Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI
ISSN 1809-1636
A PARANÓIA
Paranoid
Bruno Rennan Pedroso da SILVA1
Pedro José PACHECO2
Júlio Cesar HOENISCH3
RESUMO
O presente artigo trata do conceito teórico da Paranóia, considerado subjacente ao conceito de
Psicose, este que é, dentro de uma abordagem psicanalítica, uma das estruturas do psiquismo.
Aborda-se um caso clínico atendido durante um estágio de formação do Curso de Psicologia, no
intuito de compreender o funcionamento da paranóia, relacionando-a à teoria psicanalítica e a
outros conceitos subjacentes tais como projeção, delírio e foraclusão. Tal aparato teórico-conceitual
é discutido junto com apontamentos sobre experiências vivenciadas num contexto clínico, tendo
como objetivo produzir reflexões e aproximações entre teoria e práxis. No caso clínico utilizado no
artigo, fala-se de um sujeito que tinha delírios com a música e a “certeza” do sucesso com a música,
mesmo não sendo músico. Toda ameaça de castração ao seu delírio era visto como perseguição por
um Outro, ameaçador de seu narcisismo. Percebe-se que o repúdio e/ou a abolição de uma
representação intolerável de castração tem ligação na história de vida do paciente em diversos
momentos de sua vida, no qual, o delírio mostra-se decorrente de conflitos edípicos e de castrações
ocorridas. Observamos que seu delírio é uma tentativa de cura a uma falta, a um furo, surgindo
como defesa à angústia de castração.
Palavras chaves: Paranóia, Projeção, Delírio, Narcisismo, Foraclusão.
ABSTRACT
The present article works on the Paranoia, considered linked to Psychosis which is one of the
structures of psyque, on a psychoanalytic approach. The writing brings up a clinical case of the
stage, wich was a very meaningful experience of learning to me – in touch with the paranoid
speech. The article seeks to understand the Paranoia’s operation, linking the authors and exploring
the concepts that depicts the Paranoia on psychoanalytic casts. Concepts as projection, delirium,
foreclosure are discussed together with notes on experiences in clinical context. The approach of the
case with the theorical concepts has as objective produce reflections and similarities between theory
and praxis. In this clinical case used in the article, it is spoken about a subject who had a delirium
with music and the “certain” of success with the music, even no been a musician. All threats of
castration to his delirium, was seen as a persecution by an Other threatening to his narcissism. It is
1
Psicólogo formado no Curso de Psicologia da URI, Campus Santiago.
Psicólogo, Especialista em Psicologia Jurídica (CFP), Mestre em Psicologia Social e Institucional (UFRGS), Doutor
em Psicologia (PUC-RS). Professor do Curso de Psicologia da URI, Campus Santiago.
3
Psicólogo, Especialista em Saúde Pública pela FioCruz, Mestre em Psicologia Social e da Personalidade (PUC-RS
2002). Atualmente é coordenador do Curso de Psicologia da Faculdade Social da Bahia e doutorando em Saúde
Coletiva no Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da UFBA.
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perceived that denial of castration – called here foreclosure – has a connection with the patient life’s
history in other moments of his life, in which, the delirium is due to oedipal conflicts and from
castrations occurred. We watch that his delirium is an attempt of cure to a lack, to a hole, emerging
as a defense to the distress of castration.
Keywords: Paranoia, Projection, Delirium, Narcissism, Foreclosure.
INTRODUÇÃO
Neste artigo pretendemos explorar as características do conceito de Paranóia, seu
funcionamento e suas peculiaridades, relacionando-as a um caso clínico que acompanhamos durante
o estágio de formação da graduação do Curso de Psicologia4. Raul5 se apresentava à época de sua
análise com 40 anos de idade, sendo que a partir dos seus 20 anos passou a apresentar um delírio de
que é um grande músico de canções tradicionalistas gaúchas, que não havia alcançado a fama pois
ainda não havia sido “descoberto”. Tal frustração ocasionou, desde o início dos delírios, alguns
períodos de agitações psicomotoras, principalmente voltadas contra si mesmo através de tentativas
de suicídio, o que culminou em algumas internações psiquiátricas baseadas no diagnóstico de
esquizofrenia paranóide. De lá para cá, Raul já passou por diversas modalidades de tratamentos
medicamentosos, psicoterápicos individuais e grupais, bem como acompanhamentos em serviços
substitutivos, principalmente CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Raul mora com o pai, a mãe
e a irmã, relata estar há 16 anos sem namorar e vive da verba governamental de um salário mínimo
que recebe mensalmente por ser considerado incapaz de trabalhar devido à doença mental.
Mesmo considerando que diagnósticos não são entidades nosográficas fechadas e são
inseridos no mundo subjetivo da linguagem no qual o sujeito se relaciona com o Outro, propomos
trabalhar o conceito de Paranóia, diferenciando-o da neurose e o inserindo no mundo das psicoses6.
Mas, o que é Paranóia? Como ela se define como tal? O que é uma saída delirante? O
funcionamento paranóico diferencia-se em quê em relação à neurose, e mais especificamente à
obsessividade? Qual a clínica possível da Paranóia? Quais nossos limites como analista? São
perguntas iniciais, mas que nos intrigaram/interrogam durante todo o processo de experiência com o
paciente atendido.
Além do que foi citado sobre a questão diagnóstica nos moldes psicanalíticos, consideramos
que todas as estruturas apresentam traços de diversas ordens. Contudo, esse artigo vai se restringir à
paranóia para fins didáticos e assim focalizar especificadamente o tema. Partindo das questões
acima formuladas, iniciamos nossas reflexões a partir da distinção entre paranóia e neurose
obsessiva.
4
Bruno Rennan Pedroso da Silva realizou os atendimentos psicoterápicos de janeiro de 2011 a fevereiro de 2012. Pedro
José Pacheco supervisionou o estágio e o acompanhou durante aquele período. Júlio Cesar Hoenisch revisou técnica e
teoricamente o presente artigo.
5
Modificamos o nome de fato do paciente a fim de preservar a identificação do mesmo.
6
Psicose é um conceito amplo para Laplanche (2001), sendo que, para as teorias psicanalíticas, é uma das três
estruturas do funcionamento psíquico, ao lado da neurose e da perversão. A psicose geralmente é dividida em Paranóia
(afecções delirantes) e Esquizofrenia, sendo fundamentalmente uma perturbação primária da relação libidinal com a
realidade, onde a maioria dos sintomas manifestos (particularmente construção delirante) são tentativas secundárias de
restauração do laço objetal. Já a Neurose, para Laplanche (2001), é uma afecção psicogênica em que os sintomas são a
expressão simbólica de um conflito psíquico que tem raízes na história infantil do sujeito e que constitui compromissos
entre o desejo e a defesa.
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Diferenciando Neurose Obsessiva e Paranóia
Freud ([1926] 1980) dizia que a paranóia e a neurose obsessiva, ainda que distintas,
possuíam muitas semelhanças. Seus sintomas geram uma satisfação narcísica valiosa para ambas,
já que na obsessividade o sujeito está fortemente identificado com as limpezas e “perfeições”, e na
paranóia seu delírio é de grandeza e altamente persecutório. Não é a toa que David Zimerman
(1999) afirma que a fobia, a obsessividade e a paranóia são primas – irmãs.
Contudo o que seria a Neurose Obsessiva? Laplanche (2001) enfatiza que as neuroses
obsessivas constituem um dos principais sintomas da neurose, sendo caracterizadas por conflitos
psíquicos que exprimem sintomas chamados compulsivos: ideias obsedantes, compulsão a realizar
atos indesejáveis, luta contra estes pensamentos e tendências, ritos conjuratórios. Além disso,
também se caracteriza por um modo de pensar marcado por recriminações mentais, dúvida,
escrúpulos, o que leva a inibições de pensamento e de ação. Além disso, são marcadas pela lógica
do controle das emoções e dos afetos, fixadas à fase anal, não dando vazão para as pulsões do isso7
com um supereu8 rígido e tirânico. Como nos afirma Quinet (1991): “Encontramos na clínica do
obsessivo a conjugação no Outro de dois significantes: o pai e a morte, denotando a articulação da
lei com o assassinato do pai na constituição da dívida simbólica” (p. 28).
Essa marca paterna do obsessivo transparece no caso de Raul quando ele denota o desejo de
morte do pai através da negação da lei, da falta do significante do Nome do pai: “Tomara que ele
morra! O dia que ele morrer vou ficar feliz” (sic). Seus conflitos familiares e sua raiva para com
seu pai era o que mais o incomodava. A saída adotada para negar essa lei tirânica, revestida por um
pai que lhe batia e que era fraco em termos de referências simbólicas, foi uma construção delirante
relacionada a tornar-se um grande e famoso músico, já que se considerava ótimo cantor e
compositor de canções tradicionalistas gaúchas.
Segundo reflexões de Quinet (1991), o sujeito obsessivo é marcado pela questão sobre sua
existência: estou vivo ou estou morto? Raul, ao dizer que não aguentava mais esperar e ver sua vida
passar, não conseguindo namorar e ficar famoso, se angustiava e chorava, ficando implícita a
dúvida sobre se realmente estava vivo. Tal reação também sugere questionamento sobre a
consistência de seu delírio, que não se concretizava em termos de completude, ficando as castrações
da vida fora-incluídas, portanto, não inexistentes. Não aguentar esperar mais remete às questões da
temporalidade referentes às horas e ao tempo, ocasionando que um dos pensamentos obsessivos
muito presente em Raul se relacionava aos números de todos os tipos e ordens, bem como ao fato
de não conseguir alcançar a fama até então e de sua idade estar passando e ele estar envelhecendo.
Num dos telefonemas do Raul a seu terapeuta, disse que o mesmo e seu psiquiatra tinham a
cura de sua prisão, ou seja, que poderíamos fazer com que ele chegasse ao sucesso musical. Raul
delega a ambos a posição de mestre e se coloca na posição de escravo. Segundo Lacan (2008), a
neurose obsessiva é caracterizada pelo chamado mito do obsessivo, baseado na dialética hegeliana
do senhor e do escravo, ocasionando que, na transferência, o paciente obsessivo vê o analista como
um amigo/mestre, contemplando o mestre fora de si, aquele que é visto como a verdade, ao mesmo
tempo em que se reconhece como escravo e acaba por se humilhar. Sobre isso, refere Quinet
7
O “Isso” para Laplanche (2001) é uma das três instâncias do psiquismo (isso, eu, supereu) da segunda tópica
freudiana. Constitui o pólo pulsional da personalidade com conteúdos e expressões psíquicas das pulsões que foram
adquiridos e recalcados. Do ponto de vista econômico, o isso é para Freud o reservatório inicial da energia psíquica; do
ponto de vista dinâmico, entra em conflito com o eu e o supereu.
8
“Supereu” é instância do aparelho psíquico que para Laplanche (2001) é similar a um juiz, a um censor ao eu, sendo
herdeiro do complexo de Édipo ao se constituir pela interiorização das exigências e das interdições parentais.
Roudinesco diz que “o supereu mergulha suas raízes no isso e, de alguma maneira implacável, exerce as funções de juiz
e censor em relação ao eu” (1998, p.744).
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(1991): “Na tentativa de dominar o gozo do Outro para que este não emerja, o obsessivo não só
anula seu desejo como tenta preencher todas as lacunas com significantes para barrar esse gozo: ele
não pára de pensar, duvidar, calcular, contar” (p.28). No clássico caso do Homem dos Ratos (Freud,
1975)9, ocorria a dúvida entre colocar ou tirar uma pedra que tapava um buraco de uma estrada que
poderia causar um acidente à sua amada que estava por vir, além das ideias obsessivas, como contar
o tempo entre o relâmpago e o trovão, o que se assemelha em muito às ideias de Raul em relação ao
tempo, aos dias, às horas e aos minutos.
A angústia de Raul em relação ao sucesso denotava dúvida e incerteza, o que é uma
particularidade da neurose. Porém, a certeza do delírio na paranóia no fundo alimenta uma dúvida,
conforme alega Quinet (2002). O delírio tende a se concentrar sobre pensamentos fixos, em que o
sujeito se interroga, se questiona, hesita, exprime sua dúvida, ocorrendo posteriormente a
substituição da hesitação pela certeza delirante a qual se prende.
Raul, quando acordava de madrugada para tomar mate10, ficava pensando por que não
acordou mais tarde. Numa das noites, pensou que estava se comportando como um idiota em ficar
acordado de madrugada e voltou a dormir. No episódio da pedra, Lanzer se acha demasiadamente
estúpido ao colocar a pedra no lugar de volta. No caso do Raul, ele voltou a dormir, denotando tanto
dúvida sobre o que fazer, quanto vergonha sobre o que fazia.
Em determinado momento do tratamento, Raul começa a fazer aula de música com um
terapeuta ocupacional, relatando: “Pago adiantado”. Seria esta a formação de alguns núcleos
obsessivos? Será que, assim como Lanzer, era insuportável para Raul ficar em dívida e, se isso
ocorresse, se culparia exageradamente? Ainda, o desejo parricida expiado pelo ritual do pagamento
da dívida poderia indicar uma passagem, nem que fosse esporádica, pela neurose? Raul em
determinado momento escreve uma carta para ser endereçada à moça por que tinha interesse.
Pensou em mandar antes para uma psicóloga, para ela então entregar a uma enfermeira e esta
entregar à moça. Todavia, a escrita destinada à moça tinha como destino outra pessoa, que na
verdade dificilmente receberia a carta. Muito similar ao caso de Lanzer, em que a dívida do paciente
de Freud com seu pai nunca era paga, ficava circulando e o pagamento não chegava a seu
verdadeiro destinatário, sustentando o desejo inconsciente e recalcado de matar o próprio pai. Esse
acontecimento, segundo Quinet (1991), estava conectado a uma experiência relatada a Lanzer por
um capitão cruel, que referiu uma tortura de enfiar ratos no ânus do torturado (série fálica), que
cavavam até chegar ao intestino da pessoa. Ele imaginou essa tortura com um ente querido, no caso
o pai, que somente seria evitada se a dívida fosse paga. A análise feita com Freud permitiu a
decifração da conexão entre essa ideia com a equação do sintoma de pagar uma dívida impossível,
sendo que a conexão rato-infecção sifilítica- pai-pênis-verme intestinal tinha ligação e denotava
com o dinheiro e a dívida um substituto da falta, da castração e da ordem fálica.
Segundo Quinet (2002), na paranóia e na neurose obsessiva, os sujeitos vivenciaram a
experiência do gozo11 com prazer, em que ao ser evocada esta vivência, é experimentada pelo
sujeito uma recriminação com desprazer. Na neurose obsessiva, com o retorno do recalcado, há um
retorno na compulsão a repetição com seu sintoma que tem articulação edípica, em que o sujeito
sente a experiência do gozo com culpa e auto-recriminação. Na paranóia há uma descrença, o
9
Ernst Lanzer (1878 – 1914), conhecido como o Homem dos Ratos, foi atendido durante nove meses por Freud que o
considerou um caso clássico de neurose obsessiva (Roudinesco, 1998).
10
Nome popularmente usado para definir o chimarrão na cultura gaúcha.
11
Roudinesco afirma que “Inicialmente ligado ao prazer sexual, o conceito de gozo implica a ideia de uma transgressão
da lei: desafio, submissão, ou escárnio. O gozo, portanto, participa da perversão, teorizada por Jacques Lacan como um
dos componentes estruturais do funcionamento psíquico, distinto das perversões sexuais. Posteriormente, o gozo foi
repensado por Lacan no âmbito de uma teoria da identidade sexual, expressa em fórmulas da sexuação que levaram a
distinguir o gozo fálico do gozo feminino (ou gozo dito suplementar)” (2008, pág. 299).
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sujeito não acredita em recriminação em relação à lei, na qual é foracluída12 por estrutura. Na
neurose há um desejo que é barrado, já na paranóia há o significante do desejo da mãe, na qual, o
sujeito fica retido e fixado a esse significante mestre.
O fato de a paranóia para Quinet (2002) estar fixada e retida a esse significante mestre
explica o porquê de o paranóico ser o Um, o único, a auto-referência, preso ao narcisismo primário
e projetando no outro toda a ameaça de castração e a sua integridade narcísica. Por isso, o delírio de
grandeza e a megalomania são respostas à suposta ameaça e perseguição do significante do Nomedo-pai foracluído. Porém, tal significante também se mostra in-cluído, pois se apresenta na
realidade constantemente nas relações sociais. Com Raul, quando acontecia alguma castração, um
não qualquer, ele agia com muita angústia, entrando em crise. Foi o caso de uma mulher que foi sua
psicóloga anteriormente e que evitou falar com ele, ao fingir não o ter visto na rua, segundo seu
relato. Tal acontecimento gerou uma angústia tão insuportável que quando Raul chegou ao
atendimento psicológico na Clínica-Escola xingou todos que estavam na sala de espera, negando ser
atendido. Tais agressões demonstram uma forma de dar vazão por vias de projeções13 à intensa
angústia que o tomava naquele momento. Relatou não querer mais se atendido por alguém do sexo
masculino, mas sim por uma psicóloga do sexo feminino, talvez como uma via mais direta de poder
canalizar suas raivas às figuras imaginariamente mais identificadas com suas projeções.
Freud (1913) dizia que é muito comum os psiquiatras confundirem diagnósticos, pois estes
se baseiam somente em evidências nosográficas e comportamentais. Com Raul percebe-se
similaridades, pois seu psiquiatra o diagnosticou como um caso de Transtorno Obsessivo
Compulsivo (T.O.C.), baseado apenas em seu comportamento compulsivo de tomar muita água (às
vezes chegando a beber 20 litros num dia). Násio (2001) afirma que o delírio com a grandeza
(música/ fama) e a mania de perseguição são características paranóicas. Diante disso, mesmo
considerando que Raul circule por alguns momentos por discursos e traços fortes de uma neurose
obsessiva, seu diagnóstico predominante é de paranóia, tal como no caso Schreber (Freud, [1911]
1969).
Projeção, Delírio de Perseguição, Megalomania e Função do Delírio
A condição paranóica é constituída a partir de uma concepção narcísica primária, quando o
narcisismo do sujeito se mostra altamente compactado e fechado, em que todo questionamento é
visto como ameaça e perseguição à perfeição presente em seu delírio. Uma intervenção castradora
do analista, apontando furos e contradições, poderia deixar o sujeito paranóico intrigado,
desconfiado e muitas vezes muito desorganizado. Segundo Quinet (2002), na paranóia o Outro é um
Outro que goza, ou seja, não inclui castração. O olhar desse Outro consistente e gozador é o que
ameaça o sujeito, que é vigiado o tempo todo e mirado. Sendo auto-referência ao Outro, toda
coincidência se refere ao paranóico, abolindo o acaso e o aprisionando a todos os sentidos
disponibilizado pelas relações a fim de sustentar o seguinte cogito: “Sou visto, logo existo”!
Nesse cenário, o sujeito é preso à imagem especular, velando a falta e circulando seus
12
“Foraclusão” é para Laplanche (2011) um mecanismo específico da psicose. Consiste na rejeição primordial de um
significante. É a negação da castração e do significante do nome do pai do universo simbólico do sujeito. Roudinesco
afirma que “quando a rejeição se produz, o significante é foracluído. Não é integrado no inconsciente, como no
recalque, e retorna sob forma alucinatória no real do sujeito” (1998 pág. 245).
13
“Projeção”, segundo, Laplanche (2001) é um mecanismo de defesa em que o sujeito expulsa de si e localiza no outro
(pessoa ou objeto) qualidades, sentimentos, desejos e mesmo “objetos” que ele desconhece ou recusa nele. É um
mecanismo arcaico, muito comum na paranoia.
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significantes pelo Imaginário14, tendo seu significante fixado ao Real. Checchinato (1988) diz que
para Lacan o real é aquilo que é irrepresentável, o impossível de ser suportado. Se na psicose o
sujeito é carente de significantes junto a um intenso vazio, com pobreza de recursos na linguagem,
vivendo diariamente com o real, na paranóia o sujeito tem riqueza de recursos lingüísticos e
simbólicos devido a sua consistência imaginária. O delírio de perseguição se dá justamente por sua
imagem especular, por um Outro sempre presente em que lhe assombra. O fantasma lhe assombra
porque o sujeito paranóico é importante, é grande, é o centro da referência, se colocando num papel
de vítima de seus inimigos perseguidores.
Raul ao ver um carro passar devagar frente a sua casa imaginou que era alguém que estava a
sua procura para lhe oferecer emprego. Mas depois ficou se questionando por que o homem havia
passado naquela velocidade olhando para sua casa? Ficava revoltado com seus conhecidos por não
lhe oferecerem emprego, se sentindo menosprezado por eles, e se colocando numa posição de
vítima. “Sou uma pessoa boa, não faço mal para ninguém, tu sabe disso! E eles não me dão
emprego mesmo sabendo que eu preciso trabalhar e que sou um ótimo pintor”. Quinet (2002) diz
que os paranóicos são advogados de seu delírio e argumentos para defendê-lo não faltam. Refere
que na paranóia, que é marcada pelo delírio, dificilmente aparecem alucinações visuais, sendo
principalmente caracterizada por alucinações auditivas e escutas de vozes relacionadas ao delírio de
perseguição. É o caso de Raul que jamais apresentou alucinações visuais no tempo em que foi
atendido. Todavia, tinha alucinações auditivas, escutando vozes que lhe eram estranhas.
Se pensarmos em termos de diagnóstico diferencial, Quinet (2002) afirma que a
esquizofrenia15 está ligada a uma fixação da libido à fase do auto-erotismo16, voltada para o próprio
corpo, para os orifícios erógenos, denotando um eu fragmentado, sem a presença de um Outro
culminando em sintomas desorganizativos, tais como as alucinações visuais. Já na paranóia o
indivíduo estaria fixado a uma etapa subseqüente, ao narcisismo primário, havendo uma fixação e
um congelamento do desejo na paranóia, com uma postura fálica e com núcleos bem resistente e
amarrados, com produção delirante e com coerência interna, denotando a presença constante e
maciça de um Outro terrível e gozador. Diante disso, temos a projeção como o mecanismo clássico
da paranóia, explicado por Násio (2001, p. 57) através de chamada fórmula da projeção. Baseado na
afirmação inconsciente: “Eu o amo (um homem)”, os recursos defensivos ante tal ideia teriam as
seguintes direções:
1“Eu não o amo, eu o odeio” (projeção). “Ele me odeia porque me persegue.” Neste caso
haveria uma inversão, em que eu não o amo e ele me odeia.
2“Não é a ele que amo, é a ela”, que com a projeção transforma-se em “é ela que me ama”
(posição erotomaníaca)
3“Não sou eu que amo o homem, é ela que o ama” (delírio de ciúme)
4“Eu não o amo, só amo a mim mesmo” (delírio de grandeza) da paranóia.
14
Conforme Laplanche (2001), imaginário é um dos três registros de formação da subjetividade, junto com o real e o
simbólico. Imaginário tem relação com a imagem do semelhante (fase do espelho-Lacan), constituidora do eu especular.
Sobre este termo, Roudinesco refere: “Utilizado por Lacan a partir de 1936, o termo correlato da expressão estádio do
espelho designa uma relação dual com a imagem do semelhante. Associado ao real e ao simbólico, no âmbito de uma
tópica, a partir de 1953, o imaginário se define, no sentido lacaniano, como o lugar do eu por excelência, com seus
fenômenos de ilusão, captação e engodo” (1998, p. 371).
15
Para Laplanche (2001), a palavra “esquizofrenia” vem do grego fender, clivar, e frenia, mente, tal como a clivagem
da mente que se caracteriza como as psicoses a Spaltung (“dissociação”), em que clinicamente se caracteriza pela
incoerência do pensamento, da ação e da afetividade, além de uma deterioração intelectual e afetiva.
16
Para Roudinesco (1998), auto-erotismo é “um comportamento sexual do tipo infantil, em virtude do qual o sujeito
encontra prazer unicamente com seu próprio corpo, sem recorrer a qualquer objeto externo.” (p. 46).
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No caso de Raul, podemos deduzir que ele esteja atravessado por este mecanismo, já que
suas brigas com os psiquiatras e psicólogos têm em sua fantasia uma posição de saber (S1) que
acaba por questionar sua posição narcísica de saber e de ser pleno. Sobre isso Raul afirma que os
psiquiatras e os psicólogos têm a cura para sua angústia, porém não querem lhe dar, como o
emprego, o sucesso e a fama, passando então a persegui-lo. Vemos, portanto, a etapa 1.
Quando diz que é amado, mas não ama, está na etapa 2. Porém, quando fala em alguns
momentos que não ama ninguém, que não precisa de ninguém, vemos seu delírio de grandeza,
sustentado pelo futuro sucesso com a música na etapa 4. A etapa 2 e 3 são muito pertinentes neste
caso. Sobre a megalomania e a projeção, Quinet (2002), baseado em Freud, afirma que o eu
megalomaníaco, aquele que interpreta tudo a partir exclusivamente de seu próprio diapasão, projeta
no outro o que lhe é particular. Se o seu amor lhe parece impossível, então é o outro quem o ama; se
sua fantasia trai seu parceiro, ele tem ciúmes dele e se ele quer brigar, é sempre o outro quem o
odeia.
Raul tinha intensas paixões por mulheres jovens e também por meninas. Disse com alguns
constrangimentos que uma menina que brincava de boneca olhava para ele. Falou que tinha desejo
por ela, mesmo ela tendo no máximo 11 anos de idade, assim como outras mulheres que lhe
olhavam nos lugares que às vezes freqüentava. Ao decorrer de nossas conversas trazia o fato de que
três mulheres o amavam, todavia não queria nenhuma delas.
Quinet (2002) diz que a megalomania na paranóia não exige um delírio de grandeza, mas
sim que o delírio esteja centralizado no eu do sujeito, como um “eu eterno” que nenhuma destruição
é possível. Raul sempre trazia ideias de ser importante e que todas as pessoas que lhe ameaçavam
ou que lhe ignoravam um dia iriam reconhecer e se arrepender quando alcançasse a fama e a
consumação de ser um grande músico. Para Quinet (2002), o delírio do narcisismo absoluto é uma
tentativa de cura, de tapar uma ferida que traz grandes sofrimentos ao sujeito.
Segundo Násio, “a Psicose é uma defesa inadequada e mórbida contra o perigo da lembrança
da castração” (1997, p. 150). Diferentemente do neurótico em que o recalque e o retorno do
recalcado são homogêneos, na psicose a marca da castração foi repudiada ao nível inconsciente,
mas retornou sob a forma de uma alucinação ou delírio. Nestes casos, o repúdio e o retorno são
heterogêneos, sem simbolismo e captado pelo eu sem afeto e estranho.
Raul disse que quando era criança estava no galpão com uma menina e um menino. Esta
menina era seis meses mais nova que ele, tendo 6 ou 7 anos de idade. Possuía desejo de transar com
ela, mas ela lhe rejeitou dizendo que seu pênis era muito grande, ficando ela apenas com seu amigo.
Na foraclusão, o Significante do Nome do pai (metáfora paterna) fica fora, mas in-cluído, em que a
expulsão de uma ideia sexual retorna sobre uma percepção delirante. Raul referia sua experiência de
rejeição com certo descaso, sem nenhum abalo afetivo. É como se tivesse experienciado algo sem
muita importância. É por isso que Násio (1997) diz que o psicótico não conhece a dor da castração,
pois a foraclusão consiste na expulsão para fora do eu da representação inconsciente da castração.
Não é a perda da realidade, mas a construção de uma nova realidade pelo delírio. Raul, ao estar
excitado sexualmente e ao ganhar um não da menininha e ela dizer sim para o outro menininho, se
depara com uma castração que é rejeitada, negando a falta e a consequente entrada no plano
simbólico. Posteriormente, aos 21 anos, quando sua namorada da época encerra o relacionamento,
acontece um desencadeamento de intensos sofrimentos e de sua “doença”.
A construção delirante com a música substituiu essa falta (castração). O galpão, onde
ocorreu este fato, tem uma ligação forte com a cultura gaúcha, já que é muito referido nas canções
gauchescas, bem como são nos galpões dos C.T.G.17 que ocorrem muitos shows tradicionalistas.
Podemos analisar o deslocamento do significante e a questão triangular edípica: a menina, o menino
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Centro de Tradições Gaúchas.
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e ele. O delírio que foi construído era justamente a defesa contra esse sofrimento de castração, tal
como a seguinte frase: “Quando eu ficar famoso ela vai ver o que perdeu”.
Em sua casa seus pais desde a infância lhe batiam muito. Quando tinha cerca de 6 ou 7 anos,
por não saber fazer as tarefas escolares, apanhava de sua mãe com um laço (objeto de tradição
gaúcha). Raul se queixava muito de sua casa, não querendo em muitos momentos falar sobre ela.
Dizia haver muitas mentiras em sua casa, tanto que seu desejo era ficar famoso e ir morar bem
longe.
Podemos inferir que quando Raul estava no final do período da adolescência seu processo de
luto, desencadeado pela rejeição de sua namorada, foi um forte desencadeador de sua manifestação
psicótica. Como seus pais não davam sustentação e Raul apresentava poucos recursos simbólicos
para lidar com grandes angústias, a perda da namorada pode ter reeditado sua castração infantil
anteriormente experienciada.
Alberti (2004) diz que na adolescência é necessário que o sujeito tenha uma referência, o
Significante do Nome-do-pai, pois este barra o gozo do Outro (mãe/função). Quando na ausência
deste, o sujeito fica desprotegido, sem sustentação, podendo cair numa saída narcísica ou
melancólica18. Com Raul, a função paterna era ausente ou muito enfraquecida. A perda da
namorada resultou na carência de referências para se apoiar, o delírio foi uma saída narcísica.
Alberti (2004) diz que o sintoma torna-se um amigo para o sujeito, pois amarra o real, o imaginário
e o simbólico, numa tentativa impossível de fazer o Um com a mãe, buscando algum tipo de
sustentação.
Násio (2001), em referência a Lacan, dizia que o delírio é uma fala necessária que faz
sofrer. A importância de falar sobre o delírio ocorre pela própria inserção no processo linguístico
que ainda pode sustentar imaginariamente alguma referência. Para Raul, nos momentos de
resistências e de não fala de seu delírio, era necessário direcionar a sessão para falar sobre a música,
o que se tornava muito produtivo, pois Raul mudava sua expressão e forma de agir em sessão. Era
necessário para ele “cantar”.
Além disso, vemos que o delírio para Raul foi uma saída para sua angústia de castração.
Neste processo, o delírio com a música vem para dar sentido à falta, ao furo, ao significante Nome
do Pai foracluído e às diversas castrações sofridas e não simbolizadas, tal como explicitado na
seguinte citação:
O delírio vem para dar uma significação à falta de sentido inicial. Para o paranóico, não se
trata apenas de compreender, mas de compreender tudo. O delírio mesmo que pareça ser
uma construção precisa e complexa, continua a ser uma construção imaginária, de
equilíbrio precário: tem sempre que sustentar uma certeza. (Násio, 2001, p. 62)
Em momento de mais resistências e de silêncio, de negação a responder algumas
indagações, quando falava sobre a música, o terapeuta pedia para que Raul o ensinasse a tocar
violão, buscando estar numa posição de não-saber, delegando a ele a posição de saber. O violão
lembrava alguns significados como “mulheres com corpão violão”(sic), “tocar uma música para
conquistar uma mulher”(sic), “o tocar o toque”(sic), dentre outros. É visível a ligação da música
com mulher, ou melhor, o delírio como forma de recuperar, tapar o vazio deixado pelo que foi
perdido, sua namorada, a menina, a mãe.
Pode-se perceber no trecho acima a função do delírio. Násio (2001), baseado em Freud,
18
Segundo Roudinesco, melancolia é um “termo derivado do grego melas (negro) e kholé (bile), utilizado em filosofia,
literatura, medicina, psiquiatria e psicanálise para designar, desde a Antiguidade, uma forma de loucura caracterizada
pelo humor sombrio, isto é, por uma tristeza profunda, um estado depressivo capaz de conduzir ao suicídio, e por
manifestações de medo e desânimo que adquirem ou não o aspecto de um delírio.” (1998, p. 505)
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afirma que não há uma retirada da libido na paranóia, mas o retorno da libido para o próprio eu. Ou
seja, uma fixação narcísica. Raul, ao fixar o delírio e alimentar sua imagem narcísica, constitui a sua
defesa para o significante do Nome do pai foracluído. Entretanto, Nasio (2001) esclarece que a
foraclusão não é apenas correlata ao fracasso de castração, pois não há apenas uma, mas sim
múltiplas castrações num mesmo sujeito, ocasionando foraclusões localizadas e isso fica bem
evidenciado na história subjetiva de Raul.
Sua resistência em ser atendido por analistas do sexo masculino talvez seja por uma questão
que ele viveu e que estava se repetindo transferencialmente. Disse para uma analista que uma vez
no mato estava com um amigo homossexual e que esse pediu para ele baixar as calças e fazer sexo
com ele. Ser atendido por mulheres evitaria se deparar talvez com desejos homoafetivos.
Relata:“Não agüento mais homem me incomodando, já chega os que vou ter que conviver quando
tiver grupo, eu quero psicóloga mulher, acadêmica!” (sic). Em crises dizia palavras referentes a
questões homossexuais por via projetivas, tais como “vai dar o cú” (sic), “você dá o cú para ele e
ele dá para você” (sic), “tu e ele são o macho um do outro” (sic), entre outras expressões de
conteúdo homofóbico.
A homossexualidade scherberiana, observa Freud, é não um investimento de objeto
homossexual nos moldes de escolha de objeto, mas sim, uma paranoização, uma tentativa de manter
a integridade narcísica. Schreber investe outro homem com sua libido porque o encontro com o
Outro sexo destrói toda sua identificação masculina, levando-o ao empuxo-à-Mulher. (Quinet,
2002)
Segundo Násio (2001) no caso clássico de paranóia (Schreber) vemos algo semelhante com
a história de Raul. Schreber teve um pensamento que seria muito bom ser uma mulher submetendose ao coito. O delírio schrebiano é marcado pela perseguição de Deus e pela superestimação de si
mesmo. Schreber tinha uma relação de ódio pela perseguição divina e humilhação, considerando-o
tolo e ridículo, mas também uma relação de adoração por suas virtudes e glórias. A saída do delírio
para Schreber foi para o bem da humanidade, tornando-se mulher (feminidade) de Deus para salvar
a humanidade.
Já Raul aceita ter relações afetivas com homens desde que seja apenas no palco, fazendo
shows futuramente com o grupo, tendo aula de violão com seu professor. Todavia diz preferir ser
atendido por mulheres para evitar pensamentos homossexuais. A mesma relação de amor e ódio de
Schreber, Raul apresenta com os analistas homens, pois em um momento os idolatra e em outros os
rejeita e ataca com projeções como: “Sei que quer me atender porque quer pegar informações,
colher o verde e levar o maduro para o Felipe (terapeuta ocupacional / professor de música)” (sic).
Observamos que o significante “colher/fruta” tem a ver com árvores, mato e se pensarmos na cadeia
associativa estão conectados com o episódio em que um homem pede para baixar as calças dele,
projetando no terapeuta e no seu professor de música à questão homossexual. Com isso, se percebe
também que uma tentativa de manter seu narcisismo primário intacto. “Já chega às relações com
homem que vou ter quando tiver o grupo, chega de homem! Chega de bola!” (sic). Ou seja, homens
apenas em situações “legais” e em momentos de imagem narcísica, como fazer um show e tocar
num baile, assim como Schreber que aceita apenas ser mulher de Deus se for para salvar a
humanidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Quanto às questões pertinentes ao analista na clínica da paranóia, problematizamos quais os
nossos limites no que concerte à ética e ao desejo do analista. É possível e pertinente evitar atuações
e acting out e até que ponto em nossa práxis deve-se ter o objetivo de controle de ações? Sabemos
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que atuações é algo característico na paranóia, mas também sabemos que as atuações na paranóia
podem muitas vezes ser atuações suicidas, como no caso do senhor Y que cortou a garganta com
uma faca e depois deu uma machadada na cabeça.
Quanto às funções e/ou lugares do analista: “O que o esquizofrênico nos pede, não é ser
compreendido, mas ser acolhido na diferença que reivindica” (Checchinato, 1998, p.120). A palavra
chave é acolher, ou seja, fazer uma maternagem, porém até que ponto conseguimos manter essa
postura de acolhimento? E quando deslizamos e cometemos equívocos até mesmo às vezes por
questões transferenciais? E quando o sujeito mesmo em crise pede para que o analista se retire, seria
ético deixá-lo naquela situação? Ou seria ao contrário, antiético não respeitar o desejo do
analisando?
Checchinato (1998) afirma que o analista quando despojado de sua imagem narcísica, com o
silêncio de seus desejos no processo analítico, faz com que o paciente possa atingir um processo de
histerização. Ele indica que o paciente ao passar a dormir e a sonhar é um “bom sinal de melhora”.
O inconsciente voltou a uma estabilização e elaboração normal, não estando mais no funcionamento
psicótico. Entretanto, é possível silenciar nossos desejos em um processo analítico? Não estaríamos
executando função de padres cristãos livres de desejos ou buscando eliminá-los? Penso que
devemos olhar e questionar nosso próprio desejo que está diretamente relacionado à relação
transferencial com o analisando.
Raul esboçou, depois de um tempo, alguns sinais de aparente melhora e tranqüilidade,
sonhando e chorando em quase todas as sessões. Embora às vezes trouxesse desejo de suicídio,
acabou comprando um violão e se dedicando a aulas semanais. Depois disso, parecia mais contente.
O interessante é que às vezes não tinha desejo de tocar e se empenhar na música. Começamos a
suspeitar que talvez ele estivesse começando a questionar seu delírio, embora este ainda fosse muito
importante em sua vida. Posteriormente, depois de sete analistas, desistiu de atendimentos com
homem e preferiu não ser mais atendido por psicólogo. Talvez se trate de alguma resistência ou
fuga de alguma situação como já citado ou então porque realmente cansou de fazer análise e viu que
um processo analítico não lhe daria a plenitude que tanto buscava e que talvez ainda busque com
sua construção delirante.
Além das dificuldades e das particularidades da psicose, o discurso paranóico tem algo
interessante, que é a ideia do analista ficar encantado pela história, em que o analista pela
transferência se encantou tanto pelo delírio do paciente que acabou ficando mais preso na condição
delirante que o próprio paciente.
Será que desejar o sucesso realmente é um delírio? Afinal, o que é um delírio? Pode-se dizer
que existe diferença entre uma condição delirante e uma não delirante, em que a primeira, como já
referido, tem a presença da castração foracluída, ao contrário, da neurose em que o sujeito deseja
algo e por desejar, tem falta presente.
Numa de nossas conversas, Raul disse-me que toma mate desde os 16 anos, época em que
começou a escutar música gaúcha, porém, ultimamente não tem tomado mais porque tem tido dores
de barrigas e menos vontade. Falou que eu poderia ficar tomando mate sozinho. Raul também
começou a voltar suas atenções para a pintura, com objetivo de trabalhar e ganhar dinheiro, não
ficando restrito apenas à música como inicialmente.
Contudo, como diz Quinet (2002), baseado em Lacan, talvez não seja possível um
atendimento na paranóia sem um delírio a dois, devido à transferência psicótica e atração forte do
delírio na paranoia. Como dizia Freud ([1910] /1996), o analista não é o criador da transferência,
mas sim o sujeito que pode desvendar e espelhar seu sentido no espaço analítico. Nesse sentido, no
caso do Raul, é preciso ir ao encontro e entrar na música para saber o sentido de sua melodia.
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A PARANÓIA Paranoid Bruno Rennan Pedroso da SILVA Pedro