I CONACSO - Congresso Nacional de Ciências Sociais: desafios da
inserção em contextos contemporâneos. 23 a 25 de setembro de 2015,
UFES, Vitória-ES
Urbanização de áreas periféricas em Campos dos Goytacazes-RJ: um olhar sobre
o conflito
Nabila Gonçalves da Matta
Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Norte FluminenseUENF
Ludmila Gonçalves da Matta
Doutora em Sociologia Política pela Universidade Estadual do Norte Fluminense-UENF
Professora do Programa de Mestrado Profissional em Planejamento Urbano e Gestão de
Cidades-UCAM
Resumo: Este trabalho trata-se de um esforço de compreensão e análise de aspectos
específicos das políticas públicas de urbanização da cidade de Campos dos Goytacazes,
especialmente aquelas voltadas para as favelas e bairros periféricos. O principal objetivo do
trabalho é analisar o programa de urbanização Bairro Legal nos bairros com presença de
favelas. Como estudo de caso, elegemos dois bairros com presença de favelas, contemplado
com o programa de urbanização Bairro Legal – Matadouro e Tira Gosto e um bairro, a Favela
Margem da Linha, que não foi contemplado com nenhum programa de urbanização, e que pelo
contrário, está passando por um processo de remoção dos moradores. Com esse estudo
objetivamos estabelecer um diálogo entre os anseios dos atores e as intervenções feitas pelo
poder público municipal.
Palavras-chaves: Políticas Públicas; Urbanização; Interesses Econômicos
1. Introdução
Este trabalho trata-se de um esforço de compreensão e análise de aspectos
específicos das políticas públicas de urbanização da cidade de Campos dos Goytacazes,
especialmente aquelas voltadas para as favelas e bairros periféricos. O principal objetivo
do trabalho é analisar o programa de urbanização Bairro Legal nos bairros com
presença de favelas. Como estudo de caso, elegemos dois bairros com presença de
favelas, contemplado com o programa de urbanização Bairro Legal – Matadouro e Tira
Gosto e um bairro, a Favela Margem da Linha, que não foi contemplado com nenhum
programa de urbanização, e que pelo contrário, está passando por um processo de
remoção dos moradores. Para esse trabalho usamos como metodologia um levantamento
bibliográfico acerca dos estudos realizados sobre o tema bem como um levantamento
das obras realizadas com o objetivo de estabelecer um diálogo entre os anseios dos
atores e as intervenções feitas pelo poder público municipal.
O Município de Campos dos Goytacazes, em razão dos altos valores recebidos
de royalties do petróleo e participações especiais1, apresenta alta capacidade de
investimento em projetos públicos, que dependendo da forma como forem aplicados
podem ser instrumentos para a construção de uma cidade justa, garantindo a todos o
direito à cidade. Assim, propomos analisar a ação do governo local e sua vontade
política, ou não, em dirimir ou reduzir as desigualdades sociais expressas nos territórios.
A prefeitura de Campos dos Goytacazes vem implantando políticas de habitação
e urbanização através dos Programas Morar Feliz, Bairro Legal e Meu Bairro é Show.
O Programa Morar Feliz tem por objetivo garantir a moradia digna para a população
que não possui moradia ou que habita áreas de risco. O Bairro Legal realiza
pavimentação das vias e calçadas, limpeza urbana e paisagismo. Já o programa Meu
Bairro é Show consiste na recuperação de praças, pavimentação de ruas, padronização
de calçadas. Nos primeiros levantamentos da pesquisa, percebemos que, com relação às
favelas, a política tem sido preferencialmente de remoção no lugar de urbanização, em
particular naquelas situadas em áreas de interesse do mercado imobiliário, impulsionado
nos últimos anos pelos royalties do petróleo e instalação do Complexo Portuário do
Açu. Um exemplo é a área em torno da Avenida Silvio Bastos Tavares (Estrada do
1
Participações especiais são taxas adicionais sobre o diferencial de produtividade das áreas mais
rentáveis.
Contorno), onde se verificam grandes investimentos como Shopping Center, Hotéis e
condomínios residenciais. Assim, a favela Margem da Linha que ocupa a área desde
1954, por ser considerada área de risco, está vivendo um conflituoso processo de
remoção ao invés de ser beneficiada por esses programas. Diante do exposto, buscamos
identificar se os resultados da política urbana do Município visam atender a todos os
cidadãos promovendo o desenvolvimento equilibrado e a cidade justa ou pelo contrário,
constituem um padrão insustentável e injusto de desenvolvimento urbano.
1. Aspectos da urbanização em Campos dos Goytacazes
A cidade de Campos dos Goytacazes sofre problemas semelhantes as
metrópoles, expansão e adensamento urbanos acelerados e desordenados, déficit
habitacional, favelização, segregação e fragmentação social e espacial.
Campos dos Goytacazes concentra 58,24% dos habitantes de toda a Região
Norte Fluminense, sendo o maior município da região tanto em área 4.040,6 km2,
quanto em número de habitantes: 463.731, dos quais 418.725 (90,3%) na zona urbana,
dentre estes, 15.777 moram em 27 favelas (IBGE, 2010).
Hoje temos projetos implementados pelo poder municipal como Bairro Legal e
Meu Bairro é Show, visando intervenções urbanísticas nos bairros periféricos e nas
favelas.
O Bairro Legal é um programa que iniciou na primeira gestão da prefeita
Rosinha Garotinho (2009 -2012) neste programa todos os bairros que foram
contemplados pelo projeto receberam sistema de drenagem e coleta de esgoto sanitário,
nova iluminação, construção de calçadas, pavimentação asfáltica e tratamento
paisagístico. As obras visam por fim aos alagamentos das áreas e garantir saneamento
básico e a retificação e pavimentação de todas as ruas do bairro.
Já o programa Meu Bairro é Show que iniciou em março/abril de 2012 consiste
na recuperação de vias, regularização de paralelos ou asfaltamento de ruas para melhor
fluidez do tráfego, mais comodidade aos motoristas e embelezamento do bairro e em
alguns casos as calçadas também serão padronizadas com acessibilidade. Segundo as
informações do site oficial da prefeitura na sua prestação de contas, no início de 2013
mais de 20 bairros teriam sido contemplados com o programa e mais de 100 ruas já
teriam sido asfaltadas.
A centralidade desse trabalho é a analise do programa de urbanização Bairro
Legal nos bairros com presença de favelas. Como estudo de caso, elegemos dois bairros
com presença de favelas, contemplado com o programa de urbanização Bairro Legal –
Matadouro e Tira Gosto e um bairro, a Favela Margem da Linha, que não foi
contemplado com nenhum programa de urbanização, e que pelo contrário, está passando
por um processo de remoção dos moradores. Usamos como metodologia a realização do
inventário das obras realizadas e acompanhamento das ações do poder público em
ambos locais.
Para o desenvolvimento de nosso estudo, consideramos que centrar nos aspectos
espaciais ou geográficos das desigualdades sociais, pode ser o ponto de partida para
iniciar uma justa e equitativa distribuição, no espaço, dos recursos sociais e das
oportunidades de usufruir os mesmos. Assim, nos propomos a analisar a ação do poder
público municipal e sua vontade política, ou não, em resolver ou reduzir essas
desigualdades sociais expressa no território da cidade para alcançar uma cidade justa.
2.1 O Bairro legal na favela Matadouro e Tira Gosto
O Bairro legal na favela Matadouro e Tira Gosto, teve suas obras anunciadas no
dia 27 de maio de 2011 em um evento realizado no bairro da Lapa onde a então Prefeita
Rosinha Garotinho anunciou a chegada do Bairro Legal no Bairro Lapa e adjacências,
englobando a Avenida São João da Barra, a Riachuelo, e outras ruas. Favorecendo todos
os moradores da região, com a construção de toda a infraestrutrura que já vem sendo
colocada em prática nos demais. A obra, avaliada em cerca de R$ 34 milhões, prevê a
drenagem de todo o bairro, com a recuperação da rede de esgoto, com ligação
domiciliar de esgoto sanitário, rede de abastecimento de água potável, recuperação do
asfalto, execução de obra em todas as calçadas do bairro, com implantação de
acessibilidade e implantação do sistema de sinalização vertical e horizontal.
“Na Lapa e nas ruas ali perto, nós vamos investir na completa recuperação. O
bairro vai ficar mais bonito, porque vai ganhar obras de urbanismo, vamos plantar
árvores, instalar lixeiras, fazer nova sinalização”, declarou a Prefeita Rosinha Garotinho
em seu discurso.
A última etapa do Bairro Legal da Lapa foi entregue no dia 07 de junho de
2013, a obra reestruturou o bairro com obras de saneamento e recuperação de ruas e
calçadas, e valorizou os imóveis do bairro. O Bairro Legal da Lapa recuperou 19 ruas
e beneficiaram bairros como o Parque Riachuelo, Matadouro, entre outros. As obras
incluíram rebaixamento de solo, instalação de redes de galerias, construção de meio fio,
calçadas com acessibilidade, pavimentação, paisagismo e urbanização.
No dia 15 de maio de 2014 a Prefeitura de Campos dos Goytacazes noticiou em
seu site oficial que o programa já beneficiou mais de 269 ruas em 18 bairros,
beneficiando moradores de Donana, Ururaí, Residencial Santo Antônio, Penha, Nova
Penha, Parque Eldorado, Jardim Ceasa, Novo Eldorado, Vila Industrial, Jardim
Eldorado, Lapa, Matadouro e Parque Riachuelo, Tocaia e Nova Goytacazes.
•
Favela Matadouro e Tira Gosto antes da Obras de urbanização de 2011.
Figura 1: Favela Matadouro em 2004,
arquivo: LEEA.
Figura 2: Favela Matadouro em junho de
2006, arquivo: LEEA.
Figura 3: Favela Matadouro em junho de
2006, arquivo: LEEA.
Figura 4: Fachada do antigo Matadouro em
junho de 2006, arquivo: LEEA
•
Fotos durante e pós obras.
Figura 5: Quadra poliesportiva construída
na Favela Tira Gosto, maio de 2014
arquivo: LEEA.
Figura 7: Rua lateral a UENF, maio de
2014 arquivo : LEEA
Figura 6: Rua lateral a UENF, 2012,
durante as obras. arquivo: site oficial da
Prefeitura de Campos dos Goytacazes.
Figura 8: Praça da Favela Tira Gosto
revitalizada, maio de
2014 arquivo : LEEA.
2.2. A Favela Margem da Linha: à margem dos programas urbanísticos e à beira da
remoção
A Favela da Margem da Linha2 surgiu no município de Campos dos Goytacazes,
pelo menos há mais de quarenta anos às margens da linha da antiga Rede Ferroviária
Federal, que fazia o trajeto Campos-Rio.
Composta a principio por trabalhadores do corte de cana, que ao serem
demitidos perdiam o benefício de morar nas residências da usina do Queimado. A faixa
2
A favela Margem da linha ocupa a área descrita desde a década de 1960 (GUIMARAES & PÓVOA,
2005; POHLMANN, 2008).
localizada entre o pasto da usina e a linha ferroviária foi à alternativa para estes
trabalhadores e suas famílias. Após, no entorno, no lugar que antes era apenas canavial,
o município pavimentou a Rodovia do Contorno para tirar do centro da cidade o trânsito
da BR101. (CORDEIRO et al, 2012).
Segundo Pereira et al (2014) os moradores relataram que quando fizeram a
ocupação a rua era de terra batida onde qualquer chuva produzia muita lama, sem
serviços públicos como iluminação e água potável. As casas eram abastecidas com água
do poço e muitas famílias buscavam água numa bica.
A Favela é composta, segundo dados do IBGE (2010), por 2196 pessoas, sendo
1112 homens e 1084 mulheres, destes 45,30% são crianças e adolescentes, enquanto
6,01% são idosos. Hoje os moradores, através de organização comunitária, possuem
alguns equipamentos básicos, como energia elétrica, água encanada, ruas calçadas ao
longo da Av. Antonio Alves Poubel, coleta de lixo três vezes por semana.
Aos poucos os moradores da Favela vêem se mobilizando e conquistando
gradativamente e de forma lenta algumas melhorias para o bairro, contudo ainda sofre
com falta de saneamento básico, moradias precárias, acesso restrito aos serviços
escolares, hospitalares e equipamentos de lazer, que são frutos do descaso e da ausência
de políticas públicas, dentre outros serviços considerados básicos para se viver
dignamente, além da presença significativa e crescente do controle pelo tráfico de
drogas, que envolve os moradores da Favela e reforça a vulnerabilidade individual no
contexto social.
A Favela Margem da Linha é muito extensa, então, para compreender
espacialmente o local usamos a classificação elaborada por Pires (2005) chamando de
área A: região que compreende o bairro Parque São Caetano até a Estrada do Contorno;
área B: Estrada do Contorno até a Tapera; e área C: Margem da BR 101 até a Usina do
Cupim.
Atualmente essa área que antes era considerada periférica, vem sofrendo uma
serie de investimentos, transformando completamente sua paisagem, usos e
significados. Estas transformações compreendem o entorno da Avenida Silvio Tavares
onde há presença da Favela Margem da Linha, que, no entanto não foi observado o
esforço do Poder Público em inserir a população da Favela ao novo contexto sócioespacial que se reproduz no local, sendo esta situação contraditória, visto que os
moradores da Favela foram os primeiros a se instalarem no local.
Desde o ano 1995, com a construção da Rodoviária/Shopping localizada no
entorno da Favela da Margem da Linha esta vem recebendo constantemente a instalação
de empreendimentos e serviços, em sua maioria de origem privada, mas como afirma
(SANTOS, 2009, p. 121-122), cada parcela do território urbano é valorizada (ou
desvalorizada), em virtude de um jogo de poder exercido ou consentido pelo Estado.
Hoje o Parque Rodoviário como é conhecida a área, que antes era visto como região
periférica é hoje definida pelo Plano diretor como Zona de Expansão Urbana.
A região tem recebido empreendimentos direcionados para a classe media e alta,
como condomínios residenciais de luxo, hotéis e shopping.
Correa (2007) afirma que:
O Estado é também o elemento de legitimação de classe dominante,
sua atuação enquanto provedor tende, por um lado, a reforçar as áreas
residenciais nobres, e por outro, a viabilizar o sucesso de novas
implantações produtivas do grande capital através, por exemplo, da
criação de distritos industriais. Isto significa que sua atuação não se
realiza de forma uniforme no espaço urbano, atuação que se traduziria
nos investimentos em água e esgoto, na criação de uma completa
infra-estrutura. (CORRÊA, 2077, p. 82-83).
Empreendimentos na área da
Margem da Linha:
•
•
•
•
•
•
•
•
De
Rodoviária Shopping Estrada
•
(1997);
•
Condomínio Vertical Recanto
das Palmeiras (1995);
•
Condomínio Sonho Dourado
•
(2000);
•
Condomínio Nashiville (2007);
•
Condomínio Athenas (2008);
•
Condomínio Fit Vivai (2011);
•
Condomínio
Reserva
dos
•
Cristais (2013-2014);
Condomínio Dahma (20132014).
acordo com Mothé (2011) as transformações
Empreendimentos de Negócio:
Academia Nova Estação (1999);
Hipermercado
Super
Bom
(2007);
Walmart (2008);
Atacadão Saara (2008);
Makro (2008);
Inter TV (2009);
Concessionária Honda (2005)
Concessionária Fiat (2010);
Shopping Center Boulevard
(2011).
espaciais podem se apresentar em
decorrência de necessidades do capital, principalmente privado, alguns pontos podem
ser aprimorados enquanto outros podem causar ou acentuar manifestações negativas.
Para que tais ações se concretizem, o capital privado necessita da parceria do estado em
determinadas ações.
A partir disso, observa-se uma participação estatal com maior afinco em áreas
pontuais onde se concentram empreendimentos privados, enquanto as áreas carentes
sofrem as conseqüências.
Quando o espaço em que esta localizada uma favela se torna alvo para a
construção de um empreendimento, desenvolve uma problemática que envolve a
população que já mora no local e o empreendimento que será instalado. O local se torna
valorizado e, em alguns casos, o custo de vida se eleva.
No contexto da ditadura, na década de 1960, uma política sistemática de
erradicação das favelas entrou em vigor, sendo garantida por uma repressão nunca vista
antes. A redemocratização afastou o fantasma da remoção, enfraquecendo o tema, mas
não o eliminando definitivamente, como afirma Brum (2013, p.10) “A cada problema
na cidade atribuído as favelas, como a violência, o tema da remoção reaparecia, até que,
atualmente, os interesses em nome dos “Grandes Eventos”, como Copa do Mundo 2014
e Olimpíadas de 2016, justifica a volta do tema”.
No Rio de Janeiro tornando as intenções anunciadas em ações práticas, em
janeiro de 2010, a Prefeitura anunciou o plano de remover 119 favelas, por estarem em
locais de risco de deslizamento ou inundação, de proteção ambiental ou destinados a
logradouros públicos, entre as favelas estavam a do Horto (Jardim Botânico), a Indiana
(Tijuca), a da CCPL (Benfica), a do Metrô (Maracanã), a Vila Autódromo (Barra) e a
Vila Taboinhas (Vargem Grande). É o caso também da pequena Matinha, num trecho de
floresta atrás do Ciep Ayrton Senna e na vizinhança da Rocinha.
Na Margem da Linha até então, a política do Governo Municipal tem sido a de
remoção, justificando tal ação a partir de um laudo da defesa civil municipal que
considera a área ocupada pela Favela como área de risco, visto que se localiza bem
próxima da BR 101 e da linha de trem.
Segundo Malagodi e Siqueira (2013) em estudos sobre os problemas
socioambientais de situações de desastres relacionados a inundações, mais
especificamente um estudo de caso sobre o bairro Ururaí em Campos dos Goytacazes e
o rio que cerca o bairro, cujo nome também é Ururaí, o que se observa é uma
abordagem tecnicista dos desastres, sendo essa ancorada em cartografias de “área de
risco” que tendem a naturalizar ações políticas que prejudicam a territorialização de
populações de baixa renda, realimentando processos de injustiça ambiental.
Observa-se que a prática de remoção dos moradores de áreas identificadas como
de risco pela defesa civil, involuntariamente em muitos casos, promove o que Valencio
(2009) chama de desterritorialização, pratica esta aliada ao discurso técnico que busca
legitimar tal conceito e mapear tais áreas.
A Prefeitura Municipal pretende remover os moradores para um conjunto
habitacional construído pelo programa Morar Feliz, onde o objetivo é beneficiar
moradores de áreas de risco, assegurando moradia às famílias social e economicamente
vulneráveis, que não têm condições financeiras de adquirir uma casa própria, o
programa segue critérios socioeconômicos.
Segundo Brum (2013), a conjuntura democrática tem permitido a organização e
mobilização dos moradores de favela em resistirem à remoção, argumentos usados pelas
autoridades têm sido refutados por moradores em articulação com outros setores da
sociedade.
•
Fotos da Favela Margem da Linha
Figura 9:Estrada que separa a Margem da
Linha do condomínio
residencial em construção pela construtora
MRV, março de 2014.
Arquivo: LEEA
Figura 11: Obra de um hotel sendo
construído ao lado da Favela
Margem da Linha, maio de 2014. Arquivo:
LEEA
Figura 10: Manifestação de moradores na
BR 101
(arquivo Jornal Folha da Manhã)
Figura 12: Marcação feita pela prefeitura
que indica a rua
e o numero da casa que esses moradores
irão morar no conjunto
habitacional de Ururaí, maio de 2014.
Arquivo: LEEA
2. Resultados e Discussão
Podemos dizer que a área onde se localiza a Favela Margem da linha, vem
passando por um processo de gentrificação.
O termo é decorrente de um neologismo criado pela socióloga britânica Ruth
Glass em 1963, onde em um artigo ela escrevia sobre as mudanças urbanas em Londres
na Inglaterra. Ela se referia ao “aburguesamento” do centro da cidade, usando o termo
irônico “gentry”, que pode ser traduzido como “bem-nascido”, como conseqüência da
ocupação de bairros operários pela classe média londrina.
Na região da Favela Margem da Linha, uma área que foi ocupada por muitos
anos pela população pobre e marginalizada, hoje vem sendo ocupada por uma
população de classe media e classe media alta. Não tem sido visto esforço do governo
local em manter esses moradores no mesmo local, não há até então nenhum programa
de política pública de urbanização vigente, que tenha como objetivo levar dignidade
aqueles moradores,
Para retirá-los do local a Prefeitura usa de leis como a Lei nº 7.975, de 12 de
dezembro de 2007 - DO DIMENSIONAMENTO E PROTEÇÃO DAS FAIXAS DE
DOMÍNIO.
Entretanto, essa legislação é cumprida de acordo com o interesse do governo
Municipal, visto que em bairros como Guarus, existem edificações, inclusive
edificações do Governo Federal como Instituto Federal Fluminense que se localiza bem
próximo tanto da rodovia BR 101, quando da linha férrea.
No Brasil essa política tem sido recorrente, exemplo Vila Autódromo e MetrôMangueira no Rio de Janeiro, a favela da Penha na Zona Leste de São Paulo, próximo
dali, um empreendimento imobiliário com seis torres de 21 pavimentos cada, sendo a
construtora responsável pelos imóveis, a Living, que pagou R$ 2 mil a moradores para
deixarem a favela. De acordo com a matéria publicada pelo site Vila Favela, a
construtora ficou encarregada do pagamento após acordo com a Secretaria de
Habitação, a Subprefeitura da Penha e empresários (brasil247, 2014).
A remoção desses moradores de áreas identificadas como de risco pela defesa
civil, involuntariamente muitas das vezes, promove, conforme já citamos, a
desterritorialização, pratica esta aliada ao discurso técnico que busca legitimar tal
conceito e mapear tais áreas. Na Margem da linha, porém, o que constatamos em visita
ao local é que a área onde está localizada é bem grande, sendo possível a construção de
um conjunto habitacional no mesmo lugar, porém, mais afastada da linha de trem e
assim mais seguro, entretanto o terreno na área com a valorização dos últimos anos tem
um preço muito além do que a Prefeitura se dispõe a pagar.
Os moradores da Favela da Margem da Linha serão levados para um
condomínio residencial do Programa Morar Feliz, bem distante da área onde estão,
onde também não há nenhum serviço público como, creches, escolas, posto de saúde, e
também não possui serviços privados como farmácias, supermercados. Há casos que a
distância pode ocasionar a perca do trabalho e o capital que investiram em suas
residências, contribuindo para a fragmentação da comunidade e aumentando ainda mais
a angústia fruto do deslocamento. Visto o que está acontecendo podemos inferir que a
remoção não é por conta de inviabilidade de um programa de planejamento urbano da
área, hoje habitada e considerada área de risco, e sim para dar espaço aos investimentos
imobiliários, liberando áreas valorizadas da ‘incômoda’ vizinhança da favela.
Segundo Corrêa “O espaço da cidade capitalista é fortemente dividido em áreas
residenciais segregadas, refletindo a complexa estrutura social em classes”. (1999, p. 8),
sendo profundamente desigual. Esse campo de lutas é um produto social, resultado de
ações acumuladas através do tempo, e engendradas por agentes que produzem e
consomem espaço.
Na Favela Matadouro e Tira Gosto podemos observar através dos
registros fotográficos que as mudanças foram muitas, porém durante a pesquisa de
campo, nos foram relatados alguns problemas que já estão se apresentando, um deles é o
entupimento das bocas de lobo, que entra nas casas próximas e também gera um mal
cheiro, porem esses e outros levantamento ainda serão realizados em pesquisas
posteriores.
3. Considerações Finais
Na Favela Margem da linha as demandas atuais pela reforma urbana possuem
dois componentes básicos: justiça através da garantia de direitos urbanos (acesso a
habitação, transporte, educação, saúde, etc.) e a distribuição justa de benefícios através
de provisão de infra-estrutura, o que não têm sido garantido pelo Governo Municipal.
A forte mobilização que tem envolvido moradores da Favela, com a criação da
Associação de Moradores e a construção de uma pauta de reivindicações que passou a
ser tratada institucionalmente com integrantes do poder público municipal e outros
segmentos aliados a causa, como o Centro Juvenil São Pedro, instituição vinculada ao
Colégio Salesiano, que presta assistência social na Favela, e que está em defesa da
permanência do maior número possível de moradores, esses movimentos tem
conseguido aparentemente, problematizar a idéia remocionista.
No dia 02 de fevereiro de 2014 a prefeitura noticiou em seu site oficial que 281
moradores da Favela Margem da Linha apresentaram documentação e confirmaram o
interesse de serem contemplados pela Prefeitura de Campos dos Goytacazes com uma
casa própria no próximo condomínio a ser entregue, no Bairro Ururaí. Entretanto, no dia
24 de fevereiro de 2014 moradores da área da Avenida Silvio Bastos de Tavares, área A
e B fecharam a BR 101 em protesto, segundo o Jornal Folha da Manhã os protestantes
reclamaram que a comunidade existe há mais de 60 anos e nunca tiveram o apoio do
poder municipal e a troca não é bem vista por todos.
Em entrevista para o Jornal Folha da Manhã no dia 24/02/2014 a presidente da
Associação de Moradores da Comunidade da Margem da Linha, Cristiane Gomes,
afirma que “há dois anos tentam negociar com a prefeitura e sem sucesso e que a
Prefeitura quer retira-los do local porque a área está mais valorizada com a vinda de
hotéis, shopping e outras construções, a prefeitura não quer mais favela aqui”.
Foram feitas mais duas manifestações, por parte dos moradores da área C, esses
desejam deixar a área, porém, fazem algumas exigências, como a realização de cadastro
de todas as casas que estão no mesmo terreno, a reclamação é a de que a Prefeitura só
tem cadastrado o terreno, não cadastrando todas as casas existentes nesse terreno, essas
informações foram passadas pela líder comunitária Cristiane Gomes e também
veiculadas nas mídias locais
Na Margem da Linha até então, a política do Governo Municipal tem sido de
remoção, com a justificativa que a comunidade se localiza em área de risco, porém,
como afirmou a líder comunitária é de se questionar que há 60 anos essa área é ocupada
e até então não havia iniciativa do Governo Municipal de retirá-los da área, fato este que
se inicia somente a partir do momento em que essa área se torna alvo de investimentos
privados.
Com relação ao diálogo com os moradores da Margem da Linha, a Prefeitura na
figura do Secretário de Família e Assistência Social Geraldo Venâncio, se comprometeu
em reunir com moradores que resistem à mudança, isso foi o que Cristiane Gomes
informou no dia 15 de maio de 2014 e que 300 moradores, principalmente da área C
estão prontos a espera do término das obras em Ururaí para serem transferidos.
Em Audiência Pública realizada no Instituto Federal Fluminense em Campos
dos Goytacazes no mês de Julho, onde as instituições de ensino da cidade estavam
presentes, Instituto Federal Fluminense-IFF, Universidade Federal Flumiense-UFF,
Universidade Estadual do Norte Fluminense-UENF, através de representantes como
professores e alunos, o representante da Prefeitura afirmou que “os moradores que não
aceitarem deixar o local, poderão continuar, porém, correm o risco de que o Ministério
Público Federal mova uma ação de despejo contra eles”.
A Prefeitura está disposta a usar a redução dos serviços públicos como uma
maneira de coagir os moradores a abandonar suas casas. A negação de infra-estrutura
tem sido utilizada frequentemente para controlar as favelas no Rio de Janeiro antes e
depois das remoções, desde o começo das ocupações, e tem ocorrido também na favela
Margem da Linha, onde o serviço de reparação, e ligação de novas redes elétricas não
está sendo mais realizados.
Esses moradores serão levados para uma região que se localiza a cerca de 9 km
de onde eles estão hoje, e além dos problemas de mobilidade, ainda se tem o problema
do tráfico e da rivalidade entre as favelas. Em vários conjuntos dos 14 distribuídos na
cidade, a população afirma que os locais são “comandados” pelo tráfico, e as pessoas
vivem acuadas dentro de casa por medo da violência nas ruas, a Prefeitura ao remover
as favelas, não considera a possibilidade dessas serem rivais, esse é um dos medos que
acompanham os moradores da Margem da Linha.
4. Referências Bibliográficas
BRUM, Mario. “Favelas e remocionismo ontem e hoje: da Ditadura de 1964 aos
Grandes Eventos”. O Social em Questão - Ano XVI - nº 29 – 2013
CORDEIRO, Thais Nascimento; OLIVEIRA, Daniela B.Bastos; PEREIRA, Beatriz
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Linha: exclusão social X defesa e garantia de direitos. Apresentado no XX Encontro
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http://inculturacao.salesianos.br/artigo-a-margem-da-linha-exclusao-social-x-defesa-egarantia-de-direitos-apresentado-pelos-educadores-do-centro-juvenil-sao-pedro/. Acesso
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CORRÊA, Roberto Lobato. O Espaço Urbano. São Paulo: Editora Ática 1999.
GOMES, Marcos Antônio Silvestre (coord). Diagnóstico Socioeconômico e Análise da
Produção Histórica da Favela da Margem da Linha, Campos dos Goytacazes – RJ.
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131098.427.123914.01112012. UFF: Campos dos Goytacazes, 2013.
GRAZIA, G. de. Plano Diretor, Instrumento de Reforma Urbana. Rio de Janeiro.
Federação dos Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE), 1990
MARICATO, E. Brasil, Cidades: alternativas para a crise urbana. Petrópolis Vozes,
2001.
MALAGODI, Marco A. S.; SIQUEIRA, Antenora M. M. Desastres e remoção em
Campos dos Goytacazes/RJ: O caso Ururaí. In: GOMES, Marcos A. S. (org); LEITE,
Adriana Filgueiras (org). Dinâmica ambiental e produção do espaço urbano e regional
no Norte Fluminense. Campos dos Goytacazes: Essentia, 2013, p. 35-66.
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