O Globo – RJ
10/08/2009
Economia / George Vidor
Capa/14
Cruzeiro do Sul Online – SP
10/08/2009
Economia
Online
Sobra de gás no Brasil chega ao maior nível da
história
(Não Assinado)
O Brasil registra em 2009 a maior sobra de gás natural de toda sua história. No
total, deixaram de chegar ao mercado 20,4 milhões de metros cúbicos por dia,
em média, volume equivalente ao importado da Bolívia. A quantidade de gás
"desperdiçado" é maior do que a consumida por toda a indústria de São Paulo.
Juntas, por exemplo, as regiões Sul e Sudeste utilizam 25 milhões de metros
cúbicos desse combustível para alimentar diariamente máquinas e
equipamentos industriais.
A gigantesca sobra diária é dividida em duas vertentes: 8,72 milhões de metros
cúbicos são simplesmente queimados na atmosfera a cada dia. Dessa forma
some o gás retirado dos poços produtores que não tem como ser transportado
para centros de consumo. Outros 11,7 milhões de m3 tiveram de ser reinjetados
nos campos, seja por demanda insuficiente ou falta infraestrutura para
transporte.
Os dados constam do último relatório do Ministério de Minas e Energia,
referente ao mês de maio. A estimativa de especialistas, é de que o boletim de
junho revele sobra ainda maior. De acordo com a Associação Brasileira das
Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), foram vendidos 40,6
milhões de m3/dia em junho, ante os 41,5 milhões de m3/dia de maio, ou seja,
houve queda de 2,16% na comparação mensal.
Em relação a junho de 2008, o consumo de gás natural registrou recuo ainda
maior: 19,35%. Segundo os dados da Abegás, o consumo acumulado no
primeiro semestre do ano caiu 27,82%, ante mesmo período do ano passado.
Relatório da associação obtido pela Agência Estado avalia que "mais uma vez
os dados demonstram que a falta de uma política energética e o alto preço do
insumo têm refletido de forma negativa no consumo".
A sobreoferta jogou para o nível mínimo a média de gás natural importado da
Bolívia, que ficou em 21 milhões de metros cúbicos por dia nos seis primeiros
meses do ano. O contrato entre os dois países prevê que o limite mínimo de
importação pode chegar a 19 milhões de metros cúbicos num dia, contanto que
o Brasil compense nos demais dias do mês, fazendo com que média diária se
mantenha nos 21 milhões de metros cúbicos.
Caso esta compensação não ocorra, o contrato, do tipo "take or pay" prevê que
o Brasil pague, ao final de um ano, pelo mínimo previsto, mesmo sem consumir.
A situação hoje é completamente inversa à de dois anos atrás, quando havia
risco de um novo racionamento de energia no País. Também é bastante distinta
do cenário de dependência total do gás importado da Bolívia, em 2006, quando
o presidente boliviano, Evo Morales, privatizou reservas e trouxe o temor do
desabastecimento ao mercado brasileiro.
Em todo o ano passado, o consumo do gás importado esteve próximo ou
superior ao máximo contratado de 30 milhões de metros cúbicos por dia. As
causas para a inversão de cenário em 2009 vieram da combinação entre queda
na demanda industrial - causada pela crise internacional - e excesso de chuvas,
que encheu reservatórios de hidrelétricas e eliminou a necessidade de
acionamento das térmicas a gás.
"Não era possível prever um cenário como este", diz o presidente da Empresa
de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, admitindo que a
sobreoferta de energia vai perdurar até 2015. Para ele, a Petrobras fica como
refém deste mercado, porque precisa dar garantias plenas de fornecimento
quando as usinas tiverem de ser acionadas. "Ela não pode sequer fechar
contratos flexíveis para esta energia quando os reservatórios estão cheios",
lembrou.
Tolmasquim já defende a adoção de medidas para elevar o consumo no Brasil.
A Agência Estado encaminhou à Petrobras amplo questionário sobre a
produção, abastecimento e sobras de gás natural no País, mas após três
semanas de espera não obteve resposta da área de Gás e Energia. Para todas
as perguntas, a companhia disse apenas que "não há problema de
abastecimento".
Com as recentes descobertas de novos reservatórios e a entrada em produção
de campos de grande porte, como Mexilhão, na Bacia de Santos, que começará
a produzir em 2010 e terá capacidade de até 15 milhões de metros cúbicos por
dia, a tendência é de elevação da oferta. "O ideal é estimular contratos
flexíveis", afirma Tolmasquim.
Para o professor Nivalde Castro, do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel),
da UFRJ, o próprio mercado já cria incentivos para o aumento do consumo. Ele
cita o caso dos leilões da Petrobras, em que os preços negociados ficaram
bastante depreciados. O valor médio do leilão realizado em junho com entrega
prevista para agosto, por exemplo, ficou em US$ 4,66 por milhão de BTU
(unidade britânica que mede o poder calorífico do gás). No primeiro trimestre
deste ano, a estatal vendeu gás nacional a US$ 7,74 no mercado não térmico e
a US$ 7,33 o gás importado.
"O melhor tipo de incentivo para aumentar a demanda é a redução do preço. As
indústrias que puderem vão converter novamente para este combustível, se
tiverem condições favoráveis de preço e principalmente garantia de entrega",
disse, lembrando que há dois anos, quando houve o risco de um novo
racionamento, algumas empresas tiveram que reverter seu consumo de gás
para óleo combustível.(AE)
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