Teórica 3 – Impressão em Papel Salgado
Cadeira Processos de Impressão com Prata
29 de Setembro de 2008 – Licenciatura em Fotografia 2008-2009
Departamento de Fotografia – Luis Pavão
Escola Superior de Tecnologia de Tomar
Papel Salgado
O papel salgado foi o primeiro processo de impressão fotográfico. Foi inventado por
Talbot na década de 1830 e foi usado até cerca de 1855, data em que foi ultrapassado pela
impressão em papel de albumina. O papel salgado foi o processo usado para a impressão dos
negativos em papel, os chamados calótipos, o primeiro sistema negativo – positivo na história da
fotografia.
Para imprimir uma imagem fotográfica, Talbot começou por usar objectos transparentes
ou translúcidos, como rendas, folhas de árvores e outros objectos de pequenas dimensões,
obtendo destes uma silhueta perfeita. Como fixador Talbot usou inicialmente uma solução
concentrada de cloreto de sódio, com resultados aceitáveis mas não perfeitos: o cloreto de prata
era apenas desactivado e não removido, as zonas mais claras resultavam levemente púrpura. A
estas provas, fixadas com cloreto de sódio, chamou Talbot os seus Desenhos Fotogénicos. Mais
tarde fixou com tiossulfato de sódio, (vulgarmente designado de hipossulfito de sódio), o fixador
ainda hoje em uso, sendo essas provas designadas de papel salgado.
Funcionamento do processo
No papel salgado, o sal fotossensível é o cloreto de prata, que é incolor e dificilmente
solúvel em água. Por acção da luz do sol, o cloreto de prata decompõe-se em cloro e prata: as
zonas expostas à luz resultam negras pela presença de prata metálica. Assim o processo é
negativo: o branco resulta em negro, as zonas não expostas à luz permanecem brancas e
fotossensíveis mesmo depois de terminada a exposição. O cloreto de prata é mais tarde
removido pelo banho fixador.
Como o cloreto de prata não é solúvel em água, temos que sensibilizar o papel em duas
etapas: primeiro na solução de cloreto de sódio e depois de secar, na solução de nitrato de
prata. Destes dois banhos resulta o cloreto de prata, que permanece no papel seco sob a forma
de cristais incolores, minúsculos. Quando a luz do sol incide sobre a folha de papel, os cristais
de cloreto de prata desagregam-se; após alguns segundos, de exposição à luz, o papel torna-se
cinzento, depois castanho e vai escurecendo sempre até atingir a densidade desejada; este
escurecimento resulta da formação de prata metálica, por acção da luz, não é necessário
recorrer à revelação. Note-se que a solução de nitrato de prata usada neste processo é muito
mais concentrada do que a solução de cloreto de sódio. No momento da sensibilização do papel
com nitrato de prata, todo o
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cloreto de sódio presente é consumido na reacção química, produzindo-se tanto cloreto de prata
quanto cloreto de sódio existir no papel. O nitrato de prata que existe em excesso no papel,
forma uma reserva (reserva de prata) importante no desenvolvimento da reacção fotoquímica.
Esta reserva de prata alimenta a reacção de escurecimento e possibilita que se forme uma
imagem de densidade e contraste satisfatórios apenas por acção da luz. O papel fotográfico de
revelação não tem esta reserva de prata e por isso a acção da luz não é suficiente para atingir as
densidades e o contraste desejado, sem se recorrer à revelação.
Gama de densidades
O papel salgado é capaz de imprimir uma extensa gama de densidades de um negativo.
Pode imprimir negativos com um ΔD até 3.0, depende do papel usado e da quantidade de
gelatina aplicada. Esta amplitude de densidades é muito superior ao que é possível imprimir com
o papel de revelação actual. Uma das razões é o efeito de máscara, que a imagem de prata
formada exerce sobre a própria luz do sol que continua a atingir o papel durante a exposição.
Quando estamos a imprimir o papel torna-se escuro rapidamente nas zonas mais claras do
negativo. Esta imagem de prata tapa a luz do sol e evita que impressione os sais que se
encontram mais abaixo, nas camadas inferiores das fibras do papel. Assim a exposição ao sol
pode prolongar-se muito mais que as zonas mais escuras continuam a manter pormenor, sem
fecharem totalmente num preto uniforme e sem detalhes, como acontece no papel de revelação
se a exposição for prolongada.
Efeito do contraste na exposição
Uma fonte de luz muito intensa, como o sol, tende a produzir provas com menor
contraste; uma fonte de luz de menor intensidade, como a luz do céu encoberto ou a luz do céu
à sombra, requer um tempo de exposição maior e tende a criar imagens com mais contraste.
Daqui a regra muito usada no século XIX, recomenda que os negativos contrastados devem ser
impressos ao sol directo e os negativos de menor contraste devem ser impressos à sombra (luz
proveniente apenas do céu).
Processamento da prova exposta
A prova em papel salgado depois de exposta à luz do sol, mostra-nos já a imagem de prata
totalmente formada, de cor castanha avermelhada. O processamento passa por três etapas, 1.
lavagem, 2. fixação e 3. lavagem final.
1. A lavagem inicial serve para remover da prova todo o nitrato de prata não consumido na
reacção fotoquímica. Este composto permanece nas fibras do papel sob a forma de
cristais microscópicos, que são solúveis em água. Quando a prova é mergulhada em
água formando-se um precipitado branco, leitoso, que é um composto de prata. O nitrato
de prata é incolor. Este precipitado é cloreto de prata, formado na água por reacção do
nitrato de prata com o cloro, que a água da rede doméstica contém para desinfecção.
2. O fixador vai depois remover o cloreto de prata não consumido na reacção fotoquímica,
que continua nas fibras do papel; se não fosse removido a prova continuava sensível à
luz e escurecia sempre que exposta a radiações ultravioleta. O cloreto de prata reage
com o fixador e forma compostos de prata e enxofre, que são moderadamente solúveis
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em água e podem ser removidos na lavagem final. Assim vemos que neste processo a
remoção dos sais sensíveis é feita em duas etapas, primeiro a lavagem (remoção do
nitrato de prata) e depois na fixação (remoção do cloreto de prata).
3. Finalmente na lavagem final são removidos todos os compostos de enxofre e prata
então formados, bem como os restos de fixador. Uma lavagem apenas com água não
remove todos os compostos, mesmo que seja prolongada muito a lavagem; ficarão
sempre restos de fixador nas fibras do papel, que o banho de água não consegue
remover na totalidade. Um banho auxiliar de lavagem, de sulfito de sódio a 1%, permitenos remover por processo químico todos os resíduos de fixador. Assim recomenda-se
uma lavagem de 5 minuto em água, seguida de um banho de dois minutos numa
solução de sulfito de sódio a 1%, seguido de lavagem em água durante 30 minutos. Em
vez de água corrente deve optar pelo método mais seguro e económico de lavagem em
duas cuvetes, com mudanças de água de 5 em 5 minutos.
Alteração de cor da imagem no fixador
Após a exposição, a prata metálica formadora da imagem encontra-se muito dividida,
formando como que uma solução sólida de partículas de prata, num meio de cloreto de prata. A
cor inicial da imagem, após a exposição ao sol, é castanha avermelhada; esta cor resulta da
prata se encontrar sob a forma de partículas microscópicas e também da sua quantidade e com
os índices de refracção do cloreto de prata e do material orgânico usado (a gelatina, no caso do
papel salgado). No fixador há duas grandes alterações na aparência da imagem: redução da
densidade geral da imagem e alteração da sua cor inicial, para um castanho pálido. Esta
alteração tem a ver com a mudança do estado físico da prata. Com a remoção do cloreto de
prata as partículas de prata são como que aglutinadas, acompanhadas de um esfriamento da cor
inicial. A perda de qualidade pode ser contrariada com um banho de viragem a ouro, que
faremos mais tarde.
Luis Pavão, Outubro de 2003, revisão em Outubro 2004
Aula 3 – O processo do papel salgado.
Leitura para esta aula: Reilly, James, Albumen and salted paper book, Light Impressions, 1980,
páginas 1 a 25*.
Processos de Impressão com Prata – Teórica 3 - Impressão em Papel Salgado
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Teórica
Apresentação do processo do papel salgado
Explicação das reacções químicas
Breve apresentação histórica do processo
Inventor, datas,
Dificuldades iniciais de concretização do processo
Primeiras utilizações
Publicações neste processo
Fotógrafos que se notabilizaram neste processo (Hill & Adamson, Négre, Cameron)
Algumas questões para os alunos:
Qual o papel do cloreto de sódio na reacção?
Qual a importância da gelatina?
Quando é que ela é indispensável ?
Para que serve a lavagem inicial?
Qual o composto do banho leitoso?
O que se passa na fixação?
Demonstração na aula teórico-prática
1. Sensibilização de duas folhas, uma com cloreto de sódio e outra sem. Comparação dos
resultados.
2. Impressão da escala de cinzentos, deixar ao sol cerca de uma hora, e contar os degraus que
se conseguem ler na folha de papel, concluir da necessidade de negativos mais ou menos
contrastados.
Outros exercícios para os alunos fazerem no futuro
Impressão em três papéis diferentes e comparação dos resultados
Impressão por flutuação ou por pincelagem
Impressão com soluções de diferentes concentrações de nitrato de prata: 7%, 14% e 28%
Impressão com soluções de diferentes concentrações de cloreto de sódio: 2%, 7%, 14% e 28%.
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Aula de 13 de Outubro de 2003 - Escola Superior de Tecnologia de