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Aula
Mozartt Zeni
Objetivo da aula:
Cada grupo de alunos deve ler, discutir e produzir duas resenhas (cada texto fala sobre um
problema filosófico bem conhecido).
1. Alunos sentam em trios ou quartetos.
2. Entregar um dos textos para cada grupo (aleatoriamente).
3. Dar 20 minutos para os alunos lerem o texto, discutirem entre o grupo e produzir um
texto sobre o problema filosófico apresentado.
4. Nesse espaço de tempo os alunos deverão produzir essa resenha dividida em 2 (duas)
partes: a) explicar o texto lido; b) a partir dos conhecimentos filosóficos que os alunos já
foram ensinados (rigor de análise, evitar opiniões pessoais), devem dar soluções para o
problema filosófico do texto.
5. Ao término dos 20 minutos, cada grupo entrega a sua folha com a 1ª resenha.
6. Para a resenha 2, repetir o procedimento. Agora os grupos apenas trocam de folhas e
voltam a trabalhar.
Textos (extraídos da obra O Porco Filósofo):
• O jardineiro invisível (p. 139-140).
• O poder do espírito (p. 196-197).
• O anel de Giges (p. 226-227).
• O problema do mal (p. 286-287).
Referências:
BAGGINI, Julian. O Porco Filósofo: 100 Experiências de Pensamento para a Vida Cotidiana.
São Paulo: Relume Dumará, 2005.
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45. O jardineiro invisível
Stanley e Livingstone estavam há duas semanas observando aquela bela clareira, da segurança
de seu esconderijo temporário.
– Não vimos uma pessoa sequer – disse Stanley. – E a clareira não se deteriorou nem um pouco,
Agora você vai ter de admitir que estava errado: nenhum jardineiro cuida deste lugar.
– Meu caro Stanley – respondeu Livingstone. – Lembre-se de que eu admiti que poderia ser um
jardineiro invisível.
– Mas esse jardineiro não fez o menor barulho, nem mexeu em uma única folha. Por isso insisto
em que não há jardineiro.
– Meu jardineiro invisível – continuou Livingstone – também é silencioso e intangível.
Stanley estava desesperado.
– Droga! Qual a diferença entre um jardineiro silencioso, invisível e intangível e nenhum
jardineiro?
– Fácil – respondeu o sereno Livingstone. – Um cuida de jardins. O outro, não.
– Dr. Livingstone, eu presumo – disse Stanley com um suspiro – então que não fará objeção se
eu o despachar imediatamente para um paraíso silencioso, sem cheiro, invisível e intangível. –
Pelo aspecto assassino dos olhos de Stanley, aquilo não era apenas uma brincadeira.
Fonte: “Theology and Falsification”, de Anthony Flew, republicado em New Essays in Philosophical
Theology, organizado por A. Flew e A. Maclntyre (SCM Press, 1955).
A força desta parábola depende de o leitor, como fez Stanley, partir o pressuposto de que
Livingstone é um tolo irracional. Ele insiste em uma opinião para a qual não há provas. O que é
pior, para manter sua crença no jardineiro, ele tornou a idéia desse ser misterioso tão frágil que
ela se dissolveu no ar. O que restou do jardineiro após remover tudo o que havia de visível e
tangível nele? Claro, Stanley não pode provar que esse fantasma de dedo verde não existe, mas
tem razão em perguntar para que serve continuar a acreditar em algo tão nebuloso.
Esse, afirma-se, é o caso de Deus. Da mesma forma que Livingstone vê a mão do jardineiro na
beleza do local, muitas pessoas religiosas vêem a mão de Deus na beleza da natureza. Talvez,
à primeira vista, seja razoável supor a existência de um criador bondoso e todo-poderoso deste
mundo maravilhoso e complexo. Mas, como Stanley e Livingstone, temos mais do que primeiras
impressões para levar em conta. E nossas observações contínuas parecem desmantelar, uma a
uma, as características que dão vida a esse Deus.
Primeiro, o mundo funciona de acordo com leis físicas. Deus não precisa ligar a chuva ou erguer
o Sol todos os dias. Mas, diz o crente livingstoniano, foi Deus quem acendeu o pavio azul e
botou o Universo em movimento.
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Entretanto, logo percebemos que a natureza está longe de ser gentil e bondosa. Há muito
sofrimento e mal manifesto no mundo. Onde está agora o Deus bom? Ah, insiste o crente, Deus
fez as coisas o melhor possível, mas o pecado dos homens pode estragar as coisas.
Mas mesmo os inocentes sofrem e, quando pedem ajuda, nenhum Deus responde. Ah, vem a
resposta – à medida que seu Deus esconde-se cada vez mais nas sombras –, o bem que resulta
desse sofrimento não vem nesta vida, mas na vida que virá.
E o que nos resta? Um Deus que não deixa traços, não emite som ou interfere nem um pouquinho
no progresso do Universo. Afirma-se haver alguns milagres aqui e ali, mas mesmo a maioria dos
crentes religiosos não acredita seriamente neles. Além disso, Deus está ausente. Não vemos nem
sequer sua unha na natureza, o que dirá de sua mão.
Qual, então, é a diferença entre esse Deus e nenhum Deus? Não é igualmente tolo insistir em
sua existência quanto insistir que um jardineiro cuida da clareira descoberta por Stanley e
Livingstone? Se Deus é mais que uma palavra ou esperança, precisamos ou não de um sinal de
que ele está ativo neste mundo?
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------65. O poder do espírito
Faith sempre acreditou em reencarnação. Mas recentemente seu interesse por suas vidas passadas
tinha alcançado um novo nível. Agora que estava visitando a médium mística, pela primeira vez
teve informação sobre como realmente foram suas vidas passadas.
A maior parte do que Marjorie contou a ela foi sobre sua encarnação anterior como Zosime, uma
mulher nobre que viveu na época do cerco de Tróia. Ela soube de sua fuga audaciosa primeiro
para Smyrna e depois para Cnosso. Era, aparentemente, bela e corajosa, e se apaixonou por
um comandante espartano, com quem viveu em Cnosso pelo resto de sua vida,
Faith não conferiu a verdadeira história de Tróia para verificar a história de Marjorie. Não
duvidou de que a sua era a mesma alma que vivera em Zosime. Entretanto, havia algo que
a preocupava e incomodava em relação ao que aquilo significava. Por mais que gostasse da
ideia de ser uma beleza grega, como não se lembrava de nada de sua vida em Cnosso ou tinha
qualquer sensação de ser a mesma pessoa sobre a qual Marjorie lhe contara, não podia ver como
ela e Zosime podiam ser a mesma pessoa. Ela havia descoberto sobre sua vida passada, mas
aquilo não parecia ser a sua vida.
Fonte: Livro dois, capítulo XXVII de An Essay Concerning Human Undetstanding, de John Locke (5. ed.,
1706).
Muitas pessoas em todo o mundo acreditam em várias formas de reencarnação ou renascimento.
Há muitas razões para pensar que estão erradas em fazer isso. Mas vamos supor que temos
almas e que elas reencarnam. Em que isso implica?
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É esta a questão com a qual Faith está se debatendo. Apesar da natureza um tanto suspeita da
história que Marjorie lhe contou – porque nossas vidas passadas sempre parecem ter sido como
pessoas tão interessantes e fortes, com vidas tão ricas? –, Faith não questiona sua veracidade.
A pergunta que ela se faz é: se eu, na verdade, tenho a mesma alma que Zosime, será que isso
faz com que eu e ela sejamos a mesma pessoa?
Intuitivamente, Faith responde: “Não.” Ela não tem a sensação de ser amesma pessoa que
Zosime. Isso não é surpresa. Quando olhamos para nós mesmos no passado (em vez de para
nossos eus anteriores), o que nos dá a sensação de que somos a mesma pessoa é certo grau de
encadeamento e continuidade psicológicos. Lembramo-nos de ser aquela pessoa, de fazer as
coisas que ela fez, ter as crenças que ela tinha e por aí vai. Também temos uma sensação de
como nossos eus atuais se desenvolveram a partir dessa pessoa.
Se nossas almas habitaram outras pessoas em vidas anteriores, não temos tais conexões
psicológicas com elas. Marjorie precisa dizer a Faith o que Zosime fez e pensou, já que Faith
não se lembra de ser Losime, nem tem qualquer sensação de ter se desenvolvido a partir de
Zosime. Sem essas ligações, como pode fazer algum sentido dizer que Zosime e Faith são a
mesma pessoa, mesmo se compartilham da mesma alma?
Se esses pensamentos estão no caminho certo, então mesmo se temos almas que sobrevivem à
morte corporal, isso não significa necessariamente que nós vamos sobreviver à morte corporal.
A existência continuada do eu parece depender da continuidade psicológica, não de alguma
estranha substância imaterial. A existência continuada da alma não garante mais a existência
continuada do que a existência continuada do coração ou de outros órgãos.
Mas agora considere o que é olhar para uma foto sua de quando era criança. Para saber como
era aquela pessoa, você normalmente tem de perguntar a alguém que era adulto na época e que
se lembra, “Como eu era?”, você pergunta a elas, assim como Faith faz com Marjorie, “Como
eram as coisas em Tróia?” Seus elos psicológicos com aquela criança podem ser tão fracos que
praticamente não existem. Será que isso significaque, em um sentido muito real, você não é
mais a mesma pessoa que era seu eu bebê do que Faith é a mesma que Zosime?
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75. O anel de Giges
Herbert pôs o anel de Giges no dedo e foi imediatamente surpreendido pelo que viu: nada. Ele
tinha ficado invisível.
Pelas primeiras horas, ele saiu por aí testando sua nova invisibilidade. Uma vez, tossiu sem
querer e descobriu que, aos ouvidos do mundo, ele também estava silencioso. Mas ele tinha
uma massa física, e deixaria uma marca em uma almofada macia ou criaria um obstáculo para
aqueles que tentassem atravessá-lo.
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Quando ele se acostumou à invisibilidade, começou a pensar no que poderia fazer em seguida.
Para sua vergonha, as primeiras ideias que surgiram em sua mente não eram totalmente
simpáticas. Podia, por exemplo, entrar nos vestiários e banheiros femininos. Podia roubar com
facilidade. Também podia derrubar no chão os engravatados metidos a besta que gritam em
seus celulares.
Mas ele queriaresistira tais tentações primitivas, então tentou imaginar que feitos bons ele
poderia realizar. Entretanto, as oportunidades aqui eram menos óbvias. E por quanto tempo ele
conseguiria resistir a tirar vantagem de sua invisibilidade de maneiras menos edificantes? Tudo
o que seria necessário era um momento de fraqueza e lá estaria ele: espiando mulheres peladas
ou roubando dinheiro. Será que ele teria forças para resistir?
Fonte: Livro dois de A República, de Platão (360 a. C.).
É tentador ver o anel de Giges como um teste de firmeza moral: como você agiria sob o manto
da invisibilidade revela sua verdadeira natureza moral. Mas até que ponto é justo julgar alguém
por como eles agiriam diante de mais tentação a que a maioria das pessoas conseguiria resistir?
Se formos honestos, imaginarmo-nos com o anel pode revelar que somos desapontadoramente
corruptíveis, mas isso não é o mesmo que dizer que, na verdade, somos corruptos.
Talvez o que o anel mitológico nos permita fazer é ter alguma simpatia pelo diabo, ou pelo menos
por alguns de seus legionários menos importantes. O mal comportamento das celebridades,
por exemplo, atrai nossa desaprovação. Mas como podemos imaginar como é ter uma enorme
riqueza, oportunidades infinitas para o prazer e bajuladores ao seu lado para satisfazer todos os
seus caprichos? Podemos ter tanta certeza assim de que não iríamos acabar por nos desgraçar?
Considerar como reagiríamos com o anel à nossa disposição por um determinado período
pode nos fazer compreender um pouco mais nossa verdadeira condição moral. Uma coisa é
confessar que, com o tempo, podemos ceder à tentação do voyeurismo clandestino; outra bem
diferente é achar que a primeira coisa que faríamos era correr para o vestiário feminino mais
próximo. Alguém que seguisse esse caminho difere de um tarado apenas por medo ou falta
de oportunidade.
Portanto, o anel nos ajuda a distinguir a diferença entre coisas em que realmente acreditamos
serem erradas e aquelas que apenas as convenções, a reputação ou a timidez nos impede
de fazer. Ela desnuda nossa moralidade pessoal e revela sua essência, removendo o verniz
de valores que apenas fingimos manter. O que nos sobra pode ser preocupantemente pouco.
Provavelmente não sairíamos por aí matando de maneira aleatória, mas um ou dois inimigos
odiados poderiam não estar em segurança. Várias feministas diriam que muitos homens usariam
a oportunidade para estuprar. Poderíamos não nos transformar em ladrões de carreira, mas os
direitos de propriedade poderiam, subitamente, parecer menos invioláveis.
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Isso é pessimista demais? Se perguntar às pessoas como elas acham que as outras iriam se
comportar com o anel e como elas mesmas o fariam, você na maioria das vezes vai encontrar
um enorme contraste. Os outros se transformariam em amorais, ao passo que nós manteríamos
nossa integridade. Quando respondemos dessa forma, estamos subestimando os outros seres
humanos ou apenas nos superestimando?
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------95. O problema do mal
E o Senhor disse ao filósofo:
– Eu sou o Senhor teu Deus, todo-amoroso, todo-poderoso, onisciente.
– Claro que não – retrucou o filósofo. – Olho para este mundo e vejo doenças terríveis, fome,
doenças mentais. Mesmo assim, você não acaba com isso, É porque não pode? Nesse caso,
você não seria todo-poderoso. É porque não sabe disso? Nesse caso, não é onisciente. Ou talvez
porque não queira? Nesse caso, não é todo-amoroso.
– Que desaforo! – respondeu o Senhor – É melhor para você que eu
não acabe com todo esse mal. Você precisa crescer moral e espiritualmente. Para isso precisa da
liberdade de fazer o mal tanto quanto o bem, e de confrontar-se com a possível ocorrência de
sofrimento. Como eu poderia ter feito esse mundo melhor se tirasse sua liberdade de crescer?
– Fácil – replicou o filósofo. – Primeiro, poderia ter-nos projetado para sentir menos dor.
Segundo, poderia ter se assegurado de que tivéssemos
mais empatia, para evitar que fizéssemos o mal a outros. Terceiro, poderia ternos feito aprendizes
melhores, para que não precisássemos sofrer tanto para crescer Quarto, você poderia ter feito a
natureza menos cruel, Quer que eu continue?
Fonte: O problema do mal ocorre de formas diferentes ao longo de toda a história da teologia
Será que Deus poderia ter feito um mundo onde houvesse menos sofrimento, mas no qual
tivéssemos a mesma oportunidade de exercer nosso livre-arbítrio e, como observam os
religiosos, crescer espiritualmente? E difícil responder a essa questão sem simplesmente
servir aos desígnios escusos de nossos preconceitos. Para os ateus, a resposta obviamente é
sim. O filósofo de nossa história faz imediatamente quatro sugestões. Nenhuma delas parece
impossível, Considere que temos uma quantidade natural de empatia, e isso faz com que a
maioria de nós tenha menos tendência a ferir os outros. Se isso é compatível com o nosso livrearbítrio, por que ter mais empatia o ameaçaria?
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Considere também que nossa capacidade de aprender é algo sobre o que não temos controle
direto. Na verdade, alguns de nós são melhores nisso do que outros. Por que Deus não poderia
ter feito de todos nós aprendizes melhores, para que pudéssemos entender por que as coisas
são certas ou erradas sem a necessidade de sermos expostos a um mal terrível? Considerações
como essa levam muitos à conclusão de que Deus poderia muito bem ter criado um mundo onde
houvesse menos sofrimento. O fato de que Ele não o fez é prova de que ou não existe, ou que
não merece nossa veneração.
Mas se você acredita em Deus, esses argumentos podem parecer muito fracos. Pois quem somos
nós para dizer que Deus poderia ter feito um trabalho melhor? Se Deus existe, é infinitamente
mais inteligente que nós. Por isso, se Ele criou um mundo cheio de sofrimento, deve ter feito
isso por boas razões, mesmo que essas razões escapem às nossas mentes patéticas.
Como resposta, isso pode parecer insatisfatório. Pois isso se resume à afirmação que, se
alguma vez nos depararmos com razões racionais para duvidar da existência de Deus, temos
simplesmente de aceitar que nossos intelectos são finitos e que o que pode parecer irracional ou
contraditório faz sentido do ponto de vista divino. Mas isso significa apenas rejeitar o papel da
razão na crença religiosa. E você não pode ter os dois. Não adianta defender sua crença
usando a razão em uma ocasião, se não aceitar que um argumento racional contra a crença tenha
qualquer força.
É aí que o problema do mal parece deixar o crente. As melhores tentativas racionais para
solucionar o problema na verdade são todas versões do argumento de que tudo deve ser para o
melhor em longo prazo. Mas aceitar isso exige uma fé que desafia a razão, pois nossa melhor
razão nos diz que isso não é o melhor que Deus poderia ter feito. Se os ateus podem ser acusados
de alegar saber mais que Deus, os crentes podem ser acusados de saber mais que a razão.
Qual a acusação mais grave?
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1 Mozartt Zeni Objetivo da aula: Cada grupo de alunos deve