OPINIÃO / OPINION
Morte e finitude em nossa sociedade: implicações no ensino
dos cuidados paliativos*
Death and finitude in our society: implications in palliative care education
Fermin Roland Schramm
*Apresentado na II Jornada de cuidados paliativos e dor: corpo mente e alma em foco.
INCA/HC1, Auditório Moacyr Santos Silva, 8o andar, Praça Cruz Vermelha, 23, Centro - RJ, 25 a 27 de outubro de 2001.
PhD, Pesquisador Associado da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP-FIOCRUZ) e Consultor de Bioética
do Instituto Nacional do Câncer (INCA).
Recebido em janeiro de 2002.
INTRODUÇÃO
Para falar de como nossa sociedade
considera a questão da morte e finitude
humanas e quais implicações isso teria no
ensino dos cuidados paliativos, uma das
maneiras certamente mais legítimas e
interessantes consiste em fazer uma pesquisa
empírica sobre as percepções que as pessoas
têm dos cuidados paliativos e compará-las
com as práticas e o ensino dos cuidados
paliativos.
No entanto, pode-se proceder também de
outra maneira, começando pelo esclarecimento
conceitual dos termos envolvidos no debate
emergente sobre os cuidados paliativos, ver
quais são os vínculos existentes entre os
sentidos de cada termo e ver qual tipo de
narrativa eles permitem ter.
Embora ambos os métodos sejam
igualmente legítimos, considero a operação
de esclarecimento dos termos condição
necessária para um discurso correto sobre o
ensino dos cuidados paliativos visto que
permite em princípio evitar mal-entendidos
sobre o que se está falando, sobre o que se
pretende fazer e para quê.
Aqui adotarei o segundo caminho pois é
com ele que lido melhor devido à minha
formação de aprendiz de filósofo, o qual –
como ensinava Deleuze 1 – deve tentar
transformar as perguntas formuladas pelos
outros em suas próprias perguntas, formuladas
em sua linguagem própria, porque somente
assim terá alguma chance de dizer algo de
sensato e, eventualmente, de novo, ao invés
de devolver ao interlocutor suas perguntas
empobrecidas e distorcidas.
Para tanto iniciarei apresentando os
conceitos de morte e finitude, articulados
discursivamente com os outros dois conceitos
– de vulnerabilidade e proteção - que
considero necessários para dar o sentido pleno
aos cuidados paliativos.
MORTE, FINITUDE,
VULNERABILIDADE E
PROTEÇÃO
Como ensinam as ciências da vida e da
saúde e a reflexão filosófica e religiosa, mas
também e sobretudo a própria experiência
cotidiana: morte, finitude e - acrescentaria vulnerabilidade são características intrínsecas,
ou ontológicas, dos sistemas vivos, os quais
são sistemas jogados no Mundo e situados
no Tempo, submetidos portanto a um
processo irreversível que inclui o nascer, o
crescer, o decair e o morrer.
Trata-se de um fato irrefutável perante
nossos sentidos imediatos: todos os seres vivos, inclusive os humanos, morrem. Morrem
porque são vivos, porque como sistemas
irreversíveis são “programados” biologicamente
para morrer e, talvez, devam morrer para que
outros seres da mesma espécie possam vir a
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ser. Mas nossos sentidos podem nos trair: afinal
continuamos a “perceber” o sol nascer embora
saibamos pelo menos desde Copérnico que em
realidade não é assim! Por isso, não podemos
ter certezas acerca das crenças sobre nossa
morte nem sobre uma eventual imortalidade
de nosso eu que, evidentemente, não entrega
os pontos tão facilmente. De fato, a ciência
teve poucas certezas ao longo de sua breve
história, sendo que hoje ela não tem mais
nenhuma e – como ensinou o pai da filosofia
Sócrates – se a filosofia é uma sabedoria ela só
permite ter uma única certeza, consistente em
saber que de fato não sabemos nada.
Sendo assim, vida e morte devem ser
consideradas como as duas faces inseparáveis
(embora experiencialmente distinguíveis) da
existência humana, durante a qual vida e morte
são mediadas pelas situações de finitude
chamadas vulnerabilidade. Por isso, para um
dos homens mais poderosos de Roma, o
estóico Sêneca (1 a.C. – 65 d.C.), viver é
aprender a morrer; para o filósofo céptico
francês Michel de Montaigne (1533 – 1592)
filosofar é aprender a conhecer o aproximarse da morte [representado pela velhice] e para
o filósofo existencialista alemão Martin
Heidegger, que foi um dos que mais
meditaram sobre o assunto em nosso século,2
vivenciar o processo de viver e morrer, na
condição de vulnerabilidade, faz parte da
experiência humana enquanto ser-aí (Dasein),
isto é, de ser jogado no mundo e submetido
aos efeitos devastadores do tempo, o que
tornaria todo ser vivo humano de alguma
forma consciente de ser um ser-para-a-morte.
Mas quando referimos esta situação da
condição humana, definida pelos termos de
vida, morte, tempo e vulnerabilidade aos
pacientes ou usuários que são os sujeitos,
objetos de nossa vocação e/ou de nosso ofício
enquanto profissionais da saúde, aparece
inevitavelmente um outro termo: a proteção,
a qual pode dar sentido e legitimidade ao nosso
agir profissional enquanto princípio ético de
qualquer prática de cuidado.
Em outros termos, por ser lógica e
discursivamente implicado pelo conceito de
vulnerabilidade ou, melhor dito, de respeito
da vulnerabilidade do outro, a proteção
constitui em meu entender o primeiro
princípio moral (no sentido do mais antigo,
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do mais importante e do mais geral) que
orienta nosso agir com e sobre nossos
semelhantes e todos os seres e entes que são
objeto de nossa consideração, apreço e amor.
De fato, o sentido de “proteção” é o primeiro
sentido da palavra grega ethos, encontrado
pelos filólogos, da qual deriva nossa palavra
ética que na origem (i.e. durante a época
homérica no VIII s. a.C.) indicava a guarita
para proteger os animais contra seus
predadores, passando em seguida a significar
o abrigo para os humanos se protegerem contra as ameaças externas. Mais tarde (V s. a.
C.), com um sentido diretamente vinculado
ao primeiro, ethos veio a indicar os costumes
ou hábitos aceitos, aprendidos e incorporados
pelas pessoas enquanto considerados
necessários para o correto (= justo) exercício
da cidadania e para garantir a convivência
ordenada e pacífica entre cidadãos, tornandose portanto uma forma de proteção contra os
maus costumes, considerados suscetíveis de
criar a anomia social. Por fim, com
Aristóteles (IV s. a.C.), ethos passou a indicar
uma característica da personalidade, vindo
mais tarde a significar, com o iluminista Kant
(séc. XVIII), uma qualidade intrínseca do
agente moral e abrindo o caminho para o
exercício da autonomia pessoal, considerada
evolutivamente o estágio da personalidade
eticamente madura.
COMO LIDA NOSSA
SOCIEDADE COM TUDO ISSO?
Apesar desses vínculos conceituais entre
vida, morte, finitude, vulnerabilidade e
proteção, existem dificuldades sérias em
definir diretamente a morte visto que, em
condições normais, não temos experiência
direta dela. Com efeito, se é relativamente
fácil ter uma experiência indireta da morte
graças à morte dos outros, é quase impossível
pensar na própria morte sem pensar também
na própria vida e/ou em alguma vida após a
morte. Em outros termos, a morte enquanto
tal é praticamente impensável e quando, por
alguma razão de força maior, ela se impõe à
consciência e à elaboração, isso só se dá com
muito sofrimento, em situações de
vulnerabilidade e através as experiências
Implicações éticas e educativas dos cuidados paliativos
sofridas do desamparo, que de fato são
experiências dos seres humanos vivos que
vivenciam a precariedade da condição
humana mas não a morte.
Esta impossibilidade provavelmente
explica o porquê as sociedades
contemporâneas têm cada vez mais
dificuldades em pensar a questão da morte e
do morrer em seus aspectos de processo e
em suas múltiplas significações, e isso apesar
da sociedade contemporânea ter-se tornado
uma sociedade do risco, na qual se multiplicam
as ocasiões de experienciar a vulnerabilidade
e enfrentar a morte em situações violentas de
vários tipos. Este aparente paradoxo consistente no “recalque” do pensamento da
morte, por um lado, e na persistência de
ocasiões de experiência da morte e até na
emergência de novas formas de violência e
maneiras de experienciar a morte (a última
das quais é agora o perigo o bioterrorismo),
por outro – pode ser caracterizado, nos termos
de Norbert Elias, como uma conseqüência
do processo civilizador:
“Como outros aspectos animais, a morte,
tanto como processo quanto como imagem
mnemônica, é empurrada mais e mais para
os bastidores da vida social durante o impulso
civilizador. Para os próprios moribundos, isso
significa que eles também são empurrados
para os bastidores, são isolados”. 3
Nesta mesma direção, o historiador
francês Philippe Ariès, conhecido por seu
célebre estudo sobre a morte no Ocidente,3
ao comparar a morte na Idade Média e na
Época Moderna, considera que na Idade
Média a morte era menos ocultada devido ao
fato do morrer ser considerado uma questão
mais pública e menos privada. Para ele, na
sociedade medieval as pessoas morreriam
serenas e calmas, contrariamente à sociedade
moderna, em que morrer ter-se-ia tornado
ou um fato meramente privado ou totalmente
recalcado. Agora – como faz notar Elias em
suas críticas a Áries – se é talvez correto dizer
que a morte medieval era menos oculta que a
atual (mas isso tampouco é seguro pois os
efeitos da morte “estão aí” hoje também
apesar de seu recalque!) e que se tratava de
era um evento muito mais compartilhado pela
comunidade, certamente é um exagero dizer
que ela fosse mais tranqüila, visto que as
pessoas tinham, por exemplo, menos meios
para enfrentar as várias situações de
vulnerabilidade. Como sintetiza Elias:
“A vida na sociedade medieval era mais
curta; os perigos, menos controláveis; a morte,
muitas vezes mais dolorosa; o sentido da
culpa e o medo da punição depois da morte,
a doutrina oficial. Porém, em todos os casos,
a participação dos outros na morte de um
indivíduo era muito mais comum. Hoje
sabemos como aliviar as dores da morte em
alguns casos; angustias de culpa são mais
plenamente recalcadas e talvez dominadas (...)
Mas o envolvimento dos outros na morte de
um indivíduo diminuiu.”4
Uma das razões deste afastamento dos
moribundos “para os bastidores da vida social” (Elias, Op. Cit., p. 31) é certamente a
assim chamada medicalização da vida,
sobretudo graças à crescente incorporação
tecnológica à medicina, fato, este, que
permitiu praticamente estabilizar muitas
doenças terminais, como no caso de doentes
que podem ser mantidos artificialmente em
vida durante longos períodos, senão
indefinitivamente. No entanto, nas mesmas
sociedades tecnologicamente avançadas,
cresce paralelamente a consciência da
legitimidade moral da cultura do respeito da
autonomia do paciente/usuário e, com isso,
surge também uma nova atmosfera ao redor
do morrer “na qual aparece questionada e
relativizada a tarefa médica de fazer tudo o
possível, mesmo contra os desejos do
paciente, para impedir ou postergar a
morte.”5
Atualmente, os cuidados paliativos vêm
justamente para preencher este espaço
existente entre, por um lado, a competência
técnica da medicina e da cura (que apesar
dos incríveis avanços continua sendo limitada)
e a cultura do respeito da autonomia do
paciente no que se refere às suas decisões
extremas, as quais implicam também em
poder dizer quando não quer mais viver
sofrendo.
Mas, para isso seja talvez necessário
mudar a maneira de pensar a relação da vida
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e da morte, o que certamente é uma tarefa
árdua, sobretudo se pensarmos que ela implica
numa ferida narcísica profunda no desejo de
onipotência de quem que seja.
CONCLUSÃO
O que tem a ver tudo isso com o ensino
em cuidados paliativos?
Em primeiro lugar, penso que a própria
concepção de cuidados paliativos, por ser
baseada (pouco importa se explicita ou
implicitamente) no princípio da qualidade de
vida para o paciente e seu entorno, muito
mais do que naquele de sacralidade de vida,
e por ter em conta a globalidade do paciente
e de suas necessidades, constitui um
complemento, senão uma alternativa, ao assim
chamado positivismo médico graças a uma
maior humanização das práticas de tratar e
cuidar quem precisa.
Em segundo lugar, ao insistir sobre a
integralidade da experiência do viver que
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implica o morrer, implica num novo
enriquecimento metafísico para o jovem
profissional, o qual poderá também se sentir
mais confortado em suas inevitáveis
frustrações profissionais.
Em terceiro lugar, os cuidados paliativos talvez
delineiam uma espécie de justo meio constituído
pela preocupação de responder ao chamamento
do outro e ao mesmo tempo sem expropriá-lo
da experiência fundamental de seu morrer.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Deleuze G, Parnet C. Dialogues. Paris:
Flammarion; 1977.
2. Heidegger M. Ser e tempo. Petrópolis:
Vozes;1989. Tradução de: Sein und zeit.1927.
3. Elias N. A solidão dos moribundos. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar; 2001. p. 19.
4. Ariès P. O homem diante da morte. Rio de
Janeiro: Francisco Alves; 1982.
5. Kottow M. Introducción a la bioética. Santiago:
Ed. Universitaria; 1995. p. 150.
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