QUINZE ANOS DE GRUPO DE ESTUDOS LINGUiSTICOS DO
ESTADO DE S.AOPAULO.
Ataliba T. de Castilho
Unicamp.
Em janeiro ultimo 0 "Grupo de Estudos Lingiiisticos do Estado de
SAoPaulo" comemorou quinze anos de atividades ininterruptas, consagradas ao estudo e ao ensino da Lingtiistica entre n6s.
Um periodo de tempo tAo longo - sobretudo se lavarmos em conta
a instabilidade das sociedades cientificas em nosso meio - merece que
se facam algumas reflexoes a respeito. E 0 que resolvi considerar nesta
palestra de abertura do xxvn Seminllfio de nossa entidade. Dividi 0
texto em tres partes: um relato do que se fez, algumas avaliacoes sobre
os resultados obtidos e propostas de discussAo dos caminhos a seguir.
1. Em janeiro de 1969 a Universidade de SAoPaulo hospedou 0 III
Instituto Interamericano de Linguistica, promovido pelo Programa
Interamericano de Linguistica e Ensino de Idiomas, PILEI, sob os
auspicios financeiros da FundacAo Ford.
Pela primeira vez professores e alunos brasileiros do ensino superior ficaram expostos ao estimulo continuado de bons mestres da Linguistica daquele final de decada. Pela primeira vez podiamos escapar
da apressada rotina dos congressos e seminarios, com sua duracao media de quatro dias, ao longo dos quais ouviamos conferencias e comunicacOes cientificas elaboradas em ambientes que nos pareciam Ulo remotos, coisas, enfim, de americanos e de europeus. 0 III Instituto representou uma experiencia diferente, tendo suscitado diversas vocacOes, e muitos de seus alunos ocupam hoje posicao de relevo no ensino
e napesquisa linguistica em nosso Estado e no Pais.
E preciso lembrar que sete anos antes 0 Conselho Federal de EducacAo tinha implantado a disciplina de Lingtiistica no novo curriculo
de Letras. Algumas universidades, como a do Rio de Janeiro e a do
Parana, tinham-se antecipado ••essa decisao. NaUniversidade de Sao
Paulo, toda a informacao linguistica nos vinha atraves da Cadeira de
Filologia Romanica. Os alunos de LetraS Classicas contavam ainda
com 0 curso de Glotologia Classic a, igualmente ministrado pelos
profs. Theodoro Henrique Maurer Junior e Isaac Nicolau Salurn.
Tambem os profs. Robert Henri Aubreton e Armando Tonioli tiveram ai urn importante papel, 0 primeiro com seus cursos de LingiHstica Grega e 0 segundo com os de Fonetica Historica do Latirn, enquanto os profs. Silveira Bueno e Felipe Jorge ensinavam Historia da
Lingua Portuguesa. A forma~ao lingiiistica basica era, portanto, a
historica, e somente 0 pessoal de Letras Anglo-Germanicas tinha contacto com a Lingiiistij:a Descritiva, reduzida as necessidades da descri~ao do Ingles para fins de ensino dessa lingua.
Em 1969, portanto, a instala~ao da Disciplina de Lingiiistica em
todos os cursos de Letras acentuara a expectativa em tomo dessa ciencia. Alguns colegas procuraram entao estagiar no Exterior, sobretudo
na Fran~a, para aprimorar seus conhecirnentos. Tive 0 priviU:gio de
manter correspondencia com alguns deles, e ainda hoje guardo cart as
de Isidoro Blickstein, de 1964, e de Francisco da Silva Borba, de 1966.
Outros colegas faziam sortidas rapidas, coisa de dois ou tres meses,
conciliando as obriga~oes profissionais com a busca da informa~ao.
Finalmente, algumas faculdades de Filosofia prornoviarn seminarios
de Lingiiistica e editavam revistas atraves das quais estabeleciam urn
intercambio proveitoso com diversos centros cientificos. Este foi 0 caso da FFCL de MarHia, que editava desde 1962 a revista ALF A, que
tive 0 prazer de dirigir durante quinze anos, e que e hoje a revista de
LingUistica da UNESP. Essa Faculdade realizou em 1966 0 I Seminario de LingUistica de MarHia, aO qual acorreram figutas como as do
prof. Joaquirn Mattoso Camara Jr., Nelson Rossi, Aryon Oall'lgna
Rodrigues e outros.
Havia, em suma, condi~oes para a instala~ao de uma sociedade
cientifica regional. Eu vivia pensando nisso, mas estava convicto de
que nao dispunha do prestigio necessfuio para por avante a empresa.
Tive entao a ideia de expor rneus pIanos ao prof. Isaac Nicolau Salum,
por toda uma serie de razoes. 0 prof. Salurn dispensava aos seus alunos uma aten~ao frequentemente acima da irnportancia deles. Seu rnagisterio nao se interrornpia quando os alunos deixavam a Universidade, dada sua permanente curiosidade intelectual e seu habito de partiIhar seus conhecimentos com os ex-alunos, indicando-lhes livros e expondo seus projetosde tra~lho. Ele detinha por tudo isso uma ascendencia natural, espontanea, nao procurada, sobre a gera~ao que poderia interessar-se pelo projeto. Bern pondetadas as coisas, tratei logo de
'~plorar"
0 prof. Salum. Ele concordou prontaijl~nte c.om a ideia e
convocou urn grupo de professores para debate-la. Isso aconteceuno
dia 29 de janeiro de 1969, num intervalo das atividades do III Instituto
Interamerica·no de Linguistica, jll mencionado. 0 que entao se passou
consta do "Breve Historico do GEL", publicado no numero 1:1978
dos "Estudos Lingfiisticos".
Sobre as pessoas que comparecerarn a essa reuniao e sobre as que
posteriormente se incorporariam ao GEL 0 prof. Salum exerceu com
grande habilidade seu "poder moderador", aplainando arestas e conciliando como born mineiro as correntes em conflito, que poderiam ter
fragmentado em seu nascedouro a jovem sociedade. Nunca sera demais insistir neste ponto, e s6 nllo avan~o em maio res detalhes por respeitp ao espirito de modestia desse nosso grande e querido amigo comum.
A ideia bilsica era reunir semestralmente urn grupo de interessados
para a discussllo de problemas tais como 0 estudo e 0 ensino da Lingtiistica, a veicula~llo da informa~llo cientifica e 0 desenvolvimento de
projetos conjuntos de pesquisa, objetivando uma profissionaliza~llo
maior dos lingtiistas de Sllo Paulo. As reunioes se fariam em rodizio
pelas cidades do Estado onde houvesse cursos de Letras. Nesses seminarios, ouviriamos conferencias plenarias e depois discutiriamos em
mesas-redondas alguns assuntos previamente escolhidos. Com 0 tempo, acrescentaram-se novas atividades, como a realiza~llo de Cursos
de Extensllo Universitaria, voltados para a comunidade discente local,
de onde saiam os fund os para a manuten~llo de seminilrios. Vieram
depois as comunica~oes de pesquisas em andamento, inauguradas
aqui em Assis, em 1974, e a realiza~llo de Grupos de Trabalho, principiados em Campinas, em 1982.
Se repassarmos os temarios dos vinte e seis seminarios realizados
ate aqui, constalaremos que 0 GEL soube desenvolver 0 programa a
que se prop6s.
1.1. - Relativamente aos estudos lingOisticos, pod em identificar-se
tres centros de interesse, que em seu conjunto demonstram que 0 GEL
se manteve a par dos avan~os dos estudos lingtiisticos.
(1) 0 primeiro centro de interesse concentra-se no chamado "coraClioda LingOistica". Refiro-me as discussoes sobre Fonetica e Fonologia (transcri~llo fonetica, grafia, entona~llo, acento), Morfologia (identifica~o e classificacllo de morfemas), Sintaxe (Sintaxe Estrutural, 0 modelo de Pottier, Gramiltica Gerativa, Gramatica de Casos,
Sintaxe e Semintica de classes de palavras) e Semintica (Semintica
Estrutural). A Lexicologia e Lexicografia integraram-se mais tardiamente, a partir de 1975, tendo havido debates sobre 0 vocabuUuio
fundamental, as aplica~oes da computa~llo a Lexicografia, 0 problema dos neologismos. Adicionem-se a essas areas as questoes metodo16gicas, que compareceram desde 0 primeiro seminario, realizado em
Araraquara, e nos seminarios subsequentes, em que se focalizaram as
diferen~as entre a investiga~llo hist6rica e a investiga~llo descritiva, e
os problemas epistemol6gicos subjacentes as correntes mais modernas.
(2) 0 segundo centro de interesse foram as atividades interdisciplinares, tendo-se repassado as rela~oes entre a Lingtiistica e a Semiologia, a Literatura, a Sociologia, a Antropologia, e a Psicologia, mais
ou menos nessa ordem. Avaliluam-se as contribui~oes da Lingtiistica
ao exame do texto literario, atividade que teve seu ponto alto na con-
ferencia do prof. Antonio Candido. proferida em Campinas,
em
1975, e apresentaram-se
varios tern as sobre a Dialetologia e a Sociolingtiistica. Esse componente apresenta na atualidade dois segmentos que
se desenvolvem acentuadamente:
0 estudo antropol6gico
e linguistico
das linguas indigenas e 0 estudo da aquisi.;ao da linguagem.
(3) 0 terceiro centro de interesse e 0 da Pragmatica e da Linguistica do Texto, nisto que parece configurar uma ruptura com os paradigmas vigentes e 0 come~ de uma nova revolu~o na LingOistica, com
expansao de seus dominios para as areas cobertas ate aqui por outras
disciplinas, tais como a Teoria e a Critica Literaria, a Estilistica, a Ret6rica e a velha Filologia. As primeiras manifesta~Oes desta tendencia
devem-se ao Prof. Salum, que a partir de 1971 apresentou em mais de
uma oportunidade
seu processo de desfrasamento
e recomposi.;ao do
texto, ao longo do qual diversos fenomenos que ultrapassam os limites
da ora~ao ficam evidenciados,
tais como a afinidade estrutural,
a
ritmica, as oposi.;oes semanticas, certos processos ret6ricos e estilisticoso Seguiram-se estudos sobre a Semantica Argumentativa,
a lingua
falada, a analise do discurso, a analise da narrativa e a analise da conversa~o (neste caso, num grupo de trabalho dirigido pelo Prof. Marcelo Dascal, em 1982).
1.2. - Com rela~o ao ensino da linguistica e as aplica';Oes das
linguas estrangeiras, discutiram-se temas tais como 0 ensino da red a.;ao e da sintaxe, 0 problema do livro didatico, 0 aproveitamenfo
das
hist6rias em quadrinho no ensino de Portugues, questoes de Lingiiistica Contrastiva e, mais recentemente, da lingua instrumental.
Para apoiar a atividade docente dos professores de Lingtiistica, Filologia Romanica e Lingua Portuguesa no ensino superior, concebeuse um projeto que infelizmente nao se concluiu, e que consistia na prepara~o de uma coletanea de textos comentados, seguidos de questioriario e de bibliografia
suplementar.
Os originais dos textos entao
apresentados estao recolhidos no Arquivo do GEL, cuja cust6dia foi
passada ao Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP, por decisao da Assembleia, tomada em 1978. Acredito que uma das causas
do fracasso dessa ideia foi a rapid a nludan.;a que se processou nos
quadros de nossa ciencia nos anos 70, quando se executava esse projeto, e as dificuldades em faze-Iorefletir essa m\ldan.;a.
1.3. - A veicula~ao da informa~o
cientifica tern sido outro dos
objetivos do OEL. Nao se conseguiu estabelecer ainda um sistema de
difusao seletiva da infornia~o,
0 que poderia obter-se por meio da
edi~ao de sumarios correntes como aquele coordenado por Baranow
(1983) e a implanta.;ao de urn servi.;o de alerta bibliografico. Nao obstante, realizaram-se diversas atividades de carater informativo,
tais
como 0 estudo comparativo
do desenvolvimento
da Linguistica no
Brasil e na America Latina, 0 ensino do Portugues nos Estados Unidos, a gramatica classica e a Linguistica modema etc. Alguns linguistas tiveram suas obras examinadas, como foio caso das palestras do
Prof. Philipson sobre Sapir e Marty. Mas 0 pas.so mais decisivoJoidado com a edicilo da revista ESTUDOS LINGOISTICOS, que vem editando a maior parte dos materiais debatidos em nossos seminarios: 1
(1978), 2 (1978), 3 (19liO), 4 (1981), 5 (981), 6 (1982), 7 (1983), 9
(1984).
1.4. - Tambem alguns projetos conjuntos de pesquisa foram
apresentados em nossos seminarios: 0 do Atlas LingOistico do Estado
de SAo Paulo, que vem sendo conduzido pelo Prof. Pedro Caruso, e 0
da.Comisslo de LingUistica Aplicada, constituida em 1973 no Seminario de TupA, sobre a qual nilo tive maiores informacOes. Essa area foi
retomada quando do estabelecimento dos Grupos de Trabalho, e assim podemos tomar conhecimento, atraves de nossa revista, da realizac40 de estudos conjuntos sobre a leitura, a traduCilo e a alfabetizaCAo.
Sumariando, diria que os seminarios do GEL vem expandindo
continuamente sua temiltica, 0 que comprova 0 dinamismo de nossa
entidade.
2. Diversas causas contribuiram para 0 exito do GEL. Conquanto
sociedade de ambito regional, 0 GEL e hoje a mais ativa associacilo de
lingOistas do Pais. Com cerca de 350 associados ele tomou uma serie
extensa de iniciativas, ai incluidos os riscos da empresa editorial hoje
largamente compensada pelos oito numeros de nossa revista.
Entre as causas do sucesso, algumas foram providenciais e nAo podem ser creditadas Ii clarividencia de nosso Grupo. Refiro-me Ii expansAo do ensino superior de Letras nos anos 70, uma epoca em que a
profissilo de professor secundluio valia a pena, 0 que possibilitou 0
surgimento dos indispensaveis anfitriOes, que com tanta dedicacilo e
fidalguia tern hospedado nossos seminluios. Contam-se entre eles os
antigos Institutos Isolados do Ensino Superior, seu principal baluarte,
hoje reunidos na UNESP, alem da UNICAMP e da USP, e de diversas
instituiCOesprivadas, que acolheram os seguintes seminarios:
UNESP:
Araraquara (I, 1969; XIV, 1975)
Marilia (11,1969; XVI, 1976)
SAoJose do Rio Preto (III, 1970; XV, 1976)
Assis(V,I971;XII,1974;XXVII,1984)
Franca (VI, 1971)
UNICAMP: Campinas (XIII, 1975)
USP: Silo Paulo (XXI, 1979)
Entre as instituicOes privadas de ensino superior contam-se as seguintes:
FFCL de Santo Andre (IV, 1970)
FAFIL de Bauru (VII, 1972; XX, 1978)
FFCL de Aracatuba (VIII, 1973)
FFCL de Lins (IX, 1973).
FFCL de Avare (X, 1973)
FFCL de Batatais (XVIII, 1977)
FAC/FEB de Bauru (XVII, 1977)
UMC de Mogi das Cruzes (XIX, 1978)
PUC de Sio Paulo (XXII, 1980)
FFCL de Ribeirlo Preto (1981)
PUC de Camp inas (XXIV, 1982)
UMP de Piracicaba (XXVI, 1983)
Ha causas favoniveis, entretanto, que se devem exclusivamente
aos associados. Uma delas e a rotatividade democratica das Diretorias
que se tern sucedido. Nunca se repetiu 0 mesmo Presidente. Nunca se
provocaram crises pela recusa a que determinados segment os do cargo
associativo se apresentassem as elei~Oes,vencessem e fossem empossados. Os associados nlo permitiram, igualmente, que se instalasse uma
sorte de "estrelismo" em seu meio com a forma~lo e a polariza~Ao desagregadora de subgrupos. 0 GEL representa hoje a maior parcela
dos linguistas paulistas, sem preferencias. Nada mais justo, portanto,
do que relembrar aqui 0 nome dos ex-Presidentes, aos quais tanto deve a nossa Assoc'a~lo: Izidoro Blickstein, Jolo de Almeida, Alceu
Dias Lima, Rodolfo Ilari, Francisco da S. Borba, Eduardo Guimarles.
Em con sequencia desse ambiente democnitico,consolidado exatamente quando mais se intensificava a represslo em nosso pais, gerouse urn clima de tolerancia que permitiu a convivencia de pesquisadores
representativos de tendencias muito diversas nos quadros da ciencia
atual. Conservadores e inovadores, empiricistas e teoricos sempre
acharam seu lugar em nossos seminarios. Ate mesmo 0 pessoal da Literatura! Isso explica a ocorrencia de urn espectro metodologico tlo
variado na tematica de nossos seminarios. Esse espirito de aceita~o
da diversidade garantiu 0 dinamismo e a coeslo do grupo,
permitindo-Ihe atravessar sem problemas maiores os seus quinze primeiros anos de vida.
3. Apesar de todos esses pontos positivos, nlo creio entretanto que
o GEL esteja a salvo de urn rapido esvaziamento a que poderia seguirse seu desaparecimento.
Sem querer cedar uma de economista" - esses mestres do catastrofismo contemporaneo - gostaria de aproveitar esta ocasiAo para
compartilhar com os colegas algumas preocupacOes que vem azedando meu costumeiro otimismo para tudo quanto diga respeito ao GEL.
Vejo algumas evidencias nessa zona de sombra que parece
.projetar-se sobre nossa entidade nesta metade de decada. Sio razOes
antiteticas: de urn lado, a decadencia dos cursos de Letras;de outro, a
'consolida~o dos cursos de Pbs-Gradua~o em LingOistica.
A deteriora~o do ensino de primeiro e segundo graus determinou
uma queda dramatica na demanda de nossos cursos de Letras. Varias
institui~Oes privadas cerraram suas portas. As faculdades oficiais sofrerarn urn decrescimo em suas atividades. Esse estado de coisas
refletiu-se na disposiC«o dos associados, e as novas Diretorias do GEL
passararn a enfrentar problemas na organiza~o dos seminllrios, que
ultimamente tern sido anuais.
Do outro lado, a consolida~40 dos programas de P6s-Gradua~40
em Lingtlistica gerou espa~os alternativos de debate e de estimula~ilo
cientifica. Em conseqtlencia, 0 GEL deixou de ser 0 imico lugar para a
divulga~o de pesquisas em andamento e a compara~40 das diferentes
perspectivas metodol6gicas, passando a sofrer uma concorrencia seria. Para dizer 0 menos, 0 GEL parece preso ao pincel, enquanto a
mudan~a natural das coisas esta-lhe tirando a escada de sob os pes. No
fundo, este e urn born problema, constituindo-se num desses reptos
que aceitos com competencia fortalecem 0 -que parecia enfraquecido,
podendo abrir entre n6s horizontes novos a uma ciencia em continua
expans40.
Refiro-me aquelas tarefas pendentes que, por sua extens40, n40
podem ser cometidas isoladamente por nossas universidades. Refirome, tambem, a uma atua~40 poUtica apenas compativel com associa~oes representativas como 0 GEL. Eis aqui como vejo as tarefas que
cabera desenvolver nos anos vindouros.
3.1. Lembremo-nos inicialmente da chamada "gramatica tradicional" . Quantas vezes ela foi malhada em nossos semininios! E essa entretanto n40 e uma idiossincrasia paulista, bem ao contrario! 0 fenomenD encontra-se igualmente em outros ambientes cientificos, como
se pode comprovar atraves da convivencia academica de cada urn, ou
ainda atraves dos formosos ensaios de Rebecca Posner (1968) e German de Granda (1973).0 "combate" Ii gramatica tradicional reflete
uIila oposi~40 entre "receptivos" e n40 "receptivos" que parece cindir a Lingtlistica Contemporanea. Tratei da proje~ilo brasileira dessas
categorias numa conferencia lida durante 0 VI Congresso Internacio-'
nal da Associa~40 de Lingtlistica e Filologia da America Latina: CastiIho (1981). Nesta ocasi40, gostaria de relembrar os grupos de pesquisadores que se preocuparam com a elabora~40 de gramaticas modernas, nas quais eles incorporam as contribui~oes positivas da LingUistica Atual. Esses projetos, elaborados por equipes, deixaram de lado a
ideia das gramaticas feitas por urn imico autor.
Lembre-se inicialmente a organiza~40 do grupo responsavel pelo
"Survey of English Usage", dirigido por Randolph Quirk. Esse grupo
come~ou suas atividades em 1960, tendo sido integrado pelos Professores Sidney Greenbaum, Geoffrey Leech e Jan Svartvik, alem do
pr6prio Quirk. De suas atividades resultou a extraordinaria "Grammar of Contemporary English", que representa na atualidade 0 estudo mais extenso do Ingles cuito falado e escrito, formal e coloquial, segundo 0 usa britanico e 0 americano. A estrutura~ao e a orienta~ao
metodol6gica da gramatica se ap6iam na tradi~iio e nas contribui~oes
das diferentes escolas lingtlisticas contemporaneas: Quirk et alii (1972:
VI).
T,ambem os espanh6is se preparam para editar uma nova gramatica, a partir da revis40 da "Gramatica de la Real Academia". Como se
sabe, essa,gramatica foi escrita entre 1713 e 1771, constituindo-se de
dissertacOes previamente encomendadas, que eram discutidas e submetidas a votos pela "corporaci6n". Juan Trigueros, Secretfuio da
Academia, deu-lhe a redacao final: Sarmiento (1978). Desde 1969 uma
Comissilo integrada pelos Professores Salvador Fernandez Ramirez,
Samuel Gili Gaya e Rafael Lepsa, entre outros, tern trabalhado na
modernizacao da Gram{uica, com 0 auxilio das "Academias de la
Lengua" da America Espanhola, tendo-se publicado uma versilo preliminar: Esbozo (1973); Lapesa (1975).
No caso do Brasil, poderiamos incorporar a gramatica do Portugues as contribuiCOes trazidas nos ultimos vinte anos por teses de doutoramento, dissertaCOes de mestrado e estudos de varia ordem. Uma
comissilo de redaciio discutiria a organizaciio da nova gramatica, a documentacilo do grupo, a metodologia a seguir e identificaria os "espaCOSem branco" deixados pela pesquisa atual. Grupos de pesquisadores elaborariam as investigaCOes necessarias, camdizando-se os resultados para uma nova Gramatica, que refletisse numa forma adequada
os usos contemporllneos do portugues brasileiro e 0 estado atual do
desenvolvimento cientifico da LingOistica no Pais. 0 portugues e uma
lingua respeitavel no mundo contemporllneo, como veiculo de uma
comunidade que se espalha por tres continentes,. e que assume ai urn
papel de importancia crescente. Merece, pois, uma boa descriciio gramatical. Por outro lado, 0 Estado de Silo Paulo dispOe de excelentes
6rgilos financiadores da pesquisa e conta com universidades relativamente bem instaladas. Urn projeto como este poderia estabelecer uma
nova fase no relacionamento academico dessas Universidades, criando as condicOes para que toda uma geraciio de estudiosos da lingua
portuguesa se consagre a uma tarefa comum. 0 GEL desempenharia 0
,papel de agente de ligac4o, urn papel que compete unicamente a uma
associaciio como esta.
Outra tarefa que desde logo preocupou nossos associados foi e tern
sido a busca de uma renovaciio do ensino de Portugues. N!o faz muito tempo a Prof. a Maria Alice de Oliveira Faria apresentou-nos urn
texto intitulado "Para clientela nova, novas situacOes pedag6gicas":
Faria (1978). Outras ideias apareceram quando discutimos a aiteraciio
do curriculo minimo de Letras, em 1978. A pr6pria Secretaria da Educaciio tern procurado nas Universidades apoio para seus projetos de
renovaclio. Foi assim que, no mesmo ana de 1978, urn grupo de 23
professores redigiu urn material que foi distribuido aos professores do
segundograu: Castilho, ed. (1978).
, 0 GEL tern tambem aqui urn importante papel a d~sempenhar.
Penso que sua Diretoria deveria funcionar como urn elemento de ligaClio, aproximando da Secretaria de Educacao e de outros 6rgllos governamentais aqueles educadores interessados nessa atividade. Esta
seria uma forma de engajar-se na campanha da escola publica, nao
para repetir comodamente 0 slogan "Escola publica, direito detodos,
dever do .Estado", e logo sentir satisfeitos os impulsos de cidadania,
mas sim para preocupar-se efetivamente com a eficiencia da grE\nderede de ensino publico e gratuito mantido pelo Estado e esquecido pelas
Universidades.
3.2. - No plano das atividades de ambito externo, certamente 0
GEL nao precisa propor 0 estabelecimento de urn relacionamento academico mais sistematico com a Europa e os Estados Unidos, tradicionais fornecedores de tendencias cientificas e literarias para a periferia.
Isso ja existe, e a quantidade de bolsas de estudos e congressos e tao
satisfat6ria, que ainda recentemente 0 Prof. Mario Perini reconheceu
que n6s brasileiros estamos mais bem informados do que se passa nesses ambientes do que em nosso pais: Perini (1983). Mas nao se assustern, eu nao vim pregar a xenofobia aqui em nosso seminario, taosomente gostaria que se considerasse a hip6tese de variarmos nossos
contactos e de buscarmos mais dedicadamente nossa pr6pria identidade cultural, considerada em term os continentais.
Desde 1971 venho insistindo em que nossos vizinhos hispanoamericanos desenvolvem uma experiencia cientifica bastante notavel,
movendo-se num ambiente muito semelhante ao do Brasil: Castilho
(1971). Nao obstante, as rela~oes entre 0 Brasil e seus vizinhos mais
pr6ximos tem-se assinalado por urn alto grau de desconhecimento mutuo. E atraves da Europa e dos Estados Unidos que tomamos conhecimento dos sucessos cientificos, literarios e artisticos hispanoamericanos. E com olhos europeus ou norte-americanos que avaliamos e interpretamos os povos que partilham conosco 0 mesmo espa~o
geogrAfico e a mesma tradi~ao cultural. Nao ha program as academicos estaveis para a forma~ao de latino-americanistas em nossas universidades. Nao ha intercambio regular de cientistas, literatos e artistas, nem de publica~oes, nem de noticias. As escassas relas;oes tem-se
estabelecido de forma assistematica e no nivel individual. E tao singular a situa~ao de desconhecimento mutuo que freqiientemente 0 Brasil
nao e considerado como parte da America Latina, como observou Ant6nio Candido de Mello e Souza (1981).
Essa situa~ao causa prejuizos a integra~ao de nossos paises no momento mesmo em que enfrentamos problemas econ6micos e culturais
de motiva~ao bast ante semelhante. Para obviar esse mal seria necessario entre outras iniciativas que as universidades latino-american as gesenvolvessem programas de pesquisa e de coopera~ao que privilegiassem 0 espa~o social e econ6mico em que SaGsituadas. Esses programas procurariam focalizar a realidade latino-american a de urn ponto
de vista latino-americano, mediante a instala~ao de centros de estudo
e de ensino que fomentassem 0 intercambio de pesquisadores e de informa~oes para alem dos epis6dicos seminarios, congressos e outros
encontros cientificos.. No mundo contemporaneo, planejado politicamente por corpora~Oes multinacionais e pelos Estados dominantes,
torna-se inadiavel que -as universidades criem centros para 0 estudo
met6dico de nossa realidade social, ecooomica e cientifica, preparan-
do, assim, as novas gera~oes para 0 que devera ocorrer nesta parte do
mundo.
Alguns centros vem sendo instalados para esse fim. Para ficar no
Estado de Sao Paulo, lembre-se a Universidade Federal de Silo Carlos
e a PUC de Silo Paulo. Na UNICAMP est a para ser criado e instalado
o Centro de Estudos sobre a America Latina e 0 Caribe.
o GEL poderia atuar ainda que modestamente junto a esses centrQs, ajudando-os a compor fundos bibliograficos representativos do
que a Linguistica Latino-Americana vem produzindo, e prop on do a
realiza~ilo de projetos conjuntos de investiga~ao cientifica. Apesar de
ser uma entidade regional, ele deveria encorajar 0 intercAmbio de linguistas hispanicos com os brasileiros, organizando grupos de trabalho
nos quais atuariam os destacados pesquisadores que trabalham hoje
em universidades da Argentina, do Uruguai, do Chile, da Colombia e
do Mexico, para lembrar-me apenas dos grupos mais ativos. Os linguistas de Silo Paulo deveriam expor-se por meio de nossa associa~ilo
ao contacto com esses colegas, enriquecendo sua experiencia academi-
ca.
o fortalecimento da solidariedade continental latino-ainericana
nao se dara, por certo, atraves do "piccolo mondo" da LingUistica.
Mas a face linguistica dos povos que compoem hoje a Romania Nova
e urn de seus caminhos. Como tern sido lembrado em reunioes semeIhantes a esta, vivem hoje no espa~o latino-americano cerca de 450 miIhoes de individuos, isto e, cinco vezes a Europa Latina. Nesta virada
do seculo XX, Roma atravessou os mares e veio instalar-se no Novo
Mundo. Compete a nbs avaliar a dimensao linguistica dessa realidade
e seu impacto nas rela~oes internacionais vindouras.
Devo agora encerrar esta fala que jll vai urn tanto longa. Meu objetivo foi recordar as ideias que fizeram do GEL uma fonte de estimulos
tao preciosos para toda uma gera~ao de estudiosos da linguagem. Espero que uma analise corajosa dos problemas que ora enfrentamos
nos ensine a identificar e realizar as tarefas que a comunidade espera
de todos nbs, assegurando ao mesmo tempo ao GEL as condi~oes para que ele continue a ser urn espa~o de crescimento cientifico e de convivencia fraterna para todos os seus associados.
(l983)Ulf G. Baranow (coord.) - Sumarios correntes
em Lingiiisticas. Brasilia, CNPq/IBICT, vol. I,
n.o I, dez. de 1983.
(l97l)Ataliba T. de Castilho - "Perspectivas da LingUistica na America Latina e no Brasil", Suplemento Literario de 0 Estado de S. Paulo,
29.8.1971,5.9.1971,19.9.1971.
(l978)Idem (ed.) - Subsidio Ii Proposta Curricular de
Lingua Portuguesa para 02.0 Grau, 8 vals. Sao
Paulo, Secretaria da Educa~ao / UNICAMP.
1978.
(198l)Idem - "A Lingiiistica Portuguesa no Brasil nos
anos 70", Anais do VI Congresso Internacional
da AF AL, no prelo.
Esbozo
(1973)Real Academia Espafiola (Comisi6n de Gramatica) Esbozo de una Gramatica de la Lengua
Espanola, 5. a reimpresi6n. Madrid, EspasaCalpe, 1978.
Faria
(1976)Maria Alice de Oliveira Faria - "Para clientela
nova, novas situa~oes pedag6gicas", Estudos
Linguisticos 1:1978, 56-62.
Granda
(1973)German de Granda - "Sobre la actual problematica de la Lingiiistica Romimica y de su ensefianza universitaria", Thesaurus 32:1977, 501543.
Lapesa
(1975)Rafael Lapesa - "Esbozo de una Gramatica de
la Real Academia", Linguistica y educaci6n
(Actas del IV Congresso Internacional de ALFAL). Lima, Universidad Nacional Mayor de
San Marcos, 1978, 76-85.
Mello e Souza (198l)Antonio Candido de Mello e Souza - "Os brasileiros e a literatura latino-american a " , Novos
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QUINZE ANOS DE GRUPO DE ESTUDOS LINGUiSTICOS