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Segunda-feira
5 de janeiro de 2015
Jornal do Comércio - Porto Alegre
Política
Edgar Lisboa
Entrevista Especial
Repórter Brasília
[email protected]
Para Biolchi, expansão
Lívia Araújo
ZECA RIBEIRO/AGÊNCIA CÂMARA/JC
[email protected]
Política desacreditada
“Nós trabalhamos, nos esforçamos, mas o sentido disso tudo fica
perdido em razão da falta de crédito que a política tem. E esse descrédito aumentou nos últimos anos.” A frase do deputado federal Renato
Molling (PP, foto) reflete o que o Congresso e o governo vêm passando
aos olhos da população. Se já existia um sentimento difuso e constante
de que a política e os políticos não representam o povo, esse sentimento
deixou de ser difuso em junho de 2013, quando manifestações eclodiram pelo País sem pauta, mas questionando “tudo o que está aí”. “Temos que melhorar isso, aproximar o político da população. E isso só vai
acontecer reformando a política”, disse o deputado. De acordo com ele,
eleger prefeitos e vereadores junto com deputados estaduais e federais,
senadores, governadores e presidente melhoraria o quadro, assim como
dividir o País em 513 distritos e transformar as eleições proporcionais
em majoritárias. “Vamos sempre sentir insatisfação, mas isso é normal.
Temos bons políticos, mas temos que aproximá-los do povo.”
O fim da indústria
O ano de 2013 foi marcado não apenas pelas manifestações, que
ecoaram na política e nas eleições de 2014. Foi também o ano que a
indústria no Brasil representou a menor do Produto Interno Bruto desde
o ano 2000. De acordo com a Federação das Indústrias do Estado de
São Paulo, a fatia da indústria no PIB é a mesma de 1955. E isso é ruim.
“Não temos como ter um País forte sem uma indústria forte. E essa mesma indústria perdeu a importância nos últimos anos”, disse Molling. De
acordo com ele, há vários motivos para a desindustrialização. Dificuldades de logística, uma lei trabalhista complicada, câmbio ruim. Como resultado, o Brasil exporta produtos primários para serem transformados
em outro lugar. “Geramos muitos empregos lá fora. Se tivéssemos uma
indústria de transformação forte, geraríamos aqui.” Com isso, aumenta
o desemprego e o País tem dificuldade de abrir mais vagas. “O Bolsa
Família é importante. Mas só geramos cidadania pelo trabalho.”
Direito ao lazer
Molling foi conduzido à presidência da Comissão de Turismo da Câmara em 2014. Foi o responsável por organizar as ações parlamentares
no ano que o Brasil teve o maior evento do mundo: a Copa. O Brasil
recebeu cerca de um milhão de turistas estrangeiros. Mesmo assim, o
turismo ainda precisa se desenvolver mais. “O potencial é enorme, tínhamos que explorar mais.” E, de acordo com o deputado, não só atrair
estrangeiros, mas fazer com que os brasileiros viagem mais.
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Aos 35 anos de idade, Márcio
Biolchi (PMDB) é o mais jovem
chefe da Casa Civil que já passou
pelo governo do Rio Grande do Sul.
Indicado pelo governador José Ivo
Sartori (PMDB) para fazer a convergência entre a articulação política
e administrativa do Estado, Biolchi
assume a pasta após um processo
de transição que concentrou-se na
situação do Estado, considerada
pelo secretário como “precária”.
“Renegociar a dívida para se
endividar mais não traz avanço”,
diz Biolchi sobre a decisão do governo de Tarso Genro (PT) de utilizar recursos de depósitos judiciais.
Para ele, “renegociar a dívida, mas
fazer o uso de instrumentos que
comprometam o ganho da renegociação, no fundo, anula todo o
esforço do governo”.
Nesta entrevista ao Jornal do
Comércio, o novo secretário fala
também sobre a redução em um
terço das secretarias em relação à
gestão anterior e a redistribuição
das atribuições das pastas. Quanto
à polêmica que envolve a extinção
de secretarias, como a de Políticas
para Mulheres, mas garante: “Não
abriremos mão dessa percepção
da diversidade, da igualdade, principalmente em relação à violência
e discriminação contra a mulher”.
Jornal do Comércio – Quais
desafios o senhor enxerga para
o novo governo nestes primeiros meses?
Márcio Biolchi – A situação das finanças públicas do Rio
Grande do Sul, que chega a ser
precária, cria uma expectativa de
ter condições de enfrentar uma
realidade que talvez não seja conhecida por completo. A Casa Civil
dá conta do papel interno entre as
demais secretarias, mas também
externo em relação à sociedade
e as organizações civis. Por mais
que tenha uma dedicação política,
ela fica atrelada a essa conjuntura.
O grande desafio é conseguir fazer um diagnóstico preciso e fazer
com que a população tenha uma
noção do que é o Rio Grande do
Sul, que não pode se ater à questão superficial da disputa eleitoral.
O que enfrentaremos tem que servir para ampliar um pouco a visão
além do próximo ciclo. Durante
40 anos, em poucos momentos o
Estado conseguiu gastar menos do
que arrecada. Por quanto tempo
vamos ficar nisso? Acho que essa
será a tônica de 2015: esgotaram-se
os instrumentos com que o Estado
sobreviveu ano após ano, e agora
o Rio Grande do Sul terá de enfrentar esta realidade.
JC – De que maneira ela será
enfrentada?
Biolchi – A primeira coisa que
deve acontecer é compreendermos
a profundidade da situação que o
Estado enfrenta, com dificuldades
e facilidades, problemas e virtudes,
nos campo econômico e político-social. Também conseguir que isso
seja visto da maneira mais realista
e verdadeira, e que o governo consiga mostrar à sociedade que não é
possível viver de ciclos. Não se conseguirá criar um ato de governo, se
isso não for sustentável econômica,
ambiental e socialmente, mas também politicamente, se as pessoas
não perceberem que as decisões
que o governo tomar são necessárias e precisam ser apoiadas.
JC – O que está sendo planejado para transmitir essa mensagem?
Biolchi – Eu nem estou falando em planejamento, mas de saber
receber o cenário que a gente vai
conhecer. Apesar de ter havido
uma transição, esta não proporciona o conhecimento necessário
para termos a certeza de qual
será o quadro enfrentado. Nós
trabalhamos com dados que estão
disponíveis. Vivemos em um Estado que fez uma lei de orçamento
que se baseou em estimativas de
desenvolvimento econômico no
Brasil que não se confirmaram;
criou uma expectativa de receita
que ninguém sabe se vai se confirmar, que criou ações que estão
aumentando as despesas. Estamos
dispostos a receber e compreender
a situação verdadeira do Estado,
reconhecendo que ele é um paciente em estado crítico. Precisamos estar preparados para receber
a verdade. Acho que a metáfora
do paciente é boa, porque ajuda
a compreender que o serviço público é tão essencial na vida em
sociedade, que não podemos nos
dar ao luxo de negligenciar o tratamento verdadeiro simplesmente
para adiá-lo.
JC – O ex-governador Tarso
Genro defendeu o modelo de
contratação de empréstimos
para investimentos, dando a
entender que as finanças do Estado não estariam tão abaladas
quanto o governador eleito avalia. Quais são as atuais possibilidades de obtenção de recursos
para investimento?
Biolchi – Nesses últimos quatro anos, o governo federal permitiu um índice de endividamento
maior, o que poderia ser chamado,
a grosso modo, como antecipação
de receita, pois o Estado garante
seu pagamento por meio das receitas futuras. Isso é bom para o
momento presente, mas isso compromete o futuro do Rio Grande do
Sul. Deixamos de tomar medidas
mais severas, e partimos para esse
endividamento, com inchaço e
aumento de gastos. Para um setor
público fragilizado, isso é muito
ruim. A situação ser grave ou não
é quase só uma opinião, pois o que
define isso é o balanço do Estado:
mais de 200% da sua receita corrente líquida são contas para pagar. O nosso é o estado com maior
endividamento proporcional à sua
receita no País. Não é possível dizer aos gaúchos que a situação não
está ruim. Temos um problema
sério de volume de investimentos,
em serviços, educação, há criminalidade. Os indicadores econômicos mostram que estamos na pior
situação do País, e vamos querer
dizer que a situação não é tão grave? Isso é se consolar com menos.
“Estamos na
pior situação do
País, e vamos
dizer que a
situação não é
tão grave?”
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