UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES/ CENTRO DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DAS RELIGIÕES COMUNIDADES NOVAS DE VIDA E ALIANÇA NO NORDESTE BRASILEIRO: PROCESSO COMUNITÁRIO E PRÁTICAS RELIGIOSAS KÁTIA SIMONE ALMEIDA LINS ALVES João Pessoa-PB 2009 UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES/ CENTRO DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DAS RELIGIÕES COMUNIDADES NOVAS DE VIDA E ALIANÇA NO NORDESTE BRASILEIRO: PROCESSO COMUNITÁRIO E PRÁTICAS RELIGIOSAS KÁTIA SIMONE ALMEIDA LINS ALVES Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ciências das Religiões, na linha de pesquisa Religião, Cultura e Produções Simbólicas, sob a orientação da professora Dra. Maristela Oliveira de Andrade. João Pessoa-PB 2009 À Otávio Augusto, meu primeiro filho. AGRADECIMENTOS Para construir o trabalho dissertativo aqui exposto, não foram poucas as pessoas que de alguma forma contribuíram. Quando se tem pouco, mas se dá tudo o que se tem, acontece o fenômeno da multiplicação e, de repente, têm-se tudo e em abundância, foi o que aconteceu nesse percurso. Agradeço imensamente a Deus, pois sei que é por graça dEle que faço parte do Programa de Ciências das Religiões da UFPB, desde a primeira turma da Especialização, realizada em 2005, até agora. Ao meu esposo, Rinaldo, e ao meu filho, Otávio Augusto, agradeço, por partilharem comigo esses momentos de estudo e pesquisa. Aos meus pais, Otávio e Gracinha, por estarem sempre disponíveis para me ajudar em todas as horas, inclusive na etapa final desta dissertação, quando cuidaram de Otávio Augusto na minha ausência. A professora Maristela Andrade, pelo incentivo, pela compreensão, pelas preciosas orientações nessa dissertação, pela amizade, que está para além de uma formação estritamente intelectual. As várias pessoas que contribuíram com seu pouco para transformar no resultado conjunto deste trabalho: Paula Ângela, minha querida cunhada, pela ajuda pronta, oportuna e eficiente, na correção ortográfica dessa dissertação; a Joelma Maria e Marileuza, pelo zelo nas considerações sobre as Normas da ABNT; a Karlena Moura, pela prontidão e alegria em contribuir com o abstract; a Sarinha, pela contribuição final. Aos colegas da primeira turma de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões-UFPB, pelo companheirismo, respeito, aprendizado conjunto, amizade, convivência, troca de conhecimentos, em especial a André Agra, pelas valiosas discussões sobre o tema aqui tratado. Assim como aos professores deste Programa, que se mostraram mestres responsáveis com o aprendizado e conhecimento. Agradeço muito a Maria, Secretária do Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões da UFPB, pela simpatia, acolhimento constante e prontidão em atender. Não posso deixar de agradecer aos membros das Comunidades Novas de Vida e Aliança do Regional Nordeste2 que participaram da Escola de Formadores em Campina Grande/PB, onde realizei a pesquisa de campo, pela abertura em responder os questionários, compreensão e interesse pela pesquisa aqui realizada. Ora, a existência humana só é possível graças a essa comunicação permanente (ELIADE,1996) com o Céu. RESUMO Nesta dissertação, analisa-se a dinâmica das Comunidades Novas de Vida e Aliança (CNVA), nova forma de sociabilidade religiosa presente no contexto atual do catolicismo, com ênfase no processo de fundação e manutenção da comunidade, nas experiências religiosas vivenciadas por seus membros, na sua relação com a sociedade e a igreja e nos valores difundidos. Para tanto, vale-se das lições de autores clássicos e contemporâneos da antropologia e da sociologia no campo da religião (Mircea Eliade, Max Weber, E. Troeltsch, Peter Berger) e da comunidade (Ferdinand Tönnies, Victor Turner, Francesco Alberoni, Zygmunt Bauman, Michel Maffesoli). A pesquisa de campo foi realizada em eventos nos quais se reuniram Comunidades dos Estados da Paraíba, do Rio Grande do Norte, de Pernambuco e de Alagoas, utilizando como metodologia a descrição etnográfica dos módulos II e IV da Escola de Formadores de líderes das Comunidades Novas de Vida e Aliança do Regional Nordeste2 realizada em Campina Grande/PB, além da análise de questionários aplicados com os participantes dessa escola. Do confronto entre o suporte teórico e os dados obtidos no trabalho empírico, observamos que a fundação da comunidade acontece como um movimento que tende à institucionalização, procurando reconhecimento na hierarquia da Igreja Católica, empregando as escolas de formação como estratégia formativa para criação de unidade interna através da difusão de valores comuns. Verificou-se o surgimento das CNVA no Nordeste no final dos anos 1980 intensificando-se na última década, sendo que poucas se encontram numa fase avançada no processo comunitário. Palavras-chave: Comunidade, Novos Movimentos Comunidades Novas de Vida e Aliança. Religiosos, catolicismo, ABSTRACT In this dissertation we analyze the dynamics of Charismatic Communities, new formation of religious sociability that exists in the present context of Catholicism, with emphasis on the process of foundation and maintenance of the community, on the religious experiences lived by its members, on its relationship with the society and the church and on the values spread. Therefore, we have recourse to the experience of classical and contemporaneous authors of anthropology and sociology in the field of religion (Mircea Eliade, Max Weber, E. Troeltsch, Peter Berger) and of the community (Ferdinand Tönnies, Victor Turner, Francesco Alberoni, Zygmunt Bauman, Michel Maffesoli). The field research was carried out during events in which communities of the State of Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco and Alagoas came together, using as methodology the ethnographic description of modules II and IV of the Leaders Formers School of Charismatic Communities from Northeast Regional that took place in Campina Grande/PB, besides the analyses of the questionnaires applied to the participants of this school. From the confrontation between the theoretical support and the data obtained in the empirical work, we observed that the foundation of the community occurs as a movement which tends to institutionalization, seeking recognition in the hierarchy of the Catholic Church, using the formation schools as a formation strategy for the creation of an internal unit through the diffusion of common values. We verified the emergence of the Charismatic Communities in the Northeast in the end of the 1980s, intensifying this process in the last decade. However a few are in an advanced phase in the communitarian process. Keywords: Community, New Religious Movements, New Life and Alliance Communities, Catholicism. LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Características e valores da Comunidade ..............................................................26 Quadro 2 - Distribuição das Comunidades do Regional Norteste2 participantes II módulo....75 Quadro 3 - Distribuição das atividades da programação do II Módulo....................................76 Quadro 4 – Comunidades que participaram do IV Módulo .....................................................78 Quadro 5 – Distribuição das atividades ao longo do IV Módulo..............................................79 Quadro 6 – Resumo dos temas abordados no IV Módulo........................................................85 Quadro 7 – Carisma das CNVA.............................................................................................101 Quadro 8 – Data de fundação das CNVA..............................................................................105 Quadro 9 – Estrutura organizacional das CNVA....................................................................106 Quadro 10 – Formas de participação dos membros nas decisões comunitárias.....................108 Quadro11 – Decisão de se consagrar/fundar uma CNVA......................................................120 Quadro 12 - Dificuldades em fundar uma comunidade ou nela se consagrar.........................124 Quadro 13 - Motivações para se consagrar em uma CNVA...................................................126 Quadro 14 - Motivações para permanecer na CNVA.............................................................128 Quadro 15 - Mudanças nos membros após aderirem à CNVA...............................................131 Quadro 16 - Visão da sociedade atual pelos membros das CNVA ......................................137 Quadro 17 - Valores presentes na CNVA ..........................................................................139 Quadro 18 - Meios de divulgação utilizados pelas CNVA.....................................................141 Quadro 19 – Abertura dos membros das CNVA para outros conhecimentos........................142 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Modelo de estrutura das CNVA .............................................................................59 Figura 2 – Dimensões do processo comunitário.....................................................................103 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 – Distribuição da faixa etária dos membros das CNVA...................................97 Gráfico 2 – Estado de vida dos membros das CNVA......................................................98 Gráfico 3 – Inserção dos membros das CNVA na sociedade...........................................98 Gráfico 4 – Formas de vida comunitária: vida ou aliança..............................................106 Gráfico 5 – Percentual de líderes fundadores e outros líderes .......................................108 Gráfico 6 – Porcentual de consagrados e não-consagrados nas CNVA.........................109 Gráfico 7 – Formas de ingresso nas CNVA ...................................................................110 Gráfico 8 – Fluxo de membros que entraram e saíram da comunidade nos últimos 12 meses ..............................................................................110 Gráfico 9 – Processo Comunitário.................................................................................110 Gráfico 10 – Dificuldades de convivência entre os membros na CNVA........................114 Gráfico 11 – Atividades realizadas comunitariamente...................................................115 Gráfico 12 – Origem dos recursos para o sustento da comunidade .................................116 Gráfico 13 – Porcentual dos membros que permanecem desde a fundação da CNVA...................................................................................................118 Gráfico 14 – Motivações para entrada nas CNVA.........................................................119 Gráfico 15 – Motivações para saída das CNVA............................................................120 Gráfico 16 – Como seria viver fora da CNVA...............................................................134 Gráfico 17 – Como seria viver sem religião...................................................................135 LISTA DE SIGLAS CNVA – Comunidade Nova de Vida e Aliança CV – Comunidade de Vida CA – Comunidade de Aliança CEB – Comunidade Eclesial de Base CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil LG – Lumen Gentium Constituição Dogmática sobre a Igreja RCC – Renovação Carismática Católica SUMÁRIO INTRODUÇÃO .............................................................................................................13 1 RELIGIÃO, COMUNIDADE E PROCESSO COMUNITÁRIO..........................18 1.1 Sociologia e estudo da religião................................................................................18 1.2 Comunidade e sociedade.........................................................................................22 1.3 Processo comunitário ..............................................................................................30 1.3.1 Os sujeitos do estado nascente................................................................................30 1.3.2 O contexto externo de surgimento..........................................................................31 1.3.3 A experiência fundamental.....................................................................................31 1.4 Panorama sócio-cultural atual e idéia de comunidade...............................................33 2 COMUNIDADES CRISTÃS AO LOGO DA HISTÓRIA..................................... 37 2.1 Primeiras comunidades cristãs...............................................................................37 2.2 Primeiras comunidades religiosas monásticas ......................................................40 2.3 Comunidades religiosas mendicantes ....................................................................44 2.4 Comunidades religiosas na modernidade..............................................................45 2.4.1 Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s)..............................................................46 2.4.2 Movimento da Renovação Carismática Católica....................................................48 2.5 Comunidades Novas de Vida e Aliança .................................................................50 2.5.1 Contextualização ....................................................................................................51 2.5.2 Características das Comunidades Novas de Vida e Aliança (CNVA) ...................55 2.5.3 Estrutura das CNVA...............................................................................................57 2.5.4 Os membros das CNVA .........................................................................................60 2.5.5 Vocação, espiritualidade, carisma, fundadores e missão das CNVA.....................64 2.5.6 Economia nas NCVA .............................................................................................67 3 CNVA NO NORDESTE BRASILEIRO ..................................................................68 3.1 Metodologia – a pesquisa empírica ........................................................................69 3.1.1 Questionário ...........................................................................................................70 3.1.2 Descrição etnográfica e observação participante....................................................70 3.2 A Escola de Formadores de líderes de Comunidades Novas de Vida e Aliança do Nordeste em Campina Grande/PB...............................................................................73 3.2.1 Descrição do segundo módulo................................................................................74 3.2.2 Descrição do quarto módulo...................................................................................77 3.2.3 Descrição da parte pedagógica dos módulos..........................................................79 3.2.3.1 Objetivo da formação e requisitos para fundação de novas comunidades.........80 3.2.3.2 Parte pedagógica do segundo módulo ................................................................81 3.2.3.3 Parte pedagógica do quarto módulo ...................................................................83 3.2.4 Descrição da parte ritual dos módulos....................................................................90 3.2.4.1 Parte ritual do segundo módulo ..........................................................................90 3.2.4.2 Parte ritual do quarto módulo.............................................................................92 3.2.5 Descrição da parte de convívio e sociabilidade dos dois módulos.........................93 3.2.6 Participação da Igreja na Escola de Formadores de Campina Grande ...................94 3.2.7 Apreciação geral dos módulos II e Iv da Escola de Formadores de Campina Grande/PB .........................................................................................................................................95 3.3 Análise dos questionários aplicados no módulo II da Escola de Formadores em Campina Grande/PB .....................................................................................................95 3.3.1 Perfil dos líderes e fundadores das Comunidades Novas de Vida e Aliança aqui estudadas .........................................................................................................................96 3.3.1.1 Sexo, idade, estado civil, inserção na sociedade.................................................96 3.3.2 O carisma das Comunidades Novas .......................................................................99 3.3.3 Processo Comunitário...........................................................................................103 3.3.3.1 Dinâmica comunitária: estrutura, fluxo de membros e etapas de amadurecimento das CNVA.............................................................................................................................104 3.3.3.2 Relações membros e comunidade (adesão, permanência, saída, consagração, fundação) .......................................................................................................................119 3.3.3.3 Relações da Comunidade com a Igreja e com a RCC .......................................132 3.3.3.4 Relações da Comunidade com a Sociedade ......................................................133 3.3.4 Apreciação geral dos resultados do questionário .................................................143 CONSIDERAÇÕES FINAIS......................................................................................145 REFERÊNCIAS ..........................................................................................................148 APÊNDICES ................................................................................................................153 ANEXOS ......................................................................................................................158 Dados de acordo com: AACR2, CDU e Cutter A474c Kátia Simone Almeida Lins Alves Comunidades novas de vida e aliança no Nordeste brasileiro: processo comunitário e práticas religiosas / Kátia Simone Almeida Lins Alves. – João Pessoa, PB: [s.n], 2009. 133 f. Dissertação (Pós-Graduação) – Universidade Federal da Paraíba (UFPB) – Mestrado em Ciências das religiões, 2009. 1. Religiões e Movimentos Religiosos Recentes 2. Catolicismo 3. Igreja Católica 4. Comunidades – Vida e Aliança I. Título ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 INTRODUÇÃO O presente trabalho objetiva pesquisar o universo das Comunidades Novas de Vida e Aliança (CNVA), analisando o processo comunitário por elas vivenciado no contexto religioso católico atual, especificamente no Nordeste brasileiro, desde o seu surgimento, verificando as dinâmicas decorrentes e se caminham para a institucionalização ou permanecem fora dela. Dar-se-á ênfase também nos aspectos de relações internas e de relações com a sociedade, além de identificar algumas práticas religiosas dos seus membros. Partindo do conceito sociológico e antropológico de Comunidade, para situar as comunidades estudadas, utilizaremos os ensinamentos de Ferdinand Tönnies, pai da sociologia alemã, na sua obra “Comunidade e Sociedade”; Victor Turner, antropólogo, no seu livro “O Processo Ritual – estrutura e anti-estrutura” (1969), especificamente a distinção entre communitas e societas e a associação com o conceito de Liminaridade, e Francesco Alberoni, sociólogo italiano, e sua obra “Gênese – como se criam os mitos, os valores e as instituições da civilização ocidental” (1929), onde aborda o surgimento dos movimentos sociais. A sociedade contemporânea, ao contrário do que previam os discursos durante os anos 1960, tem vivenciado uma reinserção do sagrado na vida social. Alguns teóricos do “pós-moderno”, como a socióloga francesa Danièle Hevieu-Léger (2005), vêem a religião atual como uma rede de “comunidades emocionais”, que destacam o emocionalismo e o subjetivismo, havendo um processo de desistitucionalização, pois os fiéis estão reunidos em torno de um líder carismático (apud MARIZ, 2003). Outros, como Cecília L. Mariz, socióloga brasileira que estuda o fenômeno religioso contemporâneo, acredita que as estruturas organizativas mantêm as experiências espontâneas e emocionais (MARIZ, 2003). De qualquer maneira, o que se observa é uma multiplicação de comunidades religiosas ligadas a diferentes tradições religiosas, fenômeno que requer maiores estudos que possam ajudar a esclarecer a que circunstâncias ele está associado. No contexto da Igreja Católica, junto com a Renovação Carismática Católica (RCC), as Comunidades Novas de Vida e Aliança vêm ganhando expressão como forma de vivência da fé cristã. Elas são uma forma de vida comunitária existente na Igreja Católica do Brasil desde o final da década de 19701, tendo um grande impulso na década de 1990, continuando a surgir CNVA a cada ano. Esse fenômeno não é só no Brasil, tem-se vivenciado uma grande 1 A Comunidade Canção Nova, considerada a mais antiga Comunidade Nova de Vida e Aliança do Brasil, comemora este ano 30 anos de existência, ou seja, foi fundada em 1978. 13 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 difusão pelo mundo inteiro. Esse fenômeno vem sendo estudado por sociólogos, teólogos e acadêmicos no Brasil e no exterior. No Brasil, trabalham no estudo das NCVA, entre outros: Brenda CARRANZA (2000), Maria das Dores C. MACHADO (1996), Ricardo MARIANO (2003), Cecília L. MARIZ (2003, 2004, 2005), Reginaldo PRANDI (1997). Foi também na década de 1970 que surgiu a primeira Comunidade Nova de Vida e Aliança do mundo, no mesmo local onde teria nascido a RCC, ou seja, em Arbor, no Estado de Michigan, nos Estados Unidos. Trata-se da Comunidade Word of God, fundada por Ralph Martin e Steve Clark (MAFRA, 2000). A grande expressão desse fenômeno para a Igreja aconteceu em Roma, no coração da Igreja Católica, no dia 30 de maio de 1998, na Praça São Pedro, durante a Vigília de Pentecoste, com o encontro de uma multidão de 4400 mil pessoas, cerca de 60 Movimentos Eclesiais e Novas Comunidades. No Brasil, segundo pesquisa realizada pela Comunidade Católica Shalom, existem cerca de 400 Novas Comunidades, dentre estas, aproximadamente 65% estão em fase embrionária, 20% estão em desenvolvimento e 15% estão atingindo ou já atingiram um amadurecimento. (TIMBÓ, 2004). Diante desse panorama, o propósito desse estudo é analisar a dinâmica que gera o surgimento e a multiplicação das comunidades, e as transformações sofridas em sua trajetória em direção a uma institucionalização das mesmas, ou as dificuldades encontradas neste processo. As CNVA nasceram de grupos de oração da Renovação Carismática Católica, portanto, trazem desses grupos a espiritualidade característica da RCC, ou seja, o uso dos carismas e dons do Espírito Santo, a espontaneidade da oração, cânticos, danças, louvores. São formadas, em sua maioria, por fiéis católicos leigos. São geralmente definidas como Associação Privada de Fiéis, porque dirigidas por leigos, e a maioria são reconhecidas pela Igreja Católica, por meio da aprovação do bispo local. Têm como objetivo uma atualização da experiência de vida comunitária dos primeiros cristãos, inclusive com o fim de Evangelizar com novos métodos, respondendo aos anseios do homem contemporâneo. São estruturas com Conselhos, Departamentos, Secretarias, coordenadorias, de acordo com a realidade de cada Comunidade. Essa forma de associação religiosa de fiéis e modo de expressão da fé católica tem suscitado diversas opiniões na hierarquia da Igreja, entre os demais fiéis católicos e até naqueles que não fazem parte da Igreja Católica, seja pela novidade da forma, seja pela expressão da fé católica que, em geral, se desenvolve. 14 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 A Igreja Católica, pelos discursos direcionados às CNVA, diz que as Comunidades Novas são um fenômeno que nasceu da busca de ter uma experiência com Jesus Cristo e com o Espírito Santo, que gera cristãos comprometidos com a doutrina católica, com profundas mudanças de vida, nas diversas estruturas sociais. O Papa João Paulo II via os Movimentos e as Comunidades Novas como resposta para os cristãos católicos anunciarem com fervor Cristo Jesus e o seu Evangelho no mundo descristianizado (Papa João Paulo II apud TIMBÓ, 2004, p.19 - pronunciamento durante o encontro dos Movimentos Eclesiais e das Novas Comunidades, 30/05/1998, no Vaticano): No nosso mundo, com freqüência dominado por uma cultura secularizada que fomenta e difunde modelos de vida sem Deus, a fé de muitos é posta à dura prova e, não raro, é sufocada. Percebe-se, então, com urgência, a necessidade de um anúncio forte e de uma sólida e aprofundada formação cristã. Como é grande, hoje, a necessidade de personalidades cristãs amadurecidas, conscientes da própria identidade batismal, da própria vocação na Igreja e no mundo! E eis, então, os movimentos e as Novas Comunidades eclesiais: eles são a resposta, suscitada pelo Espírito Santo, a este chamativo desafio do final do milênio. Vós sois esta resposta providencial. Quando da realização do Curso de Especialização, realizado pelo Programa de PósGraduação em Ciências da Religião da UFPB, em 2005/2006, trabalhei a monografia sobre Religião e Juventude na pós-modernidade, enfocando o caso da Comunidade Nova de Vida e Aliança denominada Comunidade Católica Missionária Salve Maria, em João Pessoa/PB, abordando os vários aspectos que levam a parcela jovem da sociedade a aderir a essa forma de convívio religioso da atualidade. Constatou-se que a procura por uma vida comunitária religiosa, nos moldes das CNVA, é influenciada pela cultura da sociedade atual, na medida em que os jovens buscam na vivência comunitária valores como o acolhimento, a partilha, as relações duradouras, todos contrários aos vivenciados pela sociedade contemporânea (ALVES, 2006). Nessa dissertação, almeja-se enfocar aspectos da vida em comunidade experienciados por membros das CNVA, no que se refere ao processo comunitário religioso e aos valores difundidos por algumas das CNVA localizadas no Nordeste. Entre os nossos objetivos específicos estão: a) caracterizar a estrutura e os valores das CNVA a partir de uma reflexão teórica produzida por autores clássicos e contemporâneos da antropologia e da sociologia; b) realizar pesquisa empírica junto a líderes (fundadores e formadores) de algumas CNVA da regional nordeste 2 no espaço da escola de formadores; 15 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 c) fazer uma análise qualitativa dos questionários aplicados com líderes (formadores e fundadores) das CNVA acima citadas, averiguando em suas respostas como acontece a dinâmica interna do processo comunitário de fundação de uma CNVA, como e quais são as relações internas entre seus membros e, entre esses e a sociedade. Na pesquisa empírica, fez-se uso dos seguintes métodos de campo para coleta dos dados: aplicação de questionários e observação participante nos 2° e 4° módulos do curso/evento intitulado “Escola de Formadores”, organizado pela Comunidade Remidos no Senhor, em Campina Grande/PB, com o objetivo de formar as lideranças das CNVA do Nordeste, especificamente da região chamada pela CNBB de “Regional Nordeste2”, formada pelos Estados da Paraíba, do Rio Grande do Norte, de Pernambuco e de Alagoas. Essa é a primeira versão da “Escola de Formadores” organizada pela Comunidade Remidos no Senhor, da qual participam líderes (formadores e fundadores) das CNVA. A Escola é dividida em 8 módulos, de 05 dias completos, cada um, sendo oferecido um módulo por semestre. Serão descritos dois módulos dessa escola, buscando obter uma visão dos principais objetivos do grupo e da maneira como as atividades e práticas são direcionadas. Essas Escolas de Formadores também são uma oportunidade para os líderes trocarem experiências e definirem direcionamentos para a CNVA que fazem parte. A escolha por esse local de pesquisa nos permitiu traçar um panorama geral da atual formação e características gerais das CNVA, em parte do Nordeste brasileiro. O questionário aplicado entre os participantes do módulo II da Escola de Formadores, em novembro de 2007, abordou questões referentes ao perfil pessoal dos líderes das CNVA e ao processo comunitário de fundação da comunidade, com seus vários desdobramentos2. No geral, buscamos responder aos seguintes questionamentos: 1) Quais os fatores internos (subjetivos) e externos (oriundos da sociedade) que influenciam o surgimento e manutenção das CNVA? 2) Como foram/são vivenciados os primeiros tempos de vida comunitária pelas pessoas que dele participaram/participam – processo de fundação? 3) Como se desenvolve, em geral, o processo de formação das CNVA? A estrutura da presente dissertação é a seguinte: No capítulo I, será feita uma reflexão teórica a partir de autores clássicos e contemporâneos da sociologia e da antropologia que abordaram os temas da religião, das 2 Ver modelo do questionário no Apêndice A. 16 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 comunidades e da sociedade, buscando caracterizar os valores e estruturas das comunidades religiosas. No capítulo II, serão pontuadas algumas formas de vida comunitária cristã ao longo da história, iniciando com as características gerais das primeiras comunidades cristãs, até o surgimento das CNVA. Destaca-se a origem das CNVA, sua relação com a RCC, especificidades, estruturas, espiritualidade, membros, relação com a hierarquia da Igreja e com a sociedade. No Capítulo III, apresentar-se-á o resultado da análise quantitativa e qualitativa da pesquisa empírica realizada com líderes (formadores e fundadores) de CNVA dos Estados supra citados, provenientes da aplicação de questionários e da observação participante nas Escolas de Formadores, na tentativa de encontrar as reais características básicas dessas Comunidades e como acontece seu processo de fundação, investigando e observando as relações entre os líderes, os ideais, as formas de organização das CNVA, os temas escolhidos para formação de seus líderes e membros, as opções de vida, os valores, as experiências religiosas. Tudo isso nos conduzirá às considerações finais, relacionando as propostas das CNVA com as teorias abordadas no Capítulo II, indicando possíveis desdobramentos para posteriores pesquisas. 17 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 1 RELIGIÃO, COMUNIDADE E PROCESSO COMUNITÁRIO O tema da religião é estudado em todas as culturas, visto que está presente em qualquer sociedade humana de que se tem notícia, influenciando a forma de se perceber os ambientes desse mundo e de reagir a eles, dando um sentido à vida (GIDDENS, 2005). Os assuntos que sobrevivem no cerne da religião são a vida e a morte, o sentido e o propósito da vida. Mesmo nas sociedades modernas, nas quais o pensamento racionalista tende a prevalecer, a religião não desapareceu como alguns pensadores previram, ainda exercendo um papel importante. Segundo definição de Giddens (2005, p. 427): “As religiões envolvem um conjunto de símbolos, que invocam sentimentos de reverência ou de temor, e estão ligadas a rituais ou cerimoniais dos quais participa uma comunidade de fiéis.” As três religiões monoteístas consideradas por vários estudiosos as mais influentes da história mundial são o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. O cristianismo é a religião que domina um número maior de adeptos na atualidade, cerca de um bilhão de pessoas se dizem cristãos, havendo, entretanto, divergências em termos de teologia e de organização eclesiástica, ramificando-se em catolicismo romano, protestantismo, ortodoxia oriental, etc. Cristão é aquele que segue o Cristo – em grego o “ungido”, na pessoa de Jesus, um judeu ortodoxo que, aparentemente, não quis formar uma nova religião. Após a sua morte, seus seguidores foram perseguidos como uma seita do judaísmo, mas a religião foi difundida na Ásia Menor, Grécia e Roma, até que o imperador romano Constantino adotou a religião cristã como oficial do império romano (GIDDENS, 2005). 1.1 Sociologia e estudo da religião Os teóricos clássicos da sociologia que estudaram a religião, ou seja, Marx, Durkheim e Weber, eram racionalistas, cientificistas e estavam preocupados em analisar, entre outras coisas, como seria a religião na modernidade. De acordo com o primeiro sociólogo citado, a religião representa a auto-alienação humana, um refúgio encontrado para a dureza da nossa vida terrena. Já Émile Durkheim concentrou seus estudos na religião de sociedades tradicionais de pequena escala, relacionando-a com a natureza geral das instituições sociais e descrevendo-a 18 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 em termos de uma distinção entre sagrado e profano. A religião, sendo uma expressão coletiva, adéqua os indivíduos a ela, havendo uma influência da coletividade sobre o individual, quando o objeto do culto, na religião, expresso pelo “totem”, na verdade, é a própria sociedade. Assim como Marx, Durkheim disse que a religião tradicional, que envolve deuses e forças divinas, desapareceria. Portanto, para sustentar os valores da sociedade, novas atividades cerimoniais substituiriam as antigas. Max Weber, em meados do séc. XX, iniciou um estudo substancial sobre as religiões no mundo inteiro, como o hinduísmo, o budismo, o taoísmo, o antigo judaísmo e o cristianismo. Weber estuda como a religião está relacionada com as transformações sociais, por exemplo, a influência do protestantismo na visão capitalista do Ocidente moderno. Já as religiões orientais ofereciam barreiras para o desenvolvimento do capitalismo industrial da forma como ocorreu no ocidente. (GIDDENS, 2005). Os estudos de Weber sobre a religião estão direcionados, entre outros aspectos, pela noção de carisma, entendido como (Weber apud Filoramo, 2003, p. 105): uma qualidade considerada extraordinária (...) que é atribuída a uma pessoa. Por isso, esta é considerada como dotada de forças e propriedades sobrenaturais ou sobre-humanas, ou pelo menos excepcionais de modo específico, não acessíveis aos outros, ou como enviada de Deus, ou como revestida de um valor exemplar e, conseqüentemente, como condutora. Diferindo de Durkheim, Weber acredita que há uma força individual no fenômeno religioso, não dissolvida na coletividade, mas autônoma e ativa, com poder de escolha e decisão. Este teórico identifica ainda a relação entre religião e sociedade sob o aspecto daquela nesta. A religião, através de suas respostas a significados últimos, influi na sociedade em relação a aspectos extremamente práticos e materiais, como a economia e suas leis, interagindo com outras dimensões da vida em sociedade. O diferencial da religião seria porque ela almeja dar uma visão totalizante e exaustiva do mundo. Para Weber, a era moderna trouxe o desencantamento do mundo, por causa da exacerbada importância dada à razão e aos meios técnicos, tendo chegado ao fim a era da história transcorrida sob o signo religioso (FILORAMO, 2003). O historiador e sociólogo do cristianismo, E. Troeltsch aprofundou dois conceitos importantes para os estudos da religião, o de igreja e o de seita. No primeiro existe um compromisso social por tratar-se de uma instituição em que as pessoas geralmente já nascem dela participando, enquanto que no segundo conceito não há esse compromisso social e se 19 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 refere a uma separação polêmica e opcional da igreja, além disso, produz em seus adeptos um sentimento de regeneração espiritual (FILORAMO: 2003) Jean Séguy, estudioso francês na área de história e sociologia, aprofundando os estudos de Troeltsch a partir da distinção entre seita e Igreja e fazendo referência a Weber, pesquisou os movimentos religiosos surgidos com a expansão da Reforma, sobre vários aspectos, entre eles sobre ecumenismos interconfessionais (diálogo entre católicos, protestantes e ortodoxos). Esses estudos levaram-no a perceber o caráter contestador presente nos ecumenismos europeus e americanos, particularmente os pentecostais e os carismáticos. Já indicando o tema desta pesquisa, as Comunidades Novas de Vida e Aliança, surgidas da vertente carismática da Igreja Católica, tendo como líderes, em sua maioria, os fiéis católicos leigos, vale transcrever a análise feita pelo estudioso francês (Séguy apud Filoramo, 2003, p. 119): O protesto implícito de que são portadores esses movimentos é particularmente evidente no âmbito católico: eles realizam de fato a fusão entre os estratos (sacerdotes e leigos), que o catolicismo por definição separa e coloca em planos distintos. Os leigos passam a ser protagonistas e, no caso dos carismáticos, alcançam o contato com o Espírito Santo sem nenhuma mediação institucional: o carisma pessoal, e não o de ofício, é que determina a constituição da liderança (grifos nossos) E ainda, trazendo outra contribuição de Séguy no que se refere aos estudos sobre as ordens monásticas, que serão tratadas mais adiante, tem-se que ordens monásticas seriam portadoras de duas instâncias (segundo o modelo weberiano), aparentemente contraditórias: uma carismática, na qual existiria uma tendência inovadora e de apelo à pureza das origens, e outra institucional, pela necessidade de enquadrar-se na Ecclesia. O historiador propõe as linhas de uma sociologia das formações monásticas, pesquisando várias ordens religiosas e seus fundadores, entre os séculos XVI e XIX. (FILORAMO, 2003) Outro conhecido estudioso da sociologia da religião é o alemão Thomas Luckman, que se dirige a uma explicação da “progressiva marginalização social da religião de Igreja e a emergência de uma religiosidade interior, invisível, que melhor satisfaz às exigências espirituais do homem secularizado” (ibid, p. 125). Esse estudioso aponta a tensão entre Igreja e leigos, já percebido por Troeltsch, mas fala de uma crise no caráter normativo da religião de Igreja e do processo de secularização, que Luckman entende, sobretudo, como retrocesso da religião oficial em relação aos papéis tradicionalmente exercidos, passando a religião para a esfera privada. 20 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Por outro lado, o sociólogo inglês Brian Wilson, docente em Oxford, ocupou-se “do fenômeno sectário contemporâneo, dos movimentos profético-messiânicos do Terceiro Mundo e da relação entre secularização e novos movimentos religiosos” (ibid, p. 128). Na análise de seita, ele também parte da definição troeltschiana de seita, dizendo que Troeltsch se referia aos movimentos heréticos da Idade Média ou a ramificações da Reforma Protestante, enquanto as seitas contemporâneas não teriam mais as características por ele apresentadas. Para Wilson, as características das seitas modernas baseiam-se em elas serem, ao mesmo tempo, radicais e conservadoras (Wilson apud Filoramo, 2003, p. 129): É característico das seitas emergentes no seio de uma cultura tradicional o fato de elas serem ao mesmo tempo radicais e conservadoras. São radicais no desafio que dirigem à autoridade religiosa constituída: rejeitam os procedimentos e as atividades da Igreja dominante, considerando-os nãoválidos ou até mesmo errados; dissociam-se sob muitos aspectos, da cultura secular; pelo menos, condenam aquelas leis do Estado que, para eles, contrariam as exigências colocadas pela religião verdadeira. Por outro lado, são conservadoras, porque procuram reafirmar preceitos morais e religiosos que consideram negligenciados pela tradição dominante ou tentam reavivar aqueles que têm como representações religiosas legítimas, ou reutilizar um primitivo modelo organizativo que crêem divinamente legitimado. Peter L. Berger (1985, p. 145) faz uma análise da religião na modernidade, falando sobre uma predominância da religiosidade privada: (...) a religião manifesta-se em sua forma tipicamente moderna, a saber, como um complexo legitimante voluntariamente adotado por uma clientela não-coagida. Como tal, localiza-se na esfera privada da vida social cotidiana e está marcada pelas características típicas dessa esfera na sociedade moderna. Uma dessas características essenciais é a da ‘individualização’. Isso significa que a religião privatizada é assunto de ‘escolha’ ou ‘preferência’ do indivíduo ou do núcleo familiar, ipso facto carecendo de obrigatoriedade. Como para Berger a religião na modernidade se insere na esfera privada, ela perde a sua força social, na medida em que os valores religiosos aí adotados, muitas vezes, não são levados para os setores secularizados da sociedade. Essa perda do caráter coletivo é provocada pela secularização que, por sua vez, indica o fim do monopólio das instituições religiosas e produz o pluralismo religioso, entendido como diferentes grupos religiosos tolerados pelo Estado e mantendo competição entre si (BERGER, 1985). O supracitado autor também aponta a coincidência do processo de secularização com a “era do laicato”, inclusive no catolicismo, tendo os leigos um caráter de consumidores. Além disso, o pluralismo religioso também engendrou a “redescoberta das heranças confessionais”, 21 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 ou seja, cada denominação religiosa procura reforçar a sua identidade, pela necessidade de se diferenciar de uma padronização global, que, para Berger, parte “do próprio processo de racionalização da concorrência” (ibid, 1985, p. 159). No entanto, essa diferenciação é apenas superficial, inclusive variando de acordo com a necessidade dos consumidores. Na atualidade, há uma discussão teórica sobre a autonomia do campo religioso. Filoramo (2003), por exemplo, chega à conclusão de que se deve trabalhar com um conceito de religião capaz de levar em conta tanto os seus aspectos funcionais, devendo a religião ser explicada, quanto os aspectos específicos, levando em consideração as “individualidades religiosas com sua particular lógica e estrutura, além de determinados contextos históricosociais” (FILORAMO, 2003, p. 20). Ou seja, a religião precisa ser estudada tanto em seus aspectos internos como nos externos, impostos pelo ambiente. 1.2 Comunidade e sociedade De um modo ou de outro, a religião tem-se expressado no seio da sociedade e em comunidade. Até mesmo a experiência religiosa pessoal tem conseqüências comunitárias. No tema desta pesquisa, procurou-se aproximar as concepções de religião e vida em comunidade. Como será detalhado no capítulo III, esse panorama conceitual aplica-se e pode ajudar a problematizar a discussão sobre as Comunidades Novas de Vida e Aliança, tendo em vista que o objetivo geral do presente estudo é identificar o processo de formação e permanência dessas comunidades, se caminham para a institucionalização ou permanecem fora dela a partir de depoimentos das lideranças. Na discussão teórica, utiliza-se os ensinamentos de Ferdinand Tönnies (1855-1936), reconhecido pioneiro da sociologia, cuja obra teve grande impacto sobre o estudo sociológico e antropológico das “comunidades”. Para Tönnies, a comunidade seria o estado ideal dos grupos humanos, e a sociedade seria a sua corrupção, conceitos aprofundados em sua famosa obra Gemeinschaft Ud Gesselschaft, 1887 (Comunidade e Sociedade). Outro teórico clássico que aprofundou o conceito de comunidade foi Victor Turner (1920-1983), antropólogo anglo-americano, que trouxe uma contribuição no estudo do ritual na vida em sociedade, especificamente em seu livro The Ritual Process – Structure anda Anti-Structure, 1974 (O Processo Ritual – Estrutura e Anti-Estrutura) Os conceitos de Communitas e liminaridade desenvolvidos por este autor irão nortear a análise da vida comunitária nas Novas Comunidades de Vida e Aliança. 22 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Valiosos também serão os estudos de Francesco Alberoni (1929), popular sociólogo italiano, na sua obra GENESI (título original – 1989), em português, Gênese – Como se criam os mitos, os valores e as instituições da civilização ocidental (1991). Nessa obra, o autor analisa os movimentos sociais em seus vários aspectos. Daí, foram retiradas as concepções de estado nascente, experiência fundamental, entre outros, buscando aplicá-los ao processo comunitário vivenciado pelas Comunidades Novas de Vida e Aliança. Os estudos desse sociólogo contemporâneo, pesquisador dos movimentos coletivos e dos sentimentos humanos, professor de Sociologia da Universidade de Milão, muito contribuirão para uma análise do processo comunitário nas comunidades pesquisadas, visto que a vivência das Novas Comunidades de Vida e Aliança são experiências de fundações recentes (1978-), estando algumas (as mais antigas) em processo inicial de institucionalização. Todos os autores citados abordam estudos sobre os grupos humanos e as maneiras como se relacionam. Suas as abordagens auxiliaram o estudo do processo comunitário vivenciado pelas CNVA (Comunidades Novas de Vida e Aliança). De Tönnies, especificamente, foi extraída a concepção de comunidade, pela influência que tem sobre os teóricos do assunto até os dias de hoje. O seu conceito de comunidade não é de todo abandonado por Turner, mas este a aborda em um sentido processual e relacional com a sociedade. De certo modo, Turner não contradiz, mas complementa a comunidade de Tönnies. Já Alberoni, apesar de não utilizar o termo comunidade, ao estudar a dinâmica dos movimentos sociais, aproxima-se bastante da visão de Turner sobre o processo social de estrutura e anti-estrutura (societas e communitas). Ferdinand Tönnies apresenta os conceitos de comunidade e sociedade a partir de uma diferenciação entre ambos. Partindo das vontades humanas, o autor verifica que, quando as vontades humanas mantém entre si relações recíprocas, formam uma associação. Essa associação, por sua vez, quando se caracteriza por uma “vida real e orgânica”, duradoura, é denomina comunidade, e quando apresenta uma estrutura mecânica, pública, passageira, o próprio mundo, trata-se da sociedade (TÖNNIES, 1995). Esses conceitos serão usados: primeiro, para verificar se as características de comunidade apontadas por Tönnies estão presentes nas Comunidades aqui estudadas; segundo, para analisar a relação dessas Comunidades com a sociedade. 23 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Essa diferença entre sociedade e comunidade é destacada por vários autores que estudam o pioneiro da sociologia. Assim se expressa Orlando de Miranda sobre a distinção feita por Tönnies (MIRANDA, 1995, p. 65): O que caracteriza o tipo-comunidade é a expressão da igualdade e o vigor dos fenômenos e valores identitários. (...) Na sociedade, para cuja descrição a referência histórica é a troca (que implica a alteridade como princípio) e o desenvolvimento histórico capitalista, os valores reforçam as diferenças, acentuam a individualidade e isolam o ‘indivíduo’ (...) Em razão disso, enquanto na comunidade-tipo a identidade dimensiona-se e se realiza, reunindo na mesma unidade um certo número de seres (...), na sociedadetipo, a ‘natureza’ identitária constitui apenas uma abstração. (grifos nossos) Discorrendo sobre o ser social, o pensamento de Ferdinand Tönnies é colocado por Orlando Miranda no seguinte sentido (TÖNNIES, 1995, p. 69): A negação do ser social, isto é, a sociedade, transfere a condição de ser para o agente individuado. Todavia, este, que não pode realizar-se na comunidade (que é, plenamente, sua negação), não pode também prescindir das ligações comunitárias, necessárias à construção da identidade concreta. Abdicando dessas, para se entender como plenamente “individualizado”, reduz-se a uma abstração por se encontrar desprovido de qualquer dimensão cognoscível. Ou seja, para Tönnies, como ser social, o homem só encontra a si mesmo, concretamente, quando faz parte de uma comunidade, pois nela há uma ligação muito estreita entre os membros, que estão juntos em todas as situações, boas ou não, essas relações intensas de verdadeira convivência não é encontrada na sociedade, na qual o indivíduo chega como um estranho, apesar de poder estar em companhia de alguém, não havendo uma troca de vida. Um exemplo de comunidade seria a relação de convivência entre marido e mulher (ibid, 1995) Nos grupos humanos que se agregam em comunidade, em suas formas emergentes e embrionárias, segundo Tönnies, existe uma unidade completa das vontades humanas, de uma forma natural3, como, por exemplo: (a) na relação entre mãe e filho, que é a mais profunda, “fundada no instinto e no prazer”; (b) na relação entre homem e mulher, sustentada não pelo instinto sexual, mas pelo hábito de vida em comum, que configura “um acordo mútuo de afirmação recíproca” e (c) na relação entre irmãos e irmãs nascidos da mesma mãe, essa relação de fortalece a partir da memória, não do instinto, daí seu caráter mais humano (ibid, p. 235). Já a sociedade, é formada por vontades humanas ditas arbitrárias, porque não parte de 3 A vontade natural, para Tönnies, são unidades biológicas motivada por instintos de origem orgânica, como nutrição, auto-preservação e reprodução, cf. MIRANDA, 1995. 24 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 um determinante natural e orgânico, mas da racionalidade humana, de suas representações ideais e artificiais sobre o mundo ao seu redor. Por outro lado, o capítulo sobre Liminaridade e Communitas, no livro “O Processo Ritual – estrutura e anti-estrutura”, de Victor Turner, trata do rito de passagem. Arnold van Gennep (1960, apud Turner, 1974), define-os como “ritos que acompanham toda mudança de lugar, estado, posição social, de idade”. Turner retoma a oposição conceitual de Tönnies entre comunidade e sociedade com os termos latinos communitas e societas, no sentido de uma análise da sociedade enquanto processo ritual, feita por mecanismos de homogeneização e diferenciação, dinamizados por passagens de uma situação para outra. Seria a estrutura (societas) e anti-estrutura (communitas), que estão em contínuo relacionamento e movimento, originando as instituições e os problemas culturais (TURNER, 1974). Ou seja, Turner estuda as comunidades humanas como processo e, portanto, busca entender como elas se originam e como se formam. Explicando melhor o que seja communitas para Victor Turner, pode-se dizer que ele separou as relações entre as pessoas em dois modelos, um é a sociedade, um “sistema estruturado”, que separa, divide e hierarquiza, outro é a “sociedade considerada como um comitatus não-estruturado”, uma comunidade que surge de forma clara no estado de liminaridade, que não estava em um local determinado, que estão em transição. Para Turner, trata-se de “reconhecer um laço humano essencial e genérico, sem o qual não poderia haver sociedade” (ibid, p. 119). Na Communitas, há uma forma de poder diferente, onde os fracos detêm o poder. Os exemplos apresentados por Turner são: pequenas nações que mantêm poderes, valores religiosos e morais, como “os hebreus no antigo Oriente Próximo, os irlandeses na primitiva cristandade medieval e os suíços na Europa moderna”(ibid, p. 134); bobos da corte, que “representam os pobres e os deformados, simbolizando os valores morais da “communitas” contrapondo-se ao poder coercitivo dos dirigentes políticos supremos” (ibid, p. 134/135) e nos filmes de faroeste, o misterioso “estranho sem lar, sem riqueza ou nome, e que restaura o equilíbrio legal e ético num grupo local.” (ibid, p.135) As características comuns das pessoas e grupos que formam a communitas situam-se nos interstícios da estrutura social, estão à margem dela, ocupam os degraus mais baixos. A communitas, entretanto, só pode ser apreendida por suas relações com a estrutura. Nesse sentido, a estrutura (societas) também é importante, ambas fazendo parte da vida em 25 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 sociedade. Ela irrompe “nos interstícios da estrutura, na liminaridade; nas bordas da estrutura, na marginalidade; e por baixo da estrutura, na inferioridade.” (ibid, p. 156), por sua vez, essas são condições que geralmente geram “os mitos, símbolos rituais, sistemas filosóficos e obras de arte”. (ibid, p.156) Há uma relação dialética entre a communitas e a estrutura social, ou seja, as pessoas que se encontram numa ou noutra estrutura estão em constante relação, inclusive de dependência, havendo uma coexistência permanente e necessária entre esses dois princípios de constituição social: communitas/societas. Por exemplo, nos ritos de passagem, envolve algo como um renascimento: primeiro a pessoa se distancia da estrutura social (societas), como se não mais existisse na posição ocupada na sociedade, passando por um processo de transição, no qual é trabalhada a igualdade e a humildade (na communitas); depois, ela volta a ser integrada na estrutura social (societas), agora ocupando uma nova posição, como se renascesse. Entretanto, o equilíbrio entre communitas e sociedade deve ser mantido, pois o exagero em uma ou outra provoca uma patologia. “A maximização da communitas provoca a maximização da estrutura, a qual por sua vez produz esforços revolucionários pela renovação da communitas.” (ibid, p.157) Vejamos no quadro n° 1 as características e os valores da comunidade (communitas) para Tönnies e para Victor Turner: Características da comunidade Vida real e orgânica Tönnies Duradoura Ligação estreita entre os membros (associações com a terra e laços de lugar, de amizade, de sentimentos partilhados e crenças comuns) Unidade de vontades Laços de sangue e de Parentesco Homogeneização Turner Laço humano essencial Os fracos detêm o poder Transitoriedade Quadro 1 – Características e valores da Comunidade Valores da Comunidade Identidade Afetividade pessoal Partilha Aproximação entre os membros Tradição Igualdade Humildade Ausência de “status” São notáveis as semelhanças e divergências entre a concepção de comunidade para os dois autores. Algumas semelhanças a se destacar são: a unidade de vontades, os laços afetivos, a aproximação entre os membros (Tönnies) e a homogeneização, a ausência de 26 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 “status” e os laços humanos (Turner); a diferença mais marcante seria que, enquanto Tönnies percebe a comunidade como algo duradouro, Turner a vê como algo transitório. Segundo Alberoni, os grupos e a sociedade se formam a partir de uma experiência fundante, sempre presente no estado nascente, que seria “uma descontinuidade social provocada por uma experiência de morte e renascimento em nível individual.” (1991, p. 37) O indivíduo no estado nascente parece estar vivendo de maneira diferente de tudo que já viveu até então, com uma grande esperança no futuro, em uma existência maravilhosa e intensa. Quando vários indivíduos acreditam nesse novo recomeçar, com relação a toda sociedade, acabará ocorrendo uma verdadeira transformação social com uma descontinuidade. (ibid) Neste estudo, quando se fala de estado nascente, busca-se aprofundar a experiência fundante das novas comunidades carismáticas, percebendo como se deu o início desse movimento. Ademais, o presente trabalho traz um paralelo entre a noção de estado nascente e de communitas, posto que tanto Turner (communitas) como Alberoni (estado nascente), apesar de teorizar esses processos com expressões diferenciadas (Turner não utiliza a expressão movimentos sociais, enquanto Alberoni teoriza sobre elas), nas suas análises, são encontradas características semelhantes, como, por exemplo: o estado de transição, de descontinuidade, de transformação, de rebaixamento, a orientação para a mudança. No estudo dos movimentos sociais de Alberoni, especificamente no estado nascente, também encontramos presentes os valores da comunidade de Tönnies, ou seja, a igualdade, a humanidade, a aproximação entre os membros. Victor Turner relaciona a noção de liminaridade com a communitas. A liminaridade é a condição de pessoas que não estão posicionadas em uma classificação específica num espaço cultural, sendo suas características ambíguas e indeterminadas, são pessoas que estão transitando. Por isso, freqüentemente a liminaridade é comparada à morte, ao estar no útero, na escuridão, na invisibilidade. As pessoas ou entidades que estão vivendo em estado de liminaridade não possuem um “status” definido, “propriedades, insígnias, roupa mundana indicativa de classe ou papel social, posição em um sistema de parentesco, em suma, nada que a possa distinguir de seus colegas neófitos ou em processo de iniciação”. (TURNER, 1974, p. 117/118). O autor afirma que nas iniciações e ritos de passagem há muitos símbolos liminares. Os rituais de passagem levam o indivíduo a distanciar-se de sua posição social. 27 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 O estado de liminaridade (transição) é aprofundado em relação ao neófito, que “deve ser uma tabula rasa, uma lousa em branco, na qual se inscreve o conhecimento e a sabedoria do grupo, nos aspectos pertinentes ao “status”.” (ibid, p. 127), ou seja, aquele que é admitido em um grupo deve despir-se de tudo o que trazia consigo até então, para incorporar a maneira de vida do grupo a que adere. O referido antropólogo enumera uma longa lista das características da liminaridade, opondo-as ao sistema de posições sociais, foram enumeradas algumas, que chamaram a atenção de plano, pois têm relação com o problema pesquisado neste trabalho. São elas: transição, totalidade, homogeneidade, “communitas”, ausência de propriedade, nudez ou uniformidade de vestuário, humildade, descuido com a aparência pessoal, obediência total, sacralidade, silêncio, referência contínua aos poderes místicos, insensatez, simplicidade, aceitação de dores e sofrimentos. Turner afirma que muitos desses traços aparecem nas ordens religiosas cristãs, mas que também a institucionalização da liminaridade aconteceu de forma marcante nos estados monásticos e mendicantes, das grandes religiões mundiais. Significa dizer que a communitas nasce fora da estrutura, mas pode incorporar-se a ela através de uma institucionalização. Uma das características do estado de liminaridade apresentada pelas ordens religiosas é o nivelamento: quando um neófito chega para entrar na vida monástica, ele é convidado a despir-se de tudo o que vivia na vida anterior, também de roupas e bens, além do “status” social e de abandonar até seus antigos nomes. Há um receio, por parte de quem quer manter a estrutura, de que as manifestações do estado de liminaridade apareçam na estrutura. Por isso, taxam-nas de “perigosas e anárquicas, e precisam ser rodeadas por prescrições, proibições e condições”. (ibid, p. 133). Aqui se percebe, mais uma vez, a aproximação entre os conceitos de estado nascente de Alberoni, com o de liminaridade, de Turner. A liminaridade seria uma condição que é exteriorizada pela marginalidade ou situação de estar fora da sociedade ou contexto abrangente enquanto o estado nascente seria uma condição psicológica, um estado de espírito ou uma condição interior. Com o tempo, a communitas se transforma em relações de estrutura, com suas normas. Há, pois, que se considerarem alguns tipos de communitas: a communitas existencial ou espontânea (busca uma experiência transformadora, além da amizade, que “vai até as raízes do ser de cada pessoa, e encontra nessas raízes algo profundamente comunal e compartilhado. (ibid, p. 169)”, sendo uma fase, um momento, não uma condição permanente; a communitas 28 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 normativa (quando a communitas existencial passa a organizar-se em um sistema de normas) e a communitas ideológica (modelos utópicos de sociedade, baseados na communitas existencial). Procurou-se enquadrar nessa classificação de comunidades feita por Turner as comunidades estudadas nesta dissertação (Comunidades Novas de Vida e Aliança). De acordo com as pesquisas realizadas, pode-se dizer que essas comunidades podem se enquadrar ora em um, ora em outro tipo de communitas, dependendo do estágio em que se encontre no processo de institucionalização. Ou seja, existem Comunidades onde há com nitidez a presença da communitas espontânea, aquelas que estão iniciando a sua fundação; outras que estão na communitas normativa, porque sentem a necessidade, e também são pressionadas pela Igreja, a normatizar-se; e, por fim, há aquelas com as características da communitas ideológica, pois não passaram pela experiência da communitas espontânea, mas querem nela basear-se para estruturar esse modelo utópico de comunidade, como enfatiza Turner (1974, p. 171): É essencial que se distinga entre os modelos ideais de communitas apresentados na literatura ou proclamados pelos fundadores de movimentos ou de efetivas comunidades, e o processo social resultante das tentativas entusiásticas do fundador e de seus discípulos de viverem de acordo com esses modelos. Ao longo do tempo os fundadores acabam percebendo o que difere a communitas que foi por ele idealizada e a que realmente existe, ou seja, entre a communitas espontânea e a communitas normativa. A Comunidade idealizada por São Francisco é apresentada por Turner como um modelo clássico de tentativa do fundador de viver de acordo com o modelo de Comunidade original. O estudo da ordem Franciscana revela um paradigma processual do destino da “communitas” espontânea. Segundo este autor, o modo de Francisco pensar revela uma pessoa que ama a communitas existencial, pois é “com a relação direta entre um homem e outro, e entre o homem e a natureza” (ibid, p.172). O sonho também é uma característica dos participantes de communitas, tendo São Francisco tomado muitas decisões essenciais com base no simbolismo dos sonhos. Porém, São Francisco sentiu dificuldade em escrever uma constituição detalhada por imposição dos frades, posto que a ordem estivesse crescendo bastante. Martin Burber, citado por Turner, propõe uma forma para as comunidades que se reproduzem buscar conseguir uma 29 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 coerência: “profundo tato espiritual dando formas à relação entre centralismo e descentralização, e entre idéia e realidade, com a constante e infatigável pesagem e mediação da exata proporção entre elas” (Burber apud Turner, ibid, p. 174). O fundador da ordem franciscana também imaginava seus frades como pessoas em liminares, em passagem para o céu, dando ênfase ao estar sem e ao não ter; também desejava que seus frades cortassem inteiramente as amarras com o sistema comercial do mundo, com a ausência literal de propriedade. Aí estava mais uma dificuldade com a estruturação da ordem, pois, como diz Turner (ibid, p. 178), “a propriedade e a estrutura estão indissoluvelmente intercaladas, e a constituição de unidades sociais duradouras incorpora ambas as dimensões, bem como os valores centrais que legitimizam.” Assim, com o tempo, a simplicidade das regras ditas por São Francisco tornou-se bem mais legalistas. 1.3 Processo comunitário Por processo comunitário entenda-se as dinâmicas ocorridas no interior de um novo movimento ou de uma comunidade nascente, a partir das relações entre os membros e desses com a sociedade. 1.3.1 Os sujeitos do estado nascente Quando se fala do indivíduo isolado vivendo um estado nascente, este aparece como uma “conversão, transformação interior, metanóia, repentina e profunda renovação do próprio modo de ser e de pensar devido a uma descoberta ou uma revelação religiosa, filosófica, artística, política ou amorosa” (ALBERONI, 1991, p. 39). É possível fazer uma distinção clara entre a idéia de estado nascente e de liminaridade. Os sujeitos do estado nascente aparecem quando as estruturas não mais satisfazem e o cotidiano não dá mais resposta. Nesse momento, ou se cai na desesperança e nenhuma reação acontece, ou sobressai-se dentro das pessoas uma poderosa “vontade de viver, de existir” (ibid, p.69). Podem ser citados como alguns exemplos de pessoas que viveram a experiência do estado nascente em geral, precisaram superar uma situação difícil ou trazem em si um forte sentimento de ordem, de regra, de instituição: Buda, Cristo, Paulo de Tarso, Lutero, Lenin. 30 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 1.3.2 O Contexto externo de surgimento A forma ou o momento como é desencadeado o estado nascente depende de várias condições, não é algo intencional, mas pode ser provocado, como todo fenômeno espontâneo (ibid,p. 45). O supramencionado autor fala ainda de precondições estruturais para o surgimento do estado nascente, uma tensão entre ordem e desordem, entre algo que era e já não pode voltar a ser, é necessário fazer-se um novo. “Surgem novas possibilidades de ação, enquanto as velhas são desacreditadas”. (ibid, p. 67). 1.3.3 A experiência fundamental Experiência fundamental são as principais características em geral presentes no estado nascente, quais sejam: (a) a experiência de libertação, (b) o renascer, (c) o transcender, (d) a historicização, (e) a liberdade e o destino, (f) o dilema ético, (g) a unanimidade, (h) a fraternidade, (i) o comunismo, (j) o sistema externo. a) A experiência de libertação está presente no estado nascente “porque são abatidas proibições, regras, repressões que já se tornaram pesadas ou intoleráveis” (ibid, p. 91). Segundo o autor, o termo libertação indica uma manifestação da verdade, uma clareza das coisas. b) O renascer indica que algo desmoronou e algo novo está se iniciando. “O tema do homem novo está presente no cristianismo primitivo, volta a aparecer a cada explosão religiosa cristã” (ibid, p. 93). c) A historicização se refere a não desprezar o passado, mas fazer um futuro novo a partir desse passado. Essa é uma característica do estado nascente porque só aí há uma disposição para olhar o passado com olhos de quem deseja mudar o rumo da vida partir de então. d) A liberdade e o destino se apresentam como a capacidade existente no estado nascente de ser livre para direcionar a própria vida de forma diferente do que normalmente as pessoas o fazem. Nesse aspecto, há uma relação estreita da procura da liberdade com a procura de Deus, Alberoni afirma que “O ser humano só é livre se buscar o unum, verum et bonum, se buscar Deus”. (ibid, p. 108) 31 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 e) O dilema ético é conflito interior presente no estado nascente porque, apesar de vislumbrar uma realidade transcendente, o estado nascente está no mundo, e o mundo tem suas leis e contradições. A experiência de transcendência, ou metafísica, precisa ser vivida pelos sujeitos do estado nascente. O normal da vida diária é estarmos com os pés bem firmados na realidade, e parece que não se pode mudar nada. No estado nascente têm-se a impressão de que tudo poderia ser diferente. “Análoga é a experiência do reformador religioso que compreende, compreende até o fundo da alma, que a ordem edificada pela Igreja não é a ordem de Deus” (ibid, p. 95). Um exemplo dado por Turner se refere, como exposto anteriormente, à ordem franciscana, quando seu fundador pretende uma comunidade idealizada em seus objetivos e vivências e encontra os obstáculos da necessidade de organizar-se. Esse dilema ético provoca uma divisão interior “O renascido é também o dilacerado, o dividido” (ibid, p. 113). Victor Turner também fala de um renascimento do homem no processo ritual, com a necessidade de sair da estrutura, ficando na liminaridade, para poder a ela retornar após um renascimento (TURNER, 1974, p. 117-119) f) A unanimidade é também algo presente, de forma espontânea, nos grupos que vivenciam o estado nascente. “Os grupos no estado nascente estão sempre prontos a assimilar experiências novas. O próprio fato de ver-se cercado de tanta gente, entretanto, provoca no indivíduo um espontâneo moldar-se conforme as expectativas gerais”. (ALBERONI, 1991, p. 119). Victor Turner também traz, entre as características da liminaridade, presente da “communitas”, a uniformidade no vestir e no comportar-se, criando um intenso sentimento de igualdade entre os iniciados, desaparecendo ou homogeneizando as distinções de classe (TURNER, 1974, p. 118). g) A fraternidade existe de forma calorosa em um grupo no estado nascente, porque há um forte sentimento de participação. O grupo é aberto a outros membros, sem maiores condições. “Para compreendermos se um processo está no estado nascente ou se é uma instituição, muitas vezes basta observar como acontece a admissão no grupo.” (ALBERONI, 1991, p. 121). h) O comunismo também é realidade no estado nascente, a experiência de se colocar tudo em comum. “O estado nascente nada pede, consegue tudo de que necessita. Depois a instituição se consolida e impõe a renúncia.” (ibid, p. 130) 32 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 i) E, finalmente, o sistema externo é representado por todos aqueles que não estão vivendo a experiência do estado nascente. “Quem está no sistema externo não percebe que o estado nascente é uma busca, uma exploração do possível.” (ibid, p. 133/134). Nesse sentido, E. Troeltsch já aprofundava a relação entre seita e igreja, no sentido de seita como movimento religioso que se confronta com a Igreja. A seita seria uma opção de separação da instituição Igreja. A partir dessa distinção, muitos estudos foram feitos, por exemplo, dos vários movimentos ocorridos no cristianismo através dos tempos. (FILORAMO, 2003). 1.4 Panorama sócio-cultural atual e a idéia de comunidade O projeto de modernidade entrou em foco durante o século XVIII, conforme expõe Habermas4 (Harbemas, apud Harvey, 1994, p. 23). Esse projeto equivalia a um extraordinário esforço intelectual dos pensadores iluministas ‘para desenvolver a ciência objetiva, a moralidade e a lei universais (...). Os escritores iluministas estavam possuídos da idéia de que “as artes e as ciências iriam promover não somente o controle das forças naturais como também a compreensão do mundo e do eu, o progresso moral, a justiça das instituições e até a felicidade dos seres humanos. O século XX afastou esse otimismo, diante das guerras mundiais, do militarismo, das ameaças de aniquilação nuclear. Ao contrário, foi alegado que, por trás da lógica de racionalidade do iluminismo, há uma lógica de dominação e de opressão. Já no início do século XX, pensadores como Max Weber, alegava que “a esperança e a expectativa dos pensadores iluministas era uma amarga e irônica ilusão” (Bernstein apud Harvey, 1994, p. 25). Essas enormes mudanças vêm ocorrendo desde a década de 1970, especificamente no modo de vivenciar o tempo e o espaço. A modernidade trouxe conseqüências históricas, culturais, sociais, artísticas, como, por exemplo, o sentido do fugidio, do efêmero, do fragmentário e do contingente (HARVEY, 1994), que dificulta o sentido de continuidade histórica, assim, rompe com as condições históricas precedentes. Para Zygmunt Bauman (2003), a idéia de comunidade remete a priori a algo “bom”. Essa idéia viria da mitologia grega ou da Bíblia, pois em ambos a noção de paraíso está relacionada ao conceito de inocência, de pertencimento a um grupo sem interesses 4 Jüerger Habermas, filósofo e sociólogo alemão da atualidade. 33 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 individualistas. Temos guardada em nossa memória essa idéia nostálgica de paraíso perdido, de uma comunidade que fazia-nos sentir dentro do ninho, confortáveis e seguros. Paradoxalmente, existe ainda para o autor, uma tensão entre essa utópica e almejada segurança e a idéia de liberdade, na medida em que a vivência em comunidade significa a perda da liberdade individual. Na realidade atual, para Bauman, a comunidade estaria em baixa, o que se vê são necessidades de agrupamentos em guetos, expressão extrema de negação do conceito de comunidade. A formação de guetos vem como conseqüência das formas de exploração, perpetuação e aprofundamento da divisão da sociedade em classes econômicas. De um lado, temos alguns bem-sucedidos que não se importam com a idéia de comunidade, preferem o isolamento, entendem que não ganhariam nada permanecendo na comunidade. Em linhas gerais, os guetos se caracterizariam pelo confinamento espacial e fechamento social, tendo a homogeneidade dos “de dentro” e a heterogeneidade dos “de fora”. Analisando as relações humanas na pós-modernidade, Michel Maffesoli (1998) apresenta como uma das características desse tempo a coletivização dos sentimentos. Mas essa tendência à união, não significa que queremos transformar o mundo, mas contemplá-lo. “A prevalência da estética, a perspectiva ecológica, a não-atividade política, as diferentes formas do souci de soi e os diversos cultos do corpo são, na realidade, não importa o que possam parecer, forma desta ‘contemplação’” (ibid, Prefácio ). O referido autor fala do neotribalismo, para diferenciar que, ao contrário da estabilidade induzida pelo tribalismo clássico, o “é caracterizado pela fluidez, as reuniões pontuais e a dispersão.” (ibid, Prefácio) Trabalha ainda a seguinte reflexão: “O vaivém constante que se estabelece entre a massificação crescente e o desenvolvimento dos microgrupos que chamarei ‘tribos’.” (ibid, p. 8). Para ele, é a tensão fundadora da sociabilidade do fim do século XX, pois sem a lógica da identidade, não são sujeitos de uma história em marcha, no entanto, na metáfora da tribo o sociólogo pretende demonstrar o processo de desindividualização, a saturação da função e a valorização do papel que cada pessoa é chamada a representar dentro dela. Relacionando com o gueto de Bauman, a noção de tribo trazida por Michel Maffesoli é apresentada como resultante do processo de massificação com a formação de grupos, caracterizados por reuniões pontuais, dispersão e fluidez, diferente daqueles, que se caracterizam por um confinamento espacial e um fechamento social, sendo uma estrutura fechada e não aberta, como as tribos. 34 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Para Maffesoli, o problema do individualismo está essencialmente presente na Modernidade, na Pós-Modernidade, “a massa indefinida, o povo sem identidade ou o tribalismo enquanto nebulosa de pequenas entidades locais, contrapõem-se ao individualismo” (ibid, p. 14) No referido livro “O tempo das tribos”, Maffesoli desenvolve as idéias de “comunidade emocional”, “tribalismo” e “proxemia”. A comunidade emocional surge a partir da noção de persona, em voga nos tempos atuais e que só existe em relação com o outro. As relações sociais são impulsionadas por sentimentos. Citando a concepção de “comunidade emocional” para Max Weber, que demonstra sua existência em todas as religiões, e, geralmente, à parte dos enrijecimentos institucionais, afirma que suas características são: o aspecto efêmero, a composição cambiante, a inscrição local, a ausência de uma organização e a estrutura quotidiana. Também cita Durkheim, quando este fala da “natureza social dos sentimentos”, simplesmente porque se procura a companhia “daqueles que pensam e que sentem como nós” (Durkheim apud Maffesoli: 1998, p. 19). Remete-se ainda a Berguer, lembrando a diferenciação que este faz do gregarismo para o grupismo, pois neste há uma preocupação dos seus membros de reforçar aquilo que é comum a todos, devido ao processo de identificação com o grupo. Então, para Maffesoli, a comunidade se realiza no simples estar-junto, nos sentimentos comuns. Enquanto a sociedade está voltada para a história futura, a comunidade se concentra na própria criação, na repetição do ritual, que assegura a permanência do grupo. Há o “momento tribal” que, comparado ao período de gestação, equivale a algo que está sendo aperfeiçoado, provado, experimentado, “o vivido e a experiência partilhada podem ser o fogo depurador do processo alquímico que permite a transmutação.” (MAFFESOLI, 1998, p. 30). O costume (usos comuns), além da estética (sentir em comum) e da ética (o laço coletivo) caracterizam a vida dos grupos contemporâneos. O autor explica que a cultura de hoje é feita de pequenas coisas vividas no dia a dia, que dão conta de uma sensibilidade coletiva, dos lugares de convivialidade, onde circula a palavra, o alimento e a bebida, lembrando da mesa eucarística para os cristãos, que enfatiza a união dos fiéis e a união com Deus ao redor de uma mesa. Maffesoli postula um reencantamento do mundo que acontece principalmente na emoção ou na sensibilidade vivida em comum. 35 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 A socióloga francesa Danièle Hervieu-Léger, que fala da religião na sociedade atual como uma rede de comunidades emocionais, diz que na contemporaneidade existe uma crise institucional do religioso que ameaça a estrutura hierárquica da Igreja Católica, pelos fenômenos correlatos da proliferação do “neocomunitarismo” dentro da própria Igreja e do processo de individualização da fé (HERVIEU-LÉGER, 2005). Já Carranza (2005 apud MAIA, 2008) coaduna com esse posicionamento, dizendo que há uma processo de deinstitucionalização, ao tempo em que há uma tentativa de retradicionalização, presente nas práticas da RCC. Enquanto Miranda (1999 Ibid) corrobora essa reflexão, dizendo que há uma continuidade do catolicismo tradicional na RCC e nas CNVA, porque reforçam a hierarquia da Igreja, ao tempo em que separa os mundos (espiritual e social; dentro e fora da comunidade), legitima um sistema de valores, reproduzindo-o e transmitindo-o e, finalmente, vai construindo também uma visão alternativa de sociedade (MIRANDA, 1999, p. 65, Ibid). Esses e outros autores têm estudado o fenômeno da religião atual e da comunidade, produzindo definições diversas. Entretanto, passar-se-á a discorrer, no capítulo seguinte, sobre algumas formas de comunidades cristãs, buscando modelos da antiguidade até os dias atuais, para que seja possível se aproximar do tema desta pesquisa, que são as Comunidades Novas de Vida e Aliança. 36 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 2 COMUNIDADES CRISTÃS AO LONGO DA HISTÓRIA Desde os primeiros séculos do Cristianismo surgiram comunidades religiosas nas quais se reuniam os cristãos, seja para fortalecerem a sua fé, seja para melhor propagá-la. O cristianismo cresceu e se desenvolveu dentro do quadro político-cultural do Império Romano. Talvez influenciados pela cultura da época e local, os três primeiros séculos do cristianismo se caracterizam por um estilo secular de vida. Nesses três séculos o Império Romano perseguiu os cristãos, no século IV os cristãos conseguiram a liberdade religiosa dentro do Império Romano, até o cristianismo se converter em religião oficial do Estado, no tempo de Teodósio. Nessa época, a Igreja Católica deu início à organização de suas estruturas territoriais. 2.1 Primeiras comunidades cristãs A religião cristã, especificamente estudada nesta dissertação, em sua expressão católica, tem uma forte tendência comunitária. Jesus de Nazaré, o Cristo, tem como o seu mandamento maior “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”(Jo 15, 11). Depois de Pentecostes (Atos dos Apóstolos, Capítulo 2), quando os apóstolos e Maria, reunidos em oração, receberam o dom do Espírito Santo, em forma de línguas de fogo, expandem-se as comunidades cristãs e a Igreja. Os Atos dos Apóstolos e as cartas, chegadas até nós sob os nomes de S. Paulo e dos apóstolos Tiago, Pedro, João e Judas, fazem uma descrição do que eram as primeiras comunidades cristãs. Por exemplo, At 2, 42-47: Eles se mostravam assíduos aos ensinamentos dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações. O temor se apossava de todos os espíritos, porque numerosos eram os prodígios e sinais realizados pelos Apóstolos. Todos os fiéis, unidos, tinham tudo em comum; vendiam as suas propriedades e os seus bens e dividiam o preço entre todos, segundo as necessidades de cada um. Dia após dia, unânimes, freqüentavam assiduamente o Templo e partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e gozavam do favor de todo o povo. E, cada dia, o Senhor acrescentava à comunidade os que seriam salvos. 37 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 O ensinamento dos apóstolos diz respeito ao Evangelho, que a comunidade recebe dos discípulos de Jesus, daqueles que com ele conviveram, e tem neles o seu fundamento. A comunhão (koinonia) é um modo de viver em comunidade que tem uma dimensão subjetiva expressa na fórmula “tinham um só coração e uma só alma” (Atos 4, 32) e uma dimensão objetiva expressa em três aspectos: primeiro tinham tudo em comum, ou porque ninguém considerava seu o que possuía ou porque vendiam tudo e entregavam aos apóstolos; segundo tudo era repartido para cada um conforme suas necessidades e terceiro não havia nenhum necessitado entre eles. A fração do pão se refere, certamente, à Eucaristia. Nas primeiras comunidades, ela era celebrada nas casas, no contexto de uma refeição (Lc 22, 14-20; 24,28-31). Era presidida normalmente pelo chefe do local, cabeça da comunidade eclesial, que se reunia em sua casa (RICHARD, 1999). Outro relato bem diverso de uma reunião comunitária encontra-se em Atos dos Apóstolos 4, 23-31: Logo que foram postos em liberdade, Pedro e João voltaram para junto dos irmãos e contaram tudo o que os chefes dos sacerdotes e os anciãos haviam dito. Ao ouvir o relato, todos elevaram a voz a Deus, dizendo: “Senhor, tu criaste o céu, a terra, o mar e tudo o que existe neles. (...) Agora, Senhor, olha as ameaças que fazem e concede que os teus servos anunciem corajosamente a tua palavra (...)”. Quando terminaram a oração, estremeceu o lugar onde estavam reunidos. Todos, então, ficaram cheios do Espírito Santo e, com coragem, anunciavam a palavra de Deus. É uma reunião de uma comunidade muito mais missionária e carismática do que estabelecida como mostramos em Atos 2,42. Há uma partilha dos apóstolos com os demais irmãos sobre o que ocorreu, oram e interpretam a Palavra de Deus, em comunidade. No final, há uma semelhança com o evento de pentecostes. O livro dos Atos dos Apóstolos provavelmente foi redigido depois da destruição do Templo, sob a ordem de Tito, em 70 (DONINI, 1988, p. 97). Dele provém a fonte principal para caracterizar as primeiras comunidades cristãs. As primeiras comunidades cristãs surgiram logo após a morte de Jesus Cristo, com as atividades dos apóstolos, após o acontecimento de pentecostes, narrado em Atos 2,1-4. Nesse acontecimento, os apóstolos reunidos em oração recebem o dom do Espírito Santo, que lhes deu a coragem de expandir os valores de Jesus Cristo. Foi especialmente Paulo de Tarso, antes perseguidor dos cristãos, depois “apóstolo dos gentios”, como ele mesmo se 38 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 autodenomina (Atos dos Apóstolos), quem fundou muitas dessas comunidades no mundo mediterrâneo. Antes da institucionalização, a igreja é estruturada em pequenas comunidades domésticas, que fazem o Evangelho de Jesus se expandir nas cidades e nas culturas. “A pequena comunidade é o lugar onde se mantém vivo o ensinamento dos apóstolos (a memória de Jesus) e onde se vive a koinonia (eles tinham tudo em comum), a diakonía (não havia pobres entre eles) e a Eucaristia - At 2, 42-47” (RICHARD, 1999, p. 07). Os primeiros cristãos eram chamados “nazarenos” e se tratavam em geral como irmãos e irmãs (em grego adelphos e adelphe). Um dos valores primordiais dos cristãos era (e ainda deve ser) a hospitalidade e ajuda dada aos irmãos sem distinção, muito enfatizada nas cartas de Paulo. Pode-se imaginar que a sociedade dos primeiros séculos depois de cristo era bem diferente da de hoje. As comunidades eram pequenas e compactas, com um vivo sentimento de vida em comum. Não havia um templo onde se reunissem para o culto nos finais de semana, ninguém falava em cristianismo, mas no “caminho”, ou “via” (MORAIS, 1992). As pequenas células eram a própria ekklesia (grupo local de fiéis) e se reuniam na casa de um dos fiéis que fosse mais próspero, eram reuniões informais, privadas e secretas (ibid), sendo uma das finalidades “comer a ceia do Senhor” (I Cor. 11,20). Vê-se, pois, que as primeiras comunidades cristãs não moravam sob o mesmo teto, como as Comunidades de Vida em estudo, nesta dissertação. No entanto, mesmo morando em casas separadas, possuíam um forte sentido de irmandade e se reuniam toda semana. O valor que norteava a prática dos primeiros cristãos era certamente o amor ágape, ou seja, o amor cristão, sem limites e barreiras, ele direcionava a prática da solidariedade (MORAIS, 1992). As primeiras comunidades cristãs se desenvolveram principalmente na palestina, nas regiões da bacia oriental do Mediterrâneo, da Ásia Menor à Síria, Trácia, Macedônia, Grécia Setentrional, Egito e África Setentrional, em um ambiente popular, de pobres e sem direitos, “com formas ao mesmo tempo avançadas e ingênuas de solidariedade assistencial, nos confrontos com um mundo privilegiado e egoísta” (DONINI, 1988, p. 89). Talvez o ambiente pobre tenha ajudado a difusão das comunidades cristãs, por causa da mensagem de iniciação religiosa transmitida pelos missionários cristãos, formando comunidades que se ligavam por vínculos de solidariedade e de apoio mútuo. Um dos maiores desafios de se dizer cristão, ainda hoje, é a vivência do “amor fraterno”, e é justamente esse o maior pedido do mestre Jesus Cristo. A comunidade cristã 39 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 busca apoiar-se nos valores da ajuda mútua, no acolhimento, na opção pelos pobres, na “partilha do que se é e do que se tem” (discurso dos líderes das Comunidades Novas) nas relações verdadeiras, no fazer o bem sempre, no servir uns aos outros, na oração constante, na santidade de vida. Nas epístolas de Paulo, muitas vezes encontramos conselhos sobre os valores que devem estar presentes na vida dos cristãos (Rom 12,9-12.16-17.21): O amor seja sincero. Detestai o mal, apegai-vos ao bem. Que o amor fraterno vos una uns aos outros, com terna afeição, rivalizando-vos em atenções recíprocas. Sede zelosos e diligentes, fervorosos de espírito, servindo sempre ao Senhor, alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração. Mantende um bom entendimento uns com os outros; não sejais pretensiosos, mas acomodai-vos às coisas humildes. A ninguém pagueis o mal com o mal. Empenhai-vos em fazer o bem diante de todos. Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem. Por fim, pode-se ressaltar que, nas comunidades primitivas, a atuação das mulheres era expressiva, apesar da sociedade da época ser acentuadamente machista; percebemos ainda que, desde os seus primórdios, a Igreja tem uma constituição hierárquica, formada pelos apóstolos e por Pedro e que foi se difundindo no mundo Romano, principalmente nas cidades, por meio do boca a boca. 2.2 Primeiras comunidades religiosas monásticas O início da vida monástica remonta ao século IV, quando o cristianismo é reconhecido como religião oficial do Império Romano por Constantino (313) e Teodósio (380), e a Igreja passou a ter privilégios, riquezas e conversões em massa. Alguns cristãos abandonaram a vida da cidade e foram para o deserto, desejando viver a integridade do cristianismo de forma mais radical (SOUSA, 2007, p. 9). Uma das formas mais antigas dessa vida comunitária religiosa é a cenobítica (do grego koinós bio = vida comum), nas quais os discípulos se reuniam em torno de um pai comum. No princípio, cada um tinha sua cela e alguns espaços em comum (refeitório, capela, enfermaria), combinando o estilo de vida comunitária com a solitária. Um dos pais mais conhecidos é Pacômio, que no decorrer da experiência propôs uma regra de vida para a comunidade, dividindo os monges nos diversos ofícios manuais, e havia a presença de um superior, que era o seu pai espiritual, e dirigia todos os trabalhos, sendo-lhe devidas obediência e abertura total de consciência. 40 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 A espiritualidade baseava-se na leitura meditada e ruminada na Escritura; as atitudes dos monges deveriam ser de humildade, serviço e submissão, além de uma ascese adequada; havia mudança de traje. Esse estilo de vida existe até hoje na igreja, o exemplo mais conhecido é o dos Cartuchos, a única ordem que não sofreu reforma. Conforme salienta Sousa (2007, p. 10): Quando Pacômio morreu (346) havia 08 fundações para homens e 02 para mulheres e no final do século havia no Egito mais de 5 mil monges (...) É um movimento carismático e profético que ninguém poderia ter imaginado nem programado. Lentamente o monacato se espalhou pela Europa, sendo Bento de Núrcia (480-543) a sua figura principal, nos séculos V e VI. Inicialmente ele retirou-se para vida eremítica em Subiaco, depois fundou o mosteiro de Monte Cassino, em 529. Dele temos a famosa Regra, que tem um sentido de equilíbrio entre trabalho, oração e descanso, regulados pela obediência. Aparecem os votos religiosos feitos nas mãos dos abades, sem a formulação de obediência, castidade e pobreza, os votos são de estabilidade (permanência no mesmo mosteiro por toda vida), obediência ao abade e conversation morum (conversão de costumes), que se refere à vida em comum levada às últimas conseqüências, pois os monges beneditinos possuem coro, refeitório, lugar de trabalho e até dormitório em comum. A liturgia, o opus divinum, ocupa lugar principal, sendo o trabalho também importante (ibid). O mosteiro beneditino é, em sua origem, composto por monges não ordenados. Com o passar dos anos e sua propagação, a partir do século VII, de laical passou a ser predominantemente clerical. Há um momento em que a Igreja chega a ser monástica, os monges evangelizam a Europa ensinando as pessoas a lerem e a rezarem. A ordem cristã ocidental de São Bento, citada por Victor Turner, possui características interessantes abaixo expressas: provê a subsistência de homens que desejam viver em comunidade, devotarse inteiramente ao serviço de Deus pela autodisciplina, a oração e o trabalho. Devem formar essencialmente famílias, sob os cuidados e o controle absoluto de um pai (o abade); individualmente, são obrigados à pobreza pessoal, abstenção do casamento e obediência aos superiores, bem como pelos votos de estabilidade e conversão de conduta (sendo originariamente sinônimo de ‘vida em comum’, a ‘vida monástica’ distinguia-se da vida secular), um grau moderado de austeridade é imposto pelo ofício noturno, o jejum, pela abstinência de carne e restrição na conversa. (Attwater, 1961, p.51 apud Turner, 1974, p. 133, grifos nossos): 41 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 O supracitado autor enfatiza os processos de despojamento e de nivelamento do iniciado, quando se chega à ordem, como característica do processo ritual de liminaridade. Em História da Vida Privada 25, verificam-se as características dos mosteiros beneditinos na época da idade média, no século IX. A descrição de suas construções demonstra uma tentativa de serem réplicas da morada do paraíso, assim como a sua estrutura hierárquica interna, organizado em função de um projeto de perfeição estabelecido a partir das regras de São Bento. Nessa época, continuando nos séculos XI e XII, grandes recursos convergiam para a instituição monástica. Eram cidades fechadas, com a abertura na hotelaria, que governava a relação entre o interno e o externo. Esses mosteiros chegaram a tamanhos desmesurados como o mosteiro em Corbie, 852, onde “viviam 150 monges, 150 viúvas eram sustentadas permanentemente à porta e trezentos hóspedes recebidos a cada dia na hospedaria” (ARIÈS, 1990, p. 58) Os papéis no mosteiro são bem definidos. O abade é o senhor e tem autoridade exclusiva e rege toda sociedade doméstica. É assistido por uma equipe, os “seniores”, que o aconselham e apóia-se em chefes de serviços. O primeiro, o “prior” é uma espécie de vicesenhor, que supre a ausência do abade; o sacristão é aquele que cuida das coisas referentes à igreja, abre e fecha, zela pelos utensílios; o camareiro é quem guarda o dinheiro e tudo aquilo que com ele se consegue; o ecônomo é o senhor do celeiro, onde dorme um monge e onde se mantém permanentemente uma luz, ele reparte, a cada dia, as porções de alimento; o hospedeiro e o capelão são responsáveis pelas relações com as pessoas do exterior, consideradas menos puras e abaixo da dignidade monástica, eles distribuem os excedentes entre os indigentes, visitam os doentes homens acamados fora dos muros, albergam os pobres de passagem. (ibid) A fraternidade do mosteiro, agrupada atrás de um pai, é descrita pela História da Vida Privada 2 (ibid, p. 63/68), em seus quatro grupos: o noviciado, a enfermaria, o cemitério e o claustro. O noviciado era separado da Igreja pela morada dos monges, um lugar transitório e de gestação onde ficavam aqueles que chegavam ao mosteiro para se tornarem monges, inclusive crianças, deixadas junto com seus dotes. Ali eram alimentadas e educadas, sob a direção de um mestre; quando se considerava a aprendizagem terminada, eram transferidas solenemente para o meio dos monges. O rito era de integração, com a profissão da fórmula escrita, assinada e lida; depois depositada no altar, diante da comunidade reunida. Em seguida, veste a 5 Coleção dirigida por Philippe Ariès e Georges Duby. 42 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 peca do vestuário que ainda lhe falta, a cogula; por fim, recebe um beijo de cada um dos irmãos, iniciando pelo abade. Após a cerimônia, o novo monge passa três dias de recolhimento, em retiro silencioso e privado, o corpo coberto noite e dia pela cogula e a cabeça pelo capu como uma forma de provação. A enfermaria é um lugar de espera, onde se encontram os enfermos, isolados do resto da comunidade, pois a doença era considerada como marca do pecado. “os internos da enfermaria eram reconhecidos por seu bastão, sinal de fraqueza, por sua cabeça coberta, sinal de penitência.” (ibid, p. 62). Os que de lá não voltavam, “passavam para o outro mundo”, sendo a morte precedida de uma cerimônia em que o falecido era levado por outros monges para a Igreja e sepultado no cemitério, após a salmodia. O cemitério era o terceiro quarto desse espaço familiar, estando os defuntos integrados aos seus irmãos vivos. No dia do aniversário do seu falecimento, era servida uma refeição saborosa e suplementar, da qual fazia parte apenas a comunidade. Por fim, a moradia queria mostrar o que seria na terra uma vida privada perfeita. O claustro era o pátio interno, voltado para o privado, em forma de praça, de lá se ordenavam o tempo e as atividades funcionais, distribuídas entre os compartimentos do edifício, o mais ordenado era o consagrado ao Opus Dei, ao trabalho para Deus, era a igreja, onde faziam as orações cantadas em comunidade. Ao seu lado, estava a sala para conferências e reuniões de justiça, onde se tratavam das questões temporais e se procediam às correções mútuas. Os faltosos eram flagelados e afastados temporariamente da comunidade, como castigo. O refeitório, também parte da moradia, era onde se tomavam as refeições em comum, nas quais se celebrava a unidade fraterna, sentados, em perfeita ordem, comandados pelos sinais silenciosos do abade, enquanto um irmão lia um texto. O dormitório, local mais retirado da moradia, era ocupado por todos os monges, inclusive o abade, dormindo cada um em sua cama, “que a regra proibia formalmente de partilhar” (ibid, p. 68). Enfim, de acordo com as afirmações de Sousa (2007, p. 12), “os mosteiros eram tudo na Idade Média: roça, hospital, escola. Por causa disso, recebiam muitas doações e heranças e se tornaram muito ricos. O trabalho manual foi sendo deixado para os escravos e a oração se transformou em culto suntuoso.” Assim, o mosteiro foi passando de um local retirado para o centro do poder sócio-eclesial, que pode ter sido fruto de um excessivo processo de institucionalização. Começaram, então, as reformas. Durante os anos de 927-941, Santo Odão, ou Otão, segundo abade do mosteiro de Cluny, promoveu um retorno à Regra beneditina, à observância 43 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 dos votos, ao estudo, à oração, ao trabalho manual. No século XII, os mosteiros de Cluny já se arrefeciam no fervor reformista. Alguns monges fundaram a ordem dos cistercienses, chamados monges brancos para se diferenciarem dos monges pretos de Cluny, liderado por Bernardo de Claraval, com ímpeto de manter o trabalho manual, a austeridade de vida e a simplicidade. Mesmo assim, os mosteiros se enriquecem no envolvimento com o sistema feudal. Dois elementos teológicos dos mosteiros nessa época eram a escatologia e o exorcismo, a partir dos quais tentavam reproduzir o paraíso celeste pela própria arquitetura do mosteiro, voltada para o céu e queriam destruir o poder do Demônio. Tönnies (1995) analisa as comunidades religiosas como essas, - existentes ainda hoje, com mudanças em alguns aspectos -, em função do Estado, portanto, não as considera comunidades, e sim sociedades religiosas. Nessa visão, as comunidades religiosas são vistas dentro de uma condição de instituídas. 2.3 Comunidades religiosas mendicantes O século XIII, na Europa, marca a mudança da vida rural para as cidades em expansão, surgem subúrbios pobres, povoados e burgos ricos pela intensificação do comércio. Há o desmoronamento do sistema feudal, mas a igreja, totalmente incorporada a esse sistema em sua mentalidade, governo e concepção teológica, considera as novas aspirações violentas, anárquicas e diabólicas e afasta-se do povo simples. Mais uma vez, surgem por toda parte grupos e associações que desejam voltar às origens da vida cristã. Um desses grupos são as ordens mendicantes, cujo ideal se encarna na figura de São Francisco (1182-1226). Há um novo ciclo na vida religiosa, não simplesmente uma reforma no monaquismo. Após sua conversão, São Francisco escuta a voz de Cristo em São Damião e inicia uma vida eremítica. Em seguida começa a pregar o Evangelho e forma um grupo de irmãos que são chamados menores, contrapondo-se aos ricos e poderosos do tempo, vão bater às portas, vivem de esmolas. Há um rompimento com o estado clerical da vida religiosa e uma vivência da criação como teofania e fraternidade universal (SOUSA, 2007). Entretanto, a crítica eclesial do franciscanismo é pelo testemunho, pois continuam com profunda obediência ao Papa e se dispõem a assumir as missões que lhes foram confiadas. São Francisco introduz a tríade pobreza, obediência e castidade, com ênfase na pobreza, como ideal individual e comunitário. Nesse ideal comunitário também se encontram 44 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 a vivência fraterna intensa, a simplicidade nas regras, características do estado de liminaridade proposto por Turner (1974). Apesar de uma posterior institucionalização, relutada por São Francisco, a ordem franciscana não perdeu a fecundidade, sendo a mais numerosa da Igreja Católica, ramificando-se em três ramos principais: menores, conventuais e capuchinhos, segundo diferentes interpretações das Regras franciscanas, sobretudo no que se refere à pobreza. 2.4 Comunidades religiosas católicas na modernidade No século XVI, várias descobertas e inovações alteram a vida social, e as navegações possibilitam o colonialismo, começa o Renascimento e o mundo moderno. No campo religioso ocorre a Reforma Protestante e a Contra-reforma católica, no Concílio de Trento. Por outro lado, as ordens religiosas se impulsionam e se reformam. Mesmo assim, nascem novas formas de vida religiosa. Uma delas são os clérigos regulares, formada por cléricos, que renunciam ao serviço litúrgico coral e ao hábito; adotam o modo de vestir próprio dos sacerdotes onde moram, bem como a pobreza baseada em São Francisco, vivendo do trabalho e da esmola; vivem a gratuidade do ministério apostólico; têm formação intelectual prolongada e sólida; realizam pregações, missões, ensino e cuidam dos enfermos e desvalidos (SOUSA, 2007). Os jesuítas da Companhia de Jesus estão entre as novas ordens religiosas dessa época, também clerical, surgida nesse tempo, fundada por Inácio de Loyola (1491-1556). A companhia acrescenta mais um voto, o de disponibilidade total, para poderem ser enviados em missão pelo mundo. Essa ordem cresceu rapidamente, tornando-se uma instituição poderosa, mas ao mesmo tempo foi perdendo a mística evangélica na espiritualidade, tornando-se moralista e racionalista (ibid). Com a Revolução Francesa (1790), as ordens religiosas sofrem um novo abalo, são consideradas como coisa do passado, devendo monjas e religiosos abandonar seus conventos. Essa situação prolongou-se por todo século XIX, sendo a vida religiosa considerada obstáculo para o triunfo da sociedade leiga, democrática, progressista e liberal; cresce o processo de secularização, e o sistema capitalista se consolida, com a Revolução Industrial. A Igreja Católica adota uma postura de saudosismo, vendo negativamente os movimentos seculares e sociais modernos. O Concílio Vaticano I (1869) produz documentos de valor dogmático, acentuando o papel da autoridade, inclusive a infalibilidade papal em 45 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 questão de fé. Quanto às ordens religiosas, foram restauradas algumas ordens antigas, como a Companhia de Jesus, as congregações beneditinas, cistercienses, trapistas, franciscanos e dominicanos. Surgem como marco do século XIX várias congregações com características ativas e de especialização em algum campo apostólico, como ensino, juventude, obras populares, entre elas estão: maristas, palotinos, salesianos, cordimarianos, sociedade do verbo divino, irmãzinhas da assunção, mercedárias, entre mais de uma centena de outras (ibid) O início do século XX está marcado por crises sociais e políticas: Revolução Russa e as duas grandes guerras mundiais. A vida religiosa prossegue como no século anterior, com surgimento ainda de outras ordens religiosas, como a que se inspira do carisma de Charles de Foucauld, que iniciou uma vida de presença evangélica silenciosa, paciente e criativa no meio do povo, e foi seguido por várias fraternidades que procurarão se encarnar no meio dos pobres. Outra forma surgida são os institutos seculares, cuja inspiração é viver a pobreza, a obediência e a castidade no mundo. 2.4.1 Comunidades Eclesiais de Base (CEB's) No Brasil, desde sua colonização por Portugal, sempre foi considerado um país religioso. Até o final do século XIX, o brasileiro tinha quase obrigação de ser católico, uma vez que o catolicismo era a religião oficial do Império brasileiro. Com a Proclamação da República e a separação do Estado e da Igreja Católica, o espaço religioso brasileiro vem sofrendo mudanças constantes, tornando-se mais significativas a partir dos anos de 1940, acelerando-se a partir do final dos anos de 1970 (SANTOS, 2002). Nos dias de hoje, há grande pluralidade religiosa no Brasil e, conseqüentemente, cada religião usa de estratégias para garantir e expandir seu espaço na sociedade, buscando adesão de novos fiéis, com a utilização de meios contemporâneos de divulgação da religião, como, por exemplo: .pregação em espaço público, programas de rádio e televisão. Após o Concílio Vaticano II (1962-1965), que impulsionou, entre outras coisas, a participação dos leigos na Igreja Católica, a partir da década de 1970, a Igreja Católica da América Latina segue a linha da “opção preferencial” pelos pobres e a da “desclerização”, proliferando-se as chamadas Comunidades Eclesiais de Base. Em 1968, os delegados da Assembléia do CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano), em Médellin (Colômbia), optam pelas CEB's como forma pastoral prioritária para a América Latina (CASTRO, 1987). 46 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Clodovis Boff (apud Castro, 1987, p. 63) faz uma síntese do significado de CEB, qual seja: comunidades - “agrupamentos restritos, onde vigem relações primárias, isto é, afetivas, nominais e interpessoais”, eclesiais - “aspectos religiosos dessas comunidades” e de base “camadas mais baixas da sociedade”, “fazer renascer a Igreja lá onde sua presença acha-se praticamente apagada” e “em oposição ao 'do alto', 'de cima', entendido como das instâncias do poder, 'das cúpulas'”. As principais características das CEB's são: grupos em torno de 20 a 80 pessoas, reunidas geralmente em função da proximidade territorial; compostas principalmente por membros das classes populares; vinculadas a uma paróquia; utilizam o método do ver-julgaragir e leitura bíblica em articulação com a vida; articuladas pela própria Igreja católica, por meio de bispos, padres e leigos (Wikipédia). A organização interna de um Comunidade Eclesial de Base é feita a partir de um número mínimo de pessoas, com descoberta de uma necessidade e interesses convergentes, desperta-se para valores comunitários em busca de soluções e de satisfações solidárias, a presença de alguém que entenda o processo e seja capaz de conduzi-lo e que haja motivações de fé religiosa e uma metodologia de ação de acordo com os objetivos comunitários perseguidos (CASTRO, 1987). Na pesquisa feita em CEB's localizadas na periferia de Recife/PE, Gustavo do Passo Castro6 observou vários detalhes internos, chegado à conclusão de que “A comunidade é, pois, vista como altamente importante na vida de seus membros.” (1987, p. 142) E de que há descoberta de valores como senso comunitário, novas relações de amizade, nova concepção do mundo, educação para a vida, livre expressão de idéias e sentimentos, pertença, reconhecimento como sujeito ativo do fenômeno religioso (CASTRO, 1987). A articulação das CEB's brasileiras promove encontros com líderes, chamados “Encontros Intereclesiais”, sendo o último deles, o 11º encontro, realizado de 19 a 25 de julho de 2005, no Brasil, na cidade de Ipatinga, Minas Gerais. O 12º Intereclesial das CEBs está previsto para ser realizado de 21 a 25 de julho de 2009, na cidade de Porto Velho, capital do Estado de Rondônia, e tem como tema CEBs: Ecologia e Missão e o lema Do Ventre da Terra, o grito que vem da Amazônia. 6 Professor de Antropologia da Educação na UFPE, assessor de atividades eclesiais na Arquidiocese de Olinda e Recife, no Seminário do Regional Nordeste2 da CNBB e no Instituto de Teologia do Recife – ITER. 47 ALVES, K.S.A.L. 2.4.2 UFPB-PPGCR 2009 Movimento da Renovação Carismática Católica As Comunidades Novas nasceram, em sua grande maioria, do Movimento da Renovação Carismática Católica, um Movimento na Igreja Católica, surgido na década de 70, a partir de experiências de alguns católicos com grupos pentecostais protestantes, nos Estados Unidos. Quando João Paulo II iniciou seu pontificado, em 1978, já havia vários grupos de oração, e os mais antigos estavam começando a viver momentos de decisão de iniciar ou não uma experiência de vida comunitária mais intensa. Até 1979, a Renovação Carismática Católica do Brasil tentou uma experiência ecumênica, que “foi frustrada devido a seu esforço de legitimidade institucional em relação ao catolicismo” (SOUSA, 2005, p. 63). Em 1975, a Igreja Oficial Romana apoiava os carismáticos, o atual Papa, Paulo VI, dizia que o mundo necessitava da renovação espiritual que o Espírito Santo suscitava através do movimento, e João Paulo II seguiu a mesma linha (ibid, p. 67/68), sempre com apoio e incentivo. No entanto, a Igreja da América Latina não seguiu Roma no apoio ao pentecostalismo. Na década de 70, houve uma forte adesão do episcopado à Teologia da Libertação, culminando com o documento de Puebla (1979), que teve muito mais repercussão no Brasil do que os pronunciamentos de Roma. Nos anos 80, a Igreja Católica Brasileira olhava a RCC sempre com referências às CEB’s (Comunidades Eclesiais de Base). Entretanto, nos anos 90, houve uma crise na Teologia da Libertação e um fortalecimento da RCC (ibid, 2005). Foi nos anos 90 também que as Novas Comunidades aprofundaram sua experiência comunitária, definindo carisma próprio, missão na Igreja e na sociedade, aspectos da espiritualidade. Os grupos de oração tiveram o seu ponto alto na década de 80, no início da expansão da RCC no Brasil, tendo seu número diminuído na década de 90 e 00, como tendência nacional, talvez devido a formação de várias Comunidades Novas a partir desses grupos que, por sua vez se estruturam de formas diferentes, apesar de algumas manterem o grupo de oração como forma de atração de novos membros. No que se refere à espiritualidade da RCC, trazida para as Comunidades Novas, muitas pesquisas, em diversas abordagens, já vêm sendo feitas, por isso o tema não será focado aqui mais detidamente, até para não fugir do foco da pesquisa7. 7 Entre os estudiosos do Movimento da Renovação Carismática Católica estão CARRANZA (2000); MACHADO (1996) e MARIZ (2003). 48 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Destaca-se a opinião de Ronaldo José de Sousa, quanto ao uso do termo “intimista” para caracterizar os carismáticos que, para ele, leva a uma percepção subjetiva e egoísta da fé, o que não se verifica na prática de muitos membros da RCC. Embora seja verdade que os seus componentes não se incomodam de experimentar as chamadas “esquisitices” e tudo fazem para manter sua prática espiritual. Outro aspecto destacado pelo estudioso, é que, como os carismas são vivenciados de modo direto com Deus, as pessoas encontraram na Renovação Carismática um mecanismo de afirmação pessoal e coletiva (Ibid, 2005). A Renovação Carismática tem práticas que diferem da tradição da Igreja Católica, como as curas milagrosas, o repouso no Espírito, exorcismos, profecias, o dom das línguas e o dom do discernimento. Muitas dessas práticas se opõem à racionalidade da Igreja e à religiosidade popular. Os seus adeptos, em geral fiéis católicos leigos, fazem uso dos dons efusos do Espírito Santo, que são nove: língua, profecia, interpretação, cura, milagres, ciência, sabedoria e discernimento. O grupo básico da RCC é o “Grupo de Oração”, que em geral se reúne semanalmente para oração, escuta, pregação e partilha da Bíblia, no qual os engajados exercem seus ministérios, utilizando os “dons de serviço” do Espírito Santo. O grupo de oração é bem estruturado, havendo o coordenador (ministério de pastoreio), os pregadores (ministérios de ensino e pregação), os membros da música (ministério de música), os intercessores (ministério de intercessão e cura e aconselhamento), entre outros. As Comunidades Novas nascem, em geral, desses grupos de oração. Portanto, trazem deles algumas características, como o uso dos carismas e dons do Espírito Santo, a espontaneidade da oração, os cânticos, as danças, os louvores, além da estrutura, formadas por fiéis católicos leigos e da manutenção da estrutura básica dos grupos de oração, que são os ministérios. O Movimento da Renovação Carismática Católica reconhece que de seus grupos de oração freqüentemente surgem Comunidades Novas dentro da Igreja Católica, deixando, conseqüentemente, de pertencer hierarquicamente a esse Movimento. O que a leva a orientar os grupos de oração no sentido de que não almejem formar uma Comunidade Nova pelo simples fato de estar na “moda”, mas que verifiquem cuidadosamente se realmente existe uma “inspiração divina”, um “sopro do Espírito Santo”, para uma nova fundação.8 8 Ver o Portal da RCC Londrina (www.rcclondrina.com.br), que contém um serviço específico de formação para pessoas que desejam iniciar uma Comunidade Nova. “Dentro da RCC, Deus tem inspirado comunidades, extensões mais especificas do grande chamado feito a todos os batizados de viverem em 49 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 2.5 Comunidades Novas de Vida e Aliança (CNVA) As Comunidades Novas de Vida e Aliança estão entre os Movimentos ocorridos na Igreja Católica através dos tempos. O bispo João Evangelista Martins Terra (2004), para explicar o lugar eclesiológico dos Novos Movimentos Eclesiais, primeiro discorre brevemente sobre os grandes movimentos apostólicos ocorridos na história da Igreja Católica9, concluindo que a sua estrutura institucional se formou através dos tempos, mas não deixou de acolher os novos movimentos espirituais e carismáticos que surgiam fora da instituição e do modelo de paróquia (Igreja local, dividida em territórios). Ressalta que “o papado não cria os movimentos, porém eles têm sido sustentáculos dentro da estrutura da Igreja” (TERRA, 2004, p. 29). Pode-se deduzir que, assim como o bispo de Roma (o Papa) tem um ministério que alcança a Igreja universal, também o têm os Movimentos, que superam o âmbito das estruturas. Se se contempla a história da Igreja em seu conjunto, salta à vista que o modelo de Igreja local está decididamente configurado pelo ministério episcopal, é o nexo e a estrutura permanente ao longo dos séculos. Porém ela está também permeada incessantemente pelas diversas ondas de novos movimentos, que revalorizam continuamente o aspecto universal da missão apostólica e a radicalidade do Evangelho, e que, por isso mesmo, servem para assegurar vitalidade e verdade espirituais às igrejas locais” (TERRA, 2004, p. 29). Quanto ao surgimento, os movimentos geralmente se iniciam com uma pessoa “carismática líder” que “vive o Evangelho em sua totalidade”, passando depois a formar comunidades concretas, que “reconhecem na igreja sua razão de ser, sem a qual não poderiam subsistir” (ibid, p. 36). comunidade. Podemos afirmar que as comunidades novas não são uma invenção humana e nem são “grupos crescidos de oração” mas nascem do coração de Deus para estar a serviço da Igreja. Na diocese de Londrina vimos o pipocar muitas comunidades ou de pessoas que querem ser, ou estão em processo de discernimento quanto ao chamado para uma vida comunitária, sendo assim, surgiu a necessidade de montar um serviço que possa informar, ajudar e formar aqueles que tem esse chamado.” 9 Ver seções 2.1 a 2.4 desse Capítulo. 50 ALVES, K.S.A.L. 2.5.1 UFPB-PPGCR 2009 Contextualização Para as “Comunidades Novas”, que continuam nascendo, desde o final da década de 70 até hoje, as condições externas são as da sociedade pós-moderna10 e suas características de globalização acelerada no campo da economia, da política e da cultura, da comunicação instantânea, da ação à distância, da fragmentação do sujeito e das relações sociais, do senso de vivência do aqui e agora, da crise da família patriarcal, da predominância da mídia na constituição do universo simbólico das grandes massas, tudo isso marcado pelas mudanças no modo de produção, distribuição e consumo de produtos (DINIZ, 2005; PUNTEL, 2005). No contexto do catolicismo, as Comunidades Novas de Vida e Aliança surgem após o Concílio Vaticano II, que aconteceu entre os anos de 1962-1965, convocado pelo Papa João XXIII. Alguns estudiosos inclusive afirmam que o seu florescimento só ocorreu devido às mudanças trazidas por esse Concílio Ecumênico, que deu um novo perfil à igreja. Os concílios são períodos em que os Cardeais e Bispos da igreja católica param para refletir sobre os vários aspectos a ela relacionados, como liturgia, vida religiosa, relação com a sociedade, identidade, doutrina. A partir das discussões, são criados vários documentos que irão orientar os fiéis da igreja. O documento do Vaticano II chamado Lumen Gentium (LG), a Luz dos Povos, que trata da igreja, acentua o papel dos leigos e religiosos com bastante clareza, sugerindo passar do perfeccionismo puro da vida religiosa para a afirmação de que a santidade é algo constitutivo do ser cristão, independente de ser ou não religioso (LG, Capítulos IV, V e VI). Outro documento importante é o Gaudium et spes sobre a Igreja de hoje, que passou a ver o mundo em sintonia com a fé cristã, e o documento Apostolicam Actuasitatem sobre o apostolado dos leigos – aqueles que não fazem parte da hierarquia da Igreja Católica, ou de ordens religiosas -, que impulsiona os leigos a se unirem em comunidades, fundar associações e movimentos, por livre iniciativa. É nesse contexto que surgem, em profusão, as Comunidades Novas e os Novos Movimentos Eclesiais, formados e fundados, em sua grande maioria, por cristãos católicos leigos, com o impulso de “dar a vida pela causa de Jesus Cristo e da Igreja Católica” (discurso dos líderes das Comunidades Novas de Vida e Aliança), com um ardente desejo de viver em 10 A expressão “pós-modernidade” é usada por um grupo de sociólogos, entre eles LYOTARD, . F. “A condição pós-moderna”. Rio de Janeiro, José Olympo, 5ª edição, 1998; BAUMAN, Zygmunt, “O mal-estar da pós-modernidade”. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1997 e KUMAR, K. DA sociedade pós-industrial à pósmoderna: novas teorias sobre o mundo contemporâneo”. Rio de Janeiro, Zahar Editora, 1997. 51 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 comunidade, como os primeiros cristãos, mas como testemunho de fé diante da sociedade secularizada. Todas as Comunidades Novas e os Novos Movimentos Eclesiais foram fundados na segunda metade do século XX, à exceção do Movimento dos Focolares11. Parece que após o Concílio Vaticano II os fiéis leigos se sentiram mais “à vontade” para participar ativamente da vida da igreja, dirigindo o próprio culto, promovendo evangelização, organizando-se para o exercício de obras de caridade. Outro fator decisivo para o florescimento das Comunidades Novas foi o pontificado de João Paulo II, que orientou as conclusões do Vaticano II, com uma nova antropologia teológico-filosófica. Promoveu vários encontros com os Movimentos Eclesiais e as Comunidades Novas. Durante o seu pontificado, aconteceram 04 grandes encontros: em 1981, 1985, 1991 e 1998. Este último é considerado um marco para as Comunidades Novas e Movimentos. O encontro foi precedido de um congresso para fundadores e co-fundadores de Comunidades e Movimentos do mundo inteiro. Na carta convite, com assinatura do Papa e o selo do Vaticano, pela primeira vez foi aplicado o termo “fundador” a Comunidades e Movimentos leigos, pois o termo até então era restrito às ordens e congregações religiosas. O encontro ocorreu em 30 de maio de 1998, na Praça São Pedro, no Vaticano, reunindo mais de 300 mil fiéis e 50 diferentes Movimentos de Comunidades Novas. Abaixo trechos do pronunciamento do Papa João Paulo II (1998)12, que é reproduzido por várias CNVA em seus sites, indicando um importância dada a esse reconhecimento pela Igreja de Roma: A passagem do carisma originário ao movimento acontece pela misteriosa atração exercida pelo Fundador sobre quantos se deixam envolver na sua experiência espiritual. (...) Desse modo, os movimentos reconhecidos oficialmente pelas autoridades eclesiásticas propõem-se como formas de auto-realização e reflexos da única Igreja. O seu nascimento e a sua difusão trouxeram à vida da Igreja uma novidade inesperada, e por vezes até explosiva. Isto não deixou de suscitar interrogativos, dificuldades e tensões; às vezes comportou, por um lado, presunções e intemperanças e, por outro, não poucos preconceitos e reservas. Foi um período de prova para a sua fidelidade, uma ocasião importante para verificar a genuinidade dos seus carismas. Hoje, diante de vós, abre-se uma etapa nova, a da maturidade eclesial. Isto não quer dizer que todos os problemas tenham sido resolvidos. É, antes, um desafio. Uma via a percorrer. A Igreja espera de vós frutos «maduros» de comunhão e de empenho. Como conservar e garantir a autenticidade do carisma? É fundamental, a respeito disso, que cada movimento se submeta ao discernimento da Autoridade eclesiástica 11 12 Fundado em Trento/Itália, em 1944, por Chiara Lubich. Pronunciamento disponível em http://www.vatican.va. 52 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 competente. Por esta razão, nenhum carisma dispensa da referência e da submissão aos Pastores da Igreja. Com palavras claras o Concílio escreve: «O juízo acerca da sua autenticidade e reto uso pertence àqueles que presidem na Igreja e aos quais compete de modo especial não extinguir o Espírito mas julgar tudo e conservar o que é bom (cf. 1 Ts 5, 12.19-21)» (Lumen gentium, 12). Esta é a necessária garantia de que a estrada que percorreis é justa! Assim, na confusão que reina no mundo de hoje é fácil errar, ceder às ilusões. Na formação cristã cuidada pelos movimentos jamais falte o elemento desta confiante obediência aos Bispos, sucessores dos Apóstolos, em comunhão com o Sucessor de Pedro! (grifos nossos) O trecho do pronunciamento do Papa João Paulo II foi transcrito porque é especificamente dirigido às Comunidades Novas em fase inicial de fundação, objeto de pesquisa nesta dissertação, e menciona o seu processo de institucionalização, que também será analisado. Nos grifos, foram destacadas a preocupação da igreja oficial no reconhecimento de um novo carisma e sua observação no tempo para verificar a sua autenticidade, de acordo com os parâmetros oferecidos pela igreja católica e observando a obediência aos pastores. O Papa Bento XVI continua incentivando os Movimentos Eclesiais e as Comunidades Novas a viverem a radicalidade da vida cristã e a vida missionária. Em 03 de junho de 2006, na Vigília de Pentecostes, na Praça São Pedro, mais de 100 Movimentos estavam presentes para ouvir a sua homilia, depois de ter participado de um encontro cujo tema era “A beleza de ser cristão e a beleza de comunicar a vida cristã.” A Comunidade de Vida e Aliança mais antiga que se conhece é a “Word of God”, que está na origem do movimento da renovação carismática católica e que foi fundada por um grupo de estudantes da Universidade de Michigan – EUA, em 1967. Os líderes fundadores eram Steven Clark e Ralph Martin. Em meados de 1970 o grupo por eles liderados decidiu morar em residências coletivas e, com o passar do tempo, as lideranças foram ganhando poder, a medida que regras eram criadas para a vivência coletiva, “tendo como ápice a decisão do uso do véu de linho belga para as mulheres e manto de linho irlandês para os homens” (MAFRA, 2008, p. 2). Em meados de 80, o grupo dividiu-se em dois, com a criação do “Sword of Spirit”; em 1992, o “Word of God” já não apresentava as características “personalistas e centralizadoras do poder e de normatização da prática” (ibid). No Brasil, a comunidade com maior tempo de existência é a Canção Nova, com sede em Cachoeira Paulista/SP, que já conta 30 anos, fundada em janeiro de 1978, pelo Monsenhor Jonas Abib e alguns jovens. A segunda mais antiga é a Comunidade Católica Shalom, com 25 anos, que tem sede em Fortaleza/CE. No total, existem atualmente cerca de 400 Novas Comunidades (TIMBÓ, 2004) espalhadas por todo território brasileiro. Dentre estas, 53 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 aproximadamente 65% estão em fase embrionária, 20% estão em desenvolvimento e 15% estão atingindo ou já atingiram um amadurecimento (ibid). No sítio da Fraternidade das Novas Comunidades no Brasil podemos encontrar informações apenas sobre 13 Comunidades, entre elas as mais antigas e conhecidas no Brasil: a Comunidade Canção Nova, de Cachoeira Paulista/SP; a Comunidade Shalom, e Fortaleza/CE e Comunidade Doce Mãe de Deus, de João Pessoa/PB. Isso deve se dar pelo fato de que para entrar nessa Fraternidade são feitas algumas exigências formais que muitas Comunidades Novas ainda não possuem em sua estrutura, como estatuto e carta de indicação do bispo ou aprovação diocesana, se houver (http://www.comunidadesnovas.org.br/). No sítio da Comunidade “Divina Misericórdia” (http://www.divinamisericordia.com.br/index.phpoption=com_weblinks&catid=27&Itemid=2 3) , encontramos a lista de links de 18 Comunidades Novas, entre elas estão as citadas acima, as demais se chamam: “Arca da Aliança” – Joinville-SC, “Betel” – Nova Andradina-MS, “Hesed”- Fortaleza-CE, “Mensagem Brasil” – São Paulo, “Oásis” – Caxias do Sul-RS, “Obra de Maria” – Recife/PE, “Palavra Viva” – Belo Horizonte-MG, “Pantokrator” – Campinas-SP, “Recado” – Fortaleza-CE, “Remidos no Senhor” – Campina Grande/PB, “Sagrada Família” – Arapuá-SP e “Vida Nova” – Joinville-SC. Nesse processo de fundação e trajetória no tempo, as CNVA encontram a necessidade de se estruturar internamente, a partir do momento que o número de membros e atividades aumenta e, por conseguinte, institucionalizar-se. Também precisam justificar sua presença para a Igreja Católica local, na pessoa do bispo da diocese onde se encontra. Os bispos católicos, em geral, seguem a orientação da Igreja Católica de Roma de “esperar os frutos”, ou seja, deixar que passe um determinado período de tempo, no qual a Comunidade específica é observada e acompanhada pelo bispo diocesano, para identificar se se trata de uma nova fundação, ou seja, se possui característica novas e diferentes das demais associações leigas, das diversas ordens religiosas, das associações apostólicas, e de outras formas de sociabilidades presentes na Igreja Católica. Nessa dissertação, procura-se verificar o surgimento e a estrutura interna de algumas Comunidades Novas localizadas no Nordeste brasileiro, que almejam tornar-se “novas fundações” dentro da Igreja Católica, acreditando possuírem características (carisma, espiritualidade, missão) diversas das demais formas de vida comunitária e religiosa presentes nessa Igreja. Nessa busca, analisar-se-á o discurso posto em questionários por lideranças 54 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 dessas Comunidades, procurando identificar as relações presentes no seu surgimento e na sua manutenção, assim as práticas religiosas dos seus membros. 2.5.2 Características das CNVA A concepção de Comunidades Novas de Vida e Aliança está muito ligada às suas características gerais. O Papa João Paulo II, na Exortação Apostólica Pós-Sinodal: Vita Consecrata assim caracteriza os Movimentos e as Comunidades Novas (1996): O Espírito, que ao longo dos tempos, suscitou numerosas formas de vida consagrada, não cessa de assistir a igreja, quer alimentando nos Institutos já existentes o esforço de renovação na fidelidade ao carisma original quer distribuindo novos carismas a homens e mulheres do nosso tempo, para que dêem vida a instituições adequadas aos desafios de hoje. Sinal desta intervenção divina são as chamadas Novas Fundações, com características de algum modo originais relativamente às tradicionais. A originalidade dessas novas comunidades reside no fato de se tratar de grupos compostos por homens e mulheres, de clérigos e leigos, casados e solteiros, que seguem o mesmo estilo particular de vida, inspirado às vezes numa ou noutra forma tradicional ou adaptado às exigências da sociedade atual. Também o seu compromisso de vida evangélica se exprime de formas diversas, manifestando-se, como tendência geral, uma intensa aspiração à vida comunitária, à pobreza e à oração. No governo participam clérigos e leigos, segundo as respectivas competências, e o fim apostólico vai de encontro das solicitações da nova evangelização. O Subsídio da CNBB sobre Igreja Particular, Movimentos Eclesiais e Novas Comunidades assim se expressa sobre as Comunidades Novas e os Novos Movimentos: Acentuam a conversão e a vivência radical da fé, demonstrada com gestos concretos de mudança de vida e de participação no movimento. Apresentamse com identidade católica, pois nasceram, desenvolveram-se e atuam dentro da Igreja, sentindo-se, de modo especial, vinculados ao papa e aos bispos. Inspirados também pela fé, diversos movimentos se engajam na promoção da justiça, da paz, da solidariedade com os pobres. Alguns movimentos se apresentam e se estruturam mais como formas particulares de vida comunitária do que como associações, recusando o próprio nome de “movimento” e optando por “comunidade”. “Comunidades de vida” são encontradas em diversos novos movimentos.” (CNBB: 2006, p. 19, grifos nossos). Os grifos destacam que a CNBB vê as Comunidades Novas na sua diferenciação com os demais movimentos existentes na atualidade dentro da Igreja Católica. Mesmo assim, reconhece a existência de “Comunidades de vida” e procura informar sobre suas características, incluindo-as dentro dos Novos Movimentos e destacando que elas se 55 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 autodenominam de “Comunidades”. Ou seja, esse trecho do subsídio aponta que não foram os bispos do Brasil que criaram as Comunidades Novas, mas elas surgem como Movimento, fora da hierarquia da Igreja e agora estão sendo por ela analisados. Na Wikipédia13, já existe uma interessante definição para Comunidades Novas: As comunidades novas tratam-se de novas inspirações adaptadas dos institutos de Vida Consagrada da Igreja Católica, tendo como grande diferencial a Vida Comunitária ser formada por Sacerdotes e leigos, homens e mulheres em uma mesma Comunidade devidamente dividida, mas trabalhando junto em prol da Evangelização ou Promoção da Dignidade Humana. Após os conceitos expostos acima e com base da pesquisa de campo realizada14, destaca-se, brevemente, algumas características principais das Comunidades Novas de Vida e Aliança: a) Seu perfil é de pessoas (fiéis católicos leigos) que se dizem consagradas a Deus e almejam um reconhecimento dessa consagração pública por parte da instituição da Igreja Católica. b) Sua forma de se reunir é uma adaptação dos institutos de vida consagrada já existentes, no sentido da vida em comum, das orações comunitárias, das orações pessoais, da vida sacramental, do compromisso com a doutrina católica, da profissão de votos de castidade, pobreza e obediência. Entretanto, diferem desses institutos, não só por serem formadas por sacerdotes e leigos, mas, sobretudo, pela presença de casais consagrados. c) O que os une, além do chamado “carisma da Comunidade”, é o trabalho comum, em geral de “evangelização” e de “promoção humana”. d) Não se definem por território e possuem uma forte dimensão missionária, indo além da sua diocese e até do país. e) São fundadas com o “impulso de dar a vida pela causa de Jesus Cristo e da Igreja Católica”, com um “ardente desejo de viver em comunidade, como os primeiros cristãos”, como “testemunho de fé diante da sociedade secularizada”. f) São geralmente definidas como Associação Privada de Fiéis, porque erigidas por fiéis leigos e aprovadas pela autoridade eclesiástica, por meio do bispo da diocese em que se localizem. 13 14 Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Comunidades_Novas Ver Capítulo III dessa dissertação. 56 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 g) Aspiram intensamente uma vida comunitária, expressam isso em comunidade de vida ou comunidade de aliança. h) Têm um carisma de fundação específico, com espiritualidade e missão próprias. i) Identificam-se com a espiritualidade da RCC, de onde nasceram. j) Empenham-se “no serviço a Deus, à Igreja e à Humanidade”. As pessoas que não fazem parte dessas Comunidades Novas as vêem de maneiras diversas. Para alguns fiéis católicos, são vistos como pessoas de uma fé intimista, como uma forma de percepção subjetiva e egoísta da fé, porque seus membros praticam a espiritualidade da RCC, com as chamadas “esquisitices” por quem não fazem parte do Movimento (oração em línguas, repouso no espírito, louvor entusiástico, exorcismos, curas milagrosas) e fazem questão de manter essa prática espiritual. (SOUSA, 2005) Tais práticas, entretanto, são diferentes da tradição da Igreja Católica de uma forma geral. Os novos movimentos eclesiais e comunidades ainda não receberam uma formulação canônica completa, tratando-se de um conjunto de experiências eclesiais novas. A legislação eclesiástica com relação aos leigos não pode ser aplicada simplesmente aos novos movimentos, porque neles se encontram também religiosos(as) e sacerdotes. A semelhança maior dos novos movimentos é com a vida religiosa, pois vários componentes desta última estão presentes, como o espírito de pobreza, de castidade, de obediência, de vida de oração e de convivência fraterna. 2.5.3 Estrutura das CVA Na estrutura das Comunidades Novas, em geral, existem Conselhos, Departamentos, Secretarias, Coordenadorias, de acordo com a realidade de cada Comunidade. Há uma preocupação de organização que vem desde o grupo de oração carismático, mantido na estrutura comunitária, inclusive com o Seminário de Vida no Espírito Santo, que acontece dentro do grupo de oração. Quando se forma a comunidade de vida ou de aliança, apesar da informalidade do início, já são escritas regras básicas de convivência, de vivências de orações, de forma de governo e de modos de arrecadar renda15. 15 Este tema será retomado na análise dos dados coletados através da aplicação dos questionários. 57 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Para iniciar a participação em grupos de oração, as pessoas são convidadas por quem já faz parte do grupo, também podem ser atraídas pelas formas de divulgação utilizadas, como avisos nas Missas, panfletos, rádio, cartazes. O Seminário de Vida no Espírito Santo, o qual culmina com o batismo no Espírito, também é uma das formas de atração utilizada por grande parte das Comunidades. O Seminário tem as mesmas características dos grupos de oração, com cantos, orações e pregações baseadas na Bíblia. A diferença é que nos Seminários há uma seqüência de temas a serem tratados a cada semana ou em um final de semana Com o tempo, quando a Comunidade resolve oficializar-se, em geral como Associação Privada de Fiéis, é necessária a redação do Estatuto da Associação, que contém várias exigências, como a indicação do seu regime e forma de governo dessa Associação, quem o compõe, os membros da diretoria, as assembléias, as visitas da autoridade eclesiástica competente à comunidade, as formas de ingresso e de saída dos membros, entre outras exigências presentes no Código de Direito Canônico (C. 298 a 311). A divisão em Comunidade de Vida e Comunidade de Aliança se dá pela forma como o membro vivencia a sua pertença à comunidade, não havendo uma separação hierárquica ou espiritual entre elas, compartilhando da mesma identidade comunitária. Ou seja, o membro da Comunidade de Vida (homem/mulher, casado/solteiro, padre/freira) deixa sua residência e vai morar em uma casa da Comunidade, comprometendo-se em tempo integral, ou sendo-lhe permitido estudar e/ou trabalhar, deixando a renda do trabalho na própria Comunidade de Vida. O membro da Comunidade de Aliança continua em sua residência e em suas ocupações na sociedade, como família, trabalho, estudos, mas assume as regras de vida da Comunidade, no carisma, nos serviços de evangelização, na espiritualidade, na missão, na fraternidade, na comunhão de bens, destinando parte de sua renda, em geral 10% para o sustento da Comunidade. Tem uma proposta de inserção na sociedade, fazendo todas as suas atividades seculares a partir do espírito e vivências da Comunidade, com o objetivo de levar para as diversas realidades seculares em que está inserido, os valores cristãos vivenciados e assumidos pela comunidade da qual faz parte. Divide o seu tempo, além do trabalho, da família, dos amigos, com os trabalhos desenvolvidos pela comunidade e com os exercícios espirituais presentes nas regras de vida da comunidade (oração do terço, participação na missa, estudo bíblico, oração pessoal e comunitária). 58 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 A estrutura das Comunidades Novas de Vida e Aliança vai se modificando de acordo com a etapa no processo comunitário, mas não há um padrão definido. A figura 1, extraída da observação e das leituras feitas, mostra um dos modelos presentes na estrutura organizacional das CNVA. Comunidade de Vida e Aliança Coordenação Geral Conselho Geral Formador-Geral Formadores Comunitários Formadores Pessoais Coordenadores de Ministérios Outros Conselhos Formador do Vocacional – vocacionados Formador do Postulantado – Postulantes MEMBROS Formador do Noviciado - Noviços Form. dos consagrados da Com. Vida Form. dos consagrados da Com. Aliança Figura 1 – Modelo de estrutura das CNVA A figura acima demonstra a importância dada à formação nas CNVA, pois há um Formador Geral que orienta e supervisiona o planejamento de formação de toda Comunidade. A ele estão diretamente ligados os Formadores Comunitários, que coordenam os grupos de formação dos membros até chegar à consagração (Vocacional, Postulantado, Noviciado) e depois os grupos dos consagrados da Comunidade de Aliança (CA) e da Comunidade de Vida (CV), e os Formadores Pessoais, que exercem uma função mais direcionada a cada membro, personalizada, orientando-os com relação à fé, à doutrina e a aspectos humanos, como o autoconhecimento. 59 ALVES, K.S.A.L. 2.5.4 UFPB-PPGCR 2009 Os membros das CNVA Em geral, são considerados membros das Comunidades Novas aqueles que passam por algumas etapas de formação, até chegar a uma consagração temporária. As fases de formação são semelhantes às da vida religiosa como, por exemplo, vocacional, postulantado e noviciado. O principal objetivo dos membros de uma Nova Comunidade de Vida e/ou Aliança é a atualização da experiência de vida comunitária dos primeiros cristãos, inclusive com o fim de “Evangelizar com novos métodos, respondendo aos anseios do homem contemporâneo” (discurso dos líderes das CNVA). Nesse discurso, encontra-se presente a necessidade de adaptar-se ao panorama atual da religião no mundo, entrecortado pelo poder da demanda e pela lógica do mercado religioso, estudado por sociólogos da atualidade, que consideram que a religião, na atualidade, foi transformada em um “item de consumo, oferecido aos indivíduos no mercado de maneira semelhante à dos bens simbólicos, tais como estilos de vida e de identidade cultural” (GUERRA, 2000), na linha já iniciada por Peter Berger (1985). Esse panorama atual, especialmente no Brasil, seria causado por uma diminuição da força da tradição católica na escolha da religião, que provoca abertura para variadas propostas de religiosidade. Os membros das Comunidades Novas acreditam que estão fazendo uma experiência religiosa que terá conseqüências em todos os aspectos da vida. Nesse sentido, fazem uma “consagração” de sua vida a Deus, aproximando-se de uma “consagração religiosa”, tratada pela doutrina católica como “estado religioso”, quando os indivíduos professam votos, ou outros vínculos sagrados, obrigando-se à prática dos conselhos evangélicos de castidade consagrada a Deus, de pobreza e de obediência, que se fundamentam nas palavras e nos exemplos de Cristo (LG 43). Essa consagração os faz “separados” do mundo, ficando “destinados” para Deus e buscando em tudo imitar os sentimentos de Cristo. As Comunidades Novas costumam usar as seguintes expressões para falar da diversidade de estilos de vida existentes em seu seio: “homens, mulheres, casados, solteiros, celibatários, diáconos e sacerdotes”. Essa forma de vida cristã comunitária ainda não encontra definição no Código de Direito Canônico, que legisla sobre toda vida e ação da Igreja. Por isso, as Comunidades Novas se enquadram como Associações de Fiéis, estando diretamente ligada ao Pontifício Conselho para os Leigos, no âmbito do Vaticano. 60 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 A dificuldade de enquadrar as CNVA no Código de Direito Canônico é devido aos diversos estados de vida (casais, celibatários e clérigos) vividos concomitantemente dentro da mesma estrutura. Portanto, as Comunidades Novas não possuem o caráter de ordens religiosas, e seus membros não são considerados religiosos, mas leigos, apesar de alguns assumirem o celibato16 (homens e mulheres). Vale lembrar que o celibato não se confunde com a castidade, esta diz respeito a uma virtude cristã, que deve ser buscada pelo fiel cristão, independente do seu estado de vida, seja solteiro/celibatário ou casado. Fora os leigos (solteiros, celibatários e casados), existem apenas os cléricos/sacerdotes. Como explica Emmir Nogueira (1999, p. 27): (...) nós, Comunidades Novas ou Novas Fundações, não podemos nos denominar ‘Vida Consagrada’, ainda que assim nos identifiquemos entre nós, em nossas conversas e nossos discursos. O termo Vida Consagrada – VC, como já citamos acima, identifica os Institutos de Vida Religiosa e as Sociedades de Vida Apostólica. Trocando em miúdos queremos dizer que o termo VC, não se aplica a nós, basicamente por causa da diversidade de características que estão reunidas em nossas realidades comunitárias. (...) não somos Vida Consagrada porque o celibato consagrado não é vivido igualmente por todos, mas apenas alguns, e por outros é vivido ‘um dever de castidade próprio da vida conjugal’ (grifos nossos). Percebe-se que as Comunidades Novas trazem traços tanto da vida consagrada como da vida laical. Algumas Comunidades, diferindo da grande maioria, almejam assumir, no Direito Canônico, a definição de Instituto de Vida Religiosa, postulando-a junto ao Vaticano. Nesse caso, sairiam da categoria de leigos e iriam para a categoria de ordem religiosa17. Os leigos (apesar de o termo leigo ter adquirido o sentido de alguém alheio a determinado assunto) são aqueles que não são religiosos, de acordo com o Direito Canônico da Igreja Católica. Nas Comunidades Novas, eles fazem uma consagração religiosa, mas continuam sendo considerados leigos pelo Direito Canônico, pois a Associação da qual fazem 16 “O celibato é o estado de uma pessoa solteira, sexualmente abstinente, que fez voto de castidade”. (Wikipédia) O voto do celibato é uma condição para o sacerdote católico e para os religiosos católicos (freiras, freis, irmãos, irmãs). 17 É caso da Toca de Assis, na qual não há a presença de casais como consagrados, devendo homens e mulheres que lá se consagram, assumirem o celibato, além de absorvem várias práticas das ordens religiosas já existentes como o uso de vestimentas e sinais de consagração religiosa (manto marrom, siglo na cintura, cabelos cortados), não há sacerdotes em seu meio, a não ser o fundador, Pe. Roberto José Lettieri. A Toca de Assis se auto-declara uma “Fraternidade Católica que se inspirou nos ensinamentos de São Francisco, no seu zelo eucarístico e amor aos pobres” e se chamam os “Filhos e Filhas da Pobreza do Santíssimo Sacramento”. Ver site da Toca de Assis www.tocadeassis.org.br 61 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 parte, a Comunidade Nova, não é considerada uma ordem religiosa. A Constituição Dogmática Lúmen Gentium sobre a Igreja define que por leigos entende-se aqui o conjunto de fiéis, com exceção daqueles que receberam uma ordem sacra ou abraçaram o estado religioso aprovado pela Igreja, isto é, os fiéis que, por haverem sido incorporados em Cristo pelo batismo e constituídos em povo de Deus, e por participarem a seu modo do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, realizam na Igreja e no mundo, na parte que lhes compete, a missão de todo povo cristão. Aos leigos compete, por vocação própria, buscar o reino de Deus, ocupando-se das coisas temporais e ordenando-as segundo Deus. (LG 31). Como leigos, os membros das Comunidades Novas entendem poderem levar valores da Igreja naqueles lugares onde só por meio deles a Igreja pode ir. Tais membros das Comunidades Novas são instruídos a “levar a sério” o seu batismo como cristãos e a consagrar todos os atos de sua vida, realizando-os de uma forma espiritual, no Espírito de Cristo. Assim, convertem o seu trabalho cotidiano, a vida familiar e conjugal, as obras, orações e trabalhos na igreja, em “sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (LG 34). Podem eles assumir os estados de vida de casado ou celibatário. Se for solteiro(a) será considerado sempre em processo de definição do estado de vida. Estado de vida é uma expressão muito utilizada entre os membros das Comunidades Novas, diz respeito à própria identidade da pessoa, encontrando-se enraizado na área da afetividade. Segundo Emmir Nogueira (2006, p. 425), é “aquele chamado insubstituível de Deus para que o sirvamos como casados ou celibatários ou no ministério sacerdotal”. Existem, portanto, três estados de vida: o celibato, o sacerdócio e o matrimônio. Antes do Concílio Vaticano II e até algum tempo após ele, discernir o estado de vida era restrito apenas àqueles que queriam entrar na vida religiosa ou no sacerdócio, sendo o matrimônio considerado uma “não eleição de Deus” (NOGUEIRA: 2006). Os solteiros, moças e rapazes, acolhidos nas Comunidades Novas, se residem em Comunidade de Vida, em geral moram em casas separadas, mas próximas, para fazerem refeições, orações e trabalhos em comum. Algumas Comunidades Novas, como a Arca da Aliança (Joinville/SC)18, ao acolherem um novo membro que ainda não tem o seu estado de vida definido, ou seja, é solteiro, exige que ele faça um “celibato temporário” para, com o tempo, com a ajuda dos formadores da Comunidade, decidir sobre um dos estados de vida. 18 Ver site http://www.arcadaalianca.com.br. 62 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Os celibatários, ou seja, aqueles que decidem optar por esse estado de vida permanente, fazem o voto de celibato com rito próprio e solene, mas não são considerados religiosos, porque vivem o celibato sob a orientação das regras de vida da Comunidade Nova, que é considerada uma Associação de Fiéis Leigos. Homens e mulheres podem optar por este estado de vida. Os casais, aqueles que abraçaram o matrimônio, encontram-se em um estado de vida muito valorizado nas Comunidades Novas. Os solteiros que desejem escolher essa opção de vida são preparados e formados adequadamente para assumirem o matrimônio, havendo vários depoimentos de casais que se conheceram e se casaram na Comunidade. Os filhos gerados por casais consagrados nas Comunidades são educados e formados na fé, mas há orientação para que os deixem livres para escolher uma futura opção de vida. As residências dos casais que moram na Comunidade de Vida são núcleos separados das dos solteiros, entretanto, há uma preocupação de que se façam refeições, orações e trabalhos junto com estes. Os sacerdotes, ou clérigos, cuja vocação se originou na Comunidade Nova, se ordenam sacerdotes segundo o carisma dessa Comunidade. Como a maioria delas não possui autorização da igreja oficial para formar e ordenar sacerdotes, eles são ordenados, em geral, por bispos amigos da Comunidade, que os colocam em disponibilidade da Comunidade Nova da qual fazem parte. O arcebispo de Palmas(TO), Dom Alberto Taveira, responsável oficial da igreja pelas Comunidades Novas no Brasil, em geral, ordena vários sacerdotes, que são por ele acompanhados durante a formação anterior, e os deixa viverem conforme o carisma e a direção da Comunidade Nova19. Para um membro chegar à consagração passa por várias etapas de formação (em geral denominadas vocacional, postulantado/discipulado e noviciado), no final das quais, se considerado decidido e preparado, profere compromissos com a Comunidade, em rito litúrgico próprio, indicando sua decisão de que realmente pertence àquela família. Após a consagração, o membro é considerado formado na Formação Inicial, passando para a Formação Permanente, apto para sair à frente em novas missões que por ventura a Comunidade vá iniciar em outros locais e adquire mais responsabilidades com relação ao carisma da Comunidade. Em geral, apenas os membros consagrados votam em assembléia e podem participar dos Conselhos e Diretorias da Comunidade. 19 Ver artigo no site: http://blog.cancaonova.com/vocacional/2007/11/23/a-cancao-nova-esta-em-festa-6novos-padres/ 63 ALVES, K.S.A.L. 2.5.5 UFPB-PPGCR 2009 Vocação, espiritualidade, carisma, fundadores e missão das CNVA As Comunidades Novas, como uma nova forma de vida consagrada na Igreja Católica, possui uma vocação20 específica, com características próprias de espiritualidade, carisma e missão. A seguir serão tratados esses aspectos vivenciados pelas Comunidades em estudo. A vocação “é a forma concreta de viver um carisma, dirigida por seus Estatutos, Tradição, Espiritualidade e Espírito do Fundador. Uma vocação é parte da identidade da pessoa (...) e é eterna” (NOGUEIRA, 2007, p. 6). Ou seja, seria a própria identidade da Comunidade Nova. “A identidade é composta também por símbolos de uso comum, como cruz, figuras de Jesus Cristo, vestimentas e logomarca da comunidade” (CNBB, 2006, p. 22). Por exemplo, a Comunidade Obra de Maria21 declara “Usamos uma medalha no peito onde temos o Cristo Crucificado no calvário, ainda vivo, Maria e o discípulo João aos pés da cruz, onde Jesus pede a ele para levar a Sua Mãe para casa.". A espiritualidade da Comunidade Nova “é a forma de manifestar o mistério cristológico da vocação na vida espiritual, fraterna e apostólica” (NOGUEIRA, 2007, p. 6). Os membros das Comunidades, sejam de vida ou de aliança, devem dividir o tempo entre trabalhos e orações. A espiritualidade é tida como o alicerce da vida em comum e da vida de trabalhos, por isso, o tempo para estudo bíblico, orações pessoais, adorações, participação na celebração eucarística, deve ser preservado. Em geral, essa espiritualidade é marcada (a) pelo uso dos carismas do Espírito Santo, que revela sua origem na RCC; (b) por devoção mariana, como oração do Rosário e do Ofício de Nossa Senhora da Conceição; (c) por adoração ao Santíssimo Sacramento, seja durante a celebração da missa ou fora dela, pois os membros de várias Comunidades devem passar alguns minutos, diária ou semanalmente, em adoração ao Corpo de Cristo consagrado e/ou participar da celebração da eucaristia (missa); (d) por devoção a alguns santos considerados padroeiros ou baluartes da Comunidade, sendo os mais populares Santa Terezinha do Menino Jesus, São José, São João Evangelista, São Padre Pio, entre outros. O carisma próprio é o que une a diversidade de estados de vida dos membros das Comunidades Novas. A palavra carisma pode ser considerada um neologismo criado por Paulo, que provém da palavra charis, graça (dom de Deus derramado na humanidade em Jesus Cristo), quando esta toca uma determinada pessoa, tornando-se charisma, dom 20 Vocação aqui é entendido como um chamado específico que está em cada pessoa, diz respeito a sua própria existência e deve ser decifrado. 21 Ver site da Fraternidade das Comunidades Novas do Brasil: http://www.novascomunidades.org.br. 64 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 particular (NOGUEIRA, 1999). Após vários estudos os teólogos têm usado a palavra carisma, com c minúsculo, como “dom, graça, manifestação do Espírito Santo de forma infusa (Is 11) ou efusa (I Cor 12), ordinária (Ef 4) ou extraordinária (I Cor 12)” (Ibid, 1999, p. 6) e carisma, com c maiúsculo, como “graça manifestada através de um fundador (ou fundadores) segundo a necessidade do tempo histórico e eclesial” (Ibid, 1999, p. 6). O fenômeno da vida religiosa é lido nessa ótica a partir do Concílio Vaticano II. O carisma próprio de uma Comunidade Nova provém de uma experiência de fundação vivida pelo fundador(a) ou fundadores da comunidade, da qual obtém um “chamado” para viver de forma específica um dos aspectos da realidade divina ou da vida humana de Cristo. Os fundadores, em geral, percebem o “chamado de Deus” por meio de experiências de oração que, aos poucos, vão sendo confrontadas com a vida, levando-os a perceber o projeto de Deus sobre si e sobre outras pessoas, uma identidade a ser assumida, uma imagem divina a ser vivida na própria história, uma semelhança com Deus a ser manifestada. Essa experiência de fundação, vivida pelos fundadores das Comunidades Novas, pode ser considerada uma “hierofania” (algo de sagrado se nos revela), termo utilizado por Mircea Eliade (1996, p. 16), para quem o sagrado “manifesta-se sempre como uma realidade inteiramente diferente das realidades ‘naturais’ (...) como algo absolutamente diferente do profano”. O termo fundador é usado no Concílio Vaticano II para designar todos os que instituíram comunidade de vida consagrada. “São fundadores aqueles que definiram a índole própria, a própria função, o espírito e as intenções do instituto (PC2). Estes são vistos como exemplo de santidade (...)” (NOGUEIRA, 1999, p. 5). Os elementos essenciais que permitem encontrar a identidade de um fundador(a) são assim colocados por Emmir Nogueira (1999, p. 6): (a) a inspiração, recebe um chamado preciso do Espírito Santo para dar vida a uma nova comunidade na Igreja, tomando-a de uma forma irresistível, até para direções opostas às que ela gostaria; (b) a capacidade de comunicar a própria inspiração e de exercer um certo influxo sobre as pessoas afim de atraí-las e envolvê-las em um projeto comum de vida; (c) o ter dado vida, de alguma forma, a um instituto; (d) o ter dado ao grupo as normas de vida, mesmo que estas tenham sido escritas só após a sua morte; (e) o acolhimento da nova obra por parte da hierarquia competente da Igreja. 65 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 A missão da Comunidade Nova está diretamente ligada à sua espiritualidade e ao seu carisma e diz respeito às várias atividades realizadas pela Comunidade para levar ao mundo o que o seu carisma e a sua espiritualidade nela suscita. Muitas Comunidades consideram como missão as ações evangelizadoras através de diversos meios: rádio, TV, eventos, shows, pregações, cursos, visitas às casas, saída pelas ruas, engajamento nas atividades da paróquia e diocese. Organizam Projetos de Evangelização, que são realizados dentro dos espaços da igreja paroquial ou fora dela, nas ruas, casas, escolas, espaços para eventos, são, em geral, planejados conforme a abertura que a Comunidade encontre. Algumas possuem “Centro de Escuta da Vida”, que é um projeto mais específico e, presumidamente, deve ocorrer dentro da própria comunidade ou em um espaço na igreja paroquial. Na estrutura das Comunidades estão previstas, em geral, missões sociais das mais variadas formas, como o acolhimento a pessoas doentes, abrigos de idosos, de crianças, de alcoólatras ou dependentes químicos, pessoas portadoras de HIV, ação social com comunidades carentes, visita aos hospitais e aos presídios, educação com menos favorecidos. Há comunidades que também possuem missões no campo educacional, possuindo, inclusive, escolas e universidades. O que se observa nessas missões, no que se refere às ações sociais, é que a ação só acontece após algum tempo de vivência comunitária e trabalhos com a Evangelização. É razoável pensar que a estrutura hierárquica da Igreja Católica procurasse interrogar aos fundadores das Comunidades Novas o que pretendiam fazer, viver, realizar. Há um interessante depoimento do fundador da Comunidade Arca da Aliança, Elias Dimas dos Santos, quando, no início da experiência de comunidade de vida, um dos membros foi indagado sobre qual seria o carisma da Comunidade: “Explique-me primeiro o que é carisma. O padre lhe disse: ‘Carisma é aquela dimensão de Cristo que queremos professar’. O rapaz concluiu: ‘Pode ser que mude, mas nós viemos aqui para viver todas as dimensões de Cristo” (SANTOS, 2003, p. 18). Nesse depoimento, vemos a espontaneidade e a despreocupação das pessoas que fundam Comunidades Novas com os termos teológicos utilizados pela Igreja Católica. Para a Igreja Católica, a grande novidade existente nas Comunidades Novas de Vida e Aliança é a presença de casais consagrados vivendo em comum com solteiros(as), celibatários(as), padres, tendo em vista que, até o momento, o direito canônico só prevê uma consagração religiosa, com vida em comum, para pessoas que também sejam celibatárias. 66 ALVES, K.S.A.L. 2.5.6 UFPB-PPGCR 2009 A economia nas CNVA Os membros da Comunidade de Vida deixam tudo e passam a morar em uma casa da comunidade, em “missão”, esses membros se organizando-se para arrecadar donativos ou receber, pela “providência divina”, os bens necessários para viver, como alimentos, roupas e sapatos. Muitas CNVA arrecadam donativos de benfeitores ou recebem doações espontâneas e as dividem entre os membros, a partir de subgrupos, deixando um responsável pelas necessidades das pessoas que dele fazem parte. Outras dividem os donativos por meio de mesadas para os membros casados. E há ainda aquelas que permitem que os casais com filhos trabalhem fora da comunidade e repartam sua renda entre a comunidade e as necessidades dos filhos. A produção e venda de livros, revistas, CD's, DVD's, objetos artesanais, artigos religiosos em geral, também são fontes de renda; bem como são fontes de renda o aluguel de casas para retiros de grupos, a venda de roupas usadas em brechó, a venda de alimentos e bebidas (doces, salgados nas lanchonetes e restaurantes). A Comunidade Canção Nova, por exemplo, que recebeu o seu reconhecimento pontifício em 2008, possui 672 missionários da comunidade de vida (celibatários, solteiros, casados e sacerdotes), ou seja, pessoas que deixam tudo e moram em uma casa de missão da Canção Nova. Eles trabalham oito horas por dia, apesar de não receberem salário no final do mês. Para suprir as necessidades básicas dos que moram em casa de solteiros, a comunidade oferece uma quantia quinzenal, entregue a uma pessoa da casa, chamada “caixinha”. (REBOUÇAS, 2008). Há comunidades que dão a permissão aos seus membros de Vida (que moram nas casas da comunidade) para trabalharem e/ou estudarem fora. Nesse caso, a renda será revertida para toda a comunidade ou será dividida também com os filhos, caso os tenha. Em sua grande maioria, o trabalho ocorre dentro da própria “obra”, como é chamada a comunidade, seja com evangelização, através de rádios, TVs, livros, eventos (retiros, shows), visita as casas das famílias, fazendo parte da missão da Comunidade. 67 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 3 CNVA NO NORDESTE BRASILEIRO O alvo desta pesquisa são as Comunidades Novas de Vida e Aliança localizadas no Nordeste brasileiro, integrantes da Regional Nordeste 2, divisão administrativa adotada pela CNBB22, que envolve os Estados da Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte.23 A escolha desse universo foi possibilitada pela realização de encontros anuais nesta região que congregam todas ou a maioria das Comunidades a ele pertencentes e pela facilidade de acesso aos líderes de várias comunidades, permitindo realizar não um estudo de caso envolvendo uma comunidade apenas, mas permitindo mapear a situação do processo comunitário vivido por um conjunto amplo de comunidades 24. Na pesquisa, objetivou-se investigar o processo comunitário vivenciado por essas comunidades, no contexto religioso católico atual, especificamente no Nordeste brasileiro, desde o seu surgimento, verificando as dinâmicas decorrentes, com ênfase nos aspectos de vivência religiosa dos seus membros. As Comunidades Novas de Vida e Aliança são formadas, em geral, por grupos de oração da Renovação Carismática Católica que, após um tempo de existência, decidem assumir mais compromissos com os membros do próprio grupo e com a Igreja Católica, seja na Evangelização ou em outros serviços da Igreja. No discurso dos fundadores e dos membros dessas comunidades, as grandes motivações para fundá-las ou a elas aderirem são, em geral, experiências pessoais e fortes 22 A CNBB dividiu os Estados do Brasil em 17 Secretariados Regionais: Regional Norte 1 (Norte do Amazonas e Roraima), Regional Norte 2 (Amapá e Pará), Regional Nordeste 1 (Ceará), Regional Nordeste 2 (Alagoas, Paraíba, Pernambuco e R. G. do Norte), Regional Nordeste 3 (Bahia e Sergipe), Regional Nordeste 4 (Piauí), Regional Nordeste 5 (Maranhão), Regional Leste 1 (São Paulo), Regional Leste 2 (Espírito Santo e Minas Gerais), Regional Sul 1 (São Paulo), Regional Sul 2 (Paraná), Regional Sul 3 (Rio Grande do Sul), Regional Sul 4 (Santa Catarina), Regional Centro-Oeste (Distrito Federal, Goiás, Tocantins e parte do Mato Grosso), Regional Oeste 1 (Mato Grosso do Sul), Regional Oeste 2 (Mato Grosso) e Regional Noroeste (Rondônia, Acre e Sul do Amazonas). Fonte: site da CNBB: www.cnbb.org.br. 23 O Regional Nordeste 2 foi criado em 1964, na VI Assembléia Geral Ordinária da CNBB, realizada em Roma, em setembro / outubro, durante o Concílio Ecumênico Vaticano II, foram votados os desdobramentos de alguns Secretariados Regionais. Na sessão plenária do dia 30 de setembro de 1964, foi aprovado o desdobramento do Secretariado Regional Nordeste em três Regionais: Nordeste 1 (Maranhão, Piauí e Ceará); Nordeste 2 (Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas); e Nordeste 3 (Bahia e Sergipe). O Regional Nordeste 2 apresentou, como Secretário Regional, Dom Helder Pessoa Câmara, e a capital Recife como sede do Regional. A fundação oficial do Regional Nordeste 2, bem como dos demais Regionais da CNBB, ocorreu no dia 8 de junho de 1971, em reunião da Presidência da CNBB, no Rio de Janeiro. A ata da reunião foi aprovada, assinada e lavrada em cartório, para fins de comprovação jurídico-civil. (http://www.cnbbne2.org.br/) 24 A pesquisadora reside no Estado da Paraíba e participa como membro de uma comunidade em João Pessoa/PB, de modo que pode estar também presente nos encontros realizados nos dois últimos anos 68 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 com Deus que lhes fala: após as quais vão acontecendo outras, aumentando o desejo de fazerem uma aliança com esse Deus, a Ele consagrando sua vida e seu tempo, para ajudarem na evangelização e nos serviços da Igreja. Com a fundação, surge uma preocupação em manter a Comunidade em atividade e, conseqüentemente, estruturá-la em vários aspectos, como formação dos membros, atividades de evangelização, meios de arrecadação de contribuições financeiras, rotina. Além disso, há um cuidado constante com o carisma próprio vivido pela comunidade, sua descoberta, descrição e escritos para, posteriormente, formularem um Estatuto da Comunidade, no qual constarão todos esses aspectos: financeiro, espiritual, formativo, entre outros. No decorrer do processo, são enfrentados problemas, como saída e entrada de membros, crises espirituais, financeiras, humanas. Uma das formas encontradas pelos membros para resolver ou evitar esses e outros problemas, foi a formação, procurando conhecer a experiência de Comunidades mais antigas, lendo livros de direção espiritual, de formação humana, de doutrina da Igreja Católica, até surgirem as Escolas de Formadores, difundidas em várias partes do Brasil e em outros países, como a Itália. Deter-nos-emos na descrição do espaço desta pesquisa, ou seja, uma escola de formação, buscando percebê-la como um espaço comunitário que reúne periodicamente os líderes regionais que desempenha um papel no processo de estruturação e permanência das Comunidades Novas de Vida e Aliança. 3.1 Metodologia – a pesquisa empírica A pesquisa empírica foi realizada durante eventos que congregaram Comunidades Novas de Vida e Aliança localizadas na região Regional Nordeste 2, ocorridos na Paraíba, nos últimos dois anos. Foi feito uso dos seguintes métodos para coleta de dados: aplicação de questionários e pesquisa documental em publicações produzidas por algumas dessas Comunidades, como as alusivas aos eventos e outras tais como página na internet, apostilas, estatutos; e a descrição etnográfica. Considerando que a aplicação do questionário foi feita durante a realização da escola de formação, um espaço de interação e sociabilidade entre os líderes das comunidades, foi aproveitada a oportunidade de utilizar o método etnográfico para detectar outros aspectos da vida comunitária em ação. Objetivou-se com o uso dos dois instrumentos de pesquisa a complementaridade entre os dados visando obter maior confiabilidade. 69 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 3.1.1. Questionário O objetivo do questionário25 foi coletar dados sobre o perfil social e o discurso religioso dos membros, líderes e fundadores das CNVA do Regional NE2, com o objetivo de investigar como ocorre o processo de fundação e crescimento dessas Comunidades. As questões foram de dois tipos: fechadas, abertas e relacionadas. Quanto ao conteúdo, abordaram fatos, atitudes, crenças e comportamentos. O questionário elaborado foi dividido em duas partes: a primeira, com questões referentes ao perfil pessoal do membro da comunidade e a segunda, voltada para o processo comunitário. Ele foi aplicado no 2° módulo da Escola de Formadores de líderes de Comunidades dos 04 Estados citados, que aconteceu em novembro de 2007, em Campina Grande/Pb, no qual a pesquisadora estava presente, realizando também o trabalho por meio da observação participante. Os questionários foram entregues a todos os participantes (cerca de 100), para serem respondidos a mão no decorrer do encontro, mas apenas 33% deles foram devolvidos à pesquisadora preenchidos. A identificação pessoal foi opcional. 3.1.2 Descrição etnográfica e observação participante Foi utilizada também a descrição etnográfica, especificamente fazendo uso dos métodos de observação participante, e de análise interpretativa. Através da observação de comportamentos e práticas dos integrantes das comunidades, buscou-se encontrar os significados de suas ações, na tentativa de desenvolver uma pesquisa essencialmente qualitativa. A participação foi feita nos encontros das CNVA pertencentes ao Regional NE2, cuja programação incluía palestras, partilhas em grupo, ritos litúrgicos, como a celebração eucarística, orações em grupo, orações pessoais. Por meio da observação participante procurou-se chegar ao conhecimento dessas comunidades a partir do discurso dos seus líderes. Como a pesquisadora também faz parte de uma dessas comunidades, assumindo a função de formadora, a sua participação nessa escola foi natural, não causando estranhamento entre os demais participantes. No decorrer dos eventos, os participantes foram informados pela pesquisadora que ela estava colhendo dados para uma pesquisa científica. A reação da maioria foi de naturalidade, entusiasmo e até 25 Ver modelo do questionário no apêndice A. 70 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 encorajamento, alguns ficando inclusive interessados no resultado da pesquisa. Poucos foram os que se fizeram indiferentes ou demonstraram estranhamento. A metodologia etnográfica leva o pesquisador a dialogar profundamente com o grupo humano estudado, por meio de uma observação rigorosa, impregnando-se lenta e continuamente da vivência desse grupo. Para tanto, precisamos sair das convenções da época, cultura e meio social em que vivemos, que, segundo Laplantine (2004: p, 14), nos diz o que “é preciso olhar e como é preciso olhar”. É preciso aprender a redirecionar o olhar, para nos “espantar com aquilo que nos é mais familiar (aquilo que vivemos cotidianamente na sociedade em que nascemos) e tornar mais familiar aquilo que nos parecia inicialmente estranho e estrangeiro” (ibid, p. 15). Essa seria a experiência de campo na etnografia, no intuito de “perceber de dentro”, inclusive no seu íntimo, os temas obsessivos de uma sociedade, seus ideais, suas angústias (ibid). É preciso sair da nossa comodidade e misturar-se com a realidade do outro, estabelecendo trocas, muitas vezes, “abaixando-se” para alcançar o outro. É bom lembrar também que a descrição nunca é neutra, pois não se pode eliminar aquele que escreve e vai progressivamente construindo um objeto. Após a experiência do ver e compreender, é necessário dar a ver aos outros, atribuindo forma escrita ao que se viu, que deve ocorrer de maneira descritiva, para procurar dar conta, nomeando a totalidade do que vemos. Laplantine (2004) menciona as especificidades da descrição etnográfica: busca compreender o mundo fora do escritor; trata de fenômenos sociais; observa um contexto e uma história; é direta em sua forma de expressão; exige globalidade, no sentido de, a partir dos fatos concretos, estabelecer relações. O citado autor define assim essa metodologia (2004, p. 87): A descrição etnográfica, como acontece com as outras três formas de descrição, consiste na aceitação incondicional da realidade tal como ela aparece. Ela procede de uma atitude, que eu chamaria a ingenuidade, a suspensão do saber e do julgamento que é a atitude inicial da filosofia de Sócrates a Husserl: façamos com se não soubéssemos nada. No caso deste trabalho, procurou-se fazer uma descrição etnográfica da “Escola de Formadores” de líderes de Comunidades Novas localizadas no Regional Nordeste2, entendida como uma experiência comunitária, por meio da observação participante, que aconteceu no período de 2007 a 2008, no 2° e no 4° módulos desse curso/evento, em sua primeira versão, organizado pela Comunidade Remidos no Senhor. 71 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Essa “Escola de Formadores” é dividida em 08 módulos, de 05 dias completos para cada um, sendo oferecido um módulo por semestre. Esses eventos reúnem grande parte das lideranças das Novas Comunidades de Vida e Aliança dos Estados do Regional 2, tendo em média 100 participantes. A divulgação ocorre por meio eletrônico: colocando-se notas nos diversos sites das Comunidades Novas e enviando e-mails. As inscrições ocorrem por meio de convites também enviados eletronicamente às Comunidades, e são feitas mediante o pagamento de taxa. Não se sabe se há patrocinadores, porque não são divulgados durante o evento. A observação participante foi realizada pela pesquisadora ao longo da programação dos eventos, inclusive nas atividades rituais e pedagógicas, por exemplo, fazendo os exercícios sugeridos, nas orações comunitárias, pela participação durante as palestras, partilhando o microfone, indo à frente quando solicitada. Foi feito registro da observação em fotografias e descrição em caderno de campo, no qual, além de descrever o que era visto, também foram transcritas conversas com os participantes, além da anotação de fatos que chamavam a atenção e pontos considerados “chaves”, para maior investigação posterior. Foram ainda adquiridos a gravação em CD das palestras realizadas, bem como o material pedagógico utilizado (apostilas e livros). Nos depoimentos colhidos em conversas informais com os participantes foi possível perceber a repetição de temáticas, de pensamento e direcionamentos ou orientações comuns, como, por exemplo, que a formação estava muito intensa e oportuna e que teriam muitas mudanças a fazer ao retornarem às comunidades de origem. No quarto módulo, ocorrido em setembro de 2008, foi realizada apenas a observação participante, buscando perceber se as características dos grupos relatadas pelos líderes continuavam as mesmas, o que tinha se intensificado, o que estava diferente, além de observar detalhes ainda não percebidos. Os módulos da Escola de Formadores não foram estudados por si só, ou seja, a sua descrição é feita com o intuito de perceber também as práticas religiosas dos membros (líderes e fundadores) igualmente adotadas no espaço comunitário das mesmas. Além disso, trata-se de mapear o modo como as Comunidades Novas de Vida e Aliança estão se organizando nos Estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Alagoas e Pernambuco. Ao analisar um grupo formado por líderes, entre os quais alguns fundadores de Comunidades, teve-se uma visão dos principais objetivos do grupo, da maneira como as atividades e práticas são direcionadas. 72 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 O processo comunitário de surgimento e transformações da Comunidade Nova também pode ser verificado nos relatos trazidos pelos fundadores e líderes, muitos deles presentes na Comunidade desde sua fundação, tendo observado também as dinâmicas decorrentes. Sendo assim, a amostra analisada, de líderes e fundadores, proporcionou-nos uma visão das estratégias propostas e dos encaminhamentos dados aos demais membros das Comunidades Novas de Vida e Aliança, rumo que tomou a presente dissertação, a partir da opção dada pelo trabalho de campo realizado nas Escolas de Formadores. Por outro lado, observando a estrutura e o funcionamento dessas Escolas de Formadores, e percebendo a sua importância para os líderes de Comunidades Novas lá presentes, decidiu-se descrevê-las, objetivando uma análise das atuais preocupações e práticas das CNVA do Regional NE2. 3.2 A escola de formadores de líderes de Comunidades Novas de Vida e Aliança do Nordeste em Campina Grande/PB A seguir serão descritos o segundo e o quarto módulos da Escola de Formadores de líderes de Comunidades Novas de Vida e Aliança do Regional NE2, organizada pela Comunidade Remidos no Senhor/PB. A pesquisadora esteve presente também no primeiro módulo deste mesmo curso, ocorrido durante os dias 1 a 5 de agosto de 2007, entretanto, não estava na qualidade de pesquisadora, mas apenas de participante. O III módulo ocorreu durante os dias 17 a 21 de abril de 2008, com divulgação através de e-mail26, como nos demais módulos, mas não foi possível a participação27. Essa iniciativa de promover atividades de formação tem sido tomada por várias Comunidades Novas no Nordeste e em outras regiões do Brasil. Inclusive, em João Pessoa/PB, segundo informações informais, já se iniciou uma Escola de Formadores em 2008. Através de pesquisa na internet, foram encontradas algumas divulgações sobre Escola de Formação ou de Formadores, inclusive algumas das quais possibilitam a participação de reitores e formadores de seminários, institutos religiosos e novas comunidades, como é o caso 26 Ver anexo E (e-mail de divulgação do terceiro módulo da Escola de Formadores, 17 a 21 de abril de 2008) 27 A pesquisadora estava com um bebê de apenas um mês e meio. 73 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 do Curso para Formadores oferecido pela “Comunidade Mar a Dentro”, presente em vários estados do Brasil, entre eles São Paulo, e São José do Rio Preto.28 Outro exemplo é a Escola de Formadores organizada pelas Comunidades Oásis e pela Comunidade Canção Nova, que aconteceu na sede da Comunidade Oásis, em Caxias do Sul/RS, durante dois anos e meio, e teve sua última etapa em agosto de 2007. Parece que essa Escola foi uma das pioneiras no Brasil, pois dela participaram 20 Comunidades Novas de toda a Federação29, sendo uma das mais antigas, contando com organização e experiência, inclusive sendo a organizadora do VIII Congresso Nacional das Comunidades Novas de Vida e Aliança, que acontecerá em Bento Gonçalves/RS, de 30 de abril a 03 de maio de 2009.30 3.2.1 Descrição do segundo módulo O II Módulo ocorreu no período de 13 a 17 de novembro de 2007, no Centro de Formação Redentorista Santo Afonso, em Campina Grande/PB. Logo no início do evento, houve a apresentação de todas as Comunidades presentes, que ao todo eram 22, conforme quadro n° 2, abaixo: ESTADO PARAÍBA PERNAMBUCO COMUNIDADE LOCALIZAÇÃO Casa de Judá João Pessoa Consolação Misericordiosa João Pessoa Doce Mãe de Deus Fanuel Filhos da Misericórdia Magnificant Nova Berith Obra Nova Remidos no Senhor Salve Maria Siloé João Pessoa João Pessoa João Pessoa Campina Grande João Pessoa Campina Grande Pombal e Campina Grande João Pessoa Cajazeiras Centelha Divina Christus Filhos de Maria Caruaru Arco Verde Nazaré 28 Ver anexos G (informações sobre a Comunidade Mar a Dentro e o Curso para Formadores por ela organizado, retirados de sites na internet) 29 Ver anexo H (Informativo da “Frater - Fraternidade das Novas Comunidades do Brasil, Ano IX, n° 22 – Agosto de 2007) 30 Ver site da Comunidade Oásis: www.comudidadeoasis.org.br 74 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Manim Sal e Luz Caruaru Caruaru Discípulos da Mãe de Deus Natal Divina Misericórdia Maria Auxiliadora dos Cristãos Natal Natal Terço da Sagrada Família Mossoró Vida Nova Natal Trindade Santa Maceió RIO GRANDE DO NORTE ALAGOAS Quadro 2 - Distribuição das Comunidades do Regional Norteste2 participantes do II módulo da Escola de Formadores em Campina Grande/PB Os participantes, que eram em média 100 pessoas, foram recrutados por meio de divulgação via e-mail, sendo cobrada uma taxa de R$ 120,00 por cada inscrição, para cobrir as despesas com alimentação e hospedagem. Os e-mails dos participantes foram conseguidos nos encontros anuais que a Igreja Católica realiza com as comunidades localizadas no Regional Nordeste 2 da CNBB.31 O local é dividido: uma parte é destinada ao convento onde moram os padres redentoristas, a outra parte é reservada para encontros e retiros de grupos da Igreja Católica. Por isso, possui um grande galpão onde se realizam palestras, momentos de oração comunitária, refeitório próprio com várias mesas e cadeiras, uma grande cozinha, vários quartos e banheiros. Também uma capela onde fica o sacrário com o Santíssimo Sacramento durante todo o tempo e onde ocorrem as celebrações da Missa. A maior parte dos participantes eram adultos jovens, ou seja, com idade variando entre 24 a 35 anos; com a presença equilibrada entre os dois gêneros, sendo metade formada por mulheres, e a outra por homens. As mulheres dormiram em uma ala separada dos homens. Pela observação, acredita-se que havia cerca de 4 casais, sendo o restante solteiros ou casados que não vieram acompanhados dos seus cônjuges. Com certeza, havia vários celibatários e celibatárias32 presentes, pois, nas conversas informais, foi possível perceber a participação de pelo menos 03 homens e 03 mulheres de comunidades diferentes. As freiras, que usavam hábitos, eram apenas 02, membros da Comunidade Doce Mãe de Deus. Havia ainda 01 padre desta mesma Comunidade de João 31 32 Ver anexo C (e-mail enviado com as informações sobre o módulo II da Escola de Formadores) Pessoa que fez voto de castidade no celibato 75 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Pessoa, que presidiu boa parte das celebrações eucarísticas e também estava presente nos demais momentos. (Ver a programação em anexo) A programação seguiu mais ou menos o esquema previsto, diferindo na inclusão diária de Adoração ao Santíssimo Sacramento (atividade ritual), das 18:30h às 19:00h, que não estava prevista. Também não estavam explícitas na programação as orações comunitárias à tarde, antes do início do ensino, com duração de 15 a 30min. Em geral, o tempo de oração era maior do que o previsto. As atividades dividiram-se em: pedagógicas ou de formação (ensinos e exibição de vídeos), de convivência (refeições, lanches, recreação) e rituais (Missa, adoração ao Santíssimo Sacramento exposto e orações comunitárias), conforme quadro n° 3. Atividades de Formação ou • Pedagógicas Ensinos em vários horários durante o dia, quase toda manhã e tarde, totalizando em 6 horas diárias. • Exibição de filmes, musicais e documentários durante as noites, totalizando 6 horas no decorrer dos 04 dias. Atividades de Convivência • Foram utilizados 30min para cada uma das refeições, totalizando 1h30 diárias. • Foram dedicados 30 min para um lanche da manhã, e outros 30 min para o lanche da tarde, totalizando 1h diária. • Para descanso, durante o dia, foram dedicadas 2 horas diárias, após o almoço* • Para recreação só foi retirada uma das noites, durante 3 horas. Atividades rituais • Para a missa, 1 hora. • Para as duas orações comunitárias, em média 30min, cada. • Para a adoração ao Santíssimo Sacramento, em média 30min, totalizando em 2h30 diárias. Quadro 3 - Distribuição das atividades da programação do II Módulo da Escola de Formadores 76 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 3.2.2 Descrição do quarto módulo Para a realização do IV módulo, o meio de divulgação foi ainda a internet, enviando emails para as Comunidades que participaram dos anteriores. O IV Módulo aconteceu no período de 24 a 28 de setembro de 2008, no “Day Camp” Hotel Fazenda, zona rural de Campina Grande/PB. Houve o envio de e-mail para divulgação, como anteriormente. Havia representantes de 27 Comunidades de Vida e Aliança, em geral, pelo menos 02 membros de cada comunidade conforme o quadro 4, abaixo: ESTADO PERNAMBUCO RIO GRANDE DO NORTE COMUNIDADE LOCALIZAÇÃO Casa de Judá Doce Mãe de Deus Fanuel João Pessoa João Pessoa João Pessoa Nossa Senhora das Mercês João Pessoa Nova Berith Obra Nova João Pessoa Campina Grande Remidos no Senhor Salve Maria Siloé Pombal e Campina Grande João Pessoa Cajazeiras Cristo Ama Crux Sacra Divina Misericórdia Petrolina Itambé Santa Cruz do Eterna Aliança Kairós Ressurreição Sagrado Coração de Maria Capibaribe São Caetano Taguatinga Bezerros Caruaru Sal e Luz Santa Clara Caruaru Paulista Discípulos da Mãe de Deus Natal Maria Mater Terço da Sagrada Família Natal Mossoró Reviver pela Misericórdia Natal Vida Nova Natal 77 ALVES, K.S.A.L. ALAGOAS DA BAHIA UFPB-PPGCR 2009 Discípulos de Jesus Crucificado Maceió Filhos da Virgem Santíssima Maceió Trindade Santa Maceió Mãe Imaculada Sagradas Chagas Juazeiro Luiz Eduardo Magalhães Quadro 4 – Comunidades que participaram do IV Módulo da Escola de Formadores em Campina Grande/PB O Estado da Bahia não faz parte do Regional Nordeste II, mas as comunidades vieram participar da Escola de Formadores por conveniência de data. Nesse módulo IV o número de Comunidades participantes (27) foi um pouco maior que no módulo II (22). Esse fato, segundo informações obtidas em conversas informais durante do módulo IV, também ocorreu devido à junção de dois grupos. Expliquemos: a Escola de Formadores realizada em Campina Grande iniciou uma nova turma, com um segundo grupo de Comunidades, para fazer a seqüência de módulos I a VIII. Entretanto, essa segunda turma teve uma freqüência baixa no módulo II, então, a comissão organizadora decidiu pular o módulo III dessa turma, deixando-o para outro momento, e convidar os participantes para fazerem o módulo IV, junto com a primeira turma. A presença da Bahia, que estaria fora da região administrativa Regional NE2 demonstra que o curso organizado em Campina Grande já está sendo divulgado em outras regiões do país. Verifica-se que o número de Comunidades localizadas na Paraíba diminuiu nesse módulo IV, passando de 11 para 09, enquanto o número de Comunidades localizadas no estado de Pernambuco aumentou consideravelmente, passando de 05 para 09, assim também as localizadas no estado de Alagoas, que passou de 01 para 03. O estado do Rio Grande do Norte manteve o número de Comunidades: 05. Esse fluxo demonstra a maior divulgação do curso nos estados de Pernambuco e Alagoas. Quanto à diminuição da participação de Comunidades localizadas no Estado da Paraíba, uma das razões pode ter sido o início de uma Escola de Formadores na cidade de João Pessoa, no ano de 2008, sobre a qual não temos maiores informações. A maioria das comunidades presentes tinha menos de 05 anos de existência (este dado foi constatado em um momento no qual se pediu para orar de acordo com os anos de permanência na comunidade). Tais Comunidades mais recentes estão buscando formação com 78 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 as mais antigas para saberem como organizar-se na parte formativa. Quando não estão participando dos momentos de formação, as pessoas geralmente estão reunidas em grupos de suas comunidades. As atividades, assim como no segundo módulo, dividiram-se em: pedagógicas ou de formação, de convivência e rituais. A programação seguiu o mesmo padrão do outro módulo e o tempo das atividades manteve-se mais ou menos igual. Atividades de • Formação ou Ensinos em vários horários durante o dia, quase toda manhã e tarde, totalizando em 6 horas diárias. Pedagógicas • Exibição de 01 filme, com duração de 02 horas. Atividades de • Refeições:30min para cada - 1h30 diárias. Convivência • Lanches, 30 min para cada - 1h diária. • Descanso, durante o dia: 2 horas diárias, após o almoço* • Uma noite com recreação orientada, com duração de 3 horas, e as outras três noites livres, para descanso, conversas ou orações. Atividades rituais • Missa, 1 hora diária. • Duas orações comunitárias, em média 30min, cada, totalizando 1 hora diária. • Adoração ao Santíssimo Sacramento, em média 30min diários. Total de horas em • 16 horas diárias atividades Quadro 5 – Distribuição das atividades ao longo do IV Módulo 3.2.3 Descrição da parte pedagógica dos módulos A parte mais importante desses cursos é a pedagógica, devido ao seu próprio objetivo de formação líderes, que segue uma programação consistente na qual se aborda vários aspectos da vida religiosa em comunidade33. Por isso a escolha de iniciar a descrição por essas atividades. 33 Ver anexo A (apresentação da Escola de Formadores do Regional Nordeste II em Campina Grande. 79 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 3.2.3.1 Objetivo da formação e requisitos para fundação de novas comunidades Existe uma preocupação, por parte das Comunidades Novas, com a formação, tendo em vista que os eventos nos quais ocorreu a pesquisa de campo foram essencialmente voltados para a formação. A necessidade de formação e a exigência de fazê-la são feitas pela própria Igreja Católica, por meio da CNBB e, por conseguinte, pelo bispo responsável pelas Comunidades do Regional NE2, Dom Dino, bispo de Fortaleza. A Igreja Católica se preocupa com a formação em todas as instituições e movimentos que dela participam. A orientação é para que a formação abranja vários aspectos: preparação humana, cultural, espiritual e pastoral, visando a transformação de toda a pessoa, com o objetivo de que “cada uma de suas atitudes ou gestos possa revelar a sua pertença total e feliz a Deus” (TERRA, 2004, p. 159). No caso das Comunidades Novas, que surgem fora da estrutura hierárquica da Igreja Católica, como surgem em geral os Movimentos, a ênfase na formação é dada quando essas Comunidades procuram se estruturar, buscando o reconhecimento oficial da Igreja, na pessoa do bispo da diocese onde estão localizadas. Pois dele necessitam para conseguirem seus objetivos, como Evangelização, inserção em pastorais da Igreja, promoção de eventos, realização de rituais como a Missa. Quando a Comunidade pede a oficialização como associação privada de fiéis, a Igreja Católica, por meio do bispo diocesano, impõe algumas exigências como a apresentação de um Estatuto ou Regimento Interno da Comunidade, no qual estejam presentes vários requisitos, entre eles: a finalidade, a sede da comunidade, o regime ou modo de governo, os associados, o patrimônio, a extinção da associação. Algumas observações sobre esse estatuto pode-se encontrar no livro de Sidney Timbó (2004, p. 163): Para que uma associação privada de fiéis seja considerada como tal precisa que a autoridade competente (c. 312) aprove o estatuto, e para que este seja aprovado deve ter por finalidade fomentar uma vida mais perfeita, promover o culto ou a doutrina cristã, realizar atividades de apostolado e a animação da ordem temporal com espírito cristão. De acordo com informações colhidas junto aos participantes, essa Escola para Formadores já existia, em outras versões, na Região Sudeste do Brasil, organizada pela Comunidade Canção Nova, e também na Itália, para onde chegaram a ir formadores e fundadores de Comunidades Novas do Brasil, inclusive alguns que estão dando formação no Brasil. 80 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Essa Escola de Formação, da qual a pesquisadora participou, não é uma exigência da Igreja Católica para que a Comunidade seja legitimada. A escola é iniciativa das próprias comunidades mais antigas, que desejam passar sua experiência para as mais recentes. Não é obrigatória. Tanto que há muito mais comunidades nesses estados do Regional Nordeste 2 do que aquelas presentes à escola. Em João Pessoa, por exemplo, existem mais do que as 07 comunidades presentes na escola, podendo ser citadas, por conhecimento informal: Comunidade Lírios do Vale, Comunidade Servos de Maria, Comunidade Nossa Senhora Menina, Comunidade Fraterno Amor, Comunidade Despertai, Comunidade Jesus Misericordioso. 3.2.3.2 Parte pedagógica do segundo módulo O propósito da Escola de Formadores no Módulo II era ensinar às pessoas que fundaram comunidades ou líderes dessas sobre como trabalhar com os novos membros que vão chegando, no sentido de repassar-lhes conhecimentos doutrinários, espirituais, humanos, morais, bíblicos, tudo conforme a orientação da Igreja e segundo o “carisma” de cada Comunidade. Os temas previstos para serem abordados nesse módulo eram os seguintes: “O carisma da Formação”, “Projeto de Formação Inicial”, “Projeto de Formação Permanente”34 Todos temas foram vistos conforme programado, enfatizando-se, na parte do “carisma de formação”, também o “carisma de fundação” e ao “carisma das comunidades”, temas importantes para o momento no qual é iniciada uma Comunidade Nova. “Projeto de Formação Inicial” e “Projeto de Formação Permanente”, estão inseridos no momento de estruturação da Comunidade Nova, sendo o primeiro a grade formativa para os membros da comunidade que ainda não chegaram à consagração, e o segundo para os membros que já são consagrados. A formação inicial parece estar ligada ao processo comunitário de fundação, pois se refere às primeiras tentativas de passar conhecimentos para o grupo antigo, bem como para os iniciantes, e a permanente se refere à fase institucional ou mais oficial da comunidade, quando os membros já estão consagrados e já passaram pela inicial. A novidade do tema pode ser justificada porque a maioria das comunidades presentes tinha menos de 05 anos de existência, portanto, ainda estavam na fase embrionária do 34 Ver anexo C (e-mail encaminhado sobre programação e orientação do módulo II) 81 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 processo comunitário, muitas vezes sem programação rígida, sem muita organização, ainda longe de uma institucionalização. A palestrante, Maria Emmir Oquendo Nogueira (Formadora Geral e co-fundadora da Comunidade Shalom) começou por explicar como fazer uma grade de formação utilizando elementos da pedagogia e forneceu indicações bibliográficas para consulta, sendo as indicações básicas: o Catecismo da Igreja Católica e a Bíblia. Quanto à formação humana, indicava livros publicados pela Editora Shalom e por algumas editoras de comunidades francesas ou italianas, bem como livros escritos por Amedeo Cencini35. Emmir estava entusiasmada com a resposta dada pelo grupo aos conhecimentos repassados e também demonstrava preocupação em continuar acompanhando as pessoas ali presentes, porque sabia que tudo era muito novo para elas. Como não existe um modelo de formação pré-estruturado e obrigatório para orientação das ações das comunidades, não há etapas de formação previamente estabelecidas a serem seguidas por elas. Entretanto, há a experiência das comunidades mais antigas, principalmente aquelas que já foram reconhecidas pela Igreja Católica no Vaticano, como a Comunidade Shalom, ou estão em processo para tal, como a Comunidade Canção Nova que é, em geral, muito respeitada, sendo seguidas como modelo por outras comunidades. No segundo dia, o então Bispo de Campina Grande veio presidir a celebração da Missa e fazer um pronunciamento sobre o documento produzido pela V Conferência do CELAM – Conselho Episcopal Latino Americano e do Caribe, ocorrida de 13 a 31 de maio de 2007, no santuário nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, no Brasil, inaugurada com a presença e a palavra do Papa Bento XVI. O interesse dos participantes pela fala do representante da Igreja institucional não parecia ser muito grande, percebido pelas conversas paralelas, movimentação nas cadeiras, falta de perguntas, além disto, poucos anotavam o que o bispo falava ou tinham o documento. Talvez esse desinteresse tenha ocorrido porque os participantes do evento não foram avisados sobre a interferência do Bispo. Além disso, o bispo falava sentado, enquanto a pregadora oficial, Emmir Nogueira, usava de várias técnicas de entretenimento e estava sempre em pé, recebendo grande atenção de todos, que se sentiam vivamente estimulados a estudarem os documentos da Igreja.36 35 Sacerdote, religioso canossiano, mestre em ciências da educação pela Universidade Salesiana de Roma e doutor em psicologia pela Universidade Gragoriana da mesma cidade. Desde 1995, é consultor da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apóstolica (Congregação do Vaticano). 36 Ver Anexo I – Fotografias tiradas no módulo II. 82 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 O dia 15 de novembro (quinta-feira) foi um dia cheio de atividades de ensino. Sob a orientação da pregadora, os participantes foram divididos por comunidades presentes, para elaborarem os esboços da grade de formação de sua Comunidade, para isso, a pregadora utilizou textos, exercícios, data-show. Pela dificuldade demonstrada na elaboração da primeira grade de formação para muitas comunidades, percebia-se a novidade da proposta. Os dias seguintes seguiram o mesmo ritmo. O dia 16 de novembro (sexta-feira) foi novamente dedicado a ensinamentos, desta vez sobre “formador pessoal”, “formador comunitário”, “fundador”, etc. No dia 17 de novembro (sábado), último dia, retorna-se ao tema de grade de formação. Abaixo seguem algumas palavras de Emmir Nogueira, sobre formação, que motivam os participantes a se dedicaram à formação dentro de suas Comunidades: As ordens religiosas já têm uma grade, do Direito Canônico e do carisma do fundador. Nós, Comunidades Novas, estamos em transição. Nós colocaremos os nossos carismas, com base em outros carismas. A formação garante a unidade, sem a formação, não devemos sair em missão. Recebemos o mesmo alimento, para termos a mesma mentalidade e o mesmo coração. Realmente, para a pregadora, essas afirmações são fruto de uma vivência de 26 anos dentro do universo das Novas Comunidades, sempre como liderança e abrindo caminhos, estando no início do Movimento da Renovação Carismática Católica em Fortaleza/CE e nas primeiras experiências de vida em comunidade nos moldes das NCVA. Para ela, essa realidade é muito preciosa e verdadeira, grande parte de sua vida está ali colocada e é com muita seriedade que executa sua tarefa de formadora, apesar de não cobrar profissionalmente para isso, pois tudo o que recebe em missão passa diretamente para a Comunidade de Vida da qual faz parte. 3.2.3.3 Parte pedagógica do quarto módulo A seguir será feita a descrição do IV Módulo da Escola de Formadores, ocorrido de 24 a 28 de setembro de 2008, especificamente na sua parte pedagógica. O tema central focalizado neste módulo foi “A Vida Fraterna em Comunidade”, baseado no documento com o mesmo nome, em latim “Congragavit nos in unum Christi amor”, escrito pela Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. 83 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Os pregadores foram dois membros consagrados de vida da Comunidade Católica Shalom: Júnior Alves e Maria Gorethi Menezes Queiroz, assessora de formação da Comunidade Shalom, que utilizaram, além do documento citado, livros e formações de Amedeo Cencini, o filme Com Mérito e o livro de Emmir Nogueira (co-fundadora da Comunidade Shalom): Tecendo o Fio de Ouro. A participação de membros da instituição da igreja Católica aconteceu para presidir as celebrações eucarísticas e para fazer a reflexão sobre a Carta Encíclica do papa Bento XVI: “Spe Salvi”. Esse documento foi incluso neste módulo porque o bispo responsável pelas Comunidades Novas de Vida e Aliança do Regional NE2 (Paraíba, Rio Grande do Norte, Alagoas e Pernambuco), Dom Bernardino Marchió, bispo de Caruaru/PE, segundo informação de um dos participantes do encontro, pediu para que em cada módulo fosse estudado um documento da Igreja Católica. Os pregadores abordaram como deve ser a vida fraterna em comunidade e a formação dos membros. Durante o encontro, eles deram muitos exemplos vivenciados pela sua Comunidade, haja vista a grande experiência da pregadora, consagrada há 23 anos, desde os seus 17/18 anos. Quando é dado um exemplo prático e vivencial há uma resposta positiva da assembléia, rindo, conversando entre si, como se estivessem se identificando com os exemplos ou lembrando alguém. São exemplos da vida diária, sobre tipos de pessoas que moram na comunidade. O documento do Vaticano, “Vida Fraterna em Comunidade”, foi estudado minuciosamente, lendo-se partes do texto, comentando-se e dando-se exemplos práticos. Foi usado inclusive o recurso do “power point”. Uma diferença interessante presente nesse documento é entre a “vida fraterna” e a “vida em comum”. Um é elemento espiritual: a fraternidade, que seria “corações animados pela caridade, a comunhão de vida e o relacionamento interpessoal”, outro elemento mais visível seria a “vida em comum” ou “vida de comunidade”, que consiste em “habitar na própria casa religiosa legitimamente constituída” e no “levar vida comum” através da fidelidade às mesmas normas, da participação aos atos comuns, da colaboração nos serviços comuns (Doc. A Vida Fraterna em Comunidade, §3). A grande preocupação nesse módulo é com a “formação humana”, por isso são passadas muitas informações sobre relações humanas, educação, psicologia humana. Os problemas na vida fraterna em comunidade são colocados como presentes em todo ser humano, fazendo parte da humanidade e passam pela formação integral da pessoa. 84 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 No quadro 6 será apresentado o resumo de alguns dos temas abordados: I - Processo Comunitário II - Relacionamentos internos III - Cotidiano das comunidades a) Formação Permanente a) Educação, gentileza, a) Lazer e descanso sinceridade, controle de si mesmo, delicadeza, senso de humor, espírito de partilha b) Auto-conhecimento b) Amadurecimento psicológico b) Paz e gozo em estar juntos c) O papel da autoridade c) Experiência de oração pessoal e comunitária c) Ascese pessoal (esforço e dedicação) Quadro 6 – Resumo dos temas abordados no IV Módulo A seguir será dada uma breve explanação do que foi comentado em cada um dos pontos citados, sobre a Vida Fraterna em Comunidade: caracterizar-se-ão os assuntos a partir dos valores e preceitos comunitários seja ligando ao processo comunitário, aos relacionamentos internos, ao cotidiano das comunidades ou ao comportamento moral. I - Processo Comunitário Seria tudo aquilo que está direcionado para a formação dos membros das Comunidades Novas, as etapas desse processo de formação, o que deve ser visto em cada uma delas, como a comunidade deve se estruturar internamente. Também percebe-se que no processo comunitário encontram-se pistas do tempo de fundação e da maturidade da comunidade. Aqui também pode-se identificar possíveis tensões, conflitos, consensos, jogos de interesse. a) Formação contínua Para que haja um controle na formação das pessoas, há uma orientação para que desde quando um novo membro entre na comunidade, seja direcionado a fazer uma formação humana séria e profunda, abordando aspectos psicológicos, afetivos, de relações humanas, além da espiritualidade e vida missionária, com o objetivo de que, quando a pessoa estiver em uma possível “crise” ou dificuldade de continuar na comunidade, tenha uma sólida formação que a mantenha no equilíbrio e na vida comunitária. Essa formação deve ser uma constante durante toda a vida da pessoa que se consagra dentro da comunidade. b) Autoconhecimento 85 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Esta etapa é abordada como um ponto chave, devendo ser buscada por todos os membros das comunidades. O autoconhecimento seria necessário para possibilitar uma convivência saudável, além do conhecimento da identidade da pessoa, levando-a a perceber se realmente quer, gostaria e está preparada para uma vivência comunitária. c) O papel da autoridade Este papel no interior da comunidade religiosa é retomado, apesar de ter estado prejudicado, com a reivindicação da liberdade pessoal e dos direitos humanos de forma unilateral e exacerbada, devendo esta autoridade continuar com o seu papel, sob pena de prejudicar uma vivência comunitária saudável. O documento “Vida Fraterna em Comunidade”, enfatizado pela pregadora, analisa que a convivência fraterna nas comunidades religiosas melhorou muito nos últimos anos, nos aspectos da humanidade, na participação de todos, na atenção às necessidades individuais. Mas essa convivência mais aberta levou a não entender o papel da autoridade dentro da comunidade, que deve continuar existindo, sob pena de um crescente individualismo e esfacelamento da vida comunitária. “Por outro lado, os resultados dessas experiências estão levando progressivamente à redescoberta da necessidade e do papel de uma autoridade pessoal, em continuidade com toda a tradição da vida religiosa”. (Doc. Vida Fraterna em Comunidade, § 48). A pregadora aborda o documento, explicando que a autoridade deve ser exercida dentro da comunidade religiosa, privilegiando os aspectos da espiritualidade, da unidade, para que tome as decisões finais e lhes assegure a execução, com papel e função bem definidos nos documentos da comunidade religiosa. II - Relacionamentos internos a) Educação, gentileza, sinceridade, controle de si mesmo, delicadeza, senso de humor, espírito de partilha A pregadora enfatiza as recomendações sobre estes aspectos através da citação do § 23 do Documento “A Vida Fraterna em Comunidade”: Esse caminho de libertação que conduz à plena comunhão e à liberdade dos filhos de Deus exige, porém, a coragem da renúncia a si mesmo na aceitação e no acolhimento do outro, a partir da autoridade. Notou-se, em mais de um lugar, que isso constituíu um dos pontos mais fracos do período de renovação destes anos. Aumentaram os conhecimentos, estudaram-se diversos aspectos da vida comum, mas cuidou-se menos do esforço ascético, necessário e insubstituível para qualquer libertação capaz de fazer de um grupo de pessoas uma fraternidade cristã. A comunhão é um dom oferecido que exige também uma resposta, um paciente tirocínio e um combate para superar o espontaneísmo e a instabilidade dos desejos. O altíssimo ideal comunitário comporta necessariamente a conversão de qualquer atitude que causasse obstáculo à comunhão. 86 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Nesse sentido, a pregadora contou um caso acontecido com ela na sua vivência de comunidade, para mostrar como se deve controlar a raiva e os desejos precipitados. Disse que dormia em um quarto, em beliches, com pelo menos mais cinco pessoas, e só tinham um ventilador para todas. Um irmão que dormia ao seu lado, ao chegar depois que ela estava dormindo, colocou o ventilador em cima da cama dela, para ficar mais próximo dele. Durante a noite, quando ela se mexeu um pouco, bateu no ventilador, este enroscou em seu lençol, e ela acordou em pânico, enquanto todos dormiam tranqüilamente. Nesse momento, disse que a sua vontade era de acordar o irmão e gritar com ele, ou de colocar o ventilador em cima dele para acontecer o mesmo. Mas dominou a raiva e esses desejos e voltou a dormir. No outro dia, o irmão perguntou se ela tinha dormido bem, ela disse que sim, apesar de um “monstro” de quatro hélices ter aterrorizado na cama dela durante a noite. b) Amadurecimento psicológico Fala-se de pessoas que vêm de experiências difíceis fora da comunidade, de pessoas “que sofrem” e até prejudicam a vida comunitária. Orienta-se para verificar de onde vêm esses “sofrimentos”, se “de deficiências de caráter, de trabalhos sentidos como muito gravosos, de graves lacunas na formação, das transformações demasiadamente rápidas destes anos, de formas demasiadamente autoritárias de governo” (Doc. Vida Fraterna em Comunidade § 38). Se detectados já na fase inicial do processo de ingresso na comunidade, deve ser tratado adequadamente. Destaque-se uma frase desse Documento que recomenda a convivência como uma forma de “máxima penitência”: “Pode haver até diversas situações em que a autoridade deve fazer presente que a vida em comum exige, por vezes, sacrifícios e pode tornar-se uma forma de «maxima poenitentia»” (§ 38). Ou seja, a pessoa deve realmente suportar uma convivência muito difícil, tomando-a como meio de penitência estrema. Entretanto, o documento citado, e a fala da pregadora assim o corrobora, diz que há casos patológicos que devem ser verificados com especialistas: psicólogos, psiquiatras. Ressaltando que esses sejam, de preferência, “uma pessoa de fé e conhecedora da vida religiosa e de suas dinâmicas” (§ 38), e que esses especialistas não substituem um bom “guia espiritual”. c) Ascese pessoal (esforço e dedicação) São levados problemas vividos por todas as comunidades participantes, mas são dadas soluções baseadas na “caridade” e na “misericórdia”, ou seja, soluções que necessitam de 87 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 virtudes teologais para serem vividas, e que vêm de uma ascese pessoal, para que se possa ter uma vida fraterna em comunidade. A ênfase na necessidade de esforço pessoal para sair de si mesmo, na vivência em comunidade, é feita citando trecho do Documento “A Vida Fraterna em Comunidade”, §21: Mas tudo isso não é conforme à natureza do «homem velho» que deseja, sim, a comunhão e a unidade, mas não pretende nem está disposto a pagar-lhe o preço, em termos de esforço e de dedicação pessoal. O caminho que vai do homem velho, que tende a fechar-se em si mesmo, ao homem novo, que se doa aos outros, é longo e cansativo. Os santos fundadores insistiram realisticamente sobre as dificuldades e sobre as ciladas dessa passagem, conscientes como estavam de que a comunidade não se pode improvisar. Ela não é coisa espontânea nem realização que se consiga em breve tempo. A pregadora insiste que a vida fraterna em comunidade “brota da construção, da renúncia, e muitas vezes do caminho de cruz para ir ao encontro do outro, (...) para não ter ilusões de 'angelicalismos', mas viver na verdade do auto-conhecimento.” Ou seja, aqui se verifica que realmente um dos propósitos da vida comunitária é a busca de uma vida no modelo dos santos, de uma vida que busque o crescimento espiritual nas relações do dia a dia. A expressão 'angelicalismos' é dita no sentido de trazer a pessoa para sua realidade humana, conscientizando-a de que ela não é apenas um ser espiritual, como os anjos. Os santos foram pessoas reais, que tiveram problemas concretos. III - Cotidiano das Comunidades a) Lazer e descanso O tema lazer e descanso foi abordado como conteúdo da formação pela pregadora, indicando a necessidade dos coordenadores e líderes pararem para descanso e lazer, a fim de evitar o “stress”, devido ao fato da maioria das Comunidades presentes serem pequenas, exigindo esforços redobrados dos membros e líderes para realizar várias tarefas, indo além de seus limites humanos. Fala-se do “ativismo” em detrimento da oração e da vida fraterna. Os membros ficam tão envolvidos com os trabalhos sociais ou de evangelização, ou com a própria estrutura da comunidade, ou com suas funções na comunidade, com muitas preocupações, que acabam ficando muito cansados e até doentes. 88 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 b) Paz e gozo em estar juntos A pregadora enfatiza também a necessidade de “paz e gozo de estar junto”, de uma “alegria que contagia a todos”, cita mais um trecho do Documento sobre a vida fraterna em comunidade (§ 28): Uma fraternidade rica de alegria é um verdadeiro dom do Alto aos irmãos que sabem pedi-lo e que sabem aceitar-se empenhando-se na vida fraterna com confiança na ação do Espírito. Realizam-se assim as palavras do Salmo: «como é bom, como é agradável os irmãos morarem juntos... Aí o Senhor dá sua benção e a vida para sempre» (Sl 133, 1-3) Depois, dá mais um exemplo acontecido com ela. Em sua comunidade , eles têm um momento na semana para simplesmente estarem juntos e, como são pobres, e não têm dinheiro para sair ou comprar uma comida diferente, geralmente ficam em casa mesmo, conversando e rindo uns dos outros. Um casal muito rico que conhecia a comunidade há pouco tempo foi convidado para um desses momentos, mas tinham uma festa da sociedade que a esposa fazia questão de ir. No meio da festa, o homem disse que não estava agüentando mais aquele lugar. Ao sair, lembrou do convite do pessoal da Comunidade e foi para lá. Quando ele chegou, todos estranharam seus trajes de gala, mas o receberam com carinho e animação, logo depois, chegou a sua esposa, toda arrumada também, receberam-na da mesma forma. Depois o casal contou o que havia acontecido e que não sabiam porque, mas se sentiam muito mais felizes ali com eles, sem nada especial para comer e ouvir, apenas “jogando conversa fora”, do que naquela festa para a qual gastaram R$ 5.000,00. c) Experiência de oração pessoal e comunitária A pregadora e o documento utilizado dizem que a própria comunidade religiosa só pode ser acolhida numa dimensão de contemplação, ou seja, oracional. Sem a qual a vida fraterna pode muitas vezes parecer “inútil” e “perda de tempo”. Assim, é recomendado que haja um horário fixo para oração em comum e para “dar tempo a Deus”, mesmo em meio a diversas atividades e vida corrida, de sobrecarga de trabalhos, de diversos horários. As orações em comum, como a Liturgia das Horas, a Missa, a partilha da Bíblia, as devoções Marianas, a adoração ao Santíssimo Sacramento, são recomendadas a serem vividas sem pressa e com entusiasmo. Também é elevada a importância da experiência de oração pessoal como sendo um dos fatores que conduz à vida “evangélica e apostólica” das comunidades religiosas, principalmente hoje, que “se assiste a um novo despertar da busca do 89 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 transcendente, as comunidades religiosas podem se tornar lugares privilegiados onde se experimentam os caminhos que levam a Deus” (§ 20). 3.2.4 Descrição da parte ritual dos módulos As atividades rituais foram privilegiadas devido a quantidade de tempo a elas destinadas e, principalmente, porque se dava bastante importância a esses momentos. Notadamente, a celebração da Missa, no início de todas as atividades e a adoração ao Santíssimo Sacramento, encerrando-as, demonstrou como os participantes preocupam-se em expressarem a sua religiosidade, como forma de integrá-las às atividades pedagógicas e de convivência. Outro motivo seria para identificar as especificidades das expressões da religiosidade católica demonstradas pelas Comunidades Novas, quando reunidas. Além disso, verificar a ocorrência da espontaneidade nas orações, já detectada por estudiosos da Renovação Carismática Católica. 3.2.4.1 Parte ritual do segundo módulo O segundo Módulo da Escola de Formadores se inicia, no dia 13 de novembro de 2007, com a celebração da Missa. Depois da Missa, seguida pelo café da manhã. Logo após, oração comunitária. A oração comunitária em geral se inicia com uma música de louvor a Deus, de acolhida dos irmãos que estão presentes. Alguém “ministra” a oração, ou seja, direciona a oração conforme o “Espírito Santo de Deus” está conduzindo dentro de si. São os dons carismáticos do Espírito Santo, que logo é invocado, seguindo-se de orações espontâneas por toda assembléia presente, terminando com um momento de silêncio, para “ouvir” o que o Espírito Santo está “falando” para cada um em particular. Após o silêncio, as pessoas são convidadas para proclamar em alta voz as “moções” do Espírito Santo, com visualizações, ou palavras de ciência ou de sabedoria. Um exemplo de uma visualização ocorrida durante essa oração: “o Espírito Santo banhando, molhando, irrigando uma terra árida”. Outra pessoa “confirma” a visualização, porque teve uma “visualização de pessoas cansadas caminhando no deserto, depois 90 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 começava a cair água do céu”. Outra pessoa “confirma”, porque se lembrava do texto bíblico de Isaías 32, 15-20. Quando o Espírito Santo manifesta-se através das pessoas, elas são estimuladas a agradecer a Deus por essas revelações com um louvor em português, todos ao mesmo tempo, em alta voz. A oração continua, colocando-se a mão no irmão do lado e “orando em línguas” uns pelos outros. Um tempo depois, a dirigente do dia diz a moção do Espírito Santo durante essa “oração em línguas”: “Descanso para a mente, refrigério”. Entra a pregadora do encontro, Maria Emmir Oquendo Nogueira, co-fundadora da Comunidade Shalom. As pessoas oram por ela. Há uma moção do Espírito Santo, vinda através de Alessandra, fundadora da Comunidade Remidos no Senhor, uma palavra de sabedoria: “dai de graça o que de graça recebeste, e o que deres a mais eu daria em dobro de volta”. Inicia-se a pregação de Emmir Nogueira sobre Formação, às 9h40. Foram 40 min de oração comunitária. O dia inteiro foi de formação, com parada de 3 horas, para o almoço e descanso e, durante a tarde, para um lanche. No final do primeiro dia, às 18h45, antes do jantar, houve “adoração ao Santíssimo”, ou seja, exposição do Corpo de Cristo no ostensório para adoração. O padre37 entra com o ostensório e todos aplaudem e se ajoelham. Um homem dirige a adoração. Durante a adoração, as pessoas ficam de joelhos ou em pé, em silêncio, é pedido para contemplar a graça do carisma de cada comunidade. Um tempo depois, várias pessoas, uma por uma, vão falando as visualizações, as moções, as contemplações. Os demais ouvem, “confirmam”, completam com outra moção, sentimento, visualização. Depois, inicia-se uma oração de louvor, com um canto, primeiro os homens oram em línguas e as mulheres cantam, depois as mulheres oram em línguas e os homens cantam. Novo silêncio. Os fundadores ou fundadoras das comunidades presentes, que eram cerca de 10 pessoas, são chamados à frente, próximos ao ostensório38, onde se encontra, para os fiéis católicos, que simboliza o Corpo de Cristo, o Santíssimo. Os demais impõem as mãos sobre eles, próximos ou distantes, oram em línguas. Novo silêncio, novas palavras ditas na 1ª 37 A atribuição de conduzir o ostensório é do padre, que pode delegar a um diácono, caso não possa estar presente. 38 Objeto de metal com um círculo de vidro transparente no meio, no qual se coloca a óstia consagrada para que as pessoas possam vê-la e prestar-lhe culto de adoração. 91 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 pessoa, como se fosse Deus falando. É lido um trecho bíblico – Isaías 2. Novo louvor com cantos e palmas de pé. O padre, que trouxe o ostensório com o Santíssimo, diz a moção do Espírito Santo para aquele momento, pede para cantar uma música, depois reza a oração oficial da Igreja para os momentos de “exposição” e “bênção” do Santíssimo. Leva de volta o ostensório, passando pelo meio do povo, enquanto todos cantam e batem palmas, um canto em agradecimento. As adorações ao Santíssimo Sacramento parecem constituir o momento mais fervoroso do encontro, com relação à espiritualidade, pois é ali que se percebe um maior silêncio para oração, aprofundamento e a ocorrência de profecias do Espírito Santo. Os demais dias transcorrem mais ou menos nesse ritmo, na parte ritual. Ressalta-se apenas que, no segundo dia, houve uma pequena mudança no ritmo da programação: a oração comunitária da manhã não ocorreu logo após o café, como no primeiro dia, mas só depois da fala do Bispo de Campina Grande (que também presidiu a celebração da Missa), convidado para o evento, e de um intervalo para lanche. Essa mudança deve ter ocorrido devido à presença do Bispo, ou porque ele tinha outros compromissos e precisava antecipar sua fala, ou porque não é afeito a orações com expressões carismáticas, e os organizadores preferiram deixar a oração comunitária para depois que ele saísse. 3.2.4.2 Parte ritual do quarto módulo No quarto módulo (setembro de 2008), as orações comunitárias foram um pouco diferentes das do encontro anterior. No segundo módulo (novembro de 2007), as orações sempre se iniciavam com músicas mais agitadas, de louvor e com motivações direcionadas a uma oração animada, empolgada. Nesse quarto módulo, as orações se iniciam com canções mais suaves e com orações de invocação do Espírito Santo, sempre pedindo renovação da vida fraterna em comunidade. Em algum momento da oração, era pedido para as pessoas se dividirem em subgrupos, procurando os membros da sua própria comunidade. O intuito pareceu ser fazer com que as pessoas “intercedam” pela vida fraterna em sua comunidade. Essa divisão não é uma prática corriqueira, realmente esse módulo estava muito voltado para a formação da vida fraterna em cada comunidade, fazendo com que os membros refletissem e orassem sobre isso. 92 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Durante todo o módulo, diferente do primeiro, não houve preocupação com interação entre os membros de comunidades diferentes. Nos momentos de adoração do Santíssimo Sacramento (Eucaristia), um Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão, que faz parte da Comunidade Remidos no Senhor, conduzia o Santíssimo (hóstia consagrada), na “teca”39 e quando chegava na mesa própria, preparada com velas, toalha e flores, colocava a hóstia consagrada no ostensório. Em geral, ao ministro da sagrada comunhão não é permitido conduzir o ostensório com a óstia consagrada exposta, apenas lhe é permitido conduzi-la na “teca” e expô-la em local fixo. 3.2.5 Descrição da parte de convívio e sociabilidade dos dois módulos No segundo módulo, durante as noites não havia palestras, exibiam-se vídeos de shows de música, documentários e também filmes que seriam utilizados pela pregadora posteriormente para ilustrar os conteúdos. Também filmes sobre Madre Teresa de Calcutá40 e sobre Dom Bosco41, para demonstrar o surgimento de duas fundações diferentes dentro da Igreja. Os participantes deviam tentar responder algumas questões por escrito sobre o filme, que seriam debatidas no dia seguinte. No quarto módulo, também não houve palestras durante as noites, esse período foi deixado livre, para descanso, conversas espontâneas, orações espontâneas individuais ou em grupo. Apenas na última noite houve uma recreação direcionada. A exibição de filme foi usada como recurso pedagógico, à tarde, utilizando o filme “Com Mérito42”. Durante a exibição dever-se-ia observar as características e comportamentos dos personagens e as relações entre eles para depois comentar em sub-grupos, relacionando os comportamentos dos personagens com as características dos membros das comunidades. 39 Objeto de metal inox em forma de caixa redonda, no qual se guarda a óstia consagrada. 40 Filme produzido por Luca Bernabei, Carlo Boserman e Pete Maggi, em 2003, narra a trajetória de Madre Teresa de Calcutá da fundação de sua congregação até sua morte. 41 Filme produzido por Leandro Castellani, pela TV italiana, em 2004, e narra a trajetória do santo São João Bosco (Dom Bosco) para fundar a Congregação Salesiana. 42 Produzido nos EUA, em 1994, por Spring Creek Productions, Warner Bros. Pictures. 93 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 3.2.6 Participação da Igreja na Escola de Formadores de Campina Grande/PB Pode-se dizer que a hierarquia da Igreja Católica participa desses eventos nas pessoas dos padres e bispos da arquidiocese onde eles são realizados. Os padres que participam desses eventos de formação, em geral são convidados para o evento, principalmente, para celebrar a Missa e dar algum ensinamento sobre um documento específico da Igreja. Convidam-se padres mais conhecidos ou mais disponíveis. Nesses eventos também houve a participação do bispo local. Percebe-se que algumas NCVA, principalmente aquelas mais estruturadas, como a Comunidade Remidos no Senhor, que organizou o evento junto com o Regional NE2 da CNBB, preocupam-se em convidar o bispo local para visitá-los. Inclusive, ele faz visitas periódicas à Comunidade. Essas visitas são de interesse da Comunidade, que busca respaldo da hierarquia da Igreja para que suas atividades e consagração sejam por ela reconhecidas, e da Igreja, na pessoa do bispo local, que tem obrigação hierárquica de “fiscalizar” os Movimentos, Pastorais, Paróquias dentro da sua diocese (divisão territorial). A Igreja oficial não dispõe sobre o que, especificamente, deve ser estudado em cada módulo, mas como o curso é organizado por uma Comunidade Nova, a Comunidade Remidos no Senhor que, segundo consta em e-mail explicativo encaminhado por essa Comunidade, tem apoio oficial da Igreja por meio do bispo que acompanha as Comunidades Novas do Regional NE2, pode-se presumir que haja, pelo menos, uma revisão do conteúdo sugerido pela Comunidade. O padre que presidiu a celebração da eucaristia na sexta-feira (26/09/2008), ao término, disse que sua vocação de padre surgiu dentro de um grupo de oração da Renovação Carismática Católica - alguns bateram palmas -, daí ele se sentir à vontade, em família, quando “celebra a eucaristia” com grupos que usam os dons e carismas do Espírito Santo. Já o celebrante do sábado, que fez a reflexão sobre a Encíclica “Spe Salvi” é o reitor do Seminário de Campina Grande, e no final da reflexão disse que as Novas Comunidades de Vida e Aliança são testemunhos proféticos nesse tempo e fez elogio à Toca de Assis, por vivenciarem realmente o carisma de pobreza do franciscanismo. Disse ainda que as comunidades tradicionais estão se esvaziando, enquanto que as Novas Comunidades de Vida e Aliança vivem a “primavera vocacional”. 94 ALVES, K.S.A.L. 3.2.7 UFPB-PPGCR 2009 Apreciação geral dos módulos II e IV da Escola de Formadores em Campina Grande/PB Diante disso, percebeu-se que a pressão para que os membros tenham uma formação constante vem das próprias Comunidades Novas sobre si mesmas e das Comunidades mais antigas sobre as mais recentes. Havendo também uma preocupação de se enquadrar nas exigências oficiais da Igreja Católica, para “conseguir” um reconhecimento oficial Igreja como “Associação Privada de Fiéis”, sendo uma dessas exigências a formação permanente dos membros das comunidades. Na parte ritual dos módulos, é marcante a presença da oração espontânea, do uso dos dons carismáticos de línguas, de interpretação, de visualizações, de cura, de aconselho, entre outros. Entretanto, dependendo de quem esteja à frente da oração, essa pode desenrolar-se em sentido mais eufórico ou mais sereno, foi a diferença percebida na parte litúrgica dos módulos. Enquanto no II módulo as orações transcorriam de uma forma mais de louvor, no IV módulo, as orações eram mais contemplativas, serenas. Houve diferença também na parte de convivência entre um e outro módulo. Enquanto no módulo II a sociabilidade foi mais intensa e constante, no módulo IV ela foi um pouco dispersa, talvez devido a fatores como o local (no IV módulo havia um grande espaço, proporcionando isolamento e afastamento, inclusive em sub-grupos). Especificamente sobre os temas abordados em cada módulo, apesar do interesse dos participantes existir em ambos, no II módulo a intensidade foi maior. Um dos fatores pode ter sido a presença de Emmir Nogueira, que conseguiu atrair as atenções para o tema tratado, pela forma como o expôs. No que se refere ao perfil dos participantes, foi perceptível a presença no IV módulo de várias pessoas que não estavam no II módulo, como também, a falta de algumas delas. Mas não havia maiores diferenças no sentido de comportamento, faixa etária, etc. 3.3 Análise dos questionários aplicados no módulo II da Escola de Formadores em Campina Grande/PB A seguir será feita uma análise dos questionários43 aplicados com participantes do 2° Módulo da Escola de Formadores organizada pela Comunidade Remidos no Senhor, em 43 Ver modelo do questionário no apêndice A. 95 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Campina Grande/PB, no período de 13 a 17 de novembro de 2007. Os participantes, em média de 100, eram fundadores e formadores (líderes) de Novas Comunidades de Vida e Aliança dos Estados da Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte. Foram entregues questionários a todos os participantes e foram recebidos 33 questionários respondidos. O grande número e variedade de questões inseridas no questionário podem ser justificados pela necessidade de tocar em vários aspectos da vida comunitária dessas Comunidades. Serão enfatizadas as questões consideradas como características fundamentais das Comunidades Novas de Vida e Aliança e o seu processo de formação e transformação. Levando em consideração que havia 22 comunidades diferentes participando do evento, no qual o questionário foi aplicado, e que no levantamento dos questionários respondidos foi constatado que pelo menos um membro de 18 comunidades diferentes respondeu às questões, o uso deste documento possibilitou uma boa variedade de vivências para serem descritas e analisadas. 3.3.1 Perfil dos líderes e fundadores das Comunidades Novas de Vida e Aliança Esse parâmetro não foi aprofundado, pois nos deteremos nas questões que dizem respeito à dinâmica da comunidade, no que se refere ao processo de fundação e seus desdobramentos e tudo o que a ele se refira. A identificação, como nome, endereço, foi deixada como opcional. 3.3.1.1 Sexo, idade, estado civil, inserção na sociedade Dentre as pessoas que responderam ao questionário (33), a metade (52,8%) era do sexo masculino e a outra, (56,1%) era do sexo feminino. Mesmo havendo um equilíbrio entre os gêneros, especialmente entre as lideranças das Comunidades Novas de Vida e Aliança (apenas líderes responderam ao questionário, pois foram eles os participantes da Escola de Formação), apontando uma participação aberta tanto para mulheres como para homens nessas funções, a percentagem do sexo feminino ainda é maior, corroborando com a tendência geral de haver mais mulheres que homens freqüentando as igrejas. 96 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Quanto à faixa etária dos membros (líderes) das CNVA que responderam ao questionário, expomos o gráfico 1, para uma melhor visualização. Gráfico 1 – Distribuição da faixa etária dos membros das CNVA Os dados demonstram a participação de jovens e adultos nas CNVA de forma equilibrada, estando metade entre os 20 e os 30 anos e a outra, com mais de 31 anos. É relevante a predominância de jovens (52%) em relação ao grupo com mais de 50 anos (12%). Entre os membros fundadores (06), a faixa etária predominante (metade dos fundadores) é ainda de jovens, entre os 20 e os 30 anos (03 fundadores), estando 02 deles entre 41 e 50 anos e apenas 01, com mais de 50 anos. Quanto ao estado civil dos membros/líderes das CNVA, a questão foi fechada, com as seguintes opções de resposta: “solteiro”, “casado”, “casado consagrado”, “solteiro consagrado”. Por “estado de vida”, entende-se a opção de vida que o membro da Comunidade deve fazer: casado, celibatário ou sacerdote44. Nessa questão, o objetivo foi verificar a porcentagem de casais presentes nas NCVA, em relação aos solteiros, tendo em vista que a presença de casais consagrados e de celibatários (solteiros) vivendo um carisma comum é a maior novidade que as CNVA trazem para a Igreja Católica. A distinção feita visou perceber em qual categoria (solteiros ou casados) se encontram mais consagrados. 44 Ver Capítulo II, subseção 2.5.4 – Membros das CNVA. 97 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Gráfico 2 – Estado de vida dos membros das NCVA A soma dos percentuais de cada categoria (solteiro + solteiro consagrado x casado + casado consagrado) indica equilíbrio entre casados e solteiros. Por outro lado, verificando o número de consagrados, percebe-se a predominância de casais consagrados (15%) sobre os solteiros consagrados (6%). Há, pois, uma forte indicação para a presença dos leigos nas Comunidades Novas buscando uma consagração religiosa que não exclua o matrimônio. A presença de pessoas que não responderam a essa questão significa que pode estar em um estado civil diferente das opções propostas, que pode ser, por exemplo, separado. Percebe-se, pelo baixo número de pessoas que não responderam ao questionário (3%), que existem poucos separados ou divorciados nas Comunidades Novas pesquisadas, apontando para uma postura moral em conformidade com as orientações da igreja oficial de Roma com relação ao matrimônio, no sentido de sua indissolubilidade. Gráfico 3 – Inserção dos membros das CNVA na sociedade No que se refere à inserção ou não dos membros das NCVA na sociedade, o resultado aponta para a integração/inserção social dos membros à sociedade exercendo profissões diversas e tendo outros tipos de ocupação, como o estudo. Pelo conhecimento informal, 98 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 existem médicos, enfermeiras, advogados, juízes, professores, administradores, psicólogos, entre muitas outras profissões, fazendo parte tanto como membro da Comunidade de Aliança como da Comunidade de Vida. O que demonstra que a participação na comunidade religiosa não exclui as demais atividades seculares de seus membros. Percebe-se que os integrantes das CNVA estão em trânsito entre a communitas e a societas (Tönnies), entre a estrutura e a anti-estrutura (Turner). Os membros das CNVA vivem os mecanismos de homogeneização na communitas e de diferenciação na societas, aparentemente, levando e trazendo valores de uma para a outra. Vive-se algo real e orgânico, com fortes laços humanos e afetivos, em igualdade, na communitas, mas também é feita a experiência do estranhamento, do afastamento, na societas. Essa situação pode ser geradora de tensão, pela convivência permanente com valores contraditórios. O resultado da questão ainda dá indícios de participação de pessoas que fazem parte de camadas sociais que necessitam do trabalho próprio para o sustento e que já estão no mercado, não sendo apenas estudantes, haja vista que 27% dos respondentes trabalham e estudam. Com tantas atividades (trabalho, estudo, serviços na Comunidade) fica a indagação de real possibilidade de excesso de ativismo por parte dos membros, o que justificaria a necessidade de um módulo da Escola de Formadores (módulo IV) enfatizar a vivência fraterna e chamar a atenção para o cansaço, o stress e o pouco tempo para convivência entre os membros das Comunidades45. 3.3.2 O Carisma das Comunidades Novas Por ser um tópico sui generis, não se enquadrando no perfil pessoal do líder/fundador nem no processo comunitário, e muito importante para a compreensão das CNVA, pois apenas um carisma NOVO pode legitimar a existência de uma NOVA comunidade46, tratarse-á aqui do que se refere aos resultados do questionário sobre o carisma das Comunidades Novas. Perguntou-se: Qual é o carisma da comunidade da qual você faz parte? Na análise dessa questão, a palavra carisma é entendida em seu sentido teológico, especificamente quanto ao carisma de um “instituto” dentro da Igreja Católica, por exemplo, quando se diz 45 Ver subseção 3.2.3.3 – Parte pedagógica do quarto módulo, desta dissertação. Ver Capítulo II, subseção 2.5.5 – Vocação, espiritualidade, carisma, fundadores e missão das CNVA, desta dissertação. 46 99 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 “carisma beneditino”, “carisma franciscano”, “carisma dominicano”. É aquilo que lhe dá uma índole própria, uma identidade, o que o diferencia das demais CNVA e de outros movimentos e institutos pertencentes à igreja. Essa identidade vem especialmente da experiência religiosa dos fundadores e, conseqüentemente, da experiência religiosa dos seus seguidores. As Comunidades Novas procuram essa identidade própria e o fazem verificando a sua história, o que foi por ela vivenciado, por meio de seus fundadores e primeiros membros, sob a ótica da fé. A partir daí, formulam um resumo dessa experiência religiosa, que deve ser buscada também por todos os que fazem parte da Comunidade. Serão analisadas aqui as expressões que cada Comunidade encontrou para expressar o seu “carisma” próprio. No quadro 7, estão transcritos os carismas descritos pelas 19 Comunidades que responderam ao questionário. A santidade do matrimônio (03 responderam). Viver a santidade do sacramento do matrimônio. Amar, consolar e manifestar ao mundo o prazer que é Deus (04 responderam). Anunciar a Divina Misericórdia do jeito de Maria. Anunciar o amor libertador de Jesus Cristo crucificado como filhos de Maria. Com Maria lançar a rede de pesca: o terço, atraindo almas a experimentar o Amor de Deus revelado em Jesus Cristo. Cuidamos de alcóolatras. Estamos descobrindo como trabalhar e definir esse carisma. Gerado no ventre de Maria ser para o mundo e para a Igreja pão partido e partilhado, gerando vida ao coração do homem, por gratidão a Deus. Indefinido, porém dentro da misericórdia divina que jorra da cruz de Cristo. Morrer com Jesus na cruz para com Ele ressuscitar, levando a ressurreição aos outros. Na simplicidade do Espírito, doar-se por amor a Deus e aos irmãos, como Jesus se consome por nós na Eucaristia. Oração e Intercessão. Permanecer no Eucarístico em silêncio, espera e adoração. (02 responderam). Reconciliar-nos com Deus. Resgatar a dignidade dos filhos de Deus, pela Misericórdia (02 responderam). Reviver pela misericórdia - eu estava morto e revivi. 100 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Ser hóstia viva e bálsamo para a Igreja. Ser sal que dá gosto e luz para iluminar. - Ser sal e luz através de todos os meios possíveis. - Levar o sal e a luz de Deus através de todos os meios possíveis (fazer as pessoas experimentarem Cristo, verdadeiro sal que dá gosto à vida). Ser sinal de unidade. Testemunhar, no silêncio de Maria, a contemplação à cruz de Cristo. Viver com alegria intensamente a radicalidade do sim a Deus (02 responderam). Quadro 7 – Carisma das CNVA Percebe-se que, em sua grande maioria, a definição do Carisma da Comunidade se refere à uma forma de identificação adotada pelas comunidades, e na sua formulação se inicia com um verbo na sua descrição. Essa particularidade se justifica porque o carisma está diretamente relacionado com a vivência dos membros, com o ser e o viver de cada pessoa consagrada àquele carisma. Algumas das respostas aqui apresentadas, como por exemplo, “Indefinido, porém dentro da misericórdia divina que jorra da cruz de Cristo”, confirmam a observação participante durante os eventos, quando membros alegaram não saber indicar ainda qual era seu carisma e quem era seu fundador, de modo que parece ser necessário se construir uma história ou um mito fundador da comunidade. Observando a repetição de temas nas respostas das perguntas abertas sobre os carismas das Comunidades, foi feita uma divisão visando identificar aqueles mais freqüentes. A palavra encontrada com mais freqüência foi MARIA (26%), conforme a transcrição das respostas: • Anunciar a Divina Misericórdia do jeito de Maria; • Gerado no ventre de Maria ser para o mundo e para a Igreja pão partido e partilhado, gerando vida ao coração do homem, por gratidão a Deus; • Com Maria lançar a rede de pesca: o terço, atraindo almas a experimentar o Amor de Deus revelado em Jesus Cristo; • Testemunhar, no silêncio de Maria, a contemplação à cruz de Cristo; • Anunciar o amor libertador de Jesus Cristo crucificado como filhos de Maria. Carismas que possuem a palavra MISERICÓRDIA (15,7%) no nome: • Reviver pela Misericórdia; 101 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR • Misericórdia divina que jorra da cruz de Cristo; • Resgatar a dignidade dos filhos de Deus, pela Misericórdia. 2009 Carismas que possuem a palavra DEUS no nome (15,7%): 1. Reconciliar-nos com Deus; 2. Amar, consolar, manifestar ao mundo o prazer que é Deus; 3. Viver com alegria intensamente a radicalidade do sim a Deus. Por outro lado, pela observância dos verbos e da redação, percebe-se a existência de carismas que evidenciam a vivência de fé individual e subjetiva, como por exemplo: 4. Ser sinal de unidade; 5. Reconciliar-nos com Deus; 6. Permanecer no Eucarístico em silêncio, em espera e adoração; 7. Ser hóstia viva e bálsamo para a Igreja. E ainda a existência de carismas que apontam para valores na relação com o outro. Os exemplos abaixo destacam as palavras que demonstram saída de si mesmo: 8. Reviver pela misericórdia – eu estava morto e revivi; 9. Oração e Intercessão; 10. Amar, consolar e manifestar ao mundo o prazer que é Deus; 11. Morrer com Jesus na cruz para com Ele ressuscitar, levando a ressurreição aos outros; 12. Anunciar a divina misericórdia do jeito de Maria; Na simplicidade do Espírito, doar-se por amor a Deus e aos irmãos, como Jesus se consome por nós na Eucaristia; 13. Testemunhar, no silêncio de Maria, a contemplação à cruz de Cristo; 14. Cuidamos de alcoólatras; 15. Resgatar a dignidade dos filhos de Deus, pela Misericórdia. O carisma aqui descrito e analisado trata-se do carisma de uma nova forma de ser e de reunir-se dentro da Igreja e possui, conforme a teologia, as dimensões carismática, cristológica e evangélica, eclesial e de fecundidade, todas as dimensões exigem uma experiência religiosa pessoal e comunitária por parte do fundador ou fundadores. A dimensão carismática se encontra na vivência pessoal do fundador, que o leva a um caminho particular de vida, de santidade e de ação. A dimensão eclesial está mais relacionada com a “abertura para o outro”, para as necessidades da sociedade e/ou da Igreja, no tempo em que se é experienciado aquele 102 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 carisma, e para se relacionar com outros carismas. A dimensão de fecundidade também fala dessa “abertura para o outro”, e é um aspecto essencial na identificação de um novo carisma dentro da Igreja, ou seja, trata-se da comunicação da experiência religiosa pelo fundador(es) a outras pessoas (discípulos) que, por sua vez, também se identificam e vivem experiência religiosa semelhante a do fundador(es) (NOGUEIRA, 1999). Nesse sentido, pode-se identificar experiências pessoais diversas, analisando a definição do carisma de uma Comunidade pode divergir quando escrito por membros diferentes. Por exemplo, um membro definiu o carisma como “Ser sal e luz através de todos os meios possíveis” enquanto outro definiu o mesmo carisma como “Levar o sal e a luz de Deus através de todos os meios possíveis (fazer as pessoas experimentarem Cristo, verdadeiro sal que dá gosto à vida).” A diferença está justamente na compreensão do carisma como vivência pessoal “ser o sal...” e a vivência para o outro “levar o sal...”, ou seja, que indica se o mesmo é vivido na dimensão interior da experiência religiosa ou na abertura para o outro. 3.3.3 Processo Comunitário As questões que se seguem referem-se, seja de modo quantitativo ou qualitativo, às vivências de processos comunitários. Entendendo tal processo como: (a) a própria dinâmica comunitária (início, atividades, número de membros, etapas de amadurecimento, recursos para sustento e patrimônio, dificuldades de convivência); (b) a relação entre os membros e as Comunidades (adesão, permanência, saída, consagração de vida ou aliança, fundação); (c) a relação da comunidade com a igreja e (d) como a relação da comunidade com a sociedade. A figura 2 procura esclarecer essas dimensões do processo comunitário. Comunidade e Igreja Dinâmica interna da Comunidade Processo Comunitário Membros e comunidade Comunidade e sociedade Figura 2 – Dimensões do processo comunitário 103 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 3.3.3.1 Dinâmica Comunitária: estrutura, membros e seu fluxo de entrada e saída e etapas de amadurecimento das Comunidades Novas de Vida e de Aliança Na dinâmica comunitária estão elencados os elementos referentes ao contexto interno da Comunidade e tudo o que está a ele relacionado, dando ênfase ao processo comunitário de entrada e saída de membros e de transformações ao longo do tempo. a) Fundação das CNVA47 A maioria dos que responderam ao questionário (66,6%) afirma que nasceu de um grupo de oração da RCC. Alguns atestam que nasceram de um grupo formado pelo(a) fundador(a), de um grupo de crisma ou de um grupo de outro movimento. No questionário foi perguntada em qual data é considerada fundada a Comunidade. A expressão “considera fundada” significa a data que a Comunidade, observando a sua história, designou como data de sua fundação, que pode estar ligada a uma fase informal da vida comunitária ou a uma fase mais institucional da Comunidade, podendo se referir, por exemplo a: (a) quando o fundador da Comunidade simplesmente decide iniciar uma vida em comum com outras pessoas, (b) quando um grupo de oração que já se reúne há algum tempo decide comprometer-se mais com a Igreja e uns com os outros, (c) quando um grupo de pessoas, junto com o fundador, decidem, sob a direção de um guia espiritual, como um padre, comprometer-se a viver em comunidade religiosa segundo algumas regras por eles estabelecidas. Pela diversidade de possibilidades, não é possível fazer um esboço do surgimento das comunidades, mas sim dizer que todas elas iniciam uma vida comunitária antes de serem oficializadas, mesmo que essa vida comunitária não seja de convivência no mesmo teto, mas de várias reuniões em comum. O quadro 8 demonstra as datas de fundação das Comunidades, separadas por décadas. Década de 80 - Comunidade Manain (15/11/87) - Comunidade Católica de Casais Vida Nova (31/03/89) - Comunidade Remidos no Senhor (19/01/91) - Comunidade Católica Maria Mater Familiae (31/05/95) Década de 90 - Comunidade Católica Terço da Sagrada Família (29/04/97) - Comunidade Católica Magnificat (27/09/97) - Comunidade Maria Auxiliadora dos Cristãos (30/04/98) 47 Ver Capítulo II – subseção 2.4.1 – Movimento da Renovação Carismática Católica. 104 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 - Fraternidade Casa de Judá (14/10/99) - Comunidade Católica Missionária Salve Maria (01/00) - Comunidade Siloé (04/00) Década de 00 - Comunidade Ressurreição (26/12/00) - Comunidade Santa Clara (01/01/01) - Comunidade Christós (14/04/01) - Comunidade Filhos da Misericórdia (23/06/01) - Comunidade Divina Misericórdia (16/09/02) - Comunidade Católica Sal e Luz (06/11/2002) - Comunidade Filhos de Maria (11/06/04) - Comunidade Católica Kairós (17/01/06) - Comunidade Católica Reviver pela Misericórdia (18/07/06) Quadro 8 – Data de fundação das CNVA Das comunidades que responderam, a mais antiga é a Comunidade Manain, de Caruaru/PE, considerada fundada em 15/11/87, e a mais recente é a Comunidade Católica “Reviver pela Misericórdia”, com sede em Natal/RN, considerada fundada em 18.07.2006. A comunidade que organizou o evento foi a Remidos no Senhor, nascida em Pombal/PB, considerada fundada em 19.01.1991. b) Estrutura das CNVA48 As Comunidades Novas de Vida e Aliança possuem em sua estrutura duas formas de pertença: vida ou aliança. O termo “comunidade de vida” se refere aos membros que deixam as suas casas e vão morar em casas da comunidade, e o termo “comunidade de aliança” se refere aos membros que continuam residindo em suas casas, entretanto formam vínculos com a comunidade. Foi perguntado: Você faz parte da: com duas opções de respostas: Comunidade de Vida ou Comunidade de Aliança, objetivando saber qual forma de pertença é mais encontrada entre os líderes/fundadores presentes nos eventos pesquisados. Os resultados mostram que 39% dos respondentes pertencem à Comunidade de Aliança, enquanto 61% pertence à Comunidade de Vida. O que significa que os fundadores e as lideranças, respondentes do questionário, pertencentes à comunidade de vida, representam quase o dobro dos respondentes líderes das comunidades de aliança. Talvez isso se deva ao 48 Ver Cap. II, subseção 2.5.4 – A estrutura das CNVA. 105 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 fato da exigência de maior disponibilidade de tempo investido na comunidade para as lideranças e os fundadores que residem no seio de uma comunidade. Mais diretamente sobre a estrutura da Comunidade, independente da opção do respondente, pergunta-se: Qual a forma da Comunidade? Dando as opções de resposta: vida, aliança ou vida e a aliança. Os resultados estão expressos no gráfico 4. Gráfico 4 – Formas de vida comunitária: vida ou aliança Essa resposta indica que as Comunidades de Vida se formam junto com as Comunidades de Aliança, não existindo, entre as pesquisadas, comunidades apenas de vida, existindo, porém, Comunidade de Aliança sem Comunidade de Vida. O que pode significar que a ajuda financeira dada pelos membros da Comunidade de Aliança à obra influencie na na formação da estrutura comunitária ou, por outro lado, pode significar apenas que há uma tendência a existirem as duas formas de pertença nas Comunidades Novas. Sobre a estrutura organizacional da Comunidade, foi feita uma pergunta de múltiplas respostas. Pergunta-se: Qual a estrutura organizacional da Comunidade atualmente? sendo dadas várias alternativas expostas o quadro 9, com os respectivos resultados: Assembléia de membros ou reunião do coletivo de membros Diretoria/ conselho diretor/ coordenação Conselho Consultivo Conselho Admin. Conselho Financ. Grupos Minisde oração térios Projetos de Evangeliza-ção 48,6% 48,6% 28,6% 28,6% 28,6% 28,6% 68,5% 62,8% Quadro 9 – Estrutura organizacional das CNVA 106 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 A maioria das Comunidades está estruturada em Ministérios (62,8%), que são grupos de serviço à comunidade e à sociedade vindos da formação dos Grupos de Oração da RCC, como Ministério de Intercessão, Ministério de Música, Ministério de Pregação, Ministério de Teatro, Ministério de Pastorais49. A maioria também possui Projetos de Evangelização (68,5%), como por exemplo, junto às famílias, às crianças e aos jovens (maioria), que são projetos amplos, podendo ser realizadas diversas atividades dentro e fora da Comunidade. Outras indicam tanto os eventos realizados (“Forró do Povo de Deus”, “Festival de Artes”, “Casa de Show Católica”) como projetos voltados para o social como “Lar de Idosos, “Ensino”, “Abrigo de Crianças”, “Centro de Cultura da Vida”. Poucos ainda possuem Grupos de Oração, que se reúnem uma vez por semana exclusivamente para oração, louvor, escuta da Bíblica, 28, 6%. Esse resultado demonstra uma discrepância em relação às formas de ingresso nas Comunidades Novas apresentadas nos questionários, que foram os Grupos de Oração, com 62,7% de indicação. No entanto, nessa questão apenas 28,6% o indicam como presentes na estrutura comunitária. Talvez a forma da presente questão, com múltiplas escolhas e já no fim de um questionário relativamente grande, tenha prejudicado as respostas. Isso demonstra que a maioria das Comunidades pesquisadas está em fase inicial de institucionalização, pois possuem ainda a estrutura dos Grupos de Oração da RCC, que é muito simples, formada por uma Coordenação Geral e alguns Ministérios, além da assembléia com todos os membros. Essa tendência vem sendo repetida a partir dos modelos de Comunidades mais antigos, principalmente a Comunidade Católica Shalom, segunda mais antiga Comunidade Nova do Brasil (fundada em 1982), que se dedica também à formação. Apesar de iniciarem um processo de organização diferenciada, porque muitas já possuem Projetos de Evangelização e algumas terem diversos Conselhos formados que são criados de acordo com as necessidades ou por exigências formais, quando a Comunidade deseja oficializar-se junto à igreja local50. Dentro da estrutura interna, investigou-se quais são as formas de participação dos membros nas decisões, sendo uma pergunta fechada, de múltiplas escolhas. Pergunta-se Quais as formas de participação dos membros nas decisões? sendo colocadas várias alternativas, conforme quadro 10, com os resultados encontrados. 49 Sobre a RCC e os ministérios, ver subseção 2.4.1 Origem no Movimento da Renovação Carismática Católica. 50 Ver também Cap II – subseção 2.5.3 – A estrutura das CNVA. 107 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR Acesso aos registros e informações da comunidade 2009 25,7% Eleição da diretoria em assembléia geral/reunião do 33% coletivo de membros Prestação de contas aos membros em assembléia 28,6% Participação nas decisões cotidianas da Comunidade 34,2% Não existem mecanismos de participação 40% Quadro 10 – Formas de participação dos membros nas decisões comunitárias Nessa questão, boa parte não respondeu: 31,4%.Talvez o grande índice de respostas deixadas em branco se deve à forma diferenciada da linguagem utilizada (termos de uso não comum na comunidade), ou à forma como a questão foi exposta (necessidade de leitura das respostas), ou pode não haver muito interesse por parte dos membros sobre o assunto, além do posicionamento da questão ter sido quase no final do questionário. Mesmo assim, o resultado indica um ponto problemático na vivência interna das comunidades, ou seja, uma ausência de acesso às decisões e informações por parte de todos os membros da Comunidade. Este resultado bastante significativo requer uma explicação que demandaria outro estudo, no interior das comunidades, que no momento não foi possível realizar, uma vez que a pesquisa se concentrou em uma amostra formada por líderes. c) Membros e seu fluxo Perguntou-se: Você é fundador? Respostas: sim ou não. Essa pergunta tem como objetivo verificar o número de fundadores entre os presentes, inclusive destacando-os no questionário, para perceber o grau de envolvimento do líder-fundador com a Escola de Formadores de Campina Grande, curso pesquisado nesta dissertação. Gráfico 5 – Percentual de líderes fundadores e outros líderes Em números absolutos, responderam ao questionário 06 fundadores (18%) e 27 membros (82%). Entre os respondentes fundadores, há apenas 01 pertencente à Comunidade 108 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 recém fundada (data de fundação: 2006), 03 pertencentes a Comunidades fundadas entre 2000 e 2002 e outros 02 que fundaram Comunidades nos anos de 1987 e 1989. Esse percentual de fundadores participante da Escola de Formadores pode ser considerado alto, em relação ao número de membros, indicando a importância dada por eles a essa Escola, demonstrando preocupação com a formação em suas Comunidades. Pode indicar também, por outro lado, que muitos fundadores não se consideram necessitados de formação. Perguntou-se, em questão fechada, se o membro é ou não consagrado na sua Comunidade, com opções de resposta sim ou não, objetivando perceber a fase do processo comunitário pela qual a Comunidade está passando, no sentido de organização da formação e denominação dada aos membros (vocacionados, postulantes, noviços, consagrados). O gráfico 6 mostra os resultados. Gráfico 6 – Porcentual de consagrados e não-consagrados nas CNVA Esses dados demonstram equilíbrio entre os consagrados (fundadores são considerados consagrados) e os não consagrados, apontando para existência, entre as Comunidades participantes, de fases diversas no processo comunitário, seja de fundação ou formação, porque, como dito acima, a consagração indica uma fase mais avançada no processo de formação da comunidade. Logo após, perguntou-se há quanto tempo a pessoa é consagrada, procurando aprofundar a pergunta anterior. Aqui serão analisadas as respostas das pessoas que se dizem consagradas, sejam fundadoras ou não, sendo elas quase a metade dos que responderam o questionário (46%-conforme gráfico acima). O resultado confirma a tendência mostrada no universo pesquisado de que poucas comunidades estão em uma fase avançada do processo comunitário, ou seja, estão entre 11 e mais de 15 anos de fundação. Apenas uma comunidade está no início da fundação (01 109 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 ano) e a maioria (36%) está no processo intermediário de fundação (de 02 a 07 anos), e somente 6% estão em um processo mais maduro de fundação, ou seja, com mais de 11 anos de fundação. Quanto às formas de ingresso na Comunidade foi proposta questão de múltipla escolha, podendo optar por mais de um tópico. Os resultados estão expressos no gráfico 7. Gráfico 7 – Formas de ingresso nas CNVA Com relação ao número de participantes e seu fluxo foram formuladas três perguntas: qual o número inicial de participantes; qual o número atual de participantes e qual o fluxo de entrada e saída nos últimos 12 meses. Com relação ao fluxo de membros nos últimos 12 meses, a pergunta foi a seguinte: Nos últimos 12 meses o número de participantes (membros): aumentou, diminuiu, permaneceu igual. As respostas se encontram expressas no gráfico 8. Gráfico 8 – Fluxo de membros que entraram e saíram da comunidade nos últimos 12 meses 110 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 A maioria das pessoas que responderam ao questionário (66%) disse que teve seu número de membros aumentado nos últimos 12 meses e alguns disse que esse número permaneceu igual (28%). Apenas uma pessoa disse informou que o número de membros da sua Comunidade diminuiu: a Comunidade Católica Kairós, sediada em Taquaritinga do Norte, fundada em 17/01/2006. Essa diminuição pode indicar que, como essa Comunidade se encontra em fase bem inicial do processo fundacional (há apenas 01 ano o grupo resolveu formar uma Comunidade), alguns membros resolveram se afastar, talvez por que foram mais exigidos nos compromissos ou não concordaram com a decisão. O número atual de membros varia bastante, ao ponto de um dos representantes da Comunidade de Casais Vida Novo, Natal/RN afirmar que possui 900 membros (450 casais), e Comunidade Santa Clara – Paulista/PE afirmar que possui apenas 12 membros. Da análise dos questionários, percebemos que entre as mais numerosas estão: • com 100 membros iniciais, a Comunidade Filhos da Misericórdia, com sede em Fortaleza e uma casa de missão em João Pessoa, considerada fundada em 23 de junho de 2001, com número atual de 80 membros e nos últimos 12 meses esse número permaneceu igual; • com 120 membros iniciais está a Comunidade Católica Maria Mater Familiae, com sede em Natal/RN, considerada fundada em 31/05/1995, com número atual de 60 membros e nos últimos 12 meses o número de membros permaneceu igual. Entre as menos numerosas estão: com 03 membros iniciais, a Comunidade Santa Clara, com sede em Paulista/PE, considerada fundada em 01/01/2001; com 05 membros iniciais, a Comunidade Filhas de Maria, com sede em Itambé/PE, considerada fundada em 11/06/2004, atualmente a Comunidade possui, em média, 14 membros, e esse número tem aumentado nos últimos 12 meses. Em média, o número inicial de membros é de 06 a 22, aumentando ao longo do tempo. Com exceção da comunidade mais recente, a Comunidade Reviver pela Misericórdia que, à época da aplicação do questionário, estava com pouco mais de 01 ano de existência, permanecendo com 22 membros desde a sua fundação (18/07/2006). Nos casos acima expostos, as Comunidades que possuem um maior número de membros permaneceram com esse número igual nos últimos doze meses, apesar de terem 111 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 diminuído em relação ao número inicial de membros. E dentre as Comunidades que iniciaram com um reduzido número de membros teve uma que aumentou esse número nos últimos 12 meses. Os dados sobre o tamanho poderiam colocar em cheque o sucesso das CNVA, porque a sua diminuição indicaria desinteresse das pessoas pela vivência em Comunidade. Entretanto, também pode significar uma mudança no perfil dessas Comunidades, com a tendência de serem “pequenos núcleos”. Vale lembrar também que a Comunidade sempre nos remete a algo acolhedor, seguro, muitas vezes utópico, principalmente em nossos dias e, quando levado para a realidade dos que procuram uma vivência comunitária, traz exigências de lealdade absoluta que, quando não encontrada, facilmente é entendida como traição (BAUMAN, 2003). Outra dificuldade encontrada seria quando algumas condições para que a comunidade permaneça começam a desabar, por exemplo, quando as trocas entre o mundo exterior e o interior passam a ser mais intensas do que as realizadas internamente (STASIAK, 2006). Com o intuito de verificar o processo comunitário no tempo, perguntou-se: Você percebe que Comunidade que você faz parte está crescendo ou diminuindo? Porquê? A maioria (86,4%) respondeu que a comunidade está crescendo; apenas 02 (menos de 1%) responderam que está diminuindo e também 02 responderam que está estável. Uma delas respondeu que só tinha 1 ano e 4 meses, ainda eram muito bebê. Há uma aparente contradição deste resultado com o resultado apresentado no gráfico 8, que mostra apenas 66% de respostas indicando que o número de membros aumentou nos últimos 12 membros. Entretanto, como aquela pergunta foi mais específica, pode-se entender que a palavra crescendo, apresentada nesta questão, não seja entendida pelas pessoas que responderam ao questionário, como diretamente relacionada com o aumentou ou diminuição dos membros de sua comunidade. A essa palavra (crescendo) pode ser dado, por exemplo, um significado espiritual, ou um entendimento melhor entre os membros, um melhor aproveitamento da formação por parte dos membros. Esse entendimento pode ser corroborado com as respostas apresentadas para justificar o “crescimento” da Comunidade. Veja-se algumas: - a formação; - a procura por ajuda espiritual; - porque estão sendo obedientes; - a dedicação de todos da comunidade; 112 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 - porque o fundador tem ousadia no Espírito e coragem de dar passos; - porque as pessoas estão sedentas de Deus; - pelo número de casais que a procuram; - porque são chamados a servir em outras cidades e dioceses; - pelo melhor entendimento da Igreja sobre as comunidades; As pessoas que afirmaram que a sua Comunidade estava diminuindo, justificaram assim sua resposta: - porque ainda está saindo de uma crise; - devido à dificuldade de aderir às exigências da vida comunitária. Essas respostas poderiam levar ao entendimento de que essas Comunidades possuem um maior tempo de fundação, o que as fariam vivenciar situações como essas. Entretanto, ambas têm poucos anos de existência. A que justifica a diminuição porque está saindo de uma crise tem 10 anos de existência, e a que justifica a diminuição por motivo de dificuldades na vida comunitária tem 07 anos. Na verdade, olhando para a intensidade de uma vida em comum, 07 ou 10 anos são tempos suficientes para a entrada num processo de rotinização da vida comunitária com o surgimento de várias tensões e conflitos entre os membros com riscos de perda dos valores iniciais de fundação (Turner, Alberoni). Pesquisou-se também qual seria a fase do processo comunitário que a Comunidade estaria vivenciando, sendo esta uma questão de múltipla escolha. Para as opções de resposta, foram usados termos que sugerem três etapas, quais sejam: - iniciando e com muitos membros se engajando seria a fase inicial do processo comunitário; - com muitas atividades missionárias, mais centrada na formação, estável indicam uma fase intermediária no processo comunitário; - em crise e com muitos membros saindo indicam uma fase de mudanças ou final do processo comunitário; - o termo em tempo de definições pode indicar qualquer das fases. 113 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 O gráfico 9 mostra o resultado dessa questão. Gráfico 9 – Processo Comunitário A maioria marcou que está com muitas atividades missionárias (24%) e em tempo de definições (29%). Boa parte indicou que está concentrada na formação (15%), e algumas indicaram que está estável ou com muitos membros se engajando (11% ambas), ou ainda iniciando (8%). Apenas uma considerou que estava em crise e com muitos membros saindo, foi a Comunidade Católica Magnificat, de Campina Grande, considerada fundada em 27/09/1997, ou seja, há mais de 10 anos. Os dados demonstram que a maioria das comunidades pesquisadas se encontra em uma fase intermediária de maturidade comunitária, verificada pela estabilidade e pelas atividades missionárias, que indicam certa organização interna para poder sair em missão, como também pela concentração na formação, que pode indicar necessidade de melhor se estruturar. O tempo de definições, apontado pela maioria, indica a preocupação em definir os rumos da Comunidade. Provavelmente, no que se refere à redação do Regimento Interno ou Estatutos, exigidos pela Igreja para que a comunidade se mantenha na diocese onde se encontra. Foi indagado no questionário sobre a existência de dificuldades de convivência entre os membros, procurando perceber se há interferência disso no fluxo de entrada e saída de membros nas Comunidades. Em caso afirmativo, perguntou-se sobre quais seriam essas dificuldades. O gráfico 10 trás as possíveis escolhas e o resultado. 114 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Gráfico 10 – Dificuldades de convivência entre os membros na CNVA Extrai-se dos resultados que a maioria de 63% admite que há dificuldade de convivência na vida comunitária. As maiores dificuldades assinaladas fora: a dificuldade de abertura das pessoas (31%), o tempo para a convivência (27%) e a falta de perdão/reconciliação (24%). São problemas que ocorrem, freqüentemente, fora da vida comunitária e que se buscaria ultrapassar, no contexto comunitário. Entretanto, não deixam de existir em um passe de mágica, só porque há uma convivência comunitária, deve ser mais um motivo pelo qual as CNVA estariam investindo em formação. O questionário também explorou as atividades realizadas em comunidade, dando-se algumas opções de atividades e podendo ser marcada mais de uma atividade. Buscou-se observar as oportunidades de convívio e envolvimento comunitário, que reforçam os laços fraternos entre os membros. O gráfico 11 demonstra os resultados encontrados. Gráfico 11 – Atividades realizadas comunitariamente 115 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Os dados demonstram que as atividades rituais de oração de louvor e adoração ao Santíssimo Sacramento são as mais indicadas como vivência comunitária (17% cada atividade). A recitação do Rosário mariano também é atividade ritual (8%). Somando os resultados, as atividades rituais ficaram com 47% das atividades comunitárias. O lazer e a convivência são privilegiados como momentos comunitários de sociabilidade, somando 26%, demonstrando preocupação com as relações afetivas entre os membros. As missões e os serviços são outras formas de agregarem os membros comunitariamente, somando 24%. No que se refere à manutenção da Comunidade, investigamos se ela tem sede própria e encontramos o seguinte resultado: 59% das Comunidades responderam que não têm sede própria e 41% responderam que possuem sede própria. Os resultados demonstram que grande parte possui sede própria, indicando um bom grau de organização e planejamento de manutenção da Comunidade no tempo. Quanto a outros patrimônios, que não seja a sede da Comunidade, perguntando: a comunidade tem patrimônio próprio? Não, Sim, O quê? Foi obtido o seguinte resultado: 74% afirmam que têm patrimônio próprio, enquanto 26% afirmam que não têm, revelando que, apesar de muitas Comunidades não terem sede própria, a grande maioria possui outros patrimônios como terreno, propriedade rural, móveis, equipamentos, terras com construções, carro, indicados no questionário. Para verificar como esse patrimônio foi adquirido, foram feitas mais algumas perguntas. Primeiro, quanto à origem dos recursos que sustentam a Comunidade, com algumas possibilidades de resposta expressas no gráfico 12, junto com os resultados. Gráfico 12 – Origem dos recursos para o sustento da comunidade 116 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 O resultado mostra que os recursos vêm proporcionalmente dos próprios membros (42%) e de doações (42%), em igual proporção, poucos indicam outras origens (11%) ou ajuda da igreja/paróquia (2%) ou de projetos governamentais (0%). Além dessas mencionadas fontes, os recursos podem provir de outros meios, por isso indagou-se sobre a realização de projetos/campanhas de arrecadação nos últimos 12 meses, deixando a possibilidade de indicação de quais seriam esses projetos. Como resultado, 69% afirmaram que sim e 31% afirmaram que não. Sobre quais foram os projetos de arrecadação de fundos, houve menção, entre outros, a sorvetada, rifas, eventos, brechó, bazar, chá, feijoada, bingos, campanha porta a porta, venda de CDs, campanha para construção de sede própria. Do grupo de respostas acima, sobre a origem dos recursos das Comunidades Novas, concluímos que o patrimônio e o sustento das Comunidades Novas provêm de dos próprios membros51, de doações e de projetos de arrecadação de fundos. Foi investigada a faixa etária do grupo que iniciou a experiência comunitária, procurando perceber se o fenômeno de fundação de Comunidades Novas está ou não relacionado com uma faixa etária determinada, devendo ser apontada uma das respostas sugeridas. O alto percentual de pessoas que não responderam a essa questão (82%) é justificado pelo fato de que elas não participaram do início da fundação da Comunidade. Portanto, apenas as que se consideram fundadoras de Comunidades (06 pessoas - 18%), responderamna. Isso deixa a presente questão em suspeita, pela pouca variedade de Comunidades avaliadas. Mesmo assim, constata-se que a faixa etária do grupo fundante dessas 06 Comunidades é variável, estando o número de jovens, de 15 a 25 anos e de 21 a 25 anos, em maioria (somam 12% dos 18% que responderam).52 Perguntaram-se quantos por cento dos membros que iniciaram a experiência comunitária permaneciam até então, dando algumas opções para escolha. Nessa questão objetivamos investigar a tendência à evasão dos que fundaram a Comunidade, após um determinado período. Houve bastante variação no resultado dos que responderam à pergunta, houve um equilíbrio entre 20% e 80% de permanência e entre 10% e 100% de permanência, mas também houve indicação de 30% e 50% de permanência. Essa grande variação pode ser 51 A Comunidade de Aliança em geral trabalha e contribui com parte de sua renda para a Comunidade em Geral, e a Comunidade de Vida também, pode, em alguns casos, trabalhar. 52 Ver gráfico 13. 117 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 explicada talvez pelo fato de que o processo comunitário dessas comunidades se encontra em diferentes fases. Ou seja, aquelas que afirmam que permanecem 100% dos membros significa que são as que foram fundadas há pouco tempo, talvez 01 ano ou dois; as que afirmam que permanecem apenas 10% dos membros foram fundadas a mais tempo e talvez já possuíssem poucos membros desde a sua fundação. As demais estão em tempos intermediários no processo comunitário. Entretanto, a essa tendência natural, diverge a Comunidade Kairós, com apenas 01 ano de existência que informou que há muitos membros saindo. Gráfico 13 – Percentual dos membros que permanecem desde a fundação da CNVA Esse resultado demonstra que a juventude foi/é uma fase propícia para iniciar Comunidades Novas, mas não a única. Comparando essa análise com a estimativa de idade dos fundadores respondentes, que estão metade (06) entre os 20 e os 30 anos e outra metade entre os 41 e 50 e poucos anos, e levando em consideração o tempo de existência de suas comunidades, percebemos que, com raras exceções, a fundação de comunidades é feita por membros em idade bem jovem. A forma de engajamento dos membros nas comunidades é, em geral, por participação em grupos de oração, em Seminários de Vida no Espírito Santo e em eventos.53 Atendimentos são conversas e orações com as pessoas que procuram a comunidade para aconselhamentos e orações, e são uma das formas de atração de pessoas para engajar-se na Comunidade. 53 Ver Capítulo II, subseção 2.5.3 – Origem na RCC. 118 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 3.3.3.2 – Relação entre os membros e a comunidade (adesão, permanência, saída, consagração, fundação) Nas análises das questões que seguem tratar-se-á de aspectos internos da relação entre os membros e a comunidade, sendo a maioria das questões abertas, nas quais serão feitos comentários buscando relacionar o discurso exposto nas respostas com a teoria exposta no primeiro Capítulo desta dissertação. Para começar, analisaremos as questões de múltiplas escolhas, apenas duas, seguidas. Foram exploradas as principais motivações para a entrada e a saída dos membros. Com relação a entrada, pergunta-se Qual o motivo para a entrada, com várias opções de resposta expressadas no gráfico 14. Gráfico 14 – Motivações para entrada nas CNVA A motivação mais indicada para decisão de pertencer à comunidade foi o desejo de servir a Deus (28%), seguido pelo desejo de se consagrar a Deus e situações difíceis que estão sendo vividas (ambos 19%), influência de amigos (14%), comprometer-se com o reino de Deus (10%) e outros (6%). O motivo inconsciente ficou com 3% e o medo da solidão teve apenas 1% das respostas. Os dados demonstram que há um desejo coerente em pertencer a uma comunidade religiosa, que seria servir a Deus e se consagrar a Deus, não se sabe, porém, se esse desejo vem acompanhado de uma consciência sobre as implicações geradas dessa pertença, como renúncia aos projetos pessoais, afastamento da família (dificuldades indicadas no quadro 13). A diferença entre os termos está no detalhe de “servir” e “consagrar”, no qual “servir” assume uma conotação em direção ao outro, e “consagrar”, uma conotação mais subjetiva da 119 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 experiência com o sagrado. A opção comprometer-se com o reino de Deus também tem um significado em direção ao outro. Por fim, a influência de amigos teve certo peso nas decisões, talvez, e principalmente, na parcela mais jovem dos participantes. Vale notar a pouca influência, na decisão, causada pelo medo da solidão. Para as opções de motivações para saída da Comunidade, perguntou-se: Qual(is) o(s) motivo(s) para a saída de membros, com as opções de resposta expressas no gráfico 15 junto com os resultados. Gráfico 15 – Motivações para saída das CNVA A maior motivação apontada foram os interesses pessoais (41%), o que demonstra a influência da cultura atual no seio da comunidade, pois enquanto a Comunidade exige do membro renúncia dos planos pessoais em função do projeto comunitário, a cultura atual influencia no sentido de pensar primeiro nos projetos pessoais. Também é notável a influência das crises pessoais (29%), indicando o pensamento da sociedade atual no sentido da grande importância dada à pessoa, que busca o equilíbrio emocional, o tratamento psicológico. Parece contraditório que tenha sido indicado que as crises comunitárias (15%) pouco influenciem para a motivação de saída dos membros, tendo em vista que tanto as crises pessoais como os interesses pessoais estão presentes na crise comunitária e vice-versa. Talvez as pessoas que responderam os questionários não percebam a profundidade do significado de crises comunitárias. 120 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Com as respostas abertas, que estarão presentes nas questões que seguem, objetivamos deixar os membros das Comunidades livres para se expressarem, com o intuito de analisar o discurso presente nas respostas. Pesquisando o porquê de se consagrar em uma Comunidade Nova ou fundá-la, perguntou-se: Porque você decidiu se consagrar ou fundar uma comunidade? As respostas estão transcritas no quadro 11. Eu fui rendida por amor a Jesus, em levar Jesus aos irmãos, para que eles tenham vida e a tenha em abundância Para ficar mais próximo do coração da trindade (consagração a Mª Santíssima). (ñ no carisma ainda ñ tem) Porque decidi viver 24 horas para anunciar o evangelho a toda criatura. E também aceitar um chamado de Deus Senti o apelo de Deus para vivermos mais intensamente a fraternidade e o apostolado Pelo estado desumano que se encontrava a minha sociedade Por uma vontade de corresponder a medida de Amor a qual fui amada. Por uma profunda gratidão foi e é isso que me impulsiona Porque vivi uma grande experiência com o Senhor Primeiro pela fonte e autor do chamado, Deus e depois pela busca pessoal do sentido da minha vida, do meu encontro com aquilo que me realiza enquanto pessoa Porque descobri aqui minha vocação Como aliança pelo chamado a viver uma vida santa. Após a experiência fundante, decidi assumir o carisma derramado entre nós. Quero me consagrar porque encontro na minha comunidade um modo de vida que me faz feliz Eu decidi consagrar a minha vida para um sentido em minha e pode fazer algo mais para aos pobres a partir de uma vida fraterna. Pelo desejo de dar a vida no carisma pelo qual me senti atraída. Eu decidi e desejo consagrar-se porque eu tive uma experiência pessoal do amor de Deus por isso desejo dar a minha vida. A consagração para mim é a aliança concreta com Deus. Consagrar para uma vivência mais integral da vontade de Deus; Fundar não decidiu fundar uma comunidade, aconteceu. Não sou consagrada, porém meu objetivo dentro da comunidade é viver o carisma junto a consagração. 121 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Me senti chamado a entregar de maneira definitiva minha vida a Deus. Porque algo inquieta o meu coração e quero buscar em Deus e por Ele. Os apelos do meu coração. Para atender ao chamado de Deus em servi-lo na pessoa dos que sofrem pela ausência de Deus e de boas condições de vida. Para servir a Deus de forma mais profunda. Porque senti um chamado de Deus para viver algo mais forte, um amor radical do Evangelho e a Igreja. Quadro 11 – Decisão de se consagrar/fundar uma CNVA Analisando os destaques feitos nas falas transcritas em relação aos valores difundidos pelas Comunidades, a partir dos cursos de formação, em especial o módulo II da Escola, que versou sobre fundação das Comunidades e formação integral dos seus membros, pode-se dizer que o acento no chamado de Deus que seria feito a cada pessoa, para viver uma forma específica de vocação, um carisma, está diretamente em consonância com as lições da Escola. A experiência com o Senhor é outro termo utilizado nas respostas que foi aprofundado na Escola, como essencial para perceber o chamado de Deus na vida da pessoa, devendo ser corroborada com passagens do Evangelho que direcionem esse chamado, que é a própria realização pessoal. Muitos (06) falam do chamado de Deus para fazer ou viver alguma coisa; outros de uma resposta de amor e gratidão a Deus, aliança com Deus, por ter tido uma experiência com o Senhor, como uma forma mais profunda de servir a Deus, outros falam de realização, sentido da vida, vocação, felicidade. Verificamos as respostas e percebemos certa homogeneidade nas mesmas, com repetições de termos. Essas repetições são em virtude da assimilação de um discurso religioso próprio dessas comunidades, que valorizam o lado espiritual, a relação pessoal com Deus, a experiência individual de fé. Analisando-as a partir da discussão teórica feita no capítulo 1, podemos identificar nas falas se as pessoas, principalmente os fundadores das Comunidades, viveram um estado nascente, conforme Alberoni.54 Pode-se citar a presença do renascer e da experiência de transcendência. Os fundadores renascem, a partir do retorno às origens do Cristianismo, que os leva a pensarem sua fé no momento em que se vive, a partir da experiência inicial cristã. 54 Ver Cap. I – subseção 1.4.3 – A experiência fundamental. 122 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 A experiência de transcendência se encontra nas respostas referentes à experiência religiosa, das quais destacamos: porque vivi uma grande experiência com o Senhor. Não só os fundadores das Comunidades Novas, mas muitos que vivem uma experiência com Deus, como os que almejam se consagrar em uma Comunidade Nova, dizem que estão nascendo para uma nova vida. Na verdade, ficam “apaixonados” por Deus, porque levavam uma vida sem amor. “A experiência metafísica existe até no apaixonar-se, quando o indivíduo compreende que a vida que levava ignorava, na realidade, o amor. (...) Diante deste amor, desta plenitude de vida e de ser, todo o mais parece murcho e insignificante” (ALBERONI, 1991, p. 95/96). Entre as respostas que estão fundadas em uma consciência social, preocupando-se com as necessidades da sociedade, destacam-se: para poder fazer algo pelos mais pelos pobres a partir de uma vida fraterna; pelo estado desumano em que se encontrava a minha sociedade; para atender ao chamado de Deus em servi-lo na pessoa dos que sofrem pela ausência de Deus e de boas condições de vida. Sobre a função social da religião, João Décio de Passos analisa que os grupos “passam a operar suas representações e práticas religiosas como um protesto da ordem social e política estabelecida e a buscar novas legitimações” (PASSOS, 2006, p.114). Por fim, pode-se dizer que, de qualquer forma, a maioria das respostas demonstra uma profundidade na experiência com o Sagrado, a partir da qual se foi tomada uma decisão de mudança de vida e de intervenção na sociedade. Pode-se dizer, de um “aprisionamento” ou uma necessidade de manter uma relação com o Sagrado, que passa a direcionar as vontades e as decisões da pessoa. Por outro lado, após investigar sobre a decisão de se consagrar/fundar uma Comunidade, pergunta-se sobre qual é a maior dificuldade na decisão de se consagrar/fundar, procurando encontrar as tensões existentes no momento da decisão. As respostas encontradas estão no quadro 12: Maior dificuldade foi deixar a minha maior riqueza, meus pais, minha família (consagrar). Compreender o chamado de servos de Maria Santíssima. E de ñ responder o chamado. Renunciar as minhas vontades e sonhos. O medo da responsabilidade e a resistência ao novo por parte de outras pessoas, que geraram incompreensões. O medo de apresentar - algo diferente a sociedade que pudesse ver que é possível ser digno. O deixar o que para mim era tão importante, família, projetos pessoais, etc. 123 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Me aceitar como fundador. Vencer as resistências internas e externas, para um ato de entrega total. Ter que romper com os relacionamentos. O receio de não estar certo, insegurança. O medo de responder ao chamado de Deus. Saber que sou limitado e por isso poderia ter dificuldade em relacionar-se com os irmãos de comunidade. A aceitação da minha família quanto à minha escolha. Espero o tempo de me consagrar por isso o bom Deus vai administrando as minhas dificuldades. Consagrar-se - não houve dificuldade, já era anseio do meu coração; fundar - aceitar que tenha sido eleito para tal missão. Para almejar a consagração a dificuldade que hoje encontro é "caminhar" com meu esposo – somos comunidade de casais. Abandonar minha vida. Ser aquilo que Deus quer a aceitação da vontade de Deus que custou entrar na minha cabeça e coração. Perder minhas próprias vontades para buscar me esforçar em fazer a de Deus. Prejudicada em razão do que foi explicado na resposta anterior. Renunciar aos meus planos e sonhos. Quadro 12 - Dificuldades em fundar uma comunidade ou nela se consagrar Analisando as respostas, nota-se a presença de verbos que indicam dores como deixar, renunciar, romper, abandonar. Também há repetição das palavras medo e receio, sendo destacado em negrito algumas respostas mais significativas. O que reafirma a idéia dos estudiosos da religião Rudolf Otto; Mircea Eliade (PASSOS, 2006), de que a experiência com o divino e suas hierofanias traz em si contradições, como atração e temor. Essas expressões revelam, por outro lado, a necessidade de um redirecionamento da própria vida, de uma conversão, que pode ter sido imposta pela experiência com o sagrado ou pelas exigências para se consagrar em uma determinada comunidade, principalmente para aqueles que deixam seus empregos, estudos, família e vão morar em uma comunidade de vida. Vale lembrar a característica de unanimidade da communitas, apresentada por Victor Turner, identificada na condição do neófito que deve se esvaziar de todos os conhecimentos e 124 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 adquirir a sabedoria do grupo no qual se insere, para os quais “é preciso mostrar-lhes que, por si mesmos, são barro ou pó, simples matéria, cuja forma lhes é impressa pela sociedade” (TURNER, 1974, p. 127) De qualquer modo, sempre existe uma dificuldade nessa decisão, o que mostra que não é algo tranqüilamente aceito pela pessoa nem pela sociedade. Há uma tensão, provocada pelo estado de liminaridade e sua natural transitoriedade descrito por Turner (1974). A consagração é considerada como um rito de iniciação, fruto de um processo ritual que significa a mudança de “status”, ou seja, a mudança de vida e até de personalidade55. A consagração, como prática religiosa expressa em um ritual, produz sentido e eficácia para os membros das Comunidades Novas, em especial por ser uma experiência religiosa carismática, na qual o ritual é operado de maneira espontânea, dando um “equilíbrio tênue entre o consenso coletivo e a fruição individual” (PASSOS, 2006, p. 94) Enfim, da análise dessas respostas, ainda se percebe que os fundadores sentem dificuldade em aceitar essa condição, destacando-se a presença do medo da responsabilidade de tal ato. Além disso, parece que a decisão de fundar uma comunidade não é plenamente racional e pessoal, pois o verbo aceitar revela algo que se é posto, como um convite. Complementando essas duas questões, para identificar a confirmação das respostas, principalmente à pergunta sobre a decisão de se consagrar, questionou-se ainda: O que mais lhe motivou a se consagrar/fundar uma comunidade? As respostas foram as seguintes: Levar o amor de Jesus a tantas pessoas que necessita a experimentar o que eu experimentei um dia. Por isso eu me consagrei. Foi o amor que a Virgem Mª em c/ a comunidade. A certeza do amor de Deus por mim. Saber que sou pérola preciosa. Percebia uma urgência para evangelizar. A alegria da restauração das pessoas. A gratidão a Deus. Jesus, o desejo de segui-lo. O meu sentimento de pertença a Deus. A experiência que fiz no primeiro contato com o carisma. Não podia responder negativamente a Deus. Foi e é até hoje um ato de gratidão e oferta. Vejo um sinal de contradição ao mundo que me atrai profundamente. 55 Ver Cap. I – subseção 1.3 – Comunidade e sociedade. 125 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Crescer na intimidade com Deus e pela vida fraterna. Minha identificação com o carisma. O que motiva a consagrar-se é o amor, a sede de se entregar ao Senhor. A certeza de me aliar com um povo com chamado específico de lutar pelo reino. consagrar - o desejo de pertença a Deus; Fundar - ser fiel à eleição de Deus. Viver o carisma vida nova. A evangelização dos jovens. A busca do serviço de Deus e sentir-me bem na vida em comum com os irmãos. A vida fraterna é o que desejo para minha vida. O desejo de vê outras pessoas receber o que Deus me deu. A alegria de ter conhecido Jesus. Encontrei um novo sentido para a minha vida, uma felicidade concreta, e um amor por Deus que me conquistou. Quadro n° 13 - Motivações para se consagrar em uma CNVA Verificando as respostas, podemos dizer que algumas delas possuem um caráter mais subjetivo (motivações interiores), como o amor a Deus, a gratidão a Deus, sentimento de pertença a Deu, identificação com o carisma. E outras revelam motivações exteriores ou em relação ao outro como, por exemplo: o desejo de ver outras pessoas receberem o que Deus me deu; uma urgência para evangelizar; vejo um sinal de contradição ao mundo que me atrai profundamente; a certeza de me aliar com um povo com chamado específico de lutar pelo reino; a evangelização dos jovens; a busca do serviço de Deus e sentir-me bem na vida em comum com os irmãos. A experiência fundante, aqui analisada em suas motivações, é expressa por João Décio de Passos56, no livro “Como a religião se organiza – tipos e processos” (2006), como uma experiência com um ser superior a partir da qual o grupo religioso se constitui, argumentando que é uma experiência complexa, que envolve a cultura, a psique humana, atos de fé e fatos históricos. Quando Mircea Eliade (1992) aborda o tema da consagração, explica-o como se o que existisse antes não mais importasse, por exemplo, quando há a consagração de um território. “A ereção da Cruz equivalia à consagração da região e, portanto, de certo modo, a um ‘novo 56 Doutor em ciências sociais, professor associado do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP. 126 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 nascimento’.(...) A terra recentemente descoberta era ‘renovada’, ‘recriada’ pela Cruz” (Ibid, p. 35). Trazendo para a consagração da pessoa, como é o caso em análise, a motivação de consagrar-se seria encontrar um lugar novo dentro de si, no qual pudesse “colocar a Cruz” e ter uma relação direta com o sagrado, considerando o corpo humano como um Cosmos (ELIADE, 1992). Ainda no mesmo sentido, aprofundando um pouco o tema da consagração, agora se verifica a experiência dos respondentes após a consagração, perguntando-lhes: O que mais lhe motiva a permanecer na comunidade? O quadro 14 trás as respostas: A necessidade em ajudar aquele que sempre nos procura e hoje eu não sei viver mais sem a comunidade. O amor de Jesus vivido fraternalmente. A certeza de fazer e assumir o meu chamado que é me doar sem querer nada em troca só o céu. A convicção pessoal de que sou chamado por Deus para isso. A transformação dos homens. A força do Amor Redentor. Fazer a vontade de Deus. Amor misericordioso na minha vida na certeza "Se vivo, vivo pela misericórdia do Senhor." O encontrar-se com a pessoa de Deus. A certeza de que aqui me realizo e realizo a vontade de Deus. O amor de Jesus Cristo que se expressa no serviço através do carisma da comunidade. Buscar mais e mais a Deus - convivência fraterna. Amor aos irmãos - castidade. O amor ao Deus eucarístico e aos meus irmãos. Através do carisma da comunidade transformar a sociedade. Minha identificação com o carisma. A cada dia fica mais clara qual é a vontade de Deus para mim: doar a vida. O chamado de Deus para dar a vida. O amor do Senhor que transborda nos irmãos, a vida fraterna. O amor a Jesus Eucarístico, a Nossa Senhora, e o carisma de servir a Igreja. O desejo de ver a vontade de Deus tornar-se realidade no meio de nós. Viver o carisma "santificação do matrimônio" na minha vida pessoal. A certeza da minha vocação e o chamado, particular, único e irrepetível que abarca toda a 127 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 minha vida. O conhecimento de Deus, o meu chamado. O Amor pela comunidade (carisma). O carisma da Misericórdia. Como já disse a vida fraterna, a vivência dos irmãos e outras pessoas que precisam conhecer a Deus. A responsabilidade em vê que tem pessoas me seguindo (seguindo o Jesus que eu anuncio). Em primeiro lugar, a certeza de que a vivência do carisma é uma via segura para a santidade. Além disso, a vida fraterna. A presença e o amor que Jesus tem por mim. Perceber que a cada dia Deus me mostra a sua vontade e me dar forças para perseverar. Quadro 14 - Motivações para permanecer na CNVA Da análise dos discursos, observa-se que a permanência na comunidade provocou respostas mais seguras por parte dos respondentes, pela presença das palavras certeza, convicção, mostrando que, após a entrada na Comunidade Nova, as dificuldades vividas antes diminuem, aumentando a certeza da decisão, o que aponta para a força da vivência comunitária (TURNER, 1974), no sentido de os valores e as vivências das pessoas que fazem parte da comunidade influírem bastante nos valores e vivências das pessoas que nela ingressam. Dividindo por temas, destaca-se as respostas que evocam a vida comunitária, expressas na freqüência das palavras comunidade, a vida fraterna, como por exemplo: o amor de Jesus vivido fraternalmente; buscar mais e mais a Deus – convivência fraterna. Amor aos irmãos – castidade; como já disse, a vida fraterna, a vivência dos irmãos e outras pessoas que precisam conhecer a Deus. O foco na vida comunitária (fraterna) aponta para os estudos de Tonnies (1995) e Turner (1974), que diferenciam a vida comunitária da vida em sociedade57, sendo a comunidade uma unidade orgânica, viva, na qual há uma unidade de vontades humanas e a sociedade uma estrutura mecânica, pública (TONNIES, 1995), ou seja, enquanto a comunidade expressa valores de afetividade pessoal, partilha, aproximação entre os membros, igualdade, humildade, a sociedade possui papéis próprios, aos quais as pessoas precisam se modelar (TURNER, 1974). Outras respostas evocam a experiência religiosa propriamente dita, como, por exemplo: a convicção pessoal de que sou chamado por Deus para isso; o encontrar-se com a 57 Ver Cap. I – subseção 1.3 – Comunidade e Sociedade. 128 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 pessoa de Deus; o conhecimento de Deus, o meu chamado. Reforçando a idéia já exposta da força da experiência religiosa na vida das pessoas. Verifica-se, por outro lado, a repetição do tema amor, com diferentes focos, expressando motivações interiores, como, por exemplo, a força do amor redentor; amor misericordioso na minha vida; o amor de Jesus vivido fraternalmente. Essa repetição remete à abordagem das comunidades emocionais, cujo valor maior é o sentimento de amor. Entretanto, houve respostas com expressões dar a vida, doar a vida, demonstrando, mais uma vez, solidariedade e altruísmo, como: a cada dia fica mais clara qual é a vontade de Deus para mim: doar a vida; o chamado de Deus para dar a vida. E, por fim, respostas que se remetem à identificação com o carisma da comunidade, como por exemplo: o amor pela comunidade (carisma); o carisma da misericórdia. Para verificar as vivências dos membros antes e depois do ingresso na Comunidade Nova, perguntou-se: Qual a diferença entre sua vida antes de entrar na comunidade e agora?”As respostas foram interessantes: Eu era mais desocupada hoje não tenho mais tempo nem para mim. São muitas as forma de ver o mundo, as pessoas, o sentido para viver e servir conceitos e principalmente a fé que ante ñ era despertada em meu coração E que antes eu vivia perdida sem saber se quer a minha identidade. Hoje tenho a certeza da minha identidade e do valor de mulher. Pois antes tinha sonhos meus, mas agora tenho sonhos que fazem todos em minha volta felizes. A comunidade me amadureceu em todos os sentidos da minha vida, me deu valores que permanecem. Devido as crises houve grande crescimento. Enorme. Hoje sou outra pessoa renovada pela graça de Deus. As mudanças refletem-se especialmente em meu interior, é encontro, é integração, é realização mesmo que vivendo com as dificuldades da vida. Eu não tinha noção de como viver, agora encontrei o jeito, forma, meta. Equilíbrio emocional, novos relacionamentos saudáveis, era um jovem desordenado com um relacionamento da mesma forma, hoje, tenho meu emprego, casado, amando e servindo a Igreja. Foi tive experiências em outra comunidade. Estou em outra que acredito ser minha vocação A mudança de vida é estúpida - grande transformação nos valores, morais, sociais, religiosos. 129 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Já caminhava há 10 anos no grupo de oração que originou a Comunidade. Portanto, em termos de conversão e decisão pouco mudou. Porém, a ousadia, a confiança em Deus e a disposição em tudo dar se tornou mais sólida. A diferença é completa: no sentido moral, ético, profissional, afetivo, intelectual. A maior diferença é que hoje percebo que sou digno e posso realizar muito em favor do outro, a partir do amor de Deus. Em todos os aspectos: mentalidade, amigos, trabalho, valores. Antes de entrar na comunidade eu participava do grupo de oração, mas havia o desejo de doar-se mais. Na comunidade tenho descobrindo mais qual é a minha identidade. Antes da comunidade já vivia uma vida de Igreja, mas após a comunidade vivo isso com mais intensidade. A diferença é que eu buscava ansiosa para encontrar minha vocação e hoje me encontrei já não existe mais inquietações, pois estou dentro do plano de Deus para mim. Antes de entrar na comunidade eu era uma pessoa feliz, porém hoje me sinto "feliz e realizado". Nada me falta. Vivia no escuro, hoje na luz. Viver totalmente desapegado de bens materiais. Mesmo já sendo de caminhada, a minha vida mudou em relação à maturidade matrimonial. Total e radical, noto um crescimento humano, espiritual e intelectual que não tinha antes de entrar na comunidade. Antes eu não tinha a experiência do Amor de Deus, e hoje a minha vida é para Deus é doada para o serviço da comunidade. Hoje sinto-me livre, satisfeita, completada. Agora é a certeza absoluta de servir a Deus por amor e necessidade própria. Antes eu só pensava em mim e hoje quando tenho que fazer algo penso em primeiro lugar na comunidade. Antes eu vivia da forma que queria, horário, vida financeira, hoje é a missão que indica os meus passos. Depois de entrar na comunidade, passei a viver minha fé com mais responsabilidade e fidelidade. Mudei bastante em relação à maturidade humana e espiritual, sou um novo homem sempre em processo de conversão. A motivação para superar os desafios, a confiança que não sou eu que faço, mas o Espírito 130 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 que me leva, a alegria de viver. Quadro 15 - Mudanças nos membros após aderirem à CNVA Essas respostas revelam a experiência religiosa dos membros das comunidades, identificada como experiência de plenitude. Segundo Mircea Eliade (1992), a existência humana possui duas dimensões, um modo de ser sagrado e um modo de ser profano. Apesar do homem na sociedade contemporânea ter perdido muito da dimensão do sagrado, quando ele faz uma experiência religiosa, passa a ter um comportamento, uma visão de mundo diferente da pessoa não-religiosa, a partir dessa experiência, principalmente diferenciando os espaços sagrados dos espaços profanos. “Para o homem religioso essa não-homogeneidade espacial traduz-se pela experiência de uma oposição entre o espaço sagrado – o único que é real, que existe realmente – e todo o resto, a extensão informe, o que o cerca” (ELIADE, 1992, p. 26). Em todas as respostas encontra-se a expressão de muitas mudanças interiores, assim expressas: conceitos, identidade, valores, vida, moral, ético, intelectual, mentalidade, maturidade humana e espiritual, como por exemplo: as mudanças refletem-se especialmente em meu interior, é encontro, é integração, é realização mesmo que vivendo com as dificuldades da vida; antes eu só pensava em mim e hoje quando tenho que fazer algo penso em primeiro lugar na comunidade; mudei bastante em relação a maturidade humana e espiritual, sou um novo homem sempre em processo de conversão. As mudanças interiores refletem-se também em relação aos relacionamentos como a família, amigos, casamento, como por exemplo: equilíbrio emocional, novos relacionamentos saudáveis, era um jovem desordenado com um relacionamento da mesma forma, hoje, tenho meu emprego, casado, amando e servindo a Igreja; mesmo já sendo de caminhada, a minha vida mudou em relação a maturidade matrimonial. Destaca-se a referência a mudanças intelectuais, como por exemplo: a diferença é completa: no sentido moral, ético, profissional, afetivo, intelectual; total e radical, noto um crescimento humano, espiritual e intelectual que não tinha antes de entrar na comunidade. Essa referência mostra uma preocupação com os estudos dentro da comunidade. Relacionando com a questão sobre o trabalho e o estudo na vida dos membros das Comunidades, já havíamos percebido que há uma grande percentagem dos que estudam e trabalham, além disso, pela observação participante nos cursos, constatou-se a ênfase dada à leitura de livros espirituais, doutrinais, de formação humana, estudos bíblicos. 131 ALVES, K.S.A.L. Ainda UFPB-PPGCR 2009 se encontra expressões que demonstram mudanças ocorridas como se realmente encontrassem um caminho bem melhor do que estavam antes: hoje sinto-me livre, satisfeita, completa; vivia no escuro, hoje na luz; o que revela mudança completa após a experiência religiosa (ELIADE, 1992). Por fim, é encontrada maior consciência em relação ao outro: antes eu só pensava em mim e hoje quando tenho que fazer algo penso em primeiro lugar na comunidade; antes eu vivia da forma que queria, horário, vida financeira, hoje é a missão que indica os meus passos. Com relação aos valores da vida comunitária, essas respostas enfatizam a dimensão coletiva em detrimento de ações egoístas, corroborando a teoria de Tonnies, no que se refere ao consenso como vontade própria de uma comunidade, “que representa a força e a solidariedade social particular que associa os homens enquanto membros de um todo.” (TONNIES, 1995, p. 243). 3.3.3.3 Relações da Comunidade com a Igreja e com a RCC Em poucas perguntas, apenas 04, procurou-se saber sobre a relação da Comunidade Nova de Vida e Aliança com a Igreja oficial, para identificar o grau dessa relação, se há interferência direta da hierarquia da Igreja na Comunidade, se há ajuda financeira para o sustento da Comunidade, se há ajuda espiritual, se há relação com a RCC e a influência da figura de João Paulo II sobre a Comunidade. Perguntou-se, em questão fechada, sobre o apoio local da Igreja Católica àquela Comunidade. Sendo as possíveis respostas: Sim. Não. Qual? Espiritual/Padre e/ou Financeiro. A maioria de 83% afirma que recebe apoio da igreja católica local no que se refere à espiritualidade, nenhuma diz receber apoio financeiro. No que se refere ao apoio financeiro, ao não recebê-lo da Igreja local, não se sabe se porque as Comunidades não o buscam ou não o querem, para se manterem independentes sem grandes vínculos organizacionais com a estrutura hierárquica da Igreja. Quanto ao apoio espiritual, é tarefa dos sacerdotes, negá-lo seria chocar-se com o seu papel. Depois, questionou-se sobre a influência da espiritualidade da RCC na espiritualidade da Comunidade. Essa resposta foi unânime, 100% respondeu que SIM, há 132 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 influência da espiritualidade da RCC na espiritualidade da Comunidade58. Apesar de haver uma influência espiritual, as CNVA constituem um movimento novo que não fazem mais parte da estrutura do Movimento da RCC, podendo ser entendido como dissidência, o que não deixa de gerar questões e tensões entre os líderes de ambas. Ainda foi questionado sobre o papel de João Paulo II na vida da Comunidade, perguntado: Qual a importância de João Paulo II na motivação de sua decisão por fundar/fazer parte de uma Comunidade? Com as opções de respostas: muito importante, pouco importante, essencial ou indiferente. Nessa questão, a resposta também foi unânime indicando a grande importância ou essencialidade de João Paulo II na motivação da decisão por fundar ou fazer parte de uma Comunidade. Indagou-se, então, sobre a mudança na efervescência do movimento comunitário após a morte de João Paulo II. A maioria afirmou que não houve mudança e, quando se afirma que houve é no sentido de aumentar o fervor pela busca do exemplo; por ter certeza que ele intercede por nós no céu; aumentou o desejo de doar cada vez mais a vida e ele é uma das inspirações, quando em Toronto, no Canadá, ele disse: Vós sois o sal da terra e a luz do mundo. Conclui-se, pelas respostas às questões acima expostas, e pela observação participante esboçada no início desse Capítulo, que a relação das Comunidades Novas com a Igreja é antes de tudo de respeito, havendo um esforço de obediência à hierarquia e de abertura de espaços para exposição de ensinamentos. Além disso, é explícita a necessidade espiritual, pois a Igreja, na pessoa dos padres, administra os Sacramentos - ritos litúrgicos considerados de grande importância para os membros das Comunidades. 3.3.3.4 Relações da Comunidade com a Sociedade As questões que seguem enfatizam as relações existentes entre os membros das Comunidades Novas de Vida e Aliança com as estruturas presentes na Sociedade, em vários aspectos como, por exemplo, a convivência com pessoas que não fazem parte da Comunidade; a visão em relação à sociedade atual e seus valores; enfim, quais as inserções dos membros das CNVA na sociedade, em termos de divulgação da comunidade, procura de conhecimentos extra-comunitários, participação em movimento social/popular/cultural. 58 Sobre o papel da RCC nas Comunidades Novas ver Cap. II – subseção 2.4.1 – Movimento da Renovação Carismática Católica. 133 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Investigou-se, a princípio, sobre possibilidade de viver fora da Comunidade. Para essa questão foram dadas quatro alternativas para ser escolhida uma. À pergunta: Como seria viver fora da Comunidade? deram-se as seguintes alternativas: seria fácil; seria impossível; seria difícil; seria a mesma coisa de agora. As respostas estão expressas no gráfico 16. Gráfico 16 – Como seria viver fora da CNVA As respostas variaram apenas entre as duas alternativas intermediárias que têm o mesmo sentido: seria impossível (34%) e seria difícil (66%). Ninguém marcou seria fácil ou seria a mesma coisa de agora. Desse resultado pode-se concluir que quem está envolvido com a comunidade não deseja sair dela e tem a impressão de que fora dela seria mais difícil continuar com os mesmos costumes e valores. Além disso, supõe-se que seria, no mínimo difícil, pelo menos logo no início, até pelas amizades construídas e os hábitos de vida. O que corrobora com as características de comunidade assinaladas por Tonnies (1995), de aproximação afetiva, relações privadas, vontades comuns. Logo a seguir, em questão semelhante à anterior, fechada com múltiplas escolhas, perguntou-se: Como seria viver sem a religião? Com as mesmas opções de respostas: seria fácil; seria impossível; seria difícil; seria a mesma coisa de agora. O objetivo foi enfatizar a diferença entre viver em comunidade e ter uma religião que se freqüenta e vivencia, investigando se a relação entre elas é muito forte (saindo da comunidade também sai da religião) ou se uma sobressai-se à outra (supondo-se que a religião seria mais forte que a comunidade). O gráfico 17 expressa os resultados. 134 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Gráfico 17 – Como seria viver sem religião A resposta reforça a questão anterior pois, mais uma vez, ninguém respondeu que viver sem religião seria fácil ou não faria diferença. Entretanto, houve uma inversão entre as duas alternativas intermediária: 72% assinalaram que seria impossível e 28%, que seria difícil. Essa resposta corrobora a concepção de Eliade (1995) de que o homem religioso não consegue viver sem o sagrado.Victor Turner também fala da relação da estrutura (sociedade) com a anti-estrutura (communitas), dizendo que uma não vive sem a outra, no sentido do equilíbrio social, pois o exagero em uma delas pode provocar uma patologia. Foi perguntado a seguir sobre qual a visão que o membro da Comunidade Nova tem da sociedade atual, objetivando perceber se do interior da Comunidade os membros possuem uma visão da sociedade diferente das daqueles que nunca estiveram na comunidade, como aponta Victor Turner (1974) quando aborda sobre um processo de transição que passam aqueles que estão na communitas, no qual se trabalha a humildade e a igualdade, para depois se reintegrarem na sociedade. A questão foi respondida por todos, conforme quadro 16: Eu vejo materialista egoísta precisando conhecer o amor de Deus. Perdida em si mesma, como um bando de desvalidos, abandonado no campo de guerra, sem saber o que fazer, nem como agir diante deles mesmos - ovelhas sem pastores. Sem Deus e muito materialista. Há sinais de esperança, conquistas, mas também muitas sombras. Desafios estão diante de nós, pois o Evangelho é luz, sal e fermento. Precisando enxergar uma visão humana. Uma sociedade individualista, hedonista, descartável, onde há frieza e indiferença, 135 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 necessitada de acolhimento e de uma evangelização personalizada. Paganizada, sem valores morais. Vejo uma sociedade individualista, egocêntrica e materialista. Que não se preocupa com os outros. Como uma pessoa doente, que muitos já desenganaram, porém que para os que têm fé ainda apresenta esperança, por isso existimos. Uma sociedade insegura. Desordenada, onde prevalece a cultura de morte, o relativismo, uma crise ética e moral sem precedentes. Doente nos vários aspectos - e até mesmo diante da globalização, porque não dizer até mesmo hedonista. Necessitada de ter uma experiência pessoal com Jesus. Muitas pessoas precisam experimentar o amor de Deus. As pessoas estão cada vez mais isoladas e pensando em si, apegadas as coisas, não aos relacionamentos e perdendo a fé. Descaracterizam a humanidade e tudo que provém dela. Vejo como uma sociedade vazia que se deixa levar por tudo o que se dita pelos meios de comunicação. Sem amor ou valores, falsamente feliz. Uma sociedade desordenada que não valoriza a pessoa humana e super-valoriza o material, é uma sociedade excludente. Necessitada de encontrar um rumo. Uma sociedade que tem buscado caminhar sozinha, tem esquecido Deus, por isso tantos problemas, tantos erros, tanto sofrimento, é necessário voltar ao mestre da vida, para vivermos bem. Que precisa se encontrar com Deus, colocar Deus em 1° lugar em suas vidas. Deixar Deus governar sua vida, ter uma experiência com Deus me chama pra isso. Sem rumo pois buscam as coisas terrenas e esquecem de buscar as coisas do alto. Necessitada de Deus. Egoísta consequentemente não conhecem a Deus com profundidade. Totalmente relativista e hedonista. Pedindo "SOCORRO". Consumista, hedonista, exclusivista que cultua o prazer, o bem estar a qualquer custo, ela é o grande animal moderno. 136 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Uma sociedade que vive muito o poder, o ter para muitos Deus fica em 2° lugar. Ela não estar da forma como estar por querer (hedonista, relativista, marxista, cultura de morte, etc), mas por não conhecer Jesus. Dessacralizada, descrente, secularizada, globalizada, com distorções sérias dos valores morais, humanos, políticos e culturais. Sem deixar de ressaltar a cultura de morte hoje estabelecida. Individualista, consumista e em busca do novo, ou seja, cada vez mais moderna. Consumista, egoísta, materialista, mas ao mesmo tempo infeliz sem saber na verdade o que busca. Decadente e carente de Deus. Cada vez mais distante de Deus, egoísta, relativista, perda de valores. Uma sociedade consumista, hedonista, sem valores essenciais de vida, respeito e solidariedade. Quadro 16- Visão da sociedade atual pelos membros das CNVA Da leitura das respostas vê-se que, em todas elas, os membros das Comunidades Novas têm uma postura crítica e uma visão pessimista da sociedade atual. Consegue-se distinguir 3 tipos de respostas: (a) uma que aponta características que se associam à modernidade, com as expressões: materialista, egoísta, individualista, hedonista, consumista, relativista; outra (b) que aponta desequilíbrios, com o uso de palavras como doente, desordenada, insegura, decadente e outra (c) que aponta para a necessidade de valores humanos e religiosos como sem valores morais, falsamente feliz, descrente, necessitada de Deus. Apenas uma resposta foi um pouco otimista, dizendo “Há sinais de esperança, conquistas, mas também muitas sombras”. Pode-se constatar que os líderes das Comunidades Novas realmente não comungam com a sociedade atual. Alguns com uma postura de piedade e misericórdia, dizendo que a sociedade precisa encontrar a Deus ou conhecer Jesus Cristo, outros se contentam apenas em descrevê-la. Essas respostas corroboram a análise de Turner sobre o rito de passagem pelo qual passam os que estão na comunidade. Destaca-se ainda pelas respostas a necessidade da fundação de comunidades para estabelecer um novo modo de vida para o homem, com valores distintos dos que prevalecem na sociedade hoje. Pois a experiência fundante, na lição de Alberoni (1991), quer ser uma 137 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 descontinuidade social, dessa experiência aparecem os sujeitos do estado nascente59, quando as estruturas não mais satisfazem, e o cotidiano não dá mais resposta. As comunidades são fundadas no ímpeto de viver novos valores, contrários aos da sociedade atual, como reação ou resposta desses segmentos sociais (grupos que acreditam nos valores cristãos) e este estado de coisas. Indaga-se, no questionário, sobre os valores das pessoas que participam da comunidade em relação aos valores das pessoas que não participam. A intenção foi aprofundar o assunto, porque talvez fosse fácil responder sobre o panorama da sociedade atual considerando-se fora dele. Mas a Comunidade Nova, na qual a pessoa está inserida, é ou não diferente do restante da sociedade, na visão de quem estava respondendo ao questionário? A pergunta foi a seguinte: Você percebe que as pessoas que participam da comunidade possuem valores diferentes das que não participam? Respostas: Sim, Não. Por quê? Todos responderam que sim, possuem valores diferentes. As justificativas são variadas, mas no mesmo sentido das respostas anteriores, conforme o quadro 17: Porque as que vivem na comunidade nos ajudam a construir nossa santidade então este convívio nos leva a perceber esse valor. Os valores cristãos, doutrinários, etc. Porque essas pessoas tem um ideal: Deus. Porque a evangelização humaniza-nos. Porque temos uma visão da humanidade diferente, correspondemos com a vida. Pela formação vai se formando uma mentalidade e valores diferentes. Desejo de santidade. Pelo novo de Deus, que se assume ou pelo menos se luta para assumir em luar dos valores seculares. Porque quando se tem um encontro verdadeiro com Cristo, tudo se transforma, é outro "modus vivendus". (as pessoas fora da comunidade) Se tornam mais tristes. Apegadas ao TER, ao PODER. Não conseguem descobrir a FELICIDADE nas pequenas coisas. A experiência de Deus, da fraternidade (vida comunitária), da formação e missionariedade as tornam diferentes. Por conta das mudanças causadas pela experiência pessoal com Jesus. 59 Ver Cap. I – subseção 1.4.1 – Os sujeitos do estado nascente. 138 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Percebo que o esforço muito grande de todos os irmãos de comunidade de aprender amar e se deixar ser amado. Porque a vida é direcionada a um alvo certo de acordo com a resposta que cada carisma é chamado a dar no mundo. O desapego, a renúncia, o desejo de ser o que Deus quer. Não que sejamos melhores, mas a partir damos o sim a uma comunidade crescemos muito. A medida que Deus vai fazendo a obra vão se valorizando e conhecendo seus valores. Porque vivem uma experiência com Deus e esse contato vai modelando e nos devolvendo a imagem e semelhança de Deus. Porque são pessoas limitadas, mas vê o outro pelo que eles são não segundo os valores deste mundo. São formadas a viverem os conceitos evangélicos. Porque cada dia mais Deus é prioridade em suas vidas. O respeito e o temor à Deus, à Igreja, o valor do matrimônio e da família, o amparo ao irmão, etc. Devido a o ambiente espiritual e a experiência pessoal que tiveram com o amor de Deus. As pessoas de comunidade vivem no mundo diferente. Buscam viver a santidade, testemunho. (É diferente porque vive no mundo, mas não se deixam ser levadas pelas coisas do mundo. Por conhecer Jesus, que é o Caminho, Verdade e Vida. Ele ordena nossa vida, com a Graça do Espírito Santo. Porque elas voltam a valores atualmente perdidos da pessoa humana. Humanidade, felicidade, esperança, amor pelo outro e muita certeza do céu. Porque testemunham, ou pelo menos, buscam testemunhar o carisma no meio em que vivem e trabalham. Porque as que participam tomam atitudes cristãs. Porque são formadas e orientadas para viverem de acordo com os valores de Cristo. Quadro 17 - Valores presentes na CNVA Das respostas depreende-se que os líderes e fundadores das Comunidades Novas consideram-se com valores diferentes da cultura atual, seja porque tiveram uma experiência com Deus, ou porque são formadas com valores cristãos e com a doutrina católica, ou porque lutam para viver esses valores, ou porque vivem em um ambiente diferente dentro da comunidade. 139 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 As comunidades religiosas cristãs, mais do que outros tipos de comunidade, buscam a mudança de vida e a santidade, tanto como experiência mística propriamente dita, como segundo um modelo moral. O apoio na experiência mística, como encontro com o sagrado no interior da pessoa é base primordial para as comunidades cristãs de várias épocas, em especial para as CNVA, que resgatam a mística de santos como Tereza D’ávila, São João da Cruz, São Bento, como modelos para serem seguidos na chamada “vida de oração”. As Comunidades Novas fazem retiros comunitários e pessoais de oração, pois a sua pedagogia é no sentido de que as mudanças pessoais ocorrem em consequência da vida de oração pessoal e comunitária60. A formação na doutrina moral da Igreja e nos valores cristãos é outro apoio para a mudança de vida e para a santidade, basta ver os inúmeros artigos formativos nos diversos sites das Comunidades Novas, além de ter sido verificada na observação participativa realizada na pesquisa de campo desta dissertação. Perguntou-se, em resposta semi-aberta, se Você percebe que sua Comunidade é uma resposta à atual sociedade?” Não. Sim. Em quais aspectos. A intenção foi verificar a formação da comunidade como contra-proposta frente aos valores da sociedade atual. As respostas foram unânimes, 100% respondeu que a sua Comunidade é uma resposta à atual sociedade. Sobre em que aspectos a Comunidade é uma resposta, trazemos algumas respostas abaixo: - espiritual, - religioso, - educação da família e evangelização nos métodos, - em todos os aspectos, - restauração de casamentos e famílias em crise, - os valores evangélicos que inspiram as ações da comunidade é uma grande contribuição para a humanização do ser humano, - como resposta ao culto do prazer, o remido manifesta o maior prazer que é Deus com toda sua forma de ser e de viver, - resgate da dignidade dos filhos de Deus, - sendo um testemunho dentro da realidade do mundo Sobre a abertura das NCVA para a sociedade, perguntou-se: A comunidade utiliza algum meio de divulgação de sua existência/atuação?” O resultado demonstra que a maioria 60 As informações aqui expostas foram colhidas na observação participante e na convivência com membros de CNVA. 140 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 de 78% realiza algum tipo de divulgação de sua existência e atuação. Perguntamos também quais os meios utilizados para a divulgação, sendo uma questão aberta. Os resultados estão expressos no quadro 18. www.saleluz.com rádio, jornal, internet, blog rádio, site internet site internet floder, rádio, missões e trabalhos pastorais rádio, internet e propagandas publicitárias avisos em missas e boca a boca através do testemunho diante da Igreja e da sociedade site, folders, cartazes, divulgação em escolas quando divulga os eventos realizados pela comunidade rádio, internet e propagandas publicitárias informativo kairós informativo, casa de show católica em construção rádio, divulgação dos eventos rádio, folder bus door, eventos divulgados, cartazes, faixas através dos testemunhos de vida e da Igreja site - www.comxto.com boca a boca e avisos nas missas da comunidade www.saleluz.com www.saleluz.com através do próprio testemunho de seus membros panfletos, cartazes, site informativo bimestral, eventos, serviço de pregações e animação. Quadro 18 - Meios de divulgação utilizados pelas CNVA O resultado revela que o meio de divulgação mais utilizado é a internet, por meio de sites, blogs, e-mail, 07 Comunidades Novas: Christós, Siloé, Sal e Luz, Remidos no Senhor, Filhos da Misericórdia, Filhas de Maria e Maria Mater indicaram possuírem divulgação pela internet. Outro meio muito utilizado é o rádio, indicado por 07 Comunidades. Apenas 02 indicaram possuírem informativo como meio de divulgação e outras 02 propaganda publicitária. Uma indicou o “bus door”, outra o jornal, outra a construção de uma casa de show e outra divulgação nas escolas. É perceptível a variedade nos meios de divulgação, a presença da internet pode indicar maior organização da comunidade ou uma característica própria para trabalhar com esse meio. As Comunidades que não indicaram um meio de comunicação talvez ainda estejam na fase inicial da fundação ou não possuem a características de trabalhar com divulgação. 141 ALVES, K.S.A.L. Foi UFPB-PPGCR perguntado ainda se os membros 2009 da comunidade procuram outros conhecimentos, além da doutrina e da fé cristã católica, objetivando perceber a abertura para a sociedade e a preocupação em manter diálogo com as ciências seculares. Essa é uma questão fechada, de múltiplas escolhas: Sim, Não, Quais. A maioria de 80% informou que procura outros conhecimentos. Os conhecimentos indicados para múltipla escolha se referem à formação acadêmica universitária. As respostas foram conforme o quadro 19: Psicologia 66% Sociologia 13,2% Contabilidade 30% Antropologia 26,4% Teologia 59% Outro 0,66% Quadro 19 – Abertura dos membros das CNVA para outros conhecimentos O resultado demonstra que a maioria procura a psicologia e a teologia, havendo também quem se interesse por contabilidade, antropologia, sociologia e outros. O grande interesse pela psicologia demonstra o aspecto afetivo-relacional dessas comunidades, estando em consonância com a tendência atual da religiosidade no Brasil e no mundo. Sobre a presença de voluntários trabalhando na Comunidade, com o intuito de saber se há pessoas que conhecem a comunidade, não são comprometidos como membros ou consagrados, mas se dispõem a servir, sem pagamento pelos serviços prestados. A maioria das Comunidades, 60%, afirma a presença de voluntários, trabalhando em serviços os mais variados, realizados pela Comunidade, seja de cunho de Evangelização, como organização de eventos, rádio; seja de Projetos Sociais, como artesanato, creche da comunidade, aula de artes; seja de organização da própria Comunidade, fábrica de produtos de limpeza, serviços gráficos, serviços jurídicos e administrativos, recepção e secretaria. A presença de voluntários revela a abertura dessas Comunidades para a participação de pessoas em suas atividades que não são membros efetivos delas. Ainda sobre o aspecto de abertura da Comunidade para o social, foi indagado se os membros da Comunidade de Vida podem ou não trabalhar fora ou na Comunidade com remuneração. Alguns não responderam a essa questão, entre os que responderam, as respostas empataram, metade respondeu que “não” e a outra metade respondeu que “sim”, os membros que residem podem trabalhar fora ou na Comunidade com remuneração. 142 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 Esse índice de resposta de membros que podem trabalhar fora da Comunidade com remuneração (metade dos questionários respondidos) demonstra que essas Comunidades não são fechadas, ou seja, não há tendência ao sectarismo. Além disso, ao permitirem que seus membros trabalhem, estão abdicando da presença mais freqüente dentro da Comunidade, além de inseri-los na vida social comum, sem uma necessária vivência religiosa. Sob o mesmo aspecto, foi perguntado ainda sobre a participação da Comunidade em algum movimento social/popular/cultural. A maioria dos responderem, 57%, disse que não participam de nenhum movimento social, popular ou cultural. Os que participam, citaram os seguintes Movimentos: Conselho Municipal, Associação, Educação, Santas Missões, Pastorais Sociais, visita aos doentes e assistencialismo. Desse resultado, mesmo não sendo maioria, muitos respondentes (43%) diz participar de movimentos, o que corrobora as demais respostas nesse aspecto, no sentido do envolvimento dos membros dessas Comunidades com iniciativas populares não ligadas diretamente à religião e até ligada à religião católica, mas fora do âmbito de sua Comunidade. 3.3.4 Apreciação geral dos resultados do questionário Alguns pontos mais fortes presentes nas respostas às questões são os seguintes: (a) A análise da relação entre o tempo de existência e a fase do processo comunitário e se há alguma relação entre essas fases e a preocupação com a formação dos membros. Quanto a isso, não podemos afirmar que as que têm mais tempo de existência estariam preocupadas com a formação, com o número de membros diminuindo ou aumentando, porque a parte quantitativa pode estar relacionada a outros fatores, como projeção na mídia, ênfase nas orações emotivas, que atrairiam fiéis à comunidade. (b) A que ponto as CNVA pesquisadas estão da institucionalização? Ressaltando que o sentido de institucionalização aqui empregado diz respeito ao reconhecimento oficial da CNVA pela Igreja Católica do Vaticano como uma nova forma de vida comunitária. Pelos dados e pela leitura teórica realizados neste trabalho, as CNVA se encontram distantes da institucionalização, levando em consideração que a mais antiga possui em média 20 anos de existência e a mais nova 1 ano, ambos períodos curtos para uma institucionalização, especialmente no âmbito da Igreja Católica, que possui uma estrutura imensa, tendo mais dificuldades para incorporar novos movimentos. 143 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 (c) Quanto à análise das relações interpessoais, ou de solidariedade, vê-se que existe acentuada preocupação com uma boa convivência comunitária, além da preocupação com a situação social atual. (d) Quanto à experiência religiosa, verifica-se o acento no emocional e no subjetivo, corroborando com a idéia atual de interesse pela religiosidade de forma emotiva e subjetiva. Havendo ainda diversos relatos de hierofanias, que revelam a grande importância dada às práticas religiosas pelos membros das CNVA. 144 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo desta dissertação procurou-se mostrar as diversas faces das CNVA, buscando apoio teórico e metodológico para compreender quais os mecanismos que envolvem a fundação e os desdobramentos da vida comunitária nestas organizações religiosas católicas da atualidade. A pesquisa de campo foi realizada em encontros de formação que reúne líderes de várias CNVA do Nordeste, espaço escolhido por privilegiar uma visão geral do estado atual do conjunto dessas Comunidades. Foram colhidos dados por meio dos questionários, que sugerem várias possibilidades de desdobramentos futuros, como por exemplo: (a) na relação pessoal com o divino; (b) na importância dada à sociabilidade, (c) na necessidade de consagrar-se a Deus; (d) na presença considerável de jovens, especialmente no início do processo de fundação; (e) nos rituais litúrgicos; (f) na estrutura que privilegia a formação da pessoa e a formação para o comunitário; (g) assimilação de aspectos da vida comunitária dos primeiros cristãos (partilha, espontaneidade, liminaridade) e de aspectos da vida religiosa institucionalizada (rituais litúrgicos, planejamento de formação, métodos de arrecadação de dinheiro); (h) além de um processo incipiente de institucionalização, visto que a maioria – 11 - foi fundada na última década, algumas – 06 - na década de 1990 e apenas 02 na década de 1980 e de outras considerações feitas ao longo da dissertação. Foram feitas várias análises específicas dos questionários, privilegiando uma visão a partir da vivência dos membros (líderes e fundadores) das comunidades em suas relações internas. Entretanto, os dados empíricos coletados permitem considerar a possibilidade de aprofundar a pesquisa para explorar a relação entre a comunidade e a sociedade contemporânea em suas características pós-modernas e perceber se essa forma de vida comunitária responde aos anseios do homem contemporâneo, com relação aos valores e à religião. Outra dimensão que sugere maior investigação diz respeito à organização econômica da comunidade voltada para o modelo da partilha e da economia solidária. Além disso, um estudo do dia-a-dia da Comunidade permitiria uma análise mais aprofundada das relações internas entre os membros, para contrapor a teoria e o ideal comunitário com o ordinário real. A teoria utilizada trouxe elementos imprescindíveis para a análise dos questionários aplicados, como as características da comunidade em distinção com as da sociedade (TURNER, 1974; TONNIES 1995). O percurso feito por entre movimentos e comunidades 145 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 religiosas ao longo da história, permitiu comparações significativas com o que se vive hoje no movimento das CNVA. Constatou-se que a espiritualidade que une essas Comunidades Novas de Vida e Aliança é semelhante à proposta pela Renovação Carismática Católica, com a ênfase dada ao Espírito Santo e seus dons (línguas, profecias, ciência, sabedoria), ao louvor, à adoração ao Santíssimo Sacramento, à espontaneidade na oração, à afetividade. Uma espiritualidade essencialmente voltada para o emocional, como constata Hervieu-Léger (1993 apud Maia, 2008), que intensifica a vivência pessoal e comunitária em detrimento da institucional A observação participativa e os questionários demonstram, a princípio, que as características da liminaridade e communitas (TURNER, 1974) estão presentes no início do processo de fundação das Comunidades Novas de Vida e Aliança – aquelas fundadas a menos de 05 anos, e pode continuar por algum tempo presentes, pois elas estão sendo formadas às margens da estrutura hierárquica da Igreja Católica, situação que pode durar muito tempo, visto que o processo de reconhecimento de novos movimentos no catolicismo é em geral muito lento. As CNVA, assim como as comunidades das origens do franciscanismo, apresentam características da communitas espontânea (TURNER, 1974) no decorrer do processo de fundação, ao mesmo tempo em que vivem a pressão por uma estruturação, sob pena de não subsistirem. Outro aspecto a comparar entre as duas experiências de communitas é a relação com o dinheiro. Nos depoimentos e escritos dos membros das CNVA, é detectada a espera pela providência de Deus, que não se refere a esmolar, como os primeiros franciscanos faziam, mas a trabalhar com meios ligados aos seus objetivos e procurar benfeitores, encontrando nessas iniciativas a providência. Há também relatos sobre a intervenção miraculosa de Deus, como uma doação gigante para algo que a CNVA estava precisando muito e não havia como conseguir. Mas são relatos esporádicos. É na rotina diária das pequenas providências, aliada ao esforço pessoal e comunitário, que conseguem meios de subsistência. Por outro lado, comparando as motivações para fundar/consagrar-se em uma CNVA com as características do estado nascente e da experiência fundamental abordados por Francesco Alberoni (1991), verifica-se que os fundadores e/ou fundadoras (líderes) vivenciam a experiência individual de conversão profunda que os leva a ver a vida de outra forma e a não mais querer viver como antes, ou seja, constata-se uma renovação do pensar a própria 146 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 vida conforme a revelação religiosa. A partir da qual, buscam construir um grupo que os ajude a viver o que almejam. Quanto ao crescimento numérico de cada CNVA, parece não haver estratégias para aumento do número de membros, podendo permanecer comunidades com baixo número de membros, ao lado de outras que possuem grande número, não sendo exigido um número mínimo de fiéis para continuarem existindo. A característica do modelo da CNVA é de ter uma capilaridade ao se multiplicar e se espalhar no espaço social, difundindo a sua moral religiosa e experiência peculiar com o sagrado. Do resultado, percebe-se que a religião é mais forte que a comunidade, para aqueles que responderam ao questionário, pois a maioria admite ser difícil viver fora da comunidade, mas impossível viver sem a religião. Esse resultado também demonstra que a comunidade, de fato, existe por causa da religião e não ao contrário. 147 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 REFERÊNCIAS ALBERONI, Francesco. Gênese: como se criam os mitos, os valores e as instituições da civilização ocidental. Tradução Mario Fondelli. Rio de Janeiro: Rocco, 1991. ALVES, Kátia Simone Almeida Lins. Pós-Modernidade, Religião e Juventude: Comunidades Carismáticas em João Pessoa. 2006. Monografia (Curso de Especialização em Ciências das Religiões) - Universidade Federal da Paraíba, 2006. ARAÚJO, Luiz Bernardo Leite. Religião e Modernidade em Habermas. São Paulo: Loyola, Sociedade Moderna e Futuro da Religião. 1996. (Coleção Filosofia. IV). ARIÈS, Philippe e DUBY, Georges. História da Vida Privada2. Da Europa feudal à Renascenca. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. BAUMAN, Zigmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. BAY, Dora Maria Dutra. Fascínio e Terror: o Sagrado. Cadernos de pesquisa interdisciplinar em ciências humanas, n.61, FPOLIS, dez. 2004. Disponível vem: <http://www.cfh.ufsc.br/~dich/TextoCaderno61.pdf>. Acesso em: 13 Jan. 2009. BERGER, Peter. O Dossel Sagrado. São Paulo: Paulinas, 1985. BÍBLIA SAGRADA. Pastoral. São Paulo: Paulus, 1990. BOLEN, M.D. Jean Shinoda. O anel do poder. A criança abandonada, o pai autoritário e o feminino subjugado. Interpretação Junguiana do ciclo do anel de Wagner. São Paulo: Cultrix, 1992. BRAND, Dom Orlando. As ditaduras da modernidade. <http://www.comshalom.org/po/index.php>. Acesso em: 13 jan. 2009. Disponível em: CARRANZA, B. Renovação Carismática: origens, mudanças, tendências. Aparecida. São Paulo: Santuário, 2000. CASTRO, Gustavo do Passo. As Comunidades do DOM. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 1987. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Disponível em: <http://www.vatican.va>. Acesso em: 13 jan. 2009. CNBB, Igreja Particular, movimentos eclesiais e novas comunidades – Subsídios Doutrinais da CNBB, n.3. São Paulo: Paulinas: 2006. COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE, Wikipédia. A enciclopédia livre. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Comunidades_Novas>. Acesso em 22/04/2009. COMUNIDADES NOVAS, Wikipédia. A enciclopédia livre. Disponível <http://pt.wikipedia.org/wiki/Comunidades_Novas>. Acesso em 10/02/2009. em: 148 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 CONCÍLIO VATICANO II, Documentos (1962-1965). Lumen Gentium. Constituição Dogmática sobre a Igreja. São Paulo: Paulus, 2001. CONGREGAÇÃO PARA OS INSTITUTOS DE VIDA CONSAGRADA E AS SOCIEDADES DE VIDA APOSTÓLICA. A Vida Fraterna em Comunidade. São Paulo: Paulinas, 1994. DINIZ, A.S. A implosão do sentido: o discurso sociológico da pós-modernidade. João Pessoa: Manufatura PPGS, 2005. DONINI, Ambrogio. História do Cristianismo (das origens a Justiniano). Lisboa, Portugal: Edições 70, Ltda. DURKHEIM, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa. São Paulo: Paulus, 2004. ELIADE, Mircea. O sagrado e o Profano. Tradução Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 2008. ________. Tratado de História das Religiões. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. ________. Mito e Realidade. 6 ed. São Paulo: Perspectiva, 2000. FERNANDES, Antonio Teixeira. O retorno do sagrado. Disponível <http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/1388.pdf> Acesso em: 15 jan. 2009. em: FILORAMO, Giovanni e CARLO, Prandi. As Ciências das Religiões. São Paulo: Paulus, 2003. GUERRA, Lemuel Dourado. A lógica do mercado na esfera da religião: competição, demanda e a dinâmica dos discursos e práticas religiosas no Brasil. 2000. Religare – Cadernos. Disponível em: <HTTP://yesod.sites.uol.com.br/cadernos/edicao1/logica.htm>. Acesso em: 19 mar. 2009. GUIDDENS, Anthony. Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005. HARVEY, David. Condição Pós-Moderna. São Paulo: Loyola, 1994. HERVIEU-LÉGER, Danièle. Catolicismo – A Configuração da Memória. Revista Rever n. 2, Ano 2005. Disponível em: <www.pucsp.br/rever/rv2 2005/t leger.htm> Acesso em: 18 dez. 2008. JESUS, Santa Teresa de. Castelo interior ou moradas. 11 ed., São Paulo: Paulus, 2003. JOÃO PAULO II, pronunciamento na Vigília de oração durante o encontro dos Movimentos Eclesiais e das Novas Comunidades, 1998. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1998/may/documents/hf_jpii_spe_19980530_riflessioni_po.html> Acesso em: 10 fev. 2009. ________________, Exortação Apostólica Pós-sinodal Vita Consecrata, Roma, 1996. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_exhortations/documents/hf_jpii_exh_25031996_vita-consecrata_po.html>. Acesso em: 10 fev. 2009. 149 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 LAPLANTINE, François. A Descrição Etnográfica. São Paulo: Terceira Margem, 2004. LAZARTE, Rolando. Max Weber: Ciência e valores. São Paulo: Cortez, 1996. MACHADO, Maria das Dores Campos. Carismáticos e Pentecostais: adesão religiosa na esfera familiar. Campinas: Autores Associados/ Anpocs, 1996. MAFESSOLI, Michel. O Tempo das Tribos. O declínio do individualismo nas sociedades de massa. 2 ed., Rio de Janeiro: Universitária, 1998. MAFRA, Clara. Resenha do livro: CSORDAS, Thomas J., 1997. Language, Charisma, and Criativity: The Ritual Life of a Religious Movement. Berkeley/Los Angeles/London: University of California Press. 320 pp. In Mana, Vol. 6, n. 2, Rio de Janeiro, 2000. MAIA, Kaliane de Freitas. As Comunidades de Vida e Aliança no Contexto do Catolicismo. Uma análise do caso da Remidos no Senhor. Dissertação ( Pós-Graduação em Ciências Sociais) UFCG, 2008. MAIA, Maria de Fátima Holanda Leite Maia. Práticas Católicas no contexto contemporâneo: um estudo sobre comunidades eclesiais de base e renovação carismática católica em Cajazeiras-PB. Dissertação (Mestrado) PPGS/CCHLA/UFPB – João Pessoa, 1998. MARIANO, Ricardo. Efeitos da secularização do Estado, do pluralismo e do mercado religioso sobre as igrejas pentecostais. Revista Civitas, v. 3, n. 1, 2003, p. 111-125. MARIZ, Cecília L. A Renovação Carismática Católica: uma Igreja dentro da Igreja? In. Civitas, Porto Alegre, v. 3, n.1, jun. 2003. _______, Cecília Loreto. “Comunidades de Vida no Espírito Santo”: um novo modelo de família? In: CONGRESSO LUSO-AFRO-BRASILEIRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, 07., 2004. Coimbra. Anais... Coimbra: Universidade de Coimbra, 2004. _______, Cecília Loreto. Comunidades de vida no Espírito Santo: juventude e religião. Tempo Soc. (on line) , 2005, v. 17, n° 2, PP. 253-273. Disponível em: <www.scielo.br>, acesso em 30/03/2009. MIRANDA, Orlando. (org.) Para Ler Ferdinand Tönies. EDUSP. São Paulo: 1995. __________. A Armadilha do Objeto – O Ponto de Partida de Ferdinand Tönies. MIRANDA, Orlando. Ferdinand Tönies. Edusp. São Paulo: 1995. In MORAIS, Vamberto. A primeira comunidade cristã e a religião do futuro. São Paulo: IBRASA, 1992. NASCIMENTO, Cleoneide Moura do Nascimento. A Renovação Carismática e a relação entre a Igreja Católica e os Movimentos Sociais: o caso da diocese de Guarabira-PB. Dissertação (Mestrado) PPGS/CCHLA/UFPB – João Pessoa, 2006. NOGUEIRA, Maria Emmir Oquendo. Carisma de Fundação. Fortaleza/CE: Casa Mãe de Deus. Escola de Formação Shalom, 1999. 150 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 ___________, Maria Emmir Oquendo; LEMOS, Silvia Maria LIMA. Tecendo o fio de outro: caminho ordo amoris. Fortaleza/CE: Edições Shalom, 2006. ___________, Maria Emmir Oquendo. O Carisma da formação, o perfil do formador, projeto de formação inicial e permanente. Campina Grande/PB: Escola de Formadores de Novas Comunidades Regional Nordeste2, 2007. PASSOS, João Décio. Como a Religião se organiza. Tipos e processos. SãoPaulo: Paulinas, 2006. PRANDI, Reginaldo. Um sopro do Espírito: a renovação conservadora do catolicismo carismático. São Paulo: EDUSP, 1997. PUNTEL, Joana T. Cultura Midiática e Igreja. Uma nova ambiência. São Paulo: Paulinas, 2005. REBOUÇAS, Maurício. Missionários da Canção Nova: o dia-a-dia. Canção Nova, Cachoeira Paulista, SP, out. 2008, ano 8, n° 94, p. 08-09. RICHARD, Pablo. O movimento de Jesus depois da ressurreição: uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1999. SANTOS, Alberto Pereira dos. Introdução à Geografia das Religiões. GEOUSP Espaço e Tempo, São Paulo, nº 11, pp. 21-33, 2002. Disponível em: <http://www.geografia.fflch.usp.br/publicacoes/Geousp/Geousp11/Geousp11_Santos.HTM> Acesso em: 17/04/2009. SANTOS, Elias Dimas dos. Novas Comunidades. Dom da Trindade. São Paulo: Edições Loyola, 2003. SILVA, Alyne Guedes da Silva. A Cura Divina: A Renovação Carismática Católica e a Missa de cura em João Pessoa-PB. Monografia. DCS/CCHLA/UFPB. João Pessoa, 2004. SOCZEK, Daniel. Comunidade, utopia e realidade: uma reflexão a partir do pensamento de Zygmunt Bauman. Revista de Sociologia e Política, n.23, Nov. 2004. SOUSA, Ronaldo José de. Carisma e Instituição. Relações de poder na Renovação Carismática Católica do Brasil. Aparecida/SP: Santuário, 2005. _______, Ronaldo José. História da Vida Consagrada in Encontro Regional Nordeste2 Comunidades Novas Escola de Formadores, Campina Grande: 2007. TERRA, Dom João Batista Martins Terra. Os Novos Movimentos Eclesiais. São Paulo: Loyola, 2004. TIMBÓ, Sidney. Novas Comunidades. Uma novidade no Brasil e no mundo. Fortaleza: Shalom, 2004. TÖNNIES, Ferdinand.Comunidade e Sociedade. Textos selecionados. In MIRANDA, Orlando. Para Ler Ferdinand Tönies.São Paulo: Edusp, 1995. 151 ALVES, K.S.A.L. UFPB-PPGCR 2009 TURNER, Victor W. O Processo ritual. Estrutura e anti-estrutura. Rio de Janeiro: Vozes , 1974. VANIER, Jean. Comunidade: lugar do perdão e da festa. São Paulo: Paulinas, 2001. WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1997. ________. Metodologia das ciências sociais. São Paulo: Cortez, 2001.Cap.1,3 152 Livros Grátis ( http://www.livrosgratis.com.br ) Milhares de Livros para Download: Baixar livros de Administração Baixar livros de Agronomia Baixar livros de Arquitetura Baixar livros de Artes Baixar livros de Astronomia Baixar livros de Biologia Geral Baixar livros de Ciência da Computação Baixar livros de Ciência da Informação Baixar livros de Ciência Política Baixar livros de Ciências da Saúde Baixar livros de Comunicação Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE Baixar livros de Defesa civil Baixar livros de Direito Baixar livros de Direitos humanos Baixar livros de Economia Baixar livros de Economia Doméstica Baixar livros de Educação Baixar livros de Educação - Trânsito Baixar livros de Educação Física Baixar livros de Engenharia Aeroespacial Baixar livros de Farmácia Baixar livros de Filosofia Baixar livros de Física Baixar livros de Geociências Baixar livros de Geografia Baixar livros de História Baixar livros de Línguas Baixar livros de Literatura Baixar livros de Literatura de Cordel Baixar livros de Literatura Infantil Baixar livros de Matemática Baixar livros de Medicina Baixar livros de Medicina Veterinária Baixar livros de Meio Ambiente Baixar livros de Meteorologia Baixar Monografias e TCC Baixar livros Multidisciplinar Baixar livros de Música Baixar livros de Psicologia Baixar livros de Química Baixar livros de Saúde Coletiva Baixar livros de Serviço Social Baixar livros de Sociologia Baixar livros de Teologia Baixar livros de Trabalho Baixar livros de Turismo