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Processos de Aprendizagem e suas Implicações para Atividades Inovadoras: Evidências
de uma Empresa Recém-graduada (Start-up) e de outra Consolidada
Autoria: Silvana de Souza Werneck, Luciana Manhães Marins, Ricardo Mendanha Piquet de
Alcantara, Assis Luiz Mafort Ouverney
Resumo
Este artigo enfoca o relacionamento entre processos de aprendizagem e suas implicações para
o engajamento em atividades inovadoras. Esse exame é feito a partir de duas empresas: uma
recém-graduada, atuante na indústria de óleo e gás (PipeWay Engenharia Ltda); e outra já
estabelecida na indústria metal-mecânica automotiva (Timken de Nova Friburgo, RJ). A
análise realiza-se à luz de uma estrutura analítica, disponível na literatura, sobre processos de
aprendizagem tecnológica, a qual é adaptada para as empresas escolhidas, até então não
examinadas na literatura. O estudo examina como os processos de aprendizagem influenciam
o desenvolvimento tecnológico empresarial. Constatou-se que a introdução de processos de
aprendizagem em uma empresa não está limitada pela sua idade. Os resultados sugerem que:
(i) a idade relativamente mais avançada não limita o desenvolvimento de inovações, como no
caso da Timken; (ii) o fato de uma empresa ser jovem pode acelerar a evolução de seus
processos de aprendizagem, como no caso da PipeWay. Em ambos os casos, as evidências
sugerem que a introdução desses processos decorre da emergência de uma visão
empreendedora, materializada em esforços deliberados em processos de aprendizagem.
1. Introdução
Competências tecnológicas são os recursos necessários para que uma firma possa gerar e
gerenciar mudanças técnicas em suas atividades, conforme destaca Bell (1984). Dentre tais
recursos, destacam-se os conhecimentos tácito e explícito, bem como as estruturas e relações
institucionais internas e externas às firmas. Acumular competências é fundamental para que
uma empresa torne-se capaz de realizar atividades inovadoras, de forma que obtenha e
sustente uma posição competitiva em seu mercado de atuação. A trajetória de acumulação de
competências tecnológicas de uma empresa é marcada por processos de aprendizagem
subjacentes. Esses processos permitem o acúmulo crescente de conhecimentos e habilidades
e, assim, determinam a trajetória de acumulação de competências tecnológicas das firmas.
A acumulação de competências tecnológicas e os processos de aprendizagem subjacentes têm
sido abordados nos últimos vinte anos por duas correntes da literatura: a relacionada a
empresas localizadas em países de industrialização tardia e a relacionada a empresas sediadas
em países localizados na fronteira tecnológica. Os processos de aprendizagem são insumos
necessários à capacidade de acumulação tecnológica. Diferentes empresas possuem curvas de
capacitação tecnológica diferentes devido aos diferentes processos de acumulação, segundo
Figueiredo (2001).
O presente estudo tem por objetivo examinar os processos de aprendizagem identificados ao
longo da trajetória de duas empresas: PipeWay Engenharia Ltda e Timken de Nova Friburgo,
demonstrando o impacto de tais processos no desenvolvimento tecnológico, condicionante
para a inserção competitiva das mesmas no mercado.
A PipeWay foi escolhida por ser uma empresa recém-graduada de uma incubadora
tecnológica (o Instituto Gênesis da PUC-RJ), criada no ano de 1998. Por ter sido gerada em
um centro de excelência tecnológica, a empresa em questão, desde seu surgimento, esteve
integrada a esse lócus de criação, o qual possibilitou um maior contato com atividades
intensivas em conhecimento tecnológico. Atuante no setor de óleo e gás, a PipeWay presta
serviços de limpeza e inspeção de dutos, utilizando uma ferramenta inovadora: o pig.
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A Timken, subsidiária do grupo norte-americano The Timken Company, atua no setor metalmecânico automotivo, produzindo colunas de direção. Sua seleção deu-se não somente em
função de seu porte, como também por sua natureza: empresa consolidada no mercado há
mais de vinte anos. Adicionalmente, a Timken localiza-se no município de Nova Friburgo / RJ
- uma região dominada pela indústria têxtil.
No estudo original, o período de análise estendeu-se de 1998 a 2003 para a PipeWay, e de
1980 a 2003 para a Timken. Para fins comparativos, neste artigo, o período de análise
restringir-se-á aos anos de 2000 a 2003.
Este artigo está estruturado em seis seções. Na Seção 2, são apresentados os conceitos e as
estruturas analíticas que guiam o estudo. O método do estudo é apresentado na Seção 3. O
exame dos processos de aprendizagem e suas implicações para o engajamento em atividades
inovadoras nas empresas estudadas é realizado na Seção 4. Por fim, na Seção 5, são
apresentadas as conclusões do estudo.
2. Modelos Conceituais e Analíticos
2.1. Acumulação de Competências Tecnológicas
Acumular competências tecnológicas é fator decisivo para o desempenho competitivo
empresarial. Conforme afirma Figueiredo (2001), esse fator é ainda mais crítico para
empresas atuantes em economias em industrialização, denominadas empresas emergentes. As
empresas que operam em contextos econômicos mais evoluídos são detentoras de técnicas
mais avançadas e estão engajadas em atividades mais complexas. Tais empresas constituem a
fronteira tecnológica.
Enquanto as empresas da fronteira tecnológica já possuem competências tecnológicas
inovadoras, nas empresas emergentes essas competências devem ser construídas e
acumuladas. Somente constituindo e sustentando sua base de competências tecnológicas, as
empresas emergentes poderão aproximar-se da fronteira tecnológica, conforme argumentado
por Lall (1992), Bell e Pavitt (1995), Kim (1998) e Figueiredo (2001). Para tanto, essas firmas
devem engajar-se em processos de aprendizagem tecnológica.
Neste estudo, o conceito empregado é o desenvolvido por Bell e Pavitt (1993), que as definem
como os recursos necessários para gerar e gerir a mudança técnica, incorporados em
indivíduos e sistemas organizacionais. Essa definição é utilizada por possuir sentido
abrangente o suficiente para descrever trajetórias de acumulação tecnológica, atentando para
as dimensões técnica e organizacional. Além disso, a definição está contextualizada para as
características de empresas emergentes.
Ao se tratar das competências tecnológicas, é necessário que sejam distinguidos os conceitos
de capacidade de produção e capacitação inovadora. Conforme o fazem Bell e Pavitt (1993),
deve-se considerar a diferença entre as competências de rotina – competências para usar – e as
competências inovadoras – competências para mudar.
O conceito de capacidade de produção relaciona-se às competências de rotina, que são os
recursos para produzir bens e serviços em determinado nível de eficiência, utilizando-se uma
combinação de fatores: habilidades, equipamentos, especificações de produtos e de produção,
sistemas e métodos organizacionais. A capacitação inovadora, por sua vez, incorpora recursos
adicionais e distintos para gerar e gerir a mudança tecnológica.
2.2. Processos de Aprendizagem Tecnológica
A aprendizagem tecnológica é usualmente definida em dois sentidos. O primeiro relaciona-se
aos conceitos de melhoria do desempenho operacional, produtividade e curvas de
aprendizagem, utilizados no campo da microeconomia. O segundo refere-se aos diferentes
processos de aquisição de conhecimento pelos indivíduos e de conversão para a organização.
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No presente estudo, aprendizagem é entendida no último sentido definido. Aprendizagem são
os processos mediante os quais habilidades e conhecimentos são adquiridos por indivíduos e
convertidos, por meio deles, para a organização, conforme afirma Bell (1984). Tal aquisição
permite o desenvolvimento, bem como a acumulação de competências tecnológicas, de forma
a possibilitar o engajamento empresarial em atividades cada vez mais inovadoras.
Quanto ao conhecimento tecnológico, grande parte deste é tácito e específico para várias
firmas e mercados. Por isso, como argumentam Nelson e Winter (1982), a acumulação de
conhecimento depende em profundidade de processos de aprendizagem específicos.
Figueiredo (2001) argumenta que há escassez de estruturas analíticas que explorem as
implicações práticas dos processos de aprendizagem sobre as competências tecnológicas das
empresas, em especial sobre as empresas localizadas em países de industrialização tardia.
Essa ausência serviu de motivação para que o autor desenvolvesse um modelo, voltado para
empresas emergentes, que permite identificar como os processos de aprendizagem
influenciam as diferenças interfirmas nas suas trajetórias de acumulação de competências
tecnológicas. A Tabela 1, a seguir, ilustra a estrutura elaborada por Figueiredo (2001).
Tabela 1. Modelo analítico para examinar processos de aprendizagem em organizações
emergentes
Processos de Conversão de Conhecimento
Processos de Aquisição de Conhecimento
Processos de
Aprendizagem
Aquisição
Externa de
Conhecimento
Aquisição
Interna de
Conhecimento
Socialização
de
Conhecimento
Codificação de
Conhecimento
Variedade
Características-chaves dos processos de aprendizagem
Intensidade
Funcionamento
Ausente - Presente [Limitada- Baixa - Intermitente Moderada-Diversa]
Contínua
Preseça/Ausência
de
processos
para
adquirir
Modo como a empresa
conhecimento localmente ou
usa este processo ao
no exterior (ex: treinamento,
longo do tempo. Pode
fornecedores,
usuários,
ser
contínua,
contratação de expertise
intermitente ou baixa.
laboratórios, universidades,
assistência técnica).
Preseça/Ausência
de
processos
para
adquirir Modo como a empresa
conhecimento
em ativ(s) diferentes processos
internas
de
rotina
ou para aquisição interna
inovadoras (ex: experimentação de conhecimento.
sistemática, treinamento).
Presença/Ausência
de
diferentes processos por meio Modo como processos
dos
quais
indivíduos prossegurem ao longo
compartilham
seu dos anos. Intensidade
conhecimento
tácito
(ex: contínua do processo
solução compartilhada de de socialização pode
problemas, times, rotação no influenciar codificação
trabalho,
treinamentos de conhecimento.
diversos, prototipagem).
Modo como processos
Presença/Ausência
de como padronização de
são
diferentes processos para operações
formatar o conhecimento (ex: repetidamente feitos.
manuais,
formatos Codificação
organizados,
software ausente/intermitente
limitar
a
padrões,
projetos, pode
aprendizagem
procedimentos).
organizacional.
Fonte: Figueiredo, 2001.
Ruim - Moderado - Bom
Interação
Fraca - Moderada Forte
Modo
como
um
Modo como o processo
processo influencia
foi criado e modo como
outro processo de
ele opera ao longo do
aquisição externa ou
tempo.
interna.
de
Modo como o processo Processo
foi criado opera ao longo conhecimento interno
do
tempo;
tem pode ser influenciado
implicações
para por processo de
variedade e intensidade. aquisição externa.
Condução
de
Modo como mecanismos
diferentes
de
socialização são
conhecimentos tácitos
criados e operam ao
para
um sistema
longo do tempo. Tem
efetivo. Socialização
implicações
para
pode ser influenciada
variedade e intensidade
por processos de
do
processo
de
aquisição externa e
conversão.
interna.
Modo
como
a
codificação
do
conhecimento foi criada e
opera ao longo do tempo.
Tem implicações para o
funcionamento de todo o
processo de conversão.
Modo
cocmo
a
codificação
do
conhecimento
foi
influenciada
por
processos
de
aquisição ou por
processos
de
socialização.
4
No presente estudo, os processos de aprendizagem são analisados a partir dessa estrutura
analítica. Nela, relacionam-se os processos de aprendizagem com suas características-chaves,
estabelecendo níveis de desenvolvimento de tais características em cada um dos processos.
São quatro os processos de aprendizagem: aquisição interna e externa de conhecimento
(processos de aquisição), socialização e codificação de conhecimento (processos de
conversão).
Os processos de aquisição interna de conhecimento referem-se à aquisição de conhecimento
tácito por parte dos indivíduos ao desempenharem diferentes atividades na firma. Os
processos de aquisição externa são aqueles pelos quais os indivíduos adquirem conhecimento
tácito e explícito fora da empresa. Os processos pelos quais os indivíduos compartilham seu
conhecimento tácito são os processos de socialização de conhecimento; o conhecimento tácito
é transmitido de um indivíduo para outros. Os processos de codificação de conhecimento são
aqueles pelos quais o conhecimento tácito torna-se explícito.
Quanto às características-chaves, elas são as seguintes: variedade, intensidade, funcionamento
e interação. A variedade refere-se à presença de diferentes processos de aprendizagem em
uma firma. A intensidade é a criação, o uso, o aperfeiçoamento e o fortalecimento dos
processos de aprendizagem ao longo do tempo. O funcionamento é o modo como tais
processos operam ao longo do tempo. A interação refere-se à forma como os processos de
aprendizagem influenciam-se.
3. Método do Estudo
Conforme mencionado anteriormente, o estudo de caso realizado teve como objeto duas
empresas. Uma equipe de duas pesquisadoras ficou responsável pela PipeWay Engenharia
Ltda. - uma empresa recém-graduada de uma incubadora tecnológica, atuante no setor de óleo
e gás. A outra equipe (constituída por dois pesquisadores) dedicou-se ao estudo de uma
empresa singular – a Timken de Nova Friburgo – atuante no setor metal-mecânico
automotivo, em uma região dominada pela indústria têxtil.
Em detrimento das empresas escolhidas atuarem em setores diferentes, contando com
períodos de existência distintos (recém-graduada vs. consolidada), podem-se identificar
similaridades durante o processo de coleta e tratamento dos dados.
Os contatos iniciais entre as equipes de pesquisadores e as empresas foram realizados com o
intuito de proporcionar aos primeiros um entendimento inicial acerca das empresas, assim
como, identificar e conhecer os funcionários-chave, os quais forneceriam as informações
necessárias à confecção da pesquisa de campo. Tendo em vista a base conceitual que guiou o
trabalho, teve início a busca por dados empíricos.
Para aprofundar as informações coletadas foram visitados todos os setores das empresas, de
forma a visualizar, com maiores detalhes, o processo produtivo. Adicionalmente, realizaramse entrevistas semi-estruturadas com profissionais de diferentes níveis organizacionais, em
ambas organizações. Os dados coletados receberam tratamento qualitativo, sendo organizados
sistematicamente, à luz do modelo analítico apresentado na Tabela 1. Cabe, no entanto,
ressaltar que a análise ateu-se a três características-chaves, a saber: variedade, intensidade,
funcionamento.
No estudo original, que deu origem ao presente artigo, o período de análise estendeu-se de
1998 a 2003 para a PipeWay, e de 1980 a 2003 para a Timken. Para fins comparativos, neste
artigo, o período analisado, para ambas empresas, delimitar-se-á aos anos de 2000 a 2003.
4. Análise Empírica
4.1. Breve Descrição do Contexto Empírico do Estudo
PipeWay Engenharia Ltda.
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Em 1988, o Centro de Pesquisas da Petrobras (CENPES) contratou a Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) para desenvolver o protótipo de um equipamento para
inspeção de corrosão de dutos. Dessa união surgiu o primeiro pig instrumentado, contando
com 100% de tecnologia nacional. O pig é um instrumento computadorizado que percorre
extensas tubulações, realizando um levantamento de sua geometria e detectando deformações
e defeitos. A análise dos resultados obtidos torna possível garantir a segurança de dutos,
reduzir os custos de manutenção e inspeção ou apontar a possibilidade de estender sua vida
útil.
A PipeWay foi criada no Instituto Gênesis, incubadora de empresas da PUC-RJ, no ano de
1998. A parceria firmada no mesmo ano entre PipeWay, CENPES e a PUC-RJ, tinha por
objetivo o fornecimento de tecnologia. A incubadora estabeleceu o pagamento de royalties,
por parte da PipeWay, para a utilização do pig. A ação conjunta das três entidades possibilitou
o acesso a sofisticados serviços de inspeção da geometria interna de dutos. O Brasil, assim,
ingressou em um seleto mercado internacional de comercialização desse tipo de serviço, com
vantagens competitivas em relação aos fornecedores de outros países.
Após permanecer dois anos como empresa incubada no Instituto Gênesis, a PipeWay tornouse em 2000 uma empresa graduada, de atuação independente. Sediada em Bonsucesso, na
cidade do Rio de Janeiro, a empresa lidera um importante segmento no mercado nacional de
inspeção de dutos, e vem expandindo sua linha de produtos e serviços, estendendo sua
atuação a outros países da América Latina, América do Norte, Europa e Ásia. Atualmente, a
empresa conta com os seguintes produtos: pig de Limpeza; pig Geométrico; pig de Corrosão.
Timken de Nova Friburgo
A Timken de Nova Friburgo, subsidiária do grupo norte-americano The Timken Company, é
uma empresa cujo core business consiste na produção de colunas de direção, e que apresenta
em sua lista de compradores empresas como a Fiat e a Ford. Embora tenha iniciado a
produção de colunas de direção em 1980 para o Corcel II, somente no início da década de
noventa essa atividade tornou-se sua atividade principal. Durante os anos de 1993 e 1994
foram realizadas diversas transformações na estrutura da empresa visando reduzir seu
tamanho e aperfeiçoar sua performance, resultando na obtenção de certificações ISO 9002
(1997) e QS 9000 (1999 e 2000). A partir do final de 1999 a Timken de Nova Friburgo iniciou
trabalho conjunto com a empresa Ford/VISTEON para produção de colunas de direção em
níveis elevados de competências tecnológicas, por meio do Projeto Amazon, que já tinha
contemplado o desenvolvimento de colunas para os Ford Fiesta e Ecosport. Nesta nova fase
também foram desenvolvidas colunas de menor valor agregado para o mercado externo com
várias empresas internacionais, no interior do Projeto de Exportação.
4.2. Processos de Aprendizagem
Variedade: A variedade dos processos de aprendizagem nas duas empresas é avaliada
por meio da presença ou ausência de mecanismos, conforme apresentado na Tabela 2. Uma
grande variedade dos processos de aprendizagem representa não só a existência de mais
formas e canais de acesso a conhecimento por parte da empresa (mecanismos de aquisição
interna e externa), mas também uma maior atuação de mecanismos de conversão do
conhecimento adquirido (codificação e socialização), possibilitando uma base mais ampla
para o aprendizado organizacional.
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PipeWay: a partir das evidências encontradas, pode-se afirmar que os maiores empenhos da
PipeWay concentram-se na aquisição externa de conhecimento, bem como na socialização do
conhecimento adquirido, sendo os mecanismos desses processos classificados como diversos.
A parceria entre PipeWay, CENPES e PUC-RJ destaca-se como fundamental para geração e
difusão de tecnologia. A mão-de-obra especializada é, em grande parte, composta por técnicos
advindos de laboratórios da PUC-RJ, detentora da tecnologia do pig, bem como das técnicas
de produção do mesmo. Isso é importante, uma vez que esses técnicos já possuem o knowhow básico para engajarem-se, imediatamente, na atividade de produção. Adicionalmente, a
forte interação entre a empresa e os dois centros de excelência é fonte de treinamento não
formalizado, pois o contato entre especialistas das três entidades gera um compartilhamento
contínuo de conhecimento. Esses especialistas transitam livremente entre essas três
instituições, formando equipes de trabalho quando da realização de um projeto específico.
Apesar de possuir práticas bem sedimentadas, identificou-se na mesma ausência de
mecanismos vitais para realizar a codificação do conhecimento adquirido: códigos e padrões
de engenharia, certificação de processos pela ISO 9000, banco de dados, sistemas de
informação gerencial. Dessa forma, a conversão de conhecimento para o nível organizacional
depende quase exclusivamente dos mecanismos de socialização, uma vez que os processos de
codificação mostraram-se limitados devido a sua recente implementação.
Timken: a partir das evidências encontradas a grande variedade de processos encontrada
revela a mudança ocorrida em 1993, quando a empresa alterou sua estratégia corporativa e
passou a visar o mercado externo. Os mecanismos de aquisição externa de conhecimento
possuem um papel importante, principalmente para a busca de certificações relacionadas à
qualidade, exigida em outros países. A variedade nos processos de aquisição interna
demonstra a preocupação da empresa com certificações de processo e produto, embora esses
mecanismos possam ser mais bem desenvolvidos. Os mecanismos de codificação também
estão relacionados a certificações de qualidade e apenas a estes, já que apresentam
diversidade limitada. Dos mecanismos de socialização presentes, destacam-se: o intercâmbio
com clientes e fornecedores para o desenvolvimento de projetos, a interação continuada com a
matriz e os times de trabalho multifuncionais. Estes últimos são considerados uma forma de
desobstrução de fronteiras entre as unidades organizacionais da empresa.
Uma diferença significativa entre as empresas no tocante à característica acima – variedade –
reside na natureza de seus processos de aprendizagem. Enquanto na PipeWay, a construção de
competências tecnológicas parece estar mais atrelada a seu relacionamento com agentes
locais, em especial CENPES e PUC-RJ, a Timken volta-se para as especificações da matriz,
bem como para necessidades e exigências do mercado internacional.
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Tabela 2. Processos de aprendizagem identificados nas empresas estudadas no período
de 2000 a 2003
PROCESSOS DE APRENDIZAGEM - 2000 a 2003
Variedade: Presente - Ausente
Mecanismos de Aquisição Externa de Conhecimento
PipeWay
Timken
Parcerias com Institutos de Pesquisa / Centros de Excelência
Importação de Especialistas da Matriz
Contratação de Especialistas Externos
Contratação de Consultores Externos
Canalização de Conhecimento Externo (codificado) - Clipping
Treinamentos externos em informática
Treinamentos de longa duração no exterior
Outros treinamentos (conforme levantamento de necessidades)
Treinamento fora da Organização – Curso de Salvatagem
Palestras e cursos relacionados ao TQM
Programa de desenvolvimento gerencial
Programa de desenvolvimento de gerentes de projeto
Reembolso de cursos de idiomas
Reembolso de curso de graduação
Reembolso de curso de pós-graduação
Congressos – Seminários - Eventos
Interação com clientes
Interação com fornecedores
Atividades Laboratoriais
Mecanismos de Aquisição Interna de Conhecimento
Presente
Ausente
Presente
Presente
Presente
Presente
Ausente
Ausente
Presente
Ausente
Ausente
Ausente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Ausente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Treinamentos sistemáticos para trabalhadores ligados diretamente à produção
Treinamentos sistemáticos em informática
Treinamentos sistemáticos TQM e sistemas de qualidade
Treinamento em software de projeto e processo
Aquisição Prévia de Conhecimento
Aprimoramentos Contínuos
Planejamento de atividades inovadoras
Experimentação
Mecanismos de Codificação de Conhecimento
Presente
Presente
Ausente
Ausente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Códigos e padrões de engenharia
Elaboração de procedimentos e instruções técnicas
Certificação de processos pela ISO 9000
Registros de treinamentos
Codificação por meio de sistemas de automação (DCS/PCS/SAP)
Seminários Internos
Ausente
Presente
Ausente
Presente
Ausente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Ausente
(Continua)
8
Tabela 2. (Continuação)
PROCESSOS DE APRENDIZAGEM - 2000 a 2003
Variedade: Presente - Ausente
Mecanismos de Socialização de Conhecimento
Desenvolvimento conjunto com clientes e fornecedores
Intercâmbio com clientes e fornecedores p/ o desenv. de projetos
Interação continuada com a matriz
Soluções para construção e montagem (constructability )
Participação em grupos para comissionamento e partida de fábricas
Trabalho em grupos para criação e codificação de materiais
Reuniões de projeto na empresa
Reuniões de projeto na matriz
Junta Técnica
Comitê de qualidade
Desenvolvimento de metodologias relativas a impostos, benefícios
Compartilhamento de modelos tridimensionais na empresa, com a matriz e com outras empresas:
global engineering e co-current engineering
Visitas à fábrica no exterior
Prototipagem
Times de trabalho
Rotatividade de funcionários entre as células de produção
Compartilhamento de dados em rede
Comunicação convencional através de quadros de avisos, murais, jornal interno
Modalidades de comunicação dinâmica: e-mail, internet, intranet
Conference Call
Atividades de rotina, mecanismos do tipo ‘aprender fazendo’
Participação de engenheiros recém-formados em projetos
Contratação e desenvolvimento de engenheiros trainees
Participação em grupos de supervisão de montagem
Participação de especialistas da empresas em implantação de plantas no exterior
Participação de especialistas da empresas em projetos no exterior
Fonte: derivado da pesquisa de campo.
PipeWay
Timken
Presente
Presente
Ausente
Presente
Ausente
Presente
Presente
Ausente
Presente
Ausente
Ausente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Ausente
Presente
Presente
Ausente
Presente
Ausente
Presente
Presente
Ausente
Ausente
Presente
Presente
Ausente
Presente
Presente
Presente
Presente
Ausente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Presente
Tabela 3. Variedade dos processos de aprendizagem: síntese
Processos de Aprendizagem
PipeWay
Aquisição Externa
Diversa (13)
Aquisição Interna
Moderada (6)
Codificação
Limitada (3)
Socialização
Diversa (15)
Total de Mecanismos
37
Fonte: derivado da pesquisa de campo.
Timken
Diversa (18)
Moderada (8)
Limitada (5)
Diversa (25)
56
• Intensidade: A intensidade dos processos de aprendizagem utilizados nas empresas foi
classificada conforme demonstrado na Tabela 4.
PipeWay: o contato com os laboratórios da PUC-RJ e do CENPES, assim como a missão de
estabelecer parcerias com seus fornecedores e clientes, pode ser constatado em todo período
de análise, apresentando, assim, caráter contínuo. Devem ser destacados os processos de
codificação, os quais são marcados por uma baixa intensidade: isso pode ser atribuído à falta
de formalização, implicando a ausência de uma rotina de atualização.
Timken: o avanço verificado na empresa em direção a níveis tecnológicos de maior
complexidade pode ser atribuído aos mecanismos de conversão, os quais constituem as
principais formas de acumulação de conhecimento. O desenvolvimento de colunas de direção
para os modelos FORD Fiesta e Ecosport (no âmbito do Projeto Amazon) somente foram
9
possíveis por meio da utilização contínua e interativa de diversos processos de socialização e
codificação, ao longo das várias fases do projeto. Isso representou fator importante na
incorporação de várias práticas inovadoras ao processo produtivo da empresa. Enquanto a
codificação é orientada pela busca de qualidade - ISO 9000 e códigos e padrões de engenharia
-, a aquisição externa de conhecimento mostrou-se mais intensa que a aquisição interna. Esse
último fato decorre da inexistência de um centro de tecnologia interno, cujas atividades
pudessem sistematizar metodologias, capazes de absorver os conhecimentos proporcionados
pelas práticas produtivas da Timken.
No caso da PipeWay, os processos de conversão de conhecimento, por ainda serem recentes,
apresentam-se insipientes. O amadurecimento de tais processos pode vir a facilitar o
desenvolvimento de atividades inovadoras pela empresa. Isso vem sendo observado na
Timken: o grau de desenvolvimento atingido por tais mecanismos (principalmente pelos de
codificação) constituem a base que vem possibilitando o seu desenvolvimento tecnológico.
Tabela 4. Intensidade dos processos de aprendizagem
PipeWay
PROCESSOS DE APRENDIZAGEM - 2000 a 2003
Intensidade: Baixa - Intermitente - Contínua
Mecanismos de Aquisição Externa de Conhecimento
Parcerias com Institutos de Pesquisa / Centros de Excelência
Contínua
Importação de Especialistas da Matriz
Contratação de Especialistas Externos
Contínua
Contratação de Consultores Externos
Intermitente
Canalização de Conhecimento Externo (codificado) - Clipping
Contínua
Treinamentos externos em informática
Intermitente
Treinamentos de longa duração no exterior
Outros treinamentos (conforme levantamento de necessidades)
Treinamento fora da Organização – Curso de Salvatagem
Contínua
Palestras e cursos relacionados ao TQM
Programa de desenvolvimento gerencial
Programa de desenvolvimento de gerentes de projeto
Reembolso de cursos de idiomas
Intermitente
Reembolso de curso de graduação
Intermitente
Reembolso de curso de pós-graduação
Intermitente
Congressos – Seminários - Eventos
Contínua
Interação com clientes
Contínua
Interação com fornecedores
Contínua
Atividades Laboratoriais
Contínua
Mecanismos de Aquisição Interna de Conhecimento
Treinamentos sistemáticos para trabalhadores ligados diretamente à produção
Treinamentos sistemáticos em informática
Treinamentos sistemáticos TQM e sistemas de qualidade
Treinamento em software de projeto e processo
Aquisição Prévia de Conhecimento
Aprimoramentos Contínuos
Planejamento de atividades inovadoras
Experimentação
Timken
Contínua
Contínua
Contínua
Intermitente
Contínua
Baixa
Baixa
Contínua
Baixa
Intermitente
Baixa
Contínua
Contínua
Intermitente
Contínua
Intermitente
Baixa
Contínua
Contínua
Contínua
Intermitente
Contínua
Intermitente
Contínua
Contínua
Baixa
Contínua
Intermitente
Contínua
Contínua
Contínua
Contínua
(Continua)
10
Tabela 4. (Continuação)
PROCESSOS DE APRENDIZAGEM - 2000 a 2003
Intensidade: Baixa - Intermitente - Contínua
Mecanismos de Codificação de Conhecimento
PipeWay
Timken
Códigos e padrões de engenharia
Elaboração de procedimentos e instruções técnicas
Certificação de processos pela ISO 9000
Registros de treinamentos
Codificação por meio de sistemas de automação (DCS/PCS/SAP)
Seminários Internos
Mecanismos de Socialização de Conhecimento
Baixa
Baixa
Contínua
Contínua
Contínua
Contínua
Contínua
Contínua
-
Contínua
Contínua
Contínua
Contínua
Contínua
Intermitente
-
Contínua
Contínua
Contínua
Intermitente
Contínua
Contínua
Contínua
Baixa
Intermitente
Intermitente
-
Contínua
Contínua
Contínua
Contínua
Contínua
Intermitente
Intermitente
Intermitente
Intermitente
Intermitente
Intermitente
Baixa
Contínua
Baixa
Intermitente
Contínua
Contínua
Contínua
Baixa
Intermitente
Baixa
Baixa
Baixa
Baixa
Desenvolvimento conjunto com clientes e fornecedores
Intercâmbio com clientes e fornecedores p/ o desenv. de projetos
Interação continuada com a matriz
Soluções para construção e montagem (constructability )
Participação em grupos para comissionamento e partida de fábricas
Trabalho em grupos para criação e codificação de materiais
Reuniões de projeto na empresa
Reuniões de projeto na matriz
Junta Técnica
Comitê de qualidade
Desenvolvimento de metodologias relativas a impostos, benefícios
Compartilhamento de modelos tridimensionais na empresa, com a matriz e com outras empresas:
global engineering e co-current engineering
Visitas à fábrica no exterior
Prototipagem
Times de trabalho
Rotatividade de funcionários entre as células de produção
Compartilhamento de dados em rede
Comunicação convencional através de quadros de avisos, murais, jornal interno
Modalidades de comunicação dinâmica: e-mail, internet, intranet
Conference Call
Atividades de rotina, mecanismos do tipo ‘aprender fazendo’
Participação de engenheiros recém-formados em projetos
Contratação e desenvolvimento de engenheiros trainees
Participação em grupos de supervisão de montagem
Participação de especialistas da empresas em implantação de plantas no exterior
Participação de especialistas da empresas em projetos no exterior
Fonte: derivado da pesquisa de campo.
• Funcionamento
PipeWay: os processos de aquisição, externa e interna, no período delimitado, apresentam
funcionamento de bom a moderado, o que pode ser justificado pelo fato de boa parte desses
mostrarem-se intermitentes. Quanto aos mecanismos de conversão, o funcionamento pode ser
classificado de moderado a ruim, uma vez que:
! Existem somente dois manuais de padronização, os quais estão sendo revisados pela
primeira vez, desde sua elaboração (surgimento da empresa);
! Os registros de corrida existentes referem-se às recorridas (corridas necessárias quando
ocorrem problemas na corrida anterior). As corridas bem sucedidas não são registradas;
11
! Apesar do reembolso contínuo dos cursos previamente relatados, não existe nenhum
procedimento para que os conhecimentos adquiridos sejam sistematicamente repassados aos
demais.
Timken: todos os mecanismos de aquisição e conversão podem ser classificados com bons e
moderados uma vez que a manutenção das certificações e dos programas de qualidade assim
obrigam. A estratégia da empresa de atender o mercado externo com seus produtos exige a
avaliação periódica dos mecanismos utilizados. Os mecanismos de aquisição externa,
voltados para o desenvolvimento das atividades no interior do Projeto de Exportação,
exibiram funcionamento moderado, em virtude do projeto ser coordenado pela matriz, o que
dificulta a adaptação às necessidades da empresa. Os processos de codificação mostraram
bom funcionamento, devido às necessidades de obtenção de certificações de produto e
processo, havendo a disponibilidade aos operários de instruções detalhadas em todas as fases
de produção. O funcionamento dos processos de socialização, que constituem as principais
formas de conversão de conhecimento nesta fase de avanço da empresa em direção a níveis
tecnológicos mais complexos, apresentou funcionamento bom, em virtude tanto da integração
existente entre eles, quanto da sua relação direta com as atividades inovadoras da empresa,
realizadas no interior do Projeto Amazon.
No caso da característica funcionamento, os diferentes níveis de maturidade tecnológica das
empresas estudadas são, em parte, decorrentes do tempo de existência das mesmas. Embora a
análise esteja fundamentada em um espaço de tempo delimitado, o bom funcionamento dos
processos da Timken está ligado ao maior grau de institucionalização dos processos, facilitada
pelo maior tempo de existência da empresa. A PipeWay passou, após investir no
desenvolvimento de processos de aquisição, a enfatizar também mecanismos de conversão.
Espera-se que, ao longo do tempo, tais processos sejam consolidados, conforme no caso da
Timken.
4.3. Implicações dos Processos de Aprendizagem sobre as atividades inovadoras das
empresas estudadas
PipeWay:No caso da PipeWay, as evidências empíricas demonstram que o engajamento mais
significativo em processos de aprendizagem emerge da parceria entre PipeWay, CENPES e
PUC-RJ. A estreita relação com essas duas instituições constitui a fonte dos recursos e
habilidades (competências) mais inovadoras da empresa.
O fato de a PipeWay ter surgido em uma incubadora de base tecnológica e manter relações
estreitas com instituições geradoras e difusoras de tecnologia de ponta confere-lhe uma
posição diferenciada em relação às demais empresas que, como ela, operam em um país de
economia emergente. A construção de suas capacidades básicas, bem como das inovadoras,
foi facilitada pela interação constante com tais centros de excelência, permitindo um
desempenho notável durante seus poucos anos de existência.
A ampliação da linha de produtos, como o desenvolvimento do pig de corrosão, não teria sido
possível caso a empresa não tivesse acesso à tecnologia presente nos laboratórios dessas
entidades.
Espera-se que com os crescentes esforços deliberados, a empresa consiga consolidar os
mecanismos de codificação de conhecimento, de forma a fortalecer as competências
tecnológicas desenvolvidas, garantindo, assim, sua sustentabilidade no mercado, no longo
prazo.
Timken: No caso da Timken a análise das informações obtidas durante a pesquisa indica que a
estratégia corporativa da empresa buscou não só a manutenção da diversidade, mas também a
12
elevação da intensidade tanto dos mecanismos de aquisição (interna e externa) quanto de
conversão (codificação e socialização). A ação efetiva da Timken, nesse sentido, contribuiu
para que houvesse a incorporação dessas práticas de aprendizagem à atividade de rotina da
empresa, sustentando e ampliando o fluxo de conhecimento no interior da empresa, além de
impulsionar sua conversão para o nível organizacional. O desenvolvimento dos projetos
Amazon e Exportação são o resultado de uma estratégia voltada para a acumulação de
competências inovadoras em níveis mais elevados que os anteriormente acumulados. Ao
longo deles a empresas conseguiu construir e acumular competências tecnológicas inovadoras
únicas em sua história com os quais tornou possível o desenvolvimento completo (desde a
concepção até a montagem) da coluna de direção do Ford Ecosport no interior das suas
instalações. No interior dessa estratégia, embora todos os quatro conjuntos de processos de
aprendizagem tenham sido identificados, os mecanismos de socialização do de conhecimento
foram utilizados de forma a constituir o núcleo de aprendizagem de papel preponderante.
5. Conclusões
Este estudo procura contribuir com a discussão sobre a influência dos processos de
aprendizagem no desenvolvimento de atividades inovadoras. Para isso, foram analisadas as
implicações de tais processos sobre as atividades desempenhadas por duas empresas de idades
distintas - PipeWay Engenharia Ltda. (recém-graduada) e Timken de Nova Friburgo
(consolidada) – no período que compreende os anos de 2000 a 2003. O resultado desse estudo
sugere que a maneira com que as empresas gerem os seus processos de aprendizagem tem
implicações práticas para o engajamento em atividades marcadas por níveis de complexidade
crescentes.
Os resultados do estudo, ao alinharem-se a estudos anteriores, os quais verificaram
empiricamente a mesma relação em outros setores industriais1, confirmam a validade dos
mesmos para outros tipos de indústria. Tal fato, ainda, pode ser estendido a empresas que,
além de possuírem idades distintas, atuem em diferentes setores industriais. Constataram-se
empiricamente as implicações negativas da limitada diversidade e da baixa intensidade dos
processos de aprendizagem para a acumulação de competências tecnológicas.
No caso específico da PipeWay, tais implicações negativas referem-se diretamente aos
mecanismos de codificação do conhecimento, cujo estado ainda insipiente pode acarretar
limitações à acumulação de competências tecnológicas, enfraquecendo os demais mecanismos
existentes e dificultando o desenvolvimento de atividades inovadoras.
Entretanto, por ter emergido de um centro de excelência, desde sua criação, a PipeWay
investe continuamente em aprendizagem e acumulação de conhecimento, de forma a
desenvolver, em curtos espaços de tempo, tecnologias com níveis inovadores crescentes. A
variedade de processos identificada reflete a preocupação constante da mesma em fortalecer
mecanismos que permitam avanços em sua trajetória tecnológica.
Para a Timken, a aquisição de conhecimento externo e a socialização desse conhecimento
permitiram acesso ao mercado externo por meio do fornecimento de colunas de direção para a
Ford e de outros produtos de menor complexidade tecnológica, a saber: carros de golfe, macas
móveis, pequenos tratores. O mercado consumidor externo, com níveis rigorosos de
exigência, juntamente aos avançados padrões produtivos exigidos pela matriz, têm
impulsionado a Timken a revisar e aprimorar continuamente seus processos.
Apesar de atuarem em indústrias distintas, as implicações dos processos de aprendizagem nas
empresas estudadas mostraram-se fundamentais para o desenvolvimento e a acumulação de
uma base de conhecimento e, posteriormente, para o engajamento em atividades inovadoras.
Em ambos os casos, os resultados dos estudos realizados indicam que, assim como afirmado
em Figueiredo (2001), o engajamento deliberado em processos de aprendizagem, por parte
das empresas, é de fundamental importância para o desenvolvimento, bem como para a
13
acumulação de competências tecnológicas. Pode-se afirmar que, esforços nesse sentido
contribuem para assegurar a inserção competitiva de tais empresas no mercado.
O relacionamento da PipeWay com as instituições PUC-RJ e CENPES constitui o alicerce
para a construção e a acumulação de suas competências tecnológicas. O desenvolvimento de
novas tecnologias, como o pig de corrosão, tem sido viabilizado por esse relacionamento. No
entanto, embora a relação de parceria destacada acima traga inúmeros benefícios, alerta-se
para um potencial risco de dependência tecnológica. A PipeWay deveria empenhar-se no
desenvolvimento interno de inovações, não ficando restrita aos laboratórios das duas
instituições. Tal dependência poderia atravancar o processo de construção, acumulação e
manutenção de suas competências tecnológicas. Uma forma de evitar esses impactos
negativos seria a constituição de um centro interno de pesquisa e desenvolvimento.
Ao contrário da PipeWay, o relacionamento da Timken com agentes externos com o intuito de
acumular e fortalecer suas competências tecnológicas intensificou-se apenas nos últimos anos
da década de noventa, quando ela já havia solidificado sua posição no mercado. Esse
distanciamento permitiu que a subsidiária mantivesse uma certa independência dos
laboratórios da matriz, possibilitando, dessa forma, o engajamento deliberado da Timken em
atividades laboratoriais inovadoras. Os mecanismos de codificação de conhecimento da
Timken, apesar de classificados como contínuos, restringem-se quase que totalmente aos
processos referentes à certificação. Faz-se, então, necessário o engajamento em processos que
difundam, sistematizem e codifiquem o conhecimento adquirido externamente.
Cabe ressaltar que a idade de uma empresa pode não configurar um entrave a seu
desenvolvimento tecnológico. Conforme observado na Timken, a realização de inovações não
é limitada pela idade mais avançada de uma empresa. Adicionalmente, é possível sugerir que
o fato de uma empresa ser jovem pode acelerar a evolução de seus processos de aprendizagem
(como na PipeWay). No contexto empírico estudado, as evidências indicam que a evolução
desses processos decorre da emergência de uma visão empreendedora, materializada em
esforços deliberados em processos de aprendizagem.
O debate acerca dos processos de aprendizagem e suas implicações em organizações de
economias emergentes pode ser enriquecido por meio da realização de estudos que
investiguem o papel destes, no nível intrafirma, em outros setores industriais.
6. Referências bibliográficas
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developing countries. In: KING, K. & FRANSMAN, M. (eds), Technological capability in
the third world. Londres: Macmillan, 1984.
BELL, Martin & PAVITT, Keith. Tecnological acumulation and industrial growth: contrasts
between developed and developing countries. In: Industrial and Corporate Change, v. 2, n°
2, 1993.
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Technology and International Competitiveness. Washington.: The World Bank, 1995, pp.
69-101.
FIGUEIREDO, Paulo N. Technological learning and competitive performance. Cheltenham,
UK & Northampton, USA: Edward Ejgar, 2001.
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capability-accumulation paths and operationalperformance improvement. In Research
Policy, n° 31, 2002, pp. 73-94.
KIM, Linsu. Crisis construction and organizational learning: capability building in catchingup at Hyundai Motor in Organization Science Conference, v. 9. Tóquio: 1998, pp. 506-21.
LALL, Sanjaya. Technological capabilities and industrialization. In World Development, v.
20, n° 2, 1992, pp. 165-186.
14
NELSON, Richard & WINTER, Sidney. An evolutionary theory of economic change.
Cambridge: Harvard University, 1982.
PipeWay Engenharia Ltda. Relatório de gestão de processos. Material interno. 2003.
PipeWay Engenharia Ltda. : <http://www.PipeWay.com.br>. Acesso em: julho e agosto de
2003.
TACLA, Celso. Aprendizagem e competências tecnológicas na indústria de bens de capital: o
caso da Kvaerner Pulping do Brasil. In: XXII Simpósio de Gestão da Inovação Tecnológica,
Salvador, 6-8 Novembro 2002.
1
Ver Figueiredo (2001) para a indústria de aço e Tacla (2002) para a de papel e celulose.
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