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JORNAL SEM TERRA: CIRCULAÇÃO E USO12
Linguagem e sociedade estão ligadas entre si de modo
inquestionável. Mais do que isso, podemos afirmar que essa
relação é a base da constituição do ser humano. Alckmin
(2000: 49)
Tudo aquilo que não pode ser processado, analisado e
sistematizado pela mente humana provoca desconforto. Na
verdade, a reação humana frente ao caos, seja ele de que
natureza for, é de ansiedade. Tarallo (1990: 5)
Em todas as configurações histórico-sociais de vida,
trabalho e cultura, a língua revela-se produto e condições
das formas de sociabilidade e dos jogos de forças sociais.
(...) É a língua que se constitui como patamar da história, o
sistema de signos por meio do qual se pronunciam o
presente, o passado e o futuro, a história e a geografia, as
tradições e as premonições, os santos e os heróis, as
façanhas e as derrotas, os monumentos e as ruínas. Ianni
(1999: 7)
Marlon Leal RODRIGUES
NEAD/UEMS/UFMS/UNICAMP
0. Introdução
O MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) surgido em 1982, na
Encruzilhada Natalino (Ronda Alta-RS), em um momento de grande efervescência política
(campanha pelas Diretas Já, pelo fim do bipartidarismo, pela abertura geral, ampla e
irrestrita, pelo fim da censura, pelo direito de greve, pelo direito das minorias, pelos direitos
humanos etc.) com uma multiplicidade de bandeiras políticas, que de uma forma ou de
outra, tinham alguma relação com as propostas socialistas. Nesta ebulição política vale
lembrar que o Partido dos Trabalhadores, recém criado, centralizava gradativamente grande
parte das discussões político-ideológica, o que lhe garantiu o reconhecimento como
vanguarda política das causas populares e dos trabalhadores na década de 80 e meados de
90.
1
Este trabalho de qualificação em Sociolingüística foi orientado pela Profa. Dra. Tânia Alckimin (2006).
Parte dele compõe a minha tese de doutoramento: “MST: Discurso de Reforma Agrária pela Ocupação,
acontecimento discursivo” defendida em 01/2007 na UNICAMP sob orientação do Prof. Dr. Sírio Possenti.
2
Agradeço a Profa. Msc. Cássia Regina Tomanin (UNEMAT – Câmpus de Alto Araguaia) pela interlocução
e sugestões.
2
O movimento se “oficializou” de fato no primeiro congresso em 1984, em
Curitiba-PR, quando definiu e centralizou suas propostas políticas a nível nacional, suas
práticas, seus objetivos enquanto movimento na luta pela terra, propôs palavras de ordem e,
principalmente algumas de suas características que iriam distingui-lo não só enquanto
movimento de massa dos demais, mas, sobretudo, dos partidos de esquerda que no final dos
anos 80 entram em refluxo político-ideológico. É o MST, em decorrência de sua prática e
de seus dizeres, quem vai ocupar o lugar de vanguarda política ao centralizar uma agenda
de questões políticas nacionais e internacionais a partir dos anos 90. O movimento desde o
seu surgimento já havia inscrito em sua agenda um repertório de dizeres, de propostas, no
entanto, o efeito não se fez sentir em decorrência do PT ser uma liderança reconhecida.
Assim, o movimento gradativamente transforma suas necessidades em demandas
sociais, ou seja, transforma a reforma agrária em uma necessidade social e não uma questão
restrita aos agricultores sem-terra. Para Bocayuva (2000: 80), em suas reflexões, ele
considera que “as lutas dos trabalhadores rurais sem terra resgatam a memória histórica ao
mesmo tempo em que renovam a luta pela reforma agrária”.
É importante considerar que o MST é um grande movimento popular de massa,
isto significa que possui representantes organizados em todos os Estados. Os seus
integrantes, em sua maioria, são advindos das camadas mais desprestigiadas da população,
com tudo que esse desprestigiado possa significar em termos sociais e em termos de fala,
em termos de linguagem, em termos de organização e de ação social.
Outra consideração relevante, é que o MST ao enunciar como um grupo social
organizado, ele o faz a partir de certos dizeres que ao longo de sua existência irão construir
sua identidade (Hall, 2003), pois, de acordo com Aléong (2001: 149), “uma das funções
sociais da linguagem é marcar e apresentar a identidade e seu status e papel, a língua pode
servir de meio para sublinhar uma distinção social”. Assim, não é só na prática que o
movimento se apresenta socialmente - fazendo ocupações/invasão, passeatas, bloqueando
estradas e rodovias, ocupando/invadindo prédios públicos, como bancos e secretárias ou
sede do Incra -, mas também pelo que se expressa e como se expressa. Prática social e falas
são, até certa instância, indissociáveis, constitutivos um do outro. É possível considerar que
o MST se constituiu em uma instituição social marcada por uma identidade própria, por um
certo tipo de dizeres de seus integrantes.
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É precisamente as marcas dessa relação entre estruturas sociais (instituições) e
esse dizer (fala e linguagem) que interessa a Sociolingüística. Em linhas gerais, interessa
tomar o JST (Jornal dos Sem Terra), sua circulação, sua prática, sua identidade, alguns de
seus usos, a construção que os sem-terra fazem de seu instrumento lingüístico.
Tomar a circulação do Jornal dos sem-terra como objeto de análise na perspectiva
metodológica da etnografia é significativo, na medida em que seja possível descrever um
aspecto da relação entre língua, sociedade e cultura. Convém ressaltar que é a partir dessa
relação que o Jornal se configura em um instrumento lingüístico constitutivo do
movimento.
A escolha do Jornal como instrumento lingüístico, de distribuição (local, regional
e nacional), e também como as escolhas dos espaços sociais, dois acampamentos, Diretório
Acadêmico dos Estudantes (DCE-UNICAMP), Associação Nacional de Cooperativa
Agrária (ANCA), Sede Regional de Andradina possui algumas razões. Uma delas está no
fato do Jornal ser concebido pelos sem-terra como uma configuração de dizeres que
corresponde a uma imagem específica de si mesmo a partir do tipo de circulação, aquilo
que os sem-terra pensam de si a partir do lugar social que ocupa. Em contrapartida, essa
mesma construção de imagem atende também a um “público” externo, heterogêneo que
dependendo do lugar social que ocupa, constrói uma imagem específica dos sem-terra.
É interessante considerar que o mesmo Jornal possui usos diferenciados, quando é
destinado para circulação e uso interno, quanto é destinado para circulação e uso externo.
Para estes dois “públicos” leitores, o Jornal é um mesmo objeto com duas representações e
imagens distintas, no entanto, a imagem e representação podem ou ser diferenciadas.
O objetivo deste trabalho é descrever e analisar basicamente como se dá a
circulação interna e externa em alguns lugares sociais, o seu uso e sua prática. A primeira
hipótese que seria viável elaborar, seria que em se tratando de um Jornal do próprio
movimento, a sua circulação e seu uso seria uma conseqüência natural, no entanto após a
visita aos acampamentos, a constatação (observação, entrevista e aplicação de questionário)
já invalida essa provável hipótese, pelo menos de forma parcial.
Seria importante considerar que os espaços sociais em certa medida são
configurados por certas regras sociais de circulação, de distribuição que possui um ritual,
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um controle não somente sobre o falante que diz, mas sobretudo se constitui uma forma
dizer, um dizer, um tipo de prática e um tipo de circulação, ambos constitutivos.
A circulação do jornal, de uma forma geral, está ligada basicamente a dois fatores:
ao tipo de conteúdo e a forma lingüística que ele vincula; e ao uso de que é feito do jornal
nos espaços sociais internos e externos ao MST. Esses dois fatores ainda correspondem ao
tipo de imagem e de identidade que o movimento constrói de si, para o próprio movimento,
e a imagem que o próprio movimento constrói do jornal. Convém ressaltar que as
representações e imagens não são estáveis e pacíficas, elas se constituem pela tensão das
relações interna e externa ao movimento.
As etapas metodológicas deste trabalho residem em alguns pontos básicos: o
primeiro está na coleta de material lingüístico nos acampamentos: a descrição, a observação
sobre a circulação do jornal, entrevistas e aplicação de um questionário, relatos de um lado,
e de outro lado será feita a análise comparativa do material coletado.
1. Sociolingüística, um pouco de quadro formal
As pesquisas em Ciências Socais são de certa forma tributária a Malinowski cujas
propostas tiveram origem em sua experiência de campo que rompem com uma tradição de
pesquisas de até então, pois sua grande contribuição revolucionou a concepção
metodológica nas Ciências Humanas.
Os trabalhos de campo tomaram um outro rumo, abriram novas perspectivas tanto
teóricas, quanto de caráter pragmático. As de Malinowski tiveram como ponto de apoio
para a reflexão, a necessidade de fato descrever e/ou compreender não apenas o
funcionamento das instituições, mas como elas se constituem e ainda em que esta
constituição está assentada, que sem dúvida não é simplesmente nos acontecimentos
“aparentes” ou nas narrativas, mas sobretudo, na mentalidade que não se fala, mentalidade
que os falantes não indagam sua origem e nem os porquês simplesmente. Se for possível
apreendê-la em alguma extensão, esta possibilidade está no mergulhar longamente nos
acontecimentos dos imponderáveis da vida real dos falantes, e assim tentar descrever
alguns de seus aspectos.
O autor abriu uma nova perspectiva para a etnografia, pois para ele
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as única fontes etnográficas de valor científico indiscutível são aquelas nas quais
podemos claramente estabelecer uma distinção entre, de um lado, os resultados das
observações diretas e das declarações e interpretações dos sujeitos e, de outro lado, as
inferências do autor (19??: 40).
Nesse sentido, os objetivos estabelecidos pelo pesquisador devem ser “realmente
científicos” (p. 43) e critérios metodológicos rigorosos (descrição e interpretação) para
“manipular e estabelecer seus dados” (idem), pois são os critérios metodológicos que
guiarão a uma observação verdadeiramente produtiva. Outro aspecto importante para
Malinowski é a relação entre a teoria e os dados, ela nunca deve conformar os dados ou
vice-versa, cabe ao pesquisador saber trabalhar tanto as questões teóricas quanto as
referente aos dados uma vez que o etnógrafo deve oferecer uma “descrição clara e nítida”
(p. 47) dos dados em relação aos fenômenos observados. Deve também desenvolver
“esquema mental” (p. 50) capaz de representar a diversidade dos dados.
Nesse sentido, em linhas gerais, para Malinowski, é importante considerar três
questões básicas para a pesquisa de campo etnográfica: a organização e a anatomia do
grupo; “os imponderáveis da vida real”; “e uma lista de declarações etnográficas, narrativas
características, expressões típicas etc.” (p. 60).
Assim, as propostas de Malinowski contribuíram para a compreensão da relação
entre língua, sociedade e cultura. Essa relação vai se constituir no século XX em diversas
áreas no âmbito da linguagem cuja origem, de acordo com Alkimim (2000: 24), essa
diversidade se dá com o advento da Lingüística saussureana, uma vez que ele
institucionaliza a distinção entre Lingüística Interna oposta a uma Lingüística Externa.
É uma dicotomia que dividirá, de maneira permanente, os campos dos estudos
Lingüísticos, o campo dos estudos Lingüísticos contemporâneos, em que orientações
formais se opõem e orientações contextuais, sendo que estas últimas se encontram
fragmentadas sob o rótulo das muitas interdisciplinas: Sociolingüística,
Etnolingüística...
De acordo com Maingueneau e Charaudeau (2004: 224)
a etnografia da comunicação se propõe objetivos ambiciosos com a pesquisa de
explicações holísticas que inscrevem as condutas discursivas locais em um contexto
global de crenças, de ações e de normas, constitutivo de uma realidade social e cultural.
É também essa articulação do lingüístico com o social que se esforçam em descrever,
de modo minucioso, os estudos produzidos nesse campo de pesquisa.
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Já o termo Sociolingüístico também como alguns dos objetivos dessa área foram
cunhados em 1964 por Bright (1974: 17), para ele “é correto afirmar que os estudos
sociolingüísticos (...) tratam das relações entre língua e sociedade”. O autor ainda aborda
alguns fatores relevantes que condicionam a diversidade lingüística, tais como: identidade
social do receptor e emissor; o contexto; a dimensão de uso da língua; a dimensão a cerca
da extensão da diversidade de uso da língua; a dimensão de aplicação: estrutura social,
interesse histórico e planejamento lingüístico.
Por sua parte, os trabalhos de Labov contribuíram para preencher algumas
lacunas, em especial com a publicação da pesquisa feita na comunidade da ilha Marha’s
Vineyard, que de acordo com o comentário de Alkmim (2000: 30), esta publicação
“sublinha o papel decisivo dos fatores sociais na explicação da variação lingüística, isto é,
da diversidade lingüística observada”.
Outros autores como Blom e Gumperz (1972) foram um marco para a
sociolingüística, eles destacam alguns parâmetros para o estudo da etnografia da
comunicação e da Sociolingüística Interacional. De acordo com eles, (1998: 54-5), “a
informação social e a informação lingüística são comparáveis apenas quando estudadas
dentro de linhas mestras de um arcabouço analítico”.
A contribuição de Fishman (1974: 25) refere-se à preocupação com a sociologia
da linguagem ou como o próprio autor comenta, “isto é, comportamento manifesto em
relação à linguagem e aos usuários da língua” uma vez que “o homem está constantemente
usando a língua – língua falada, língua escrita, língua impressa – e o homem está
constantemente vinculado aos demais, através de normas, de comportamentos comuns”.
Calvet (2002: 161-2), em seu livro, faz uma crítica a Sociolingüística e elabora a
proposição que “a (sócio)lingüística é uma ciência em devir”. Entre outras considerações,
Calvet conclui em sua crítica que “a lingüística só pode ser definida como o estudo da
comunidade social em seu aspecto lingüístico. E, por sua vez, a sociolingüística só pode ser
definida como a lingüística”. Ele ainda considera que “é bem difícil manejar os termos
sociolingüística e lingüística quando se pensa que o primeiro engloba o segundo, e os
hábitos lexicais são resistentes”.
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Sepé (2000) faz uma breve contextualização dos estudos de atitudes lingüísticas
partindo primeiramente do surgimento dessa disciplina até aos trabalhos pioneiros no
Brasil. A autora aborda desde a gênese da atitude lingüística na Psicologia Social com
especial destaque para o pesquisador Wallece Lambert que incorporou a linguagem como
elemento determinante de suas pesquisas e não como mero acessório, atitude comum aos
pesquisadores norte-americanos nas décadas de 50 e 60 apesar de “pesadas críticas” (idem,
370). Um dos maiores méritos de Lambert, de acordo com Sepé, é o desenvolvimento,
juntamente com Gardner e Fillenbaun, da “técnica considerada padrão na pesquisa sobre
atitudes lingüísticas, denominadas de matched-guise, ou técnica dos pares falsos” (p. 371).
Essa técnica leva em consideração, entre outras questões, em seu escopo as reações dos
ouvintes, juízos de valores, preconceitos, estereótipos etc. de um grupo social.
Sepé afirma que “os estudos de atitudes lingüísticas são instituídos para preencher
a lacuna dos estudos centrados na linguagem existente na Psicologia Social praticada até à
década de 60” (idem) e citando Omdal comenta que nas décadas de 80 e 90 o estudo das
atitudes lingüísticas migrou para outras áreas como a Sociolingüística uma vez que o
fenômeno da variação lingüística necessita ser explicitado também levando em
considerações outros fatores, tais como fatores de ordem social, situacional, normas,
valores e modelos de prestígio na comunidade lingüística.
Nesse sentido, o estudo das atitudes lingüísticas possui como pressuposto:
existência de variedades de língua, de estilos, de competitividade, de contrastes,
relacionados ao grau de poder dos diversos grupos. Os grupos dominantes, de forma geral,
impõem os modelos lingüísticos como ideal e os grupos minoritários são interpelados a
adotar tais modelos ou rejeitá-los sujeitos ao risco de exclusão e estigmatização social.
Assim, o estudo das atitudes lingüísticas no âmbito da Sociolingüística coloca em
evidência a questão ideológica e a cultural dentro das relações de poder a partir das
posições que os indivíduos ocupam na estratificação social com destaque, entre outros, para
identidade social dos indivíduos. Um outro aspecto é que as atitudes lingüísticas são
consideradas também como “resíduos de experiência e informações passadas” (Omdal apud
Sepé, 2000: 373).
Já Bisinoto (2001: 143) aponta para a complexidade da conceituação a partir da
diversidade de
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enfoques da questão, vistos em pesquisas sociolingüísticas e etnográficas, a partir dos
quais a avaliação e o comportamento dos informantes são explorados de diferentes
modos. Dizendo de outro modo, cada viés ou interesse científico acaba por conferir às
atitudes uma significação específica.
A autora ainda comenta que há fatores de natureza social intrínseco que afetam
não somente o lingüístico como também o político. Afetação que diz respeito ao
comportamento dos indivíduos que interfere muitas vezes de forma significativa na
organização social. Assim, as avaliações podem ser, de acordo ainda com Bisinoto (2001:
144):
manifestas e encobertas, subjetivas e objetivas, mais ou menos consciente, relativas à
linguagem dos homens numa sociedade plural, têm prioridade de fundar e governar
tanto as relações de poder quanto o prestígio ou o desprestígio das formas lingüísticas,
estabelecendo seletividades, evidenciando preconceitos.
Já a ideologia neste trabalho refere-se “apenas uma maneira conveniente de
classificar em uma única categoria uma porção de coisas diferentes que fazemos com
signos” (Eagleton, 1997: 171).
Convém considerar que não cabe aqui fazer um histórico da sociolingüística, mas
apenas algumas breves contribuições e referências.
Retomo mais uma vez a Alkmim (2000: 31-2), desta vez para encerrar este tópico.
A autora faz uma síntese histórica de alguns pontos da Sociolingüística, conclui que “o
objeto da sociolingüística é o estudo da língua falada, observada, descrita e analisada em
seu contexto social, isto é, em situações de uso. Seu ponto de partida é a comunicação
lingüística”. Para a autora “a diversidade lingüística não é um problema, mas como uma
qualidade constitutiva do fenômeno lingüístico”.
2. Espaço social: acampamento
As configurações dos espaços sociais se constituem de vários elementos sociais, o
uso da língua entre outros. Os espaços sociais são formados com maior ou menor
estabilidade, isto equivale dizer que são governados por um conjunto de regras de
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comportamento, tanto de conduta social quanto de dizer. A respeito desses espaços se pode
considerar, talvez em alguma medida, o que Blom e Gumperz (1998: 40) concebem que:
os sigificados sociais diferem dos significados referenciais [grifo meu] no modo como
são codificados. Enquanto a referência é codificada em larga medida por palavras, o
significado social pode vincular-se não apenas a sinais acústicos mas também a cenários,
a itens do conhecimento acumulado, assim como certas palavras.
Os espaços sociais comportam e regem uma diversidade de modos de existência,
de valores, de crenças, de sentidos, de objetos, de linguagem. Nos espaços, ainda conforme
Blom e Gumperz (idem, 45), “as situações socais criam a base para a ocorrência de uma
escala limitada de relações sociais dentro da ordem de conjuntos específicos de status”.
Outra especificidade dos espaços sociais, é que eles são marcados por um tipo de
identidade que pode ou não corresponder de forma direta ou indireta a um tipo de ideologia,
pois, de acordo com Aléong (2001 149), “a língua pode servir de meio para sublinhar uma
distinção social”, com maior ou menor opacidade dos dizeres. Assim, os espaços sociais,
ainda Aléong (idem, 150), “condicionam o conteúdo e as formas de intenção lingüística”
uma vez que “a língua é o meio de exprimir a qualidade das relações sociais, pode se
conceber a existência de normas sociais de comportamento lingüístico”.
Enfim, o fato social e tudo que dele decorre em suas mais variadas circunstâncias,
podem exemplificar a tensa relação de forma integrante, entre língua/linguagem, cultura e
sociedade. Isto, conforme Alkmim (2000: 49), “estão ligados entre si de forma
inquestionáveis”. Assim, nos espaços sociais a estabilidade e a instabilidade, a organização,
a reorganização, os indivíduos, a língua e a linguagem, a teoria e a prática, o conhecimento
científico e conhecimentos do senso comum, enfim, eles dizem respeito, em maior ou
menor grau, ao tipo de formação social, que de um lado procura a homogeneização das
relações, de um outro lado, sua força contrária para mostrar a heterogeneidade destas
relações.
3. Do Boletim ao Jornal
O advento de Ronda Alta-RS, Encruzilhada Natalino ficou registrado, não
somente na grande mídia, mas no Boletim dos Sem Terra, no. 1, ainda datilografado e
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mimeografado para distribuição. A fala que ali enunciava (as palavras de ordem, os
objetivos, as metas, as propostas, os anseios, as crenças, os valores, o apoio de outras
categorias e entidades para a causa dos sem-terra) iria se tornar à fala marcada ideológica
do MST.
Na medida em que o movimento foi se consolidando sua organização e sua
prática, o Boletim foi tomando um aspecto mais acabado. No número 263 (08/1982), o
Boletim passou a ter um editorial, era o prenúncio, entre outros, que poderia se tornar em
um jornal, o que de fato aconteceu no número 36 (07/1984), assim o Boletim transforma-se
em Jornal atualmente editado pela ANCA – Associação Nacional das Cooperativas
Agrárias. Essa passagem implica em obedecer alguns rituais, ter um jornalista que assine,
um conselho editorial, uma periodicidade, uma tiragem definida, um endereço fixo, uma
sede, uma referência de quem o imprimiu etc. Acima de tudo, marca uma linguagem
“própria” de um grupo social, que possui uma identidade.
Se de um lado, o movimento é criticado pela imprensa, como fora da “legalidade”
- principalmente pela Revista Veja em suas sucessivas edições, de um outro lado, o Jornal
do movimento cumpre os rituais exigidos pelo Estado para sua circulação e uso. Uma face
dupla do movimento. Se a ocupação/invasão coloca o MST na marginalidade (reivindicar
está prescrito na Constituição Federal, mas ocupar/invadir não), de outro lado o seu
instrumento lingüístico fundamental esta assentado nas bases da legalidade jurídica.
Com o advento do marxismo, o panfleto, o boletim, o cartaz, o comunicado, e,
principalmente, o jornal, se tornou não apenas um instrumento lingüístico de diálogo, de
debate, de informação, de formação política, de reivindicação, mas, sobretudo um
instrumento de formação ideológica de classe, de grupos, de propostas de transformação
social, de convocação (categorias, explorados, marginalizados entre outros), de debate
político, de crítica social. Esta, de forma pontual ou de forma geral, de contato direto - entre
a organização (partido político, sindicato, associação, movimento popular, gremiação) e a
categoria, a população, os simpatizantes, os colaboradores.
Um dos objetivos do jornal, além dos citados acima, é que em torno dele os
membros da organização promovem discussão, debate, fazem um trabalho de
esclarecimento político e ideológico que parte uma posição social de grupo ou de classe.
3
O Boletim no. 01 é de 15/05/1981.
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Esse trabalho é tanto interno quanto externo. O trabalho interno é um tipo de manutenção,
de atualização, de formação política, de espaço de reflexão, de diálogo das propostas da
organização ao passo que o trabalho externo é a possibilidade de estabelecer contato direto
com simpatizantes, com cooperadores, como forma de apoio e de divulgação da
organização e adesão à causa do movimento.
Gostaria de ressaltar duas questões, a primeira diz respeito aos jornais das
organizações populares, que como o MST, são um lugar de investimento de dizeres
específicos ou marcas de identidade que caracterizam um determinado grupo social por
orientarem sua fala para, conforme Alkimim (2000: 31), “seu comportamento verbal por
um mesmo conjunto de regras”, neste caso “regras” e atitudes lingüísticas de dizer, de uso e
de prática social sobre o jornal e também ideológica.
3.1 Instrumento lingüístico
Pode-se afirmar que os grandes movimentos populares não têm acesso aos meios
de comunicação social e “oficial”, o que é notório também que esses meios possuem uma
roupagem ideológica, mesmo negando-a sob o signo da neutralidade de informação. Ela,
comunicação social, aponta para objetivos e interesses específicos a partir de seus
interlocutores e ou grupos. Considerando que a forma de interação entre meios de
comunicação e seus interlocutores varia de grupo social, de categoria para grupo social e
categoria para, assim atender (constituir) certas demandas que representam os interesses
mútuos, mas não no mesmo nível. No entanto, o conjunto de idéias, de práticas, de
estratégias, de modalidades enunciativas é posto sob o signo da neutralidade da
informação social nos espaços específicos. Assim, a televisão, o jornal, a revista, mais
recentemente a internet (rede mundial de computadores), o cinema em certa medida, o
panfleto, o boletim, o informativo são instrumentos lingüísticos que atendem a objetivos
explícitos e/ou implícitos para satisfazer às necessidades e interesses sociais.
Convém ressaltar que os interesses e as necessidades são heterogêneos, no entanto
elas possuem algo em comum que se possa dizer que pertencem a um grupo ou a uma
categoria específica. Nessa complexa relação entre interesses sociais e instrumentos
lingüísticos de massa e de comunicação o que está, em alguma instância, na base dessas
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proposições é a configuração do formato, sempre inacabado, de identidades que se
ritualizam cotidianamente.
O jornal do MST não é uma exceção à regra, ele também atende a objetivos e
demandas específicas na sua configuração, na sua reconfiguração, na sua manutenção e na
sua interação. Esta interação se caracteriza pela relação constitutiva entre o Jornal e seus
interlocutores, quer seja eles internos ou externos.
3.2. Alguns aspectos: suporte material
De acordo com Maingueneau4 (2001: 71-2), para o suporte material de
comunicação
é necessário reservar um lugar importante ao modo de manifestação material dos
discursos, ao seu suporte, bem como ao seu modo de difusão: enunciados orais, no
papel, radiofônicos, na tela do computador etc. Essa dimensão da comunicação verbal
foi durante muito tempo relegada a segundo plano. (...) Hoje estamos cada vez mais
conscientes de que o mídium não é simples “meio” de transmissão do discurso, mas
que ele imprime um certo aspecto a seus conteúdos e comanda os usos que dele
podemos fazer. O midium não é um simples “meio”, um instrumento para transportar
uma mensagem estável: uma mudança importante no midium modifica o conjunto de
um gênero de discurso.
Uma das características importantes do “meio” é o seu caráter escrito que “não é
uma mera representação do oral, nem o impresso uma simples multiplicação do escrito.
Oral, escrito são regimes de enunciações distintos” (idem, 79), uma vez que o Boletim
possui a finalidade de ser um texto breve de caráter informativo, e posteriormente o Jornal
que possuirá outros objetivos, destinado à circulação interna ou externa, à divulgação
pública quer seja de órgãos oficiais, quer seja de classe ou de instituições.
O Boletim e o Jornal, enquanto suporte material das produções textuais do
movimento, se configuram em um espaço de comunicação e de interlocução dos
agricultores sem-terra. É importante considerar que o acabamento, o formato e a
especificidade do instrumento de comunicação interna e externa do movimento vão se
4
As considerações de Maingueneau situam-se na Análise do Discurso, no entanto essas considerações são
importantes para compreender alguns dos aspectos do desenvolvimento do instrumento lingüístico como parte
do desenvolvimento do próprio movimento dos agricultores sem-terra.
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transformando em seus aspectos materiais, estéticos e textuais à medida que o próprio
movimento solidifica e desenvolve sua posição política e social.
É possível constatar esse movimento de transformação do Boletim. O cabeçalho
foi sofrendo alterações já a partir do número 02. Sobre o cabeçalho já modificado, na parte
direta do nome SEM TERRA aparece uma tarja em diagonal em letras pequenas em duas
linhas: “BOLETIM INFORMATIVO DA CAMPANHA / DE SOLIDARIEDADE AOS
AGRICULTORES SEM TERRA”.
Na primeira página do Boletim número 01, as informações são divididas em
colunas. No número 03 aparece a primeira fotografia na capa; no número 09 aparece um
cartaz reduzido sobre o dia do colono; no número 12 aparece o primeiro texto em duas e
três colunas a partir da página dois, fato que será uma constante; o que representa uma
mudança significativa em relação aos textos “corridos e datilografados”; na edição especial
de 23/02/1982 surge uma história em quadrinho contando a história do nascimento do
movimento; no número 20 a página número dois possui uma configuração gráfica de várias
colunas em letras bem pequenas, o que representa um trabalho de tipografia e não mais
datilografado em duas ou três colunas; no número 21 aparece alguns desenhos estilizados
junto a alguns textos, inclusive no cabeçalho.
Outro aspecto significativo é que o Boletim deixa de ser datilografado e
mimeografado e passa a ser um trabalho gráfico elaborado; no número 23 aparece a
primeira charge na página número dois; no número 26 é instituído um espaço para o
editorial ainda que pequeno, mas que irá ocupar cada vez mais um espaço maior na página
número dois.
Assim, o Boletim vai adquirindo configurações trabalhadas que correspondem
também a constituição de identidade do movimento de acordo com o tipo de
posicionamento na luta pela reforma agrária. O número 35 é o último como Boletim, nele já
há o anúncio na página número dois que a próxima edição será Jornal dos Trabalhadores
Sem Terra:
em junho está prevista a primeira edição do Jornal dos Trabalhadores Sem Terra,
formato tablóide – isto quer dizer, o dobro do atual boletim -, 12 páginas, tiragem
inicial de 10 mil exemplares e com circulação na Regional Sul e outros estados do país.
A decisão de transformar o boletim em jornal foi tomada durante o Encontro Nacional
dos Sem Terra, realizado em Cascavel (PR), no começo do ano.
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Uma equipe de 10 jornalistas trabalhará na edição que vai continuar com a colaboração
dos próprios lavradores, pessoas ligadas ao trabalho pastoral, sindicalistas e estudiosos
da problemática agrária (B.02/35/04/1984).
A partir do número 77 (10/1988), o cabeçalho sofre a última alteração, passando
assim a ser Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. A inclusão da palavra “rurais”
acentua um tipo de identidade específica de vinculo direto com atividades ligadas a terra.
Esse aspecto do Boletim que passa a Jornal pode ser constatado no seu cabeçalho
que sofre transformações desde o número 02 até se transformar em Jornal. Esse movimento
de transformação, de significação e de ressignificação acontece em decorrência do
movimento ainda não possuir identidade estabilizada, mas que se vai estabilizando nas
sucessivas edições do Boletim, primeiro momento, e depois no Jornal.
3.3 Alguns aspectos descritivos
O Jornal Sem Terra editado pela ANCA – Associação Nacional das Cooperativas
Agrícolas - SP – é continuação do Boletim SEM TERRA / Boletim Informativo da
Campanha Solidariedade aos Agricultores Sem Terra.
O Boletim SEM TERRA teve dois propósitos, o primeiro foi manter informados
os acampados da Encruzilhada Natalino, Ronda Alta-RS, “os colaboradores” da “campanha
de solidariedade”, as entidades sociais como sindicatos e federações de trabalhadores rurais
e urbanos, comunidades de base da Igreja Católica, a opinião pública, outras entidades
nacionais e ainda ampliar a campanha para todo país. O segundo propósito já de caráter
político diz respeito à renovação dos “ânimos” dos acampados para “sustentação da luta”.
O número 01 (15/05/1981) foi editado pelo “Movimento de Justiça e Direitos
Humanos e a Comissão Pastoral da Terra” do Rio Grande do Sul. O Boletim foi
datilografado e mimeografado, possui um cabeçalho ao alto da primeira página escrito
“sem terra” em letras grandes de cor preta, logo abaixo escrito em letras menores “boletim
informativo da campanha de solidariedade aos agricultores sem terra”. O texto da primeira
página foi uma “carta dos colonos” a comunidade em geral decidida em assembléia em
15/05/1981. No final da carta tem duas palavras de ordem entre aspas: “preço da paz, é
terra e justiça para todos”, “terra para quem nela trabalha”.
15
Na segunda página há uma apresentação do Boletim explicitando seus objetivos e
os responsáveis pela edição, em seguida um texto intitulado “HISTÓRIA DE UM POVO
OPRIMIDO” que terá continuidade em várias edições. Também há uma página com
encarte do jornal Zero Hora (12/05/1981). O primeiro Boletim tinha doze páginas, número
que vai variar muito, alguns Boletins chegam até vinte páginas.
Nesse primeiro número os textos são de apóio ao movimento como notas
(pequenos textos), listas (relação de apoiadores), telegramas de instituições e
personalidades, e cartas de sindicatos, de federações, de associações, de outros movimentos
populares de várias partes de país.
A partir do número 02 (28/05/1981) o Boletim vai gradativamente se modificando
tanto na sua diagramação quanto nos tipos de textos até se transformar em Jornal dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra.
3.3.1. Alguns aspectos materiais: do Boletim ao Jornal
a) A primeira edição foi de 700 exemplares mimeografados;
b) o cabeçalho modifica-se do número 01 (15/05/1981) para o número 02 (28/05/1981) e
permanece o mesmo até o número 04 (11/06/1981); o número 05 (19/06/1981) e 06
(29/06/1981) já é outro modelo; do número 07 (01/06/1981) até o número 28 (1ª. Quinzena
de 10/1982) e o suplemento especial de 08/11/1982 permanecem o mesmo; do número 29
(02/1983) até número 33 (11/1983); os números 34 (02/1984) e 35 (04/1984) são
diferentes. A partir do número 36 (07/1984) acontece a passagem de Boletim para “Jornal
dos Trabalhadores Sem Terra” onde haverá a estabilidade de cabeçalho; a partir do número
77 (10/1988) ocorre a última transformação no cabeçalho;
c) a periodicidade dos primeiros números é muito variável, a tendência oscila entre
quinzenal a mensal, no entanto há mês que são editados três números como também há mês
que não há edição;
d) a partir do número 02 gradativamente a diagramação vai tomando um aspecto mais
elaborado: colunas, fotografias, desenhos, charges, poesias, letras de música, expediente,
editorial (no. 24, 2ª quinzena de 06/1982);
16
e) o editorial aos poucos vai ocupando um espaço maior, quer no formato, quer no que diz
respeito ao seu conteúdo;
f) a partir da edição especial de 23/02/1982, entre os números 18 e 19, o Boletim passa a ser
editado pelo Comitê de Apoio aos Agricultores Sem Terra;
g) a partir do número 20 (26/04/1982), o Boletim passa a ser editado eletronicamente por
completo, não sendo mais datilografado;
h) no número 25 (2ª quinzena de 07/1982) o Boletim passa a ser regional (Rio Grande do
Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo) com uma tiragem de 2.550
exemplares que aumentará gradativamente;
i) no número 33 (11/1983), o “expediente” é composto por uma equipe: jornalista
responsável, distribuição, arte, colaboradores, produção gráfica, e uma tiragem de 5.000
exemplares;
j) no número 35 (04/1984), é anunciada a decisão do Encontro Nacional dos Sem Terra
(Cascavel - PR) que no próximo número (36, 07/1984) o Boletim passará a ser “Jornal dos
Trabalhadores Sem Terra” com 10.000 exemplares, com o formato de 12 páginas tipo
tablóide, colorido, mensal, com uma equipe de dez jornalistas, com colaboradores ligados
aos próprios lavradores, aos sindicatos, à pastoral e “estudiosos da problemática agrária”,
nessa edição o Boletim já possui uma tiragem de 7.000 exemplares;
l) no Jornal número 36 (07/1984), a publicação passa a ser do “Movimento dos
Trabalhadores Sem Terra da Regional Sul (RS, SC, PR, SP e MS)”. O Jornal possui a
seguinte divisão de execução: editores, reportagem em cada Estado, planejamento: gráfico
e arte, revisão, ilustração, fotografia, distribuição, composição, impressão, redação,
correspondência, tiragem, produção gráfica, e jornalista responsável;
m) no número 36, o Jornal traz na página número 02 uma matéria sobre a história do
Boletim/Jornal, sua distribuição, seus objetivos, seu desenvolvimento e sua importância
para a luta dos sem terra;
n) no número 43 (março-abril/1985), o Jornal passa a ser vendido também por assinatura
anual; a sede do Jornal é transferida para São Paulo-SP; com uma tiragem de 20.000
exemplares; a publicação do Jornal também passa a ser aos poucos nacional com
representantes em todos os Estados;
17
o) no número 46 (08/1985), a coluna editorial é substituída pela coluna “assunto para
discussão”, que irá ocupar aos poucos a segunda página inteira, até o número 76 (09/1988);
p) no número 47 (09/1985), traz na página 02, juntamente com o expediente uma definição
dos sem terra: “Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra” como “uma articulação
de lavradores dentro do Movimento Sindical, que tem por objetivo lutar pela terra e pela
Reforma Agrária. Está organizado em núcleos, comissões municipais e estaduais e possui
uma Coordenação e uma Executiva Nacional, composta pelos seguintes lavradores...”
q) no número 77 (10/1988) a equipe é mudada, o Jornal passa a ser denominado de “Jornal
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra”, a coluna “assunto para discussão” é substituída pela
coluna “nossa posição” que ocupa a página inteira;
r) no número 84 (06/1989) a coluna “nossa posição” é substituída pela coluna de “cartas”
que no Jornal de número 94 (06/1990) é modificada passando a ser a coluna “curtas/cartas”;
s) no número 95 (08/1990) a coluna passa a se chamar novamente “nossa posição”;
t) no número 97 (01/1990) a coluna “nossa posição” é substituída pelo editorial que dividirá
o espaço com outras colunas (“cartas”, “socialismo”, “calendário” etc.) na página 02.
Essas são algumas das transformações que ocorreu no instrumento de
comunicação dos sem-terra. O enfoque recaiu sobre a primeira e a segunda páginas uma
vez que estas primeiras páginas representam um espaço cuja alteração reflete no restante do
Boletim/Jornal.
3.3.2 Alguns aspectos textuais: do Boletim ao Jornal
Outro aspecto a ser descrito diz respeito aos tipos de gêneros textuais (Bakhtin,
2000: 327-358) que constituíram, primeiramente o Boletim, e posteriormente o Jornal. Os
gêneros textuais podem servir de indicativos do tipo de desenvolvimento e/ou
transformação do movimento dos sem-terra, isso considerando que eles não são simples
“formatos” textuais em que o movimento expressa suas propostas, seu tipo de organização,
suas idéias, suas lutas, suas necessidades.
Assim, os tipos de gêneros textuais podem, em alguma medida, revelar a relação
constitutiva entre os sem-terra e seu instrumento lingüístico, ou meio de comunicação
18
interno e externo ao movimento. O surgimento e/ou o desaparecimento de um gênero no
Boletim e/ou no Jornal não está ao acaso, a sua utilização está relacionada com as
condições materiais de existência do movimento da qual demanda um tipo de comunicação
específica por meio de certos gêneros textuais. De forma geral, os gêneros textuais são os
seguintes do Boletim ao Jornal.
3.3.3 Boletim
- carta “aberta dos colonos” decidida em assembléia; expediente do Boletim;
narrativa “sobre a história dos agricultores”: “História do Povo Oprimido”; carta “de
apoio”; carta ao papa João Paulo II; nota de “solidariedade”, de “apoio” e do acampamento
Encruzilhada Natalino; lista “de instituições, movimentos de apoio e personalidades”;
matéria descritiva copiada, extraída do Jornal Zero Hora (12/05/1981) e outros jornais;
notícia do acampamento da Encruzilhada Natalino, de outras ocupações; matéria
dissertativa sobre questões de reforma agrária, sobre leis; “poesia” de um agricultor; frase
“de efeito” ou palavra de ordem; letra de música; “história em quadrinho”; quadrinho;
editorial; ilustração; fotografia; calendário de atividades dos agricultores sem terra do país.
3.3.4 Jornal
- Editorial; charge; quadrinho; expediente; fotografia; ilustração; desenho;
matéria: informativa, descritiva, dissertativa; cartas: do “leitor”, dos sem terra; notas;
entrevistas; frases “de efeito” ou palavra de ordem; nota de revisão: “erramos”; matéria
para “debate”; cartaz; frases de personalidades, de intelectuais; calendário de atividades de
interesse do movimento; fragmento de poema.
4. Contato, observação, relato e aplicação de questionário
O trabalho de campo teve o seguinte roteiro: contato, observação, entrevistas e
aplicação de questionário:
19
a) duas visitas ao Acampamento Nova Conquista (Castilho-SP, outubro/2003-agosto/2004):
uma para observação e uma para aplicação de questionário;
b) duas visitas ao Acampamento União da Vitória (Suzanápolis-SP, outubro/2003agosto/2004): uma para observação e uma outra para aplicação de questionário;
c) duas visitas à ANCA – Associação Nacional de Cooperativas Agrícolas (São Paulo-SP,
novembro/2003-janeiro/2004) para entrevistar a editora do Jornal dos Sem Terra.
d) sede do MST em Andradina para fazer contato: uma para observação e marcar uma
entrevistas e a outra para entrevista;
e) um encontro, entrevista, com o padre René em Andradina (SP) em abril/2004;
f) Uma entrevista com estudante Marcelo (simpatizante e colaborador do MST), acadêmico
do Diretório Central dos Estudantes (UNICAMP-SP, janeiro/2004).
Resumo do corpus (quadros) para análise e discussão se encontram no tópico 5.
4.1 Acampamento Nova Conquista
4.1.1 Primeira visita
A primeira visita foi feita a um acampamento na cidade de Castilho-SP (durou o
período da manhã), divisa com Mato Grosso do Sul. Após o contato com o Padre René, tive
que esperar cerca de duas semanas para ir ao acampamento. O acampamento tem cerca de
nove meses de existência, lá estão acampados cento e trinta pessoas, incluindo crianças.
A minha chegada coincidiu com o início de uma reunião. Após uma breve
conversa com o Padre René, fui apresentado ao grupo por um ritual de saudação (falei um
pouco de mim, o que fazia, qual era o meu propósito em visitar um acampamento dos semterra). Em seguida deu-se início a reunião com a leitura da pauta pela coordenadora.
Após a reunião o grupo se dispersou, momento em que conversei um pouco com o
Padre René. Ele organiza cursos periódicos de “formação de coordenadores”; possui
assinatura do Jornal e da Revista do MST, mas não tinha nenhum exemplar recente com ele
no momento.
20
Em seguida conversei com a nova coordenadora do Acampamento, a conversa foi
rápida também, ela portava uma pasta com fichas de cadastro dos acampados, um caderno
de anotações, onde havia uma lista com divisão de tarefas entre outras.
O acampamento é composto por diversos barracos, só de um lado da rodovia, de
lona preta (velha ou nova) e/ou de plástico grosso de propaganda, com armação de bambu,
de madeira velha ou madeira retirada de árvores próximas ao acampamento, amarrados
com corda ou arame. Os barracos são pequenos, alguns com divisão interna, os barracos
são distribuídos um ao lado do outro com mais ou menos dez a vinte metros de distância.
De acordo com a distância entre a cerca da propriedade e a beira rodovia ou estrada, eles
ficam mais ou menos distantes. Eles são organizados por famílias. Os banheiros são
coletivos. Mais ou menos no centro de acampamento há um barracão para reuniões, que
funciona também como “sala de aula” para jovens e adultos.
Nos barracos, há dois tipos de energia, de lampião ou de lamparina, que nem
todos possuíam. Não havia como arranjar um “bico de energia”.
Cada conjunto de famílias é responsável por um tipo de atividade: informação,
organização de reunião, limpeza, alimentação, segurança etc..
O acampamento se estendia por mais os menos duzentos metros em frente de uma
propriedade que não era a reivindicada, de acordo com o padre René, a propriedade
reivindicada fica a cerca de sete quilômetros. Em decorrência de ameaças de morte dos
fazendeiros e dos “pistoleiros”, os sem-terra resolveram acampar naquele local.
Ver em 5.1 o quadro (síntese) das observações de campo.
4.1.2 Segunda visita: aplicação de questionário
A segunda visita também foi rápida (durou o período da manhã), a coordenadora
indicou alguns acampados que estavam por perto e que estavam dispostos a responder ao
questionário, em um total de sete entrevistados.
A proposta do questionário tem como objetivo investigar duas questões básicas: a
primeira diz respeito à circulação do jornal do MST em seus acampamentos; a segunda,
qual ao uso que se faz do jornal nos acampamentos, considerando os acampamentos em que
21
ele circula. Considera-se também a possibilidade do Jornal não circular em alguns
acampamentos.
O questionário abrange dois tipos de perguntas, a primeira é objetiva, fechado
com possibilidades específicas, já a segunda possui um certo caráter de subjetividade, a
partir da qual é possível formular questões sobre o tipo de opinião e representação que os
acampados constroem sobre o jornal.
Foram tabulados alguns itens significativos do questionário. Ver quadro em 5.2.
4.2 ANCA – Associação Nacional de Cooperativas Agrárias
A sede da ANCA é uma casa antiga de dois andares, com muro alto, com cerca
eletrificada, possui portões inteiriço de aço, ou seja, de chapa inteiriça, com câmeras de
segurança interna e externa. O portão é eletrônico, há sistema de interfone para
identificação.
4.2.1 Primeira visita
Após a identificação por interfone (nome, procedência, objetivo, indicação) fui
atendido pela recepcionista que pediu que aguardasse, pois viria uma pessoa cuja função é
receber e conversar com estudantes.
Em decorrência da demora ela me ofereceu um café e um copo de água. Como
não tinha movimento de expediente aparente, fui conversar com ela dizendo que conhecia
(já havia feito contato em 2000) os jornalistas Valdireni e Miltom (hoje editores do Jornal
Brasil de Fato) quando fiz a minha dissertação, e que foram eles que me forneceram todo o
material (editorial dos boletins e jornais). Com essa informação ela resolveu me indicar
para falar diretamente com um dos jornalistas responsáveis pela edição. Veio a Cristiane.
Ela foi logo dizendo educadamente que eles estavam fechando o Jornal, mas mesmo assim,
pelas referências, ela iria conversar comigo alguns minutos e iria marcar uma outra data
para uma conversa mais demorada.
4.2.2 Segunda visita
22
Após várias tentativas frustradas, tanto da minha parte como da parte da Cristiane,
de acertar uma data. No mês de maio (2004) conseguimos gravar uma conversa que
transcreve a seguir alguns pontos.
A entrevista foi gravada em uma sala ante-sala na ANCA. O gravador sobre a
mesinha a deixou bastante incomodada durante o tempo da entrevista que durou cerca de
uma hora. Ela comentou a respeito de sua trajetória desde a faculdade até ir trabalhar como
editora do Jornal. Ver resumo das entrevistas (quadro) em 5.3.
4.3. Sede do MST em Andradina-SP
Marquei um encontro com o padre René (17h, 30/04/2004), para agendar uma
nova ida ao acampamento Nova Conquista, Município de Castilho-SP.
O encontro foi na sede em Andradina (SP) que fica nos fundos do sindicato da
CUT, sem acesso direto pela entrada da frente, o acesso à sede do MST fica na outra rua. A
sede possui uma estrutura física rústica com três ou quatro cômodos pequenos. Na
“recepção” havia vários cartazes pregados nas paredes de Che Guevarra e do próprio MST
sobre reforma agrária; um balcão com várias pilhas de jornais e panfletos: Jornal dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O número referente ao mês de fevereiro traz em
destaque: “MST: 20 anos de lutas, conquista e dignidade”; no número referente ao mês de
abril: “MST se mobiliza em todo o Brasil”. Havia também o Jornal Brasil de Fato,
panfletos do primeiro de maio, dia do trabalhador.
O padre René me “indicou” um outro acampamento, Nova Conquista no
município de Suzanápolis-SP. Em seguida me apresentou ao Jadson (mais ou menos 20
anos de idade) e ao Chiquinho (mais ou menos 30 anos de idade), militantes do MST. Eles
estão desenvolvendo um trabalho de “revitalização do acampamento”. Ver em 5.4 o quadro
a respeito das observações.
4.4 Acampamento União da Vitória
4.4.1. Primeira visita
23
O acampamento é composto por diversos barracos, dos dois lados da estrada, de
lona preta (velha ou nova) e/ou de plástico grosso de propaganda, com armação de bambu,
de madeira velha ou retirada de árvores, amarrados com corda ou com arame. Os barracos
são pequenos, alguns com divisão interna, os barracos são distribuídos dois lados da
estrada, um ao lado do outro com mais ou menos dez a vinte metros de distância. De acordo
com a distância entre a cerca da propriedade e a beira rodovia ou estrada, eles ficam mais
ou menos distantes. Eles são organizados por famílias. Os banheiros são coletivos.
Nos barracos, a energia era de lampião ou de lamparina ou ainda de bateria de
automóvel. Não havia como arranjar um “bico de energia”.
Cada conjunto de família está organizado em coordenação que é responsável por
um tipo de atividade: informação, organização de reunião, limpeza, alimentação, segurança
entre outras.
O acampamento se estendia por mais de quatrocentos metros em uma estrada
marginal perto do município.
A minha visita já era esperada. Cheguei por volta das nove horas da manhã. Fui
recebido pelo Chiquinho, conhecido também por Quiqui. Ao me apresentar para os outros
acampados, Chiquinho ressaltou que eu era o “rapaz” de que ele havia falado na reunião da
manhã. Em seguida me levou até a barraca do Jadson e a do Paulo César, este último era
chamado normalmente por Giraia (mais ou menos 22 anos, veio da Grande São Paulo). O
Chiquinho, o Jadson e o Giraia eram nomeados de “militantes do MST” pelos demais
acampados. Os três tinham vindo de outros acampamentos do MST e foram designados
para o acampamento União da Vitória para fazer a “revitalização do acampamento”.
De forma geral, nas sucessivas conversas com os acampados, a história do
acampamento é seguinte: a terra já está desapropriada constando inclusive nos órgãos do
governo (Estadual e Federal).
O antigo dono comprou apenas uma parte “legalmente”. Ele era um alemão que
também comprou uma patente de Capitão do Exército com o dinheiro que trouxe da
Alemanha. Como a área em volta era devoluta, ele foi se apropriando e expulsando os
agricultores. Ali perto havia um rio onde mandava matar as pessoas que se recusavam ir
embora.
24
Após a morte do Capitão, a antiga dona, chamada de Suzana, doou uma parte da
fazenda para o distrito, onde é o centro da cidade hoje. Em homenagem a ela, o distrito
passou a se chamar Suzanápolis.
Um outro fato é que os donos morreram sem deixar herdeiros diretos, a terra
estava arrendada para um sobrinho que arrendou para um terceiro, chamado Natan. A terra
já havia sido vistoriada sucessivas vezes pelo Idaesp – Instituto de Análise de Terra de São
Paulo – a pedido do Incra. Em todas às vezes o parecer do Idaesp a considerou
“improdutiva”. Foi desapropriada, dividida pelo Incra para ser assentada nela cento e
setenta e duas famílias das quais mais da metade já estavam no local aguardando a
autorização do Incra para a entrada definitiva que aconteceria após demarcarem os lotes. A
verba já havia sido depositada na conta do herdeiro, constando inclusive para o governo
Federal e Estadual como assentamento realizado. No entanto, segundo os acampados, para
surpresa, um juiz da Comarca Regional pediu a um “consultor” do Fórum para fazer uma
vistoria que culminou com “ordem de despejo” dos acampados em favor do Sr. Natan, um
arrendatário que trabalha para as grandes usinas de cana da região e tem “costa larga” com
a justiça.
Diante desse fato que frustrou a todos, o Incra e o movimento já entraram com
recurso em uma instância superior. Segundo eles (acampados), na Comarca da Região os
pareceres judiciais são sempre em prol dos latifundiários, no entanto a questão neste
momento é de tempo, pois uma vez desapropriada, não há mais retorno.
Há hoje no acampamento cento e trinta e duas famílias, cerca de quatrocentas
pessoas. Elas mantêm “uma boa relação” com as pessoas da cidade e o comércio local que
vende na “caderneta” para o MST. Com a chegada do MST na cidade, ninguém queria
vender na “caderneta”, no entanto um mercadinho vendeu e com isso acabou se
transformando em um supermercado.
O prefeito envia um ônibus para buscar as crianças e levar para a escola. No início
ele se recusou, mas como foi denunciado ao Conselho Tutelar da Criança e do Menor, ele
não resistiu mais.
Quando eu cheguei havia um Sargento da Polícia Militar conversando com alguns
acampados. Segundo eles, o Sargento estava “aconselhando” alguns a irem embora, no
25
entanto eles apenas ouvem e não dizem nada para não serem preso ou sofrerem ameaças. A
polícia usa a estratégia de cada vez mandar um policial diferente.
Constatei que em muitas barracas existiam vários cartazes do MST: “Ao Povo
Brasileiro e ao Presidente Lula, 10 Mandamentos” (Coordenação Nacional, Caruaru –
Agreste de Pernambuco, 8/11/2002); Cartaz do presidente Lula com o Boné do MST; cartaz
do Che Guevarra; Carta da Terra; a bandeira da Via Campesina hasteada em frente à
entrada da barraca do coordenador Giraia. Vi alguns acampados circulando com o Jornal.
Segundo Jadson, o acampamento está dividido em seis núcleos: Che Guevarra,
Chico Mendes, Por do Sol, Luiz Beltrame (poeta do MST, sem-terra de 96 anos que
participa de todas as marchas do MST, puxou a marcha a Brasília em 1997), Renascer. Os
núcleos são grupos de famílias que tem dois coordenadores simultâneos, um homem e uma
mulher “necessariamente para trabalhar o gênero”. Cada núcleo é responsável por um tipo
de atividade no acampamento.
Ver em 5.5 o resumo das anotações que tive com vários acampados.
4.4.2 Segunda visita: aplicação de questionário
A segunda visita foi rápida (durou o período da manhã), a coordenadora indicou
alguns acampados que estavam por perto e que estavam dispostos a responder ao
questionário, em um total de sete entrevistados (ver 4.1.1). Ver em 5.6 o resumo da
aplicação do questionário.
4.5 Diretório Central dos Estudantes (UNICAMP)
Após as idas aos acampamentos, resolvi entrevistar algum membro do Diretório
Central dos Estudantes – DCE - da UNICAMP. Ao chegar no DCE (12/05/2004, por volta
das 13h) observei a existência de cartazes do Che Guevara, do MST, de Campanhas
Nacionais promovidas pelos movimentos populares etc., fui informado que a Diretoria
havia sido destituída em decorrência de problemas “burocráticos/estatutários”. Quem estava
respondendo provisoriamente pelo DCE era uma comissão formada pelos representantes do
CAs, Centros Acadêmicos, que tinham como objetivo organizar a próxima eleição.
26
Após a minha apresentação e de esclarecer qual era o meu objetivo, uma das
representantes me apresentou ao Marcelo José Azevedo (24 anos, estava vestido com uma
camisa vermelha do MST, CA do curso de engenharia de alimentos).
A conversa aconteceu no salão de reuniões com vários presentes, transcrevo
algumas falas do Marcelo que resultou em algumas anotações, ver em 5.7.
5. Análise dos dados
Os dados foram organizados e resumidos em quadros como resultado de cada
etapa acima para análise e discussão, como segue.
5.1 Quadro 1: Acampamento Nova Conquista: primeira visita
Padre René
Coordenadora
Uso do
Jornal
Assinatura
do Jornal
Circulação
Possui o
Jornal
Tipo de
Leitura
Freqüência
de Leitura
-
+
-
-
+
+
Individual
Individual
-
Atitude
em
relação
ao
Jornal
-
Obs.: sinal: – (não); + (sim).
O primeiro quadro, embora muito simples, nos oferece algumas descrições: nela
não consta alguma referência a respeito do uso e da prática do Jornal, não há circulação do
Jornal no Acampamento, como também não foi feita nenhuma referência à freqüência de
leitura e nem à atitude em relação ao Jornal. No entanto, o Coordenador Regional possui
assinatura do Jornal, já a Coordenadora não, condição que não a impede de possuir e ler o
Jornal.
O fato de o acampamento ser “novo” (sete meses) pode ser um tipo de indicativo
entre outros, se levar em conta que há acampamento com cinco anos de existência. Esse
fato para a circulação do Jornal e tudo que possa decorrer dessa circulação é significativo.
Outro fator pode ser a troca de coordenação (a Coordenadora tinha assumido há poucos
dias a função, o coordenador anterior foi enviado para outro assentamento que necessitava
27
de “alguém” mais experiente). No entanto, mesmo sem circulação, a Coordenadora possui e
lê o Jornal.
A hipótese que poderá ser confirmada nos outros quadros é que o contato, o uso, e
a leitura do Jornal não está relacionada diretamente com a circulação no acampamento, ele
depende também em alguma instância do tipo de participação e atividade desenvolvida no
acampamento pelas lideranças como encontros, passeatas, cursos (como o do Padre René),
manifestações etc..
5.2 Quadro 2: Acampamento Nova Conquista: segunda visita, aplicação de questionário
01
03
04
Informantes Tempo de
5
Acampado (anos)
06
2 3
a a
3 4
4
a
5
5
a
6
Conhece
Possui
Material do
Material?
MST?
6 Sim Não Sim Não
a
7
07
6 1
-
-
-
08
09
6
10
1
1
5
11
Há circulação Conhece o Lê o JST?
de Material? JST?
Freqüência
de Leitura
Sim
Não
Sim
Não Sim
Não
+
-
-
6
5
1
4
-
-1
1
12
13
14
15
Há Grupos de
Leitura do
JST?
Sim Não
Tipo de Leitura do JST
A Importância do
Jornal7
Individual Em grupo
Coletiva
Concorda com o
Conteúdo do
Jornal6?
Sim
Não
-
-
-
3
2
5
-
-
-
+
-
Dos 7 informantes 1 é analfabeto, esse dado incidirá sobre o restante das questões.
Neste item, dois informantes não quiseram responder.
7
Neste item, um informante não respondeu.
6
Não Sabe
28
16
17
Há Estímulo à
leitura?
Sim
Não
Freqüência
de Estímulo
a Leitura
+
-
-
-
-
-
Esse quadro permite algumas leituras:
Dos 7 informantes, 6 conhecem o Jornal e 1 não (coluna 9). Na coluna 4, 6
informantes conhecem o “material do MST” (de comunicação) e 1 não. Essas duas
respostas são significativas, pois elas vão incidir sobre outras colunas: 11, 12, 13, 16 e 17,
uma vez que dos 6 que conhecem o material, apenas 1 o possui. Essa condição torna as
questões das colunas 11, 12, 13, 16 e 17 sem um posicionamento, ou seja, sem resposta.
O acampamento a beira da estrada, perto da fazenda que o movimento reivindica
para desapropriação, acontece como conseqüência de um processo longo, desde a
“convocatória” - para formar um grupo de agricultores sem terra para se constituir em semterra, a organização, a “indicação da fazenda”, informações “técnicas” (IBGE, INCRA,
IDAESP, prefeituras etc.) - sobre a fazenda até ao assentamento.
Essas considerações são importantes para compreender que a circulação e uso do
Jornal nos acampamentos estão relacionados ao tipo de organização local, de acordo com
Cristiane (editora do Jornal), o tempo de existência do acampamento é um dos indicadores
para a circulação, uso e prática do Jornal, embora não seja o determinante. A circulação e
uso do Jornal passam pelo custeio, pela distribuição nas secretarias regionais, locais e até ao
tipo de significado que o grupo confere ao Jornal etc..
O fato de conhecimento de algum tipo de material do MST (livros, cartilhas,
revistas, panfletos, boletins, informativos, cartazes) e do próprio Jornal (colunas 4 e 9) não
chega a garantir a sua aquisição direta (coletiva ou individual), a sua circulação e o seu uso
no acampamento (colunas 6 e 8). Esse fato ainda, de alguma forma, inviabiliza práticas de
leituras do Jornal como pode ser observado nas colunas 11, 12, 13, 16 e 17.
29
Possuir o Jornal (coluna 6) no acampamento não garante a sua circulação (coluna
8) e a sua leitura (coluna 10, 11, 12, 13, 16, 17), no entanto é significativo que houve
respostas à questão nas colunas 14 e 15.
A falta de circulação do Jornal (coluna 8) não se constitui em condição para o
acampado não conhecê-lo (coluna 9), não possuí-lo (coluna 6), não lê-lo (coluna 11), e
ainda em opinar sobre ele (colunas 14 e 15) ou ter algum tipo de atitude em relação a ele.
O conhecimento do Jornal (coluna 9) pelos acampados, não implica diretamente
na sua circulação (coluna 8) e na sua leitura (coluna 10).
5.3 Quadro 3: ANCA – Associação Nacional de Cooperativas Agrárias: segunda visita
Equipe do Jornal
Matérias do Jornal
Origem do Jornal
Função do Jornal
Alcance do Jornal
Atitude em relação ao Jornal
Objetivos do Jornal
Circulação interna
Circulação externa
Tipo de leitura
Divisão do Jornal
Montagem do Jornal
Editora do Jornal: Uso e Prática
Havia mudado. Editora, revisão, produção, distribuição, “rede” de
colaboradores.
Textos, entrevistas, cartas, crônicas, relatos etc.
1982 (1ª. fase como Boletim), 1984 (2ª. passou a Jornal).
Para ser lido, informar, formar (formação política), servir de material de
estudo.
Interno e externo ao movimento.
Há uma mística, elo de integração do movimento, preocupação com a
norma padrão, os acampados e assentados escrevem cartas para o Jornal,
fazem críticas e elogios ao Jornal.
Estimular as leituras, estabelecer comunicação entre os agricultores,
estabelecer diálogo com a sociedade.
Secretarias regionais, acampamentos, assentamentos, assinaturas
(individual, entidade), chega de 70% a 80 % do movimento; depende do
tipo de organização das regionais (acampamentos e assentamento, mais
experientes, menos experientes).
Para a sociedade como um todo, há um setor de assinaturas, há assinatura:
individual, entidade, nacional e internacional.
Individual, grupo (cinco pessoas), debate, discussão.
Artigos, cartas, entrevistas, página internacional.
Reunião, discussão da pauta, indicações para escrever os artigos
(especialistas).
Esse quadro descreve o Jornal desde a sua organização funcionamento interno
(Equipe do Jornal) até ao seu uso e a sua prática nos acampamentos e assentamentos.
Alguns aspectos do Jornal são, de certa forma, iguais aos jornais comerciais
quanto ao seu funcionamento, como: “Equipe de Jornal”, “Matérias do Jornal”, “Divisão do
Jornal” e “Montagem do Jornal”. Nisso há uma atitude positiva pois demonstra que embora
30
seja de um movimento popular (que no imaginário comum figura como algo precário,
inconstante) há uma organicidade que possa demonstrar um tipo de “seriedade” e de
“importância” social do movimento.
No entanto, os demais itens do quadro marcam um lugar social específico do
Jornal, pois sua função, para além de ser lido, é um elemento de divulgação da situação dos
sem-terra, formador de “consciência” política de classe, ou seja, um elemento com
potencial transformador que precisa ser “trabalhado” (como servir de “material de estudo”)
e quanto a sua forma de ser lido e compreendido. Esses aspectos dizem respeito tanto à
forma (circulação, uso e prática) interna quanto externa ao movimento considerando o seu
alcance.
Dois itens importantes, no quadro, que é uma das hipóteses desse trabalho
referem-se a sua circulação: interna e externa. O Jornal embora sendo um possui dois
objetivos quanto a sua circulação em alguns espaços sociais. A circulação interna
corresponde ao seu objetivo interno, no entanto a circulação externa redimensiona esse
objetivo como forma de diálogo com a sociedade e marca um espaço de existência perante
ela.
O item de “atitude em relação ao Jornal” reflete uma certa visão sobre o Jornal
que transcende aos aspectos materiais de sua existência, há um sentimento de pertence que
mistifica não somente o movimento, mas principalmente o Jornal.
5.4 Quadro 4: Sede do MST em Andradina-SP
Atitude em relação ao Jornal
Função do Jornal
Distribuição do Jornal
Uso e prática (Jornal)
Padre René
Relevante, veículo de comunicação (acampamento, assentamento,
sociedade), unifica a luta dos agricultores.
Informar, formar (formação política), objeto de discussão, de diálogo
(interno e externo ao movimento).
Há necessidade de divulgação nas escolas e na comunidade de forma geral,
ele não chega a todos acampados e assentados, a Central envia e as
regionais distribuem para os coordenadores e militantes.
Os coordenadores e militantes fazem discussão em grupo com os
acampados e assentados.
Esse quadro de forma geral reflete uma atitude comum a respeito do Jornal pelas
suas lideranças ou militantes antigos, seu objetivo, seu uso, sua prática e sua circulação.
31
Um fator importante a ser considerado é que esse quadro corresponde à posição de uma
liderança política e religiosa, formadora de “quadros” atuando e organizando os
acampamentos e os assentamentos de uma região.
Esse quadro também demonstra um certo tipo de funcionamento de existência do
movimento e do Jornal. Há uma relação entre o que seria ideal (o esperado) e o possível (se
considerar o quadro 5.1 e 5.2) em cada acampamento e em cada assentamento. É um tipo
de aspecto que depende de condições contextuais e políticas locais. Uma hipótese é que
quanto mais tempo de existência possui o assentamento e acampamento, o Jornal se
aproxima do ideal de cumprimento de suas funções.
5.5 Quadro 5: Acampamento União da Vitória: primeira visita
Atitudes em relação ao Jornal
Função
Distribuição
Uso e prática (Jornal)
Artigos do Jornal
Acampamento União da Vitória
Ele é a base da orientação dos acampados e assentados, o Jornal é para a
sociedade conhecer a realidade dos sem-terra; a leitura é caráter político;
possui um caráter interno e externo ao movimento; o Jornal é “um cartão
postal”; só MST possui Jornal; o Jornal é para saber “de uma ou outra”
ocupação; há sempre Jornal para ler; há pessoas (sem-terra) que não
gostam do Jornal.
Para ser lido, para fazer o “contra-ponto” com as informações da “grande
mídia” a respeito do movimento; instrumento de diálogo com a
sociedade; a venda do Jornal ajuda financeiramente o acampamento.
Todo acampamento e assentamento possuem cota de Jornal (seis, um para
cada núcleo); na cidade ainda não havia feita à divulgação; falta militante
para divulgar o Jornal; precisa circular por diversos espaços sociais; a
leitura é fundamental
Leitura coletiva nos núcleos, escolha de tema para discussão, compara as
informações do Jornal com as do jornal da “grande mídia”; o Jornal tem
sido pouco lido; os analfabetos participam com perguntas na leitura do
Jornal; há diferença entre teoria e prática (em relação ao Jornal);
Os acampados e assentados colaboram com o Jornal; é fácil escrever para
o Jornal.
Se considerar as atitudes em relação aos quadros anteriores, o Jornal é tomado
como um elemento que não só representa e constitui, mas que também seria o “cerne” do
movimento de um lado, e um aspecto secundário de outro. No item “atitudes em relação ao
Jornal” as posições demonstram representações distintas e não tão homogêneas
internamente, representações que correspondem aos aspectos “subjetivos” (“gostar”, “para
ler e saber”, “cartão postal”) e aos aspectos “objetivos” (“caráter político”). Essa tensão
32
demonstra um tipo atitude e de representação que não são estáticas, marcam a dinamicidade
na constituição da representação do Jornal e formação do movimento que equivale em
alguma instância ao tipo de representação que os sem-terra possuem do seu próprio
movimento.
O item “função” também apresenta uma atitude tensa, um tipo de representação
diversificada no mesmo assentamento, pois conceber a função do Jornal como um “contraponto” aos jornais das “grande mídia” até como elemento que “ajuda financeiramente” aos
assentamentos é representar a sua diversidade de uso, de prática e de circulação além de
demonstrar o tipo de relação que os sem-terra mantém com o Jornal.
Nos itens “distribuição, uso e prática, artigos do Jornal”, a atitude se configura
como um ideal, posição comum que o Jornal deve ser lido, divulgado, precisa circular e que
todos devem saber o que nele contém. É um tipo de reconhecimento que o Jornal representa
o movimento tanto internamente quanto externamente.
É importante ressaltar que nesse acampamento o processo pela luta da terra está
“bem adiantado” com pareceres positivo a respeito da desapropriação.
5.6 Quadro 6: Acampamento União da Vitória: segunda visita, aplicação de questionário
01
03
04
06
Informantes Tempo de
Conhece
Acampado (anos) Material de
MST?
2 3 4 5 6 Sim Não
a a a a a
3 4 5 6 7
Possui
Material?
Sim
Não
07
1 2
5
2
08
09
Há
circulação
de
Material?
Sim Não
8
-
3
1 7
10
11
8
Não
Conhece o JST?
Lê o JST ?
Freqüência de
Leitura
Sim
Sim
+
Não
Neste item, um informante não lê por ser analfabeto.
-
33
7
-
7
-
6
-
3
3
12
13
14
Há Grupos de
Leitura do
JST?
Sim Não
Tipo de Leitura do JST
Concorda com o
A Importância do Jornal9
Conteúdo do Jornal?
Individual Em grupo
Coletiva
Sim
Não
7
1
-
7
-
-
7
16
17
Há Estímulo à
Leitura
Sim
Não
Freqüência
de Estímulo
a Leitura
+
-
7
-
7
15
-
+
-
6
-
Não
Sabe
-
-
-
-
Esse quadro permite algumas leitura:
Na coluna 3, mais 50% dos informantes possuem entre 5 a 7 anos de acampado.
Esse fato é importante, pois o tempo de acampado pode representar um tipo de “vivência”
no movimento, condição que implica participar das atividades não somente do
acampamento, mas também do movimento como um todo.
Conhecimento do material do MST (coluna 4) (livros, cartilhas, revistas,
panfletos,
boletins,
informativos
etc.)
e
do
próprio
Jornal
(coluna
9)
não
representa/significa que todos o possuem (coluna 6). Possuir o material do MST (coluna 6),
de forma geral, pode ser uma das conseqüências do tempo de acampado (coluna 3) e de
“vivência”.
A circulação do material do MST (coluna 8), conhecimento do Jornal (coluna 9) e
a leitura do Jornal (coluna 10) incidi diretamente sobre: a freqüência de leitura (coluna 11),
haver grupos de leitura (coluna 12), haver tipos específico de leitura (coluna 13), haver
opiniões sobre o jornal (colunas 14 e 15) e estímulo à leitura (colunas 16 e 17).
9
Neste item, um informante não lê por ser analfabeto.
34
A leitura específica do Jornal (coluna 10) corresponde à existência de uma política
de prática de leitura (colunas 12 e 13).
Em relação à freqüência de leitura (coluna 11), três responderam haver maior
freqüência e três com menor freqüência. Estas respostas estão relacionadas ao fato de que
em grande medida (coluna 13) a leitura é feita em grupo de acordo com a divisão de tarefas
organizativas.
As questões das colunas 12, 13, 16 e 17 dizem respeito não apenas a uma política
de leitura do MST, mas a uma forma de organização em torno do Jornal.
5.7 Quadro 7: Diretório Central dos Estudantes (UNICAMP)
Uso e prática (Jornal)
Assinatura do Jornal
Distribuição
Atitudes em relação ao Jornal
Lê com freqüência; serve para fazer “análise de conjuntura na visão do
MST”; para ser distribuído “com quem está próximo”.
O DCE possuiu assinatura na gestão 2002/2003, na atual (2003/2004) não
possui; sindicato: Metalúrgicos, Químicos.
Regional de Campinas.
É importante para saber sobre acontecimentos, posição política, o Jornal é
bom.
É significativa a atitude expressa nesse quadro uma vez que ela representa em
alguma medida a atitude que os sem-terra possuem em relação ao Jornal com uma de suas
funções externas ao movimento: ele deve circular, ser lido, ser distribuído, ser discutido,
levar à sociedade a posição política do movimento de forma que possa conseguir
“simpatizantes, colaboradores e defensores da sua causa”. Nesse sentido, o Jornal cumpriu
sua função externa. Ver a “atitude em relação ao Jornal” que se configura como positiva.
É importante considerar que essa necessidade de que o Jornal seja socialmente
“conhecido”, além do já explicitado, diz respeito também à grande mídia que retrata o
movimento, sua causa, suas prática significando-se de forma negativa e assim formando
representações distintas e polêmicas do movimento. Nesse ponto o Jornal cumpre um papel
significativo, pois ele “esclarece” o que é o MST pelo próprio MST.
Considerações Finais
35
A partir do percurso feito a respeito da circulação, do uso e da prática do
instrumento lingüístico do MST nos espaços internos é possível elaborar algumas
considerações, ainda que frágeis, dessa relação entre língua/linguagem, sociedade e cultura.
Considerando o instrumento lingüístico enquanto uma prática cultural dos grandes
movimentos populares de massa, é significativo observar que ele funciona, para além de
um objeto de informação e comunicação social do movimento, como um elemento de
formação política interna e externa ao movimento, o que não quer dizer da mesma forma e
do mesmo nível em todos os lugares. Dessa forma, ele se constitui em um espaço de
encontro e de reconhecimento dos sem-terra considerando seus usos e suas práticas. Esse
encontro e reconhecimento são realizados de forma direta (com a circulação do jornal no
acampamento) e de forma indireta (quando os sem-terra entram em contato com o jornal
em situação externa ao acampamento).
A circulação do jornal nos acampamento corresponde a uma política de leitura do
movimento, no entanto a circulação, o uso e a prática estão relacionadas às posturas
políticas de leituras regionais e localizadas. O que de forma geral não impede que o jornal
não “cumpra”, mesmo que parcialmente, um dos aspectos de sua função (informar, formar
“consciência”, promover debate, esclarecer ações e conduta do movimento, estabelecer
contato com todos os membros do movimento etc.).
Uma vez que a circulação, o uso e a prática do Jornal estão relacionadas
diretamente a sua circulação interna no acampamento, tomar conhecimento do Jornal
independe dessa circulação já que uma das práticas do Jornal é que ele extrapole o espaço
interno ao movimento.
A circulação, o uso e a prática do Jornal atendem, ainda a uma certa
especificidade dos espaços sociais, de acordo com Aléong (2001: 149), uma vez que os
espaços “condicionam o conteúdo e as formas de intenção lingüística” considerando ainda
que “a língua é o meio de exprimir a qualidade das relações sociais, pode se conceber a
existência de normas sociais de comportamento lingüístico”. Estas considerações são
significativas para compreender um aspecto da relação não somente da dinâmica do
movimento, mas, sobretudo da relação constitutiva do instrumento lingüístico e o sem-terra,
não apenas como um ponto de encontro e espaço agregador, mas também como um marco
de construção de identidade.
36
A dinâmica entre o instrumento lingüístico e a sua circulação, seu uso e sua
prática em espaços sociais onde ocorre, corresponde a um tipo de relação em que, de
acordo com Blom e Gumperz (1998: 40) “as situações socais criam a base para a ocorrência
de uma escala limitada de relações sociais dentro da ordem de conjuntos específicos de
status”.
As atitudes em relação ao Jornal demonstram que seu uso, sua circulação e sua
prática ocorrem de forma heterogênea a partir da relação em que seria o ideal (o que se
espera) e suas representações localizadas. Essas representações muito embora heterogêneas
possuem algo comum, a importância em maior ou menor grau do Jornal para os sem-terra.
Há um reconhecimento mesmo que parcial de sua significação.
As atitudes correspondem e enfocam um tipo de relação interna entre os sem-terra
e o Jornal, um aspecto da construção da identidade do movimento, sua organização, sua
atuação, no entanto, se esse aspecto não é homogêneo, dado as características históricas dos
movimentos populares de grande proporção, a sua constituição aponta a homogeneidade
como algo a ser trabalhado politicamente no cotidiano dos acampamentos, assentamentos e
espaços externos ao movimento.
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