EXPANDINDO AS FRONTEIRAS DA HISTÓRIA:
DISCURSO HISTÓRICO E DISCURSO FICCIONAL
Ana Márcia Barbosa dos Santos (NPGED/GPDHEA/ UFS)
anamarcia_se@yahoo.com.br
Sabemos que a expansão do universo do historiador e o diálogo crescente com outras
disciplinas têm propiciado a vinculação da História com outras áreas do conhecimento
tais como a lingüística, a antropologia, a filosofia e a literatura. A abordagem literária
revela-se um método potencialmente rico para a pesquisa histórica. Nessa perspectiva, o
presente trabalho propõe-se a analisar as relações verificadas entre História e Literatura,
partindo do pressuposto de que a vinculação entre realidade e ficção pode possibilitar
uma efetiva ampliação do campo conceitual da História, ampliando sobremaneira as
linhas de investigação científica. Compreendendo o discurso histórico como uma
interpretação da realidade que pode se dar de variadas formas, visualiza-se o caráter de
narratividade, expresso em diferentes graus no mesmo. Verifica-se então que o que
aproxima os escritos literários e os históricos é a textualidade. Discutiremos o conceito
de narrativa, o ressurgimento da narrativa histórica, bem como sua possível
aproximação com as técnicas literárias, as diferenças e as aproximações entre discurso
histórico e discurso narrativo, a mudança no enfoque da narrativa e a importância do
romance histórico.
Palavras-chave: História, Literatura, Fontes, História Cultural, Escola dos Annales.
INTRODUÇÃO
A História Cultural a fim de analisar toda a abrangência da atividade humana
tem se aproximado de outras ciências como a Antropologia, a Psicologia, a Sociologia e
a Lingüística. A rejeição ao chamado “paradigma tradicional” levou historiadores à
busca de novas formas de abordagem do passado, esse novo olhar sobre a História tem
ampliado inclusive o conceito de fonte, antes restrita a documentos oficiais, hoje
relacionados a inúmeros elementos como: impressos, cadernos escolares, diários
íntimos e textos literários:
Entre os historiadores, um dos efeitos da atenção renovada pelos
textos foi atribuir novamente um papel central às disciplinas de
erudição. Por muito tempo relegados à posição ancilar de ciências
auxiliares, esses saberes técnicos, que propõem descrições rigorosas e
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formalizadoras dos objetos e das formas, tornam-se essenciais, já que
os documentos não são mais considerados somente pelas informações
que fornecem, mas também são estudados em si mesmos, em sua
organização discursiva e material, suas condições de produção, suas
utilizações estratégicas. (CHARTIER, 2002, p.13)
Nessa perspectiva, pretendemos analisar a disposição da Nova História em
recorrer a outras disciplinas acadêmicas em busca de inovas possibilidades teóricas e
metodológicas e verificar os limites e perspectivas da aproximação entre História e
Literatura. A relação da História com outras disciplinas ocasionou uma inegável
diversidade de estudos, com a conseqüente apropriação de conceitos por todas elas, o
que possibilitou que diferentes conhecimentos e concepções fossem aproximados. A
pluralidade de temas e abordagens propiciou alterações no campo da história,
desvelando, inclusive, novas formas de expressão. Sem, obviamente, perder de vista a
autonomia e especificidade que permeiam o discurso histórico e o literário. Pois como
destaca Chartier (2002), a escrita da História é sempre uma narrativa, mas uma narrativa
particular, que visa um saber verdadeiro. Entendemos que todas as ciências possuem
seus métodos, teorias e objetos, elementos que contribuem na legitimação das mesmas
enquanto tais, assegurando-lhes o grau de cientificidade necessário ao sue exercício, já
que segundo Kramer (1995) toda disciplina é constituída, como viu Niestzche, de modo
muito claro; por aquilo que ela coloca como proibido aos que a praticam. Toda
disciplina é constituída por um conjunto de restrições ao pensamento e à imaginação, e
nenhuma delas é mais tolhida por tabus do que a historiografia profissional.
Comentando essa assertiva, Kramer (1995) afirma esses tabus impedem o uso de
insights originários da arte e da literatura, pois forçam os historiadores a enfatizar as
distinções entre fato e ficção. Embora saibamos da distinção entre ambos, cabe aludir
que a interpretação do primeiro pelo historiador é permeada ou influenciada por sua
forma de compreender a realidade ou de contar essa “história”. Já que para Le Goff
(2003) a historiografia é uma seqüência de novas leituras do passado, plena de perdas e
ressurreições, falhas de memórias e revisões.
Convém ressaltar que para os historiadores modernos há dois riscos, primeiro o
de cair em anacronismos, e segundo, o de adotar uma postura relativista no trato com o
objeto histórico, ao julgar que todas as possibilidades de abordá-lo são possíveis,
superdimensionando assim; o papel das estratégias fictícias nas narrativas históricas.
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No cerne dessa discussão encontram-se trabalhos como o de Carlo Ginzburg em
“Mitos, Emblemas e Sinais” (1989) que aplica o “método indiciário” a temas até então
distantes da Historiografia como: a História da Cultura Popular, a Teoria e a História da
Arte e a Psicanálise. Outra abordagem bastante rica é a de Robert Darnton na obra “O
grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa” (2001) que
usa contos populares e histórias infantis como elementos de análise. Tais obras, embora
se distanciem da chamada história tradicional, não estão destituídas do seu caráter
científico, pois como afirma Chartier:
Para além das designações e das definições, importam, portanto, antes
de tudo, a ou as maneiras como, em um determinado momento, os
historiadores recortam este território imenso e indeciso e tratam as
unidades de observação assim constituídas. Tomadas no centro de
oposições intelectuais ao mesmo tempo institucionais, essas maneiras
diversas determinam cada uma seu objeto, suas ferramentas
conceituais, sua metodologia. (CHARTIER, 2002,p.25)
Com base nesses elementos, pretendemos discutir os limites e possibilidades da
complexa relação entre fato e ficção.
O TEXTO LITERÁRIO E A ESCRITA DA HISTÓRIA
De acordo com Candido (1975), é necessário fundir texto e contexto a fim de se
obter uma interpretação mais ampla da obra literária. O autor afirma ainda que, o
externo (social) é um elemento constituinte da estrutura da obra, sendo pois interno.
Dessa maneira, é possível perceber que o social não é apenas matéria do processo
criativo, é também agente da estrutura, logo, por mais distante que pareça da realidade,
a narração sempre delimita seu espaço dentro dela. A História aproxima-se da Literatura
na medida em que ao construir seu discurso, o historiador mune-se de estratégias
discursivas para abordar fatos, o uso de variados pontos de vista (foco narrativo), e a
possibilidade do final “aberto” são expedientes que podem ser perfeitamente utilizados
por um historiador sem que o mesmo perca de vista os aspectos científicos da sua
escrita. Assim, a justificativa de Burke parece-nos extremamente pertinente:
[...] não estou afirmando que os historiadores sejam obrigados a se
engajar em experiências literárias, simplesmente por viverem no
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século vinte, ou imitar determinados escritores, devido suas técnicas
serem revolucionárias. O objetivo de buscarmos uma nova forma
literária é certamente a consciência de que as velhas formas são
inadequadas aos nossos propósitos. ( BURKE, 1992, p. 336)
Entendemos que tal aproximação não é simples e requer muito cuidado a fim de
evitar equívocos entre campos diferenciados como a história que lida com fatos que
ocorreram e a literatura que trabalha com a imaginação, embora mantenha seu contato
com a realidade ao utilizar recursos como a verossimilhança, que ancora o leitor à
“possibilidade” de ocorrência do fato narrado no que chamamos de “vida real”. Uma
vertente interessante é a do romance histórico que possibilita uma articulação entre o
plano histórico, ao narrar acontecimentos, guerras, trajetória de líderes etc., e o plano
individual representado pelos personagens. Um dos mais reconhecidos é “Guerra e
Paz”, obra em que Tolstoi inclui suas reflexões sobre História e Filosofia da História, ao
mesmo tempo em que discute a figura de Napoleão Bonaparte como personalidade
histórico-mundial.
Assim, compreendemos que a obra de arte narrativa deve articular
adequadamente dois mundos: o ficcional criado pelo autor, e o real, ou seja, a realidade
compreensível, por isso quando alguém declara que “entendeu” uma narrativa, quer
dizer que percebeu uma ligação ou um conjunto de ligações satisfatórias entre esses dois
mundos. Uma vez que:
A literatura é essencialmente uma reorganização do mundo em termos
de arte; a tarefa do escritor de ficção é construir um sistema arbitrário
de objetos, atos, ocorrências, sentimentos, representados
ficcionalmente conforme um princípio de organização adequado à
situação literária dada, que mantém a estrutura da obra. (CANDIDO,
1975, p. 179)
A aproximação da escrita histórica à escrita ficcional pode ser extremamente
profícua pelo fato desta última sugerir novas formas de conhecer e descrever o mundo e
usar a linguagem de forma criativa e atrativa para o leitor, sobretudo o comum, não
afeito à organização discursiva da história tradicional:
Para os historiadores, o grande valor da literatura moderna reside em
sua predisposição a explorar o movimento da linguagem e do
significado em todos os aspectos da experiência social, política e
pessoal. Os escritores criativos foram muito além das antigas estáveis
concepções de mundo que os forçavam a produzir uma cópia literal de
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uma realidade supostamente estática, eles percebem que todas as
descrições de mundo permanecem abertas à contestação. (KRAMER,
1995, p. 159)
CONCLUSÃO
Ao invés de procurar narrar os fatos como realmente ocorreram, sem admitir que
todas as descrições são parciais e que todo ponto de vista é único e exclui os demais, a
História Cultural propõe-se a abordagens menos incomuns, mas não menos importantes
como: a História das Mulheres, a Micro-história, a História Oral, a História da Leitura e
a história vista de baixo. Abordagens como essas nem sempre se coadunam com a
escrita histórica tradicional.
[...] muitos estudiosos atualmente consideram que a escrita da história
também tem sido empobrecida pelo abandono da narrativa, estando
em andamento uma busca de novas formas de narrativa que serão
adequadas às novas formas histórias, que os historiadores gostariam
de contar. Estas novas formas incluem a micronarrativa, a narrativa de
frente para trás e as histórias que se movimentam para frente e para
trás, entre os mundos público e privado, ou apresenta, os mesmos
acontecimentos a partir de pontos de vista múltiplos. ( BURKE, 1992,
p.347)
À despeito de toda sua importância para o estudo da historiografia, a adoção de
estratégias discursivas próprias da literatura ajudaria a relativizar a discussão crítica
entre os historiadores e a abrir as fronteiras que tendem a criar uma desvinculação entre
os historiadores e a cultura contemporânea. Uma vez que, segundo Kramer (1995)
repensar as fronteiras da linguagem constitui um meio de repensar e ampliar as
fronteiras da história. A escrita da História tende a se enriquecer através da aproximação
com outras vertentes científicas, não só do ponto de vista formal quanto conteudístico.
Pois como afirma Burke:
Da minha perspectiva, a mais importante contribuição do grupo dos
Annales, incluindo-se as três gerações, foi expandir o campo da
história por diversas áreas. O grupo ampliou o território da história,
abrangendo áreas inesperadas do comportamento humano e a grupos
sociais negligenciados pelos historiadores tradicionais. (BURKE,
1997, p.126)
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Nesse sentido, julgamos válida a possibilidade de que o discurso histórico utilize
estratégias discursivas próprias do discurso ficcional a fim de ampliar seus horizontes
conceituais metodológicos, validando assim a concepção de que não há uma só forma
de comprender o mundo e a verdade, mas inúmeras perspectivas e a do historiador é
apenas mais uma delas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BURKE, Peter. A Revolução Francesa da Historiografia: A Escola dos
Annales(1929-1989). São Paulo: Editora da Unesp, 1997.
____________. (Org). A Escrita da História: Novas Perspectivas. São Paulo: Editora
da Unesp, 1992.
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade: estudos de teoria e história literária.4.
Ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1975.
CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre incertezas e inquietude. Porto
Alegre: Editora da UFRGS, 2002.
DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos e outros episódios da história
cultural francesa. 4. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2001.
GINZBURG, Carlo. Mitos, Emblemas e Sinais. São Paulo: Companhia das Letras,
1989.
KRAMER, Lloyd S. Literatura, crítica e imaginação histórica: o desafio literário de
Hayden White e Dominick LaCapra. In: HUNT, Lynn. A Nova História Cultural. São
Paulo: Martins Fontes, 1995.
LE GOFF, Jacques. História. In: História e Memória. 5. ed. Campinas, SP: Editora da
UNICAMP, 2003, p. 17-171.
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