FOLHA DE S. PAULO - SP - 09/07/01
Edmar Bacha: Chamar país de Belíndia não é mais
correto
';
Com alta da renda, riqueza da Bélgica e miséria da Índia deixaram de valer
MARCIO AITH
ENVIADO ESPECIAL AO RIO
Com o aumento da renda no Brasil, já não é mais adequado retratar o país como uma Belíndia,
mistura entre a riqueza da Bélgica e a miséria da Índia.
Quem diz isso é o economista Edmar Bacha, criador da expressão na década de 70 e um dos
principais formuladores do Plano Real. "Talvez o termo composto proposto por Delfim Netto seja
hoje mais apropriado: Ingana -impostos da Inglaterra e serviços públicos de Gana", afirmou.
Consultor-sênior do banco de investimento Itaú-BBA, Bacha falou à Folha sobre os 15 anos do
Real. Ele elogiou o presidente Lula, a quem atribuiu dons "camaleônicos" que permitiram o
aprimoramento da economia, mas criticou a estratégia petista de demonizar as privatizações. A
entrevista foi feita no Instituto de Estudos Econômicos da Casa das Garças, presidido por Bacha.
FOLHA - O Real de FHC trouxe estabilidade monetária. O Real de Lula produziu crescimento de
renda, aumento do crédito e emprego formal. A comparação é apropriada?
EDMAR BACHA - Não é tão simples assim. Em 1994, o Real trouxe uma parada súbita e
duradoura da inflação, o que não é pouca coisa. O governo de Fernando Henrique também fez
reformas difíceis, das quais o presidente Lula beneficiou-se. Além disso, os deuses determinaram
sucessivas crises internacionais no nosso período [México em 1995, Ásia em 1997, Rússia em
1998 e Argentina em 2001]. Tivemos um cenário internacional muito hostil. O Lula teve o benefício
de herdar as reformas já feitas. Teve, com elas, liberdade para administrar o Estado. Além disso,
contou com o céu de brigadeiro. Nunca antes na história dos povos houve um período de
crescimento tão vigoroso quanto o verificado entre 2002 e 2007.
FOLHA - E os méritos de Lula?
BACHA - Em primeiro lugar, Lula sempre teve muito presente a importância da estabilidade de
preços para manter o poder de compra dos salários. É uma qualidade dele, não do PT. O
presidente também aprofundou os programas sociais e demonstrou uma impressionante
capacidade camaleônica. Quando viu que um programa não dava certo, simplesmente o
abandonou. Quando percebeu que o Fome Zero não funcionava, tratou de aperfeiçoar o Bolsa
Escola. Na educação foi a mesma coisa. O PT dizia que ia acabar com os sistemas de avaliação,
extinguir o Provão. Não só não acabou como também melhorou o modelo que herdou -o Enem
pode até vir a substituir o vestibular. Vejo como um talento essa sua capacidade de reconhecer os
problemas, de ouvir os melhores conselhos e dispensar as porcarias que lhe sopram no ouvido.
FOLHA - E os pecados?
BACHA - Tem um pecado que só não foi mortal devido à situação econômica favorável. O governo
Lula abandonou as reformas, aparentemente porque viu que era muito complicado lidar com o
Congresso depois do mensalão. O governo aprovou duas ou três coisas logo no início, depois
parou. Após o mensalão, tratou de fazer as composições estritamente necessárias para governar.
FOLHA - Que reformas foram adiadas?
BACHA - Refiro-me especialmente a uma palavra que virou anátema sob Lula: privatização. Se
existe um pecado mortal no atual governo, é o de demonizar os mecanismos que permitem ao
setor privado participar mais ativamente da provisão de bens públicos que tradicionalmente eram
reserva do Estado.
FOLHA - Mas a palavra privatização é impopular inclusive no PSDB...
BACHA - Sim, é verdade. Fui assessor da campanha do Mario Covas. Nós é que inventamos a
palavra "desestatização" porque ele não queria usar privatização. E, quando Covas pregou o
choque do capitalismo em um discurso, passou o resto da campanha se desculpando, dizendo que
não lhe tinham interpretado corretamente.
FOLHA - Por que esse discurso antiprivatização é tão poderoso?
BACHA - As pessoas se convenceram de que, se algo é estatal, isso lhes pertence, quando muitas
vezes o que lhes pertence são apenas os custos de sustentação da estatal.
FOLHA - Dado que tucanos e petistas têm a mesma receita contra a crise econômica, é possível
formular um discurso eleitoral de oposição?
BACHA - Em termos de resposta à crise econômica, os limites são estreitos mesmo, mas é um
retrato do amadurecimento do país. Felizmente ninguém está propondo o socialismo do século 21
como resposta à crise. Esse amadurecimento também é produto do Plano Real. Antes dele havia
sempre presente, no cardápio de alternativas políticas, a ideia de que o Brasil podia ir para
qualquer lado.
FOLHA - O senhor criou o termo Belíndia para retratar a desigualdade social. O termo ainda é
válido?
BACHA - A desigualdade ainda é um traço forte, mas a combinação de crescimento com
estabilidade e programas sociais melhora muito a parte "Índia" do Brasil. Sob esse ponto de vista,
não é mais correto falar em Belíndia. Talvez o termo composto proposto por Delfim Netto seja hoje
mais apropriado: Ingana -impostos da Inglaterra e serviços públicos de Gana. De qualquer modo,
pelo menos conseguimos evitar a Banglabânia -Bangladesh com Albânia- que Mário Henrique
Simonsen tanto temia.
FOLHA - O Real trouxe estabilidade ao país, mas também o risco renitente de sobrevalorização
cambial. Como resolver esse problema?
BACHA - Trata-se de um dilema natural do sistema de câmbio flexível aliado ao regime de metas
inflacionárias. É um problema mesmo. Para atacá-lo, poderíamos tornar o real uma moeda
conversível de fato, pondo fim ao estigma da evasão de divisas e à mentalidade de que as
pessoas não podem manter o dinheiro lá fora. Seria uma maneira natural de evitar a valorização
excessiva do real. Agora que o governo está propondo acordos de trocas comerciais usando
moedas nacionais com a Argentina e a China, inclusive para desbancar o dólar, talvez seja a hora
de observar que tudo isso seria muito facilitado caso o real fosse uma moeda conversível.
Download

Edmar Bacha: Chamar país de Belíndia não é mais