Questões sobre o brincar
Maria Cristina Vecino Vidal
P
ode-se perguntar o porquê do brincar. E a resposta levaria a assinalar sua
importância, de dois aspectos:
— Enquanto forma privilegiada da expressão infantil. A criança brinca
permanentemente.
— Sua existência mesma implica a constituição do ser como sujeito e sua
inscrição na ordem simbólica e da cultura.
O primeiro aspecto foi relevante na psicanálise de crianças. Na medida em que
a criança brinca, foi preciso criar técnicas como ludoterapias, dramatizações, etc,
para abordar o seu inconsciente. Esta mudança ao nível da técnica levou a uma
mudança na teoria, chegando ao ponto de se desconhecer a paternidade freudiana
que caracteriza a psicanálise como tal.
Desde Freud sabemos que não existem teorias especiais para escutar o discurso
da criança. Ele se refere ao jogo da criança em vários trabalhos, ao compará-lo com
a atividade do poeta (1906), em seu Estudo sobre o Chiste (1905), em Mais além
do princípio do prazer (1920). Sempre é entendido como um discurso onde o
inconsciente produz seus efeitos. Trata-se então, não de criar técnicas, mas de
escutar nesse discurso particular que a criança sustenta, as formações do inconsciente.
Do ponto de vista histórico, Hans foi a primeira criança da psicanálise. Paciente
de cinco anos tratado por Freud por intermédio de vários relatos escritos por seu
pai. Freud não vê aqui a possibilidade de surgimento de uma nova especialidade
em psicanálise e menos ainda a necessidade de adaptar seu método com novas
técnicas. Em Hans, a preocupação de Freud é teórica: permite confirmar as teorias
sexuais infantis deduzidas e reconstruídas nas análises dos pacientes adultos. Ao
mesmo tempo, há um aprofundamento da estrutura da fobia como expressão da
impossibilidade de um corte com a mãe, e da complexa relação com a função
paterna e a castração.
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Qaestões sobre o brincar
Freud analisa aí um sujeito que se manifesta nos seus desenhos, sonhos, relatos,
jogos. Constitui-se um discurso a decifrar, efeito da articulação inconsciente. Mas
é a partir de Hans que se vislumbra a possibilidade de analisar uma criança.
Neste sentido, pode-se citar os trabalhos de Sophie Morgestern na França. O
valor de sua obra está na exposição de seu método de análise infantil através de
desenhos, método que surgiu a partir do tratamento de um caso de mutismo. Mas
sua verdadeira importância está no fato de que é a primeira psicanalista, após Freud,
a pensar que os desenhos têm uma gramática própria.
Em Viena surgem contemporaneamente Melaine Klein e Anna Freud. Há uma
profunda diferença ente elas, que também se exterioriza na forma com que abordam
a questão do brincar.
Para Melaine Klein, o brincar se transforma no elemento essencial da análise de
crianças, que possibilita a instauração da transferência em análise. O acesso ao seu
inconsciente devia realizar-se através da atividade lúdica que vai pontuando os
diferentes tempos na direção da cura. É abordada enquanto formação do inconsciente, pois ela é expressão do desejo e da fantasia inconsciente. O brincar se
torna uma tela onde é projetado esse universo fantasmático: fantasmas de destruição
e de ataque se articulam com sentimentos de depressão e culpa. A dialética da
introjeção-projeção é especialmente assinalada na transferência. Marca os momentos da relação da criança com o analista que, para Melaine Klein, correspondem à
primazia de um tipo de fantasia dominante. Há nela uma preocupação em compreender o significado que a criança exterioriza em cada jogo e com cada brinquedo:
"a criança expressa suas fantasias, seus desejos e suas experiências de um modo
simbólico por meio dos brinquedos e jogos. Se desejamos compreender corretamente o jogo da criança em relação com a conduta total durante a sessão de análise,
devemos desentranhar o significado de cada símbolo separadamente. O psicanalista deve mostrar repetidamente os diferentes significados que pode ter um
simples brinquedo do fragmento de jogo". Há uma predominância do significado
em detrimento da escuta significante.
Que conseqüências produz esta abordagem do brincar em psicanálise? Em
primeiro lugar, o surgimento da noção de técnica com uma força inusitada até
então. Para Freud, a única regra técnica foi a associação livre, decorrente da
sobredeterminação do inconsciente. Freud só pensou na possibilidade de uma
psicanálise na ordem da palavra. A técnica, na obra de Freud, sempre foi subsidiária
da teoria do inconsciente. A partir da abordagem kleiniana existe uma proliferação
do enquadre e da técnica: estabelecem-se as características das interpretações, ir
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às angústias mais profundas e começar bem no início. Catalogam-se os tipos de
brinquedos, a sala, e até a própria conduta do analista, que teve como efeito a
standarização da psicanálise com crianças. A questão do brincar nesta teoria se
sustenta no desejo do analista. Existe uma demanda à criança para que brinque,
mas esta demanda é o equivalente da demanda de associação livre em toda análise
com o adulto. É o dispositivo encontrado para dirigir a cura. Se a análise continua
é pelo desejo do analista envolvido.
O analista está identificado com uma posição de saber, sustentado na interpretação baseada no simbolismo do jogo. O simbolismo está caracterizado pela
constância na relação entre o símbolo e o simbolizado inconsciente. O analista
reconhece nos objetos e situações do brincar uma relação fixa com os elementos
essenciais do inconsciente.
Em Melaine Klein, o simbolismo e a analogia substituem a palavra do paciente:
"Melaine Klein interpretou que a viagem de recreio das crianças a D. significava
que elas também desejavam realizar algum ato sexual, como os pais o faziam ...
Ao final tudo terminou num 'desastre'. M.K. interpretou ainda seu medo de que a
análise pudesse terminar num desastre, o que seria culpa dele, da mesma maneira
como sentia ter sido culpado pelo mal causado à mãe".
"Richard ficou profundamente impressionado pela interpretação de Melaine
Klein manifestando surpresa de que suas brincadeiras pudessem traduzir seus
pensamentos e sentimentos"1.
Melaine Klein utiliza a interpretação do jogo mesmo na ausência da palavra. O
efeito (estranho) é de escutar um analista que sabe sem que o outro fale. Há uma
precipitação baseada num saber já constituído.
Anna Freud, numa posição contrária, considera o brincar uma questão secundária no marco de sua teoria e técnica em Psicanálise de Crianças. Sua preocupação
é a entrada do pequeno sujeito no dispositivo analítico, a partir de um "treinamento"
no qual o analista opera enquanto educador. Quando a criança entra no trabalho de
análise, sua técnica consiste na interpretação dos sonhos, dos devaneios e dos
desenhos. O brincar e a colocação de brinquedos, fundamentais na teoria kleiniana,
são para ela métodos substitutivos e contingentes na análise com uma criança. Ela
marca sua discordância do simbolismo que utiliza Melanie Klein com relação ao
brincar na sessão. O importante para Anna Freud é o fato da criança estar em
transferência, ou seja, numa vinculação tal com o analista que possibilite sua
intervenção e a interpretação — "a análise de criança exige muito mais dessa
vinculação do que no caso da análise de adultos". Assinala a diferença de técnica
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com Melaine Klein para quem a criança é um sujeito em análise, sendo o brincar
a atividade mediadora para abordar o inconsciente.
Winnicott retorna ao brincar numa perspectiva diferente. Sua concepção está
intimamente ligada e fundamentada nos fenômenos e objetos transicionais e, como
elemento indispensável, está a ilusão. "Os fenômenos transicionais representam as
primeiras etapas do uso da ilusão". Há um tempo não só cronológico mas lógico
no qual se constitui entre o bebê e a mãe a "zona" da ilusão que "é a função principal
do objeto e do fenômeno transicionaP. É importante destacar o entre-dois representado por este objeto. Ele é o suporte de uma mediação simbólica entre a mãe e
a criança. A partir de Lacan, podemos dizer que o objeto transicional representa a
emergência do desejo no campo do Outro. Enquanto encontro de duas faltas, a da
mãe e da criança, não há complementação possível. O objeto transicional não tem
valor em si mesmo, mas no seu uso, que é simbólico. É o objeto que permite
simbolizar a ausência da mãe e presentificar a primeira experiência de brincar.
Winnicott pensa o brincar em análise, não pela via de seu conteúdo a ser
interpretado, senão enquanto ato: é um fazer que tem um lugar (o espaço intermediário entre mãe e criança) e um tempo lógico para sua constituição. Ele tem
um valor universal: "ao psicanalista tem que resultar-lhe valioso que se recorde a
cada instante, nãp só o que se deve a Freud, senão também o que lhe devemos a
essa coisa natural e universal que chamamos jogo". É inerente à constituição de
todo sujeito e portanto inscreve a criança no campo da criatividade e da cultura.
Ou seja, no campo da linguagem, o jogo aparece em análise não enquanto técnica,
mas como fazer necessário a toda direção possível de uma cura.
Desde uma outra perspectiva, para Freud e para Lacan, o brincar é um fazer,
efeito da estruturação significante do sujeito. Poderíamos abordá-lo como linguagem e discurso determinado por uma ausência que insiste repetidamente, mas
também enquanto ato da ordem do tiquê, do mal encontro do Real.
Foi Freud quem nos legou a observação fundamental do jogo do Fort-Da,
enquanto jogo de presença-ausência, no qual uma criança constrói as primeiras
simbolizações. Destaca a repetição significante nos balbucios de seu neto de vinte
meses. É aqui onde se articula o brincar e a palavra, num jogo opositivo dos
fonemas Fort e Da. Existe uma diferença mínima que implica todas as possibilidades operatórias da linguagem; uma criança se debate com uma perda, a do
objeto amado (mãe).
Esse jogo do carretei representa o momento crucial na estruturação da criança,
enquanto sujeito do inconsciente; sua posição é questionada na dialética da pre46
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sença-ausência. Do ensino freudiano sustentamos que é no jogo e pelo jogo que o
sujeito "elabora sua situação penosa" e se inscreve na ordem da linguagem. Esta
situação penosa está implicada na natureza humana. O filho do homem nasce numa
situação de desamparo. Este estado é inerente à prematuridade do ser humano,
colocando o pequeno ser numa relação de dependência total frente ao Outro
representado pela mãe. Quando o neto de Freud brinca de estender o carretei com
sua recuperação ulterior, algo operou-se nele, para passar de sua posição de objeto
dependente e se aventurar no domínio da perda do objeto, imaginá-lo como faltante.
Não se deve pensar o jogo do Fort-Da como um jogo onde a criança ganha em
autonomia e em domínio. Na verdade, é a estrutura do signif icante que se lhe impõe.
Lacan destaca neste jogo de desaparição-reaparição o momento em que a criança
nasce para a linguagem, É a primeira posição lacaniana sobre o brincar na criança,
trabalhada na ordem do autômaton, da repetição significante. O brincar presentifica, e aqui está o ponto de articulação com Winnicott, a entrada do sujeito no
simbólico e na cultura. É justamente no jogo que a criança recebe e se compromete
com o sistema lingüístico exterior a ele, reproduzido aproximadamente como Fort
e como Da. É na oposição de dois fonemas que, num mesmo ato se aniquila a coisa
e se perde o objeto. Instaura-se uma falta no simbólico. A palavra, o símbolo, nasce
sobre o fundo da ausência: "o símbolo se manifesta como morte da coisa, e essa
morte constitui no sujeito a eternização de seu desejo"2.
Assim como o jogo é uma mediatização na relação com a mãe, também funciona
como simbólico na constituição da realidade.
A criança que brinca cria um mundo de fantasia ao qual se submete, mas também
mantém uma separação entre ele e a realidade. Existe um delicado equilíbrio que
só pode ser sustentado por uma atividade simbólica. A relação com a realidade é
conflitiva. Por isso Freud e depois Lacan prestam atenção aos elementos intermediários do real. O real é o que se perde no gozo, e o gozo supõe a existência de
corpos. Há aí algo que resta impenetrável, que não fala e foge de todo discurso. É
a impossibilidade. O jogo vislumbra o desejo que não vai ser satisfeito e tenta
corrigir uma realidade insatisfatória; mostra a impossibilidade e seu retorno.
Lacan, com a teorização do objeto a, que se perde na repetição, esse objeto
condensação de gozo e causa de desejo, outorga à questão do brincar uma outra
dimensão. Além do jogo significante, do jogo articulado à palavra na sua vertente
simbólica, o aborda pelo tiquê, pelo encontro sempre faltoso com o real. É o brincar
como ato que se repete na análise destacando o valor do carretei, o brinquedo que,
enquanto a, não representa a mãe, mas é o próprio sujeito que se realiza como
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objeto nesse ato: "é a repetição de sua saída, como causa de uma Spaltung no
sujeito, superada pelo jogo alternativo Fort-Dani.
Esse carretei "é alguma coisinha do sujeito" que representaria aquilo destinado
a cair. O carretei, enquanto objeto a estaria na lógica de Lacan, no lugar hipotético
da intersecção de duas faltas, do sujeito e do Outro.
(3i)
carretei (por extensão, o brinquedo)
Esse objeto, portanto, não tem em análise função de tampa, mas é presença de
um vazio ocupável por não importa que objeto. Sua posição serve de ponte do real
ao simbólico, possibilitando a entrada do sujeito na estrutura significante sem cair
fora da cena: "é com seu objeto que a criança salta as fronteiras de seu domínio"4.
O brinquedo como suporte do objeto a permite trabalhar na direção da cura o
registro do real, fazendo nó com o simbólico e o imaginário. O simbólico, enquanto
discurso estruturado na cadeia significante que, em sua repetição, fala algo da
verdade do sujeito; o brincar e o brinquedo operando como Reprâsentanz da
Vorstellung que instaura o sujeito. Lacan interpreta o jogo fora da ordem da
significação, da Vorstellung. Ela até pode vir depois. O Reprâsentanz é o fundante
que denota a Spaltung do sujeito, sua barra, sua alienação. É o significante que
representa o sujeito para outro significante.
O Registro do Imaginário é o que dá consistência ao brincar. Aqui interessa o
corpo nas suas encenações: a materialidade do brinquedo reflete e se confunde com
o corpo da criança. Nesse registro o corpo do analista é demandado a incluir-se no
espaço do brincar.
A abordagem kleiniana, na qual é evidente o fascínio que produz nos analistas
o brincar, privilegia a dimensão do imaginário: "para ser psicanalistas de crianças
é necessário conhecer e brincar suficientemente um amplo número de jogos —
xadrez, damas, baralhos, etc. Devem conhecer personagens e as historinhas mais
lidas pelas crianças, o que leva ao conhecimento das revistas infantis, lembrar os
contos infantis e ter reflexionado sobre seu significado"3.
Para uma clínica que articule a dimensão do discurso analítico, não seria preciso
demandar à criança que brinque. É a estrutura que se impõe na análise como
específica de uma criança, no momento particular de uma transferência e compromete os três registros da experiência analítica.
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NOTAS
1. Klein, Melaine. Narrativa de uma análise de uma criança.
2. Lacan, Jacques. Função e Campo da Palavra e da Linguagem.
3. Lacan, Jacques. Seminário XI:
Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise.
4. Lacan, Jacques. Seminário XI:
Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise.
5.Aberastury, Arminda. Teoria y Técnica en Psicoanalisis de Ninos.
BIBLIOGRAFIA
FREUD, Anna.
— O tratamento Psicanalítico de Crianças. Rio de Janeiro, Imago Editora.
FREUD, Sigmund.
—Análise de uma Fobia de um Menino de Cinco Anos. Edição Standard
Brasileira, vol. X, Rio de Janeiro. Imago Editora, 1976.
—Além do Princípio do Prazer. Edição Standard Brasileira, vol. XVIII,
Rio de Janeiro. Imago Editora, 1976.
KLEIN, Melanie.
— El Psicoanalisis de Ninos. Buenos Aires, Edicions Hormé, 1964.
LACAN, Jacques.
— Função e Campo da Palavra e da Linguagem, in Escritos. México, Siglo
Veintuno Editores, 1984.
— Seminário XI. Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio
de Janeiro, Zahar Editores, 1979.
MORGENSTERN, Sophie.
— Psychanalyse Infantile. Paris, 1937.
WINNICOTT, D.W.
— Realidady Juego. Buenos Aires. Granica Editor, 1972.
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