Resistência aos Antibióticos
Uma das principais causas do aumento de resistência aos antibióticos é o seu uso abusivo, devido a
uma utilização elevada e/ou inadequada (causado por tratamentos incompletos). Os antibióticos
apenas actuam em infecções causadas por bactérias, não sendo activos em gripes ou constipações.
Assim, os antibióticos devem ser tomados apenas por prescrição do médico e seguindo as indicações
deste. A automedicação, pela população em geral, acresce ao uso desajustado dos antibióticos.
Globalmente, Portugal tem um uso excessivo de antibióticos, sobretudo das classes dos betalactâmicos, fluoroquinolonas e macrólidos (Brief Report), existindo uma correlação entre o seu uso e a
resistência (Oxford Journals: NCBI).
Uma série de outros factores influenciam essa mesma resistência. São exemplo, a dificuldade no
controlo da infecção, nomeadamente a nível de pequenas comunidades, onde se evidenciam os locais
em que existam doentes acamados, com imunidade diminuída, como sucede nas casas de repouso. A
prática da lavagem das mãos aquando do tratamento de diferentes doentes e a utilização de luvas são
também de extrema importância.
É importante que cada país conheça os níveis de resistência dos diferentes patogénicos com maior
importância em saúde pública, pelo que a existência de bases de dados fiáveis é fundamental.
Portugal, através do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, participa desde 1998 no Programa
“European Antimicrobial Resistance Surveillance System” (EARSS). Este Programa constitui uma rede
europeia de sistemas de vigilância nacionais, tendo por objectivo reunir dados comparáveis e validados
de resistência aos antibióticos, colectados por diferentes países participantes, relativos a estirpes
isoladas de infecções invasivas, quer adquiridas na comunidade quer de origem hospitalar, tendo em
vista a informação actualizada da resistência aos antibióticos com consequências importantes em saúde
pública.
O relatório mais recente do EARSS reúne os resultados colectados em 33 países europeus em 2008. Aí
se evidencia um aumento, em Portugal, da proporção de isolados de Staphylococcus aureus com
resistência à meticilina (MRSA) (37%, 1999; 48%, 2007; 53%, 2008). Preocupante continua ainda a
proporção de isolados de Escherichia coli com resistência às fluoroquinolonas (29%), de Klebsiella
pneumoniae com resistência às cefalosporinas de terceira geração (26%) e de Pseudomonas aeruginosa com
INSA
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resistência aos carbapenemos (18%). Qualquer das quatro bactérias patogénicas referidas podem ser
causa, quer de infecções adquiridas na comunidade, quer de infecções adquiridas a nível hospitalar.
A rede nacional de vigilância da resistência aos antibióticos, de base laboratorial, coordenada pelo
INSA há 20 anos (1989-2009), intitulada Antimicrobial Resistance Surveillance Program in Portugal (ARSIP),
tem demonstrado existirem em circulação, em Portugal, estirpes epidémicas de E. coli e K. pneumoniae
com informação genética para a resistência às cefalosporinas de terceira geração e sua fácil
disseminação, quer em meio hospitalar, quer na comunidade (NCBI; Science Direct).
Este mecanismo de resistência diz respeito à produção de beta-lactamases da família CTX-M-15, as
quais hidrolisam as cefalosporinas de terceira geração, impossibilitando a sua acção sobre as bactérias.
Este mecanismo justifica a elevada proporção de isolados de E. coli (10%) e de K. pneumoniae (26%)
resistentes àqueles antibióticos referida no relatório do EARSS.
O problema da resistência aos antibióticos é igualmente um problema a nível internacional,
considerando o desenvolvimento do comércio mundial (transporte de alimentos entre locais
diferentes) e o crescente número de viagens efectuadas pelas diversas populações, o que facilita a
propagação das infecções e da resistência aos antibióticos de um continente a outro (Oxford Journals).
A existência de resíduos de antibióticos no ambiente e nos alimentos é, de facto, um factor também a
considerar, bem como a capacidade de passagem do ADN entre diferentes bactérias (disseminação da
resistência através da informação contida nesse material genético).
Peritos na matéria, consideram ainda como factor importante o facto de haver uma diminuição
acentuada de esforços na descoberta de novos antibióticos pois, de um modo geral, a indústria
farmacêutica tem-se aplicado sobretudo na concepção de medicamentos noutras áreas, como a área
das doenças crónicas (The_Bacterial_Challenge_Time_to_React, ECDC).
A resistência aos antibióticos é um processo complexo e dinâmico e o sucesso da disseminação de
determinados clones resistentes permanece ainda obscuro. Investigação a esse nível continua a ser
necessária para um completo esclarecimento do problema, pelo que o financiamento de projectos
nacionais e europeus nesta área são da maior importância, tal como a Comissão Europeia traduz nas
suas recomendações (Eurlex; Report from the Commission).
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