Daniel Rotelok
Síntese de novos materiais baseado em ftalocianinas
para captura de CO2
Mestrado em Química
Departamento de Química
FCTUC
XX/XX/XXX
Daniel Rotelok
Síntese de novos materiais baseados em
ftalocianinas para captura de CO2
Dissertação apresentada para provas de Mestrado em Química, Área de
especialização em Controle de Qualidade e Ambiente
Orientador: Professor Doutor Abílio José Fraga do Nascimento Sobral
Setembro 2013
Universidade de Coimbra
ii
Agradecimentos
Gostaria de aqui agradecer a todos as pessoas que directa ou indirectamente me ajudaram
a passar por mais uma etapa importante da minha vida. Ao Prof. Doutor Abílio José Fraga do
Nascimento Sobral à Doutora Cláudia Corker Arranja e à Mestre Joana de Almeida e Silva que
me ajudaram a realizar esse projecto mesmo em tempo de férias.
Desejo de igual forma agradecer à FCT o apoio financeiro através do projecto QRENCOMPETE-PTDC/AAC-CLI/098308/2008 E PTDC/AAC-CLI/118092/2010.
Agradeço também ao Prof. Dr. Jõao Gil e ao Mestre Valdecir Domingos o acesso e apoio
no uso do sistema Sievert para análise do CO2 adsorvido
Não poderia deixar de mencionar aqui meus amigos Joana e Rodrigo que me deram a
oportunidade de me manter em Portugal enquanto perseguia meus objectivos.
Aos meus pais pela educação e mentalidade que me ajudaram e me ajudam a manter-me
sempre sem sair de meu caminho.
A Drielly, que mesmo longe está perto.
iii
Índice
Resumo ............................................................................................................................. 6
Abstract ............................................................................................................................. 7
Abreviaturas...................................................................................................................... 8
Índice de Figuras .............................................................................................................. 9
Índice de Tabelas ............................................................................................................ 12
Nomenclatura.................................................................................................................. 13
1.Introdução .................................................................................................................. 15
1.1 O Dióxido de Carbono e qualidade do ar ............................................................ 15
1.2 Características físico-químicas do CO2 ............................................................... 17
1.3 O CO2 como matéria-prima de maior valor agregado ......................................... 18
1.4 Materiais porosos para adsorção de CO2 ............................................................. 19
1.5 Uma breve introdução as ftalocianinas ................................................................ 21
1.6 Simetria Molecular ............................................................................................. 22
1.7 Características gerais e espectros de caracterização ............................................ 25
1.8 Síntese de ftalocianinas ....................................................................................... 28
1.9 Percursores das ftalocianinas ............................................................................... 29
1.10 Ftalonitrilos como precursores .......................................................................... 31
1.11 Mecanismo de reacção ..................................................................................... 32
2.Objectivos ................................................................................................................... 35
3.Secção experimental .................................................................................................. 37
3.1 Materiais e reagentes. .......................................................................................... 37
3.2 Síntese de ftalocianinas ....................................................................................... 37
3.2.1 Síntese de ftalocianina de cobre (II) ............................................................... 37
3.2.2 Síntese de ftalocianina de zinco (II) .............................................................. 37
3.2.3 Síntese de ftalocianina de magnésio (II) ........................................................ 38
3.2.4 Síntese de ftalocianina sem metal (livre) ....................................................... 38
3.2.5 Síntese de ftalocianina sulfonada sem metal (livre) ....................................... 38
4.Resultados e Discussão .............................................................................................. 40
4.1Síntese de materiais .............................................................................................. 40
4.1.1Síntese de Ftalocianina de Cobre (II) .............................................................. 40
4.1.2Síntese de Ftalocianina de Zinco (II) ............................................................... 42
4.1.3 Síntese de Ftalocianina de Magnésio (II) ....................................................... 44
4.1.4 Síntese de Ftalocianina sem metal (livre) ....................................................... 45
4
4.1.5 Síntese de ftalocianina livre sulfonada .......................................................... 47
4.2 Criação de materiais híbridos. ............................................................................. 48
4.2.1 Ftalocianina de zinco (II) em sílica gel ......................................................... 48
4.2.2 Ftalocianina de magnésio (II) em sílica gel ................................................... 50
4.2.3 Filmes de ftalocianinas a base de colódio ..................................................... 52
4.3 Estudos de adsorção de CO2 ................................................................................ 52
4.3.1 Adsorção à pressão atmosférica. .................................................................... 52
4.3.2 Estudos de adsorção a pressão até 5 bar ........................................................ 56
5. Conclusão .................................................................................................................. 61
6. Perspectivas Futuras ................................................................................................ 62
Referências ................................................................................................................... 63
5
Resumo
Desde o fim da revolução industrial do século XIX a concentração de CO2
atmosférico tem aumentado de maneira exponencial. É certo que essa concentração
nunca foi constante ao longo das eras porém, as actividades antropogênicas,
nomeadamente a queima de combustíveis fósseis, vêm modificando essa concentração a
uma velocidade muito maior que as mudanças de concentração que ocorreram
naturalmente. Portanto para não abrandar o desenvolvimento e tampouco afectar o ritmo
natural do planeta de maneira irreparável, várias linhas de investigação vêm sendo
desenvolvidas para, ou diminuir a concentração de CO2 atmosférico ou ao menos
diminuir sua emissão a partir de suas principais fontes produtoras.
Tendo em face esses problemas, este trabalho tem como objectivo a criação de
materiais baseado em ftalocianinas que possam, de maneira menos dispendiosa que a
actual, recolher de maneira eficiente o excesso de CO2 produzido nas linhas de
produção industrial para diminuir sua concentração na atmosfera. Tendo em vista a
escassez de conteúdo sobre o tema, um estudo sobre adsorção de CO2 com materiais
baseados em ftalocianinas viria acrescentar informações sobre uma classe de compostos
que apresentam uma enorme flexibilidade quanto ás possibilidades de sua utilização em
novos materiais.
A primeira parte desse trabalho se dedica ao estudo de síntese e caracterização
de ftalocianinas, para posterior na criação de materiais híbridos que possam servir de
matriz para a adsorção de CO2, a segunda parte é dedicada ao estudo de adsorção de
CO2 à pressão ambiente (1 Bar) e à pressão de até 5 Bar.
6
Abstract
Since the end of the last industrial revolution, in the 19th century the
concentration of atmospheric CO2 has increased exponentially. This concentration has
never been constant throughout the ages, however because of anthropogenic activities,
especially the burning of fossil fuels, this concentration has been changing at a rate
much higher than what had occurred naturally. Therefore, in order not to slow down the
development, nor affect the natural rhythm of the planet irreparably, several lines of
research have been developed to reduce the concentration of atmospheric CO2 or at least
decreases its emissions from its major production sources.
Having these problems in mind, this work aims to create materials based on
phthalocyanines that would, in a less expensive way than the current, efficiently collect
the excess CO2 produced in industrial production lines to decrease the concentration in
the atmosphere. Given the scarcity of content on the topic, a study on the adsorption of
CO2 with materials based on phthalocyanines would add information about a class of
compounds that exhibits tremendous flexibility and has several possibilities for its use
as new materials.
The first part of this work is devoted to the study of the synthesis and
characterization of phthalocyanines for subsequent incorporation into hybrid materials
that can serve as a template for the adsorption of CO2 and the second part is devoted to
the study of CO2 adsorption at atmospheric (1 Bar) and until 5 bar pressure.
7
Abreviaturas
COF – Covalent-Organic Framework (Estrutura orgânica covalente)
DBU – 1,8-Diazabiciclo [5.4.0] undec-7-eno
DDQ – 2,3-Dicloro-5,6-diciano-1,4-benzoquinona
DMAE – N,N-dimetil-2-aminoetanol
DMF- Dimetilformamida
DMSO – Dimetilsulfóxido
MgPc – Ftalocianina de magnésio (II)
MOF – Metal-Organic Frameworks (Estrutura orgânico-metálica)
Pc – Ftalocianina
THF – Tetraidrofurano
UV – Ultravioleta
VIS – Visível
ZnPc – Ftalocianina de zinco (II)
ZIF – Zeolitic-Imidazolate Framework (Estrutura zeólita de imidazolato zeolítico)
8
Índice de Figuras
Figura 1 - Numeração proposta pela IUPAC para ftalocianinas……………….….…...13
Figura 2 - Ftalocianina octasubstituída……………………………………………....…13
Figura 3 - Concentração de CO2, em ppm, de 1720 a 2000. Dados anteriores a 1957
foram extraídos a partir de bolhas de ar retiradas de geleiras em Law Dome, Antártida.
Dados de 1957 a 1978 foram médias dos dados obtidos a partir das medições feitas no
polo sul. Dados a partir de 1978 são médias obtidas de medições directas de ar………16
Figura 4 - Diagrama do nível de energia do orbital molecular para CO2………...……18
Figura 5 - Principais transformações químicas de interesse industrial do CO2…….….19
Figura 6 - Estruturas espaciais de um MOF, COF e ZIF respectivamente…………..…20
Figura 7 - Grupos imizolato, M-Im-M, e silicato, Si-O-Si, respectivamente……….….20
Figura 8 - Estrutura da Ftalocianina livre e de uma Metaloftalocianina
respectivamente………………………………………………………………………...22
Figura 9 - Definição dos parâmetros geométricos que caracterizam a estrutura
molecular……………………………………………………………………………….22
Figura 10 - Complexos ftalocianínicos de alumínio coordenados de cloro de hidróxido
respectivamente………………………………………………………………………...23
Figura 11 - Estrutura de vários complexos de fórmula geral PcMmXn, assumindo M
com vários estados de oxidação…………………………………………………….….24
Figura 12 - Espectro UV-Vis de ftalocianina livre(Pc) linha pontilhada e uma
Metaloftalocianina(MPc) linha continua…………………………………………….…25
Figura 13 - Transição π-π* responsável pelas bandas B e Q……………………….…..27
Figura 14 - Isómeros formados a partir de percursores Monosubstituídos…………….27
Figura 15 - Ftalocianinas orbtidas a partir de percursores dissubstituidos simétricos…28
Figura 16 - Síntese de ftalocianina a partir de dois dos percursores mais utilizados…..29
Figura 17 - Ftalocianina e seus diversos precursores…………………………………..30
Figura 18 - Mecanismo proposto para a síntese de ftalocianinas………………….…...33
Figura 19 - Intermediários isolados na síntese de ftalocianinas………………….….…33
Figura 20 - Produto final recuperado após síntese (ftalocianina de Cobre (II) )…….…40
9
Figura 21 - Espectro UV-Vis da Ftalocianina de Cobre II em DMSO…………..….….41
Figura 22 - Espectro de absorção da ftalocianina de cobre II em diversos solventes….41
Figura 23 - Espectro dos reagentes no início da reacção (ftalonitrilo, cloreto de cobre e
DMAE) em DMAE…………………………………………………………….……....42
Figura 24 - Produto final recuperado após síntese (ftalocianina de Zinco (II))….....…42
Figura 25 - Espectro UV-Vis da Ftalocianina de Zinco……………………………..…43
Figura 26 - Espectro comparativo da ftalocianina de Zinco e alguns de seus
complexos…………………………………………………………………………........43
Figura 27 - Produto final recuperado após síntese (Ftalocianina de Magnésio (II) ).....44
Figura 28 - Espectro UV-Vis da Ftalocianina de Magnésio……………………..….….44
Figura 29 - Espectro UV-Vis da Ftalocianina de Magnésio em vários solventes..........45
Figura 30 - Produto final recuperado após síntese (ftalocianina sem metal)..................45
Figura 31 - Espectro de uma ftalocianina livre em H2SO4.............................................46
Figura 32 - Produto final recuperado após síntese (Ftalocianina sem metal e
sulfonada)........................................................................................................................47
Figura 33 - Espectro UV-Vis da Ftalocianina livre sulfonada em água e DMF............48
Figura 34 - Amostras de sílica gel incorporada com ZnPc sem o uso de solvente.........49
Figura 35 - Amostras de sílica gel incorporada com ZnPc com o uso de solvente.........50
Figura 36 - Amostras de sílica gel incorporada com MgPc sem o uso de solvente........51
Figura 37 - Amostras de sílica gel incorporada com MgPc com o uso de solvente........51
Figura 38: Filme de ftalocianina de zinco (II) a base de colódio..................................52
Figura 39 - Equipamentos usados para medição de CO2 a baixa pressão composto por
balança, câmara selada e monitorador de fluxo de CO2..................................................53
Figura 40 - Adsorção de CO2 em ftalocianinas à pressão atmosférica............................53
Figura 41 - Amostras híbridas de ftalocianina de zinco (II) preparadas sem adição de
solvente à pressão atmosférica........................................................................................54
Figura 42 - Amostras híbridas de ftalocianina de zinco (II) preparadas com adição de
solvente à pressão atmosférica........................................................................................54
Figura 43 - Amostras híbridas de ftalocianina de magnésio (II) preparadas sem adição
de solvente à pressão atmosférica....................................................................................55
10
Figura 44 - Amostras híbridas de ftalocianina de magnésio (II) preparadas com adição
de solvente à pressão atmosférica....................................................................................55
Figura 45 - Adsorção de CO2 em ftalocianina sulfonada à pressão
atmosférica.......................................................................................................................55
Figura 46: Adsorção de CO2 em filmes a base de colódio e ftalocianina......................56
Figura 47 - Esquema da montagem Sievert#1, utilizada para a medição de pressão na
carga e descarga efectuadas na amostra..........................................................................57
Figura 48 - Adsorção de CO2 em ftalocianina de Cobre (II), até 5 bar..........................58
Figura 49 - Adsorção de CO2 em ftalocianina de Magnésio (II), até 5 bar....................58
Figura 50 - Adsorção de CO2 em ftalocianina não metalizada (livre), até 5
bar....................................................................................................................................59
Figura 51 - Adsorção de CO2 em ftalocianina sulfonada não metalizada (livre) e
ftalocianina não metalizada (livre) até 5 bar...................................................................59
11
Índice de Tabelas
Tabela 1- Valores de parâmetros geométricos definidos para a Fig. 9 para ftalocianina
não substituídas...............................................................................................................23
Tabela 2 - Níveis energéticos teóricos dos orbitais moleculares HOMO e LUMO de
ftalocianinas diiónicas.....................................................................................................26
Tabela 3 - Transições entre orbitais moleculares π→π* ocupados e vazios de
ftalocianinas diiónicas.....................................................................................................26
Tabela 4 - Amostras de sílica incorporada com ftalocianina sem o uso de solvente......49
Tabela 5 - Amostras de sílica incorporada com ftalocianina com o uso de solvente.....49
Tabela 6 - Amostras de sílica incorporada com ftalocianina sem o uso de solvente......50
Tabela 7 - Amostras de sílica incorporada com ftalocianina com o uso de solvente.....51
12
Nomenclatura
Devidas suas propriedades únicas, as ftalocianinas receberam uma nomenclatura
particular definida pela IUPAC em 1979. No caso das ftalocianinas todos os átomos
devem ser numerados com excepção os átomos de carbono que ligam os anéis pirrólicos
e os anéis benzénicos.
Figura 1: Numeração proposta pela IUPAC para ftalocianinas.
Desta maneira podemos saber se temos grupos substituintes na molécula,
quantos grupos são e onde se encontram. Seguindo esse padrão de nomenclatura
podemos nomear a molécula abaixo como 1,4,8,11,15,18,22,25-Octabutoxi-29H,31Hftalocianina:
Figura 2: Ftalocianina octasubstituída.
13
Capítulo 1
14
1.Introdução
1.1 O dióxido de carbono e qualidade do ar
A qualidade do ambiente é resultado de vários processos que agem no sistema
ambiental de maneira dinâmica. Esses factores podem ser conceituados como o estado
em que o meio ambiente se encontra, em uma certa área, e pode ser visto
objectivamente em função da medida da qualidade de alguns dos parâmetros que o
compõem. Dessa forma podemos estabelecer critérios de qualidade ambiental para o
sistema como um todo ou apenas para alguns dos factores que o compõem servindo,
assim, de referência para acções futuras de gestão ambiental
Um dos factores que devemos levar em consideração quando falamos de
qualidade do ambiente é o padrão de qualidade do ar. Um padrão de qualidade do ar
define legalmente um limite máximo para a concentração de uma certa substância e que
garanta que o mesmo não irá influenciar no bem-estar da fauna e flora da região
envolvida. Esses níveis máximos são estabelecidos a partir de estudos científicos e
deverão uma margem de segurança adequada.
No Brasil, os padrões de qualidade do ar foram estabelecidos pela Resolução
CONAMA 03/90 regido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente contemplando os
parâmetros: partículas totais em suspensão, partículas inaláveis, dióxido de enxofre,
monóxido de carbono, ozónio, dióxido de nitrogénio e fumaça. Os padrões
estabelecidos são do tipo primários, que se refere à qualidade do ar quanto às
concentrações de poluentes que, uma vez ultrapassadas, poderão afectar a saúde da
população, e secundários que dizem respeito às concentrações de poluentes
atmosféricos, abaixo das quais se prevê o mínimo efeito adverso sobre o bem-estar da
população, assim como o mínimo dano à fauna e à flora, aos materiais e ao meio
ambiente em geral. É importante salientar aqui uma falta de legislação regulamentadora
quanto à produção de dióxido de carbono mostrando uma grande falha na legislação
brasileira quanto à regulamentação das fontes emissoras de CO21.
Em Portugal existem uma série de medidas regulamentadoras para a poluição
atmosférica e, assim como no Brasil, visam controlar a emissão de dióxido de enxofre,
monóxido de carbono, ozónio e dióxido de nitrogénio. Um grande avanço em relação à
legislação brasileira é através da directiva 2004/107/CE do Parlamento Europeu que
também regula a emissão de arsénio, cádmio, mercúrio, níquel e hidrocarbonetos
aromáticos policíclicos. Como estado participante do protocolo de Quioto, Portugal
ainda conta com o PNAC, Programa Nacional para as Alterações Climáticas, que visa
controlar a emissão de dióxido de carbono, metano, clorofluorcarbonetos,
hidrofluorcarbonetos, perfluorcarbonetos e hexafluoreto de enxofre2.
O problema do aquecimento global é uma questão de interesse público que
interessa a todos, sem excepção. Já é sabido que altos níveis de CO2 na atmosfera
interferem, a longo prazo, na temperatura do globo como um todo. As evidências
disponíveis sugerem que a concentração de CO2 na atmosfera ao longo da vida
geológica da Terra nunca foi constante (figura 3). Estudos feitos com gases presos em
15
bolhas de ar no interior das geleiras indicam uma concentração de CO2 atmosférico de
180 ppm. Outros estudos apontam que a 500 milhões de anos atrás ou mais essa
concentração ultrapassava os 4000 ppm. Essa variação nos níveis de gases atmosféricos
ao longo de milhares de anos deve-se principalmente a actividades químicas, geológicas
e biológicas. A composição da atmosfera mudou muito desde a última era glacial porém
essa mudança foi drástica nos últimos 50 anos principalmente, com o advento da era
industrial, sendo muitas vezes usado para a medição do nível de desenvolvimento, visto
que a quantidade de combustível fóssil usado está intrinsecamente ligado com a
produção de energia e consequentemente com a produção industrial e desenvolvimento
de um país3.
Figura 3: Concentração de CO2, em ppm, de 1720 a 2000. Dados anteriores a 1957 foram extraídos a partir de
bolhas de ar retiradas de geleiras em Law Dome, Antártida. Dados de 1957 a 1978 foram médias dos dados
obtidos a partir das medições feitas no polo sul. Dados a partir de 1978 são médias obtidas de medições directas
3
de ar .
As principais actividades antropogênicas responsáveis pela variação na
concentração de CO2 atmosférico são a queima de combustíveis fosseis e a derrubada da
cobertura verde nativa para o desenvolvimento da agro-pecuária. O aumento da
concentração de CO2 atmosférico provoca um efeito chamado efeito de estufa. A Terra
recebe energia do Sol através de radiação UV, visível, e infravermelho. Grande parte
dessa energia passa sem ser absorvida pela atmosfera e incide directamente na
superfície do planeta. A crosta terrestre aquecida emite radiação infravermelha com
comprimentos de onda muito maiores, radiação essa que por sua vez é absorvida pelos
gases da atmosfera e reemitida em todas as direcções para o planeta sendo reabsorvido
pelo solo e oceanos provocando um maior aquecimento. Esse ciclo de reabsorção de
radiação infravermelha leva ao aumento da temperatura da Terra como um todo. O CO2
não é o único gás com essa capacidade. Já é sabido que o metano é muito mais eficiente
16
na absorção e emissão da radiação termal emitida pelo planeta, porém sua contribuição
para o aquecimento global é pouco, devida à sua baixa concentração quando comparado
com o CO23.
1.2 Características físico-químicas do CO2
O dióxido de carbono é um dos dois óxidos de carbono, é uma molécula de
ocorrência natural, linear e é formada por dois átomos de oxigénio ligados
covalentemente a um átomo de carbono. É um dos principais produtos formados a partir
da combustão de hidrocarbonetos e da respiração celular. Possui a fórmula molecular
CO2 e à temperatura e pressão atmosférica é um gás inodoro e incolor, sendo solúvel em
água, etanol e acetona; é um óxido levemente ácido por isso reage prontamente com
soluções básicas4.
O dióxido de carbono é solúvel em água em uma reacção reversível onde o
principal produto é o ácido carbónico, com fórmula molecular H2CO3 porém ser um
ácido fraco possui uma baixa constante de equilíbrio que implica que a maior parte do
CO2 está em sua forma molecular e portanto não afecta de maneira expressiva o pH.
H2O + CO2
H2CO3 ΔHfº= -393.509 kJmol-1
A concentração de seus intermediários iónicos, HCO3-, e CO3-2 depende do pH
do meio. Sendo o H2CO3 ácido diprótico, possui duas constantes de dissociação3:
H2CO3 + H2O
HCO3-
HCO3-
H+ + CO3-2
Ka1= 4.3x10-7 molL-1
Ka2= 5.6x10-11 molL-1
Em solução neutra ou ligeiramente alcalina, pH maior que 6.5, a forma
predominante encontrada é de bicarbonato (HCO3-) sendo a forma mais
predominantemente encontrada nas águas oceânicas. Em águas muito alcalinas, pH
maior que 10.5, a forma predominante é o carbonato (CO3-2)3.
À temperatura e pressão atmosférica o CO2 possui uma densidade de 1.98 kgm-3
sendo levemente mais denso que o ar. A 1 atm o gás solidifica directamente a
temperaturas menores que 194.7 K. Nesse estado o dióxido de carbono é comummente
chamado de gelo seco. Dióxido de carbono líquido só é formado a pressões superiores a
5.1 atm3.
Plantas, algas e cianobactérias usam energia solar para produção de carboidratos
a partir de dióxido de carbono e água, com oxigénio como um dos subprodutos da
reacção. Durante a noite CO2 é produzido pelas plantas como parte do seu ciclo de
respiração, assim como na queima de combustíveis derivados do carvão e
hidrocarbonetos, na fermentação de açúcares e na respiração de quase todos os
organismos vivos. É emitido por vulcões, fontes termais, ou qualquer outro lugar onde a
crosta terrestre é suficientemente fina, sendo também liberto das rochas calcárias através
de dissolução. É um dos principais produtos formados de uma combustão completa
juntamente com a água. Abaixo temos um exemplo de combustão do metano4,5.
17
CH4 + 2O2 → CO2 + 2H2O ΔHcº= -890.3 kJmol-1
Apesar de ser uma molécula apolar, o carbono central possui um dipolo positivo
devido à elevada electronegatividade dos átomos de oxigénio, que atraem a nuvem
electrónica em sua direcção. Tem carácter diamagnético devido ao emparelhamento dos
seus electrões segundo a Teoria das Orbitais Moleculares (TOM).
Figura 4: Diagrama do nível de energia do orbital molecular para CO2.
Esta teoria considera a molécula como formada de um conjunto de núcleos
positivos orbitais que se estendem por toda a molécula. Os electrões que ocupam estes
orbitais moleculares não pertencem a qualquer dos átomos individuais, mas à molécula
como um todo (figura 4).
1.3 O CO2 como matéria-prima de maior valor
Devido ao relativo problema que a alta concentração de CO2 pode causar, uma
série de alternativas vêm sendo estudadas seja para a diminuição da emissão, com o
estudo de novas fontes de energia, ou seja a diminuição de sua concentração na
atmosfera, através do sequestro usando as mais diversas técnicas. Um dos grandes
problemas para o sequestro de CO2 é que a matriz na qual ele se encontra é muito
complexa, formada por diversos gases assim como grande quantidade de vapor de água.
Portanto a selectividade é um factor importante quando se pensa em sua captura, sendo
18
que esse é um ponto-chave no desenvolvimento de métodos para redução de CO2
atmosférico6.
Porém, uma vez separado do restante dos gases atmosféricos, o CO2 pode ser
usado nas mais diversas áreas. Desde sua conversão em produtos de maior valor
agregado como o ácido fórmico ou isopropanol, assim como em hidrocarbonetos como
metano ou etileno. Logicamente a tecnologia por detrás dessas técnicas de produção
ainda encontram inúmeros obstáculos a serem transpostos, não obstante diversas linhas
de investigação nessa área estão sendo desenvolvidas de forma a aproveitar uma fonte
abundante de carbono que existe na atmosfera6,7.
Figura 5: Principais transformações químicas de interesse industrial do CO2.
1.4 Materiais porosos para adsorção de CO2
Na linha de frente entre os materiais mais estudados para a adsorção de gases se
encontram os MOFs (estrutura orgânica metálica, MOFs do inglês Metal Organic
Frameworks), COFs (estrutura orgânica covalente, COFs do inglês Covalent Organic
Frameworks) e ZIF´s (estrutura zeólita de imidazolato, ZIFs do inglês Zeolitic
imidazolate Frameworks) que são abreviações usadas para classificar esses três
materiais preparados a partir de uma rede orgânica polimérica intercalada por átomos
metálicos. A pesquisa destes materiais teve início quando começaram as investigações
sobre polímeros coordenados, que durante seu desenvolvimento começaram a produzir
materiais que continham grupos inorgânicos ligados a grupos orgânicos, produzindo
estruturas que possuíam uma certa periodicidade. Ao contrário dos polímeros de
coordenação, possuem uma estrutura neutra e ligações fortes entre sua rede cristalina,
sendo dessa forma possível a retirada do solvente de seu interior e consequentemente a
criação de um material com porosidade permanente. Essa classe de compostos apresenta
alta porosidade e boa estabilidade térmica e química sendo amplamente estudado quanto
à sua utilização para separação e armazenamento de gases como H2, CO2 e CH48,9,10.
19
11
Figura 6: Estruturas espaciais de um MOF, COF e ZIF respectivamente .
A principal diferença entre os materiais em questão é quanto à sua rede
cristalina. Enquanto os MOF´s possuem um metal como parte de formação de sua
estrutura, os COF´s se valem apenas de ligações covalentes para a sua formação usando
um não-metal, normalmente boro, como link de sua rede cristalina. Os ZIF´s foram
elaborados de maneira muito inteligente. O grupo imidazol é uma base orgânica muito
comum e os imizolatos de cobre, zinco e cobalto são conhecidos há muitos anos, porém
são não porosos e de alta densidade. Esse grupamento metálico possui uma
característica interessante que é o mesmo ângulo de ligação que os silicatos, ambos em
torno de 145º29 (figura 7).
11
Figura 7: Grupos imizolato, M-Im-M, e silicato, Si-O-Si, respectivamente .
Com as condições certas os imidazolatos podem imitar a formação de zeólitos
dos silicatos fornecendo estruturas de alta porosidade e extensa rede cristalina11.
Outra classe de materiais que estão sendo investigados quanto ao seu potencial
de adsorção é a sílica gel que é muito utilizada como matriz precursora para síntese de
novos materiais através de reacções simples, baseadas no ancoramento de agentes aos
grupos silanóis. Possui alta resistência térmica e mantém sua estrutura cristalina mesmo
quando submetida a altas pressões, assim como grande estabilidade química. Sua alta
afinidade com a água se deve ao facto dessa ser adsorvida pelos grupos silanóis através
de pontes de hidrogénio. Quando o sólido é submetido a uma temperatura superior a
150ºC os silanóis começam a se condensar formando os grupos siloxanos, reduzindo a
actividade da superfície. Inúmeros estudos de investigação estão sendo feitos para
verificar o grau de adsorção de CO2 em sílica gel principalmente devido ao seu reduzido
custo e grande abundância. Porém grande parte dos estudos reportam o uso de sílica gel
apenas como um suporte para a impregnação com outros materiais12.
20
A sílica gel é a forma vítrea e granular de dióxido de silício preparado
sinteticamente a partir de silicato de sódio. Na maioria dos silicatos o átomo de Si
possui uma coordenação tetraédrica e sua forma mais comum é vista nos cristais de
quartzo onde cada átomo de silício está rodeado tetraedricamente por 4 átomos de
oxigénio sendo que esses estão ligados a outros átomos da rede cristalina nos dando a
formula molecular SiO2. Possui um número distinto de formas cristalinas assim como
sua forma amorfa. É usado como suporte inorgânico e contém dispersa em sua
superfície diversos grupos silanóis (Si-OH) sensíveis a diversas reacções. Esses grupos
agem como um ácido de Bronsted-Lowry e desempenha um papel importante na
reactividade superficial da sílica. Porém esses grupos não apresentam uma distribuição
regular tornando assim sua densidade electrónica irregular12
1.5 Uma breve introdução às ftalocianinas
A ftalocianina foi acidentalmente descoberta no início do século passado
quando uma solução de 2-cianobenzamida foi aquecida, fornecendo um composto
escuro e insolúvel ao qual foi dada pouca atenção. Em 1928 uma empresa escocesa
chamada Scottish Dye Works preparava rotineiramente ftalimida a partir de uma
mistura de anidrido ftálico e perceberam que seu produto era constantemente
contaminado por uma substância de cor azul-escuro altamente insolúvel e termicamente
estável. Um ano antes um cientista alemão chamado de Diesbach obteve um composto
semelhante ao aquecer ftalonitrilo com um sal de cobre. Coube ao químico inglês Sir
Patrick Linstead, em 1932, mostrar que tanto o pigmento obtido pela Scottish Dye
Works quanto o obtido por de Diesbach eram na verdade complexos de ftalocianinas de
ferro e cobre respectivamente. Foi seu trabalho que nos anos subsequentes que
possibilitou a produção a nível industrial desse composto uma vez que foram eles que
desenvolveram métodos básicos para sua síntese13.
As ftalocianinas (figura 8) são uma classe de compostos de origem sintética em
que o núcleo base é constituído por quatro unidades de isoindol ligadas através de
pontes de azoto. Esta é uma das únicas maneiras que as moléculas de isoindol podem
ligar-se em um sistema altamente conjugado apresentando propriedades electrónicas
únicas assim como sua cor característica. Possuem características interessantes como
uma grande estabilidade química e térmica, assim como uma grande eficiência na
transferência electrónica. Sua principal utilização, até há poucos anos atrás, era
unicamente na indústria de tintas e pigmentos. No entanto, devido a essas
características, inúmeros estudos vêm sendo desenvolvidos no uso desses compostos
para a criação de novos materiais com as mais diversas utilidades, desde sensores
químicos à criação de equipamentos para emissão de luz e em fotosensibilizadores para
a terapia fotodinâmica usados no tratamento do cancro14.
Portanto, devido a essas propriedades particulares, as ftalocianinas despertaram
interesse em outras áreas como também no campo da electrónica no fabrico de
semicondutores, polímeros, sistemas de armazenamento e cristais líquidos. Da mesma
forma as metaloftalocianinas, que são obtidas a partir da substituição dos protões do
21
interior do macrociclo por um metal, vêm sendo utilizadas como catalisadores pois
apresentam actividade enzimática em muitas reacções15.
Figura 8: Estrutura da Ftalocianina livre e de uma metaloftalocianina respectivamente.
De facto, uma das características mais interessantes das ftalocianinas é a
possibilidade de substituição dos protões do interior do macrociclo por mais de mais de
70 tipos de elementos diferentes dando origem às mais diferentes metaloftalocianinas16.
As ftalocianinas livres de metais no interior de sua cavidade possuem de maneira
geral uma simetria planar. Dependendo do estado de oxidação do metal introduzido no
interior do macrociclo a variação no raio atómico pode causar deformações na
planariade da molécula devido aos diferentes comprimentos de ligação entre o
nitrogénio e o metal. Esse comprimento pode variar, de acordo com o estado de
oxidação do metal, entre 50 e 150 pm16.
1.6 Simetria Molecular
A geometria das ftalocianinas não substituídas já é conhecia com uma grande
detalhes e foi descrita por diversos autores baseados em análises cristalográficas. A
figura abaixo (figura 9) apresenta os parâmetros geométricos para uma ftalocianina não
substituída e os valores relativos apresentam-se na tabela a seguir (tabela 1):
16
Figura 9: Definição dos parâmetros geométricos que caracterizam a estrutura molecular .
22
16
Tabela 1:Valores de parâmetros geométricos definidos para a Fig 9 para ftalocianina não substituídas .
Parâmetro
a
b
c
d
e
f
α
β
γ
δ
ε
ϕ
Comprimento ( pm)
140
150
140
1135
365-450
260-285
-
Ângulo ( graus)
120
105
110
120-130
115-125
100-110
A alta simetria da ftalocianina não substituída permite que possamos descrever a
geometria do anel ftalocianínico completamente com apenas um pequeno número de
parâmetros geométricos. Alguns parâmetros se encontram em um intervalo, pois
dependem do tamanho do elemento de coordenação central. A grande variedade de
valência e tamanho que o átomo central pode assumir nos dá a possibilidade de uma
vasta gama de diferentes simetrias para as metaloftalocianinas. O valor padrão de
oxidação do anel central é de -2. Isso implica a coordenação de um átomo bivalente ou
um agregado MXn quando M possui um estado de oxidação diferente de +2 que é o caso
do complexo de ftalocianina de alumínio onde o átomo central pode estar também
coordenado a um átomo de cloro (figura 10). O elemento coordenado ao átomo central
pode variar dependendo dos reagentes de partida que deram origem à ftalocianina16.
Figura 10: Complexos ftalocianínicos de alumínio coordenados de cloro de hidróxido respectivamente.
Para complexos com o átomo central monovalente o anel pode comportar até
dois elementos, como é o caso das ftalocianinas de hidrogénio (ftalocianina livre) ou
lítio [estrutura (a) da figura 11 onde M= H2, Li2], assim como se coordenar em lados
opostos do plano do anel central, como o caso da ftalocianina de tálio [estrutura (g) da
figura 11]. Átomos centrais divalentes podem formar estruturas do tipo (a) ou (b) da
figura 11 dependendo do tamanho do M+2. Átomos centrais trivalente normalmente
coordenam com o anel ftalocianínico formando uma geometria piramidal, [estrutura (c)
da figura 11], quando um ligante monovalente, X, está ligado a M+3. Na ausência de
23
ligantes X, estruturas do tipo sandwich, [estrutura (h) da figura 11] são observadas
quando o metal central M+3 é suficiente grande. Com o aumento do estado de oxidação
para +4 o número de possíveis estruturas para ftalocianinas do tipo PcMmXn aumentam.
Átomos tetravalentes podem coordenar ao anel central formando estruturas do tipo (c),
(d), (e), (f), ou (i) da figura 11, dependendo da presença ou não de um ligante X.
Compostos com a fórmula PcM+4X onde o X é um ligante divalente possuem a estrutura
piramidal (c) da figura 11. Ftalocianinas dissubstituidas do tipo PcM+4X2 podem ter o
elemento X ligado ao metal central tanto nas posições cis quanto trans consoante ao
plano do macrociclo, tal como se obserna nas estruturas (d) e (f) da figura 11
respectivamente. Na ausência de um ligante X a ftalocianina do tipo, PcM+4 pode
formar estruturas do tipo sandwich, como a estrutura (e) da figura 11, dando assim um
complexo bis-metaloftalocianato com uma formula Pc2M, ou na fórmula (PcM)2
representada na estrutura (i) da figura 11. Átomos pentavalentes como molibdénio,
tântalo, tungsténio e rénio formam complexos com a formula PcM+5X ou PcM+5X3 onde
o ligante X é trivalente ou monovalente respectivamente. A geometria das espécies
PcM+5X é piramidal, representada na estrutura (c) da figura 11. As espécies PcM+5X3
possuem uma estrutura bipiramidal [estrutura (l) da figura 11] onde o M+5é o vértice
comum de duas pirâmides onde as bordas se tocam e suas bases são constituídas pelo
macrociclo da ftalocianina e o plano formado pelos três ligantes monovalentes X16.
Figura 11: Estrutura de vários complexos de fórmula geral PcMmXn, assumindo M com vários estados de
16
oxidação .
24
1.7 Características gerais e espectroscopia de absorção
A aromaticidade das ftalocianinas é a principal responsável pela estabilidade
química das ftalocianinas. Entretanto, como são compostos aromáticos podem sofrer
quaisquer das reacções de substituição aromática electrofílica ou nucleofílica que um
composto aromático poderia sofrer. No entanto quando se procede à substituição
aromática no macrociclo na maioria das vezes terminamos com uma mistura de
compostos com diversos graus de substituição que são de difícil separação tornando
assim qualquer funcionalização posterior de difícil caracterização16,17.
A ftalocianina é constituída por uma macrociclo planar composto por 18
electrões π conjugados, que lhe conferem a aromaticidade pois obedecem à regra de
Huckel assim como em outros grupos tetrapirrólicos que possuem alto grau de
planaridade16,17.
As ftalocianinas possuem uma grande absorção no UV-próximo e visível do
espectro electromagnético sendo que, a região do visível é a de maior absorção (figura
12). Consequentemente, os métodos mais usados na caracterização de compostos
orgânicos, nomeadamente o infravermelho e a espectroscopia UV-VIS , são apropriados
para todas as ftalocianinas. A primeira banda de absorção, que ocorre entre 300 e 400
nm , chamada de banda B, é de grande importância pois é influenciada tanto pelos
substituintes quanto pelo metal ligado ao seu interior. Por outro lado , a análise
cristalográfica de difracção de raios-X também teve grande importância histórica
principalmente por ter ajudado a elucidar as estruturas das primeiras ftalocianinas16,17
Figura 12: Espectro UV-Vis de ftalocianina livre(Pc) linha pontilhada e de uma metaloftalocianina(MPc) linha
contínua.
Os anéis das ftalocianinas livres não substituídas são constituídos por 32 átomos
de carbono e 8 átomos de nitrogénio. Possuem 40 electrões π distribuídos em uma área
de 55 x 10-20 m2. A estrutura electrónica do sistema foi calculada considerando apenas
os orbitais 2p dos nitrogénios e os orbitais 2p e 2s dos átomos de carbono que
contribuem para a formação dos orbitais moleculares24-25. Contribuições posteriores
para um melhor entendimento da estrutura electrónica das ftalocianinas foram
desenvolvidas através de diversas linhas de investigação usando-se os modelos de
Huckel, de Huckel estendida, Pariser-Parr-Pople e CNDO. Todos eles basicamente
focam a atenção na determinação das energias do orbital molecular ocupado de mais
alta energia (HOMO) e no desocupado de menor energia (LUMO). O resultado desses
25
modelos computacionais pode ser condensado e apresenta-se na tabela 2, onde se
mostra a energia relativa dos orbitais moleculares HOMO e LUMO para ftalocianinas
diiónicas juntamente com a simetria de seus orbitais moleculares16,17.
16
Tabela 2:Niveis energéticos teóricos dos orbitais moleculares HOMO e LUMO de ftalocianinas diiónicas .
Simetria
Energia Relativa
(Ev)
b2u(π)
eg(π)
a2u(π)
a1u(π)
eg(π*)
b1u(π*)
b2u(π*)
a2u(π*)
eg(π*)
-4.7
-4.5
-3.4
-1.4
+2.2
+3.3
+3.5
+3.6
+3.6
Todos os orbitais moleculares mostrados na tabela 2 possuem uma simetria π-π e
não incluem o par isolado de maior energia dos átomos de nitrogénio. As transições
electrónicas descritas na tabela 3 originam uma série de transições electrónicas
características entre orbitais ligantes ocupados e antiligantes vazios. Essas transições
são as formadoras de quatro tipos de absorção que são características de ftalocianinas
denominadas de bandas Q, B (conhecidas como bandas Soret em porfirinas) , N e L
(figura 13). Todas as transições electrónicas responsáveis pela geração dessas bandas de
absorção são geradas em sua maioria no interior do macrociclo ftalocianínico16,17.
Tabela 3: Transições entre orbitais moleculares π→π* ocupados e vazios de ftalocianinas diiónicas16,17.
Transição π→π*
Energia de
transição (Ev)
Denominação
a1u(π)→ eg(π*)
a2u(π)→eg(π)
b2u(π)→ eg(π*)
a2u(π)/ b2u(π)→ eg(π*)
3.6
5.6
6.9
10.5
Banda Q
Banda B
Banda N
Banda L
Temos como exemplo a banda Q que é originada por transferências eletrónicas
entre os grupos pirrólicos e os aneis benzénicos. As variacões de densidade eletrónica
devido às transições da banda Q não induzem a uma carga pontual, mas ao invés disso
se espalham por toda a molécula. Por outro lado a banda B produz uma redistribuição
de densidade eletrónica que provoca uma aumento na densidade eletrónica ao redor dos
atomos de nitrogénio que ligam os grupos pirrólicos. A natureza da banda N está
relacionada com as variações de densidade eletrónica nos átomos de nitrogénio dos
gupos pirrólicos que fazem parte do interior do macrociclo. Esses átomos são
responsáveis pela coordenação do átomo central que forma o complexo ftalocianínico.
26
Figura 13: Transição π-π* responsável pelas bandas B e Q.
Uma grande limitação ao uso das ftalocianinas se deve ao fato de sua baixa
solubilidade na maior parte dos solventes orgânicos. Isso se deve à alta planaridade da
molécula que lhe confere uma tendência natural em sofrer empilhamento. Esse
fenómeno também é conhecido por stacking. A maior parte dos metais não causa uma
grande distorção no macrociclo porém para certos elementos, como o Pb+2, a cavidade
da molécula de ftalocianina não é suficientemente grande para acomodar o ion, que
deve permanecer acima do plano do macrociclo. A introdução de metais que perturbem
a planaridade da estrutura do ciclo aumenta a solubilidade em solventes orgânicos
polares pois diminui as forças intermoleculares entre as ftalocianinas18.
Uma outra maneira muito usada de amenizar o problema da solubilidade é a
adição de grupos substituintes à molécula. Essa adição é feita principalmente no
reagente precursor usado na síntese. Contudo, isso pode levar à criação de vários
isómeros (figura 14).
Figura 14: Isómeros formados a partir de percursores monosubstituídos.
As ftalocianinas mais estudadas são as tetra e octasubstituídas. Seria de se
esperar que uma aumento no grau de substituição aumentaria a solubilidade porém não
é o que se observa na realidade. É sabido que ftalocianinas tetrasubstituídas são mais
27
solúveis que as octasubstituídas(figura 15). Isso se deve ao facto de que na formação de
ftalocianinas tetrasubstituídas é constituída uma mistura de isómeros que diminui o grau
de ordem tanto em solução quanto nos cristais formados, aumentando sua solubilidade
quanto comparado com as ftalocianinas octasubstituidas18.
Figura 15: Ftalocianinas obtidas a partir de precursores dissubstituídos simétricos.
A insolubilidade das ftalocianinas simples, isto é sem a existência de grupos
substituintes em seu macrociclo, é notória. É sabido que ftalocianinas quando muito
simétricas, e sendo assim muito insolúvel, podem ser solubilizadas com o uso de ácidos
minerais fortes como o ácido sulfúrico ou nítrico concentrado. O problema com o uso
de ácidos fortes é a criação de espécies protonadas de ftalocianinas que dependendo da
concentração á que se encontra o ácido podem ser mono, di, tri, ou tetra protonadas. A
protonação das ftalocianinas livres se dá nos átomos de nitrogénio das pontes aza que
fazem a ligação entre os grupos pirrólicos do macrociclo sendo que esses átomos agem
como o sítio básico da molécula, enquanto os átomos de hidrogénio no interior do
macrociclo são levemente ácidos dando assim um carácter anfótero à molécula. A
protonação da ftalocianina conduz a um deslocamento batocrômico das bandas Q que
nada mais é que um desvio da banda de absorção para um comprimento de onda
maior18,19.
1.8 Síntese de ftalocianinas
Existe um grande número de métodos disponíveis para a síntese de
ftalocianinas. Um dos materiais comummente utilizados como reagente é o ftalonitrilo.
Um método bastante comum usando o ftalonitrilo como precursor é sua condensação
com pentanoato de lítio e pentanol em refluxo, fornecendo dilitioftalocianina (figura
16), que pode ser convertida na sua forma livre após um tratamento ácido. Uma outra
maneira seria o tratamento do ftalonitrilo em solução de metóxido de sódio em metanol
à temperatura ambiente para sua conversão em 1,3-diiminoisoindolina. Esse produto
pode ser convertido em uma ftalocianina através de um aquecimento em refluxo com
N,N-dimetil-2-aminoetanol (DMAE)17.
28
Figura 16: Síntese de ftalocianina a partir de dois dos precursores mais utilizados.
Sua síntese pode ser levada com a fusão de ftalonitrilo com sódio ou magnésio
metálico a temperaturas superiores a 150Cº que resulta na ftalocianina metalizada, que
então pode ser tratada com ácido para a retirada do metal de seu macrociclo. Nem todos
os metais podem ser retirados do interior do macrociclo por tratamento ácido sendo que
apenas os íons Na+, Li+, K+, Mg+2, Be+2, Ag+ Cd+2, Hg+2 e Pb+2 possuem esse
comportamento. Uma outra maneira de síntese de ftalocianina livre com a utilização de
um único passo simples é o aquecimento do ftalonitrilo com uma base, como o NH3 ou
1,8-diazabiciclo [5.4.0] undec-7-eno (DBU), e um solvente , como o n-pentanol,
podendo também ser usado um solvente básico como o DMAE, retirando assim a
necessidade da adição de base ao solvente. A ftalocianina metalizada pode ser
prontamente sintetizada, usando um metal apropriado como template, juntamente com
os precursores ftalonitrilo ou 1,3-diiminoisoindolina na presença de um solvente
orgânico de alto ponto de ebulição20.
1.9 Precursores das ftalocianinas
As ftalocianinas na maioria das vezes são formadas por precursores via
ciclotetramerização usando o metal como template sendo que a adição de substituintes,
de maneira a melhorar algumas de suas propriedades, é muito mais fácil de ser
controlada usando os devidos reagentes substituídos do que a sua adição posterior ao
macrociclo. As ftalocianinas livres, ou seja sem um metal ligado no interior de seu
macrociclo, são normalmente preparadas via a desmetalização de uma ftalocianina
complexada com um metal alcalino ou um metal alcalino terroso. Estes por sua vez são
formados através de reacções com o ftalonitrilo e um sal metálico ou outros reagentes
formadores do macrociclo20.
O mecanismo de formação, apesar de não estar completamente elucidado, vem
sendo extensamente examinado e provavelmente envolve uma polimerização dos
29
reagentes precursores, seguida de coordenação do metal central e fecho do anel no
macrociclo. O fecho do anel acontece não só pelo efeito template do metal, e a inerente
estabilização que essa coordenação implica, mas também pela estabilização
termodinâmica e a introdução da aromaticidade que envolve a formação do
macrociclo17,20.
As ftalocianinas podem ser preparadas através dos derivados de ácidos ortodicarboxílicos e nesses podemos incluir os ftalonitrilos, anidridos ftalicos, ftalamidas,
diiminoisoindolinas e o-cianobenzamidas (figura 17).
Figura 17: Ftalocianina e seus diversos precursores.
A substituição na posição orto é um pré-requisito. O ácido carboxílico, por
exemplo, pode não ser separado do sistema aromático por um átomo saturado ou pela
extensão da insaturação. Deve também haver uma ligação dupla entre os átomos
formadores dos grupos funcionais, ou deve haver a possibilidade de formação dessa
dupla ligação durante a reacção de condensação. Portanto compostos como o ácido
isoftálico, 1,2-bis(cianometil)benzeno, carboxifenilacetonitrila e 1,2-dicianociclohexano
não conseguem completar a reacção de condensação. Uma outra maneira de se proceder
a essa síntese seria com compostos como o 1-ciclohexeno que formam
tetraciclohexenotretraazoporfirina, que pode então ser desidratada por sublimação a
300-320Cº , aquecida com enxofre e posteriormente com paládio em cloronaftaleno ou
tratado com 2,3-Dicloro-5,6-diciano-1,4-benzoquinona (DDQ) para formar ftalocianina.
Complementando a lista de derivados de ácidos ftálicos já mencionados podemos
mencionar o o-halobenzonitrilo e o o-dihalobenzenos que também produzem
ftalocianinas quando aquecidos na presença de cianeto de cobre, provavelmente devido
a geração in situ de ftalonitrilo17.
30
Claramente a natureza e estrutura dos precursores das ftalocianinas são um
pouco restritas limitando a modificação do núcleo estrutural das ftalocianinas mesmo
quando alguns derivados azo e uns poucos sistemas não aromáticos foram preparados.
A despeito disso, a facilidade com que as ftalocianinas submetem-se à substituição em
seus quatro anéis benzénicos e as possibilidades envolvidas na adição de substituintes
ao ftalonitrilo e outros precursores das ftalocianinas agregam uma incrível flexibilidade
estrutural a esses compostos. Apesar dos pré-requisitos restritivos em relação à síntese
de ftalocianinas, foi desenvolvido um diversificado ramo na química da preparação de
precursores apropriados17.
1.10 Ftalonitrilos como precursores
Um dos mais úteis precursores das ftalocianinas são sem dúvida os ftalonitrilos.
Esses compostos prontamente produzem ftalocianinas com um bom rendimento com a
maioria dos metais. As reacções em sua grande maioria envolvem o aquecimento do
ftalonitrilo na presença do metal com os reagentes. A reacção é aquecida de maneira a
fundir o ftalonitrilo ou, à reacção, é acrescentado um solvente com alto ponto de
ebulição. Reacções usando precursores como os anidridos ftálicos ou ftalimidas
precisam da adição de um reagente que seja fonte de azoto, como a ureia, e um
catalisador como o moblidato de amónio ou ácido bórico de maneira a se proceder à
reacção de ciclotetramerização . O uso de ftalimidas e alguns derivados do ácido ftálico
produzem, na sua maioria das vezes, resultados irregulares. Esses factores limitam a
utilidade desses compostos como precursores, especialmente consoante a natureza dos
grupos funcionais que podem estar presentes durante a reacção de condensação17.
Contudo os anidridos ftálicos são extensamente usados para a produção em larga
escala de ftalocianinas especialmente por causa de seu baixo custo. Os ftalonitrilos por
sua vez levam a reacções com um maior grau de pureza mas devido ao seu maior custo
do reagente, seu uso é restrito à síntese em pequena escala e à criação de materiais de
alta tecnologia onde a qualidade é o interesse principal. Os ftalonitros são os precursores
de escolha para a síntese de ftalocianinas pois podem ser preparados de maneira
relativamente fácil por diversas rotas sintéticas e a sua condensação no macrociclo
normalmente acontece com melhores rendimentos quando comparado com outros
precursores. Como irá ser abordado mais adiante, os ftalonitrilos são transformados em
ftalocianinas através do uso de um metal como template para a reacção de
ciclotetramerização. Em geral a reacção acontece em elevadas temperaturas onde os
reagentes se encontram em sua forma fundida ou com o uso de um solvente de alto
ponto de ebulição como o clorobenzeno, nitrobenzeno, quinolina ou o 1-cloronaftaleno.
A formação do macrociclo pode ser levada a cabo refluxando o 1-pentanol, ou outro
álcool similar de alto ponto de ebulição, na presença de uma base orgânica, como o
DBU ou piridina17.
Contudo, não sendo sempre necessário, ureia e mobilidato de amónio é
adicionado ocasionalmente à reacção para ajudar na ciclotetramerização. As
ftalocianinas livres podem ser preparadas a partir de uma mistura de ftalonitrilo e
amónia em DMAE. Compostos de mobilidênio, titânio e ferro são conhecidos por
31
catalisar as reacções de ciclotetramerização diminuindo, em certos casos, de maneira
significativa os tempos de reacção assim como a temperatura em que a síntese deve
ocorrer17.
Ftalonitrilos reagem prontamente com várias fontes de metais como seus sais,
sulfeto, óxidos, haletos ou os próprios metais para formar ftalocianinas metalizadas
sendo que o uso de ftalonitrilo é preferencialmente optado por produzir produtos mais
limpos, menor contaminação com subprodutos, e por dar melhores rendimentos,
normalmente na casa dos 30 a 50%. Contudo as reacções de ciclotetramerização
envolvendo ftalonitrilos são sensíveis ao solvente e a temperatura de reacção. Mesmo
com esses inconvenientes os ftalonitrilos são os precursores de preferência na
preparação de ftalocianinas e, sendo assim, a maioria das pesquisas envolvendo
ftalocianinas envolve ftalonitrilos como precursores17.
1.11 Mecanismo de reacção
O mecanismo pelo qual as ftalocianinas são formadas ainda não está bem
esclarecido. Um mecanismo proposto para a formação de ftalocianina na presença de
um alcóxido de lítio envolve um ataque nucleofílico para formar um intermediário de
alcoxiiiminoisoindolina 1. Esse intermediário reage com outra molécula de ftalonitrilo
para fornecer um intermediário dimérico 2 que pode subsequentemente reagir com outra
molécula de ftalonitrilo produzindo um intermediário trimérico 3 ou, como alternativa,
se auto-condensar para produzir o intermediário tetramérico 4. Como alternativa 3 pode
ainda reagir com outra molécula de ftalonitrilo para produzir 4. A espécie tetramérica
sofre então uma ciclização com a perda de 2 electrões do macrociclo produzindo a
molécula de ftalocianina20 (figura 18).
32
20
Figura 18: Mecanismo proposto para a síntese de ftalocianinas .
O fecho do anel envolve um ataque nucleofílico no grupo aril-éter pelo grupo
imida seguido pela subsequente perda do éter como aldeído. Um íon hidrogénio é
libertado no processo e prontamente capturado pelo excesso de íons alcóxido na
mistura. Um intermediário monomérico derivado do sódio metoxiiminoisoindolina 5 e
um sal dimérico de lítio 6 foram também isolados dando suporte ao mecanismo
proposto20 (figura 19).
20
Figura 19: Intermediários isolados na síntese de ftalocianinas .
33
Capítulo 2
34
2.Objectivos
Várias técnicas e materiais já são conhecidos e usados para o sequestro de CO2
antes que esse seja introduzido no ambiente na forma de gases de combustão de fornos,
caldeiras ou provenientes de reacções industriais. Porém os métodos empregados
apresentam um elevado custo e consequentemente são de pouco interesse comercial. As
ftalocianinas são moléculas que nos últimos anos vêm apresentando uma incrível
flexibilidade quanto à sua utilização. Prova disso são os inúmeros estudos e as diversas
aplicações que esses compostos têm apresentado.
O principal objectivo deste trabalho é o estudo das ftalocianinas para a
adsorção de CO2 assim como uma análise de seus métodos de preparação utilizando-se
principalmente técnicas espectroscópicas para sua caracterização. O trabalho analisa as
formas de síntese empregadas bem como as possibilidades de incorporação das
ftalocianinas em outros materiais e seu uso para a adsorção de CO2.
Sendo assim, nosso objectivo é a criação de materiais novos que, seja por
adsorção no interior ou à superfície, pudesse evidenciar uma capacidade de coordenação
com o CO2 e dessa forma possam no futuro (isoladamente ou em conjunto com outros
materiais) constituir uma solução eficiente no sequestro e captura de CO2.
35
Capítulo 3
36
3.Secção experimental
3.1 Materiais e reagentes.
O solvente usado para a síntese de ftalocianinas foi o N,N-dimetil-2-aminoetanol
(DMAE) comprado à Sigma Aldrich. O mesmo sofreu um tratamento com sulfato de
sódio anidro para a retirada de água. O tratamento consiste em sua agitação na presença
de sulfato de sódio e posterior filtração para a retirada de material particulado.
Os sais dos diversos sais metálicos usados nas sínteses foram secos em estufa a
105Cº por no mínimo 8 horas. Após esse período o sal que não foi totalmente utilizado
na reacção foi mantido em dessecador com sílica gel para evitar a contaminação por
água.
A sílica gel (Fluka H60 e H40) usada na incorporação de ftalocianinas não sofreu
qualquer tratamento prévio antes de sua utilização nem algum tratamento especial em
seu armazenamento.
Para a caracterização das moléculas sintetizadas foi utilizado a espectroscopia
Uv-Vis. Para a espectroscopia foi usado o espectrofotómetro OceanOptics Usb 4000UV-Vis e o programa SpectraSuite versão 1.6. Para fonte de radiação foram usadas
lâmpadas de deutério e halogénio DH-2000-BAHL Mikropack®.
A solução de colódio foi fornecida pela empresa Merk® e não sofreu qualquer
tipo de tratamento prévio antes de sua utilização.
3.2 Síntese de ftalocianinas
3.2.1 Síntese de ftalocianina de cobre (II)
Para essa síntese foram pesados 0.143 g (1.06 mmol) de cloreto de cobre,
previamente seco em estufa a 105ºC por 24 horas, juntamente com 0.515 g (4.02 mmol)
de ftalonitrilo e 10 ml de DMAE seco. Todos os reagentes foram postos em um balão e
em um sistema de refluxo a 160ºC com agitação constante por 24 horas. Após esse
período a solução foi arrefecida à temperatura ambiente e foi adicionado 40 ml de uma
solução de metanol/ água (40 ml/5 gotas). A solução foi filtrada com um filtro
sinterizado de porosidade 4 com a ajuda de uma bomba de vácuo. O precipitado foi
lavado com mais 40 ml de uma solução de metanol/água (40 ml/5 gotas) e
posteriormente com 10 ml de acetona resultando em um precipitado de cor azul-escuro.
3.2.2 Síntese de ftalocianina de zinco (II)
Para a síntese da ftalocianina de zinco foram usados 10 ml de DMAE seco,
0.211 g (1.55 mmol) de cloreto de zinco e 0.510 g (4 mmol) de ftalonitrilo. O cloreto de
zinco foi posto para secar à 105ºC por 24 horas e mantido em um dessecador até o
momento do uso. Os reagentes foram colocados em um balão e mantidos a 150ºC por
24 horas em sistema de refluxo com agitação constante. Após esse período o balão foi
37
posto para arrefecer à temperatura ambiente e foi adicionado 40 ml de uma solução de
metanol/água (40 ml/5 gotas). Essa mistura foi então filtrada com um filtro sinterizado
de porosidade 4 com a ajuda de uma bomba de vácuo. Ao precipitado retido no filtro foi
adicionada mais 40 ml da solução de metanol/água (40 ml/5 gotas) e lavado com mais
10 ml de metanol anidro sendo o precipitado então seco e guardado para uso posterior.
3.2.3 Síntese de ftalocianina de magnésio (II)
Procedeu-se à secagem de acetato de magnésio em estufa a 105ºC por 8 horas e
após esse período o sal foi mantido em um dessecador até o momento do uso. A seguir
1.5 g de sal (10.53 mmol) foi pesado e colocado em um balão juntamente com 2.2 g de
ftalonitrilo (17.17 mmol) e 8 ml de DMAE seco. A mistura foi posta para reagir a 150ºC
com agitação constante em sistema de refluxo por 24 horas. A filtração da solução deuse após as 24 horas de reacção. A solução foi arrefecida à temperatura ambiente e ao
balão contendo a mistura reaccional foi adicionado uma solução de metanol/água (40
ml/5 gotas). Essa solução foi adicionada de modo a solubilizar os reagentes que não
foram consumidos até o momento. Toda essa solução foi então filtrada com um filtro
sinterizado de porosidade 4 e com a ajuda de uma bomba de vácuo. Ao precipitado
retido no filtro foi adicionada mais 40 ml da solução de metanol/água (40 ml / 5 gotas) e
lavado com mais 10 ml de acetona.
3.2.4 Síntese de ftalocianina sem metal (livre)
Para essa síntese foram pesados 2 g de ftalonitrilo (15.06 mmol) e adicionado a
um balão. Então 5 ml de DMAE seco foi adicionados ao balão e todo o conjunto posto
em um sistema de refluxo com agitação constante a 150ºC por 24 horas. Após esse
período o balão foi deixado arrefecer à temperatura ambiente e uma solução de
metanol/água (40 ml/5 gotas) foi adicionada ao balão. Toda essa solução foi filtrada
usando-se um filtro sinterizado com porosidade 4. O precipitado retido no filtro foi
lavado mais uma vez com uma solução de metanol/ água (40 ml/5 gotas) e
posteriormente foi procedido a lavagem com mais 10 ml de acetona.
3.2.5 Síntese de ftalocianina sulfonada sem metal (livre)
Para essa síntese foi adicionado a um balão 0.262 g de ftalocianina livre (0.509
mmol) juntamente com 7.5 ml de ácido sulfúrico concentrado (65% SO3). O sistema foi
mantido fechado e com agitação constante por 24 horas. Após esse período todo o
conteúdo do balão foi vertido em 100 ml de uma solução saturada de NaCl arrefecida
com a ajuda de um banho de gelo. A solução resultante foi então filtrada e lavada com
50 ml de solução saturada de NaCl, 50 ml de etanol 70%, 50 ml de etanol 90% e 50 ml
de etanol anidro respectivamente. Ao produto retido no filtro foi procedida a extracção
com DMF que foi adicionado até o mesmo não mais conseguir solubilizar o precipitado.
O solvente foi então evaporado e o precipitado recolhido seco.
38
Capítulo 4
39
4.Resultados e Discussão
4.1 Síntese de materiais
A primeira parte do trabalho refere-se à síntese dos materiais assim como à
criação dos materiais híbridos desenvolvidos para os possíveis estudos de CO2. Nessa
primeira parte abordamos os pormenores que os passos da preparação do material
apresentaram bem como uma discussão de sua caracterização. Mais adiante vamos
abordar a criação de materiais e os passos para a incorporação de ftalocianinas noutra
matriz. Na terceira parte do trabalho temos os estudos de adsorção de CO2 que foram
conduzidos tanto à pressão atmosférica quanto a pressões de variavam de 1 a 5 bar.
4.1.1 Síntese de ftalocianina de cobre (II)
As primeiras tentativas de síntese se
mostraram de baixo rendimento. O uso de sais
hidratados, a baixa temperatura e o diminuto
tempo de reacção foram os principais
responsáveis. As primeiras reacções foram
realizadas a 130ºC, com o tempo de 2 horas e
apresentavam as mesmas características visuais
do princípio da reacção. Para contornar essas
dificuldades alguns cuidados foram tomados. O
primeiro foi a secagem dos sais utilizados em
estufa à 105ºC. O solvente usado foi igualmente
seco adicionando cerca de 2 g de sulfato de sódio Figura 20: Produto final recuperado após
anidro e após agitação procedeu-se à filtração para síntese (ftalocianina de Cobre (II) ).
a retirada de material particulado. Esse passo é importante para a retirada de traços de
água, visto o solvente ser higroscópico porém, isto também pode ser evitado com o uso
de um solvente que tenha sido recentemente aberto.
Outra mudança importante foi o aumento da temperatura de 130ºC para 160ºC
tendo assim o sistema energia suficiente para vencer a barreira energética. Essa atitude
pode ser tomada devido à alta robustez das moléculas de ftalocianinas frente à
temperatura. A última melhora foi o aumento do tempo de reacção de algumas horas
para 24 horas. Alguns estudos citam o uso de duas ou três gotas de 1,8-diazabiciclo
[5.4.0] undec-7-eno (DBU) como catalisador e tempos de 10 a 15 horas. Visto que nas
primeiras reacções de ftalocianinas o catalisador não foi utilizado, o tempo de reacção
foi estendido para 24 horas21.
Portanto, levando em conta as devidas considerações foi procedida a síntese de
ftalocianina de cobre em um sistema de refluxo usando quantidades equimolares de
ftalonitrilio e cloreto de cobre. Após as 24 horas de reacção o sistema foi arrefecido à
temperatura ambiente e o precipitado recolhido (figura 20) e lavado e um espectro UvVis do precipitado foi feito usando-se células de quartzo.
40
Figura 21: Espectro UV-Vis da Ftalocianina de Cobre II em DMSO.
Uma das formas de caracterização mais usadas quando se trabalha com síntese
de derivados ftalocianínicos é o uso de espectros Uv-Vis pois a forma do espectro está
ligada com a estrutura molecular e electrónica da ftalocianina. O uso de espectros de
absorção na química das ftalocianinas é de tão relevante importância quanto as técnicas
de RMN ou infravermelho para o restante dos químicos orgânicos, visto que o
aparecimento das bandas de absorção características entre 600 e 700 nm é um forte
indício de formação do esqueleto ftalocianínico. O espectro do material obtido
apresentado na figura 21, é um espectro característico de metaloftalocianina22.
Esse espectro pode ser comparado com o obtido pelos pesquisadores M. A. Rauf
S. Hisaindee, J. P. Graham e M. Nawaz em seu estudo sobre o efeito de diversos tipos
de solventes na absorção e fluorescência da ftalocianina de Cobre II e é apresentado na
figura 2223:
23
Figura 22: Espectro de absorção da ftalocianina de cobre II em diversos solventes .
41
Podemos ver que o espectro da figura 21 apresenta-se ligeiramente diferente do
apresentado no artigo. Porém as bandas de absorção características de ftalocianinas,
entre 600 e 700nm, estão presentes e podemos notar certa similaridade quando
comparamos o espectro obtido com o espectro de absorção em DMSO que o artigo
apresenta. No espaço entre 200 e 300 nm onde deveríamos esperar uma zona de
absorção suave característica da banda B temos uma grande absorção que
provavelmente trata-se de contaminantes que não foram retirados na lavagem do
precipitado. Essa hipótese é reforçada quando analisamos um espectro feito com a
solução de reagentes do início da reacção quando nenhuma quantidade de ftalocianina
foi formada (figura 23).
Figura 23: Espectro dos reagentes no início da reacção (ftalonitrilo, cloreto de cobre e DMAE) em DMAE.
4.1.2 Síntese de ftalocianina de zinco (II)
Para a síntese da ftalocianina de zinco (ZnPc)
foram usados os mesmos cuidados que os usados
para a síntese da ftalocianina de cobre. O uso de sal
e solvente livres de água, assim como uma alta
temperatura e tempo longo de reacção. Portanto de
maneira similar a reacção anterior, quantidades
equimolares de cloreto de zinco e ftalonitrilo foram
colocados em um sistema de refluxo juntamente com
DMAE. A reacção foi mantida nessas condições por
24 horas e após esse período o precipitado resultante
foi filtrado e lavado (figura 24). Foi tirado um um
espectro de UV-VIS usando uma célula de quartzo e
DMSO como solvente e se apresenta na figura 25.
Figura 24: Produto final recuperado após
síntese (ftalocianina de Zinco (II) ).
42
Figura 25: Espectro UV-Vis da Ftalocianina de Zinco.
O material obtido apresenta-se levemente solúvel em DMSO e DMF. Podemos
comparar o espectro acima com o da literatura (figura 26) e podemos notar os picos
característicos de ftalocianina metalizada entre 600 e 700 nm24.
24
Figura 26: espectro comparativo da ftalocianina de Zinco e alguns de seus complexos .
A ftalocianina de zinco não complexada pode ser vista na linha sólida do
gráfico. Podemos notar que mesmo conjugadas com ligantes complexos os espectros
obtidos permanecem o mesmo na sua essência, tendo as linhas de absorção entre os 600
e 700 nm, faixa essa típica de ftalocianinas, bem definidas. Portanto podemos ver que
na maioria dos casos os espectros de ftalocianinas de diferentes metais ou que possuem
substituintes apenas desloca as bandas de absorção tanto para a direita quanto para a
esquerda do espectro, dependendo do tipo de ligante24.
43
4.1.3 Síntese de ftalocianina de magnésio (II)
Foi escolhido ser feita a síntese dessa
ftalocianina principalmente pelo fato de que existe a
possibilidade de ser retirado o magnésio do interior
do macrociclo através de um tratamento ácido, nos
dando uma ftalocianina livre, e posteriormente a
introdução de um novo metal em seu interior. Para
tal, quantidades equimolares de ftalonitrilo e acetado
de magnésio foram postas em um balão com um
sistema de refluxo juntamente com DMAE a alta
temperatura. Após o tempo de reacção de 24 horas a
mistura reaccional foi filtrada e lavada para a
retirada de material não reagido (figura 27). Um
espectro UV-Vis em DMSO foi feito e apresenta-se
na figura 28.
Figura 27: Produto final recuperado após
síntese (ftalocianina de magnésio (II) ).
Figura 28: Espectro UV-Vis da ftalocianina de magnésio.
Juntamente com o espectro em DMSO foram feitos outros espectros usando a
mesma ftalocianina em outros solventes. Essa abordagem foi feita de forma a verificar o
nível de interferência que o solvente pode provocar no espectro e seus respectivos
desvios. O resultado apresenta-se na figura 29.
44
Figura 29: Espectro UV-Vis da ftalocianina de magnésio em vários solventes.
Podemos notar que a mudança do solvente produz pequenas variações no
espectro. Dependendo da natureza do solvente utilizado pode haver um desvio, tanto
para o Uv-próximo quanto para o visível, dos picos característicos de absorção que se
encontram entre 600 e 700 nm. Logicamente essa abordagem não deve ser extrapolada
para todos os macrociclos ftalocianínicos. É sabido que dependendo do tipo e do estado
de oxidação do metal coordenado no interior do macrociclo ou da natureza dos
substituintes do composto poder haver agregação da ftalocianina consoante o solvente
utilizado. Esse comportamento pode ocasionar espectros muito diferentes daqueles
esperados para ftalocianinas, como será observado mais adiante neste trabalho25.
O desvio para um maior comprimento de onda pode ser devido a
desestabilização do orbital molecular ocupado mais energético (HOMO) ou da
estabilização do orbital molecular desocupado menos energético (LUMO). Foi sugerido
que a interacção entre as coordenações de solventes e as moléculas de ftalocianinas
estabiliza o LUMO de certo tipo de complexos23.
4.1.4 Síntese de Ftalocianina sem metal (livre)
Várias foram as tentativas para a produção de
ftalocianina livre usando-se a ftalocianina de
magnésio como produto material inicial. Todas as
técnicas mostraram-se trabalhosas e com o
envolvimento de muitos passos e consequentemente
muitas perdas ao longo do processo. Portanto uma
outra alternativa foi testada com relativo sucesso.
Para a síntese da ftalocianina livre foi utilizada uma
rota simples e de apenas um passo que se baseia no
aquecimento apenas do ftalonitrilo com um solvente
básico de alto ponto de ebulição.
Nesse método de síntese deve-se escolher
com cautela o solvente utilizado. O 1-pentanol é um
Figura 30: Produto final recuperado após
síntese (ftalocianina sem metal).
45
solvente muito usado para sínteses desse género porém, caso essa fosse a escolha
deveria juntamente com o solvente ser adicionado também uma base, como o DBU por
exemplo. A necessidade de tal se deve ao fato de que formalmente para ocorrer a
ciclotretramerização do ftalonitrilo em ftalocianina são necessários dois electrões.10
Uma outra alternativa ao 1-pentanol é o uso do DMAE. Esse solvente, além do alto
ponto de ebulição, possui um grupamento básico em sua estrutura e portanto pode servir
como o doador de electrões necessário para a reacção, sendo o solvente óptimo para tal
passo.
A síntese foi feita tomando-se os mesmos procedimentos usados para as sínteses
anteriores, exceptuando o fato da utilização de um sal contendo metal, e deu-se com o
aquecimento em um sistema de refluxo de ftalonitrilo juntamente com DMAE. Após 24
horas de reacção foi obtido um precipitado, que depois filtrado, lavado e seco, foi
recolhido e apresenta uma coloração azul escura (figura 30). O precipitado mostrou-se
insolúvel nos solventes das mais diversas polaridades, nomeadamente, hexano,
diclorometano, DMF, THF, DMSO e metanol e se mostrou de difícil caracterização.
Isso é um bom indicativo da formação de ftalocianina livre pois, devida a alta simetria
que essas moléculas apresentam, o material é de difícil dissolução devido ao efeito de
empilhamento (stacking). Tudo leva a crer que o precipitado obtido seria realmente uma
ftalocianina porém, sem a caracterização por Uv-vis ou outro método é impossível
afirmar com certeza. Sua baixíssima solubilidade torna difícil sua caracterização mesmo
com o uso de técnicas mais sofisticadas como RMN-1H. Não obstante foi procedida sua
solubilização em ácido sulfúrico concentrado e o espectro de UV-Vis obtido encontra-se
na figura 31:
Figura 31: Espectro de uma ftalocianina livre em H2SO4.
Podemos observar claramente o efeito batocrômico que a protonação provocou
nas bandas Q. Os picos previstos para a faixa entre 600 e 700 nm encontram-se entre
750 e 900 nm, o que já era esperado. O espectro possui duas bandas de absorção
46
separadas e de intensidades relativamente equivalentes, que realmente é o esperado para
ftalocianinas livres. Essa divisão das bandas Q ocorre devido aos dois prótons diagonais
que ocupam o interior do macrociclo e que aumentam a
degenerescência do LUMO22.
4.1.5 Síntese de ftalocianina livre sulfonada
Para a síntese de ftalocianina sulfonada foi
escolhido o processo de sulfonação directa do
macrociclo.
Essa
abordagem
foi
escolhida
primeiramente para verificar os efeitos que um
substituinte teria no potencial de adsorção de CO2 do
macrociclo. Uma outra vantagem dessa abordagem
seria a possibilidade de mais uma forma de
caracterização do material obtido na tentativa de
síntese de ftalocianina livre. A adição de grupos
sulfônicos à molécula diminui sua simetria e a torna
mais solúvel tornando assim possível a obtenção de um
Figura 32: Produto final recuperado
espectro sem sua solubilização em meio ácido.
após síntese (ftalocianina sem metal e
Para a sulfonação da ftalocianina livre foi usado sulfonada).
o precipitado obtido da reacção de síntese de ftalocianina livre e ácido sulfúrico
concentrado (65% SO3). Os reagentes foram postos em um balão com agitação
constante à temperatura ambiente durante 24 horas. O sistema permaneceu fechado
durante esse período para prevenir a saída de vapores tóxicos. Findo esse tempo a
mistura reaccional foi precipitada em uma solução saturada de cloreto de sódio
arrefecida em um banho de gelo. Essa mistura foi então filtrada e o sólido retido foi
lavado com uma solução saturada de cloreto de sódio, etanol 70%, etanol 90%, etanol
anidro e posteriormente extraído o sólido restante usando-se DMF. Dessa forma o
cloreto de sódio que ainda estivesse presente, por possuir uma baixa solubilidade frente
ao DMF, ficaria retido deixando-se apenas o produto de interesse solubilizado no
solvente. O mesmo foi recolhido e o solvente evaporado dando um precipitado verde
solúvel em água (figura 32). Um espectro do precipitado obtido foi feito em água e
DMF e apresenta-se na figura 33.
47
Figura 33: Espectro UV-Vis da Ftalocianina livre sulfonada em água e DMF.
Algumas considerações importantes devem ser feitas frente ao resultado obtido.
Primeiramente a representação da ftalocianina não está expressa de forma precisa. É
sabido que quando ocorre a substituição directa no macrociclo existe a possibilidade de
que a mesma ocorra de forma a se obter ftalocianinas mono, di , tri ou tretrasubstituidas
assim como a possibilidade de uma substituição de dois grupos sulfonados por anel
benzénico aumentando ainda mais o número de possíveis isómeros. Portanto o produto
obtido é uma mistura de ftalocianinas sulfonadas nos mais diversos graus, mesmo que
isso não afecte de maneira significativa a conformação das bandas Q22. Depois podemos
observar que as duas bandas Q produzidas do espectro em DMF possuem intensidades
equivalentes. Isso é mais um indício que o produto de partida usado para a sulfonação
era de facto uma ftalocianina livre e que o produto adquirido é uma ftalocianina livre
sulfonada. E por fim, podemos observar a diferença entre o espectro obtido em água e
em DMF. Isso se deve às interacções dos grupos sulfônicos e as moléculas de água
provocando uma agregação das moléculas ftalocianínicas26. A técnica seleccionada para
a sulfonação foi semelhante à usada por R. P. Linstead e publicada em seu trabalho de
1950 e apresenta apenas algumas modificações27.
4.2 Criação de materiais híbridos
4.2.1 Ftalocianina de zinco (II) em sílica gel
O procedimento para a incorporação de ftalocianina de zinco (II) (ZnPc) em
sílica foi feito de duas formas. Primeiramente foram usados dois tipos de granulometria
para as sílicas a H60 e H40, que corresponde ao tamanho das partículas que se encontra
entre 35 a 70 µm e 200 a 500 µm respectivamente, e duas quantidades de ftalocianina
que foram 10 e 20 mg. Em seguida foram preparadas 4 amostras com esses dois tipos de
sílica em 2 concentrações diferentes usando-se apenas agitação mecânica para sua
homogeneização (tabela 4).
48
Tabela 4: Amostras de sílica incorporada com ftalocianina sem o uso de solvente.
Amostras
Sílica H60
Sílica H40
1
2
3
4
0.1g
0.1g
-
0.1g
0.1g
Ftalocianina
de zinco(II)
20mg
10mg
20mg
10mg
Figura 34: Amostras de sílica gel incorporada com ZnPc sem o uso de solvente.
De maneira análoga foram preparadas mais 4 amostras de maneira semelhante à
forma descrita anteriormente porém, ao final da preparação as amostras foram postas
em placas de Petri individuais e foram adicionados 0.5 ml de DMF a cada placa. Após
sua homogeneização, com a ajuda de uma espátula, as amostras foram postas em
repouso para a evaporação do solvente. Após um período de 72 horas, à temperatura
ambiente, as amostras se encontravam secas e foram transferidas para tubos de ensaio
conforme se segue abaixo na tabela 5.
Tabela 5: Amostras de sílica incorporada com ftalocianina com o uso de solvente.
Amostras
Sílica H60
Sílica H40
5
6
7
8
0.1g
0.1g
-
0.1g
0.1g
Ftalocianina
de zinco (II)
20mg
10mg
20mg
10mg
49
Figura 35: Amostras de sílica gel incorporada com ZnPc com o uso de solvente.
4.2.2 Ftalocianina de magnésio (II) em sílica gel
De maneira semelhante à ocorrida com a ftalocianina de zinco (ZnPc) foram
preparadas algumas amostras combinando-se ftalocianina de magnésio (II) (MgPc) e
sílica gel. As primeiras 4 amostras foram preparadas sem o uso de qualquer tipo de
solvente usando-se somente a agitação mecânica para sua homogeneização. As amostras
foram preparadas seguindo a mesma granulometria e as mesmas concentrações usadas
no preparo da ftalocianina de zinco com sílica gel (figura 36) e se apresentam segundo a
tabela 6.
Tabela 6: Amostras de sílica incorporada com ftalocianina sem o uso de solvente.
Amostras
Sílica H60
Sílica H40
1*
2*
3*
4*
0.1g
0.1g
-
0.1g
0.1g
Ftalocianina
de
Magnésio
(II)
20mg
10mg
20mg
10mg
50
Figura 36: Amostras de sílica gel incorporada com MgPc sem o uso de solvente.
Para a preparação das amostras com o uso de solvente, as amostras foram
pesadas e postas em uma placa de Petri juntamente com 2 ml de THF (tabela 7). Esse
solvente foi escolhido devido a melhor solubilização da ftalocianina no mesmo. Após
72 horas as amostras foram colocadas em tubos de ensaio como mostrado na figura 37.
Tabela 7: Amostras de sílica incorporada com ftalocianina com o uso de solvente.
Amostras
Sílica H60
Sílica H40
5*
6*
7*
8*
0.1g
0.1g
-
0.1g
0.1g
Ftalocianina
de
Magnésio(II)
20mg
10mg
20mg
10mg
Figura 37: Amostras de sílica gel incorporada com MgPc com o uso de solvente.
Todas as amostras foram armazenadas à temperatura ambiente ao abrigo da luz e
todas em um ambiente com iguais características e foram assim mantidas até que
fossem feitos os estudos de adsorção de CO2
51
4.2.3 Filmes de ftalocianinas à base de colódio
Para a criação desse material foi usado como base colódio 4% composto por
uma solução de etanol, dietiléter e nitrocelulose à 4%, e as ftalocianinas de zinco (II) e
magnésio (II). Foram criados dois filmes adicionando-se 5 ml de colódio em
erlenmeyers individuais e 10 mg de ftalocianinas em cada um deles. Em seguida as
soluções foram homogeneizadas com a ajuda de um ultra-som por 5 minutos e vertidas
em placa de Petri resultando, após a evaporação do solvente, em dois filmes distintos
(figura 38).
Figura 38: Filme de ftalocianina de zinco (II) a base de colódio.
Apesar da homogeneização por ultra-som somente o filme de ftalocianina de
magnésio (II) apresentou uma coloração uniforme sendo que, o filme de ftalocianina de
zinco (II) apresentou sinais de aglutinação na forma de pequenos pontos por toda sua
extensão dando a sugerir que o material não foi solubilizado de maneira apreciável e
sim apenas disperso na matriz.
4.3 Estudos de adsorção de CO2
Os ensaios de adsorção foram feitos em duas partes. Primeiramente foi estudado
a adsorção à pressão atmosférica. Para tanto foi usado uma câmara vedada com apenas
uma entrada enquanto um fluxo contínuo de CO2 era adicionado. A amostra com a
massa devidamente registada ficava então nessa atmosfera por um certo período e sua
massa era posteriormente medida. Outra fase envolve o estudo de adsorção até 5 bar. As
amostras passam por um pré-tratamento de secagem e posteriormente vão para uma
câmara onde uma quantidade controlada de CO2 lhes é aplicada.
4.3.1 Adsorção à pressão atmosférica
Para os estudos de adsorção à pressão atmosférica foram usadas as ftalocianinas
de zinco e magnésio, assim como os materiais preparados de sílica gel e ftalocianina. As
amostras testadas não sofreram qualquer tratamento prévio sendo usadas directamente
para os testes. Para os estudos a pressão de 1 bar foi usada uma câmara de vidro com
uma entrada para o CO2 proveniente de um cilindro (figura 39). A quantificação do
fluxo nessa fase do experimento não foi levada em consideração sendo apenas levado
em conta o monitoramento de um fluxo constante. As amostras eram pesadas e
52
colocadas na câmara onde um fluxo constante de CO2 era introduzido por 5 minutos.
Após esse tempo a câmara era selada por 15 mim e então a amostra era retirada da
câmara e pesada em intervalos regulares de tempo. No primeiro minuto era registada a
massa em intervalos de 15 segundos, no segundo minuto em intervalos de 30 segundos
e após o terceiro minuto em intervalos de 60 segundos, sendo que as amostras foram
monitoradas em um espaço total de 5 minutos. A diferença de massa antes e depois da
entrada das amostras na câmara de CO2 indicaria a quantidade adsorvida pelo material.
Figura 39: Equipamentos usados para medição de CO2 a baixa pressão composto por balança, câmara selada e
monitorador de fluxo de CO2.
Os primeiros testes foram conduzidos com as ftalicianinas de zinco (II) e
magnésio (II) e uma representação gráfica pode ser feita a partir dos dados obtidos
(figura 40).
Figura 40: Adsorção de CO2 em ftalocianinas a pressão atmosférica.
Pode-se notar que praticamente não houve mudança considerável na massa das
ftalocianinas à pressão atmosférica. Há uma rápida mudança de massa nos primeiros 15
segundos mas não podemos afirmar com segurança se o material adsorveu qualquer
quantidade de CO2 devido às pequeníssimas variações na massa. A medição fica
comprometida está na faixa de erro da própria balança.
Os mesmos estudos foram conduzidos com os materiais híbridos de ftalocianinas
de zinco (II) e magnésio (II) onde o procedimento usado foi o mesmo para as
53
ftalocianinas puras. As amostras de ftalocianina de zinco (II) e sílica gel preparadas sem
a ajuda de solvente foram nomeadas de 1 a 4 e as amostras preparadas com a adição de
solvente de 5 a 8. As amostras de ftalocianina de magnésio (II) e sílica gel preparadas
sem a adição de solvente foram nomeadas de 1* a 4* e aquelas preparadas com a adição
de solvente foram nomeadas de 5* a 8*. Os resultados obtidos entre a diferença de
massa antes e após a exposição à atmosfera de CO2 encontram-se nas representações
gráficas abaixo (figuras 41 e 42).
Figura 41: Amostras híbridas de ftalocianina de zinco (II) preparadas sem adição de solvente à pressão
atmosférica.
Figura 42: Amostras híbridas de ftalocianina de zinco (II) preparadas com adição de solvente à pressão
atmosférica.
É possível notar que, de maneira análoga as ftalocianinas puras, os materiais
híbridos de ftalocianina de zinco (II) não adsorveram de maneira considerável qualquer
quantidade de CO2 à pressão atmosférica. Podemos ver isso devido ao facto de a
variação na massa final e inicial ser da ordem de 0.1 mg, pois o erro da própria balança
pode afectar os resultados obtidos da pesagem.
Resultados semelhantes foram obtidos quando feitos os ensaios com as amostras
híbridas de ftalocianina de magnésio (II) e CO2 à pressão atmosférica. As variações
obtidas são de maneira tal que entram na margem de erro da própria balança. Os
resultados obtidos estão apresentados nos gráficos abaixo (figuras 43 e 44):
54
Figura 43: Amostras híbridas de ftalocianina de magnésio (II) preparadas sem adição de solvente à pressão
atmosférica.
Figura 44: Amostras híbridas de ftalocianina de magnésio (II) preparadas com adição de solvente à pressão
atmosférica.
De maneira semelhante foi procedido o teste de adsorção com a ftalocianina
sulfonada e foi obtido resultado semelhante ao encontrado nos ensaios anteriores. Não
houve adsorção de CO2 em uma extensão apreciável e a diferença de massa da amostra
antes e depois de entrar na câmara selada é de tal maneira pequena que não podemos
fazer afirmações seguras quanto ao grau de adsorção do composto. O resultado do
ensaio pode ser observado na figura 45.
Figura 45: Adsorção de CO2 em ftalocianina sulfonada à pressão atmosférica.
55
Foram realizados os testes de adsorção de CO2 nos filmes de colódio, porém os
mesmos apresentaram resultados semelhantes aos anteriores. Nenhum dos filmes
apresentou significativa variação em sua massa depois de imerso em uma atmosfera
saturada de CO2. Os resultados obtidos podem apresentam-se na figura 46.
Figura 46: Adsorção de CO2 em filmes a base de colódio e ftalocianina.
4.3.2 Estudos de adsorção a pressão até 5 bar
Para o desenvolvimento dos ensaios de adsorção a pressão até 5 bar as amostras
primeiramente passaram por um processo de secagem e pesagem minuciosos. A
secagem serve para eliminar possíveis gases atmosféricos contaminantes e humidade
que se encontrem adsorvidos na amostra. As amostras foram colocadas em um tubo de
quartzo e cobertas com lã de quartzo de maneira a não interromper o fluxo de gases e
ainda assim manter a amostra no interior do tubo. Após esse sistema estar montado as
amostras foram pesadas e postas em estufa a 100ºC por 1 hora. Após esse tempo a
amostra foi pesada em intervalos regulares de tempo desde a abertura da estufa. Assim
uma representação gráfica do ganho de massa da amostra pode ser feito e dessa maneira
com a extrapolação desse gráfico pode ser obtido o peso das amostras no tempo 0, ou
seja da amostra seca. Esse procedimento foi tomado em relação a todas as amostras que
foram utilizadas para esse ensaio nomeadamente ftalocianina complexada de cobre (II),
magnésio (II), não metalizada (livre) e não metalizada sulfonada.
Para os estudos de CO2 foi usado o equipamento Sistema de Sievert (figura 47).
É neste aparelho que são feitos os processos de carga e descarga de CO2 sobre as
amostras. As amostras são introduzidas na câmara, onde a entrada e saída dos gases é
controlada por válvulas. Existe também um conjunto de tubagem que serve para
controlo de volume de gás, designado por volume de referência, em que este volume é
controlado por um transdutor electrónico de pressão.
56
Figura 47: Esquema da montagem Sievert#1, utilizada para a medição de pressão na carga e descarga efectuadas
na amostra.
Os estudos foram realizados em três etapas, a medição da massa seca das
amostras, a determinação do “volume morto” e por último os ensaios de adsorção /
desadsorção de CO2 à temperatura ambiente. A determinação do “volume morto” é feita
através de cargas de He, por este ser um gás inerte. O volume ocupado por este gás é
designado por “volume morto”, admitindo que não há adsorção na superfície dos poros.
Uma vez conhecido este volume, também chamado Volume Livre da Câmara ou
Volume Vazio, podemos saber qual o volume de CO2 que é efectivamente adsorvido no
material. Para derivar as quantidades adsorvidas dos dados de pressão e temperatura é
usado a equação de estado de Benedict-Webb-Rubim, num software especificamente
desenvolvido onde estão inseridas as correcções de calibração e variações de
temperatura. A isoterma de adsorção de Benedict-Webb-Rubim nada mais é que um
tratamento matemático aos dados e que nos permite interpretar o comportamento do gás
frente ao material adsorvente. A pressão máxima de trabalho foi de 5 bar e os dados
obtidos encontram-se nos gráficos abaixo (figuras 48 à 51).
57
Quantidade adsorvida (mmol CO2/mmol composto
0.30
0.25
ensaio_a
ensaio_b
0.20
0.15
0.10
0.05
0.00
0
1
2
3
4
5
Pa (bar)
Figura 48: Adsorção de CO2 em ftalocianina de Cobre (II), até 5 bar.
ensaio_a
ensaio_b
Quantidade adsorvida (mmol CO2/mmol composto)
0.30
0.25
0.20
0.15
0.10
0.05
0.00
0
1
2
3
4
5
Pa (bar)
Figura 49: Adsorção de CO2 em ftalocianina de Magnésio (II), até 5 bar.
58
ensaio_a
ensaio_b
Quantidade adsorvida (mmol CO2/mmol composto)
0.30
0.25
0.20
0.15
0.10
0.05
0.00
0
1
2
3
4
5
Pb (bar)
Figura 50: Adsorção de CO2 em ftalocianina não metalizada (livre), até 5 bar.
Nas ftalocianinas de cobre (II), magnésio (II) e não metalizada vemos que a
adsorção de CO2 foi inexpressiva chegando a valores de 0.05 mmol de CO2 por mmol
de ftalocianina apenas. Isso mostra que mesmo a pressões maiores que 1 bar não ocorre
interacção entre o gás em questão e a ftalocianina.
Figura 51: Adsorção de CO2 em ftalocianina sulfonada não metalizada (livre) e ftalocianina não metalizada (livre)
até 5 bar.
Um comportamento muito mais interessante foi visto na ftalocianina sulfonada.
Vemos um aumento considerável no grau de adsorção de CO2, quando comparado com
outras ftalocianinas, chegando a valores de 0.30 mmol de CO2 por grama de ftalocianina
a uma pressão máxima de 5 bar. Para reacções onde não houve apreciável adsorção
apenas dois ensaios foram realizados. Porém como a ftalocianina não metalizada
59
sulfonada demostrou um comportamento diferente foram realizados 3 ensaios como
forma de assegurar um bom resultado.
Devemos salientar as diferenças de unidades usadas nos gráficos. Para a
construção do gráfico de adsorção da ftalocianina sulfonada foi utilizado a razão mmol
de CO2 para cada grama de ftalocianina. Essa mudança na unidade usada teves de ser
feita devido a incerteza da massa molar da ftalocianina sulfonada obtida, consequência
da substituição directa do macrociclo e produção de compostos com diferente grau de
substituição.
Estes resultados mostram um efeito muito positivo por parte dos grupos
sulfónicos de cerca de 5 vezes maior capacidade para adsorver CO2. Um aumento de 5
vezes é bastante significativo e abre caminho a novas experiências enquanto confirma o
sucesso dos nossos objectivos iniciais, em fazer um estudo da relação entre a estrutura e
actividade na família das ftalocianinas no processo de interacção com o CO2
Estes estudos com a ftalocianina sulfonada requerem agora uma análise do mecanismo
de interacção com vista a interpretação destes novos dados.
60
5. Conclusão
As ftalocianinas são uma classe de moléculas de uma flexibilidade
impressionante. Desde de sua descoberta como pigmento muitas outras utilidades lhes
foram atribuídas nos mais diversos ramos tecnológicos. O estudo de adsorção de gases é
apenas mais uma linha de investigação que vem agregar mais conhecimento a um tipo
de composto que não deixa de apresentar novas propriedades. Nos estudos de adsorção
as ftalocianinas não substituídas praticamente não apresentaram capacidade de adsorção
de CO2. Sua alta planaridade e o efeito de empilhamento (stacking) produzem forças
intermoleculares fortes que as ligam de tal maneira a produzir um material de alta
densidade e baixa porosidade impossibilitando assim uma adsorção eficiente.
O efeito do metal no interior da ftalocianina não foi tao relevante como
podíamos supor porém com a adição de um grupo funcional ocorre uma mudança na
configuração da estrutura cristalina e assim, a ftalocianina sulfonada, mesmo substituída
nos mais diversos graus, apresenta uma capacidade de adsorção relativamente maior que
as outras ftalocianinas sintetizadas nesse trabalho. Podemos também concluir que a
pressão tem um papel importante na adsorção, visto a similaridade no comportamento
das ftalocianinas frente ao CO2 à pressão atmosférica e à mudança de comportamento a
medida que a pressão começa a elevar-se. Portanto, mais estudos sobre como a
diferença de pressão atua no grau de adsorção são necessários, assim como uma
abordagem de como é feita essa adsorção, seja por o CO2 ser adsorvido pelos grupos
sulfónicos ou pelo facto de ao adicionarmos grupos sulfónicos à molécula criamos uma
rede cristalina eficientemente porosa para possibilitar adsorção.
61
Perspectivas Futuras.
A área de novas matérias é um ramo excitante e promissor para os químicos da
próxima geração sendo que o futuro da nossa sociedade depende do sucesso dessa linha
de investigação, visto que estamos sempre em uma corrida contra o tempo no que diz
respeito aos recursos naturais do planeta. Procuramos portanto meios que possam suprir
nossas necessidades sem prejudicar o já sobrecarregado meio ambiente.
Após uma reflexão sobre os dados obtidos com este estudo, muitas perguntas
ainda permanecem por responder sendo que a primeira delas é saber se outras
ftalocianinas substituídas possuem o mesmo comportamento que a ftalocianina
sulfonada e em que grau os grupos substituintes influenciam nessa adsorção. Saber se
um grupo substituinte influencia no grau de adsorção puramente pela modificação da
rede cristalina ou se ele se torna um sítio activo para a adsorção de gás, ajudaria nos
futuros projectos de criação de materiais adsorventes de CO2 baseados em ftalocianinas.
Entender como a adição de um grupo funcional muda tão radicalmente o
comportamento de uma substância é imprescindível, sendo que este estudo é apenas um
dos muitos outros que devem ser conduzidos para a produção de um material que seja
eficiente na captura e remoção do excesso de CO2 que se encontra em nossa atmosfera.
Os próximos passos agora são os estudos a pressões superiores a 5 bar não só da
ftalocianina sulfonada mas de seus respectivos materiais híbridos assim como o estudo
do comportamento que outros grupos funcionais teriam na adsorção de CO2 e o estudo
detalhado da interacção do CO2 com os grupos sufônicos.
62
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65
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