A VISÃO DE UM CIDADÃO COMUM XI
( Contestação Legítima )
Nuno Melo
A semana que passou foi repleta de
acontecimentos que mereceram a
atenção de todos os Portugueses,
tendo sido amplamente debatidas
nas redes sociais e na imprensa. Dos
vários acontecimentos realça-se a
greve geral no dia 22 de Março
convocada pela CGPT Intersindical, as
alterações da ordem pública na
sequência da mesma.
Começando pela greve geral, a verdade é que embora legítima do ponto vista formal e
legal teve pouquíssima adesão em termos numéricos, mas de uma qualidade inegável
nas intervenções dos seus participantes, do qual aproveito para realçar a do Dr. Jaracardiologista de reputação imaculada de Évora - que faz um alerta sobre o aumento da
mortalidade em consequência do desmantelamento do SNS e das políticas de
austeridade.
As razões para a fraca adesão serão inúmeras mas creio que as principais razões
poderão ser reduzidas às seguintes: o facto de ser a segunda greve geral convocada
em menos de dois meses por uma única central sindical, ao clima de medo e
perseguição que se vai instalando nas empresas e no Estado - com “contagem de
cabeças” nos dias de greve, a perda de um dia de remuneração e a ameaça sempre
presente do desemprego que paira sobre os portugueses (relembro que a taxa real de
desemprego rondará os 18-20% da população).
Como comecei por afirmar o direito à contestação e o direito à greve são direitos
consagrados na Constituição da República Portuguesa e, de uma legitimidade moral
inquestionável mas dada a conjuntura social e económica torna-se imperativo que
todas as formas de contestação ocorram fora dos horários laborais e, de preferência
ao fim de semana por razões enumeradas no parágrafo seguinte.
Um movimento de contestação fora das horas normais de expediente durante a
semana ou ao fim de semana irá permitir mobilizar um maior número de cidadãos sem
que haja possibilidade de serem perseguidos ou penalizados social e economicamente.
Evita também que o país saia prejudicado a nível económico por via de paralisações ao
nível da produção (directa ou indirectamente) e, por fim permitirá que legitimidade
moral do protesto não possa ser posto em causa. Um exemplo perfeito do enunciado
serão as várias contestações promovidas pelas Associações Militares (AOFA, ANS e AP)
com especial destaque para a Manifestação da Família Militar em 12 Novembro e a
Vigília frente ao Palácio de Belém em 30 de Novembro, duas ocasiões que os
Portugueses não vão esquecer.
Esta greve geral ficará registada na memória colectiva por todas as razões erradas: a
fraca adesão, o desinteresse do executivo em escutar o cidadão comum mas,
sobretudo pela alteração da ordem pública no Chiado e consequente carga policial que
de seguida passaremos a esmiuçar um pouco.
As origens da infame alteração pública terão estado na destruição de uma esplanada
do Chiado por parte de alegados elementos de manifestantes. Não falarei de agentes
provocadores infiltrados entre os manifestantes legítimos pois gosto de pensar que
(ainda) vivemos num Estado de Direito Democrático e, que tais elementos não
passarão de mitos urbanos. Na sequência da destruição da esplanada e porque a
integridade física dos demais cidadãos e dos seus bens estava em causa, foi ordenado,
e bem, à PSP para repor a normalidade reprimindo os delinquentes por via da força.
A PSP numa primeira fase interviu de uma forma profissional e dentro das suas
competências usando os meios que legalmente tem ao seu dispor para o efeito, mas
rapidamente descambou para um uso excessivo de força contra cidadãos que não
constituíam uma ameaça para os agentes nem para a demais população.
Não pretendo fazer da PSP uma força insensível às carências da população, até porque
os seus agentes sofrem das mesmas carestias de forma agravada dada sua condição
profissional e deveres associados. Da mesma forma que não direi que muitas das
pessoas agredidas eram inocentes.
A verdade é que os agentes convocados para estas situações recebem treino específico
para lidar com alterações, provavelmente não estariam lá se pudessem escolher, se o
fazem é porque a sua missão o obriga. O que não é tolerável, é existirem elementos
(muitos nem pertencentes ao CI) que personalizem os insultos inevitáveis nestas
situações de tenção e, que por via de uma frustração acumulada e quiçá descarga de
adrenalina comecem a usar os bastões de forma indiscriminada, reagindo com
agressões gratuitas quando confrontados verbalmente. Os agentes que agiram desta
forma não só puseram a Instituição que servem em cheque, como também todos os
seus camaradas que diariamente dão o melhor de si para que vivamos numa sociedade
segura.
É claro que esta problemática sobre de que lado estaria a razão (diria que de ambos e
de nenhuns simultaneamente) gerou debates acessos no facebook e em vários fóruns.
Embora o debate seja de extrema importância, quando é feito de uma forma educada,
não pude deixar de reparar num denominador comum na maioria daqueles que
defendiam a mini carga das forças de segurança, advogavam a intervenção da policia
não pela destruição de bens que ocorreu nem pelo risco físico dos restantes cidadãos,
mas sim por dispersar a manifestação em si.
Esta atitude de muitos comentadores além de revelar uma atitude pouco democrática
é preocupante. Preocupante porque a maioria dos comentadores que perfilha esta
ideia rapidamente passou a extrapolar a responsabilidade do que está a acontecer na
nação (desemprego, crise económica e social) a um conjunto de indivíduos que criou
uma mentira chamada “Estado Social”, que endividou o país e famílias, indivíduos
esses que teimam em falar e se manifestar por direitos, democracia e que se recusam
a ver que o paradigma mundial se alterou, que vivemos num mundo competitivo, uma
economia global e se queremos sobreviver teremos de competir de uma forma
proactiva com as economias emergentes...que aqueles que se manifestam por um
Estado Social, um Estado de Direito Democrático, uma Pátria Soberana são um entrave
ao desenvolvimento. O mais preocupante é que isto é dito pelas gerações mais novas,
as mesmas que beneficiaram da segurança, do acesso à saúde e a uma instrução até
então desconhecidas da maioria da população.
São os mesmos jovens cujos pais se endividaram para que pudessem andar nos
melhores colégios, que tivessem explicações, roupa cara, viagens de finalistas (da
primária até à Universidade), o último grito da tecnologia em telemóveis,
computadores e consolas, dos Erasmus e cursos no estrangeiro, dinheiro para
jantaradas e noitadas regadas a álcool quase puro nas discotecas e bares da moda, do
carro como complemento à entrada no ensino superior e de férias em locais exóticos.
E enquanto isto acontecia, os pais endividaram-se ou não faziam poupanças. Os
mesmos jovens ficam a viver em casa dos pais, porque já não basta ter uma
licenciatura para arranjar um emprego e para aqueles que arranjaram emprego lá veio
o dinheirinho dos progenitores para pagar o casamento, dar entrada para a casa, para
o carro, para ajudar a pagar os empréstimos que entretanto contraíram e até para
encher a dispensa... Agora culpam a sociedade, aqueles que trabalham arduamente há
dezenas de anos pelo estado da nação?! Tenham dó, quais foram os sacrifícios que
estes jovens fizeram por si? Pela Pátria? Existe obviamente toda uma máquina
montada para continuar a explorar a ingenuidade destas gerações, levando-as a
culpabilizar as anteriores para que não questionem o status quo, alimentando a
mentira da globalização para que não se apercebam que nessa mesma globalização
poderá estar a extinção da espécie humana, dado não se basear num modelo de
desenvolvimento sustentado.
Estes jovens revoltados com as gerações mais velhas, se quiserem culpabilizar alguém
e fazer uma manifestação legítima, façam-na contra este jogo de sombras que tem
sido montado nos últimos 15 anos, façam-na de forma a criar um desenvolvimento
sustentado da Pátria, a quem tanto devem, mas não abdiquem do estado democrático
e social em troca de uma quimera que terminará para a maioria num estado de semi escravidão.
Esta semana deixo-vos com um artigo publicado no Económico que todos os
Portugueses deveriam ler e, que para mim a ideia que encerra, seria o começo da
nossa saída do imenso atoleiro em que a Nossa amada Pátria se tornou.
Um Abraço e até para a semana,
Nuno Melo
Islândia defende investigação ao Governo português
O membro do Banco Central da Islândia Gylfi Zoega diz que Portugal deve investigar quem está na
origem do elevado endividamento do Estado e dos bancos.
"Temos de ir aos incentivos. Quem ganhou com isto? No meu País eu sei quem puxou os cordelinhos,
porque o fizeram e o que fizeram, e Portugal precisa de fazer o mesmo. De analisar porque alguém teve
esse incentivo, no Governo e nos bancos, para pedirem tanto emprestado e como se pode solucionar
esse problema no futuro", diz o responsável.
A participar nas conferências do Estoril, o economista, que também participou no documentário
premiado com um Óscar "Inside Job -- A verdade sobre a crise", disse em entrevista à Agência Lusa que
Portugal beneficiou muito de estar no euro nesta altura, porque para além do apoio dos seus parceiros
da união monetária, terá de resolver os seus problemas estruturais ao invés de recorrer, como muitas
vezes no passado, à desvalorização da moeda.
"Talvez para Portugal estar no euro nesta altura seja uma bênção, porque apesar de não conseguir sair
do problema de forma tão fácil como antes, através da depreciação [da moeda], vocês têm de lidar com
os problemas estruturais que têm", disse.
A Islândia, na sequência da grave crise económica que sofre desde 2008, derivada do colapso do seu
sistema financeiro (que chegou a ser 10 vezes maior que a economia islandesa), também teve de
recorrer ao Fundo Monetário Internacional para resolver os seus problemas de financiamento, mas neste
caso a experiência não é nada mal vista.
"Penso que o FMI é útil neste sentido, porque é uma instituição que pode ajudar a coordenar as acções.
Existem coisas impopulares que têm de ser feitas, e pode ser utilizada como um bode expiatório para
essas medidas impopulares, que teriam de ser aplicadas de qualquer forma. Ajuda os políticos locais a
justificar aquilo que podiam não conseguir fazer por eles próprios", diz.
O responsável diz mesmo que a experiência do seu país tem sido "muito boa" e que a instituição tem
feito um grande esforço de coordenação para garantir que as medidas têm os efeitos desejados.
"A experiência com o FMI acabou por ser muito boa, porque actualmente têm uma tendência para
serem muito pragmáticos, para encontrar soluções que funcionem. Tiveram algumas medidas pouco
ortodoxas, como os controlos de capital e outras para reduzir o défice, e ajudaram a garantir que o
programa estava no caminho certo, visitando todos os ministérios, o banco central. Tem sido um esforço
em grande cooperação", explica.
No entanto, recorrer a ajuda externa tem as suas consequências e a principal tem sido a falta de
confiança dos mercados, explica ainda Gylfi Zoega, acrescentando que ainda não existe previsão para
quando ou se a Islândia vai conseguir voltar a financiar-se nos mercados.
"[A Islândia] Não tem qualquer acesso aos mercados de capitais actualmente, e é uma questão em
aberto. Quanto tempo demorará? Se os mercados ficarão completamente fechados? Se olham para isto
como um problema isolado que podem perdoar ou se olham e pensam nisto como algo mais crónico.
Portanto, nós não sabemos como vai ser o nosso acesso ao mercado no futuro", afirma.
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