IX C O N GR ESSO D E ED U C A ÇÃ O D O NO R TE P IO N EIR O
Educação: Horizontes Possíveis: Desafios Imediatos
UENP – Centro de Ciências Humanas e da Educação
Centro de Letras Comunicação e Artes
A N A IS
– ISSN – 18083579
AN TON I O CAN DI DO E O “ DI REI TO À L I TERA TURA ”
Mar ília de Me lo PER EIR A
1
RESUM O
Par a Anto nio C andido , a lite r atur a é um be m “ inco mpr e ssíve l” , o u se ja,
algo e sse ncial à e xistê ncia humana. N ão é so me nte o que suste nta o co r po
que po de se r co nside r ado co mo fundame ntal par a o se r humano , mas
també m o que nutr e se u e spír ito . Ne ce ssitamo s diar iame nte de um
mo me nto de de vane io , me smo que isso aco nte ça ape nas atr avé s do so nho ,
e a “ ar te da palavr a” cumpr e e sse pape l, po is inst iga a imaginação ,
e ncanta, distr ai e , e mbor a pare ça co ntr aditó r io , te m o po de r de humaniz ar
se r e s humano s. Esta co municação pr e te nde co mpar tilh ar a co nce pção de
lite r atur a ado tada pe lo auto r , co nte mplando - a co mo um be m que não po de
se r r e cusado , um gr ande dir e ito de to do s, já que “ ne gar a fr uição da
lite r atur a é mutilar a no ssa humanida de ” .
Palavr as- chave : O dir e ito
lite r atur a. Anto nio Candido .
à
lite r atur a.
A
função
humaniz ado r a
da
Anto nio C andido é co nside r ado um do s maio r e s cr ítico s lite r ár io s do
Br asil. Sua ge nial pro dução biblio gr áf ica te ve pape l de cisivo na for mação
de uma cultur a lite r ár ia no país. O br as co mo
Fo r mação da lite r atur a
br asile ir a : mo me nto s de cisivo s (1 95 9 ), O s par ce ir o s do r io B o nito (1 9 64 ) e
L ite r atur a e so cie dade (1 96 5 ) são impo r tant íssi mas par a que se co nce ba a
ide ntidade que o e scr ito r de se java impr imir à no ssas o cor r ê ncias lite r ár ias.
So ció lo go por fo r mação , o pr ó pr io escr ito r afir ma que “ as re laçõ e s so ciais,
for am a co luna ver te br al de minha visão de mundo lite r ár ia” , o que é
e xtre mame nte coe re nte , po is a lite r atur a é um pro duto so cial.
Impr imiu
uma visão bastante pe culiar às le tr as br asile ir as e e mbo r a não e ste ja mais
atuando ativame nte , suas palavr as eco am e m discur so s de inte le ctua is do
país, s uas co nce pçõe s manté m- se ativas e co ntínuas e to das as suas
teo r ias o faz e m um do s mais r e spe itáve is e scr ito r e s e m me io à cr ítica
lite r ár ia.
Em 1 97 0 publico u Vár io s e scr ito s, o br a e m que e stá inse r ido o
capítulo “O dir e ito à lite r atur a” . Embo r a já te nha passado quase quatr o
dé cadas da pr ime ir a publi cação do te xto , e e le te nha sido de stina do a um
público que vive nciava a dé cada de 7 0 , o re fe r ido capítu lo co ntinua a ser
1
P ó s - g r a d u a n d a do c u r s o de E s t u d o s L i n g u í s t i c o s e L i t e r á r i o s e M e m b r o do G r u p o
de P e s q u i s a “ L i t e r a t u r a e E n s i n o ” do C e n t r o d e Le t r a s , C o m u n i c a ç ã o e A r t e s d a
UENP, Jacarezinho-PR. E-mail [email protected]
168
IX C O N GR ESSO D E ED U C A ÇÃ O D O NO R TE P IO N EIR O
Educação: Horizontes Possíveis: Desafios Imediatos
UENP – Centro de Ciências Humanas e da Educação
Centro de Letras Comunicação e Artes
A N A IS
– ISSN – 18083579
estudado e discu tido , de vido a sua impo r tância te ór ica. Vale de stacar a
co nte mpo r ane idade co m que os assunto s são r e latado s pe lo escr ito r , se ndo
que muito s de le s ide ntificam - se pe r fe itame nte co m as te máticas de no ssa
atualida de .
As te or ias de C andido
são de fundame ntal impo r tânc ia
par a o
pro fe sso r que tr abalha co m a lite r atur a e m sala de aula, po is a mane ir a
pe la
qual
a
lite r atur a
é
co nte mplada ,
se
ado tada
pe lo
do ce nte ,
co m
ce r te z a, far á co m que o co ntato aluno - te xto lite r ár io se e fe tive de fo r ma
pr az e ro sa e be la. Po r isso , é pr aticame nte vital par a o pr o fe sso r de
lite r atur a
te r
co ntato
co m
os
te xto s
do
auto r ,
be m
co mo
fr uí- lo s
e
tr ansfo r mar as ide ias co ntidas no s me smo s e m pr ática e fe tiva de se u
tr abalho didático e m sala de aula.
Pe lo
Ensino ”
mo tivo
atua,
acima
citado ,
o
siste mati came nte ,
G r upo
a
fim
de
de
Pe squisa
e nco ntr ar
“ L ite r atur a
e
me to do lo gias
per tine nte s e e ficaz e s par a a abor dage m do te xto lite r ár io e m sala de
aula,
já
que
a
ausê ncia
da
lite r atur a
e
a
carê ncia
me to do ló gica
apre se ntada pe lo s pro fe sso re s to r na-se algo e xtre mame nte pr e o cupante
e m no sso siste ma e ducacio nal. Pre se ncia- se um ce nár io e ducacio nal tão
calamito so , em que pr o fe sso re s de sco nhe ce m teo r ias e me to do lo gias e não
apre se ntam
aptidão
e
se nsibil idade
alguma
pe r ante
co nte údo s
que ,
supo stame nte , de ve r iam ensinar . Assim, de sde sua cr iação , há um esfo r ço
co ntínuo po r par te do s me mbr o s do G P e m e studar co nce pçõ e s lite r ár ias
que le ve m pr o fe ssor e s atuante s e futur o s a tr atar o te xto lite r ár io da
mane ir a mais co er e nte e humaniz ada po ssíve l.
A co ntr ibuição do discur so de C andido , quanto à co nce pção de
lite r atur a,
pre se nte
no
capítulo
“O
dir e ito
à
lite r atur a” ,
de ve
se r
so cializ ada co m o s pr o fe sso r e s que e stão car e nte s de bo a fundame ntação
teó r ica, visando cr iar co ndiçõ e s par a que
tr anspo nham o s ho r izo nte s
po ssíve is e impo ssíve is de se us aluno s. Por tanto , e ste ar tigo abo r dar á a
co nce pção
de
lite r atur a
de fe ndida
po r Anto nio
C andido ,
alice r ce
do s
de mais te ó r ico s e studado s pe lo gr upo , salie ntando a impo r tância da “ ar te
da palavr a” na vida de cada se r humano , be m co mo o po der tr ansfo r mado r
e xe r cido po r e la.
C andido ,
que stão
do s
ao
po stular
dir e ito s
sua
humano s,
co nce pção
por
169
isso
de
lite r atur a,
faz -se
apo ia- se
ne ce ssár io
na
explanar
IX C O N GR ESSO D E ED U C A ÇÃ O D O NO R TE P IO N EIR O
Educação: Horizontes Possíveis: Desafios Imediatos
UENP – Centro de Ciências Humanas e da Educação
Centro de Letras Comunicação e Artes
A N A IS
– ISSN – 18083579
sucintame nte a mane ir a co mo e le abo r da e sse assunto , ante s de e xplo r ar o
ce r ne
do
te xto .
Co mpactuan do
co m
uma
situação
so cial,
po lítica
e
eco nô mica muito se me lhante a do pe r ío do e m que Vár io s escr ito s fo i
pro duz ido ,
a
so cie dade
atual
enco ntr a- se
numa
fase
de
gr ande
r acio nalidade te cno ló gica, que le va o ho me m a to r nar - se , a cada dia, mais
ir r acio nal e m suas atitu de s e co mpo r tame nto s. O pro gr e sso ate nde as
ne ce ssidade s supé r fluas de po uco s e de spr ez a o que ser ia ne ce ssár io par a
muito s, o que , infe liz me nte , co nfigur a a pé ssima distr ib uição de re nda do
país. Atin gimo s a civiliz ação e che gamo s a uma er a e m que é po ssíve l
vive r um be m co mum e é nisso que e stá e ntr o ncada a que stão do s dir e ito s
humano s.
Talve z
o
maio r
pr o ble ma
da
atualid ade
está
no
fato
de
haver
po ssibili dade s par a mudanças no siste ma, mas em co ntr apar ti da e xistir
po uquíssima s pe sso as que que ir am de se mpe nhar esse pape l. A vio lê ncia e
a br utalid ade e stão e stampadas no co tid iano e o s canais midiát ico s ape lam
muito à se nsibil idade das gr ande s massas, o que le va à co mo ção so cial
fre nte
ao s
pro ble mas.
A
cada
dia,
a
de sigualdade
pare ce
mais
insupo r táve l, ge r ando um se ntime nto de indig nação que se re fle te na
busca por de finir o que se r iam ver dade ir ame nte o s dir e ito s humano s.
O
gr ande
pr e ssupo sto
do s
dir e ito s
humano s,
que
par e ce
estar
esque cido pe la maio r ia das pe sso as, é que tudo o que é indispe nsá ve l par a
o indiv íduo també m o é par a o se u pr ó ximo e a base de sse s dir e ito s situase em incluir o o utr o e m tudo o que é re ivindi cado e m favo r pr ó pr io .
Por é m, há uma te ndê ncia e m qualific ar co mo mais ur ge nte o que ser á
o btido e m favo r pró pr io do que o que se r á co nquistado em favor do o utro .
Diante disso , o auto r e mpre sta o s te r mo s “ be ns inco mpr e ssíve is” e
“ be ns co mpr e ssíve is” (19 95 , p. 24 0 ), cunhado s pe lo so ció lo go fr a ncê s
Lo uis Jo se ph Le bre t,
par a
C andido ,
a
par a e vide nciar a impo r tância da lite r atur a, já que ,
co nce pção
do
que
se r ia
um
“ be m
inco mpr e ssíve l”
qualific ar ia um dir e ito humano . Se gundo o estudio so fr ancê s, co mpr e ssíve l
e quivale a tudo o que é supé r fluo na vida humana, o que não é ne ce ssár io
par a
uma
e xistê ncia
ínte gr a
e
digna,
e nquanto
inco mpr e ssíve l
cor re spo nde r ia a tudo o que é e xtre mame nte ne ce ssár io e vital . Ne ssa
qualific ação r eside m do is pro ble mas, se gundo C andido : a co nce pção do
que se r ia inco mpr e ssíve l situa- se e m co ndiçõ e s e xte r nas ao me io so cial, o
170
IX C O N GR ESSO D E ED U C A ÇÃ O D O NO R TE P IO N EIR O
Educação: Horizontes Possíveis: Desafios Imediatos
UENP – Centro de Ciências Humanas e da Educação
Centro de Letras Comunicação e Artes
A N A IS
– ISSN – 18083579
que to r na muito tê nue a linha entr e o supé r fluo e o indis pe nsáve l e ,
pr incipal me nte , o fato de se co nside r ar esse be m ape nas co mo o que
suste nta o físico , me no spr ez ando o que for tale ce o espír ito .
Ultr apassada
a
e xplanação
so br e
o
e nte ndime nto
do s
dir e ito s
humano s pe lo auto r , co mpe te agor a o apro fundame nto da e ssê ncia do
pe nsame nto de Anto nio C andido : a fr uição da lite r atur a co r re spo nde a
ne ce ssidade s pr o fundas do se r e sua ausê ncia po de de so r ganiz ar e mutilar
o ser humano , pe sso al e e spir itual me nte ? A r espo sta a e ssa que stão
car acter iz ar á a lite r atur a co mo um dir e ito humano o u não , e é a par tir
de sse pre ssupo sto que e le de te r minar á de que mane ir a de fine a lite r atur a.
C andido ,
po sicio name nto s
ho me m
so cialis tas,
de
índo le
qualifica
no tadame nte
da
mane ir a
fr anciscana
mais
e
de mo cr ática
po ssíve l a lite r atur a, co mo
t o d a s a s c r i a ç õ e s de t o q u e p o é t i c o , f i c c i o n a l o u d r a m á t i c o
e m t o do s o s n í v e i s de u m a s o c i e d a d e , e m t o d o s o s t i p o s de
c u l t u r a , de s d e o q u e c h am a m o s f o l c l o r e , l e n d a , c h i s t e a t é a s
f o r m a s m a i s c o m p l e x a s e d i f í c e i s d a p r o d u ç ão e s c r i t a d a s
grandes civilizações. (1995, p. 242)
No ta- se que a mane ir a co mo a lite r atur a é co nte mplada ate nde a
uma gama ampla e dive r sa de fo nte s cultur a is, valo r iz ando tanto o er udito
quanto o po pular . Se gundo e ssa co nce pção , e la está pr e se nte de for ma
inte nsa e co nstante na vida de to das as pe sso as, manife stando - se e m tudo
o que faz par te do unive r so fabulado , e stando pr e se nte de sde a le itur a de
um r o mance até a distr ação o btida po r me io do aco mpanhame nto de um
capítulo de no ve la te le visiva ou da fr uição de um po e ma a um de vane io
amor o so . N ingué m está ise nto do so nho pro vo cado pe lo unive r so lite r ár io ,
me smo que isso oco rr a de fo r ma co nscie nte o u inco nscie nte . Então ,
se ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar
no universo da ficção e da poesia, a literatura (...) no
s e n t i d o a m p l o ( . . . ) p a r e c e c o r r e s p o n de r a u m a n e c e s s i d a d e
universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação
constitui um direito. (1995, p. 242)
Se não é po ssíve l pa ssar um dia to do se m e star e m co ntato co m o
unive r s o da fantasia e se ausê ncia de la no s de sco nfigur a e spir itual me nte ,
“ ne gar a fr uição da lite r atur a é mutilar a no ssa humanida de ” (1 99 5 , p.
171
IX C O N GR ESSO D E ED U C A ÇÃ O D O NO R TE P IO N EIR O
Educação: Horizontes Possíveis: Desafios Imediatos
UENP – Centro de Ciências Humanas e da Educação
Centro de Letras Comunicação e Artes
A N A IS
25 6 )
Assim,
é
um
“ be m
– ISSN – 18083579
inco mpr e ssíve l” ,
car acte r iz ando -se ,
po r tanto ,
co mo um dir e ito humano , e se é um dir e ito humano de ve se r o fer tado a
to do s, se m distinção de níve l de esco lar idade , faixa e tár ia o u situação
finance ir a, po r que se u ace sso to r na- se altame nte ne ce ssár io e inalie náve l .
E, par a car acte r iz ar a lite r atur a co mo um dir e ito , é pr e ciso abo r dar to do s
o s aspe cto s que a faze m ser co nside r ada co m o maio r be m par a o e spír ito
humano .
Ao analisar a lite r atur a, C andido co nse gue faze r a distinção de trê s
face s apr e se ntadas por e la:
(1) ela é construção de objetos autônomos como estrutura e
s i g n i f i c a d o : ( 2 ) e l a é u m a f o rm a d e e x p r e s s ã o , i s t o é ,
m a n i f e s t a e m o ç õ e s e a v i s ã o d o s i n d i v í d u o s e do s g r u p o s ;
( 3 ) e l a é u m a f o r m a de c o n h e c i m e n t o , i n c l u s i v e c o m o
incorporação difusa e inconsciente. (1995, p. 244)
Em ge r al, cre dita - se a gr ande impo r tância da lite r atur a ao te r ce ir o
aspe cto , por se pe nsar única e e xclusivame n te que e la exe r ce pape l so br e
a so cie dade po r que de la é po ssíve l extr air co nhe cime nto s. Po ré m, os tr ê s
aspe cto s co mungam em igual impo r tância , por que atuam simultane ame n te
so bre
o
suje ito
le ito r ,
se ndo
que
a
tr íade
pr o po sta
po r
C andido
é
impo r tantíss ima par a car acte r iz ar as fe içõe s do te xto lite r ár io abo r dadas
pe lo te ór ico .
A fo r ma pe la qual o te xto é co nstr uído é um tó pico de e xtr e ma
re le vância, por que é e sse aspe cto que po de o u não co nfer ir lite r ar ie dade
ao te xto . O te xto lite r ár io te m o po de r de tr ansfo r mar as palavr as num
to do or ganiz ado capaz de faz e r ple no se ntido ao le ito r . T r ansfor mar as
palavr as e m um unive r so ar ticulado po ssibil ita ao le ito r a o r ganiz ação de
se u pr ó pr io espír ito , po r que
Q u e r pe r c e b a m o s c l a r a m e n t e o u n ão , o c a r á t e r
organizada da obra literária torna-se um fator que
mais
capazes
de
ordenar
a
nossa
própria
s e n t i m e n t o s ; e e m c o n s e q u ê n c i a , m a i s c a p a z e s de
a v i s ã o q u e t e m o s do m u n d o . ( 1 9 9 5 , p . 2 4 5 ) .
da coisa
nos deixa
mente
e
organizar
Por isso , as palavr as dispo stas e m um te xto lite r ár io po ssue m um
alto po de r humaniz ado r , por que auxiliam o le ito r a dar um se ntido par a o
se u pr ó pr io mundo .
172
IX C O N GR ESSO D E ED U C A ÇÃ O D O NO R TE P IO N EIR O
Educação: Horizontes Possíveis: Desafios Imediatos
UENP – Centro de Ciências Humanas e da Educação
Centro de Letras Comunicação e Artes
A N A IS
– ISSN – 18083579
“ A or ganiz ação da palavr a co munica- se ao no sso e spír ito e o le va,
pr ime ir o , a se or ganiz ar ; e m se guida, a o r ganiz ar o mundo ” (1 9 95 , p. 24 6 ,
gr ifo me u). Q uando um te xto apr e se nta- se de fo r ma quase intr anspo níve l ,
o u de mane ir a re buscada, não pe r mitindo a infe r ê ncia de se ntido po r par te
do le ito r , po de tanto de se ncade ar o dista nciame n to do le ito r co mo també m
mo tivá- lo a tr anspo r se us limi te s, mer gulhan do no cao s, a fim de e xtr air
das palavr as os mais amplo s signi fica do s par a suas vivê ncias. Atr avé s do
po der e xe r cido pe las palavr as, a lite r atur a tr anspõ e o te mpo , atr ave ssa
é po cas. Por tanto , o apar ato que o pro fe sso r de ve ter quanto ao mo do de
tr atar a fo r ma lite r ár ia é pr aticame nte vital par a a e xistê ncia de um le ito r
ativo e de safiado r . Enfim ,
A s p a l a v r a s o r g a n i z a d a s s ã o m a i s do q u e a p r e s e n ç a d e u m
código: elas comunicam sempre alguma coisa, que nos toca
po r q u e o b e d e c e a c e r t a o r d e m . ( . . . ) Q u a n d o d i g o q u e u m
t e x t o m e i m p r e s s i o n a , q u e r o d i z e r q u e e le i m p r e s s i o n a
po r q u e a s u a p o s s i b i l i d a d e d e i m p r e s s i o n a r f o i de t e r m i n a d a
pe l a o r d e n a ç ã o r e c e b i d a d e q u e m a p r o d u z i u . E m p a l a v r a s
u s u a i s : o c o n t e ú d o s ó a t u a po s c a u s a d a f o r m a , e a f o rm a
t r a z e m s i , v i r t u a l m e n t e , u m a c a p a c i d a d e d e v i do à c o e r ê n c i a
mental que pressupõe o que sugere. (1995, p. 246, grifo
meu)
Co nside r ando
a
se gunda
face ta
da
lite r atur a,
co nclui- se
que
co nte údo e for ma são par e s indisso ciáve is . Fr uir a lite r atur a é dir e ito de
to do s,
se m
exce çõe s,
por que
e la
é
capaz
de
satisfaz e r
ne ce ssidade s
básicas do se r humano , auxilia ndo - o a agigantar suas co nce pçõ e s so bre o
mundo que o ro de ia. T anto o dito po pular co mo a mais e r udita po e sia são
capaze s de e nr ique ce r e o r ganiz ar a pe r so nalidade , re dimindo - no s das
co nfusõ e s mo der nas.
Alé m de ar ticul ar o s se ntime n to s e as emo çõe s, e la també m po de
apre se ntar -
se
carr e gada
de
ide o lo gias
e
cre nças
do
auto r ,
o
que
car acter iz a o e ngajame nto lite r ár io , que po de ser manife sta do da mane ir a
mais be la e ide aliz ada, mas també m da mane ir a mais cr ua, se ca e áspe r a.
Ela po de apre se ntar - se co m car áte r e mancipado r o u alie nado r , o que
co mpro va que e la e stá acima do be m do mal, visto que apre se nta se mpr e
o s do is lado s de uma me sma situação . Q uando um e scr ito r faz uso das
palavr as a fim de e ngajar - se e m algum tipo de causa ide o ló gica, o te xto
assume uma função so cial, que e stimula o le ito r a agr e gar o u r e pudiar
173
IX C O N GR ESSO D E ED U C A ÇÃ O D O NO R TE P IO N EIR O
Educação: Horizontes Possíveis: Desafios Imediatos
UENP – Centro de Ciências Humanas e da Educação
Centro de Letras Comunicação e Artes
– ISSN – 18083579
A N A IS
situaçõ e s existe nte s na so cie dade . Essa função e stá imbr icada ao s dir e ito s
humano s,
por que ,
ao
pr o mo ve r
o
de smascar ame nto ,
faz
o
le ito r
se nsibi liz ar - se co m o s pr o ble mas e se ntir ur gê ncia e m te ntar mo dificá- lo s.
Co nfo r me e xpo sto e m A lite r atur a e a fo r mação do ho me m (1 97 2 ),
a lite r atur a e xer ce influê ncia so bre a for mação da pe r so nalidade e do s
valo re s de cada um. Assim, a lite r atur a exe r ce ime nso po de r so br e o ser
humano ,
po r que
sua
fr uição
pr o vo ca
a
humaniz ação ,
o
que ,
no
e nte ndime nto de C andido , é
o processo que confirma no homem aqueles traços que
reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a
a q u i s i ç ã o d o s a be r , a b o a d i s p o s i ç ã o p a r a c o m o p r ó x i m o , o
afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos
p r o b l e m a s d a v i d a , o s e n s o d a b e l e z a , a pe r c e p ç ã o d a
c o m p l e x i d a d e do m u n d o e do s s e r e s , o c u l t i v o d o h u m o r . A
l i t e r a t u r a d e s e n v o l v e e m n ó s a q u o t a de h u m a n i d a d e n a
m e d i d a e m q u e n o s t o r n a m ai s c o m p r e e n s i v o s e a be r t o s
para a natureza, a sociedade, o semelhante . (1972, p. 249,
grifo meu)
Ape sar de apr e se ntar uma co nce pção ple name nte humaniz ada e
humaniz ado r a de lite r atur a, o auto r e stá cie nte de que o ace sso a esse
be m ainda é r e str ito no B r asil, visto que a má distr ib uição de re nda
eco nô mica é idê ntica à pro pagação da cultur a. Uma pe que na par ce la da
po pulação
br asile ir a
mo dalidade s
tinha
lite r ár ias,
–
e
ainda
e nquanto
a
é
assim
gr ande
-
ace sso
maio r ia
fica
a
to das
as
re le gada
ao
po pular , o que é lastimáve l , co nside r ando que não é a po sição so cial, ne m
a e sco lar iz ação , que de te r minam a fr uição de um te xto . Co m ce r tez a, a
o fe r ta da lite r atur a e r udita ao s me no s pr ivile gi ado s tr ar ia bo ns r e sultado s,
já que po der ia favor e cer o aume nto do núme r o de le ito r e s e a co nse que nte
pro pagação das o br as.
A
visão
de mo cr ática
de
C andido
quanto
ao
ace sso
irr e str ito
à
cultur a lite r ár ia de mo nstr a sua afinida de co m pr o je to s que e fe tivar iam o
co ntato
entr e
per mane nte .
o
A
le ito r
e
e xistê ncia
o
de
te xto
lite r ár io
bibl io te cas
de
que
mane ir a
ate ndam
co ncr e ta
os
e
le ito re s
satisfato r iame nte , quanto ao ace r vo , e a pr eo cupação co m a ambie ntação
física são fato r e s pr imo r diais par a a o fer ta da le itur a lite r ár ia.
Apr o ximar
a
lite r atur a
do
le ito r
das
mais
amplas
e
dive r sas
mane ir as po ssíve is e valo r iz ar a cultur a po pular , de mo nstr ando - a co mo o
po nto de par tida par a se atingir a e r udita, já que uma e mana da o utr a, são
174
IX C O N GR ESSO D E ED U C A ÇÃ O D O NO R TE P IO N EIR O
Educação: Horizontes Possíveis: Desafios Imediatos
UENP – Centro de Ciências Humanas e da Educação
Centro de Letras Comunicação e Artes
A N A IS
– ISSN – 18083579
alguns do s caminho s suge r ido s po r e le . T al atitude po de r ia se r ado tada na
atualida de , co nside r ando - se que ainda não se che go u à de mo cr atiz ação da
cultur a no B r asil. Em busca de image ns que co ncr e tiz e m sua co mpr e e nsão
humaniz ado r a da lite r atur a, C andido també m me ncio na
[...]
o
po d e r
universal
dos
grandes
clássicos,
que
ultrapassam a barreira da estratificação social e de certo
modo
po d e m
redimir
as
distâncias
impostas
pe l a
de s i g u a l d a d e e c o n ô m i c a , p o i s t ê m a c a p a c i d a d e de i n t e r e s s a r
a t o do s e p o r t a n t o d e v e m s e r l e v a d o s e m m a i o r n ú m e r o .
(1972, p. 261)
Sua
visão
de mo nstr a
que
a
o fe r ta
da
le itur a
de ve
o co r re r
de
mane ir a e qüitat iva, afinal to do s po ssue m a co ta de humanid ade suficie nte
par a se e ncantar e m e fr uír e m te xto s de bo a qualid ade , que de té m alcance
unive r s al, cir cunstânc ia esta que muitas vez e s não se co ncre tiz a de vido à
se gr e gação cultur a l.
Tal se gre gação pr iva as pe sso as de te re m ace sso a um be m que
lhe s é le gítimo , de ixando que m re alme nte de se ja te r um co ntato co m a
lite r atur a se m po ssibil idade s , e nquanto a classe do minante abando na o
de se jo
inco mpr e ssíve l
par a
faz e r
da
lite r atur a
um
o bje to
de
e ngr ande cime nto ape nas po r vaidade .
A pre cio sa co nce pção de C andido so bre a lite r atur a o fez “ me str e ”
de pe squisado r e s muito r e spe itado s, co mo R ildo Co sso n, Ne lly No vae s
Co e lho , W illiam Ro be r to Ce r e ja, Ver a T e ixe ir a de Aguiar e Mar ia da G ló r ia
Bo r dini, e ntr e o utr o s, que utiliz am suas ide ias co mo fundame nto de no vo s
co nce ito s, po nto s de vista e me to do lo gias, o que faz co m que o discur so
do so ció lo go te nha tr anspo sto se u te mpo e co ntinue vivo e atuante na
inte le ctual idade co nte mpo r âne a.
A par tir do po nto de vista so bre a lite r atur a, ado tado po r C andido ,
pude e nr ique ce r minha pr ática didática e m sala de aula. C o mo e xe mplo ,
cito a abo r dage m tr ansdiscip li nar do po e ma “ Mor te do le ite ir o ” , de C ar lo s
Dr ummo nd de Andr ade , fe ita e m co njunto co m me us aluno s do 1º ano do
e nsino mé dio . T rate i o te xto da for ma mais ampla po ssíve l, co nside r ando
sua te mática e sua dispo sição fo r mal co mo me io par a tr anspo r os limi te s
da
poe sia,
a
fim
de
pr o mo ve r
uma
or ganiz ação
no s
se ntime nto s
do s
pró pr io s aluno s. Po r fim, o que fo i o btido atr avé s da análise fo i um
re sultado
muito
po sitivo ,
que
se
fez
175
no tar
pe lo
fato
do s
e ducando s
IX C O N GR ESSO D E ED U C A ÇÃ O D O NO R TE P IO N EIR O
Educação: Horizontes Possíveis: Desafios Imediatos
UENP – Centro de Ciências Humanas e da Educação
Centro de Letras Comunicação e Artes
A N A IS
e fe tivar e m
sua
co mpr e e nsão
– ISSN – 18083579
atr avé s
da
asso ciação
co m
o utr o s
co nhe cime nto s que não se re str ingia m ape nas ao lite r ár io . A lite r atur a
manife sto u- se e m se u po der humaniz ado r quando o s aluno s asso ciar am a
for ma
ao
co nte údo
par a
pr o mo ver
sua
pr ó pr ia
o r ganiz ação
pe sso al
e
espir itu al.
As palavr as de Jo sé Luiz Passo s, dir e to r do Ce ntr o de Estudo s
Br asile ir o s da Unive r sidade da C alifó r nia, e m de po ime nto ao jo r nal Estado
de S. Paulo , e m maté r ia co me mo r ativa ao s 9 0 ano s de C andido , de finiu
muito be m qual fo i a maio r lição que e le le go u à so cie dade :
S u a l i ç ã o m a i o r ? A de q u e n ã o h á p o r q u e t o m a r o t e x t o
isoladamente, fora da relação entre o esforço singular e o
p a c t o c o l e t i v o q u e o t o r n a t e x t o l i t e r á r i o . E l e o f e re c e ao
l e i t o r o r a r o e xe m p l o d a a l i a n ç a e n t r e o a p u r o d a f o r m a , a
relevância do tema e a síntese de processos sociais. Com
Antonio Candido parece fácil mostrar como a literatura, o
d i r e i t o à l i t e r a t u r a , é p a r t e f u n d am e n t a l d o e xe r c í c i o d a
nossa cidadania. (2008)
É e ssa a lição que to do s o s pr o fe sso re s que amam a lite r atur a e a
co mpar tilham co m se us aluno s pr e cisam co lo car em pr ática, mo str ando
que a lite r atur a é uma ne ce ssidade so cial ine vitáve l.
REFERÊN CI A S
C AN DIDO , Anto nio . A lite r atur a e a fo r mação do ho me m. In: C iê ncia e
C ultur a . v. 2 4 , n. 9 . São Paulo : 1 97 2 .
__ __ __ __ . O dir e ito à lite r atur a. In: Vár io s escr ito s . 3 . ed. r ev. e ampl.
São Paulo : Duas C idade s, 1 99 5 .
PASSO S, Jo sé L uiz . In: AN T ON IO C AN DIDO , 9 0 AN O S. Dispo níve l e m:
176
IX C O N GR ESSO D E ED U C A ÇÃ O D O NO R TE P IO N EIR O
Educação: Horizontes Possíveis: Desafios Imediatos
UENP – Centro de Ciências Humanas e da Educação
Centro de Letras Comunicação e Artes
A N A IS
– ISSN – 18083579
< http:/ /w w w .e stadao .co m .br /e sta dao de ho je /2 0 0 80 72 0 /cade r no 2 .htm> .
Ace sso e m: 0 7 de maio de 2 00 9 .
AN TO N IO
C AN DIDO ,
O
MEST R E
DO
B R ASIL .
Dispo níve l
e m:
< http:/ /supe r .a br il. co m.br /s upe r ar quivo /2 0 0 4 /co nte udo _ 12 4 38 2 .shtml> .
Ace sso e m: 0 4 de maio de 2 00 9 .
Par a citar e ste ar tigo :
PER EIR A, Mar ília de Me lo . A nt o nio Ca nd id o e o “ d ir eit o à lit er a t ur a” .
In: IX CO N GR ESSO DE EDUC AÇ ÃO DO N OR T E PIO N EIRO Jacar e z inho . 2 00 9 .
Anais.. . UEN P – Unive r sidade Estadua l do N o r te do Par aná – C e ntr o de
C iê ncias Humanas e da Educação e C e ntr o de Le tr as C o municação e Ar te s.
Jacar ez inho , 2 00 9 . ISSN – 18 08 35 7 9 .
177
Download

MarÃlia de Melo PEREIRA