17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas
Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis
O ARTISTA/PROFESSOR NO CURRÍCULO
DE ARTES VISUAIS DA UDESC
Profª Ms. Elaine Schmidlin – UDESC
Profª Ms. Sandra Maria Correia Fávero – UDESC
RESUMO
Neste trabalho apresentamos os movimentos produzidos em torno do perfil
artista/professor na construção curricular dos cursos de graduação em Artes Visuais,
Licenciatura e Bacharelado, do Centro de Artes (CEART) da Universidade do Estado
de Santa Catarina (UDESC). A relação entre o perfil do artista e do professor é
articulada ao processo de construção curricular sendo o foco que problematiza a
organização destes cursos nesta Universidade. Este agenciamento permite
compreender o desdobramento ocasionado a partir da dicotomia existente entre o que
se entende como Bacharel (artista) e Licenciado (professor) na área de arte.
Salientamos que o trabalho não pretende abordar a complexidade do percurso
curricular, mas, procura propor a relação poético/pedagógica como forma de tratar a
‘identidade’ dos currículos de formação superior nesta área.
Palavras – chave: Artes Visuais, Percurso Curricular, Ensino Superior, Identidade
Artista/Professor.
Abstract
This paper presents the movements produced in reference to the artist/teacher profile
in the construction of the Bachelor and Licensee curricula in the undergraduate
courses of Visual Arts of the Center of Arts (CEART) of the Universidade do Estado de
Santa Catarina (UDESC). The relation between the profiles of the artist and the teacher
is articulated with the process of curricular construction, as the center point which
discusses the organization of these courses in this University. This connection
permits the understanding of the deployment which has the existing dichotomy
between what we understand as Bachelor (artist) and Licensee (teacher) in the area of
arts as a starting point. We point out that this paper does not approach the complexity
of the curricular journey, but it tries to propose the poetic/pedagogic relation as a way
to treat the ‘identity’ of the undergraduate formation curricula in this area.
Keywords: Visual Arts, Curricular Journey, Undergraduate Teaching, Artist/teacher
identity.
Movimento Curricular
No ano de 2007 foi designada uma comissãoi para efetivar
mudanças conceituais e curriculares no curso de graduação, Licenciatura em
Educação Artística com habilitação em Artes Plásticas, e no curso de
Bacharelado em Artes Plásticas, ambos alocados no Departamento de Artes
Plásticas do Centro de Artes (CEART/UDESC). A finalidade desta comissão
era atender às solicitações encaminhadas pelo Conselho Estadual de
Educação/Comissão de Educação Superior, Processo (PCEE 704/059 e
737/054), Parecer n° 121 aprovado em 22/05/2007, que deliberava sobre o
pedido de renovação do reconhecimento dos cursos de graduação referidos
acima, os quais estavam, até aquele momento, em diligência.
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A comissão de reconhecimento do curso (CEE) relatou no item
Desempenho do Curso, “a dificuldade em avaliar o curso” e indicou a
necessidade de rever o Projeto Pedagógico e suas relações com as matrizes,
apontando, inclusive, bibliografia para tal. Esta indicação previa, também, a
urgente discussão do corpo docente, visando re-elaboração coletiva do Projeto
Pedagógico, destacando a necessidade de pensar valores compartilhados pelo
grupo de professores, no tocante a aspectos como: integração entre ensino,
pesquisa, extensão, interdisciplinaridade, avaliação, freqüência dos alunos,
posturas profissionais, entre outros.
Estas indicações apontadas pelo parecer do Conselho tornaram-se o
ponto de referência para a comissão designada pelo colegiado para a reforma
curricular. Os membros da comissão pesquisaram matrizes de outras
universidades,
conceitos
de
projetos
políticos
pedagógicos,
além
de
dimensionar os trabalhos para o coletivo a partir daquilo que tinham como
matriz curricular vigente até aquele momento. As matrizes curriculares, tanto da
Licenciatura quanto do Bacharelado, apresentavam uma concepção linear em
níveis, básico, desenvolvimento, avançado, que não atendia mais as demandas
contemporâneas. Assim, cabia orientar-se filosoficamente por uma concepção
que buscasse conexões entre os cursos (Bacharelado e Licenciatura), como
também propiciasse as ‘identidades’ii necessárias aos dois cursos no
agenciamento produzido pelo movimento do artista e do professor no fluxo
curricular. Referenciais curriculares contemporâneos foram, então, os subsídios
teóricos para uma matriz tendo como foco nosso contexto universitário e corpo
docente composto por artistas/professores de inegável renome.
1. O Artista/Professoriii
No movimento de construção do percurso curricular houve a
necessidade de pensar sobre quem queriamos formar nos referidos cursos de
graduação. Esta pergunta nos levou a um fluxo de considerações sobre o que
pretendíamos enunciar na proposta para matrizes que apresentassem aquilo
que compreendiamos como currículo e/ou desenho, apontando cartografias
que desdobravam-se em subjetividades múltiplas em torno do artista/professor.
Neste momento, consideramos importante o trajeto já construído pela
Profª Sandra Maria Correia Fávero que, em uma pesquisaiv efetuada no
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contexto acadêmico da UDESC no ano de 2006 identificou e apresentou a
relevância do desenvolvimento de uma produção artística em paralelo à
produção do professor. Como sustentação teórica, a mesma pesquisa abordou
Edgar Morin em Introdução ao Pensamento Complexo, Pedro Georgen com o
artigo Universidade em tempo de transformação e Edith Derdik com o livro
Linha de horizonte: por uma poética do ato criador. As respostas aos quatro
questionamentos elaborados pela pesquisadora foram respondidas, naquela
ocasião, por quatro professores universitários. A mesma, refere-se em sua
pesquisa, sobre a necessidade de refletirmos sobre o ambiente acadêmico
como um sistemav complexo onde atuamos segundo regras estabelecidas
objetivamente, entretanto, precisamos considerar o que ocorre na relação de
uns com os outros e, principalmente, observar que “a objetividade está sempre
forçada a abrir brechas para a subjetividade contida no processo educativo dos
cursos proporcionados” (FÁVERO, 2007, p. 5)
Assim, somamos ao sistema um outro sistema, ainda mais complexo,
o qual deve ser analisado pelo lugar onde as relações entre o ser artista e ser
professor são operadas em agenciamento que se desdobra em conceituações
que, de alguma forma, modela e/ou desenha o percurso curricular dos cursos
de graduação. Desta forma, temos a participação do sujeito com ele mesmo
em todo o transcorrer do processo curricular, uma vez que o nosso objeto está
imerso na subjetividade individual, porém, não está sozinho, convive no
coletivo o que gera a necessidade de se auto-organizar como pessoa, como
artista, como pesquisador, levando ao que Morin (2005, p. 38) escreve como
uma misteriosa qualidade chamada consciência de si.
Nesta perspectiva, o artista/professor é compreendido como
propositor e portador de uma necessidade de conhecer algo, que não deixa de
ser conhecimento de si mesmo. Ou seja, um corpo criador / um corpo
professor, no mesmo corpo. O corpo que para Edith Derdik (2001, p. 16) é um
continente dividido em ilhas de vida vivida que contém certas experiências
historicamente legalizadas, mas que, como uma grande colagem forma um
todo íntegro, coerente, único, coeso, idealizando uma nostálgica experiência de
equilíbrio, constitutivo na formação do sujeito. Dentro desta problemática a
pesquisa enunciou as seguintes questões:
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Questão 1: A prática do professor instiga a prática artística? Como se
complementam?
Questão 2: Há disponibilidade de tempo/espaço para manter nutrida a
produção poética dentro das exigências acadêmico/burocráticas?
Questão 3: Qual o sentido e como conduzem o problema: produção plástica e
produção do professor (acadêmica)?
Questão 4: De que forma o pensamento e a produção acadêmica influencia os
ditames contemporâneos, ou é o contrário, os ditames contemporâneos
influenciam a academia?
As
respostas
à
pesquisa
apontaram
que
a
posição
do
artista/professor é privilegiada diante de outras do quadro organizacional da
universidade. Essa potencialidade amplia conhecimentos, desenvolve o que
um dos pesquisados chamou de “competências de malabarista”, além de
integrar ações como: Produção Artística/Ensino/Pesquisa/Extensão; além do
que possibilita gerenciar paradoxos focando uma constante busca de
conhecimento que entrelaça convergências com divergências que surgem
durante as ações; ser artista/professor também estimula o processo contínuo
de ordenamento e desordenamento da posição artística e acadêmica
fortalecendo seu posicionamento diante do aluno, da organização e da
sociedade em que se insere. Outras questões relevantes apontadas foram que,
entre as conexões e agenciamentos produzidos entre o ser artista e ser
professor está a pesquisa como fio condutor que pode vir a tecer ensino e
extensão nos cursos de graduação. A pesquisa apontou questionamentos que,
de alguma forma, levantam problemáticas relativas à ‘identidade’ dos cursos de
Bacharelado e Licenciatura em Educação Artística, habilitação Artes Plásticas,
a saber:
-
De que forma a contribuição como artista/professor pode ser realmente
produtiva, sem a disponibilidade de tempo/espaço para manter nutrida a
produção poética?
-
Que professor é esse que deixa de vivenciar o fazer, mas diz, na sua
função como fazer, sugerindo, direcionando, criticando, estabelecendo
princípios, avaliando?
-
Qual é a eficácia de um processo de construção de conhecimento
elaborada por alguém que não sabe fazer o que ensina?
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-
Quanto se ganha em qualidade unindo o saber fazer a fazer saber?
Estes questionamentos nos levaram a pensar como elaborar os
currículos dos cursos de Bacharelado e Licenciatura em Artes Visuais tendo
como pressuposto a compreensão de que as conexões entre os cursos eram
inegáveis, uma vez que o artista e o professor transitam pelos cursos propondo
ações que levam a construção dos perfis, tanto do artista quanto do professor.
Percebemos a necessidade de avaliar a relação entre o ser artista e ser
professor de modo a entendermos o processo, muitas vezes conflitante,
surgida em torno das figuras do artista e do professor, e, também, pela própria
dicotomia apresentada pelos cursos em questão. A seguir pontuamos alguns
registros do percurso curricular envolvendo a participação de todo o colegiado
do curso de Licenciatura em Educação Artística, habilitação Artes Plásticas e
do curso de Bacharelado em Artes Plásticas, ambos em extinção.
2. Pensando o Artista/Professor
A comissão iniciou os trabalhos de reforma curricular no ano de 2007
com a finalidade, inicialmente, de conciliar a atual matriz curricular com as
necessidades prementes do Curso de Licenciatura em Educação Artística –
habilitação Artes Plásticas, a saber: ampliação das atuais 300 horas de
Estágios Curriculares Supervisionados para 400 horas; inserção de disciplinas
específicas da área de ensino de arte nas primeiras fases e previsão de
colocação das 400 horas pedagógicas ao longo do cursovi, além da adequação
das cargas horárias implicadas pelos 18 encontros que geraria uma alteração
na carga horária dos cursos, ora organizada em torno de 15 encontros. Outra
necessidade era a alteração da nomenclatura ‘Licenciatura em Educação
Artística, habilitação Artes Plásticas’ para ‘Licenciatura em Artes Visuais’,
exigência específica da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) n° 9394/96, que,
certamente, demandaria questões específicas sobre propor visibilidade à
visualidade contemporânea.
Durante as negociações empreendidas nesta reformulação houve
por parte do Departamento o entendimento de que seria necessária a reunião
do colegiadovii para uma deliberação a respeito da efetivação de uma proposta
curricular e seu respectivo Projeto Pedagógico. Assim, foi definido que
teríamos uma semana para nos reunirmos e deliberarmos as seqüências do
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trabalho
empreendido.
Já
em
colegiado
foram
feitas
as
seguintes
considerações iniciais pelos professores:
1. Reconhecer as referências presentes no currículo atual e tomá-lo como
ponto de partida para pensar algo novo;
2. Possibilidade de pensar em um currículo contemporâneo e amplo nas
escolhas para os discentes;
3. Refletir sobre os estudos culturais e a atualidade para pensar as
conexões como possibilidade;
4. Diversificar o olhar para que não se caia em modismos;
5. A mudança curricular depende do esforço coletivo e do conjunto
proposto para a escuta entre os professores;
6. Os riscos de seguir apenas uma diretriz que depois fosse avassaladora
do ponto de vista administrativo e que acabasse por trazer prejuízos
maiores;
7. A importância de pensar a política e a ética além das instâncias
partidárias e institucionais.
Desta forma, iniciamos os trabalhos em colegiado, propiciados por
movimentos que tinham a intenção de conciliar as forças presentes nas três
linhas de pesquisa do Mestrado em Artes Visuaisviii, presentes na concepção
do Projeto Pedagógico proposto, na intenção de operacionalizar uma matriz
curricular contemporânea. Neste encaminhamento, Corazza nos esclarece
quando concebe o currículo como “linguagem” que aponta posições
discursivas, representações, metáforas, ironias, invenções, fluxos, rupturas ...
Para ela currículo “é uma prática social discursiva que se corporifica em
instituições, saberes, normas, prescrições morais, regulamentos, programas,
relações, valores, modos de ser do sujeito” (CORAZZA, 2001, p. 10). Propor
uma reforma curricular perpassava todo o discurso corporificado na instituição,
algo extremamente delicado que exigia por parte de todo o colegiado, muita
generosidade e humildade. Assim, iniciamos a construção do percurso
curricular organizado em torno de quatro movimentos que serão explicitados no
decorrer do texto.
A proposição inicial (Movimento I) permeou “quem queremos formar”
(o perfil profissional de nosso estudante). Também fazia parte deste mote uma
discussão inicial referente aos repertórios (conteúdos) e a realização da divisão
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do grupo de professores por linhas de pesquisa presentes no Programa de
Pós-graduação, Mestrado em Artes Visuais/UDESC. Após as reflexões iniciais
chegamos ao seguinte perfil:
- O professor de artes visuais pesquisador;
- O artista pesquisador.
PESQUISADOR
ARTISTA
PROFESSOR
A seguir foram feitas as seguintes considerações pelos professores
presentes:
1. Não transformar o curso de Licenciatura em um curso de Pedagogia;
2. Considerar tanto a educação como a arte;
3. Considerar a relevância do fazer artístico ao licenciado;
4. O curso de Bacharelado deverá lidar com a imagem, como um artista
que pense a arte de uma forma crítica; um pensador/produtor e não um
fazedor (evitando pensar os clichês ou modismos que proliferam nesta
assertiva).
Nas colocações dos professores podemos perceber a presença de
partes do artista/professor que se definem por graus variáveis de intensidade
desencadeando devires que pontuam a necessidade de repensar a formação
docente e artística como forma de vivência poética e pedagógica.
Os educadores-artistas são tomados em
segmentos de devir-simulacro, cujas fibras
levam deste devir a outros, transformam estes
devires naquele, atravessam limiares de
poderes, saberes, subjetividades. (...) quando
os professores-artistas compõem, pintam,
estudam, escrevem, pesquisam, ensinam, eles
têm apenas um único objetivo: desencadear
devires. (CORAZZA, 2007, p. 22)
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No segundo movimento (II), pensou-se nas linhas de pesquisa,
sendo que a discussão foi permeada sobre o conteúdo e o repertório de cada
professor realizado em pequenos grupos reunidos dentro de cada linha de
pesquisa.
Neste momento, o tema foi pautado pelas territorialidades, os eixos
(poético, educacional, conceitual/filosófico) e os saberes (estéticos, poéticos,
educacionais). A ética, a estética, a ecologia, a cultura, a comunicação e as
artes visuais permearam focos reflexivos entre os participantes do colegiado.
Embora as diretrizes dos cursos de Artes Visuais na UDESC devessem estar
centradas nos saberes especificamente do universo da arte, as questões da
ética, da estética e da ecologia permaneceram atravessando os movimentos e
fluxos curriculares articulados pelos platôs das linhas de pesquisa do Mestrado
já referenciadas. Assim, organizamos o seguinte Mapa Conceitual que foi
apresentado e, muitas vezes, retomado em colegiado:
Ética, Estética
Processos Criativos Contemporâneos
Arte e
Processo
Criativo
Teoria e História da Arte
Arte e
Sociedade
Arte e
História
ARTES
VISUAIS
Ensino de Artes Visuais
Arte e
Filosofia
Arte e
Ensino
Ecologia
Outros comentários relevantes ao processo de construção curricular
foram no sentido de:
1. Pensar a evasão em ambos os cursos de artes plásticas e a
possibilidade de reduzi-la, o que fazer?
2. Lembrar o corpo docente diversificado, com especificidades;
3. Defender as duas formações diferenciadas, sem ignorar o currículo
e as questões da evasão e do tempo de permanência dos alunos
no curso.
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4. Considerar os ganhos do bacharelado e não esvaziar as
conquistas.
Até aquele momento tínhamos empreendido os movimentos I e II
conciliando as forças entre as linhas de pesquisa. Os movimentos III e IV
previam a escolha entre as sugestões ofertadas: cursos separados (1), dupla
habilitação (2), dupla habilitação com expedição do diploma de Bacharel (3).
Após a defesa das três opções houve a primeira votação que resultou nas
opções 1 e 3 e, finalmente, por decisão em maioria simples venceu a opção 3.
Houve várias tentativas de adequação ao curso proposto sendo que as linhas
de pesquisa reuniram-se novamente para apontar territórios e conteúdos na
tentativa de operacionalizar uma matriz única que propiciasse a ‘identidade’ do
curso, ou seja, potencializasse o ser artista e ser professor. Cabe salientar que
o curso teria que ter oito fases com uma carga horária distribuída em 3920
horas. Após várias tentativas de negociações de espaço e tempo para encaixe
de horários e de inserção na matriz proposta, ficou evidente que seria
impossível atender a necessidade da formação e da especificidade de cada
curso. Houve, na operacionalização desta matriz, um estrangulamento das
linhas de pesquisa, fato que prejudicava as ‘identidades’, bacharel e licenciado,
referenciados no perfil desejado do movimento I.
Ao retomar e refletir sobre o percurso empreendido na semana, a comissão
entendeu que os movimentos I e II, tinham sido conciliatórios para a integração
das linhas de pesquisa na matriz curricular do curso de Artes Visuais. A
metodologia adotada pelos movimentos visava à proporcionalidade entre as
linhas de pesquisa em um movimento de conexão, fato não conseguido no
momento da escolha e operacionalização da matriz proposta pelo colegiado.
Na perspectiva de empreender esforços para retornar a metodologia proposta
inicialmente, ou seja, retomada das conexões e de territorialidades possíveis
entre dois cursos separadamente, a comissão decidiu retomar todo o
movimento IV, ou seja, operacionalizar uma matriz, em conexão, de dois
cursos, Bacharelado em Artes Visuais e Licenciatura em Artes Visuais,
reforçando as ‘identidades específicas’.
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3. O Devir nos Movimentos
A proposta final desencadeou matrizes curriculares operadas em
torno de dois cursos em conexões agenciadas pelos platôs das linhas de
pesquisa da Pós-graduação, Mestrado em Artes Visuais/UDESC. Neste artigo
não queremos pontuar os aspectos relativos à matriz curricular, mas, como
dissemos anteriormente, queríamos explicitar as articulações operadas nesta
construção em torno da figura do artista e do professor, ainda muito voltada a
uma concepção romântica. Assim, nos devires dos movimentos empreendidos
pelo colegiado percebemos que as experimentações provocadas pela
construção curricular foram permeadas por fluxos materiais e semióticos do
desejo, nem subjetivo, nem representativo, mas que procedem por movimentos
de afetos nas relações entre o ser artista e ser professor.
Como salienta
Corazza:
Desse modo, um professor etiquetado como
Tradicional, um pedagogo rotulado como
Construtivista e um educador definido como
Progressista podem ser atravessados por
devires múltiplos: por um devir-simulacro que
coexiste com um devir-mulher, com um devircriança, com um devir-animal, com um devirnegro, com um devir-poético, com um devirimperceptível. (2007, p. 21)
Esta articulação de um pensamento em devir-simulacro permite
entender que a construção do percurso curricular realizada pelo colegiado dos
cursos de graduação em Artes Visuais/UDESC, foi atravessada e/ou arrastada
por devires tanto poético quanto pedagógico. Uma docência que se faz artista é
aquela que assume o trabalho como devir ou provoca a si mesmo em um
constante reinventar-se se deixando levar pelo fluxo dos movimentos
curriculares. Loponte enfatiza que
Olhar a docência esteticamente, como uma
‘obra de arte’ é, de alguma forma, assumir que
a cena docente é feita de dificuldades,
dissonâncias, resistências, frustrações, erros,
acertos, mudanças de rumo, dúvidas,
incertezas, conquistas, sucessos. E aí a
docência pode sim aprender muito com os
artistas, (...). (IN OLIVEIRA, 2007, p.236)
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A condição de pensar o artista/professor no currículo de Artes
Visuais foi apenas um pretexto para a organização de um percurso curricular
que pretende atuar na contemporaneidade, compreendendo que problematizar
a relação artista-professor é vital em qualquer elaboração curricular que pense
uma formação orgânica comprometida ética e politicamente com Projetos
Pedagógicos em cursos de formação superior em Artes Visuais.
Referências
CORAZZA, Sandra Mara. O que Deleuze quer da educação, IN Revista Educação
Especial: Biblioteca do professor: Ed. Segmento, 2007, p. 16 – 27.
____________________. O que quer um currículo? Pesquisas pós-críticas em
educação. Petrópolis: Vozes, 2001.
DERDYK, Edith. Linha de horizonte: por uma poética do ato criador. São Paulo:
Escuta, 2001.
FÁVERO, Sandra Maria Correia. As inquietações do artista-professor. Artigo publicado
em CD ROOM, Jornada Acadêmica CEART/UDESC, 2007.
MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Editora Sulina,
2005.
OLIVEIRA, Marilda Oliveira de (Org.). Arte, educação e cultura. Santa Maria: Ed. da
UFSM, 2007.
Autoras
Elaine Schmidlin, (UDESC)
Mestre em Educação, Linha de Pesquisa Arte Educação, (UFPR); Professora
da área de Licenciatura em Artes Plásticas e Artes Visuais do Centro de Artes
(CEART) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC);
Coordenadora do Pólo Arte na Escola/UDESC, Membro do Núcleo de Pesquisa
Interinstitucional Arte na Educação – NUPAE; Pesquisadora do Grupo de Arte
e Educação/UDESC, com a pesquisa Captura e Encontro na Docência em
Arte.
Sandra Maria Correia Fávero, (UDESC)
Mestre em Engenharia de Produção e Sistemas, (UFSC); Professora das áreas
de Licenciatura e Bacharelado em Artes Plásticas e Artes Visuais do Centro de
Artes (CEART) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC);
Coordenadora do Projeto de Extensão, Gravar gravando Gravura;
Pesquisadora do Grupo Rosa dos Ventos da UDESC, com a pesquisa O
Avesso das Matrizes Gravadas; Autora do artigo As Inquietações do artistaprofessor.
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Notas
i
Comissão formada pelos seguintes Professores da UDESC: Sandra Maria Correia Fávero, Elaine
Schmidlin, Jociele Lampert de Oliveira, Silvana Barbosa Macedo, sob a presidência da primeira. Portaria
n° 102/07
ii
Em todo o texto o termo ‘identidade’ é assim assinalado, pois entendemos que o mesmo é
extremamente nômade em essência compreendendo-a como Deleuze, ou seja, identidade enquanto
Devir-simulacro.
iii
O texto é referenciado no artigo da Professora Sandra Maria Correia Fávero enviado à Jornada
Acadêmica do CEART/2007
iv
Projeto de Pesquisa intitulado “As Inquietações do Artista-Professor” da Professora Sandra Maria
Correia Fávero vinculado ao DAP/CEART/UDESC.
v
Sistema - baseado no que descreve Edgar Morin no seu livro Introdução ao pensamento complexo.
Porto Alegre: Editora Sulina, 2005, p.19, é “associação combinatória de elementos diferentes”.
vi
Em atendimento à Resolução do CNE/PC n° 2, de 19 de fevereiro de 2002.
vii
Composto por 28 professores efetivos, sendo 2 especialistas, 10 mestres e 16 doutores.
viii
As linhas de pesquisa em Artes Visuais contempladas pelo Mestrado são: Ensino de Artes Visuais,
Teoria e História da Arte, Processos Criativos Contemporâneos.
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O ARTISTA/PROFESSOR NO CURRÍCULO DE ARTES