A EXPLORAÇÃO DE JOGOS DE LÓGICA E OS PROCESSOS DE ENSINO E
DE APRENDIZAGEM: PERSPECTIVAS E POSSIBILIDADES
Autor(a): Gabriela Arenhaldti
Co-autores(as): Danise Vivianii, Jéssica
Carine Mülleriii, Jilvane Schmitt Göhliv
Centro Universitário UNIVATES
“Uma escola ludicamente inspirada é aquela em que as características do
brincar estão presentes, influindo no modo de ser do professor e no papel do
aluno.”
(Tânia Ramos Fortuna)
Resumo
Este trabalho apresenta descrição de algumas práticas desenvolvidas pelas bolsistas do
Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência/PIBID, subprojeto Pedagogia
1, do Centro Universitário UNIVATES, em uma Escola Estadual de Ensino
Fundamental, localizada na região central do município de Lajeado/RS/Brasil. O grupo
de PIBIDianas teve como foco de suas práticas a exploração de jogos de lógica, com os
alunos do 1° ao 5° ano do Ensino Fundamental de nove anos, como uma estratégia
pedagógica aliada ao brincar. O planejamento das atividades buscou outras
possibilidades de ensinar e de aprender por meio da exploração de jogos de lógica,
selecionados e adaptados criteriosamente pelas bolsistas. A partir do problema
norteador da pesquisa, a exploração dos jogos nas turmas dos Anos Iniciais e suas
contribuições para os processos de ensino e de aprendizagem, objetivou-se desenvolver
a atenção, a concentração e a interação, através do ato de brincar. Para a exploração
destes jogos, conhecimento de suas regras, bem como suas possibilidades estratégicas,
foram pensadas situações organizadas para cada turma em dias alternados. Até o
momento, foram realizadas cinco oficinas, uma com cada turma que compõe os
primeiros anos do Ensino Fundamental da escola, durante os meses de maio, junho e
julho do ano de 2014. Os jogos foram bem aceitos pelos alunos por proporcionar
situações dinâmicas e que tendem a ser pouco utilizadas em sala de aula. Para dar
continuidade jogos encontram-se na escola e estão à disposição dos professores. Após
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as oficinas observou-se a procura dos jogos pela equipe dos docentes que procura
utiliza-los com maior frequência em suas práticas. Além disso, a experiência
proporcionou a relação da teoria com a prática e a reflexão sobre o planejamento
docente, enriquecendo a formação das bolsistas.
Palavras-chave: Jogos de lógica. Ensino. Aprendizagem. Anos Iniciais.
Introdução
Este trabalho foi desenvolvido por meio do Programa Institucional de Bolsa de
Iniciação a Docência/PIBID, subprojeto de Pedagogia, do Centro Universitário
Univates, junto a uma Escola Estadual de Ensino Fundamental, localizada no bairro
Centro, do município de Lajeado-RS. O trabalho teve como público alvo os alunos dos
Anos Iniciais (1º ao 5º ano), professores do educandário e pais de alunos.
O trabalho iniciou-se com a leitura atenta do Projeto Político Pedagógico (PPP) da
Escola, disponibilizado pela supervisora da escola parceira, a fim de estudar o contexto
escolar. As bolsistas começaram as observações nos corredores e pátio, espaços onde
procuramos estar atentas às movimentações das crianças, posteriormente ampliamos
nosso campo de observação para dentro da sala de aula com os professores, fazendo
anotações individuais das turmas. A partir da leitura e análise do Projeto Político
Pedagógico, e da forma como foi construído, destacamos a Filosofia da Escola:
Educar alguém em qualquer tempo e espaço é muito mais do que ensinar o
que a humanidade já descobriu. A fazer descobrir a potência das relações no
cuidado consigo mesmo e com os outros no aprimoramento do ser humano
nos aspectos cognitivo e afetivo. (PPP, 2012, p. 4)
Essa concepção de filosofia foi modificada pelo estabelecimento de ensino no ano
de 2012, valendo-se das respostas de questionários realizados pela escola com a
comunidade escolar, os quais foram lidos e analisados pelas bolsistas a fim de conhecer
a realidade das famílias que constituem essa comunidade, bem como conhecer alguns
apontamentos mais aprofundados dos professores em relação ao ensino e aprendizagem
dentro dos ambientes escolares.
Inicialmente a intenção das bolsistas era de reorganizar o recreio da escola e, para
isso, foi preciso à observação das movimentações dos corredores e pátio. Ao analisar a
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interação entre os educandos, concluiu-se que durante o recreio a criança precisa brincar
sem a intervenção de adultos, ou seja, um momento livre, como afirma Tonucci (2014,
p.05): “[...] o tempo livre é um privilégio, um presente”. Desta forma, devemos destacar
que estes momentos “livres” também proporcionam aos alunos novas aprendizagens,
vivências e experiências.
Em seguida, realizaram-se observações individuais em sala de aula e durante as
conversas com as professoras dos anos iniciais, percebemos que as educadoras
gostariam muito de trabalhar com jogos, porém não encontravam estratégias para
ensinar diferentes jogos em um único momento. De um modo geral, os educadores da
instituição destacaram a ausência dos jogos lúdicos e práticos, que trabalham com a
lógica e a concentração, de forma competitiva, para motivar, desafiar e fantasiar a
realidade sem tornar o aprendizado um exercício monótono. Nesse sentido trazemos as
palavras de Carlos Drumond de Andrade:
Brincar com as crianças não é perder tempo, é ganhá-lo. Se é triste ver
meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas
sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem.
(ANDRADE apud FORTUNA, 1999, p. 1).
Desta forma, se utilizando desta temática as bolsistas selecionaram alguns jogos
para introduzir nas atividades das turmas dos Anos Iniciais, sendo eles: Paciência, Lig
4, Moinho e Senha. Os jogos foram escolhidos pela adequação das faixas etárias, desde
o 1º ao 5º ano, e por serem jogos que a escola já possuía, porém os alunos não tinham
livremente o acesso a eles.
Após a escolha dos mesmos, as bolsistas se aprofundaram em obter o
conhecimento das regras através da leitura dos manuais dos jogos, explorando-os
durante os primeiros encontros e pesquisando seu desenvolvimento para “readaptar”
algumas das suas regras, conseguindo assim, aplicar também com as crianças do 1º e 2º
anos. Cabe destacar também, que cada uma das bolsistas se responsabilizou pela
aplicação e pesquisa de um jogo específico.
A seguir, apresentaremos as regras que encontramos a partir da pesquisa de cada
um destes jogos mencionados.
Jogo Lig 4: O jogo é semelhante ao jogo da velha, ele possui fichas verdes,
vermelhas e um tabuleiro. A cada jogada, com apenas dois participantes, tendo como
objetivo colocar fichas até que forme quatro seguidas da mesma cor sendo na horizontal
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ou na vertical, impedindo que o adversário avance. Ganha quem tiver mais ligações com
quatro fichas.
Jogo Senha: A cada jogada são dois participantes, o desafiante inicia escolhendo
uma combinação de quatro cores entre oito possíveis. O jogador desafiado precisa
descobrir exatamente qual a sequência e, para isso, conta com dez tentativas. A cada
jogada, o desafiante informa quantas cores e quantas posições estão certas - sem,
evidentemente, dizer quais são apenas utilizando os pinos pretos e brancos (Pino Preto –
Cor e posições corretas; Pino Branco – Cor correta, mas posição errada; Nenhum pino –
Cor errada). Findado o jogo, as posições se invertem e o desafiante agora é o desafiado
e vice-versa; o grande segredo é tentar descobrir a senha secreta, utilizando o mínimo de
tentativas possíveis.
Jogo Ludo, Paciência, “Devagar se vai ao longe”, ou “Fubica”: Para jogar é
necessário dois ou mais jogadores, no máximo quatro jogadores. O jogo inicia, assim
que o jogador, em três chances, tire no dado o número cinco para sair da casa inicial
com uma peça de cada vez, o jogador lança o dado e avança o número de casas indicado
nos dados, avançando um peão de cada vez, sempre na direção à casa final (objetivo do
jogo). Ganha o jogador que chegar a casa final com todos os peões da sua cor.
Jogo Moinho ou Trilha: O jogo inicia com os dois participantes dispondo suas
nove peças pelo tabuleiro. Quando um jogador conseguir colocar três das suas peças
alinhadas, na vertical ou na horizontal, seguindo a linha da união, diz-se que forma um
Moinho. Os participantes têm como objetivo, reduzir o número de peças do adversário a
menos de três ou bloqueá-lo.
Após a análise das regras de cada um dos jogos, construímos um planejamento
para aplicação das oficinas dos jogos com todas as turmas dos Anos Iniciais, adaptando
algumas regras dos jogos Lig 4 e Senha para o primeiro e segundo ano. As aplicações
aconteceram inicialmente, durante cinco semanas, um dia de exploração em cada turma.
Ao final de cada manhã, realizou-se com os alunos uma breve avaliação sobre a
experiência com os jogos, sendo que, nos primeiros anos através de desenhos e palavras
chaves e nos demais anos por meio de escritas. Após este momento, as bolsistas se
reuniam para a escrita das percepções e acontecimentos de cada manhã, valorizamos as
falas que surgiam dos alunos, para em seguida analisar e registrar no Projeto de
Pesquisa em andamento. Sabemos o quanto é importante à avaliação, assim como
afirma Hoffmann (1999)
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[...] é seriamente comprometido com o juízo de valor emitido sobre o
educando. Seu olhar estreita-se perigosamente ao considerar o processo
avaliativo como uma ação objetiva e imparcial, puramente constatativa sobre
o fazer do aluno, como uma coleta de dados observáveis. Ao estabelecer um
juízo de valor sobre o que observa, o professor interpreta o que vê a partir de
suas experiências de vida, sentimentos e teorias (HOFFMANN, 1999, p.13)
No caso da avaliação realizada pelas bolsistas interessamos-nos em especial pela
avaliação das crianças em relação ao momento lúdico proporcionado. O nosso intuito
foi de, a partir dos relatos dos alunos, poder constatar em que medida os jogos os
mobilizaram e qual o grau de satisfação proporcionado.
Análise das aplicações
Traremos em linhas gerais uma breve análise da aplicação dos jogos com as
crianças, para tanto, exploraremos algumas falas e procuramos ficar atentas às reações
das crianças. Na turma do primeiro ano, destacaram-se algumas falas das crianças:
Criança 1: “Achei estressante.”, Criança 1: “Porque eu me senti estressado, achei que ia
perder”, Criança 2: “Queria ficar um dia inteiro aqui”, Criança 3: “Eu queria ficar
jogando aqui”, Criança 4: “Queria morrer jogando”. Foi com estas falas das crianças
que terminamos nossa primeira aplicação dos jogos. Durante os jogos as crianças
expressam inúmeros sentimentos, assim como afirmam Dolto e Galvão (1999, p. 115116)
Ser, ter, fazer, pegar, dar, amar, odiar, viver, morrer, todos esses verbos só
adquirem sentido por meio dos jogos. O entendimento deles chega à criança
por intermédio das experiências lúdicas de fracasso ou de domínio, por si
mesma, das coisas e dos seres vivos.
Durante a aplicação com a turma do segundo ano, percebia-se o entusiasmo e
alegria em interagir e explorar os jogos. Na avaliação com os desenhos foi solicitado
pelas Pibidianas que os alunos identificassem. Chamou atenção um fato que ocorreu
com dois alunos que têm dificuldade de aprendizagem, um deles com laudo de
deficiência mental leve, mas que no momento da identificação dos desenhos
autonomamente escreveu seu nome e o do colega que ainda não sabe escrever.
Durante a avaliação sobre os jogos na turma do terceiro ano, notamos que o grupo
teve mais facilidade de concentração para as explicações das bolsistas sobre o que
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deveria ser feito. Porém, tinham certa resistência em falar “o que sentiram?” “como foi
à manhã?” “o que gostaram dos jogos e o que mudariam?”.
Com a turma do quarto ano, foi perceptível a atenção e concentração para
conseguir vencer e desafiar os colegas, sendo visível também à amizade que mantinham
entre si. A avaliação da exploração dos jogos desta manhã ocorreu através de escritas e
desenhos, e após estes foram levadas para leitura e breve análise das bolsistas, devido à
“riqueza e a consistência de escritas” dos alunos.
Por fim, podemos concluir que diante das turmas com as quais interagimos a
turma do quinto ano demonstrou mais agitação e empolgação movimentando-se mais
entre os jogos, explorando e interagindo com eles.
Considerações finais
Podemos ressaltar que esta proposta de oportunizar momentos de exploração e
interação com os jogos em sala de aula, proporcionou aos alunos o conhecimento de
jogos que ainda não tiveram o contato até o momento; e os que já haviam vivenciado
em outras oportunidades relataram que foi em momentos de lazer com “pessoas mais
experientes”. Além de envolver e integrar a turma, procuramos criar novas
possibilidades e estratégias de jogo, desenvolvendo a atenção e a concentração.
Conforme Tânia Fortuna (2012)
Sabe-se, também, que, do ponto de vista psicanalítico, o jogo, como atividade
psíquica, assemelha-se ao sonho, pois dá vazão às tensões nascidas da
impossibilidade de realização do desejo, tornando-se um canal para satisfação
desses desejos. Diferentemente do sonho, o jogo transita livremente entre o
mundo interno e o mundo real, o que lhe garante a evasão temporária da
realidade e confirma a característica antes citada de ser uma atividade que
ocorre em espaço e tempo determinados. (p. 18, 2012)
Enfim, destacamos também algumas reflexões compartilhadas pelos professores,
os quais relataram que passaram a se utilizar desses jogos em outros momentos, já que a
turma conhecia as regras, havendo mais facilidade durante a exploração dos mesmos.
Deixando explícito o interesse em realizar novas manhãs de oficinas com os jogos
envolvendo as bolsistas.
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Referências
DOLTO, Francoise; GALVAO, Maria Ermantina – trad; BERLINER, Claudia. As
etapas decisivas da infância. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
TONUCCI, Francesco. As crianças e a cidade. Revista Pátio Educação Infantil, Porto
Alegre,
ano
12,
p.
4-7,
jul./set.
2014.
Disponível
em:
<http://www.grupoa.com.br/revista-patio/Default.aspx>. Acesso em: 20 ago. 2014.
HOFFMAN, Jussara. Pontos e contrapontos: do pensar ao agir em avaliação. 3. Ed.
Porto Alegre: Mediacao, 1999.
FORTUNA, Tânia R. A importância do brincar na infância. In: Horn, Cláudia Inês
[et. al.]. Pedagogia do brincar – Porto Alegre: Mediação, 2012, p. 16 – 44.
Anexos:
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Notas
i
Acadêmica do Curso de Pedagogia do Centro Universitário UNIVATES e integrante
do PIBID subprojeto Pedagogia desta mesma instituição e Monitora do Turno Integral
da Rede Particular de Ensino. Contato: gabi_arenhaldt@hotmail.com
ii
Pedagoga, mestre em educação e doutoranda em Educação pela Universidade Federal
do Rio Grande do Sul/UFRGS. Professora do Centro Universitário UNIVATES,
Lajeado/RS e Coordenadora do PIBID subprojeto Pedagogia desta mesma instituição e
professora da Rede Municipal de Educação de Porto Alegre/RS. Contato:
danisevivian@yahoo.com,.br
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iii
Acadêmica do Curso de Pedagogia do Centro Universitário UNIVATES e integrante
do PIBID subprojeto Pedagogia desta mesma instituição e Monitora do Turno Integral
da Rede Particular de Ensino. Contato: jcmuller@universo.univates.br
iv
Pedagoga com Habilitação em Orientação Educacional pela Universidade Luterana do
Brasil/ULBRA. Supervisora do PIBID subprojeto Pedagogia do Centro Universitário
UNIVATES e Professora da Rede Pública Estadual de Lajeado/RS. Contato:
jilgohl@gmail.com
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