OBJETIVISMO E IMPESSOALIDADE
O poeta deve ser neutro diante da realidade, esconder seus
sentimentos, sua vida pessoal. A confissão íntima e o
extravasamento subjetivo, tão caros aos românticos, são vistos como
inimigos da poesia. A exemplo do que ocorrera no Realismo e no
Naturalismo, o escritor é aquele que observa e reproduz as coisas
concretas.
ARTE PELA ARTE
Esta expressão sugere que a poesia não tomava partido, não tem
nenhum sentido utilitário, não se comprometia composições
políticas. Os parnasianos ressuscitam o preceito latino de que a arte
é gratuita, que só vale por si própria. Ela, nenhum tipo de
compromisso. É autossuficiente e justifica-se apenas por sua beleza
formal.
RETORNO AO CLASSICISMO
Abordando temas mitológicos e da antiguidade greco-latina, os
poetas parnasianos valorizavam as normas e técnicas de composição
e, regra geral, exploravam o soneto (poema de forma fixa).
CULTO DA FORMA
O objetivo da "arte pela arte" é o Belo, a criação da beleza pelo uso perfeito
dos recursos artísticos. Neste sentido, levam ao exagero o culto da rima, do
ritmo, do vocabulário, do verso longo. Para o Parnasiano, a poesia deveria
ser trabalhada até que resultasse perfeita.
O resultado da visão descompromissada é a celebração dos processos
formais do poema. A verdade de uma obra de arte passa a residir apenas em
sua beleza. E a beleza é evidenciada pela elaboração formal. Logo: VERDADE
= BELEZA = FORMA = POESIA
O sentido da forma: Mas, afinal, o que é forma para os parnasianos?
Eles consideram como forma a maneira do poema ser apresentado, seus
aspectos exteriores. Forma seria assim a técnica de construção do
poema. Isso representava uma simplificação primária do fazer poético e do
próprio conceito de forma que passava a ser apenas uma fórmula.
Preferência por um vocabulário dicionarizado, evitando-se palavras de uso
corriqueira, enfatizando-se o uso de palavras latinizadas, organizadas numa
sintaxe erudita, em que se destacam os processos de encadeamentos
sintáticos, como o enjambemant.
1- METRIFICAÇÃO RIGOROSA:
Os versos devem ter o mesmo número de sílabas poéticas, preferencialmente
dez sílabas poéticas ( versos decassílabos ) e doze sílabas (versos
alexandrinos), os preferidos na época, ou apresentar uma simetria constante.
2- RIMAS RICAS:
Os poetas devem evitar as rimas pobres, isto é, aquelas estabelecidas por
palavras da mesma classe gramatical. No período há uma ênfase no tipo de
rima ABAB para as estrofes de quatro versos, isto é o primeiro verso rima
com o terceiro, o segundo com o quarto. Não é incomum, contudo, o uso de
rimas ABBA, isto é o primeiro verso rima com o quarto e o segundo com o
terceiro.
3- PREFERÊNCIA PELO SONETO:
Os parnasianos reivindicam a tradição clássica do soneto, composição poética
de quatorze versos - articulada obrigatoriamente em dois quartetos e dois
tercetos - e que se encerra com uma "chave de ouro", espécie de síntese do
poema, manifesta tão somente no último verso.
4- DESCRITIVISMO:
Eliminando o Eu, a participação pessoal e social, só resta ao parnasiano uma
poética baseada no mundo dos objetos, objetos mortos: vasos, colares, muros,
etc. São pequenos quadros, fortemente plásticos (visuais), fechados em si
mesmos, com grande precisão vocabular e frequente superficialidade.
VILA RICA
O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;
Sangram, em laivos de ouro, as minas, que ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre:
E cada cicatriz brilha como um brasão.
O ângelus plange ao longe em doloroso dobre,
O último ouro de sol morre na cerração.
E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre,
O crepúsculo cai como uma extrema-unção.
Agora, para além do cerro, o céu parece
Feito de um ouro ancião, que o tempo enegreceu...
A neblina, roçando o chão, cicia, em prece,
Como uma procissão espectral que se move...
Dobra o sino... Soluça um verso de Dirceu...
Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove.
Olavo Bilac
RESUMINDO AS CARACTERÍSTICAS PARNASIANAS:
 Postura antirromântica que se manifesta na busca da objetividade
absoluta.
 Objetividade temática, postura que leva os poetas a fazer poemas
descritivos e reflexivos.
 Arte pela arte, o que cria o conceito de uma arte não
compromissada com a ideologia social, pois seu objetivo é “o fazer
estético e não o dizer”.
 Culto da forma, representada pelos sonetos, versos alexandrinos e
decassílabos, sáficos e heroicos, com rimas rica, rara e perfeita.
 Tentativa de atingir a impassibilidade e a impessoalidade, nem
sempre possível.
 Universalismo, o que leva os poetas a cultuar temas comuns e não
particulares, conforme ocorria no Romantismo e no Simbolismo.
 Descrições objetivas da natureza e de objetos e reflexões sobre
pequenas dramas humanos.
 Retomada da Antiguidade Clássica, com seu racionalismo e formas
perfeitas, mas também de sua cultura e história.
TEMÁTICA
PARNASIANA
OBJETOS DE ARTE, DECORATIVOS E UTILITÁRIOS
 Os parnasianos não se limitam apenas a descrever
objetivamente os objetos sobre sua utilidade, mas a
refletir sobre a sua beleza estética, o que configura
metalinguagem.
 Em alguns poemas, os poetas procuram comparar a
utilidade funcional do objeto com a existência humana,
o que configura uma reflexão de cunho filosófico.
 Vaso grego, Vaso chinês, A Estátua, do poeta parnasiano
Alberto Oliveira, e Perfeição, de Olavo Bilac, são poemas
em que a metalinguagem é o tema principal, mas em o
Tear percebe-se uma intenção filosófica por parte de
Bilac.
 O Muro, O Musgo, Taça de Coral e a Vingança da Porta
são poemas em que a intenção principal é o exercício da
linguagem poética, como é comum aos parnasianos, e
objetivamente descritivo.
VASO GREGO
Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.
Era o poeta de Teos que a suspendia
Então, e, ora repleta ora esvasada,
A taça amiga aos dedos seus tinia,
Toda de roxas pétalas colmada.
Depois... Mas o lavor da taça admira,
Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás-de lhe ouvir, canora e doce,
Ignota voz, qual se da antiga lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fosse.
Alberto Oliveira
A NATUREZA ESTÁTICA E ILUSTRATIVA
 A natureza para os parnasianos apresenta-se dentro da
perspectiva bucólica dos árcades, mas para eles
interessa apenas fotografá-la com palavras num pleno
exercício lúdico com as palavras.
 Em vários poemas percebe-se a intenção do poeta em
percebê-la sensorialmente, numa plena descrição
plástica, mas com subjetividade contida.
 Anoitecer, A Cavalgada e Banzo, de Raimundo Correa;
Vila Rica, de Olavo Bilac; O choro das Vagas, O Musgo e a
Palmeira, de Alberto Oliveira, são alguns dos poemas
mais significativos dos poetas parnasianos, mas ao
contrário dos românticos, os escritores evitam comparar
o estado de espírito do EU com a natureza.
ANOITECER
Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol... Aves em bandos destacados,
Por céus de oiro e de púrpura raiados,
Fogem...Fecha-se a pálpebra do dia...
Delineiam-se, além da serrania
Os vértices de chama aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia..
Um mundo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua...
A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece.
Raimundo Correia
A METALINGUAGEM
 O ideal de beleza e perfeição leva os
parnasianos , na maioria das vezes, a refletir
sobre o processo de criação da poesia, o que os
leva a fazer metalinguagem.
 O poema Profissão de Fé, de Olavo Bilac, neste
sentido funciona como definidor do programa
estético dos parnasianos, em que o poeta
reafirma seu compromisso de objetividade e
sua ideologia esteticista.
 Inania Verba e Língua Portuguesa são outros
poemas de temática metalinguística que
aparece também em poemas sobre objetos de
arte, como a Estátua, Vaso Grego e Perfeição.
PROFISSÃO DE FÉ
( ... )
Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito:
(...)
Porque o escrever - tanta perícia,
Tanta requer,
Que oficio tal... nem há notícia
De outro qualquer.
Assim procedo. Minha pena
Segue esta norma,
Por te servir, Deusa serena,
Serena Forma!
( ... )
E horas sem conto passo, mudo,
O olhar atento,
A trabalhar, longe de tudo
O pensamento.
Olavo Bilac
REFLEXÕES FILOSÓFICAS
 É comum entre os parnasianos a reflexões sobre
inquietações existenciais, influência da poesia realista
europeia, em que os poetas expressavam um certo mal
estar diante da realidade burguesa capitalista.
 Os poetas parnasianos, principalmente os brasileiros,
fizeram uma poesia de reflexão filosófica em que
abordavam temas como dissimulação, velhice, desilusão
e felicidade.
 Nestes poemas reflexivos observa-se, portanto, uma
temática quase sempre eivada de pessimismo diante da
existência material e humana, como era comum entre os
poetas simbolistas, românticos da segunda geração e os
escritores realistas.
 Poemas como Velho Tema e Esperança, de Vicente de
Carvalho; Mal secreto e As Pombas, de Raimundo Correa;
O Tear, de Olavo Bilac, e Velhice, de Alberto Oliveira, são
exemplos de textos reflexivos.
ESPERANÇA
Só a leve esperança em toda a vida
disfarça a pena de viver, mais nada;
nem é mais a existência resumida
que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada,
sonho que a traz ansiosa e embevecida,
é uma hora feliz, sempre adiada
e que não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade que supomos
árvore milagrosa que sonhamos
toda arriada de dourados pomos
existe sim; mas nós não n´a encontramos,
porque está sempre apenas onde a pomos
e nunca a pomos onde nós estamos.
Vicente de Carvalho
A CULTURA GRECO-ROMANA
 O Ideal de beleza e a perfeição leva os parnasianos a
retomarem a cultura greco-latina, o que dá à sua poesia
uma conotação neoclássica e acadêmica.
 A cultura antiga aparece na poesia parnasiana em
reflexões e descrições sobre a História, a Geografia, a
Cultura e a Mitologia pagã.
 A concepção de arte dos clássicos é o tema mais evidente
em poemas que retomam os ideais da cultura e da arte
greco-romana.
 Esta postura justifica a denominação de “poetas da torre
de marfim”, visto que os parnasianos abandonaram a
ideologia social para tematizar o passado, numa época
em que a arte tinha um compromisso com o seu tempo.
 Fica clara, portanto, que a arte poética parnasiana
retoma alguns pressupostos do Arcadismo, do
Classicismo e dos poetas da Antiguidade greco-latina.
Língua portuguesa
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o tom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
Olavo Bilac
 Os poetas parnasianos, contudo, abordam
outros temas, como o amor numa perspectiva
erótica, em que a mulher aparece
concretamente.
 No Brasil, os poetas, principalmente, Olavo
Bilac, do ponto de vista formal, fizeram uma
poesia dentro dos preceitos da estética.
 Tematicamente, contudo, oscilaram entre o
pessimismo romântico da segunda geração, o
amor platônico, o nacionalismo ufanista e
aspectos transcendentais dos simbolistas.
 Assim não conseguiram atingir a objetividade
absoluta que pregava a estética ao fazerem
poemas dotados de subjetivismo contido e de
tons impressionistas.
Como quisesse livre ser
Como quisesse livre ser, deixando
As paragens natais, espaço em fora,
A ave, ao bafejo tépido da aurora,
Abriu as asas e partiu cantando.
Estranhos climas, longes céus, cortando
Nuvens e nuvens, percorreu: e, agora
Que morre o sol, suspende o voo, e chora,
E chora, a vida antiga recordando ...
E logo, o olhar volvendo compungido
Atrás, volta saudosa do carinho,
Do calor da primeira habitação...
Assim por largo tempo andei perdido:
— Ali! que alegria ver de novo o ninho,
Ver-te, e beijar-te a pequenina mão!
Olavo Bilac
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