A IMPORTÂNCIA DA POSIÇÃO HIDRODINÂMICA
Prof. Dr. Antonio Carlos Mansoldo
Prof. Caio Graco Simoni da Silva
Conhecida pelos americanos como “streamline position”, a posição
hidrodinâmica é sem dúvida uma posição de suma importância na natação e
deve ser trabalhada desde o início da formação do nadador. Utilizada em todas
as saídas e após todas as viradas, tal posição deve ser encarada como um
coadjuvante no aumento do rendimento do nadador, seja qual for a sua prova.
Para termos uma posição hidrodinâmica eficiente é necessário que o nadador
tenha pleno conhecimento de seu corpo (propriocepção) para controlar todos
os detalhes que envolvem tal posicionamento, e um certo grau de flexibilidade
e alongamento da escápula, musculatura do braço e ante-braço, tronco e
coluna.
A começar pelas mãos, elas devem estar sobrepostas de tal maneira que a
mão de cima cubra totalmente a de baixo, sendo que ambas deverão estar
com os dedos estendidos e unidos; para que haja um ponto forte de união
entre as mesmas é necessário que o polegar da mão superior abrace a mão
inferior fixando-se no bordo da mesma. O braço e o antebraço deverão estar
estendidos de tal maneira que pressionem as têmporas e as orelhas do
nadador, desta forma a cabeça do nadador deverá ficar entre o braço e o
antebraço (membros superiores MS). O nadador nesta posição deverá ter
muito cuidado, pois o posicionamento da cabeça fora desta orientação poderá
criar forças de elevação ou de afundamento dependendo de sua flexão ou
extensão fora do padrão de execução que é de estar totalmente entre os MS
no prolongamento do corpo.
Em seguida, temos a posição do tronco que deve ser bem estendida e
principalmente com o quadril encaixado, isto quer dizer com diminuição
máxima da curvatura lombar que pode fazer com que sejam criadas forças de
atrito e afundamento prejudiciais ao deslocamento, em continuidade teremos
agora o posicionamento das pernas, que para nós divide-se em: coxa, perna e
pé ou seja membro inferior (MI), os mesmos devem estar unidos e estendidos
de tal forma a causar o mínimo de resistência ao deslocamento. Neste ponto, é
importante que o nadador sinta que seus pés estão unidos por intermédio do
toque de seus tornozelos ou, melhor dizendo, maléolos tibiais. Os pés, neste
contexto, devem se esforçar para ficar com extensão máxima em função do
dorso dos pés normalmente causar atrito, ou melhor, arrasto de forma, pela
sua própria morfologia.
Quando um nadador assume a posição hidrodinâmica ele tem que ter em
mente a importância deste posicionamento e acima de tudo sentir que está
fazendo com que seu corpo todo se alongue ao máximo, da ponta dos dedos
dos pés à ponta dos dedos das mãos. A consciência da importância desta
posição faz com que o nadador tente se esmerar cada vez mais em sua
execução aumentando seu rendimento no nado. Quanto à respiração no ato da
execução da posição hidrodinâmica, tanto na saída, quanto após as viradas, a
mesma deverá ser iniciada em apnéia inspiratória (pulmões cheios de ar com a
respiração bloqueada) no momento da largada e ao entrar em contacto com a
água. Logo após, durante o deslize e as esperadas golfinhadas, o ar deverá ser
exalado lentamente pelo nariz a fim de evitar que a água penetre por ele,
causando uma sensação bastante desagradável; é importante que o nadador
treine o controle da soltura do ar para ter condições de equilibrar sua
respiração durante toda a prova.
Sendo um dos posicionamentos mais utilizados na natação, em função de ser
utilizado em todos os quatro nados Olímpicos, o professor e o treinador de
natação deverão trabalhar a posição hidrodinâmica desde a iniciação,
aprimoramento e treinamento, não esquecendo que devido à importância
deste fundamento, o mesmo tem que ser trabalhado em todas a aulas ou
seções de treinamento pois não podemos esquecer que as saídas e viradas
principalmente nas provas de 50 100 e 200 metros podem representar até
30% da prova, sendo que após a saída e após as viradas o nadador poderá
percorrer 15 metros em nado subaquático. Atualmente, procura-se explorar o
máximo possível tal possibilidade, realizando-se um deslocamento submerso
somente com trabalho de pernas tipo golfinhada, estando o restante do corpo
do
nadador
ondulando
em
posição
hidrodinâmica.
Podemos dizer que as saídas para os nados estão se tornando quase um quinto
nado existente na natação, um exemplo prático é a prova dos 100m nado livre,
onde a regra nos permite golfinharmos em posição hidrodinâmica 60% da
mesma (incluindo saídas e viradas), logicamente numa piscina semi-olímpica
(25m). Sabendo disso, técnicos e professores precisam rever suas propostas e
programas de treinamento. Para que treinar 10 KM diários para uma prova que
dura no máximo 55”(cinqüenta e cinco segundos) e que mais que a metade
dela poderemos utilizar somente trabalho de perna do tipo golfinhada,
lembrando que em uma prova de 200m nado livre, toda essa dinâmica citada a
cima dobraria? Poucos profissionais utilizam-se desse recurso para treinar seus
atletas, pois muitas vezes essa carga de treinamento acaba saturando
psicologicamente
nossos
velocistas.
Após as saídas nas provas de nado livre, Borboleta e Costas, um atleta de alto
nível permanece em baixo d’água aproximadamente cinco a seis segundos,
executando no máximo de oito a dez pernadas de golfinho (golfinhada).
Haljand,R.(1984) analisou vários atletas de alto nível, propiciando com suas
análises melhorias significativas no estudo técnico dos nados, usando análises
cinemáticas em baixo da água. Atualmente, um atleta nas provas de 100m,
segundo Haljand,R.(2003), em piscina semi-olímpica(25m), realizam tempos
que variam de 5,92 segundos a 6,28 segundos com velocidades entre 1,81 à
1,95m/s
em
deslocamento
hidrodinâmico
sub
aquático.
Para Maglischo(1999), se não houver uma conscientização corpórea do atleta
nos seguintes tópicos citados abaixo, dificilmente esse atleta realizará uma boa
saída
para
os
nados:
1. Evitar arrasto das pernas na água durante o vôo (não batendo as pernas e
fazendo com que todo o corpo entre em um mesmo ponto dentro da água);
2. A parte superior do corpo deve permanecer alinhada durante essas
pernadas, com a cabeça para baixo entre os braços estendidos;
3. Num total de 6 a 8 pernadas, incluindo pernadas de adejamento (manter-se
em
equilíbrio),
devem
colocá-lo
próximo
à
superfície;
4. Devem começar sua primeira braçada ao se aproximarem da superfície
(momento crítico de muita percepção), essa braçada deve ser para trás e para
cima, com a cabeça ainda baixa durante a braçada submersa;
5. Se possível, retardar a respiração até o final do primeiro ciclo de braçada.
Tais detalhes são importantes e o técnico/professor deverá estar atento a todo
o momento durante a sua programação para uma melhora significativa de seu
atleta/aluno.
Pesquisas realizadas por Thayer & Hay (1984) mostram que nas provas de
200m em piscina curta, os atletas gastam espantosos 39% do seu tempo
dando saídas e viradas e completando as braçadas submersas. Também
reuniram ao longo de vários anos alguns dados importantes com relação à
melhoria da técnica das saídas e viradas, podendo as mesmas reduzir os
tempos
das
provas
em
pelo
menos
0,30
segundos.
Tanto o atleta como o técnico devem considerar as velocidades (ritmo e
percepção) existentes desde o momento da entrada na água e deslize até o
início das braçadas. Para tanto, enumeramos as principais recomendações:
01. Velocidade adquirida no salto até os primeiros trabalhos de perna;
02. Velocidade iniciada no trabalho de perna até início da primeira braçada;
03. Velocidade do início da primeira braçada até o término do primeiro ciclo de
braçada (como dito anteriormente, se possível em apnéia respiratória).
O atleta terá que perceber quando iniciar um movimento para não sobrepor a
outro, perdendo assim movimentos propulsivos até os primeiros 15m, os quais
são importantíssimos em provas curtas no cenário da natação.
Segundo Makarenko(2001), esse deslize ocorrerá em uma profundidade
aproximada de 50cm do nível da água. Para Vilas Boas(1997), o mesmo deve
ser realizado a profundidades superiores a 50 cm, em contra partida Lyttle et
al.(1999) encontraram o valor de 40cm como o ideal em seus estudos. Já
Haljand(2002a) acredita que o deslize deverá ser feito em profundidades de
forma a se efetuar longas ações subaquáticas. Cossor & Mason(2001) e Mason
& Pilcher(2002) não encontraram diferenças significativas em estudos sobre a
profundidade a que deve ser realizado o deslize e inter relações entre o maior
tempo despendido e a maior distância percorrida na fase sub-aquática.
Porém, não podemos esquecer que cada nado tem a sua especificidade,
havendo variações nas profundidades de deslocamento, tanto em função da
prova como também na estratégia e resistência do atleta na competição.
Sabendo que esta posição hidrodinâmica, bem como golfinhadas após saídas e
viradas, são um dos movimentos mais rápidos existentes no meio líquido, cabe
aos técnicos/professores treinarem esses fundamentos logo no início dos
programas de aprendizagem, ou incluírem em seus atuais programas de
treinamento uma demanda de tempo maior para essas potencialidades, uma
vez que as mesmas interferem diretamente no resultado de seus alunos ou
futuros atletas.
Prof. Dr. Antonio Carlos Mansoldo –
Doutorado em Educação – Universidade de São Paulo, USP
Professor da Disciplina Natação na Universidade Bandeirantes – UNIBAN
E-mail: [email protected]
Prof. Caio Graco Simoni da Silva –
Integrante do Laboratório de Comportamento Motor (LACOM) - USP;
Professor da Disciplina Natação I e II - Faculdade Ítalo Brasileira – SP;
E-mail: [email protected]
26/11/2004
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