A RELAÇÃO DO PRESBITÉRIO COM O BISPO DIOCESANO
JOÃO DUQUE – UCP BRAGA
Introdução
Não deixa de ser estranho – e, por isso, sintomático – que um leigo, mesmo
sendo teólogo, seja convocado a falar sobre a relação entre os presbíteros e o bispo. De
facto, essa relação parece situar-se, à primeira vista pelo menos, no âmbito restrito da
vida eclesiástica, em certo sentido clerical, como muitas vezes se verifica na prática: o
tema essencial de conversa entre presbíteros são os bispos e a precupação fundamental
dos bispos são os (seus) presbíteros. Que tem um leigo a ver com essa relação
aparentemente circular e interna aos ministérios ordenados? E que tem com isso a ver
um leigo que, mesmo sendo teólogo, não é especialista em Eclesiologia nem em Direito
Canónico?
É na resposta a esta primeira questão que eu gostaria de explorar o sintoma
implicado na convocação de um leigo para falar sobre o assunto. Ou seja, esse sintoma
parece mostrar que a relação do presbítero com o bispo é assunto também respeitante ao
laicado, o mesmo seja dizer, a toda a comunidade eclesial. Porque não se trata de mero
assunto interno, mais ou menos secundário, apenas significativo para o quotidiano da
vida dos atingidos1. O estatuto dessa relação não é, de facto, o estatuto da relação entre
um chefe e um empregado, em todas as suas variantes – nem sequer é o estatuto da
relação particular entre dois amigos.
Antes de mais, relação entre presbítero e bispo é essencial para a identidade
fundamental de um e de outro. Ao mesmo tempo, a identidade de ambos está
dependente da sua relação com a comunidade cristã. Porque, quer o bispo quer o
presbítero, existem para a comunidade cristã e não para si mesmos, num eventual
círculo fechado sobre cada indivíduo ou sobre uma espécie de corporação clerical.
Nesse sentido, a importância da relação entre ambos é determinada pela importância
1
Prescindo, aqui, da referência e discussão histórica da concepção do episcopado como função
meramente jurídica, eventualmente exercida por leigos – como no caso de muitos bispos príncipes, na
Europa medieval (donde resulta a nomenclatura ainda actual, em alemão, do Weihbischof [bispo auxiliar],
que, em realidade, significa «bispo ordenado», para o distinguir do titular da sede, que não era ordenado),
ou então de abadessas con jurisdição episcopal (inclusive, com uso de mitra e báculo...) sobre os
presbíteros ligados à respectiva abadia.
1
que essa relação possui para a comunidade cristã e para a sua identidade – para os
leigos, portanto. De facto, há bispos e presbíteros porque são essencias para as
comunidades cristãs, não porque alguns cristãos gostam de ser e aceitam ser presbíteros
e bispos.
E essa importância está ligada à especificidade dos ministérios do bispo e do
presbítero, que poderíamos concentrar no serviço à comunidade, para que esta seja a
articulação da unidade na diversidade, na relação fundamental com a sua fonte, a sua
única cabeça: Deus, em Jesus Cristo, pela força do Espírito. Ou seja, em realidade, o
presbítero não vive para o bispo nem este para o presbítero, pelo menos do ponto de
vista fundamental. Ambos vivem para a comunidade, mesmo do ponto de vista
concreto. E ambos servem a comunidade, para que esta viva para Cristo e para o seu
envio: para a missão no mundo em que habita. Nesse sentido, a marca de toda a
comunidade cristã é o não viver para si mesma mas, a partir de um envio que lhe vem
de fora de si – mesmo que se faça ouvir apenas no seu interior –, o ser eviada para o
mundo que é diferente de si. Ou seja, a comunidade cristã está aberta, é transcendida
para os dois lados: para a origem e para a finalidade. E os ministérios do bispo e do
presbítero são ministérios de serviço à manutenção dessa abertura, sem a qual a
comunidade deixa de ser cristã e se torna num grupo meramente humano, como outro
qualquer, com melhor ou pior organização, com mais ou menos eficácia.
Se o ser do bispo e do presbítero reside nesse serviço, eles são imediatamente
para a comunidade e o mesmo acontece com a sua relação mútua. Nesse sentido, um
leigo – em representação da comunidade cristã em geral – tem tudo a ver com a relação
entre presbítero e bispo. Também do ponto de vista concreto, pois o apelo àquilo que
devem ser esses ministérios vem da própria Igreja – não do capricho de cada cristão ou
de cada comunidade, mas do próprio Deus, porque o apelo de Deus é para viver em
função da comunidade, para que esta viva em função do envio ao mundo e, desse modo,
em função de Deus e do seu projecto criador.
Pressuposto este enquadramento e, até certo ponto, a legitimação da minha
intervenção sobre este tema, convém salientar que, como se trata, aqui, de falar do
ministério presbiteral, a abordagem seguirá nessa perspectiva. Para esse ministério,
haverá que considerar, pelo menos, as seguintes dimensões da relação ao bispo
diocesano: quanto à origem do ministério (por que se é chamado a partir de outro) e
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quanto á sua finalidade (porque se é enviado para outros), o que terá implicações sobre
o modo de realização, incluindo na relação aqui em causa.
Ainda como consideração prévia fundamental, é preciso concentrar-se na
estrutura sacramental e mediadora de todo o ministério. É no dinamismo das mediações
que deve ser enquadrada a mediação de pessoas concretas e dos ministérios que
exercem. A mediação do ministério cristão não é simplesmente a do sacerdote (como o
Levita do Antigo Testamento ou o sacerdote de outras religiões), qual intermediário
quase sagrado entre Deus e o homem, mas o princípio sacramental, pelo qual um modo
de acção humana se torna símbolo-real e eficaz de uma outra acção, não humana. Assim
sendo, nem a acção do presbítero nem a do bispo, nem a mútua relação, são por si
mesmas nem para si mesmas – não são as pessoas em causa que estão em questão, mas
precisamente o que representam, o que tornam presente, Aquilo/Aquele de que são
mediação. Os ministérios ditinguem-se pelo modo dessa mediação. E todos os
ministérios estão, nesse modo de ser, relacionados uns com os outros – porque todos
são, em última instância, mediação do mesmo Deus e do mesmo projecto salvífico, no
interior da comunidade cristã e para o mundo inteiro.
A base de tudo é o sacerdócio de Cristo, tornado sacramentalmente activo no
sacerdócio comum de todos os fiéis, através do baptismo. A função do ministério
ordenado é, precisamente, a de relacionar, visivelmente, o sacerdócio comum dos fiéis
com o sacerdócio de Cristo, dado que este é o único fundamento daquele. Para que a
actividade dos fiéis não se fixe em si própria e no emaranhado imanente das suas
organizações e actividades, deverá assumir-se como participação no sacerdócio de
Cristo. Essa referência a um fundamento fora de si deve ser dada visivelmente, isto é,
sacramentalmente, ou seja, numa mediação específica. É essa, como vimos, a função do
ministério ordenado.
E porque o sacerdócio de Cristo se orienta para a unidade dos humanos com
Deus e entre si, então o serviço eclesial que corporiza a relação a esse sacerdócio fontal
é um serviço da unidade.
É enquanto serviço à identidade cristã da comunidade – do secerdócio comum
dos fiéis – e enquanto serviço à unidade da comunidade cristã, e mesmo de todos os
humanos, que o ministério presbiteral se deve relacionar com o ministério episcopal,
pelo menos nas dimensões acima referidas. Considerar essa relação fora do horizonte
destas características básicas do ministério é desviá-la do essencial, para questões que,
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podendo ser importantes, não deixam de depender das circunstâncias pessoais e sócioculturais.
1. Origem do ministério
A primeira mediação ministerial na Igreja foi, sem dúvida, a dos apóstolos2. A
fundamentação dessa função primordial reside no testemunho da Ressurreição e na
prática do seguimento, núcleos do kerigma inicial. Porque o primeiro ministério – e
todo o ministério – assenta nesse testemunho e nessa prática, que são fonte da fé e, do
mesmo modo, fonte da vida comunitária (da communio) e fonte do envio (da missio) –
ou seja, fonte da Igreja.
Outros ministérios, com saliência para o dos diáconos, aparecem já
testemunhados no Novo Testamento. Nesse contexto surge também o ministério dos
episcopoi, que não era muito diferente do dos presbyteroi, ambos correspondendo ao
governo ou à liderança colegial das comunidades.
Só mais tarde – seguindo uma linha ministerial referida à prática do apóstolo
itinerante, fundador de comunidades e garantia da relação dessas comunidades com a
Igreja universal – é que se faz a ligação explícita do ministério do episcopos com o dos
apóstolos – dando-lhe, assim, um estatuto único e fundamental na comunidade eclesial
– fazendo derivar o ministério do presbítero mais deste ministério episcopal que da
comunidade propriamente dita e do seu governo colegial. A dimensão do governo ou
liderança interna da comunidade cede espaço à dimensão da representação da
verdadeira fonte e identidade dessa comunidade. Ou seja, tornou-se cada vez mais
importante (já nas denominadas Cartas Pastorais e devido ao aumento de desvios
doutrinais), para a salvaguarda da identidade cristã das comunidades, a relação à
tradição apostólica, garantida pelo bispo. Nesse sentido, o ministério do presbítero
passou a ser entendido como mediação in loco desse ministério episcopal (já em Inácio
de Antioquia, por exemplo), estando dele intimamente dependente e, por isso,
constituindo garantia de fidelidade da comunidade à sua identidade cristã, pela relação
ao primordial garante humano visível dessa identidade, que é o bispo. Longe ficou a
ideia do grupo dos episcopoi e dos presbyteroi como grupo coordenador da vida de uma
comunidade fundada por um apóstolo itinerante e em relação viva com ele.
2
Para o que se segue, ver: Cf.: J. BLANK, Priester/Bischof, in: P. EICHER (Ed.), Neues Handbuch
theologischer Grundbegriffe, vol. 3, München: Kösel 1985, 417ss; K. BERGER / W. BEINERT, Episkopat,
in: K. RAHNER (ed.), Herders Theologisches Taschenlexikon, vol. 2, Freiburg i. Br.: Herder, 1972, 135141.
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Não interessa, aqui, discutir qual o modo mais adequado de compreender estes
ministérios e a sua relação. Aliás, penso que poderíamos conjugar um e outro modos,
sem termos que os assumir como alternativa. De facto, na Igreja pós-apostólica torna-se
cada vez mais importante uma mediação visível da apostolicidade, para evitar a
fragmentarização sectária da Igreja; por outro lado, a base da vida cristã é a
comunidade, com os seus carismas, entre os quais se salientam os que passaram depois
a ser assumidos como ministérios ordenados.
Mas, se são ordenados, quem assume o papel mediador ou sacramental de
ordenante? Certamente, o ministério que torna presente e visível a apostolicidade –
porque é o ministério que garante a relação à fonte, ao kerigma originário, ao anúncio
da boa nova e do próprio Cristo, garantindo a relação ao testemunho originário e fontal.
Assim sendo, o episcopos torna-se o minitério da relação à origem e da unificação de
todos, na relação a uma mesma e única origem. Passa a ser o vigilante, enquanto
governante e enquanto responsável pela correcta identidade cristã de todos.
Nem sempre isso se torna claro, no modo actual de acesso ao presbiterado. É
certo que a palavra final cabe ao bispo diocesano, representando esse facto o
chamamento que precede a decisão. Mas tudo parece concentrar-se na decisão do
candidato, como se o presbiterado resultasse simplesmente e em absoluto de uma opção
pessoal. O modelo, segundo o qual o bispo escolhia, nas comunidades, alguém para ser
ordenado presbítero, interpelando-o surpreendentemente a tal, acabou por ser ofuscado
com a orientação, para o presbiterado, já dos adolescentes que entravam para o
seminário menor. O presbiterado assume, aí, muito mais a aparência de um trajecto de
iniciativa pessoal, com uma finalidade pessoal de auto-realização, que apenas precisa de
uma confirmação ou autorização, da parte do bispo – e que, em muitos casos, nem
precisaria de uma comunidade real para ser o que é.
Nesse sentido e para recuperar com clareza o facto de se tratar de um
chamamento, um apelo que o próprio Deus dirige, através das necessidades da
comunidade e por mediação do ministério do bispo, não será aconselhável que os
seminários actuais sejam, cada vez mais, espaços e tempos de formação cristã e
discernimento, para todos os cristãos, a partir de cujo contexto a Igreja diocesana,
representada no seu bispo, poderá chamar alguns para o presbitério, eventualmente não
todos? Não tornaria isso mais visível o facto de o presbítero responder a uma vocação
de Deus – não dele – mediada pela comunidade eclesial, mais do que a um projecto de
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vida simplesmente pessoal? E não se adequa isso mais a um situação em que os
seminários menores já não parecem viáveis? Há já dioceses onde o «recrutamento» de
seminaristas maiores se faz, sobretudo, a partir de escolas católicas orientadas para uma
formação vasta, também cristã, dos seus alunos, sem específica e explícta orientação
para o presbiterado. Ou então, a partir do interior da vida das paróquias, que são escolas
de formação cristã e onde alguns cristãos podem ser chamados, literalmente – podendo
responder positiva ou negativamente?
Convém ter noção de que a estrutura da origem do ministério numa alteridade
precedente – aquele que chama e envia – não se aplica, apenas, à relação do
presbiterado com o episcopado. De facto, se o bispo é, para o presbítero, a presença
visível de um chamamento que o precede e o envia, originando o seu ministério, esse
chamamento vem do próprio Deus, em Jesus Cristo. Nesse sentido, também o ministério
episcopal está orientado para uma origem que o precede. Por isso, o bispo não é, em si
mesmo, princípio da Igreja e do ministério. Ele está, simplesmente, ao serviço da
visibilidade desse princípio. E ele próprio terá uma referência visível a essa origem
anterior a si mesmo: precisamente a visibilidade do colégio episcopal, em certo sentido
representado visivelmente pelo bispo de Roma. E o bispo de Roma, sendo bispo
também, acolhe visivelmente a alteridade da origem do seu ministério precisamente ao
recebê-lo de outros bispos.
Interessantemente, os bispos que elegem o bispo de Roma são membros do seu
presbitério, isto é, em realidade são presbíteros. O que parece apontar para certa relação
circular, quanto à origem, entre episcopado e presbiterado. Seja como for, essa
circularidade só aparece visivelmente no caso do bispo de Roma – e de modo tão
difuso, que já nem é visível, pois os presbíteros, no caso, são todos bispos e cardeais.
No caso dos outros bispos, o episcopado recebe-se pela imposição das mãos dos outros
bispos. Esses são, pois, a presença sacramental – real-simbólica – da verdadeira origem
do ministério episcopal, que é exclusivamente Cristo.
Mas um ministério não é determinado apenas pelas sua origem, senão também,
em igual grau, pela sua finalidade, pela causa final, se utilizarmos a nomenclatura
clássica.
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2. Finalidade do ministério
A segunda questão que nos ocupa centra-se, então, na relação entre presbítero e
bispo, quanto à finalidade do ministério presbiteral. Vimos, acima, que o ministério
presbiteral, tal como o episcopal, é o ministério da unidade e da indentidade da
comunidade cristã. Ou seja, o presbítero é a incarnação sacramental visível, no seu ser e
no seu agir, da referência da comunidade a Cristo cabeça, como único fundamento da
sua existência. Tradicionalmente diz-se que ele é representante de Cristo, cabeça da
Igreja. Mas a nomenclatura da «representação» pode originar equívocos.
De facto, se consideramos que ser representante de Cristo cabeça é tornar-se
cabeça visível da comunidade, isso com facilidade levará ao absolutismo da pessoa do
presbítero, que deixará de mostrar a verdadeira e única cabeça da Igreja, fixando esse
estatuto em si mesmo. O presbítero torna-se, então, auto-céfalo, vivendo em função da
sua realização pessoal e da afirmação da sua autoridade. Com isso, nega o seu próprio
ministério, porque nega a sua finalidade. Porque o ministério é sacramental, ou seja,
aquilo que deve tornar visível é, precisamente, o facto de não ser ele a cabeça e, desse
modo, orientar a comunidade para a sua verdadeira fonte e verdadeira missão. Mas isso
só o pode realizar, se ele mesmo se orientar para Cristo, única cabeça da Igreja e, por
isso, também do ministério.
Ou seja, o presbítero não desempenhará a sua tarefa, o seu serviço, não se
adequará à finalidade do seu ministério, se não agir de modo sacramental, isto é, se não
enviar para outro que o precede, tornando eficazmente visível o facto de não ser ele que
age na comunidade e no mundo, mas apenas o próprio Deus. Ora, se continuarmos no
dinamismo sacramental, para o qual é necessário uma visibilidade que torne presente e
visível uma invisibilidade, então poderemos dizer que o modo visível de o presbítero
realizar a orientação da comunidade para a sua verdadeira fonte é na referência a
alguém que o descentraliza de si mesmo. E se esse descentramento se realizasse
simplesmente em relação à comunidade – o que é, sem dúvida, importante – correria o
risco de ser mera extensão dos desejos e dos mandatos da própria comunidade, não
desempenhando assim o seu ministério, que é o de descentrar a comunidade de si
mesma. Como tal, o descentramento do próprio presbítero, em relação a si mesmo, torna
mais visível e eficaz o descentramento da comunidade, na medida em que se refere,
essencialmente, a um outro, que não é ele mesmo nem é a comunidade. Esse outro é
Cristo e a visibilidade dessa referência dá-se na relação ao bispo. Essa relação torna-se
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sacramento de uma outra relação mais originária, pois o bispo não é o próprio Cristo.
Desse modo, o presbítero, sendo fiel à finalidade do seu ministério, precisamente na
relação permanente com o seu bispo, ao mesmo tempo que evita tornar-se auto-céfalo,
evita também a cedência à tentação de auto-cefalia de todas as comunidades.
Mas, como vimos, o descentramento do presbítero é duplo. Porque ele refere-se
ao bispo, em nome de toda a comunidade de que é ministro; e refere-se à comunidade,
em nome do bispo, de quem é ministro também. Não porque tudo fique fechado numa
estrutura hierárquica da Igreja, que começa no bispo e acaba na comunidade – ou viceversa, consoante as perspectivas. Mas porque esse é um dinamismo sacramental, que
representa visivelmente a verdadeira referência de todos – a referência a Cristo. Assim,
o bispo é, para o presbítero e, por este, para a comunidade, a presença da referência a
Cristo, como verdadeira fonte da Igreja; e a comunidade é, para o presbítero e, por este,
para o bispo, a referência a Cristo, como seu corpo vivo, animado pelo Espírito. Assim,
um bispo e um presbítero que não sejam para a comunidade, não são para Cristo, mas
para si mesmos. E uma comunidade sem referência a um presbítero e ao bispo, também
não é para Cristo, mas para si mesma. É nessa medida que o presbítero serve a
comunidade, relacionando-se com o bispo; e, em certo sentido, serve o bispo,
relacionando-se com a comunidade, pois permite ao bispo a realização do seu
ministério, que é servir Cristo na Igreja e a Igreja em Cristo, não directamente e apenas
o governo dos presbíteros.
Ou seja, quanto à finalidade do ministério presbiteral, o bispo é a principal
garantia de que esse ministério seja exercido na fidelidade à sua identidade. A principal
perversão dessa identidade seria, precisamente, orientar a vocação presbiteral para o
próprio presbítero, que se fixaria egoisticamente no seu ministério como simples
caminho para auto-realização e auto-salvação individuais. Mas isso seria a negação do
próprio ministério, que só é quando for serviço.
Mas também poderíamos dizer que, pelo menos nas circuntâncias concretas em
que vivemos, o presbítero também é, para o bispo, a possibilidade de realização do seu
ministério. Isso, não propriamente porque, desse modo, o bispo terá presbíteros para
governar, mas antes porque o presbítero permite que o ministério episcopal não se
perverta, também, em auto-afirmação autoritária de si mesmo, descentrando-o de si, em
direcção à comunidade eclesial e, por essa via, em direcção a Deus, pela Igreja. Porque
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a Igreja, no seu todo, é a principal mediadora de Deus, mesmo para os seus membros,
incluindo os ministérios ordenados.
Um bispo sem presbíteros, ou tem uma relação directa com a sua comunidade
diocesana, ou é uma espécie de bispo sem Igreja – isto é, sem razão de ser; um
presbítero sem bispo não passará de um senhor absoluto ou de um escravo dominado
por eventuais forças internas da sua própria comunidade. O bispo liberta o presbítero,
para ser ele mesmo, sendo totalmente o seu próprio ministério; o presbítero liberta o
bispo para o seu serviço específico e, como tal, para a sua identidade. Ambos libertam a
comunidade da sua autofixação sectária e idolátrica; a comunidade liberta ambos de se
fixarem no círculo fechado de uma classe clerical auto-suficiente.
É no dinamismo permanente – por vezes carregado de tensões, como é normal –
destas múltiplas relações que a Igreja, na diversidade dos seus ministérios, é liberta pelo
Espírito para a sua própria identidade, que é a identidade de comunidade de crentes
enviados ao mundo, para anunciar e praticar a Boa Nova Salvífica. Como tal, a relação
do presbítero com o bispo é, no leque de todas estas relações, absolutamente essencial:
para ele mesmo, para o seu bispo e para toda a comunidade cristã, no interior da qual
ambos se encontram e cuja missão fundamental partilham: ser enviados ao mundo, para
que o mundo creia e, acreditando, seja salvo por Deus. Nesse sentido, todos os cristãos e
todos os ministérios da Igreja são irmãos, pois partilham a mesma identidade
fundamental: a identidade de baptizados chamados a constituir a communio eclesial,
para a missio que permanentemente nos interpela. Não somos a partir de nós nem somos
para nós – isso nos une e isso nos distingue, nas relações que estabelecemos entre os
ministérios que aceitamos incarnar.
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Presbitério e Bispo