Fotografias tipo “selfie”: Uma forma de expressão ou a manifestação de um comportamento
preocupante?
O termo em inglês selfie é uma redução da expressão self-portrait photograph, ou,
traduzindo para português, autorretrato fotográfico. É uma ação de registro realizada
principalmente por jovens munidos de smartphones. Segundo uma pesquisa de 2012 da empresa
de tecnologia Cisco, cerca de 60% dos jovens nascidos entre 1980 e 2000 checam
compulsivamente os conteúdos de celulares inteligentes conectados na internet, incluindo nessa
checagem os conteúdos realtivos a essa imagens.
Uma das características dos selfies é que são tirados com o objetivo de ser compartilhados
em uma rede social como Facebook, Instagram, por exemplo. Podem ser tirados individualmente,
com um grupo de pessoas ou com celebridades. O foco, de qualquer forma, é o detentor da conta
na rede social na qual a foto é publicada, frequentemente relatando fatos cotidianos,
acontecimentos relevantes ou surpreendentes na vida do usuário. Por conta disso, os selfies têm
sido considerados uma forma de expressão e de autopromoção na rede.
Os selfies estão no mundo online desde a explosão da fotografia no começo da primeira
década do século 21, passando pelo ano 2004, com a explosão dos fotologs, e o lançamento do
primeiro iPhone, em 2007, que popularizou o uso do celular como plataforma de fotografia. Neste
ano de 2013, chegou a vez dos aplicativos para smartphones focados nas pessoas que mais
realizam selfies.
O público-alvo dos aplicativos voltados para self-portraits e de ferramentas como Tumblr e
Flickr são adolescentes e jovens na faixa entre 17 e 25 anos. O app Selfie.im – serve apenas para
autorretratos, equipado com dois botões dentro do programa: um para capturar a imagem, outro
para programar o disparo da foto feita. O uso desse aplicativo teve crescimento de 200% entre os
meses de setembro e outubro de 2013. Esse crescimento nos apresenta um movimento
surpreendente, na medida em que o público, especialmente jovem, tem se tornado cada vez mais
usuário e mais dependente deste tipo de tecnologia.
Falamos aqui de uma dependência diária que todos vivenciamos. Na medida em que novos
recursos são disponibilizados e que nossas ações do cotidiano podem ser executadas com o
auxilio destas ferramentas, nos organizamos para distribuir estas atividades de acordo com sua
disponibilidade. Essa “organização” acaba nos tornando progressivamente mais dependentes até
determinado momento em que, embora no passado tenha sido diferente, já não sabemos executar
determinada ação sem o uso da tecnologia.
A propagação dos selfies segue também o ritmo crescente da nossa dependência em
relação às tecnologias e, principalmente, às redes sociais.
Recentemente, o termo selfie foi alvo de muitas matérias e reportagens, por ter sido eleita a
palavra do ano, incorporado ao dicionário virtual da Oxford e por estar sob votação para entrar em
sua versão impressa. O uso da palavra aumentou 17.000% desde 2012. Segundo o jornal “USA
Today”, a escolha diz muito sobre a “obsessão pelas mídias sociais” que vivemos hoje em dia.
O progresso no uso desta expressão e, principalmente, na propagação da prática dos selfies
traz à luz questionamentos sobre os limites da exposição da vida privada na internet e, também,
de um “culto ao ego” cada vez mais latente na web.
Registrar nossas conquistas diárias, nossos melhores momentos e também situações
críticas têm se tornado cada vez mais comum, mas não é um fenômeno que se iniciou agora. A
história da fotografia, remonta a épocas onde sequer haviam máquinas e então os registros eram
realizados em pinturas, quadros, etc., nos diz muito da necessidade que o homem tem de poder
acessar sua história através de imagens, de ativar suas lembranças e memórias através daquilo
que pode ver, do registro das suas recordações.
As motivações destes registros parecem ter similaridades em suas origens históricas, mas é
fato conhecido que, hoje em dia, com avanços tecnológicos e a possibilidade de compartilhamento
muito mais ao alcance das mãos, estas motivações desenvolveram também novos aspectos.
Acreditamos que estes registros tenham algum caráter de autoafirmação – comprovar que seu
autor esteve naquele local/situação, mostrar que tal situação diz sobre seu jeito de ser, como se a
pessoa pudesse se apresentar na rede através destes registros; pertencimento a um grupo (o que
chamamos de filiação) e seu reconhecimento dentro dele. Se determinado momento ou atividade
é importante para se fazer parte de um determinado grupo, ou alguma ação é valorizada por ele, é
importante para o usuário realizar estes registros.
É bem verdade que as redes sociais, tomando como exemplo o Facebook, são utilizadas,
entre outras coisas, para encontrarmos pessoas e sermos vistos por elas.
A web possibilita a disseminação muito rápida de nossa imagem, além de uma grande
maleabilidade nas formas de apresentação da nossa figura, diferente daquela que ocorre na vida
presencial. A presença de nossa imagem na web, em nossas próprias redes sociais nos dá a
impressão de que existe um controle maior sobre nossa figura, mas, na verdade acontece o
oposto: é realmente mais fácil divulgarmos nossa imagem, mas, consequentemente, é também
muito mais fácil perdermos o controle do alcance dessa nova forma de ‘publicidade’.
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