Trabalho Científico
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AVALIAÇÃO DA TOLERÂNCIA DE MELANOIDES TUBERCULATA AO LÁTEX DE
EUPHORBIA SPLENDENS
Okumura, Denise Tieme1 e Rocha, Odete2
1. INTRODUÇÃO
As invasões biológicas constituem uma das mais sérias ameaça à biodiversidade global,
perdendo apenas para a destruição de habitats (EVERETT, 2000). Segundo SIMBERLOFF e
STILING (1996), milhares de espécies têm se espalhado por todas as partes do mundo, em
decorrência das atividades humanas. De fato, a agricultura e a troca comercial têm derrubado
muitas barreiras naturais de dispersão (KOLAR e LODGE, 2001). Na maioria dos casos, no
entanto, não há registros sobre o local exato, a quantidade de organismos introduzidos ou a
real permanência e estabelecimento de populações permanentes das espécies introduzidas.
Menos freqüentes ainda são os estudos que comprovem as extinções das espécies nativas em
decorrência da introdução de espécies alienígenas.
Segundo WILLIANSON e FITTER (1996) para
animais quanto vegetais, uma delas aparece no
casualmente). Destas espécies uma entre dez se
estabeleceram uma em cada dez tem potencial para se
cada dez espécies importadas, tanto
ambiente selvagem (introduzido ou
estabelece e destas últimas que se
transformarem em “pestes”.
As águas doces são ambientes particularmente sujeitos às invasões biológicas, porque a
dispersão é grandemente facilitada pelo próprio fluxo da água. A introdução de organismos
aquáticos é bastante difundida em todo o mundo. WELCOMME (1988) verificou 1354
introduções de organismos aquáticos (não apenas de peixes) em cerca de 140 países.
A esse respeito, a invasão de moluscos tem sido estudada há muito tempo por causa de
seus prejuízos econômicos (MEAD, 1979), seus impactos sobre as faunas endêmicas
(CIVEYREL e SIMBERLOFF, 1996), e seu papel na transmissão de parasitas para os humanos
(MALEK, 1980).
Os membros do filo Mollusca estão entre os animais invertebrados mais evidentes e
familiares. Em abundância de espécies, os moluscos constituem o maior filo de invertebrados
além dos artrópodes. A classe Gastropoda é a maior classe de moluscos, descrevendo cerca de
30.000 espécies existentes. Considerando a larga variedade de habitats que os gastrópodes
invadiram, eles constituem certamente a classe de molusco de maior sucesso (RUPPERT e
BARNES, 1996).
Entre os moluscos Gastropoda, diversas espécies, particularmente das famílias Thiaridae
e Ampullariidae, têm sido introduzidos no continente americano para controle biológico de
moluscos hospedeiros de parasitóides humanos, principalmente de espécies da família
Planorbidae, hospedeiros intermediários do Schistossoma mansoni, causador da
esquistossomose (PRENTICE, 1980). Entre estes, Melanoides tuberculata, gastrópode tiarideo,
tem sido preferencialmente utilizado para esta finalidade em todo o mundo (RITCHIE et al.,
1962; PRENTICE, 1980; GOMEZ, 1986; JURBERG e FERREIRA, 1991).
No Brasil, Melanoides tuberculata foi introduzido possivelmente por meio do lastro de
navios, que podem conter água doce, salobra ou marinha dependendo do local de
lastreamento, além de haver a possibilidade da entrada de sedimento. A água contida nos
lastros dos navios pode apresentar ainda muitos organismos que em questão de dias ou
semanas são levados de um continente a outro a quilômetros de distâncias (CARLTON e
GELLER, 1993).
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Por volta de 1967, esse gastrópode de origem afro-asiática foi registrado pela primeira
vez no Brasil, na cidade de Santos (SP), e desde então, se espalhou por Brasília (DF), Rio de
Janeiro (RJ), Minas Gerais (MG), Goiás (GO) e Espírito Santo (ES), além de encontros recentes
na região Nordeste do Brasil (ABÍLIO, 1997; VAZ et al., 1986).
Em 1984, foi registrada na cidade de Brasília, DF, no lago Paranoá e também num
criadouro natural, próximo à Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, RJ (JURBERG e
FERREIRA, 1991). Em 1986, foi registrada na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, MG. De
acordo com ABÍLIO (1997), em 1990, a espécie teria sido também registrada nos estados de
Goiás e Espírito Santo. Estudos recentes registraram a ocorrência desta espécie no Nordeste,
nos estados da Bahia (SOUZA e LIMA, 1990) e da Paraíba (PAZ et al., 1995).
Assim, Melanoides tuberculata vem se dispersando extensivamente em regiões tropicais
e subtropicais, por ter elevada capacidade de dispersão e migração e fácil adaptação, podendo
se estabelecer em praticamente todos os tipos de substratos em ambientes de água doce
(POINTIER et al., 1993; SUPIAN e IKHWANUDDIN, 2002).
Além disso, segundo FREITAS et al. (1987), as espécies de Melanoides tuberculata
possuem a tendência de muitas espécies invasoras: predominância de jovens durante todo o
ano; alta capacidade migratória e de expansão, podendo se estabelecer em todo tipo de região
litorânea e de substrato; apresentando também baixa faixa de mortalidade. Porém pouco se
sabe a respeito dos possíveis efeitos causados na malacofauna nativa das regiões onde o
Melanoides tuberculata foi introduzido.
Em estudos recentes realizados em um subprojeto vinculado ao Programa Nacional de
Biodiversidade (PROBIO), financiado pelo Ministério do Meio Ambiente, o molusco Melanoides
tuberculata foi registrado na represa de Americana, no rio Atibaia, pertencente à bacia do Rio
Tietê. Neste estudo, foi mapeada a ocorrência desta espécie na represa e analisada a estrutura
populacional (DORNFELD et al., 2004). Estudos anteriores, realizados em 1974, na represa de
Americana registraram a ocorrência de diferentes espécies de moluscos gastrópodes
pertencentes às famílias Ancyllidae e Planorbiidae (SHIMIZU, 1978). No entanto, nas
amostragens realizadas no recente trabalho, anteriormente citado, a presença de espécies
pertencentes a estas famílias não foi observada. Formula-se a hipótese de que o
desaparecimento destas espécies tenha sido conseqüência direta ou parcial da invasão por M.
tuberculata, a qual deve ter eliminado competitivamente as espécies nativas.
Um outro fator que deve ser levado em consideração é que o próprio Melanoides
tuberculata pode ser um vetor (primeiro hospedeiro intermediário) de enfermidades de
veiculação hídrica, como a clonorquíase e a paragonimíase (MALEK e CHENG, 1974). O
primeiro é um trematódeo hepático e o segundo é um trematódeo pulmonar (ABÍLIO, 1997). A
ocorrência de clonorquíase entre imigrantes instalados no Brasil foi registrada pelo Instituto
Adolfo Lutz, em São Paulo, em 1975 (CORRÊA e CORRÊA, 1977 apud VAZ et al., 1986).
Enquanto, THIENGO et al. (2001) e BOGÉA et al. (2005), relataram registros recentemente da
ocorrência de espécimes de M. tuberculata infectados com cercárias e trematódeos na cidade
do Rio de Janeiro.
A crescente invasão de Melanoides tuberculata no Brasil, atingindo altas densidades em
várias regiões do país, é preocupante. Não só pela sua potencialidade em tornar-se um vetor
de enfermidades de veiculação hídrica, como também pelo pouco conhecimento a respeito dos
possíveis impactos sobre a malacofauna nativa das regiões onde a espécie foi introduzida.
No entanto, a experiência existente sobre o controle de espécies invasoras é
desanimadora. Na maior parte dos casos as técnicas empregadas até o momento não têm tido
muito sucesso. Os tipos de controle disponíveis (químico, mecânico e biológico) precisam ser
testados para os locais específicos, aperfeiçoados e utilizados conjuntamente para uma ação
mais efetiva (ROCHA, 2003).
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Um tipo de controle de espécies invasoras é o moluscicida. Desde 1930 os
pesquisadores têm investigado as propriedades moluscicidas de várias plantas tentando
desenvolver substâncias naturais que possam ser usadas pelas comunidades (MOZLEY, 1939).
A idéia é criar um caminho auto-sustentável de produzir e usar moluscicidas naturais dentro de
um integrado programa de controle, ou seja, substâncias que possam suplantar os inviáveis e
caros produtos sintéticos (TAYLOR, 1986). Atualmente, investigações sobre a propriedade
moluscicida das plantas têm sido ampliadas consideravelmente, com mais de 1.400 espécies
de plantas já estudadas (KUO, 1987; JURBERG et al., 1989). Segundo SCHALL et al. (1998),
os extratos de 20 espécies de plantas, incluindo o de Euphorbia splendens, revelaram que
estes têm um alto potencial moluscicida, quando utilizados em baixas concentrações.
Euphorbia splendens var. hislopii é uma planta ornamental originária de Madagascar.
Essa euforbiácea foi introduzida no Brasil para ser usada em jardins como cercas-vivas, sendo
conhecida popularmente como Coroa de Cristo, Coroa de Nossa Senhora, Duas Amigas e
Martírios (PIO CORRÊA, 1984). As propriedades moluscicidas de E. splendens já foram
constatadas em diversos trabalhos, como de VASCONCELLOS e SCHALL (1986), MENDES et al.
(1997) e SCHALL et al. (1998), os quais obtiveram resultados positivos, mostrando E.
splendens como um potente moluscicida.
Em 1993, por meio de fracionamento químico, ZANI et al. (1993) observaram que o
látex de Euphorbia splendens apresentava oito diferentes substâncias derivadas da fração
ativa. Uma delas, a milliamina L, era, no entanto, a mais efetiva no tratamento de moluscos,
demonstrando uma letalidade de 90% numa concentração de 0,01 ppm.
Deste modo, esse trabalho teve como objetivo testar a eficácia do látex de Euphorbia
splendens, uma espécie da família Euphorbiaceae (JURBERG et al., 1989), visando o
desenvolvimento de uma tecnologia com base em estudos ecotoxicológicos para a redução da
sobrevivência e do sucesso reprodutivo de Melanoides tuberculata, fornecendo subsídios para o
estabelecimento de um plano de manejo desta espécie invasora.
2. MATERIAL E MÉTODOS
2.1. Origem do Material Biológico
Os exemplares de Melanoides tuberculata (Figura 1) foram obtidos em ambientes
naturais, sendo coletados nos tanques de Piscicultura do Centro de Pesquisa e Treinamento em
Aqüicultura (CEPTA), em Pirassununga, SP, e mantidos em laboratório. Após um período de
dois a três dias de aclimatação, indivíduos adultos foram separados e submetidos aos testes.
Para os testes de toxicidade foi utilizado o látex da planta Euphorbia splendens (Figura
2), coletada nos arredores da cidade de São Carlos, SP. O látex das plantas foi obtido
coletando-se gotas do látex após a realização de cortes no caule do arbusto, e
subseqüentemente, foi armazenado em geladeira durante a realização dos testes de
toxicidade. Esse armazenamento foi feito em recipientes de vidro devidamente protegidos da
ação da luz e fechados.
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Figura 1: Vista geral do gastr ode
Melanoides tuberculata M ler (1774).
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Figura 2: Vista geral da euforbi ea Euphorbia splendens
(Foto: Daniel Camara Barcellos).
2.2. Manutenção e Cultivo de Melanoides tuberculata
Os organismos foram mantidos em aquários e bandejas. A água utilizada para o cultivo
foi inicialmente a água do local de coleta dos indivíduos de M. tuberculata (tanques do CEPTA),
que foi gradativamente substituída por uma mistura de água reconstituída (CETESB, 1991) e
água coletada em tanques da Estação Experimental da UFSCar, SP, para facilitação do
processo, devido à distância do local de origem dos gastrópodos. Foi adotada a proporção 6:1
para a água reconstituída e a água dos tanques, respectivamente, sendo que esta água de
mistura apresentava as seguintes características: dureza total de 40 a 44 mg CaCO3/L, pH =
7,0 ± 0,2 e condutividade de 120-130 μS/cm. As trocas de água das culturas foram feitas duas
vezes por semana, ocasião que os indivíduos foram lavados cuidadosamente, para evitar a
infestação por fungos. A alimentação consistiu de matéria vegetal seca e preparada em pó
mesclada com ração de peixe em pó. Durante a realização dos cultivos, foram monitoradas as
variáveis: pH, temperatura da água, dureza da água e condutividade elétrica.
2.3. Testes da Toxicidade Aguda do Látex de Euphorbia splendens ao Molusco
Melanoides tuberculata
Nos testes agudos de toxicidade, os organismos foram expostos a diferentes
concentrações de uma determinada substância, tendo como objetivo avaliar as respostas
associadas com uma concentração específica da substância-teste (SETAC - Society
Environmental Toxicology and Chemistry, 1993). Os procedimentos metodológicos adotados
foram baseados em normas padronizadas desenvolvidas para outras espécies (WHO, 1983;
CETESB, 1991). Foram realizados testes de toxicidade aguda com a substância natural (látex)
de Euphorbia splendens, em diferentes concentrações, determinadas em testes preliminares.
As variáveis pH, temperatura da água, e condutividade elétrica foram monitoradas no início e
final dos testes.
Nos ensaios com as substâncias naturais (látex), segundo a metodologia aplicada por
SCHALL et al. (1998), os moluscos adultos foram expostos a várias concentrações do
moluscicida (1 ppm a 10 ppm) por um período de 24 horas. As concentrações testadas foram
obtidas por diluições feitas a partir da solução-estoque de 1000 mg/L. Os animais no grupo de
controle foram expostos apenas à água de diluição, água de cultivo. No experimento, 200 mL
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de solução foram preparados para cada concentração e divididas igualmente em quatro potes
plásticos de 100 mL.
Durante as 24 horas de exposição, as réplicas foram mantidas em incubadoras a 25°C e
fotoperíodo 24 horas escuro, cobertos e sem nenhuma alimentação. Ao término de 24 horas
do teste, os indivíduos de Melanoides tuberculata foram removidos dos potes plásticos e
lavados com água destilada. Depois retornaram para os mesmos potes, que foram
previamente lavados e preenchidos apenas com a água de cultivo, permanecendo por mais 24
horas. A contagem dos organismos mortos e sobreviventes foi feita no final de 48 horas do
início do teste. Os resultados obtidos nos testes de toxicidade aguda foram analisados através
do programa estatístico Trimed Spearman-Karber, para o cálculo de CL50 (HAMILTON et al.,
1977), ou seja, a concentração efetiva média que causa mortalidade a 50% dos organismos
expostos ao agente tóxico durante o período do teste. A faixa de toxicidade/sensibilidade da
substância foi determinada com a média calculada das CL50 mais duas vezes o valor do desvio
padrão da mesma (USEPA, 1985).
3. RESULTADOS
Os resultados obtidos nos testes de toxicidade aguda (Tabela 1) realizados com o látex
de Euphorbia splendens indicaram a existência de toxicidade para a espécie Melanoides
tuberculata.
Tabela 1 – Valores de CL50-24hs estimados para os testes de toxicidade
aguda de Melanoides tuberculata com o látex de Euphorbia splendens.
Testes
CL50-24hs
(ppm)
Intervalo de
Confiança (ppm)
1
2
3
4
5
6
7
4,25
4,41
3,34
2,75
2,91
2,45
2,04
3,91 ― 4,61
4,07 ― 4,79
3,07 ― 3,64
2,5 ― 3,02
2,64 ― 3,22
―
1,76 ― 2,37
Nos testes de toxidade foi observada uma variação dos valores CL50 entre 2,04 e 4,41
ppm, com um valor médio de CL50 igual a 3,164 ppm. A faixa de sensibilidade ao látex variou
de 1,381 a 4,948 ppm. Na Figura 3, estes resultados são graficamente representados.
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6
6
Concentração (ppm)
5
4
3
2
1
0
1
Limite superior
2
3
Limite inferior
4
Testes
5
Tendência central
6
7
CL50 - 96 horas
Figura 3. Carta–controle com a de faixa de sensibilidade de Melanoides tuberculata expressa
em CL50 -24h ao látex da planta Euphorbia splendens.
4. DISCUSSÃO
A toxicidade de uma substância química é uma propriedade relativa que se refere ao
seu potencial de causar danos aos organismos vivos, em função da concentração da substância
química e do tempo de exposição (RAND e PETROCELLI, 1985). Os testes de toxicidade, por
sua vez, são utilizados para avaliar os efeitos adversos de uma substância tóxica nos
organismos vivos sob certas condições, que permitam uma comparação com outras
substâncias testadas.
OLIVEIRA-FILHO (1995) avaliando o efeito do látex da coroa-de-cristo (E. splendens
var. hisloppi) sobre os planorbídeos, Biomphalaria glabata e B. tenagophila, obtiveram valores
de CL50 de 0,32 mg/L e 0,21 mg/L, respectivamente. Assim como SCHALL et al. (1998), que
encontraram para as mesmas espécies de moluscos uma CL50 ao látex de E. splendens menor
que 0,5 ppm sob condições laboratoriais. Já no atual trabalho observou-se uma CL50 média
igual a 3,164 ppm (mg/L), evidenciando, assim, uma maior resistência de Melanoides
tuberculata.
No entanto, o valor encontrado no presente estudo é muito similar àquele obtido por
GIOVANELLI et al. (2001), os quais obtiveram um valor de CL50 de 3,6 mg/L de látex natural
para M. tuberculata. Deste modo, o látex de E. splendens é um moluscicida extremamente
potente, considerando-se que a recomendação da World Health Organization - WHO é de que
para que uma planta seja considerada um bom moluscicida é necessário que a concentração
letal seja menor do que 20 ppm (mg/L) (MOTT, 1987).
Estima-se ainda que alguns dos constituintes ativos de E. splendens, como as
milliaminas, sejam moluscicidas em concentrações da ordem de ppb (ZANI et al., 1993).
Pode-se, portanto, concluir, pelos resultados do presente trabalho e pelos dados de
literatura, que também para Melanoides tuberculata o látex de Euphorbia splendens é um
potente moluscicida, podendo ser utilizado para o controle desta espécie exótica.
Várias são as vantagens na utilização do látex de Euphorbia splendens como
moluscicida, uma vez que látex é biodegradável e tem provado ser menos prejudicial às
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espécies não-alvo, do que a niclosamida, o composto sintético com ação moluscicida mais
comumente utilizado (OLIVEIRA-FILHO et al., 1997). Em estudos realizados por BAPTISTA et
al. (1994), a razão custo-benefício do produto confirma o potencial de uso da planta e sua
cultura em larga escala através de processos operacionais, que é simples e praticável.
Além disso, testes de laboratório têm confirmado que o látex de Euphorbia splendens é
viável em todas as épocas do ano e lugares, sendo assim adequado para ser utilizado no Brasil
(SCHALL et al., 1992). Em algumas regiões do Brasil a população rural tem utilizado esse látex
nos tratamentos de calos nos pés e da pele do rosto. Segundo RAO et al. (1982) e LEE et al.
(1982), os extratos de E. splendens contêm compostos com atividade anti-inflamatória e
também compostos anti-cancerígenos.
5. CONCLUSÕES
•
O látex da euforbiácea Euphorbia splendens foi considerado um potente moluscicida
para Melanoides tuberculata, podendo ser utilizado para o controle desta espécie exótica
em baixas concentrações.
•
A utilização do látex de Euphorbia splendens como moluscicida natural poderá constituir
um importante e eficaz instrumento de manejo da espécie exótica Melanoides tuberculata,
uma vez que se trata de um material de fácil obtenção e eficaz, e, portanto, mais viável em
regiões com escassez de recursos.
6. BIBLIOGRAFIA
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Moluscicidal
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Programa de Pós-Graduação em Ciências da Engenharia Ambiental, Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade
de São Paulo - [email protected]
2
Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva, Universidade Federal de São Carlos - [email protected]
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Trabalho Científico - Ministério do Meio Ambiente