ISBN: 978-85-61946-63-0
4, 5, 6 e 7 de setembro de 2012 – Teresina – Piauí – Brasil
A REPRESENTAÇÃO DA IDENTIDADE FEMININA NO CONTO TIÚBE A
MESTIÇA DE ASSIS BRASIL
Lila Léa Cardoso Chaves COSTA*
Maria Edna Silva PEREIRA**
Universidade Federal do Piauí - UFPI
RESUMO
O conto Tiúbe a mestiça de Assis Brasil possibilita inúmeros olhares, dentre estes a
análise da representação da figura feminina. Algumas questões nortearão a
evolução deste trabalho: Como ocorre a construção da figura feminina? Como se
percebe o gênero e a submissão no conto? Neste sentido nos embasaremos na
visão de teóricos como Júlia Kristeva (2001), Luiza Lobo (1993), Elódia Xavier
(2001), Cristina Ferreira Pinto (1990), Judith Buttler (1987), Nietzsche (1877) e
Foucault (1988), que direcionam suas proposições para as relações de poder no
discurso, gênero e os processos de construção da identidade feminina. Percebe-se
que estes possuem pontos comuns em suas considerações: as relações de poder
envolvidas nas construções caracterizam as personagens dentro de um processo
de submissão que possibilitam conflitos e contradições sociais, numa hierarquia de
poder na representação masculina. A análise do conto possibilita reflexões sobre a
necessidade de verificarmos a questão do feminino, levando em consideração os
elementos gênero, submissão e representação. O aspecto social acrescenta
elementos a respeito da construção das personagens, nessa perspectiva pretendese apresentar episódios do conto Tiúbe a mestiça, em especial a protagonista,
dentro desse panorama de submissão, em que o contexto social e as condições
históricas de marginalização e subordinação na construção da identidade.
Palavras-chave: Gênero. Representações. Assis Brasil.
ABSTRACT
The tale Tiúbe a mestiça the Assis Brasil provides numerous looks, among them the
analysis of the representation of the female figure. Some questions will guide the
development of this work: As the construction of the female figure? As can be seen
in the genre and submission tale? In this sense we will argue in view of theorists
like Julia Kristeva (2001), Luiza Lobo (1993), Elodia Xavier (2001), Cristina Ferreira
Pinto (1990), Judith Butler (1987), Nietzsche (1877) and Foucault (1988), directing
their propositions to the power relations in discourse, gender and the processes of
construction of female identity. It is noticed that these have commonalities in their
considerations: power relations involved in the constructions featuring the
*
Especialista em Literatura Brasileira e Língua Portuguesa (UEMA), aluna do Mestrado em Letras com área
de concentração em Estudos Literários (UFPI). E-mail: lilaleaccchaves@hotmail.com.
**
Especialista em Literatura Brasileira (UEMA), aluna especial do mestrado em Letras com área de
concentração em Estudos Literários (UFPI). E-mail: edna.2020@hotmail.com.
characters within a submission process that enable social conflicts and
contradictions, in a hierarchy of power in male representation. The analysis of the
tale provides reflections on the need to verify the issue of women, taking into
account the factors gender, submission and representation. The social aspect adds
elements regarding construction of the characters, this perspective is intended to
present the story episodes Tiúbe crossbreed, especially the protagonist, within this
panorama of submission, in which the social and historical conditions of
marginalization and subordination in construction of identity.
Keywords: Gender. Representations. Assis Brasil.
INTRODUÇÃO
Assis Brasil no conto Tiúbe a mestiça retrata um objeto de pesquisa de caráter
polêmico, estritamente sugestivo na nossa esfera cultural e social, a representação
da figura feminina. Levantar questionamentos e buscar um eixo norteador em
torno do conto tem movido nosso cuidado e atenção. Algumas questões nortearão
a evolução deste trabalho, como: em qual contexto social é representada a ação das
personagens? De que forma ocorre a construção da figura feminina? Como se
percebe as relações de gênero no conto? Como se conjetura a submissão feminina x
masculino?
Neste sentido nos embasaremos na visão de teóricos como Júlia Kristeva
(2001), Luiza Lobo (1993), Elódia Xavier (2001), Cristina Ferreira Pinto (1990),
Judith Buttler (1987), Regina Zilberman (1981), Mariza Lajolo (1981), Nietzsche
(1877) e Foucault (1988), que direcionam suas proposições para as relações de
poder no discurso, gênero e os processos de construção da identidade feminina.
Percebe-se que estes possuem pontos semelhantes em suas considerações no que
se refere às relações de poder no discurso, o processo de construção e submissão
que caracterizam as personagens, conflitos e contradições sociais numa hierarquia
de poder na representação masculina.
A análise do corpus possibilita reflexões sobre a necessidade de
verificarmos a questão do feminino, promovendo assim estudos, pesquisas e
análises dos elementos: gênero, submissão e representação feminina. O aspecto
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social presente no conto acrescenta informações a respeito da construção das
personagens, movendo a uma relação entre identidade, gênero e submissão.
É nessa perspectiva que se buscou apresentar episódios do conto Tiúbe a
mestiça, que caracterizassem as personagens, em especial a protagonista Tiúbe,
dentro desse panorama de submissão, em que o contexto social e as condições
históricas de marginalização e subordinação revelam um espaço de subserviência
na construção da identidade da personagem citada.
Sobre o enredo
Percebe-se que o narrador, no referido conto, escreve com uma visão
tipicamente masculina, embora, talvez, não seja essa sua intenção primeira,
entretanto as representações das personagens são fortemente marcadas por um
olhar de submissão e subserviência.
Sob uma ótica intrínseca à representação e construção da personagem
feminina, um universo de possibilidades nos é proporcionado fazendo-nos
enfatizar a submissão da protagonista, que notoriamente por conta de sua postura,
pode ser vista como uma mulher de comportamento comum e aceitável para o
meio que vivia, cumprindo o papel e o destino que previa a sociedade, não
somente por ser mestiça, índia e analfabeta, nessa última condição, como outras
personagens também descritas no texto, mas por ser mulher. Na condição de
mulher culta, surge como exceção no contexto da obra, a esposa do engenheiro,
que embora sendo instruída também se submete à vida conjugal de maneira
domesticada, com as amarras formais da época.
Não se pretende observar o caráter do escritor, mas as representações das
personagens no conto Tiúbe a mestiça, em especial da protagonista. Maria Luiza
Ritzel (2000) faz as seguintes arguições acerca das construções do texto literário:
“Na história da crítica literária feminista, tem-se considerado dois tipos: a de
literatura de autoria feminina e a de literatura de autoria masculina, ainda que se
saiba que textos não tem sexo” (p. 7). As proposições acerca do gênero envolvem
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questões de âmbito social e cultural verificando os discursos e o efeito que eles têm
sobre a literatura e a representação feminina, os questionamentos a respeito da
autoria ampliam essas análises.
Discussões acerca das relações de gênero
Com relação ao tema proposto, deve-se considerar o posicionamento de
Simone de Beauvoir (BUTTLER, 1997) ao retratar-se sobre o gênero “(...) vê o
gênero como um projeto incessante, um ato diário de reconstrução...” (p.142-143).
Daí foca-se o interesse na pesquisa e análise do gênero no conto Tiúbe a mestiça,
sendo importante ressaltar que os estudos das relações de gênero intensificaram-se
a partir do movimento feminista nas décadas de 60 e 70, adquirindo estatuto
científico, tendo relação direta com a discriminação da mulher em todos os
âmbitos da vida humana. A respeito do conceito de gênero Almeida diz o
seguinte:
(...) o conceito de gênero não se refere especificamente a um ou outro
sexo, mas sobre as relações que são socialmente construídas entre eles (...)
relações de poder que revelam os conflitos e as contradições que marcam
a sociedade (...). As desigualdades entre os gêneros, assim como as que
envolvem idade, classes sociais e raças (...) efetivam mecanismos de
produção e reprodução da discriminação que adquirem concretude em
todas as instâncias da vida social pública e privada (...) (ALMEIDA, 1998,
p. 40-41).
Dessa forma, os mecanismos de produção e reprodução da discriminação,
não se relacionam com a escrita masculina, pois negar ao homem a possibilidade
de uma justa representação feminina equivaleria dizer, por exemplo, que um autor
culto e burguês não saberia representar um personagem que fosse favelado ou
operário. Como exemplo dessa boa representação feita por autores, temos Madame
Bovary (1956) de Gustavo Flaubert e São Bernardo (1934) de Graciliano Ramos, nas
quais se destacava o conflito de expectativas que a leitura e a instrução podem
deflagrar num paradigma de desencontros homem/mulher e na voz sofrida
feminina.
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O questionável é se pode existir uma política de gênero que ao longo do
tempo vem rebaixando as personagens femininas ou mesmo excluindo-as do meio
político, cívico, cultural e social, visando-a como meramente dependente do
universo simbólico masculino. Com base nesta acepção, Cristina ferreira Pinto
(1990) retoma considerações de Júlia Kristeva e Hélène Cixous que questionam
distinções rígidas entre o que é masculino e feminino:
A “escritura feminina” apresenta-se, pois como uma prática libertadora
se se lembrar que não exclui o Sujeito masculino; se privilegia o
“feminino” é porque este representa, por um lado, aquilo que sempre foi
ignorado ou silenciado na cultura ocidental e, por outro lado, porque o
“feminino” identifica-se com o Sujeito capaz de menos reprimir em si o
elemento sexual oposto (PINTO, 1990, p. 21).
A
discussão
acerca
da
escritura
feminina
desperta
dúvidas
e
questionamentos que fazem validar a idéia de que o discurso estabelecido na
representação feminina pode introduzir elementos novos que congruem aos
conceitos tradicionais, uma estrutura doméstica, sentimental, sem profundidade e
densidade, ocupando um espaço menos importante que em sua maioria privilegia
o masculino, silenciando o feminino, reprimindo-o ou colocando-o em um espaço
de reclusão. No livro Crítica sem Juízo (1993), Luiza Lobo enfoca o seguinte:
(...) a percepção feminina do mundo mostra um outro que estivera
tradicionalmente à margem da cultura e do simbólico e que passa cada
vez mais, no séc. XX, a expressar uma nova voz impossível de ignorar na
visão literária – exatamente porque representa uma visão “marginal”,
excluída (LOBO, 1993, p. 14).
Que efeitos causam essa voz feminina no conto? Mimetizam sua extrema
dependência patriarcalista? O enredo centra-se em fracassos amorosos e
sentimentos sem a percepção de um futuro satisfatório? Como se percebe a
submissão? O texto deve conter essa diferenciação de masculino e feminino?
Incontestavelmente as mulheres estiveram excluídas de uma efetiva
participação na sociedade, por muito tempo não ocupavam cargos públicos, não
votavam, estiveram impedidas da educação superior, aprendiam a sentirem-se
incapacitadas, excluídas, sujeitas à autoridade e autoria masculina. Júlia Lopes de
Almeida (2000), escritora e jornalista afirma que:
Não há meios de os homens admitirem semelhantes verdades. Eles
teceram a sociedade com malhas de dois tamanhos, grandes para eles,
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para que seus pecados e faltas saiam e entrem sem deixar sinais e
extremamente miudinhas para nós. [...] e o pitoresco é que nós mesmas
nos convencemos disto! (ALMEIDA, 2000, p. 408).
Partindo desse pressuposto onde existem verdades aceitáveis e outras
discriminadas, Foucault (1985), conclui o terceiro volume de sua História da
Sexualidade, percebendo que em nosso meio “uma certa desqualificação doutrinal
parece recair sobre o amor” (p. 231), associando este à aspectos comportamentais
da mulher. Assim sendo, vale ressaltar, que por muito tempo promoveu-se um
comportamento típico para as mulheres que deveriam sujeitar-se à dominação do
masculino, onde a submissão tornava-se modelo institucional de obediência sem
colocar em foco as privações culturais e sociais.
Judith Buttler (2003), atenta para o fato de o gênero ser culturalmente
construído. Nesse sentido, pode-se considerar que a moça ou a mulher casada
submeta-se a um cuidado privilegiado, que faz de seu comportamento um objeto
de culto, onde a honradez e habilidade como dona de casa possam ser associados
à exemplar figura materna. Quanto à reputação do homem, esta não será atingida
se ele conseguir preservar sua postura de ser ativo e dominador nas suas diversas
relações.
De acordo com as postulações de Judith Buttler (2003) e Foucault (1985), o
gênero decorre de uma série de regulações sociais, onde masculino e feminino são
como uma página em branco, como ressalta Friedrich Nietzsche (1987), na qual os
valores culturais se inscrevem nesse espaço.
Representação da identidade feminina em Tiúbe, a mestiça
A análise desenvolvida em torno da personagem Tiúbe, de Assis Brasil
(2007), possibilitará ampliar a crítica e investigação referentes aos estudos sobre a
mulher - bastante contestada quando representada no texto literário. Portanto,
independentemente de quem escreve, existem figuras femininas muito bem
delineadas e definidas, não importando a condição do autor.
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O tema em questão traz à tona impressões e contribuições para a análise
literária em sua totalidade, embora não tenham sido poucas as tentativas de
investigar a mulher sob a ótica do masculino, ou o que ela representa para o
mundo masculino, sabe-se que essas tentativas, muitas vezes vazias, de configurar
o desejo feminino, ou mesmo de representação dessas personagens na literatura
tem impactado o olhar dos críticos, pois essas descrições na obra literária podem
muito bem construir um feminino que queira somente ser e ter os mesmos
preceitos anteriormente decodificados e impostos pelo masculino, a submissão
feminina, percebida na construção da personagem.
Sair da dualidade e tentar compreender a força e o significado dessas
representações é um exercício da desconstrução sobre as diferenças que
impulsionaram essa análise. A questão do masculino e do feminino é um
problema desde sempre para teorias e críticas do feminino, principalmente da
escrita às vezes engendrada de uma imposição do masculino sobre o feminino,
envolvendo as questões sexuais e também de gênero no sentido de tentarem
decodificar pressupostos ontológicos para além daquilo que conhecemos como
efeitos de uma identidade masculina e feminina.
Falar de uma identidade feminina que possa ser construída a partir do
masculino, é verificar que geralmente estas são pautadas pela visão masculina que
as definiu anteriormente. No conto analisado, trata-se de Néo, esposo de Tiúbe,
que marca a narrativa com seus causos, enquanto Tiúbe costura ou chora pelos
filhos que perdeu na jornada ao seu lado, como se percebe na cena abaixo:
- Diabo de vida mais besta.
O filho menor continuava a choramingar no fundo da casa.
“Nuquinho não é de chorar assim, deve estar doente.”
- Ó cavalo velho!
“Néo, se morrer de novo um filho meu, eu me acabo.”
“Pobre Tiúbe, sem dente, sem um quintal decente pra criar suas galinhas,
seus patos [...] (BRASIL, 2007, p. 150).
A personagem foi submetida à força repressiva do poder masculino
quase aparentemente sem marca alguma de oralidade, com uma fraqueza de
mulher submissa. Neste sentido, a desconstrução poderia ser pensada como os
textos começaram a dizer aquilo que não se esperava deles, a configuração da
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figura feminina a partir da concepção de que a mulher-sujeito ocupa um espaço
simbólico que se deslocou do lugar da verdade unívoca e confirma com as certezas
tidas como única que se repetem em representações de extrema submissão ao
masculino.
Percebe-se no contexto, um momento crítico da vida da mulher,
promovido por preconceituosas desigualdades sociais, pela consideração das
diferenças de sexo e pelas múltiplas implicações das questões de gênero,
problematizadas no corpo da representação ou construção simbólica, sob a forma
da metalinguagem em arte literária. Assim, destacam-se algumas passagens na
obra de Assis Brasil (2007), que confirmam essa configuração da personagem
feminina no conto. A exposição parte da seleção de determinadas situações
visíveis como marcas de oralidade ou a ausência dela, como se percebe na
passagem abaixo:
_ É velho aleijado, velho cego, velho velho, gente sem nenhum amparo. E
toda sorte de menino maleitoso, aquelas mulheres desvalidas que
sobraram de suas famílias e não tem de onde tirar o sustento. Um horror
(...) aquelas mulheres desvalidas do interior são as sobras da miséria.
Sobreviventes profissionais, ele falou (...) essas pobres mulheres são
sobreviventes da miséria. Ou o marido morreu cedo, sacrificado pelo
trabalho duro, ou foi embora, desapareceu, e elas ficaram, permaneceram
na terra sem saber o que fazer, de peito murcho e olhar triste, e até a
prostituição é concorrente com a miséria.
_ E vivem mais também do que os próprios filhos, assim como uma
purgação porque pecaram, doutor? (IDEM, 2007, p. 156).
Nesse percurso de construção e desconstrução de imagens femininas,
não só na figura da protagonista, mas como nas de outras que fazem parte da
narrativa neste conto, pode-se examinar a condição crítica da mulher sertaneja.
Outras figuras, de maneira mais evidente, como as prostitutas, apresentam uma
condição de subordinação, numa sociedade patriarcal de passado colonial com
marcas, das quais a mais evidente talvez seja a do silêncio e a de uma ausência,
notadas no desenrolar da narrativa ao observar o cenário em que é representada a
vida dessas personagens sem vicissitude e sem voz.
Na passagem abaixo é notório o viés de discriminação em torno das
prostitutas, em um dos causos contados por Néo, durante a inundação de um
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povoado por conta da abertura de uma barragem, o padre da cidade determina o
abandono das prostitutas a fim de que elas fossem mortas durante a inundação:
_ E estas mulheres aí, padre?
Elas gritavam mais alto como a pedir clemência, a água pela cintura.
Uma chegou a implorar pelo amor de Deus.
Aí o padre Simão, como se tivesse chegado finalmente a uma resolução
quanto ao destino daquelas mulheres, inchou o peito e gritou:
_ Elas ficam! Elas ficam, são umas perdidas, pecadoras, não merecem
viver, passaram a vida em pecado mortal, perseguindo homens bons,
desencaminhando trabalhador honesto. Fizeram muito mal às famílias
daqui. Elas vão ficar como exemplo, como castigo. Deus disse que o
salário do pecado é a morte. No dilúvio houve também escolha.
As mulheres aumentaram o berreiro, chamaram o padre de nome feio,
arrancaram os cabelos, só vendo aquilo, doutor, pra acreditar.
_ Sodoma, Gomorra! __ gritava o padre, mostrando para as mulheres o
seu crucifixo (BRASIL, 2007, p. 165).
A condição marginal e a ignorância intelectual da mulher, efetivamente
visíveis no texto, marcam um universo feminino que se desenrola na reclusão
social, na qual elas se tornam vítimas do preconceito nesse espaço doméstico. Este
olhar aponta uma série de fragilidades: a fragilidade da sexualidade, a presença
constante da dialética da dominação e da opressão pelas quais esta dominação é
exercida no tempo e no espaço, os discursos normativos que pouco consideram a
prática de igualdade social, incorporando a dimensão das relações de poder ao
aspecto relacional entre as mulheres e os homens, aspecto essencial para descobrir
a amplitude dos papéis sexuais nas várias sociedades, em especial a nordestina,
representada aqui pelo narrador.
No livro, Para a Genealogia da Moral. Uma polêmica, Friedrich Nietzsche
(1877), no Prólogo 1, diz o seguinte: “Nós, que somos homens do conhecimento,
não conhecemos a nós próprios; somos de nós mesmos desconhecido(...) Nunca
nós nos procuramos: como poderia, então que nos encontrássemos algum dia?”
(NIETZSCHE, 1877, p. 1) A afirmação de Nietzsche soa como uma provocação
àqueles que negam as relações de poder exercidas no contexto literário,
principalmente com relação ao gênero. Com base nesse pressuposto, é
verdadeiramente instigante convalidarmos a análise feita aqui, porque parte do
princípio que o homem não conhece a si mesmo, preconceitos morais são firmados
no conto, tal qual o que circunda na passagem das prostitutas, que são
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consideradas perdidas, pecadoras e indignas de permanecerem no barco por sua
condição social. No prólogo 3 Nietzsche (1877), acrescenta:
Por um escrúpulo que me é próprio, e que confesso de mau grado referese, com efeito, à moral, àquilo que até agora sobre a terra foi celebrado
como moral -, por um escrúpulo que apareceu tão cedo, tão sem ser
chamado, tão incontível, tão em contradição com ambiente, idade,
exemplo, procedência, que eu quase teria o direito de denominá-lo meu
"a priori" - teve minha curiosidade assim como minha suspeita, de fazer
alto, temporariamente, diante da pergunta: que origem tem propriamente
nosso bom e mau... Felizmente aprendi a tempo a separar o preconceito
teológico do moral, e não procurei mais a origem do mal atrás do mundo.
Algo de escolaridade histórica e filológica, inclusive um inato sentido
seletivo em vista de questões psicológicas em geral, transmudou em
breve meu problema neste outro: sob que condições inventou-se o
homem aqueles juízos de valor, bom e mau? e que valor têm eles
mesmos? Obstruíram ou favoreceram até agora o prosperar da
humanidade? São um signo de estado de indigência, de empobrecimento,
de degeneração da vida? Ou, inversamente, denuncia-se neles a
plenitude, a força, a vontade de vida, seu ânimo, sua confiança, seu
futuro?(...) (NIETZSCHE, 1877, p. 2).
As considerações de Nietzsche (1987), a respeito da moral masculina e
os juízos de valor, enfatizam o preconceito e a marginalização que também é
percebida no conto, contribuindo no aprofundamento da análise do uso do gênero
para justificar ou explicar as posições de poder do masculino sobre o feminino e a
discriminação.
Exposições sobre a construção da figura feminina e a sexualidade,
possibilitam reflexões que incorporam contribuições no plano teórico das análises
dessas personagens, de maneira especial à da protagonista Tiúbe. A observação de
elementos essenciais ao desvendamento da representação das mulheres, acentua a
importância das construções, nessa perspectiva, explicitando as categorias do
masculino e do feminino, via de regra podem ser abafadas sob um neutralismo
sexual que unicamente, beneficia o mundo masculino, o que não exclui uma
hierarquização dos papéis exercidos por homens e mulheres independentes do
contexto
social.
No
texto,
outros
marcadores
da
diferenciação
dessas
representações ainda podem ser observados, como na passagem que segue:
__ Isso é verdade. É por causa do sistema político, Néo (...). Espere aí, um
momentozinho só, minha mulher está me chamando. Acho que quer
experimentar um blusão. Ela não larga aquela máquina de costura
(BRASIL, 2007, p. 141).
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Ou ainda:
__ Ermelindo, chegue aqui.
A mulher do engenheiro chamou da janela de sua casa. Estava
alinhavando uma roupa.
__ Já vou Abigail. Um momentinho só. Néo... minha mulher está me
chamando. É aquela mania dela de roupa (...) (IDEM, 2007, p. 157).
É visível uma violência simbólica que ajuda a compreender como a
relação de dominação - que é também uma relação histórica, cultural e
linguisticamente construída - é sempre afirmada como uma diferença de ordem
natural, radical, irredutível, às vezes até universal: os homens discutem sobre
política, enquanto as mulheres ficam à mercê dos afazeres domésticos, oprimidas.
No livro de Michel Foucault (1988), há um ponto investigativo que é
colocado em relação à ideia sobre sexualidade, opressão e dominação:
A idéia do sexo oprimido, portanto, não é somente objeto de teoria. A
afirmação de uma sexualidade que nunca fora dominada com tanto rigor
como na época da hipócrita burguesia negocista e contabilizadora é
acompanhada pela ênfase de um discurso destinado a dizer a verdade
sobre o sexo, a modificar sua economia no real, a subverter a lei que o
rege, a mudar seu futuro. O enunciado da opressão e a forma da
pregação referem-se mutuamente; reforçam-se reciprocamente. Dizer que
o sexo não é reprimido, ou melhor, dizer que entre o sexo e o poder a
relação não é de repressão, corre o risco de ser apenas um paradoxo
(FOUCAULT, 1988, p. 13).
E complementa:
A personagem investida em primeiro lugar pelo dispositivo de
sexualidade, uma das primeiras a ser “sexualizada” foi, não devemos
esquecer, a mulher “ociosa”, nos limites do “mundo” __ onde sempre
deveria figurar como valor __ e da família, onde lhe atribuíam novo rol
de obrigações conjugais e parentais (...) (IDEM, 1988, p. 114).
Foucault discorre sobre esse ponto formulando idéias sobre a repressão
nas relações de sexo e do poder, se o sexo é reprimido - no caso observado
referimo-nos ao feminino - está fadada à proibição, a inexistência. Falar dessa
repressão da falta de uma transgressão da protagonista consiste em criticar a
representação feminina na obra, fazendo uma breve comparação a outros estudos
realizados com relação ao feminino, Mary Del Priori (2006), faz a seguinte
consideração quanto aos papéis desempenhados pela mulher no exercício do
patriarcalismo:
Tal como o historiador Edward Shorter percebeu para a Europa do
Antigo Regime, os casados desenvolviam, de maneira geral, tarefas
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específicas. Cada qual tinha um papel a desempenhar perante o outro. Os
maridos deviam mostrar-se dominadores, voluntariosos no exercício da
vontade patriarcal, insensíveis e egoístas. As mulheres, por sua vez,
apresentavam-se como fiéis, submissas, recolhidas. Sua tarefa mais
importante era a procriação. É provável que os homens tratassem suas
mulheres como máquinas de fazer filhos, submetidas às relações sexuais
mecânicas e despidas de expressões de afeto. Basta pensar na facilidade
com que eram infectadas por doenças venéreas, nos múltiplos partos, na
vida arriscada de reprodutoras. A obediência da esposa era lei (PRIORY,
2006, p. 34).
Obediência, repressão, inexistência, máquinas de fazer filhos que a
miséria tratava de sugar. Fatos descritos pelo narrador em torno da personagem
Tiúbe, que teve que conceber também a idéia de perder seus filhos para a doença
chamada pobreza e mesmo assim continuar procriando. Néo faz da mulher uma
criatura tão comum e frágil quanto possível, embora ela lhe provoque pena como
se percebe nessa conversa de Néo com seu pai:
__ Olhe pra sua mulher, Néo. Tiúbe está envelhecendo antes do tempo.
__ Ela vai pra onde eu vou, ora.
__ Sim, Tiúbe é sua mulher, meu filho, mas veja, ela já perdeu dois filhos
e vive de olho comprido de tristeza, sem uma casa pra arrumar os seus
cacarecos. Toda mulher gosta de ter um ninho certo, gosta de se aninhar,
como qualquer bicho.
Tiúbe ouvindo aquilo, aí eu fiz uma maldade com ela. Perguntei se
queria ficar com o velho (...). Ela encheu os olhos d’água e disse que seu
destino era me acompanhar. Sempre dizia isso, quando achava que eu
tinha pena dela (...) (BRASIL, 2007, p. 149).
Ele, o sexo forte, ela o fraco; ele o sexo superior, ela o desprovido de
qualquer inquietação cultural ou de certeza de um futuro melhor. O culto pela
mulher frágil, que se reflete no comportamento de homem valente e dono de suas
vontades, esse olhar de pena que Tiúbe provoca no marido, fazendo dele o seu
motivo de viver, nas entrelinhas da narrativa, revela o quanto Néo é um homem
patriarcal, de sexo dominante que se serve da mulher oprimida, dos pés, das
mãos, do pescoço, das ancas, das coxas, do futuro, como de alguma coisa que lhe
garanta o perfil de único responsável pela família e aumente a sua coragem. Néo
representa os homens que apreciam a fragilidade feminina para sentir-se mais
forte, mais dominador. Todo o jogo de repressão colabora para acentuar a
diferença: para a mulher resta a subserviência e a opressão.
Anais do I Colóquio Internacional de Literatura e Gênero – Relações de Poder, Gênero e Representações Literárias
4, 5, 6 e 7 de setembro de 2012 – Teresina – Piauí – Brasil – ISBN: 978-85-61946-63-0
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Considerações finais
A leitura do conto nos permite muitos questionamentos, esse universo de
possibilidades faz-nos enfatizar a ausência da transgressão da protagonista, que
notoriamente por conta de sua postura, é vista como uma mulher de
comportamento aceitável para a sociedade que cumpre o papel e o destino que lhe
era previsto sem qualquer rompimento com as amarras formais da época
retratada. O tema em questão traz à tona impressões e contribuições para análises
das representações da figura feminina na Literatura Brasileira.
As análises realizadas concentram-se nas questões de gênero, identidade e
subordinação das mulheres, encontrando explicações na necessidade do macho
dominar a mulher, na forma de apropriação masculina, no labor reprodutivo da
mulher. Essa interpretação limita o conceito de gênero à esfera da família e à
experiência doméstica, abrindo um leque possível de ligar esse conceito com
outros sistemas sociais, econômicos, políticos ou de poder representados na
literatura.
Existe uma concepção dominante que exclui a mulher, o negro, o pobre e
outras categorias sociais, é necessário considerar o efeito aditivo das
representações associadas às categorias sociais, para compreender as formas de
legitimação da discriminação e subordinação que atinge as representações das
figuras femininas na ficção.
Sem dúvida, está implícito na narrativa, que as disposições sociais exigem
que os pais trabalhem e as mães cuidem das tarefas domésticas e da criação dos
filhos, uma organização patriarcalista da família. Reconhece-se o insucesso do
feminino no conto, constituindo representações que se alimentam dos valores,
crenças, preconceitos e ideologias que adquirem sentido através da subordinação
feminina, marcando a dominância do masculino na obra.
Referências
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de Janeiro: Imago Editora, 2007.
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