Não sou este
tipo de garota
Shiobhan Vivian
Não sou este
tipo de garota
Tradução
Marsely de Marco Martins Dantas
Agradecimentos
O
brigada a David Levithan e a todos da Scholastic, Rosemary
Stimola, Nick Caruso, Brenna Vivian e a todos do incrível clã
da Vivian, Emmy Widener, Lynn Weingarten, Caroline Hickey, Lisa
Greenwald, Tara Altebrando, Brenna Heaps, Morgan Matson, Rachel Cohn,
e Brian Carr. Obrigada também a Andrea Mondadoro, convidando-me ao
lugar certo (sua sala de aula), na hora certa (almoço).
Prólogo
N
o primeiro dia do meu último ano do ensino médio, passei por
acaso em frente ao auditório durante a reunião de orientação aos
calouros. Dava para ver o brasão da Academia Ross gravado nos vitrais das
duas enormes portas de madeira e uma delas estava aberta. Lá dentro, havia apenas o número de alunos necessário para ocupar somente as primeiras fileiras dos assentos duros e desconfortáveis, e o vazio dava ao lugar um
ruído oco que com certeza fazia com que os calouros se sentissem ainda
menores e mais impressionados.
Foram necessários apenas três minutos para me dar vontade de gritar.
A orientação aos calouros é uma perda de tempo colossal. Ou,
pelo menos, a maneira como a escola a faz é, forçando os alunos novos
a repetir palavra por palavra o Manual de orientação da Academia Ross,
todos ao mesmo tempo, sob a orientação do conselheiro mais próximo
da morte. Não havia muitos sins no Manual de orientação da Academia
Ross. Era praticamente uma repetição de mãos, desde “não usar telefone
celular durante o horário escolar” até “não correr em ritmo inadequado
pelos corredores”. Mais da metade dos alunos lutava para ficar acordada,
enquanto o restante se concentrava em sutilmente, ou não tanto, examinar
um ao outro.
Se fosse por mim, as coisas seriam bem diferentes.
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Em primeiro lugar, separaria a orientação dos calouros por gênero.
Para os garotos, apenas uma apresentação simples, feita no máximo em
dez minutos. Na verdade, seria bem provável que a reunião de apresentação
fosse cancelada e eu apenas entregasse um comunicado. Pois havia somente
três coisas a fazer para que um garoto vivesse uma experiência de sucesso
no ensino médio: fazer a lição de casa, usar camisinha (para o caso de se dar
bem) e passar desodorante nos sapatos de couro da escola todas as noites, pois
o suor dos pés junto com as meias de poliéster têm um efeito inacreditável
no nível de popularidade.
Obviamente, as coisas seriam mais complicadas para as garotas.
Faria uma orientação no estilo daquelas palestras sobre dirigir
embriagado que assustam logo de cara, em que os policiais estacionam um
carro destruído no gramado da escola e um palestrante conta como matou
acidentalmente seu melhor amigo ao voltar para casa depois de uma festa.
Exceto que, em vez de comentar sobre os perigos de dirigir embriagado,
arrumaria um palestrante que falasse francamente sobre o perigo dos
garotos do ensino médio.
Conheço uma garota que seria perfeita para isso. Ela estava na minha
classe no primeiro ano. Era legal.Amigável até mesmo com os alunos esquisitos.
Popular, mas não a ponto de deixar os demais enciumados, e bonita de um
jeito que facilmente passaria despercebida. Poucas semanas após começar o
ensino médio, pagou o preço da popularidade. Arrumou um namorado.
Chad Rivington tinha quase o dobro da sua altura — um tamanho
intimidador até ser visto se enfiando em um fusca azul-bebê enferrujado,
caindo aos pedaços que ele amava mesmo assim. Ele era um veterano com
notas decentes, bons dentes e ocupava uma posição no time de basquete da
escola. Em outras palavras, era um tesouro para qualquer garota, de qualquer
ano, especialmente para uma caloura.
Eles se conheceram na enfermaria — ela com enxaqueca, ele alardeando
um enorme corte de papel na esperança de fugir da aula de espanhol II. No
fim da semana, já eram um casal. No final do mês, eram o casal.
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É claro que tinham intimidade. Mas ela ia com calma, preferindo trocar beijinhos doces durante caminhadas sobre as pilhas de folhas secas de
outono em vez de partidas de luta livre quase sem roupa no apertado banco
de trás do carro de Chad.
No aniversário de dois meses de namoro, Chad pediu que ela cabulasse
a aula de álgebra para encontrá-lo no vestiário masculino para uma comemoração secreta. A garota jamais havia feito algo do tipo, mas parecia uma
ousadia divertida e excitante. Embora nenhum dos dois ainda e tivesse dito
“Eu te amo”, ela sentia isso toda vez que Chad entrelaçava seus dedos aos
dela. Uma semana antes, depois de tomar suas primeiras três cervejas em
uma festa, ela quase deixou escapar. Mas decidiu guardar para uma ocasião
especial: o aniversário de dois meses.
Depois de olhar por trás dos ombros, a garota entrou de fininho no
vestiário masculino e foi na ponta dos pés até a última fileira de armários.
Chad a cumprimentou com um sorriso. Um pouco depois, antes mesmo
de dizerem “oi”, já estavam se beijando. Parecia que o uniforme escolar
dela tinha sido feito sob medida para um encontro apressado como aquele.
As mãos dele deslizavam por ela toda.
Todinha.
E pela primeira vez no relacionamento deles, ela não se preocupou
com o local que as mãos percorriam. Era romântico e sexy, e tudo dentro
dela estava derretendo. Chad era mais experiente nessas coisas, e ela finalmente permitiu-se curtir o momento.
Eles teriam ido até o fim se estivessem no quarto de Chad, ou até
mesmo em seu carro. Mas estavam no vestiário fedorento e o fim da aula
de ginástica estava se aproximando. E a cada passo ouvido, assobio ou até
mesmo um ruído animado que penetrava no ambiente, o perigo de ser
descoberta invadia a névoa de insensatez da garota.
— Não posso — disse subitamente. — Não aqui. Não agora.
Chad tentou convencê-la com palavras, com beijos. Mas agora ela não
estava mais se derretendo por dentro, pelo contrário. Afastou-se da boca de
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Chad e disse que era melhor voltar para a aula.
O rapaz ficou muito desapontado — uma postura familiar em seus
últimos encontros, só que um pouco mais enfática dessa vez. Ele implorou
que ela ficasse. Afinal de contas, ela mal havia tocado nele e ele estava muito
excitado. Nada mais justo do que terminar o que haviam começado, certo?
Ela insistiu que tinha de voltar à aula de álgebra. Suavemente.
Desculpando-se. E quando percebeu como Chad continuava chateado,
inclinou-se para beijá-lo. Um beijinho na ponta do nariz, para deixar tudo bem.
Ela sentiu três palavras querendo sair de sua boca, prontas para serem ditas.
Mas Chad virou o rosto.
A garota se sentiu mal ao voltar apressada para a aula. Sentiu-se ainda
pior depois dela, quando viu alguns rapazes tirando sarro de Chad perto da
árvore dos fumantes. Ele foi para o carro sem nem mesmo acenar para ela
com a cabeça.
A garota não sabia que a inabilidade de Chad transar com uma caloura
tinha se tornado a piada do momento. Uma responsabilidade social. Até
mesmo o próprio Chad brincou sobre isso durante semanas, pensando
que seus amigos iam dar um tempo se ele participasse da brincadeira.
Então, ele reclamava por “ficar na mão” após levá-la de carro para casa,
ou imitava estar transando com a porta do armário, zombando da própria
frustração depois que a garota o abraçava de manhã ou enquanto estavam
no pátio. Coisas assim. Mas a participação de Chad apenas incentivava os
comentários dos demais. A provocação ficava cada vez menos engraçada e
cada vez mais pessoal.
Foi um dos amigos de Chad que sugeriu a pegação no vestiário. “Use o
aniversário”, disse o cara. “Não tem como dar errado”. Para Chad, todo mundo
na escola estaria com os olhos grudados no relógio durante a quinta aula.
Todos esperavam que ele fosse conseguir. E quando apareceu decepcionado,
inventou uma desculpa que o isentava totalmente de culpa.
Quando a garota chegou na escola no dia seguinte, os sussurros a
atingiam como flechas envenenadas em suas costas. Garotos que tinham
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sido gentis com ela em festas, veteranas que tinham acabado de aceitá-la
no grupo, agora pareciam distantes e reticentes. Até mesmo alguns de seus
próprios colegas, aqueles que ela havia ajudado a adentrar no exclusivo
mundo escolar superior, de súbito passaram a ignorá-la. Ela não conseguia
entender. Pelo menos não até ver Chad, que olhou na outra direção, enfatizando sua culpa, para que não tivesse de falar com ela.
Em seguida, por onde ela passava, todos começaram a fungar. Sempre
que ela ia para qualquer lugar, alguém fungava. Não parou para pensar no
assunto. O tempo frio estava no ápice. Mas a ação ficava se repetindo. Funga.
Funga. Funga. Onde quer que ela estivesse.
Ela só percebeu o que estava acontecendo na hora do almoço, quando
um dos amigos de Chad foi até o quadro branco e escreveu o nome dela ao
lado da entrada de iscas de peixe.
“Ela me deu nojo”, imaginava Chad dizendo. “Quase morri de rir, ela
fedia tanto.” Tão idiota. Tão impensado. Tão mentiroso. Mas foi a gota d’água.
Chega. Era o fim. Para ela era o fim.
A onda inicial de provocação foi diminuindo depois de alguns meses,
como qualquer outra frase ou slogan de efeito. Chad nunca se desculpou. Talvez tivesse limpado a consciência admitindo para alguém que tinha apenas
feito uma piada ridícula, mas ele não disse nada à garota. E outra pessoa passou a ser alvo das fofocas quando uma novata supostamente participou de um
swing[1] no chuveiro da casa de seus pais com dois colegas de classe de Chad.
Mas para a garota aquilo provocou mudanças. Em forma de andar, na
frequência com que levantava a mão na classe, no que ousava colocar em
seu prato no almoço. Ela nunca mais foi a mesma novamente. Não mesmo.
Era a isca de peixe.
É por isso que confiar em garotos era igual a beber e dirigir. Claro, alguns correm o risco. O fato de se tomar uma ou duas cervejas nunca parece
perigoso no começo.
1. N. do T.: Atividade sexual de que três pessoas participam.
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Mas, para mim, era óbvio: por que alguém iria querer correr o risco?
Então, era isso. A orientação tinha de ser algo desse tipo. Tínhamos de
informar coisas úteis em vez das regras de manutenção de armário. Ouvir
uma história como essa era tão importante quanto saber seu tipo sanguíneo, ou se você é alérgico a picadas de insetos. Era o tipo de informação que
poderia salvar a vida de uma garota.
Capítulo 1
E
ra o começo do terceiro ano do ensino médio, e minha amiga Autumn
estava se sentindo nostálgica. Ela tirava fotos enquanto pegávamos
nossos horários no escritório de orientação pela última vez. Dizia ser
intervenção divina o fato de que, embora tivéssemos duas aulas comuns, as
demais eram perto o suficiente para que sempre pudéssemos andar juntas.
Ficava falando do primeiro ano como se este tivesse ocorrido há décadas.
Até mesmo a minha aparência depois da aula de natação — cabelos
molhados como se fossem compridos blocos de gelo marrom, água da
piscina derretendo sobre o meu casaco azul-marinho — conseguia deixá-la
melancólica.
— Você tá com cheiro de verão — disse, recostando a cabeça em meu
ombro. — Queria que ainda fosse verão.
Virei-me e cheirei meu casaco. Apesar de ter mandado lavá-lo a
seco um pouco antes do início das aulas, já estava com cheiro de cloro,
então eu o tirei e o amarrei na cintura. O técnico Fallon nunca dava
tempo suficiente para o banho após a aula. Preferia nos fazer sofrer em
mais uma volta de nado borboleta do que nos dar 30 segundos a mais
para lavar a cabeça. Autumn tinha muita sorte por ter machucado o
ombro há alguns anos e possuir um atestado médico que a mantinha
fora da piscina.
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— Hei — disse. — Você pode me fazer uma trança quando chegarmos
na sala? — Odiava o jeito que meu cabelo secava depois da aula de natação,
formando vários nós idiotas.
O cabelo de Autumn era na altura do ombro e dividido em duas metades loiras perfeitamente simétricas. Dava para fazer a risca sem nem
mesmo olhar no espelho.
— Vem cá — disse ela, tirando a minha faixa de cabelo de casco de tartaruga antes de ficar bem atrás de mim —, vou fazer agora.
Foi assim que passamos pelo corredor dos calouros; eu guiando
Autumn pelo meu cabelo, como se fôssemos elefantes. Mantive a cabeça
baixa, fazendo-lhe perguntas sobre as minhas anotações de filosofia oriental
enquanto ela continuava o trabalho. Sentia minha cabeça sendo apertada
a cada trançada. Nosso primeiro teste seria em 15 minutos. Tínhamos
estudado pelo telefone na noite anterior, então era mais uma revisão, mas
Autumn ainda estava errando algumas.
— Não consigo acreditar — disse Autumn parando de andar, só que eu
não percebi até minha cabeça ser puxada para trás. Ela suspirou e perguntou: — Nós éramos assim tão jovens?
Dava para perceber que Autumn estava tentando absorver toda a
alegria e as possibilidades que exalavam dos calouros à nossa volta. Ela
estava completamente enfeitiçada pela imbecilidade deles, pela pele ruim
e a estranha algazarra. Por fim, abriu um sorriso tão grande que o canto dos
olhos ficou enrugado.
Também sorri. Só que não estava relembrando o passado de tal forma
que precisava me apegar a cada minuto do terceiro ano. Se as universi
dades dos nossos sonhos nos aceitassem, Autumn e eu iríamos viver em
lados opostos do país em onze meses. A realista dentro de mim tinha de
aceitar que as coisas não seriam mais as mesmas… ou pelo menos não seriam
nem de longe tão boas quanto eram agora. Autumn faria novos amigos. E eu
tinha fé de que também faria. Mas não era uma perspectiva que me deixava
particularmente animada.
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— Nossa! — ela sussurrou. — Natalie, veja!
Autumn apontou em direção a uma garota cujo corpo era cheio de
curvas e seus cabelos encaracolados. A moça estava ajoelhada no chão,
tentando pegar os livros no meio da bagunça do seu armário. A saia de
preguinhas do uniforme caía para trás como se fosse o sino da igreja tocando.
Um pequeno triângulo lilás mal protegia seu traseiro de todo o corredor.
Apesar de não estar escrito em nenhum lugar do Manual de orientação
da Academia Ross, ainda parecia que toda garota da escola sabia que era
necessário usar algo não tão revelador por baixo da saia do uniforme.
Bermudas, shorts, leggings ou no mínimo uma calcinha moderna. Qualquer
um sabia disso, menos essa pobre caloura sem noção.
Fiquei pensando se devia ou não dizer alguma coisa. Mas só por um
segundo, pois, se eu tivesse um pedaço de espinafre nos meus dentes, ou
se meu zíper estivesse aberto, teria preferido que me contassem a ter feito
papel de boba. Momentos constrangedores tinham uma vida útil surpreendente na escola. Em um minuto você é uma garota normal, e no outro você
será conhecida como “bunda de fora” pelos próximos quatro anos. Intervir
era a coisa certa.
Dei meu caderno para Autumn segurar. — Releia minhas anotações
sobre o Método Socrático. Eu já volto. — Segui pelo corredor, minha trança
se desfazendo a cada passo.
Dois calouros já haviam notado o show gratuito e não paravam de
olhar para a bunda da moça. Olhei feio para eles e fiquei bem na frente
para bloquear a visão.
— Ei — disse para a garota. — Posso falar com você um segundo?
Ela se virou para olhar para mim, seu rosto bronzeado parecia um
pouco mais claro ao redor dos olhos, provavelmente por ter tomado sol
usando enormes óculos escuros. — Hum. Claro. — Seu tom era amigável e
ao mesmo tempo desconfiado.
— Sou Natalie Sterling — disse, achando que era melhor me apresentar
primeiro. — Qual é o seu nome?
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Ela piscou os olhos um pouco e depois se levantou. Algo que, para
o meu grande alívio, resolveu imediatamente o problema da sua escolha
infeliz de calcinha.
— Espera um pouco, você é Natalie Sterling?
— Hum. Sim — disse e então passei a ter um tom desconfiado.
Seus olhos castanhos eram grandes e cheios de expectativa, brilhando
como a sombra que havia passado. Ela esperou, não muito pacientemente,
que eu a reconhecesse. — Você não sabe quem sou eu, sabe? — Seu jeito não
parecia bravo. No máximo, animado.
Minha mente passeou pelos rostos do meu curso de verão preparatório para o SAT[1]. Mas era óbvio que a garota era caloura, então não fazia
sentido algum. Dei de ombros como que me desculpando. — Tem certeza
de que não está me confundindo com alguém?
— Tudo bem — ela disse fechando os olhos e balançando a cabeça
para lá e para cá algumas vezes, bem rápido. — Não acredito que vou fazer
isso — e então, depois de respirar fundo, começou uma dancinha, bem ali,
na frente do armário.
Suas pernas bronzeadas chutavam o ar como se fossem tesouras, e os
sapatos batiam com tanta força no piso impermeável que todo mundo começou
a prestar atenção. Minha própria deficiência em relação à dança fazia com que
eu não percebesse se ela era boa ou apenas muito esforçada. De qualquer forma,
ela se agitava tão fervorosamente que seus cachos saltavam como se fossem
milhares de pequenas molas. Depois de um giro final, que honestamente não
poderia ter sido mais rápido, abriu os braços e exclamou “Riverdance”[2]! Só
que disse isso com um terrível sotaque irlandês, parecendo mais Rivadaaaans!
Foi aí que me lembrei.
1. N. do T.: SAT (Scholastic Aptitude Test) — teste de avaliação de conhecimento exigido
para entrar em curso superior nos EUA.
2. N. do T.: Riverdance (que em português seria uma aglutinação de “dança do rio”)
é um espetáculo de sapateado irlandês, reconhecido pelo rápido movimento de
pernas dos dançarinos e aparente imobilidade da cintura para cima.
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— Spencer Biddle? — A garota de oito anos que eu tomei conta durante
um verão inteiro quando eu tinha doze anos? Que não usava o banheiro do
andar de cima se não tivesse alguém do lado de fora da porta, que só comia
macarrão com queijo se este último fosse laranja, que dava o maior show
de sapateado bem no meio da sala de estar?
Seu peito pulsava enquanto ela tentava recuperar o fôlego.
— Honestamente, estou aliviada por você não ter me reconhecido.
Faz… o quê? Quase seis anos? É melhor que eu esteja bem diferente mesmo.
— Não se preocupe — disse, olhando bem para a maquiagem dela e
imaginando seus cachos se transformando no rosto de uma garotinha de
cabelos encaracolados despenteados. — Você está bem diferente.
Spencer tirou meus cabelos molhados do ombro. — Eu mal te reconheci também. Quer dizer, olhe como você está grande e linda! — Era um
elogio estranho, do tipo que a tia Doreen ou a vovó fariam. Não de alguém
três anos mais nova que eu. — Sério, Natalie! — ela continuou —, você foi a
melhor babá que eu tive. Lembro-me de uma vez que você ameaçou fazer
o Eddie Guavera comer pedra quando ele fez xixi nas flores que havíamos
acabado de plantar ao redor da caixa de correio.
Questionei: — Fiz isso mesmo?
Spencer riu da mesma forma que costumava rir, soltando sopros
silenciosos de ar que saíam do nariz como fogo rápido. — Todos os garotos
da vizinhança tinham medo de você. Era demais!
— A sua família não tinha mudado para St. Louis?
— Mudamos. Quando a minha mãe casou de novo. Mas ela se divorciou do meu padrasto, então voltamos este verão — concordei com a cabeça,
apesar de achar estranho estar ali falando sobre divórcios com a Spencer.
Estava certa que nossa última conversa tinha incluído apenas a minha opinião de que a pizzaria Lucky Charms tinha os piores recheios.
— Alugamos um apartamento em frente ao Liberty River. Não é nada
mau. Meu quarto tem armários enormes, cheios de espelhos e eu posso
praticar a minha dança.
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— Você dança na frente de qualquer coisa! Nas propagandas de televisão e também naquelas campainhas de vento que a sua mãe costumava
pendurar na frente da varanda. De repente, comecei a lembrar de como era
irritante, na verdade, do ponto de vista de uma babá. Eu mal conseguia fazer a Spencer ficar sentada.
O sorriso iluminado de Spencer transformou-se em uma ruga.
— Espera aí. Se você não me reconheceu, por que veio falar comigo então?
Tirei um fiapo de algodão da minha saia e de repente desejei que não
soubesse a cor da calcinha da Spencer. Aproximei-me o suficiente para sentir o perfume de algodão doce que exalava dela e sussurrei:
— Enquanto você estava agachada, dava para ver tudo. E tinha uns
rapazes apreciando a vista.
Ela abriu uma boca tão enorme que dava para ver todas as obturações. — Você tá brincando?
Balancei a cabeça negativamente. Apesar de se sentir constrangida,
Spencer conseguiu sorrir. — Sabe de uma coisa? Aqui na Ross também tem
calças femininas, mas suas pregas são horríveis e a cor parece de papelão. Na
verdade, o melhor a fazer é vestir alguma coisa embaixo da saia — dei a ela
um leque de opções, até levantei minha própria saia um pouco para mostrar meus shorts de lycra azul-marinho que eu sempre usava. Até mesmo
por cima da meia-calça no inverno.
Spencer concordou, mas começou a olhar por detrás de mim, tentando
entender quais eram os garotos que estavam olhando para ela.
O sinal tocou. Precisei correr para a classe para que pudesse me organizar e me concentrar antes da prova. — Com certeza nos veremos por aí,
Spencer. E se tiver alguma dúvida sobre a escola, fale comigo.
— Pode acreditar, definitivamente planejo explorar o fato de ser amiga
de uma veterana! Todos os outros calouros vão morrer de inveja.
Sabia que isso não era bem verdade, mas ouvir Spencer dizer fez com
que eu me sentisse muito bem e saí apressada pelo corredor para evitar ser
atropelada pelo time de futebol inteiro. Connor Hughes, alto e magro, com
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seu cabelo castanho ondulado encostado no colarinho da camisa, liderava
o grupo de rapazes. O livro de jogadas estava em suas mãos e seus colegas
de equipe orbitavam ao seu redor.
Autumn fechou meu caderno e o devolveu para mim. — Não sei onde
você arruma coragem, Natalie. Jamais conseguiria falar uma coisa dessas
para uma desconhecida.
Ergui a sobrancelha. — Ela não é desconhecida.
Contei a história para Autumn, e ela olhou para o corredor. — Então,
espera aí. Você ficou tão entretida conversando com a Spencer que se esqueceu de falar para ela sobre a calcinha?
Virei-me e vi Spencer agachada novamente, sua bunda estava à mostra para quem quisesse ver.
Os olhos dos jogadores de futebol que por ali passavam viraram para
a esquerda, como se Spencer tivesse emitido um som agudo, em uma frequência que só os garotos conseguissem detectar. Um deles, Mike Domski,
tirou a prancheta das mãos de Connor e a abanou com toda força na direção
do traseiro de Spencer, tentando fazer um vento forte o suficiente para que
a saia dela se levantasse ainda mais. Os demais jogadores se amontoaram
uns sobre os outros num ataque de riso.
Uma sensação de amargor fez com meu estômago contraísse.
Spencer se virou e recostou no armário. Um olhar de constrangimento
fingido, de falsa modéstia surgiu em seu rosto. O mesmo olhar que tinha
me convencido há um minuto.
— Parece que a Spencer cresceu e se tornou uma dama.
É claro que era para ser uma piada, acho. Só que nenhuma de nós
achou graça.
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