ao, impcdi11do ode prossegul1 .ull
ante. Bargh et al. (1995) , Banaji c llardin (1996) c Monteith (1993) S<'IO outros autttll
que, referendando a distinc;;ao acima proposta, vern pesquisando formulas de cnl raq tt •
cer- ou de contrabalanc;;ar- as ac;;oes fruto da ativac;;ao automatica.
MW
l ltll
t:.Xt' tllplo para o l'llll'tHiitllt'lllo dos t'!'>ll'rt.'otipos esta na narrac,;ao que se
•11111 111' 11
\t'gllintc hist6ria: ela contem um erro basico. Voce seria capaz de detecta-lo?
Desastre
Um pai c scu [ilho trafegavam por uma movimentada estrada. Estavam pr6ximos de seu destino quando o pai perdeu a dire<;ao do carro, saiu da estrada e
bateu num poste. 0 pai morreu instantaneamente e o filho ficou bastante fericlo. Uma ambulancia levou o menino para o hospital mais proximo. Convoca ram a equipe medica para uma cirurgia de emergencia , mas quando a pessoa que ia operar entrou na sala de cirurgia e viu o garoto, nao se conteve e
gritou : "Eu nao posso openi-lo! Ele e meu filho!"
Rotula~ao
R6tulos sao como sirenes tonitruantes que nos tomam surdos
de quaisquer distint;i'ies mais Jinas, que de outra mane ira
poderiamos vir a perceber.
G. Allport
IHIItt
II
dltlllh
0 ato de rotular as pessoas e urn outro processo bastante similar. Poderiamos 111r
mo dizer que a rotulac;;ao seria urn caso especial dentro do a to de estereotipar. Em 1111
sas relac;;oes interpessoais, facilitamos nosso relacionamento com os outros se atrib111 1
mos a eles determinados r6tulos capazes de fazer com que certos comportamc nt u
possam ser antecipados. Assim, por exemplo, quando urn gerente rotula urn emprcg.1
do de "preguic;;oso", ele "preve" determinados comportamentos que este empreg:u lu
devera exibir frente a certas tarefas.
A atribuic;;ao de urn r6tulo a uma pessoa nos predispoe a pressupor comportamc nl 1t
compativeis com o r6tulo imputado; nossas percepc;;oes sao distorcidas e isto pode ac u
retar uma ou duas consequencias importantes: (a) por urn lado, em virtude de nos-.;t
tendencias a consistencia cognitiva (veja capitulo 4) , faz com que comportamentos que·
nao se harmonizem como r6tulo imposto tendam a passar desapercebidos ou sejam dt·
turpados para se adequarem ao r6tulo; (b) por outro lado, as expectativas ditadas pd o
r6tulo podem nos fazer agir nao-consciente e consistentemente, de modo a induzir o ro
tulado a se comportar da maneira que esperamos, tal como e preconizado pelo feno nw
no da profecia autorrealizadora mencionado anteriormente no capitulo 3.
Consideremos o famoso experimento levado a cabo por Rosenhan (1973) no in f
cio dos anos 70 e citado igualmente no capitulo 3. Este estudo, ja considerado urn cl<\.,
sico, mostrou claramente a impressionante influencia da rotulac;;ao nas percepc;;oes do
comportamento da pessoa rotulada. Uma vez atribuido, n6s tendemos a perceber oo;
comportamentos da pessoa a luz do r6tulo.
Tal tendencia, embora com urn, e perigosa e pode levar a injustic;;as e erros de julga
men to graves. Numa sala de aula, para citar urn de muitos exemplos, onde a complex t
dade das relac;;oes interpessoais induzem o professor a simplifica-las atraves da atribut
c;;ao de r6tulos aos alunos, o perigo se evidencia de forma especial, podendo prejudica r
sensivelmente alg~ns estudantes.
142
1 1tlllll isto e possivel, se o pai morreu no desastre? Aparentemente, nao se trata de
r ttlgma c sim de urn erro crasso do redator!
~~.,
vcrdade, se ha algum erro, ele esta na educac;;ao que recebemos e que (a) nos
It .t vcr homens e mulheres cumprindo papeis sociais rigidos e distintos (b) enos
iqwdt , por exemplo, de ver mulheres fugindo aos tradicionais papeis que lhes sao
lllilit .tllltl'nte impostos.
I! ill"
tlludarmos o final da hist6ria acima, talvez fique mais clara nossa discriminac;;ao
tltllll'ndimento do falso enigma):
'11
[... ] e viu o garoto, nao se conteve e explodiu em lagrimas. E entre solu<;os,
histericamente, disse: "Eu nao posso opera-lo, ele e meu filho! "
l'.ua Daryl e Sandra Bern (1970), falsos enigmas como o citado acima revelam o
til•- !'It-o., chamaram de ideologia inconsciente, conjunto de crenc;;as que aceitamos im1d t• ll.tt' nao conscientemente, porque nao conseguimos sequer perceber a possibilidade
h , lllll'l'pc;;oes alternativas. Urn exemplo disto pode ser visto nas relac;;oes de genero
11111 110s. No meio cultural em que vivemos, apesar de todo movimento em direc;;ao a
lt·H.ddade resultante das pressoes exercidas pelo movimento de emancipac;;ao femini' 1 ,11 11da divisamos certos papeis e func;;oes, como uma exclusividade de urn dos sexos.
I 111 111:1rido "dono de casa", uma neurocirurgia, urn piloto de avioes do sexo feminino,
tittl .t rbitro de futebol do sexo feminino (o dicionario sequer registra a palavra "arbii' 1 , t•mbora nos campeonatos brasileiros de futebolja haja algumas "juizas" em ativid 1d1 .. ), uma locutora de partidas de futebol ou urn homem trabalhando como domeslit .1 tlll secretaria ainda nos causam pasmo ou riso, se percebidos- dai a condic;;ao de
; 111)\tll a do texto "Desastre" reportado acima e a explicac;;ao do significado do termo
1t l• ologia inconsciente.
143
Estcrc6tlpo
gcnoro
d.1 autm'..,lllll:l, n111111 ..,,. vi' pt·lo l' \l'lllplo atillla , podc ronH'<;ar
dn 1 tllllll ht'lll alt••tam Alllll'>Oil t't al. (.W07) , uma pcssoa com a autocstima abala1·! jlt•dt .,, 'onvt•nn·r de que nao mcrcce uma cduca~ao de bom nfvel, trabalhos delil t'' n11l1.1dias idem , alcm de um perverso e difuso sentimento de inferioridade,
1 .ll.o111panhaclo por scntimentos de culpa, pode leva-la a uma situac;;ao de desam\ dinlillllll,;\11
c/c (' l<ffplfl I
"Co1110 "' mul11c1 c\ \<lo
Quw1t/0 IIIII hOIII('III (()IIICIC LIIIICI Cl\11('1111 , (/1 Till " ( 01110
Quando
Lilli a
nwlhc1 a comctc, di zcm :
idiotas! "
Anonimo
I'·Hn
Ha uma serie de experimentos ja classicos que sao levados a cabo periodicamc 1t11
e que continuam ilustrando o fen6meno em questao. Em urn deles, Goldberg ( It)(,H)
solicitou a alunas universitarias que avaliassem artigos academicos em termos de co 111
petencia, estilo, profundidade, etc. Para algumas participantes o artigo era assi nadu
poruma mulher Qoan T. McKay), enquanto que, para outras, por urn homem Qoh 11 I
McKay). Apesar de o artigo ser o mesmo para os dois grupos, aquele assinado por Ull hl
mulher era invariavelmente menos elogiado que o supostamente escrito porum hu
mem. Outro experimento bastante citado na literatura fala de uma fita de video de 11111
hebe de fraldas que aparece chorando. Quando solicitados a atribuir possiveis ca uo., ,
para aquele choro, as respostas dos participantes variavam apenas em fun<;;ao do S\'\11
do hebe: se era menino ou menina. No primeiro caso apareciam mais respostas de •at
va, no segundo, eram significativas as respostas de medo.
Cite-se que as pr6prias mulheres endossaram significativamente este tipo de '"~""
posta, isto e, quando 0 estere6tipo e suficientemente forte, ate OS membros do grttpll
alvo tendem a aceita-lo.
Para atestar a dominancia deste fenomeno, vale citar os estudos de Patricia An''l
(1998), da Universidade de Havana, que relata atraves de sua experiencia com "Gru po"
de Reflexao para Homens", como o estere6tipo ligando os homens as fun<;;6es de "heroi '
e as mulheres as de "maes" esta profundamente entranhado na cultura cubana, apesar
dos esfor<;;os em contrario envidados desde a revolu<;;ao cubana de 1959. A norma ge nt•
rica dominante ainda exige dos homens que sejam machistas, narcisistas, onipotentc.,,
impenetraveis e ousados. Qualquer desvio em rela<;;ao a esta norma pode significar fra
casso, debilidade ou sinal de homossexualidade (grifo nosso). Ares lembra o papel exerd
do pelas pr6prias mulheres neste processo, ja que atuam muitas vezes de modo ambiva
lente: como maes, acabam refor<;;ando em seus filhos o que criticam nos homens.
Outro famoso experimento, conduzido por Clarke Clark (1947) nos Estados Uni
dos, mostrou que crian<;;as negras ja aos tres anos exibiam preferencia por bonecas de
cor branca. Neste experimento, especificamente, pedia-se as crian<;;as que indicassem,
por exemplo, qual a boneca mais bonita, a branca ou a preta. A maioria das crian<;; as
optou pela branca, endossando de alguma forma a superioridade desta sobre a outra.
Desta maioria, cerca de 70% eram crian<;;as negras. Quando o oposto era solicitado
qual a boneca feia ou rna- quase 80% das crian<;;as negras apontavam para a boneca de
cor preta.
144
1' •.tllttlllt'nto .
\ lu 111 da vcrdacle, e em prol de urn certo otimismo, algumas mudanc;;as tern sido
l!c;,,, ,ul.l.., , ao menos cxperimentalmente. Porter e Washington (1979) detectaram
litlio lt11 ~. 1 ., em crianc;;as negras, no sentido de elas estarem en tao mais satisfeitas com
l••"'l '·''" llt'gras do que trinta anos antes. Swim et al. (1989) nao mais encontraram dih il''"•''" '> lgnificativas na avaliac;;ao de trabalhos produzidos por homens ou por mulhu ('~ l'.1ra estes autores, o proprio experimento originallevado a cabo por Goldberg
li·litll~ '' · ' obtido resultados tao contundentes como mais tarde os livros academicos se
t 11111 g<niam de divulgar (os resultados verdadeiramente significativos teriam sido
IU \'! 1d.tdc bern poucos, o que, no en tanto, nao invalidaria as conclusoes como urn
Hlnl I· ~tccle (1988) chegou a conclusao de que a autoestima entre mulheres e ho-
" , I·' nao e tao dispar.
~.I,,., dcvemos olhar estes progresses com cautela. 0 preconceito pode terse toma-
h· qu 11as mais sutil, menos explicito. Experimentalmente, Hutz (1988) procurou
o.,e a tendencia, observada em crianc;;as americanas, de depreciar pessoas ou ani1!11'' , nl'gros, seria encontrada em crianc;;as brancas e negras de diferentes niveis socioel!nolllllt"OS brasileiras (Rio Grande do Sul) . Os resultados, extraidos de testes aplical!! ~ 1111 crianc;;as de 4,2 a 5,8 anos, mostraram que virtualmente todas as crianc;;as, nei t!:i "" brancas, sistematicamente atribuem caracterfsticas positivas a animais brancos
''t'g.lttvas a animais pretos. Nao houve nenhuma diferenc;;a significativa entre os parIIi 1p.u11cs em termos de rac;;a, sexo ou nivel socioeconomico (embora crianc;;as brancas
111111.1111 se mostrado mais uniformemente preconceituosas). Para o autor, tais dados
luo.lh ,un que desde cedo crianc;;as de qualquer cor ja tern ideias estereotipadas sobre
IJH 1, c, o que e ainda mais serio: que crianc;;as negras ja introjetaram tais ideias, com
rl• 1111., clanosos no que diz respeito a auto-estima e auto-imagem.
, !I IlLII
\km disso, ha os exemplos extraidos da vida real: uma pesquisa levada a cabo pelo
llh_,l · em 1998 (Pesquisa de Padrao de Vida) em seis grandes cidades do Brasil compali•ll , entre outros dados, o salario medio percebido por homens e mulheres, brancos e
tu 1\' os. 0 resultado: homens brancos recebiam em media, por mes, o maior salario; em
i Hllllclo lugar vinham as mulheres brancas; em terceiro, os homens negros e, por fim, as
lilltlhnes negras. Conquanto nao se possa reduzir os ganhos pecuniarios a comprovac;;ao
d.tt x•stencia de preconceito, os numeros exibidos acima indicam claramente uma desil'.lt.tldade racial e tambem de genero entre n6s, tanto quanto esta medida possa servir de
145
111<ltt .uhH,l do ltiii)IIHIIIItlll ljlll''•t.lo I),\ 1111'..,111.1 1111111,1 , ..,rgtuuln t ..,ludo lt';lil .td11 1
htndo dl' lk..,t'llvolvtiiH'Illo da . . Nat..tH'..,lJIHda.., pat.\ a Mulill'l , t'lll llNl, o . . lloltH 11
nhavam 50% a maio, que"" IIHdhl'l'l''i, dilercnc,;a eo,la que lelia culdo para 301}o dl':· .11
depois, em 2002 (rcportado no jvuwl do T3ra~il, edic,;ao de 03/03/2002, p. 1\ I<.)) . /\ p1
da significativa melhora, haveria ainda um longo pcrcurso a scr pcrcorrido no Clt ll ll
da igualdade .. . Por outro lado, como citamos na introduc,;ao do prcsente capt tul11.
conflitos em meados dos anos 90 na antiga Iugoslavia e as perseguic,;ocs a cstrangrll
em alguns paises da Europa Ocidental- sem contar o Holocausto no meio do sccu l,,
- servem de alertas adicionais para frear nosso otimismo quanta a mudanc,;as muilo
nificativas na diminuic,;ao do preconceito e da discriminac,;ao a curto prazo.
Para alguns autores (DOVIDIO & GAERTNER, 1986; McCONAHAY, 19Hh l
que ha em termos de evoluc,;ao limita-se ao que chamam de racismo moderno (o u 1
cismo sutil, ou, ainda, racismo envergonhado): as pessoas, pressionadas por n0 111
sociais mais liberais e que pregam maior tolerancia para com as diferenc,;as, podt·tn
abrandar seu comportamento discriminat6rio, mas, internamente, manU~m seus pu
conceitos. 0 resultado e uma aparente mudanc,;a na direc,;ao de uma sociedade mnut
discriminat6ria. Estes autores lembram, no entanto, que num clima diferente, onde l''-ltl
mesmas pessoas se sintam mais seguras para externar seus sentimentos, o preconcci lo
a discriminac;:ao voltarao a seus niveis anteriores. Ou ainda, que estes "racistas nao a'>'-tl
midos" possam se valer de explicac,;oes alternativas- mas que convirjam para o mes11111
fim- para discriminac,;oes raciais ou de genero, camuflando suas verdadeiras origc11
("Nao o empreguei, nao por ser negro/mulher, mas sim por nao ter o nivel educacio11al
necessaria, trac;:os de personalidade x ou y adequados, etc. "). Nesta mesma linha de rano
cinio, Camino et al. (2001) advogam a posic,;ao de que no Brasil, por estarem proibido'l
quaisquer atos explicitos de discriminac,;ao social, as pessoas preconceituosas estarialll
simplesmente inibindo suas atitudes e e/ou comportamentos ao tempo em que consc t
vam intimamente suas convicc,;oes racistas. Neste estudo os autores chegaram a mesma
conclusao de Rodrigues et al. em pesquisas realizadas em 1984, que citamos adiante, St'
gundo as quais os entrevistados reconhecem a existencia do preconceito no Brasil, rna ..
nao se dizem - eles mesmos - preconceituosos de forma alguma.
Por outro lado, a percepc;:ao de que o clima social mudou, tornando-se menos fa
voravel a manifestac;:oes racistas ou sexistas, nao deixa de significar urn avanc,;o, em ter
mos de normas sociais percebidas e de seus reflexos no comportamento individual.
Estereotipos e atribuiejilo
Uma forma sutil de preconceito pode apresentar-se tambem via atribuic,;iio de causalidade (cf. cap. 3). Quando observamos uma pessoa realizando uma ac;:ao, tendemos
146
1•1 ! !' tkdw, '~~' " .H t' l r;t dn~ 11101 tvo., q111 P"""'"" II' I t ,ut ..... tdo .tqul'le t OIII!Hlllit111l'lllll . 1:
111 !l "!I' 1 1111 llt'qttt'lllt'llll'lllt' t Olll<1111111:t 11o..,..,a., perccpc,;Ocs, como ilustra o cxcmplo
lt)lii 11 dt 1\ ntii..,OII (I') 7'3 ): doi-; honH'Il'- vccm um padre sair de um prostibulo. Urn
ptt~lt '" L\1111', comcnta maliciosamente a hipocrisia de um representante da lgreja
li n t; 1111\lll'll, t atolico, responde com orgulho, argumentando que quando urn memIHt lg1 t'ia l''>ta a morte, mesmo que seja num prostibulo, ele e merecedor do Sa1( 1,\ltH'I\10. 1\ "moral" da anedota esta no fa to de- diante de situac,;oes ambiguas
IH"J'i''·'" lazerem atribuic,;oes consistentes com suas crenc;:as ou preconceitos.
;, ,-ot ·.o da questao de genera que vinhamos abordando, o processo de estereoti1 lu 111 aparcnte quando o pensamos em termos de atribuic,;iio de causalidade.
Iii ,j,,l ..., ludo ja citado sobre uma possivel superioridade dos homens sobre as mufti (lnhn vcrsus]oan McKay), e do falso enigma do "pai morto eo estere6tipo soi V•' IIIt ", outros psic6logos sociais (FELDMAN-SUMMERS & KIESLER, 1974;
Ill ;\I ''' ,"-J· FMSWEILER, 1974; EAGLY & STEFFEN, 1984; BARON, BURGESS &
\! ·, ll)l) I) tcm demonstrado que diante de uma situac;:ao em que, por exemplo, so11•
'''" ll"' '"t'ntados a urn bem-sucedido medico ou a sua contrapartida do sexo feminiltiHll lltos a atribuir o sucesso da mulher a uma maior motivac,;iio intrinseca, quan1•1 !i (ht ,, pura sorte (o artigo de Deaux e Emsweiler citado acima tern, traduzido para o
111 tltll fl, lll ..,, o seguinte e elucidativo titulo: "Explicac,;oes para o sucesso em tarefas relal!iit ,ul.t.., .10 genero: o que e capacidade para homens, vira sorte para mulheres"). Pol• ':t.' •It precnder dai que, ou as mulheres tiveram de trilhar urn caminho mais cheio de
h ~ lli• ttlo'> , ou precisaram de doses suplementares de sorte ou de motivac,;ao para sut'l tilllll . . upostas deficiencias internas. Entre n6s, sabemos que chamar urn aluno de
1,11\ .tdo" nao significa urn elogio: pelo contrario, da a en tender que ele compensa
1\IILI!H'""Ivcl inferioridade intelectual atraves de trabalho duro. Urn efeito colateral inh ,t j.lvl'l neste processo esta, quando o mesmo e forte o suficiente, na introjec,;iio, por
do ~rupo-alvo, do estere6tipo de sua intrinseca inferioridade. Como no caso aciltiu' lt.tdo , as mulheres tendem a incorporar tais ideias ease comportar de forma a en1,;'.. 1 l.t'i. No momenta, apesar de todos os progressos resultantes do movimento de
1 1111111 tpac,;ao feminina, ainda nao se espera de uma mulher significativo sucesso proIt. litllnl. E, quando isto acontece, todos tendem a atribui-lo a uma capacidade fora do
I""''
JPIIIIIIll
em termos de motivac,;iio ou a uma sorte, igualmente rara.
Nt•sta mesma linha de pesquisa, podemos citar como ilustrac,;iio adicional alguns
t·.twlos. No primeiro, conduzido nos Estados Unidos por Yarkin, Towne Wallston
1 I' liP) , "homens e mulheres negros e mulheres de ambas as rac,;as quando bemwr·didos eram percebidos tanto por homens como por mulheres como menos capazes
1 111111' csforc,;ados que os homens brancos bem-sucedidos. Aparentemente, mulheres e
t.Hf',lllS tem que esforc,;ar-se mais" (grifo nosso).
147
l)ot'ol l.th.diiiiS 1r,tl1 .11 111., pot Hod11guro.; ( l'>H·I) r Hotlttglll''o 1 to l-. 1111 llll'.,lllil
( 19t-H b) roni iiiiWIII p<111 ialllll'lllt' os arhadoo., de Ya1l<t11 , I own c Walston Vl'olll'. ,,,
0 primciro foi uma replica do 1:xperimen1o acima citado, com uma amoslra d1 r·. tu
tes universitarios cariocas c minciros. A tarcfa dos participantcs era lcr uma n u t.ll 'til
urn funcionario de urn banco solicitava promo<;ao e justiricava scu pedido cotn !1,1
seu excelente desempenho profissional. Alem da carla, era aprescntado o CUll i111111111
tae do funcionario. Ambos tinham o mesmo teor em quatro condic,;oes cxpcri n11111
variando apenas o sexo e a cor do funcionario que pleiteava a promoc,;ao (homt'lll he
co, homem negro, mulher branca e mulher negra). Pedia-se aos participantes qur ,. \
cassem a causa do sucesso do funcionario em questao. Curiosamente, nao foi drll:•
qualquer indica<;ao de estere6tipo sexual contra as mulheres; apenas na amostra 11111
ra, leves sinais de preconceito racial: os homens negros supostamente seriam mai.., 1
<;ados. Outro dado importante deste estudo foi a cren<;a de que os brancos (homr n
mulheres)- mais que os negros- e que conseguiriam a promoc,;ao almejada, o qur I"
significar a percep<;ao de que vivemos em uma sociedade preconceituosa.
0 segundo trabalho, seguindo a mesma linha dos anteriores, contou co111 1
amostra de pouco mais de 600 pessoas. Do mesmo modo que no estudo citado ar 1
nao se detectou nenhuma atitude preconceituosa significativa contra pessoas da 1
negra ou de estereotipia negativa em relac,;ao as pessoas do sexo feminino. 0 esfor~11
considerado por esta amostra o principal motivo de exito do candidato a promot.
independentemente de sua core de seu sexo. Mas, da mesma forma que no estudo a
terior, houve uma percepc,;ao bern diferente entre os participantes quanto a proba hl
dade de brancos ou negros conseguirem a almejada promoc,;ao, com os primeiros
plantando significativamente os segundos.
Tais pesquisas provariam que nao existe preconceito entre n6s? De modo algtu
0 que este conjunto de trabalhos reafirma e, em primeiro lugar, a necessidade de Sl'
tudar mais o tema, procurando distinguir entre os possiveis efeitos dos fatores relat
nados a classe social e economica, a rac,;a, a dificuldade em expor opinioes "poli IH
mente incorretas", alem das relac,;oes entre atitudes e comportamentos, ou atitudc ...
cren<;as. Esta ultima questao levou a urn novo trabalho, igualmente realizado em l9H4
uma vez que sistematicamente, como vimos, os membros das amostras anteriores, em
bora nao tenham indicado atitude preconceituosa contra pessoas negras, mostraram
acreditar na existencia de discrimina<;ao racial na sociedade em que vivem. Parodian
do Sartre, poderiamos dizer que "preconceituosos sao os outros". Ou, ainda, (,
Allport, que frisava que "tra<;os de personalidade sao coisas que os outros tem" (griln
nosso). Com isto, o famoso psic6logo queria denunciar uma distor<;ao perceptiva, pcla
qual os outros seriam egoistas, mesquinhos, injustos, inclementes. N6s, ao contrario,
aos nossos pr6prios olhos, estariamos nervosos, com problemas, atravessando uma
148
hilt il , (II M.tl., 11111 not.tvt·l 1'\l'lllplo dr ;111 tlnllc,.lo dd 't'lt'llnal , que 11\h 1111)!,1' de
!IH II'I, 111,1., .,, no.,lvl'l'o a situac,;ocs pc11111 h.tdol,ts, em contrastc com os outros,
h !tiilltlnunlt' 111aus: os outros sao , c nos cstamos, ao menos quando se trata de
ti ~ llo ' l'•
tlt-s.tj!,mdaveis.
' '' ,, dn p1 rronccilo, estaria acontecendo o mesmo? Na verdade o novo estudo
HI( t1 II ., 11 .tl 1984b) nao respondeu diretamente a esta pergunta, mas mostrou
1 ji.llll~ d.t amostra (180 participantes, 87% brancos, 44% do sexo masculino)
lllti 11 ,1 •·:- i.,ll'llcia de discrimina<;ao tanto racial como sexual em nossa sociedade.
jtir• " lll .t.,dciro tern vergonha de assumir que e preconceituoso, ate mesmo em
1111 :,\1 tlllh11l'ionais? Ou, na pnitica, nao nos opomos genuinamente a qualquer
I• ili .tlllt..lo baseada no sexo ou na cor da pele? Ou o preconceito nao surgiria nas
,j, ll.thalho , e, sim, na parte afetiva (casamentos inter-raciais, por exemplo)?
'lw· -, '1 t·nc,;a de que os "outros" sao preconceituosos? E quem seriam estes oullll " pmkroso sentimento afiliativo que vigora em nossa cultura mascara e inibe
IHI . ,1111nncntos preconceituosos?
1
lliitol v1 IIIOS, sao perguntas que reafirmam a necessidade de procedermos a novas
1 dt n1ro de uma area que se mostra ao mesmo tempo tao presente, tao com-
'" h(1
numa foto?
.\ lht.t de cxemplos que confirmam o quadro acima demonstrado e enorme. En1.\li 11111., t•sta sec,;ao citando o interessante experimento levado a cabo por Porter e
I.IIHliltdlliCS (1983). Nele eram exibidas fotos onde apareciam "urn grupo de estu' 111 torno de uma mesa, atuando num projeto de pesquisa". 0 que variava nas
t i l .t romposic,;ao do grupo (s6 homens, s6 mulheres e urn grupo misto) e a positilltp.tda a cabeceira da mesa. Aos participantes perguntava-se simplesmente Ill! 11 , ,, . de primeiras impressoes- quem eles achavam que seria, daquele grupo, a
il.l ljlll' aparentemente estava conduzindo os trabalhos ou exercendo uma maior
lhiilll 1.1 . Quando os grupos eram compostos por individuos do mesmo sexo, a pes' 111.1da na extremidade central da mesa era indicada majoritariamente como sen' l1dr1 tlos trabalhos. A coisa muda de figura nos grupos mistos. Ai, ainda com as
111111 II '" em maioria e com uma delas sentada na cabeceira da mesa, os homens eram
11lii ul11.., como os lideres, mesmo somando-se os pontos recebidos por todas as mui, ,I IJ m retrato e tanto da realidade dos estere6tipos! E ate possivel que, de la para
11.. \t•mplo de outros estudos citados, os resultados deste experimento, no caso de
\ll.i 11 plica, nao sejam mais tao expressivos. Mesmo assim, fotografias esmaecidas
I" I" 11 111po nem por isso deixam de revelar uma dada realidade.
149
ll ·i llt11111ilttt,u,.lo dr .qwlido'> dd.un .l11l111l'> <11>'> llH'IIIhro!-> do g1 upo 11val, alcm de
pit 'tt>lllt'IIIIO'>:I'> l' de rompontum·nlO!-> detivamcntc discriminat6rios.
Proconculto o dlscrlmlnuc;uo
~e o l'!->ll'l'l'tll l po l' a ""a ha ... c rogn i 11va, O!-> !-ll'lll illll'llto'> nq.?,all voo., l'lll rei :H, .111 il 1
grupo constituiriam o componcntr afctivo do prcconccito , c, as ar,;l)Cs, o rom pont
comportamcntal. Em sua csscncia, o prcconccito
c uma atitudc: uma pcssoa p111.1
ceituosa pode desgostar de pessoas de certos grupos e comportar-se de maiH'"•'''
siva para com eles, baseado em uma crenc;a segundo a qual possucm carac H'It •. tli
negativas. Embora, como vimos no capitulo 4, uma atitude seja composta p111 1
distinta combinac;ao de sentimentos (componente afetivo), predisposic;ocs pa1,1
(componente comportamental) e de crenc;as (componente cognitivo), no <<1'·11
preconceito, este termo se refere mais ao aspecto afetivo do fen6meno em qut·., t.hl
na frase acima, o desgostar.
I liiLI " il d.u It'll,\ oiN'Iva<;ao microsc6pica da genese do preconceito e da discriminalll" u l1 IIIII'>, no l'l1tanto, deixar de mencionar a terceira fase dos estudos, que con'"'"" ''' .t do~ l'limina<,;ao das tensoes intergrupais atraves de atividades de cooperailiji'l j, ,,.., tlllllUns c prazerosos que s6 podiam ser alcan(:ados caso todos os inte1111 'J t.t 11111•,..,t•m para um trabalho conjunto. Apos urn inicio dificil, Sherif e colaboralii 111.11,1111 tn ronseguido restabelecer, atraves desta estrategia de interdependenill\ l,.o,ttlt>.,l' de harmonia entre os ate ent<'io "inimigos". Em suas proprias palavras,
It• I'.Iilitl;ttlt "~' vai quando os grupos se juntam para alcan(:ar objetivos maiores que seil dtllt 11t1' tmportantes para a promo(:ao do bern comum" (TROTTER, 1985).
dr ilustra~ao, achamos interessante citar a propria historia de vida de M.
111 'I''' 11,,..,n·u na Turquia e foi criado em urn atmosfera de constantes conflitos en\ I'' , IIIITOS c armenios, ou, ainda, de mu(:ulmanos versus catolicos. Em maio de
tdt~lt ·.,rente e morando em Izmir, na Turquia, ele conta que viu literalmente
\ , 111 .,,
Tecnicamente, o preconceito pode ser positivo ou negativo. Pode-se ser, po 1 r ''
plo, a favor ou contra estrangeiros, dependendo de sua nacionalidade: vamos supo1 1
em princfpio, suecos teriam a faculdade de despertar sentimentos positivos, c aq•,r1
nos, em contrapartida, sentimentos negativos. No entanto, em psicologia social o In
e usado apenas no caso de atitudes negativas. Assim, o preconceito poderia ser ddtn
como uma atitude hostil ou negativa em relac;ao a urn determinado grupo, nao In·"
necessariamente, pois, a atos hostis ou comportamentos discriminatorios.
Quando estamos nos referindo a esfera do comportamento (expressoes Vl'll
hostis, condutas agressivas, etc.), fazemos uso do termo discriminac;ao . Neste 1
t ''"'1'·'111lt'iros sendo assassinados pelos invasores gregos, que avanc;avam matan11\tli •tll inlinadamente membros da populac;ao turca. Quando chegou a sua vez, por
Iii Ill 1.t .to , o soldado inimigo mudou de ideia, se retirando e poupando sua vida.
1
I"'"' n , preconceito e discriminac;ao nao interromperam umas das mais brilhantes
tli'li>t • drvotadas pioneiramente ao entendimento dos conflitos intergrupais e de
sentimentos hostis somados a crenc;as estereotipadas desaguam numa atua~ao
pode variar de urn tratamento diferenciado a expressoes verbais de desprezo c a .11
manifestos de agressividade.
Os experimentos levados a cabo por Muzafer Sherif e colaboradores nos a no.,
(1961) ilustram bern esta questao. Em tres ocasioes distintas (1949, 1953 e 1954),
rante tres semanas passadas em urn acampamento nas ferias de verao, urn grup11
meninos entre 11 e 12 anos pensou estar se divertindo amenamente em uma col
de ferias. Na verdade participavam, ainda que inadvertidamente, de urn experi nwnl
em urn setting natural acerca da origem da coesao grupal, bern como dos conflitos
pais, e, neste ultimo caso, de sua possivel reduc;ao. Divididos em dois grupos, os nil'
nos, que nao se conheciam de antemao, formaram lac;os de amizade, fruto de inun11
atividades ludicas em comum. Na segunda parte do experimento, os dois grupos e1
colocados em situac;ao de competic;ao e conflito. A ideia era que, se dois grupos poSSIH'I
objetivos conflitantes e metas que so podem ser atingidas a custa do fracasso do gnq,,
rival, seus membros se tornarao hostis entre si. De fa to , neste sentido, os experimc
foram coroados de exito: insultos, perseguic;oes, ataques e destruic;ao de bens for;un
observados, ao lado- o que nos interessa mais aqui- da formac;ao de estereotipos, qu
150
do preconceito
Todos gritamos contra o preconceito, mas nenhum de n6s esta livre
dele.
Spencer
llil't'Onceito parece estar tao entranhado no circuito das relac;oes humanas que
1111 11!1tlif1cil distinguir suas origens. Suas raizes parecem tao profundas- e tao proxi1·1~ d,1 agrcssividade- que por vezes suspeitamos estarem elas ligadas a propria natu' l111111<1na. Em certo sentido, todos nos somos preconceituosos: na melhor das hi.,, '• , ('Offi relac;ao as pessoas que sabemos preconceituosas. Mas, em que pese os arlilill 11los defendidos pelos sociobiologos (que aventam a possibilidade de o preconi!i, o,tar ligado a mecanismos de sobrevivencia, inerentes a historia da humanidade e
!illllll<l runc;ao protetora do grupo a que pertencemos), cremos que a aprendizagem
1tlo ,,,·r responsabilizada em grande parte por este fen6meno, ainda que a facilidade
iii tjlll' o adquirimos levante suspeitas sobre a existencia de uma possivel predispositl
~~
111.lla .
151
Na cor do olhar
I 11 1 1\ ""''" Ill '> qltl .;; to., il11., 11 ;till , <Oil HI VIII ttl.,, ;t
Deixando tk !ado t''>la l'll'lll<l dJ'>Cli'>SiiO (biologia V<'l .\11 .\ tul!uJ;t) , podc111o'>
como c facil o aprcndizado do prcconcc ito . Alcm dos s upra citados cstudos de ~ l u 111
al., ja faz parte da historia da psicologia social o !amoso relato da profcsso ra Jant• I II
que no final dos anos 60 minislrava suas aulas numa pequena cidade (Riceville) 111tl
terior de um estado norte-americana (cf. ARONSON et al., 2007) . Seus alunos CJ,J ill
zona rural, todos brancos e catolicos e, no entender da professorajane, sem ncn h11
ideia real do significado do preconceito e do racismo. Pois ela decidiu ensina- lo!>. Nu
dia , dividiu a classe em duas, tomando por base a cor dos olhos. Olhos castanho~ 1
um lado, olhos azuis para o outro. Em seguida "explicou" aos alunos que os segu udc
eram comprovadamente melhores do que os primeiros: mais espertos, confiaveis, l11
zinhos, etc. Para marcar a diferenc;a, fez com que os de olhos castanhos usassen 1 11
colar no pescoc;o e tornar sua "inferioridade" mais visivel. Alem disso, neste dia , O'>
olhos azuis liveram recreio mais Iongo, elogios em sala de aula, doces extras na C<IIJI
na, entre outras regalias.
Em menos de meia hora Elliot alega ter criado uma miniatura de sociedadc 111
conceituosa. Os alunos, que ate entao se davam normalmente, romperam entre si. I
de olhos azuis passaram a tripudiar dos seus colegas "inferiores", recusaram-se a b1111
car com eles e ate sugeriram a professora formas adicionais de punic;ao, alem de ou 1m
restric;6es. Nao faltou nem uma tradicional briga corporal entre membros dos dois gJ 11
pos. 0 grupo "inferior" mostrou-se mais deprimido, com pouca moral , saindo-sc 111
elusive pior nos testes feitos ao final da aula.
No dia seguinte, uma surpresa: a professora confessou ter-se enganado, e que 11
verdade o grupo superior era o dos olhos castanhos. Em seguida pediu que estes co lo
cassem os co lares nos "novos inferiores". Neste dia, os comportamentos observado~
anteriormente simplesmente mudaram de lado . 0 experimento foi encerrado na ma
nha do terceiro dia, quando a professora desfez toda a historia, mostrando que tinha
procurado fazer com que eles sentissem na pele o verdadeiro significado do preconcei
to e da discriminac;ao. Seguiu-se um debate entre todos os alunos participantes. Para
encerrar a descric;ao deste elucidative experimento, cabe ainda uma citac;ao adicional.
A criativa professorajane Elliot diz ter reencontrado boa parte destes estudantes vintt•
anos depois, e que eles guardavam vividamente em suas memorias aqueles elias em qut·
a cor dos olhos foi tao decisiva. E o que e mais importante: sentiam-se menos preconceituosos que seus vizinhos, colegas atuais de profissao, etc. pelo fato de terem passado por aquele experimento, complementando que, em sua opiniao, todas as crian c;as
deveriam passar pelo mesmo teste. Digna de nota, tambem, a lamentavel perseguic;ao
que, segundo a professorajane, sofreram seus familiares em sua propria cidade, apos a
divulgac;ao do seu trabalho com os alunos.
152
did;ttk do dt''> IH'II,\1 d1 .,,.llllll\1'11
p1r11lllllllttn.,o.,, pl'la q11.d o <Htllll podt· "~' IOJillll de..,pre ztwl po1 lao pouco. Mas
11!0111 lttlllt,t JII.II ., .., ,.,lt'lllall zada ainda que , a cxcmplo de outras areas de es wclo cia
ni11).ti.t '> tH 1al , ..,l'llt uma lcoria global ou Lllll modelo que garanla uma total explicapodcmos classiricar as causas do preconceito em qualro grandes
011 .t.,, " .,,Jiwr: (a) co mpctic;ao e co nOitos politicos e econ6micos, (b) o papel do
lr 1 pt.tlorio ", (c) fa to res de personalidade, e (d) causas sociais do preconceito:
iiolt .tgt· m ~ocia l, conformiclade e categorizac;ao social.
mp"tl~ao
l.11
e conflitos economicos
·\ lll lllpctic;ao e um dos caminhos que mais facilmente conduzem a formac;ao de
It i 11111po~ . preconceitos e atos discriminatorios. ConOitos ligados ao status social, ao
jiHt l. 1 politico e ao acesso a recursos limitaclos fornecem fermento poderoso a este tipo
l1 l'"'• lilldacle. Conflito Grupal Realista eo nome desta formulac;ao teorica, que pre11 tjlll , .t rcboque de objetivos conflitivos, advirao tentativas de depreciar o grupo ad1-,1111 1, inclusive atraves da estimulac;ao de crenc;as preconceituosas. Aparentemente,
li1.1i •; l.tcil atacar- sem remorsos- um adversario, se o mesmo for dotado de pessimas
1 11 lnl -.ticas de personalidade, habitos nocivos ou se for claramente mal-inten' •11.1do . Um estereotipo negativo acerca do competidor une o proprio grupo em torno
1., ,ll.tquc ao rival (in-group versus out-group: dentro-do-grupo versus fora-do-grupo) .
ll!i 'j 11111a vez, o experimento de Sherif e colaboradores merece ser lembrado, agora
'''"o um exemplo do poder da competic;ao em deflagrar conflitos.
1 >-.
cxemplos historicos aqui sao incontaveis, qualquer que seja a nac;ao tomada
11111111 modelo. Veja-se por exemplo a bem documentada oscilac;ao das atitudes e comji•ill.uncnlos de brancos norte-americanos para com imigrantes chineses ao longo do
11 tdo XIX, em func;ao do nivel de competic;ao ecom6mica entre ambos. No inicio da
1," 11da do ouro, brancos e chineses competiram por vagas, e os segundos passaram a
• 1 dcc;critos como "desumanos, crueis, depravados, etc". A seguir, anos depois, ao
11 111arcm trabalhos duros e nao almejados por brancos na construc;ao de ferrovias, os
iill '.., lllOS chineses passaram a ser descritos como "diligentes, obedientes e confiaveis".
\ ltw-de-mel acabaria pouco depois com a volta dos soldados brancos apos a guerra da
, 1 rssao, congestionando, na epoca, um ja nao muito extenso mercado de trabalho e
l1 '.tndo os chineses a serem percebidos como "criminosos, ardilosos e obtusos"
tl \ COBS & LANDAU, 1971).
Enfim, competic;ao e conflitos sao claramente capazes de provocar reac;6es de hostllidade e de criar inimigos onde antes havia paz, ou, ao menos, tolerancia mutua.
153
0 papol do bod
xplat6rlo
Estc constructe c uma csprcic de compkmrnto da causa anterior. Uma vt•: r
pertadas a raiva, a hostilidade ou a frustra<;ao, a quem dirigi -las? Muitas vczrs, a t.r
real do sofrimento e ou muito vaga, ou muito grande ou poderosa. Quando tllll 1
atravessa urn periodo de recessao e de desemprego, fica dificil para o cidaclao co u11
atacar urn abstrato sistema econ6mico. A figura do lider ou presidente da na<;ao t' 11
concreta, mas igualmente inatingivel sem o risco de evidente retalia<;ao. Espcra r 1
mocnitica e pacientemente tres a quatro anos por uma nova elei<;ao talvez seja r.u I
nalmente o mais adequado, mas e emocionalmente impraticavel como solu<;ao imn l
ta para os sentimentos existentes.
0 que a hist6ria tern mostrado e que nestas ocasioes a raiva e deslocada para )'.'
pos minoritarios, sem muito poder e facilmente detectaveis. Segundo Aronson (20(
os antigos hebreus tin ham urn costume pelo qual o sacerdote- durante urn perfodo
expiac;:ao de culpas da tribo- pousava as maos na cabec;:a de urn bode e atraves das dr
das rezas, exortac;:oes e enunciac;:ao dos pecados cometidos, transferia-os para o ani 111
que depois era abandonado no deserto para morrer, levando consigo os pecados c II
pando a comunidade de seus erros. 0 termo ficou e hoje e usado para designar aqur·
que levam a culpa de algo, ainda que sendo inocentes.
Urn exemplo bern conhecido deste proceder ocorreu nos Estados Unidos, pesqu
sado por Hovland e Sears (1940) e citado em todas as obras sobre o racismo (e co ni
mado por avaliac;:oes estatisticas posteriores mais sofisticadas, Hepworth e Wr.,l
1988). Hovland e Sears fizeram uma analise correlacional entre (a) o pre<;o do a
nos estados sulinos americanos entre 1882 e 1930 e (b) o numero de linchamentos d
negros no mesmo periodo. Deve-se lembrar que a exportac;:ao de algodao era a prind
pal fonte de renda daqueles estados, com a situac;:ao geral econ6mica (de abunda nd
ou escassez) dependendo significativamente do prec;:o do algodao. 0 que esses
pesquisadores descobriram foi uma forte correlac;:ao negativa (inversa) entre esta
duas condic;:oes. Quando o prec;:o do algodao caia, aumentava o numero de linc ha
mentos, e vice-versa. Assim, quando os membros de urn grupo experimentava m
dureza de uma depressao econ6mica, tornavam-se letalmente hostis aos membro
considerados "de outro grupo". Vale a pena citar que as pesquisas vern demonstra n
do que, quanta menor a distancia na escala socioecon6mica entre brancos e negro!
(e, por conseguinte, maior a possibilidade de competic;:ao intergrupal), tanto maio r ll
preconceito manifestado pelos primeiros (MYERS, 2005). Em suma, a relac;:ao, em
urn dado momento, entre a queda do prec;:o do maior produto de exportac;:ao dos es ta
dos do sul dos EUA e o aumento de linchamentos de negros, e urn cruel exemplo destl'
tipo de procedimento.
154
II i111'~' ""' pnrk ..,, 1 d11o d.r Akrn.tllh.l 11.1~ '"'·' · orHk , <IJHI.., ,1 dr·rrol.l ''·' l'rll\ll' ll<l
I hi tvltu" lt.tl , o.., 111tk11.., I01 .1111 ll'..,POihahd 1zad<h pc Ia inlla<,;<lo, pc Ia rrccss<lo c pclos
liliH' IIItt 'l dr lrllo.,lnt<,'<\0 cnt<IO rxi..,tcntcs. Criou-sc a crenc,;a de que, elirninando os
111d1r.., o.., problemas cswriam rcsolvidos. Urn dos governos militares da ArgenH•• 111n., HO, ll' ntou rcconquistar as llhas Malvinas (ou Falklands, na visao do Ou1! t'l''l ), ,. <on..,cguiu por algum tempo desviar a atenc;:ao dos problemas economiii'''' 11 .1t'IH>ra alligiam o povo argentino. Da mesma forma, o fim da Uniao Sovieti1'"' ""' lado trouxe a liberdade para algumas na<;oes, por outro, permitiu vir a
ll·i '·"'' 11.11 10nalismo exacerbado acompanhado de intensa demonstrac;:ao de hostililr1' ''"'m grupos etnicos distintos. Estes sao apenas alguns dos inumeros exemplos
u p.-,d,
r11os
colctar ao Longo da Hist6ria.
\ It .r11o em urn nivel microssocial, conforme vimos no capitulo sobre atribuic;:ao
p I) , pmcuramos transferir nossos sentimentos de raiva ou de inadequac;:ao, cololid•• 11' ttlpa de urn fracasso pessoal em algo externo ou sobre os ombros de uma ouj'oi' • '''· " Sc chego tarde no trabalho, e mais facil culpar o transito do que assumir a
i'· ""'·'l>ilidade por nao ter tornado a precaw;:ao de sair urn pouco mais cedo. Se meu
11111• tlr lutcbol perde, e mais simples culpar o juiz do que aceitar a ideia de que o time
I• .rl 1"1\0ll melhor, e assim sucessivamente.
Lltvnsos experimentos vern comprovando este fen6meno, embora, a rigor, nao
1.• 1.11 II distinguir o preconceito causado por competic;:6es e conflitos daqueles origi'''"'''• pl'ia agressao desviada para bodes expiat6rios. Aparentemente estas duas causas
"' 11111plementares. Mas em inumeras situac;:oes experimentais, em que urn particil'd 1111 1 ra frustrado por alguma razao e, em seguida, solicitado a punir urn outro por caui 'l divt·rsas, fez diferenc;:a- nos niveis de agressividade demonstrados- o fa to de o ouIHi '·'~ ' negro ou branco, judeu ou nao judeu, franco-canadense ou anglo-canadense,
1 l'ltn cipalmente quando o participante a quem cabia o papel de punir demonstrava
lr rutlcmao sentimentos negativos com relac;:ao a esses grupos (WEATHERLY, 1961;
IH \t ,I ·RS &: PRENTICE-DUNN, 1981; MEINDEL &: LERNER, 1985).
I 111 resumo, a hip6tese do bode expiat6rio prega que individuos, quando frustra1"· nu infelizes, tendem a deslocar sua agressividade para grupos visiveis, relativaill• llll' sem poder e por quem nutrem, de antemao, sentimentos de repulsa.
utores de personalidade
A priori, pode-se dizer que uma pessoa, mais do que outra, seja mais propensa a ser
jlll'to nceituosa? Aparentemente, sim. A ideia, desenvolvida por Adorno e colaboradotr '; ( 1950) nos Estados Unidos, parte do pressuposto de que algumas pessoas- em
ltlllt,,'ao do tipo de educa<;:ao recebida em casa- estariam mais predispostas a se torna155
11111 j)ll'l'OIH 111110..,,1 .., lki10IIIil1•11 i1111 di' (H' I'Minalida<k auto• itn• Ia 11 r onju•llo dr 1
<,.' OS adqui1 ido~ que lOIIIal iam uma pe~~oa mai s ngida c•n ~ w,., opinioes, in1olr 1.tt
para com quaisquer cl emonstra(,:oes de fraqucza, em si ou nos outros, pronta a lid•
valores convencionais, desconfiada, propensa a adotar ou pregar meclidas de r: u.l
punitive e a dedicar respeitosa submissao a figuras de autoridade de seu pr6p r io
po, e clara rejeiyao aos que nao pertencem aos seu ciclo restrito de relay6es.
Adorno e colegas, em boa parte fugidos das perseguiy6es na Alemanha nn:l'll
acreditavam que pessoas enquadradas como fortemente autoritarias estariam rrr
propensas a perseguir quaisquer grupos minoritarios. Chegaram a criar um irr..,lr
mento de aferiyao do grau de autoritarismo (chamado de escala F), pelo qual os I""
cipantes, ao concordar ou discordar de itens marcados por ditames punitivos, ligadn
rigidez ou a obediencia, entre outros, poderiam ser classificados como muito ou po1
autoritarios, e, por conseguinte, mais ou menos inclinados a comportamentos cli-.,
minat6rios.
Equal seria a origem desta configurayao de personalidade? Para os pesquisaclo r
ap6s extensas entrevistas com sujeitos classificados em ambos os extremos da esca la ,
cenario resultante apontava para uma infancia marcada pelos seguintes aconteci m
tos: quando crianyas, tais pessoas teriam sido duramente disciplinadas, com seus 1
senclo muito punitivos, usando ainda do artificio de manipular manifestay6es de al1·
para obter respostas de obediencia por parte delas. Isto tornaria as crianyas insegur
dependentes e muito ambivalentes para com os pr6prios pais: amando-os e odiando 1
concomitantemente. 0 6dio reprimido , inconsciente, mais tarde afloraria, s6 que til
gido a grupos minoritarios e desprotegiclos. Tal tipo de educayao ajudaria a formar u
adulto preocupado com questoes de status e poder, rigido, intolerante e com dificu l<
des em lidar com situay6es de ambiguidade. E natural que crianyas vejam o mundo ('11\
branco-e-preto : faz parte, dentro do processo de amadurecimento, ter bern delimitada
em suas mentes a diferenya entre mocinhos e bandidos, bons e maus, fadas e bruxa~
Aparentemente, isto esta relacionado ao desenvolvimento normal da aquisiyao de con
ceitos de moral e de justiya. Mas de adultos espera-se que saibam que o mundo e co m
posto igualmente de matizes de cinza, e que o berne o mal fazem parte intrinseca d
natureza humana. Boa parte da verdadeira Educayao consistiria em inibir nosso ladu
pior e cleixar vir a tona nosso lado melhor.
Voltando a hip6tese de Adorno et al., de urn modo generico, este tipo de formay:lo
resultaria em adultos preferentemente etnocentristas: isto e, que acreditam na supl'
rioridade do grupo etnico ou cultural a que pertencem, como correspondente desprc
zo por membros de outros grupos.
As criticas posteriormente levantadas contra esta concepyao nao negam seu valor
e sua expressiva contribuiyao no que toea a genese do preconceito. No entanto, em pri
156
l!it ltlHOI I, ! ',l.l I! 011,(11,(!1 l!'l iai!'Vildo! Ill! 1111 .., HI!'I,1\ol0 0 p.qll'l dl'"l'lll(H' Ililado pclo~
1111 qw ·· ~ H'll' ll' <
HI" . , ,.ll.., proptro~ pll'l' Oil l' l'ito ~. l ; ilho~ de pab pre<.:on <.:c ituosos
tttl r ill 1.,,. lclrrrtl{llfll co111 d e~. ou , por aprendi zagc m, a imitar sc u co mpo rtamcnto ,
ou concomitantcmcntc- ao tipo de educayao recebida, qualquer que
111 ,, gt111do Iugar, um a crftica mais especifica: a escala original teria uma orienta''' ' " ''1\ll'a muito definicl a, pela qual, apenas pessoas de extrema-direita se enqua11.1111 ll ollipologia prcconizada. Rokeach (1968) , em trabalho de revisao posterior,
Ht•ll l n auto ritari smo como independente do continuo politico esquerda/direita e
ii L'IIIId o 1oclas as matizes de pensamentos e convicy6es.
I
1\ 111 "'" dcstcs reparos , a verdade e que trabalhos realizados no final da decada de
111 11111 cio cl os anos 90 na Russia , na Africa do Sul enos Estados Unidos (McFAR' 11 \ ( :FY EV & ABALAKINA, 1992; MYERS, 2005) vern confirmando a influencia
1111 111tt ari smo, como trayo de personaliclade adquirido , que predispoe a manifestad• I" !'CO nceitos e de discriminayoes.
u•u• sociais do preconceito: aprendizagem social, conformidade e
forlzaCjOO social
l'•• lr grupo de causas refere-se a ideia de que o preconceito e criado e mantido por
11 1 , .,odais e culturais. A teoria da aprendizagem social, por exemplo , enfatiza que
l111 "1 111pos e preconceitos fazem parte de urn pacote maior de normas sociais. Estas,
;i ' " ' ' vcz, seriam o conjunto de crenyas de uma dada comunidade acerca dos com" l.tlll l' l1tos tidos como socialmente corretos, aceitaveis e permitidos. Evidentemen' '' 1'''' c considerado estranho em uma cultura pode ser encarado como perfeitamen"'"" wl e ajustado em outra. Habitos alimentares, modo de educar filhos, formas de
.. 111 j.11n ento , moda, praticas religiosas, tolerancia a relayoes extramaritais por parte
j., ltt1rn cns e poligamia constituem alguns exemplos de como diferentes sociedades
lttlun de formas diversas com aspectos similares do comportamento social humano .
\ .., normas sociais sao aprendidas em casa, nas escolas, nas instituiyoes religiosas,
" '"' olcgas e atraves da midia e das artes. Passadas de gerayao a gerayao , nos instruem
ilu 11 .1 ou sutilmente sobre o que pensar, como reagir afetivamente ou como agir no
1111111do. Desta forma e que preconceitos persistiriam em um dado momenta em uma
1,,,1,, cultura. Basta que seja uma sociedade que acredite em certos tipos de estere6til't l, dcpreciativos ou veja como normal o trato diferenciado a determinados grupos etni' ,,.,, rcgionais, ou, ainda, a mulheres ou a praticantes de uma religiao. Como vimos no
11111 10 do capitulo, ainda nao e comum que mulheres detenham certas funyoes e papeis
"' 1.1is. Ou seja, e "normal" que uma mulher seja enfermeira e urn homem, neuroci-
157
1111gi:1o 1\.,.,,,11, .;cg1111tlo ,..,1.111"1111.1 , ·'"'''·''"··'"''"l.u 1,1111 Sll11pl1 .,,," 1111' adqui1111tl"
ll' lll\lllado., pn·co ntl'ito~ da nu:~ ma lllltnl'ira que aprcndent O\tlra., aliludcs t' t'O III
tamcntos, partilhados pcla sodcdadc como tun 1odo.
A conformidade seria um caso especial do expos to acima: aqui, as pcssoa~ dr 1
perceberem e viverem relac;:oes de desigualdade entre grupos, sexos, etc., pa.,'>.tlll
considerar tais tratamentos diferenciados como naturais. Em outras palavras, co nh
mam-se com a situac;:ao reinante. Na maior parte das salas de aula de nossas unh1·
clades, por exemplo, brancos ainda sao em numero muito superior a negros, e 11
guem estranha isso, tamanha a pervasividade do fenomeno. Urn outro exemplo r
contrado nas artes: na pec;:a 0 mercador de Veneza, de Shakespeare, o judeu Shyl1u k
retratado preponderantemente como perfida e viciosa criatura. Por que isto seria
exemplo de conformidade? Porque, quando a pec;:a foi escrita, os judeus ja havia m
expulsos da Inglaterra ha aproximadamente 300 anos! Infelizmente, o preco m
tambem se mantem pela inercia.
Na conformidade, cedemos a pressao social para sermos aceitos, nao soh·c11
punic;:oes ou por realmente acreditarmos na veracidade das teses disseminada.,
meio cultural em que vivemos. Em consequencia, se atitudes preconceituosas fa
parte, implicita ou explicitamente das regras do jogo social, tenderemos a cor
ra-las em nosso dia-a-dia.
Para nao deixar de mencionar alguns experimentos, podemos citar os traba ll
realizados por Pettigrew (1958), que na decada de 50 constatou que, entre su li
americanos e brancos da Africa do Sul, os mais conformistas eram justamente os que
mostravam os mais preconceituosos.
Estas considerac;:oes nos levam ao papel desempenhado pela midia e pelas artes n
perpetuac;:ao de estere6tipos e preconceitos. Nas novelas, programas de maior audie nd
da TV brasileira, negros sempre apareceram em papeis secundarios e basicamente como
servic;:ais ou bandidos. 56 em 1995, pela primeira vez, uma novela (A proxima vitima, TV
Globo) retratou uma familia negra declasse media, com os mesmos problemas e preocu
pac;:oes de uma familia branca da mesma classe social. As mulheres tambern nao tern mt•
lhor sorte: mesmo uma analise superficial dos comerciais de televisao indica que elas s;\u
basicamente retratadas como donas-de-casa, objetos sexuais, ou como pessoas passivas,
dependentes e sequiosas da aprovac;:ao de seus maridos. E quando aparecem como ext•
cutivas ou em posic;:ao de lideranc;:a, e porque se trata de urn comercial que apela para 11
comicidade. Chavez (1985), por exemplo, ao analisar 14 hist6rias em quadrinhos publi
cadas em jornais norte-americanos, muitas delas reproduzidas igualmente em grandt·~
jornais de todo o Ocidente, observou que as mulheres s6 eram personagens principais
em 15% das vezes. Alem disso, s6 4% das personagens do sexo feminino trabalhavam
fora de casa, urn contrassenso, na medida em que nos EUA 70% das mulheres exercem
158
II"' d, r111p11'go No l\1,t.,d, "l'gu ndo d;tdo-. do 11\(,1 · (20(H) , 1ela11vo~ ao
'ill Ill'}, dr loda a 111;\o de obra c kminina.
tl'II'>O
de
i 1d1 1111'11\l'llll', mtdia/artcs tambcm atuam no sc ntido de propagar comportamen1'''' -.o1 1.\i .... As pr6prias novclas, supracitadas, contribuiram para a divulgac;:ao de
pr 11, tl1
g!' nero mais cquilibrados, ao levar para o interior imagens tipicas da realidail• 1111 111a das gran des cidades, onde ha uma divisao menos rigida e tradicional entre
IU•IIth-. dcscmpenhadas por homens e mulheres (KOTTAK, 1991). Da mesma for" ' ldmes Fi/adelfia (1993), com o ator Tom Hanks, e 0 segredo de Brokeback
llllltdll (2005), provavelmente fizeram mais pela diminuic;:ao do preconceito contra
11.1"''"1'\ltais do que algumas toneladas de material impresso do mesmo teor. Sem
ltl\·i,l;t , .t mtclia e as artes sao hoje poderosos disseminadores de opinioes e verdadeiros
1 Ill' '" dl' socializac;:ao , e seu peso na transmissao de estere6tipos e preconceitos ainda
''·"' l111 devidamente avaliado, no que toea a sua decisiva ascendencia sobre nossos
••lljHIIIamentos e atitudes.
I !111 .,ubproduto do modo como processamos psicologicamente as informac;:oes, ca-
•n i .unos as pessoas ou formamos esquemas, e que leva a formac;:ao de estere6tipos
w1•.111vos, eo que esta na base da categorizac;:ao social ("nosso grupo em oposic;:ao a gruji!i' 1 \ll'rnos"). Para E. Aronson, seria o lado negro (alias, uma expressao nao muito fell · j.l que estamos falando de preconceito) de todo o processo chamado de cognic;:ao sot.d (veja o capitulo 3). Como muito bern caracterizaram Tajfel e Turner (1979),
A mera percepc;:ao de pertencer a urn entre dois grupos distintos - isto e, a
categorizac;:ao social per se - e suficiente para deflagrar discriminac;:oes intergrupais, a partir do favorecimento do proprio grupo. Em outras palavras,
a mera consciencia da existencia de urn outro grupo e suficiente para provocar respostas competitivas ou discriminatorias por parte dos membros do
proprio grupo.
1:m func;:ao disto, preconceito e discriminac;:oes intergrupais seriam consequencias
pLtl icamente inevitaveis dentro de urn processo cognitive normal e natural, cuja funi 111 .,cria a de- rna is uma vez- simplificar e tornar mais inteligivel o complexo mundo
111 ial que nos rodeia. Afetivamente, sentiriamos coisas positivas pelos membros de
ltn-.so grupo e coisas negativas (seguidas de urn tratamento injusto) por membros do
t\1 upo que nao o nosso. 0 aumento da autoestima seria, ainda segundo Tajfel, a moti' .u,;ao basica por tras deste vies cognitive.
Diversas tendenciosidades cognitivas, examinadas no capitulo 3, como a correlal•IO ilus6ria, a profecia autorrealizadora, o efeito homogeneidade do outro grupo, enIll' outras, fortificariam, junto com a categorizac;:ao social, a genesee a manutenc;:ao de
11rcconceitos.
159
A roduejoo do pruconculto
1' \flil"tli
o'
flli ' iOIIil'l/o'
Jll'lll Jlilllcl
IOIIIIIIciOII 1'1111111
Jldll/•
l'il'dl' ll t'O, o (,ran de
Face ao que vimos acima, e possivel a
nuir o preconceito?
cria ~ao
de mecanismos dicazcs pa ra 1
Apesar da facilidade com que o mesmo e despertado e a dificulcladc em l' IH111
urn modelo que integre toda a gama das possiveis causas do preconceito , a rl''> PI
sim. Ou, pelo menos, sim, devemos continuar tentando!
Uma das primeiras ideias na busca de solw;:6es veio atraves da hip6tesc do 1 11
to. Aqui, acreditava-se que, aumentando-se o contato entre, por exemplo, bra 1111
negros, nao s6 iriam diminuir os estere6tipos de parte a parte, como na situa~ao lo1
dade contato acabaria prevalecendo uma intera~ao pacifica inter-raciaL 0 q ue -.r
servou na pnitica, nos Estados Unidos, atraves da cria~ao de escolas integradas c111
ados dos anos 50 (antes havia escolas s6 para brancos ou s6 para negros) , foi u m 1
perado aumento de tens6es e conflitos entre crian<;as brancas e negras.
0 curiosa e que, anos antes, Deutsche Collins (1951) , no experimento desc 11111
capitulo 2, observaram uma notavel diminui<;ao do preconceito quando branco~ r
gros tiveram de ocupar moradias integradas. Ap6s alguns meses de convivencia.
moradores destes projetos nao-segregados mostraram consideravel aumento de alii
des positivas entre si.
Qual a explica<;ao para a diferen<;a entre estes dois epis6dios?
0 que se descobriu depois e que a simples intera<;ao nao e suficiente. Ela tem dl·
dar num contexto de igualdade de status , como G. Allport ja o apontara em seu sn
nal The Nature of Prejudice (1954) :
0 preconceito pode ser reduzido em contatos entre grupos majoritarios l'
noritarios, desde que os mesmos se deem em condi~oes de igual status
e na busca de objetivos comuns. Este efeito pode ser aumentado se os co n
tos forem apoiados institucionalmente (leis, costumes, condi~o es loca i ~l.
enfatizada a consecu~ao de interesses comuns entre os membros dos dol
grupos.
Nao foi o que sucedeu nas escolas, onde nada foi feito de concreto para diminuir a
diferen<;as iniciais de percep<;ao e autoestima, ou para estabelecer metas em comum . I
no caso das moradias, ambos os grupos detinham de fato o mesmo status socioeco nl'l
mico, o que alijou a amea<;a de conflitos intergrupais.
Assim, o contato pode diminuir o preconceito, desde que se de sob certas co ncli
<;6es. Lembremos o experimento de Sherif, no qual nao bastou a elimina<;ao de co n
160
tll\ ( oiiiiiHIII,, \Iljl•lt'd ,\h,\lltllllli ,t VIIII :U' :II\III;U l' lllll' ll" doi ..,).!,III!Hl'> 1;01 p1l'ti ·
1 ill [lt l dt -. lltt.t\, lll'" dl' inln(kpt' ll(knda mutua , ou ..,l'ja , dl' atividadc~ de co
11 11111 11 " llpl.utt :u dilintltladl' ~ comun'i, como vimos antcriorm cntc, nes te
111)111\tlll l),·... ta lot tna , ll\11 c.kll'ito "labricado" no forn ecimenlo de agua obri1)111 ltH III'> .,,. )Uilla..,sl'm para dcscobrir a solu<;ao do problema. lgualmente,
iu l,ll, .tll de 1odos para colctar dinh eiro serviu para salvar uma cobi<;ada sest lttl' ll t: l ~ hcril dcnominou esta condi<;ao de estabelecimento de objetivos su•l'l 1111 l.t'i atracntcs para os dois grupos, mas que nao podem ser obtidas sem a
tthdu_ll .11. ,to mutua . Lentamente, as hostilidades foram diminuindo ate alcan<;ar
lltll 11111 .11 -.ati sfat6 rio .
\ ipt l''> t.to da intcrdependencia mutua foi bastante estudada porE. Aronson (1975) ,
tile• 1111 ,1n i<u o sistema de "quebra-cabe<;as" em salas de aula, no inicio dos anos
1 1.' dt '·l· nv olveu urn metodo de ensino que clava enfase a coopera<;ao. Pequenos
liP· • dt t''> tudo multirraciais eram organizados com suas tarefas de aprendizagem dilhLb 1111110 sc fo ssem pe<;as de urn quebra-cabe<;as. Para aprender toda a li<;ao, os
Ill it•'•·• 1111ham de ouvir com aten<;ao seus colegas de grupo, ja que cada urn estudava
ttl hl p,lll l' scparadamente. A nota final dependia, pois, da colabora~ao entre todos.
1Hi· 11111 i111 cio tumultuado, no qual as crian<;as tendiam a repetir seus padr6es preIIi . I llllo..,os, sobrevinha uma mudan<;a de rumo , no momenta em que elas tomavam
o11;, ll' ll cia da necessidade de ouvir o outro, em condi<;;6es de igualdade, e em prol de
tllillllt) r tivo maior.
I '> ll' tipo de arranjo provocava tambem uma altera<;ao perceptiva dos estere6tipos.
, 11111;tl mente, estere6tipos ja formados sao bastante imunes a novas informa<;6es que
•I '111ll radigam. Dai o fracasso das primeiras campanhas antipreconceito , que se bat ,I\ ,1111 na cren~a de que bastaria dar muitas informa<;6es corretas as pessoas preconi ,·u11osas - "educando-as" - que elas mudariam de atitude. Sabemos hoje, no entanto,
qw nao somos receptores passivos a informa<;6es, que somos sensiveis a distor<;6es
II':' re ptivas e que aspectos emocionais inerentes ao preconceito podem fazer com que
ii ·l tndividuos nao prestem aten<;ao a mensagens que venham de encontro as suas con' 11 ~·l)es
mais intimas.
No caso do quebra-cabe<;as, atraves do novo tipo de contato proposto, os alunos
.11 ;tbavam reformulando suas percep<;6es iniciais, desfazendo estere6tipos. lsto, por
tut vez, fazia com que os alunos ate entao discriminados recuperassem sua auto~ ·~ tima, se sentissem mais relaxados e confiantes e, consequentemente, tivessem urn
utclhor desempenho academico. Uma especie de circulo virtuoso, com a mudan<;a no
romportamento levando a uma altera<;ao das atitudes.
161
:.; , (I 1}B!I) Atitudu!> c;o 111 rolcu,(ro ' ' cor orll ' ' itlll~CH· pr
••0 (1111 '1 P\/{ologlu : rolloxt.ro o crltico, I , p. 32 -3 / .
Rosumo
Inil til
vh I' I "'''lr '"'"''"' " '"'
\1 ' tlrl\tll
cPlll<llllllltll
I''"
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IL L. Mcnckcn
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iifi-111 ~ . W. & WORCHEL, S. (orgs.). The social psychology of intergroup relations. Mon-
<A: Brooks/Cole.
toes para trabalhos individuais ou em um grupo
I) 0 que sao estere6tipos?
) 0 que voce entende por rotulat;ao?
I) Quais os tres componentes constitutivos do preconceito?
I) Oll exem plos de manifestat;6es de ideologic inconsciente.
!r) De acordo com a teoria do conflito grupal realista, quais seriam as causes do
preconceito e do discriminat;ao?
ALLPORT, G. (1954). The Nature of prejudice. Reading, MA: Addison-Wesley.
•) Em que consiste a hip6tese do bode expiat6rio?
ARONSON, E. (2004). The Social animal. 9° ed., Nova York: W.H . Freemon and Co,
I) Quais as chamadas causes sociais do preconceito?
DEVINE, P.G. (1989). Stereotypes and prejudice: Their automatic and controlled com
ponents. Journal of Personality and Social Psychology, 56, p. 5-18 .
II) Quais sao as estrategias efetivas no redut;ao do preconceito?
DOVIDIO, J.F . & GAERTNER, S.L. (orgs.) (1986). Prejudice, discrimination, and racism.
Nova York: Academic Press.
I 0) Como se d6 o preconceito no Brasil?
11) No suo opiniao, o preconceito no mundo vem diminuindo?
'}) 0 que e a interdependencia mutua?
DUCKITI, J. (1992) . Psychology and prejudice - A historical analysis and integrative
framework. American Psychologist, 47 (1 0), p. 1.182-1.193 .
HEPWORTH, J.T. & WEST, S.G. (1988) . Lynchings and the economy: A Time-series Reanalysis of Hovland and Sears (1940) . Journal of Personality and Social Psychology, 55,
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163
162
br cmc.o'l, mu
M.l (7002) . Pslcologio socia l dos cstcre6tipos . Sao Paulo : EPU .
ol,l!llllt
/PI IIICI <k I" I' ( ()II( ('i/() (' t (Ill it) lilt (' I, ., "''""' IIIII II 11'111/'111 '" ' '' "''
illjC/110 \I'll/ \lllll ,
0 preconceito parece ser tao velho quanto a propria humonidade, e dod
erradicat;ao . Sua base cognitive ancora-se nos estere6tipos, con junto de cron1,U1
corretas ou nao- que atribuimos a individuos ou a grupos. De forma similar,
buir r6tulos a uma pessoa nos leva a pressupor comportamentos compativei!. c
o r6tulo imputado. No coso dos papeis de genero, por exemplo, isto pode cond1
a erros de julgamento no que diz respeito a manutent;ao de desigualdades
homens e mulheres. Alem de sua base cognitive, representada pelos estere6tipo1
os preconceitos possuem um componente afetivo, a sober, os sentimentos nogutl
vos, e um componente comportamental, tambem chamado de discrimino~
Dentre as possiveis causes do preconceito, temos as competit;6es e os conflito
economicos, fatores de personalidade, a questao do bode expiat6rio e fatores .
ciais, como a aprendizagem, a categorizot;ao social e a conformidade. J6 em tor
mos de redut;ao do preconceito sabemos que estere6tipos podem ser inibido1
ap6s sua ativat;ao autom6tica; que a ogressao pode ser deslocada ou inibida d
forma a neutralizer seu veneno (veja capitulo 8) e um contato em iguoldado d
condit;6es, com enfase no interdependencia e no busca de objetivos superiores co
muns, pode crier harmonia onde antes havia 6dio e discriminat;ao. Principalment
se isto tudo for acompanhado de mudant;as macrossociais, que questionem nor
mas sociais, modelos educacionais e pr6ticas conformistas incentivadores de pro
conceitos de quaisquer especies. Desta forma, poderemos algum dia viver, contra
riamente ao pessimismo indicado em algumas das epigrafes contidos neste copl
tulo, num mundo reolmente livre de preconceitos.
~co lor O!>
tl(l
Ieos sobro conformldade
7
II flllllllillllllmli lfllll {llltla
Conformidade e persuasoo
(arlo~
(()IIVl'llit'lldll (' 1111111
Qualquer urn que conduza uma discussao apelando para a
autoridade nao estd usando sua inteligencia; esta usando ap''"'''
sua mem6ria.
Leonardo da Vinci
Urn dos fenomenos que mais comumente ocorrem no relacionamento inte rI"
soal e o fen6meno de influencia social. Alias, todos os fen6menos estudados pe la P"l
cologia social envolvem, de uma forma ou de outra, algum tipo de influencia smr.el
Aronson, Wilson e Akert (2007) dizem que influencia social constitui a essenc r.r tl
psicologia social. Constantemente estamos tentando influenciar outras pessoas c .,,.,,
do por elas influenciados. Nossas atitudes, como vimos anteriormente, derivam rnu l
tas vezes de influencias de outros significantes e sao as vezes mudadas devido a per..,1111
sao de que somos alvo. A enorme soma de dinheiro gasta em propaganda demons lr .r
confian~a na possibilidade de as pessoas serem persuadidas. E, de fato, influencia rno
e somos influenciados com frequencia, as vezes com a inten~ao de faze-lo e, outra<, ,.,
zes, servindo de referencia positiva (ou negativa) para outras pessoas e as influencian
do sem perceber. Zajonc (1968) define a psicologia social como sendo "o estudo d~t
dependencia e a interdependencia entre as pessoas". Em outras palavras, a psicologe~t
social estuda a influencia recfproca entre as pessoas. Trata-se, pois, de urn dos mais irn
portantes t6picos abordados neste Manual.
No presente capitulo singularizamos os fen6menos de conformidade e persuas;hl
para estudo especifico. Neles o fen6meno de influencia social se manifesta de forn111
inequfvoca.
Quando falamos em conformidade e persuasao estamos nos referindo ao fato 1h
uma pessoa induzir outra a comportar-se de uma determinada maneira. Isso nao c a
mesma coisa que mudan~a de atitude, uma vez que uma mudan~a de atitude imp line
numa mudan~a interna e nao apenas comportamental.
Veremos a seguir os estudos classicos relativos a influencia social conduzidos pot
Sherif (1935), Asch (1946) e Milgram (1965). Em seguida, serao apresentadas varia.,
taticas comumente utilizadas para persuadir as pessoas a exibir determinados compo r
tamentos. Finalmente, diferentes tipos de influencia derivados da utiliza~ao de dife
rentes bases de poder social serao apresentados e analisados sob uma perspectiva atri
buicional, em coerencia com os avan~os contemporaneos relativos a cogni~ao social.
164
de
1111111 pwll'la
de
i' lllu\iamw,
tww de
t/c\illjOIIliCI(ciO.
D1 ummond de Andrade
!11 r il ( lll.l'> ) conduziu uma serie de experimentos referentes ao fen6meno de susllliilid 1111 .1 inllutncia de outrem. Tais experimentos utilizaram urn arranjo experiht td 1•.1'· 11 o que consistia em solicitar aos participantes que estimassem a distancia
t!iTIII.t por Lllll ponto de luz que "se movia" num ambiente totalmente as escuras.
, ,did.ulc o ponto luminoso era estacionario, porem devido a uma ilusao conhecida
'"''"''II do dcito autocinetico, ao contemplarmos urn ponto luminoso num ambilli tl• .111111do de pontos de referencia tal como uma sala totalmente as escuras, temos
IIII'J, III dt que o ponto luminoso se move em varias dire~6es. 0 fen6meno ocorre invae•ltlll 1111' com todas as pessoas, porem as estimativas da distancia percorrida pelo
• ht111111o..,o variam de pessoa a pessoa. Em urn de seus experimentos, Sherif obteve
1l11r.r1rvas dos participantes colocados a s6s na sala escurecida e, em seguida, cololl. ~~ ~ 11.1 companhia de urn aliado do experimentador cuja fun~ao era fazer estimati'"' ;1,1111e diversas das apresentadas pelo participante "naive". Assim, se o sujeito diltlli\1' , t•rn sua opiniao, o ponto luminoso se havia movimentado cerca de 20 centfmelu!'i ".drado do experimentador dizia que, para ele, o ponto se havia locomovido por
!iii' d1 •.1.1ncia de 1 metro, por exemplo. A medida que a situa~ao era repetida, verifi'!1 .lwr rl uma tendencia nftida a aproxima~ao dos julgamentos feitos pelos particip !!IIi ., no sentido de torna-los mais semelhantes aos emitidos pelo aliado do experil!lllli.ulor. 0 mesmo fen6meno tambem ocorria quando dois sujeitos eram colocados a
H', 1 ! ' Ill seguida, em conjunto, e solicitados a realizar esta mesma tarefa. Quando os
111I1• lllll'lltos eram feitos na presen~a de outrem, notava-se uma convergencia das avall .i\IH., no sentido de atingirem uma norma aceita por ambos, que era entao adotada
el!i' j11lgamentos posteriores.
'
resultados destes experimentos podem parecer indicadores de urn conformislii•l 11<10 adaptativo, cego e injustificavel. Levando-se em coma, todavia, que o fenome11!1 ,uuocinetico e urn fen6meno caracterizado pela ambiguidade da percep~ao, esta in,,.' I" rta~ao de tal conformismo nao parece totalmente justificada. Afinal de contas, diiilll de cstfmulos ambfguos, nao deixa de ser prudente confiarmos, ate certo ponto, no
d1 poimento de outras pessoas. Ou mesmo no comportamento: imagine-se o leitor
1111111 acroporto de urn pais asiatica e necessitando ir ao banheiro. Mas por uma distra. 111 dos administradores locais, as portas dos banheiros- masculino e feminino - nao
. 11111tm as tradicionais indica~6es simb6licas do sexo a que se destinam (bolsa e luva,
. 111ola, figura masculina ou feminina, etc.); ao inves disto, ha apenas inscri~6es na lin1 )-,
165
guo~
ll ,liiV<t , qur VIH t' dr 'irtllliltTI' po1 r<Hilpkto . <Ju. tl u 'o11d11t.t ,, ..,,, .tdotada? A 1
po~la l' ~impll·.., hao.,la l'o., prrar que tun lwmem (ou uma IIHtlilt•l) lllgll'"o'>C por ll lll ,tl
ponas, c que de Ia ~aia, momcntos dcpois, scm maiorcs a lt era!,'l)l'~ ...
fli.,lol ~.to d o jul g; ui H' II IO ]H'IIo.,av:lln qtH' ll;~vl,t algo til' t' l l'ado r0 111 "'"' vis<lo ou
llll'"o lllll" l' p111 ,..,..,o ~eguwm a opini<lo u nanimc ;
ttill 'il)\''
1
De outro lado, no cntanto, quando o eslimulo nao e ambfguo, o confo11111 •,1J
pode indicar urn comportamento inadequado. Asch (1946) testou o comporta llll'll l
dos individuos diante de estimulos bern estruturados e nflidos, eliminando dr
modo o fator ambiguidade do experimento anterior de Sherif. Asch colocou os p:111
pante na seguinte situac;:ao: o sujeito "naive" era propositadamente colocado n uma 1
sic;:ao tal que, antes de ser solicitado a emitir seu julgamento, varios aliados do Ex ]
mentador ja haviam emitido os seus. 0 julgamento a ser enunciado consistia em d
qual entre tres linhas de comprimento variado era do mesmo comprimento de un1.1l
nha padrao colocada ao lado destas tres, tal como na fig. 7 .l.
ltlt .. ton;.to da
pel-et· p ~·ao :
rea lmen te pcrccbiam a linha errada como sendo a q ue
ttiiii '" P""dl,l em romprimcnto a linha-padrao. Apenas uma pequena minoria aprellltlll dl o., tor~·ao da pcrccp(;ao.
( 11 111 IIIIH' nto de Asch tcm sido refeito em diferentes epocas e locais eo fen6mel!t • ""lotlllio.,mo sc rcpcte mais ou menos na mesma proporc;:ao verificada no expellii!lllllollglllal . Whittaker e Mead (1967) replicaram os achados de Asch com sujei\1111. Ill olllO'> , brasileiros, libaneses, rodesianos e chineses. Trata-se de urn conforll .l !i.ll 11 ,tlmentc surpreendente, tal a clareza da situac;:ao estimuladora. 0 experimentn •.' Lt 1111 1damcnte a forte pressao exercida pelo grupo e demonstra quao suscetiveis
1111111.., ;\ pos ic;;ao unanime de pessoas semelhantes a n6s . Crutchfield (1955) repe11 II• 111 11111Cill0 de Asch utilizando urn sistema eletr6nico de forma a permitir que
!1• 1111l1viduos fossem sujeitos da experiencia simultaneamente, sem a necessidade
ill ,llloo., do cxperimentador. Cada participante era colocado numa cabine diante de
1111 ]i1ti lltl que indicava as respostas dadas pelos demais participantes do experimento.
ill! ti 111 na programado de tal forma que todos tinham diante de si a indicac;:ao de
ptr l•ul11o., os demais haviam feito urn julgamento igual, julgamento este contrario a
ul!'111 1.1 dos sentidos. Os resultados encontrados confirmaram os obtidos por Asch.
I .111dos posteriores, sempre corroborando os achados iniciais de Asch, vern aju-
p
a
b
c
Figura 7.1 - Exemplo de um estimulo no experimento de Asch
Os aliados eram instruidos de forma a apontar uma linha nitidamente errada COl
sendo aquela que, em sua opiniao, era do mesmo tamanho da linha colocada a esqu
da como padrao. No exemplo da fig. 7.1, eles diriam unanimemente que a linh a q
corresponde em comprimento a linha-padrao era, por exemplo, a linha c. Isto oco 1
ria em 75% dos julgamentos solicitados. Para surpresa do experimentador, cerca
33% das respostas dadas pelos participantes eram no sentido de concordar co m
maioria unanime, apesar do erro clarissimo que ela estava cometendo! Verificou A
que o efeito de pressao do grupo desaparecia quando a unanimidade era quebrada,
da que por apenas uma pessoa.
Atraves de entrevista posterior ao experimento, Asch verificou que os participan
que se conformavam como julgamento errado da maioria faziam-no por tres raz6c~:
a) distorc;:ao da ac;:ao: percebiam que a maioria estava em erro, porem nao tinha
coragem de a ela se opor e, consequentemente, emitiam urn julgamento semelhant
166
li, !11
,, dnimir certas duvidas e aprofundar os conhecimentos existentes sobre a con-
11'! lillll.tde. 0 tamanho do grupo, por exemplo, tern sido alvo de especulac;:oes adicio1111 1'.11 .1 Asch (1946) a conformidade aumentava sensivelmente a partir do momenta
111 •[Iii os opositores chegavam ao numero de tres, sendo minima, a partir dai, a in11111111 1.1 dos demais, o que foi confirmado por Rosenberg (1961). Gerard e colaboralltlo"i ( 1968), no entanto, encontraram urn aumento linear, isto e, quanto maior o grulll.llor a pressao e maior o conformismo. Para Latane (1981), estas discrepancias se
l1 \1. 111 .to fa to de nao terem sido levadas em considerac;:ao dados importantes no pro" .tlem do num ero de pessoas: quest6es qualitativas ligadas a forc;:a da fon te (visil.lllol,uk , status, credibilidade e poder das pessoas que estao influenciando) e a sua prol!ulll.ldc (estarem perto ou nao da pessoa alvo).
(1984) mostraram igualmente em seus estudos que, entre oullw l.11ores, o tipo de tarefa e as diferenyas individuais tambem contribuem para areI til Ill ia (ou nao) a pressao grupal.
I .tnford e Penrod
\ I 111 dado importante diz respeito as diferenc;:as culturais com relac;:ao a conformilti! ll No japao, por exemplo, estar de acordo com os outros constitui urn sinal de tole-
''''"'·' · autocontrole e de maturidade (MARKUS & KITAYAMA, 1994), diferentemen-
167
·'II'"·
ll' do qu1· ill'Oilll'll'
ondt• ,, p1op1 ''' p.dav1.1 tonltlltlli..,IIHI I till Ulll.l rollota~;ICJ
jorativa, a'>sociada a Iraqueza, austncia de indejH'IHknna, de lto11eo.,t idadc e de ' ''"
de convic~oes. Outras culturas, como a africana banto no Zimbabwe (WIIITI i\ I\ I ll
MEADE, 1967), tambem tendem a valorizar a conformidade. Curiosamente eo., tr-. oi
tores estiveram no Brasil, onde reportaram- num programa de replicas aos l'\ jll
mentos de Asch- um indice de 34% de conformidade, similar ao encontrado no Ul
no e em Hong-Kong. E Milgram (1961) encontrou, ainda tendo com referencia o9
tudos de Asch, diferen<;:as significativas entre franceses e noruegueses, com estco., 11
mos, muito mais sensiveis a a~ao pr6-conformidade.
E, dentro de uma mesma cultura, valores podem vir a ser avaliados de for m., dl
tinta ao longo do tempo. Ha indicios, atraves de replicas do experimento de Asc h rul
duzidas quase trinta anos ap6s os estudos originais, de urn decrescimo - nos E~ t. u
Unidos e na Inglaterra- dos niveis de concordancia sob pressao social (NICHO l 1.,( IN
COLE & ROCKLIN, 1985). Da mesma forma, uma compara~ao entre os va lot
prestigiados pelos pais na educa<;:ao de seus filhos nos anos 20 e 80 nos Estados U 1t11lc
mostrou uma queda acentuada da obediencia, da conformidade, do patriotismo r ch
respeito pelos val ores familia res e religiosos. Em contrapartida, os pais acentuara nt , 11
educa<;:ao de seus filhos, a importancia da autonomia, da iniciativa, da assun<;:ao de ll'
ponsabilidades e da tolerancia e o respeito pelas diferen~as (ALWIN, apud REM I I Y
1988). Da mesma forma, pesquisas de levantamento realizadas anualmente de 19'> I
1983 na antiga Alemanha Ocidental identificaram um aumento do estimulo paren tal
autossuficiencia e uma diminui<;:ao da enfase na obediencia. Estudos levados a cabo 11
Italiano mesmo periodo mostraram tendencias similares (REMLEY, 1988). No ta ~
assim uma lenta porem firme mudan<;:a na hierarquia de valores na cultura ocide11 111l
com rela<;:ao aos temas supracitados. Tais mudan~as podem estar por tras dos res ult •t
dos obtidos por Bonde Smith (1996) , que ao efetuarem uma meta-analise de 133 ex pt·
rimentos envolvendo mais de 4.000 participantes- 25% dos quais fora dos Estado
Unidos -, confirmaram um declinio geral dos niveis de conformidade desde os estudo
pioneiros levados a cabo por Solomon Asch nos anos 50. 0 individualismo cresce n1
verificado nas sociedades ocidentais, reflexo dos tempos p6s-modernos que privilegiam
este tipo de valor, pode estar contribuindo para a ocorrencia de tais mudan<;:as. Os au
tores observam, no entanto, que os achados acerca da conformidade ainda sao valido'l
e que o tamanho da maioria, a maior propor<;:ao de mulheres, a constitui<;:ao homog
nea do grupo e a ambiguidade dos estimulos apresentados, concorrem significativa
mente para a ocorrencia de um maior grau de conformidade.
ljiliil ~'
t' t';ttnltH .tdo di.llllt' til' unt .1p.u.11o qtH , "t'gtutdollte 1'1.1 d11o , p10duzi1 ia lllll
tlllllt.ttlltlt.l lll'"'>oa quando LUll l>owo lo~'>t' apenado . llavia JO bott)es eo partit:t'it ttdo1111ado de que o primeiro boLao , quando acionado , descarregaria urn
do• I •, volto., na pessoa cujo corpo estava ligado ao aparelho por meio de eletroilll , '''!toque mais fraco era de 15 volts eo mais forte de 450 volts, de vez que
IHII Ittl illlonado na sequencia indicada aumentava a carga de choque de 15 volts.
lttidp.tntt' recebia instru~oes no sentido de acionar o primeiro botao quando a
'ljlll " ''PO~ tamente estava participando de um experimento sobre aprendizagem
r '' llllllll'i ro erro e era tambem instruido no sentido de aumentar de 15 em 15
ll •t 1' 11 g. t de choque em cada erro subsequente perpetrado pela pessoa no processo
''I''' 11111 .tgcm . 0 aliado do experimentador, que desempenhava o papel de estar se
il!1111 11 11do ao processo de aprendizagem (mas que para o participante era apenas
iil ti I" .-.n.t que errava muito e que estava sendo duramente castigada por ele por isto),
\'t l '""'' utdo no sentido de indicar os primeiros sinais de desconforto quando o
t•UIF ip.ttlll' acionasse o quinto botao , ou seja, o que presumivelmente descarregaria
Iii . Itt 11 pu· de 75 volts. Ao chegar a 150 volts ele deveria solicitar insistentemente que
I'' ottllll -. ... t·m abandonar o experimento. Na intensidade de 180 volts ele deveria gritar
ll ·it 1 qttl' nao aguentava mais a dor. Ao atingir a intensidade de 300 volts ele deveria
\illl tt •, ..,,. a responder aparentando estar prestes a desmaiar. Nesta ocasiao, o experillt ill ul111 ' que estava de pe, ao lado do participante- instruia-o no sentido de que deli 11 llll'>lderar ausencia de resposta como erro e, consequentemente, continuar a seiili 11 qttl' Ihe fora determinado, ou seja, aumentar sucessivamente a intensidade dos
hi'!• jill'" ate atingir o maximo de 450 volts.
\ lt g. 7.2 mostra a curva esperada teoricamente e a obtida na pratica. De acordo
11111 1""t imativa de 40 psiquiatras a quem Milgram solicitou que indicassem qual seria
tl• ., 111penho dos participantes em situa~ao desta natureza, apenas 1% deles chegariam
plwdnTr as ordens do experimentador ate o fim e administrar a carga maxima de 450
oil , "''rpreendentemente, porem, 62% dos participantes o fizeram!
llitli za ndo este mesmo paradigma experimental, Milgram variou o status do experi"'' lll.tdor, a proximidade da "vftima" do participante que aplicava os choques, etc. VeriIll'''' que quanto mais proxima a vitima estava do participante, menor era a porcentai 111 ddcs que obedeciam ate a descarga do choque de 450 volts. 0 contrario se verifica1.1 1nedida que o experimentador era apresentado como pessoa de status superior.
Talvez a serie de experimentos de resultados mais impressionantes nesta linha de
comportamento conformista tenha sido a realizada por Stanley Milgram (1965). A si
tua~ao-padrao dos varios experimentos conduzidos por Milgram era a seguinte: o par
resultados dos experimentos de Milgram sao sem duvida surpreendentes. Tra111 ..1. de uma atitude inadaptada de conformidade e obediencia a autoridade, se hem
it"' ,, situa<;:ao experimental possa, no caso, ter atenuado para os participantes as con' qtu•ncias de seus atos. Isto e, pode contemplar-se a possibilidade de os participantes
168
169
1) s
('OIIlillll'lll dl' l.d 10111\d 110 l \)H'IIIIH'Ill,tdlll ljlll' ;llll'dil:tVillll .;n illlpo'>'>IVl'l qlll' ('1,(
lh e~ ~olici ta~se algo que losse realmt'llle maldico a ou1ro1 JH''>"IHL ~l'lll duv1da, 11 p! i
cesso de atribui~ao de causa lidade impcssoal ao ato de ac.Jminislrar o inten'>o 1 IIIHJ i
teve lugar. Os sujeitos devem ter atribufdo ao experimentador a responsabilidad1 111
que viesse a ocorrer, funcionando ali apenas como urn carrasco que segue onl1 11 ~ 11
sentido de executar o condenado a morte.
~Comportomento obtido
Cl)
Q)
c:
Q)
:.0
Q)
..0
0
0
""0
-
dHI'>iV.t lk qualqtH'I 111odo, o 1'.1111 <k a lll.tillll,tl(' lo ll'11o H'trata hem o poder
Olltillll i.\1 do-. latOI"l''> situacionais.
j.\1111110 lor, o~ e~tuc.Jos de Milgram mcreceram aten~ao e foram replicados em
l'ldtlll,t'>, lace a importancia de suas repercuss6es em situa~6es da vida real.
!lill;l• 1 'lll'lit'ncias foram repetidas na Alemanha, ltalia, Africa do Sul, jordania,
p.ililtl , llolanda e Australia, com os resultados apontando para urn nivel de obedien11\' 11111 pouco maior do que o encontrado na investiga~ao pioneira (BLASS, 1999).
1 i, h11k dl' Munique na Alemanha, por exemplo, o percentual de obediencia chegou
]'),',(Mil GRAM, 1961). E em uma pesquisa realizada em 1995, Meeus e Raaijma,d,tivl:ram os mesmos resultados que Milgram. Alem da replica do trabalho origill ''i illltores tambem testaram urn novo procedimento, no qual os choques eletri1, ·,111111 1rocados por crescentes avalia~oes negativas da performance de pleiteantes a
ug''''muma empresa. Neste caso, como os danos s6 seriam percebidos pelos sudvo posteriormente, os experimentadores obtiveram urn indice de obediencia
1,, 1,1rd ( 1965) apresentou uma analise muito pertinente da situa~ao verificada no
I" llllll'lllo de A.sch (1946). A analise por ele apresentada e feita a luz da teoria da disLIIIt '·' rognitiva e o levou a levantar uma hip6tese que, quando testada, recebeu
Hllltlll,li,'~IO inequfvoca. Basicamente a analise feita por Gerard gira em torno dos seitlll .., pontos:
c:
0
Cl)
Comportomento predito
0
IJ!i 111 1
:~ 40
::>
Cl)
Q)
""0
c:
11) 1111111a situa~ao tipo a de Asch, o participante tern que optar por acompanhar a
tllitlmia e contrariar seus sentidos, ou seguir o que seus sentimentos determinam e
11 < .tr como desconforto de ir de encontro a maioria;
....u
h) ;tmbas estas situa~oes sao dissonantes;
Cl)
c:
Q)
Ol
0
Q)
0
a..
OL
0
0
15
20
lntensidode oumentondo
25
----~
30
450
Volts
Figura 7.2- Comportamento predito e obtido por Milgram (1965) em um de seu
experimentos (reproduejao autorizada por autor e editor)
Como bern resumiram Rosse Nisbett (1991), "nao e que nao existam atributos es
taveis de carater que fa~am uma pessoa se comportar desta ou daquela maneira em tc1
mos morais, mas sem duvida tais atributos podem ser superados de longe por fato re ...
situacionais: onde a pessoa esta, e, naquele momento, com quem". De fato, sea situa
~ao apenas fosse a unica responsavel, 100 por cento dos sujeitos teriam se comportado
170
' l 'ol' em vez de termos tres linhas, uma das quais se distanciando o maximo da li!llt.t padrao, tivermos duas linhas, uma igual e outra diferente da linha-padrao, o
1icipante tera que tomar uma decisao: seguir a maioria ou manter seu ponto de
1 l'ota . Se mantivermos a situa~ao original de Asch, o participante pode permanecer
llltlcciso e indicar uma resposta que significa uma especie de concilia~ao, apontando a linha intermediaria, isto e, nem a exatamente igual a do padrao, nem a indicad.\ pcla maioria.
I'·"
I h' fa to, o experimento conduzido por Gerard comprovou sua hip6tese. Quando
ll)t'itos tern que decidir entre duas linhas, uma identica e outra diferente da liliiLI padrao, a distribui~ao obtida e bimodal, ou seja, os participantes se agrupam no
lul11 nmformista ou independente, com uma variabilidade minima dentro das resposil!'i ,,,. um mesmo participante. Ja no caso da situa~ao original de Asch, a distribui~ao
!' uproxima mais de uma curva normal.
171
( )., n: pct i1111 11111.., .tqtti pa.:..;ado-. t' lll trv i'> l;l ittdt r. tnt , IIH'qut vtH tllllt' lllt', q111
~om o~ lo tlt' lll t' tllt' ntott v. tdo -. ,, enttltt t'OIIl!WllilllH' tllos tndirad o n·-. de r olllntll
mo . Obviamcntc, fatores de p e r~o 11alid ad e intcraiUam com a~ varia vc is s illt,l\ 111
fo calizadas nes tes experim cntos e tcm sido objcto de in vcs ti gac;ao . Ass im , pot r
plo, Rodrigues e Cavalcanti (1971 ) estudaram o papel descmpcnh ado pcla a1111
tima na situa~ao de Asch, rnostrando que pessoas com a autoestima elevada snn
nos suscetfveis de influencia. E Snyder e Ickes (1985) sugeriram que pessoas qtu
considerarn mais necessitadas de aprova~ao pelos outros exibern maior tentl(' tl l 1
conformidade. No que diz respeito as diferen~as de genero, Gerard e cols. (1968) , 1111
traram que mo~as se conformam mais. Eagly e Carly (1981) , em metaamihse dr t'!!l
dos sobre conformisrno , chegaram igualrnente a conclusao de que rnulheres, dt• 1.111
seriarn significati vamen te algo mais sensfveis a pressao social. F inalmente, Ta 11 It, ttl
Penrod (1984) , citados ha pouco, lembrararn igualmente do papel exercido pc la..,cll
feren~as individuais.
Uma contribui~ao adicional para os estudos acerca da influencia social e apo nl ,ul
por Kelman (ARONSON, 2004), que lan~a a ideia de distinguir dentro do termo co nln1
rnidade, tres tipos distintos de respostas a pressao social: a cornplacencia, a identilh
~ao e a intemaliza~ao . No prirneiro caso, urna pessoa cederia para evitar urna pu nt ~·'''
ou receber urna recornpensa; no segundo, o individuo seria influenciado pelo fato d
identificar-se corn determinada figura de evidente ascendencia sobre ele. 0 concr 1111
de identifica~ao , oriundo da psicanalise , fornece pistas para o entendirnento deo.,l
tipo de influencia, ligado a atratividade, consciente ou nao. Finalrnente, na intemalll.l
~ao, o individuo reflete sobre o que lhe e pedido e cede, se passa a considerar o pedtdu
como justo. A intemaliza~ao - de valores ou cren~as - e o rnais perrnanente, ern termo!l
ternporais. Aqui o sujeito, introjetando deterrninadas atitudes, nao depende rnais den·
for~os irnediatos ou de identifica~oes rnais ligadas a esfera afetiva. Urn exernplo, forncr l
do pelo proprio Aronson, esclarece o papel de cada urn destes conceitos: voce pode din
gir urn carro na estrada a 80krn por hora, por rnedo da fiscaliza~ao (guardas rodovia rio'l
poderao multa-lo, caso voce ultrapasse o limite considerado maximo naquela rodov ia,
no caso, 80krnlhora) . Mas tarnbern pode faze-lo por identificar-se corn seu pai, que sem
pre procurou respeitar os lirnites de velocidade legais. Ou voce ainda pode rodar nesta
velocidade, por acreditar que e rnais seguro faze-lo desta forma , pois assirn evitaria aci
dentes e irnprevistos incontrolaveis, caso voce estivesse dirigindo em velocidade exces
siva. E rnais, voce pode andar a 80krnlhora por todos os rnotivos acirna indicados, urna
vez que os rnesrnos - ainda que sirvarn para esclarecer o processo de obediencia a normas- nao sao rnutuarnente exclusivos para ditar deterrninada conduta.
172
t~IIIIHtdas para porsuadlr as possoa
h·lll '
M fl l ',
po.,-.o pCtr logo na ca ma da cmprcgatl a?
1111· ~~.111!
il vilt ,- M.lt', posso pcdalar co m a minha bicicleta em cirna do telhado?
11\o ', -·
lVIII .
Ill•'
tl \' 111
Cl.u o que 11 ~10 !
J·nt<\o posso co mer um biscoitinho?
Alt , i -.~o podc!
(r nt voz baixa):- A velha ta na mao ...
I •"•\I' ll < 111de Calvin e Haroldo . Bill Watterson).
ltttt.t t•xre lcntc monografia sobre o processo de influencia social, Robert Cialdini
J \ i '' "" aprcsenta uma serie de taticas utilizadas para persuadir as pessoas. Destall
iit ll'• .tqui algumas delas.
1\ ltlli <"a ou tecnica do "um pe na porta" (foot-in-the-door technique)- Muito fre-
1~~~' ""
II H' Ill t' vendedores oferecem presentes aos consumidores a fim de que eles o
it• 111 1 o deixem [alar sobre seu produto . Uma vez com "um pe na porta", o vende'"' 1ttl .lll ini cia a tentativa de persuasao destinada a vender o produto ou o servi~o que
h' 1• , , h ta tatica tem a vantagem de fazer o recebedor da comunica~ao persuasiva
ll!rt lh pu'> lO a aceitar hem o vendedor (em virtude do presente recebido) e, principalill' , ,1de permitir ao vendedor urna entrada no assunto de sua venda e de ser ouvilt l 1 ~ 11.tlquer forma de atrair a pessoa alvo da influencia a fim de permitir que o influill it ul or inicie sua tentativa de influencia se enquadra nesta tecnica.
\ latica ou tecnica da "bola baixa" (low-ball technique)- Aqui o persuasor corne1 ,, tlt ci tando algo que leve a urna facil adesao , passando depois para a apresenta~ao
,tp ' '"1 ras a~oes que se seguern a adesao inicial. Por exernplo , Cialdini et al. (1978) rel tlll.ll .1m sujeitos para participarern de urn experirnento. 0 experimentador descreveu
11 , , pn imento de forma atraente e, ap6s obter o cornpromisso da pessoa contatada
p.u,, participar como sujeito de seu experirnento, disse: "muito hem, en tao con to corn
\' ill t' amanha, na sala X do predio Y... as 7 horas da rnanha" . 0 anuncio da hora do exP' ttm cnto (aspecto desagradavel) foi ornitido de prop6sito , s6 sendo revelado postei llltlllcnte, quando ja seria rnais dificil para a pessoa recusar, face ao cornpromisso astuttido antes de saber desta caracteristica negativa.
A tatica ou tecnica da "porta na cara" (door-in-the-face technique) - Esta tecnica
, 11ttsiste ern fazer a urna pessoa urn pedido que certarnente sera negado (porta fechada
173
" ·' c ua ), p;u ,t 1' 111 .,,.g11ida h .• r1 o prdtdo qut• .t IH'""" •'"',tlnu oilt: dr-,q.t , o <pt:tl ~~ 11
mai ., mod c~ lo do que o que lo1 ll'Jl'll ado . Po1 l'xt'ntplo . llllliiH~ IIino , que prL'l isd d, •,
reais para compra r balas, pede a s ua mac 50 rcais para comprar balas. Sua lllllt nl
mente lhe n ega. Ele emao di z: "Es ta bem, 50 c muito mcsmo ; sera que voc(• pod•
dar entao dois reais? " Esta tecnica tern a sutileza de mostrar que a pessoa que qun 1
suadir a outra (no caso do exemplo , o m enino) , e compreensiva e fl exfvel , po 11.11
aceita a negativa inicial; isto, por sua vez , pressiona a pessoa alvo da inf1utn< 1,1 (
caso em pauta, a mae) a mostrar a mesma compreensao (e ate a se sentir cul pad a.,,.,
ser que nao) e nao lhe negar agora urn pedido razoavel. As indefeclfveis "lista<o do
tal", elaboradas por carteiros, lixeiros e outros prestadores de servic;:os na cp<H ,,
!111 jtl_'j ol11dr
0.., (
l.t
I
1110., IIIII l.t VOI
:1
01111 1'111 , 1.,10 IHI.'o d:l, til'. ('(: II;( follll.l , 0 di -
ll it i1111' l.tvo • tgu.d 110 lu1u1 o. Po1 I'X l'ollpl o , ~e l ' U a judo LUll amigo a trocar um
ll ti!H ko o\ tC.Il I ' ll w nha a lt'l tun pn t·u lurado c cl c es teja pen o, eu posso dizer:
1~ IIH 1 11 111 11 .u 11 p11 cu porquc cu Ihe aj ud ci em oUlra ocasiao". A solicitac;:ao de reId Hk ''' " "ltltu uma lonna de inf1uenciar o amigo a ajuchi-lo na troca de pneu.
II11I11HI" -,orial Vimos no prim eiro capitulo em que consiste a tecnologia solfl ti p li ';t 1 pn1 jacobo Va re la. Veremos a seguir urn exemplo de como funciona esta
l• oltil\1 11 '"' p• odw,;o.l o de inf1uencia social.
) nos rel ata o exito alcanc;:ado por uma de suas alunas nos Estados
questao, costumam ser encabec;:adas por ilustres desconhecidos que sempre fa ze111
ll'itl ,t "" de um a intervenc;:ao num caso de uma moc;:a de 19 anos, bonita, de
ac;:oes de uma generosidade acima do normal; mas o mecanismo subjacente eo '" "
utilizado no exemplo anterior (menino x balas x mae): pedir 10 X para ganhar o \
cialmente desejado. A epigrafe que inicia esta sec;:ao descreve situac;:ao amiloga .
l·lo!llli it, otq o., pais eram muito rigidos, muito religiosos e convencionais. Perten-
da. 0 contraste perceptivo e utilizado como tatica de influencia social quando, 1
ln I• '' ''\ .t gera<;ao, Rosa usava calc;:as j eans rotas e desbotadas e frequentava uma
1111 i11 11111gos qu e nada agradavam a seus pais. Rosa se dedicava a trabalhos artfstiIII JIIo d r-,, tgradava a seus pais que esperavam ve-la engajada em "coisas mais res1'
I >urante aproximadamente cinco m eses, Rosa passou a heber muito e a fu1 iii 111111h.t, o que coincidiu com a rejeic;:ao de sua matrfcula numa escola de arte.
111111 ollll t t' II OS derivados das ciencias sociais foram combinadas para produzir urn
d11t 11 111 ol o lt)gico que se mostrou eficaz . Tais conceitos foram (l) conflito aproxi" ,d.t'> la mento de Lewin; (2) a escalade latitude de rejeic;:ao de Hovland e Sherif;
l ,d,,., de lipo de Likert; ( 4) teo ria da dissonancia cognitiva de Festinger; e (5) teot! ,i 11'; \l ,l nci a psicol6gica de Brehm. Varela se refere a tecn6loga social que conduziu
llill ' i 1 IH, <IO utilizando o pseud6nimo de Beatriz. E a seguinte a narrac;:ao que ele faz
exemplo, urn vendedor, interessado na venda de urn determinado produto, mosua
cliente varios outros muito inferiores antes de mostrar o que quer vender. Tendo W I
'" ' .11;11 "lka triz facilmente diagnosticou o abuso alco6lico e de drogas em que incor~~ P1 h, t ro mo coincidindo com a rejeic;:ao de sua admissao a escola de arte. 0 choque
fundo os inferiores, o produto que o vendedor quer vender assume caracteristicas mu ll
mais atraentes. Cialdini (1993) cita urn exemplo interessante de uma carta escri ta
l11 ! 1 I' 1 ~. 1 0 foi interpretado por Rosa como uma rejeic;:ao de seus valores e habilidades
Contraste perceptivo - Estudos sobre percepc;:ao visual nos mostram que,
exemplo, a cor cinza vista contra urn fundo preto e percebida como mais clara do q11
mesmo cinza quando colocado contra urn fundo branco. De igual modo, uma mes oll.t
tuac;:ao pode ser percebida de forma distinta, dependendo de onde ela esteja inserid.t
uma pessoa quebra urn brac;:o no acidente de autom6vel onde os demais passagr
morreram, o brac;:o quebrada e visto como algo insignificante; o mesmo nao acontL'n
se uma pessoa escorregar e quebrar urn brac;:o enquanto passeando com outras na ca
uma estudante universitaria a seus pais. Ela inicia a carta pedindo a seus pais que se s<·n
Hi .111 '"' Urn conflito aproximac;:ao-afastamento se deveu ao forte desejo de seguir a
•l' il 'a .u-ltstica oposto a urn m edo ainda mais forte de uma outra rejeic;:ao. Se este diag-
tern, pois as notfcias que ela tern sao horrfveis. En uncia en tao urn desfile de tragedias qu
lhe teriam acontecido. Depois de enumera-las- incendio no apartamento com perda d
11 ~>, 111 11
todos os hens, brac;:o quebrada, doenc;:a contagiosa incuravel contrafda, escolha afeti v
bastante "alternativa", vfcio em drogas, etc.-, ela conclui a carta dizendo que tudo aqul
ll!loo que urn esforc;:o seria dirigido no sentido de fazer com que Rosa retornasse a ativi-
lo era mentira, mas que ela havia tirado uma nota muito baixa em Hist6ria e sido re pro
t•: I lona escalade atitude do tipo propos to por Hovland e Sherif foi construida repre-
vada em Quimica ... Seus pais, aliviados por nao ser verdade o rol de tragedias que ela Iio;
tou, viram os maus resultados escolares de uma maneira muito mais branda do que st·
estudante nao tivesse utilizado a tatica do contraste perceptivo.
l.llllltd o a provavel situac;:ao de Rosa naquele momento. Isto foi feito atraves da aloca-
174
lor correto , as drogas eo alcool devem ser mecanismos de defesa que deverao
'l'·" l'ccr uma vez que ela readquira confianc;:a em suas capacidades. Foi entao decij,!il, · :11 tlstica ao inves de dirigi-lo para a mudanc;:a dos habitos de heber e fumar dro-
111 1k va lores tipo escalade Likert as afirmac;:oes que variavam desde a altamente acei''' .111 .1 altamente rejeitada. Isto constitui entao a escalade latitude de rejeic;:ao para a
,1,, 1111stancia" (p. 916).
175
i\ ,...,,, d.1 ucllto< t!l ll .., lllll.dat·
afillll<H,;tW'>
S<IO OS
o~
v.do1r., llpnt•..,t. d.l dt• I ikt'll .llliiHlldo.,
""''.If
r 111 dttgl.t .,m tal
11111'>11 a l'llt.ll .,,In ll'htlados por alun os trcinaclos pclo profcslt 1 111 '•I' ll.,' msos na'> varias univnsidaclcs lalino-amcricanas, americanas e ca-
scgll tllll'S:
o.,l'
tttldt kcionou como professor-visitante.
Valor atribuido
AfirmaCjOO
+8
Eu sempre gostei de arte .
-1
Eu agi certo ao nao seguir o conselho de minha mae quando
mostrou contr6ria a eu pintar.
-2
H6 sempre obst6culos no vida dos artistes.
-3
Os artistes nao devem necessariamente seguir os conselhos do
crfticos.
-4
Os diretores das escolas de arte nao tern tempo nem sao infollv
no julgamento dos pedidos de matrfcula
-5
A opiniao negative do escola de Arte do Leste e apenas mais umu
opiniao negative que os artistes tern de enfrentar.
-6
Eu acho que eu vou tentar a matrfcula novamente no proximo
perfodo.
-7
Eu vou mandar para eles algumas pe<;as do minha nova atividod
artfstica.
-8
You pegar meu material. You come<;ar a pintar agora.
~~==
A estrategia usada pela tecnologia social foi a de induzir Rosa a estados de disso1
cia atraves da provoca<;ao de reatancia psicol6gica. Esta e produzida atraves da tentatl
de impor certas atitudes ou cren<;as sobre as pessoas. Tentando impor o oposto do qur
quer obter, canalizam-se as for<;as de reatancia psicol6gica na dire<;ao desejada. Ao trill
recuperar a liberdade amea<;ada atraves da ado<;ao de uma posi<;ao contraria a impt
pela tecnologia, Rosa entra num estado de dissonancia. Ela resolve esta dissonancia 11111
dando a sua maneira de pensar acerca da posi<;ao em questao: isto e, se ela era con iI ii
conteudo da asser<;ao, uma vez que lhe e imposto e ela reage por reatancia, ela passa a
favoravel a tal conteudo. Manejando, portanto, reatancia e dissonancia no sentido ck ol
teras posi<;6es desejadas, o tecn6logo social chega a seu objetivo que, no caso, era fa
com que a afirma<;ao que Rosa mais rejeitava "Vou pegar meu material; vou come<,;;u
pintar agora" passasse a ser por ela desejada e realizada. A interven<;ao foi bem-suceclid
Rosa voltou a pintar, iniciou sua prepara<;ao para tentar a matricula na escola de alit'
deixou de ser uma dependente de drogas e de alcool.
Alem destes casos reproduzidos em detalhes para permitir ao leitor uma vi"''''
mais clara do uso da tecnologia social, Varela (1975; 1977; 1978) nos mostra como
tecnologia social conseguiu recuperar urn delinquente contumaz, urn egresso de utn
hospital psiquiatrico, urn pai dedicado que arruinava a saude de tanto trabalhar, pen
sando que , com isto, beneficiaria sua familia, etc. Alem disto, muitos outros casos em
176
nulclode derivada da utilizaCjao de diferentes bases de poder
Em qualquer lugar onde encontro uma criatura viva, encontro o
desejo de poder.
Nietzsche
I i\'llt It r Raven (1959) apresentaram uma taxonomia das bases do poder social na
l t lt ~ tlllgllt'tn os seguintes tipos de bases de poder:
l"llkt de recompensa;
l'ndt 1 de coer<;ao;
1""1' 1 de legitimidade;
11111!1 1 de referenda;
ptllltl de conhecimento.
Pit ~ lu 1ormente, Raven (1965) acrescentou uma sexta base de poder
a taxonomia
lltu
l"1111'r de informa<;ao
Vn unos a seguir caracteristicas de cada uma destas bases de poder as quais constiii! 11111 potencial de influencia social. Por exemplo, uma pessoa capaz de recompeni lilltt.tlt'm, sobre esta outra, o potencial de influencia-la atraves de promessa de renII 11.,:1 para a emissao de determinado comportamento. E assim com OS demais ti;1, pmler social acima indicados.
de recompense
1lll.tnclo A e capaz de influenciar B em virtude da possibilidade que A tern de re'"'111 lhar B caso este obede<;a, a base da influencia exercida eo poder de recompen-
i ' 1111to no caso anterior , tal tipo de influencia e diretamente ligado ao reconhecillltttlll por parte da pessoa sobre quem a influencia e exercida, da capacidade do inlliu' llt i;tdor de mediar recompensas. Quando urn pai diz a um filho que se ele fizer tal
.. t· .1 trc ebera uma recompensa, a influencia se baseia no poder de recompensa. Ela
1 1 ln·m-sucedida sea recompensa e desejada pelo filho e ele reconhece em seu pai
IILIItdade para concede-la.
177
Podcr do coorc;6o
Quando At' capaz de inlluennar llem vi11ude da poo.,..,ihil1dadc que A 11'111 d1 1
gir castigos a B caso cstc nao obedc<;a, a base de inllu(•ncia l'M' rcida co podn d1 1
c;:ao. Tal tipo de inOuencia e diretamentc dcpcndcntc da possibilidadc recon l~t1 ttl1t
B de A aplicar-lhe sanc;:oes caso ele nao ceda a influencia exercida por A. 0 pod1 1 1
sobre B cessara no momenta em que B nao mais reconhecer em A a possib dtd ,ul
mediar-lhe punic;:oes por nao aceitac;:ao da influencia exercida. Um chefc de St\,111
exemplo, capaz de infligir punic;:oes a urn seu chefiado, podera conscguir que ,...,11 1
as suas influencias; deixara de obter tal resultado, no momenta em que dcix,u d
chefe, e, consequentemente, perder a capacidade de ser mediador de punic,;<k.., 1'111
seu ex-chefiado.
Poder de legitimidade
Muitas vezes somos participantes de situac;:oes em que determinados C0 1llp.-1t
mentos sao apropriados e outros inapropriados. A propriedade ou impropricdadt
comportamento numa situac;:ao especifica pode decorrer da tradic;:ao, de crenc;:as, dt
lores, de normas sociais, etc. Urn grupo de escoteiros, por exemplo, tradicionallllt'l
obedece as determinac;:oes do chefe do grupo. Tal comportamento e tradicion.d.
parte integrante do sistema de crenc;:as e valores prevalentes na organizac;:ao c c, 1 1
sequentemente, reconhecida como legitima a prescric;:ao de determinados com p1111
mentos por parte do chefe do grupo. Sempre que A emite comportamento dc..,q,u
por B, em virtude do reconhecimento da legitimidade deB prescrever tal com ptlll
mento , estamos diante de influencia baseada em poder legitimo.
Poder de referenda
As pessoas podem desempenhar em relac;:ao a outras o papel de ponto de refc 1
cia positiva ou negativa. Ha pessoas com quem nos identificamos (referencia posi t lVII
e outras com as quais nao temos nada em comum (referencia negativa) . Quando a Ill
fluencia exercida por A sobre B decorre do fato deB ter A como ponto de referc nd
(positiva ou negativa), a base da influencia exercida eo poder de referencia. 0 pod
de referencia pode ser verificado em casos de identificac;:ao, como vimos acima, ond
uma pessoa depende de outra por razoes varias, e emite comportamentos semelha ntt'
ao desta outra espontaneamente (identificac;:ao) ou porque esta outra assim o dcsl'j
(poder de referencia). Urn caso curioso de identificac;:ao com base do poder de refen·n
cia pode ser encontrado na cidade de Pompeia, destruida por uma erupc;:ao do Vu lc;\tl
Vesuvio no ano de 79. Aparentemente, a cidade foi atingida em meio a urn processtl
Ui1111n · q1u to.,r,IV<I~th'.., n·altzad,,.., llil..,l'ndo pao.,o.,ado cnco1Hraramunw pare
II J\il1_h1 llltll.ul.l hmpa dao., ci nzao., que a rccobriam , mostrou os scguintes slotr I'll I\ ,,lllh. qut•m c bebado, gigolo, vadio ou cspanca mulheres , vota em Val tiiiH 11 it 11:-; '" ljlll'o logos nao tenham conseguido saber dos resultados da eleic;:ao,
IIIH'IIIt' 1''1''" noo.,o.,os antcpassados ja sabiam do poder da referencia negativa
.: onhoclmento
'I"' A tem pocler de conhecimento sobre B, quando B segue as prescric;:oes
1d "' po1 A em virtude da aceitac;:ao do conhecimento abalizado de A. Quando
tilt"'! Iii 11 11111 nos rcconhecido como especialista num assunto nos prescreve urn meIll! !IIIJ , 1111., o tomamos. 0 poder exercido pelo medico tern como base o reconheU!I I p1-11 ' p.11 te do cliente dos meritos profissionais do especialista. Nao ha necessitlr 11111 o 1 li ente entenda a razao da tomada do medicamento, bastando apenas
1! 1 IU 111IIil'c,;a competencia no especialista para prescrever tal ou qual comportali!H 1\ inllu(•ncia e, pois, dependente deste reconhecimento e deixara de ser eficaz
liH'IIItl que o cliente deixar de reconhecer em seu medico os meritos de especiaUIIIIin edor do assunto que lhe atribuia.
1
ill lit
I' ciH
lnformaCjaO
IJII 111do uma pessoa, A, muda urn seu comportamento ou atitude em func;:ao de
g;t ni zac;:ao cognitiva provocada pelo conteudo de uma influencia exercida por
j "'"""a, B, e nao em virtude de alguma caracteristi.ca especifi.camente associada a
!11 -1 '·' cpte a modificac;:ao verificada foi decorrente de poder de informac;:ao. Urn venlnt pot exemplo, pode fazer com que o comprador veja por si mesmo as vantagens
1 '''''1'1 ;lr a mercadori.a que lhe esta sendo oferecida. Sea argumentac;:ao do vendedor
1011 1111 co mprador novos insights que o leva ram a deci.dir-se pela conveniencia de
lltllltll a mercadoria, a inOuencia exercida pelo vendedor e enquadravel no tipo de
jlttdr 1 •,odal aqui descrito. Tal nao seria o caso, por exemplo, se o comprador adquirisi 1111 1 cacloria porque urn especialista na materia lhe havia recomendado a compra
1111go. Neste ultimo caso, a aquisic;:ao da mercadoria decorreria da aceitac;:ao, por
11 1!1 11 do comprador, da inOuencia exercida pela pessoa que ele considera especialista e
i 11 ~!-pendente deste conceito que ela tern da pessoa influenciadora. Nao se fala, neste
1111111111 caso, do poder dos argumentos. A resoluc;:ao de charadas ou enigmas, por exemp!•l .,,lo casos claros do uso de poder de informac;:ao.
i't.lll
l'n'>teri.ormente, Raven (1993) distinguiu entre recompensa pessoal e impessoal e
pessoal e impessoal. 0 primeiro tipo se refere a recompensa ou punic;:ao envoi-
,.~~ 1~.to
178
179
Vt'tH io "'"'' tH·..,..,oa (pill'" .,, VIH!' II t'l' ,..,..,o n.lo ..,l'lt'IIIHII.., ""'' .11111ga , ..,,. vmr It
que eu digo eulle<lll'l 1111111o tollll'lllt' com voce) . 0 ..,egu11do ltpo di z IT'>(Wtlo ,, ",_
pcnsas materiais (dinhciro, promo~·ao , prcmio , etc.) e a puni<;tk'> da meo.,ma 11.1111
(castigo, multa, demissao, etc.). Em rcla~ao ao podcr de lcgitimidadc, Raven (I t)l) I l 1
inclui quatro tipos: (a) legitimidade decorrente da posi<;ao ocupacla por uma pc..,.,n,t
legitimidade em fun~ao da necessidade de reciprocar um favor recebido; (c) leg111111
de em fun~ao de equidade, ou seja, a necessidade de dar a cada um de acordo 10111
merecimento; e (d) legitimidade decorrente da dependencia, como ocorre qua11d11
lider depende da coopera~ao de seus liderados para atingir urn objetivo comunt
11'1!1 itl,tltn ,, lllltd:uH,;a dt• alilutk 11a.., ..,11u.t~tH'" de aquil'scencia lorc,;ada. lk faLo,
!ilt' tltll l111 ,, •ecompensa para a maniko.,tar,;;lo publica de um comportamento
'' trlltvtr~· ()t''> intcrnas do agente, maior sera a dissonancia por ele experillt.tllll ..,na a motiva~ao a reduzir esta dissonancia. Uma das maneiras de
111 k•• 11111dar intcrnamente, fazendo com que o ato publico seja coerente com
1 '' '"'it t,IW.., intcrnas. Sea recompensa for muito grande, os elementos cogniti- , kiiV.IIII da magnitude da recompensa concorrem para diminuir a dissonancia
rn• 111 .ul.t pda cmissao de comportamento contrario as convic~oes intimas do
olilh 11llando a modifica~ao interna de sua posi~ao original.
Raven (1965) classifica os tipos de influencia vistas acima em dois grandt·-.
pos: independente e dependente. Subdivide ainda a influencia dependente em (Hihl
e privada. Vejamos como as seis bases de poder acima descritas se enquadram 111
categorias.
udu dependente e privada
I !t\ cw;o-; em que o comportamento exibido em decorrencia de influencia exercida
I'' iiol• ~ d.t'> ca racterfsticas do agente influenciador tal como percebidas pelo influen1!; A•• IIIVl''> de este comportamento ser apenas uma manifesta~ao externa coerente
lnfluencia independente
Ea que se verifica quando a base do poder exercido eo poder de informa~ao.
Nr
tipo de influencia, a pessoa influenciada nao depende da pessoa influenciadora, dr
que o conteudo da mensagem proveniente da pessoa influenciadora provoca ret'"''
tura~ao interna na pessoa influenciada e esta reorganiza~ao interna e que e respon'>,l
pela emissao de determinado comportamento. A pessoa influenciada nao depe111
pois, das caracteristicas da pessoa influenciadora, mas sim da reorganiza~ao cognillv
provocada nela mesma.
lnfluencia dependente e publica
Quando a influencia exercida se baseia nas caracterfsticas da pessoa influenciado
ra, diz-se que ela e dependente. Alem disso, quando ela s6 suscita comportamentos ''"
ternos de acordo com a influencia exercida, mas nao corresponde a uma modifica~·;ln
interna da pessoa no sentido de aceitar o comportamento, ela e publica. Exemplos llpl
cos de influencia dependente e publica sao as modifica~oes comportamentais obtida
atraves de poder de coer~ao e de recompensa. Tais influencias sao dependentes de vt·
que se fundamentam exclusivamente na percep~ao da pessoa influenciada da capad
dade do influenciador aplicar-lhe puni~oes ou recompensas. Do momenta em que esra
percep~ao desaparece, com ela some o poder anteriormente existente. Tais casas san
tambem exemplos de influencia publica, de vez que o comportamento prescrito s6 ~
exibido na presen~a do agente influenciador a fim de evitar a puni~ao ou receber a re
compensa. Internamente, porem, nenhuma modifica~ao cognitiva se verifica. E por
isto que Festinger e Carlsmith (1959) levantaram a hip6tese de que quanta menor arc180
ltdln C' ncia exercida, ele permanece com ou sem a presen~a do agente influencia'" IIH· da o carater privado a que Raven (1965) se refere. Os poderes legitimos,
11 IH ia c de conhecimento sao deste tipo. Se urn professor de estatistica respeita!111 ,, " " alunos recomenda o usa de um determinado teste estatistico para a solude 11111 problema, o aluno utilizara este teste ainda que nao compreenda precisallli' " 1azao de seu uso e mesmo que o professor jamais verifique se ele utilizou ou
'lr''> lt'. Ocorreu, no caso, uma influencia dependente e privada, de vez que o aluno
!lilt ,, prcscri~ao do professor, por nele reconhecer capacidade e conhecimento para
I''' -~ ,_. ,, vn o teste, e emitiu este comportamento mesmo na ausencia de verifica~ao por
I''''''' do professor (o que da a caracterfstica de influencia privada ao fenomeno).
\ ., '>l' is bases de poder social vistas acima e suas caracteristicas de influencia de\1rl1 11 It' ou independente e de publica ou privada pod em ser esquematizadas no qualtil tth.ti xo.
•,t DO PODER
TIPO DE INFLUENCIA
'""'' de informa~JCio
I'• "''" de coer~Jao
r• .. ct.,r de recompense
l'.,dur legftimo
I'• 11lor da referencia
l'udor de conhecimento
lndependente/privada
Dependente/publica
Dependente/publica
Dependente/publica
Dependente/publica
Dependente/publica
Poder-se-ia dizer que a distin~ao entre poder de
coer~ao
e poder de recompensa e
d! .. necessaria (ou quase) , de vez que se pode conceitualizar a vontade de evitar uma
181
jltllli~.\0
\011111 IIIII (IIIII lljlll d1• lllllllljll'll '>,l Ott ,t VOIIt,ult•
d1 ~
Oil lt:l' lllll.i I(
como uma Cl' l ta I01 111a 1 h- I'V 1tar 11111a putt u,;:\o ( n:lo ll'lThllt \1'1tto d;t II' I 1111 q "'!
cessidadc da distinc;;\o d<.'l'otrc da-. <.' ons<.'qutnl'ia'> do l'\l'tl'll' to dt''> ll'" duh tift
der. 0 exercfcio continuo do podcr de cocr~,:ao tcnd c a alastar 1\Hll'> I' ltt iti •,lt 1
fluenciada da pessoa influenciadora, enquanto que o podcr de tTl'O IIIjll II ' .. ! I
da que nao necessariamente) conduzir a um maior apre~o da pc~-.oa 11dltwl
Caso isto se verifique, o poder de recompensa podera evcn tualm e llll' tr;u1 ••h
em poder de referenda, adquirindo entao a caracterfstica de influ('tH'i:t p111 .ul
tente no poder de recompensa. Alem disso , a coerc;ao requer uma m:1t111 II
por parte de quem detem o poder.Ja na recompensa, ha, como vimos , :tl11 11 tl 11
tendencia de se gostar da pessoa influenciadora e de sentir-se hem , a qtll 'o l,l!l
men or n ecessidade de fiscalizac;ao por parte desta. Aparentemen tc , a n 11 1~ ''"
funcionar melhor quando se pretende resultados rapidos . Mas, para dr1111
prazo, a recompensa eo melhor caminho- mormente se for uma pequc11.t 1n_1
-como vimos na apresentac;ao da teoria da dissonancia cognitiva (cap. 4) l',tl !l
autores, dir-se-ia que o poder de recompensa e o poder de coerc;ao COit'>lllltl
dois lados de uma mesma moeda , tao intrincadas suas praticas em nossas vtt l,t•• (
c;:ao, em casa ou na escola, no trabalho, nas relac;oes familiares, etc.).
Outro ponto importante a ser mencionado diz respeito ao dominio o u .11 r11
fica da influencia exercida. Uma pessoa reconhecida como capaz de kg111111
prescrever determinados comportamentos em um domfnio especffico pock tt.l\1
conhecida como capaz de prescrever legitimamente comportamentos em 0 1111 11
Em outras palavras, o reconhecimento de legitimidade, assim como ode co nlll'l
to, sao restritos a areas especfficas. 0 fa to de uma pessoa ter poder legftimo .,nlu
( ou de conhecimento) nao significa que ela seja capaz de influenciar esta o tt 11 ,1
dos os domfnios .
De outro lado, nao e incomum vermos na grande imprensa celebridadr ., d
determinada area do saber serem entrevistadas e solicitadas a emitir sua-. 1
acerca de assuntos que nada tern aver com as suas esferas de competencia 1111
Trata-se muitas vezes de urn caso de generalizac;ao indevida. Psicanalistas, cu·
sociais, atores/atrizes famosos(as) - sabidamente experts em suas areas de atu
sao chamados a pontificar sobre temas sobre os quais nao tern urn conh ec iII \I'll
nada superior ao nosso. Na verdade, neste caso, o que estaria em ac;ao, baska
nao seria o poder legitimo, mas, sim, ode referenda.
0 enfoque de French e Raven (1959) e as adic;oes de Raven (1965) ofercn·•n
meras possibilidades de investigac;oes de interesse. E importante saber-se qualu
de influencia predominante em determinados ambientes (por exemplo: familia ,
la, ambiente de trabalho, etc.). Raven (1971) conduziu urn estudo no qual sao l'~l
182
1lt1 1tdlttf Ill 1,1111(1\' pmli''>'>OI i ' :d11110 i ' \:IIIIi' roicga l' 011110 cokg.l, l"Oill
lti 1111tl111 qtw acahanws de d<.''>t'l'l'Ver. 1.:111 rchl~'<.\o a csLruLUra do podcr
P.tvr11 i ' Rodrigue!> (1971) conduziram um estudo em que uma
l'il!llllill,'ilt 1 d1· I ih t\ ngclcs foi cntrevistada e classificada de acordo com o
lltlfil l l,l dlllltlll,lllli' na lanulia: clominada pelo marido, dominada pela mulher,
tliiH• 'l lh 1n1quge-. como mesmo poder) e autonoma (cada conjuge exerce o
ir ll ' tlltlll.ul.t area cspecffica). Variaveis tais como tipo de personalidade,
•n•tlid 1'•lolaridadc, etc. foram relacionadas com a maior ou menor ocortpi.:tllll 11po., ptincipais de estrutura de poder na familia . Em outro estudo,
111 l' llttdltgues , (1969) verificaram a ocorrencia das diversas formas de poti dr ol lll.t'> na ... rclac;oes sociais entre OS conjuges. Comprovaram OS autores
rr l1 11 111 1,1 , podcr de conhecimento e poder legftimo sao os mais frequente1• lu· 1111110 provaveis de serem as bases de influencia entre os conjuges; os
\Ti, •,;\o o-. de recompensa e de coen;:ao. Atribuic;ao de influencia baseada
1 111 1!1111111 tmcnto climinui como aumento da idade dos conjuges, enquanto
l1 1 tit• II' II tllll ia aumenta. Os poderes de coerc;ao e recompensa desempenham
t·t lrll ''•'lllt' entre as pessoas de baixos nfveis educacional e socioeconomico.
1.. 1 ,1,, 1. 11 . t ~. 1o tambem eo dado encontrado em relac;ao a felicidade conjugal e
lltlltl i' lt i l.t tttai s frequentemente exercida. Nos casais mais satisfeitos predomina
It' 1d1 11 llll<t , cnquanto que ode coerc;ao e a forma de influencia mais utilizada
til· 11111t1 .un nao estar nada satisfeitos como casamento .
It ul11'> loram replicados no Brasil por Rodrigues, Bystronski e Jablonski
ltd tl1111 '> k i , Co rga e Rodrigues (1995). Estes ultimos, especificamente, fizeram
ll •!t' d1• 111\'IOdologia utilizada em estudos sobre as bases do poder em situac;6es
l11111,tdas em conjunto, estas duas pesquisas indicam, em comparac;ao aos
ll!l t ll!llt''>, uma queda do poder decis6rio do marido, com excec;ao feita aos
i·
"''' '~ "'"'" tdosos da amostra- possfvel reflexo das mudanc;as sociais que acomh!lli " IIHlvimento de emancipac;ao feminina. Alem disso, notou-se tambem a
I!• 1.1 I"" uma estrutura auton6mica de poder conjugal. _I a a legitimidade, a refe-
1 111 111IIH'l'imento foram, da mesma forma que nos estudos precedentes, os mais
tiit 'llll lll l' indicados como provaveis fontes de influencia entre os conjuges.
1l!tltt"ldade, podemos apontar uma inversao no que diz respeito a import~mcia
11 1 1la recompensa nas duas culturas. Embora sempre colocadas nos ultimos
" '• hrasileiros privilegiaram preponderantemente a recompensa a coerc;ao,
" oposto entre norte-americanos (influencia da proverbial necessidade de
11 l11 .t.,dcira ou consequencia das divergencias entre as eticas cristae protestan111; .1.11,1 se pesquisar ... ). Uma ressalva a ser levantada e a de que, nestes dois estu111111 ott se uma amostra declasse mediae media-alta. Seria interessante replicar
183
l''-oll''-o tl,d>.lllto.,, .1go1,1 111111 ;1 1111>.,1 1.1., d1·
1
1;,.,.,1'., 1:11r11tr.;, p.11o1 0.,11111Lu
posstvcb dilereiH,,':h dr l'l,,.,.,r , 10111 1chu,;ao aos top1cos
l ' lll
~J11111.1 ou11,1 condH;tlo o dot'lllr \' lt·v•tdo para Lun C II apos tomar a
iiillltl' p11111o., d1;1., depois. Os sujcitos sao solicitados a considcrar a razao pela
llfltltldt.l lrtllliiiOU fazcndo 0 que 0 medico queria (razao esta descrita em terif l l 11111,1 d.t., .,cj., formas de influencia descritas por Raven) e, para cada uma
I ltd II .11 Ill IIlla escala quao interno e quao controlavel foi o comportamento
1ill! 11 1 dr ohrdeccr o medico, quanto orgulho (ou culpa), aumento (ou dimitll ' li!IIIH '.,IIIlla , quanta gratidao (ou raiva) o comportamento da enfermeira
t' IHIIiiH' Ill quao responsavel era a enfermeira porter exibido tal comporta" 1.1111111 dt• '-ol'US estudos foi medida tambern a varia vel puni<;ao; neste caso os
i,llll •.lllllltados a desempenhar o papel de um diretor do hospital que, ap6s
I! '' tlllltportamento da enfermeira de acordo com cada uma das seis raz6es
Ultitl,t'l, udn11nistraria ou nao uma puni<;ao a mesma.
qlll'.,t:lo .
Reexaminando as bases de poder de Raven sob uma perspectlva
atribuicional
Sinto muita falta de mim quando lenlw de fa ze, a vo11111tlr
Carlos Drummond de Andrade
1
Vimos no capitulo sobre Cogni<;ao Social os fundamentos basicos do f1 111\l
psicossocial de atribui<;ao de causalidade, bern como as proposi<;6es essenci:tto., d
ria atribuicional de motiva<;ao e emo<;ao apresentada por Bernard Weiner ( lllHhl
remos agora como a teoria de Weiner nos permite fazer uma analise atribui11111
fen6meno de influencia social originado pelo exercfcio de cada uma das sri~
principais de poder constantes da taxonomia de Raven (1965).
Rodrigues (1995) mostrou empiricamente que quando uma pessoa e indu
fazer algoa que inicialmente se opunha e isso se da devido a utiliza<;ao pelo in lit
dor dos poderes de recompensa, informa<;ao ou de referenda (de agora em tlt,utl
nominados Bases de Poder do Grupo 1), o comportamento conformista da
fluenciada e percebido como mais interno e mais controlavel do que quando u
portamento resulta de influencia derivada de coer<;ao, legitimidade ou conhet 1
(de agora em diante indicados como Bases de Poder do Grupo 2). Este achado lui
teriormente replicado por Rodrigues e Lloyd (1998) com diferentes amostras, 1'111
rentes culturas e utilizando diferentes situa<;6es de influencia. Coerente com ,, 1
atribuicional de motiva<;ao e emo<;ao de Weiner (1986), quando urn componat
ocorre mediante influencia derivada das bases de poder do Grupo 1 e esse co ntJ
men to tern consequencias negativas, seu au tore considerado mais responsavc l pu
ocorrencia, e mais criticado, gera mais raiva em outrem, se sente mais culpadu.
autoestima e mais negativamente afetada, do que quando urn comportamento n
vo deriva das bases de poder do Grupo 2. Se o comportamento derivado de peto.,J
leva a urn born resultado, seu autor e considerado mais responsavel, e alvo de
gratidao, se sente mais orgulhoso e sua autoestima e mais positivamente afetada
a influencia deriva de bases do poder do Grupo 1, do que quando ela deriva de
poder do Grupo 2. 0 paradigma basico dos estudos de Rodrigues adma citados In
sencialmente o seguinte: os participantes do experimento eram solicitados a co r
rar urn cenario em que urn medico pede a uma enfermeira que administre urn ad
ainda em estado experimental a urn de seus pacientes. A enfermeira se recusa a fa
0 medico lan<;a mao entao de uma das bases de poder descritas por Raven par
fluencia-la e logra exito. Numa condi<;ao o doente se recupera e deixa o hospital
.
184
I"'''' tlltginal
de Rodrigues (1995) e varias replicas que se seguiram (R01 l & I I OYD, 1998; RODRIGUES et al., 1997; ALANAZI & RODRIGUES,
llill 'i llill '"" que a conformidade decorrente da utiliza<;ao das bases de poder do
i (1 (11'1' 1'11ida como mais interna e mais controlavel do que a exerdda em funIJw.,·.; dr poder do Grupo 2, o que leva, segundo as teorias de Weiner (1986;
1!it 11111 1csponsabilidade, maior puni<;ao (no caso de consequendas negativas do
11 htllll 111!1 em questao) e aos afetos esperados pela maior atribui<;ao de internalida'''''"1 d11lidacle. Usando-se uma terminologia lewiniana, as bases do Grupo 1 (rell'HI iliiOitna<,;ao e referenda) sao genotipicamente semelhantes, enquanto que fe\lill. I! II' distintas das bases de poder do Grupo 2 (coer<;ao, legitimidade e conhellltt i 1 1 ~ q11ais , por sua vez, sao genotipicamente semelhantes entre si.
1t
I ••Itt tllt,d ,.,e atribuicional dos diferentes tipos de influencia previstos por Raven
I" llitllt 1 ntcnder melhor por que crimes hediondos sao cometidos sob o pretexto
I• '""·' ;tutoridade esta sendo obededda (ver, por ex., KELMAN & HAMILTON,
!jtt.IIHio uma pessoa perpetra urn crime em obediencia a ordens superiores (pol• kgllttn idade), e mais facil para ela eximir-se de responsabilidade, pois seu comii!'llllit' percebido como menos interno e menos controlavel do que se ela o fizes111 !11.11 .1 dt• uma recompensa, ou porter aceito argumentos, ou por gostar do manOtN·., de poder do Grupo 1). Consequentemente, se quisermos fazer com que
pt ~,.;,,,, .,e sinta mais responsavel por urn comportamento derivado de urn dos seis
tl• i 11 llucncia a qui descritos, devemos utilizar influencia social derivada das bases
I
I ill,iiiiH'nte, acrescente-se que o que foi dito acima se aplica a situa<;6es em que a
Ill' II! 1.1 o.,ocial conduz a urn estado de dissonancia cognitiva. E preciso que a pessoa
lltll•·l.rda fa<;a algo que ela normalmente nao faria; mas que o fez em fun<;ao da inl i.t .odal exerdda sobre ela. Sendo assim, se alguem nao quer, por exemplo, jo185
g•u t(' llt '>,
t OII H't lltll :l dctt' ttllttt.td ,t ro 1111da, l' o Lt. ]Hi t qw o iltlltt t•nciadol lltr pt
mctcu um a reco mpe nsa, cstt co mporta mcnto (que mlo gt' l,t di '>'>O II ~III cia , a nao ..,,., q
scj a uma rcco mpensa pcqu cna), n ao sera percebicl o co mo intc rn o, mas , sim , t OtlHl
terno, tal como en contraram Brown e Raven (1994). Masse uma pessoa faz algo an t1
co para receber uma recompensa, tal comportamento produz disso nan cia e e pc tt rl
do como interno (RODRIGUES & LLOYD , 1998).
0 11
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lnfluencia de minorias
Uma palavra deve ser dita acerca do processo em que uma minoria pode inOut' IH
ar u ma maioria. A partir de estudos iniciados por Moscovici (1980), atraves da c o11~
u~ncia
- esposando urn mesmo ponto de vista repetidas vezes com o apoio de ou tt
membros do grupo minoritario - , e possivel inverter o processo usu al de influc 11d
normativa. Uma minoria p ode introduzir novas e inesp eradas informac;;oes que lcvc·rl\
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UlJ Ustoes para trabalhos ind ivid uais ou em grupos
I ) Q ual a diferenc;a entre conformidade e mudanc;a de atitude?
Resumo
) Q ue foi demonstrado no experimento de Asch sobre a percepc;ao do tamanho de
Depois de serem revistos os estudos classicos de Sherif (1936L Asch (1946) e
Milgram (1963) sobre conformidade, foram descritas algumas taticas de persua sao e apresentado um exemplo de influ€mcia social atraves do "tecnologia social "
de Varela . Em seguida foi apresentada a taxonomic das bases e poder de French e
Raven (1959) modificada por Raven (1965; 1989), onde foram considerados os
poderes de recompense, coerc;ao, legitimidade, referencia, conhecimento e informac;ao. 0 capitulo term ina com um reexame das bases de poder apresentadas por
Raven sob uma perspective atribuicional. Este reexame indica que o comporta mento derivado dos poderes de recompense, informac;ao e referencia e percebido
como mais interno e mais controlavel do que o que resulta dos poderes de coerc;ao, legitimidade e conhecimento . Final mente, foi feita uma breve menc;ao ao poder que tem as minorias, obedecidas certas condic;oes, de influenciar maiorias.
linhas diferentes?
I) Q ue bases de poder sao dependentes e privadas?
4) Como diferem poder de recompense e poder de coerc;ao sob uma perspective
atribuicional?
11) Descreva dois tipos de influencia social.
6) Quais os tipos de poder que sao genotipicamente semelhantes em termos atribuicionais?
1) Caracterize o poder de informac;ao.
8) Como se faz uma persuasao utilizando a tecnologia social de Varela?
9) Em que consiste a tecnica do contraste?
10) A luz dos experimentos de Rodrigues, como entender os crimes dos carrascos
nazistas e dos guardas americanos no prisao iraquiana de Abu-Graib?
Sugestoes de leituras relativas a assuntos tratados neste capitulo
CIALDINI, R.B. (1993). Influence : Science and practice. Nova York: Harper & Colli ns.
FRENCH, J.P. & RAVEN, B.H . (1959) . The bases of social power. In : CARWRIGHT, D.
(org .). Studies in social power. Ann . Arbor: Institute for Social Research .
186
187
l lill lll ll d.I!Hl'> I' IIHIII'- [1,110'> l'l\1 '>I'll'> 'ol'IIH'Ihalllt' 'o , dt•lonna gratlllla, dl'ltbctada OLI
tllUii 1• till II ••·quit\ll''> <k nul'ldade, It k za ou dc~tcmpcro . Quantos de nos nao se
111 111 tllllltdo\ por l''>Sa'> hist6rias c avidamcnte interessados em verde perto esses
I, 1111 ..,,• htla '>l' ate que as proprias crianc;as, hoje em dia , nao mais demonstram
lop11 1 jH'I plexidadc como testemunhas de cenas reais ou de ficc;ao, que exibem
l•lul1 s '> l'lll limitcs. E, pior ainda, sao elas, muitas vezes, os pr6prios protagonistas
1 . ,_, "" " de viol cncia ...
I
8
Comportamento antissocial :
a agressao
A violencia e contempordnea do hom em.
T. Padilha
0 assassinato dentro da pr6pria especie, seja em escala i11divlrlurd
au coletiva, e urn Jenomeno desconhecido no reino anima l, C\t t'lrt
pela homem e par algumas variedades de ratos e formigas.
Arthur Koestler
l ntrodu~ao
Sempre que desejamos avaliar o impacto e a penetrac;ao de urn fenomeno na vid,1
cial, costumamos recorrer a estatisticas, mimeros percentuais, graficos, indices, tal
e, com base neles, extraimos conclusoes, tendencias, projec;oes e, eventualmente, a
mas interpretac;oes gerais plausiveis. 0 confronto entre as varias linhas de analise, ''
tudo, nem sempre se revela esclarecedor ou convergente. Antes que se possa supo1 t
tar-se de erro de perspectiva ou de insuficiencia de dados fidedignos , convem atrihnt r
complexidade do fenomeno em si mesmo a enorme dificuldade em estuda-lo, com
ende-lo ou explica-lo. Esse e o caso particular do fenomeno da agressao humana.
No en tanto, se queremos simplificar nossa tarefa de dimensionar sua extrao rdu
ria relevancia dentro da sociedade- a ponto de julgarmos ser dispensavel a aprese t
c;ao de dados estatisticos sobre a agressao para que os leitores se deem conta da irnp1·
osa necessidade de seu estudo - ainda assim, somos forc;ados a reconhecer que o
sumo requer, por sua extrema profundidade, urn arduo esforc;o de sistematizac;ao t' I
tegrac;ao dos conhecimentos te6ricos e empiricos disponfveis nessa area especd
Deixando de lado preocupac;oes estritamente numericas, poderiamos iniciar n<
abordagem da agressao de forma bastante trivial. Se quisessemos, por exemplo, ele
urn assunto que ocupasse, atualmente, urn lugar especial nas conversas cotidianas I'
tre as pessoas, em casa, entre amigos, nos espac;os publicos ou no trabalho, podcrl
mos apontar, sem medo de errar, a agressao e a violencia humanas. Chega mesmo a
surpreendente a "disputa" entre os interlocutores para ver quem mais acumula ex
riencias pessoais, como vitimas ou espectadores, de assaltos, sequestros, ofensas,
gas, atos de vandalismo, crimes e assim por diante. Os casos se sucedem, quase
acompanhados por uma descric;ao minuciosa da extraordinaria capacidade do
188
' 1111pliasscmos nossa curiosidade e quisessemos saber que t6pico mais absorve
uHiwtt•s de jornais e revistas, os programas de televisao, os filmes e livros de su·•· . lt .ll,unos scguramente a mesma resposta. 0 mundo moderno e globalizado nos
1!1111•- .tlt1mar que se trata, lamentavelmente, de uma tendencia quase universal, as
\ ll' s lt n mdo por coma de comunidades restritas e isoladas do alcance da tecnolo!!
"" progrcsso.
VI\ 1 1nos, en tao , numa era de violencia e agressao fmpares na hist6ria da humanil.ul d (. u l,tmente, a violencia nao cum fenomeno recente,ja que ela se faz presente na
It I :Itit i,1da humanidade, em todas as epocas e em todos os lugares, como citado na epiHir' d1 I arcfsio Padilha (1971) que abre o presente capitulo. E seriam esses fen6melli1 i111 vn stveis em sua marcha, mesmo diante do altissimo nfvel de desenvolvimento
l,.llili'l .tl can c;ado pelo homem? Seria desnecessario dizer, mas nem todo progresso e
jl•!lllltl lhor e nem todos os seus beneffcios revertem em prol do ser humano. Algumas
111 • ttd.to., que se fazem contra o proprio homem "em nome desse progresso" nos leI!!! ;1 dro.,crer, em certos mementos, da capacidade humana em discernir entre atos
li!H:Iigrntcs" e atos "primitives".
\ 11\accrbada "espetacularizac;ao" do fenomeno da agressao na midia em geral e a
llillttl 11!'ia de sua "naturalizac;ao"- denunciam os estudiosos dessa problematica- obs-
111 as perspectivas de convfvio social satisfat6rio pela incontrolabilidade de sua
ill II ncia e de seus efeitos nefastos e destrutivos. Fil6sofos, juristas, cientistas politi•'H iologos e psic6logos debruc;am-se,ja ha algum tempo, sobre o estudo do com11 .llllt'nlo agressivo na tentativa de decifra-lo e, assim, impedir sua progressao e suas
11 ··qucncias. No entanto, a despeito do avanc;o do conhecimento em tantos setores,
111 pouco ainda se pode contar, nessa area especffica, que possa ser aplicado com su'' para deter o ritmo vertiginoso da escalada da violencia.
tli ,_,1
Illante da recorrencia com que se desencadeiam atos individuais ou coletivos de
1'.' 1'• '><10 , com que se deflagram guerras por territ6rios, por motivos religiosos ou ecollt\llllros, com que se hostilizam entre si grupos raciais, politicos ou esportivos, com
II!( .,,. desentendem conjuges, familiares, amigos, inimigos, colegas, estranhos, nao
l•li•• .tlingindo nfveis de profunda violencia fisica e psicol6gica, as projec;oes assumem
I'' 1·.pt•ctivas assustadoras.
189
l'ohn•ta, "' og.l.,, Illig.\ I IIIII' g.ttlglll''-o, pat., ol ll '-ol' l\11''-o, l.ll'iltd:tdt• dt• .\1\'.,,.,-, u
prcconccito c supc t popula~·~to , t'ntn· outros, silo laton·s de twturt•za sot l.d II"
tam a ec losao cia violcntia. I ~ <\ Psicologia Socia l, talvcz mais que a outm., 1,1111
saber, interessa estudar de perto a agressao c violcncia humanas, restri ng11ul11 . 1
seu foco de analise do fen6meno as suas caracteristicas psicossociais, isto t', ,, 1.1_
ra~ao de suas especificidades em termos da intera~ao entre agressor(cs) t' vfti111
enfase e examinar os processos cognitivos, afetivos e comportamentais Sll'-ot tt;u
las situa~oes sociais instigadoras de violencia e de hostilidade de uns co ntra 1111111
jam eles individuos ou grupos.
De urn modo geral, os estudos da Psicologia Social sobre a agressao ht1111.11
dem ser organizados em torno de algumas questoes fundamentais. Existe uma I''
sao natural nos homens para agredir? Que circunstancias ensejam ou prcdi.,pl
pessoas a atos de hostilidade e de violencia em rela~ao aos outros? E possfvl'111
lar, reduzir ou prevenir a agressao?
Neste capitulo, trataremos da agressao e da violencia humanas, procura ndu
ponder a essas e a outras indaga~oes. De modo mais especifico, abordaremo., 11
guintes t6picos:
l) Conceituando a agressao: o que e agressao e quais sao suas principais fo111
2) Buscando as raizes da violencia: explica~oes te6ricas sobre as origens cia
sao. A agressao e inata ou adquirida? A agressao e inevitavel ou necessaria/
3) Identificando as fontes da agressao: que fatores sociais, ambientais e pr
desencadeiam os atos agressivos?
4) Focalizando a violencia na midia: papel formador ou reprodutor de uma .,,
dade agressiva?
5) Como podemos deter ou controlar a agressao na sociedade: perspectiva.,
mistas ou pessimistas na preven~ao da agressao?
No tratamento de cada urn desses t6picos, procuraremos, sempre que for posst
trazer exemplos reais ou dados de pesquisa sobre a agressao, que ilustrem os co
tos, as proposiyoes e hip6teses envolvidas nas constru~oes te6ricas que estarao
tratadas, bern como as interpreta~oes ou explica~oes propostas para o fen6meno.
1. 0 que
e agressao
It 111 11 It 111
!'>I~
a 11111 vt·ndnlor COIIHl tuna pc!->soa agrcssiva sc clc 11~\o n:c ua
dt 11111 ro111prador potencial. Ou qualiricar como agressivo o empred• ,,.,,, rnquanto nt1o conscguc veneer um concorrente.
tiPI'I•I '"" t;tl , contudo, derine agressao como qualquer comportamento que
Ill dt I ,1\\.'>ill' <JanOS, rfsiCOS OU pSiCOl6gicoS, em OUtro organiSIDO OU objet lit tit .,l.ll':tr ncssa ddini~ao a intencionalidade da a~ao por parte do agente
n r/1.,, ~o1ractcriza como agressivo o a to que deliberadamente se propoe a inti tl!!illl ,, .tlgiH'm. Outro aspecto a ser ressaltado e que a agressao nao precisa ser
I Hi_,,-lllt lt.,ica : um chefe que, de forma continuada, assedia sexualmente uma
tlt\ll tl . l'lttvora ndo-lhe ansiedade e depressao, esta lhe causando agressao psicolliqdnu ntr , cum pre assinalar que a agressao nao se limita a alvos humanos, pol!iiilht~ lll '-ol' t" uirigida a objetos inanimados (quebrar a vidra~a do vizinho em re"'' ti
tdglltll alo scu que o desagradou).
j~,,
qttt' ;1 intencionalidade do agente seja urn elemento crucial para a caracterirlt · ttl II a to como agressivo, nem sempre e possivel avalia-la de forma inequivoca.
tirttdtt "" houve inten~ao ou nao? Urn caso, ocorrido no Brasil em 1997, ilustra
p111hlcma: quem nao se lembra do ato de vandalismo de jovens declasse meillit., tlta que incendiaram urn indio da tribo patax6, que dormia na cal~ada? Os
1ogaram-lhe alcool no corpo e depois atearam-lhe fogo. Diante da indig;ptt tornou conta da popula~ao, chocada com a crueza do gesto, e mais ainda
pt• ttln '-ol' podia atribuir tal fato nem mesmo a precaria condi~ao social, desprepati lt•llnl,lncia dos agressores (e nem assim se admitiria a barbaridade do ato), ti! ,1 1l'llcza de uma condena~ao severa. Algum tempo depois, veio a noticia surIHii ntr : o juiz decretara que os jovens nao seriam condenados porque nao houve
f!li"' t/o, rapazes em queimar o indio,fora uma brincadeira cujo desfecho eles nao calUtlill A alega~ao tao pouco plausivel dos agressores foi acolhida pelo magistrado,
It p;ti 11 talvez por serem provenientes de "vitimas bern nascidas", em parte porque
,,11111 llll10 provar que houve inten~ao por parte dos algozes. Posteriormente, em urn
,, jtdgamento, ap6s a senten~a anterior ter sido reformada pelo Superior Tribunal
It Itt d tc;a (STJ), e com outro juiz (a anterior pediu para ser afastada), os quatro jovens
It 1l.t,.,.,l' media foram condenados a 14 anos de prisao: os jurados, por cinco votos a
ltd. 111nsideraram o crime como triplamente qualificado, uma vez que a vitima nao ti'"" d1 lesa, sofreu morte cruel e em crime que teria sido premeditado.
Definir agressao, embora pare~a ser algo dispensavel- quem nao saberia defini- la?
nao e uma tarefa tao simples assim. Is to porque o entendimento do termo na linguagr
do senso comum difere urn pouco do conceito de agressao adotado pelos psic6loglll
sociais, o que acaba por trazer uma certa ambiguidade conceitual. Em seu dia-a-dia,
t )., psic6logos sociais costumam distinguir diferentes tipos ou formas de agressao
ltt1111.111a em funyao dos motivos ou inten~oes que, presume-se, estao subjacentes a tais
11111portamentos. Nesse sentido, referem-se a agressao hostil, que deriva de estados
'"''" 10nais fortes, como a raiva, e tern por objetivo basico causar dano a uma pessoa
1111 nhjcto a fim de satisfazer impulsos hostis. A agressao instrumental, por sua vez,
190
191
Vl'>,l jll\ illdh .11 , 1'1 Ill !llllll,l).\!loll .dglU'lll .qH' ll<l'> t'OitHl IIIII lllllll d1 olli11gi1 Ull\ OUII!l pj,
jctivo. 1::-.sa:-. lormas de agress~lo 11 ~\o ~ c cxclucm muLLtalll\'1111' , pnd1'11do haver compn1
Lamcntos agrcssivos cluplamcnlc molivados. Quando Baruch c;oldstcin , em 1994 ' II Iii
Lou cerca de 30 paleslinos em uma mesqui.ta, foi movi.do provavclmenle pclo 6dio i11
tenso aos palestinos por tirarem as terras que, em seu modo de ver, pertenciam po1 dt
rei to aos judeus, e pela esperanr,;a de desfazer as negociar,;oes que se iniciavam entre ,,,
representantes dos dois governos.
Por outro lado, vimos anteriormente que a agressao pode nao envolver danos 11-.1
cos, podendo a vitima ser agredida verbalmente por insultos, calunias, ou impedid.t
por outrem de atingir seu objetivo. Nesses casos, a agressao e simb6lica e tamb('lll
pode ser hostil ou instrumental. A chamada agressao sancionada e aquela que a soc11·
dade julga aceitavel ou mesmo imperiosa, como por exemplo o comportamento de Lil li
soldado que mata urn inimigo na guerra, ou o comportamento agressivo de uma pl''soa em legitima defesa para proteger-se ou a outros dos ataques de alguem. Essa for m.1
de agressao e tipicamente instrumental.
Ainda urn ponto a ser considerado diz respeito ao fato de urn ato agressivo pocler
ao mesmo tempo ser vis to como urn a to altruistico: os famosos pilotos japoneses kam 1
kazes que arremetiam em missao suicida contra alvos aliados durante a Segunda Guc1
ra Mundial, eram vistos como her6is por seus compatriotas. Agressao ou Altruismo.
aqui, dependeriam apenas da percepr,;ao de cada uma das partes envolvidas. Esse tipo
de agressao e chamada agressao legitimada, no sentido de que os fins que a norteia m
sao, pelos perpetradores da agressao , considerados legitimos. 0 ato terrorista de 11 dt•
setembro de 2001, em Nova York, constitui exemplo do que acaba de ser dito.
2. As raizes da violimcia - Explicac;oes teoricas para a agressao humana
A sociedade civilizada esta perpetuamente am ea.;ada de
desintegra.;ao pela hostilidade primiUva que os homens
demonstram com rela.;ao uns aos outros.
S. Freud
A ampla variedade de definir,;oes para o conceito de agressao resulta, em ultima
analise, das muitas perspectivas te6ricas que se propoem a explicar o comportamento
agressivo dos seres humanos. De urn modo geral, as teorias adotadas pela Psicologia
Social para o estudo da agressao diferenciam-se no grau com que consideram a agressao como algo inato ou aprendido, na extensao com que levam em conta a influencia
de fatores pessoais ou situacionais como instigadores de atos agressivos e, ainda, quanto aos meios e tecnicas que sugerem para o controle ou a prevenr,;ao da agressao.
192
II""""""'''" ltunlaliO'o '> tlo agll''> '> lvn.,
.lgl'lll dt· lollll<l a rau -.a• dtuw:-. em :O. l' ll'>
Fm outras palavras, qual a '"'W''" da agrcssao humana? As inumcras
l1' ''" ·'" de n·., pondcr a cssa qucstao cclllral pod em agrupar-se em tres categorias gerais
IP , . ~ plt cac;t\o :
l '& ll
1111
"'''"·"''''"?
I.1) ,, agrcssao c tao intrinsecamente associada a natureza humana que ela, inevi.taIIIH'nt c, tera que encontrar uma forma de expressao, incluindo-se aqui os te6ri''" " qu e cldend em uma base biol6gica para os comportamentos agressivos, quais
•.r 1·1111 , os psicanalistas, os et6logos e os sociobi6logos;
' 1
(h) a agressao e uma resposta natural a frustrar,;ao, e a ideia subjacente e a de que a
ll''o posla agressiva deriva de urn impulso basico eliciado por condir,;oes externas,
' 11quadrando-se aqui os psic6logos sociais proponentes da hip6tese frustrar,;ao.\gl'l'ssao, em sua formular,;ao original e suas revisoes posteriores;
(,)a agressao e aprendida, resultando, portanto, de normas sociais e culturais e de
r xpcriencias de socializar,;ao, fazendo parte dessa categoria os te6ricos da aprendi<lgc m instrumental e observacional.
I [xplicac;oes bio/6gicas da agressao
A co ntroversia sobre a natureza da agressao e bastante antiga. Fil6sofos e cientis11, ,,..,s umem posir,;oes distintas na discussao da agressao como urn fenomeno ina to e
''' ~' lllllivo ou urn comportamento aprendido. Em seu classico trabalho Leviatii, publii iul o pela primeira vez em 1651, Thomas Hobbes ja defendia o ponto de vista de que os
' ll''> humanos, em seu estado natural, sao brutos e violentos, e somente a imposir,;ao
.I 1 lei e da ordem na sociedade e que poderia controlar suas tendencias mas e seu inslllllll natural para a agressao. Em contrapartida, na famosa obra 0 contrato social, de
l7Cl2, J ean-Jacques Rousseau introduz o conceito de bam selvagem, sugerindo que os
'•'' ''S humanos sao naturalmente benignos, felizes e bondosos e que e a sociedade reslilt iva que os transforma em seres agressivos e depravados.
A visao pessimista de Hobbes foi retomada por Freud, no seculo XX, disseminandn sc, entao, a ideia de que os homens estao, de alguma forma, "programados" para a vi.olr ncia por sua natureza biol6gica. A base instintual da agressao foi primeiramente defendida por Freud, em 1933, sustentando que a agressao deriva principalmente de urn podrroso desejo ou pulsao de morte (thanatos), possuido por todas as pessoas. A pulsao,
111icialmente dirigida para a autodestruir,;ao, e parcialmente reorientada para fora , em di1\'<;ao aos outros. Parte da pulsao de morte participa da constituir,;ao do superego, que se
lorna tanto mais severo quanto mais renunci.amos a agressao aos outros.
Sob a perspectiva etol6gica, Konrad Lorenz (1966; 1974) postula que a agressao
ll'Sulta basicamente de urn instinto de luta herdado que os seres humanos comparti193
lh:u11t 0111 tllllll.l., oll1t.l., t'"IH't i\''o . "upo!->tamcntc, l'!->"l' 111.,11111\t d1·.,1 11volvcu ~l' duranll'
o l'Ut'>O da evoluc,;ao porquc produziu imporLantcs bcndltt<~'> /\.,.,1111, por excmplo, ,,
Iuta serviu para dispersar popula~oes por uma vasLa area, assegurando o maximo U'>tl
dos recursos naturais disponfveis. E, ainda, por estar, em geral, em estreiLa rela~·:ltt
com a sele~ao dos parceiros, a luta ajudou a garantir que so os mais fortes e os mais '1
gorosos transmitissem seus genes para as gera~oes subsequentes.
De acordo com Lorenz, do ponto de vista biologico, nao ha como deixar de afirmar
que, no homem, a agressao intraespecie e simplesmente urn impulso instintivo tao <.''>
pontiineo como o e na maioria dos demais vertebrados inferiores.
Em sfntese, Freud e Lorenz concordam que a energia agressiva e instintiva t'
nao-aprendida, e, se nao descarregada periodicamente, cresce ate explodir ou ate sn
"aliviada" por urn estimulo apropriado. Discordam, no entanto, em alguns aspectos: o
primeiro concebe a agressao humana como autodestrutiva e associada a uma "puls<\o
de morte"; o segundo, como adaptativa, argumentando que dispomos tambem de me
canismos inatos para inibir nossas tendencias agressivas.
Uma outra teoria, que se propoe a explicar a agressao por suas raizes biologicas, ca
sociobiologia, que tambem se desenvolveu a partir de estudos com animais. Tal abordagem, definida por Wilson (1975), como o estudo sistematico das bases biologicas do
comportamento social, constitui-se uma extensao da teoria evolucionista de Darwin t'
postula que todos os aspectos do comportamento do homem em sociedade podem ser
entendidos em termos da evolu~ao das especies.
Sob essa perspectiva, a agressao desenvolveu-se por sua adaptatividade. De modo
mais especifico, os sociobiologos defendem o ponto de vista que todos os comportamentos que ajudam os individuos a transmitir seus genes para a gera~ao seguinte vao
se tornando cada vez rna is prevalentes na popula~ao ou sociedade. As vantagens biologicas da agressao incluem as habilidades para adquirir e defender mais recursos e proLeger a prole. Se urn individuo agressivo e bem-sucedido, isso pode fortalecer sua posi<;ao dentro de seu proprio grupo, comparativamente aos demais. Assim, o comportamento agressivo tern o objetivo claro de prote<;ao da propria especie e de aumentar as
chances do sucesso futuro.
rslttdo., '>Oiltt' o rontp011<1111l'lt1o aninwl iltdit.\111 que nnti1a., t'., Pl'ril'., rl'agcm
tl• ltlllll:l in.,1intivamcntt' agrl'o.,'>iva ao ambien1l', mas csscs resultados, argumcntam os
p ltttlogo'> '>Ociai'>, constitucm cvidencias conccrncnLcs aos nfveis mais baixos da esca1 1lrl11grnetica, que m10 podcm ser usadas para explicar a agressao na especie humana.
( l-;
l'or ouLro lado, dizcm eles, as Leorias do instinlo nao conseguem explicar a varia~;tn
dr agrcssividacle de pessoa para pessoa e de cultura para cultura. Urn grande nutit f' r11 de achaclos empfricos rejeita a existencia de tendencias humanas inatas e univerds para a agressao. Os estudos comparativos entre varias culturas inclicam que o nivel
d1• .tl gumas formas de agressao varia bastante e a incidencia de agressao tambem muda
111 Iongo do tempo. Se geneticas, concluem eles, essas manifesta<;oes manter-se-iam
1 111prc co nsLantes. Como, por exemplo, se poderia explicar, atraves dessa abordagem,
11 , I">Lc ncia de Lribos ou comunidades primitivas Lao pacificas como os Amish, os Men''''llil c~, os Hutterites nos Estados Unidos e Canada, que vivem em paz e harmonia e com
1 ul.,simos casos de atos agressivos? Como explicar as evidencias dos estudos antropolngtn>s, revistos por Gorer (1968), em sociedades cujo objetivo principal eo isolamen11 1 pacifico, como os Arapesh, na Nova Guine, e os Pigmeus, na Africa Central? 0 premiatill rstudo de D. Archer- Violence and Crime in Cross-National Perspectives-, ao analisar
"lnpico em questao em 110 pafses, ajudou a refor<;ar o papel de fatores sociais na agres,1, 1dade: "Como explicar, por exemplo, que os Estados Unidos tenham uma taxa de hotlll l' lclios 50 vezes superior a da Nova Zelandia, sendo ambas sociedades multiculltllais, predominantemente urbanas e de coloniza<;ao similar?" (ARCHER, 1984).
Tomadas em conjunto, as explica<;oes das teorias biologicas sobre agressao, embo' ·' divirjam em alguns aspectos, compartilham pressuposi<;oes semelhantes. A mais
1111portante delas refere-se ao entendimento da agressao como urn comportamento
11\ illO e instintivo, inerente a condi<;ao humana. Assim e que psicanalistas, etologos e
.,oriobiologos poderao discordar sobre "o quanto eo onde" a agressao se manifestara,
tttas, sem sombra de duvida, concordarao que ela, certamente, se manifestant
A explica~ao da agressao em bases exclusivamente biologicas e, de urn modo geral,
refutada pelos psicologos sociais na medida em que a no~ao de urn impulso basico,
instintivo e inato para a agressao nao e compativel com a ideia de que e a inten<;ao do
agente em causar dano que caracteriza urn a to como agressivo. Urn leao que persegue e
mata um bUfalo pretende, obviamente, causar-lhe dano, mas o ato de mata-lo nao e feito
por raiva ou com a inten<;ao de causar-lhe sofrimento: ele o mata para satisfazer sua
fome, e nao para satisfazer qualquer impulso agressivo.
Ainda sob a perspectiva biologica, alguns pesquisadores identificaram sistemas
llt'urais tanto em animais quanto em humanos que facilitam a agressao. Segundo eles,
quando tais sistemas ativam determinadas areas do cerebro, a hostilidade aumenta e,
quando desativadas, a hostilidade diminui. Nesse sentido, foram estudadas, alem das
tnOuencias da hereditariedade, as influencias bioquimicas na sensibilidade dos sistemas neurais as estimula<;oes agressivas. Dados de experimentos de laboratorio e dados
tcais obtidos em arquivos policiais demonstram que quando as pessoas estao sob o efeiIO de drogas, especialmente o alcool, elas se tornam particularmente agressivas. Na
vida real , foi comprovado que pessoas alcoolizadas sao responsaveis por aproximadamente metade dos sequestros e crimes violentos (REISS & ROTH, 1993). Segundo a
/\ssocia<;ao Americana de Psicologia, em 65% dos casos de homicidios, o agressor e/ou
a vitima haviam ingerido alcool.
194
195
A .tg•r '> '>lvtci.Hic c ta11IIH 111 .drt.td.t pd.t .~~.1<1 IHliiiHlll,tl , p.utll ul:u ttll'llll" a tr'>lll
rona , o llOIIttOttiO o.,n.u.d 111,1'> <'"''"'· Atnda que a-. tniiLH.' ncia-. ho•mottab patt' ~illlt
mais foncs nos animais inleriores do que nos homcns, vcm sendo comprovado q tu
drogas que diminuam os ntveis de testosteron a em homcns violentos abrandarao ""
tendencias agressivas. Em prisioneiros acusados por crimes violenLos, sem terc tll ..,
anteriormente provocados, os niveis de testosterona tendem a ser maiores do que no.,
prisioneiros acusados por crimes nao-violentos (DABBS, 1992) . E na faixa de ado lt
centes e adultos masculinos, a propensao para delinquencia , uso de drogas pcsad,,
e respostas agressivas a provocar,:ao tende a ser maior entre os que apresenta n1 tt l
veis hormonais mais elevados (ARCHER, 1991; DABBS & MORRIS, 1990; OLW I·I I~
MATTSSON, SCHALLIING & LOW, 1988).
Como vimos ao longo desta ser,:ao, os psic6logos sociais, de urn modo geral, faze' II\
severas restrir,:oes as teorias instintivistas ou pulsionais, o que nao significa dizer qu
neguem qualquer influencia de base biol6gica na deflagrar,:ao de atos agressivos. Etttl
muitos deles, ha ate urn consenso quanto a imporUincia desses fatores em urn am pl u
espectro de comportamentos sociais, resultante do reconhecimento de evidencias etll
piricas que atestam a influencia de alguns fatores biol6gicos na predisposir,:ao de ce rt o'l
individuos para a agressao. A critica maior da Psicologia Social a essas abordagens dt
respeito a sua tentativa de explicar qualquer comportamento social, incluindo a agn·,
sao , exclusivamente em bases biol6gicas.
As variaveis biol6gicas seriam melhor consideradas como variaveis moderadora ..
da agressao humana. Cada urn dos fatores biol6gicos discutidos- hist6ria evolucioni '
ta , hereditariedade genetica e nfvel de atividade hormonal- contribui para o nivel ba
sico de agressividade nos indivfduos e, portanto , ajuda a determinar o tipo e a magni
tude das respostas as instigar,:oes e provocar,:oes do ambiente (GEEN, 1998) .
2.2 Explicat;oes psico/6gicas do agressao
Urn grande numero de estudiosos da agressao afirma que, apesar de o comportamento agressivo dos animais poder ser explicado por processos instintivos, em seres
humanos nao ha como admitir que ele seja regulado por impulsos internos, mas, sim,
aprendido com outros seres humanos.
Se o comportamento agressivo dos homens e, de fato, aprendido, como se processa essa aprendizagem? Os adeptos dessa abordagem te6rica sugerem dois tipos de metodos: aprendizagem instrumental e aprendizagem observacional (BANDURA, 1973).
Aprendizagem instrumental - De acordo com o principia da aprendizagem instrumental, qualquer comportamento, que e reforr,:ado ou recompensado, tern maior
probabilidade de ocorrer no futuro . Assim, se uma pessoa age agressivamente e recebe
196
tii'IH 11'. ,1 jltll :tgtt :1'>'> 1111 , 111:11'> jli'OV<IVl'IIIH'IIIl' l(' jll'lll'l\ l''>'> l' t'0111plltl:lllll'IIIO l' ltl Oll
tll ..t'> l<ll''>. lin unta cnotlll l' vat icdadc de rel o n;os para provoca r co mponam entos
iv oo.,, cnl re os quais podcmos citar: aprovar,:ao social ou aum ento de status
tl •l N t'r ~ I ONNER, 197 1); dinheiro, para os adultos (GAEBELEIN , 1973) e doces ,
p11i tl ;,..; c ti anc;as (WALTERS & BROWN , 1963) ; a evidencia do sofrimento da vitima
ptil •' It lila pcssoa que e extremamente provocada pode servir como uma especie de relti''·'' (IIARON, 1974), o que sugere urn mecanismo pelo qual os "executores de masr' ·;:·\o ra pazes de desincumbir-se dessa tarefa.
\prendizagem observacional - Ainda que muitos atos agressivos possam ser
'I '" 11chd os atraves do refon;:amento direto , muitos pesquisadores sugerem que a aprendt ,~g~· m observacional ou modelar,:ao social constitui urn metodo mais usual de aquisi"' de co mportamentos agressivos. De acordo com esse principia , podemos aprender
11''' ,,., co mportamentos pela observar,:ao das ar,:oes de outras pessoas, designadas como
lil••tlrlos . Bandura e seus colaboradores (BANDURA, ROSS & ROSS, 1961, 1963) de!"l tvo lvcram uma serie de experimentos para demonstrar as maneiras pelas quais a obI 1 1 .11;ao do comportamento agressivo de adultos afetaria a escolha de brincadeiras pel:t.• 11ia nr,:as. Os resultados indicaram, de fato, os efeitos desse comportamento na
11\lt''>sividade das crianr,:as: aquelas que observaram urn modelo adulto agressivo foram
, ll ll '> istentemente mais agressivas do que as que observaram urn modelo nao-agressivo
, ,,., que faziam parte do grupo de controle, que nao observaram nenhum modelo.
Os experimentos classicos de Bandura e seus associados foram realizados com urn
IHII ICCO inflavel, conhecido como Bobo (parecido como nossojoao Bobo) , consistindo,
' l. t de regra, dos seguintes procedimentos gerais: a crianr,:a era levada a uma sala e solicit.tl la pelo experimentador a participar de urn jogo que envolvia fazer uns desenhos; em
·•·guida, o experimentador introduzia urn adulto na sala e levava-o para urn canto da sala
1111dc havia brinquedos eo boneco. Ap6s a saida do experimentador, a pessoa comer,:ava
,, hrincar com os brinquedos de "adultos". Na condir,:ao nao-agressiva, ela brincava natu,,tlmente com alguns deles, mas, na condir,:ao agressiva, passava o tempo todo batendo
tto Bobo e gritando-lhe palavras agressivas. Ap6s dez minutos, o experimentador retorll <tva e levava a crianr,:a para outra sala, com varios brinquedos, agressivos (rev6lveres, o
honeco, etc.) e nao-agressivos (bichinhos de plastico, lapis cera, etc.), mas lhe dizia que
nao podia brincar com seu brinquedo favorito , passando, entao, a observar e registrar
'>C US comportamentos. E como ja citamos acima, aquelas que observaram urn modelo
adulto violento foram as que se mostraram mais agressivas.
Ainda que, para muitos psic6logos sociais, o comportamento manifestado pelas
crianr,:as dos experimentos de Bandura nao possa ser definido como agressivo, ja que
nao foram dirigidos a seres humanos, outras investigar,:oes vieram a demonstrar que os
ataques agressivos ao Bobo relacionavam-se a outras formas de agressao. Assim, por
197
l'~1111plo ,
;I., 1 11,1111,. ,1.., qnt 1~o1g11 ,1111 d1 l01111,1 v1oknt.ll' il).\1 1•.;o.,iv;1 ;IO IHllll'l o t;lllllll'lll I
ram cla~o.,ilinlthl.., po1 "ol'll" t okga.., ,. proko.,o.,ora., como "" llllll"o agrt·..,~ivao., do~ ).\1111
(JOIINSTON, DELUCA, MUR I AUGII & DIENER, 1977) . A influencia cia modl'la\
se daria mais entre as idadcs de 8 a 12 anos, passando a decrcsccr ap6s csta id;l!
(HARRIS, 2004).
Os achados obtidos por Bandura e colaboradores, mesmo que considerados a
nas como elos indiretos entre o ataque ao boneco e agressao, foram uteis para demo n'l
trar suas ideias a respeito da aquisic;:ao de comportamentos agressivos. Para Banclu1a,
importante distinguir conceitualmente a aprendizagem e a performance de uma 1''"
posta. Quando as crianc;:as, por exemplo, observam atos agressivos de alguem, da
aprendem ou adquirem uma resposta agressiva; quando, subsequentemente, inte nt
gem com outros, elas podem desempenhar uma resposta adquirida; nesse caso, a IT'i
posta selecionada e que e dependente de reforc;:o. Estudos com adultos parecem CO lli
provar isso: apesar de a maioria dos adultos saber como ser agressiva, a sua predispo~ l
c;:ao ou prontidao para ser agressivo depende da presenc;:a de urn modelo agressivo. ( l
modelo pode nao ensinar a pessoa como ser agressiva, mas pode funcionar como lll l\
fa tor desinibidor de normas que justifiquem a resposta agressiva: e o caso, por exem
plo, de alguem, que testemunha uma agressao, comentar "tudo bem em ser agress ivo
nessa situac;:ao".
Os adeptos da visao da agressao como uma resposta aprendida argumentam quest·
ha sociedades em que o comportamento agressivo nao se manifesta, ou se manifesta
em indices muito baixos, pode-se concluir que e a aprendizagem, e nao o instinto, que
desempenha urn importante papel na agressao.
As teorias de base biol6gica e psicol6gica, ate entao discutidas, buscam entendcr
por que as pessoas sao capazes de agredir, mas nao dao conta de explicar como essa capacidade e implementada e em que circunstancias o indivfduo acaba por agir de forma
agressiva com os demais. Nesse sentido, urn terceiro tipo de abordagem psicol6gica
propoe-se a oferecer respostas a essa indagac;:ao geral, partindo do pressuposto de que
ha uma serie de condic;:oes pessoais, sociais e ambientais que aumentam a probabilidade
de comportamentos agressivos.
A hip6tese da frustrac;:ao-agressao- A primeira tentativa sistematica de definir a
agressao como uma reac;:ao as condic;:oes ambientais foi a hip6tese da frustrac;:ao-agressao.
Em sua formulac;:ao original, o chamado Grupo de Yale (Universidade de Yale, nos
Estados Unidos) propos duas hip6teses gerais, segundo as quais a frustrac;:ao sempre
leva a alguma forma de agressao e a agressao sempre resulta da frustrac;:ao (DOLLARD,
DOOB, MILLER, MOWRER&: SEARS, 1939). A frustrac;:ao foi definida como toda interferencia na ocorrencia de uma resposta orientada para urn objetivo em seu devido
198
IW!lill~ llltl
It 111
1111111,1 ..,,·qu('IHta tk rontpOII<IIlll'IIIO"o c a agn·..,sito , como unta l'l''>jlO~ta que
I''"
ohlt'tlvocausar dano a um organismo vivo .
\ .n hjt'\ lil'~ concl'ituais dcsencadcadas contra essas hip6teses- e que se resumiam
11 1• tdt 1,1.., dt• que ncm semprc a frustrac;:ao causa agressao e a agressao nem sempre e
ph, 1 d1d.1 por frustrac;ao- levaram a reformulac;:oes das hip6teses iniciais. Sears (1941)
pnl•lt• 1111 t''>l udo em que discutia reac;:oes nao-agressivas a frustrac;:ao. Miller (1941) reP··· ., 111011 os enunciados em termos menos rigidos: a agressao e uma das respostas
ptr~'- '' '-'"<I lrustrac;:ao e pode tambem ser deflagrada por outros fatores. Em consequent hi d1·-;.;;,1.., rcformulac;:oes, a teoria, para muitos dos seus crfticos, deixou de ser restritiI"" .1 "~' tornar ambfgua.
N.lo obstante todas essas objec;:oes, a teoria produziu quantidade consideravel de
Iii tjlll "oil.,, ate porque se contrapunha a explicac;:ao freudiana de agressao. Os experi'"' Itill ., de laborat6rio, no entanto, geraram resultados contradit6rios: algumas vezes,
! 1111.,1 n11;ao aumentou a agressividade, outras vezes, nao. Outros resultados indicaram
•lUI .1II ustrac;:ao tende a ser maior quanta maior a motivac;:ao para atingir o objetivo ou
!IIIIi"' a proximidade do objeto desejado; quando se tem expectativa de gratificac;:ao;
iJIIIIHio cia nao e esperada ou quando o impedimenta para alcanc;:ar a meta for total.
t~lll base nessa hip6tese, entao, a frustrac;:ao estimularia urn "drive" (urn impulso),
'1\jll objctivo basico primario seria atingir ou causar dano em alguma pessoa ou objeto
'' .pccialmente a fonte da frustrac;:ao), acarretando reac;:oes agressivas.
i.
No entanto, como a energia agressiva nao se dirige necessariamente a fonte, ate
l"'"lue n6s aprendemos a inibir a retaliac;:ao direta (especialmente quando ha possibiltd.Hk de desaprovac;:ao social ou de punic;:ao), n6s suspendemos provisoriamente a
'' ··posta agressiva e, posteriormente, deslocamos nossa hostilidade para alvos mais sej\111 os. Este deslocamento e bern ilustrado na velha anedota sobre urn homem que, hu"'tlltado por seu patrao, descontou na mulher, que gritou como filho, que bateu no ca' ltmro, que mordeu o papagaio, que ofendeu o carteiro, que ... (e assim sucessivamen(MYERS, 2005).
0 modelo te6rico de Berkowitz, proposto originalmente em 1959, representou
111.11S uma tentativa de aperfeic;:oamento da teoria. Para desfazer a ambiguidade quanta
11 que condic;:oes a frustrac,;ao traz agressao, Berkowitz recorreu ao conceito de instinto
tit finbergen, que nao se refere simplesmente a urn mecanismo biol6gico interno, mas
:1111n mecanismo que, para poder encontrar expressao, exige algum objeto ou situac;:ao
r xterna "apropriados". Em outras palavras, para Berkowitz, embora haja uma resposta
.1grcssiva inata a frustrac;:ao e a raiva, essa resposta se expressaria somente sob condi\ <lCS que fossem "apropriadas". E introduzida, en tao, a ideia de que outros estados
' mocionais, como a raiva, tambem podem ter efeitos similares a frustrac,;ao. A frustra1.<10 produz raiva, uma prontidao emocional para agredir. A raiva surge quando alguem
11 )
199
\1111' 110'> lt\\.., IHI\1 podt lid II I ,tgidt) dt• IHIII\ 1 lOll\\,\ I .U... 1'.,1,\d()'> I'IIIIHIOII,\1 .., ~·,1'1
agtT<;si"lo , nw-. '> OIIIl' llll' qn;uHio 1'> 1:\o prc:.ctlll''> r crlo:. cslllllldo:. ou indtcios. l'. 11 .1l
kowitz, trcs sao os indlcios lil)l'radores da agrcssao: alvos (pcssoas ou grupos dt· pt
as), objetos Cannas, por cxcmplo ) c situac;:ocs (em bares ou na rua, por excmp lol I
uma serie de processes, aprendemos a associar esses ind(cios com viol cncia c ag1r
o que acaba por "amplificar" a agressao, ou seja, aumentar a probabilidadc de qn r
individuo, movido por raiva ou frustra<;ao, aja de forma agressiva.
Posteriormente, Berkowitz (1984, 1988 e 1989) apresentou uma versao modtll1
da dessa mesma hip6tese. Segundo ele, a experiencia de agredir alguem gera no ag1
sor urn afeto negativo. A exposi<;ao subsequente a eventos negativos (que se p1d
evitar) gera sentimentos negativos, que, automaticamente, ativam tendencia'> I'•'
agressao ou esfor<;os para escapar da situa<;ao desagradavel, bern como rea<;6es fi'> tll lt\
gicas e pensamentos ou lembran<;as relacionadas a experiencia agressiva anterior ..'>r"'
segue, ou nao , urn comportamento agressivo , depende de uma serie de fatores, 1.11
como os tipos de pensamentos ativados pela situa<;ao ou reavalia<;6es cognitiva-. d
propria situa<;ao.
Suponhamos, por exemplo, que uma pessoa esta fazendo compras no superme n 11
do e e "trombada" pelo carrinho de compras de alguem. Tal situa<;ao provoca reac,.·(H'
iniciais de tendencia para a agressao e, simultaneamente, pensamentos e lembra n(,il"
relacionados a eventos desagradaveis ja ocorridos. Se a outra pessoa se justifica, clu,
mesmo com raiva, pode reavaliar a situa<;ao e aceitar o pedido de desculpas. A raiva dt
minui e a agressao nao ocorre.
Uma contribui<;ao que se faz necessaria aduzir diz respeito a diferencia<;ao ent n·
frustra<;ao e priva<;ao , e tambem, ao que se convencionou chamar de "priva<;ao relati
va". Em primeiro lugar, a priva<;ao difere da frustra<;ao no sentido de que, na primeira ,
a pessoa nao possui algo que nao faz parte de seus objetivos imediatos de perten<;a, en
quanto que, na segunda, ha a expectativa de se vir a possuir o objeto almejado. Assim ,
quando tal expectativa nao se concretiza, o sentimento de insatisfa<;ao se faz presentl'
de forma muito mais intensa no segundo, do que no primeiro caso. Uma crian<;a de
classe carente que saiba da existencia de urn brinquedo caro e atraente, e nao o possua ,
podera ficar chateada com esta situa<;ao; mas uma outra crian<;a, de classe media, por
exemplo, a quem seja prometido reiteradamente o tal presente, e que, na hora H, o
mesmo lhe seja negado, ira reagir de forma bastante distinta e, possivelmente, de modo
agressivo . Da mesma forma, como aponta Aronson (2004), se uma pessoa decide nao
cursar uma faculdade, e observar, dez anos depois , que urn colega, que optou pelos estudos no terceiro grau, esta ganhando mais, isso nao devera gerar muita frustra<;ao.
Mas se ambos tiverem o mesmo nivel educacional, e urn ganhar mais e outro menos,
(por ser, por exemplo, mulher ou negro), o que estiver ganhando menos vai se sentir
200
l'!!d•• ,1111d.t nnd .; 1'111 1111111 -.mll·dndl' allu ellll'. l' OIIIIl a nossa, qul' l''> llllltlla aberta
"111 11 .,111\Hll' a l'01111Wti <,;;\o .
II\ 111 llll va(,;\o rl'iativa , a insati slac;:ao rcsulta do efcito da compara<;ao com outras
11W 1.1... o ""las passc m a possuir ou conseguir coisas (promo<;6es, conquistas) a
I" ' 11 IH' n-e bedor . Co mo dizia Karl Marx , uma casa pode ser pequena ou grande,
, '''1'1.11110 as casas ao lado forem do mesmo tamanho , ela sera satisfat6ria. Masse,
I• 1_
.11, 11111 palacio for construido na vizinhan<;a, a casa "encolhera", transforman""; olh os de scu dono em uma reles choupana ... Ou seja, nossa medida de satis-
1, ro nscquentemente, de insatisfa<;ao e de frustra<;ao- decorre, em parte, da
li !"'·" ''"'. to co m nossos semelhantes, influenciando nossas rea<;6es emocionais.
H•
1'11 1!>llll l'SC, Berkowitz (1993) sugere que os seres humanos parecem ter uma tenlrt •!'l l t11 ata para responder a estimulos ou situa<;6es sociais provocadoras, investindo
1Hll i .11k '> de forma agressiva. Se a a<;ao agressiva vai, ou nao , se manifestar depende
It 11111,1 111tcra<;ao complexa entre tais propensoes inatas, uma variedade de respostas
lttlhld nt ,\s aprendidas e a natureza precisa da situa<;ao social. Para esse au tor, trata-se
I! 11111.1-.implifica<;ao grosseira afirmar que os seres humanos , tal como os animais, esHI j!tlll programados a reagir agressivamente a estimulos altamente especificos. As evilr 111 ·L1s vcm demonstrando que os padroes inatos de comportamento sao infinitamen'' 11111dili caveis e flexiveis , e a maior prova disso , segundo ele, e a inequivoca variabili.1 11l1 nos nfveis de agressividade dos diferentes grupos culturais.
J·..,sas diferentes vers6es da teoria de frustra<;ao-agressao facilitam a compreensao
tli' .dgumas formas de agressao humana e tern sido aplicadas a uma grande variedade
1, '> lluac;:oes de violencia. Atualmente, no entanto , muitos psic6logos sociais nao as
it' tl ,un por nao explicarem adequadamente uma serie de manifestac;:oes de violencia,
1'llllcncia entre pessoas que nao estao sentindo raiva, nao estao frustradas ou nao es1(111 de algum modo excitadas, bern como os efeitos da experiencia anterior sobre a
wl'ssao subsequente.
. Fatores que influenciam a agressao
As ciencias J!sicas atingiram um tal estado de desenvolvimento que
agora todos os homens podem morrer juntos. Cabe agora as
ciencias sociais atingirem um tal estado de desenvolvimento de
forma que todos os homens possam viver juntos.
R. Stagner
Como vimos na se<;ao anterior, a explica<;ao da capacidade do homem em ser
.tgressivo apoia-se predominantemente em bases biol6gicas ou sociais. Tais perspectivas te6ricas gerais, no entanto, nao nos permitem determinar, de modo especifico,
201
llllllll r<;o.;,, I o\lloll it Lilli ..,, llldlldt ... l.l Mol.,, d.tda a jlllllll'll .... lll llltlllilll.l jlill.l"
quantlol' l'lll que tlllldii,IH'" ,,.., !H'..,..,Il,t.., rl'alnH'Illl' agl'lll de modo agrl·o.,-,ivo?
ag l t~f,
A rcsposta nao c "impk..,, pois inumcras sao as circunstftncias que autnl'll l.llll
probabilidade de manifcsta<;;ao de atos agrcssivos. Algumas dclas rclacionam "l' a r'!l
dos motivacionais ou afetivos que as pessoas vivenciam. Outras influencias sao \'\ I
nas as pessoas e dizem respeito a caracteristicas do ambiente ou a circunstanci<h 11
diatas. Nesta se<;;ao, trataremos dos principais fa to res sociais, ambientais e pessmu., 1
favorecem a agressao.
3.1 Fatores sociais desencadeadores da agressao
0 efeito das armas- Como vimos anteriormente, a frustra<;;ao constitui um do-. l11
tores mais estudados na literatura sociopsicol6gica sobre o assunto. Parece claro, wu
tudo, que nem sempre e a frustra<;;ao em si mesma que conduz a agressao. Ela pod
produzir raiva, por exemplo, e a prontidao para agredir pode estar mais ligada a ou11 11
aspectos do ambiente. Habitos agressivos, aprendidos previamente, podem contrih111r
para essa prontidao da mesma forma que a presen<;;a no ambiente de "pistas" agressiv.1111
- armas, por exemplo - pode aumentar a probabilidade de ocorrencia da agres!'>.lll
(BERKOWITZ, 1989).
Objetos violentos alimentam pensamentos violentos. Armas, facas e outros 11
pos de objetos sao fortemente associados a ideia de agressao (HUESMANN & ERON,
1984). Sever uma arma pode propiciar pensamentos de agressao, isto deve fazer co m
que o comportamento agressivo seja mais provavel. A essa conclusao, apoiada em p ro
grama sistematico de pesquisas, chegaram alguns psic6logos sociais, o que os levou a cu
nhar o termo efeito das armas (BERKOWITZ & LePAGE, 1967; CARLSON, MARCU~
NEWHALL & MILLER, 1990). Outras evidencias empiricas, no entanto, demonstra m
que a presen<;;a de armas nao e suficiente para gerar agressao se a pessoa nao as inter
preta como algo que serve para ferir ou causar dano aos outros (FRACZEK & MACAU
LAY, 1971; TURNER & SIMONS, 1974). E mais, se o individuo teme que a manifesta<;;ao da agressao pode lhe trazer puni<;;ao ou desaprova<;;ao, essas pistas do ambiente nao
tem a mesma eficacia (TURNER, SIMONS, BERKOWITZ & FRODI, 1977).
0 efeito das armas tem importante implica<;;oes praticas. A principal delas e que a
exibi<;;ao ou uso livre de armas perigosas envolve um risco inerente e potencial. Como
bem afirma Berkowitz (1968: 22): "As armas nao apenas propiciam a agressao, elas
podem ate estimula-la. 0 declo puxa o gatilho, mas o gatilho pode tambem puxar o
declo". As diferen<;;as nas taxas de homicidio entre paises em que ha forte controle no
porte de armas e paises em que se permite o uso de armas para fins de prote<;;ao pessoal
vem ao encontro da posi<;;ao de Berkowitz. :E 6bvio que outras diferen<;;as nacionais po202
Pili ttl I l l pai.ll'>'>ll , l' qul' a tii..,IWilihdltladl' til' <II lila.., potlc n:to "l'r a 1111ica causa
ul11.., 111dH l''> dl' violcnna c nimlllalidadc . Confira-sc, ncstc scntido, o ocorrith\ 1,1111.111,1 l'lll mcado" da dccada de 70 quando sua legisla<;;ao passou a incluir o
Ulii•k dr .tlllt;l..,l' a obrigatoricdacle de uso de uma tarja de alerta em filmes e progra-
1111
11 It vl-.:lo rom ccnas que envolvessem armas, o numero de crimes violentos diltlt!ill ''"l.,ldcravclmcnte (DIENER & CRANDALL, 1979).
'''
1 '"
l )111111s I''> I lidos bern mais amp los, de carater longitudinal, realizados pelo ja citado
tlli.-'1 <;o7inho ou com colaboradores (ARCHER, 1994; ARCHER & McDANIEL,
I'll n I' Ill HI Xl' ram resultados bem mais contundentes. Adolescentes norte-americanos e
1, 1il lII • dr z pa1scs foram solicitados a ler hist6rias sobre conflitos entre as pessoas e a inIll .ti lollolopiniao sobre o desfecho desses conflitos. Os resultados demonstraram que os
lih•lo•,,rllll'S norte-americanos tenderam a antecipar solu<;;oes muito mais violentas, leHI 'l, lllqHcdosas e resolvidas atraves de armas do que todos os adolescentes dos demais
pW;r, O..,rgunclo os pr6prios psic6logos sociais norte-americanos, as conclusoes desses
.i11d11.., -.ao irrefutaveis no sentido de demonstrar que a violencia letal, envolvendo arU•l tllll'>titui uma parte consideravel da sociedade norte-americana, desempenhando,
jli!llllllo, um importante papel nas expectativas e fantasias de seus jovens.
\ provoca<;;ao direta- 0 ataque direto- fisico ou verbal- constitui uma das inlltu 11rias mais 6bvias sobre o comportamento agressivo, ja que a provoca<;;ao tende a
tloll 1\a vitima um sentimento de reciprocidade. Em outras palavras, a um comportaiill' lllll percebido como agressivo responde-se com outro comportamento tao ou mais
ll'lt''o'>ivo. Se alguem lhe insultar e gritar com voce, scm nenhuma razao aparente,
, 111110 voce reagiria? Provavelmente, voce tenderia a retaliar e a responder com alguma
lo11111:1 de agressao fisica ou verbal.
l:mbora, em geral, a reciprocidade possa caracterizar uma boa parte das rea<;;6es a
1uovoca<;;ao direta, ha uma serie de outros fatores que podem determinar se, e em que
I\' .111 , as pessoas escolhem a resposta agressiva. 0 mais importante talvez seja a inten' 1onalidade percebida na provoca<;;ao. Se ela e vista como intencional, o mais provavel
, que suscite estados emocionais suficientemente fortes, capazes de gerar o comportaIIH'nto reciproco de agressao. Se nao-intencional ou acidental e, portanto, fora do conII ole do agressor, e menos provavel a ocorrencia de uma manifesta<;;ao agressiva. Nes'ol''> casos, as atribui~.;oes feitas as causas do comportamento agressivo podem mediar o
11 po de resposta que sera dado a provoca<;;ao- agressiva ou nao agressiva, retaliativa ou
11;\o. Sao consideraveis as evidencias empiricas no sentido de considerar que circunsUncias especiais, especialmente as explica<;;oes que damos aos motivos que levam a
provoca<;;ao do agressor, podem mitigar os efeitos dos ataques pessoais diretos (FER<~USON & RULE, 1983; LYSAK, RULE & DOBBS, 1989). Lysak, Rule e Dobbs, no en-
203
latllo, obttvt•t;ltll tanllu:nt t•v idttH iii'> de qui' a !Wtrt·p~ao de cvitahdidade do ato agtt
sivo c Lllll drtrtminante :linda llHII'> tlll!>Ot tante do que a intcnc,;;lo pcrcrbida do agtnl
Ou seja, se alguem comcte uma agrcssao, n6s I he atribUimos culpa se acrcditamo-. qu
ele poderia, ou deveria, ter evitado as consequencias de seu ato, mesmo quandojulgil
mos que ele ncio teve a intenc;:ao de nos fazer mal.
Em resumo, nossas reac;:oes nao sao automaticas, mas refletem nossas interptrl•t
c;:oes sobre as causas subjacentes as ac;:oes dos outros; nossos comportamentos sao, I'll
tao fortemente influenciados por nossos pensamentos acerca dessas ac;:oes. Muita~ vt
zes, as crenc;:as sobre a previsibilidade e intenc;:ao do agressor sao mais importantc'> dt1
que o proprio dano sofrido.
Obediencia a autoridade - Na perpetrac;:ao de atos agressivos, a questao de as-.u
mir ou nao a responsabilidade e urn outro fator extremamente relevante. Nos casos dt
frustrac;:ao e de provocac;:ao, as pessoas, em geral, tendem a assumir a responsabilidad1
por seus atos, embora, as vezes, tenham a tendencia de buscar razoes extremas p;u a
dela se eximirem.
Ha, contudo, urn outro tipo de situac;:ao que impele ao comportamento agressivo ,.
que, normalmente, leva o perpetrador a se isentar totalmente da responsabilidade por
seus atos. Essa "agressao legitimada" (SCHEIBE, 1974), ocorre em situac;:oes agressr
vas, nas quais os agentes se sentem como meros executores de ordens superiores, 011
como veiculos para a obtenc;:ao de urn fim ou uma meta por eles considerada como jus
ta, e ate mesmo altruista. Os carrascos nazistas e os terroristas dos tempos modernos
enquadram-se nesses casos.
De outro lado, a agressao quase sempre ocorre na presenc;:a de testemunhas ou de
espectadores. Em lutas de boxe, por exemplo, a audiencia grita entusiasticamente para
que seu lutador favorito "estrac;:alhe" seu rival, chegando, em situac;:oes extremas, apedir sangue como simbolo de sua supremacia. Os jornais noticiam com frequencia cenas de suicidas que ameac;:am se atirar do alto de urn edificio, com a multidao embaixo
fazendo coro para eles se atirarem. Quais os efeitos desses tipos de instigac;:ao e pressao
externas na frequencia e intensidade do comportamento agressivo?
Nos experimentos classicos de Stanley Milgram (1963, 1965, 1974) sobre obediencia a autoridade, foi estudado o efeito das ordens do experimentador na predisposic;:ao das pessoas a administrar choques eletricos em outros. Nessa serie de estudos,ja
apresentados ao longo do capitulo 7, os efeitos da pressao externa eram claros: os sujeitos que eram estimulados a prosseguir administravam choques de intensidade cada
vez maior do que os que agiam sozinhos. A tendencia a obedecer ordens de forma cega
pode ser explicada, segundo os pesquisadores, pelo fenomeno de atribuic;:ao de causae
responsabilidade ao mandante, seja ele o oficial superior, o chefe do movimento terrorista, seja ele o experimentador:
.
204
tJ' IH tltlH'lliO dl' lllllh.Htlo ( 197'5) , Fl ntado antl't iotnH'llll', dustra tamhrm, de
hii tit ,l 1111 qlllvora, a inlluCncia da sitlla<;ao dr obedicncia as ordcns, de prcss<1o cxtcrna
i tlt' , unlpttllH'nto de Lllll papcl sobrc o comportamento agressivo.Na vida real, da
l!li .. <lit
1 lotma, na guerra contra o lraque, iniciada em 2003, a revelac;:ao do comporta-
1111 illtl s.u ltco de guardas americanos contra prisioneiros de guerra iraquianos reve-
IHil ' lw.tantc traumatica. Em flagrante violac;:ao da Convenc;:ao de Genebra, os prisio!lt i'" , lot ,lin submetidos a sessoes de tortura fisica e psicol6gica que, reveladas, choca1 till 11 llllliH.Io. Os videos exibindo pilhas de prisioneiros nus sendo sadicamente ins''"'""" ;t simular atos sexuais, ou urn guarda do sexo feminino puxando urn prisionei''' I'"' uma coleira, foram algumas das cenas mostradas em TVs de todo o mundo.Tais
1 IIJ'• r.tusaram embarac;:os sem precedentes a opiniao publica dos Estados Unidos e
1u't baram o rancor mundial contra esse pais.
Muito embora isto de modo algum justifique a terrivel conduta exibida pelos
lllttl.t'> em Abu-Ghraib, as tremendas pressoes de uma situac;:ao de guerra, somadas ao
lllllllrlltc coercitivo de uma prisao de seguranc;:a maxima facilitaram indubitavelmente
'" '" rcncia de tais comportamentos (RODRIGUES, ASSMAR &JABLONSKI, 2005).
qtll , os guardas poderiam estar, simplesmente, obedecendo a ordens superiores, for•·"'' ,., a se comportar da maneira odiosa como o fizeram e sem se sentirem responsaveis
11111 1-.so. Estariam simplesmente afirmando que cum priam ordens, exatamente como o
lo ':.o .1 maioria dos nazistas acusados no julgamento de Nuremberg.
Uentes disso, os supervisores dos guardas deveriam ter redobrado a atenc;:ao no
,, llltdo de evitar que isto acontecesse. Em urn trabalho de 2004, Zimbardo, referindo-se
111 romportamento dos guardas em Abu-Ghraib, ressaltou a importancia de fatores silllotdonais relacionados a: difusao de responsabilidade na execuc;:ao de atos imorais e
tlltt sc nso de anonimato que nao os fizeram sentir-se pessoalmente responsaveis (v. se' .to seguinte); a percepc;:ao da prisao de urn modo desumanizado; companheiros que
,, t vi ram como modelos nocivos; falta de sanc;:oes visiveis pela execuc;:ao de comportallll'lltos inaceitaveis; e uma perspectiva estreita de tempo , que os levava a uma especie
tit• armadilha pela expansao avassaladora de vivencia do tempo presente. Tambem em
.t~,·;\o na prisao iraquiana se faziam presentes o segredo; a negligencia na atribuic;:ao de
tt'sponsabilidade social; a falta de treinamento adequado; a falta de supervisao; e as
tllas condic;:oes de trabalho, caracterizadas por frustrac;:ao, estresse, tedio, falta de des' .tnso e caos, alem do impacto proporcionado pelo encorajamento e pelas recompeno.;as a "quebrada vontade" dos detidos, prometidas por agentes da CIA e interrogadores
1
ivis (p. 4).
Desindividuac;:ao- Quando as pessoas nao podem ser identificadas, elas sao rna is
propensas a exibir condutas antissociais. P. Zimbardo (1970) apresenta uma teoria
que postula modificac;:oes na autoconsciencia em func;:ao do ambiente, centrando-sc 110
205
tolltt'llo dt• illdlvldllcl(tlll (It 111111 111irLtl11lt'llll' ll'><tdo po1 ( :ul )u11g c !Hl'>lt'liOIIlltlll
pclot. gcstalti'>la-.), t.egundo o qual o indivlduo t.l' comporta como pn~onalidadc tl1"
tinta que tem conscicncia de sua individualidadc . Apoiado ncssc conccito, proptk 11
termo desin.dividua(tio, fazendo-o corresponder a ideia oposta de auscncia de St' lll l
mento de individuahdade distinta ou de autoconsciencia.
Dependendo da natureza da situa<;;ao social ou fisica, as pessoas apresentam gra n'!l
variados de individua<;;ao. Em familia, ela e elevada, na multidao, ela e mais baixa !\
desindividua<;;ao e sempre maior em situa<;;oes nas quais podemos agir em relativo a no
nimato porque os individuos nao podem ser identificados ou singularizados. Zimba1
do (1975) sugere que a desindividua<;;ao reduz as preocupa<;;oes com a avalia<;;ao do,
outros, enfraquecendo os controles normais que se baseiam na culpa, na vergon ha ,.
no medo. Nesse sentido, as pessoas que moram em cidades grandes se sentem aha
mente desindividuadas, ao passo que os moradores de cidades pequenas sentem ..,,.
bastante individuadas porque conhecem e sao conhecidas por quase todo mundo.
Em estado de desindividua<;;ao, ha duas razoes importantes para, segundo esse au
tor, ocorrer o aumento da incidencia de atos agressivos: a menor probabilidade de o.,
individuos serem reconhecidos e a redu<;;ao geral da capacidade ou tendencia de terc m
preocupa<;;oes sociais. Para testar essas proposi<;;oes, Zimbardo (1970) conduziu u m
experimento, no qual quatro estudantes supunham dividir a responsabilidade por
aplicar choques eletricos (ficticios, e claro) em outros estudantes. Metade desses estu
dantes eram vestidos com capuzes, nao eram identificados por seus nomes e desempc
nhavam a tarefa no escuro. Os demais estudantes tinham sua identidade refor<;;ada, isto
e, usavam cracha, tratavam-se pelo primeiro nome eo experimentador os cumprimentava pelo proprio nome. Todos os sujeitos eram livres para dar o mimero de choquc~
que quisessem, mas os encapuzados davam mais choques do que os que eram identificados. Outros experimentos, usando manipula<;;oes semelhantes do anonimato dos sujeitos, mostraram que as pessoas sao mais propensas a expressar agressao fisica everbal quando sua identidade nao e enfatizada (CANNA VALE, SCARR, PEPITONE &:
1970; MANN, NEWTON&: INNES, 1982).
A desindividua<;;ao foi tambem estudada, introduzindo-se modifica<;;oes no ambiente fisico e social. Supunha-se que, alem do uso de camuflagens e mascaras para criar
a condi<;;ao de anonimato, ambientes pouco iluminados ou sem a presen<;;a de uma figura de autoridade poderiam influenciar a desindividua<;;ao.
Aparentemente, a desindividua<;;ao pode tambem ser autoinduzida. Nesse sentido,
a repeti<;;ao sistematica de urn ato agressivo pode fazer com que esse ato deixe de ser
visto como agressivo por quem o pratica. Podemos perder a no<;;ao do que estamos fazendo eo ato agressivo passar a ser repetido de modo automatico, destituido de autoconsciencia. Com base nessa suposi<;;ao, Zimbardo (1970) e Goldstein (1975) aventa206
l1lili 11lill'tllt''>l' dt• qtu· o:- 111,\ll.., \l.tllh 11tlligido.., ,,.., t ''·'""a" por p.ult: dos pa1-. podc 1\ Ji iii
'· 1.1
t
,pllcado:- dcssa lo1nl:l .
I 1111111 ia F bastantc co mum a expressao "violencia gera violencia". Como objetiti dt 11 IIIII I' dados cmp1ricos que confirmem a for<;;a dessa predi<;;ao, psicologos sociais
!r iit , ,oltado para o estudo da influencia do ambiente familiar na agressao. Em geral,
jli" 1, 11111., ali rmar que crian<;;as cujos pais ado tam praticas punitivas, fisicas ou verbais,
i111d, 111 ,, u.,ar csses mesmos recursos quando interagem com outras pessoas. Os pais,
II"'-' ' o.,ltunam disciplinar os filhos atraves de gritos, castigos e surras, estao, na verdatk , 11111ddando" a agressao como urn metodo natural de lidar com os problemas
11 '\ I II ·RSON, CHAMBERLAIN&: REID, 1982). Esses pais, provavelmente, agem aslilt l'"'quc tiveram pais que procediam com eles da mesma forma (BANDURA &:
W.\1 II ·RS, 1959; STRAUS&: GELLES, 1980). Como afirma Widom (1989), embora a
111 ti111 parte dessas crian<;;as nao se transforme necessariamente em criminosos ou em
p.tl , !Htnilivos, 30% delas acabam posteriormente sendo pais violentos.
\ 1nfluencia domestica tambem se faz sentir nas taxas mais elevadas de violencia
r 111 t ulwras e familias nas quais a figura paterna e ausente ou apagada (TRIANDIS,
!Ill) I) . As estatisticas oficiais norte-americanas, relacionadas a justi<;;a criminal, por
tlttplo, indicam que 70% dos adolescentes presos nao foram criados por ambos os
I'·'"' hunflias em que pai e mae estao presentes podem significar maiores cuidados e
di •.t 1plina mais positiva, alem de melhor condi<;;ao de vida e de nivel educacional. A
''''' dac:;ao entre ausencia do pai e violencia mantem-se de forma significativa, inde111 11dcntemente da ra<;;a, nivel de renda, educa<;;ao e posi<;;ao social (STAUB, 1996) .
, ..,.,,m, por exemplo, Santiago de Matos (2002), em estudo com maes de adolescentes
'~ "' conflito com a lei, em Sao]oao do Meriti, no Estado do Rio de janeiro, pode obser\'i ll', na maioria das vezes, que a ausencia da figura paterna foi uma constante na vida
d.tqueles adolescentes. 0 que esses dados demonstram nao e, evidentemente, que cri,uH,:as criadas sem pai serao futuros delinquentes, mas tao-somente que o risco de isso
.trontecer e maior, haja vista a influencia comprovada das experiencias familiares na
.tquisi<;;ao de comportamentos agressivos.
Normas sociais- Como vimos anteriormente, nos aprendemos atraves da imita~·ao e do refor<;;amento quando, como e contra quem podemos ser agressivos. As pesso,,., aprendem, portanto, se devem ou nao responder de forma violenta a determinados
L'Stimulos ambientais. Mas como discernir entre os estimulos que estao associados a
t•xpressao da agressao e os que estao associados a sua inibi<;;ao? Tal distin<;;ao e regulada
por normas sociais, que todos nos aprendemos, e que nos prescrevem os tipos de comportamentos que devemos adotar em situa<;;oes especificas. Assim, desde cedo, o meni
no aprende, por exemplo, que nao ha problema em bater de volta no garoto que lhe ha
207
ll'll, ''"'" n.tot rn lliH '1cl.u •,r lot llllt.ltlll'tlttt:l Aptl'tttktllo-. t.u11lwnt que 11.\o ,. U' thl
agrcdir wrha lnH'tlle a pmll'..,..,ot.t qul' tHh tq>rl'l'lldc por no..,..,o.., l'ti'O!-> ou griwr co 1111l
mais velhos que nos chamam atcn<,;<.lo. Apcsar de alguns comportamcntos agrc..,.., i'""
serem de natureza impulsiva e outros, inapropriados para certo tipo de situa~ocs !'>tH 1
ais, ha ainda muitos outros que sao controlados por normas sociais, complexas ou ""
tis, desenvolvidas em todas as culturas humanas. Sao as normas sociais que espl'< Iii
cam o lipo de agressao que e pro-social, sancionada ou antissocial. A palmada qur It
mae da no filho e educativa, e direito de um homem matar por legitima defesa, ma!'> ,, ..
salto e crime devem ser punidos com rigor. Esses exemplos ilustram hem o papel d.t
normas como reguladoras dos comportamentos. Na maioria dos casos, as normas sm 1
ais aplicam-se a sociedade como urn todo, e os limites entre o certo eo errado sao co n
sensuais. Outras vezes, contudo, ha divergencias entre os grupos sociais ou camad.1"
da sociedade: em 1960, por exemplo, os graves conflitos raciais entre brancos e neg• P"
na sociedade norte-americana traduzem esse estado de coisas, com os negros justill
cando os motins como um protesto contra a discrimina<;ao racial e os brancos recusa n
do-lhes esse direito (SEARS & McCONAHAY, 1973) .
Em outros casos, as normas sociais mudam e, com elas, a frequencia de certos 11
pos de agressao. Os casos mais obvios ocorrem com as guerras: durante a guerra, o atP
de matar soldados inimigos deixa de ser antissocial para se tornar pro-social, e quandP
ela acaba volta-se ao estado anterior.
Obviamente, tais instancias de desacordo e mudan<;a em rela<;ao as normas socim.,
sao exce<;6es ao consenso geral quanto ao que constitui agressao, e que e compartilha
do pela ampla maioria dos individuos. Entender as diferen<;as entre agressao pro-so
cial, sancionada, e antissocial, depende de saber quais sao as normas sociais relevame-.
e cuidar para que elas sejam aprendidas por todos os individuos, o que, certamente, o~
tornara aptos a funcionar efetivamente em sociedade.
De outro lado, da mesma forma que existem normas que promovem a agressao,
existem tambem normas inibidoras de atos agressivos. Como ja discutimos anterio r
mente, muitas sociedades tentam manter e transmitir normas que limitam ou coibem a
violencia e preocupam-se tambem em desenvolver normas de convivencia pacifica entre seus membros. Tais tipos de normas sao mais efetivas no controle da agressao
quando se trata do chamado in-group (isto e, os membros de urn mesmo grupo ou o
grupo endogeno). A similaridade reduz a agressao por duas raz6es principais: em primeiro Iugar, a similaridade percebida promove a empatia eo sentimento de "nos" e incompativel com a agressao; em segundo Iugar, as normas da maioria dos grupos profbern ou controlam rigidamente a violencia dentro deles a fim de que a coesao seja mantida e os objetivos dos grupos alcan<;ados. Os membros do grupo sao protegidos por
uma norma que parece advertir "nao me fa<;am nenhum mal, eu sou urn dos nossos".
208
I' :'\.1ptlll r<, .to nHtlt.t ,, a~ll'""'\o , l o11tudo, 11:10 .,,. l'..,ll'lllk para O!'> tlll'lllhn>!'> do!-> dcmai'>
'"IHI!:>. l'do l'Otllratio , parcn· que o ..,cntimcnto de que os ouLsiclcrs sao cliJerentes da
gl'nte" acaba por faze r com que a agressao se manifeste mais facilmente. Os
'''' tnlm>.., de grupos de que nao gostamos passam, geralmente, a ser desumanizados e
''"" 'dtlll'tlle exclurdos, isto e, fora das fronteiras as quais se aplicam os controles nort!ltllvn.., (SM ITH & MACKIE, 1995) .
I lt;tnte desses achados sobre a similaridade eo carater de prote<;ao existentes nos
IIi gtnup , os altos indices de violencia dentro da familia parecem intrigantes. Afinal de
il tiiH'i, a familia constitui o mais poderoso dos grupos endogenos. Como explicar isso?
I h• 11rordo com esses mesmos autores, nesse caso, o sentimento de autoprote<;ao parece
~~ -~~~ ... n suficiente em fun<;ao de outras caracteristicas muito peculiares a esses grupos, e
1 111.11.., obvia delas e simplesmente que as pessoas da familia sao facilmente acessiveis. E
"''' a.., diferen<;as de tamanho e de poder fazem com que os membros mais fracos sejam
'''' 1H ,.., capazes de retaliar; as normas de privacidade tornam improvavel que as agress6es
t 1·111' punidas e outros tipos de normas podem ate oferecer justificativas em nome da
tH~ tl''>Sidade da disciplina" ou de "manter a familia sob controle".
i • "'"·'
Fotores ombientois estimulodores do ogressao
Eu lhe imploro, meu bam Mercucio, vamos embora; estd quente o
dia e as Capuleto andam par ai. Seas encontrarmos haverd briga
na cerra, pais nestes dias tao quentes o sangue Jerve em nossas
veias.
Romeu e]ulieta, deW. Shakespeare. Ato Ill, cena I
Dentre os fatores ambientais que aumentam a probabilidade de atos agressivos, os
111.tis estudados pelos psicologos sociais tern sido o calor e a superpopula<;ao. Os result tdos de pesquisas experimentais mostraram que os estudantes que responderam a
qtll'Slionarios em sala incomodamente quente relataram sentir-se mais cansados,
tgrcssivos e com maior hostilidade a estranhos do que aqueles que foram colocados
'111 sala com temperatura normal (GRIFFITT, 1970; GRIFFITT & VEITCH, 1971).
Alguns estudos correlacionais tambem evidenciaram associa<;6es entre condi<;6es
1ltmaticas de calor intenso e maior agressao: as imimeras rebelioes ocorridas em varias
11dades norte-americanas entre 1967 e 1971 aconteceram mais nos dias quentes que
II OS dias frios; os indices de crimes violentos sao sistematicamente maiores nos lugares
111ais quentes. Segundo Anderson (1989), os crimes mais violentos ocorrem nao so nos
dias e nas esta<;6es mais quentes, como tambem nos ver6es mais quentes.
Seriam esses dados, baseados em eventos reais, indicatives de que o calor, de fato,
.tlimenta e aumenta a agressividade? Ainda que a conclusao pare<;a plausivel, e obvio que
209
l Ill II Lu, Ill'" nhlll I. p; I IIIII It Ill pi' I oil "I" I ' tgll' ....... ll I II,((! pmv.\111 ,..,..,(), ( ) II Ill' ... (' pndr ,,
mare que l'lllll o calor a-. pt·-.-.n,,., -.r loln:tmmai -. ir litadi<,;a.., e imparienll.'"• lll.t.., <>ttl II•
Lores podem cslar conco1 rcndo para o aumcnto da agrc~~ividadc , como c o cno.,n
maior numero de pessoas que , nos di as mais quentes, buscam as ruas c os lugan·.., ptt
cos para aliviarem-se da sensac;;ao desagradavel provocada pclo excesso de calor. < 111
vimos no segundo capitulo, em estudos correlacionais precisamos estar atentos a I)I' 1l
bilidade de uma terceira variavel ser responsavel pela associac;;ao verificada.
0 , ..,
0
Os estudiosos da agressao tambem incluem entre os fatores ambientais impo 11 ,1
tes para o desencadeamento de atos violentos o chamado crowding- o senti mr n
subjetivo de falta de espac;;o, provocado pelo excesso de pessoas em um arnbie n1 1'
experiencia de se sentir sufocado em um onibus extremamente cheio ou de se ~I' ll II
apertado em urn arnbiente pequeno corn muitas pessoas e estressante e pode dim inu
o senso de controle de certas pessoas (BARON, MENDEL, ADAMS&: GRIFFEN, I117n
McNEEL 1980) .
Aqui tambem cabe indagac;;ao semelhante a acima expressa: seriam os sentirnc nl o
gerados por alta densidade social, por si s6, suficientes para elevar os indices de agrn
sao? Ainda que estudos corn anirnais tenham demonstrado qu e o estresse provocad11
pelo excesso de animais em ambientes confinados tenha aumentado a agressao, lu\
uma grande distancia entre ratos enclausurados e seres humanos em uma cidadr
(BARON&: BYRNE, 2002) . De todo modo , nao ha como negar que, ern areas urba na~
muito densas , sao mais altas as taxas de crime e de estresse emocional (FLEMIN <,,
BAUM &: WEISS, 1987).
3.3 Fatores pessoais instigadores do agressao
A despeito da conclusao de que ha forte influencia de fatores sociais e ambien tai.,
na deflagrac;;ao de atos agressivos, caracterfsticas individuais podem concornitantemente atuar como desencadeadoras da agressao .
Uma das caracteristicas pessoais mais estudadas no ambito do comportamento
agressivo eo chamado Padrao de Comportamento Tipo A. Os indivfduos, que se enquadram nesse padrao, costumarn possuir os seguintes trac;;os pessoais: a) sao extremamente competitivos; b) estao sempre com pressa e c) sao irritadic;;os e hostis.
Como e peculiar no estudo das diferenc;;as individuais, esses trac;;os sao vistas
como constituindo um continuum, cujas extremidades seriam ocupadas por pessoas
do tipo A e do tipo B. Mais recentemente, contudo, alguns estudiosos do assunto tem
sugerido que essa distinc;;ao, na verdade, apresenta-se como dicotomica, isto e, como
categorias mutuamente excludentes, e nao diferenciadas por grau . Em outras pala-
210
t•l 111 •,-.o,,.., "''llolltt do 11po A
<HI
do
tqHl
1\, se nt muparem graus inll.' lltll.'diarios ao
1 111 11 ha-.e nessas ca rac tcrtsti cas, parece razoavel super que as do tipo A tenderiam
!' i11 1ti-. .tgress ivas do que as do tipo B em uma ampla variedade de situac;;oes sociais.
till1;1•, rv kkncias experimentais apontaram nessa direc;;ao (BARON , RUSSEL, ARMS,
fi lii• Ill RMA N, GLADUE &: TAYLOR, 1993). Alem disso, outros achados demonstraH i it '1 111 ,,.., pcssoas do tipo A sao, de fato , hostis: elas nao apenas agridem outros porp!P l•l•ill ll.' prcse nta um meio util para atingir seus objetivos (sucesso profissional, vit6tl:i ,· 111 <o mpeti c;;oes ou jogos) - e, nesse caso, estariamos falando de agressao instrufl li lll ol l co mo tarnbem se engajam na chamada agressao hostil , cujo objetivo principal
!illtgll do r e sofrimento as vitimas (STRUBE, TURNER, CERRO, STEVENS&: HIN111 iY, 1984).
omo vimos anteriormente, as atribuit;oes sobre as intenc;;oes dos outros desempeiiLtll t 11111 papel irnportante na agressao . Quando os individuos creditam as ac;;oes amde alguem a uma intenc;;ao maldosa, eles sao mais propensos a retaliar do que
'I'' t11 do as interpretam como decorrentes de outros motives QOHNSON &: RULE ,
i ' llll1) Essa tendencia sugere uma outra caracteristica pessoal que afeta potencialmen11 1oco rrencia da agressao- designada como tendenciosidade atribuicional hostil-e
'Ill' ro nsiste na propensao a perceber intenc;;ao hostil nas outras pessoas mesmo quand' '' Ia nao existe. Quante maior ela for , maior a probabilidade de reac;;oes agressivas em
II >
fl llS ta a prOVOCac;;aO de OUtrOS.
1
f;'' · "''"
Um outro atributo pessoal relacionado ao comportamento agressivo diz respeito
'' ' g(· nero. Serao os homens mais agressivos que as mulheres? 0 senso comum sugere
•jill' o., im, pelo menos na maioria das vezes. As estatisticas criminais revelam a maior in' 1til'ncia de homens presos por atos violentos, comparativamente as mulheres.
A pesquisa em agressao, no entanto, interessa verificar se ha diferenc;;as suficientellll'nte grandes e consistentes entre homens e mulheres com relac;;ao a tendencia em
.1 g1r de forma abertamente agressiva. Ate o memento, contudo, os dados ernpiricos dispo111veis na literatura sociopsicol6gica nao oferecem um unico padrao de respostas.
Porum lado, resultados de pesquisas indicam que os homens sao mais propensos a
lll ..,tigar ou a servir de alvo para varias formas de agressao (BOGARD, 1990; HARRIS,
1992). Por outre, uma inspec;;ao mais detida revela que as diferenc;;as nao sao tao acentuad.ts quanto a crenc;;a popular sugere. E, alem do mais, a tendencia dos homens para atos
.tgressivos parece ter mais a ver com as formas ftsicas de agressao (brigar e usar armas,
por exemplo) . Os achados mais recentes vem sugerindo que as mulheres, mais que os
lt omens, tendem a recorrer a formas variadas de agressao indireta, tais como, espalhar
hoatos e "fofocas" sobre outra pessoa, rejeitar publicamente uma antiga amizade, ignorar uma pessoa na frente de outras (LAGERSPETZ, BJORKQVlST &: PELTONEN, 1988).
211
1 ~ 111 ,..,lttdo 11 .tli .ultr p111 lljlltl,qvt-.1 , l.tgn.,pl'l • (' 1\,tllki.tilltlt ( l'l'l)) , IIH'rtino-. (' 111(1
11a., de trh l;u-.:a., t'l:tlt:t., lo1.1111 .,olil ll:tdo:-. a irtdk'ar COlt to M'll!'> lokga., de rla.,.,l. ll'ilgi
quando cstavam com ralva. A., re.,po:-.ta., loram ag• upada!'> em l re<; catego1 ia.,: ag1 ,.
direta (tapas, brigas, palavrocs) , indireta ("fofocas") e afastamcnto (rctirar-se, linn 1
mau humor) . Tal como o esperado pelos pesquisadores, os meninos usavam mai-, :t., l1
mas fisicas e diretas e as meninas "manipulavam" mais a agressao, isto e, rccorr i<1111
formas indiretas de agressao. Tais diferenc;:as eram tanto maiores quando mais idadl' I"
sufam, o que, segundo os autores, pode ser explicado pelo maior desenvolvimcnlo 1
habilidades cognitivas necessarias ao uso de formas manipulativas.
Evidencias adicionais demonstram que os sexos masculine e feminine tambe 111
distinguem nas suas atitudes em relac;:ao a agressao (EAGLY & STEFFEN, I()Her)
Enquanto os homens relatam sentir menos culpae ansiedade quando se envolvcnt I'll
comportamentos agressivos, as mulheres revelam uma maior preocupac;:ao de que a ag11·
sao a alguem acabe por trazer uma ameac;:a a sua seguranc;:a pessoal, ou seja, que a vft1111
busque uma retaliac;:ao.
Diante desses resultados, retoma-se, mais uma vez, a questao fundamental. Quo~ I
a base para as diferenc;:as entre homens e mulheres no que se refere a agressao? E:-. 1.1
riam os homens, de alguma forma, programados para a violencia por conta de fatott
biol6gicos ou geneticos - como possuir o cromossomo Y ou niveis mais altos de hot
monios sexuais masculines? Ou seriam as diferenc;:as de papeis sexuais e as pratica!'> d
socializac;:ao distintas para meninos e meninas? Convidamos os leitores a refletirem :-.o
bre as possfveis respostas a luz do que ja conhecem sobre as varias abordagens te6ri(ol
existentes sobre agressao, ja discutidas no infcio do capitulo.
4. A influimcia de filmes e programas de televisao violentos na
manifesta~ao de agressividade
As evidencias indicam claramente que a exposi~;ao a Iongo prazo tl.imagens violentas aumenta a probabilidade de atos violentos par
parte do telespectador.
IJC 111 1111., vldvog.tiiH'.,) , 1r111 .tlt.lldo .1 :tlt' tt~.lo n:lo .,o do-, cil'nli.,,,,., .,ot 1,11., , 111a., talll
!f\ •It '• IHirdadr t'tll gna l, a.,.,u.,tada rom os alios c ncscc ntcs 1ndiccs de crimina lidalllrttll.t , n;h lll<h , t•nfim, em praticamcntc todas as situac;:oes sociais.
1 111p1 ,. que se IXk em rclcvo a qucstao polemica Violencia X Mfdia, a discussao
IJr !_t .,,. ('Ill tomo do scguinte eixo de discussao: a mfdia cria uma sociedade agresl hl ••II '• ttllplt'smcnte rcproduz e retrala uma realidade social violenta? Para uns, a mfllti (' 11g1.11tdc rcsponsavel pela exacerbac;:ao e banalizac;:ao da violencia, atingindo espeilll!' lllt as crianc;:as, que, sob sua influencia, crescem e se tornam adultos, encarando
li}•;-.,\o co m naturalidade e sem perplexidade. Os defensores da mfdia costumam
. "'11·r ft hip6tese da catarse, sustentando que assistir programas violentos contribui
11 1 rlr -.ra rrcgar as tens6es e energias agressivas e argumentando ainda que a violencia
lllltlllll' a televisao .
.tr hados, pela complexidade do fenomeno e por suas serias implicac;:oes sociais,
,, 11 111 sido consistentes nem tampouco conclusivos. Mas, tornados em conjunto,
..
1 1111.1111 para a conclusao de que, de fa to, a excessiva exposic;:ao a violencia na mfdia
c I•,
I'""'
"~'~'
um dos mais importantes fatores na deflagrac;:ao da violencia individual e social.
rJr.,\a sec;:ao, trataremos de algumas das principais linhas de pesquisa cujos result tdlt'• podem contribuir para a elucidac;:ao de quest6es centrais envolvidas nessa inter-
1", 1 t~ : lo .
() impacto nas crian~as- Os leitores devem estar lembrados que, ao tratarmos da
pltc ;u;ao dada pela teoria da aprendizagem social para a agressao, afirmamos que as
lriiiH,;as tendem a imitar o comportamento dos modelos agressivos que observam. Potl• 111os, entao, por extensao, acreditar que a observac;:ao do conteudo agressivo veicula"" pl'la televisao, nos filmes, seriados e ate mesmo nos desenhos animados, tera efeitos
tlll!'lhantes nas crianc;:as?
0 debate acerca da influencia da exposic;:ao a violencia nos meios de comunicac;:ao
de massa, levada as ultimas consequencias no cinema e na televisao (e ultimamentc
Lcvando-se em conta que as crianc;:as permanecem, em media, tres a quatro horas
I"" dia , diante de urn aparelho de TV, como podemos avaliar que comportamentos sotl.ll., cstao sendo modelados? Desde 1967, pesquisadores da Universidade da Pensilvaill.t vern analisando os programas da televisao norte-americana. Entre os principais
11 It ados, destacam-se os que apontam que dois em cada tres programas con tern violen11.1 , compelindo fisicamente a ac;:ao com ameac;:a potencial de ferir e matar ou a a~ao
tjlll' redunda, de fato, nesses atos de violencia. Qual a consequencia disso? Ao final da
,..,rola elementar, a crianc;:a norte-americana media tera visto aproximadamente 8.000
.i ••..,assinatos e 100.000 outros comportamentos agressivos na televisao. Refletindo so'" t' todos esses anos de crueldade testemunhada e computada, Gerbner (1994) afirma
que a humanidade teve eras mais sanguinarias, mas nenhuma tao preenchida com ima':nts de violencia como a atual.
212
213
W. Belson (ap6s pesquisa longitudinal de 6 anos de durat;:ao
com mais de 1500 adolescentes, Survey Research Center of the
London School of Economics, 1978)
Das 3.500 pesquisas realizadas sabre os efeitos da violencia na
midia, 99,5% delas evidenciaram algum tipo de efeito negativo
junto a audiencia.
Grossman & DeGaetano, 1999
1\.., rvidt'IHI,I..,ttlll.l\·tu do.., !'ltll<h d.1 vtoll'll< i,1 11;1 tnfdt;t -.ohtt' a .tgn·..,..,,,o lnl ,ll ll
sua-. rcpcn.: u-.s<ks ''" v~tl.l .ulult;t lman1 ohtidas em va1 ios 11pos de t·..,tudo, dc..,dt ''
pcrimcntos de laboratmio, pa-.sa ndo pclo~ cstudos corrc lacionais, ate os cxpt' lllll t' l
de campo.
As primeiras evidencias de que a agressao exibida na mfdia poclc lcvar a CO lli I'"
mentos agressivos foram reunidas nos classicos experimentos de Bandura c co l.tl ul
dores (1963), nos quais era avaliado o comportamento de crianc;:as observando " ' "
violencia. Os estudos tinham sempre esse objetivo central, variando-se as CO IH II \
em que se apresentavam os modelos agressivos ou nao-agressivos.ja nos referi n1 o•.
teriormente aos estudos cujos modelos eram atores. Em outros estudos cia se 11t .
modelos eram mostrados em filmes ou em cartazes. Em todos os casos, as crian<,;a.,
observaram os comportamentos do modelo agressivo demonstraram uma te nd t' 11
maior a atos agressivos do que as que observaram modelos nao-agressivos.
Em estudos de laborat6rio subsequentes, os sujeitos, ap6s assistirem prog1.11
ou filmes de televisao, tinham a oportunidade de atacar (supostamente) uma vi ii
real, e nao mais urn boneco. Os resultados foram equivalentes aos anteriormentc ,,.,
ficados: os participantes (crianc;:as e adultos), que testemunharam cenas de vioit' tu
na midia, revelaram posteriormente indices mais altos de agressao do que aquelcs q
nao foram expostos a tais conteudos QOSEPHSON, 1987; LIEBERT, SPRAFK IN
DAVIDSON, 1989). Nessa linha de analise, Liebert e Baron (1972) conduziram un1
tudo comparando dois grupos de crianc;:as: urn deles assistiu ao Os intocaveis, urn Sl'l 111
do de televisao, extremamente violento, de policiais contra bandidos, bastante po pul11
nas decadas de 60 e 70; urn outro grupo semelhante de crianc;:as (grupo de controlc) ,,
sistiu, pelo mesmo periodo de tempo, urn evento esportivo, bastante excitante, lllil
nao-violento. Ap6s o programa, permitia-se que as crianc;:as brincassem em uma sal
com outras crianc;:as, que nao assistiram nenhum programa. Tal como o esperado, il
crianc;:as que viram Os intocaveis mostraram maior agressao contra seus colegas do qu
as que viram o programa esportivo.
Achados ate certo ponto mais convincentes com relac;:ao ao impacto da midia 1111
agressao subsequente de crianc;:as foram trazidos por estudos de campo, conduzido'l
sob condic;:6es mais realistas. Em tais estudos, os pesquisadores expunham grupos d1•
crianc;:as a quantidades variadas de violencia na midia e observavam os niveis de agrc.,
sao manifestados em situac;:oes naturais. Mais uma vez, os resultados fortaleceram a in
terpretac;:ao de que os jovens, quando submetidos a exposic;:ao prolongada de violencia ,
tornam-se mais agressivos do que os que sao expostos a materiais nao-violentos
(LEYENS, CAMINO, PARKE&: BERKOWITZ, 1975; PARKE, BERKOWITZ, LEYENS,
WEST&: SEBASTIAN, 1977).
ljlldlltlo '>I' llltll;llll adolt'Sl l'llll''> l' ad td 10'> (I ·IH )N, 19H 7; Ill) !·SMA N N, JlJHl) . U Ill
tij•l••llptt o dt•..,st• tipo de estudos ajudara os lei tore~ a comprccndcr mclhor a meto11 111 ilt zada: os pcsquisadorcs pcdiam a adolcsccntes que se lcmbrassem de proIIi 1 d1 I V que assistiam quando eram crianc;:as e qual a frequencia com que os
Hiit l'tu. dt'iamcntc , so licitavam a alguns juizes que, de forma independente, classifiill , .,.,, •.., programas quanto ao grau de violencia que continham. Os adolescentes,
11.1 vt•z, cram dassificaclos por seus professores e colegas declasse, tambem de forlildt pendente, em func;:ao do grau de agressividade que apresentavam. Os resultalot . twill .1ram nao apenas alta correlac;:ao entre a quantidade de violencia vista na TV e
11111 de agrcssividade subsequente, mas tambem que o impacto e cumulativo, isto e,
lt111 1d.1 correlac;:ao aumenta com a idade.
tii
\It lila que contundentes, esses resultados nao pod em ser interpretados como indide que a violencia assistida na televisao faz com que todas as crianc;:as se tornem
.. ,. ,.,, II iamente adolescentes violentos. Como se trata de estudos correlacionais, e
u ''' 1l1 l'studos experimentais, nao se pode- como ja alertamos seguidas vezes- prestq '"' uma relac;:ao de causae efeito entre uma coisa e outra. Ate porque e bastante plau1\·••1que se tenham outras interpretac;:6es para esses mesmos resultados: poder-se-ia
I" 11 .. 11 , por exemplo, que crianc;:as agressivas ja nascem com a tendencia a gostar de
lldt 11cia e, por coma disso, essa tendencia manifesta-se tanto em seu comportamento
'' .,..,,vo quanto em sua preferencia por programas agressivos e violentos.
' i• ,,..,
importante destacar que todos esses estudos, embora variem a quantidade de exa violencia na midia para avaliar seu impacto no nivel de agressividade dosespr• 1.1dores, nao podem dar coma de todos os fatores que promovem a agressao. Quan,j,, •,r tcm conhecimento de dados estatisticos, como os que apontamos no inicio desta
~.to , que revelam a intensidade com que as crianc;:as sao submetidas a violencia na TV
tllllll Cro de horas por dia diante da televisao X proporc;:ao de cenas violentas X numero
tl• .111os assistindo programas agressivos), nao ha como deixar de considerar que, alem
·II .1prendizagem social e da imitac;:ao, urn outro fator crucial pode contribuir para ex'"'' ar o extraordinario impacto nas crianc;:as dos conteudos violentos, veiculados cotidt.lnamente na midia. Eo fenomeno chamado priming': da me5ma forma que a exposi' to das crianc;:as a armas, rev6lveres, facas, deixadas a vista das crianc;:as, tende a aulllt'ntar a probabilidade de uma resposta agressiva diante da dor ou frustrac;:ao subseljlll'nte, a exposic;:ao das crianc;:as a uma carga interminavel de violencia em filmes e
ogramas de televisao tern o efeito similar de acessar prontamente uma resposta
.1grcssiva diante de uma varieclade de situac;:oes sociais.
I'
pp·,l\.10
I''
Estudos correlacionais longitudinais indicaram tambem que quanto mais violencia e agressao as p~ssoas assistem na televisao quando crianc;:as, mais violencia elas exi-
I Priming: termo utilizado na Psicologia Social que se refere a conceitos que, ao serem ativados It'
lt'ntemente (ou que o sejam frequentemente), tern mais probabilidade de surgir na mente e po r1 a11 111
dt· serem usados na interpreta<;ao de quaisquer fatos sociais
214
215
( 01110 .1 lilt'l:lllll,l 'olH llljl'.h olllgit ,1 t', 1:111 gnal, dl' jlllH 1·drnn.t 1101 ll' allH' I it.l
O!'> achado!'> aqui disn111do., 11'11'11.'111 .,~,.,em !'>Ua maio1 ia, ;\ cullunt de odge11l. I >1,
clessa constatar;ao, o lcitor podera logo pcnsar: nao scriam as tcndcncias, ate 1111
apontadas, tipicas dessa sociedade, mas nao de uutras?
Parece nao ser esse o caso. Pelo menos, se levarmos em considerar;ao os rc!'>t dt.u
da extensa pesquisa sobre violencia na midia, realizada em 23 paises, durante o., .11
de 1996 e 1997. A pesquisa foi coordenada pelo pesquisador alemao jo Grocbrl .
Universidade de Utrecht, Holanda. Em entrevista concedida a imprensa (Jamal do llr
sil, 1998), Groebel comenta o seu trabalho, que se transformou no maior estudo 11.11
cultural do papel da violencia na mfdia no desenvolvimento da agressividade na., 1 1
anr;as. Groebel entrevistou 5.000 meninos e meninas de 12 anos, todos alunos de r..,q
las, percorrendo 23 pafses, entre eles o Brasil, Alemanha, Canada, Croacia, Fi lipi 11 i1
Ucrania, Tajiquistao, fndia,japao, Ilhas Mauricio. Pela primeira vez, em estudos clr
natureza, foram incluidas regioes internacionais em conflito.
Os resultados desse estudo reforr;am as conclusoes das pesquisas
ricanas: a presenr;a macir;a da violencia na midia no dia-a-dia das crianr;as e seus grav~
efeitos no desenvolvimento de uma sociedade agressiva. Eo que e pior, revelam I l it
tar-se de urn problema de ambito mundial: o privilegio da banalizar;ao da violencia 11
mfdia nao sea tern a classe social, rar;a, crenr;a religiosa ou modelo cultural especffico.,
Urn breve resumo dos dados sobre a infancia diante da televisao ilustra com claH'
za a forr;a dessa fonte de informar;ao e "entretenimento": 93% das crianr;as entrev isla
das tinham acesso a urn aparelho de TV, chegando esse percentual a 99% no Hem isl
rio Norte; a media diaria vendo programas e filmes e de tres horas, o que represe nt
mais de 50% de seu tempo livre fora da escola; cada programa de uma hora contem d
cinco a 10 cenas violentas; 44% das crianr;as nao conseguem diferenciar a realidade dn
que veem na televisao e 88% delas tinham como principal her6i o Exterminador do fu
turo, interpretado no cinema por Arnold Schwarzennegger.
Tomando por base o conjunto dos resultados, Groebel afirma que a televisao ~~xrr
ce urn extraordinario domfnio na vida das crianr;as, promove a cultura da agressh ida
de, contribui para criar a imagem de que a violencia e normal e recompensavel e, ainda
mais grave, a violencia nao esta mais ligada a vitima, mas a ar;ao e a diversao. A maior
parte das crianr;as do estudo parece viver em estado emocional problematico, e, nao
tendo orientar;ao em casa, busca ajuda nas imagens da TV e nos comportamentos dos
seus her6is, que lhes servem de modelos para enfrentar situar;oes dificeis. Algumas di ferenr;as encontradas entre as crianr;as indicam que aquelas que vivem em ambientes
violentos e assistem a programas violentos sao ainda mais violentas do que aquelas que
estao expostas apenas aos conteudos agressivos da televisao.
216
l llllol lllllclll'o,\0 h,l'ol <IIIII'
II II t' l'l.'S'o<lllll.'
dl'!'>'ol' l'SilldO n:lert'· !'>t' U d ilerl.'IH,;a COil'ol a tad a
lti't' 1111111110!'> l' lllt'llillas, ja di.,cutida antcriormcntc ncste capftulo: enquanto a maio-
11 tit' • llll'llinos cscolhe hcr(lis agrcssivos, as meninas optam por pop stars e musicos.
!lilt In ( .roebcl , a atrac,;ao pel a violencia e definitivamente coisa de menino, e sua
plh , ,~·:~tll' tambcm uma tendencia predominantemente masculina. Aluz dos achados
h:1'• ' 1 de outros cstudos realizados, Groebel conclui que o que percebemos como
!11; 1~.\o , socializac,;ao, inOuencia de estilos distintos de criar;ao de meninos e meninas
lu;ol, .,,.1 o resultado do impacto da midia. E a tendencia e que as meninas se aproxiIIH"Iil 1 .1da vez mais do comportamento masculino e nao que os meninos se tornem
•iitd , p.1rlficos. Em sfntese, o que se verifica e a promor;ao sistematica da cultura da violl'iiLI,I 1' 111 detrimento da cultura pacifica.
I'm conta da natureza contundente desses resultados, de sua atualidade e abran-
1111,1 , dedicamos atenr;ao especial ao estudo de Groebel, mas, obviamente, ha que
11 .idcra-lo dentro dos limites que possuem os estudos correlacionais. Sugerimos aos
111111'" que analisem esses resultados, devidamente informados sobre as vantagens e
!1'. I ,IJ\Iagens desse tipo de metodo .
impacto nos adultos- A enfase especial que demos a discussao do papel da mil!i,t ,..,pecialmente da midia eletronica, no aumento da agressividade das crianr;as jusi il j, ,, sc por varias razoes: por definir;ao, as crianr;as sao rna is maleaveis que os adultos,
ll'' '"s upondo-se, entao, que suas atitudes e comportamentos sejam mais profundaIll! llll' influenciaveis pelas coisas que observam; ainda nao atingiram o nfvel de desen•lh imento cognitivo necessaria para decodificar e entender de que forma a violencia
., 1.1 sofrimentos e vftimas. Fein (1973) lembra tambem que a tendencia a imitar;ao de, 1111:1 com a idade. Crianr;as mais velhas, acima dos cinco anos, ja nao imitam tanto
•flt.llllO as mais novas urn comportamento observado, numa possivel prova de que o
.l,rlinio da imitar;ao decorre em funr;ao de urn progressivo amadurecimento cogniti, '' Com isso, a observar;ao da violencia nao seria tao danosa nos adultos, pelo menos
q11.111do se tern em mente apenas o papel da imitar;ao.
<)
No entanto, nao se pode afirmar que tais efeitos limitem-se apenas as crianr;as e
11.10 atinjam tambem os adultos. Pelo contrario, sao numerosos e aberrantes os exemplos de comportamentos violentos exibidos por pessoas adultas, muitos deles atribuido., a influencia da midia. Aronson, Wilson e Akert (2007) relembram urn caso ocorrido no Texas, ha alguns anos, em que urn homem arremessou seu caminhao contra
111na cafeteria lotada, desceu da cabina e comer;ou a atirar nas pessoas. Ap6s matar 22
pl'ssoas, suicidou-se. Em seu bolso, a polfcia encontrou o canhoto de urn ingresso para
11111 filme: ele havia assistido Fisher King, urn filme que mostrava urn homem louco, ati1.111do e matando varias pessoas em urn bar.
217
COIIItld i' IH 1.1 11 'In vi'i lo tllliiiH' tit--.t' IH adl·ou l'""t' a1o v1okllto ? Ra zth'!-1 lllllllllll
prof undas c incon -;t'il'llll'S rx plir;u i:un t''iSl' dc!-> lecho 1ragico ? N ~\o podcmo!-1 11'1 1 111
da resposta. 0 que sabcmos c que a viol cncia ass istida , c de alguma forma lcgi 1111
ou naturalizada pela mfdia, tem um impacto profunda no pensa mcnto e CO illf H
mento das pessoas. E de la para ca, infelizmente, acontecimentos ckstc tipo vtlll ··•
petindo de quando em vez.
Phillips (1983, 1986) realizou uma analise interessante das taxas di:hias de l11
cidio nos Estados Unidos e verificou que elas quase sempre aumentavam na Sl' ll hl
subsequente as grandes lutas de boxe exibidas pela televisao e que, quanto maio 1 ,, 1
blicidade em torno delas, mais altas eram as taxas. Mais curiosa ainda e que a ra~, ,
vitimas relacionava-se a rac;;a dos perdedores. Os dados desses estudos correlado1
com adultos sao bastante convincentes, mas tambem nao podemos toma-los co mnl
dicativos de que todas as pessoas, enema maioria delas , sejam levadas ou motivad,t
cometer violencia ap6s assistirem a cenas de violencia na TV. Mas e inegavel que :d
mas delas se deixam influenciar pelo que assistem.
Por que a exposic;;ao a violencia na midia gera violencia?- Acreditamos que o-.
tores ja se deram conta de que a conclusao a ser extraida dos estudos por n6s exa m
dos nao e a de que a midia eletr6nica- televisao, cinema, internet, video games- ean
sa fundamental da violencia individual e social. 0 que se pode afirmar e que, dentro
urn amplo espectro de fatores influentes, biol6gicos, sociais, pessoais, ou, melhor
da, da conjugac;;ao complexa desses multiplos fatores, a exposic;;ao a violencia na mid
pode ser urn deles. Mediador ou modelador, instigador ou disparador, formador ou
produtor amplificado, o fato e que o papel da midia nao pode ser descartado em q
quer analise que se fac;;a, contemporaneamente, da agressao e violencia humanas.
Dada a convergencia das evidencias reunidas por estudos experimentais e corn ·II•
cionais e por estudos intraculturais e transculturais, os psic6logos sociais vern se preu
cupando em explorar o porque dos efeitos, as vezes tragicos, de testemunhar a vio l(•n
cia na midia. Entre as muitas possibilidades explicativas do impacto da midia no com
portamento, algumas sao especialmente destacadas pelos estudiosos do assunto e
elas ja nos referimos ao longo deste capitulo. Retomaremos algumas dessas explica
c;;oes, de forma breve, aplicando-as diretamente ao contexto de discussao ora em foco:
(a) Nao e o conteudo violento, por si mesmo, que causa a violencia social, mas ll
excitac;;ao fisiol6gica (arousal) que ele produz (MUELLER, DONNERSTEIN 6:
HALLAM, 1983; ZILLMANN, 1989) . Como vimos, a excitac;;ao tende a "transbor
dar", e urn tipo de excitac;;ao energiza outros comportamentos, aumentando a pro
babilidade de ocorrer uma agressao em uma situac;;ao posterior.
218
(lt l '\ vi-.;lo da VIOit'llda c/c\ini/J(', No-. l'X Pl' l illll'II10s de llandura , o fato dos adultos
i' .a llllll .lll'lll o boncco parccc ul cgitimar as invcs tid as das cri anr,:as e enfraquecer
11 .1•, prop1 ias inibi r,:t)cs.
~ t' )
A-. image ns da m1di a evocam imiLa(do. As crianc;;as de Bandura repetiram comcspecffi cos que haviam testemunhado. Exatamente por isso, a indus! I i.1da propaga nda televisiva parte do pressuposto de que os anuncios comerciais
111 ndd am o co nsumo, pois os espectadores tenderao a imitar o que veem na TV.
1" lllilllll' ntos
televisao, como urn poderoso veiculo de informac;;ao, dissemina novas tecnide ataque e de maus-tratos aos outros, ate entao desconhecidas ou nao dispolll vcis, e tais comportamentos possiveis, uma vez adquiridos, tendem a ser usados
11 11'> co ntextos apropriados.
( d ) i\
i'il'·
( t' ) /\ Iem da influencia sobre o comportamento, os pesquisadores tambem vern se
flll'Oc upando em examinar os efeitos emocionais do envolvimento dos espectado1t''i com as cenas agressivas que assistem na TV. Ate que ponto a exposi~ao prolong. td a e excessiva a violencia provoca urn processo gradual, mas inexonivel, de des'>r nsibilizac;;ao? 0 que se supoe e que a repetic;;ao ad nauseam de atos de crueldade
.1raba por "extinguir" qualquer resposta emocional em quem sempre os assiste, e a
ll'S posta mais comum passa a ser apenas um comentario do tipo "nao me incomoda nem urn pouco" ou ate mesmo deixa de causar qualquer tipo de perplexidade
di ante deles. A reduc;;ao da sensibilidade emocional diante da violencia traz consequencias danosas ao convivio social. A agressao na vida real passa a ser vista de
forma menos perturbadora, reduzindo-se a empatia com a vitima, mesmo quando
cia evidencia sinais de dor e sofrimento (BARON, 1979; HARRIS et al., 2000).
(f) Observar comportamentos agressivos exerce influencia nos pensamentos ou
cognic;;oes dos telespectadores de diferentes formas (BERKOWITZ, 1984; 1988):
materiais violentos podem servir para dar primazia a pensamentos e lembranc;;as
agressivas, tornando-os mais prontamente disponiveis nos seus sistemas cognitivos, fazendo com que uma situac;;ao social especifica "dispare" a agressao (priming) ; fortalecimento e ativac;;ao dos scripts relacionados a agressao, isto e, as ideias
acerca de que eventos sao mais provaveis de acontecer ou sao apropriados em urn
dado ambiente (HUESMANN, 1988) . Assistir cenas violentas acessa no observador o comportamento agressivo pela ativac;;ao de pensamentos relacionados a violencia (BERKOWITZ, 1984; BUSHMAN&: GEEN , 1990).
(g) 0 mundo ficcional da televisao moldaria nossas concep~oes do mundo real?
Gerbner, Gross, Morgan e Signorielli (1986) suspeitam que esse parece ser o efeito
mais potente da violencia na midia. Seus estudos com adolescentes e adultos revelaram que os espectadores mais renitentes (pelo menos quatro horas diarias vendo
televisao) sao mais propensos que os espectadores eventuais a pensarem que a vio219
IC'rKi,l no ntundn tt•alt' .tind.l llt.lh>r l ' ;I ltntn•nt t .td.t Vl' l r11.11., rt•tco-.o-. dr .,,.,
pcssoalmt' llll' ;tlrrtgtdo-. por alos de vrokncia . lsto podc provocar uma ~'"P"II
cfrculo vicioso, print'ipalmenlc nos idosos: quanto mais vccm TV , mai'i co11•·1
ramo mundo extcrno pcrigoso. E quanto mais o fa zcm , mcnos sacm a rua , ,,
os faria assistirem a mais programas de TV, que os leva ria a supcrestimar a v111l
cia das ruas, etc. , etc. Para estes autores urn efeito de "cultivo" sc daria cnlrT ,,
pectadores, em fun(:ao do que e "ensinado" pelas TVs. 0 fato , por excmp ln.
50% dos personagens de TV se envolverem em episodios violentos uma vcz p1•1
mana- contra menos de 1% da popula(:ao , por ano , na vida real- criaria na 1111'1
das pessoas urn falso retrato acerca da real incidencia da violencia no mundn
Na epoca da elabora(:ao da presente edi(:ao, uma nova fonte de preocupa~6l'., 11
rela(:ao a violencia veio se colocar como foco de estudos dos psicologos: os vidn
mes. Desde que se sou be que os adolescentes que perpetraram o massacre na escol.r
Columbine, nos Estados Unidos, em 1999, eram fas de jogos violentos, paise cic nll .. l
sociais tern voltado sua aten(:ao para esta nova modalidade de violencia na mfdia. I'
substantiva destes jogos associa violencia (assassinatos brutais) a entretenimcn ln,
diferentemente do cinema, da TV ou da midia impressa, o faz de forma interaliva, 1
sivelmente diminuindo ainda mais possiveis inibi(:6es, fomentando o priming c <H
tuando o processo de dessensibiliza(:ao. As pesquisas ja realizadas vern confirmaru
inequivocamente, estas tendencias (BANDURA, 2002; BUSHMAN & ANDER~<
2002; SHERRY, 2001) .
111 hut c,:lo do po1110 de vr -. la qul' ado1arnw., pam ex plicar a agn·.,s;lo hiologico
,,, p., rro logko 1er-e mos pers pectivas mais pcssimistas ou mais otimistas em re1•1 1 po-.., ihilidadc de controle c prev en ~a o da agressao humana.
I
'liu
·\ '•"" · th lc6 ri cos que concebem a agressao como uma pulsao, portanto, uma cai r tt •,(lt 'a inata no sc r humano , sao pessimistas quanto as possibilidades de controlar
ti 11111H>rl :un cnto agressivo. 0 proprio Freud, testemunha ocular da Primeira Guerra
[!lult.d, parccc ter se resignado a inevitabilidade da agressao ao postular a pulsao de
llltii II_ , ,.,,o c, uma compulsao presente no ser humano para retornar ao estado inorgat~l tlt do qual toda materia viva e formada. A agressao, para ele, era uma deriva(:ao natut.il d.r pul .,ao de morte.ja os neofreudianos deixaram alguma esperan(:a quanto a redui 1l.1 .tgrcssao ao admitirem a possibilidade de desenvolvimento do superego como
lr11 11 1. 1 dl' co ntrolar os impulsos agressivos inatos. Adicionalmente, advogaram a parti'11 u.. lo em atividades agressivas socialmente aceitaveis, como esportes, competi(:6es e
l!'lr. tl r·.,, co mo urn meio de libera(:ao da energia agressiva.
11.tra Lacan , e a fala que pode moderar a agressividade: as palavras introduzem uma
(ill·llt .tc,·ao na extrema ambivalencia que permeia essa rela(:ao, possibilitando uma espe11 1ll' pacto nas relac;:oes intersubjetivas. Esse eo valor inicial dado por Lacan a dimen·'' ' .,,mbolica.
As respostas para essas perguntas dependem das pressuposi(:6es sobre as
da agressao , o que, em ultima analise, significa dizer que dependem das cren(:as a
da imagem basica de homem. Resumindo-se os dois principais polos de discussao sn
bre a agressao, temos as seguintes posi(:6es gerais: a agressao e vista como uma respo'i
ta automatica "programada"; a agressao deriva de uma complexa interface entre um
variedade de eventos externos (por exemplo, provoca(:ao, frustra(:ao), cogni(:6es rdt•
rentes a esses eventos (como atribui(:6es) e diferen(:as individuais relacionadas a algu
mas dimensoes-chave (por exemplo, padrao de comportamento tipo A).
l omando por base a perspectiva psicanalitica, os estudiosos da agressao defendem
tji.ll ,, w tarse pode ser vista como uma das tecnicas uteis para combater a violencia.
1 111110 sabemos, Freud prop6e uma explicac;:ao "hidraulica" para dar coma dos impul" , '-,cgundo essa ideia, se nao fosse permitido as pessoas expressarem seus impulsos
Iiiii ... -. ivos de uma forma relativamente inofensiva, como por exemplo na sublima(:ao,
• 1 ll l' rgia agressiva se acumularia progressivamente, exercendo pressao ate explodir
1 111 ,\los de extrema violencia. Numa simplificac;:ao desta ideia, o senso comum reco1111 11da as pessoas que, sempre que estejam com raiva , devem liberar suas energias
lf\lt'ssivas a fim de que, mais tarde, seus atos nao acabem se transformando em atos
1!1 .,, rutivos. A "descarga" da energia e saudavel e utile pode se dar atraves de varios ti111 " de comportamento: o desempenho de atividades fisicas socialmente aceitaveis,
1 ttlll Ojogos e competi(:6es; a observa(:ao de atos agressivos que liberaria, vicariamente,
11 11crgia agressiva; ou o proprio engajamento em agressao direta. Analisando os dados
1 r11p iricos reunidos sobre os efeitos da utilizac;:ao dessa tecnica, alguns psicologos soci.lh argumentam que , de urn modo geral, ela nao tern se revelado tao eficaz no controle
1!.1 agressao quanto seria desejavel. Jablonski (1978), ao revisar os principais estudos
.lll'rca do tema, apontou uma certa confusao de sentidos que foram se agregando ao
It rmo catarse, tornando-o de dificil precisao. Metodologicamente, tambem, procedilltl'ntos muito diversos tern sido comparados de forma indevida, o que acabou contri lurindo para aumentar a confusao conceitual reinante. Cite-se ainda que apenas os ex-
220
221
5. Prevenejao e controle da agressao: algumas h~cnicas uteis
Civilizac;ao consiste, em ultima analise, em reduzir a violencia
um minima posstvel.
11
jose Ortega Y Gasset
Embora a violencia sempre tenha existido, em alguma forma, na historia da
manidade e na vida das sociedades, sera ela inevitavel? Ou podera ser controlada
eliminada?
pt'IIIIH'IIIO.., qm llllli - ;u.llll o I1111IHII lOIIIO lo1111.1 lk dt'"'·"P,·l j).lll'l'l'lll ll'l alg11111 1'1
do tipo pre1endido pclo!-> dl'il'II"Oil'" da hipolt'!->l' da ealar!->c. lk qualqutr lo1111.1, ,,
\:aO de catarse comportamenta l ainda que rclativamcntc uti I para rcduzir a h 11.,11
ou a raiva - nao contribui para a redu\:aO cia incidcncia globa l de agrcssr10; <!"•'
muito, ela apenas controla a expressao da violencia futura as custas cia vioiL'nl 1,1 1
sente. Curiosamente, no entanto, em que pese a ausencia de comprova\:aO cit'lll
resultante dos experimentos ate agora realizados, a no\:aO de catarse perman('u: v
em termos de senso comum (BUSHMAN, BAUMEISTER & STACK, 1999).
Para os et6logos e sociobi6logos, e tambern bastante improvavel a elimi n<ll, ·'"
agressao. Segundo eles, a unica alternativa e tambem canalizar a agressao para 1 1.1
portamentos socialmente aceitaveis, o que nos encorajaria a identificar e, po 11 .tt1l
controlar as "pistas" que disparam a expressao da agressao.
Em contrapartida, sao mais otimistas as perspectivas de eliminac,;ao ou rcdn
dos indices de violencia quando se levam em conta as explica\:6es sociopsicol6gi1 ,1,
agressao. Se fatores ambientais e sociais sao capazes de controlar a aquisic,;ao e 111,1
ten\:aO de comportamentos agressivos, tais te6ricos propoem que mudanc,;as apro p1
das nessas condic,;oes levariam a decrescimos de agressao e violencia.
Como vimos anteriormente, para os te6ricos da aprendizagem social, a observ:
de modelos nao agressivos conduz a aquisic,;ao de comportamentos nao agressivo..,
pesquisas tern mostrado que, alem da observac,;ao de modelo nao agressivo levar a (I
portamento nao agressivo e de modelo agressivo, a comportamento agressivo, se ;
bos os tipos de modelo estiverem presentes, o modelo nao agressivo pode efetivanw
compensar a influencia do modelo agressivo (BARON, 1971) . Depreende-se dessa
sic,;ao te6rica que, se nao e possivel eliminar todos os modelos agressivos da socied
e possivel reduzir a agressao, introduzindo mais modelos nao agressivos no ambie nll'
Os te6ricos da aprendizagem instrumental propoem tambem algumas tecnk
para o controle da agressao. Alguns deles sugerem o nao reforc,;amento de respo!->
agressivas, 0 que, obviamente, podera levar a nao-aquisic,;ao ou a nao-manutenc,;ao
comportamentos agressivos. Outros propoem a punic,;ao ou a ameac,;a de punic,;ao co m
mecanismos que inibiriam os comportamentos agressivos. Baron (1971) sugere qun
tro condic,;oes necessarias para tanto: (a) a punic,;ao deve ser previsivel; (b) deve M'
guir-se imediatamente ao comportamento agressivo; (c) deve ser legitimada por nor
mas sociais vigentes e (d) as pessoas que administrarem as punic,;oes nao devem ser vi'i
tas como modelos agressivos, pois, em caso contrario, a punic,;ao acabaria por estimu
lara agressao. Uma terceira possibilidade para conter a agressao, sugerida pelos te6rl
cos, refere-se a adoc,;ao de respostas incompativeis. Como nao podemos fazer duas col
sas simultaneamente, a performance de atos violentos deve reduzir quando as condi
222
111thit 111a1., indtt ll' lll l'l'" IHI.., Ia., incolllpallvt'i'> com a cxprcssao cia agress<IO, como
1 t · ~· 111plo a l)l'l'!->l' IH," a de uutoo11 ~ humorfsticos ou de condic,;oes que promovam a
tq !Iii it~ . ()II a ndo ha u ma resposta alternat iva disponivel, a agressao e rna is reduzida
II"' ' qtt.IIHio ela c a unica csco lha.
I 1,
ordo com alguns psic6logos sociais, e importante considerar a necessidade
l~illllttl:tr o se ntimento de empatia nas pessoas como forma de prevenir a agressao.
lilt! tl't dl' nos sentimos dificuldade em infligir dora alguem, de forma deliberada, a
!i 1 1 qttc encontremos alguma forma de "desumanizar" a vitima (FESHBACH,
I 1 I>ttrante as guerras, e comum os soldados referirem-se aos inimigos por alguma
(lit .• •• to que lhes retirem a condic,;ao humana, o que e interpretado como uma raciotll ,hH::to desumanizadora que os torna capazes de atos de crueldade. Por que isso
t)llln'd A desumanizac,;ao facilita-lhes a tarefa de cometer atos violentos ou matar alifllil : quando conseguem convencer-se de que o inimigo nao e realmente urn ser hu''''' • t•nfraquecem-se suas inibic,;oes para todo tipo de atrocidade.
.11
\ l'mpatia constitui a contrapartida da desumanizac,;ao. Da mesma forma que as
jir• ,,,,,., precisam desumanizar suas vitimas para agredi-las, o desenvolvimento da emp1iil.l l'lllre elas podera impedir, ou pelo menos dificultar, o seu engajamento em atos
11 ,.,lvos. Feshbach e Feschbach (1969) demonstraram uma correlac,;ao negativa enlt\111)\ ll'Ssao e empatia nas crianc,;as: quanto maior empatia a crianc,;a tern, menos agresi\'.1 t'la c. Eles tambem desenvolveram urn metodo de ensinar as crianc,;as a assumirem
111 ,.,pectiva dos outros: as crianc,;as aprendiam a identificar diferentes emoc,;oes, del lltpl' nhando uma serie de papeis "carregados" emocionalmente, e essas "atividades
tl•. 11 ci namento da empatia" leva ram a decrescimos significativos nos comportamentos
il'l l''>'>ivos das crianc,;as.
1\s intervenc,;oes cognitivas, representadas pelo pedido de desculpas, que traduz o
'' •nnhecimento pelo ato errado, eo pedido de perdao costumam contribuir tambem
I'·" •' o enfraquecimento das reac,;oes de raiva a alguem. Nao obstante essa influencia, a
11.11 ttreza da desculpa interfere no seu efeito: se externas e fora do controle da pessoa,
,In mais efetivas do que as internas e sujeitas a capacidade volicional da pessoa (por
• :~r mplo, dizer "desculpe, eu esqueci").
Para testar essa tecnica de reduc,;ao da agressao, foi realizado urn experimento
11 lliBUCHI, KAMEDA & AGARIE, 1989), no qual urn grupo de mulheres tinha que
1r.d izar uma serie de tarefas complexas, mas eram atrapalhadas pelos erros sucessivos
d1· um assistente (na realidade, urn aliado do experimentador). Tais erros acabavam
pnr ocasionar a baixa performance das mulheres e a consequente avaliac,;ao negativa
pnr parte do experimentador. Para avaliar o pedido de desculpas nas reac,;oes dos sujeilns, o assistente pedia-lhes desculpas publicas (na frente do experimentador, eximindo-os, entao, da responsabilidade pelo desempenho ruim), privadas (quando o experi223
lllllllolllltl 11,\111 •d il\, 1 1111 '•I IIII) 1111 11:\o pt•tlta dt'"l tdp.l'l l' lllodiiH' IIII', para tkll'ntll ll ill
•II' ,, llll ,lollt 'o l,\lll oll,'o\il d,t tll\1111 llllilan~· a dos s ujcito~ M' ll a 1.\o cfctiva quanLO as tk'>t' td
II·'' 11.1 lt'dW,i\O da itgll·.,o.;;lll, O'> pe~qu i sadorcs inclufram uma quarta cond ic,;ao- IT IIIIt
~,- ;lit dll d.uto
d1,' 11 .,,.
ao~
11:1
qual o rxperirncntador dizia aos sujeitos que seu fraco descmpenlt1t
erros do assistcntc.
donciam quo 6 possivol ostabolocor uma inog6vol conox6o entre viol6ncia no midia e comportamento agressivo, o que e confirmado por estudos transculturais .
Diante desse quadro, as perspectivas de controle e prevenc;ao do agressao e
violencia do humanidade dependem das pressuposic;oes te6ricas que adotarmos.
A crenc;a de que a agressao e instintiva e inata conduz a perspectivas pessimistas.
Ainda que se suponha e acredite que a agressao possa ser canalizada para formas
i\p(>., participarcm de uma dessas condi<;:oes, os sujeitos classificavam o assistc1111
V•ll'·'"
1:111
dim cns6es (sincero/insincero, responsavel!irresponsavel), informavam ~t· u
l''i llldo :detivo (agradavel!desagradavel), e classificavam tambem as habilidades do a.,
•·lSit lilt' co mo ps ic6 logo (na realidade, uma medida de agressao porque dela dependl.t
1 :tvidl.t~· :\o do assistente pelo experimentador).
( h rr~ultaclos trouxeram apoio ao valor das desculpas porque, nessas condi<;:ocs, ll
social mente aceitaveis, desse ponto de vista a expressao do violencia sera sempre
inevitavel. Em contra partido, a crenc;a de que a agressao e aprendida, e resulta de
fatores sociais e culturais, favorece perspectivas mais otimistas de seu controle e
red uc;ao. Entre as estrategias sugeridas para esse fim sao especialmente destacadas a introduc;ao de modelos nao agressivos, o nao-reforc;amento e punic;ao de
com portamentos agressivos, respostas incompatfveis, intervenc;oes cognitivas eo
desenvolvimento do empatia .
,p.;-.h lt' tllt' l'oi mais bern avaliado, os sentimentos das participantes mais positivos e o
111vt It k agrcssao mais baixo que nas demais condi<;:oes. A mera remo<;:ao do dano- sc ja
11.1 1 tlltdi<;ao de desculpa privada, seja na condi<;:ao de reconhecimento pelo expcri
Sugestao de leituras complementares sobre agressao
llll'lllador dos crros do assistente- nao foi tao efetiva quanto a combina<;:ao da desc ul
ARO NSON, E., WILSON, T.D. & AKERT, R.M . (2007) . Social psychology. 6° ed. Nova
P•' publi ca c da remoc;ao do dano.
York: Addison-Wesley Longman.
I ai<; achaclos sugerem que as desculpas por parte das fontes de provoca<;:ao podcm
BARON, R.A. & BYRNE, D . (2002) . Social psychology: Understanding human interac-
, lllt.,ltlllir urn meio eficaz de prevenir a retaliac;ao subsequente de quem foi objeto da.,
tion. 8° ed. Boston: Allyn and Bacon .
p1 Dvonu;oes e se julga vitima delas.
DEAUX, K., DANE, F.C., WRIGHTSMAN, LS. & SIGELMAN, C.K. (1993). Social psychology in the 90's. 6° ed. Pacific Grove, CA: Brooks/Cole Publishing.
GEEN, R.G . & DONNERSTEIN, E. (1998). Human aggression : Theories, research, and
implications for social policy. San Diego, CA: Academic Press.
Rosumo
Tratamos neste capitulo do fenomeno do agressao, conceituando-a como
qualquer ato intencional como objetivo de causar dono e sofrimento ffsico ou psico l6gico em alguem . Varias formas de agressao humana - hostil, instrumental,
GOLDSTEIN, J. (1983) . Psicologia social. Rio de Janeiro: Guanabara Dois.
simb61ica e sancionada- em func;ao dos motivos ou intenc;oes subjacentes ao ato
MORALES, J.F., MOYA, M., REBOLLOSO, E., DOLS, J.M.F., HUICI, C., MARQUES, 1., PAEZ,
D. & PEREZ, J.A. (1994) . Psicologia social. Madri: McGraw-Hill.
ogressivo foram discutidas.
Diferentes explicac;6es para a agressividade humana foram expostas. A expli-
HARRIS, R. J. (2004). A cognitive psychology of mass communication . New Jersey: LEA
MYERS, D.G . (2005) . Social psychology. Nova York: McGraw-Hill.
cac;ao biol6gica para a agressao e oferecida principalmente pelos psicanalistas,
ot61ogos e sociobi61ogos, que ressaltam seu carater inato e pulsional. Ainda sob a
SMITH, E.R. & MACKIE, D.M. (1995). Social psychology. Nova York: Worth Publishers.
porspectiva biol6gica, mas nao qualificando a agressao como um instinto, destacam-se os estudos sobre genetica comportamental e sobre os nfveis de atividade
hormonal, que enfatizam seu papel moderador no agressao humana .
Sugestao de questoes para trabalhos individuais e em grupo
As explicac;6es psicol6gicas do agressao constituem um vasto campo de teoria
e pesquisa e buscam fundamental mente demonstrar que a agressao e aprendida.
Uma variedade de condic;oes externas- ambientais e sociais- que podem exercer
consideravel influ€mcia no ocorrencia do agressao foram apresentadas. As dife-
1) 0 que e agressao? 0 que basicamente distingue o conceito de agressao no Psicologie Social do uso corrente desse termo?
2) Pense nos formas de agressao identificadas pelos psic61ogos sociais e procure
trazer exemplos do vida real que ilustrem coda uma delas.
renc;os individuais sao particularmente consideradas no tentative de entender por
que umas pessoas tendem a ser mais agressivas que outras. Varios estudos evi-
224
225
3) Di:.cutu u hip o to~t, fr u'llr u~CJO ogr osseo, di sco r rondo so bro suo formulo<;(l(l or
nol o os diforontos vorsOos quo forom introduzidos postoriormonto . Quur•
principais crfticas quo voc€1 faria a ela?
4) Quais sao as principais vertentes te6ricas disponiveis no literatura para o
dimento dos motivos b6sicos que levam os hom ens a agredir seus semolhu
H6 possibilidade de concilia~ao entre elas para uma maior compreensao
fenomeno?
5) Discuta criticamente os principais fatores sociais instigadores do agressao .
6) Voce acredita que a violencia no midia
e a causa principal do escalade do viol
cia social? Com base nos teorias sobre agressao, procure explicar como o p
que a midia eletronica e apontada como a principal respons6vel pelo desonvnl
vimento do agressividade nos crian~as?
7) Quais os meios que voce julga possivel utilizer para neutralizer os efeitos do VI
lencia no midia sobre a agressividade infantil?
8) Em seu modo de entender,
e possivel prevenir ou controlar a agressao humona f
9
Comportomento pro-social:
o oltrulsmo
N6s estamos aqui na Terra para sermos bons para os outros. )a por
que os outros estao aqui, eu nao sei.
W.H. Auden
[.. .]mas, um certo Samaritano que viajava chegoujunto dele c,
quando o viu, encheu-se de compaixao. Aproximou-se, cuidou de
suas chagas com oleo e vinho, depois o colocou em seu proprio
animal, conduziu-o a uma hospedaria e dispensou-lh e cuidadm.
Evangelho de Sao Lucas 10,30-35.
Fundamente seu posicionamento sobre a questao, apoiando-se no referendal
te6rico que, em seu modo de entender, melhor do conta do explica~ao desse f
nomeno.
9) Voce acha que a atra~ao pela violencia e a tendencia para agredir sao tipico
mente masculines ou sao produto dos processos de socializa~ao culturalment
diferenciados para a cria~ao de meninos e meninas?
1 0) Voce concorda com a inevitabilidade de uma sociedade coda vez mais agres!li
va em um mundo coda vez mais globalizado? Ou h6 meios eficazes para imp
dir a universaliza~ao e a banaliza~ao do violencia?
No capitulo anterior, discutimos o fenomeno da agressao e violencia, buscando ana li
,, , as razoes que levam os seres humanos, individual ou coletivamente, a agir de forma
11 rausar danos a seus semelhantes. Atos agressivos ou antissociais acompanham a Ion
g.1 hist6ria da humanidade, mas a tendencia atual e a de se afirmar que nunca houve vio
lrncia tao generalizada quanto a que hoje presenciamos.
Paralelamente, e podemos dizer felizmente, uma outra importante discussao tam
IH'm se processa nesse plano diante da constata<;ao de que os seres humanos sao capa
t•s de atos de extrema generosidade e solidariedade. Em todos os tempos , a hist6ria t'
rrp leta de exemplos de atos humanos de grande heroismo e bravura voltados para o
hem dos outros, sejam eles individuos ou grupos. Tais comportamentos assumem , via
de regra, caracteristicas claramente indicativas de auto-sacrificio e de grande risco pes
'>Oal por parte daqueles que se dispoem a ajudar pessoas em necessidade ou causas hu
rn anitarias, revelando-se desprovidos de qualquer interesse pessoal ou de preocupa
c,;oes por recompensas extrinsecas. Quem de n6s nao tomou conhecimento de, ou ate
mesmo nao presenciou, pessoas capazes de ajudar urn vizinho doente, de socorrcr
uma pessoa que se acidenta ou de se apresentar como voluntario em campanhas de as
-;is ten cia publica, de forma desprendida, mas apaixonada? Em decorrencia desses fa
Los, somas levados a acreditar em uma outra imagem basica do homem, que traduz
uma visao mais positiva e otimista acerca das possibilidades humanas de convivio c n·
lacionamento social.
Essas sao duas facetas de urn mesmo fenomeno, designado como paradoxa altruf~
tico por R. Cohen (1972): somas ao mesmo tempo crueis e generosos para como pn)
226
227
\ltno . A ltil'la d\' qllt' ... nttto., llon -. r tnau-. Vl'llt M' ttdo ha tlllllto ll''''IW l' lll :ui z:l<l.t pot
inumcros pcnsadorc-.. Rou -..,cauc Marx, por cxemplo, alit111avan1 que a humanidadr 1
po r natureza, boac que o mal c cri ado pcla sociedad e. ja llobbcs c Maquiavcl , t'llllt
outros, afirmaram que os homens sao inerentemente maus e que a fun ~ao cia socicd.ult
e controlar suas tendencias mas e egoistas.
Na Psicologia Social, o estudo das condutas generosas ou caritativas tem multipl.t
denomina~6es , mas, de um modo geral, se enquadram sob o rotulo de comportamt'llltl
pro-social, sendo o comportamento altruista uma de suas formas. Nesse senticlo, Jl'''
comportamento pro-social entende-se qualquer ato executado como objetivo de lw
neficiar alguem. Por altruismo, entende-se qualquer ato que beneficia alguem, tll,t
sem trazer qualquer beneficia para o altruista, e que geralmente envolve algum cu-.111
pessoal para aquele que ajuda.
A despeito da pluralidade de abordagens e de defini~6es para o altruismo, ha lllll
certo consenso entre psicologos sociais em torno de algumas de suas caracteristicas (''>
senciais. 0 comportamento altruista refere-se a condutas que beneficiam os outros 011
tem consequencias sociais positivas, sao intrinsecamente motivadas, realizadas de fo1
ma voluntaria ou intencional e com custos pessoais para aquele que ajuda (KROGPH.
1986) . Nesse sentido, e considerado altruista o comportamento de alguem que arrisril
sua propria vida para salvar uma pessoa, sem se preocupar com qualquer tipo de IT
compensa ou com sua imagem de heroi. Nessa mesma linha de ideias, nao seria cons1
derado altruista o ato intencional de alguem que beneficiou outras pessoas, mas qul'
foi movido por interesse proprio ou por antecipa~ao de um possivel retorno futuro .
Alguns psicologos sociais preferem reservar a denomina~ao comportamento de aj u
da para os atos em favor de outros que , eventualmente, tenham motiva~6es autoce n
tradas (ganhar algo em troca , aliviar tensao pessoal, experimentar satisfa~ao pessoal,
aumentar autoestima) , deixando o termo altruismo para aqueles comportamentos mo
tivados exclusivamente pelo desejo de aliviar o sofrimento da vitima ou pela preocu
pa~ao com o seu bem-estar. A distin~ao entre comportamento de ajuda e altruismo
reside, entao, na motiva~ao para realizar o a to , e nao no seu resultado (HOROWITZ &
BORDENS, 1995).
Embora tenha surgido mais recentemente como um topico aut6nomo de estudo
dentro da psicologia social, comparativamente a agressao, o altruismo vem se constituindo em uma das areas de maior desenvolvimento da teoria e pesquisa sociopsicologica. 0 marco inicial desse campo de estudo costuma ser atribuido a um caso veridico,
o chamado Caso Kitty Genovese, acontecido em Nova York, em uma noite de mar~o de
1964. A repercussao e perplexidade causadas pelo assassinato de uma jovem diante de 38
testemunhas, que nada fizeram durante os quase quarenta minutos em que ela clamou
por ajuda- enquanto era perseguida e esfaqueada repetidamente porum homem -, fo-
' '"" dr tal o rd c111 qu r dot -. ps tl'<'llogos sm wi -., llthl> I atatH' cJohn l)ad cy ( I 970 ), resol in ves ti gar o ass unt o de lorma sistemati ca, mcs mo porquc nao sc dis punha, na
, poca, de info rm a~()eS cicntfri cas s uri cientes para explicar a apatia dessas pessoas.
I tllllora os ataques tenham come~ado as tres horas da madrugada, os gritos de Kitty
1 ,, 11 ovcse aco rdaram os vizinhos e fizeram o assassino se afastar, mas apenas por alf',l ll'" instantes. Cerca de 10 minutos depois ele voltou, roubou-a, tentou molesta-la selt. dm cnte e por fim acabou por mata-la, fugindo em seguida. 0 assassino, Winston
Moseley, de 29 anos, que nao tinha antecedentes criminais, confessou outros dois criII H'" similares. Nas palavras de Helen Benedict, na epoca, da Columbia University, "um
, ,,..,o que simboliza os males das grandes cidades, onde as pessoas ficam muito assusta,1,,., c muito egoistas para poder ajudar o proximo, e onde a vida perde seu valor humall ltar io" (GADO , 2006) . Sera esta a melhor (ou a unica) explica~ao para o que houve?
tl que tera se passado na mente desses vizinhos que acompanharam dajanela de seus
.tpartamentos todo o desenrolar do incidente e do seu desfecho tragico? Por que nelll ltlm dos espectadores diretos de crime tao barbara sequer telefonou para a policia, est.t ndo inclusive na seguran~a de suas casas?
'' '·"n
Neste capitulo , abordaremos o altruismo , procurando tratar das seguintes queswcs-chave que caracterizam seu estudo pela psicologia social:
1) Por que as pessoas ajudam os outros? Quais os motivos basicos que levam as
pessoas a ajudar? Quais as principais explica~6es teoricas para o altruismo?
2) Quando as pessoas ajudam? Que fatores situacionais afetam o comportamento
altruista?
3) Por que umas pessoas ajudam mais que outras? Que fatores de natureza individual distinguiriam pessoas altruistas e nao altruistas?
4) A quem nos ajudamos? Que caracteristicas da pessoa em necessidade nos levam
a ajuda-la?
5) Quem ajuda quando? Como pode ocorrer a influencia conjunta de fatores situacionais e pessoais no altruismo?
6) Como podemos desenvolver o altruismo na sociedade? E possivel estimular,
atraves dos processos de socializa~ao, o incremento de condutas altruistas, enfatizando-se valores pro-sociais?
1. 0 comportamento pro-social e a natureza humana: por que as
pessoas ajudam?
Entre 3 e 4 anos e comum observarem-se comp01twnentos
pr6-sociais entre crian(as. Um grupo de pesqui1culores, examinando
mais de 30 horas de grava(oes em video do COHif?Oi ta mento de
•
228
229
1111lll\ll\ 11111111111
.lorn rdo , rr,~l\ltlllllll''ll\illtllllllllll'llll I 1(1()
1' '"'
11}111111 , pwtlllw , < 11<1/ll 111(110 <'ell' ll'lllclllvm ell'
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nl'llllll/111'0' 1l1 ·
<1111/or
lw
11111
N. Fi~cnbcrg
0 interesse teorico do estudo do comportamento pro-social pela Psicologia Sm 1.1!
tern como ponto de partida a natureza da motivac;:ao para ajudar. Que motivos, ari11al ,
induzem as pessoas a fazer alguma coisa em favor de alguem em necessidade? A p1 r
disposic;:ao para ajudar e urn impulso basi co, de natureza biologica? Ou trata-se de algo
que pode ser ensinado e encorajado na infancia? Existe urn motivo puro, incond icin
nal para prestar ajuda a urn ser humano que sofre, mesmo quando nao se antecipa 11 r
nhum tipo de ganho pela ajuda? Ou as pessoas se disp6em a ajudar apenas quando po
dem ganhar algo em troca? Na tentativa de entender e explicar essas e outras questol'"·
os psicologos apoiam-se em uma serie de hipoteses derivadas quer de teorias psico lo
gicas tradicionais quer de teorias psicossociais gerais do comportamento huma no ,
quer de formulac;:oes teoricas especificamente voltadas para a explicac;:ao do altruismo.
,, ,111v.t., t oiiHllll"lO" l' ,,.,co.,, Por c-;sa m .z:lo , .tlg1111., ll'OIIl'OS da aprcmll zagt'lll respon
d1 111 qul' o que parecc scr a Ill u1smo c, na vcrdadc, cgo1smo ou autointcrcssc. Gelfand e
ll ,utmann ( 1982) argumcntam que ha rccompensas sutis para atos aparentemente allt111.,ta., , como por excmplo, sentir-se melhor internamente ao ajudar alguem. Bau111.11111 , Cialdini e Kenrick (1981) afirmam que os adultos ja aprenderam aver o compo11:tmcnto pro-social como autorrecompensador e nao mais precisam de recompen,.., extcrnas para que valha a pena ajudar. Alguns desses argumentos mostram-se cir' 1tlarcs no sentido de que parecem pressupor que, tendo ocorrido o comportamento
p10 social, suas consequencias devem ter sido reforc;:adoras; alem do mais, ainda que o
1111 altruista possa ser autorrecompensador, isso nao significa que sempre o seja (DEAUX
1'-J WRIGHTSMAN, 1988).
Nem uma nem outra dessas abordagens psicologicas tradicionais, psicanaliticas
1111 behavioristas, conseguem explicar por que certas pessoas, as vezes, ajudam os oulHlS com altos custos pessoais e sem qualquer recompensa aparente.
A visao da sociobiologia
Teorias psico /6gicas tradicionais
A teoria psicanalitica freudiana, ao postular que a natureza humana e basicamentt·
egoista e agressiva, concebe o altruismo como urn meio de nos defendermos das nossa.,
ansiedades e conflitos internos, abordagem que parece negar que tenhamos qualqurr
interesse genuino pelos outros. Os atos altruistas sao, em ultima analise, autosservidores, isto e, sao motivados mais para atender nossas necessidades interiores do que por
uma preocupac;:ao real com os outros. Outros psicanalistas defendem pontos de vista
mais otimistas e admitem que experiencias positivas de socializac;:ao podem tornar-nos
menos egoistas. Nesse sentido, procuram entender como as influencias positivas no
desenvolvimento da personalidade podem reduzir a forc;:a dos motivos egoistas e conduzir a internalizac;:ao de valores nao egoistas.
Do ponto de vista das teorias de aprendizagem, o comportamento altruista podc
ser explicado a partir de dois principios gerais: reforc;:amento e modelac;:ao. Segundo o
principia do reforc;:o, repetimos e fortalecemos os comportamentos que resultam em
consequencias positivas para nos. Assim, as crianc;:as aprendem a ajudar os outros
quando sao recompensadas por seus comportamentos pro-sociais. Por outro lado, as
pessoas tambem aprendem a ajudar atraves da observac;:ao de modelos altruistas, o que
faz supor que as crianc;:as que vern seus pais prestando auxilio a pessoas em necessidade estao mais propensas a aprender e desempenhar atos altruistas.
Para os criticos das teorias do reforc;:o, fica dificil explicar como o altruismo, se e
que ele existe, pode ser desenvolvido se esta associado, em geral, a consequencias ne230
Sob o enfoque da sociobiologia, que retoma os principios da teoria evolucionista de
Darwin para explicar as causas de certos comportamentos sociais, o altruismo
.,cria explicado como respostas de ajuda, de carater automatico, determinadas por componentes especificos constitutivos de nosso codigo genetico. Na decada de 70, biologos
rvolucionistas como E.O. Wilson (1975) e R. Dawkins (1976) postularam que muitos
1ipos de comportamento social tern raizes geneticas e os individuos que possuem certos
genes sao mais propensos a exibir tais comportamentos. Por outro lado, pressoes de or
dcm evolucionista favoreceram certos comportamentos em detrimento de outros, dt•
lorma que eles constituem agora uma parte fixa de nossa heranc;:a genetica.
< harles
A perspectiva sociobiologica deixa, no entanto, urn problema potencial a reso lvn
quando se propoe a explicar o altruismo. Se o objetivo maior dos seres humanos l' )!,·'
rantir sua propria sobrevivencia, por que ajudar os outros com os custos e risco., t' ll
volvidos? A tendencia natural seria o decrescimo gradativo do altruismo porqur ''
pessoas que ajudassem, expostas a esses riscos eventuais, produziriam uma pro k 1111
nor do que aquelas que agissem de forma egoista. Se assim fosse, os genes que pro11111
vern o comportamento egoista teriam uma probabilidade maior de transmissao ao loll
go das sucessivas gerac;:oes.
Mais recentemente, alguns adeptos da sociobiologia tentaram contornar c.,.,,. p1 'i
blema, explicando a existencia do comportamento altruista atraves de tres nH't 11111
mos basicos: selec;:ao de pares, reciprocidade e aprendizagem de normas sociai., ( M'
ERS, 2005).
231
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pela prole de parcntcs con-.angufncos. As~im, a sclcc,;<lo natural favorcccria ato., :dttttl
tas direcionados tambcm para scus pr6prios parcntcs. Simc ( 1983) cntrcvistou """ ''
viventes de um incendio em uma colonia de ferias e constatou que, quando a'> P''"""''
tornaram-se conscientes do incendio, manifestaram uma tendcncia maior em prot 111 11
seus familiares do que seus amigos, antes de abandonarem o predio em chama~. I
tipo de justificativa, contudo, nao da conta de explicar atos verdadeiramentc alll ut<; t,lll
realizados por pessoas completamente estranhas as pessoas que estao em situa<;Ot'" d
perigo, como as que sao fartamente noticiadas na midia.
Pelo segundo tipo de explicar;ao sociobiol6gica para o altruismo- norma de rt'd
procidade ou altruismo reciproco- as pessoas ajudam outras em necessidade po t qt tr
esperam receber retorno no futuro, quando se virem em dificuldade. Sob essa pcr!>!H't
tiva, a sobrevivencia dos grupos humanos egofstas, isolados em seus pr6prios redu to.,
teria sido muito mais dificil do que a dos grupos que aprenderam a cooperar uns co111
os outros. Em outras palavras, por conta do valor da sobrevivencia, a norma da 11'1 i
procidade pode terse tornado parte do c6digo genetico.
Herbert Simon (1990), urn renomado sociobi6logo laureado como Premio No hrl,
argumenta, por sua vez, que, em todos os tempos e em todas as culturas, e altamc nh
adaptativo para os individuos aprender normas sociais com outros membros de ~ 11 >1
sociedade. De acordo com Simon, muitas das normas e costumes de uma sociedadc s:ht
beneficas as pessoas, garantindo aqueles que as cumprem uma vantagem em termos dr·
sobrevivencia (por exemplo, aprender que certos alimentos sao venenosos). Por via de co11
sequencia, atraves da seler;ao natural, a habilidade de aprender e seguir as normas !>II
cia is, e entre elas o valor de ajudar seus semelhantes, passou a fazer parte da progra ma
r;ao genetica humana.
Cultura e altruismo
Em oposir;ao a visao da sociobiologia, alguns autores propoem que a evolur;ao cui
tural pode ser mais importante que a evolur;ao biol6gica para explicar o comportamen
to pro-social (BOYD & RICHERSON, 1990; CAMPBELL, 1978). Segundo esses auto
res, se as sociedades funcionaram melhor e foram mais bem-sucedidas em sua adapta
r;ao quando desenvolveram formas de socializar seus membros no sentido do contro k
de seus impulsos egoistas, elas podem ter evoluido em direr;oes pr6-sociais atraves dos
tempos. Nesse sentido, o mecanisme subjacente a evolur;ao cultural e a aprendizagem ,
podendo, en tao, valores pr6-sociais serem incorporados pelos jovens atraves das prati -
232
\l•
d tt~olll va-. do-. p.u.,, d.1
l11111 t,t<; .111
,,.It gto-..1 , d,t l'd 111 .1~ ,10 l'ot m, d l' aIt' Ill\''> I110 at ~<I vc-,
ht tnlt ll.ttnbio rnttT a-. cultura~ .
I " ' ttdo~ 1ran'>culturais vcm dcmonstrando que ha diferenr;as entre as varias cultulti ' t' tn 1l'I:H,;:Io ao grau com que seus membros tendem a manifestar comportamentos
pill .on.u-. c tcndencias a ajuda e cooperar;ao. As condutas altruistas sao mais fortellttttlt r-.timuladas nas chamadas culturas coletivistas (culturas latina-americana e
htil.l '> ilo bons exemplos) do que nas culturas individualistas (a norte-americana e a
1 111.11 kll'ie) . Nas primeiras, o bem-estar do grupo prevalece sobre os desejos individual 111 p.1-.~0 que nas ultimas enfatiza-se mais a liberdade em buscar objetivos pessoais
"'' qttt' a responsabilidade individual pelo bern coletivo (TRIANDIS, McCUSKER &
111_11 , 1990). Obviamente, a internalizar;ao de padroes culturais altruistas nao garante
qttl , t•m todas as situar;oes sociais, as pessoas se comportem como elas acham que de\Ttt.un sc comportar. De igual modo, mesmo em culturas individualistas, podem ser
111 majadas normas sociais, que prescrevam que devemos ajudar aqueles que precitnt (norma da responsabilidade social) ou aqueles que janos ajudaram (norma daretlpwcidade). Nao obstante essas possibilidades, sao os padroes sociais de comporta"" 1110 predominantes em uma dada cultura que mais influenciam nossa tendencia a
ill~'> romportarmos de forma mais altrufsta ou mais individualista. A explicar;ao nor'"·" iva para o altruismo sera retomada rna is adiante, em t6pico especifico, quando, en11111 , trataremos com mais detalhes das principais normas relacionadas aos comportattll'tllOS pr6-sociais.
Levando em conta essas abordagens, o mais provavel parece ser que forr;as biol6gil ,1., c forr;as culturais interajam no sentido de favorecer comportamentos altruistas.
ll.lt'ion (1983) observa a esse respeito que a evolur;ao biol6gica e evolur;ao cultural nao
1 ,11ninham necessariamente em direr;oes opostas, podendo ser, pelo contrario, compkmentares.
Em suma, na discussao sobre natureza humana x altruismo, as teorias psicanaliti' iiS, as teorias do refor<;:o e a sociobiologia pressupoem que os seres humanos sao basi' a mente egoistas e interpretam o comportamento altrufsta como igualmente egoista.
Nao negam, no entanto, que as pessoas se comportam, as vezes, de forma a parecer que
ttao sao egoistas.
A discussao entre te6ricos aponta, entao, para duas perspectivas: para uns, os motivos sao, em ultima analise, egoistas; para outros, a motivar;ao genuinamente altruisla, baseada na empatia por outros seres humanos, e possivel. Por outro lado, alguns defcndem que o altrufsmo faz parte da natureza biol6gica do homem, enquanto outros
~ustentam que as tendencias biol6gicas para o egoismo podem ser controladas por fatores sociais que promovam o comportamento pro-social.
233
A teorla do troca social
'i''·'ndo ,, <ljtl\l.uno.., , .tllvialllll.., 11 tk'>tolllollll t' IIIIKHlll:d qllt' '> l'lllliiHl'> .10 vt Ia
tdllllthl (1)0Vll)10, 19tH ; DOVII)IO, Pll lAVlN , (~AI : R I NER, SCI !ROEDER & CLARK,
1\}iJI , I · I~FNI>ERG ; FABES, 1991) . Componamcntos altrufstas podem tambem tral' t '"'" .qmwa<;ao social por pane de outras pessoas, sentimentos de maior valor pes-
tj'll
Alcm da!> ptr!>IH'l'llVa.., ll'lllll'a.., guais utili zadas pela psicologia social no t'..,llll lll d
altruismo , algumas tcorias psicossociais sobrc o comportamcnlo intc1 pcsM>al sao 11~11
das para explicar o porque da tendencia das pessoas em ajudar scus scmclhantc.., 1\p
sar de discordarem das abordagens sociobiol6gicas sobre o comportamento pr6 sot 111l
alguns psic6logos sociai.s compartilham o ponto de vista de que os atos altrlllsla'> '>1\11
motivados pelo autointeresse. Diferentemente da sociobiologia, contudo, nao pn·..,,u
poem que esse autointeresse tenha uma base genetica.
A teoria da troca social (HOMANS, 1961; THIBAUT & KELLEY, 1959), uma d.1
mais conhecidas teorias da Psicologia Social, concebe as intera~oes humanas l'O lllll
uma troca de recursos sociais, psicol6gicos ou materiais, orientada por uma "eco no
mia social". Isso equivale a dizer que , em nossas rela~oes interpessoais, n6s trocallltl"'
nao apenas hens materiais (dinheiro, por exemplo), mas tambem hens sociais, conu1
amor, informa~ao, status, servi~os (FOA & FOA, 1975) . Nas trocas sociais, vah·
mo-nos da chamada estrategia "minimax", ou seja, minimizamos os custos e maxi1111
zamos as recompensas, prevendo-se que a rela~ao interpessoal continuani se for s11
ficientemente "lucrativa" para ambas as partes e sera interrompida se uma das parl('S,
ou ambas, acreditam que a intera~ao nao e satisfatoriamente compensadora.
A teoria da troca social nao pressupoe que essa estrategia de monitora~ao de cu.,
tos e recompensas seja conscientemente usada, mas, sim, que essas considera~oes po
dem predizer nossos comportamentos (MYERS, 2005). Assim, por exemplo , em ca111
panhas de doa~ao de sangue, em que somos solicitados a participar, tendemos a avaliar
de antemao os custos em doar (a dor da picada da agulha, a eventual indisposi~ao), os
custos em nao doar (a culpa, a desaprova~ao social), os beneficios da doa~ao (o senti
mento de bem-estar em prestar ajuda a alguem) e os beneffcios de nao doar (nao sentir
desconforto e ansiedade). Os estudos com doadores de sangue, realizados por Piliavin.
Evans e Callero (1982) , demonstraram que essas pondera~oes sutis em torno da rela
~ao custo/beneffcio precedem a decisao de doar, ou nao, sangue.
Sob essa perspectiva te6rica, portanto , o comportamento altrufsta pode ser recompensador em uma variedade de aspectos. Em termos da norma de reciprocidade, ajudar alguem e urn investimento para o futuro porque se gera a expectativa de que seremos ajudados por esse alguem caso venhamos a ter alguma dificuldade adiante. A necessidade que temos de acreditar que a gentileza, a solidariedade, a coopera~ao com os
outros sera retribufda, de alguma forma ou em algum momento, parece ser uma das
bases de sustenta~ao de uma sociedade civilizada. Por outro lado, o a to de ajudar podc
ser recompensador quando nos vemos como espectadores de uma situa~ao em que
uma pessoa esta sofrendo por algum motivo: algumas evidencias empfricas indicam
234
,,,d r t·kva<;ao da autoestima.
P111 contrapartida, o ahruismo envolve custos pessoais 6bvios. Quando os custos
tl• qndar sao elevados- risco ffsico, dor , ou ate mesmo uma perda grande de tempo- a
pi~th. thilidade da ajuda e bern menor (PILIAVIN, DOVIDIO, GAERTNER, CLARK &
I'Jtll , PILLAVIN, PILIAVIN, RODIN, 1975).
I evando em conta esses dois fatores, a teoria da troca social prediz que as pessoas
qwl.un outras quando as recompensas sao maiores que os custos. Nesse sentido, o al11111.,1110 s6 ocorre em condi~oes que favore~am o autointeresse de quem ajuda, poden'1" o.,c, cntao, concluir que, nessa abordagem, o verdadeiro altrufsmo- ajudar ainda
q11r os custos sejam altos- nao existe.
A relaCjaO entre empatia e altruismo
Se, por urn lado, a explica~ao proposta pela teoria da troca social para o altrufsmo
11.1duz uma imagem pouco positiva sobre a natureza humana, por outro, alguns psic6j,,gos sociais defendem a ideia de que o homem e capaz de ajudar seu semelhante mo' It lo por razoes genuinamente altrufstas, por sua capacidade de sentir empatia por algt~em
que ve em necessidade.
Entre as formula~oes te6ricas sobre o altruismo, a chamada hip6tese empatia-al1• utsmo, proposta por Daniel Batson e seus colaboradores, e, certamente, uma das
111ais proeminentes e de pesquisa mais produtiva (BATSON,1991; BATSON & SHAW,
1!)91; BATSON, TURK, SHAW &KLEIN, 1995; TOI &BATSON, 1982). Deacordo com
11 modelo de Batson, a a~ao puramente altruista pode ocorrer, com seguran~a, sempre
que for precedida por urn estado psicol6gico especffico, designado por preocupa~;;ao
rmpatica pelo outro. A preocupa~ao empatica e definida como uma rea~ao emocional
1 aracterizada por sentimentos como compaixao, ternura, generosidade, comisera~ao.
i\ empatia e provocada pelo ato de tomar a perspectiva do outro, fazendo com que o all rufsta potencial assuma a posi~ao da vftima. Em outras palavras, tomar a perspectiva
de uma pessoa resulta da percep~ao de vinculo com essa pessoa (parentesco, amizade,
lamiliaridade, similaridade) ou, simplesmente, de orienta~oes ou instru~oes no sentido de que isso seja feito (BATSON & SHAW, 1991).
Batson (1991) reconhece que , em algumas situa~oes, a ajuda se da por motivos
cgoistas, como para aliviar o proprio desconforto pessoal, mas que, em muitas outras
situa~oes, o ser humano presta ajuda a outro motivado por razoes puramente altruis-
235
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t\ luz dn lolnltd.l\•1" ttnllc .1 dl· !Iatson ( 1991 , 1995), nossa prcdisposi<,;tio gera lt'lll
~·t~dar e, portanto, inll"''"'·""' por considcrac;ocs autoccntradas (tcnsao pcssoal),
,Jco nsiderari)CS
.,. nao cglll'ot.t'o ( trnsao decorrentc da tom ada de perspecliva do out ro)
l:m extenso programa de pesquisas, Batson e seus co laboradores, assim como pt·o,
tJisadoresindependentes (DOVIDIO, ALLEN, SCHROEDER, 1990; SCHROEDE I~ 1\1
qOVIDIO SIBICKY, MATTHEWS&: ALLEN, 1988) reuniram farta comprovac;ao cmpt
~ca fa~or
em
da hip6tese empatia-altruismo. Destaque-se ainda que essa formulac,::tn,
rve preconiza motivos eminentemente altruistas subjacentes a ajuda, foi reiterad.t
qente confirmada quando confrontada com formulac;oes alternativas baseadas ('Ill
:Jlla variedade de motivos egoistas. Assim e que, por exemplo, Batson e seus associ:t
JoS teportat11 dados que indicam que a maior ajuda relacionada a tomada de perspcc11
vadQ outroedevida a uma preocupac;ao voltada para o outro e nao ao desejo egoista dr
evitar a excitac;ao aversiva (BATSON, DUN CAN, ACKERMAN, BUCKLEY&: BRICII,
)981), a culpa (BATSON et al., 1988), a tristeza (BATSON et al., 1989) ou de aumenta1
aal~gria vicaria (BATSON et al., 1991).
0 altruistno genuino s6 existe, entao, quando sentimos empatia pelo sofrimento
doOutro (10l&BATSON, 1982). Quando, por qualquer razao, nao sentimos essa em
ratia,passam a prevalecer as. considerac;oes relacionadas ao autointeresse, preconiza
daS pela teoria da troca social.
As contribuic;oes da teoria da troca social e da hip6tese empatia-altruismo, embora
relevantes 00 estudo do altruismo, nao dao conta de toda a complexidade do fenomevo. como ainda se da, alias, com boa parte de nosso comportamento. Urn intenso debarefCJigeradona literatura sociopsicol6gica em func;ao de uma questao basica: ao observartnos um ato altruista, como podemos distinguir sea pessoa agiu por empatia ou por
autainteresse? (CIALDINI, 1991; HORNSTEIN, 1991; MARTZ, 1991; SORRENTINO,
J99l). Muirospsic6logos sociais que estudam o assunto questionam seas pessoas que
eXPerimentamo sentimento de empatia ajudam apenas por uma preocupac;ao exclusiva Qom 0 0utro ou para reduzir seu desconforto pessoal ao ver alguem de que gostam
em necessidade. Como afirmam Aronson, Wilson e Akert (2007), a pureza dos nossos
iUOl:ivos quando ajudamos os outros e uma questao fascinante que os psic6logos sociais continuam a investigar.
Como uma alternativa te6rica para a hip6tese empatia-altruismo, Cialdini e seus
colqboradores (CIALDINI, DARBY&: VINCENT, 1973; CIALDINI et al. 1987) propuserqm urn 010delo de ajuda baseado no alivio do estado negativo (negative-state relief
111ode[ of helping), segundo o qual, durante a infancia, as crianc;as aprendem que o a to
de ~udar egratificant~ -e pode contribuir para a superac;ao de estados psicol6gicos ne-
236
I' tll\11.,,
(01110 .t lll'olc za c a tu lpa./\'o jH''o'oll.t.., qw· o,t'IIH' III rmpatia po1 uma vlllllla, por
' r1nplo, tambcm scntcm trbtcza, c a vontadc de ajuda- la se dcve muito mais ao desc1" ill' aliviar sua pr6pria tristeza do que, de fato , pelo desejo altruistico de p6r fim ao
oll illllll'11l0 Ua Vllima.
Com o prop6sito de demonstrar que empatia e altruismo nao estao necessariaIll! ntl' associados, como postulava Batson, Cialdini e seus associados realizaram uma
.1 lit' de cxperimentos, nos quais manipularam empatia e tristeza. Segundo esses auto" '"• os sujeitos na condic;ao de alta empatia, que fossem levados a sentirem-se menos
11 l'o lcs, teriam men or motivac;ao para aliviar sua tristeza atraves da ajuda a uma viti rna
lit 11cia. Levando em conta a hip6tese de Batson, os sujeitos altamente empaticos seriam
"" mais prestativos, mesmo se, antes da oportunidade de ajudar, fossem submetidos a
11111 evento que produzisse urn estado de humor positivo. Em urn desses estudos
( '-.Ci lALLER &: CIALDINI, 1988), afirmam que o elo entre empatia e altruismo foi
desfeito quando sujeitos na condic;ao de alta empatia (e tristes) foram informados de
que, logo em seguida, ouviriam uma fita humoristica que provavelmente melhoraria
o,ru estado de humor.
Paralelamente a ideia da tristeza empatica (empathic sadness) como urn imporlante fa tor para o a to altruista, Smith, Keating e Stotland (1989) introduzem o conceito de alegria empatica (empathic joy) para refletir a ideia de que as pessoas altamente
rmpaticas podem ajudar uma vitima a fim de compartilhar de sua alegria porter sido
ajudada.
A polemica em torno do modelo empatia-altruismo ganhou forc;a, assumindo novos contornos, tal como demonstrado no journal of Personality and Social Psychology
(voL 73), urn dos mais representativos da psicologia social, que reuniu na edic;ao de setembro de 1997 quatro artigos sobre o assunto. Assim, Cialdini, Brown, Lewis, Luce e
Neuberg (1997), postulando que caracteristicas importantes do autoconceito podem
estar localizadas fora do individuo e dentro de outros pr6ximos ou relacionados, propoem uma reinterpretac;ao dos dados previamente tornados como evidencia da relac;ao
entre a preocupac;ao empatica pelo outro eo altruismo genuino. De acordo com esses
autores, as condic;oes que levam a empatia tambem conduzem a uma percepc;ao de
maior justaposic;ao entre o self e o outro, isto e, a urn sentimento de forte identidade
como outro (o conceito de oneness), fazendo surgir a possibilidade de que a ajuda, sob
essas condic;oes, nao seja puramente altruista, mas tambem autodirecionada. Em outras palavras, e como se a ajuda que prestamos a uma pessoa com a qual nos sentimos
profundamente identificados significasse tambem uma ajuda que estamos fazendo a
n6s mesmos.
Os resultados de tres experimentos reportados pelos autores revelam que o impacto da empatia na propensao a ajudar foi eliminado quando a medida do oneness foi con-
237
.,Hkl .Idol Akill di-,-,n , IPI \'I I lilt .IIIII (jill: :I jlll'IH upa~·: w l'llljl:ll H,, ollliiH'III<tV:I ol II,IH
apena~ quando 1dauo11,1d.1 ,1 jH'IlTj)<,.':lo dc.,sa intcn.,a idcntidadt· cnll'l' o \dfe Plllll
(oneness), o que, segundo l'lc.,, poe em xcquc o mocklo de Batson. Apoiado-. ' "'"
achados, os autores rcjeitam a cxistcncia de um altrufsmo puro.
Em resposta as objec;:oes de Cialdini et al. (1997), Batson et al. (1997) rcptHL:II Il
1
sultados de dois experimentos- realizados como objetivo de testar a hip6tesc de q111.
ajuda induzida pela empatia e devida, na verdade, a ideia de oneness, e que nao pt' llll ill
ram sua comprovac;:ao empfrica. Em contrapartida, outros resultados obtidos 111 ...,~,
mesmos experimentos reafirmam a relac;:ao positiva, ja demonstrada anteriormr11t
entre empatia e altrufsmo.
0 debate prossegue com a discussao de novos dados e reanalise de dados antn in
res, que apoiam a ideia de que a fusao eu/outro- urn motivo nao-altrufsta- esta suhjil
cente a associac;:ao entre empatia e ajuda que envolve custo. Na melhor das hip6LC'>I'"· 14
empatia, por si mesma, leva a ajuda superficial (NEUBERG et al., 1997). Bal.,nll
(1997), atraves de analise crftica em que contrap6e as duas formulac;:oes teoricas so lu
o altrufsmo, comenta que essas novas objec;:oes a seu modelo nao podem ser levada-. 1111
devida conta porque se ancoram em pesquisas que se ressentem de problemas metodn
••hordagom nonnatlva
U111:1 out ra Vl'I'H'llll' Lcorica de cstudo do altrufsmo, no ambito da psicologia social,
pi i1ptu qut· , muita~ vezcs, os indivfcluos ajudam os outros por conta de certas normas
'" oil( lt'dadc , que prcscrcvcm 0 comportamento apropriado em determinadas situat;:oes.
\" 11111111as constitucm, portanto, expectativas sociais, que os orientam quanto a como
I, 11111 ,,gir quando alguem precisa de auxflio .
'-,o h esse enfoque, os fatores sociais sao muito mais importantes que os fatores bioI, i):llos na dcterminac;:ao do comportamento pro-social humano. Por outro lado , argullli 111.1 -.c que as pessoas ajudam aqueles em necessidade movidos, nao por avaliac;:oes
. .d1 tdadas em termos de seu autointeresse, mas simplesmente porque algo lhes diz
·I'll tlrvcm ajuda-los.
I res normas sociais, em particular, sao consideradas importantes para promover o
,.unportamento de ajuda: norma da reciprocidade, norma dajustic;:a social e norma da
11 .ponsabilidade social. Todas essas normas criam uma base cultural para o comportatlll 1110 pro-social. Atraves dos processos de socializac;:ao, os indivfduos aprendem e in. ill poram essas normas e passam a se comportar pro-socialmente, seguindo seus dita1111 .., implicitos.
logicos: os dados reportados por Neuberg et al. (1997) foram obtidos com a utilizapn
A norma da reciprocidade prescreve que devemos retribuir os beneffcios e favores
da tecnica de role-playing (uma situac;:ao fictfcia de ajuda, em que se pedia aos sujc iln'l
'I"'' rccebemos de outros. De acordo com essa norma, nos geralmente ajudamos quem
que imaginassem sua reac;:ao) e manipulac;:oes que nao permitiram isolar os efeitos dt·
cada uma das variaveis em estudo sobre a empatia.
I·' nos ajudou ou quem esperamos que nos ajude no futuro (GROSS & LATANE,
Em face dessas controversias, podemos constatar que a discussao em torno da Vl'l
dadeira natureza do altrufsmo, embora nada conclusiva teorica e empiricamen tc
existe altrufsmo genufno ou altrufsmo autocentrado? -, e extremamente instigantc t'
provocativa. De todo modo, os resultados dos estudos nessa area especffica da empa
tia, ainda que insuficientes, tern o grande merito de demonstrar que os seres humano.,
podem nao ser sempre governados por motivos inteiramente egofstas. Nao obstanlt'
seja desafiada por explicac;:6es rivais, a hipotese da empatia-altrufsmo abre perspec
11) 74). 0 renomado sociologo Alvin Gouldner (1960) argumenta que a norma da recipmcidade e universal , e essencial a manutenc;:ao de relac;:oes estaveis entre as pessoas e
,, aplica em todas as esferas sociais. E como seas relac;:oes sociais se regulassem por
i'.,..,C preceito de mutualidade: em todas as interac;:oes humanas de troca, receber sem
lt'l ribuir promove o desequilfbrio entre as partes porque isso viola a regra basica. As
vczes, sentimo-nos dando mais do que recebendo, mas temos a crenc;:a de que , no devido tempo, a relac;:ao de troca tera seu equilibria restabelecido.
Nas interac;:oes entre pares ou iguais, a norma da reciprocidade e mais fortemente
mente altrufstas nao exclui a ideia de que mesmo as pessoas altamente empaticas possam ser capazes de, em determinadas circunstancias e ocasi6es, assumirem comporta-
t•vocada. Todas as pessoas que nao se julgam inferiores ou potencialmente dependentes de alguem (com alta autoestima) tern necessidade de retribuir a ajuda e, caso nao o
ronsigam, sentem-se ameac;:adas e diminufdas por terem precisado de ajuda. Assim,
quando comparadas as de baixa autoestima, mostram-se mais relutantes em pedir au-
mentos egofstas, especialmente quando os custos de ajudar sao excessivamente eleva-
xllio em outra situac;:ao (NADLER & FISHER, 1986).
des ou as possibilidades de se evadirem da responsabilidade em ajudar sejam muito fa voraveis. Talvez a conclusao mais acertada a ser extraida da polemica em torno da em patia/autointeresse/altrufsmo seja a de que as pessoas ajudam os outros por motivos
altrufstas e por motivos egofstas.
Normas de justic;:a social sao tambem cornu mente referidas no estudo dos comportamentos pro-sociais, especial mente as que dizem respeito a chamada justit;:a distrihutiva. Trata-se das regras que regulam a distribuic;:ao dos hens e recursos sociais entre
os indivfduos, sejam eles materiais (economicos) ou nao-materiais (afeto, prestfgio,
238
239
tivas para uma visao mais otimista das possibilidades humanas de interac;:ao social .
Cumpre, no entanto, assinalar que a defesa da imagem dos homens como genuina
t'lt .). lln1,1 d,,., lltlllll,l', dt pto.,ll\.1 dto.,111hut1va 111:11-. uo.,ualnH'Illt' pc.,quio.,ad,,., c ,, r qu l
de , segundo a qual dua-, lll'.,.,oa-, que contlibucm igualmcntc para uma tarcla rn 1111
devem recebcr rccompensas iguais. Quando isso nao acontccc, ocorrem prt''>'>tH·•,
ternas para restaurar o equi lfbri o da rela~ao interpessoaltanLo no caso de havt'l 111111
cebimento menor do que se merece quanto no caso de urn recebimcnto maior dn q
se espera. No que se refere particularmente ao altruismo, a regra da equidadc cnl,tlt:,l
desequilibrio produzido numa relac;:ao quando uma pessoa ajuda (ou prejudica) n nil
tro pela necessidade que dai decorre de se restaurar a equidade. Cotidianamc ntr .
crenc;:as relativas a ideia de "ajudar os mais necessitados" parecem ser motivada-, pt•lc
desejo de promover a equidade. Dada a relevancia que, nas ultimas decadas, o co.,t ud
psicossocial da justic;:a nas interac;:oes humanas adquiriu na psicologia social, es tc lUll
sera tratado de forma especifica e aprofundada no capitulo 8 deste manual.
A norma da responsabilidade social prescreve que devemos ajudar as pessoa-, qu
dependem de n6s ou que sao incapazes de ajudarem-se a si pr6prias (BERKOW JJ
1972). Esta norma opera mais frequentemente nas relac;:oes sociais mais pr6xi111,1
Assim, espera-se, por exemplo, que os pais cuidem das necessidades dos filhos t' n
professores auxiliem seus alunos. No entanto, ela se aplica tambem a sociedade lllil l
ampla, sugerindo que os mais aptos tern o dever e a obrigac;:ao de assistirem aqul' lt
que necessitam de ajuda, como os velhos, os jovens e os doentes.
Em algumas sociedades, a for~a da norma de responsabilidade social e amparada 1
ampliada por c6digos morais e religiosos. Na India, uma cultura coletivista, essa norma
bern mais enfatizada do que nos Estados Unidos da America, preponderantemente indivt
dualista, tendo sido verificado que laos sentimentos de obrigac;:ao para com os estranho., c'
muito maior do que entre os ocidentais (MILLER, BERSOFF &: HARWOOD, 1990).
Em suma, as explicac;:6es normativas, segundo as quais internalizamos padroes so
ciais de comportamento e estamos motivados a agir segundo esses padroes, sao lite"
para o entendimento do comportamento de ajuda. Contudo, a despeito de sua plauo.,1
bilidade para explicar algumas formas de ajuda, essas explicac;:oes nao sao suficien tc'
(LATANE &: DARLEY, 1970; SCHWARTZ, 1977). Em primeiro lugar, essas norma.,
sao muito gerais e nao prescrevem como agir em situac;:6es especfficas. Em segundo lu
gar, se todas as pessoas observam, de fato, as normas, como explicar diferen~as indiv i
duais na ajuda? E, ainda, duas normas conflitantes podem parecer igualmente aplicaveis a mesma situac;:ao. Finalmente, o comportamento das pessoas e, em muitos casos,
inconsistente com certas normas prevalentes em seu meio social.
Em alguns casos, por exemplo, a norma da responsabilidade social prescreve ajuda, mas ela nao e dada, o que significa dizer que a norma pode ser endossada apenas
verbalmente, e nao na pratica. Em outras situac;:oes, essa mesma norma pode colidir
com a regrade que "nao devemos nos intrometer na vida alheia". Por outro lado, ape240
{Jil hll I, .Ida IIOIIIIH da I('( 1p10l ld,tdl' II,(() J1,\ dllvld,t de l)lle ;to., )ll'O,'>Il.l'> l ' \)H'IIIlll'll
!ti '-'"" lll'<)llt' ncia intt•no.,oo., o.,cntinH' IIIO '> dl' ohrig:u.-~10 em rctribuir urn ato de gcl!' i !"•41d:uk ern muitos casos, cia nao se laz prese ntc nas relac;:oes interpessoais.
l'111 nmta dessas c outras objec;:6es, Schwartz (1973; 1977) e Schwartz e Howard
I iJfl I , 19H4) propuseram urn modelo te6rico sobre o altruismo, que veio acrescentar
lliill 1111va pcrspcctiva a abordagem normativa do comportamento de ajuda. Ao inves
tl• ''" .t11 zarcm normas sociais gerais, Schwartz e seus associados detiveram-se no estu1 ~· d, normas pessoais, ou os sentimentos individuais de obrigac;:ao moral para agir de
titlll tll'tcrminada forma em uma dada situac;;ao. Tais normas pessoais constituem urn
1111 ' "'de cogni~ao (expectativas sobre o proprio comportamento baseadas em valores)
1 11111\·ao (sentimentos antecipados de satisfac;;ao ou insatisfac;:ao dependendo de como
• tgt·). Em outras palavras, uma situac;:ao especifica de ajuda ativa em n6s normas pes',,, .., t' csses sentimentos de obriga~ao motivam-nos a ajudar; somos, en tao, recom1" uo., tdos pelo sentimento positivo de que agimos de acordo com nossos pr6prios pa,l11u·., morais. Se obedecemos as normas sociais para agradar a sociedade, aderimos a
11111 111as pessoais para agradar a n6s mesmos (DEAUX &: WRIGHTSMAN, 1988).
Uma serie de estudos foi desenvolvida por Schwartz e seus colegas, nos quais for 1111 mcdidas e avaliadas as normas pessoais, bern como as defesas contra essas normas,
, 111110 a negac;;ao de responsabilidade pessoal. Em urn desses estudos, Schwartz (1973)
.thordou uma questao de alta relevancia e atualidade- a doac;:ao de 6rgaos. A pesquisa
'111 loco prop6s-se a medir uma norma pessoal, valendo-se da seguinte pergunta aos suI• 11os: se urn estranho necessitasse de urn transplante de medula 6ssea e voce fosse urn
dnador compativel, voce se sentiria com obrigac;:ao moral de servir de doador? Outros
llt•ns destinavam-se a avaliar as tendencias dos sujeitos em aceitar ou negar sua respon•,, tbilidade pessoal pelo bem-estar dos outros. Ap6s tres meses, os sujeitos receberam
1una carta com urn pedido para servirem de doador em urn transplante de medula. Os
o.,ujeitos com uma norma pessoal forte em favor da doa~ao, quando comparados aos que
n:\o tinham urn sentimento de obrigac;:ao nessa situac;:ao especffica, foram mais propeno.,os a agir em consonancia com suas crenc;:as, na medida em que eles tambem revelaram
uma forte tendencia a nao negar sua responsabilidade pelo bem-estar dos outros. Os su)eitos que, algumas vezes, negaram tal responsabilidade sentiram obrigac;:ao em ajudar,
mas quando confrontados com a oportunidade concreta de decidir pela doac;;ao recorreram a mecanismos de defesa contra essas normas, conseguindo eximir-se de qualquer
rcsponsabilidade pessoal pela ajuda. Para esses, entao, nao havia qualquer correspondencia entre a norma verbalizada e a forma com que se comportaram.
0 modelo de Schwartz e colaboradores, baseado no conceito de normas pessoais,
reveste-se de maior complexidade do que a abordagem normativa geral. Especifica
como uma motivac;:ao para ajudar, na forma de uma norma pessoal especffica, e ativada
241
drl\'lllllll.ll ..,,.\'1,, ,: ~~ 11111
da. Rt·conhcn: qul' "" (H'..,..,O, I'> dll'cn'lll mlo apcna.., em !'>Ua.., l'l'l'IH,;a'> IIOIIII:Itivil'>
tambcm em suas tend(' IICia.., em agir de lonna consistentc com sua!> cn·n~·a.., , lk ll llil
tra que as nonnas pessoais S<1o uteis na explicar,;ao do co mponamcnto pro ..,,H '·"
nalmente, chama atenr,;ao para a ideia de que agir em correspondcncia com 110!>'>0'- pi
prios padroes pessoais pode ser intrinsecamente motivante, ou pode scrvir l'\1 11111
propria recompensa. Podemos ajudar porque estamos internamente motivad<h 1
fazer a coisa certa, nao para reduzir a excitar,;ao emocional desagradavel (cmo/11
arousal cf. modelo de PILIAVIN, DOVIDIO, GAERTNER & CLARK, 1981 , qur
discutido a seguir) e nem para reduzir a tensao de outra pessoa (empathic COilCCIII, 1
BATSON & COKE, 1981).
1111111.1
do~d.1 .;itua~·ftn,
1 11111111 d1it:!'> ao;; 1' 1111 \ 11111'111 jngn pa1;1
Os modelos de ajuda como urn processo de tornado de decisao
0 estudo do altrufsmo assume ainda uma outra perspectiva de analise em q1u
foco se dirige para o comportamento de pessoas que observam situar,;oes especffica-. tl
emergencia, cabendo-lhes decidir se vao, ou nao, pres tar ajuda a uma pessoa em nn1
sidade. Trata-se, entao, nao de considerar se as motivar,;oes sao biologicas, socia l'> ""
culturais, nem se elas sao de natureza egofsta ou altrufsta, mas de definir os fattlll
situacionais e pessoais que pod em interferir na rear,;ao dos espectadores dessas si 11111
r,;oes, em termos de atender, ou nao, a necessidade da vftima.
Na tentativa de explicar as motivar,;oes basicas e os processos cognitivos e emocio n.11
subjacentes as respostas de ajuda ou nao-ajuda, os psicologos sociais enfatizaram qur ''
situar,;oes de emergencia constituem situar,;oes de tomada de decisao, envolvendo 11111
serie de passos ate a decisao final de intervir ou nao intervir. Os dois modelos te6 r im
mais conhecidos, e mais frequentemente citados na literatura sociopsicologica sobrr 11
altrufsmo- Latane e Darley (1970), Piliavin et al. (PILlAVlN, DOVIDIO, GAERTN I·K
& CLARK,l981; PILIAVIN, PILIAVIN & RODIN, 1975) -, pressupoem a operar,;ao n;lu
so de uma serie de processos cognitivos (como interpretar a situar,;ao e ponderar as CO li
sequencias de ar,;oes alternativas) , mas tambem de processos emocionais (como simpa1111
pela vitima, sentimentos de obrigar,;ao moral). A decisao de ajudar nao seria, porta nto,
urn processo meramente racional, mas envolveria tambem aspectos emocionais. Esse.,,.
outros modelos de ajuda como urn processo de tomada de decisao (o modelo de normao;
pessoais de Schwartz, ja referido , tambem pode ser enquadrado nessa categoria) deriva
ram do ja citado caso de Kitty Genovese e constituem uma area de estudos especificos
sobre o fenomeno do altrufsmo em situar,;oes de emergencia, conhecida como "lntervcn
r,;ao dos Circunstantes". Posteriormente, esses modelos foram tambem aplicados napes
quisa do altrufsmo em situar,;oes de nao-emergencia.
242
Piliavilll'l al (I tJH I) pm(HI..,\'1,1111 , h,,..,r.Hio-. i'lll prc'i..,U(W'> IIh da tcor1,1 da 110
i.!! i:d, 11111 1llodclo de intnvcn<,;<lo ern l'IIH'rg(•ncias
o modclo de ajuda cxcitahl'>lo rt•co mpcnsa (wou~allcost- rcwwd model of helping). Esse modelo preve a
11 111 1,1 dt· cinco passos prcliminares antes da decisao de intervir ou nao na situar,;ao,
lt1111do a co nsidcrac;;ao dos prose contras em ajudar:
1.1111'
l
1l 101 nar-se consciente da necessidade de alguem por ajuda; este eo primeiro pas11 porquc muitas das situar,;oes de emergencia sao pouco claras ou ambfguas;
II) t·x pcrimentar excitar,;ao emocional;
• ) llltcrpretar essa excitar,;ao como relacionada a situar,;ao especffica, o que desen• .tdcara a motivar,;ao para ajudar e reduzir esse sentimento desagradavel, configul.uldo-se af a natureza egofsta da ajuda, ja referida anteriormente;
d) calcular os custos e recompensas das alternativas de ar,;ao, o que implica uma
.utalise cognitiva em que se ponderam as consequencias positivas e negativas no
raso de ajudar e de nao ajudar (ja referidas e exemplificadas quando tratamos da
tcoria da troca social);
t') tomar a decisao e agir, seja no sentido de prestar ajuda a vftima, seja no sentido
de fugir ou escapar da situar,;ao.
0 modelo teorico de Latane e Darley (1970) conceitua o comportamento pro-so' t,d como uma resposta de ajuda que constitui o ponto final de uma serie de cinco deci'"'" cognitivas (l. percepr,;ao da situar,;ao; 2. interpretar,;ao da situar,;ao como sendo
11111a emergencia; 3. decisao de assumir responsabilidade pela ajuda; 4. identificar,;ao de
11111a maneira capaz de ajudar; 5. decisao final de ajudar). Em cada passo do processo,
t.d como no anterior, pode resultar uma decisao em nao ajudar ou uma decisao que
It va o indivfduo ao passo seguinte na direr,;ao do comportamento altruista.
Embora haja pontos de contato entre o modelo de Latane e Darley e o de Piliavin e
associados, algumas diferenr,;as podem ser assinaladas, especialmente em relar,;ao
.1os passos intermediarios do processo. Alem disso , enquanto o primeiro modelo enfalt za os aspectos cognitivos suscitados pelas caracteristicas da situar,;ao de emergencia,
o segundo pressupoe a interar,;ao entre aspectos cognitivos e emocionais desencadeados por uma emergencia. 0 foco central da formular,;ao de Latane e Darley prende-se a
analise do efeito da presenr,;a de outras pessoas na resposta de ajuda a vftima por parte
do altruista potencial, o chamado efeito do circunstante. Tendo em vista a enfase dada
por esses autores as caracterfsticas situacionais que afetam o altruismo, esse modelo
sera tratado com maiores detalhes na ser,;ao seguinte, que trata especificamente dopapel dos fatores externos no comportamento pro-social.
~~·us
Os modelos teoricos que concebem o comportamento altrufsta como urn processo
de tomada de decisao sao alvo de muitas e contundentes criticas, haja vista a pressupo-
243
..,ll,.lo lit' ''" 1111plh II :I dr qm ' di.lllll' til' \1111:1 l'll\1'1)..\l'IH 1.1 , ;10., P~'""ll:l'> ol)..\111;1111 dr 1'!111
ltta c cakuh-.la. l\ lltlagcnl qur n·lkletn c a de scres humanos t•minentcmcnle I;H 1111
proccssando passo a passo uma sitLw<;ao dolorosa c angustiantc , proccsso CS'>t' qtu· r
mec;a com a percepc;ao da nccessicladc de ajuda e term ina com uma dccisao de ill II'!
ou nao , ap6s serem ponderados os potenciais ganhos e perdas pessoais. Enquanto i
alguem sofre, esta em perigo ou pede desesperadamente por ajucla .. .
Os proponentes desses modelos contra-argumentam que nao e bern assim. I .11 .11
c Darley (1970) enfatizam que os passos previstos em seu modelo podem nao oco tt
a u111 em uma sequencia 16gica. Admitem que as situac;oes de emergencia sao , pn
o., ua propria natureza, perigosas, unicas e imprevisiveis, e produzem excitac;ao e cs11 c
'>1', q11c poclem interferir no processo de tomada de decisao e impedir uma ac;ao p111 11
IIH' Illl' racional.
11111
Pcliavin et al. (1981), por sua vez, acentuam a natureza excitat6ria das emerge nt'''
1· a lltlt'l face entre a emoc;:ao e a cognic;:ao. De fato, asseguram eles, algumas situac,·fll
.to I:to claras e graves, e suscitam tamanha excitac;:ao emocional, que os circunsta nl c
podt'lll agir impulsivamente, ignorando certos indicios da situac;:ao, desprezando co n
-. ldrrac,· ,)es acerca da relac;:ao custo/beneficio e comportando-se de forma aparenten1(' n
11 111 ad o na I. Para eles, nao ha como deixar de reconhecer que a ajuda impulsiva e apt
1b rapida, que o impulso para agir em situac;:oes dramaticas pode ser inato, mas, au
llll''> 1110 tempo, nao ha como negar que somos socializados a considerar sempre os Ct l'•
1o-. c rccompensas envolvidos em situac;:oes de emergencias menos graves.
Em suma , podemos concluir que tais modelos sobre o comportamento pr6-soc ial
11:1o cl escrevem adequadamente a ajuda impulsiva, mas, de todo modo, podem ser utc t ~
para explicar como reagimos a situac;:oes novas com que nos deparamos- sejam elas dt•
t•mergencia ou nao- e nas quais ficamos inseguros quanto a se devemos ou nao inter
vir. Nesses casos, o mais provavel e que nos deixemos levar por uma analise dos prova
veis aspectos positives e negatives implicados na decisao e no ato de ajudar.
2. Fatores situacionais do comportamento altruista: quando as pessoas
ajudam?
Muitas vezes teriamos vergonha das nossas mais belas a(oes se o
mundo tomasse conhecimento dos motivos que as produziram.
La Rouchefoucauld
0 caso instigante de Kitty Genovese, como ja dissemos anteriormente, pode ser
considerado o marco da preocupac;:ao inicial da Psicologia Social com o estudo do altruismo. 0 que, na epoca, mais atraiu a atenc;:ao dos psic6logos, somos forc;:ados a reconhecer, nao foram propriamente as condic;:oes crueis em que ela foi assassinada, mas a
244
11.111 ,, 1-\I'IH' Iali zada do-. VI ZIIIIw-.,
11\tlllc .lllll'lllt' a dl'ixaram morrcr.
C"opt' ll,ldllH ..,
p11vclt·gcado'> do "e-.pelatulo", c que
lvl'lllos como esse clcs pcrtaram a curios iclade eo interesse dos psic6logos sociais,
lll 'l'l.dmcnte a total falta de envolvimento das pessoas a volta, fazendo-os desenvoli' • 11111,1sc rie de experimentos para identificar quando e em que condic;:oes e circunsj.lli• I. I'> as pcssoas intervem em situac;:oes de emergencia como intuito de pres tar ajuda
' 111mac; nelas envolvidas.
l'ostcriormente, os estudiosos ampliaram o foco de analise para incluir situac;:oes
d• 11 .10 cmergencia e de qualquer outro tipo- situac;:oes cotidianas regulares ou espoltld l!'a-., situac;:oes comuns ou excepcionais, situac;:oes ambiguas ou claramente definid 1. nas quais a necessidade de ajuda se fac;:a presentee o ato de ajudar, de forma esl"illl :tn ea ou planejada, seja o foco principal.
( ) exame da literatura especializada sobre o altruismo nao deixa margem a duvida de
!jilt , para compreendermos melhor por que as pessoas ajudam os outros, temos que le' "11 1' 111 conta a situac;:ao social em que se encontram. Nesta sec;:ao, discutiremos as princi1'·11 '> caracteristicas situacionais que afetam o altruismo, funcionando como fatores de' 11 radeadores ou inibidores dos comportamentos de ajuda a quem esta em necessidade.
I h '> tacaremos, entre os aspectos sociais mais estudados, a natureza rural ou urbana do
1111biente social mais amplo, o efeito do circunstante, a presenc;:a de modelos e os tipos
dt• rclacionamento existentes entre o altruista potencial eo recebedor da ajuda.
Ambientes rurais e urbanos
Pesquisadores que se propuseram a estudar o ambiente social mais favorecedor do
1omportamento altruista compararam pessoas que vivem em areas rurais e urbanas.
I)c urn modo geral, os resultados dos seus estudos sao concordantes: moradores de cidades pequenas e de areas rurais sao significativamente mais prestativos e generosos
do que os moradores de grandes cidades (BRIDGES & COADY, 1996; HOUSE &
WOLf, 1978; KORTE, 1980; LEVINE et al., 1994; STEBLAY, 1987). Em uma serie de
l'Studos de campo, Amato (1983) obteve resultados indicatives de uma correlac;:ao negativa entre o tamanho da cidade e o grau de aj uda em diferentes tipos de situac;:ao:
quanto menor a cidade, maior a ajuda a urn estranho que se acidentou na rua, a uma
crianc;:a perdida, orientando pessoas que pediam informac;:oes sobre o lugar, ou devolvendo uma carta extraviada. 0 mesmo tipo de relac;:ao entre tamanho da cidade e altrufsmo foi encontrado em varios pafses, como por exemplo Estados Unidos, Canada,
Israel, Gra-Bretanha e Turquia (HEDGE & YOUSIF, 1992; AMATO, 1983), resultados
esses sugestivos de que essa tendencia pode ser universal.
245
lll11.1 po.,.,tvtlt 'Pill o1~.1o p.tt':tr""' ll'lt(\ttH'IIO I' qtu· ,,.., pt•..,..,o,,.., qui' Ill'"'' "' i'ilt
dades peque11as apll'tHit•ttt 1\'tlo.., val on''> pro sociais, como setTill 111ais coopt' t .tti
solidarias c tcrcmtllll co.,ptt ito mai'> comunitario , o que as torna mai<> conliavrt'> 1 ,
fstas. ]a nas cidadcs maiorcs aprcndc-sc a nao confiar nos cstranhos c qur 1 ·" ' ''
deve cuidar de sua propria vida.
Uma explicac;ao alternativa tern por base a chamada hip6tese da sobreca rga
na (urban-overload hypothesis), proposta por Stanley Milgram, em 1970. Dada .t 11
sa estimulac;ao das cidades grandes, as pessoas sao expostas a uma carga enormr de
formac;oes e precisam ser seletivas, ate mesmo para serem capazes de processa 1 t111
que lhes chega do ambiente. Isso implica, obviamente, a necessidade de ignora t 1' 1'1
coisas, como, por exemplo, pessoas necessitadas, ou tratar pessoas de forma ruc k i
tar sempre com pressa. 0 ambiente urbano, por si s6, reveste-se de caracteristi1 ,,.,
culiares que constituem fontes de pressao sobre os individuos e que podem fum 111
como inibidoras ou impeditivas do desejo ou da disponibilidade para prestar .qt
(YOUSIF & KORTE, 1995), como na colocac;ao de Benedict, que citamos no in l(' l! t
presente capitulo. Ja em 1902, Georg Simmel alertava, atraves de A metr6pole c a \'
mental, que, por uma questao de autopreservac;ao, o cidadao urbano adotaria pa ta 1
fender-se dos excesses de estimulac;ao ambiental (comparado ao meio rural) uma
tude blase, calculista, impessoal, reservada e intelectualizada, "reagindo com a calw
ao inves de como corac;ao" (SIMMEL, 1902).
Estudos realizados por Levine et al. (LEVINE, 2003; LEVINE, NORENZAYAN
PHILBRICK, 2001) mostraram que pessoas de cidades com densidade populacitu
menor, bern como habitantes de culturas que valorizam a "simpatia", exibem n
comportamentos de ajuda. Em estudo realizado em 31 cidades, Levine e cola
apontaram o Rio de janeiro como a cidade em que maior comportamento de ajuda
verificou, vindo Sao jose da Costa Rica em segundo; as duas ultimas colocadas fonun
Nova York nos Estados Unidos e Kuala Lumpur na Malasia. 0 procedimento utilizad
por Levine consistiu em observar o comportamento de ajuda em mas movimentadu
do centro das cidades estudadas em tres situac;oes, a saber: (a) uma pessoa deixa calr
no chao uma caneta sem se dar conta do ocorrido; (b) uma pessoa usando uma bengal11
e 6culos escuros se prepara para atravessar uma rua; e (c) uma pessoa com a perna par
cialmente imobilizada se esforc;a para apanhar do chao umas tantas revistas que deixou
cair. Observadores anotavam quantas vezes, ap6s varias repetic;oes destas situac;oes, as
pessoas eram ajudadas por outros transeuntes.
0 efeito do circunstante
Pelo que acabamos de discutir, podemos pensar que uma razao plausivel para explicar a indiferenc;a e a apatia dos vizinhos de Kitty Genovese tenha sido o fa to de o cri 246
11nttttdo \'ttl Nov.1 Yot k, unw d<l'l 111,\IOII ..., ttd.tdt·.., do ttntndo. lk lato , a sohre
1, · 1 d1 r .., t,mula<.;ao urbana podc ter contrihuttlo para a rcac,;ao, oumclhor, a falta de
1
, '" dt•..,-,a., pessoas, mas, ccrtamcntc, outras razoes podem ser aventadas. Uma posthtltd .uh- seria atribuir a nao-intervenc;ao as suas caracteristicas disposicionais ou tra111 .,..,o:lls, dassificando-as como pessoas frias e desumanas.
'' i
N t~ r ntanto , para os psic6logos sociais B. Latane ej. Darley (1970), esse fenomeno
]'l!il•-, !;, 1 explicado por urn fator situacional especifico, que designaram como o efeito
hi !i11unstante (the bystander effect): a presenc;a de outras pessoas diminui a probabiII•Ll•ir de que urn individuo ajude. Em outras palavras, quanta maior o numero de pes' ' pot cncialmente capazes de ajudar em uma situac;ao de emergencia, menor e mais
lit.l ,, ajuda que sera dada a pessoa em necessidade.
I .tt ane e Darley (1970) sao considerados os psic6logos sociais pioneiros no estudo
tit 1ufsmo. Na epoca do assassinate de Kitty Genovese, eles eram professores de
'"'' n o., idades situadas em Nova York. 0 modelo por eles proposto, a partir desse caso ,
t'•lltlt ou de uma serie de pesquisas de laborat6rio e de campo acerca dos processes
.•gtttl ivos suscitados por situac;oes sociais de emergencia e das respostas comporta-
j,'
tttais resultantes.
l·m urn dos experimentos iniciais, Darley e Latane solicitaram a estudantes sentati!l 'i 1' 111 cubiculos e conectados por urn sistema de intercomunicac;ao que discutissem
it ,\ vida universitaria. Os sujeitos eram levados a acreditar que se enquadravam em
tlttl.t de tres condic;oes: que estavam sozinhos com urn outro participante (na realida,1, , um cumplice do experimentador que logo em seguida simularia urn ataque epilep11• o), que havia mais uma testemunha a seu lado ou que havia mais quatro testemuttltas. A suposta vitima lhe(s) dizia que tinha ataques frequentes e, de repente, fingia
, .tar tendo urn ataque, dizendo coisas sem sentido e gritando por ajuda. Os resultados
11 vclaram que quanto maior o numero de testemunhas, menor e mais demorada a ajutl.t dos sujeitos. Essa reac;ao foi denominada pelos pesquisadores como o efeito dos cir-
1111
unstantes, referido anteriormente.
Latane e Nida (1981), em revisao de aproximadamente 50 estudos, compararam o
l1ystander effect em situac;oes de emergencia e de nao-emergencia. Em cerca de 90% das
romparac;oes, que envolveram quase 6.000 pessoas, os observadores que estavam sozill hos foram mais propensos a ajudar do que os que estavam acompanhados.
1
Essa tendencia foi inicialmente interpretada por eles como uma resultante do
principia de difusao de responsabilidade, segundo o qual se o numero de circunstantcs ou espectadores e grande, a responsabilidade pela ajuda se torna difusa e diluida no
grupo, tendo como consequencia uma baixa probabilidade de ajuda.
Como vimos na sec;ao anterior, na busca de explanac;oes mais abrangentes que as
oferecidas apenas pela difusao de responsabilidade, urn modelo te6rico foi desenvolvi-
247
do , '>1').\ll llllo o q11al o 111dlv1dnn, di.ulll' lk 11111.1 t'lll t'l).\('lllHI, 10111.111111:1 '>t' llt' d(' dr1 'i
prl'limlllal't''> :ullt''> qm .1 ll''>lll>'>l.l tl(' ajuda po'>'>ll OCOII'l'l . ~e t'lll cada pa'>'>O a 1
nao for apropriada, a ajutla nao '>C '>l'guira. Os cinco passos que con'>liiUcm o 1111
de Latane e Darley (1970) sao clcscritos a scguir.
l) Perceber/notar o evento ou a situac;:ao de emergencia- Obviamentc, o p1111
ro passo para intervir numa situac;:ao de emergencia e perceber que algo de crnu l11
de estranho esta acontecendo. As vezes, a emergencia e evidente por si mesma I' l.u
mente notada. Outras vezes, ela nao e tao clara, sendo presumido que quanto 111;11111
mimero de pessoas presentes, menor a probabilidade de que seja percebida. Ou :1 111
sea pessoa esta com muita pressa, ela pode nao se dar conta do que ocorre a sua vo ll .1
0 que determina que as pessoas prestem atenc;:ao em uma emergencia? Emht ll ll
pressa parec;:a ser algo extremamente banal e irrelevante, Darley e Batson (197'3) 1
monstraram que ela pode ser urn fator mais importante do que o tipo de pessoa. htll
dantes seminaristas (pessoas potencialmente altrufstas) participaram de urn ex pr1l
men to, sendo-lhes solicitado que fossem a urn predio vizinho apresentar uma pale.., II
Com o intuito de ativar a resposta de ajuda, os pesquisadores disseram a metack d111
sujeitos que sua fala seria sobre pres tar ajuda a urn estranho em necessidade (a Paralul
la do Born Samaritano) e a outra metade, que seria sobre diferentes tipos de trabalhu
Para manipular a preocupac;:ao como tempo foi-lhes dito que eles estavam: (a) adiant 1t
dos na hora marcada para sua fala e tinham bastante tempo; (b) no horario ou (c) C'> lil
vam atrasados para o compromisso. No caminho para o local da palestra, eles enco n
travam uma pessoa (na verdade, urn auxiliar do experimentador), caida na entrada d
porta, tossindo e gemendo. Quais deles prestariam atenc;:ao na pessoa e ofereceria111
ajuda? 0 assunto da palestra nao fez a menor diferenc;:a na reac;:ao dos sujeitos, rna., 11
pressao do tempo foi urn dado decisivo: ofereceram ajuda 63% dos que acreditavam 11·r
bastante tempo, 45% dos que estavam no horario e apenas 10% dos que se julgava m
atrasados para o compromisso. Em sua maioria, os sujeitos que estavam apressado..,,
inclusive aqueles que iam falar sobre o born samaritano, passaram por cima da suposta
vftima, preocupados em chegar a tempo para dar a palestra.
I· 1111>·· t oniO!->:Iht•l .,,. lllli<IIH''>'>I>:I qut· gt i1.1 no
111<11
t''>ll\ IH 111 \'lllldo llll"t' .dog<ultlo, .1
IIH 11.1 1 lll'>ll que lazc mos (• olhar a nossa vo lta para obscrvar a rca<;ao das outras pes-
qn.li., pa-;sam a funcionar como uma fonte de informac;:ao para n6s: se elas deansicdadc ou panico, cntendemos que a situac;:ao e de perigo; se parecem
liq11ll.1.,, concllllmos que nao ha motivo para preocupac;:ao. 0 risco desse tipo de inIll~ III i.1 I' que , algumas vezes, o evento pode ser repentino e confuso, e todas as pesso1'11 '•I lites cstejam buscando pistas na expressao e no comportamento dos demais
111 tiiii ' IH.ler o que esta se passando. Esse estado de ignorancia pluralista, no qual os
I"'' 1.u lorcs de uma emergencia interpretam uns aos outros erroneamente (pela auit• 1.1 de respostas a situac;:ao), pode leva-los a conclusao de que nao ha nenhum peri" 1 "> ttuac;:ao, quando, de fato, o risco e iminente. Ern situac;:6es de extrema ambiguiI.EII , n dcito do circunstante pode tambem ser explicado pelo processo de inibic;:ao
i!•l l drcunstantes, tambem chamado de apreensao de avaliac;:ao, segundo o qual o ob'''' ,u lor preocupa-se em como os presentes irao avaliar seu comportamento. Nesses
\ ,11•, , ha urn fator de custo pessoal que pode refrear qualquer tentativa de ajuda: eo
li'ilt> tic ele se sentir embarac;:ado ou constrangido diante dos outros se precipitar-se
til
i' 'i ll'i llll
11 .1 ajudar
pensando que e uma emergencia e, de fato, nao ser.
}) Assumir a responsabilidade de ajudar- A terceira decisao a ser feita pelo obI 'vador e tomar ou nao para si a responsabilidade de intervir. Suponhamos a seguinte
1111.1<;ao: se urn dos vizinhos de Kitty Genovese tivesse percebido que algo de estranho
1 .1.1va acontecendo com ela, tivesse interpretado a situac;:ao como de emergencia e
llltlcluido que ela estava necessitando de ajuda, ele teria, entao, que decidir se lhe cal11 1ia a responsabilidade de ajuda-la ou se uma outra pessoa deveria faze-lo. Nesse moIIH'nlo e que operaria 0 principia da difusao de responsabilidade. Se fosse a unica teste1111111ha do evento, a responsabilidade recairia inteirarnente sobre ele, e nao teria como
pl'nsar que alguem provavelmente iria ajudar. Se ele nao o fizesse, e de forma rapida, a
vttima poderia morrer. No entanto, como cram muitas as testemunhas, ninguem se
~~· ntiu pessoal e fortemente responsavel pela necessidade de prestar ajuda. Poderia ter
havido ainda a possibilidade de pensarem que alguern provavelmente ja teria tornado a
lniciativa necessaria, no caso, chamar a policia.
2) Interpretar o evento como uma emergencia- Uma vez percebida a situac;:ao, o
passo seguinte e interpreta-la corretamente. Em geral, a tendencia mais comum da'>
pessoas e pensar em explicac;:6es rotineiras e convencionais do que em explicac;:6c'>
pouco usuais e improvaveis (MACRAE&: MILNE, 1992). Numa situac;:ao de emergen cia, em que uma ajuda seja necessaria, o fato de haver outras pessoas presentes favorece a interpretac;:ao adequada,ja que af entram em jogo os processos de influencia social
informacional. Tais processos nos ajudam a definir a realidade quando nao temos certeza de alguma coisa. Urn exemplo nos permite entender melhor como isso se da. Se
248
4) Saber como ajudar - E importante considerar que, mesmo tendo assumido a
rcsponsabilidade em ajudar, as pessoas precisam decidir que forma de ajuda e apropriada para a situac;:ao e se elas sao competentes para tal. Sendo assim, podemos saber que
uma pessoa esta tendo urn ataque cardiaco na rua e decidir prestar-lhe assistencia, mas
deveriamos faze-lo, se nao temos competencia para dar a ajuda adequada ou o conhecimento especializado que a situac;:ao requer? Em caso contrario, o efeito do circunstante pode nao ocorrer: se urn medico presencia alguem tendo urn ataque cardiaco na
249
lll,l , podt• '>(' Vl'l (OIIIIIIII,d'> I lllliiH'II 1111' qllt' ()<, dt' lllal'> para '>IHOI 11'1 :1 Vllilll:l, '>I IIIIi
pcssoalmcntc respon'>:tvl'l pl'l.tlllll'l ven~· ;.to na sitlw~·ao, m\o prccisando scqllt'l l111.,,
pistas nos clemais prcsenll'S para intcrprctar a cmcrgcncia . Em situa<;()CS mai'> '>1111pl•
porem, qualquer pessoa poclc scr capaz de proviclenciar a ajuda necessaria - tck ln11
para a policia, ajudar uma pessoa a levantar-se de uma queda na rua scm maion·., 1 1111
sequencias -, o que dispensa habilidades especiais.
5) lmplementar/decidir pres tar a ajuda- A decisao final prevista no modc lo r in
tervir diretamente na situac;:ao ou nao. Ainda que alguem saiba exatamente o que l. 1::'1
e como fazer, pode ter raz6es que lhe impec;:am de prestar o socorro necessario. Aqul
entra a avaliac;:ao dos custos de ajudar- fazer algo errado, agir de forma ataba l ho;l d ~t
embarac;:ar-se na ajuda, por exemplo. Por essas raz6es, o comportamento pr6-so1 t~tl
pode ser menos afetado pelo efeito do circunstante se os observadores nao forem C'> ll ll
nhos entre si ou se tiverem urn objetivo em comum (ARONSON, 2004; RUTKOW~I\1
GRUDER & ROMER, 1983). Ap6s ponderar os prose contras em ajudar, a pessoa d1•
cide se deve ou nao agir para livrar a vitima do problema.
A presen~a de modelos
Do mesmo modo que modelos agressivos provocam o aumento da agressao ,.
presenc;:a de modelos apaticos inibe a ajuda, modelos pr6-sociais tam bern promovem ll
altruismo. Sendo assim, numa situac;:ao de emergencia, se alguem diz "temos urn pro
blema grave, precisamos fazer alguma coisa", o mais provavel sera que os demais cir
cunstantes se mobilizem para ajudar tambem. Esse processo e conhecido como mode·
lar;;ao. Cada circunstante pode atuar como modelo comportamental para os demais, ,.
cada urn dos observadores pode procurar nos outros indicios do que deve ser feito. Su
pondo, por exemplo, que voce observa ao Ionge uma brigade casal na rua, tendo u ma.,
cinco pessoas ao seu redor. Voce se aproxima e constata que a mulher chora e grita po r
ajuda. De acordo com Latane e Darley (1970), voce avalia a situac;:ao e decide see nc
cessaria uma ajuda a mulher. Se conclui que e, voce entao decide se deve ajudar ou st·
talvez urn dos demais circunstantes deva faze-lo . Como sao varias as pessoas presentes, e provavel que conclua que elas e que devem intervir, e nao voce. Assim, voce continua a observar a agressao.
fill• '''•
N1.,.,,. tw. o, n:\o ,. a lalla dr '>l"lllillll nllt d1
H't1Hlll'... dlllid:tdt· 'I'll 111IIH '> 11.1 1r11
dn!dit a .qlldar, mas a lalla de ronhcciiiH'IIIo d1 q11.d .1~:10 dcvc scr l'lllj)ll't'IHiid.t h.,,.
' ' '- ' " ' 1 .. pondcnlt.'
ao passo quatro do modclo a1llniormcntc clcscri10 .
',llhii.I IIH' nlc , um clos presentes toma a iniciativa de fazer alguma coisa c c.li1 ige .,,.
,,, ", .1-i: d. Algucm mais logo o acompanha na ac;:ao. Voce entao decide que tamlwm
In ••' lltlt'lvir para apartar a briga do casal. Nesse caso, e provavel que sua ar,;ao tenha
1il11 gn .tda pel a "deixa" fornecida pelo primeiro circunstante que interveio. Elc sc1
\'Ill IHlll :llllO , como modelo, cujo comportamento voce imitou. A ac;:ao do modclo de
Iltllll l'''ra voce urn a situac;:ao que antes lhe parecia ambigua, e agora aparece como uma
1111.1~.111 que exige intervenc;:ao, bern como lhe indicou o comportamento apropriado
• llllillormcnte, talvez, a resposta a situac;:ao tambem pode lhe ter parecido amb1gua: o
'I''' .,,.1ia melhor fazer?).
I·tnbora sugiram interpretac;:6es diferentes para as situac;:6es de emergencia, am has
1 ''Piicac;:oes- difusao de responsabilidade e modelac;:ao- tern urn ponto comum : a
tit ' lo,ao de urn circunstante intervir ou nao depende da situac;:ao social. Nem uma nem
, !lilt a sc refere as caracteristicas da emergencia, nem tampouco aborda como clcmcn
111:-> centrais processos psicol6gicos muito complexos do observador. Obviamcntc ,
111111 todas as situac;:6es possiveis em que uma ajuda se faz necessaria sao semelhantes.
I h11as sao mais arriscadas, outras sao fisicamente mais dificeis , outras tantas exigcm
111.110r dispendio de tempo e energia e maior sacrificio pessoal, algumas revestem-sc de
111.11or ambiguidade, outras sao claramente definiveis.
Ja o modelo de Piliavin, Piliavin e Rodin (1975), a que fizemos referenda quando
11 .1tamos dos modelos de ajuda como urn processo de tomada de decisao (a ajuda sc da
p.tra reduzir a tensao emocional gerada pela emergencia), tern o merito de alertar para
,, possibilidade de que as pessoas possam interpretar a mesma situac;:ao de forma d ile
trnte e de destacar a importancia de respostas psicol6gicas as situac;:oes de emergencia,
em contraste com as respostas puramente comportamentais enfatizadas pelos mode los
ora referidos.
No processo de modelac;:ao ou imitac;:ao, a explicac;:ao e diferente. Quando voce
chega ao local e conclui que a mulher precisa de ajuda, voce olha para os demais em
busca de pistas sobre o que precisa ser feito. Voce verifica que ninguem faz nada, todos
observam a cena como voce. Como nenhum deles da urn indicio de qual deve ser o
comportamento apropriado, voce simplesmente fica olhando, tal como todos os pre-
Alem dos processos psicol6gicos mencionados por Piliavin et al. (1975), outros
tantos podem entrar em jogo, como o que esta envolvido no chamado "fenomeno do
mundo justo" (LERNER, 1970) . Segundo Lerner, temos necessidade de acreditar que
vivemos em urn mundo em que as coisas nao acontecem ao acaso, sem ordem e sem
significado. Dai a crenc;:a de que o mundo e urn Iugar justo, que funciona de forma organizada e, por isso, as pessoas tern o que merecem e merecem o que tern, sejam coisas
boas, sejam coisas ruins. De acordo com essa explicac;:ao, as pessoas podem deixar de
intervir numa situac;:ao de emergencia porque sup6em que se algo de mau aconteceu
com alguem e porque algo ele ha de ter feito para merecer esse destino .
250
251
Lttll , 1vtdt· tH '·'" l'lltpl tKa" aponl.tlll qw , 1t:h 11 l.u,<h''o co ttllttt.th , o q111 '"'" 1111
11 ,1111 qlll Ill V<ll ganhar 0 (/IIC (' l(IHffiiO , lll.l'o 'o llll I 0/110 podl'llHl'o oiJUdat ("lllllllla li
tdttll 1111' i''ola prccisando da minha ajud:t"), enquanto, nas rclac,;oes de troca, prer 1 pH 111 upac,:<IO clc quem ganha o que e licamos aborrecidos se nos parecc que esliil! t; d,uHio maio., ao outro do que recebemos dele ("acho que estou sempre fazendo
tlii''. ,, ltdano , mas ele nunca me retribui"). Depreende-se, entao, que a tendencia
li11ttl .t,,., pt''i'>Oas e ajudar mais aos parentes e amigos do que aos estranhos (ARONI}•
A nolurcru du, 1c•/u~oc'' In tor pc•\\O(r/\
De Lllll modo gcral , a.., pt•..,qtu"'a"' sohrc altndsmo localizaram os rdacionattH lll•t
tre estranhos. No entanto, uma grande parte do comportamcnto pr() so<:ialtt;l '111,,
ria ocorre entre pessoas que sc conhecem bem : casais, parcntcs, amigos, colcg.t.., 1
rados. Que fatores determinariam atos altruistas nesses tipos de rclacionamcttiP-'
Quando as pessoas se conhecem, elas parecem se preocupar mais com os ht'tlllh
a longo prazo que a ajuda pode proporcionar do que com os seus bendicios inH dt.t
efeitos esses que parecem prevalecer nas rela<;6es entre estranhos (SALOYEY, M \\
&: ROSENHAN, 1991). Por outro lado, em alguns tipos de relacionamentos PH'''
e afetivos, as pessoas podem nao estar absolutamente preocupadas com as rcrontp
sas que, eventualmente, possam auferir de sua ajuda ao outro.
Ao estudarem o altruismo e tentarem investigar os fatores que podem dcH'IIII
diferen<;as na ajuda, os psicologos sociais costumam considerar como fundamrn111l
distin<;ao entre re!at;oes de troca e relat;oes comunais. As primeiras sao governada-,
considera<;oes de equidade (o que in vis to na rela<;ao tem que ser igual ao que 1n 1
dela), ao passo que nas ultimas a preocupa<;ao basica e como bem-estar do o11111
Como vimos ao longo deste capitulo, os conhecimentos adquiridos sobre o aluut-.tll
aplicam-se mais as rela<;6es de troca, nas quais as pessoas pouco se conhecem, mao., .qu
dam esperando receber algum retorno (em geral, os sujeitos das pesquisas eram r-.1111
nhos entre si) . Como seriam, entao, os comportamentos pro-sociais nas rela<;oes l.uul
liares e de amizade? Os individuos seriam motivados a ajudar em fun<;ao de pondr1"
<;6es de custo/beneficio?
Sob uma das perspectivas, alguns psicologos sociais argumentam que tanto na-, 1,
la<;oes de troca quanto nas rela<;6es comunais a expectativa por recompensas e um Itt
tor importante na ajuda. 0 que varia e a natureza das recompensas (BATSON, 199 \)
No primeiro caso, a expectativa e de que o retorno seja imediato e, na maioria das vt
zes, de valor equivalente. Assim, se eu ajudo um novo colega de trabalho em uma taH'
fa, eu passo a esperar que ele, logo em seguida, me devolva o favor nas mesmas bast'"
Nas rela<;oes familiares, pode-se supor que a ajuda dada a um filho sera um dia cobradil
pela mae ("eu me sacrifiquei por voce e agora voce nao faz nada que eu lhe pe<;o"), ott
que o fato de ver o filho com saude e bem-ajustado seja a sua propria recompensa. r:
possivel, entao, que as recompensas a longo prazo sejam vistas como as que importa m,
e nao as recompensas imediatas.
Sob outra perspectiva, Clarke Mills (1993) defendem o ponto de vista de que a.,
rela<;oes comunais diferem qualitativamente das rela<;oes de troca porque, nelas, a.,
pessoas nao estao tao preocupadas com os eventuais beneficios que possam recebc r
por ajudar um parente, amigo ou colega. Sua maior preocupa<;ao e poder satisfazer as
necessidades ever o bem-estar de quem sente afeto.
252
1 Wll "ON&: AKERT, 2007).
1\it11Lt que essa conclusao seja apoiada por uma serie de pesquisas, alguns dados
II''' j(p-, apresentados por Tesser (1988) em rela<;ao a necessidade de manuten<;ao
1.\ JIIIIIH 'o ltma sugerem uma interessante exce<;ao a regra. Nessa pesquisa, Tesser detil! liL•l' .1que , quando as coisas (no caso, uma tarefa) tem pouca relevancia para os sultlli•'•, .11cndencia realmente e de que eles ajudem mais os amigos do que os estranhos.
11 •' lllillllO , quando alguma coisa e muito importante para as pessoas, a tendencia se
111\'!'tll! ( I ESSER, 1991) . Por que isso acontece? Segundo o autor, porque e doloroso
1 11111 ,1migo proximo se sair melhor do que nos quando se trata de uma area que va-
hltl
.IIIIOS
muito e, portanto, algo que e central em nossa autoestima.
atores individuais do comportamento altruista - Por que umas
oas ajudam mais que outras?
0 filosofo Thomas Hobbes- famoso par suas teorias de que sempre
agimos em interesse proprio- foi vista certa vez dando esmolas a
um mendigo. Ao ser questionado do porque de seu ato, ele explicou
que nao o fizera pelo sofrimento do mendigo, mas, sim, para
amenizar sua propria dar de ver alguem sofrendo.
A.Kohn
Qualquer que seja a natureza dos motivos basicos que levam as pessoas a ajudar os
tllltros, nao ha como negar que outros tipos de fatores, mais individuais, intervem em
"''"sa decisao de agir em prol daqueles que estao em necessidade. Do contrario, nao
pmleriamos explicar por que, em determinadas situa<;oes, certas pessoas mostram-se
111ais altruistas e outras, mais egoistas. Na tentativa de entender essas diferen<;,:as, os
p<;icologos sociais preocupam-se em estudar fatores pessoais e situacionais como propnsito de avaliar como eles podem afetar a motiva<;ao para ajudar.
Nesta se<;ao, vamos discutir as principais caracteristicas individuais do comporlamento altruista, abordando os tra<;os de personalidade , os estados emocionais, o
... entido de religiosidade e as eventuais diferen<;as de genero na maior ou menor propensao a ajudar.
253
Curoclcrf~>lku~>
dt• por \OI~t~l/tludt•
Quando tomamo~ conhcrilll t' IIIO de even los dramatico~ . como enc he ntcs, IH\11111\
gios, incendios e ouvimos os rel atos sobre o resgate das vilimas reali zaclo por pe~"''''
que arriscaram sua propria vida, logo nos inclinamos a pensar como essas pessoa-. "''''
generosas, solidarias e abnegadas. Em alguns momentos, chegamos ate a comt 111 .1
com entusiasmo sobre a personalidade altruista de algumas pessoas, como a de Madr
Teresa de Calcuta, que dedicou sua vida a causa dos pobres e oprimidos tanto no '>I'll
dia-a-dia como em momentos de grande aflic;:ao para a humanidade.
Da mesma forma, e comurn nos sentirmos revoltados quando sabemos que algw;lll
recusou ajuda ou observou friamente uma situac;:ao de emergencia, assumindo apt' ll.lll
a posic;:ao de urn mero espectador curioso. Quem nao se lembra do naufragio do Ba lriiU
Mouche, na Baia de Guanabara, no Rio de janeiro, no reveillon de 1988, em que mom
ram mais de 50 pessoas que comemoravam a passagem do ano no mar? Na epoca, lui
muito explorada a recusa em pres tar socorro as vitimas por parte de uma lancha de 11111
milionario, contrariando inclusive uma das leis sagradas do mar. Assim como podt·
mos pensar que , se os vizinhos de Kitty Genovese a tivessem ajudado, ela poderia n:hl
ter morrido naquela noite, podemos tambem supor que , se alguns dos que estivesscm
na lancha tivessem parado para prestar socorro, muitos dos passageiros que naufraga
ram poderiam ter sido salvos. Em ambos os casos, uma tendencia natural seria tentar
buscar explicac;:6es para o comportamento dessas pessoas no seu modo de ser, no scu
tipo de personalidade. Seriam elas frias, egoistas, medrosas, calculistas?
Esses exemplos servem ao proposito de trazer uma questao relevante no estudo do
altruismo: existiriam trac;:os de personalidade, caracteristicas estaveis no modo de sn
das pessoas que as tornariam propensas a sempre ajudar os outros? Ou melhor, podt·
riamos falar de uma personalidade altruista?
Os psicologos sociais tern se dedicado ao estudo de como se desenvolve o compo r
tamento pro-social e de como as diferenc;:as individuais podem determinar pessoas
mais e menos altruistas. Durante muitos anos , contudo, a investigac;:ao sistematica des
sa questao nao permitiu a identificac;:ao de urn unico trac;:o de personalidade capaz de
predizer o comportamento altruista. Como afirma Myers (2005) , ate o momento foram obtidas correlac;:6es modestas entre a propensao para ajudar e certas variaveis de
personalidade, como e o caso da necessidade de aprovac;:ao social. De urn modo geral ,
os testes de personalidade nao se mostraram uteis na identificac;:ao dos altruistas potenciais. Estudos com as pessoas que arriscaram suas vidas para libertar os judeus na
Europa nazista demonstraram que se o contexto social e urn fator influente na predisposic;:ao das pessoas a ajudar, o mesmo nao se pode dizer das caracteristicas individuais:
nao foi possivel atribuir a urn conjunto definivel de trac;:os de personalidade uma maior
tendencia altruista por parte dos que se envolveram nessa situac;:ao.
254
No t'ltlalll<l , pt'"<illl 'iadorc-. illlt' l l'~~ado~ tHt c-. ludo da rei ~H,' :lo entre pn~ onalidad c
tl 1111ponanH'tllO social de ajuda dcstaca111 qu e al gum as evid cncias ja foram reunidas
11 11 '•t'nlido de indica r que a prcse n ~;a de ce nos trac;:os predisp6e ao allrufsmo. Assim e
qw· os indiv1duos co m alto grau de emocionalidade, empatia e autoeficacia tendem a
1 1 111ais altrufstas (BlERHOFF, KLEIN&: KRAMP, 1991; EISENBERG et al., 1991; TICE
iJ IIAU MElSTER, 1985). Alem do mais, as caracteristicas de personalidade afetam o
lll tH IO pelo qual as pessoas reagem a determinadas situac;:6es (CARLO, EISENBERG,
II ~O Y ER, SWITZER&: SPEER, 1991 ; ROMER, GRUDER &: LIZZADRO, 1986) .
1'
I \lodos emocionois e oltruismo
Os estudos da Psicologia Social sobre altruismo visam explorar tambem as eventu.11 ., rclac;:oes entre estados emocionais temporarios e a tendencia a ajudar em situac;:oes
1 ... pccificas. Assim, o foco das pesquisas volta-se, nao para os trac;:os de personalidade,
'"·'" para os estados de humor que precedem ou sao concomitantes ao ato altruista. E.
estamos alegres- porque algo de born acabou de acontecer conosco- que senill nos mais vontade de ajudar, ate como forma de dividir nossa felicidade com alguem?
1 111 , ao contrario, eo mau humor, e a tristeza que nos motiva a fazer algo por alguem
p.lra nos sentirmos melhor com a vida?
q~t ando
Como objetivo de buscar respostas para essas indagac;:6es, psicologos sociais norIt' americanos desenvolveram uma serie de pesquisas, em que os sujeitos eram induzidos, atraves de manipulac;:6es experimentais, a sentir emoc;:oes positivas e negativas
( por exemplo,feedback ficticio de sucesso ou fracasso em tarefas ou testes) . Em seguida , os sujeitos eram confrontados com situac;:oes em que alguem pedia ou precisava
de ajuda, sendo observadas as suas reac;:oes . Os resultados obtidos, em seu conjunto,
11:\o sao inteiramente consistentes; no entanto, algumas tendencias gerais puderam ser
1 onstatadas.
0 estado de humor negativo:
• propicia menor ajuda em crianc;:as (ISEN, HORN&: ROSENHAN, 1973);
• provoca maior ajuda em adultos (APSLER, 1975; CIALDINI &: KENRICK, 1976;
CARLSON&: MILLER, 1987) ;
• a culpa parece ser a emoc;:ao negativa mais relacionada ao a to altruista (CARLSON&: MILLER, 1987; DOVIDIO, 1984);
• a tristeza, tal como enfatizada pelo modelo de ajuda como urn alivio do estado
negativo (negative-state relief model), de Cialdini e colaboradores (CIALDINI,
DARBY&: VINCENT, 1973; CIALDINI et al. , 1987), aumenta a possibilidade de
ajuda, pois as pessoas aprendem durante a infancia que o ato de ajudar contribui
para a superac;:ao de estados psicologicos negativos.
255
lk anndo ntnt < t,d\llnl \' "i'l'" ioLdmt,tdmi'"• o :tllt'llto.,IIHI i' Vl..,t!l pdlh adttltli
como autogratilicante , com recompensa.., inte1nas inen·nte..,. (~uando a pe~~oa l'\)11'11
menta culpa ou tristcza, cia sabe que fazendo um bema algucm se ntir-se-a reco111pr11
sada, neutrahzando-se, assim, as emo<;oes negativas. Os resultados opostos, oh ttdwt
com crian<;as, sao interpretados por esses autores como urn produto da sociali z:t\..111
que as leva a sentir menor satisfa<;ao no ato de ajudar; porem, a medida que crescent,'"'
jovens come<;am a perceber no altruismo uma fonte de autogratifica<;ao. Como oh.,rt
vam os pesquisadores, tais resultados sao tambem consistentes com a visao de que n.t
cemos egoistas e que, ao longo de nosso desenvolvimento, essas tendencias podem ~·1'1
controladas.
Em rela<;ao ao estado de humor positivo, foi verificado que:
• pessoas felizes sao mais altruistas, qualquer que seja a razao e qualquer que sq.t ,,
idade (SALOVEY, MAYER, ROSENHAN, 1991; CARLSON, CHARLIN & MILI I · I~.
1988) e poucos achados sao tao consistentes quanto esse em toda a literatura P"'
col6gica (MYERS, 2005);
• pessoas felizes sao ainda mais motivadas para ajudar quando sua aten<;ao esta lo
calizada rna is em coisas boas para si mesmas do que para os outros (ROSENHA N
SALOVEY & HARGIS, 1981) .
Por que isso acontece? Uma das interpreta<;oes correntes e que as emo<;oes posill
vas fazem surgir nas pessoas pensamentos positivos, desencadeando-se uma circuhut
dade de cogni<;oes positivas sobre si mesmas e os outros. Dessa forma, as pessoas fell
zes prolongam esse estado de espirito engajando-se em comportamentos pr6-socia t'
(ISEN, 1987). Uma interpreta<;ao an;Hoga sustenta que urn estado emocional agrada
vel induz pensamentos positivos e autoestima positiva, o que predispoe a comportame n
tos positivos (BERKOWITZ, 1987; CUNNINGHAM, SHAFFER, BARBEE, WOLFF N
KELLEY, 1990; ISEN, SHALKER, CLARK & KARP, 1978). Em consequencia, torna
mo-nos mais propensos a estabelecer associa<;oes positivas entre sentirmo-nos berne o
fato de sermos altruistas.
I tnhor:t ptuT<,;a ~tr ~implc~, a qm·..,t :lo "qut:nt 1' nwi s altrutsta, o holll\'111 <HI a llllt
lltl_·d ll<ln tcmuma rcsposta unica c imt·tlt.lla. 1:111 primeiro Iugar, porquc c~tc tipo di'
1i!l llg.u. .1o nos rcmcte nccessariamente a uma analise mais ampla. Em segundo Iugar,
pttcmos elementos suficientes, tanto do ponto de vista te6rico quanto do pon
,., ,I, vtsta dos achados empiri.cos, para concluirmos que o comportamento prt)-social
"·' 111aioria das vezes, situaci.onalmente determinado , ou, melhor ainda, e fruto da
I lilt 1.u,;ao de variaveis pessoai.s e situacionais. Sendo assim, aqui. tambem cabem con..,i
tl1 1.u,:oe.., rclativas ao papel desempenhado por uma conjuga<;ao de multiples fa ton''
i1111 1 krcntes. Nao surpreende, portanto , que ainda nao tenha si.do possfvel concluil
q111 tun genero seja mais altruista do que o outro porque tudo depende do ti.po da situa
l" iii Jlli
1.111 .,ocial de ajuda (EAGLY & CROWLEY, 1986).
Para tornar mais complexa ainda essa questao, o estudo das diferen<;as entre ho
tlllll'> c mulheres extrapola os simples aspectos biol6gicos, ampliando-se o foco para o
' .t11do da identidade e dos papeis de genera, com base na considera<;ao dos atributo.,
1t~lluralmente associados a percep<;ao de ser homem e de ser mulher. Em todas as nd
1111 ,,., , ha normas especificas para hom ens e mulheres, das quais derivam-se trar,;o~ \'
, omportamentos socialmente valorizados e esperados para uns e para outras. Nas cui
1mas ocidentais, prevalecem como atributos do papel masculino tradicional- caract\'
tl '> ti cas instrumentais- ser corajoso, heroico e capaz de iniciativas mais ousadas c a1
1i ... cadas; ja os atributos associados ao papel feminino tradicional envolvem caracll'lt'>
11 1 as expressivas e se referem a educa<;ao e cuidados com a prole, aos aspectos soci.oemo
1 10nais da vida e a valoriza<;ao de relacionamentos pr6ximos e duradouros.
Tornados em conjunto, esses resultados quanto a eventuais rela<;oes entre estado~
de humor e ajuda devem ser considerados com reservas, ainda que alguns deles fa<;am
urn certo sentido. Em primeiro lugar, porque dizem respeito a situa<;oes momentanea~
e restritas; em segundo lugar, porque nao apresentam a consistencia empirica suficientemente desejavel; em terceiro lugar, pela complexidade de fatores que podem esta r
envolvidos nos estados emocionais positivos e negativos. E, finalmente, porque talvez
mais importante que relacionar "mau humor" ou "born humor" com ajuda seja considerar o papel dos pensamentos que acompanham o estado de espirito no momento em
que urn tipo de ajuda se fa<;a necessaria.
Em consequenci.a, poder-se-ia esperar que os homens fossem mais altruistas em si
t11a<;6es que exigissem bravura e cora gem e as mulheres, em situa<;oes que envolvcsscm
mcnor risco e maior necessi.dade de suporte emocional. Na revi.sao que fizeram de 170
t'studos sobre o comportamento pro-social, Eagly e Crowley (1986) constataram que O'-o
homens, de fa to, revelaram-se mais altruistas em situa<;oes de emergencia e de risco , qul'
rcqueriam a<;oes mais heroicas. Em urn dos estudos, por exemplo, todos os sujeitos, coni
l'xce<;ao de urn, da amostra de pessoas que se dispuseram a intervir para prender crimi
nosos eram homens (HUSTON, RUGGIERO, CONNOR & GElS, 1981). Por outro lado ,
as mulheres mostraram-se mais propensas que os homens a prestar ajuda e apoio emocio
nal nas situa<;oes tradicionalmente relacionadas as expectativas sociais, como cuidar
de crian<;as e de velhos (BELANSKY & BOGGlANO, 1994; BRODY, 1990; EAGLY &
CROWLEY, 1986).ja em estudo realizado em Brasilia no final dos anos 90 (SILVA ct
al.), usando a tecnica da carta perdida (no qual uma carta e colocada "por engano" no
para-brisa de urn carro, solicitando para o dono do carro, "amigo do missivista," dar uma
olhadinha e coloca-la no correio com certa urgencia,ja que do envio da carta dependia a
256
257
lllllljlll•ol,l d1
llllllll'lllf)~lllll,llllllllliiiiOII
ddl'll'll<,;\-..,
LIIIIO
1'111 hul<,;lo do-.. oiljl'liVII
"'I"'""· 'I'"
111
11;1 '•I'"" .q111l.t 1 l'll'lllll< 1'110 11111.1 vez qut· a pe-..-.oa a '>l'l' ajudada u,t 1
g1.1 1111 llolllll.,.,l '"'" , q11.111111 .111l.tlo de -.er do sexo leminino ou masculino. 1\pt'll,\.; ,~,h
SI' IVIIll "" u1na 111<1101 l<lpitk t'lll alt'lldcr quando a pessoa a scr ajudada era do"''"''
1111111110 . t\inda em 1\rao.,lil.l, ~tlva e Cunther (200 1) pcsquisaram comportame nto-.. il
.qwla entre passagciros de (>nibus: um dos pcsquisadores carrcgando pastas, livro-. r nt
dctno , licava de pe pr6ximo de quem se esperava possivel ajuda no sentido de scgUI ,11 11
ohji'IOS portados. Ap6s 40 viagens realizadas observou-se urn total de 60% de ajuda, -.rll
dn maio., influentes neste sentido a linha de 6nibus (maior na linha satelite, compo-.111
p1rdominantemente por trabalhadores residentes na periferia), o contato visual pr r\'l\1
I.Hl' a lace e- aqui, sim- urn maior percentual de ajuda entre mulheres, mormente l'l\111
dua., mulheres (nao houve maior comportamento de ajuda entre pessoas de genero.., d1
krrntes) . Embora este estudo possa ser considerado, como salientam seus autores, 111,11.,
11111<1 questao de cortesia social do que de ajuda propriamente dita, nao deixa de scr 11111
,.,cmplo de comportamento pr6-social.
Finalmente, Eagly e Crowley (1986), revendo 35 estudos que comparavam a ajud.t
rrcebida por homens e mulheres em situa<;:6es que envolviam estranhos necessitandn
de ajucla, observaram que os homens ofereciam mais ajuda quando as vitimas ermn
mulhcres, embora aqui tambem, como no experimento descrito acima, e possivel qtH'
out ros fatores, como cavalheirismo ou mera perspectiva de uma sedu<;:ao, tenham co
laboraclo positivamente para a ocorrencia de comportamentos pr6-sociais.
M•l tt'c imcnto
c
rc~ponsobilidadc du vltmw
1\ ;quda depentk dos julgamentos que lazemos sobrc o merccimcnto da vftima e
,1, '","""" inkrcncias em rela(,;ao as causas de seu "infortunio". Se concluimos que a
lu'o;.;oa t•o.,ta em dificuldadcs porque foi negligente e, de alguma forma, e responsavel
11111 -..cu dcstino, a ajuda tende a ser pouco provavel. Uma explica<;:ao para essa tenden' 1.11•otlc ser dada a partir da hip6tese do mundo jus to (LERNER & SIMMONS, 1966),
fl rncncionada anteriormente. Segundo essa hip6tese, como as pessoas tendem a ser
, hl<l'> como merecedoras de tudo o que lhes ocorre, de born ou de ruim, este tipo de
I" no.;amento nos leva a desvalorizar a pessoa que, acreditamos, causou sua propria desW .11;a. Uma outra possibilidade refere-se a atribui~ao da necessidade da vitima a uma
1.utsa controlavel ou incontrolavel (WEINER, 1986). Assim, se urn colega seu, que se
-..uu muito mal numa prova, lhe pedisse emprestado todas as suas anota<;:6es de aula,
\Ol'C provavelmente as cederia se julgasse que ele nao estudou porque ficou doente
(uma causa incontrolavel), mas dificilmente lhe ajudaria se achasse que ele nao estudou porque preferiu ira praia (causa controlavel). A controlabilidade da causae, port.ullo, urn fator que inibe a ajuda porque dela deriva a atribui<;:ao de responsabilidade
pcssoal pela dificuldade presente. Por que isso ocorre? Segundo Weiner, essa avalia<;:ao
rognitiva da situa<;:ao e da necessidade de alguem desencadeia emo<;:6es de raiva e desprczo no percebedor (no caso de causa controlavel) ou de compaixao (causa incontrolavel), o que, por sua vez, determina que a ajuda seja menos ou mais provavel.
Similaridade
4. Caracteristicas da pessoa em necessidade: a quem ajudamos?
Egoista, s.m. Um sujeito mais interessado em si proprio do que em
mim.
Ambrose Pierce
Nas se<;:oes anteriores, analisamos o altruismo sob a perspectiva do altruista em
potencial, procurando discutir alguns dos fatores pessoais e situacionais que mais frequcntemente o motivam eo predispoem a assumir a responsabilidade e tomar a iniciativa de prestar ajuda, seja em situa<;:6es de emergencia, seja em situa<;:6es de naocmcrgencia. Nesta se<;:ao focalizaremos a pessoa em necessidade e algumas de suas caracteristicas, que podem ser importantes no sentido de mobilizar a ajuda, bern como
suas rea<;:6es ao fato de precisar ou de receber ajuda. Nesse sentido, abordaremos, em
primeiro lugar, as percep<;:6es do altruista potencial em rela<;:ao ao merecimento da vilima em ser ajudada e sua eventual responsabilidade pelo que lhe esta ocorrendo, bern
como ao grau de similaridade entre eles. Em seguida, trataremos brevemente de algumas implica<;:6es envolvidas no fato de ser alvo de ajuda.
258
A decisao de ajudar ou de nao ajudar relaciona-se tambem a percep<;:ao do grau de
similaridade entre o altruista potencial e a pessoa em necessidade. Nao causa estranheza
que os que sao vistos como mais semelhantes a n6s acabem sendo mais auxiliados do
que aqueles que sao diferentes de n6s (DOVIDIO, PILIAVIN, GAERTNER, SCHROEDER & CLARK, 1991). A percep<;:ao de semelhan<;:a gera sentimentos de vincula<;:ao e
uniao entre as pessoas- sentimentos de pertencer ao mesmo grupo e de afeto- e isso estimula a vontade de ajudar. A rela<;:ao entre similaridade e altruismo parece evidenciar-se
em muitas instancias. Como comentamos anteriormente, e comprovadamente maior a
propensao a ajudar amigos do que estranhos e, por outro lado, nos paises coletivistas,
em que a valoriza<;:ao dos grupos por seus membros e bern maior do que nas culturas individualistas, os comportamentos pr6-sociais sao significativamente mais frequentes.
A perspective do recebedor do ojudo
Ainda que a pesquisa em comportamentos pr6-sociais enfatize prioritariamente
aqueles que pres tam ajuda ou se eximem de ajudar, nao ha como negar que muito ha
259
,IIIHI.IIHll "'I ,\lll '"lllll,uln ,,,, r "tlldll do .dtllll.,lltll 1'11111 .1 rtiii'>Hin .u,. .lll d.t pt'l"lll'll
de qul'lll prl' l'"'" dl' .q11d.1
Em bora, a primeira v1..,ta , "'l' possa supor que a ajuda e sempre hem vi-.ta pl'lo II'{
bedor e tern apenas dcitos positivos, isso poclc nao ocorrcr. E t)bvio que , em llltllln' 1
sos, as pessoas sao reconheciclamente gratas ascus bcnfeitores c valori zam a aj11<l.1 1
cebida. :E unanime a icleia de que a sociedade seria uma sociedadc mclhor sc os 1111ltvl
duos fossem estimulados e intrinsecamente motivados a ajudarem-se uns aos llllllllll
No entanto, sao hem mais frequentes do que se imaginam as dificuldacles rclacioll.ull4
ao ato de pedir e de receber ajuda.
Uma analise bastante interessante sob esse angulo e apresentada por alguns P"''' ''
logos sociais. A preocupa<;:ao em estudar primordialmente os pontos de vista de qtu·nt
ajuda e secundariamente os de quem precisa de ajuda e urn reflexo provavel de CO IIIII 14
propria sociedade encara a questao . A mesma sociedade que cria normas que est111111
lame prescrevem a necessidade de ajudar todo aquele que precisa cria tambem notlll.tll
que valorizam a autoconfian<;:a e a independencia (DEAUX, DANE, WRIGHTSM/\ N ,~.J
SIGELMAN, 1993) . Quantas vezes temos vontade de pedir ajuda ou de demonstnu 111
diretamente que uma ajuda seria bem-vinda, mas refreamos nosso desejo para nao pa
recermos dependentes ou incompetentes? Pedir ou precisar de ajuda pode tamhr111
significar ficar em debito com alguem ou ser pressionado a retribuir em algum 11111
mento futuro (vide norma da reciprocidade). Quantos de n6s, por exemplo, tern ddt
culdades em lidar com equipamentos eletr6nicos, mas relutam em pedir ajuda a tllll
colega de trabalho ou porque se envergonham por 'sua ignorancia' e incapacidadc d1·
aprender a maneja-los ou por nao terem que, de alguma forma, devolver o favor?
Urn aspecto crftico que deve ser levado em conta para dimensionar em que medida
as pessoas reagem positiva ou negativamente ao recebimento de ajuda diz respeito ;I
extensao com que ela representa uma amea<;:a a autoestima (NADLER &: FISHER,
1986). Se fortalece a autoestima (nos casos em que a pessoa se sente querida ou consc
gue seu objetivo), a rea<;:ao a ajuda e favoravel e pode propiciar novos pedidos de ajuda.
Se a ajuda representa uma amea<;:a a autoestima, seu efeito podera ser o de provocar
ressentimento em rela<;:ao a quem a ajudou, desencadeando tentativas de resgatar a autoconfian<;:a. Ainda segundo esses autores, urn fator importante deve ser considerado
nessa situa<;:ao: o grau de controle que o individuo percebe ter sobre sua vida, e as expectativas dai decorrentes quanto as suas possibilidades de readquirir a autoconfian<;:a.
Se acredita-se capaz de exercer controle sobre sua vida, tentara provar que e independente e nao precisa de ajuda, e, se for bem-sucedido, as rea<;:oes negativas a ajuda darao
lugar a sentimentos mais positivos em rela<;:ao a ela. Quando, no entanto, a autoestima
e amea<;:ada e o individuo se percebe como incapaz de determinar sua vida, seus sentimentos negativos a ajuda persistirao, tornando-o cronicamente dependente de ajuda,
ainda que se ressinta por precisar dela.
260
l't~!iljlli ">,l'> -.ohtl' it II'<H,. ,lll .1 ,qtlll.t IHII Jlilll t: d11 lltl'hl'llllt lllll'ill'ill'illll ,1111d,t ljlll~ :1
l;l!';i ,l tit .qud;t pmk ll' l' Ulll'>l'qU('IH'Iil'> l''>llgtll,tli 7,tlllt''> . (.) ato d\' pt•dll otjll<l:t II.P it
l ll ll tl ""' dtlt·ma humano basico : o conlhto l'lltn· a dcpcndcncia e ,, 11tdt pl'ndl'll('l.t
I <~IIIII ,,., -.ociedadcs ocidcntais valori zam a indcpcndcncia e a autoconliatH,':I COIIHl
""''"lo-. de fon,;a c de adcquabilidade pessoal, procurar ajuda viola esscs valon·-. p111
' ~''' dulllta lalta de competencia e fraqueza pessoal.
A lnfluencia conjunta da pessoa e da situaCjaO no altruismo - Quem
•luda quando?
Nao hci tarefa mais indispenscivel do que a de retribui1
gentileza.
Cicero
UIIIO
/\o Iongo deste capitulo , discutimos as possibilidades de explica<;:ao c comptTI'II
111 dos comportamentos pr6-sociais, analisando os motivos basicos que levam o-. .,,
,, .., humanos a ajudar os outros, e os fatores psicol6gicos e situacionais que i.ntcrle1 ~""'
11.1 tcndencia mai.or ou menor de prestar auxilio a quem precisa.
I, 6bvio que, em bora inurn eros estudos e pesquisas confirmem a influencia sobte ''
dt lttlsmo ora de uma ora de outra dessas variaveis, os achados obtidos reprcsent<tttt
' , plica<;: oes parciais do fenomeno . Urn passo adiante no entendimento dos com pot 1.1
tll l'ntos de ajuda e obtido quando a teoria e pesquisa nessa area levam em conta a "' "
llttt•ncia conjunta de fatores pessoais e situacionais. lsto porque, em geral, quando
ro nfrontado com atos altrufstas, o psic6logo, da mesma forma que o observador lei go ,
tende a atribui-los a: a) tra<;:os relativamente estaveis, disposi<;:oes permanentcs l' 1111
t ras preclisposi<;:oes, que se presumem residam "dentro" do individuo, tais como a'''"
patia e a personalidade altrufsta; b) caracterfsticas da situa<;:ao social em que ocon 1'111 ,
t ircunstancias externas que, de alguma forma, desencadeiam esses comportamcnto'> ,
co mo por exemplo se o individuo esta sozinho ou em grupo, ou c) a influencia i ntl't .111
va de aspectos pessoais e aspectos situacionais.
Parece fora de duvida, dada a complexidade de certos fen6menos psicossociai-. c
o altruismo e urn deles -, que sua explica<;:ao cientifica sera tanto mais satisfatoll.t
quando mais seja possfvel investiga-los, analisando-os atraves da intera<;:ao dos vario-.
tipos de influencia sobre eles exercida. Ainda que muitos pesquisadores em altruiSIIHl
enfatizem uma abordagem situacional, a maioria reconhece, pelo menos em princlpto,
que sempre e a conjuga<;:ao de aspectos do individuo e de aspectos da situa<;:ao que llH'
lhor da conta de explicar esses comportamentos. A esse respeito, e relevante a distill
<;: ao feita por Snyder e Ickes (1985) entre situa<;:oes "fortes" e "fracas". As primeiras lot
necem pistas salientes que guiam o comportamento e tern, em si mesmas, urn alto gra11
de estrutura<;:ao e defini<;:ao. Por isso, evocam e desencadeiam respostas relativamenlt
261
1-i'''''
1111i I( uttll''> d,1., P"""' 1.1., q1 u 111 Ia.; .. r ' '" 011 It"'" , dt i,\,1 11d11 Jl"l" ,, "'·"
pat .1 cvt'ttlt t:li
dtlctt'tH,.· a., di' pt't'>OII.tll(l.tdl' IIIVt' t'>.tiiH'IIIl' , ao., ~tiii.I~IH''> lt,ll ,1., .,,\o "'·"" dc'>l''>ltll lllt'il
clas c ambtguas, pctmitilldo uma seric de cscolha~ compott:lltH'IItai.,, razao pda qw tl u
pessoas nelas envolvidas Lcndem a agir de forma bcm tlilcn·nnada. lsso nao quer d t ~ t't
contudo, que, nas siLUac;:oes fortes, seja dispensavel o examc dos Lrac;:os individu.li._,
mas, sim, que em algumas dessas situac;:oes o peso relativo de seu efeiLo sobrc os CO lli
portamentos pode ser acentuado.
Mesmo admitindo a pertinencia dessa interac;:ao entre pessoa x situac;:ao no cs t1 ulu
do altruismo, os pesquisadores diferem significativamente no modo como interprc t.tt ll
essa interac;:ao. Entre os modelos te6ricos que se propoem a estudar o altruismo sob ,..,.,{
duplo enfoque, Horowitz e Bordens (1995) destacam duas abordagens, a usualmc11tr
denominada por interacionismo e a aplicac;:ao dos modelos de ajuda como tomada dt
decisao (ja tratados anteriormente) , a situac;:oes que requeiram ajuda regular e a medio ,.
longo prazo (e nao, tal como originalmente concebidos, a situac;:oes de emergencia) .
A perspectiva interacionista concebe que os motivos internos do individuo (a ltnl
istas ou egoistas) interagem com fatores situacionais para determinar se uma pes~oa
ajudara ou nao alguem em necessidade. Romer e seus associados (CALLERO, 19Hh,
ROMER, GRUDER & LIZZADRO, 1986) i.dentificaram quatro orientac;:oes altrufs ta"
baseadas no grau de necessidade individual de prestar ajuda e de receber ajuda:
a) altrufstas: aqueles que sao motivados a ajudar os outros sem receber nada em
troca;
b) doadores receptivos, os que ajudam para obter algo em troca;
c) egofstas, motivados basicamente para receber ajuda, mas nao para dar ajuda;
d) os individualistas, que nao sao motivados nem para dar nem para receber aj uda.
Em seus estudos, esses autores induzi.ram os participantes a acreditar que eles sr
riam recompensados ou nao recompensados pela ajuda prestada. Os resultados obti
dos em duas medidas de ajuda (concordancia em ajudar e numero de horas em quest·
dispuseram a ajudar) confirmaram as hip6teses elaboradas em func;:ao dessas quatro
orientac;:oes. Destaque-se que os altruistas, alem de demonstrarem maior grau de ajuda
quando nao havia qualquer compensac;:ao, revelaram a menor tendencia a ajudar quando havia compensac;:ao. Isso significa que quando as pessoas tern uma moti.vac;:ao intrfnseca verdadeira para fazer algo , a oferta de recompensa diminui sua motivac;:ao e
seu gosto pelo que se dispoem a fazer.
De outro lado, ha tambem evidencias reunidas por pesquisadores de que os fatores
da pessoa e da situac;:ao tambem i.nteragem de urn modo a reduzir o efeito do circunstante.
Em urn desses estudos (WILSON , 1976), os sujeitos foram classificados como "orientados para a autoestima" (aqueles motivados por urn alto sentido de competencia pessoal)
ou como "orientados para a seguranc;:a" (os dependentes do que os outros fazem) . Esses
262
ill i''> lltoo., ""l''tlo., lw .lln ., ubnH'ttdtl'> a""''' t'IIH'tge ncia simulatla (uma "explo.,<iO" que
"P""'·"'"'ntc tnia lnido o cxperimentador) em Lrcs condic;:oes cxpcrimentais: ou esta~ .1111 o,ozin hos, ou csLavam em companhia de urn observador passivo, que nada fazi.a para
ij111 l.11 , ou de Lllll obse rvador prestativo que se dispunha a socorrer o experimentador.
t)~ ' r.,ult atlos do estuclo revelaram que os sujeitos internamente ori.entados para ajudar
(·~· 11' lunc,;ao da autoestima), comparativamente aos externamente motivados (orientados
I'·" a .1o.,cguranc;:a), alern de terem sido os mai.s prestativos em todas as condi.c;:oes, revela111111 a maior propensao a ajuda quando se encontravam diante de urn espectador passi·, " l.,to significa que pessoas com essas caracteristicas individuais nao se deixam inllii t' nt iar ou contaminar pela apatia de espectadores passivos, o que talvez possa sugerir
op u os "vizinhos de Kitty Genovese", em sua maioria, fossem do tipo "orientado para a
'gmanc;:a". Caso fossem do tipo "orientado para a autoestima" , o desfecho daquela si111 ,1\'<lO provavelmente poderia ter sido outro, porque suas caracterfsticas de personalid.ule fariam com que agissem de forma a ajudar a vitima.
I lorowitz e Bordens (1995) discutem ainda urn outro aspecto da relac;:ao pessoalsilll , l ~·ao e tendencia ao altrufsmo. Trata-se da possibilidade de que a personalidade do
111di vfduo possa interagir com os custos de prestar ajuda em uma dada situac;:ao social.
l'or que alguns individuos ajudam os outros em situac;:ao de alto risco pessoal, como
lot o caso das pessoas que resgataram os judeus durante a Segunda Guerra Mundial?
\ltnal, se elas fossem descobertas, a morte seria certa!
Segundo a perspectiva interacionista, o grau com que a personalidade do altrufsta
.dcta a ajuda pode depender dos custos percebidos no ato de ajudar. Nas situac;:oes de
baixo custo pessoal (ajudar alguem perdido na rua, por exemplo), os trac;:os pessoais sao
lit enos importantes que a situac;:ao em si, e o numero de pessoas que se dispoe a ajudar e
grande. No entanto, nas situac;:oes de alto risco e custos pessoais elevados, inverte-se a
ordem de importancia, e a personalidade passa a exercer urn impacto mais forte na decio.,ao de ajudar. Nesses casos, e bern pequena a proporc;:ao de pessoas que ajudam, o que
laz supor que aquelas que conseguem superar as forc;:as situacionais impeditivas da ajuda
sao as que possuem personalidades altrufstas ou, pelo menos, alguns trac;:os pessoais estaveis que as levam a assumir os riscos envolvidos no ato de ajudar.
6. Como podemos desenvolver o altruismo na sociedade?
E dando que se recebe.
Sao Francisco de Assis
0 estudo do altrufsmo pela Psicologia Social reveste-se de extrema importancia
nao s6 do ponto de vista te6rico-empfrico, mas tambem do ponto de vista estritamente
pratico. Na medida em que admitimos a procedencia de tantas e tao veementes denuncias de que a sociedade caminha perigosamente para o terreno dos graves conflitos so263
ri.d..,,
dll.., ttlltlltltlll,l\t j.., dt~E·t~ jlt S rgttto.,l;lo., dr '>lltt''>"llt'IH 111 r-;1.11 IH'.,.,o,d ,. dll'> .t!O
IIH'VIIiiVt'l a jlll'Ot lljlil<,i\0 dl' lllllltl pi
mos deter e reverter o qu.tdto progrcs~ivo de viokncia c agtTo.,sao qul' llillllr
mente emerge nessas condi~·oco., sociais negativas e injustas. De outro lado, at o11:;1"
c;ao de que sao incontaveis os exemplos de vercladeiro altrwsmo e abnegac;:lo ,.. 1 ' : '~'
za de que a ajuda, a cooperac;ao e a soliclariedacle sao essenciais para a vida do.; )tl
pose o funcionamento da sociedade revelam uma outra face da questao, que podr
o ponto de partida em busca de uma sociedade mais harmoniosa.
llagt.lllll' dt•-,n•-,pt'II0,\11., ditfllllo.; 1111111,11100.,, l'
Os psic6logos sociais tern como objetivo primordial conhecer, en tender e l'\plit
as condutas humanas e os fenomenos psicossociais, no caso especifico, os que dt:c•t
respeito ao altruismo. Concomitantemente, enfatizam como fundamental a nece~'>ul.ul
de avaliar de que maneira os conhecimentos cientificos resultantes da teoria e pe..,qttlll
sobre os comportamentos pro-sociais podem ser aplicados para promover o cle~e t l\'tll
vimento do altruismo na sociedade.
Smith e Mackie (1995) resumem algumas das principais possibilidades nessa clin'l,'ihi
1) Reduzir a ambiguidade da situac;ao- Como vimos anteriormente, muitas vezl'.,,
ajuda deixa de ser prestada porque a emergencia ou a necessidade nem sempre se apn·.,rn
ta claramente definida para os observadores e esses, por sua vez, aguardam indicios 1l'itlll
para agir da forma apropriada. Caberia, entao, as vitimas ou as pessoas que precise m llll
desejem ser ajudadas que tomem explicitas suas necessidades e suas expectativas.
2) Integrar no autoconceito o componente da generosidade- Esse e urn dos lll l'l
os pelos quais se pode estimular uma motivac;ao intrinseca, e nao extrinseca, para a111
dar os outros. As pessoas que fazem boas ac;oes por motivos intemos, ao inves de por
recompensas externas, sao mais propensas a se verem como genuinamente altruis tao., ,.
a desenvolverem a preocupac;ao em ajudar os outros (BATSON, FULTZ, SCHOEN
RADE &: PADUANO, 1987). Assim, por exemplo, embora inicialmente as pessoa'>
fac;am doac;oes de sangue por serem induzidas ou por incentivos, com o tempo eht'
acabam se julgando pessoas generosas e solidarias, o que as leva a ajudarem ma i..
(PILIAVIN; EVANS; CALLERO, 1982).
3) Promover a identificac;ao com quem precisa de ajuda- Qualquer que seja a nc
cessidade- subita e aguda ou cronica e permanente- e importante que haja urn senti menta de similaridade entre o altruista potencial e a pessoa necessitada. Esse sentimento
alimenta a empatia e a predisposic;ao a ajudar. 0 principia subjacente- ajudamos os que
nos sao semelhantes como se estivessemos ajudando a nos mesmos- aplica-se em rela<;:6es comunais e aos membros de nossos proprios grupos.
4) Ativar as normas de ajuda - As normas sociais de ajuda - reciprocidade, responsabilidade social, justic;a social - tern que ser ativadas mentalmente para que pos-
264
llitllt itntilt orollttHlll.tttH'ttlo Pttt o.,tiii:U,tH'" tk ctncrgt'ncia, pot exemplo , tn~u LH,'t)es
11, ttllttttl.lllll.., t'Sj)('l'llico~ ~obrc como proccdcr ("cssa crianc;a precisa de ajuda" ou
, .,,, pttlll ,. vl'lho pn·cisa de um casaco") podem trazer a tona as prescric;oes normatitnllhtli zando as pessoas
a ac;ao de ajudar.
,) t·ocalizar a responsabilidade em pessoas especificas- As instruc;oes ativadod,1., 11ormas sociais sao pouco Uteis para a ajuda se direcionadas de forma geral e
!! tl'' lm.tl izada. E importante, en tao, que elas sejam dirigidas a pessoas especificas.
~·:, lilt , ,,.., pressoes normativas em favor da ajuda fortalecem-se do mesmo modo que a
tl!lti' .. IO de responsabilidade entre as pessoas enfraquece os sentimentos individuais de
i'
l!lttl)',•u,ao de ajudar.
h) Pro mover o altruismo na infancia: recompensas e modelos - Estudos da psico-
desenvolvimento demonstraram a importancia das experiencias iniciais de vida
dc'>pertar nas crianc;as uma preocupac;ao autentica como bem-estar dos outros.
!11)',1.1 do
1'·11.1
f\ Iguns pesquisadores assinalam que urn meio poderoso para o encorajamento na
itd.tttcia do comportamento pro-social e recompensar os atos altrufstas das crianc;as
, 11111 palavras elogiosas e gestos de carinho (GRUSEC, 1991). Outros, porem, alertam
''""' a necessidade de nao supervalorizar as recompensas. Em primeiro lugar, pelo
'' ,, o de as crianc;as distorcerem a finalidade da ajuda, que passa a ser a obtenc;ao de
p11 mios, e nao a percepc;ao favoravel de si mesmos em termos altrufstas; em segundo
lit g. II , pelo surgimento da eren<;:a de que ajudar so vale a pena quando ao ato estao as·' II tadas recompensas extrinsecas. 0 mais importante nessas primeiras experiencias
,j, vida e estimular nas crianc;as urn interesse intrfnseco pelo ato de ajudar, pelo
lu 111 estar que lhes possa provocar, pelo sentimento positivo de se verem como nao
' 1\olstas, e nao pela recompensa em si mesma. Uma das formas de se conseguir isso e,
.qto'> a ajuda prestada, fazer comentarios que indiquem serem elas pessoas gentis e genrrosas (GRUSEC, KUCZYNSKI, RUSHTON&: SIMUTIS, 1979).
Provavelmente mais importante do que as recompensas e o fato de os proprios
p.lis servirem de modelos de altrufsmo para seus filhos. Nas entrevistas realizadas com
,1.., pessoas que libertaram os judeus na Segunda Guerra Mundial ficou evidente que a
tttaior parte desses altruistas se identificava muito com seus pais, e esses eram vistos
como possuidores de altos padroes morais, tendo lhes transmitido valores de respeito
r preocupac;ao como proximo, e nao apenas com os membros de seu proprio grupo
(OUNER &: OUNER, 1988; FOGELMAN&: WIENER, 1985). Urn trecho da entrevis''' com uma destas pessoas ilustra o papel desempenhado por modelos familiares no
romportamento pro-social: "meu pai me ensinou a nao fazer diferenc;as entre as pessoas.
N6s todos temos urn Deus. Nao importa quanto dinheiro voce tenha, ou qualquer outra
roisa" (FOGELMAN&: WIENER, 1985: 65).
265
PniH tl'> l.tlol!., pr..,..,n;H.., qcu p.ll! 11111 I.IVOIIIII 11 1 OllljiOII.IIIH'liiO alillllo.,l.t. c q1
provavellllt' llll' l'..,l:lo H'i.IIIOll,ld.to., ,,.., t':I.IH'l H'IH 1ao., lan111iall'o., dtll:tllll' ,, inl:lllll,l, de···!
cam-sc a rei igiosidadl' l' o o.,rcllldo dr moral idadc . Ncso.,e.., cao.,oo.,, nht u nta '>I' ,d 1111111
que as pessoas, por Lcrcm uma prt•ocupa\:ao constantc com os prcccilos 11101.11 '>, ci
principios de justir;;a humana, com as ncccssidaclcs de scus scmc lh antcs, COlli" IIIII Iii
de responsabilidade social, acabam por fazer opr;;oes de vida em que a ajucla aoo., onlltl
e parte integrante de seu repertorio comportamental (EISENBERG, 1986; RUSIII 1 IN
1984; ERKUT, JAQUETTE &: STAUB, 1981). 0 pensamento moral ou a empa tia pd.,
vitimas motivou, em grande parte, as pessoas que ajudaram no resgatc dos juden-. t'tll
poder dos nazistas (OLINER &: OLINER, 1988).
IQlo I oi di.,cutido o quost6o con trol quo divido os ostudiosos do tornu uflllul,
o po~
i ml udmitir-so a oxistfincia do altrulsmo gonulno, motive do por unw p1 oocupo~oo
••111pntico polo outro ou em todo ato de a judo, pode vislumbrar-sc urn motivo ego'''" ou outocentrado?
Os v6rios enfoques te6ricos relacionados ao altruismo pod em ser organizodos
''"' torno de tres eixos principois de analise: o biol6gico e cultural, o pessool e situ11• ionol e o cognitivo e ofetivo.
Os principais fatores situocionois que podem favorecer ou inibir os comporlcmwntos de ajuda foram discutidos, tratando-se desde os contextos sociois mais
ounplos, passondo pelos tipos de reloc;6es interpessoois que envolvem o altruisto
Alguns pesquisadores comer;;am a investigar o chamado altruismo plancjado - 11
tipo de ajuda que as pessoas se dispoem a dar, de forma regular, a causas sociai-. ,. liu
manitarias. Em uma pesquisa de levantamento realizada com norte-america nos ( (, 1\ I
LUP, 1984) foi verificado que dos 12% de americanos classificados como "altan1m11
comprometidos espiritualmente", 46% declararam-se engajados em trabalhos CO lli pn
bres, doentes e idosos, comparativamente aos apenas 22% dos "altamente nao co111
prometidos". Ate en tao, a maior parte dos estudos sociopsicologicos sobre o altrul'>lllll
focalizavam os atos de ajuda espontinea em simples situac;;oes de emergencia, em gr 1al
provocadas pelos pesquisadores.
•• u rocebe dor potencial de ojudo, ate os corocteristicos especificos do situoc;ao
11ciol de ajuda, especialmente o numero de observadores presentes. Os proces._,,., psicol6gicos que podem explicor o chomodo efeito do circunstonte, bern
Como afirmam Smith e Mackie (1995), a natureza e amplitude dessas recomcnd,1
c;;oes reilete a multiplicidade de fatores que podem iniluenciar a ajuda eo altruismo. "A
ajuda e urn microcosmos do comportamento humano. Ela comec;;a com uma serir d1
julgamentos provocados pelo que nos vemos e por quem nos somos, pelos nossos g1 11
pose nossas normas e pelo que nos pensamos e sentimos. Ela culmina na ar;;ao" (p
527). Advertem, no entanto, que da mesma forma que esses processes podem cond11
zir as pessoas a atos altruistas podem tambem leva-las a agressao, uma vez que altn11.,
moe agressao podem ser polos extremos do comportamento humano, mas, em alguu"
aspectos, tambem podem ser paralelos.
A analise final abordou as implicac;6es de ordem pratica propiciadas pelos conhocimentos psicossociais sobre o altruismo, com algumas propostas e recomen -
• 111no os processos de aprendizagem social que podem neutraliza-lo, sao tam lutrn comentados.
Umo breve apreciac;ao dos fatores individuois que coracterizom o altruista po lmlciol foi apresentada, discutindo-se, sob esse perspective, se existiria uma peronalidade altruista ou se sao os estados emocionais transit6rios os respons6veis
polo propensao em ajudar.
dw;6es no sentido de promover e desenvolver o altruismo no sociedade, com enfaespecial nos processos de socializac;ao primaria.
ugestao de leituras complementares sobre o altruismo
ARONSON, E., WILSON, T.D. & AKERT, R.M. (2007). Social psychology. 6° ed. Nova
V'ork: Addison-Wesley Longman.
I>I.AUX, K., DANE, F.C., WRIGHTSMAN, L.S. & SIGELMAN, C.K. (1993). Social psycho
louy. 6° ed. Pacific Grove, CA: Brooks/Cole Publishing Company.
Resumo
<,OLDSTEIN, J. (1983). Psico/ogia social. Rio de Janeiro: Guanabara Dois.
Fw;a sempre o bem; isso contentarci algumas pessoas e deixarci as
demais perplexas.
Mark Twain
I IOROWITZ, I.A. & BORDENS, K.S. (1995). Social psychology. Mountain View, CA:
Mayfield Publishing Company.
MYERS, D.G. (2005). Social psychology. Nova York: McGraw-Hill.
Sei que meu trabalho
e uma gota no oceano. Mas,
sem ele, o ocea11o
seria menor.
Madre Teresa de Calcuta
~EARS, D.O., PEPLAU, L.A.
& TAYLOR, S.E. (1991 ). Social Psychology. 7° ed. Eaglewood
liffs, NJ: Prentice
SMITH, E.R. & MACKIE, D.M. (1995). Socia/ psychology. Nova York: Worth Publishers.
Abordamos neste capitulo o altruismo e a ajuda, destacando inicialmente a
natureza humane e os motivos que levam os individuos a ajudar seus semelhan-
266
267
Sugestao de questoes para trabalhos Individuals
1) 0 que
m grupo
e altrulsmo? Quo motivos b6sicos levam as possoas a ajudar os outros?
2) Em que consiste a hip6tese empatia-altruismo e quais as principais objec_;oes quo
lhe foram feitas?
3) Como empatia e egoismo estao relacionados ao altruismo?
4) Em seu modo de entender, existe o altruismo genuino?
5) Como os psic61ogos sociais explicam o comportamento de ajuda em situac_;oes
de emergencia?
6)
Epossivel falar-se de uma
personalidade altruista?
7) Em que sentido podemos afirmar que o comportamento de ajuda
mente determinado?
e situacional-
8) Em que medida os processos de socializac_;ao podem promover o desenvolvimento do altruismo?
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PSICOLOGIA SOCIAL parte 2