PASSADO, PRESENTE E FUTURO DAS DIVISÕES DE BASE NO FUTEBOL DO BRASIL Tenho lido e ouvido muitos comentários nos últimos dias sobre o trabalho de formação no Brasil. Algumas pessoas, alguns profissionais do mercado do futebol (jornalistas, empresários, treinadores etc) com profundo conhecimento do trabalho realizado no futebol de base dos clubes, outras nem tanto. Mas a hora é mesmo de questionamentos. Afinal, após muitos anos, ficamos de fora de um Mundial sub‐20, tivemos uma campanha pífia no Sul‐Americano da categoria e quando ligamos a TV para ver a Copa São Paulo, com atletas da mesma idade das citadas competições, dificilmente apreciamos um bom espetáculo de futebol. Em contrapartida, temos visto a evolução do futebol como um todo em países da Europa, principalmente Espanha, asiáticos e africanos. Mas como temos memória curta, também esquecemos rapidamente que somos o último campeão mundial da categoria e que das 18 competições realizadas, desde 1977, estivemos onze vezes entre os três primeiros colocados, sendo cinco vezes campeões. Mas o que estará acontecendo com a formação de jogadores de futebol no país que é sempre tão propagado como sendo o “país do futebol”? Muitos terão a resposta na ponta da língua, como se ela fosse ela a verdade absoluta. Muitos sequer trabalharam ou acompanham os trabalhos na formação nos principais clubes do país. Mas todos saberão a fórmula do sucesso (será?). Ou, o que é muito pior, falarão ou escreverão sobre o problema sem sequer apresentar soluções ou uma solução que seja. Pessoas comuns que apreciam o futebol e/ou profissionais mais experientes, ou inexperientes, simplesmente dirão que não se forma mais como antigamente; não se treina mais como antigamente etc. Pessoas comuns que apreciam o futebol e/ou profissionais mais inexperientes, ou experientes, colocarão culpa nos dirigentes dos clubes, nos dirigentes da base mais especificamente, nos treinadores, nos profissionais da base de um modo geral, nos atletas etc. A maioria apontará apenas uma causa. Penso que são comentários ou soluções simplistas demais para um problema que, no meu modo de ver, é muito mais complexo do que se imagina. Passa por profundas análises filosóficas, sociológicas etc. Mas vamos nos ater somente às questões de passado e presente e talvez encontremos um conjunto de respostas para o que acontece neste momento no futebol brasileiro e, quem sabe, no futuro, possamos encontrar a solução, ou ao menos parte dela. Importante é que todos entendam que a causa não é uma somente, mas sim um conjunto de fatores que nos levam a ter, nesse momento, conquistas efêmeras. Antes de entrarmos na questão do tempo é importante, e nunca é demais, lembrarmos que o mundo evoluiu como um todo. Vivemos globalmente e o que se faz aqui sabe‐se em segundos em outros países, graças, principalmente, à internet. Profissionais envolvidos no futebol evoluem e transformam seus conhecimentos, alteram paradigmas, em questões de dias, horas, minutos ou segundos, sejam eles gestores, treinadores, preparadores físicos, treinadores de goleiros, médicos, fisiologistas, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, advogados, massagistas, roupeiros, analistas de desempenho, para citar apenas os mais usuais no dia a dia dos clubes. Por conta disso, e não poderia ser diferente, o futebol mudou no mundo todo. Os mais velhos precisam aceitar essa mudança. Os mais novos precisam entender a história do futebol para que compreendam porque ele ainda é hoje essa paixão mundial. Façamos então uma correlação entre passado e presente em alguns importantes aspectos do futebol, e talvez possamos começar a entender onde estará a solução para a formação de grandes jogadores no Brasil (ou simplesmente deixamos de produzi‐los?). ‐ Categoria de base no Brasil como é hoje é algo recente (menos de 50 anos). Portanto, estamos em processo de evolução. ‐ Comissões Técnicas eram formadas por pouquíssimos profissionais. Hoje existe uma equipe interdisciplinar, importante não somente para a formação do atleta, mas para a concepção do trabalho em equipe. ‐ O “passe” do jogador pertencia ao clube. Não existe mais o passe. Existem direitos federativos e econômicos sendo estes últimos, quase sempre, fatiados entre jogadores, clubes e empresários. ‐ Jogadores não tinham empresários. Quando muito, tinham advogados que os representavam para a formalização de um contrato profissional. Os empresários interpretaram a Lei Pelé muito antes dos clubes e aproveitaram a fragilidade de gestão dos clubes para criarem um mercado próprio. ‐ Não havia internet e as informações na mídia eram escassas e imprecisas. Hoje os jogadores têm assessoria de imprensa, muitas vezes pagas pelos próprios empresários que os representam, e podem ser notícia em segundos para o mundo todo. Nesse caso, devem raciocinar: “pra que pensar coletivamente?” ‐ Contratos profissionais eram feitos com jogadores quando estes praticamente atingiam seu apogeu. Hoje, bons jogadores fazem seu primeiro contrato profissional com o clube com 16 anos de idade. Em consonância com a Lei, os clubes se obrigam a pagar salários altos a esses meninos. ‐ Clubes e jogadores ganhavam pouco dinheiro. Hoje, clubes e jogadores recebem valores financeiros compatíveis com suas marcas. ‐ Jogadores ficavam em seus clubes de formação quase que por toda vida. Hoje há uma disputa acirrada dos clubes, no Brasil e no exterior, pelos direitos federativos e econômicos de um bom jogador. ‐ Não se falava em marketing. Hoje o marketing é responsável pela grande arrecadação dos clubes de futebol de primeira e segunda linhas do futebol mundial. ‐ As Leis eram mais simples e beneficiavam, principalmente, os clubes. Hoje a Lei Pelé protege, principalmente, o atleta. Entre o passado e o presente, um dos aspectos que mais evoluiu no futebol, sem qualquer dúvida, foi a preparação física dos atletas, o que torna o jogo muito mais dinâmico e o contato físico muito mais abrangente. Quanta coisa mudou, não é mesmo? Muitos outros aspectos mudaram, mas ficaremos por aqui para que o espaço da coluna permita a conclusão. Algumas questões para ajudar na reflexão: ‐ Você entende que a família é hoje como era no passado? ‐ Com a evolução tática do futebol, do treinamento de futebol, você acredita que o atleta pode ter o mesmo cognitivo que tinha a maioria dos atletas do passado? ‐ Com o mundo globalizado, com a evolução da mídia impressa e falada, você entende que o jogador de futebol ainda não se expresse bem, mesmo que em sua língua pátria? ‐ Você entende que um jovem que queira ser um grande jogador de futebol possa conseguir ser focado para ser um grande profissional, com tanta coisa acontecendo ao seu redor? ‐ Você acha que com todo envolvimento de clube, profissionais deste clube, família, empresário, amigos, internet, mídia, com este atleta, ele conseguirá perceber a importância de se trabalhar em equipe, para que a vitória profissional dele se realize plenamente? ‐ Você acha, sinceramente, que um jovem de 16, 17, 18, 19 ou 20 anos (você, com certeza já teve essa idade!) está preparado para entender que a vida profissional dele está apenas começando, quando ele recebe cinco, seis, sete, até dez, quinze ou vinte mil reais por mês? ‐ A Comenbol organiza uma competição Sul Americana sub‐20 em janeiro, época de férias dos jogadores no Brasil. A maior parte de nossos atletas atua na categoria profissional. Alguns já recebem excelentes salários em seus clubes. Você acredita mesmo que esse menino possa estar focado em uma competição deste tipo? Como gestor há quase 30 anos, posso assegurar que a maior parte dos profissionais que atuam no futebol, diferente de outros mercados em que já atuei, fazem por amor ao ofício, são estudiosos e evoluem em suas áreas de maneira animadora. Os atletas passam 2 (duas) horas de seu dia no clube e têm apoio, não somente dos professores, como de psicólogos, nutricionistas, fisiologistas etc. O restante do dia passam com terceiros que podem ser, família, escola, amigos, empresários etc. Desta forma, tenho minhas conclusões para o fracasso na formação de jogadores que hoje se vê no Brasil, e que passam longe da incapacidade dos profissionais que trabalham na base dos clubes, como muitos apregoam. Espero poder ajudar na conclusão de vocês que estão lendo essa coluna. Tenho certeza que, se chegaram até aqui, é porque estão refletindo sobre o assunto, que parece tão complexo. Apresento algumas soluções que poderão, se não resolver 100% o problema, certamente minimizar o desperdício da principal matéria prima do futebol, que é o jogador, no futuro. Todos nós no Brasil, de maneira simplista, tratamos a exceção (Neymar, por exemplo) como regra, quando deveríamos tratar regra como regra e exceções como exceções. Somente na Copa São Paulo, para citar uma competição sub‐20 mais recente, tivemos 2500 jogadores inscritos. Quantos jogadores estão sendo formados em clubes no Brasil por ano? Quantos serão “Neymar”? Quantos serão bons jogadores? Quantos encerrarão a carreira aos 20 anos? Quantos permanecerão em seus clubes de formação? Jogadores somente atingem maturidade no decorrer dos anos. Alguns mais cedo, outros mais tarde, mas estudam comprovam que a maioria matura entre 20 e 23 anos. Por que então não se incentivar uma categoria sub‐23 no país? Por que a CBF não encampa essa ideia com uma competição ao estilo Copa do Brasil para essa faixa etária, ao invés da Copa do Brasil sub‐20, que pouco resultado produz na formação dos atletas? Custo? Se um elenco profissional trabalha com 32 atletas, mais meninos da base, quando necessário, por que não poderia trabalhar com 24 jogadores (qualquer treinador iria adorar!), tendo um elenco de mais 24 jogadores na sub‐23 para utilizar quando necessário? Essa conclusão é fruto de debates com profissionais extremamente inteligentes que trabalham no futebol há anos, como meus mestres René Simões, Ney Franco, Próspero Paoli e Toninho Barroso. Precisamos debater melhor a transição dos jogadores de futebol da base para o profissional. Quantos jogadores são “queimados” prematuramente? As Federações e a CBF necessitam criar seus departamentos de futebol de base para que os profissionais contratados pensem o Futebol de Formação em seus Estados e no País. Além disso, é urgente e imperioso que os clubes se estruturem para que possam permitir que o jovem treine, more, estude, faça suas refeições, receba palestras periódicas, tratamentos médicos, psicológicos, melhore seu cognitivo diariamente etc, em seus Centros de Treinamento, minimizando, desta forma, toda influência externa que ele poderá receber, principalmente ao fechar seu primeiro contrato profissional. Alguma semelhança com o clube que hoje é modelo europeu de formação não é mera coincidência. Carlos Brazil Gerente de Futebol de Base – Clube de Regatas do Flamengo Formado em Administração com Especialização em Gestão e Marketing Esportivo pela Trevisan e Gestão e Direito Esportivo pela FGV/FIFA 
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