A FORMAÇÃO DE PROFESSORES COMO EXPERIÊNCIA
COMPARTILHADA: DOCÊNCIA E PESQUISA
MICARELLO, Hilda Aparecida Linhares da Silva1 - UFJF
Grupo de Trabalho – Formação de professores e profissionalização Docente
Agência Financiadora: CAPES
Resumo
O relato a seguir descreve uma experiência realizada no âmbito do Programa Institucional de
Bolsas de Iniciação à Docência – PIBID – financiado pela CAPES e desenvolvido na
Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora. O subprojeto “Letramento”
congrega cinco bolsistas licenciandos do curso de Pedagogia, uma professora de uma escola
pública municipal, além da professora da universidade, coordenadora do projeto.
Desenvolvida em articulação com o projeto de pesquisa “Práticas de leitura no ensino
fundamental”, na experiência aqui apresentada discorremos sobre a relação entre teoria e
prática na formação de professores, tanto os iniciantes quanto os mais experientes.
Destacamos ainda as repercussões desta experiência para na atividade de pesquisa, pelo
entrecruzamento de olhares e perspectivas sobre a docência que a mesma tem proporcionado
ao grupo de pesquisa. O relato focaliza a realização de um filme por crianças do 2º ano do
ensino fundamental, a partir da mediação da professora da turma e das bolsistas do projeto, e
o modo como a realização dessa atividade proporcionou novos encaminhamentos
metodológicos para a pesquisa em curso. Discute, ainda, os desafios éticos advindos da
inserção da professora da escola de educação básica no grupo de pesquisa, e dos
pesquisadores no contexto da escola de educação básica, movimento que favoreceu um
entrecruzamento de olhares e perspectivas a partir do qual constroem-se novos saberes, sobre
a docência e sobre a pesquisa. Incialmente é apresentada uma contextualização do relato,
seguido do desenvolvimento do mesmo articulado a algumas reflexões teóricas que subsidiam
as ações de formação relatadas. Finalmente desenvolvemos algumas considerações sobre o
que é possível aprender a partir da experiência relatada e como a mesma pode subsidiar novas
práticas de formação.
Palavras-chave: Docência. Pesquisa. Formação docente.
Introdução
1
Doutora em Educação pela PUC-Rio. Professora da FACED/UFJF e do Programa de Pós-Graduação em
Educação da FACED/UFJF e do Programa de Pós-Graduação Profissional do CAEd/UFJF.
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O foco deste relato é uma experiência de formação compartilhada entre docentes e
discentes da Universidade e docentes e discentes da educação básica, desenvolvido no âmbito
do PIBID – Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – articulado à pesquisa
acadêmica. Tal experiência está fundamentada em alguns pressupostos teóricos, a saber: (i) a
docência é uma atividade que envolve saberes advindos de diferentes fontes, como a
formação inicial, a experiência profissional, as relações entre pares (TARDIF, 2002); (ii) nos
processos de formação, a relação que os sujeitos estabelecem com esses saberes não é uma
relação direta, mas sempre mediada pelo outro: “a ideia de saber implica a de sujeito, de
atividade do sujeito, de relação do sujeito com ele mesmo (deve desfazer-se do dogmatismo
subjetivo), de relação desse sujeito com os outros (que co-constroem, controlam, validam,
partilham esse saber)” (CHARLOT, 2000, p. 61) ; (iii) nos processos de mediação estão
envolvidos encontros e confrontos, a partir dos quais os sujeitos se modificam e os saberes
são ressignificados, dando origem a novas práticas . Tais pressupostos teóricos têm orientado
tanto a experiência de formação aqui relatadas quanto as atividades de pesquisas que vêm se
desenvolvendo a partir desta experiência.
Incialmente
apresentamos
uma
contextualização
do
relato,
seguido
do
desenvolvimento do mesmo articulado a algumas reflexões teóricas que subsidiam as ações de
pesquisa e formação. Finalmente desenvolvemos algumas considerações sobre o que é
possível aprender a partir da experiência relatada e como a mesma pode subsidiar novas
práticas de formação.
Contextos compartilhados de formação
No ano de 2012 a Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora
apresentou à coordenação do projeto PIBID desta instituição o subprojeto “Letramento”, o
qual previa a inserção de dez bolsistas dos cursos de licenciatura em Pedagogia e Letras em
escolas da rede pública de Juiz de Fora para atuarem sob a coordenação dos professores da
Universidade e de dois professores da educação básica, também bolsistas do Programa. O
foco do projeto são práticas de trabalho com a leitura e a escrita no ensino fundamental,
havendo um subgrupo que atua nos anos iniciais do ensino fundamental, composto por cinco
bolsistas e uma professora da educação básica, e outro subgrupo que atua nos anos finais da
educação básica, com a mesma composição do anterior. Cada subgrupo é coordenado por uma
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professora da universidade. O presente relato de experiência diz respeito ao primeiro grupo
anteriormente referido e focaliza mais especificamente os seguintes objetivos previstos para o
PIBID: a integração dos licenciandos à escola básica, a mobilização dos professores da escola
básica como coformadores dos licenciandos e a articulação entre teoria e prática na formação
docentes.
O subprojeto “Letramento” originou-se de experiências de integração entre a
universidade e a escola de educação básica em curso, decorrentes de projetos de pesquisa que
tinham como campo de investigação escolas da rede pública. No âmbito dos referidos projetos
de pesquisa, professores da universidade e alunos das licenciaturas participantes de projetos
de iniciação científica já estavam inseridos em escolas públicas na qualidade de
pesquisadores, assim como professores das escolas, sujeitos das pesquisas em curso,
participavam das reuniões do grupo de pesquisa na universidade. Na experiência abordada
neste relato, havia um estudo longitudinal em curso desde o ano de 2010, no âmbito do qual
uma mesma turma e sua professora vinham sendo acompanhadas por pesquisadores da
universidade. Alunos do curso de licenciatura em Pedagogia e a professora coordenadora da
pesquisa realizavam observações na referida turma.
A inserção desses sujeitos na escola, na qualidade de observadores, enquanto
estratégia metodológica de pesquisa, tinha por objetivo oportunizar uma familiarização dos
pesquisadores com o contexto da escola, buscando aprender, naquele contexto, os sentidos
produzidos pelos sujeitos para as práticas de leitura em curso nos anos iniciais do ensino
fundamental. Os dados produzidos a partir das observações realizadas, registrados em notas
de campo pelas licenciandas e pela coordenadora da pesquisa, eram discutidos no grupo à luz
dos referenciais teóricos da psicologia histórico-cultural. Para esta abordagem, a pesquisa em
ciências humanas difere da pesquisa no campo das ciências naturais, pois naquele caso temos
o encontro do pesquisador com sujeitos que se pronunciam sobre o mundo. A esse respeito,
ao discutir a epistemologia das ciências humanas, Mikhail Bakhtin (1997) afirma que:
Qualquer objeto do conhecimento (incluindo o homem) pode ser percebido e
conhecido a título de coisa. Mas o sujeito como tal não pode ser percebido e
estudado a título de coisa porque, como sujeito, não pode, permanecendo
sujeito, ficar mudo; consequentemente, o conhecimento que se tem dele só
pode ser dialógico. (p. 403)
Ao tratarmos, no grupo de pesquisa, dos eventos observados na escola, buscávamos a
interpretação dos mesmos orientados pelo esforço de compreensão das ações dos sujeitos,
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sem adotarmos uma atitude de valoração de determinadas práticas ou situações em detrimento
de outras. Nesse movimento, para além dos conhecimentos que se produziam sobre as
práticas de leitura observadas, teciam-se outros, sobre a docência e os desafios enfrentados
pela professora, como as restrições impostas pela organização dos tempos e espaços escolares,
as relações com alunos e famílias. O grupo deparava-se com esses desafios e sentia-se
fortemente implicado, do ponto de vista ético e metodológico, com a análise das práticas
observadas, sendo este um tema recorrente nas reuniões da pesquisa. Especialmente as
licenciandas, que não tinham ainda a experiência da docência, manifestavam-se com
frequência sobre o desafio de registrar os eventos observados na escola sendo fiel ao que
efetivamente acontecia, sem que suas crenças sobre como deveriam ser as intervenções da
docente se sobrepusessem ao modo como elas efetivamente se davam. Os desafios envolvidos
na produção das notas de campo foram abordados por Souza (2011, p. 490), uma das
licenciandas participantes do grupo de pesquisa:
No momento em que trago minhas considerações registradas em forma de
notas de campo não necessariamente exponho o que o outro pensa de si
próprio, visto que o olhar que tenho sobre o outro não é o que ele vê de si
mesmo, posto que justamente por apresentarmos características semelhantes
e diferentes, ao compartilharmos essas características com o outro podemos
alterá-lo.
A reflexão de Souza remete ao processo de observação e registro em notas de campo
como atividade na qual o pesquisador está diretamente implicado na realidade que observa e
para a qual desenvolve suas interpretações no ato mesmo de registrar o vivido e observado.
No ano de 2011 o grupo de pesquisa realizou uma reunião com os professores da
escola para divulgação dos resultados parciais da pesquisa, após a qual a professora da turma
manifestou o desejo de participar das reuniões do grupo de pesquisa na universidade, o que
passou a acontecer.
A integração da professora da turma ao grupo de pesquisa representou um
momento de importantes mudanças nas formas de produção e análise dos dados da pesquisa,
assim como de novas possibilidades de triangulação dos dados produzidos a partir das
intervenções da própria professora da turma, comentando as notas de campo e trazendo seu
próprio olhar sobre os fatos ali descritos. Esse movimento de ressignificação das situações
observadas no campo de pesquisa, tanto pela professora quanto pelos pesquisadores, foi
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propulsor da construção de novos conhecimentos, tanto sobre as questões relacionadas à
pesquisa, quanto sobre as práticas docentes.
Ressignificando saberes, reconstruindo práticas
Quando surgiu a oportunidade de encaminhar um projeto para o edital do PIBID do
ano de 2012, decidimos, então, estreitar essa integração com a escola por meio do projeto
“Letramento”. Assim o projeto foi incorporado à pesquisa e as ações desenvolvidas em seu
âmbito tornaram-se, também, dados a serem analisados. Essa incorporação trouxe uma nova
perspectiva para abordagem das relações entre teoria e prática, uma vez que as atividades de
docência e pesquisa passaram a ser tratadas de forma mais articulada, alimentando-se
mutuamente. Tal articulação entre teoria e prática nos remete ao conceito de práxis, definido
por Konder (2001) como "atividade de quem faz escolhas conscientes e para isso necessita de
teoria." A práxis, portanto, chama a consciência para o problema, é a prática que necessita da
teoria para justificá-la. Esse movimento da prática que “chama” a teoria, e suas repercussões
para os professores e licenciandos participantes do projeto é o que abordaremos a seguir, a
partir da análise de uma situação específica, vivida no âmbito do subprojeto “Letramento” do
PIBID.
Uma das primeiras ações desenvolvidas no âmbito do subprojeto “Letramento” na
turma do 2º ano do ensino fundamental, sob a regência da professora Gina Carla (mantivemos
o nome real da professora por contarmos com sua autorização para tal e por acreditarmos que
cabem a ela os créditos do trabalho realizado com as crianças e de orientação das bolsistas do
projeto PIBID na escola) foi a produção de um filme com as crianças. Essa ideia surgiu a
partir do desejo de uma das crianças da turma e foi prontamente acolhida pelos demais alunos,
pela professora e pelo grupo de bolsistas do PIBID. A criança que propôs a realização do
filme vinha sendo foco das preocupações da professora da turma, dada a dificuldade
encontrada pela professora em despertar o interesse do aluno em relação às atividades
escolares. A seguir apresentamos um trecho da ata da reunião da pesquisa na qual a professora
manifesta sua preocupação com o referido aluno, motivada por uma discussão sobre o
conceito de atividade na psicologia histórico-cultural e o papel da brincadeira como atividade
guia da criança.
Gina destacou a relação que se estabelece entre o desenvolvimento da
vontade e a brincadeira em Vigotski e Hilda completou dizendo que na
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brincadeira as crianças aprendem a negociar suas vontades. Nesse momento
comentamos várias situações nas quais presenciamos essas negociações ou a
ausência delas entre as crianças. Gina lembrou do aluno R., dizendo se
preocupar com a falta de vontade que ele apresenta em relação à leitura e à
escrita. Hilda ressaltou que talvez essas ainda não sejam atividades
significativas para ele, daí a importância de apresentarmos às crianças
múltiplas possibilidades de acesso ao mundo da leitura e da escrita, para que
elas possam fazer escolhas. (Ata da reunião do grupo de pesquisa do dia 29
de janeiro de 2013)
É possível observar na reflexão da professora o chamado que a prática faz à
teoria para melhor compreender a ambas. Esse movimento foi vivido em vários momentos do
grupo, tanto pela professora da turma quanto pela professora da universidade, coordenadora
da pesquisa, e pelas alunas licenciandas.
Ao ser solicitada a se pronunciar sobre esse
movimento, a professora da turma destaca:
Para mim o grupo de pesquisa permitiu um diálogo articulando prática e
teoria num exercício de ação e reflexão contínua. No serviço do fazer
surgiram certezas e incertezas e fui amparada com sugestões e reflexões que
o grupo proporcionou. Neste fazer, ora se descobre que o caminho a seguir
está correto, ora é preciso recuar e mudar as ações. Enfim a ideia do coletivo
tem ação transformadora, pois permite novas experiências. Refiro-me , aqui,
ao conceito de experiência conforme a perspectiva de Jorge Larrosa: como
algo que ‘nos toca, nos passa e nos acontece’. Porque experiência não é
simplesmente o que se faz, é, sobretudo, o que perpassa a nossa existência e
nos transforma. (Depoimento da professora Gina Carla, maio de 2013)
O processo de descoberta de novos caminhos, apontados pela professora, tem
sido marcado por descobertas e novas realizações, mas também tem sido um caminho eivado
de conflitos, recuos e retomadas. Isso porque as relações do sujeito com o conhecimento são
sempre mediadas por outros sujeitos, como afirmamos no início deste texto, e os processos de
mediação não são sempre harmônicos, mas também de confrontação.
Podemos melhor compreender as repercussões desses processos de mediação para o
desenvolvimento humano a partir do conceito de internalização, desenvolvido por Vigotski
para explicar o desenvolvimento das funções mentais superiores, tipicamente humanas.
Conceitos como mediação semiótica e internalização são centrais para se compreender como
se constituem, no plano intersubjetivo, as funções mentais tipicamente humanas, aquelas que
não advêm apenas de nosso pertencimento a uma espécie, mas que têm origem no plano
cultural.
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O conceito de mediação semiótica é um instrumento conceitual desenvolvido por
Vigotski para explicar “como as funções psíquicas humanas têm sua origem nos processos
sociais” (Pino, 2000, p. 40). De forma análoga ao que acontece na atividade de trabalho,
mediada pelo uso de instrumentos que permitem a atividade criadora, no plano psíquico os
instrumentos semióticos permitem a ação criadora do sujeito, a partir da qual ele modifica a
realidade e a si mesmo. Graças a ação dos instrumentos e signos, de forma privilegiada a
linguagem, mediadores da relação dos homens entre si e com mundo, torna-se possível a
reconstrução interna das atividades externas, vividas no plano social.
Com intuito de explicar como, nesse processo de internalização, os sujeitos se
desenvolvem, Vigotski criou o conceito de zona de desenvolvimento proximal, que tem sido
muitas vezes traduzidos como a distância entre os processo já internalizados e aqueles em
processo de internalização, que poderão ser internalizados pela mediação de um parceiro mais
experiente.
Szundy (2009), ao discutir a perspectiva da colaboração entre os professores das
escolas e pesquisadores da universidade na formação de professores, aborda o conceito de
zona de desenvolvimento proximal desenvolvido por Vigotski, propondo abordá-lo como
zona potencial de desenvolvimento (ZPD). A autora esclarece essa mudança de perspectiva na
abordagem do conceito:
Mais do que uma zona proximal marcada pela distância entre os
conhecimentos já internalizados na interação, o que se observa é uma zona
potencial caracterizada pelo embate, em que o mais importante não é atingir
um nível de desenvolvimento definido e pré-estabelecido, mas reconstruir
continuamente os conceitos científicos em apreciação e conflito na interação.
Essa reconstrução pretende-se ininterrupta na medida em que o processo
reflexivo é um processo sempre inacabado, marcado pelo porvir, ou seja,
transcende a situação material do diálogo para integrar as trajetórias
profissionais e acadêmicas dos participantes da interação. (p. 100-101)
O conflito é, portanto, uma condição para o desenvolvimento, para a criação do
novo. Na experiência de integração do PIBID à pesquisa, os conflitos têm sido vividos como
momentos privilegiados de formação de docentes e pesquisadores. Relatamos, a seguir, duas
situações exemplares desses conflitos. A primeira se refere às incertezas da professora diante
do tema do filme que o aluno R. desejava realizar, portanto refere-se a um conflito advindo de
uma demanda da prática pedagógica da docente. A segunda situação diz respeito aos produtos
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das observações realizadas na escola pelas alunas licenciandas, pesquisadoras do grupo.
Refere-se, portanto, à dimensão da pesquisa e desvela um processo de triangulação de dados
na qual a contrapalavra do sujeito de pesquisa convoca o grupo a uma tomada de posição.
Ambas as situações serão apresentadas a partir de excertos de atas produzidas pelo grupo de
pesquisa.
Situação 1:A professora Gina fala sobre seu incômodo em relação ao nome
do filme idealizado por R. e que será realizado na escola pesquisada:
“Zumbilândia”. Fala também das ações dos personagens, que comem os
cérebros das pessoas. A professora considera que essas são situações de
violência, inadequadas às crianças e questiona o grupo sobre o que pensam
sobre isso. Hilda explica que as crianças têm que viver e superar seus medos,
e que por isso gostam de histórias desse tipo. Para elas, matar os zumbis no
final d a história tem uma força muito grande, pois o bem vence o mal, e
tudo acaba bem. Destaca o fato de que para as crianças essas situações não
têm o mesmo sentido que o adulto atribui a elas. (Ata da reunião do grupo de
pesquisa, 16/10/2012)
Para a professora, o apoio do grupo foi importante para que ela superasse
dúvidas sobre acolher ou não a perspectiva das crianças no projeto de realização do filme.
Para o grupo, o conflito manifesto pela professora deu origem a um estudo mais aprofundado
sobre o tema da imaginação na infância, a partir do qual outras questões surgiram e novas
compreensões sobre os modos como as crianças atribuem sentido ao mundo foram se
construindo. No que concerne à prática pedagógica, o título do filme se manteve, assim como
a cena na qual os zumbis invadem o castelo e matam todos os seus habitantes, que depois
voltam à vida graças à intervenção de um tigre mágico.
A experiência de realização do filme foi vivida também pelas bolsistas do
PIBID como fonte de novas aprendizagens. Coordenadas pela professora da escola básica as
alunas licenciadas puderam imergir no contexto da escola básica, atuando diretamente com os
alunos nesta experiência singular. Também elas registraram suas impressões e conflitos.
Bem após esta experiência incrível posso dizer que o que ficou pra mim é
que as crianças, independente da organização, beleza, estão preocupadas
com o que elas querem, com o que criaram, nos olhos de cada uma percebia
a felicidade e a satisfação porque estavam realizando algo em que se
empenharam. (Relatório da bolsista PIBID Ingrid Cerqueira, 30/11/2012)
Além do sentimento de alegria e satisfação vivido por todos os participantes do
projeto e das importantes aprendizagens sobre os modos como as crianças atribuem sentido às
suas próprias experiências, o grupo teve que enfrentar também o desafio de lidar com as
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diferentes perspectivas dos participantes sobre as situações observadas na sala de aula, nas
interações entre as crianças e entre estas e a professora, no processo de realização do filme.
Essas perceptivas foram registradas nas notas de campo elaboradas pelas pesquisadoras a
partir de suas observações e suscitaram a contrapalavra da professora. A situação descrita a
seguir demonstra como essas diferentes perspectivas impactaram a professora.
Situação 2: A professora Gina nos lembrou que na última reunião havia
escrito alguns comentários sobre as notas de campo que foram discutidas,
mas não houve tempo de compartilhar esses comentários. Destacou, então,
alguns pontos que gostaria de compartilhar com o grupo. A professora
ressaltou que achou o material muito bom e rico, enfatizou que realmente
ficou tensa no dia da gravação do filme, como fora relatado por algumas
bolsistas, mas que isso é normal; sentiu falta, no relato das bolsistas, de um
olhar mais voltado ás crianças; sentiu-se pressionada com o fato de o filme
ter que ser realizado naquele dia, pois o ano letivo estava se encerrando e
não haveria mais tempo para refazer a filmagem e também pelo fato de os
materiais, como roupas e cenários, não poderem ficar na escola; se sentiu
incomodada com a expressão “holiwoodiano”, usada por uma bolsista para
fazer referência à ênfase no produto final da filmagem, em detrimento dos
processos vivenciados pelas crianças, destacando que o professor tem, sim,
que se preocupar com o produto final; se emocionou ao lembrar que foi
produzido muito material em muito pouco tempo, e que a narrativa foi sendo
construída ao longo de vários diálogos com as crianças. A coordenadora da
pesquisa destacou, então, a importância de Gina ter trazido seu olhar sobre
as notas de campo, ressaltando que Sarmento (2003) traz em seu texto, que
está sendo discutido no grupo de pesquisa, o conceito de triangulação, que é
justamente o entrecruzamento dos olhares de sujeitos e pesquisadores
envolvidos na pesquisa. Então debatemos um pouco mais esse conceito. (Ata
da reunião do grupo de pesquisa, 05/03/2013)
Neste excerto o conflito enseja um momento de formação para todos os
participantes, somente possível pelo compartilhamento da palavra e das posições ocupadas
pelos sujeitos, que se alternam na dinâmica do grupo. As palavras de Sarmento (2003) ao
tratar dos estudos de caso etnográficos, citado no excerto de ata transcrito anteriormente,
sintetizam a situação vivida pelo grupo.
O esforço de ouvir é eminentemente interactivo, e se nesse ouvir o outro
estão as condições de uma ‘ciência mais humana’ (WOODS, 1992, p. 395), é
nesse acto de ouvir quem fala sobre seu próprio fazer, na alteridade radical
de seu dizer, que se reconhece a presença de uma diferença que se comunica
intersubjectivamente, e, por essa via, ganha densidade e significado a
‘democraticidade do olhar sociológico’ (CONDE, 1993, p. 202)
(SARMENTO, 2003, p. 147)
Considerações finais
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A partir do relato apresentado esperamos ter evidenciado o alcance progressivo dos
objetivos previstos para o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência no
desenvolvimento do subprojeto “Letramento” da Faculdade de Educação da UFJF. Embora o
Programa focalize de forma direta a docência, o alcance desses objetivos tem fortalecido as
atividades de pesquisa, à medida que, ao estreitarmos os vínculos com a escola de educação
básica, penetramos de forma mais intensa na experiência dos sujeitos que nela atuam. Essa
progressiva aproximação nos leva a viver de forma mais radical os desafios éticos e
metodológicos que se colocam aos pesquisadores, sejam eles iniciantes ou mais experientes.
Do mesmo modo, o envolvimento na atividade de pesquisa também desafia os professores da
escola básica, sejam estes iniciantes ou mais experientes.
Finalmente cumpre destacar as possibilidades de abordar a teoria e a prática como
dimensões da práxis educativa, para a qual não cabem separações entre fazer e pensar, refletir
e agir, pois ela convoca o sujeito em sua integralidade.
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13964
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