O dilema dos valores
O caso Goodrich1
Como vimos, no final da década de 1960, a empresa B.F. Goodrich tinha um contrato
com a força aérea norte-americana para equipar seus novos aviões A7D com freios de ar
comprimido. O prazo de entrega era muito curto, mas os executivos resolveram cumprir
o contrato a todo custo.
Os primeiros testes mostraram que os freios estavam falhando. A data de entrega
chegou e os freios foram entregues assim mesmo. O avião de prova teve um acidente.
Uma investigação mostrou que as falhas do desenho original nunca foram corrigidas e
que vários engenheiros tinham falsificado os relatórios dos primeiros testes para cumprir
os prazos. O interessante é que todos eles estavam convencidos de que fizeram o que a
empresa esperava que fizessem.
The priest
Outro choque entre valores pode ser apreciado no filme The priest. Em segredo de
confissão, um padre descobre que uma garota de 14 anos vem sofrendo repetidos abusos
sexuais. E quem é o causador? O pai dela!
A dor e o medo da garota são grandes, mas, embora o sigilo confessional proíba o
sacerdote de falar ou de fazer algo, ele fica revoltado com as barbaridades que lhe
foram relatadas.
Qual a orientação a seguir? O religioso arrisca insinuações e roga ao pai para que mude
de comportamento. Este manda meter-se na própria vida! Logo depois, a mãe da garota
descobre o drama da filha e pressiona o padre para que ele a ajude de algum modo.
Preso a seus juramentos, este nada faz. A mãe, então, o amaldiçoa, predizendo-lhe os
horrores do inferno!
Aturdido pelo conflito de valores, o sacerdote fica dilacerado. Como fixar uma
precedência entre o dever do sigilo, o anseio por justiça e a compaixão pelo sofrimento
alheio? No filme, a primazia do segredo da confissão (sacramento da penitência) deixa o
padre de mãos atadas.
1
Adaptado de SROUR, Robert. Ética Empresarial. Elsevier: Rio de Janeiro, 2008. p.182-183.
1
Manville Corporation
Vejamos mais um exemplo na esfera empresarial. A Manville Corporation teve sérios
problemas com pessoas que reclamaram por terem ficado doentes após 15 ou 20 anos de
exposição aos produtos de asbesto (amianto).
As demandas alcançaram a espantosa cifra de um bilhão de dólares. Daí em diante a
empresa decidiu não mais fabricar ou vender produtos até que pudessem ser
manufaturados e usados com segurança, não só nos Estados Unidos, mas no mundo todo.
Empenhou-se em testes exaustivos e passou a colocar rótulos nas embalagens, em 12
idiomas diferentes. Todos os rótulos apresentavam um grande “C”.
Então, autoridades e clientes japoneses disseram à empresa que, se o rótulo viesse
escrito em japonês, não fariam negócio. Se fosse em inglês, ainda ia. A operação a ser
desenvolvida com o Japão representava vinte milhões de dólares e estava à mercê de
concorrentes dispostos a tudo. A Manville Corporation, todavia, não arredou pé de sua
política. Em consequência, perdeu grande parte da operação.
Aos poucos, porém, foi sendo recuperado o terreno perdido, pois os japoneses
reconsideraram sua posição e o governo japonês fez saber à Manville que admirava sua
coragem.
Vale lembrar que a postura da Manville se deveu a uma reação ao seu passado repulsivo:
ela havia ocultado deliberadamente de seus empregados os riscos de se trabalhar com o
asbesto.
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