Sérgio Calderaro
Novatec
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desta obra, mesmo parcial, por qualquer processo, sem prévia autorização, por escrito, do
autor e da Editora.
Editor: Rubens Prates
Assistente editorial: Priscila A. Yoshimatsu
Revisão gramatical: Viviane Oshima
Editoração eletrônica: Carolina Kuwabata
Capa: Carolina Kuwabata
ISBN: 978-85-7522-439-7 MP20150609
Histórico de impressões:
Junho/2015
Primeira edição
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Tudo o que você podia ser
O que leva alguém a querer ser redator? Essa pergunta,
com ares de irrespondível, guiará este capítulo. Nunca a responderemos de forma exata e conclusiva, está claro, mas a indagação inicial
pode render pano pra manga. O que nos interessa, afinal, é praticar
a escritura e a leitura, e aqui e agora cai bem resgatar Paulinho da
Viola: “O samba para mim não é problema, se você me der um tema
eu faço um samba pra você”. Nosso tema é descobrir – ou pelo menos divagar sobre – a origem dessa estranha vontade de se tornar
redator. Poderia ser também os diferentes formatos do caroço da
azeitona. O tema, já nos parece óbvio, será o de menos. O que vale
neste momento é o samba, ou melhor, o texto (e se conseguirmos
atingir com o texto nível parecido ao que o Paulinho alcança com
seus sambas, estamos na trilha certa). Escrevamos, pois.
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Manual do Futuro Redator
Levantar hipóteses pode ser exercício divertido quando não se
tem compromisso com o rigor acadêmico, como é o nosso caso neste
livro. Aliás, isso de “levantar” hipóteses é criticável, e a crítica tem
até razão de ser. Levantar, mesmo, a gente levanta uma cadeira, um
troféu, um copo. Hipótese ninguém levanta, convenhamos. Por outro
lado, estamos carecas de saber que as palavras estão vivas na boca
das pessoas e é comum que adquiram outros sentidos que acabam,
com o tempo e com o uso, se impondo como aceitáveis. Dizem os
detratores de “levantar hipóteses” que verbo mais digno neste caso
seria “aventar” hipóteses, ainda que isso de “aventar” possa gerar
confusão com aquela peça do vestuário que se utiliza na cozinha.
Dizia minha querida avó ao meu não menos querido avô: “Véio, mi
passa o aventar que vô fritá batata prus mininu”. É o curioso sotaque
do interior paulista. Uma delícia.
Aventar ou levantar não é o xis da questão no contexto deste
Manual. A intenção foi tão somente alertar o futuro redator de que
há que se estar sempre atento a essas ciladas, modismos e diferentes
usos, que variam de acordo com fatores geográficos, etários, temporais ou sociais. O negócio é não perder de vista essa variabilidade,
conhecê-la na medida do possível e ter o discernimento para usar
o termo e a linguagem mais adequados a cada situação. Notem:
dificilmente neste Manual falaremos de certo e errado, mas sim de
adequado e não adequado.
A ordem é atualizar-se constantemente e utilizar olhos e orelhas
como antenas abertas ao universo, às diferentes formas de falar e
de escrever que pululam mundo lusófono afora. É recomendável
relacionar-se com outros redatores para poder discutir com algum
nível questões como essa. Se você tiver um professor à mão, leve
também esse tipo de dúvida a ele. A polêmica é em geral saudável. E
o futuro redator é obrigado a tomar partido em questões de língua,
pois dele isso se espera. Então, há que estar informado sobre os dois
Tudo o que você podia ser
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– ou os vários – lados que uma pendenga como essa do “levantar
hipótese” suscita. Há que se conhecer bem os argumentos contra e
a favor. Você tem que estar preparado pra defender seu texto, com
unhas, dentes e opiniões sólidas.
Mas estamos aqui pra tentar responder o que faz um sujeito querer ser redator. A primeira hipótese é a mais óbvia: o candidato a
escrevinhador tem na família um redator que o influenciou, alguém
que admira desde moleque. O adolescente muitas vezes pode cair
na armadilha de enxergar somente o lado glamouroso da vida, por
exemplo, daquele tio meio diferentão e engraçado, bom bebedor de
uísque, que sempre conta sobre as festas que vai e aparece a cada
fim de ano com uma namorada nova. O cara parece o máximo aos
olhos do incauto guri. A parte ruim – o baixo salário, a pressão do
dia a dia, os sapos tragados, as crises criativas – o tio bacanão não
conta. Essa influência familiar pode ser motivo determinante para
que o desavisado se enverede pelo caminho da redação e sonhe um
dia ser como o descolado titio. Já cantava Marcelo Nova nos idos
anos oitenta: “O meu primo Zé, queria ser como ele é, sempre gentil
e arrumado, ele é muito bem relacionado, ele alcançou a felicidade
frequentando a alta sociedade, pra impressionar traçou um plano,
comprava um carro novo todo fim de ano... o orgulho da família, o
predileto da mamãe”. Vale a pena procurar esse som do Camisa de
Vênus e sacar a letrinha inteira. O Nova, que já não era adolescente
nessa época, manjava que os primos Zés da vida são pura casca, uns
pulhas, e compôs esse belo punk rock carregado de ironia e crítica.
Pode nos servir de lição: não vá atrás de exemplos aparentemente exitosos. Informe-se e procure saber a fundo os entremeios da profissão.
Chame seu tio bacanudo pra um papo na chincha. Sigamos levantando.
Pode ser que o futuro redator não tenha nenhum outro profissional
das letrinhas na família e mesmo assim decida-se por essa profissão.
Foi o meu caso, permitam-me dizer. De pai médico e mãe professora
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Manual do Futuro Redator
de piano, nunca tinha ouvido falar em marketing até meus dezessete
anos, creio eu. O detalhe é que meu pai – e pode ser também o seu
caso – é um devorador de livros, e sempre manteve em nossa casa
um escritório com respeitável e variada biblioteca: de enciclopédias e
Sidney Sheldon a Vargas Llosa, Poe e Guimarães Rosa. Comecei a ler
as coleções sobre o mundo animal ainda criança, para daí passar aos
fascinantes livros do Tesouro da Juventude e lá pelos quatorze começar
com Jorge Amado, Gabriel García Márquez, João Ubaldo. Aos dezoito
me rebelei e devorei a geração beat norte-americana, os Bukowski
e os Fante, além de todos os do Castañeda (esses meu pai não tinha
na sua biblioteca). Passada a fase revolucionário-alternativa, voltei
aos mais clássicos e a tudo o que me sugeriam. A biblioteca caseira
foi a isca, e eu tô fisgado até hoje.
Outra influência que pode decidir o futuro de um sujeito são os
professores. Se o mestre que leciona Língua e Literatura no colégio
é competente e carismático, ele tem o poder de plantar sementes.
Foi também meu caso, diga-se bem de passagem. Deixo o nome do
culpado em forma de homenagem: Walter Barbosa, meu professor
de Literatura durante três anos. Mas tem futuro redator que sai do
colégio sem a mínima ideia do que quer ser. Muitos acabam entrando
em Publicidade e Propaganda ou Jornalismo acompanhando colegas,
ou ainda porque simplesmente isso de ser publicitário ou jornalista
lhe soa bem aos ouvidos. Aí, se o gurizão perdido topa no meio do
caminho universitário com um igualmente carismático e competente
professor de Redação, também existe a possibilidade de encasquetar
que quer ser redator. Só que não é fácil assim. Não é só querer ser e
pronto. Talento para mim é sinônimo de trabalho e dedicação, e isso
em qualquer área, decida você ser redator, advogado ou o grande herói
das estradas. Vamos trocar de capítulo porque este aqui já deu pra bola.
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