# 14 – dezembro 2012
Boca no trombone
As curvas de um revolucionário
C
arioca do bairro das Laranjeiras, Oscar
Ribeiro de Almeida Niemeyer nasceu
em 15 de dezembro de 1907,
simbolicamente pouco tempo depois da
execução dos planos de urbanização do Rio
promovidos pelo prefeito Pereira Passos.
Filho de família tradicional -seu avô foi
ministro do Supremo Tribunal FederalNiemeyer primeiro começou a trabalhar como
tipógrafo, auxiliando o pai. Em 1929, entrou
para a Escola Nacional de Belas Artes, onde
recebeu o diploma de engenheiro arquiteto
em 1934. A partir daí, a trajetória profissional
de Niemeyer se cruza de maneira
fundamental com a do também arquiteto
Lúcio Costa. Foi no escritório de Costa que
Niemeyer começou sua carreira, em 1935.
Mesmo precisando de dinheiro para
sustentar uma família em formação,
Niemeyer começou trabalhando de graça,
para se aperfeiçoar. Seria ali que, no ano
seguinte, na equipe que participou do projeto
da sede do Ministério da Educação e Saúde,
conheceria outros dois nomes importantes
para sua formação: o ministro Gustavo
Capanema e o arquiteto franco-suíço Le
Corbusier. Foi o papa do modernismo
arquitetônico quem primeiro diagnosticou a
obsessão de Niemeyer por curvas com uma
observação metafórica: “Você tem as curvas
dos morros do Rio na retina.”
Seu primeiro projeto individual foi o edifício
Obra do Berço, no Rio, em 1937, no qual já
mostrou características que marcariam seus
trabalhos ao longo dos anos, como plantas e
fachadas livres. Em 1939, projetou o Pavilhão
Brasileiro na Feira Mundial de Nova York, ao
lado de Lúcio Costa, e no ano seguinte
conheceu o prefeito de Belo Horizonte Juscelino Kubitschek. Foi com o Conjunto da Pampulha, na capital mineira, que seu nome ganhou
projeção. Ali, o próprio arquiteto descobriu
seu estilo de formas leves e sinuosas de
concreto. “Sem a Pampulha não teria havido
Brasília”, reconhecia Niemeyer, que seria procurado quase duas décadas mais tarde por
Kubitschek, agora presidente, para desenvolver o plano-piloto do amigo Lúcio Costa
sobre a nova capital da República, no meio
do cerrado. Construída sob uma estética
modernista que explora ângulos curvos no
lugar de linhas retas, o uso de concreto
armado, o célebre formato da cidade inspirado em um avião-, avenidas largas,
blocos de edifícios afastados e amplos
espaços vazios, rampas e vastas áreas
verdes, Brasília seria o palco para algumas
das mais radicais experimentações de
Niemeyer, tais como: Congresso Nacional,
Palácio do Planalto, Supremo Tribunal
Federal, Praça dos Três Poderes, Ministério
da Justiça, Catedral, Teatro Nacional,
Esplanada dos Ministérios e Palácio da
Alvorada (aclamado pelo ministro da Cultura
de De Gaulle, André Malraux, como a
"invenção arquitetônica mais importante
desde as colunas gregas").
Impedido de trabalhar no Brasil pela ditadura
militar, Niemeyer se mudou em 1966 para
Paris, onde abriu um escritório de
arquitetura. Projetou a sede do Partido
Comunista Francês e fez o Centro Cultural Le
Havre, atualmente Le Volcan. Também
realizou obras na Argélia, Itália e Portugal.
Após a anistia, retornou ao Brasil, no início
dos anos 1980.
JornalDaCasa é uma publicação de CasaDoBrasil. www.casadobrasil.com.uy
Editor: Leonardo Moreira. Mail: jornal@casadobrasil.com.uy
# 14 – dezembro 2012
No Rio, projetou os CIEP (Centros Integrados
de Educação Pública, apelidados de
"brizolões"), o Sambódromo, o Museu de Arte
Contemporânea de Niterói e participou de
projetos educacionais e culturais de Darcy
Ribeiro. Em São Paulo, suas obras mais
famosas são o Parque do Ibirapuera e o
complexo de pavilhões do local, o Edifício
Copan e o Memorial da América Latina. Em
Curitiba, encontra-se o Museu Oscar
Niemeyer, conhecido como o Museu do Olho,
com prédios que lembram naves espaciais.
Obcecado pela novidade e pela busca de
soluções originais, Niemeyer deixou em mais
de 70 anos de atividade cerca de 1.000
projetos, mais da metade já executados nas
principais cidades brasileiras e em países
como Líbano, Alemanha, Inglaterra, Espanha,
Israel, Itália e Estados Unidos, onde foi um
dos convidados a construir a sede da
Organização das Nações Unidas. Recebeu
diversos prêmios, entre eles o Prêmio Pritzker
-o Oscar da arquitetura-, Prêmio Unesco, na
categoria Cultura, Royal Gold Medal do Royal
Institute of British Architects, Prêmio Leão de
Ouro da Bienal de Veneza e Medalha de Ouro
da Academia de Arquitetura de Paris.
Homenageado com exposições, títulos e
condecorações ano após ano, Niemeyer
continuou projetando obras em vários cantos
do planeta até o fim de sua vida. Em 2007,
projetou o Centro Cultural de Avilés, sua
primeira obra na Espanha, construído
durante três anos e inaugurado em 2011.
Mais de 60 anos após a realização do
Conjunto da Pampulha, o arquiteto voltou a
assinar um projeto de grande porte em Minas
Gerais em 2010, com a inauguração da
Cidade Administrativa do governo do Estado,
na Grande Belo Horizonte. Naquele mesmo
ano, Niemeyer também lançou o projeto da
Universidade de Música e Artes Cênicas
Daisaku Ikeda, em Araraquara (SP), projetou
um museu em Havana e foi aberto ao público
o Auditório de Ravello, seu último projeto na
Itália. Recentemente, o arquiteto havia
voltado, ainda, a desenvolver um projeto para
a cidade de Argel. O prédio da Biblioteca dos
Países Árabes e Sul-Americanos dividirá a
paisagem da capital argelina com outras
obras desenhadas por Niemeyer durante a
década de 1970.
Atualmente, em Santos, está finalizando seu
projeto para o Museu Pelé. Neste 2012,
Niemeyer assinou um projeto comercial ao
lado do Sambódromo, para salas comerciais
e hotelaria. O prefeito do Rio, Eduardo Paes,
encomendou-lhe uma nova quadra para a
escola de samba Mangueira. Ainda para a
capital fluminense, o arquiteto havia
elaborado uma nova casa de shows. Em
Niterói, está em execução o chamado
Caminho Niemeyer e será erguida uma torre
em formato de cogumelo de 60 metros.
Também recebeu a encomenda de um novo
complexo administrativo para a Prefeitura de
Curitiba. Em Manaus, o Memorial Encontro
das Águas, projetado em 2006, deve
finalmente começar a ser construído para ser
um ponto de encontro na cidade durante a
Copa de 2014.
Embora a maioria de suas obras tenham sido
grandiosas e de alto custo financeiro,
Niemeyer cobrava relativamente pouco para o
nome que tinha e desenhou vários projetos
de graça por questões éticas ou de amizade.
“Aprecio as coisas mais diferentes. Gosto de
Le Corbusier como gosto de Mies van der
Rohe. De Picasso como de Matisse. De
Machado de Assis como de Eça de Queiroz.
Somente no campo da política sou radical,
intransigente”, dizia Oscar. "Não é a linha reta
que me atrai. Dura, inflexível, criada pelo
homem. O que me atrai é a curva livre e
sensual que encontro nas montanhas, no
curso sinuoso dos rios, nas nuvens, no corpo
da mulher bonita. De curvas é feito todo o
universo, O universo curvo de Einstein."
Em seus quase 105 anos de vida, Niemeyer
foi vários personagens convivendo no mesmo
homem: o ateu que se tornou mestre em projetar igrejas, o comunista fervoroso que trabalhou estreitamente com vários governos capitalistas e até o homem que via no casamento
uma ilusão burguesa, mas que vivia desde
1928 com a mesma mulher, Annita Baldo.
Ambos tinham uma filha, quatro netos, onze
bisnetos, três trinetos e muitos amigos.
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Ao pé da letra
Volta por cima
M
uito original e primorosamente
elaborado num período de seis
meses, “Volta por cima”, de 1962,
não só foi um grande sucesso da música
brasileira. Este samba altivo marcou tanto
que propagou a expressão, já dicionarizada,
“dar a volta por cima”, com o sentido de
superar uma dificuldade com orgulho,
conseguir recuperar-se e ter sucesso depois
de um fracasso ou decepção.
Mestre em zoologia pela Universidade de
Harvard e compositor nas horas vagas, sem
saber tocar nenhum instrumento, Paulo
Vanzolini mostrou a música para a amiga
Inezita Barroso, mas apesar de gostar, ela
achou que não era viável comercialmente.
Ainda assim, Vanzolini foi atrás de um tal
Zelão, amigo de cantorias de bar em São
Paulo. Como estava brigado com a gravadora,
não pôde levar “Volta por cima” para o
estúdio, mas indicou um conhecido, “uma
grande voz, o Mário”. O Mário em questão era
Mário de Souza Marques Filho, conhecido
como Noite Ilustrada (1928-2003), quem
gravou o samba no seu segundo disco e
acabou se tornando o maior sucesso da sua
carreira.
Universidade de São Paulo (USP) -que dirigee conseguiu formar um acervo considerável.
Chorei
Não procurei esconder
Todos viram, fingiram
Pena de mim não precisava
Ali onde eu chorei
Qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei
Quero ver quem dava
Um homem de moral
Não fica no chão
Nem quer que mulher
Lhe venha dar a mão
Reconhece a queda
E não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima
Vanzolini foi pego de surpresa: ao voltar de
uma longa viagem de pesquisa pela
Amazônia, o zoólogo ouviu no rádio que sua
composição estava completando três
semanas nas paradas. Daí em diante, seu
hobby foi tão ou mais célebre que suas
atividades acadêmico-profissionais.
Em entrevista ao programa “Roda Viva”, da
TV Cultura, em 2003, declarou que a canção
representava “uma questão de filosofia de
vida, como eu gostaria de ser” e que preferia
ser conhecido apenas como um “zoólogo que
escreve música”. Aliás, levou tão a sério esse
não-comprometimento com a composição
que preferiu não embolsar o dinheiro dos
direitos autorais que deveria receber. Em vez
disso, destinou-o à compra de livros para a
biblioteca do Museu de Zoologia da
Discos onde ouvir
Noite Ilustrada – Noite Ilustrada (1963)
Paulo Vanzolini – Onze sambas e uma
capoeira (1967)
Maria Bethânia – Anjo exterminado (1972)
Beth Carvalho – Canta o samba de SP (1993)
Roberto Silva – Volta por cima (2002)
Jorge Aragão – Da noite pra o dia (2003)
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O mundo é uma bola
O tricolor que é tetra
cantores, artistas, personalidades ligadas à
cúpula do futebol mundial e, desta forma
surgiu a ideia de um símbolo tricolor: o
cartola.
Em 1919, para socorrer a Confederação
Brasileira de Desportos, que queria sediar o
Campeonato Sul Americano de Futebol
(vencido pela primeira vez pelo Brasil), o
Tricolor deu uma demonstração de força e
prestígio e, em tempo recorde, ergueu o
Estádio das Laranjeiras com capacidade para
18 mil pessoas.
O
Fluminense
se
consagrou
tetracampeão
do
Campeonato
Brasileiro, logo após conquistar os
títulos de 1984 e 2010, o do extinto Torneio
Roberto Gomes Pedrosa de 1970, que a
Confederação Brasileira de Futebol (CBF)
reconhece como o Nacional da época, e
vencer neste “Brasileirão” 2012.
O Fluminense Football Club foi fundado no
Rio de Janeiro em 21 de julho de 1902. O
nome do clube nasceu sem maiores debates:
surgiu Fluminense por identificar os nascidos
no Estado do Rio de Janeiro e, na época, no
Distrito Federal, apesar de por lei haver
distinção, mas o povo considerava todos
fluminenses. Uma outra versão para o nome
tem por base o vocábulo “flumem”, que
significa rio e por analogia se chegou a
palavra Fluminense.
O primeiro uniforme possuía as cores branca
e cinza claro, gola e escudo sobre o coração,
com as letras FFC em vermelho. O calção era
branco, as meias pretas e muitos jogadores
ainda usavam boné com as cores da camisa.
Mas em 1905 mudou para as cores
encarnado, branco e verde. O Fluminense
sempre se caracterizou por possuir
torcedores ilustres e famosos, presidentes,
Entre suas principais glórias, o Fluminense
conta com: 9 Taça Guanabara, 31
Campeonato Carioca, 2 Taça Rio, 1 Copa do
Brasil (2007) e 4 Campeonato Brasileiro
(1970, 1984, 2010 e 2012), além de ser
vice-campeão da Copa Libertadores (2008) e
da Conmebol/Sul-Americana (2009).
São reconhecidos como ídolos históricos,
entre outros: Amoroso, Branco, Carlos Alberto
Torres, Carlos Castilho, Darío Conca, Didi,
Diego Cavalieri, Edinho, Ézio, Fred, Gérson,
Marcão, Pinheiro, Renato Gaúcho, Ricardo
Gomes, Parreira, Rivellino, Telê Santana,
Thiago Silva, Waldo (o maior artilheiro, com
314 gols), Washington e Welfare.
O tetracampeonato foi conquistado com uma
campanha irretocável e com três rodadas de
antecedência. Em 38 jogos, foram 22
vitórias, 11 empates e apenas 5 derrotas,
sendo o melhor ataque (61 gols marcados) e
a melhor defesa da competição (33 gols
sofridos). De quebra, ainda tem o artilheiro,
Fred (foto), que marcou 20 gols e também foi
escolhido o craque do Brasileirão.
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Mão na roda
Orelhão, uma ligação que faz 40 anos
tropical do Brasil, já que é mais arejada. Os
orelhões
–como
são
popularmente
conhecidos– foram testados pela primeira
vez em 1971, quando 13 cabines foram
distribuídas pela cidade de São Paulo. Em
1972
eles
foram
definitivamente
apresentados à população brasileira e
instalados em maior escala nas cidades do
Rio de Janeiro, São Paulo e posteriormente
no resto do país. No ano em que foi criado o
orelhão, a CTB registrava 4.200 aparelhos
pelo Brasil. Hoje são mais de 52 mil.
O
Telefone Público faz parte da vida da
população brasileira desde 1920,
quando já se tinha notícia sobre a
utilização de aparelhos conhecidos como
semi-públicos. No entanto, foi em 1934
quando a Companhia Telefônica Brasileira
(CTB) instalou na cidade de Santos (SP) os
primeiros Telefones Públicos de Pagamento
Antecipado. A princípio, os Telefones Públicos
ficavam
em
postos
telefônicos
e
estabelecimentos credenciados, como bares,
cafés e padarias. Junto a eles havia uma
caixa coletora de moedas, e as ligações eram
realizadas com a ajuda de uma telefonista.
Em 1970 a arquiteta e chefe da Engenharia
de Prédios da CTB, Chu Ming Silveira,
percebeu que a empresa buscava uma
alternativa para substituir as cabines
cilíndricas. Foi assim que ela deu início a um
projeto onde um abrigo oval em fibra de vidro
era acoplado a um suporte de metal. Chu
Ming sabia que a melhor forma acústica era o
ovo e queria que seu projeto levasse
simplicidade e conforto sem custar mais
caro. Isso justifica o uso da fibra de vidro,
porque é bem mais barata que os outros
materiais (vidro e acrílico), ocupa menos
espaço e se ajusta perfeitamente ao clima
Foi um longo caminho até chegar ao modelo
atual. Em 1934, para fazer uma ligação era
necessário ter uma moeda de 400 réis.
Porém, com a mudança da moeda brasileira
em 1945, foi necessário mudar também o
dispositivo interno dos telefones, que
passaram a receber duas moedas de 20
centavos. Para evitar o retrabalho de alterar a
configuração dos aparelhos toda vez que a
moeda do país fosse modificada, foi criada a
ficha telefônica, mas cada companhia
possuía modelos de fichas exclusivos. Foi
então que em 1964 a CTB criou um modelo
de ficha padrão, que poderia ser utilizado em
todo território atendido pela companhia. As
fichas foram utilizadas até o ano de 1992,
quando a Telebrás criou o cartão telefônico
que vai subtraindo os créditos de acordo com
o tempo de ligação. Esse cartão é utilizado
até os dias atuais.
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Como dizia o poeta
Vinicius de Moraes
Poema de Natal
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Poética I
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Soneto de separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.
Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.
Soneto de fidelidade
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
Vinícius de Moraes (Rio de Janeiro, 1913- 1980)
foi diplomata, dramaturgo, jornalista, compositor e
poeta brasileiro. Esses poemas pertencem às obras
“Poemas, sonetos e baladas” (1946) e “Livro de
sonetos” (1957).
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Estilos musicais
Frevo é declarado Patrimônio da Humanidade
A
7ª
Sessão
do
Comitê
Intergovernamental para a Salvaguarda
do Patrimônio Cultural Imaterial
aprovou por unanimidade, neste 5 de
dezembro, a inscrição do Frevo – Expressão
Artística do Carnaval do Recife como
Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
A ministra da Cultura, Marta Suplicy, e a
presidenta do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Jurema
Machado, integraram a delegação brasileira
que participou da reunião que aconteceu na
sede da UNESCO, em Paris. Suplicy ressaltou
que “o Frevo é uma força viva que junta
dança, música, artesanato. É um enorme
orgulho, ter todas estas capacidades
reconhecidas”. T
Dança instrumental, marcha em tempo
binário e andamento rapidíssimo. Assim o
ensaísta Mário de Andrade sumariza o frevo
em seu “Dicionário Musical Brasileiro”. Tratase de um gênero musical urbano que surgiu
no final do século XIX, no carnaval de
Pernambuco, como uma forma de expressão
popular em um momento de transição e
efervescência social. As bandas militares e
suas rivalidades, os escravos recém-libertos,
os capoeiras, a nova classe operária e os
novos espaços urbanos foram elementos
definidores da configuração do Frevo, que
desde suas origens expressa protesto político
e crítica social em forma de música, dança e
poesia, constituindo-se em símbolo de
resistência da cultura pernambucana e
expressão significativa da inventividade e
diversidade cultural brasileira.
Inicialmente chamado "marcha nortista" ou
"marcha pernambucana", o Frevo dos
primórdios trazia capoeiristas à frente do
cortejo. Das gingas e rasteiras que eles
usavam para abrir caminho teria nascido o
passo, que também lembra as czardas
russas. As denominações dos passos são até
hoje associadas ao universo do trabalho:
alicate, serrote, tesoura, ferrolho, parafuso,
martelo. Até as sombrinhas coloridas seriam
uma estilização das utilizadas inicialmente
como armas de defesa dos passistas.
A música frenética, ligeira e vigorosa do Frevo
nasceu da fusão de gêneros musicais, tais
como marcha, dobrado, maxixe, quadrilha,
polca e peças do repertório erudito,
resultando suas três modalidades, ainda
vigentes: Frevo de Rua, Frevo Canção e Frevo
de Bloco.
O Frevo de Rua é o irmão mais velho da
família,
sendo
sua
instrumentação
emblemática no gênero. Há predominância
de instrumentos de bocal (trompetes,
trombones, tuba); de instrumentos de naipe
dito “das madeiras” (saxofones, clarinetes,
requintas, flautas) e de percussão (surdos,
caixas, pandeiros). A instrumentação do
Frevo Canção é basicamente a mesma do
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Frevo de Rua, porém sua execução é mais
comum nos palcos ou estúdios. Já no Frevo
de Bloco, a instrumentação típica, chamada
de pau-e-corda se baseia em cordas
dedilhadas ou tocadas com plectro (palheta)
para
o acompanhamento
harmônico,
sobretudo violões e cavaquinhos; em sopros,
especialmente
flautas,
clarinetes
e
saxofones; e na percussão podem ser
incorporados chocalhos, reco-recos e
bandolins.
De instrumental, o gênero ganhou letra no
Frevo
Canção
e
saiu
do
âmbito
pernambucano para tomar o país. Basta dizer
que “O teu cabelo não nega”, de 1932,
considerada a composição que fixou o estilo
da marchinha carnavalesca carioca, é na
verdade uma adaptação do compositor
Lamartine Babo do frevo “Mulata”, dos
pernambucanos Irmãos Valença.
A primeira gravação com o nome do gênero
foi o “Frevo pernambucano” (Luperce
Miranda/ Oswaldo Santiago) lançada por
Francisco Alves no final de 1930. Um ano
depois, “Vamo se acabá”, de Nelson Ferreira
pela Orquestra Guanabara recebia a
classificação de Frevo. Dois anos antes,
ainda com o codinome de "marcha nortista",
saía do forno o pioneiro “Não puxa Maroca”
(Nelson Ferreira) pela orquestra Victor
Brasileira comandada por Pixinguinha.
Ases da era de ouro do rádio como Almirante
(“Vassourinhas”), Mário Reis (“É de
amargar”), Carlos Galhardo (“Morena da
Sapucaia”), Linda Batista (“Criado com vó”),
Nelson Gonçalves (“Quando é noite de lua”),
Cyro Monteiro (“Linda flor da madrugada”),
Dircinha Batista (“Não é vantagem”), Gilberto
Alves (“Não sou eu que caio lá”) ou Carmélia
Alves (“É de Maroca”) incorporaram frevos a
seus repertórios. Em 1950, inspirados na
energia do frevo pernambucano, a bordo de
uma pequena fobica, dedilhando um cepo de
madeira eletrificado, os músicos Dodô &
Osmar fincavam as bases do trio elétrico
baiano que se tornaria conhecido em todo o
país a partir de 1979, quando Caetano
Veloso documentou o fenômeno em seu
“Atrás do trio elétrico”.
Em 1957, o frevo “Evocação No. 1”, de
Nelson Ferreira, gravado pelo Bloco Batutas
de São José invadiria o carnaval carioca
derrotando a marchinha e o samba. O
lançamento era da gravadora local,
Mocambo, que se destacaria no registro de
inúmeros frevos e em especial a obra de seus
dois maiores compositores, Nelson (Heráclito
Alves) Ferreira (1902-1976) e Capiba
(Lourenço da Fonseca Barbosa, 1904-1997).
Além de prosseguir até o número 7 da série
“Evocação”, Nelson Ferreira teve êxitos como
o frevo “Veneza brasileira”, gravado pela
sambista Aracy de Almeida e outros como
“No passo”, “Carnaval da Vitória”, “Dedé”, “O
dia vem raiando”, “Borboleta não é ave” e
“Frevo da saudade”. A exemplo de Nelson,
Capiba também teve sucessos em outros
estilos como o clássico samba-canção “Maria
Bethânia” gravado por Nelson Gonçalves em
1943, que inspiraria o nome da cantora.
Capiba emplacou “Manda embora essa
tristeza” e vários outros frevos que seriam
regravados pelas gerações seguintes como
“De chapéu de sol aberto”, “Tenho uma coisa
pra lhe dizer”, “Quem vai pra Farol é o bonde
de Olinda”, “A pisada é essa” e “Gosto de te
ver cantando”.
Cantores como Claudionor Germano e
Expedito Baracho se transformariam em
especialistas no ramo. O gênero esfuziante
sensibilizou mesmo a intimista Bossa Nova.
De Tom Jobim e Vinicius de Moraes (“Frevo”)
a Marcos e Paulo Sérgio Valle (“Pelas ruas do
Recife”) e Edu Lobo (“No cordão da saideira”)
todos investiram no (com)passo acelerado
que também contagiou Gilberto Gil a
municiar de guitarras seu “Frevo rasgado” em
plena erupção tropicalista. A baiana Gal
Costa misturou frevo, dobrado e tintura funk
num de seus maiores sucessos, “Festa do
Interior” (ver JornalDaCasa #1) e a safra
nordestina posterior não deixou a sombrinha
cair. O pernambucano Carlos Fernando, autor
do explosivo “Banho de cheiro”, sucesso da
paraibana Elba Ramalho, organizou uma
série de discos intitulada “Asas da América” a
partir do começo dos 80. De Chico Buarque a
Jackson do Pandeiro, do Quinteto Violado a
Antonio Nóbrega, todos mantêm no ponto de
fervura o frevo pernambucano.
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Jornal da Casa / Casa do Brasil