2
Comédias
Petrobras
apresenta
Comédias do
bumba meu boi
do Maranhão
Santarém, Pará
Cumbuca Norte
2014
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
3
Projeto Palhaceiros da Graça de Deus
Realização
Cumbuca
Ficha técnica
Coordenação
Alexandre Nazareth da Rocha
Apoio
Superintendência de Cultura Popular/
Secretaria de Estado da Cultura
do Maranhão
Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular
Superintendência do Iphan no Maranhão
Patrocínio
Petrobras
Pesquisa e edição de textos
Wilmara Figueiredo
Luciana Gonçalves de Carvalho
Revisão
Fernanda Silveira
Fotografias
Gavin Andrews, com exceção de:
capa, contracapa e páginas 10, 47, 133, 143, 144 –
Fotos: Zeqroz Neto.
Páginas 148, 170 – Fotos: Éder Blues
Ilustração
Estúdio Primeiro Pedaço
Design gráfico
Claudia Duarte (Avellar & Duarte)
Realização
Apoio
Cumbuca
Patrocínio
Superintendência no
Maranhão
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
5
C732 Comédias do bumba meu boi do Maranhão / Coordenação de Alexandre
Nazareth da Rocha, pesquisa e edição de Wilmara Figueiredo e
Luciana Gonçalves de Carvalho, ilustração de Estúdio Primeiro
Pedaço. – Santarém: Cumbuca, 2014.
182 p.; il. color.
ISBN 978-85-68239-01-8
1. Bumba meu boi – Maranhão. 2. Cultura popular – Maranhão.
3. Narrativas. I. Rocha, Alexandre Nazareth, coord. II. Figueiredo,
Wilmara. III. Carvalho, Luciana Gonçalves. IV. Título.
CDD – 398.098121
Página 5
Detalhe de couro de boi.
Capa e contracapa
Página 10
Detalhe de couro de boi.
Detalhe de chapéu de fitas.
Segunda capa
Página 128
Miçangas e canutilhos
para bordados.
Lourenço “Pinto”
encarnando o “papagaio”.
Terceira capa
Página 176
Detalhe de couro de boi.
Armação de boi.
Página 1
Página 184
Detalhe de couro de boi.
Detalhe de couro de boi.
Sumário
Apresentação................................................................................................................................. 11
Palhaçadas para São João............................................................................................................. 15
Comédias ...................................................................................................................................... 49
O macaco ................................................................................................................................ 51
Carneiro ou jumento ............................................................................................................. 53
O baile da bicharada .............................................................................................................. 54
O burro do fazendeiro ........................................................................................................... 56
Veado comedor de roça ......................................................................................................... 58
A onça ..................................................................................................................................... 61
A cobra .................................................................................................................................... 62
Criação de jabuti .................................................................................................................... 64
Troíra ....................................................................................................................................... 65
O jacaré macho ....................................................................................................................... 66
A jia encantada ....................................................................................................................... 68
O boi visagento ...................................................................................................................... 70
O feiticeiro montador ............................................................................................................ 73
A alma na fazenda .................................................................................................................. 74
Medroso metido a corajoso ................................................................................................... 75
O vigia do morto.................................................................................................................... 78
O defunto e o besouro ........................................................................................................... 80
Nós-Tudo ................................................................................................................................ 81
A velha jumenta ..................................................................................................................... 82
O sequestro da velha .............................................................................................................. 86
A mulher na festa ................................................................................................................... 88
O casamento ........................................................................................................................... 89
A troca de mulheres ............................................................................................................... 91
Panada de facão ...................................................................................................................... 93
Santo amante .......................................................................................................................... 94
Olhinhos acesos ..................................................................................................................... 96
O vendedor de caranguejo .................................................................................................. 100
O menino órfão .................................................................................................................... 103
Miruíra .................................................................................................................................. 105
Abi ......................................................................................................................................... 108
Cururuca ............................................................................................................................... 110
O negociante ladrão ............................................................................................................. 112
O bêbado e o dentista .......................................................................................................... 115
O caçador .............................................................................................................................. 116
Vendedora boa ...................................................................................................................... 117
Culhote .................................................................................................................................. 119
Médico do mato ................................................................................................................... 121
O retrato da velha ................................................................................................................ 122
Lição para o senador ........................................................................................................... 124
Palhaços do boi .......................................................................................................................... 129
Antônio Vieira ...................................................................................................................... 130
Arcângelo Reis ..................................................................................................................... 132
Arlindo Trindade ................................................................................................................. 136
Carlos Augusto dos Santos ................................................................................................. 138
Clemente Felício Martins ................................................................................................... 140
Diomedes Rodrigues dos Santos ....................................................................................... 142
Eleutério Silva ...................................................................................................................... 144
Herbert Mafra Reis............................................................................................................... 147
João Vieira............................................................................................................................. 151
José Augusto Araújo ............................................................................................................ 153
Lourenço Soares .................................................................................................................. 155
Raimundo Leal .................................................................................................................... 158
Roberval Silva ...................................................................................................................... 162
Rogério Fernandes .............................................................................................................. 166
Valdemar Piedade Pereira ................................................................................................... 169
Valter Silva ............................................................................................................................ 172
Glossário ..................................................................................................................................... 177
10
Comédias
U
m dos aspectos que mais valorizamos nos projetos que patrocinamos é a oportunidade
de fazer com que cada vez mais brasileiros de regiões distantes dos grandes centros
possam conhecer a arte produzida em todo o país. No caso dos Palhaceiros da Graça de
Deus, o resultado de todo o trabalho será valorizado na própria região e poderá ser conhecido por moradores de outras regiões do Brasil.
É exatamente o que buscamos atingir nos nossos patrocínios. O resgate das tradições, a sua
manutenção e a possibilidade de levar o conhecimento e a arte à frente, atraindo o público e
fortalecendo a cadeia produtiva. O valor cultural e de patrimônio tão caros aos participantes
poderá ser percebido por quem tiver em mãos o material que receber ao fim deste projeto.
Pesquisadores, estudantes e qualquer apreciador de arte poderão conhecer as atividades
do bumba meu boi com registros que dão visibilidade a criações tão importantes para a
tradição maranhense. Patrocinando projetos assim, almejamos alcançar a mais ampla diversidade étnica, regional e cultural.
Prezamos as atividades que incentivem o debate, a discussão, o estudo em busca do resgate
de tudo o que já foi feito de positivo e do que pode ser criado, do que pode surgir de novo
em toda forma de arte.
Articulado com as políticas públicas para o setor e focado na afirmação da identidade brasileira, acreditamos que o Petrobras Cultural contribui para a ampliação das oportunidades
de criação, circulação e fruição dos bens culturais.
Em nove edições da nossa seleção pública – este projeto foi contemplado na edição 2012
– já destinamos mais de R$ 380 milhões para 1.448 projetos em todas as regiões do país.
Pretendemos, dessa forma, abordar a cultura brasileira em suas diferentes manifestações.
Palhaçadas para São João
Luciana Gonçalves de Carvalho
O
projeto Palhaceiros da Graça de Deus está voltado para a salvaguarda das tradições
cômicas do bumba meu boi do Maranhão, celebração que, em 2012, foi reconheci-
da como patrimônio cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (Iphan). Realizado junto a brincantes e ex-brincantes de grupos de bumba-boi
do sotaque de zabumba1 na região de Guimarães e em São Luís, o projeto vem documentando narrativas designadas como matanças, comédias ou palhaçadas, que são, recorrentemente, associadas ao chamado “auto do boi”.
Esse auto, que aparece como um único ciclo mítico disseminado sob diversas rubricas da
tradição oral e escrita no Brasil (CAVALCANTI, 2006), relata o drama vivido pelo casal Pai
Francisco e Mãe Catirina a partir do momento que ela, grávida, passa a desejar comer a língua ou o fígado do boi mais precioso e querido do dono da fazenda onde ambos trabalham.
O casal, normalmente representado como negros escravizados ou lavradores, atravessa uma
série de contratempos provocados pelo insensato desejo da mulher, que acaba resultando
na morte ou no roubo do boi e, em consequência, na prisão e punição de Pai Francisco.
Obrigado a pagar ou a ressuscitar o boi do fazendeiro, o homem se desespera e pede socorro
1
O bumba meu boi maranhense
apresenta-se em diferentes
modalidades, sugestivamente
designadas sotaques, às quais
correspondem estilos rítmicos
e musicais, assim como
personagens, indumentárias,
formas de organização social,
padrões coreográficos e territórios
específicos. Convencionalmente,
os bois classificam-se nos sotaques
de zabumba ou de Guimarães, de
matraca ou da Ilha, de pandeirões
ou de Pindaré ou da Baixada, de
costa-de-mão ou de Cururupu, e,
finalmente, de orquestra. Embora
essas classificações sejam acionadas
efetiva e recorrentemente como
sinais diacríticos pelos grupos,
orientando inclusive políticas
públicas diferenciadas conforme
o sotaque, ainda assim não podem
cobrir toda a diversidade dos bois
do estado, havendo bois que não
se enquadram bem num ou noutro
sotaque, permanecendo, de certa
forma, inclassificáveis.
a doutores e pajés, até que consegue reparar a perda e recuperar a liberdade depois de protagonizar muitas estripulias que dão à tragédia do casal um franco apelo cômico.
Nas centenas de bois existentes no Maranhão, esse relato mítico assume os mais diferentes contornos. Não há, hoje, e nem parece ter havido em outros tempos, homoge-
16
Palhaçadas para São João
Carro de boi.
Página 14
Zona rural de
Mirinzal.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
17
neidade nas narrativas que são representadas nas brincadeiras. Por um lado, variam as
versões da trama, assim como ela se articula ou dá lugar a outros dramas que também
são trazidos à cena. Por outro lado, inúmeros grupos nem sequer fazem alusão ao enredo ou a seus personagens, ou apenas os caracterizam muito timidamente com máscaras, roupas velhas e barrigão. Muito embora estudos importantes sustentem que há
uma centralidade do “auto do boi” como núcleo agregador de sentidos do bumba meu
boi, o que se observa nos bois do Maranhão é uma verdadeira profusão de referências
simbólicas em um universo narrativo e performático que extrapola as categorias de
classificação e análise com que, de fora, se tem regularmente observado as práticas
cômicas da brincadeira.
Nesse contexto, a opção por abordar o tema a partir das categorias nativas (matanças,
comédias, palhaçadas) atribuídas às representações cômicas do boi pelos sujeitos que
as criam e encenam – autodenominados palhaços ou palhaceiros – vai ao encontro da
proposta do projeto de documentar, difundir e valorizar as tradições orais e dramáticas
do bumba meu boi, focando-as do ponto de vista de seus realizadores. Acompanhando o
brincante Herberth Mafra Reis, que uma vez declarou ironicamente que “auto [alto] é
o céu, que Deus está lá” e “auto que eu conheço é um edifício bem alto”, o projeto toma
como ponto de partida a polifonia e a multivocalidade do universo expressivo das perPraia do
Outeiro, Cedral.
formances do interior do estado, que, com frequência, são subvalorizadas em relação aos
modelos festivos que atualmente prevalecem em São Luís.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
19
O objetivo, ao registrar narrativas relatadas e encenadas por brincantes residentes ou
naturais do interior do estado é a salvaguarda de modos tradicionais de pensar, narrar,
rir, festejar e, enfim, de “brincar boi”, que são próprios dos moradores de zonas rurais
e que vêm, a cada ano, perdendo espaço para formas mais “modernas” de realizar a
celebração. As localidades de atuação do projeto – Guimarães, Mirinzal, Cedral, Porto
Rico, Central do Maranhão, Cururupu e Santa Helena2 – situam-se ao norte da Baixada
Ocidental Maranhense, e correspondem à área cultural reconhecida como “a raiz” do
sotaque de zabumba, o qual, por sua vez, é o mais apegado às tradições cômicas do boi,
na visão local.
As histórias que tem são porque nós, que somos do interior, cultivamos no nosso
2
Guimarães é o município mais
antigo entre os mencionados, do
qual se emanciparam Cururupu,
Mirinzal, que mais tarde deu
origem a Central do Maranhão, e
Cedral, de onde se desmembrou
Porto Rico. O município de Santa
Helena também foi anexado a
Guimarães e, depois, a Pinheiro,
antes de sua emancipação.
Guimarães está a cerca de 50
km de distância de São Luís,
em linha reta, mas esse valor
aumenta para pouco mais de
400 km considerando-se as rotas
rodoviárias. O percurso pode ser
feito por terra ou por terra e mar,
atravessando-se a Baía de São
Marcos em ferry boat.
grupo. É uma comédia, como uma quadrilha. Quadrilha é uma dança normal, mas,
quando chega o momento da representação, tem o casamento. Aquele casamento
tem várias histórias; tem graça, o povo ri. Assim, nós continuamos com a comédia
no bumba meu boi. Mas o nosso não é casamento, porque é bumba-boi. Nós temos a
Catirina, que está grávida e fala que está desejando a língua do boi. Aquele boi lindo
que está no cordão, brincando! Eu não vou chegar lá e cortar a língua de um boi lin-
À direita, alto
do daquele só para matar o desejo dela. Então, dentro daquela história, o tempo vai
Peixaria em
Cururupu.
se passando e a gente termina a comédia e ela nunca termina o desejo. Esse desejo
fica e todo ano nós cultivamos esse desejo dela (entrevista concedida por Eleutério
Silva, em São Luís, em 19 de março de 2014).
20
À esquerda
Detalhe da cidade
de Central do
Maranhão.
Palhaçadas para São João
À direita, baixo
Praça em Santa
Helena.
22
Palhaçadas para São João
3
Trata-se de uma região de relevo
plano, próxima às reentrâncias do
litoral norte do Maranhão, servida
por abundantes lagos inundáveis
nos períodos de inverno.
De acordo com teorias nativas, supõe-se que na região de Guimarães estariam localizadas
as origens históricas e as matrizes culturais não só do sotaque de zabumba, mas do próprio
bumba meu boi maranhense. A brincadeira, em sua concepção mais difundida no estado,
teria sido criada por negros escravizados nessa região, em eventual colaboração com indígenas. E a formação do sotaque de zabumba, segundo memórias registradas por pesquisadores, dataria da década de 1860, quando
Gregório Malheiros, no povoado denominado Jacarequara (que fazia parte, à época, do
município de Guimarães), resolveu substituir esses pandeiros grandes por zabumbas e
tambores-de-fogo. E enfim, Damásio, já com os instrumentos novos, criou o ritmo de
Guimarães, o qual foi, depois, gerando outras variações (AZEVEDO NETO, 1997, p. 34).
Embora os bois de zabumba ainda sejam uma referência cultural da população local, formada na maior parte por lavradores e pescadores concentrados nas zonas rurais e lacustres,3
observa-se, hoje em dia, a desvalorização de suas formas expressivas mais tradicionais na região, que vem experimentando alterações significativas nos modos de celebrar o bumba-boi.
Notam-se, no bojo desse processo, transformações semelhantes às ocorridas, nas últimas décadas, nos bois da capital, que incluem desde o desenvolvimento de novos padrões espaciais,
temporais e estéticos de realização da brincadeira até a substituição de modelos tradicionais
de organização, com base em relações de vizinhança, parentesco, afinidade e compadrio, pela
Casario em
Guimarães.
constituição jurídica dos grupos na forma de associações ou sociedades beneficentes (AZEVEDO NETO, 1997; CARVALHO, 1995; CARVALHO, 2011; MARQUES, 1999).
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
23
Essas mudanças estão intimamente ligadas à transformação do bumba meu boi em um espetáculo folclórico de grandes proporções, que passou a se constituir em atração para maranhenses e turistas, relativamente independente do universo místico-religioso em que a
brincadeira tradicionalmente era feita como pagamento de promessas e prova de devoção
a São João Batista. Segundo a tradição secular, que muitos atribuem aos antigos escravos,
o bumba meu boi nasceu como uma celebração em homenagem ao santo que batizou Jesus Cristo. A comédia, por sua vez, tematizando fatos relativos ao contexto da promessa
feita pelo devoto responsável pela brincadeira, constituiria um testemunho da intervenção
de São João. Nessa visão mais tradicional do boi, a função dos palhaceiros estaria, portanto, duplamente fundada na noção de graça: no sentido de fazer rir e de dar testemunho da
dádiva divina.
Brincar boi, até hoje, constitui para alguns devotos um modo de louvar o santo e agradecer
por pedidos e promessas atendidas. Embora essa prática, muito significativa no passado,
venha se tornando cada vez menos usual, muitos integrantes e donos de boi no Maranhão
ainda mantêm a brincadeira em função de compromissos assumidos com São João e/ou,
eventualmente, outras entidades, como santos católicos, principalmente os festejados no
período junino, a exemplo de Antônio, Pedro e Marçal. Também estão incluídos caboclos
do tambor de mina, uma religião que é bastante difundida no estado. Assim, ainda há promesseiros que “dão” ou “fazem” o “boi de promessa”, isto é, arcam com os custos de realização da brincadeira em pagamento por graças recebidas. No entanto, a maioria dos bois
24
Palhaçadas para São João
atualmente sobrevive com recursos públicos e privados destinados à cultura, pagos aos grupos na forma de cachês e patrocínios, além dos investimentos feitos pelos próprios donos.
Nesse tempo a brincadeira era promessial. A gente só fazia um boi na promessa, aí
tinha de ter aqueles assuntos para a gente poder crescer. E agora não, é comercial,
tudo no comércio. Nesse tempo, não. Se eu fizesse um boi aqui em Santa Maria, é
porque eu tinha uma promessa de fazer um boi, aí eu dava aquele boi, a pessoa fazia
gosto de brincar. Assim é que era. E agora não, está do mesmo estilo de São Luís (entrevista concedida por José Carlos Vieira, em Santa Maria dos Vieiras, Guimarães,
em 28 de fevereiro de 2014).
Os fluxos de indivíduos favorecidos pela participação no bumba-boi e em outras brincadeiras populares intensificam-se a cada período junino, e, com eles, aceleram-se também as
trocas culturais entre diferentes grupos sociais. Dessa forma, o circuito dos bois de zabumba
pressupõe um intercâmbio constante entre moradores das zonas rurais e urbanas, que nem
sempre é avaliado de forma positiva pelos primeiros. Há um intenso trânsito de brincantes
residentes em uma série de povoados rurais (muitos dos quais são atualmente reivindicados
por comunidades remanescentes de quilombos) em direção às sedes municipais do interior.
Com frequência, esse circuito se expande e alcança também São Luís, já que muitos donos
de bois estabelecidos nessa cidade, que são naturais do interior, convidam parentes e amigos
para brincar em seus grupos em determinadas datas do período junino.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
25
Aqui quem botava o bumba-boi, que vinha sempre, era esse povo mais velho. O Leonardo4 deu continuidade em São Luís e chamava o pessoal daqui para brincar. Acho
que deve ter umas trinta a quarenta pessoas que brincam, são daqui e brincam lá em
São Luís. Brincam em São Luís com ele, depois ele vem para cá e eles brincam aqui.
Aí, ficou essa tradição (entrevista concedida por Célia Reis, em Santa Maria dos Vieiras, Guimarães, em 28 de fevereiro de 2014).
Com efeito, os bois do sotaque de zabumba mantêm uma considerável unidade simbólica
no interior e na capital, formando verdadeiramente uma rede, e continuam se afirmando
como aqueles que mais prezam as práticas cômicas da brincadeira. Embora as matanças
tenham mais importância no interior e tenham praticamente desaparecido em São Luís
(onde restam algumas rápidas representações do “auto”, quando solicitadas e remuneradas
pelos órgãos públicos de cultura), até mesmo aí se reconhece nos brincantes desse sotaque
competências especiais para atualizarem as performances que culminam no atentado ao
boi. É nos bois de zabumba, portanto, que os autores e atores cômicos ganham papéis de
destaque, surpreendendo inclusive os bois de outros sotaques.
O sotaque de zabumba é muito bonito porque eles montam comédias, têm especialistas em montar comédias. E o boi de matraca segue a tradição, não expande, nunca teve a criatividade de montar comédias. Ele faz tudo aquilo que
sempre vem fazendo desde o início. Só que no boi de zabumba, eles fazem coisas
26
Palhaçadas para São João
4
Leonardo Martins Santos,
finado dono do Boi da Liberdade,
considerado um dos mais
tradicionais de São Luís.
Zabumba.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
27
engraçadíssimas mesmo (entrevista concedida por Humberto Barbosa Mendes ao
INRC do Bumba Meu Boi do Maranhão apud CARVALHO, 2009, p. 121).
Esses “especialistas em montar comédias” são os palhaços ou palhaceiros, também chamados chefes da matança ou da palhaçada, ou, ainda, Pais Franciscos e Mães Catirinas.
Eles são os personagens a quem cabe efetivamente a autoria e a encenação das matanças,
mesmo que outros brincantes desempenhem papéis importantes, como é o caso dos cabeceiras ou cantadores e os vaqueiros, com os quais os palhaços encetam diálogos estruturantes nas histórias encenadas.
O primeiro interlocutor do palhaço é o vaqueiro, é ele que vem atender ao palhaço. O
vaqueiro é quem fala com o fazendeiro, diz o nome de quem quer falar com ele e apresenta os dois. Depois disso é que os palhaços vão negociar com o fazendeiro, que expõe
a desculpa dele, e o palhaço, a dele, para ver se fecham o negócio. Enfim, o interesse
da gente é a jogada de conversa com aquelas piadinhas para fazer o povo rir. O tema
é aleatório. São proposições inventadas, por isso a gente tem uma porção de enredos,
À esquerda
uma porção de ideias (entrevista concedida por Valdemar Piedade Pereira, em São
Lourenço “Pinto”
com “esqueleto”.
Luís, em 14 de março de 2014).
À direita
Arlindo Trindade
com máscara.
As comédias propriamente ditas sempre começam depois de o cabeceira cantar sucessivas toadas, que são acompanhadas pelo coro de brincantes. Essas toadas obedecem a uma
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
29
ordem que alinhava todas as etapas da brincadeira: o “guarnicê” (de guarnecer) é uma
espécie de convocação para os brincantes se prepararem e afinarem seus instrumentos; a
“reunida” arregimenta o grupo para começar a brincadeira; o “lá vai” anuncia o cortejo de
brincantes que, rapidamente, toma conta do espaço em fileiras ordenadas; a “licença” ou o
“boa-noite” é um cumprimento aos anfitriões e espectadores da brincadeira; o “traz-o-boi”
manda o vaqueiro trazer a prenda da fazenda; o “chegou” anuncia a entrada do próprio em
cena. A partir do “lá vai” os palhaços podem entrar em ação.
Tem as horas certas de matança, tem a hora de fazer. Por exemplo, tem a reunida na
fogueira, tem a levagem do boi, para levar na porta. Não é propriamente na porta, chama lá e reúne. É uma chamada. E canta duas toadas que vai fazer a matança, para dar
a continuação e fazer. São umas toadas de aviso de matança, de fazer matança, roubar
boi, palhaçada (entrevista concedida por José Augusto Araújo, em Central do Maranhão, em 2 de março de 2014, grifo nosso).
As performances são elaboradas a partir de fatos observados no cotidiano, notícias transmitidas pelo rádio e pela televisão, sonhos ou inspirações de caráter místico-religioso, incluindo-se nessa classe os motivos de promessas feitas por brincantes do grupo ou pessoas de seu
relacionamento próximo. As tramas desdobram-se em vários assuntos: relações de trabalho,
direito a terra, doença, morte, hierarquia, relações de afinidade e parentesco, traição, engodo. Nelas, a perda do precioso animal – por morte, roubo ou dano – revela-se como uma
30
Palhaçadas para São João
5
Personagens que cantam e
dançam no círculo formado
pela brincadeira.
ideia recorrente a organizar as performances dos bois, constituindo-se como desfecho das
mais diversas sequências cômicas, quase sempre deflagradas pela expressão não controlada
do desejo humano. Nesse sentido, apesar da variedade temática das histórias, elas invariavelmente culminam num ato dramático chamado “meia-lua”, marcado por uma toada correspondente ao momento de perda, roubo ou morte do boi, ao qual se segue a restituição do
animal à fazenda simbólica delimitada pelas fileiras de vaqueiros e rajados de fitas.5
Em toda matança a finalidade é roubar o boi. Daí que surgem as histórias em que o boi é a
vítima. A história da Catirina é porque a mulher grávida quer comer a língua do boi. Mas
nós inventamos outras também. Somos ladrões negociantes que querem negociar o que
não têm com aquilo que você tem. Você que tem muito e eu não tenho nada, eu vou buscar
alguma coisa que você tem. Essa é a graça da matança. É acusação. Quando não se quer
devolver o boi roubado, aparece o gato maracajá, a onça para devorar o cara, os índios para
bater. Tudo isso é para pressionar o sujeito a pagar o boi que tinha sido levado. Mas o ladrão
oferece um jabuti, um tatu e faz aquela comédia doida (entrevista concedida por Valdemar
Piedade Pereira, em São Luís, em 14 de março de 2014).
Os personagens assumidos nas matanças são os mais variados e representam homens, mulheres, animais, visagens, santos, bichos encantados, entre outros. Para representá-los, os
palhaceiros lançam mão de expedientes como roupas, máscaras e acessórios (bolsas, espingardas de pau, colares etc.) relativamente simples, mas também de bonecos bem elaborados,
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
31
que são inventados exclusivamente para compor os enredos. Produzidos pelos próprios palhaços ou artesãos especializados, esses apetrechos levam materiais simples e retirados das
matas do interior: por exemplo, madeira de jeniparana, fibra de buriti, saco de cimento,
papelão, jornal, cola, tinta, plástico, náilon e tecidos.
Geralmente, as matanças mais elaboradas e com maior número de personagens são feitas
no âmbito das “brincadas”, eventos nos quais o ato de “brincar boi” se caracteriza pelo
tom familiar dos contatos entre os brincantes e entre eles e o seu público, que participa ativamente da ocasião, interagindo com os palhaços e prestigiando as encenações preferidas.
Trata-se, em regra, de um público que, em seu cotidiano, dispõe de poucas opções de lazer
e que tem – ou tinha, no caso dos mais idosos – nas festas juninas sua principal diversão.
Era muita gente. Em Pinheiro, era na casa de senhor José Raimundo. Lá era tudo em
um círculo, mas a assistência toda assistia. A arquibancada era todo mundo sentado. A
gente brincava muito. Em um ano, nós brincamos boi em Mojó e fomos para Pinheiro. Nós começamos a brincar no dia 22, no Mojó; 23 nós brincamos em Bequimão;
24 nós brincamos nas Três Marias. De lá fomos para Pinheiro e de lá para a Ilha de
À esquerda
Boi.
À direita
Burrinha.
Fora. Fomos e brincamos na Santa Helena, de lá para Centrinho, em cima de Santa
Helena, quem vai para Machadinho. Do Centrinho fomos para Guariramã e de lá para
o Abaixadinho. Brincamos duas noites. Brincamos em um lugar que tem para lá do
Guariramã, já no Pará. Lá, nós pegamos lancha às sete horas da manhã e chegamos
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
33
sete da noite em Santa Helena. Depois viemos por Juçaral, município de Perimirim.
Chegamos uma hora da madrugada em Juçaral. No outro dia, fomos para a Vila do
Meio, no Mojó, onde era a brincadeira. Brincamos lá e de manhã viemos embora.
Vinte e dois dias direto (entrevista concedida por Arcângelo Reis, em São Luís, em 18
de março de 2014).
As “brincadas”, normalmente, ocorrem na zona rural, em frente à casa de algum conhecido, ou em praça pública, na área urbana, fugindo ao modelo festivo demarcado pelo
espaço do arraial. Elas são bastante livres e, em função do local, podem se estender por
até mais de oito horas, do início da noite até a manhã seguinte, durante as quais se representam de uma a três tramas para públicos essencialmente compostos por familiares,
amigos e vizinhos.
Uma boa matança passa uma hora de relógio. Para fazê-la, a primeira coisa que você vai
fazer é ensaiar com o grupo, porque o cabeceira vai fazer a toada em cima do que o chefe
da matança for apresentar pra ele. Por exemplo:
PALHAÇO: Meu irmão, nós vamos fazer uma matança.
CABECEIRA: Que enredo?
PALHAÇO: Rapaz, eu vou vender um carro. Vou ser vendedor de carro.
CABECEIRA: O que tu vais chegar a apresentar?
PALHAÇO: Eu vou apresentar o carro.
34
Palhaçadas para São João
Depois vamos combinar os nomes dos personagens etc. A ideia que eu quiser dizer, eu
digo. E ele também se manifesta para fazer a toada em cima do meu nome. Assim começa
a brincadeira (entrevista concedida por Valdemar Piedade Pereira, em São Luís, em 14 de
março de 2014, grifo nosso).
Nesse aspecto, as “brincadas” se distinguem marcadamente das “apresentações”, categoria
que corresponde às exibições realizadas nos arraiais juninos montados nas principais praças das cidades do interior, que já seguem o mesmo modelo que se consolidou em São Luís
após os anos 1970, quando as festas de junho começaram a se descentralizar, espalhando-se
por vários bairros da capital. Os arraiais são espaços montados para apresentação das brincadeiras juninas, entre as quais o bumba meu boi. Em geral, compõem-se de um palco ou
uma área delimitada para exibição dos grupos e são rodeados de barraquinhas que vendem
bebidas e comidas típicas. Os espectadores, quando não estão consumindo algo nessas
barraquinhas, aglomeram-se em volta dos brincantes durante as apresentações, principalmente das atrações mais concorridas, feitas pelos grupos mais famosos da região e, especialmente, da capital.
Nos arraiais, os brincantes interagem com comerciantes e políticos locais, desconhecidos,
eventuais turistas e pesquisadores, entre outros agentes externos a seu círculo próximo de
relações. Sujeitas a regras dispostas por contratos firmados pelo grupo com indivíduos ou
instituições pagantes, as “apresentações” feitas em arraiais têm duração limitada a períodos
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
35
curtos, raramente ultrapassando uma hora de duração, nos quais se desenvolve, quando muito, um formato mais compacto de matança que desagrada à maioria dos palhaços.
Ainda assim, há quem defenda o aproveitamento do tempo curto para a representação de
alguma comédia, para não “perder a tradição”.
É só uma hora, certo. Mas, dentro de uma hora, você faz muita coisa! Eles cantam o
“lá vai”; às vezes a gente também de sem-vergonha fica bebendo uma cerveja, larga eles
uivando lá na porta... É quatro, cinco toadas e quando a gente chega, eles já estão zangados! Mas é porque é o sistema daqui! Mas, se você vai a São Luís, que é só uma hora,
quando canta o “lá vai” você já vai preparadinho. Dentro de uma hora você apresenta!
Se começasse a apresentar isso, estava lá em São Luís, isso! Hoje, todo mundo iria!
Seria o mesmo que o reggae hoje. Eu fico imaginando como o reggae tomou conta do
Maranhão. Me lembro que, quando começaram a sair as primeiras músicas de reggae,
ninguém queria. Botava em uma festa e o salão esvaziava. Hoje, se não tiver reggae, a
festa não presta! No Maranhão todo é reggae! E assim seria com a matança. O pessoal
de São Luís não ia gostar de início. Tem muitas coisas que a gente começa, mas, até
ela evoluir, precisa de tempo. Mas, depois, o povo ia apoiar (entrevista concedida por
Carlos Augusto dos Santos, em Mirinzal, em 3 de março de 2014, grifo nosso).
Os atuais modelos festivos do bumba meu boi do Maranhão incorporaram uma série de mudanças ocorridas nas últimas gerações, as quais vêm afetando sobremaneira as práticas cômi-
36
Palhaçadas para São João
Praça de
Eventos de
Mirinzal.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
37
cas da brincadeira, assim como a seus realizadores, tendo em vista a dificuldade de adaptação
às “apresentações” consideradas rápidas demais, em arraiais frequentados por pessoas estranhas ao universo mais próximo dos cômicos, que não são capazes de entender as suas piadas.
No ano retrasado teve um boi ali em Cururupu, dos velhões. Nesse ano eu me assanhei para ir. Até sonhei brincando boi! Aí eu disse para o Valter: olha, compadre,
nós vamos para Cururupu. Nós vamos para lá! Ele se empolgou, atentou, atentou e
nós fomos. Meu Deus do céu! Quando chegou lá, só tinha os velhões. Todos cansados. Coitados, sem força! No Dia dos Pais fizemos uma apresentação, tinha umas
dez pessoas na porta. Fazer papel de besta, já está bom! Eu vou fazer o quê? Senhor,
tudo quanto é brincadeira, você só tem atração para você trabalhar se você tiver o
calor! Quanto mais você tem o calor do público, mais lhe dá a vontade para você trabalhar! Mas já não tem! Eu chamei os companheiros e disse: olha, se vocês querem
continuar bestando, ficam aí, que eu de bestar já está bom! Aquilo que eu fazia de
graça, de primeiro, para os outros rirem, hoje eles já estão rindo da minha cara! E eu
vou largar (entrevista concedida por Carlos Augusto dos Santos, em Mirinzal, em 3
de março de 2014, grifo nosso).
Apesar dos esforços de alguns brincantes, as tradições cômicas focadas aqui são percebidas
por seus executores e pelas pessoas mais próximas a eles como estando em vias de se perder,
correspondendo cada vez mais a uma referência do passado que deixou saudades.
38
Palhaçadas para São João
Sede do Bumba
Meu Boi da Vila
Ivar Saldanha,
em São Luís.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
39
No início dos anos 2000, por ocasião de uma longa pesquisa de campo realizada nos municípios de Mirinzal, Cedral, Porto Rico, Guimarães, Cururupu e Central do Maranhão,
tendo em vista a elaboração de uma tese sobre as comédias do boi do Maranhão (CARVALHO, 2005), foi registrado um conjunto significativo de histórias criadas por palhaceiros
dessa região. Grande parte desse conjunto, correspondente a algumas dezenas de horas de
entrevistas, “brincadas” e “apresentações” gravadas, foi integrada ao Inventário Nacional
de Referências Culturais (INRC) do bumba meu boi, que, à época, estava sendo iniciado
pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP) e que, mais tarde, embasou
os trabalhos da Superintendência do Iphan no Maranhão para o registro da celebração,
cuja documentação atenta para a importância e o progressivo desuso das matanças no contexto da brincadeira.
Passados pouco mais de dez anos da abertura do INRC, o projeto Palhaceiros da Graça
de Deus revisitou sujeitos que participaram do trabalho de campo anterior e buscou
outros que informassem a respeito das comédias do boi na região de Guimarães e em
São Luís. Ao todo, cerca de 30 pessoas foram entrevistadas, na maioria palhaceiros e
ex-palhaceiros de bumba meu boi. Narraram relatos de vida e histórias que dramatizaram em matanças de bois no interior e na capital. O cenário encontrado em 2014
reacende as já conhecidas preocupações sobre os rumos que as tradições cômicas da
brincadeira vêm tomando desde sua folclorização e turistificação, operadas, sobretudo,
a partir dos anos 1970.
40
Palhaçadas para São João
Percebe-se que, no decorrer desses anos, os bois de zabumba da região de Guimarães, mesmo onde eles constituíam a referência mais tradicional em bumba meu boi, estão perdendo
espaço para grupos do sotaque de orquestra – principalmente, vindos da capital –, que têm
sido considerados mais bonitos e vêm atraindo público mais numeroso nos últimos anos,
levando, também, os melhores cachês das administrações municipais. Dos palhaceiros
identificados no início dos 2000, já com idade avançada, alguns morreram e outros estão
perecendo com problemas de saúde decorrentes do próprio envelhecimento e enfraquecimento biológico. A maioria deixou de brincar boi, sem que tenha havido a transmissão ou
a reprodução das tradições cômicas que cultivaram durante tanto tempo, por falta de quem
se interessasse por elas.
Enquanto isso, na capital, políticas públicas de cultura promovem ações que
insistentemente visam ao “resgate” da versão mais conhecida do “auto do boi”, suposta
tradição originária que precisa ser recuperada, num contexto de desuso crescente. A continuidade do bumba meu boi do Maranhão não está, por assim dizer, ameaçada, embora
os proprietários e organizadores de bois do sotaque de zabumba se queixem de receber
menos atenção e recursos que grupos de outros sotaques de maior visibilidade no estado,
a exemplo dos bois de matraca e de orquestra. Mas, nas distinções internas dos modos de
celebrar o boi, projetam-se sérios desafios para a continuidade das expressões cômicas da
brincadeira, articuladas a concepções, crenças e costumes que frequentemente se confrontam com modelos dominantes no contexto atual.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
41
42
Palhaçadas para São João
A minha paixão é a gente ainda sentar cabeceira, vaqueiro, zabumbeiro, palhaço. Tenho, tenho muitas saudades mesmo! A gente sempre tem que fazer aquilo que a gente
gosta, uma coisa importante é a gente fazer o que sempre gostou de fazer. Acho que a
gente cresce, mas, se a gente está numa idade como essa que eu estou, parece que eu
pego outra aparência, parece que eu nasço de novo. Tem que ver, se passar o São João
aqui. Eu não durmo, eu não largo a brincadeira (entrevista concedida por Diomedes
Rodrigues dos Santos, em São Luís, em 26 de março de 2014, grifo nosso).
Focando a multivocalidade e a polifonia das matanças, comédias e palhaçadas dos bois de
zabumba, na rede que liga a região de Guimarães a São Luís, este livro procura favorecer
a difusão das práticas cômicas do boi por meio de registros mais duradouros, tornando-as
mais conhecidas e valorizadas no universo da academia, da política pública e da própria
brincadeira. O livro divide-se em duas partes cujos conteúdos foram registrados no âmbito de entrevistas abertas realizadas durante 30 dias de trabalho de campo em Guimarães,
Mirinzal, Cedral, Porto Rico, Central do Maranhão, Cururupu, Santa Helena e São Luís,
entre os meses de fevereiro e março de 2014.
A primeira parte traz uma série de histórias rememoradas e narradas por palhaceiros e
Meninos
brincando na
Graça de Deus,
Mirinzal.
outros brincantes de boi, que as encenaram em brincadeiras realizadas anos ou décadas
atrás, dependendo do narrador. Criadas originalmente para serem executadas no contexto
do bumba meu boi, essas narrativas receberam um tratamento editorial para chegarem
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
43
à forma final de apresentação no papel. Primeiramente, foram transcritas, preservando-se ao máximo o que fora enunciado pelos entrevistados. Em seguida, fez-se a revisão
dos textos, no intuito de torná-los mais acessíveis ao leitor, evitando-se erros e vícios
de linguagem que, embora habituais no discurso oral, comprometem a fruição do texto
escrito. A fim de facilitar a organização das narrativas, títulos lhes foram atribuídos pelas
editoras, sempre que possível, utilizando-se termos e expressões adotadas pelos próprios
narradores para se referirem às matanças em que tais histórias foram representadas. Por
fim, as histórias foram ilustradas a partir do conceito de bricolagem que caracteriza a cultura popular, remetendo tanto a uma estética do improviso quanto da intertextualidade
de suas produções.
A segunda parte do livro traz notas biográficas dos sujeitos que contribuíram para a formação do conjunto de histórias ora apresentadas. Os relatos, também retirados das entrevistas realizadas em campo, passaram igualmente por um tratamento editorial que
priorizou a coerência e a fluência do texto, visando à apreciação por parte do leitor.
Intervenções nas narrativas foram feitas no sentido de equalizar a quantidade e a profundidade – muito variáveis – das informações prestadas por cada narrador, tendo em
vista a harmonia do conjunto.
Por último, o livro traz um glossário que contempla regionalismos, corruptelas, vocábulos e interjeições próprias do Maranhão (e do interior do estado), o qual foi produzido
44
Palhaçadas para São João
pelas editoras com o objetivo de orientar leitores menos habituados com o linguajar do
universo pesquisado.
Em um plano imediato, o que se espera com este material é fornecer ao leitor a oportunidade de experimentar um tipo de riso que é próprio do bumba meu boi do Maranhão e,
mais peculiar ainda, dos moradores mais velhos da Baixada Maranhense. Em um plano
abrangente, porém, pretende chamar atenção para a necessidade de formulação e implantação de uma política de salvaguarda do bumba meu boi que contemple a variedade
e a particularidade de suas formas expressivas, principalmente daquelas que tendem a
ser subordinadas ou silenciadas em processos de unificação dos discursos dissonantes
sobre o bem patrimonializado.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
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Referências
ANDRADE, Mário de. Danças dramáticas do Brasil. Org. Oneida Alvarenga. Belo Horizonte: Itatiaia/Instituto Nacional
do Livro/ Fundação Nacional Pró-Memória, 1982.
AZEVEDO NETO, Antônio. Bumba meu boi no Maranhão. São Luís: Alumar, 1997.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. São Paulo: Ediouro, 2000.
CARVALHO, Luciana Gonçalves de. A graça de contar: narrativas de um Pai Francisco no bumba meu boi do Maranhão.
(Tese de doutorado). Rio de Janeiro: UFRJ, 2005.
__________ A matança do santo. In: CAVALCANTI, Maria Laura, GONÇALVES, José Reginaldo (Orgs.).
As festas e os dias: ritos e sociabilidades festivas. Rio de Janeiro: Contracapa, 2009.
__________ A graça de contar: um Pai Francisco no bumba meu boi do Maranhão. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2011.
CARVALHO, Maria Michol. Matracas que desafiam o tempo: é o bumba meu boi do Maranhão. Um estudo da tradição/
modernidade na cultura popular. São Luís: [s.n.], 1995.
CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. Tema e variantes do mito: sobre a morte e a ressurreição do boi.
In: Mana. 12(1): 69-104, 2006.
MARQUES, Ester. Mídia e experiência estética na cultura popular: o caso do bumba meu boi. São Luís: Imprensa
Universitária, 1999.
Detalhe de
chapéu de fitas.
Página seguinte:
Sede do bumba
meu boi de
Lourenço“Pinto”.
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Palhaçadas para São João
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
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Comédias
Comédias
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Comédias
O macaco
Por Roberval Silva (Legário, Rubico)
O
marido se mudava com a mulher porque tinha um
O marido espiava de perto e apertava a bochecha do
cara, no lugar onde eles moravam, que não dei-
macaco. Este, de cuzinho arrebitado, se virava e tirava
xava a mulher sossegar. Quando o marido chegava em
casa, ele não a deixava sossegar também. Quando ele
chegava o de comer não estava pronto porque o cara ficava tomando o tempo da mulher e não a deixava fazer
o corpo.
MARIDO: Este macaco está meio estranho! E tu já encomendaste ele operado? Porque ele não tem rabo!
o de comer para o marido. Um dia, o marido se mudou
E engraçado era que o macaco não deixava o marido
de lugar, mas ela ainda se encontrava com ele. Eles in-
se encostar.
ventaram de ele ir vê-la vestido de macaco. E quando o
O marido saía para o serviço e a mulher ficava com o
marido chegava, estava lá o macaco.
macaco. Na volta para casa, o marido tentava chegar a
MULHER: Olha, eu ganhei um macaco!
tempo de ver se pegava o tal macaco já vestido como
E o marido ficava olhando...
homem, mas que nada! Quando o sujeito via o marido
chegando, saía correndo para puxar a roupa e se vestir.
MARIDO: Mas este macaco está diferente! Porque maca-
Então, quando o marido chegava, ele já estava prepara-
co não tem bochecha de ruge!
do de macaco.
MARIDO: Ai, eu estou com um peso na cabeça, uma dor
nas costas! Eu não posso nem me torcer. Quando eu
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
51
me abaixo, parece que tem alguma coisa montada em
Ele pegava a roupa de macaco, ela agarrava a saia e
mim! Eu abaixo, e parece que a cabeça vai cair. Olha,
corriam para cá e amarravam os dois com um elástico.
vou passar uns dias fora.
MARIDO: Ah mulher, está amarrada, porque eu sou é
Quando o marido saiu, o sujeito foi ficar com a mulher!
mau! Agora você não pode mais correr!
Mas, quando o marido saía, encontrava a mulher do
E o cara queria se entender com a mulher dele.
cara. Ela vinha procurando para saber onde ele estava.
A gente ia procurar e... Ele estava lá, debaixo do lençol,
com a outra mulher!
52
Comédias
MULHER: Não! A questão é que agora deu tudo certo.
Tu ficas com a mulher dele e eu fico com ele.
Carneiro ou jumento
Por Antônio Fausto Silva (Fausto)
U
m agricultor tinha uma roça de mandioca bem
AGRICULTOR: Ah, está bom. Você não tem jumento,
grande e bonita. Certo dia, ele chega lá e vê que
né?! Vou te mostrar se tem ou não tem.
toda a sua plantação foi comida.
E o fazendeiro canta sua toada:
AGRICULTOR: Poxa! Foi o jumento daquele fazendeiro! Ah, mas eu vou lá!
E marchou em direção à casa do fazendeiro. Chegando
É, só que eu não posso acreditar
É, só que eu não posso acreditar
lá, pediu para falar com o chefe.
Nessa história que esse moço veio contar
VAQUEIRO: Chefe, este cidadão quer falar com o senhor.
De que na sua roça entrou o meu animal
AGRICULTOR: Boa tarde, siô. É o seguinte: seu jumen-
Dizendo ele que está lhe fazendo mal
to invadiu a minha roça, comeu tudo! Eu não posso
Está errado o seu pensamento
ficar no prejuízo. O senhor tem que me indenizar!
O que eu tenho é carneiro, não é jumento.
FAZENDEIRO: Que jumento, siô? Não tem jumento nenhum! Eu tenho um carneiro!
Não convencido, o agricultor voltou para a roça e ficou de tocaia. Quando o bicho chegou à roça para
comer de novo, ele atirou!
AGRICULTOR: Está vendo, agora quero ver ele dizer
que não é jumento.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
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O baile da bicharada
Por Diomedes Rodrigues dos Santos (Xeleléu)
U
m circo de animais chegou à cidade e pediu aco-
FAZENDEIRO: Ô, moço. Bom dia. Vim aqui conversar
lhida em uma fazenda. O dono da fazenda con-
com o senhor.
sentiu, contanto que os bichos não incomodassem e
não mexessem na sua criação de boi e na sua planta-
DONO DO CIRCO: Pois não, meu patrão!
ção. Tudo acertado, o dono do circo anunciou o baile
FAZENDEIRO: Siô, não me leve a mal. Mas seu circo já
da bicharada.
está incomodando muito aqui o nosso trabalho e eu
DONO DO CIRCO: Baile da bicharada só esta noite!
O povo do lugar logo se empolgou e foi prestigiar o
evento. Deu muita gente, foi o espetáculo que mais
deu gente no mundo. Pensando no lucro, o dono do
circo resolveu ficar mais um dia. Mais uma vez casa
queria que o senhor deixasse o lugar.
DONO DO CIRCO: Ô, meu patrão. Desculpe. Eu nem
queria ficar, era o público que pedia. Eu, com pena
de deixar eles sem diversão, fui ficando. Mas deixe
estar. Hoje será nossa última noite.
cheia. E aí o dono do circo foi adiando a sua ida. Mas
FAZENDEIRO: Então tá, siô.
o fazendeiro já estava se incomodando muito com
DONO DO CIRCO: Mas eu queria lhe convidar para vir
aquele entra e sai de gente na sua fazenda, os ani-
assistir. Hoje o baile será em sua homenagem.
mais dele ficavam assustados com tanto movimento,
fora a música alta do baile. Quando deu no final da
semana, o fazendeiro foi procurar o dono do circo.
FAZENDEIRO: Ô, siô, que é isso. Carece não!
DONO DO CIRCO: Não, venha. Não me faça essa desfeita.
FAZENDEIRO: Tá certo então!
54
Comédias
O fazendeiro voltou para casa e o dono do circo co-
tatu, macaco, raposa. Todos os bichos! E a bicharada
meçou a preparar o último baile da temporada. De
entrava, cada qual se requebrando de um jeito. Um
noite, a casa estava cheia como nunca. E o dono do
mais bonito que o outro! O arrumador dos bichos, só
circo estava só esperando o fazendeiro chegar para
ali na frente, comandando. Também se requebrava,
começar a festa. Quando este entrou com sua espo-
se empinava, se abaixava, levando o público a dançar
sa, a orquestra começou a tocar.
junto também. Foram mais de três horas de festa, até
DONO DO CIRCO: Boa noite, povo. Vai começar a fes-
que o dono do circo apitou.
ta. Hoje é nosso último dia. A gente queria agradecer
DONO DO CIRCO: Acabou, meu povo! Até uma próxi-
a atenção de vocês e principalmente a bondade do
ma oportunidade!
fazendeiro em nos acolher aqui no seu espaço. Uma
salva de palmas para ele!
PÚBLICO: Êêêêêêêêêêêêê! Viva!!!!!
DONO DO CIRCO: E vamos ao que interessa. Com
vocês, o baile da bicharada!
Entrava no centro da roda tudo quanto era bicho
dançando ao som de um baião tocado pelo arrumador dos bichos. Era girafa, era onça, era maracajá,
E o arrumador saía na frente dos bichos, que formavam uma fila, mas sempre dançando. Era mais
quem queria seguir o cordão, era gente entrando
nesse palco. Ficou aquela multidão. Enquanto isso,
o fazendeiro só observando animado, enquanto se
arrumava para voltar para casa com seus vaqueiros.
Mas a esposa pediu para ficar mais um pouco, de
olho que estava no arrumador de bichos, e acabou
fugindo com ele.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
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O burro do fazendeiro
Por João Vieira (Zió)
T
inha um fazendeiro, um burro e uma mulher. A
FAZENDEIRO: Olha, já cheguei!
mulher morreu e ficou só ele com o burro e o
Lá foi o burro, largou o pé, derrubando o dono.
cachorro. Quando ele saía para a fazenda dele, lá
dentro do mato, ficavam o burro e o cachorro em
casa. Quando ele chegava de volta da fazenda, o ca-
FAZENDEIRO: O que você tem, rapaz? Se acomoda,
que eu vou te vender!
chorro ficava pulando, agradando, e o burro ficava
O burro ficou triste. Não queria mais andar, só ficava
só olhando para eles.
deitado.
O burro era só para carregar água, lenha, essas coi-
FAZENDEIRO: Esse burro está doente.
sas. Até que ele teve uma ideia.
BURRO: Hoje, quando o chefe chegar, quem vai agradar ele sou eu.
CACHORRO: Não, rapaz. Você é muito pesado, muito
sem jeito para fazer as coisas. Você é mais para carregar lenha.
BURRO: Não! Quem vai sou eu!
E o fazendeiro chegava em casa.
O cachorro tentava dizer para o dono o que estava
acontecendo, mas só fazia latir e o dono não entendia.
FAZENDEIRO: Mas o que você tem, rapaz? Está todo
triste... Não vou te vender mais não.
O burro levantou e tornou a agradar o dono, fazendo
aquele movimento de novo.
FAZENDEIRO: Não! Você é muito pesado, não pode
fazer isso, não! Deixa que eu mesmo faço, deixa que
eu passo a mão na sua cabeça.
56
Comédias
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
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Veado comedor de roça
Por Antônio Vieira (Bezerra)
U
m homem estava trabalhando desde cedo na
AGRICULTOR: Então, se você não dá conta dos seus
roça, debaixo de um sol quente.
bichos, eu vou botar armadilha para eu matar tudi-
AGRICULTOR: Opa! Hora do almoço. Vou para casa,
mais tarde eu volto para fechar aqui a cerca.
Um fazendeiro vizinho dele tinha uma criação de veados encarnados, que se soltavam e invadiam a roça
do agricultor, comendo toda a plantação que tinha
por lá. Quando o agricultor voltou, encontrou a roça
toda destruída.
nho e defender minha roça!
FAZENDEIRO: Não, armadilha, não. Se você botar armadilha, você vai preso! Não se pode botar armadilha em roça assim!
AGRICULTOR: Ah é?! É, né? Vamos ver!
O agricultor saía e planejava fazer a armadilha. Nos
arredores da roça, ele pôs um laço que, quando o
AGRICULTOR: Patrão, seus veados comeram a minha
veado vinha, ficava preso. Ele estava em casa com a
roça! Não sobrou nada! Eu vim lhe reclamar!
mulher.
FAZENDEIRO: Siô, o que é que eu vou fazer? O bicho é
AGRICULTOR: Mulher, vou lá espiar o laço para ver se
lá do mato, você vai fazendo a roça no mato...
o veado caiu.
Quando viu que o veado estava enlaçado, o marido
correu para casa muito contente e encontrou a mulher cozinhando um feijão.
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Comédias
AGRICULTOR: Mulher, bota esse feijão fora que o vea-
AGRICULTOR: Corte lá, siô. Eu fico aqui na corda fir-
do está no laço! Veado no laço, bota feijão fora!
mando e você vai matar o veado lá.
MULHER DO AGRICULTOR: Marido, o veado ainda não
O compadre se ajeitava, amolando o facão.
está morto, está no laço. Eu não boto o feijão fora!
AGRICULTOR: Corte e mate, siô! Minha mão já está
AGRICULTOR: Bota feijão fora, que eu estou mandando!
doendo. O veado vai já escapulir, ele está acordando.
O agricultor saiu de casa e foi até a casa do compadre.
AGRICULTOR: Ei, compadre! Siô, vamos lá na roça
que tem um veado no laço. Vamos matá-lo para mim?
O senhor também ganha um pedaço.
COMPADRE: Se é assim, eu vou!
Chegando lá, o agricultor e o compadre puxavam a
corda que pendurava o veado.
COMPADRE: Tu não vais cortar o veado, compadre?
Olha ele acordando!
O compadre então se aproximou do veado, mirou
com o facão, se arrumou e tac! Cortou a corda e o
veado escapou. Ficaram os dois vendo o veado indo
embora. O agricultor correu para casa.
AGRICULTOR: Mulher, cadê o feijão? Botou fora?
MULHER DO AGRICULTOR: Botei fora!
AGRICULTOR: Então junta, mulher. Não deu certo
com o veado!
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
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Comédias
A onça
Por Eleutério Silva (Loló)
U
m homem morava no interior e criava um filhote
uma fera, avançando em todo mundo, correndo atrás
de onça. Passou anos e anos cuidando da onça
de gente para comer.
desde pequena, que se mostrava dócil e respeitadora
de seu dono. Um dia, o homem precisou viajar, ficando preocupado por não ter ninguém que cuidasse da
onça enquanto ele estivesse fora.
Falou com um e com outro, até que conseguiu um
lugar para deixar seu bicho de estimação.
DONO DA ONÇA: Ô, que bom que vocês me arranjaram esse cantinho para meu bichano ficar.
DONA DA CASA: Tudo bem, siô. Mas ela não estranha?
DONO DA ONÇA: Que nada! Ela é bem mansinha, não
mexe com ninguém.
DONO DA CASA: Está certo. O senhor pode viajar
e deixar seu animal aqui. Quando o senhor voltar,
pode vir buscá-lo.
Nos primeiros dias o animal ficou bem quietinho,
nem mesmo ligava para o gado que estava por ali
por perto brincando. Mas, um belo dia, a onça virou
POVO DO LUGAR: Corre! Corre! Olha a onça!
O povo do lugarejo resolveu telefonar para o dono da
onça de modo a contar o que estava acontecendo e
ele voltar para tirar o animal de lá. Com poucos dias,
o dono da onça chega e procura pelo seu bicho.
DONO DA ONÇA: Cadê meu bichinho?
Quando a onça surge, olha para o seu dono, mas o
estranha, logo tentando comê-lo.
DONO DA ONÇA: Ah, é assim? Te dou tanto carinho,
só por que eu passei esses dias fora tu já me esqueceu e ainda quer me comer?! Deixe estar!
POVO: Senhor, não vá, que essa onça lhe pega.
DONO DA ONÇA: Espera aí, que eu pego ela é agora!
Tac! Páááá. E atirou!
Nessa hora, todo mundo correu. A onça deu um pulo
e caiu mortinha lá!
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
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A cobra
Por Valdemar Piedade Pereira (Caçador)
Tinha o Pai Francisco e a Catirina, que era a mulher
PAI FRANCISCO: Mas aqui não tem cobra nenhuma...
dele. Catirina tinha muito medo de cobra. Um dia,
CATIRINA: Uma cobra! Uma cobra! Uma cobra!
eles iam para a roça, ele com um facão e ela com a
enxada no ombro. Andando pelo caminho do mato,
de repente, ela vê uma cobra, se espanta, corre e
abraça o Pai Francisco.
PAI FRANCISCO: O que é, mulher?!
CATIRINA: Ai! Uma cobra! Uma cobra! Uma cobra!
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Comédias
PAI FRANCISCO: Hum hum! E tu tens medo de cobra,
menina? E agora, o que vou fazer com a minha?!
Eles continuavam o caminho, quando o Pai Francisco
pensou: “Eu vou meter um susto nessa mulher, já
que ela tem medo de cobra”.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
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Criação de jabuti
Por Eleutério Silva (Loló)
U
m homem chegou numa propriedade com sua
HOMEM: Moço, o seu boi brincando no meio da mi-
família e pediu ao dono da fazenda permissão
nha roça comeu minha plantação todinha!
para ocupar um pedaço de terreno com roça. A família foi liberada para fazer o cultivo e fizeram uma
roça bem grande. Porém, como ele só criava jabuti,
FAZENDEIRO: Não, siô. O meu boi não pula cerca, ele
não é pulador. Sua plantação não é cercada?
cuidou apenas de fazer uma cerca de proteção bem
HOMEM: É cercada sim, senhor.
baixinha.
FAZENDEIRO: Que altura é sua cerca?
O boi da fazenda veio chegando, pulando e brincan-
HOMEM: Minha cerca é de meio metro de altura.
do. Sem muito esforço, entrou na roça do homem
e se dana a comer as plantas verdinhas que tinham
FAZENDEIRO: Ôxe! Mas é muito baixa! Por quê?
acabado de ser plantadas. Nesse momento, o dono
HOMEM: Porque a minha criação é de jabuti e ele tem
da roça chega e acha todo o seu trabalho bagunçado.
a perna curtinha. Não carece de eu fazer uma cerca
grandona!
64
Comédias
Troíra
Por Raimundo Leal (Baguinho)
(Toada de entrada em cena)
Dan dan rin dan dan
Porque o pago que eles dão
Eu sou pretinho, meu senhor
Dan rin dan dan
Eu sou pretinho, nunca tive dinheiro
É de falarem mal da gente
Nuca fui escravo
Dan rin dan dan
Mas eu ando no mundo fazendo graça
O boi adoecia e a Mãe D’água vinha curar.
Um juramento eu tenho feito
A Mãe D’água chupava o boi por uma taboca e curava
o boi, tirando uma troíra feita de buriti de dentro
dele. Diz que a troíra era a flecha que estava dentro
do bicho, que quase estava matando o boi.
Dan rin dan dan
De não curar mais ninguém
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
65
O jacaré macho
Por Arcângelo Reis (Arcanjo)
T
inha um jacaré que estava devorando o gado da
PATRÃO: Rapaz, como é para a gente matar esse ja-
fazenda. O vaqueiro ia se reclamar para o ho-
caré? Tem que matar!
mem, patrão dele.
VAQUEIRO: Como fazemos?
VAQUEIRO: Patrão, o jacaré está comendo os bois!
PATRÃO: Mande avisar às pessoas que estamos pagando bem pago para quem conseguir matar o jacaré.
66
Comédias
Alguns corajosos se candidataram. Foi o primeiro lutar com o jacaré. Mas esse não demorou, foi comido
pelo jacaré. Chamaram o outro. O segundo ia lutar
PATRÃO: E aí?
CAÇADOR: Mas o jacaré está morto.
com o jacaré. Lutava, lutava, lutava, mas morria de-
PATRÃO: Muito bem! Agora, você bota fora.
vorado pela fera também. Então, o patrão chegava
CAÇADOR: Não. O senhor falou comigo para eu ma-
para o terceiro.
tar, não foi para botar fora. Como é que eu vou botar
PATRÃO: Senhor, o senhor vai. Mas saiba que aqui já
fora, que eu não dou conta? Eu só, e ele é grande!
vieram dois e o bicho comeu!
PATRÃO: Ele é macho ou é fêmea?
CAÇADOR: Não, mas eu sou acostumado! Está bom
CAÇADOR: Não sei. Deixa eu ver... É macho.
de conversar, eu vou agora matar esse bicho!
O homem partiu para lutar com o jacaré, que começava a se armar para cima dele. Muito hábil, o caçador
PATRÃO: É macho?
CAÇADOR: É.
dava uma bisca, dava uma pezada no bicho. O jacaré
PATRÃO: E como é que o senhor sabe?
deu um mau passo e o caçador pulou nas costas do
CAÇADOR: É porque ele está piscando aí!
jacaré. Montado, o caçador se agarrava no tontiço
do animal e começava a dar murro na cabeça, dava
dentada, até que matou o jacaré.
PATRÃO: Como que ele está piscando?
CAÇADOR: A coisa está piscando, está bulindo. É macho!
CAÇADOR: Olha, senhor. Matei! Senhor, eu estou
cansado demais!
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
67
A jia encantada
Por Rogério Fernandes
E
ra uma vez uma moça que se encantou na forma
JIA: Você vai fazer uma corda e você vai me esperar um
de uma jia. Essa jia andava fazendo sinal na bei-
dia de quinta-feira, meia-noite, na beira da praia! Eu vou
ra da praia, onde tinha um poço em que o povo se
transformada em uma vaca. Na hora que tu vires aquela
abastecia de água, mas o pessoal se assustava e fugia.
vaca que vem correndo e largando faísca para cima de
Quando foi um dia, um cara estava enchendo um balde
ti, não é para você ter medo, porque sou eu, está vendo?
de água e a jia se aproximou dele. Ele a olhou, mas
HOMEM: Sim, estou entendendo.
não correu.
JIA: Na hora que eu vier correndo, tu me laças com
JIA: Oi, moço. Que bom que o senhor não correu. Eu
esta corda! Você me laça, me prende e vai me furar
sou uma moça que estou encantada na forma de jia.
com ferrão. Não se esqueça de levar a vara de fer-
O senhor teria coragem de me desencantar? Se tu
rão, porque você vai ter que me furar para me tirar
tiveres coragem de me desencantar, eu caso contigo
três pingos de sangue. Depois que você tirar os três
e te dou muita riqueza que tenho.
pingos de sangue, eu me transformo na moça e logo
HOMEM: Eu tenho coragem! É para fazer o quê? Como
é para eu te desencantar?
JIA: Olha, eu vou te dizer, mas tu vais guardar isso
em segredo. Não vai dizer nem para sua mãe, nem
depois a gente vai fazer o casamento.
HOMEM: É mesmo dona, a senhora faz? Vai se casar comigo?
JIA: Faço!
para o seu pai e nem para o seu amigo que eu estou
HOMEM: Então está certo, está certo. Está tudo
te dizendo isto que vamos combinar!
combinado.
HOMEM: Está certo!
Tudo combinado, o homem foi tratar de fazer a corda. Mas ele só fazia aquela corda se escondendo.
68
Comédias
Porém tinha um cara por perto, doido para marocar
seguiu na ponta dos pés para espiar o cara. Quando
o que o homem estava fazendo, até que viu que era
o homem estava lá no ponto, esperando a vaca, com
uma corda.
a vara de ferrão... A vaca correndo numa velocidade
MAROCA: Ê, rapaz, mas para que tu queres essa corda?
na direção do homem... Ela vinha ligeira e faiscando.
HOMEM: É porque eu tenho uns animais no campo. É
Vinha doida para cima dele. Quando o homem pegou
para eu apanhar o boi.
o ferrão para furar a vaca, o maroca gritou.
Então, o maroca ia embora e o homem continua-
MAROCA: Lá vem a vaca! Sai daí, rapaz, que essa vaca
va fazendo a corda. Na semana que iria acontecer
vai te matar!
o desencante, o cara foi, no horário de meia-noite,
A vaca desviou o caminho e o homem não a furou.
esperar pela vaca. Mas o maroca o viu saindo, e o
Como não tirou o sangue, a vaca saiu correndo e se
transformou numa jia. Nunca mais se desencantou.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
69
O boi visagento
Por Arlindo Trindade
U
ns pescadores chegaram a uma fazenda e pedi-
LÍDER DO GRUPO: Nós temos traje de pescaria.
ram licença para falar com o fazendeiro. O va-
FAZENDEIRO: Ali tem um lugar que é bom de se pescar.
queiro chamou o dono da fazenda, que os atendeu,
conversando com o líder do grupo.
LÍDER DO GRUPO: Chefe, eu queria pedir ao senhor
um espaço aqui na sua fazenda para que a gente pudesse tirar um termo de vida.
O fazendeiro voltava para dentro de casa e os homens iam buscar a rede com os companheiros para
pescarem. Os peixes que apanhavam iam sendo recebidos e divididos pelo líder para dividirem entre
si. Porém, o líder do grupo fazia como Camões ou
FAZENDEIRO: Vocês querem adquirir um termo de
então como Gonzaga, e tirava vantagem, colocando
vida sobre o quê?
quatro peixes para ele e só um para cada um dos
LÍDER DO GRUPO: Para nos alimentarmos.
FAZENDEIRO: E de que vocês querem fazer os seus
termos?
LÍDER DO GRUPO: De pescaria.
FAZENDEIRO: Pescaria? E vocês têm traje de pescaria?
70
Comédias
outros. No final da dividição, o cofo do líder estava
chapado e os dos outros homens, com alguns. Então
o líder se preparava para sair.
LÍDER DO GRUPO: Eu vou ali estender a rede pra nós
irmos fazer outra pescaria no fim da semana.
O líder foi, mas quando voltou, via que os outros
pescadores caíam fora com o peixe todinho, e foi
procurar o fazendeiro.
LÍDER DO GRUPO: Chefe, não é que os companheiros,
em vez de me agradarem, me levaram o peixe todinho?! Eu vou deixar a rede no estaleiro e vou arrumar
outros companheiros para nós irmos fazer outra pes-
FAZENDEIRO: Não, senhor!
LÍDER DO GRUPO: Então eu vou esperar esse comedor
de rede que comeu minha rede todinha. Eu quero ver
quem é que está comendo essa rede!
O líder fez uma moitagem e ficou esperando a noite
chegar, quando veio uma visagem.
caria porque esses não deram, me levaram tudinho e
VISAGEM: Ôôôôôôôi ôi ôi ôi ôi.
eu fiquei despenadão.
LÍDER: Vem! Tu és comedor de rede, vem!
Pois o líder deixou a rede estendida no estaleiro e foi
VISAGEM: Ôôôôôôôi ôi ôi ôi ôi.
dormir. Mas o boi veio, meteu o chavelho e pisou,
destruindo tudinho. No outro dia, quando o líder
veio tirar a rede do sol, viu o estrago e percebeu o
rastro do boi. Então, se dirigiu à casa do fazendeiro,
à procura de pistas.
LÍDER DO GRUPO: Chefe, o senhor tem boi solto na
fazenda?
LÍDER DO GRUPO: Vem! Tu estás com vontade de comer rede e eu estou com vontade é de te olhar. Eu
quero acabar contigo!
Quando a visagem foi aparecendo, a coragem não
deu para o pescador atirar. Ele caiu moita abaixo, escapuliu da visagem, que ainda chegou a tocar numa
perna dele.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
71
72
Comédias
O feiticeiro montador
Por Roberval Silva (Legário, Rubico)
E
ra um feiticeiro doido para montar em gente. Eu,
como já estava cansado do lugar onde eu mora-
va, chegava lá para falar com o patrão, pedindo a ele
uma hospedagem na sua fazenda porque tinha essa
PALHAÇO: Não, senhor.
PATRÃO: Então é sonho! Eu digo então que é sonho!
PALHAÇO: Mas eu sei que eu olhei o feiticeiro. Será
tal pessoa que não me deixava sossegar. Toda noite
que esse cara veio atrás de mim?
ele montava em mim, me fazendo de cavalo, e eu já
Eu tornava a sossegar. Logo o feiticeiro vinha, com
estava esbodegado de toda noite estar debaixo dele.
a espiga de milho na mão na minha direção, para
O patrão me dava essa licença e eu botava um pano
querer montar em mim. Ficávamos lutando por qua-
lá na fazenda e me deitava. Nisso que eu ia trespas-
se uns trinta minutos, até que ele me amansava, me
sando, o peste saía lá atrás do zabumbeiro.
botava bride e montava em mim.
PALHAÇO: Eu estou olhando o feiticeiro bem ali.
PATRÃO: Que nada! É impressão sua, siô.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
73
A alma na fazenda
Por Arlindo Trindade
U
m homem entrava na fazenda atrás de serviço e
o fazendeiro só tinha serviço para quem fosse
corajoso, porque lá diziam que aparecia uma alma,
umas visagens, um feiticeiro que estava querendo fazer mal na fazenda.
PALHAÇO: Rapaz, eu sou obrigado a ganhar o meu
dinheiro. Eu tenho que ficar.
Ele ficava lá, mas tinha uma escada. Quando ficava
silencioso vinha uma zoada.
ALMA: Uuuuuuuuh! Uuuuuuuh!
PALHAÇO: O que é isso?
ALMA: Uuuuuuuuh! Uuuuuuuh!
FAZENDEIRO: Senhor, isso aí são as coisas que eu estou lhe falando. Aqui, o serviço é pra gente corajosa.
A alma vinha chegando, vinha chegando e o homem
ia subindo na escada até que ela ficava berrando no
bem no pé da escada.
ALMA: Uuuuuuuuh! Uuuuuuuh!
Nessa hora o homem se danava pra rezar e se mijava
nas calças. Ninguém sabe o que assustava a alma, se
a reza ou o mijo, mas o certo é que ela ia abrandando, ia abrandando, e o homem vinha descendo. Ela
ia abrandando e homem vinha descendo até que a
visagem desaparecia.
74
Comédias
Medroso metido a corajoso
Por Valter Silva (Caburé)
T
inha um morto, tinha um corajoso e tinha um
CORAJOSO: Ei, meu patrão... Esse negócio não dá pra
medroso que só queria ser corajoso. O corajoso
mim, não dá pra mim! O senhor disse que ele estava
e o medroso estavam procurando trabalho, e o servi-
morto e eu já vi ele bulir. Que eu saiba, morto não
ço que o patrão estava oferecendo na fazenda era de
levanta pé! E ele já levantou o pé! E não dá certo, não
vigia. Para vigiar o morto.
dá certo, não dá certo!
PATRÃO: Olha, emprego tem aqui na fazenda, mas
O corajoso queria para o patrão fazer o pagamento
é para um corajoso! É para fazer sentinela para
para ele.
um morto!
O cara precisava do emprego, aceitou. O morto estava em um caixão.
PATRÃO: Tu vais dar conta de vigiar esse morto aqui?
Tem que ficar de frente para o morto!
CORAJOSO: Não, meu patrão... Eu, sozinho aqui?
PATRÃO: Não! Não, senhor!
O corajoso foi embora. Depois, chegou um medroso
metido a corajoso que também ia procurar emprego.
PATRÃO: Eu quero um homem corajoso. E esse não
parou aqui!
MEDROSO: Senhor, mas eu preciso do emprego! Eu
PATRÃO: É, o senhor só!
vou ficar!
CORAJOSO: Mas de frente eu não fico para esse morto!
PATRÃO: Então, o senhor se coloca bem aqui.
Então o corajoso ficava para trás do morto. Quando
E o patrão o colocava de frente para o morto.
virava para espiar, o morto estendia um pé!
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
75
PATRÃO: Agora é que eu quero ver se você tem cora-
O morto suspendeu o outro braço e o medroso esta-
gem ou não!
va lá espiando.
E o morto levantava o pé.
PATRÃO: E então, fica ou não fica?
MEDROSO: Só não quero que você me bata com
MEDROSO: Eu tenho que eu ficar até o fim. Eu quero
esse pé!
ver é o fim!
Qualquer coisa que acontecia, o morto suspendia o
Daqui a pouco o morto se levantava e ficava sentado.
outro pé e o medroso metido a corajoso apitava.
MEDROSO: Ei, senhor, o defunto sentou! Ele não vai
PATRÃO: Então, senhor, está gostando do serviço?
ficar em pé, senhor?
MEDROSO: Estou sim, senhor! Ele já buliu os dois
PATRÃO: Não, senhor.
pés e só, mas ainda não levantou!
Daqui a pouco o morto suspendia um braço.
Daqui a pouco o defunto levanta.
MEDROSO: Ei patrão, ei patrão, ei patrão o defunto
MEDROSO: Ei, patrão. Ele suspendeu os dois pés e
está me abraçando patrão! Ei patrão, ei patrão, ei pa-
agora está suspendendo um braço!
trão, o defunto está me abraçando, patrão.
PATRÃO: E aí, senhor? Enfrenta ou não enfrenta?
O defunto abraçava e começava a carcar o medroso.
MEDROSO: Enfrento! Eu vou enfrentar!
76
Comédias
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
77
O vigia do morto
Por Carlos Augusto dos Santos (Pilola)
U
ma mulher vinha passeando com o marido. De
O rapaz se distraiu e se sentou do lado do morto, que
repente, ele deu um ataque e morreu. Ela saía
puxava a sua perna. Na carreira, o rapaz sai gritando.
desesperada, pedindo socorro.
VIÚVA: Moço, me acuda! Eu vou atrás de ajuda. O
senhor pode espiar o meu marido?
HOMEM: Ah, não. Não tenho tempo de cuidar. Mas é
bom ter alguém para vigiar, porque por aqui estão
danados para roubar órgãos de defunto. Eu vou atrás
de alguém que possa fazer isso pela senhora.
A viúva e o homem saíram, e o morto estendido no
chão. De repente, chega um rapaz a mando do homem
para vigiar o morto, que de vez em quando roncava.
RAPAZ: Hum... Parece que este homem está roncando. Será que eu estou doido?
78
Comédias
RAPAZ: Ele está se bulindo! Ele está se bulindo!
HOMEM: Não, senhor. Você está delirando. Onde o
senhor já viu morto roncar? Morto não ronca, senhor!
RAPAZ: Não, senhor... Esse cara está vivo! Ele está se
mexendo!
O homem, então, vai atrás de outra pessoa para vigiar o morto, quando aparece um cidadão que já estava meio lamparinado, segurando uma garrafinha
em uma das mãos.
BÊBADO: O senhor tem um emprego para me arrumar?
HOMEM: Rapaz, serviço tem. É para vigiar esse morto
porque estão roubando órgãos por aqui.
BÊBADO: Senhor, é para vigiar morto que não anda
mais?! Para que a gente quer morto?! Cruzes! Mas, já
que não tem outro serviço, eu vou vigiar esse defunto metendo meu grode.
HOMEM: O senhor é quem sabe. Mas diz que esse
morto está se mexendo...
BÊBADO: Senhor, eu nunca corri de uma visagem.
Será que é hoje que eu vou correr? Mas a remuneração é boa, não é?
HOMEM: Diz que é!
O defunto estava tesinho dentro de um plástico. Então, o bêbado deitava logo encostadinho no morto.
Quando, de repente, o morto começou a bufar.
BÊBADO: Senhor, parece que o cara bufou!
O bêbado examinava o morto e voltava a se deitar,
depois que se certificava de que estava tudo bem. De
repente, o morto erguia uma perna. O bêbado olhou
aquilo...
BÊBADO: Olha, já que tu estás doido, que tu não estás morto coisa nenhuma e eu estou também batizado, eu vou também te batizar!
O bêbado levantava o morto e socava cachaça em
sua boca!
BÊBADO: Mas, rapaz, está aí o morto! Eu vou é arras-
BÊBADO: Rapaz, este está mortinho, senhor! O cara
tando ele porque morto não vai me botar para correr,
não está se mexendo nada!
gente! Eu posso morrer é de vivo, agora de morto, não!
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
79
O defunto e o besouro
Por João Vieira (Zió)
O
velho era tão ruim, que ele tinha uma terra em
Cururupu onde não deixava ninguém plantar
coco babaçu. Quando o velho morreu, foram fazer
o velório. Tinha um quarto para o defunto, os con-
MEDROSO: Não, está mexendo!
HOMEM: Está certo! Então vai ver se o defunto continua mexendo a mão.
vidados largaram ele lá e foram ter uma prosa lá
Ele foi ver, olhou de novo e... estava mexendo!
fora. Tinha um deles que nunca tinha visto defunto.
MEDROSO: Está mexendo, sim.
Este, medroso, ficou nervoso. Vira e mexe ele ia lá
e olhava para ver como o defunto estava. Uma hora
HOMEM: O que esse rapaz está inventando aí?
que o morto ficou sozinho na sala, veio um besouro
E os homens foram olhar. Chegaram lá, o morto
bem grande, sentou e se escondeu debaixo da mão
mexia com a mão.
dele. O besouro se mexia, mexia a mão do cara. Foi
HOMEM: O rei é ruim até morto!
então que o medroso foi lá ver o defunto.
E todos saíram correndo. Foi um pé de carreira da-
MEDROSO: Pessoal, está acontecendo uma coisa!
nado! Então, o defunto levantou o rosto, olhou para
HOMEM: O que, rapaz?
um lado, olhou para o outro e não viu ninguém. E ele
MEDROSO: Rapaz, o defunto está mexendo com a mão.
HOMEM: Não é você que está com medo e fica dizendo isso?
80
Comédias
levantou e saiu correndo também.
Nós-Tudo
Por Herbeth Mafra Reis (Betinho) e Antônio Vieira (Bezerra)
E
ra uma vez um velho que já estava caduco e dava
VELHO: Sim... Tudo indo, Graças a Deus. Mas estou
muito trabalho para a família cuidar dele porque ele
com fome!
era muito atentado e cheio de vontade. Uma das manias
NÓS-TUDO: Ah, eu também estou com fome. Tem comida?
do velho era fugir de casa e invadir o terreno dos outros
VELHO: O de comer está aí, mas é só para mim!
para mexer naquilo que encontrasse pela frente. De
NÓS-TUDO: O quê? Cala a boca, seu velho! Bota logo
tanto o velho fazer isso, a família já estava indisposta
com a vizinhança e acabou se mudando para as bandas
de São Francisco, um lugar que era só mato.
esse de comer aí para mim, senão, te bato!
E o filho mais novo comia toda a comida, deixando
o velho com fome. Quando deu mais tarde, o irmão
FILHO MAIS VELHO: Pronto! Aqui a gente fica sosse-
mais velho chega.
gado. Papai não tem como aprontar!
FILHO MAIS VELHO: Cheguei! Como está papai? Já
O filho saía para trabalhar e deixava o velho em casa
deste o de comer dele?
com todo o de comer pronto. E dizia para o irmão.
VELHO: Aonde?! Ele estava doido de fome e comeu
FILHO MAIS VELHO: Irmão, toma conta de papai aí. Já
tudo sozinho!
fiz a comida dele.
FILHO MAIS VELHO: Rapaz, por que tu comeste o de
O filho mais novo era conhecido como Nós-Tudo.
comer do velho? Ele está doido de fome!
Tratava-se de um sujeito preguiçoso, gostava de ca-
NÓS-TUDO: Não, rapaz! Esse velho já comeu!
chaça e festa. Quando Nós-Tudo acordou, estava de
VELHO: Comi? Não! Foi Nós-Tudo que comeu, sim.
ressaca e cheio de fome. Logo, foi onde o velho.
NÓS-TUDO: Tu estás vendo, rapaz. Esse velho está
NÓS-TUDO: Papai, está tudo bem com o senhor?
ficando maluco! Eu não comi teu de comer, velho.
Quem comeu foi nós tudo!
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
81
A velha jumenta
Por Rogério Fernandes
E
ra uma velha que tinha dois netos que foram cria-
comunicaram a avó sobre o início das aulas. A velha
dos por ela. Eles cresceram e ela foi envelhecen-
ficou tão contente porque ia aprender a leitura!
do e começando a caducar, mas eles cuidavam muito
bem dela. Há muito tempo, a velha reclamava para os
netos que ela era analfabeta.
VELHA: Ô, meus netos. Eu nunca fui ao colégio, eu
não conheço nada de leitura. Eu tenho muita vontade
de aprender a ler. Ô, meus netos, procurem um colégio. Antes de eu morrer, eu tenho que realizar meu
sonho de aprender a leitura.
Na escola, a professora começou a ensinar para a velha. Porém, ela já estava muito caduca e não aprendia
nada, só estava dando trabalho para a professora.
PROFESSORA: “Rapaz, vou botar essa velha fora! Ela
está só me aporrinhando a paciência. Eu ensino uma
coisa, ela faz outra! Mas como vou me livrar dela?
Os responsáveis por ela nunca mais apareceram e
nem tenho como devolvê-la... Já sei! Vou vesti-la nos
Os netos começaram então a pedir informação sobre
trajes de uma jumenta, que ela é mesmo, já está an-
a existência de escola por perto. Quando souberam
dando até de quatro pés, e vou vendê-la.”
que uma moça tinha ido pedir licença na fazenda
A professora fez uma vestimenta muito bem feita de
para montar um colégio dentro do próprio povoado,
eles foram falar com o patrão para matricular a avó
no colégio. Então, o patrão apresentou a professora
aos dois netos, acertaram tudo, voltaram para casa e
82
Comédias
jumenta, vestiu a velha e ofereceu a um cigano que
passava pelo povoado.
PROFESSORA: Moço, o senhor não quer levar essa jumenta?
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
83
CIGANO: Jumenta? Quanto é?
PROFESSORA: Qualquer coisa! Sou professora e não
tenho como cuidar desse bicho.
CIGANO: Pois eu quero!
O cigano, então, pagou pela jumenta alguns trocados e carregou o seu lombo com suas tralhas.
CIGANO: Como eu já tenho essa jumenta que serve para carregar a carga durante a viagem, vou logo
combinar com o patrão a compra do peixe na praia
para eu vir vender por aqui para ele.
professora esperou e vocês não apareceram, então,
ela entregou a velha para um homem aí. Agora ninguém sabe qual foi o roteiro deles.
O neto deixou a fazenda e saiu à procura de sua avó.
A noite já vinha caindo, e ele resolveu parar para descansar um pouco, deitando na beira da estrada.
Quando o cigano retornou da pescaria, estava com a
jumenta com a cangalha carregada de cofos cheios
de peixe no lombo. A jumenta vinha devagarzinho,
tamanho era o peso. No meio do caminho, porém, o
cigano encontrou com um dos netos da velha tirando
Isso feito, o cigano segue viagem na jumenta para
um cochilo. Vestida de jumenta, a avó ia para cima
comprar o peixe. Enquanto isso, um dos netos foi à
do neto, cheirava, balançava a cabeça.
fazenda à procura da avó.
CIGANO: Mas quem é que está aqui neste caminho,
NETO: Patrão, o senhor me entrega a minha avó? Eu
esta hora da noite, me fazendo medo? Eu quero
vim buscá-la.
passar com a minha jumenta com a carga. Isto é
FAZENDEIRO: Rapaz, agora que tu me aparece?! A
84
Comédias
uma visão?
Com o movimento da jumenta, o neto acordou assustado.
NETO: Quem vem lá?
CIGANO: Arreda, que eu quero passar. Eu estou com
NETO: Ô, minha velha, a senhora já sofreu muito!
Carregando peixe depois de velha! Que judiação!
Isso foi uma injustiça que este cigano fez com a senhora. Lhe botou cangalha para carregar peso depois
meu animal cheio de carga pesada, e eu quero passar.
de velha?! Eu lhe quero muito bem. A senhora criou
NETO: Tu és gente, tu és vivo ou tu és morto?
meu irmão e eu com tanto carinho e sacrifício...
CIGANO: Eu sou vivinho da silva!
O neto levou a velha embora para casa e contou tudo
NETO: E esse animal aí?
para o irmão. Os dois, então, foram para a fazenda
reclamar com o patrão que consentiu que a professo-
CIGANO: Rapaz, essa é uma jumenta que eu comprei
ra vendesse a avó deles. O patrão se desculpou por
de uma dona que me vendeu. E eu tinha precisão de
ter entregado a velha, e explicou que aceitara a pro-
viajar para comprar peixe e vender nesta fazenda. Eu
posta da professora porque ela estava caducando,
comprei a jumenta e agora ela está cheia de peixe e
ninguém a queria e a moça também não podia ficar
eu quero passar.
com ela. Os dois netos ficaram muito revoltados com
Eles então se aproximam um do outro e o neto reco-
o patrão e iniciou-se a confusão.
nhecia que era a sua avó. Tirou a o traje de jumenta
da velha e começou a chorar.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
85
O sequestro da velha
Por Herbeth Mafra Reis (Betinho) e Antônio Vieira (Bezerra)
E
ra uma vez um homem e a mãe, uma velha senho-
Um ladrão observou o movimento e se aproximou para
ra muito rica. O homem precisava sair, mas não
roubar a mulher rica. Porém, a velha era boa de coice,
tinha com quem deixasse a mãe. Então, ele procurou
enchia o ladrão de pancadas. Nessas alturas, que ela es-
um compadre no povoado vizinho para que cuidasse
tava lutando com o ladrão, o filho chegava e se juntava
da velha.
à briga também. Depois de muita confusão, o ladrão foi
FILHO: Olha, cuidado com mamãe. Fica de olho nela!
Ela gosta de meter grode e onde ela chega é desembru-
pego e amarrado. O filho o agarrava, amarrava, e mandava a mãe ir embora.
lhando um monte de dinheiro. Hoje em dia tem muito
FILHO: Mamãe, vai embora! Deixa que eu me entendo
ladrão por aí e eu não queria que ela fosse sequestrada.
com ele! Hoje, no Brasil, o sequestro virou um empre-
O filho saía e deixava a mãe com o compadre. Foi só o
homem sair e o compadre se distrair, que a velha caía
na brincadeira. Foi meter grode nos bares da comunidade e puxava um monte de dinheiro de uma bolsa
grande que carregava a tiracolo.
VELHA: Quem quer dinheiro? Pega!
86
Comédias
go. Os vagabundos ficam largados na rua, onde eles
sabem quem tem o dinheiro, e a filha dos outros, eles
andam sequestrando. Eles ficam lá com os reféns e a
pessoa tem que pagar o maior dinheiro para liberar,
para poder empregar esse bando de vagabundos. Agora, eu não. Comigo tu vais é para a manceta!
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
87
A mulher na festa
Por João Vieira (Zió)
A
mulher não sabia o que era festa. Ela queria ver e
MULHER: Não, é porque ele está sacudindo e estou
saber o que era. O marido, então, a levou. Quan-
achando bonito.
do ela chegou lá, a mulher viu aquele movimento,
aquela batucada, vaqueiros dançando por ali.
MULHER: Marido, pede um negócio daquele que
aquele cara tem na mão?
Ela se referia à vara de ferrão do vaqueiro.
MARIDO: Para que você quer aquilo?
MARIDO: Tá certo.
A mulher estava tão empolgada que, mesmo quando
parava a batucada, ela não parava de dançar. Dançava para lá e para cá.
O marido tinha que dizer “parou”, para ela parar.
MARIDO: Peraí. Parou tudo, mulher! Para de dançar.
Mas logo ela saía e continuava dançando.
88
Comédias
O casamento
Por João Vieira (Zió)
U
m rapaz arranjava um namoro com uma moça.
NOIVO: Então está certo. No dia do casamento, você
Mas o pai dela era muito rígido.
leva a minha amada no seu colo e entrega para mim.
PAI: Namorar, nada! Tem que casar!
Atenderam ao desejo do pai da moça e marcaram
casamento.
Eu lhe pagarei bem pago!
Chegado o dia do casamento, a igreja estava muito cheia. Aí o padre acabou pedindo que o pessoal
fosse para o pátio porque lá caberia todo mundo e a
MOÇA: Mas eu só caso se entrar carregada na igreja!
cerimônia poderia ser vista por todos. O noivo con-
NOIVO: Não se preocupe, meu amor. Eu vou dar um
sentiu porque queria mesmo era mostrar para todo
jeito de realizar seu sonho!
mundo como ele estava feliz e como a sua futura
Então formou-se a confusão. O noivo era pequenininho e a mulher, grande e gordona. O noivo começou
a procurar por um homem forte que pudesse carre-
esposa era bonitona. Porém, eles não repararam que,
justo no lugar onde o carro ia chegar com a noiva e o
estivador, estava tudo encharcado de lama.
gar sua amada no colo e conduzi-la até o altar, até
A noiva estava radiante e muito bonita. E o estivador,
que contratou um forte estivador.
a postos de cumprir o contrato feito, pegou ela pelos
ESTIVADOR: Siô, eu estou acostumado a carregar vinte sacas de babaçu sozinho. Para mim é moleza esse serviço.
braços e vinha trazendo ao altar improvisado no pátio da igreja. Todos estavam olhando, inclusive o noivo, que estava nervoso, mas muito contente. Quando
o estivador deu dois passos, escorregou e derrubou
a noiva numa poça de lama.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
89
NOIVO: O que o senhor está fazendo, siô? O senhor
está machucando minha mulher. Olha, acabou com o
vestido dela.
NOIVA: Buá! Buá! Buá! Buá! Não caso mais!
NOIVO: Ô, meu bem. Não fique assim!
NOIVA: Buá! Buá! Buá! Some de minha frente, seu incompetente! Não serviu nem para arranjar quem me
carregue. Imagine outras coisas! Acabou o casório!
Fico com o estivador que, ao menos, é grandão!
90
Comédias
A troca de mulheres
Por Carlos Augusto dos Santos (Pilola)
E
ra uma vez dois rapazes que chegavam numa fes-
MARIDO DA VELHA: Mas eu quero fazer esse negó-
ta acompanhados de suas mulheres. Um deles era
cio contigo.
casado com uma velha e o outro tinha uma mulher
grande, bem feita de corpo e de rosto. Na hora que
tocava uma música animada, cada um deles cantava
e dançava com sua mulher.
O primeiro saiu para conversar com sua companheira
e lá começaram a se acariciar, a se abraçar, a se beijar. Enquanto o outro, de longe, os espiava. Quando
o casal voltou ao salão...
MARIDO DA VELHA: Boa noite, siô! Como está?
MARIDO DA BONITONA: Estou bem. Estou aproveitando a festa com a minha mulher.
MARIDO DA VELHA: Siô, com todo respeito, ela é bonita demais! O senhor não troca a minha pela sua?
MARIDO DA BONITONA: Não, eu não troco porque
eu nunca ouvi falar que a gente troca uma mulher
por outra!
MARIDO DA BONITONA: Mas como é que tu vais fazer? Tu me dá uma taca? Só se for, porque eu não
vou trocar a minha mulher! Mulher, tu queres ir dançar com este sujeito?!
A mulher não falou nada, só sacudiu a cabeça em
negativa.
MARIDO DA VELHA: Ô, gente, me entendam! Eu estou
pedindo isso só porque eu fui ao médico e ele me
receitou uma mulher nova para eu ficar bonzinho!
MARIDO DA BONITONA: Não, mas a minha mulher eu
não troco. Até porque a tua já está um couro velho!
Mas, de tanto insistir, o marido da velha acabou convencendo o outro a trocarem as esposas. O baile esquentou e o homem ia dançar com sua parceira bonita e nova.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
91
MARIDO DA VELHA: Me abraça, meu bem!
A mulher nova não abraçava, enquanto o outro homem e a velha estavam dançando animados.
MARIDO DA VELHA: Moça, vamos ali conversar.
Mas a mulher não dava atenção e nem respondia
para ele.
MARIDO DA VELHA: “Essa mulher não quer falar...
Será que ela está doente?” Me abraça, meu bem! Me
MARIDO DA VELHA: Ô, senhor, e agora? Esse cara não
aparece mais para a gente destrocar!
Depois de muito tempo, o outro homem aparecia
com a velha.
MARIDO DA VELHA: Ei, devolve minha mulher. Vamos
desfazer o trato!
MARIDO DA BONITONA: Não, não faz! Não faz! Eu
posso lhe propor outra coisa.
beija, meu bem!
MARIDO DA VELHA: O quê?
Nada da mulher bonita responder ou atender aos pe-
MARIDO DA BONITONA: Eu quero as duas mulheres.
didos. Quando o dono da festa viu a situação...
Então, o senhor me vende a minha de volta.
DONO DA FESTA: Senhor, você foi enganado! Eu não
MARIDO DA VELHA: É muito dinheiro?
lhe disse para o senhor ficar com a sua mulher? Você
estava tão acostumadinho com sua mulher! É, agora
você foi enganado!
MARIDO DA VELHA: Fui, senhor?
DONA DA FESTA: Foi!
92
Comédias
MARIDO DA BONITONA: Sim. Olha o sacão aqui.
Eles então fecharam o negócio. O marido da velha
devolveu a mulher bonita e pegou o saco de dinheiro. Mas quando ele abriu, não encontrou dinheiro,
mas um veado dentro.
Panada de facão
Por Carlos Augusto dos Santos (Pilola)
U
m cara saía para trabalhar e deixava a mulher
em casa. Depois que ele saía, ela botava outro
dentro de casa e ficava namorando. Os vizinhos todos tentavam avisá-lo, mas ele não acreditava!
Mas, quando foi um dia, ele começou a desconfiar.
Então, ele inventou de se vestir com a roupa da esposa e ficava em casa esperando pelo amante. Quando
MARIDO TRAVESTIDO: Não.
AMANTE: Ô, meu bem. Me faz um carinho...
O marido travestido, então, acariciava e alimentava
o amante, dando-lhe do bom e do melhor. Depois
que lanchava, o amante dormia e o marido trocava
de roupa. Se vestindo de homem, o marido acordava
o cara chegava, ia direto acarinhar a mulher.
o amante.
AMANTE: Meu amor!
MARIDO TRAVESTIDO: Você não está conhecendo
Mas nada de a mulher retribuir ou responder.
AMANTE: Me dá um beijo, meu bem!
esta pessoa?
O marido se referia a um facão, com o qual encheu o
amante de panadas.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
93
Santo amante
Por Roberval Silva (Legário, Rubico)
U
m cara tinha uma mulher. A mulher tinha um
MARIDO: Mas rapaz, esse santo é muito grande...
amante, que ela inventou que era um santo.
O cara saía para trabalhar, deixava a esposa em casa
e logo o santo chegava lá e ficava com ela. Um dia,
quando o marido voltou, achou a mulher dele ajeitando a cara do santo com muito carinho. E o santo
ficava paradinho, sem fazer nada.
MULHER: Marido, passou um santeiro aí trocando
coisas. Eu troquei porque eu sempre tive vontade de
ter um santo!
MULHER: Não, mas eu queria um santo grande. Santinho não faz milagre. Eu quero é santo grande. Eu
quero é santo grande meeeesmo. Santo grande é que
eu quero.
O marido inventava então de rezar para o santo. Oferecia prece para esse santo, acendia uma vela e a
levava bem pertinho da venta do santo. Nessa hora,
o santo corria de lá e o marido descobria que não
era nada de santo, mas um homem que estava com
a mulher.
94
Comédias
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
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Olhinhos acesos
Por Herbert Mafra Reis (Betinho)
E
u tinha uma mulher, e essa mulher se envolveu
E ela agarrava um pau e vinha... Ela queria entrar no
com outro homem. Mas eu não a abandonava.
galinheiro! E ela entrava no galinheiro para matar a mu-
Para onde eu ia, eu a levava. A gente ia se esconder
cura do homem. E paulada nela! E ela gritava para mim.
do amante dela, mas, quando a gente chegava lá, ele
MULHER: Alumeia, alumeia!
lá estava! Então, eu ia para outra fazenda. O dono
da fazenda me dava um lugar para eu fazer minha
casa. Como eu gostava de criar galinha, eu fiz um
galinheiro.
E eu alumiando. E ela gritava mais alto.
MULHER: Alumeia, alumeia!!!
E eu ouvia um “fuc, fuc”. Daqui a pouco, ela gritava
MARIDO: Aqui eu estou sossegado!
com a voz mais cansada.
Nós colocávamos os frangos lá dentro e colocávamos
MULHER: Alumeia, alumeia, alumeia, alumeia.
uma coberta. Mas o cara descobriu onde a gente estava. Quando era à noite, eu levantava, e no galinheiro as galinhas estavam: cocó, có, có!
MULHER: Meu amor, cuida que entraram no galinheiro! Vamos lá!
MARIDO: Mas espera aí, como é que tu entras em
uma afobação de “alumeia, alumeia” e agora tu estás
gritando devagar “alumeia, alumeia”?
MULHER: É porque eu estou cansada!
MARIDO: Isso não é coisa de cansaço, isso é coisa de
amor! Não sei com quem é, mas é amor!
MULHER: Que amor, tu és doido?
96
Comédias
MARIDO: Eu vou te prometer que esta mucura não vai
MARIDO: Oras, porque toda hora esta mucura está
entrar aí! Tu não vais mais nessa luta de “alumeia,
aqui no galinheiro! E vem cá, eu estou olhando um
alumeia”. E eu aqui, já desesperado para “alumiar”
buraco aqui no galinheiro, aqui por trás e estou ven-
e com medo de tu estar dando de pau naquele can-
do, assim... O que foi isso?
deeiro e atrapalhar a nossa vida! Podia um caco de
vidro se quebrar e isto eu não quero ver!
MULHER: Ainda bem que tu me amas, hein?!
MULHER: Eu não sei. Não és tu que já está trilhando
com tua saliência?
MARIDO: Não, não é! Agora a galinha vai dormir no
MARIDO: E bem muito!
poleiro!
Mas não estava bem não. Na hora que estava fazendo
Eu botava a galinha no poleiro e, depois de desfazer
aquilo, eu estava desconfiado! A gente voltava para
o galinheiro, eu ia pescar.
se deitar.
MARIDO: Eu vou te prometer, amanhã eu vou te mostrar que a gente não vai mais atrás desta mucura!
MARIDO: Olha, hoje eu vou pescar.
Ia pescar e ela ficava em casa. E o cara ia para lá.
Perguntava para ela que horas eu chegava e ia para
Quando era de manhã, eu espantava e ia desmanchar
lá! Eu chegava, escamava o peixe e ele estava lá se
o galinheiro.
escondendo debaixo da mesa. Depois que aprontava
MULHER: Ué, por que é que tu estás desmanchando
o galinheiro?
o de comer, ela botava o molho no prato. E o cara
escondido debaixo da mesa.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
97
MULHER: Ah, me esqueci de um negócio. Vou buscar
ali na sala!
Aí o pequeno dizia assim mesmo:
FILHO: Olha, papai foi pescar e pegou três peixinhos,
um para mim, um para papai e um para mamãe. E tu,
de “olhinho aceso”?
Que era o cara que estava debaixo da mesa...
MARIDO: Meu bem, tem “olhinho aceso” onde?
MULHER: Isso não é cachorro?
Eu erguia o prato e, quando ele vinha, se levantava, levando a mesa para cima, quebrando meu prato, tudo!
MARIDO: Eu não te disse que eu te pegava?
Eu pegava um caco de prato para meter nele e ele ia
saindo daqui para lá com a roupa de um lado, num
braço, e o chinelo, do outro. Ela vinha entrando e ele
dava aquela peitada nela. Ela caía e eu ia chegando
98
Comédias
para ver se agarrava, ia me atrapalhando, assim, por
cima dela e caía lá. Quando eu me levantava, não
aguentava... Ela estava morta! Aí eu começava a lutar
com ela.
MARIDO: Levanta-te!
Ela espantava, mas ainda ficava ali.
MARIDO: Espera aí, deixa eu fazer uma respiração
boca a boca!
MULHER: Não, eu já estou melhor!
MARIDO: Mas se fosse os “olhinhos acesos” tu querias, não é?
MULHER: Olha, não me leva a mal!
MARIDO: Heim heim! Eu não levo a mal, mas minha
cabeça está pesada e eu vou embora! Vou levar só
duas roupas do corpo!
MARIDO: Fica com teus “olhinhos acesos”!
Então eu ia dizer para o dono da fazenda o que tinha
acontecido, que eu já ia embora e ia me despedir dele.
DONO DA FAZENDA: Senhor, não faça isso! É porque o
senhor está com a cabeça quente!
MARIDO: Não é só quente, senhor! É pesada!
DONO DA FAZENDA: Então, fique com sua mulher! Isso
aí acontece com todo mundo!
MARIDO: Já aconteceu com você?
DONO DA FAZENDA: Não!
MARIDO: E se acontecer, você fica com ela, com a sua?
DONO DA FAZENDA: Fico!
MARIDO: O senhor pode se acostumar, mas eu não! Ela
que fique aqui!
Botava em uma sacolinha e saía.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
99
O vendedor de caranguejo
Por João Vieira (Zió)
T
inha um homem chamado Cururuca. Ninguém
Chegando lá, só viram a mulher dele.
sabia o nome verdadeiro dele. Cururuca era bom
CLIENTE: Cadê Cururuca?
tirador de caranguejo, pegava siri para vender. Mas,
se pagasse a ele antecipado para tirar, ele não ia, ele
se escondia.
Um dia, um cliente encomendou para ele caranguejo,
peixe e outras coisas, pagando adiantado. Ele não
fez o serviço e ficou sumido durante dias e dias. O
homem se chateou e convidou uns companheiros
para procurarem pelo vendedor na casa dele.
CLIENTE: Rapaz, o que tiver lá a gente leva, porque
ele está devendo à gente.
COMPANHEIRO 1: Está certo.
MULHER: Saiu.
Ela respondia com a porta fechada, ela não abria
a porta.
CLIENTE: Nós viemos conversar com ele...
MULHER: Ele não está.
O homem fez que foi embora com os colegas, mas
todos ficaram escondidos espiando o movimento
da casa. Quando a mulher de Cururuca abriu a porta de
casa, eles entraram.
CLIENTE: Ah, não! Agora ele vai pagar!
MULHER: Como assim?
100
Comédias
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
101
Enquanto o cliente e a mulher do tirador de carangue-
com o outro, lavaria os pratos. Ele estava de longe,
jos discutiam, os companheiros estavam vasculhan-
olhando os outros mexerem nas coisas dele, resmun-
do a casa. Um mirava se a mulher era bonita. O outro
gando, mas sem poder falar.
mirava o que tinha na panela e nos pratos. E iam indagando sobre o que tinha de valor na casa.
COMPANHEIRO 1: Tem farinha?
COMPANHEIRO 2: Rapaz, não leva as coisas. Leva
a mulher!
Ah, quando ele disse “leva a mulher”, Cururuca não
COMPANHEIRO 2: Tem feijão?
se aguentou.
MULHER: Não, não tem arroz, não tem farinha, não
CURURUCA: Não! Levar a mulher, não.
tem feijão. Não tem nada!
COMPANHEIRO 1: Então, rapaz, a gente leva a mesa,
as cadeiras.
O tirador de caranguejo tinha brigado com a mulher
e tinham apostado que quem falasse primeiro um
102
Comédias
O vendedor de caranguejo pagou os homens e ainda
lavou os pratos.
O menino órfão
Por Valdemar Piedade Pereira (Caçador)
O
vaqueiro entrava para tomar conta do boi e da
fazenda... E lá tinha um menino órfão, que não
tinha pai, não tinha mãe. Esse menino, que era fa-
DONO DA FAZENDA: Cadê teus pais?
MENINO: Eu não tenho pai. Eu não tenho mãe.
zendeiro, olhou essa fazenda com o gado pulando,
DONO DA FAZENDA: É mentira, né?
brincando e pediu uma vaga para trabalhar. Então,
VAQUEIRO: Ê, siô, ele está desempregado, é menino.
um vaqueiro foi falar com o dono da fazenda.
Então, bota ele para trabalhar na fazenda.
VAQUEIRO: Olha chefe, esse menino quer trabalhar.
DONO DA FAZENDA: Então tá. Rapaz, tu vais tirar o
DONO DA FAZENDA: Rapaz, para que é que tu vais
de comer para o gado.
botar um menino desses para trabalhar? Tu não sa-
Quando o boi começava a correr, ia para lá, ia para
bes que menino não pode trabalhar nessa idade?
acolá... O boi dava uma cabeçada no menino, que
Aqui tem muito boi, muito bicho pesado, pode matar
caía, levantava e ia falar com o chefe.
esse pequeno, e aí?
MENINO: Chefe, o seu boi me bateu! Chefe, o seu boi
VAQUEIRO: Meu filho, de onde tu és?
me bateu!
MENINO: Sou de tal lugar.
DONO DA FAZENDA: Meu filho, eu não disse que tu
não podes ficar aqui?
MENINOS: O seu boi me bateu. E agora? Eu tô quebrado, eu tô quebrado.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
103
O cabeceira cantava.
Menino, menino, tu procura o teu destino
Que eu não gosto de ver criança sem ter domínio
Menino, menino, tu procura o teu destino
Que eu não gosto de ver criança sem ter domínio
De repente aparece um desatino
Culpados são os teus pais
Porque não te deram ensino.
O menino respondia.
MENINO: O senhor não vai pagar, não? O senhor
não vai pagar, não? Se o senhor não vai pagar, eu
vou embora.
104
Comédias
Nessas alturas, o menino já saía levando o boizinho com ele. Quando iam procurar por ele, chegavam a mãe e o pai do menino. Eles chegavam à fazenda perguntando.
PAI DO MENINO: Aqui não passou um menino, assim,
assim, assim?
VAQUEIRO: Passou um menino aqui, ele trabalhou na
fazenda, mas o meu patrão despachou ele.
MÃE DO MENINO: E para onde é que ele foi?
VAQUEIRO: Não sei.
Os pais partiam para cima do cabeceira, para o cabeceira pagar uma indenização do filho que desapareceu.
Miruíra
Por Arlindo Trindade
U
m homem estava a caminho de sua roça após ter
O agricultor volta para a roça, quando encontra pelo
a autorização do fazendeiro para plantar mani-
caminho Miruíra caído para um lado, feixe de mani-
va. Ele e a família roçaram o terreno. Quando eles
terminaram, esperaram e esperaram pelo camarada
que ficou de ir plantar a maniva, que não apareceu.
AGRICULTOR: Ê, chefe. Acho que vou parar com o
serviço um mucadinho.
FAZENDEIRO: Por quê?!
AGRICULTOR: Porque o melhor trabalhador daqui do
serviço não apareceu hoje.
FAZENDEIRO: E o que foi?!
AGRICULTOR: Ele ficou para trás...
FAZENDEIRO: Quem é ele?!
AGRICULTOR: O nome dele é Miruíra, siô.
FAZENDEIRO: Eu vou atrás dele!
va, para o outro.
MIRUÍRA (delirando): Eu quero manga azeda. Eu quero comer uma surulina. Eu quero uma tiquara...
AGRICULTOR (para o fazendeiro): Siô! Eu vim lhe dizer que o pequeno está um mucado aceleradão lá no
mato. Não tem nenhum curador ou um médico bom
por aqui?
FAZENDEIRO: Siô, vai chegar um curador bom aqui na
fazenda agora...
O curador chega e se atualiza da situação.
CURADOR: Rapaz, eu sou muito perigoso. Vai buscar
esse pequeno para mim!
O agricultor foi buscar Miruíra, que veio puxado por
uma corda amarrada na cintura, se apresentando saltitante no recinto. O curador o examina bem e logo
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
105
106
Comédias
depois começa a sacudir o maracá sobre a cabeça do
Com muito cuidado, o curador vai erguendo o
doente, que se tremelica.
paletó de Miruíra e todos avistam um enorme
CURADOR: Rapaz, o pequeno está carregadíssimo.
Tá brabo!
AGRICULTOR: E o senhor dá conta de fazer o serviço
de curá-lo?
CURADOR: Rapaz, eu vou experimentar.
O curador começa a entoar uma cantiga de pajé e
todo mundo sapateia.
AGRICULTOR: Como é? O que o senhor me diz? O que
é a doença do pequeno?
CURADOR: Siô, a doença do pequeno é só ela!
AGRICULTOR: Só ela?!
bicho-preguiça.
AGRICULTOR: Credo! É tu que estás matando o meu
trabalhador?! Espera aí!
O agricultor, então, puxa um cinto de couro de dentro do bolso e com ele começa a bater nas costas de
Miruíra, na tentativa de expulsar a preguiça.
AGRICULTOR: Chefe, o senhor sabe o que eu vou
lhe dizer? À vista desse bicho ter aparecido em meu
trabalhador, de repente, esse mal pode passar para
mim. Se eu ficar desesperado, eu vou embora. O senhor me dá licença de eu tirar pra fora daqui e me
faz o favor de levar até no meio de viagem? Eu não
quero mais ficar aqui na fazenda.
CURADOR: É... Ele está com uma coisa grande pesando nas suas costas. É só ela que está matando
esse moço!
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
107
Abi
Por Arlindo Trindade
U
m pescador estava há muito tempo sem opção
de fisgar nada, quando soube que nos campos
da fazenda São Francisco estava dando muito peixe
no mês de dezembro. O homem então planejou uma
viagem com uns companheiros e a família para irem
pescar nessas lagoas. Eles arrumaram socó e caba-
BOIADEIRO: Vai? E esse jumento?
PESCADOR: Esse animal que eu vou levando, ele é
meio espoletado, mas vai uma criança montada para
não se judiar muito com viagem. É meu filho. O nome
dele é Abi.
ças no jumento e seguiram. Após dias de viagem, no
BOIADEIRO: Abi?
meio do caminho, encontraram uma boiada grande.
PESCADOR: É, estou lhe dizendo que esse jumen-
PESCADOR: Bom dia, senhor. Queria pedir uma licen-
to é meio espoletado, siô! De vez em quando, ele
ça para meu povo e eu passarmos...
BOIADEIRO: E quando você veio?
PESCADOR: Eu ainda vou...
começa a rinchar e querer dar coice e o pequeno,
A... bi, no chão. Aí a gente botou logo o nome da
criança de Abi.
Permissão dada, o pescador seguiu viagem com familiares e amigos rumo às lagoas. Lá pescaram o mais
que puderam por dias e dias. Muito satisfeitos com
108
Comédias
os resultados, o pescador retorna com sua turma, to-
PESCADOR: Então, você não está vendo, siô, que isso
dos com os cofos amarrados na garupa do jumento e
é um desaforo?! Você, atravessado na estrada que eu
cheios de peixe, quando encontram novamente com
vou passar, e esse jerico pisunhou meu peixe todo!
o boiadeiro e sua boiada no meio do caminho.
Olha como está aqui, só o cofo de espinha de peixe,
PESCADOR: Siô! Agora eu quero para você fazer o
favor de se aquietar com a sua turma. Ainda levo uns
peixes bem frescos.
que já desmanchou a carne todinha, rapaz!
BOIADEIRO: Ô, siô, me desculpe...
PESCADOR: Felizmente, siô, eu só não lhe faço uma
Atendendo ao pedido, o boiadeiro afastou seus bois
desfeita tão grande agora porque eu não gosto de
só o suficiente para os pescadores passarem em fila
me prevalecer dos outros!
indiana. Quando, de repente, o jumento se assustou
com o berro de um bezerro da manada, derrubando
e pisoteando toda a carga de peixes. Mesmo sabendo
E o pescador sai com sua turma puxando o jumento
e roubando o boi.
que parte dos peixes já estava se estragando, o pescador mostrou sua indignação.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
109
Cururuca
Por Herbeth Mafra Reis (Betinho) e Antônio Vieira (Bezerra)
V
inha um vendedor de peixe.
PEIXEIRO: Olha o baiacu! Olha a arraia, freguesa!
Tá fresquinho!
Um conhecido dele, Cururuca, via o movimento e puxou assunto.
Assim foi feito. O peixeiro ia anunciando e vendendo
o peixe, e Cururuca, recebendo os pagamentos dos
fregueses que eram vaqueiros, turcos, fazendeiros.
O estoque de peixe foi baixando e o peixeiro foi percebendo que Cururuca estava se esquivando do serviço, sendo preciso o peixeiro lhe chamar a atenção.
CURURUCA: O senhor está aí na lida do peixe?
PEIXEIRO: Cururuca, presta atenção no serviço, ra-
PEIXEIRO: Estou! O que tu estás fazendo por aí?
paz! Tu estás vendo peixe diminuindo e já está cain-
CURURUCA: Não, só estou por aqui também, ué!
PEIXEIRO: Sei...
CURURUCA: O senhor não quer que eu lhe ajude? Enquanto o senhor está vendendo este peixe, eu poderia ir recebendo o dinheiro...
PEIXEIRO: Não! O peixe é meu, quem recebe o dinheiro sou eu! Mas, pensando bem... Tu és pequenininho. Se tu te fizeres de besta, eu te dou uns dois pescoções. Então está certo! Eu vou. Fica aí recebendo o
dinheiro e eu vou te levando nas casas e vendendo.
110
Comédias
do fora. Tu já estás com safadeza!
Cururuca se prontificou no seu posto novamente e
continuaram a fazer as vendas. Quando terminaram,
foram fazer as contas.
PEIXEIRO: Cururuca, vamos conferir o dinheiro.
Mas Cururuca deu no pé, fugindo com o dinheiro. O
pescador correu atrás até que o agarrou, dando-lhe
muitos pescoções. Só não o matou porque os vaqueiros chegaram e apartaram a briga.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
111
O negociante ladrão
Por Valdemar Piedade Pereira (Caçador)
E
ram uns ladrões negociantes que queriam nego-
O cara não comprava nada. Os negociantes insistiam,
ciar o que não tinham com aquilo que o dono da
ficavam rondando a fazenda, até que inventaram que
fazenda tinha. Porque este tinha muito e eles não
o boi era brabo e tinha bazugado eles, tinha machu-
tinham nada.
cado eles. Fizeram um falatório com o dono da fa-
Então, eles queriam o boi da fazenda e iam tentar
negociar com um passarinho.
zenda e, nessa confusão, os passarinhos acabaram se
soltando. Enquanto isso, um dos negociantes pegava
o boi e escapava com ele. O dono da fazenda manda-
NEGOCIANTE: Senhor, eu tô vendendo passarinho, eu
va o vaqueiro campear e procurar o boi. O vaqueiro
tô vendendo passarinho... Quer comprar? Olha, tem
campeava e voltava dizendo pro patrão que não tinha
guriatã, tem sabiá da mata...
encontrado nada.
DONO DA FAZENDA: Aqui não tem nada pra se fazer
com isso, aqui só se trabalha com gado.
Há quinze anos que eu sou vaqueiro empregado
Trabalho tanto e não tenho resultado
Trabalho tanto e não tenho resultado
Agora vou dizer pra meu patrão,
Que nosso boi foi roubado
Que nosso boi foi roubado
112
Comédias
VAQUEIRO: Patrão, ele já levou o boi.
DONO DA FAZENDA: E quem foi que pegou?
VAQUEIRO: Ah, foi aquele moço.
DONO DA FAZENDA: Vai buscar de novo...
O fazendeiro mandou o vaqueiro ir atrás do cidadão
e com ele foram os tapuios, para ajudar.
Depois que encontraram o cidadão que roubou o boi,
os tapuios lhe deram voz de prisão e o trouxeram
E o preso corria pra lá e cá, tentando se defender, e
cantando.
Ê tapuio, devagar
Ê tapuio, devagar
Senão eu me espalho
Mato tudo e não vou lá
Senão eu me espalho
Mato tudo e não vou lá
empurrado à flecha. Para obrigar o camarada a pagar, meteram-lhe o chicote.
TAPUIOS: Nego tem que pagar!
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
113
114
Comédias
O bêbado e o dentista
Por Valdemar Piedade Pereira (Caçador)
O
doutor chega todo vestido de branco, porque é
BÊBADO: Aaaaaaaaaaiiiiiiii... Não faça isso, não, não
o doutor, e monta a sua banca. Então, manda
faz mais, não!
anunciar na fazenda que tinha chegado um doutor
cirurgião.
O primeiro que vem, chega com a mão no queixo e,
DOUTOR: Abra a boca, siô!
O doutor vai dar-lhe uma injeção.
bebinho, passa o pé na cadeira do doutor, derruban-
BÊBADO: Ai! Ai! Ai!
do o dentista com a cadeira, com tudo. O doutor se
Então, o doutor chamou duas enfermeiras que o au-
levanta e pergunta:
xiliavam. Elas pegaram o bêbado, o botaram sentado
DOUTOR: O que foi?
e amarrado na cadeira.
BÊBADO: Siô, eu estou doido de dor, que eu estou
DOUTOR: Agora nós vamos arrancar o dente, arran-
ceguinho.
car mesmo!
DOUTOR: Eu estou vendo que tu está cego, tu me
Quando o doutor botou a agulha pra arrancar o dente,
derrubou... Derrubou até a minha cadeira.
O doutor chegou perto para botar a mão na boca
do bêbado.
o bêbado se revira na cadeira. A cadeira saindo, e o bêbado, se revirando. Quando ele ia lá na frente, ele diz:
BÊBADO: Doutor, até logo. Muito obrigado, eu estou bonzinho!
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
115
O caçador
Por Valdemar Piedade Pereira (Caçador)
C
hapeuzinho Vermelho ia levar a comida da vo-
çador aparecia, metia bala no lobo mau e salvava a
vozinha. Ela ia na estrada, viajando e cantando.
Chapeuzinho Vermelho. Então, o caçador vinha com
O lobo mau, que já tinha batido na porta da casa da
avó e a devorado, estava lá deitado, como se fosse
o dono da casa, esperando por quem fosse lá para
ele também devorar. Quando a Chapeuzinho Verme-
ela, a entregava para o pai dela.
PAI: Cadê o lobo?
CAÇADOR: O lobo está morto.
lho chegava e batia na porta, ele respondia com uma
voz rouca.
Eles voltavam, pegavam o lobo pelas pernas e o botavam no meio do terreiro, para mostrar que tinham
LOBO MAU: Ô, minha filha.
CHAPEUZINHO VERMELHO: Vovó, é a Chapeuzinho.
LOBO MAU: Eu estou rouca... Entra!
Ela entrava. Quando se espantava, o lobo queria abocanhá-la. Nisso, ela gritava. Quando ela gritava, o ca-
matado o lobo mau. Mas o pai de Chapeuzinho Vermelho, como eles não lhe pagaram pelo que foi feito
com filha dele, levava embora o boi da fazenda.
Então, os empregados da fazenda mandavam os índios buscarem o pai de Chapeuzinho, que ia preso.
Quando os índios voltavam, o entregavam para o
dono do boi e o botavam no pau. Se ele não pagasse
o boi, o caçador tinha que atirar nele. Chamavam a
Mãe Catirina, que vinha e pagava o boi.
116
Comédias
Vendedora boa
Por Arlindo Trindade
U
m casal tinha uma quitanda e nesse lugar chega um homem para fazer compras. A mulher do
dono do comércio foi atender ao cliente e acabou se
engraçando do homem. Quando o dono do comércio
percebeu, a esposa estava aos beijos com o cliente.
COMERCIANTE: Tá bom, Sempreminha. Assim que tu
tá, não é? Está tudo bem?
Disfarçando, enquanto o cliente escapulia, Sempreminha respondia.
SEMPREMINHA: Está tudo bem. Tudo ótimo!
COMERCIANTE: Está vendendo direitinho?
SEMPREMINHA: Credo! Já vendi tudo o que tinha. E
atendi bem o cliente, como tu mandaste!
COMERCIANTE: Olha, eu te disse para vender tudo
que tem, mas não para tu te vender!
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
117
118
Comédias
Culhote
Por Valter Silva (Caburé)
A
rrupiado bota a filha para estudar em Cururupu.
ARRUPIADO: Culhote? Está tudo bem. Como eu posso
O nome dela é Cuca. Enquanto ela está estudan-
falar com ele?
do, chega um camarada muito bonitão para namorar
com ela. O nome dele é Culhote.
CUCA: Ah papai, ele é vendedor ambulante, tem esse
negócio de confecção.
ARRUPIADO: Minha filha, tudo bem?
ARRUPIADO: Qual é teu compromisso com ele? É de
CUCA: Tudo bem. Agora papai, eu estou gestante.
casar?
ARRUPIADO: Gestante!? Ah, minha filha, eu te botei
CUCA: Ah papai, só falando com ele.
para estudar e tu estás gestante?
ARRUPIADO: Eu quero falar com ele!
CUCA: Ah papai, estou gestante.
CUCA: Ele vai chegar amanhã.
ARRUPIADO: E de quem é?
ARRUPIADO: Amanhã? Então pode aguardar. Eu venho
CUCA: O nome dele é Culhote.
aqui amanhã.
Arrupiado chegou lá com um guarda-costas, e Culhote
estava no colo de Cuca. “Rrrrrrrrrrrrrr.”
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
119
Culhote estava ressonando quando o guarda-costas lhe
ARRUPIADO: Ô rapaz, aqui no Brasil a gente casa. Eu bo-
algemou o pé e a mão.
tei minha filha no colégio para estudar e ela já está ges-
ARRUPIADO: Eh, Culhote! Eh, Culhote!
CULHOTE: Aaahhh, é Cuca?
tante! Tu vais embora, eu não sei se tu ainda voltas...
Assim como tu fez a minha filha gordinha, eu vou fazer
tu chegar lá nos teus exterior bem gordinho também.
CUCA: Não, é meu pai que quer falar contigo.
E Arrupiado parte para cima para castrar ele, capar ele.
ARRUPIADO: Rapaz, qual é a tua finalidade mais minha
CULHOTE: Ai, ai, ai. Ai, ai, ai, não. Peraí.
filha?
CULHOTE: Ela já está se sentindo gestante, mas eu não
moro no Brasil, eu moro no exterior.
120
Comédias
Pá, pá, pá! Era o machado capando o Culhote!
Médico do mato
Por Eleutério Silva (Loló)
U
m médico chegou ao interior e pediu à diretora
Apareceu uma menina que estava em uma situação
da escola que ela cedesse a quadra para que ele
difícil. Ela se jogava, gritava... Todo mundo vendo
pudesse montar seu consultório.
aquilo com pena.
MÉDICO: Minha senhora, aqui tem muita gente do-
MÉDICO: É. Você está ruim. Está muito mal.
ente. O povo está precisando de saúde. Me empreste
esse espaço que é muita gente para atender e uma
sala pequena não dá conta.
Resposta positiva, logo o médico partiu para arrumar
o seu local de trabalho e fez uma clínica. Depois de
tudo pronto, convocou enfermeiros e outros médicos
para trabalhar.
MÉDICO: Pode entrar o primeiro paciente da fila.
O médico chegava para curá-la, mas ela só gritava, se
jogava no chão. Até que ele falava.
MÉDICO: Seu caso não é para médico de medicina e
sim para médico do mato.
Nessa hora aparecia um pajé e ele dizia que ela estava era enfeitiçada. O pajé fazia o trabalho rapidinho.
Ele batia, ele fazia, ele cantava, se jogava, e a moça
ficou boa.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
121
O retrato da velha
Por Arcângelo Reis (Arcanjo)
U
m homem chegou a uma repartição e pediu para
hora que iam bater o retrato, a máquina fotográfica
aposentarem a avó dele.
acendia, a velha se assustava, caindo desmaiada.
ATENDENTE: Senhor, não é aqui. É no sindicato rural!
O neto, então, se dirigia ao sindicato rural para falar
com outro rapaz. O neto ia com um amigo, que o ajudava a levar a velha. Chegando lá, souberam que era
preciso tirar retrato da senhora para aposentá-la. Na
NETO: Senhor, minha avó desmaiou e caiu. Me ajude
a levantá-la!
FOTÓGRAFO: Senhor, a sua avó já está morta.
NETO: Não, não pode ser.
Desesperado, o neto saiu para chamar o irmão. Quando voltaram, a velha morta já estava sendo comida
por um urubu.
122
Comédias
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
123
Lição para o senador
Por Herbert Mafra Reis (Betinho)
O
colega chegou na casa do outro e o chamou para
PAI DO MENINO ESPECIAL: E por que é que a senhora
fazer a aposentadoria do seu filho especial.
procura ganhar mais de um salário mínimo? A senho-
COLEGA: Olha, tem uma pessoa do INSS aí, vamos
levar teu filho lá para ela aposentar ele!
O pai do menino especial, animadão, pegou os documentos e, quando chegou lá, a mulher foi entrevistá-lo.
FUNCIONÁRIA DO INSS: O senhor é aposentado?
PAI DO MENINO ESPECIAL: Sou.
FUNCIONÁRIA DO INSS: Quanto é seu salário?
ra tem dez filhos?
FUNCIONÁRIA DO INSS: Não!
PAI DO MENINO ESPECIAL: Então, como é que eu, com
um salário mínimo, vou sustentar cinco e a senhora
está ganhando cinco salários e a senhora está dizendo que tem só um?
O pai sai revoltado de lá e vai passar num lugar, que
dizem que tinha um senador que morava lá. Quando
PAI DO MENINO ESPECIAL: Meu salário é um salá-
chega lá, vê uns colegas do senador, todos de terno,
rio mínimo.
engravatados, de luva na mão e duas panelas... O pai
FUNCIONÁRIA DO INSS: Você não pode aposentar o ra-
encosta para falar com eles, já de cabeça quente.
paz, porque seu salário dá para sustentar cinco filhos.
PAI DO MENINO ESPECIAL: Para onde vocês vão?
124
Comédias
COLEGAS DO SENADOR: Vamos botar esse resto de
Foram lá onde o homem estava, e ele foi fazer um
comida ali no lixeiro.
unguento. Fez de folha de mato, uma porção de fo-
PAI DO MENINO ESPECIAL: E por que é que vocês não
chamam os pobres e entregam?
COLEGAS DO SENADOR: Não, o senador não quer que
entregue, quer que bote lá!
O pai fica com raiva e começa a falar, falar... Nisso,
lha de mato!
PAI DO MENINO ESPECIAL: Agora me dá o fumo de
corda daí!
Botou na boca e começou a mascar e cuspir dentro
do unguento que tinha feito.
o filho do senador vem correndo com um revólver
PAI DO MENINO ESPECIAL: Leva aí e dá para ele. Com
atrás do sujeito e, beira aqui, beira acolá, ele ganha o
quinze dias eu vou lá acabar de curar ele para ele
cerrado, mas era só pé de eucalipto. Na perseguição,
também curar outro. Mas não digam o que vocês vi-
o filho do senador mete o pé no eucalipto. Então,
ram aqui, porque senão cobra vai matar ele! Ele não
uma cobra o morde e ele fica ruinzão. Não tinha nin-
tem que saber!
guém que botasse ele bom. Deram a informação que
aquele homem que ele tinha perseguido sabia curar
mordida de cobra.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
125
Levavam o unguento, davam e ficavam com nojo da-
Ele subia por cima de uma mesa e o homem pegava
quilo. Quando o homem ia para curar ele, levava uma
uma seringa. Quando o pai do menino ia dar uma
cabaça e mandava botar umas cobras, dessas que
injeção nele, ele já estava todo mijado!
não crescem muito e que chamam pinta de cascavel.
Tinha só uma cascavel. Ele soltava as cobras.
FILHO DO SENADOR: Não faça isso!
PAI DO MENINO ESPECIAL: Olha meu filho, agora eu
Já estava também todo sujo.
vou botar as cobras aqui e uma delas vai lhe morder
para poder curar... Aquela que te mordeu, ela que vai
te morder!
FILHO DO SENADOR: Não me cure!
PAI DO MENINO ESPECIAL: Se eu não te curar, cobra
vai te matar!
FILHO DO SENADOR: Não me cure!
126
Comédias
PAI DO MENINO ESPECIAL: Senta aí!
FILHO DO SENADOR: Mas eu já estou com o cu todo
empastado!
PAI DO MENINO ESPECIAL: Agora que danou-se, mas
nós vamos fazer uma coisa! Tu vais agarrar em mim,
ela vai me morder e eu vou te morder. Assim dá!
Quando ele agarrava assim no homem, ficava to-
SENADOR: Está aqui!
do tremendo.
PAI DO MENINO ESPECIAL: Não, pegue seu filho aí e
PAI DO MENINO ESPECIAL: Acomoda, acomoda, que
o senhor também! Entrem no carro! Eles entravam no
o veneno da cobra fica em mim! Te acomoda, que
carro e iam todos lá onde ele botava o comer no lixo.
tu não estás com beribéri! Eu cheguei e tu estavas
bonzinho, doido!
PAI DO MENINO ESPECIAL: Agora entregue o dinheiro para esses daqui, que o senhor manda juntar o
Ele se acomodava e o homem sentava pertinho dele.
comer do chão! Na hora de votar, o senhor está ca-
A cobra chegava, agarrava no homem e ele curava o
rinhoso e depois manda botar o comer para eles no
rapaz! Quando terminasse, eles iam pagar o serviço.
chão! Dê o dinheiro para eles!
O senador procurava quanto era.
E ele ia dividindo o dinheiro! E o filho ficou tão doído
PAI DO MENINO ESPECIAL: Senhor, eu quero dois mi-
daquilo, largou o pai e foi viver no meio deles!
lhões de cruzeiros pela vida do seu filho!
Ele vinha com aquela maleta cheia de dinheiro.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
127
Palhaços do boi
Antônio Vieira (Bezerra)
Nasceu em 1933, no povoado de Santaninha, Cedral, onde vive
até hoje. Aposentado, ainda trabalha na lavoura.
Sou natural de Cedral, povoado de Santaninha. Tenho oitenta e uma quebrada. Uma vez, teve um pastor de igreja
evangélica que veio da cidade e o nome dele era Antônio
Bezerra. Meu nome também era Antônio. Lá me botaram
Antônio Bezerra, Bezerra ficou. Se chamassem Antônio,
quando eu estava brincando boi, eu não respondia. Se chamassem Bezerra, “êpa! É eu mesmo!”
Eu brinquei um boizinho de criança, um boi de cofo! Fazia o boi com o cofo e enfeitava com uma florzinha amarelinha. Ficava bem enfeitadinho. A zabumba era um cacete
de embira que amarrava e botava a zabumba para bater.
Desse boi de cofo é que eu comecei a brincar boi de palhaço. Era todo ano. O finado Elecride, que era cantor, fazia
a brincadeira no povoado do Anajá. Eu estava com quinze
anos quando peguei a me ajeitar, comprar roupa para me
vestir. Brincava na escola de samba, no tambor de crioula
130
Palhaços do boi
e no boi. Boi era todo ano, e eles não me deixavam sem
que foi o último boi em que brinquei. Nesses bois a gente
brincar. Quem brinca desde os quinze até oitenta e fração
não fazia palhaçada. E eu tinha pensado que faria. Então,
já brincou um bocado.
eu não quis mais brincar boi de palhaço e peguei a brincar
de chapéu. Eu me engracei do chapéu e rolava. Para rolar,
Matança, para nós, não tinha hora. Nós fazíamos a ma-
ninguém me ganhava! Nessa época, eu brincava no boi de
tança com o rapaz metido dentro daquela vestimenta de
Terezinha, mas eu não podia subir no ônibus com a trou-
Palmira. As minhas caretas, eu fazia. Eram de pano e eu
xa em que carregava o chapéu. Na hora que eu agarrava
mesmo costurava. Qualquer pedaço de pano, perna de
o chapéu para entrar no ônibus, vinham me ajudar! Eles
calça comprida, eu cortava, amarrava em cima, deixava
diziam: “Sobe, velho!” Os companheiros me abusavam,
um lugar para fazer olhos, careta, nariz. Mais para fren-
xingavam. Eles me judiavam! Eu já estava velho mesmo,
te começaram as matanças com muitos bichos. Os palha-
então, disse: “Vou largar. Estou satisfeito. Não vou mais
ços, éramos eu, Roberval (do povoado de Anajá), Lobato
brincar no boi.” Então, fui brincar bloco no Mirinzal. Caí
e Pedro. Compadre Manoel brincava no Anajá, mas ele foi
doente. Não podia mais de tão velho. Não deu mais, lar-
para o boi de Elecride e ficou. Ele era um bom cantor. Era
guei logo! Ficar bestando para os outros!?
só explicar como era a matança e podia deixar com ele. Às
vezes a gente se esquecia de um ponto, ele lembrava para a
Então, eu dei minhas roupas de tambor, de boi, de bloco,
gente botar na matança. Ele era brilhante.
chapéu, tudo eu fui entregando. E me entreguei para Jesus
já vai fazer ano. Hoje eu sou evangélico, da Igreja Pente-
Brinquei cinco anos no boi de Leonardo e larguei de brin-
costal. Agora estou bem, graças a Deus. Estou me dando
car lá quando morreu um irmão meu. Depois, compadre
bem. Mas já brinquei muito, graças a Deus! Já chega! Já
Manoel me levou de novo e me botou no boi de Terezinha,
estou satisfeito! Deixa esses que são mais novos brincar.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
131
Arcângelo Reis (Arcanjo)
Iam para assistir às toadas. Já os antigos iam para assistir às comédias.
Nasceu em 1951, em Bequimão. Vive desde os anos 1980 em São
Luís, onde é dono do Bumba Meu Boi Anjo do Meu Sonho.
A gente fazia três comédias por noite. Cada couro de boi
era uma comédia. Entrava o primeiro couro e se fazia uma
Eu brinco no bumba meu boi desde pequeno. Meu pai era
comédia. Quando mudava, quando entrava o segundo
brincante antigo de boi em Bequimão, em um lugarzinho
couro, tornava-se a fazer outra comédia. A melhor, a gente
chamado Barroso. Eu dizia: “Papai, me leva para brincar
deixava para fazer no terceiro couro, já no romper do dia.
boi também!” Eu queria brincar era na palhaçada, porque o
Essa que era a comédia boa! Nego ria, que faltava urinar na
melhor da brincadeira, para mim, era palhaço. Não sei dizer
roupa, só de molecagem!
o porquê, mas eu achava tão bonito! Era uma graça! Uma
vez, eu disse para o chefe da comédia: “Atanásio, eu tenho
Quando eu vim embora para São Luís, eu comecei a brin-
vontade de brincar boi, de palhaço, junto com vocês!” Em
car no bumba meu boi em 1981. Brinquei com Mundi-
um ano, eu fui com ele, e pronto. Assim comecei. Eu acho
quinho, um ano, no São Francisco. No outro ano, eu fui
que estava com treze, doze anos, por aí.
brincar no boi de Terezinha Jansen, onde brinquei durante 16 anos como palhaço junto com Betinho, Manoel
Dessa turma ainda tem um senhor vivo, que é o Teté.
Gato e Beto da Boa Esperança.
Atanásio já faleceu, Augustinho já faleceu, Bubu já faleceu... Isso faz muito tempo. Eu fazia umas comédias
No interior, a gente só usava roupa velha ou virada do
muito boas. Tinham muitos que iam para a brincadeira
avesso, calça rasgada, o bolso por fora. Quanto mais es-
olhar o couro do boi, para ver se era lindo. Outros, não.
culhambado, melhor era para a molecagem. Em São Luís,
132
Palhaços do boi
Eu sou dono do Bumba Meu Boi
Anjo do Meu Sonho, do sotaque de
zabumba. O nome da minha brincadeira saiu porque foi uma pessoa
pedindo para eu fazer esse boi. Eu
disse que eu não tinha condição de
fazer essa brincadeira. Essa pessoa
disse para eu continuar a brincadeira
que ele ia me dar uma ajuda. Eu fiquei despreocupado e não disse para
ninguém. Ela tornou a me chamar
– eu estava dormindo –, e foi me dizer como era para eu fazer. Eu disse:
“Eu só posso fazer essa brincadeira
se você me der condição.” A pessoa:
“Está bom, eu vou lhe dar condição.”
não. Todo ano a gente muda a roupa do pessoal de comé-
Dentro de poucos dias, enquanto eu andava na rua, apa-
dia. Dona Terezinha Jansen todo ano comprava roupa. Eu
receu um envelope rolando em minha frente. Juntei esse
tinha um vestido, uma calça e um bermudão, tipo fofão,
envelope e, parece mentira, mas tinha uma quantia de di-
com as alças cruzadas atrás.
nheiro dentro. À noite, a pessoa disse: “Está aí! O dinheiComédias do bumba meu boi do Maranhão
133
ro da brincadeira está aí. Eu quero que tu botes essa brin-
Meu sobrinho e meu irmão chegaram para me conven-
cadeira para mim durante quatro anos. Depois de quatro
cer a parar com a brincadeira. Mas eu pedi que botasse
anos, se tu quiseres, tu ficas. Se não quiser, pode acabar.
boi só esse ano porque já estava em cima da hora e tudo
Eu só quero que tu me botes o nome da brincadeira Anjo
já estava pronto: “Eu boto o boi este ano e se eu ficar
do Meu Sonho.”
bom e se Deus e o santo me ajudarem, para o ano eu continuo. Mas se eu morrer, eu já botei o boi este ano! Deixa
Com poucos dias que eu tinha achado esse dinheiro, che-
eu botar o boi. São sete dias. Eu dou conta. O santo me
ga um senhor que fez um boi de promessa na Vila Em-
ajuda e Deus vai me ajudar e me dar coragem e força
bratel para me vender as coisas da brincadeira dele.
para eu botar a brincadeira.” E eu botei. Também não
Ele tinha um boi, uma parelha grande, seis golas, seis
parei. O santo está me dando força e vou indo devagar e
chapéus de fita, zabumba, tudinho. Chamei dona Fáti-
vou botando. Enquanto vida eu tiver e puder me arras-
ma e falei da brincadeira. “Tu me ajudas?” Tudo nosso
tar, eu vou botar.
é combinado. Se eu sou, certa hora, meio doido, ela
já é doida e meia. Ela correu, foi trabalhar. Recebeu o
No meu boi ainda tem palhaçada, são dois rapazes que
dinheiro dela e disse: “Está aqui o resto do dinheiro.
moram no interior que fazem. Mas, em São Luís, a gente
Vamos botar a brincadeira!”
só faz a comédia no dia 23 de junho, que é o dia do batizado. A gente não tem tempo de fazer a matança porque
Quando completou os quatro anos, eu pensei em parar.
o horário para a gente brincar é trinta ou quarenta mi-
Já tinha feito o trato com a pessoa. Mas eu criei uma
nutos. Mas, de primeira, quando a gente ia brincar em
amizade na brincadeira e não parei. Continuei. Um ano
Bequimão – o boi da Fé em Deus, o boi de Antero, o boi
eu adoeci, estava fraquinho, não conseguia nem andar.
de Dona Zeca, o de finado Leonardo –, nesse tempo, to-
134
Palhaços do boi
dos tinham que fazer comédia. Hoje, não faz mais. Hoje,
Saio de palhaceiro só quando faz a comédia. Quando não,
nenhum faz comédia. Ainda assim, a gente combina a
fico só fardado e com a roupa da brincadeira, que é ver-
matança porque, de uma hora para outra, podem pedir
melha e branca, só na organização. Eu não me imagino
para a gente fazer a comédia. Então, é ensaiada. Em todos
sem brincar, é arriscado eu adoecer. Quando chega o ano
os ensaios a gente faz a matança. Quem cria sou eu.
novo, que vai se aproximando dos ensaios, tem noite que
eu não durmo. Eu fecho os olhos, mas estou acordadi-
Para eu fazer uma matança é dentro de poucos minutos.
nho! E eu digo: “Eita, Dona Fátima, olha o tanto de boi
Se, por acaso, eu estou sentado bem aqui, eu fico pensan-
que vem ali! Vem preto, vem branco!” E ela: “Não tem
do. Sem demora, naquele instante, eu tiro uma matança.
nada! Tu já estás...? Tu já estás com tua lida com boi, ra-
Depressinha! Eu tiro uma matança da boa. É de repen-
paz! Será possível?!”
te. Vem da cabeça. Eu não escrevo porque eu não sei.
Só guardo mesmo na cabeça. Às vezes eu chamo minha
Já sonhei muitas vezes com boi chegando na porta da mi-
esposa: “Dona Fátima, escreve isso aqui para mim.” Eu
nha casa. Eu estou dormindo e vendo boi vindo de carrei-
vou dizendo. Ela vai, pega o caderno e escreve. Porque,
ra. E nego correndo atrás, e ele chegando. Fica berrando na
se eu me esquecer, eu pergunto para ela como foi que eu
porta e, quando eu vou abrir o portão, ele se esconde para
disse. Quando nós vamos começar o ensaio, eu chamo
nego não o matar.
seu Zé Raimundo, chamo seu Santiago e digo: “Crianças,
eu tenho uma matança assim e assim. O que vocês me dizem? Está certo ou tem mais alguma coisa para colocar?”
Seu Santiago e seu Zé Raimundo diziam que estava certo
e nós íamos ensaiar.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
135
Arlindo Trindade
Nasceu em 1940, em Santa Rosa, Guimarães. Vive em Central
do Maranhão, onde é agricultor.
Estou com 74 anos, mas ainda estou comendo farinha
d’água, trabalhando de roça e fazendo matança de boi
até a hora que der de jeito. Quem me botou para brincar
boi foi o finado velho meu pai. Eu estava com onze anos
quando ele fez um boi de verão e me procurou: “Meu
filho, se eu te botasse para trabalhar numa palhaçada
comigo, tu fazias?” Eu disse: “Papai é que sabe.” Daí,
eu saía montado numa burrinha que eles fizeram e nós
botamos o apelido dela de diamba. Nós fomos brincar
boi em outra banda e teve um que disse: “Ah! Eles vão
prender essa desgraça desse pequeno, que ele está fumando diamba, ele está só com nome de diamba na boca.” Eu
digo: “É minha burrinha que é diamba, desgraça!” Era
uma molecagem danada. Então, eu fiquei, fiquei, fiquei,
fiquei, até agora. Papai já foi há muito tempo e eu fiquei
ainda vivo, até agora pilhando nessas coisas de cultura. A
136
Palhaços do boi
mesma coisa é um filho meu, o Adriel. Ele está com onze
ainda estava no tempo antigo de guardar um ano de luto
anos, mas é uma fera para palhaçada! Ele é que reúne o
para papai e mamãe. Mas, desse tempo todinho, todo
gado logo no começo da matança. Ele sai de visagem. Ele
santo ano eu estou brincando. Agora eu já estou devagar,
tem também uma vestimenta toda estampada de oncinha.
mas às vezes, se eu me comprometer e os companheiros
estiverem juntos, cruz credo! Vocês dizem: “Ô velho dis-
Nós ainda praticamos a comédia, meus quatro compa-
granhento pra fazer comédia de brincadeira!”
nheiros e eu. Para se adquirir uma boa palhaçada eu não
posso ficar sozinho. Vamos dar um exemplo. A senhora
Em São Luís eu não faço matança porque onde é que nós
é cabeceira duma brincadeira, eu introduzo a matança
vamos fazer?! Às vezes são trinta ou vinte minutos de
com a senhora. Então, eu já converso com os companhei-
apresentação, e só isso não dá para fazer. Já por aqui, não!
ros antes e combino tudinho: “Na hora que eu estiver me
Aqui a gente brinca à vontade! No arraial dá para fazer
explicando, que eu disser assim, assim, tu entras para ir
a matança, dá para fazer as palhaçadas, tudinho. Por isso
conversar comigo.”
a gente vai tirando novas matanças, porque, quando nós
brincamos só no interior, tem que fazer novas a cada ano,
A minha farda de palhaceiro é roupa comum. Tem só uns
tem que mudar! A gente não repete, tem que todo ano
paletós. Uso caretinha de meia mesmo, que mandei fazer
matar a cabeça para fazer novas. Meus companheiros não
com uma senhora. Tem os bichos: carneiro, urubu, visa-
tiram, sou só eu que tiro. Às vezes eles me ajudam, eu
gem, veado, jerico, tudo para ajudar a contar as histórias.
começo um termo e eles vão empregando certas palavrazinhas, e nós vamos inteirando.
Já trabalhei muito, 58 anos de brincadeira! Só escapou
no ano que mamãe morreu e que papai morreu, que eu
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
137
Carlos Augusto dos Santos
(Pilola)
Eu sou o mais jovem dos palhaceiros antigos daqui. Eu
Nasceu em 1951, no povoado Moreira, em Mirinzal. Vive em
me procurava se eu não tinha vergonha de trabalhar! Não!
Graça de Deus, no mesmo município, onde é agricultor.
Aquilo eu fazia porque eu gostava. Porque eles me viam
Eu larguei, não teve mais palhaçada... Eu recebi um recado
de Betinho há uns dois anos. Ele ficou de vir me apanhar
na véspera de São Pedro e até hoje eu estou esperando!
Hoje não é aquilo como era dantes. Eu cansei de chorar
quando um grupo de bumba-boi vinha brincar aqui. Cansei de chorar quando cantavam lá. Era muita gente, e o
povo aplaudindo, era muita assistência! Eu cansei de, às
vezes, quando batia próximo de São João, eu me pegar sonhando, brincando bumba-boi. Cansei! De vez em quando, eu procurava para São João se ele estava ficando maluco de estar me atentando. Cansei, cansei de sonhar!
comecei a brincar bumba boi com Betinho. Quando
eu comecei a trabalhar, eu estava novinho. Muita gente
assim, jovem, vestido de mulher e de roupa velha... Mas
aquilo não tinha nada a ver. Eu fazia porque gostava.
Nos anos que teve boi bom por aqui, não teve nem um
que eu não brincasse. Quando Manoel, Emídio, Benedito
Gomes e Elecride cantavam “lá vai”, que chegava na porta e Bezerra se apresentava... Rapaz, isto ficava durinho
de gente. Porque eles eram bons de trabalho. Eu gostava
de trabalhar nisso demais, demais, demais! Mas depois
eles foram embora para São Luís e eu fiquei. Muitos apartaram porque passaram a brincar ganhando dinheiro. E eu
apartei deles, separei, comecei a trabalhar para mim.
E aquilo eu fazia com o maior prazer. Fazia de gosto. Aquilo, não tinha mulher, não tinha bebida, não tinha nada que
Eu fiz muita matança! Depois que comecei a trabalhar
me impedisse na hora do meu trabalho! Sempre organizei
pela minha conta, sempre organizei a minha equipe. Sem-
porque sempre gostei.
pre orientava para fazer um papel perfeito porque tem
138
Palhaços do boi
pessoas que vão para escutar e têm conhecimento. Para a
de família, então, a gente tem que trabalhar com consciên-
gente não despedir um palavrão, naquela ansiedade, com
cia para a gente não estar fazendo papel errado!” E aquilo
aquela doidice. Porque eu sempre pedia para eles: “Olha,
eu fazia com gosto, com maior prazer.
isso aqui é mesmo que ser uma novela que nós estamos
apresentando para o público. Aqui tem pai de família, mãe
Hoje, querem colocar o bumba-boi em uma festa. Se tiver
cem pessoas para espiar, eu lhe pago! São os mesmos brincantes, sem assistência. Bumba-boi no interior acabou,
porque não tem mais quem chame, não tem mais brincante. Os cabeceiras morreram todos, não renovaram os
brincantes. Tem só aqueles velhões.
No ano retrasado, o Emídio fez um boi ali no Cururupu, desses “velhões”. Nesse ano eu me assanhei para ir. Até sonhei
brincando boi! Aí eu disse para o Valter: “Olha, compadre,
nós vamos para Cururupu. Nós vamos para lá!” Ele se empolgou, atentou, atentou e nós fomos. Meu Deus do céu! Quando chegou lá, só tinha os velhões. Todos cansados. Coitados,
sem força! Eles fizeram a primeira apresentação e eu pedi que
eu queria fazer, aí eu fiz! Depois fizemos uma parada, a galera foi meter grode. Que luta para voltar de novo! Aí acabou
tudo, acabou! A brincadeira ficou deste “tamanhozinho”!
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
139
140
Palhaços do boi
Clemente Felício Martins (Quelé)
Hoje está só os cacos velhos. Não tive uma saída com aqui-
Nasceu em 1933, no povoado São Sebastião, em Central do
Eu não pegava em dinheiro nenhum! Ficou uma brinca-
Maranhão, onde vive até hoje como aposentado.
deira presa, brinca pouquinho, só uma hora ou duas. A
lo, só gastando e sem colher nada, sem ajuda de ninguém.
gente quase nem faz as matanças, não dá tempo.
Eu aprendi a brincar boi ainda garoto, quando a gente
fazia brincadeira aqui no Caçanga, Uruguaiana, Cocó,
Eu resolvi parar tudo! Não guardei nada. Eu não queria
Santa Rosa. Era sempre a mesma turma, tinha o Dedê, o
mais fazer boi, não dou mais conta. Mas eu sinto falta, sau-
João Cocó. Depois eu fiz a brincadeira por conta de uma
dades daquilo. Até hoje ainda tenho ciúmes dos compa-
promessa para São João. Eu comecei, mais ou menos, em
nheiros que saem para outras brincadeiras, dá vontade de
1992. Eu paguei a promessa e fiz o boi por mais uns anos.
ir, mas não posso mais. Estou velho.
Tem um ano e pouco que eu parei. Eu brincava de fita,
tocando maracá. Era um boi de zabumba bonito! A gente
percorria Central, Mirinzal, Santa Helena, Pinheiro. Até
São Luís! Tudo pela época de São João!
Tinha aquelas matanças. A gente também chamava de
comédias. Tem matança que leva uma hora. Tem matança
que leva mais um pouco, outra que é mais ligeira. Tinha as
horas certas de matança. Elas eram para fazer o povo rir e
roubar o boi!
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
141
Diomedes Rodrigues dos Santos
(Xeleléu)
que eu já vi mais gente no mundo. O dono era o seu Gregó-
Nasceu em 1936, em Guimarães. Mudou-se em 1997 para São
se apegou com São João. Se o filho dele vencesse tudo lá
rio Mota, moreno rico, que tinha muito gado. Foi na época
que o filho dele veio para São Luís servir o Exército e ele
Luís, onde está aposentado.
fora, ele pagava uma promessa para São João: fazer o maior
A festa que eu mais gostava era o bumba-boi, desde novinho.
com muitos foguetes, com muita festa. Juntou muita gente,
Eu estava com treze anos quando comecei a brincar de za-
muita gente. Não tenho mais lembrança de quando foi isso.
bumbeiro. Depois, brinquei dois anos de vaqueiro. Depois
Eu estava na faixa de doze a treze anos.
boi de Guimarães. Quando o rapaz chegou, foi uma alegria,
me botaram para ser chefe da palhaçada. Meu pai que me
botou para brincar. Ele brincou de vaqueiro e brincou de
O primeiro ano que eu brinquei como palhaço foi com
chapéu de fita até quando morreu. Nesse tempo, eles porfia-
Noratinho. Ele era o palhaço chefe da turma. Eu ainda me
vam quem tinha o maior chapéu de fita, pela quantidade de
lembro de uma matança que eu fiz mais Pedro Mendes,
pontas. Meu pai, quando morreu, deixou o chapéu dele, deu
da Boa Esperança, ele era um cantor bom. Um senhor por
para arrumar três brincantes.
nome Malaquias era o único que fazia os bichos do jeito
que a gente queria.
O primeiro boi que eu comecei brincar foi o Boi de Santo
Antônio, na Vila Nova. A minha mulher, dona Rosa Aguiar,
Depois eu vim brincar boi em São Luís. No primeiro boi
se apegou com Santo Antônio e fez um boi de promessa.
que eu entrei aqui em São Luís, Antônio Fausto era o can-
Depois, fui brincar um boi por nome Pobre não Chama.
tor e eles me botaram o apelido de Xeleléu, e assim está
Botaram esse nome no boi porque era muita gente, o boi
até hoje.
142
Palhaços do boi
Os bois que eu brinquei aqui foram em Bairro de Fátima,
Fé em Deus, Liberdade, Alto da Esperança, Areinha e Vila
Passos. Há dois anos eu estou brincando com uma moça
de São José de Ribamar. Sempre sotaque de zabumba.
Para o personagem, eu ultimamente uso terno, paletó, gravata e a careta bem feia. Hoje eu compro pronta, mas antigamente se fazia no interior com buriti. Era muita gente
assistindo às histórias bonitas que a gente fazia. Logo no
começo, todos os bois tinham as comédias. Agora deu uma
caída. Porque hoje não se faz, é apenas para mostrar que
ainda existe alguma coisa. Hoje eu faço mais para mostrar
como era o enredo antigo.
Tenho muitas saudades mesmo desse tempo. A gente tem
sempre que fazer aquilo que a gente gosta. Acho que se a
gente está numa idade como essa que eu estou, quando
brinca um bumba-boi parece que eu peguei outra aparência, parece que eu nasci de novo. Eu dou sapateado como
um menino novo. Não é todo menino novo que me segura,
porque eu não durmo, eu não largo a brincadeira.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
143
Eleutério Silva (Loló)
Nasceu em 1937, em Marudá, Alcântara. Mudou-se em meados dos anos 1980 para São Luís, onde vive como aposentado.
Nasci e fui criado na comunidade de Marudá, onde é hoje
a Base de Lançamento de Alcântara. Lá chegaram e enxotaram a gente. E o povo se espalhou e foi para agrovila.
Nunca pensei em morar em São Luís, mas está com trinta
anos que estou em São Luís.
A boiada era perto de Marudá, na comunidade Bom Viver.
Lá nós cultivamos essas brincadeiras desde criança. Eu
brincava de tapuio, com um chapéu feito de talo de buriti,
e começava a pular. Até hoje ainda o tenho. Só que a gente
foi crescendo e foi mudando. Foi ficando rapaz e já não era
mais tapuio, era chapéu de fita.
Quando eu brincava no boi com chapéu de fita, tinha
um rapaz, Raimundinho, que fazia o papel na palhaçada
e todo mundo achava graça. Eu não entendia nada, não
tinha ambição naquilo, não sabia nem o que significava
144
Palhaços do boi
aquilo. Quando ele saía no cordão, fazendo palhaçada,
que eu que era o cara que tinha que fazer o papel doravante.
todo mundo ria. Esse cara era bom.
Foi o meu primeiro papel. E até hoje a gente cultiva esse
trabalho de Pai Francisco, Cazumbá, Nego Chico.
Mas nós fomos fazer uma representação e ele não foi. Quando chegou na hora da representação – é matança que chamamos, comédia –, o povo procurando por Raimundinho. Ele
não veio porque estava ardendo em febre. E todo mundo:
“Ô, rapaz, o boi não presta! Não tem comédia!” E eu não
estava nem aí, estava sacudindo meu maracá, nem ligando
para nada. O dono da brincadeira, Zé Lima, ficou preocupado e saiu procurando no cordão. Eu estava lá. Nem sonhava
em fazer representação, nem nada. Aí, ele lembrou: “Rapaz,
é Loló. Eleutério é danado. Loló, eu vou precisar de ti agora
Agora, nós estamos nessa brincadeira da Vila Palmeira e
eu faço a comédia. Eu pego dois ou três para me ajudar.
Eu passo para eles, mas o trabalho é meu. Eu tenho que
fazer o meu e cobrir o deles, tenho que me virar e fazer
o papel completo. Tem vários temas de comédia. A cada
ano, a gente faz um tipo diferente. Na verdade, a comédia
tem a ver com as toadas. Eles cantam e dá tudo certo. A
gente vai trabalhando de acordo com o papel que a gente
vai fazendo e vai concluindo as comédias.
para quebrar meu galho! Raimundinho não pôde vir para
Temos os brinquedos para formar os personagens. Eu
fazer a comédia e o povo está esperando e és tu que vais
mesmo faço espingarda, facão. Uso bomba para fazer o
fazer essa comédia agora.” “Eu? Eu é que vou fazer? En-
estouro. Eu sempre preparo bichos também. É onça, é ja-
tão, vamos lá!” Eu tive cinco minutos para me concentrar e
buti, urubu, macaco, tudo. Isso tudo é para servir de graça
com cinco minutos eu entrei no cordão. Quando entrei no
para o pessoal. Às vezes a gente compra prontas as másca-
cordão, o povo já foi rindo. Ave Maria! Quando eu acabei
ras. Às vezes mandamos fazer vestimentas. Antigamente,
de fazer meu papel, não quiseram mais esse Raimundinho.
no interior, a gente fazia tudo de buriti. Mas aqui em São
Largaram ele de mão e nem pensaram mais nele. Acharam
Luís não dá para fazer assim. É difícil de achar buriti e
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
145
tem o pessoal que proíbe e diz que prende. Já imaginou,
mento que tem hoje. Lá, nós não ganhávamos dinheiro. O
ser preso por pegar buriti? Credo!
que se fazia? Todo o esforço era do nosso suor para fazer
Às vezes a gente não tem ideia nenhuma, mas quando
chega a época da brincadeira, do movimento, de repente,
com o movimento perto do São João, em um segundo
entra uma história na cabeça. Quando está longe, a gente
mata a cabeça e não sai nada. Mas, quando chega perto
dos ensaios, perto da representação, aquilo vem rapidinho. Todo papel que a gente faz só tem graça com o conjunto. Eu contando não tem graça, mas, com a melodia e
na hora do papel, com o grupo armado para a gente sentir
o prazer de rir, acha graça com o papel.
Mas aqui em São Luís, nós não representamos a comédia,
eu faço só o papel de Pai Francisco e Catirina. Os palhaços antigos já morreram quase todos, era o João Cabeça,
o Maçã, velhinho. Eu tinha 30 anos quando comecei. Já
estou com 77. Trabalhei um bocado no assunto!
a brincadeira. Se alguém quisesse levar o boi para brincar
em casa, a gente se preocupava com o quê? Comprar um litro de cachaça. Nós brincávamos a noite todinha e quando
era de manhã, tomava um café, comia um assado. Mas nós
crescemos, com o tempo, e foram aumentando as despesas.
Hoje, não se pode fazer isso que a gente fazia. Agora não.
Agora é diferente. Com o motivo financeiro, foi se acabando e hoje não existe.
Nós fazíamos um esforço danado, mas não tínhamos retorno desse gasto que fazíamos. E nem se esperava! Fazia
por amor! No tempo que eu era garoto, tinha duas ou três
brincadeiras e se brincava o São João todinho! Ninguém
ganhava um centavo, todo mundo se aprontava da maneira que quisesse e ia brincar. Também não era representado
em São Luís, e sim dentro dos matos. Hoje, para você fazer
uma brincadeira, tem que caprichar porque não estamos
Lá em Marudá sempre teve bumba-boi. Toda a Baixada
representando só para nossos parentes, estamos represen-
tinha. Brincava-se à toa, porque não tinha o reconheci-
tando para o público. Então nós temos que caprichar.
146
Palhaços do boi
Herbert Mafra Reis (Betinho)
ficava longe um do outro, quase um metro, para dançar. E
Nasceu em 1936, no povoado de Graça de Deus, Mirinzal. Em
te, aqueles besouros, busca-pés.
entre um e outro ficavam as pessoas botando bomba, fogue-
1972, transferiu-se para São Luís, onde hoje está aposentado.
O meu avô e a minha família era que faziam os besouros,
O meu avô roubou a minha avó na senzala e o meu tio
tudo isso. E o meu tio Davi, a profissão dele dentro da brin-
se criou quase sempre com ele. Ele era como um profes-
cadeira, era brincar de Pai Francisco e preparar o boi. Ele
sor; o meu avô sabia tudo dessa história do bumba meu
preparava o boi, bordava tudo. Só que o boi não era bordado
boi. Então, o meu tio se criou com ele e brincava de Pai
como hoje, simplesmente pegava um pano preto e botava,
Francisco. E eu não ia nem na brincadeira porque eu me
desenhava uns corações, umas estrelas. O desenho era feito
sentia mal de ver as pessoas lá rindo dele. Na época, eu
com o papel brilhoso de antigamente. Não tinha canutilho,
tinha quinze anos.
não tinha enfeite. Bordava e botava. Fazia simples também,
liso, só preto ou só branco. E ele fazia o Pai Francisco e a
Então, nessa família existia esse Pai Francisco e o que eles
Mãe Catirina. Os dois, porque quando a gente é completo, a
faziam para o São João era o fogo. A família preparava o
gente não tem posição. Hoje eu saio de Mãe Catirina, ama-
foguete, o busca-pé. Reunia o boi lá e a gente vinha brin-
nhã eu saio de Pai Francisco. Agora, só é que as histórias
cando e eles atacavam com fogo. Acendia aquele besouro,
eram tiradas por ele.
daquele que sacode, que sai aquelas chamas bonitas, aquelas lágrimas, e botava foguete. E jogava lá; a gente vinha
Porque lá em Guimarães a pessoa tem que ter tudo isso e
dançando e eles jogavam no chão. Assim, o boi ficava mais
não sair da origem porque, se sair, eles corrigem, qualquer
bonito. Quando chegava na porta, a gente fazia o círculo e
daquelas pessoas, principalmente os brancos. Até os brinComédias do bumba meu boi do Maranhão
147
cantes, tem muitos que não sabem, mas os brancos de lá,
Eu não ia na brincadeira porque eu me sentia mal de ver
eles te contam a história todinha e corrigem. Porque lá, se o
as pessoas rindo dele. Aquilo era uma crítica que faziam
boi vai brincar, pode ter um público enorme. Tem pessoas
dele. Ele se pintava como mulher. Ele mesmo preparava,
para assistir. Lá, você se interessa, mas todo mundo fica
assim, uma touca com uma trança muito linda e se vestia
caladinho para assistir, para poder julgar.
de mulher, era uma mulher. E aquilo, eu me sentia mal
148
Palhaços do boi
de ver meu tio fazendo aquelas coisas. E todo mundo
disse: “Vocês são os escolhidos, porque estes, as pessoas
perguntava: “O Boi de Tatu vai brincar em tal lugar? Eu
que são escolhidas para cumprir aquela missão, assumir
vou ver.” Então, eu deixava a matança de Guimarães.
aquele trabalho, elas não podem se negar.”
Quando eu tinha dezessete anos, eu comecei a sonhar com
Foi o tempo que eu comecei a procurar saber mais. Um
uma pessoa que me convidava para brincar e me mostrava
dia eu fui no boi, o meu primo Manoel estava brincando.
como era para fazer a história, até as músicas. Eu só olhava
Quem estava fazendo a matança dele eram Quintino e An-
ele da cintura para baixo. Para cima não. Depois que ele se
tônio Augusto. E Antônio Augusto não foi. Ele, com aque-
despedia, eu ficava olhando, assim, ele aparecia de costas,
la luta, insistindo, eu terminei indo substituir o Antônio
todo, num campo grande.
Augusto. Daí para frente, já comecei a acompanhar o boi.
E, depois, eu comecei a brincar. Sempre sem querer... De
Eu fui ficando aperreado com aquilo, chamei o meu avô e
lá para cá, eu nunca mais deixei. Então, eu quero dizer que
procurei para ele: “Eu quero saber a origem.” “Por quê?
assumi um compromisso da família, porque eu desenvolvo
Agora?” Eu disse: “Eu preciso, eu quero saber.” Ele foi me
o papel que a família sempre desenvolveu.
contar. Disse: “Olha, meu filho, o bumba meu boi, para
mim é incumbência da fé. Muita gente diz que é folclore,
É por isso que eu digo que eu tenho um compromisso
está errado. Só para ti ter uma ideia, bumba meu boi per-
com São João. Porque na brincadeira, lá no interior, se
tence a São João Batista. É feito em agradecimento a São
faz uma promessa para São João. Na época que você vai
João Batista, porque você está agradecendo uma graça que
pagar essa promessa, você vai contar para o cabeceira,
você conseguiu através dele. Então o bumba meu boi nas-
que é o cantador, e para o Pai Francisco, como foi feita a
ceu da fé.” Depois que eu contei para ele dos sonhos, ele
sua promessa, para eles fazerem a matança para mostrar,
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
149
para dar o seu testemunho. São João precisa de testemu-
Deus escreve certo por linhas tortas. Ele determinou
nho. Então, você vai contar o porquê daquela promessa.
aquele encontro para ver o que eu ia decidir da vida, porque eu não ia brincar boi naquele ano. Então, Ele deter-
Lá, nós trabalhamos em equipe de Pai Francisco. Tem vez
minou o encontro com Manoel para ver a decisão. Eu
que tem até dez pessoas para ocupar a posição, o persona-
vim para cá; seu Lauro mandou me buscar para brincar
gem. Porque são três matanças que a gente faz em cada
o boi dele de Pai Francisco. Ele alugou uma casa, pagou
noite. Em cada ensaio também. São dois cantores para
aluguel da casa três meses para mim. Eu vendi tudo que
cada matança; às vezes são três cantores... A gente chega,
eu tinha lá; só não vendi a farinha e o arroz, que eu trou-
janta e vamos discutir o que é que nós vamos fazer. O Pai
xe para cá. Trouxe quatro paneiros de arroz, cinco pa-
Francisco, quem vai de Mãe Catirina, quem vai servir de
neiros de farinha, um paneiro de açúcar. Eu trouxe para
cachorro, quem vai ser o chefe daquela matança e o cabe-
cá pra ir me alimentando, com nove filhos e a mulher. A
ceira. Todo mundo que vai participar daquela matança fica
mulher não acreditava que ia dar certo. Nós, com nove
ali discutindo a matança que nós vamos fazer.
filhos, e eu não tenho um estudo, só tenho o ofício que
meu pai me deu. Terminaram os três meses de seu Lauro.
Mas, um dia, Manoel veio brincar o boi de Canuto em
São Luís. E nós, por acaso, nos encontramos no Brejo,
em Guimarães, quando ele foi pegar o barco para viajar.
E eu tinha ido lá comprar umas coisas para casa. Nós
nos encontramos, eu vi que tinha um portador, mandei
as coisas que comprei para casa e viajei com a roupa do
corpo e uma japonesinha.
150
Palhaços do boi
Mas, o que eu mais temia, eu encontrei facilidade.
João Vieira (Zió)
Nasceu em 1936, em Santa Maria dos Vieiras, Guimarães.
Mudou-se quando criança para São Luís, onde trabalha
como vigia.
Sobre o meu apelido? Mamãe ia assim: estava grávida e a
cada ano ela tinha um feminino, o próximo era masculino.
Ia só trocando, cada ano que ela tinha era feminino, masculino, feminino, masculino. Mas nuns anos vieram duas
meninas. Quando ela embuchou de novo, procuraram
meu pai, João Branco: “E aí, João Branco? E agora, rapaz?
Era um sim, outro não, e agora nasceram duas?! Vem mulher de novo?” Ele disse: “Não. Vai ser um Ziózinho.” E
esse Zió ficou até hoje, muita gente não me conhece pelo
meu nome não, só por Zió mesmo.
Vim embora para São Luís desde criança. Minha mãe vivia
mais aqui do que lá em Santa Maria, vinha com criança e
tudo. Ela trabalhava de doméstica. A gente morava onde é
a feira da Liberdade. Em 1977, mais ou menos, eu já fazia
bobagem, essas coisas de palhaçada, como se diz.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
151
A palhaçada a gente fazia assim. Por exemplo, aconteceu
de quase tudo. Até que de mulher não, porque o Magno já
isso com Betinho. A gente ia fazer a comédia em cima do
estava adaptado naquilo ali.
que acontecia com ele. Todo o tempo sempre tinha alguma coisa para fazer. Fulano correu de um cachorro. Fazia
Antigamente tinha muita matança. Eu sempre falo que a
em cima daquilo ali. De pescaria, de roça, de traficante e
gente tem matança porque é a tradição do boi. A comédia
não sei o quê. Sobre tudo a gente ia fazendo.
é a tradição do boi. Só que, aqui, não tem tempo de apresentar. Mas temos que estar preparados.
Eu brincava na turma do Benedito Gomes, depois passou
para o Emídio. Conheço esse pessoal todo do bumba-boi.
Eu mudei de função porque os mais velhos foram. Fiquei
Tem mais é novato agora, no nosso tempo era tudo conhe-
de cantador. Já está quase com uns quinze anos que estou
cido. Num tempo desse, ninguém está olhando o outro.
só cantando mesmo. Eu sinto falta de brincar de palhaço.
Mas quando chega no final do mês de maio ou um pouco
Por exemplo, às vezes eles estão fazendo e eu me lembro
mais para frente, vai acumulando, vai se encontrando. E
de como era. Talvez, se eu estivesse com a minha turma,
um conta uma coisa, outro conta outra, e fica aquela pales-
nós faríamos melhor, mas a gente fica sempre naquilo ali,
tra. Passou o São João, para olhar os camaradas é uma luta.
quer fazer melhor, quer ser melhor que os outros, mas não
pode fazer. E para fazer as duas funções, trocar de roupa,
Meus companheiros de palhaçadas eram Josuel, Bigoro,
fazer palhaçada, mudar de roupa e cantar, não dá. Mas eu
Antônio Augusto, Magno, Nivaldo, Pilola e Bezerra. A
invento histórias.
gente fazia uma comédia hoje, amanhã já era outra matança. Muitas vezes não era nem combinado com o cabeceira, mas dava certo porque a gente ia inventando. Eu saía
152
Palhaços do boi
José Augusto Araújo
zerem a representação. Os vaqueiros iam se queixar para o
Nasceu no povoado São Sebastião, em Central do Maranhão,
cima disso tinha a palhaçada. Tinha umas matanças me-
onde vive até hoje como aposentado.
lhores que outras, por causa do capricho do chefe daquela
dono da fazenda que tinham roubado o boi da fazenda. Em
palhaçada. Quer dizer, se ele caprichasse na dele, saía boa.
Estou confuso da data em que eu nasci, estou com 68 para
Se eu caprichasse na minha, saía boa. Mas tudinho junto,
69 anos. Mas eu estava com uns sessenta quando comecei
não tinha separação não, cada qual se juntava com os ou-
a brincar de palhaçada. Eu fui discípulo de Malaquias, o
tros. Era tudo decorado. Quando tinha gravador, gravava a
pai de Severino. Eu fui brincando com ele, e ele, velho,
matança e pronto. Mas a gente não esquecia aquele papel.
foi dizendo que eu era a continuação, porque ele estava
Para ser um bom palhaço, a memória tem que ser boa para
cansado. Estava se preparando para viajar e morrer. E ele
gravar. Tem que ensaiar primeiro, a matança e as toadas,
morreu mesmo, mas já estava na faixa dos oitenta anos. Eu
para fazer todo mundo certo.
continuei e só paramos porque o boi mesmo parou.
Se nós éramos, por exemplo, cinco, seis ou dez pessoas
Quem inventava as comédias era o chefe da palhaçada. Os
que participavam na matança, cada qual tinha uma função
meus companheiros eram Guiné, Lourival, Fernando, nós
para fazer dar certo, como uma novela. Então, cada hora
éramos diversos. Aladim era o cabeceira. Morreu, coita-
vinha uma pessoa participar e fazer tudo para a história se
do. Mas Deus sabe o que faz. Se estivesse vivo, ia cantar
encaixar certinho. A gente tinha três ou quatro matanças
desentoado. Tinha que ter contato com o cabeceira para
numa noitada. A cada matança a gente vinha vestido de
combinar tudo. De acordo com as toadas que ele cantava,
um jeito, tinha que mudar desde a máscara. As máscaras
avisava que tinha início da matança para os palhaços fa-
eram feitas de buriti ou em forma de barro.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
153
Tinha bode, porco, elefante, tigre, onça e boi-cavalo de
Muita gente assistia! A festa era a noite toda. Tradição muito
duas cabeças: fazia a figura de boi e nascia do mesmo cor-
boa! Isso não é do tempo nosso. Já existia desde os mais ve-
po uma cabeça de cavalo. Era corpo de boi e cabeça de
lhos. Mas eu já esqueci as histórias. Para falar a verdade, tem
cavalo. Os bichos eram feitos de buriti e vara.
horas que eu lembro, mas já esqueci. A gente esquece com
facilidade porque não ligou mais para aquilo e vai embora.
Nunca mais brinquei. Eu adoeci, mas nem era muito por
isso, porque a vontade que a gente traz é uma saudade, é
uma lembrança, que quando chega a época a gente se lembra daquilo e às vezes faz a gente querer brincar. Todo ano
brincando, é uma tradição muito boa para a gente. Ainda
mais para os idosos. São João é uma festa dos idosos. Você
dificilmente vê jovens. São todos regueiros. É difícil gostar da tradição.
Embora que eu morra, porque esse é um caminho que a gente tem que seguir, mais tarde a juventude vai dizer assim:
“Olha, fulano de tal está passando essa divulgação. Até
morreu, mas está divulgando.” Isso para mim é um prazer! Mesmo que eu morra, eu deixo essa divulgação para
minha esposa, meus filhos, qualquer amigo que olhe.
154
Palhaços do boi
Lourenço Soares
(Lourenço Pinto)
velho, eu não participei mais porque não tem mais graça.
Nasceu em 1937, em São Raimundo, Santa Helena, onde
mo velho, quem ainda inventa as histórias sou eu, porque
vive até hoje. Aposentado, é dono dos bois Capricho de União e
Quando bota um mais novo, tudo que ele diz é uma risada.
Quando bota um velho, ah, isso já está manjado. Mas, meseu já fui completo, eu já fui bom! Dos meus quinze aos trin-
Mimo de São João.
ta anos, aqui nessa Baixada o palhaço de bumba-boi era eu.
Pinto é assinatura de meu pai, lá de Cururupu. Como ele
inventava, fazia e apresentava. Eu era dono da cultura toda.
Eu era contratado em bumba-boi de um ano para outro. Eu
não era casado com mamãe, eu não me assinava de Pinto.
Mas o pessoal encasquetou com Pinto. Aqui, se chamarem
Eu brincava no Boi de Lázaro Campos, no São Francis-
onde é a casa de Lourenço Soares, ninguém sabe. Eu sou o
co. Brinquei no Boi de Benedito Soares, em Chapadinha.
dono do boi, não sou amo porque não canto. Sou eu que in-
Brinquei no São Raimundo, com José Ramos, por oito
vento as comédias e armo os esqueletos do bichos, inclusive
anos. Brinquei com Ciano Ferreira também no São Rai-
do boi. Só o bordamento, são outras pessoas que bordam.
mundo outra quantidade de tempo. De lá, eu fui para o
Apaga Fogo, no município de Pinheiro, e brinquei três
Dos palhaceiros, vivo não tem mais nenhum dos meus
anos com Raimundo Caçamba. Brinquei três anos com
companheiros de palhaçada. Aliás, ainda tem um, por nome
Abelardo Ribeiro e brinquei três anos com Chico do Mato,
Cesário da Silva, no município de Turilândia. Tinha o Rai-
em Pinheiro. Depois eu brinquei no Juca, município de
mundo Pimenta, tinha Albertino, tinha José Cativeiro. Esse
Turilândia, por três anos com um rapaz por nome Jorge,
camarada está para São Paulo, já está velhão, ficou com esse
de Perimirim. E assim sucessivamente. Eu era convidado
apelido por causa da comédia. Agora, depois que eu fiquei
sempre para comandar as brincadeiras, porque eu tirava a
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
155
comédia, fazia os bichos, ensinava os outros e apresentava.
apareciam os olhos, nem nariz, nem nada. Quando viu que
Eu brinquei cinquenta e cinco anos de bumba-boi.
estava todinha coberta, ele passou uma camada do papel,
desse de jornal fininho, mas nesse tempo não tinha jornal,
Eu aprendi esses negócios com José Ramos, que morreu
era de caderno. Ele cortou tudinho, cobriu, pegou a goma,
há pouco tempo, com oitenta e sete anos. Ele era de Mirin-
desmanchou num pouquinho d’água, foi molhando, o pa-
zal e o pai dele se mudou lá para o São Raimundo. Ele veio
pel foi descendo, amoleceu e foi descendo. Onde era os
moço. Chegou lá, ele casou, formou família. O pai dele era
olhos ele ia só carcando, e foi descendo tudinho. Então,
acostumado a brincar boi no Mirinzal, em Guimarães, e
me mandou botar no sol, eu botei. No outro dia de manhã
fazia as comédias e tal. José Ramos foi armar uns esque-
ele já tornou a passar grude, mas já estava tudo coladinho!
letos para uma comédia e me convidou para eu tirar um
Onde eram os olhos, onde era a venta, onde era a boca,
barro de fazer forma. Eu fui, tirei o barro, ele estava fazen-
queixo, tudo feito. Eu ficava só prestando atenção, aí eu
do a forma, eu estava olhando. Quando vinha uma chuva,
entendi. Quando ele ia fazer esqueleto, ele só vinha tirar
ele me mandava tirar a forma do sol. Na hora que o sol
medida era em mim. Mas eu, calado, ele não sabia se eu
esquentava, ele me mandava botar de volta. E eu, olhando
estava aprendendo, porque se percebesse que eu estivesse
tudo. Quando fomos à casa dele cobrir a forma, eu prestei
aprendendo, ele me recusava. Nesse tempo, quem sabia fa-
atenção. Nesse tempo, era aquele papel grosso de embru-
zer uma arte dessas não ensinava a ninguém, senão ficava
lho. Eu vi, ele cortou tudinho na tesoura, juntou as tiras
sem ter saída ele só. E ele queria ser melhor, o boi dele era
e botou lá. Depois, pegou uma tapioca de goma, fez um
o boi melhor! O boi que tinha comédia, tinha onça, tinha
papeiro de grude e banhou a forma todinha, passou só o
cobra, tinha raposa e os outros bichos lá que ninguém sa-
papel por cima encontrando as pontas umas nas outras. O
bia fazer. Mas quando ele estava fazendo essas coisas, para
papel ficou solto, ele foi cobrindo, cobrindo todinha, não
ele, eu estava servindo assim como um escravo, um filho
156
Palhaços do boi
de preto. Ele era branco, bem louro. E a família de negro
que tinha lá no São Raimundo era só a do meu pai mesmo.
Decerto que quando fez uns oito anos que o Germano já vinha fazendo esse boi, seu José adoeceu. Ele foi disparar uma
espingarda, quando ela estava encravada, a espingarda arrebentou e o cano deu no rosto dele. Ele ficou defeituoso do
rosto, sentindo dores de cabeça. Largou de fazer o boi e veio
embora para Santa Helena. Tinha uma dona que estava com
uma promessa para pagar para São João, ele adoeceu, despachou. Dona França ficou preocupada. Então, os que batiam
as caixas, os batuqueiros, ficaram; dos cantadores de bumba-boi ficou João Pinto, ficou Júnior Pavão, ficou o Regino e
o Antônio Cururu. Então, eu disse para a dona do boi: “Olha,
se a senhora arranjar com Edith Lima e Zé Maria, para bordar o couro do boi, o esqueleto eu faço.” “Tu fazes?” “Faço.”
Então, eu fui tirar as varinhas, o arame, tirar cera, encerar
fio, assim como eu fazia junto com ele. Armei o esqueleto do
boi direitinho e já fui fazer o que ele nunca tinha feito junto
comigo, fui fazer onça, fui fazer uma cobra para engolir um
cidadão até na cintura. Passei a fazer qualquer bicho!
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
157
Raimundo Leal (Baguinho)
de ladinho; aqui estava outro primo que eu tinha. Se eles
Nasceu em 1935, no Puca, Guimarães, onde vive até hoje.
de botar o peixe, a gente tinha que comer tudinho, sem
Aposentado, ainda trabalha em roça e pescaria.
dizer nadinha.
Eu vou contar a história do meu apelido. Quando eu caí
Minha família toda brincava boi, meu pai, meus irmãos,
em cima desta terra eu não conheci a minha mãe, o nome
eu. Estou casado há um tempão, e minha esposa Maria é
dela era Tilú. Ela teve eclampse e morreu, mas eu fiquei
moda de zabumba. O pai dela, o seu Elias, é o rei daqui.
vivo. Ficou só meu pai. A minha avó materna, Cristina,
Ele ainda é vivo, já está velho e anda com duas muletas,
tomou conta de mim, mas nesse tempo nós aqui vivíamos
mas é invocado com bumba-boi. Para bater zabumba,
era de pescaria, mas só os que já estavam adultos. O meu
pandeiro ou bumbo, isso é a maior influência dele. Esse
pai era homem e quando ele vinha da pescaria, às vezes
homem era o melhor zabumbeiro que tinha aqui. Nesse
ele me dava um peixe, às vezes não dava pra deixar. A mi-
tempo, Maria e eu estávamos criando o nosso segundo
nha avó mexia farinha. Nós levantávamos, uma hora, duas
filho. Por onde eu ia, Maria ia também. Por onde ela
horas, meia-noite, onze horas da noite, conforme o lugar,
ia, botava o pequeno no ombro, chegava lá onde o boi
para mexer farinha. Sabe o que é uma pobreza? E eu fui
brincava, armava a rede de banda e botava o pequeno
me criando numa pobreza grande e eu era muito magri-
para dormir. Os filhos todos cresceram vendo boi. Mas
nho, por isso esse apelido.
nenhum chegou a brincar boi. Tem um, o Nivaldo, que
entendessem de fazer o pirão no açúcar e se esquecessem
é professor, esse era beleza pra brincar boi. Outro, que
Eu fui criado numa pobreza, mas a gente nesse tempo sa-
quebrou a perna, é um palhaço purinho. Ele mete um
bia respeitar. Almoçava em cima de uma mesa, sentadinho
cabelo grande e faz estripulia que só. Eu queria deixar
158
Palhaços do boi
essa herança para eles. Mas, também, eu nunca fiz esfor-
aprendi a fazer palhaçada da minha cabeça mesmo. Eu
ço para eles aprenderem o que eu sei fazer.
não tenho o tempo marcado, mas há muito tempo, desde novinho, eu brinquei de palhaço e a maior parte do
Eu brincava todo tempo de boi. Aqui neste lugar não fal-
tempo que eu brinquei boi foi como palhaceiro. Eu tinha
tava boi. Todo ano era uma disputa de bumba-boi. Eu
uma palhaçada que eu cantava assim: “Eu vou chegando
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
159
com a minha bicharada, eu vou chegando com a minha
Eu tirava as matanças facilzinho. Pensava: “Rapaz, nós va-
bicharada/dança, zebra, dança/dança, zebra, dança/dan-
mos fazer assim, fazer assim.” E dava tudo certinho. Às ve-
ça, girafa, dança/dança toda a bicharada.”
zes, quando a gente começava a fazer o boi, fazia já o ensaio
da matança e já via na hora se daquele jeito ia dar certo. Todos
Os donos de boi me convidavam para ser palhaço na tur-
nós nos metíamos a fazer graça e era facilzinho.
ma deles: “Rapaz, eu quero pra tu ser o Pai Francisco da
nossa brincadeira”. Tinha o finado Vico, do Jenipaúba, esse
As roupas dos palhaceiros eram de tudo quanto era jei-
já morreu há muito tempo. Brinquei no Boi de Valdemiro.
to. Eram aquelas roupas mais velhas que não se queriam
Brinquei no Boi de João Anastácio, no Boi de Silvestre Ra-
mais. A gente guardava e eles vinham buscar. Já sabia que
belo, daqui do Puca, várias vezes. Também brinquei no Boi
era palhaceiro. Nós fazíamos aqueles fofões tudo rama-
de Ricardo, daqui do Puca. Eu ia fazer minhas brincadeiras
lhudo. Ramalhudo é aquela roupa estampada, que a gente
como eu queria, a palhaçada mesmo era dominada por mim.
compra para fazer cortina. Cada qual tinha a sua careta,
era cada uma de um jeito. Às vezes fazia, ou se compravam
Meus companheiros de palhaçada variavam. Tem um
feitas, de pano. Quando eles faziam, faziam com aquelas
vivo, o nome dele é Francisco, mas por todo lado é conhe-
cuias que a gente tem cuieira no quintal. Furava tudinho,
cido como Periquito, do Puca. Ele mora hoje lá na cidade
botava pano na parte de trás e amarrava. Eram aquelas
de São Luís. Esse era bom de palhaçada. Tinha também
cuias bonitas. Manoel do Carmo, meu primo, gostava de
Benedito, que nós chamávamos de Chapo, lá do Oiteiro.
fazer boi de carnaval. Ah! Isso era bom demais. Ave Ma-
Hoje está doente de hérnia. Tinha um por nome João Pato.
ria! Brincava homem, brincava mulher. Mas os da frente,
Outro que chamavam de Curica, o nome dele era Antônio.
os que faziam, Deus já levou. Deus foi precisando, foi le-
Esses, Deus já levou.
vando, as coisas foram se acabando, agora não tem mais.
160
Palhaços do boi
Aqui já foi muito de festival de bumba-boi, bloco, brinca-
que em vez de eu fazer de pé para baixo, era de cabeça para
deira; agora está tudo se acabando. O pessoal só quer saber
baixo. Então, eu ia botar o nome dele Vira-o-Mundo, pois
de gaiatice e de molecagem. A derradeira vez que eu brin-
o mundo parece que retorceu. Porque hoje é tanta coisa
quei foi em uma brincadeira de preto em que o cara can-
esquisita, é tanta coisa que dói o coração da gente, então,
tava: “Ê congoruê de Coroatá/ê congoruê de Coroatá/é
se eu entrasse de novo nesse movimento de bumba-boi,
de truca-truca é de mirunguê/ô lelê-lelê, ô lelê.” Nós
queria fazer um boneco de cabeça para baixo, pois parece
dançando e batendo na mão uns dos outros. Era bonito
que o mundo virou de cabeça para baixo.
como o quê!
Este ano eu vou fazer um boi. Deus não há de me matar
Eu, quando olho uma brincadeira dessa, fico muito
enquanto eu não fizer esse boi! O pessoal já me aporri-
emocionado porque não estou participando! Quando os
nhou tanto e eu vou fazer, mesmo que agora pareça que
outros estão brincando bumba-boi e eu não estou, nem
não é como era dantes.
sabe como eu fico com o meu coração. É certeza que
eu até choro porque o meu pai, meus irmãos, meus tios
eram dessa festa e era uma coisa muito gostosa. Isso para
mim é tudo. Isso era bonito como o quê! Mas foi-se acabando esse pessoal mais velho. Decerto que eu também
já estou velho, mas ainda estou vivendo.
Eu estava com uma ideia de fazer o Vira-o-Mundo. Sabe o
que era o Vira-o-Mundo da minha ideia? Era um boneco,
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
161
162
Palhaços do boi
Roberval Silva (Legário, Rubico)
e saía dali agoniadinho. Para mim, o importante do boi é
Nasceu em 1947, no Anajá, Cedral, onde vive até hoje. Apo-
onde eu quisesse, não me embaraçava com nada. Quem
sentado, ainda trabalha na lavoura.
vai se preparar para brincar boi com chapéu de fita ou
ser palhaço. Eu terminava a palhaçada, ia para festa, para
de vaqueiro tem que estar ali de pé a noite todinha. Para
Dizer quando eu comecei a brincar de bumba-boi, eu
mim, não!
não sei dizer, mas eu já brinco há diversos anos. Meu
pai brincava muito de vaqueiro e ele que fez eu ser pa-
Tem gente que gosta de ver os palhaços. Mirinzal é um dos
lhaço. Nenhum dos meus irmãos nunca brincou bum-
lugares onde o povo mais gosta de palhaçada. Eu brincava
ba-boi e mamãe era contra, não queria que eu brincasse
com Bezerra, Pilola, Caburé, finado Antônio Augusto, e o
de palhaço. Mas ele dizia que era só besteira dela e que
povo gostava muito de nossa palhaçada. Cururupu é outro
os palhaços é que arrumavam mulher. Assim meu pai
lugar que gosta de palhaçada. Lá eles tomam conta da roda
dizia. Mas eu brinquei boi não sei quantos anos, nunca
de boi, entram para olhar a palhaçada de boi. Preste ou não
arrumei mulher nenhuma. Ou meu pai me enganou, ou
preste, eles estão lá em cima assistindo. Mas tem lugar onde
eu fui burro.
as pessoas nem ligam para os palhaços. Para eles, ter e não
ter palhaço é uma coisa só.
Eu achei mais jeito em ser palhaço porque eu acho uma
doidice gente comprar aquele bando de coisas. O meu so-
Eu usava roupa, careta... As caretas eram daquelas compradas
gro tinha um chapeuzão cheio de fita que está estragando
prontas em São Luís. Às vezes faz a máscara de barro e senta
na casa da sogra. Às vezes ele estava brincando no boi e
o papelão por cima para sair o molde. Mas nunca usei dessas.
me dava o chapéu. Eu passava meia hora debaixo daquilo
Quando era carnaval, os pequenos vinham atrás das minhas
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
163
máscaras. Eles agarravam e iam dando fim. Eu estou com cin-
sentação, onde se visse um erro, a gente: “Olha, tu pecou
co anos que eu não pulo boi, nunca mais comprei máscara.
bem assim, assim, assim.” Quer dizer, na próxima vez, o
Mas eu tinha era muita roupa!
cara já sabia como ele teria que fazer. Cada um fazia por
si e os brincantes sabiam quem estava fazendo melhor de
Eu deixei de ser palhaceiro, há uns cinco anos que eu não
acordo com as respostas, de acordo com o cantador. Tinha
brinco. Depois que terminou boi aqui, nunca mais eu
um cara que tomava conta dessa brincadeira aqui do Anajá
brinquei, porque eu sempre brincava, mas só aqui na tur-
de nome Zequinha. Ele era bom cantador. Lá em Sumaú-
ma do Anajá, nunca brinquei boi fora daqui.
ma, tinha um de nome Periquito, que era bom ao ponto de
eu dizer que ele não era nem cantador, ele era também pa-
Sempre fui ruim para tirar matança. Tinha companheiro
lhaço. Ele ajudava o palhaço, ele dizia a resposta certinha
que era bom para tirar matança e, às vezes, eu rendia al-
para o palhaço.
guma coisa que eu achava que desse para melhorar. Agora, o sentido sempre eram os outros que davam. Não tem
Eu fazia várias matanças... Quando eu era criança faziam
disputa entre os palhaços porque a gente é companheiro.
um boi aqui. O tio de Betinho era palhaceiro e era cheio
Para ser palhaço o sujeito tem que ter um contato bom
de invenção. A primeira vez que eu saí em uma matan-
com os cantadores, ser uma pessoa esperta.
ça foi como um urso. Meu pai já estava velho, mas ainda
brincava de vaqueiro nesse boi. Nessa matança, tinha um
Era difícil ensaiar matança. Às vezes ensaiava só em con-
viageiro que saiu para uma caçada. Tinha diversos bichos.
versa no dia que fosse brincar. Em véspera de São João, no
Esse viageiro tomava o urso dos cachorros para não ser
dia de São João, a gente se juntava, conversava e apresen-
mordido. Depois, os cachorros se revoltavam para querer
tava logo em seguida. Assim que tivesse a primeira apre-
comer esse viageiro.
164
Palhaços do boi
O tio de Betinho também inventou uma matança em que
Tinha a matança da alma na fazenda, que era importantís-
um boiadeiro estava levando uma boiada para o Pará e
sima. Eu fiz essa duas vezes. Mas, na segunda vez, parece
que o dinheiro não dava mais para comprar bois barri-
que eu não tinha mais o jeito pra fazer, não foi mais boa.
gudos. Nessa história eu era o boi-búfalo. Na época, vi-
Eu faço a matança um ano. Se passam uns cinco anos, eu
nham muitos paraenses por aqui comprar boi para levar
vou repeti-la, eu não acho que eu estou fazendo ela direi-
para o Pará e vender por lá, e tinha muita gente que ven-
tinho como eu fiz no primeiro ano. Para mim tem isso, na
dia seus bois capados.
primeira vez sai boa, quando eu vou fazer na segunda não
1
está mais... Eu não acho, né? Só a matança de um tal feitiDe bicho saí só essas duas vezes. De mulher eu saí uma
ceiro montador que eu já fiz umas três vezes e eu achava
vez, num boi daqui mesmo, de Rosa. Ela não teve palha-
que quanto mais eu fazia ela, me parecia que mais melodia
ceiro nesse ano porque Delza, lá no Moreira, fez um boi
ela tinha.
onde Manoel tomava conta dessa turma. Então, os palhaços
da Tapera brincavam nesse boi do Moreira e o boi de Rosa
Nós fizemos essa matança do feiticeiro montador no boi
ficou sem palhaço. Nesse boi de Rosa os palhaços eram eu
de um senhor lá de Parati. A mulher desse homem era en-
e compadre Antônio de Apolônio. Eu saí de mulher nesse
joada com essa matança. Se vivesse fazendo essa matança
ano, mas depois nunca mais saí de mulher. Eu não levava
para ela todo dia, era um favor. Ela queria porque queria
muito jeito para arremedar mulher.
essa matança, ela era muito enjoada com essa matança.
Mas, para mim, para se repetir, só essa que eu achei boa.
As outras que eu faço, quando eu vou repetir, parece que
não estão mais boas.
1
Boi gordo por castração.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
165
Rogério Fernandes
Guilherme e o finado Moço.” Guilherme e o finado Moço
Nasceu em 1944, no Mota, Mirinzal. Vive nessa cidade até
cões. Podia estar a melhor música lá. A gente tomava aquela
hoje, onde, apesar de aposentado, ainda trabalha na lavoura.
assistência de lá e vinha para dentro do nosso cordão, da-
já morreram, eles dois. Não ficava nenhum naqueles barra-
quela brincadeira.
O lazer do bumba-boi era uma das coisas de que mais eu
gostava. A gente era de quatro a cinco companheiros, a
O cordão era do tamanho desse terreno grande, lá para
gente formava as comédias, aquele teatro, aquela brinca-
acolá dos brincantes. Mas, nessa hora, fechava, porque
deira. Era sempre o Betinho ou eu que criávamos as histó-
era muito importante para o povo. Era mais quem queria
rias. A gente botava leão, onça, bode, boi, cobra. A gente
ver, se empurrando e vem chegando, se encolhendo... E
botava qualquer coisa para fazer aquele enredo, essas eram
a gente ficava! Muitas vezes, a gente só ficava só naquele
as graças em que apareciam os bichos. Essa equipe nossa
localzinho, porque o povo fechava mesmo. Então, era uma
era uma piada! Cada um de nós tinha um horário daquelas
coisa importante que a gente tinha!
piadas nossas. E nenhum atrapalhava uns aos outros.
Tinha muitas pessoas que gravavam e mostravam para
Quando a gente saía para fazer essa representação em qual-
gente depois. A gente ia rir depois. O que a gente inventa-
quer lugar grande, como Guimarães, Cedral, Porto Rico,
va no momento, aquilo não era decorado, aquilo tudo era
ou mesmo em Cururupu, a gente chegava lá, tinha o barra-
repente nosso. As piadas de Betinho, eu dizia uma palavra
cão de festa e tinha o local onde a gente representava essa
para ele, ele tinha aquela prosa, aquele arremate que ele
brincadeira. Era muita gente lá dentro do barracão, mas na
tinha! Tudo com graça e aquilo era um prazer. Na hora da
hora que dissesse: “É a palhaça do Betinho mais Rogério,
minha representação, eu tirava, cantava. Todo ano tinha
166
Palhaços do boi
as brincadeiras aqui na região. Eles vinham aqui com o
Antes, quando eu fazia a matança, tinha aquela graça, mas
tempo me avisar, mas com a falta dos companheiros, eu
através dos companheiros que me davam força. Hoje, se eu
resolvi fazer como Pelé: eu vou pendurar minha chuteira
for fazer uma matança, eu não tenho companheiro para
antes que eu fique desmoralizado. Só que aquilo, hoje, eu
me ajudar. Então, vai ficar em nada! Por quê? Porque eu
tomei como puro esquecimento. Tudo!
fiquei desaparelhado. Fiquei só, por isso eu não brinquei
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
167
mais. Betinho foi embora, outros já morreram. A última
corrigiam aquele povo. Ninguém bebia fora do limite. Só
vez que eu saí de palhaçada, eu brinquei em um boi de
tinha aquela medida de todos nós brincantes e a gente to-
caboclo, aqui, em Mirinzal. Isso, eu acredito que vai fazer
mava para não ficar bêbado, para não fazer feio, trabalhar
quase uns oito a dez anos. Ainda brinquei botando outros
certo. Outra, eram cinco, seis, dez zabumbeiros naque-
companheiros que eu fui buscar para ver se a graça dava
les instrumentos de bater. Mas tinha o chefe de puxar na
certo, mas eu achei que não deu mais para mim.
frente. Ninguém puxava sem o chefe começar. Aqui tudo
era certo! As cantigas, o cabeceira cantava a toada dele
Hoje tem boi bem pertinho na minha casa, no Mirinzal.
e a gente só respondia quando ele sacudisse os maracás.
Todo ano tem São João, mas eu não tenho o prazer de
Enquanto ele não avisasse, a gente ficava caladinho ali. Na
ver. Por quê? Aquela representação que eles fazem não
hora que fazia o sinal para a gente, era a hora de todos! Todo
me agrada mais. Para mim, não tem o assunto que a
mundo cantava em uma voz só. Então, era por isso que eu
gente tinha. E assim eu fui deixando. Tenho uma za-
tenho um grande respeito!
bumba, que eu comprei para brincar, mas em outro posto, de zabumbeiro! Agora, de palhaceiro, não. Porque
Hoje eu olho, agora, nessas brincadeiras aí, não tem.
eu fiquei desapontado.
Cada qual puxa logo de uma vez. Um canta para uma
banda, o outro canta para outra, todo mundo fuma den-
A gente tinha um regime. Na nossa brincadeira tinha um
tro da brincadeira! Aí ficou uma misturada que não me
grande respeito. Em quê? Lá em nossa brincadeira nin-
agradou mais!
guém fumava dentro do cordão, porque aquela fumaça do
fumo provocava a nossa voz para cantar. A gente tinha
uns dois ou três regentes dentro daquela brincadeira, que
168
Palhaços do boi
Valdemar Piedade Pereira
(Caçador)
época só tinham as turmas de Mizico, na Vila Passos; o de
Nasceu em 1949, em Guimarães. Mudou-se na década de 1960
do Bairro de Fátima. Eram só esses, depois vieram surgindo
para São Luís, onde, apesar de estar aposentado, ainda trabalha como pedreiro.
Laurentino, que se diz ser o boi mais antigo do Maranhão;
o de Leonardo, na Liberdade; e tinha o de Nilton Correia,
outros e outros.
Aqui em São Luís, eu brinquei com Betinho no boi de
A primeira vez que eu olhei uma palhaçada está muito
Lauro Almeida, lá na antiga rodoviária, no bairro da Ale-
longe! O primeiro boi em que vi a comédia foi o de Pe-
manha, e depois no bairro Ivar Saldanha. Mas antes, eu
dro Relógio, em 1958, em Guimarães. Eu era garotinho,
cheguei a fazer matanças com o finado China, que era o
pixixitinho. Quase todo mundo da minha família lá em
cantor, com o finado Tá-Roubado, o finado Nilo Mota e
Guimarães brincou boi. E a primeira vez que eu brinquei
o finado Zé Burnett. Em uma dessas matanças eu fazia o
como palhaço foi em 1961, no boi de Chico Costa, da Ter-
papel de caçador e é por isso que eu tenho esse apelido. Em
ra Nova, também em Guimarães. Nesse tempo, os palha-
1978, eu fui para o boi de dona Zeca.
ços eram Lourival, de Central do Maranhão, e Cláudio.
Os cantores eram Mundico Veado e outro. Tem que ter
Eu continuo brincando com dona Zeca, na rua Dagmar
muita mente!
Desterro, no Bairro de Fátima. Ela antes fazia boi de orquestra, nesse mesmo endereço. Mas quando o marido
Eu vim de Guimarães para São Luís por intermédio de
dela morreu, ela não teve condições de continuar com
folclore de bumba-boi, sotaque de boi de zabumba. Lem-
o boi. Como, na época, boi se fazia para pagar promes-
bro que quando eu cheguei, eu ia olhar os bois e nessa
sa, ela veio ajudar a fazer couro no boi de Lauro para
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
169
continuar com o compromisso. Lá, os principais palhaços com quem nós brincamos já morreram. Eram Pé de
Bola, que era lá de Guimarães e seu Abílio. Mas esse boi
de Lauro, como é perto de casa, eu sempre acompanhei,
sempre gostei porque foi um boi também que marcou a
minha vida.
Eu brinquei de palhaço até 2004, mas a minha roupa ainda
está aí guardada. De lá para cá, eu comecei a brincar boi
de vaqueiro e brinco até hoje. Mas eu não vou mentir para
vocês, quando eu tenho meus parceiros, eu gosto de fazer a
palhaçada, gosto de brincar e eu faço tudo para nego se sentir bem. Eu faço com criatividade! Das matanças que eu
já fiz aqui, muitos achavam graça, outros, não. Mas cada
dia que eu chegava, inventava uma coisa.
Todo ano era uma matança diferente. Qualquer boi de
sotaque de zabumba que nós fizéssemos, os cabeceiras
faziam tanto toada nova como os enredos. Era interessante! Antigamente tinha muito bicho. No interior, esses bichos eram feitos de buriti. A onça, a gente fazia
170
Palhaços do boi
de buriti também, mas pegava aqueles sacos de estopa e
a apresentação é de no máximo uma hora de relógio para
pintava. Há poucos anos, como não tinha buriti, eu fiz
cada uma. Às vezes nem isso. Então não dá tempo de se
uma onça com saco de nylon.
fazer uma matança conversada. No interior ainda brincam umas matanças como antigamente. Em Guimarães,
Aqui eu não tenho mais nada. Eu só tenho uma gaiola de
em Central, se você for brincar nesses lugares aí ainda se
uma matança que eu apresentei lá no Ceprama, que eu era
vê uma matança. Mas aqui tem apresentação que não dá
vendedor de animal selvagem. Lembro que dessa vez a
nem para o cantador cantar.
polícia queria me prender porque eu falei mal do Ibama.
Dizia que o culpado da mata estar com falta de bicho não
Também não existe mais palhaçada porque a nossa brin-
era o vendedor de animal, pois eu só pegava um bichinho
cadeira é matuta, ela não tem uma significação de desen-
para eu criar. Mas o Ibama fazia negócio e vendia para os
volvimento, de ganhar dinheiro. Antes se fazia a brinca-
atravessadores. O policial disse: “Olha, você não faça uma
deira sem precisar de dinheiro. Nós fazíamos porque era
coisa dessa!”
promessa. A gente convidava um e outro e fazíamos festa
bonita. Isso sim é precisar da cultura.
Não se faz mais matança mesmo, aquela bem feita, bem
desenhada. Na rua, nos arraiais, a gente não faz comédia,
A gente tem um compromisso com a brincadeira, a gen-
se faz uma imitaçãozinha de cinco minutos, que se dá
te se veste, se fantasia, porque a gente faz aquilo que a
nome de arranjo. Há uma tentativa de resgate, querem
gente gosta.
que nos bois tenham sempre um Pai Francisco e uma Catirina. Mas a gente não faz mais a matança porque o horário é muito curto. São várias brincadeiras nos arraiais,
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
171
Valter Silva (Caburé)
A minha mãe sabia bem a leitura. Na época, Bernar-
Nascido em 1940 em São Luís, mudou-se quando era ga-
Esses, quando erravam uma letra, ela ia com maior cari-
roto para Graça de Deus, Mirinzal, onde vive até hoje co-
nho ensinar. Eu, não. Ela vinha logo para arrancar uma
mo aposentado.
orelha! Todo mundo aprendeu e eu não aprendi. O es-
dinho, comadre Cidinha e eu íamos aprender com ela.
tudo não encaixou, esse negócio não deu para mim. DeNasci em São Luís, no Caminho da Boiada. Estou na idade
pois foi tarde. Nem a leitura eu conheço, só sei escrever
de 74, mas não lembro o dia e o mês do meu nascimento.
o nome. Eu aprendi mesmo foi a fazer palhaçada.
Minha mãe era do Iguaíba e meu pai era do Anajá. Eu vim
pequenininho para o Anajá e de lá meu pai veio morar
A parte do boi que eu mais gostava era a palhaçada. Era a
aqui na Graça de Deus e me trouxe.
melhor parte do boi que eu gostava de brincar! Quando eu
ainda podia saltitar, eu comprei um chapéu para eu botar
Eu não gosto de me chamarem por meu nome. Eu gosto
na careca. Uma filha me mandou canutilho de Brasília.
que chame só Caburé. Eu ganhei esse apelido quando
Mas eu dei o chapéu e vendi os canutilhos para brincar na
eu cheguei aqui. Nós jogávamos muito lá no rio e tinha
palhaçada. No boi, todo mundo está bem preparado com
um Daniel que me olhava quando eu passava, e dizia:
um chapeuzão de fita, com uma gola, uma saia, uma vara...
“Lá vem, lá vem o pequeno olhudo. O olho dele é que
Mas eu não via ninguém rir. Já eu, quando botava a care-
nem um caburé!” E aí ficou Caburé! Caburé é um pássa-
ta, saía com uma roupa rasgada e um paletó, todo mundo
ro que é todo pequenininho, todo pintadinho e olhudo,
ria. Para mim, não tinha escolha de personagem. Era no
danado para chamar frio de noite, aí ele enrola o pesco-
posto de homem, era no posto de mulher, tudo eu acho
ço dele.
que representava bem! Mas tinha uns dois palhaceiros que
172
Palhaços do boi
não queriam sair de mulher, nunca que a gente botava um
tanças. Uma pessoa sozinha faz, mas se for mais de uma
vestido neles! Eu, não. Eu gostava. Ainda amarrava minha
é melhor. Se somos quatro palhaceiros, nos reunimos e
cabeça. Eu não tinha vergonha! E quanto mais eles me
cada um dá sua opinião. Às vezes, nós saíamos daqui para
chamavam de palhaço, mais estavam fazendo eu crescer.
brincar boi em Guimarães e inventávamos matanças no
“Olha, rapaz, tu é um “palhaço”! “Mas porque tu ris? Tu
caminho. Nós, viajando, eu dizia: “Olha, a gente faz as-
não estás vendo que estou fazendo é palhaçada?! Não ri!
sim, assim, assim.” Se alguém achasse que não dava cer-
Fica na tua, sério!”
to, dizia: “Não, nós fazemos assim, assim.”
Eu não lembro mais quando foi a primeira vez que eu
O caso tem nome de brincadeira, mas na hora é sério! É pa-
brinquei boi de palhaceiro... Betinho e o finado Antônio
lhaçada no nome, mas não pode botar uma piada em falso!
Augusto foram meus patrões. Eles que eram meus mes-
De fora, a assistência não reconhecia quem era o palhaceiro.
tres! Aqui na Graça de Deus, Pilola e eu somos palhacei-
Só mesmo quando era de dentro do lugar! Aquele é Beti-
ros. Leônidas já está morto. Roberval é meu primo por
nho, aquele é Antônio Augusto, aquele é Caburé! Mas de
parte de pai. Nós brincamos muito boi juntos, de palha-
fora, não. Tinha que caprichar. Quando eu saía para brincar
ceiros. Também com o Bezerra, de Santaninha; Ribamar,
boi com a careta, eu reparava logo se tinha muita assistên-
de Cururupu; Luiz Carlos, Eduardo... Fizemos muita ma-
cia para achar o ritmo. E quando eu saía, que eu olhava, já
tança e depois fomos nos separando.
via aquela animação! De primeiro, eu gostava de brincar
boi porque era todo o tempo, era de dia, era de noite, era
Nós fazíamos três matanças por noite, quando o boi reu-
cheio de gente! Enquanto o boi não se despedisse, tinha as-
nia cedo. Depois passamos a fazer só duas porque, às ve-
sistência. Tinha muita assistência. A festa ficava peladinha!
zes, o boi se reunia tarde. Não era só eu que tirava as ma-
Só iam para lá depois que terminassem de fazer a matança.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
173
Antigamente, nós saíamos andando para brincar boi em
eu partir desta, os meus netos vão dizer: “Com isso aqui
Guimarães, Outeiro, Cedral, Rabeca, Porto Rico... De
é que vovô fazia palhaçada.”
primeiro era uma porrada de boi. Tinha gente que perguntava: “Ei, rapaz, que horas é o boi de fulano de tal?
Ah! Eu sinto falta do bumba-boi. É uma brincadeira que
Que horas é o boi de Manoel?” Hoje em dia, não. Agora,
eu acho bonita! Toda brincadeira é bonita, mas, para
tudo mudou. O carro vem buscar na porta. Agora, nin-
mim, véspera de São João, quando o boi reúne na foguei-
guém mais quer ver bumba-boi, o reggae não deixa mais.
ra, ahhh... Aqui tinha muito boi. Muito, muito boi! Dos
Se tem um boi brincando aqui e tem uma festa acolá,
bois que eu já brinquei, se hoje em dia eu fosse fazer um
eles não saem da festa para vir ver o boi. Além do mais,
só com donos de cada boi que eu brinquei, era um tur-
boi para cá já está terminando. Zequinha, cabeceira, já
mão! Eu não posso mais brincar, mas se um boi brincar
morreu. Manoel, cabeceira, adoeceu. Tem Zé Zico, ali
aqui, eu vou olhar. Gosto de ficar olhando e me sento só
no Santaninha. Ribamar, ali no Pé das Graças. Mas eles
para escutar! Ahhh...
não têm brincado. Zé Bolacha morreu! Nós passamos
então a brincar em Cururupu. Nunca mais fizeram boi
aqui e eu também parei de brincar desde o ano de 2011.
Não brinquei 2012, não brinquei 2013 e agora nós estamos em 2014 e eu vivo só no remédio. O último que
brinquei foi no boi de Zé Maria, em Cururupu, onde
fiz palhaçada, mas não como eu fazia. A doença... Mas
quando eu estava bonzinho, eu fazia bem. Ainda tenho
os brinquedinhos tudo ali dentro de um saco. Quando
174
Palhaços do boi
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
175
Glossário
Alumiar – iluminar.
Aperreado – perturbado, atrapalhado.
Arremedar – imitar, fazer trejeitos alusivos a algo ou
alguém de forma jocosa e debochada.
Arredar – afastar.
Bazugar (de bajogar) – arremessar, atirar longe.
Besouro – fogo de artifício.
Cabeceira – personagem do bumba meu boi, que,
normalmente, desempenha o papel de dono da fazenda, amo do boi, e de cantador responsável por puxar
as toadas.
Campear – Correr campos, andar no campo a cavalo à
procura ou tratamento do gado.
Candeeiro – objeto usado para iluminar, muito utilizado em localidades do interior onde não há fornecimen-
Bisca – tapa na nuca.
to de energia elétrica.
Bordamento – arte de fazer bordados no couro e na in-
Cangalha – armação de madeira usada para carregar
dumentária do boi.
carga no lombo de animais.
Bride – cabresto.
Carcar – apertar, enfiar, colocar e pressionar com força.
Bulir – mexer.
Termo usado também com o sentido de dar bronca (fer-
Cabaça – frutos da cabaceira (planta da família das
cucurbitáceas) que nascem em ramas.
rar) e fazer sexo.
Careta – máscara.
Carregadíssimo (muito carregado) – além do sentido
usual, o termo carregado pode ser usado como sinônimo de
azarado, influenciado por espíritos ou energias negativas.
Chapado – abarrotado.
Chavelho – chifre.
Cofo – cesto artesanal feito de palha de palmeira, usado para
armazenar e carregar artigos de diferentes naturezas.
Comer ou de comer – refeição, comida. No Maranhão
usa-se muito a expressão “o comer” ou “o de comer”, normalmente pronunciando-se o cumê.
Couro do boi – cobertura de veludo que envolve a estrutura do boi de brinquedo do bumba meu boi. O veludo
Curador – curandeiro, pajé.
Cururuca – corvina (peixe).
Dar uma taca – dar uma surra, bater, espancar.
Diamba – maconha.
Embira – fibra extraída da casca de árvores, que é muito
utilizada para a confecção de cordas e barbantes devido à
sua grande resistência.
Encarnado – vermelho, avermelhado.
Fazendeiro – além de designar o dono da fazenda, o termo
também pode ser usado para designar aquele que tem fascínio por fazendas e seus afazeres.
é bordado com miçangas, canutilhos e pedras, formando
Grode – cachaça ou outra bebida alcóolica.
desenhos que variam de acordo com a temática escolhida
Guriatã – pássaro pequeno, muito apreciado no Mara-
pelo grupo.
nhão. É considerado um pássaro cantador, dos melhores
Cuia – fruto da árvore popularmente conhecida como
imitadores de pios de aves diferentes.
cuieira. Partido ao meio, é usado em várias partes do Bra-
Histórias de Gonzaga e Camões – tipo de histórias em
sil para servir como vasilhame.
Cuieira – árvore que dá cuias.
178
Glossário
que esses dois personagens sempre querem levar vantagem nas situações.
Hum hum, heim heim – interjeições ricas de sentidos,
Matança – encenação cômica realizada nas brincadeiras
muito comuns no Maranhão. Dependendo da entonação
de bumba meu boi do Maranhão, principalmente no meio
com que são enunciadas, podem expressar negação, dúvi-
rural em certas regiões. Também conhecida como auto, co-
da, escárnio, concordância ou repreensão.
média, palhaçada.
Japonesinha – sandália de dedo; sandália de tira.
Matuta/o – adjetivo relativo ao meio rural, usado como
Jia – rã.
Lamparinado – bêbado. O termo vem de lamparinada,
que significa uma dose de cachaça no linguajar regional
sinônimo de simplório, ingênuo, caipira, sertanejo.
Mucado (ou mucadinho) – corruptela de bocado, bocadinho, pequena porção.
do Norte.
Mucura – animal marsupial (tem uma bolsa para carregar
Manceta – instrumento de madeira que é usado na quebra
os filhotes) que expele um odor muito desagradável, como
do coco babaçu.
o gambá. Costuma ser rejeitado porque ataca galinheiros e
Maniva – pedaço do caule da mandioca.
Maracá – chocalho. O objeto é usado pelo cabeceira no
bumba meu boi e em rituais de cura por pajés e curadores.
Maracajá – tipo de felino selvagem.
Maroca – abelhudo, bisbilhoteiro.
Marocar – bisbilhotar a vida alheia.
poleiros de aves para comer seus ovos. No Norte o termo
é usado para se referir a pessoas feias e malcheirosas, ou
simplesmente desagradáveis.
Panada de facão – batidas dadas com o facão, sem cortar.
Paneiro – cesto de palha trançado artesanalmente.
Parelha – conjunto de três tambores usados no tambor de
crioula.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
179
Perigoso – além do sentido óbvio de representação de pe-
Regueiro/a – quem aprecia o reggae, estilo musical de
rigo, o termo pode ser usado com o sentido de afiado, ex-
grande popularidade no Maranhão.
periente, competente.
Santeiro – aquele que confecciona ou vende imagens de san-
Pilhar – entusiasmar, empolgar, animar-se.
tos. Antigamente, era comum o santeiro sair oferecendo as
Pisunhou (de pisunhar) – pisar, pisotear.
Porfiar – concorrer, disputar. No Maranhão, comumente
fala-se trufiar.
imagens de porta em porta, como um ambulante.
Socó – instrumento artesanal de pesca, muito usado na
região de lagos na Baixada Maranhense. Ele é uma espécie de cesto feito de tala de palmeira em formato de cone,
Procurar – além do sentido usual de buscar, o verbo é
sem fundo nem tampa, de pouco menos de um metro de
usado no Maranhão com o sentido de perguntar. Pro-
altura. A abertura menor tem cerca de 20 cm de diâmetro
curar algo para alguém, portanto, significa perguntar
e a maior tem o dobro dessa medida. O pescador entra na
algo a alguém.
água até a altura da perna ou da cintura, segurando o socó
Provocar – o verbo pode ser usado com vários sentidos
pela parte de cima. Em seguida, mergulha-o no fundo, dei-
como causar, fomentar, injuriar, estimular, seduzir, irritar,
xando a abertura superior fora da água. Por essa abertura,
assanhar.
ele enfia a mão e pega o peixe que, porventura, tenha sido
Queria para (querer para) – expressão regional com o
capturado no socó.
sentido de querer que. Por exemplo, “o corajoso queria
Sentar – pousar.
para o patrão fazer o pagamento para ele” tem o sentido
Surulina (sururina) – nome popular de uma ave da família
de “o corajoso queria que o patrão fizesse o pagamento
dos tinamídeos, que aparece nas Américas do Sul e Central.
para ele”.
Assemelha-se a uma pomba ou perdiz. Tem coloração mar-
180
Glossário
rom, esbranquiçada na garganta. Alimenta-se de sementes,
Tiquara – tipo de pirão feito com farinha branca, limão e
insetos e pequenos frutos. Muito apreciada na culinária do
água, temperado com sal e/ou pimenta, podendo ser acom-
Maranhão, tem se tornado cada vez mais rara devido ao des-
panhado de peixe ou carne.
matamento de grandes áreas do estado.
Tambor de crioula – forma de expressão que reúne música, canto e dança, bastante popular no Maranhão. Geral-
Toada – tipo de canto próprio do bumba meu boi.
Tontiço (toitiço) – nuca, cangote.
mente é realizado em homenagem a São Benedito, tido
Troíra – lagartixa.
como santo protetor dos negros, e remonta ao período da
Venta – nariz, focinho.
escravidão. Caracteriza-se pela sonoridade de um conjunto de tambores tocados pelos coreiros e pela coreografia
Viageiro – viajante.
sensual executada pelas coreiras. O ponto alto da dança é
Visagem – aparição, que pode ser de um morto ou de um
a punga ou umbigada, uma batida de barriga com barriga
ser encantado. Diz-se visagento daquele ou daquilo que
que fazem as coreiras, e que funciona como um convite à
provoca visagens.
entrada e saída do centro da roda. O tambor de crioula foi
Zabumba – espécie de tambor rústico, tradicionalmente
registrado pelo Iphan como patrimônio cultural do Brasil
em 2007.
feito de madeira e couro. De médias e grandes dimensões, emite um som grave quando é percutido por varetas,
Tapuios – personagens do bumba meu boi, os quais repre-
macetas ou baquetas. Em várias partes do Brasil é muito
sentam indígenas que ajudam os vaqueiros a procurar os
usado para marcar o ritmo em diversos gêneros musicais.
ladrões do boi, quando este é roubado.
Também é conhecido como bumbo.
Teso, tesinho – duro.
Zoada – barulho forte.
Comédias do bumba meu boi do Maranhão
181
Eu sou pretinho, meu senhor
Eu sou pretinho, nunca tive dinheiro
Nunca fui escravo
Mas eu ando no mundo fazendo graça.
O miolo deste livro foi impresso em papel couchê
matte 120g e a capa em duo design 350 g. Os textos
foram diagramados em Aldine 721 BT corpo 11/18.
Os títulos e a numeração das páginas, em Lucida
Sans. Tiragem de 1.000 exemplares.
184
Comédias
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