1 JORNAL SEM TERRA: CIRCULAÇÃO E USO12 Linguagem e sociedade estão ligadas entre si de modo inquestionável. Mais do que isso, podemos afirmar que essa relação é a base da constituição do ser humano. Alckmin (2000: 49) Tudo aquilo que não pode ser processado, analisado e sistematizado pela mente humana provoca desconforto. Na verdade, a reação humana frente ao caos, seja ele de que natureza for, é de ansiedade. Tarallo (1990: 5) Em todas as configurações histórico-sociais de vida, trabalho e cultura, a língua revela-se produto e condições das formas de sociabilidade e dos jogos de forças sociais. (...) É a língua que se constitui como patamar da história, o sistema de signos por meio do qual se pronunciam o presente, o passado e o futuro, a história e a geografia, as tradições e as premonições, os santos e os heróis, as façanhas e as derrotas, os monumentos e as ruínas. Ianni (1999: 7) Marlon Leal RODRIGUES NEAD/UEMS/UFMS/UNICAMP 0. Introdução O MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) surgido em 1982, na Encruzilhada Natalino (Ronda Alta-RS), em um momento de grande efervescência política (campanha pelas Diretas Já, pelo fim do bipartidarismo, pela abertura geral, ampla e irrestrita, pelo fim da censura, pelo direito de greve, pelo direito das minorias, pelos direitos humanos etc.) com uma multiplicidade de bandeiras políticas, que de uma forma ou de outra, tinham alguma relação com as propostas socialistas. Nesta ebulição política vale lembrar que o Partido dos Trabalhadores, recém criado, centralizava gradativamente grande parte das discussões político-ideológica, o que lhe garantiu o reconhecimento como vanguarda política das causas populares e dos trabalhadores na década de 80 e meados de 90. 1 Este trabalho de qualificação em Sociolingüística foi orientado pela Profa. Dra. Tânia Alckimin (2006). Parte dele compõe a minha tese de doutoramento: “MST: Discurso de Reforma Agrária pela Ocupação, acontecimento discursivo” defendida em 01/2007 na UNICAMP sob orientação do Prof. Dr. Sírio Possenti. 2 Agradeço a Profa. Msc. Cássia Regina Tomanin (UNEMAT – Câmpus de Alto Araguaia) pela interlocução e sugestões. 2 O movimento se “oficializou” de fato no primeiro congresso em 1984, em Curitiba-PR, quando definiu e centralizou suas propostas políticas a nível nacional, suas práticas, seus objetivos enquanto movimento na luta pela terra, propôs palavras de ordem e, principalmente algumas de suas características que iriam distingui-lo não só enquanto movimento de massa dos demais, mas, sobretudo, dos partidos de esquerda que no final dos anos 80 entram em refluxo político-ideológico. É o MST, em decorrência de sua prática e de seus dizeres, quem vai ocupar o lugar de vanguarda política ao centralizar uma agenda de questões políticas nacionais e internacionais a partir dos anos 90. O movimento desde o seu surgimento já havia inscrito em sua agenda um repertório de dizeres, de propostas, no entanto, o efeito não se fez sentir em decorrência do PT ser uma liderança reconhecida. Assim, o movimento gradativamente transforma suas necessidades em demandas sociais, ou seja, transforma a reforma agrária em uma necessidade social e não uma questão restrita aos agricultores sem-terra. Para Bocayuva (2000: 80), em suas reflexões, ele considera que “as lutas dos trabalhadores rurais sem terra resgatam a memória histórica ao mesmo tempo em que renovam a luta pela reforma agrária”. É importante considerar que o MST é um grande movimento popular de massa, isto significa que possui representantes organizados em todos os Estados. Os seus integrantes, em sua maioria, são advindos das camadas mais desprestigiadas da população, com tudo que esse desprestigiado possa significar em termos sociais e em termos de fala, em termos de linguagem, em termos de organização e de ação social. Outra consideração relevante, é que o MST ao enunciar como um grupo social organizado, ele o faz a partir de certos dizeres que ao longo de sua existência irão construir sua identidade (Hall, 2003), pois, de acordo com Aléong (2001: 149), “uma das funções sociais da linguagem é marcar e apresentar a identidade e seu status e papel, a língua pode servir de meio para sublinhar uma distinção social”. Assim, não é só na prática que o movimento se apresenta socialmente - fazendo ocupações/invasão, passeatas, bloqueando estradas e rodovias, ocupando/invadindo prédios públicos, como bancos e secretárias ou sede do Incra -, mas também pelo que se expressa e como se expressa. Prática social e falas são, até certa instância, indissociáveis, constitutivos um do outro. É possível considerar que o MST se constituiu em uma instituição social marcada por uma identidade própria, por um certo tipo de dizeres de seus integrantes. 3 É precisamente as marcas dessa relação entre estruturas sociais (instituições) e esse dizer (fala e linguagem) que interessa a Sociolingüística. Em linhas gerais, interessa tomar o JST (Jornal dos Sem Terra), sua circulação, sua prática, sua identidade, alguns de seus usos, a construção que os sem-terra fazem de seu instrumento lingüístico. Tomar a circulação do Jornal dos sem-terra como objeto de análise na perspectiva metodológica da etnografia é significativo, na medida em que seja possível descrever um aspecto da relação entre língua, sociedade e cultura. Convém ressaltar que é a partir dessa relação que o Jornal se configura em um instrumento lingüístico constitutivo do movimento. A escolha do Jornal como instrumento lingüístico, de distribuição (local, regional e nacional), e também como as escolhas dos espaços sociais, dois acampamentos, Diretório Acadêmico dos Estudantes (DCE-UNICAMP), Associação Nacional de Cooperativa Agrária (ANCA), Sede Regional de Andradina possui algumas razões. Uma delas está no fato do Jornal ser concebido pelos sem-terra como uma configuração de dizeres que corresponde a uma imagem específica de si mesmo a partir do tipo de circulação, aquilo que os sem-terra pensam de si a partir do lugar social que ocupa. Em contrapartida, essa mesma construção de imagem atende também a um “público” externo, heterogêneo que dependendo do lugar social que ocupa, constrói uma imagem específica dos sem-terra. É interessante considerar que o mesmo Jornal possui usos diferenciados, quando é destinado para circulação e uso interno, quanto é destinado para circulação e uso externo. Para estes dois “públicos” leitores, o Jornal é um mesmo objeto com duas representações e imagens distintas, no entanto, a imagem e representação podem ou ser diferenciadas. O objetivo deste trabalho é descrever e analisar basicamente como se dá a circulação interna e externa em alguns lugares sociais, o seu uso e sua prática. A primeira hipótese que seria viável elaborar, seria que em se tratando de um Jornal do próprio movimento, a sua circulação e seu uso seria uma conseqüência natural, no entanto após a visita aos acampamentos, a constatação (observação, entrevista e aplicação de questionário) já invalida essa provável hipótese, pelo menos de forma parcial. Seria importante considerar que os espaços sociais em certa medida são configurados por certas regras sociais de circulação, de distribuição que possui um ritual, 4 um controle não somente sobre o falante que diz, mas sobretudo se constitui uma forma dizer, um dizer, um tipo de prática e um tipo de circulação, ambos constitutivos. A circulação do jornal, de uma forma geral, está ligada basicamente a dois fatores: ao tipo de conteúdo e a forma lingüística que ele vincula; e ao uso de que é feito do jornal nos espaços sociais internos e externos ao MST. Esses dois fatores ainda correspondem ao tipo de imagem e de identidade que o movimento constrói de si, para o próprio movimento, e a imagem que o próprio movimento constrói do jornal. Convém ressaltar que as representações e imagens não são estáveis e pacíficas, elas se constituem pela tensão das relações interna e externa ao movimento. As etapas metodológicas deste trabalho residem em alguns pontos básicos: o primeiro está na coleta de material lingüístico nos acampamentos: a descrição, a observação sobre a circulação do jornal, entrevistas e aplicação de um questionário, relatos de um lado, e de outro lado será feita a análise comparativa do material coletado. 1. Sociolingüística, um pouco de quadro formal As pesquisas em Ciências Socais são de certa forma tributária a Malinowski cujas propostas tiveram origem em sua experiência de campo que rompem com uma tradição de pesquisas de até então, pois sua grande contribuição revolucionou a concepção metodológica nas Ciências Humanas. Os trabalhos de campo tomaram um outro rumo, abriram novas perspectivas tanto teóricas, quanto de caráter pragmático. As de Malinowski tiveram como ponto de apoio para a reflexão, a necessidade de fato descrever e/ou compreender não apenas o funcionamento das instituições, mas como elas se constituem e ainda em que esta constituição está assentada, que sem dúvida não é simplesmente nos acontecimentos “aparentes” ou nas narrativas, mas sobretudo, na mentalidade que não se fala, mentalidade que os falantes não indagam sua origem e nem os porquês simplesmente. Se for possível apreendê-la em alguma extensão, esta possibilidade está no mergulhar longamente nos acontecimentos dos imponderáveis da vida real dos falantes, e assim tentar descrever alguns de seus aspectos. O autor abriu uma nova perspectiva para a etnografia, pois para ele 5 as única fontes etnográficas de valor científico indiscutível são aquelas nas quais podemos claramente estabelecer uma distinção entre, de um lado, os resultados das observações diretas e das declarações e interpretações dos sujeitos e, de outro lado, as inferências do autor (19??: 40). Nesse sentido, os objetivos estabelecidos pelo pesquisador devem ser “realmente científicos” (p. 43) e critérios metodológicos rigorosos (descrição e interpretação) para “manipular e estabelecer seus dados” (idem), pois são os critérios metodológicos que guiarão a uma observação verdadeiramente produtiva. Outro aspecto importante para Malinowski é a relação entre a teoria e os dados, ela nunca deve conformar os dados ou vice-versa, cabe ao pesquisador saber trabalhar tanto as questões teóricas quanto as referente aos dados uma vez que o etnógrafo deve oferecer uma “descrição clara e nítida” (p. 47) dos dados em relação aos fenômenos observados. Deve também desenvolver “esquema mental” (p. 50) capaz de representar a diversidade dos dados. Nesse sentido, em linhas gerais, para Malinowski, é importante considerar três questões básicas para a pesquisa de campo etnográfica: a organização e a anatomia do grupo; “os imponderáveis da vida real”; “e uma lista de declarações etnográficas, narrativas características, expressões típicas etc.” (p. 60). Assim, as propostas de Malinowski contribuíram para a compreensão da relação entre língua, sociedade e cultura. Essa relação vai se constituir no século XX em diversas áreas no âmbito da linguagem cuja origem, de acordo com Alkimim (2000: 24), essa diversidade se dá com o advento da Lingüística saussureana, uma vez que ele institucionaliza a distinção entre Lingüística Interna oposta a uma Lingüística Externa. É uma dicotomia que dividirá, de maneira permanente, os campos dos estudos Lingüísticos, o campo dos estudos Lingüísticos contemporâneos, em que orientações formais se opõem e orientações contextuais, sendo que estas últimas se encontram fragmentadas sob o rótulo das muitas interdisciplinas: Sociolingüística, Etnolingüística... De acordo com Maingueneau e Charaudeau (2004: 224) a etnografia da comunicação se propõe objetivos ambiciosos com a pesquisa de explicações holísticas que inscrevem as condutas discursivas locais em um contexto global de crenças, de ações e de normas, constitutivo de uma realidade social e cultural. É também essa articulação do lingüístico com o social que se esforçam em descrever, de modo minucioso, os estudos produzidos nesse campo de pesquisa. 6 Já o termo Sociolingüístico também como alguns dos objetivos dessa área foram cunhados em 1964 por Bright (1974: 17), para ele “é correto afirmar que os estudos sociolingüísticos (...) tratam das relações entre língua e sociedade”. O autor ainda aborda alguns fatores relevantes que condicionam a diversidade lingüística, tais como: identidade social do receptor e emissor; o contexto; a dimensão de uso da língua; a dimensão a cerca da extensão da diversidade de uso da língua; a dimensão de aplicação: estrutura social, interesse histórico e planejamento lingüístico. Por sua parte, os trabalhos de Labov contribuíram para preencher algumas lacunas, em especial com a publicação da pesquisa feita na comunidade da ilha Marha’s Vineyard, que de acordo com o comentário de Alkmim (2000: 30), esta publicação “sublinha o papel decisivo dos fatores sociais na explicação da variação lingüística, isto é, da diversidade lingüística observada”. Outros autores como Blom e Gumperz (1972) foram um marco para a sociolingüística, eles destacam alguns parâmetros para o estudo da etnografia da comunicação e da Sociolingüística Interacional. De acordo com eles, (1998: 54-5), “a informação social e a informação lingüística são comparáveis apenas quando estudadas dentro de linhas mestras de um arcabouço analítico”. A contribuição de Fishman (1974: 25) refere-se à preocupação com a sociologia da linguagem ou como o próprio autor comenta, “isto é, comportamento manifesto em relação à linguagem e aos usuários da língua” uma vez que “o homem está constantemente usando a língua – língua falada, língua escrita, língua impressa – e o homem está constantemente vinculado aos demais, através de normas, de comportamentos comuns”. Calvet (2002: 161-2), em seu livro, faz uma crítica a Sociolingüística e elabora a proposição que “a (sócio)lingüística é uma ciência em devir”. Entre outras considerações, Calvet conclui em sua crítica que “a lingüística só pode ser definida como o estudo da comunidade social em seu aspecto lingüístico. E, por sua vez, a sociolingüística só pode ser definida como a lingüística”. Ele ainda considera que “é bem difícil manejar os termos sociolingüística e lingüística quando se pensa que o primeiro engloba o segundo, e os hábitos lexicais são resistentes”. 7 Sepé (2000) faz uma breve contextualização dos estudos de atitudes lingüísticas partindo primeiramente do surgimento dessa disciplina até aos trabalhos pioneiros no Brasil. A autora aborda desde a gênese da atitude lingüística na Psicologia Social com especial destaque para o pesquisador Wallece Lambert que incorporou a linguagem como elemento determinante de suas pesquisas e não como mero acessório, atitude comum aos pesquisadores norte-americanos nas décadas de 50 e 60 apesar de “pesadas críticas” (idem, 370). Um dos maiores méritos de Lambert, de acordo com Sepé, é o desenvolvimento, juntamente com Gardner e Fillenbaun, da “técnica considerada padrão na pesquisa sobre atitudes lingüísticas, denominadas de matched-guise, ou técnica dos pares falsos” (p. 371). Essa técnica leva em consideração, entre outras questões, em seu escopo as reações dos ouvintes, juízos de valores, preconceitos, estereótipos etc. de um grupo social. Sepé afirma que “os estudos de atitudes lingüísticas são instituídos para preencher a lacuna dos estudos centrados na linguagem existente na Psicologia Social praticada até à década de 60” (idem) e citando Omdal comenta que nas décadas de 80 e 90 o estudo das atitudes lingüísticas migrou para outras áreas como a Sociolingüística uma vez que o fenômeno da variação lingüística necessita ser explicitado também levando em considerações outros fatores, tais como fatores de ordem social, situacional, normas, valores e modelos de prestígio na comunidade lingüística. Nesse sentido, o estudo das atitudes lingüísticas possui como pressuposto: existência de variedades de língua, de estilos, de competitividade, de contrastes, relacionados ao grau de poder dos diversos grupos. Os grupos dominantes, de forma geral, impõem os modelos lingüísticos como ideal e os grupos minoritários são interpelados a adotar tais modelos ou rejeitá-los sujeitos ao risco de exclusão e estigmatização social. Assim, o estudo das atitudes lingüísticas no âmbito da Sociolingüística coloca em evidência a questão ideológica e a cultural dentro das relações de poder a partir das posições que os indivíduos ocupam na estratificação social com destaque, entre outros, para identidade social dos indivíduos. Um outro aspecto é que as atitudes lingüísticas são consideradas também como “resíduos de experiência e informações passadas” (Omdal apud Sepé, 2000: 373). Já Bisinoto (2001: 143) aponta para a complexidade da conceituação a partir da diversidade de 8 enfoques da questão, vistos em pesquisas sociolingüísticas e etnográficas, a partir dos quais a avaliação e o comportamento dos informantes são explorados de diferentes modos. Dizendo de outro modo, cada viés ou interesse científico acaba por conferir às atitudes uma significação específica. A autora ainda comenta que há fatores de natureza social intrínseco que afetam não somente o lingüístico como também o político. Afetação que diz respeito ao comportamento dos indivíduos que interfere muitas vezes de forma significativa na organização social. Assim, as avaliações podem ser, de acordo ainda com Bisinoto (2001: 144): manifestas e encobertas, subjetivas e objetivas, mais ou menos consciente, relativas à linguagem dos homens numa sociedade plural, têm prioridade de fundar e governar tanto as relações de poder quanto o prestígio ou o desprestígio das formas lingüísticas, estabelecendo seletividades, evidenciando preconceitos. Já a ideologia neste trabalho refere-se “apenas uma maneira conveniente de classificar em uma única categoria uma porção de coisas diferentes que fazemos com signos” (Eagleton, 1997: 171). Convém considerar que não cabe aqui fazer um histórico da sociolingüística, mas apenas algumas breves contribuições e referências. Retomo mais uma vez a Alkmim (2000: 31-2), desta vez para encerrar este tópico. A autora faz uma síntese histórica de alguns pontos da Sociolingüística, conclui que “o objeto da sociolingüística é o estudo da língua falada, observada, descrita e analisada em seu contexto social, isto é, em situações de uso. Seu ponto de partida é a comunicação lingüística”. Para a autora “a diversidade lingüística não é um problema, mas como uma qualidade constitutiva do fenômeno lingüístico”. 2. Espaço social: acampamento As configurações dos espaços sociais se constituem de vários elementos sociais, o uso da língua entre outros. Os espaços sociais são formados com maior ou menor estabilidade, isto equivale dizer que são governados por um conjunto de regras de 9 comportamento, tanto de conduta social quanto de dizer. A respeito desses espaços se pode considerar, talvez em alguma medida, o que Blom e Gumperz (1998: 40) concebem que: os sigificados sociais diferem dos significados referenciais [grifo meu] no modo como são codificados. Enquanto a referência é codificada em larga medida por palavras, o significado social pode vincular-se não apenas a sinais acústicos mas também a cenários, a itens do conhecimento acumulado, assim como certas palavras. Os espaços sociais comportam e regem uma diversidade de modos de existência, de valores, de crenças, de sentidos, de objetos, de linguagem. Nos espaços, ainda conforme Blom e Gumperz (idem, 45), “as situações socais criam a base para a ocorrência de uma escala limitada de relações sociais dentro da ordem de conjuntos específicos de status”. Outra especificidade dos espaços sociais, é que eles são marcados por um tipo de identidade que pode ou não corresponder de forma direta ou indireta a um tipo de ideologia, pois, de acordo com Aléong (2001 149), “a língua pode servir de meio para sublinhar uma distinção social”, com maior ou menor opacidade dos dizeres. Assim, os espaços sociais, ainda Aléong (idem, 150), “condicionam o conteúdo e as formas de intenção lingüística” uma vez que “a língua é o meio de exprimir a qualidade das relações sociais, pode se conceber a existência de normas sociais de comportamento lingüístico”. Enfim, o fato social e tudo que dele decorre em suas mais variadas circunstâncias, podem exemplificar a tensa relação de forma integrante, entre língua/linguagem, cultura e sociedade. Isto, conforme Alkmim (2000: 49), “estão ligados entre si de forma inquestionáveis”. Assim, nos espaços sociais a estabilidade e a instabilidade, a organização, a reorganização, os indivíduos, a língua e a linguagem, a teoria e a prática, o conhecimento científico e conhecimentos do senso comum, enfim, eles dizem respeito, em maior ou menor grau, ao tipo de formação social, que de um lado procura a homogeneização das relações, de um outro lado, sua força contrária para mostrar a heterogeneidade destas relações. 3. Do Boletim ao Jornal O advento de Ronda Alta-RS, Encruzilhada Natalino ficou registrado, não somente na grande mídia, mas no Boletim dos Sem Terra, no. 1, ainda datilografado e 10 mimeografado para distribuição. A fala que ali enunciava (as palavras de ordem, os objetivos, as metas, as propostas, os anseios, as crenças, os valores, o apoio de outras categorias e entidades para a causa dos sem-terra) iria se tornar à fala marcada ideológica do MST. Na medida em que o movimento foi se consolidando sua organização e sua prática, o Boletim foi tomando um aspecto mais acabado. No número 263 (08/1982), o Boletim passou a ter um editorial, era o prenúncio, entre outros, que poderia se tornar em um jornal, o que de fato aconteceu no número 36 (07/1984), assim o Boletim transforma-se em Jornal atualmente editado pela ANCA – Associação Nacional das Cooperativas Agrárias. Essa passagem implica em obedecer alguns rituais, ter um jornalista que assine, um conselho editorial, uma periodicidade, uma tiragem definida, um endereço fixo, uma sede, uma referência de quem o imprimiu etc. Acima de tudo, marca uma linguagem “própria” de um grupo social, que possui uma identidade. Se de um lado, o movimento é criticado pela imprensa, como fora da “legalidade” - principalmente pela Revista Veja em suas sucessivas edições, de um outro lado, o Jornal do movimento cumpre os rituais exigidos pelo Estado para sua circulação e uso. Uma face dupla do movimento. Se a ocupação/invasão coloca o MST na marginalidade (reivindicar está prescrito na Constituição Federal, mas ocupar/invadir não), de outro lado o seu instrumento lingüístico fundamental esta assentado nas bases da legalidade jurídica. Com o advento do marxismo, o panfleto, o boletim, o cartaz, o comunicado, e, principalmente, o jornal, se tornou não apenas um instrumento lingüístico de diálogo, de debate, de informação, de formação política, de reivindicação, mas, sobretudo um instrumento de formação ideológica de classe, de grupos, de propostas de transformação social, de convocação (categorias, explorados, marginalizados entre outros), de debate político, de crítica social. Esta, de forma pontual ou de forma geral, de contato direto - entre a organização (partido político, sindicato, associação, movimento popular, gremiação) e a categoria, a população, os simpatizantes, os colaboradores. Um dos objetivos do jornal, além dos citados acima, é que em torno dele os membros da organização promovem discussão, debate, fazem um trabalho de esclarecimento político e ideológico que parte uma posição social de grupo ou de classe. 3 O Boletim no. 01 é de 15/05/1981. 11 Esse trabalho é tanto interno quanto externo. O trabalho interno é um tipo de manutenção, de atualização, de formação política, de espaço de reflexão, de diálogo das propostas da organização ao passo que o trabalho externo é a possibilidade de estabelecer contato direto com simpatizantes, com cooperadores, como forma de apoio e de divulgação da organização e adesão à causa do movimento. Gostaria de ressaltar duas questões, a primeira diz respeito aos jornais das organizações populares, que como o MST, são um lugar de investimento de dizeres específicos ou marcas de identidade que caracterizam um determinado grupo social por orientarem sua fala para, conforme Alkimim (2000: 31), “seu comportamento verbal por um mesmo conjunto de regras”, neste caso “regras” e atitudes lingüísticas de dizer, de uso e de prática social sobre o jornal e também ideológica. 3.1 Instrumento lingüístico Pode-se afirmar que os grandes movimentos populares não têm acesso aos meios de comunicação social e “oficial”, o que é notório também que esses meios possuem uma roupagem ideológica, mesmo negando-a sob o signo da neutralidade de informação. Ela, comunicação social, aponta para objetivos e interesses específicos a partir de seus interlocutores e ou grupos. Considerando que a forma de interação entre meios de comunicação e seus interlocutores varia de grupo social, de categoria para grupo social e categoria para, assim atender (constituir) certas demandas que representam os interesses mútuos, mas não no mesmo nível. No entanto, o conjunto de idéias, de práticas, de estratégias, de modalidades enunciativas é posto sob o signo da neutralidade da informação social nos espaços específicos. Assim, a televisão, o jornal, a revista, mais recentemente a internet (rede mundial de computadores), o cinema em certa medida, o panfleto, o boletim, o informativo são instrumentos lingüísticos que atendem a objetivos explícitos e/ou implícitos para satisfazer às necessidades e interesses sociais. Convém ressaltar que os interesses e as necessidades são heterogêneos, no entanto elas possuem algo em comum que se possa dizer que pertencem a um grupo ou a uma categoria específica. Nessa complexa relação entre interesses sociais e instrumentos lingüísticos de massa e de comunicação o que está, em alguma instância, na base dessas 12 proposições é a configuração do formato, sempre inacabado, de identidades que se ritualizam cotidianamente. O jornal do MST não é uma exceção à regra, ele também atende a objetivos e demandas específicas na sua configuração, na sua reconfiguração, na sua manutenção e na sua interação. Esta interação se caracteriza pela relação constitutiva entre o Jornal e seus interlocutores, quer seja eles internos ou externos. 3.2. Alguns aspectos: suporte material De acordo com Maingueneau4 (2001: 71-2), para o suporte material de comunicação é necessário reservar um lugar importante ao modo de manifestação material dos discursos, ao seu suporte, bem como ao seu modo de difusão: enunciados orais, no papel, radiofônicos, na tela do computador etc. Essa dimensão da comunicação verbal foi durante muito tempo relegada a segundo plano. (...) Hoje estamos cada vez mais conscientes de que o mídium não é simples “meio” de transmissão do discurso, mas que ele imprime um certo aspecto a seus conteúdos e comanda os usos que dele podemos fazer. O midium não é um simples “meio”, um instrumento para transportar uma mensagem estável: uma mudança importante no midium modifica o conjunto de um gênero de discurso. Uma das características importantes do “meio” é o seu caráter escrito que “não é uma mera representação do oral, nem o impresso uma simples multiplicação do escrito. Oral, escrito são regimes de enunciações distintos” (idem, 79), uma vez que o Boletim possui a finalidade de ser um texto breve de caráter informativo, e posteriormente o Jornal que possuirá outros objetivos, destinado à circulação interna ou externa, à divulgação pública quer seja de órgãos oficiais, quer seja de classe ou de instituições. O Boletim e o Jornal, enquanto suporte material das produções textuais do movimento, se configuram em um espaço de comunicação e de interlocução dos agricultores sem-terra. É importante considerar que o acabamento, o formato e a especificidade do instrumento de comunicação interna e externa do movimento vão se 4 As considerações de Maingueneau situam-se na Análise do Discurso, no entanto essas considerações são importantes para compreender alguns dos aspectos do desenvolvimento do instrumento lingüístico como parte do desenvolvimento do próprio movimento dos agricultores sem-terra. 13 transformando em seus aspectos materiais, estéticos e textuais à medida que o próprio movimento solidifica e desenvolve sua posição política e social. É possível constatar esse movimento de transformação do Boletim. O cabeçalho foi sofrendo alterações já a partir do número 02. Sobre o cabeçalho já modificado, na parte direta do nome SEM TERRA aparece uma tarja em diagonal em letras pequenas em duas linhas: “BOLETIM INFORMATIVO DA CAMPANHA / DE SOLIDARIEDADE AOS AGRICULTORES SEM TERRA”. Na primeira página do Boletim número 01, as informações são divididas em colunas. No número 03 aparece a primeira fotografia na capa; no número 09 aparece um cartaz reduzido sobre o dia do colono; no número 12 aparece o primeiro texto em duas e três colunas a partir da página dois, fato que será uma constante; o que representa uma mudança significativa em relação aos textos “corridos e datilografados”; na edição especial de 23/02/1982 surge uma história em quadrinho contando a história do nascimento do movimento; no número 20 a página número dois possui uma configuração gráfica de várias colunas em letras bem pequenas, o que representa um trabalho de tipografia e não mais datilografado em duas ou três colunas; no número 21 aparece alguns desenhos estilizados junto a alguns textos, inclusive no cabeçalho. Outro aspecto significativo é que o Boletim deixa de ser datilografado e mimeografado e passa a ser um trabalho gráfico elaborado; no número 23 aparece a primeira charge na página número dois; no número 26 é instituído um espaço para o editorial ainda que pequeno, mas que irá ocupar cada vez mais um espaço maior na página número dois. Assim, o Boletim vai adquirindo configurações trabalhadas que correspondem também a constituição de identidade do movimento de acordo com o tipo de posicionamento na luta pela reforma agrária. O número 35 é o último como Boletim, nele já há o anúncio na página número dois que a próxima edição será Jornal dos Trabalhadores Sem Terra: em junho está prevista a primeira edição do Jornal dos Trabalhadores Sem Terra, formato tablóide – isto quer dizer, o dobro do atual boletim -, 12 páginas, tiragem inicial de 10 mil exemplares e com circulação na Regional Sul e outros estados do país. A decisão de transformar o boletim em jornal foi tomada durante o Encontro Nacional dos Sem Terra, realizado em Cascavel (PR), no começo do ano. 14 Uma equipe de 10 jornalistas trabalhará na edição que vai continuar com a colaboração dos próprios lavradores, pessoas ligadas ao trabalho pastoral, sindicalistas e estudiosos da problemática agrária (B.02/35/04/1984). A partir do número 77 (10/1988), o cabeçalho sofre a última alteração, passando assim a ser Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. A inclusão da palavra “rurais” acentua um tipo de identidade específica de vinculo direto com atividades ligadas a terra. Esse aspecto do Boletim que passa a Jornal pode ser constatado no seu cabeçalho que sofre transformações desde o número 02 até se transformar em Jornal. Esse movimento de transformação, de significação e de ressignificação acontece em decorrência do movimento ainda não possuir identidade estabilizada, mas que se vai estabilizando nas sucessivas edições do Boletim, primeiro momento, e depois no Jornal. 3.3 Alguns aspectos descritivos O Jornal Sem Terra editado pela ANCA – Associação Nacional das Cooperativas Agrícolas - SP – é continuação do Boletim SEM TERRA / Boletim Informativo da Campanha Solidariedade aos Agricultores Sem Terra. O Boletim SEM TERRA teve dois propósitos, o primeiro foi manter informados os acampados da Encruzilhada Natalino, Ronda Alta-RS, “os colaboradores” da “campanha de solidariedade”, as entidades sociais como sindicatos e federações de trabalhadores rurais e urbanos, comunidades de base da Igreja Católica, a opinião pública, outras entidades nacionais e ainda ampliar a campanha para todo país. O segundo propósito já de caráter político diz respeito à renovação dos “ânimos” dos acampados para “sustentação da luta”. O número 01 (15/05/1981) foi editado pelo “Movimento de Justiça e Direitos Humanos e a Comissão Pastoral da Terra” do Rio Grande do Sul. O Boletim foi datilografado e mimeografado, possui um cabeçalho ao alto da primeira página escrito “sem terra” em letras grandes de cor preta, logo abaixo escrito em letras menores “boletim informativo da campanha de solidariedade aos agricultores sem terra”. O texto da primeira página foi uma “carta dos colonos” a comunidade em geral decidida em assembléia em 15/05/1981. No final da carta tem duas palavras de ordem entre aspas: “preço da paz, é terra e justiça para todos”, “terra para quem nela trabalha”. 15 Na segunda página há uma apresentação do Boletim explicitando seus objetivos e os responsáveis pela edição, em seguida um texto intitulado “HISTÓRIA DE UM POVO OPRIMIDO” que terá continuidade em várias edições. Também há uma página com encarte do jornal Zero Hora (12/05/1981). O primeiro Boletim tinha doze páginas, número que vai variar muito, alguns Boletins chegam até vinte páginas. Nesse primeiro número os textos são de apóio ao movimento como notas (pequenos textos), listas (relação de apoiadores), telegramas de instituições e personalidades, e cartas de sindicatos, de federações, de associações, de outros movimentos populares de várias partes de país. A partir do número 02 (28/05/1981) o Boletim vai gradativamente se modificando tanto na sua diagramação quanto nos tipos de textos até se transformar em Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. 3.3.1. Alguns aspectos materiais: do Boletim ao Jornal a) A primeira edição foi de 700 exemplares mimeografados; b) o cabeçalho modifica-se do número 01 (15/05/1981) para o número 02 (28/05/1981) e permanece o mesmo até o número 04 (11/06/1981); o número 05 (19/06/1981) e 06 (29/06/1981) já é outro modelo; do número 07 (01/06/1981) até o número 28 (1ª. Quinzena de 10/1982) e o suplemento especial de 08/11/1982 permanecem o mesmo; do número 29 (02/1983) até número 33 (11/1983); os números 34 (02/1984) e 35 (04/1984) são diferentes. A partir do número 36 (07/1984) acontece a passagem de Boletim para “Jornal dos Trabalhadores Sem Terra” onde haverá a estabilidade de cabeçalho; a partir do número 77 (10/1988) ocorre a última transformação no cabeçalho; c) a periodicidade dos primeiros números é muito variável, a tendência oscila entre quinzenal a mensal, no entanto há mês que são editados três números como também há mês que não há edição; d) a partir do número 02 gradativamente a diagramação vai tomando um aspecto mais elaborado: colunas, fotografias, desenhos, charges, poesias, letras de música, expediente, editorial (no. 24, 2ª quinzena de 06/1982); 16 e) o editorial aos poucos vai ocupando um espaço maior, quer no formato, quer no que diz respeito ao seu conteúdo; f) a partir da edição especial de 23/02/1982, entre os números 18 e 19, o Boletim passa a ser editado pelo Comitê de Apoio aos Agricultores Sem Terra; g) a partir do número 20 (26/04/1982), o Boletim passa a ser editado eletronicamente por completo, não sendo mais datilografado; h) no número 25 (2ª quinzena de 07/1982) o Boletim passa a ser regional (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo) com uma tiragem de 2.550 exemplares que aumentará gradativamente; i) no número 33 (11/1983), o “expediente” é composto por uma equipe: jornalista responsável, distribuição, arte, colaboradores, produção gráfica, e uma tiragem de 5.000 exemplares; j) no número 35 (04/1984), é anunciada a decisão do Encontro Nacional dos Sem Terra (Cascavel - PR) que no próximo número (36, 07/1984) o Boletim passará a ser “Jornal dos Trabalhadores Sem Terra” com 10.000 exemplares, com o formato de 12 páginas tipo tablóide, colorido, mensal, com uma equipe de dez jornalistas, com colaboradores ligados aos próprios lavradores, aos sindicatos, à pastoral e “estudiosos da problemática agrária”, nessa edição o Boletim já possui uma tiragem de 7.000 exemplares; l) no Jornal número 36 (07/1984), a publicação passa a ser do “Movimento dos Trabalhadores Sem Terra da Regional Sul (RS, SC, PR, SP e MS)”. O Jornal possui a seguinte divisão de execução: editores, reportagem em cada Estado, planejamento: gráfico e arte, revisão, ilustração, fotografia, distribuição, composição, impressão, redação, correspondência, tiragem, produção gráfica, e jornalista responsável; m) no número 36, o Jornal traz na página número 02 uma matéria sobre a história do Boletim/Jornal, sua distribuição, seus objetivos, seu desenvolvimento e sua importância para a luta dos sem terra; n) no número 43 (março-abril/1985), o Jornal passa a ser vendido também por assinatura anual; a sede do Jornal é transferida para São Paulo-SP; com uma tiragem de 20.000 exemplares; a publicação do Jornal também passa a ser aos poucos nacional com representantes em todos os Estados; 17 o) no número 46 (08/1985), a coluna editorial é substituída pela coluna “assunto para discussão”, que irá ocupar aos poucos a segunda página inteira, até o número 76 (09/1988); p) no número 47 (09/1985), traz na página 02, juntamente com o expediente uma definição dos sem terra: “Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra” como “uma articulação de lavradores dentro do Movimento Sindical, que tem por objetivo lutar pela terra e pela Reforma Agrária. Está organizado em núcleos, comissões municipais e estaduais e possui uma Coordenação e uma Executiva Nacional, composta pelos seguintes lavradores...” q) no número 77 (10/1988) a equipe é mudada, o Jornal passa a ser denominado de “Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra”, a coluna “assunto para discussão” é substituída pela coluna “nossa posição” que ocupa a página inteira; r) no número 84 (06/1989) a coluna “nossa posição” é substituída pela coluna de “cartas” que no Jornal de número 94 (06/1990) é modificada passando a ser a coluna “curtas/cartas”; s) no número 95 (08/1990) a coluna passa a se chamar novamente “nossa posição”; t) no número 97 (01/1990) a coluna “nossa posição” é substituída pelo editorial que dividirá o espaço com outras colunas (“cartas”, “socialismo”, “calendário” etc.) na página 02. Essas são algumas das transformações que ocorreu no instrumento de comunicação dos sem-terra. O enfoque recaiu sobre a primeira e a segunda páginas uma vez que estas primeiras páginas representam um espaço cuja alteração reflete no restante do Boletim/Jornal. 3.3.2 Alguns aspectos textuais: do Boletim ao Jornal Outro aspecto a ser descrito diz respeito aos tipos de gêneros textuais (Bakhtin, 2000: 327-358) que constituíram, primeiramente o Boletim, e posteriormente o Jornal. Os gêneros textuais podem servir de indicativos do tipo de desenvolvimento e/ou transformação do movimento dos sem-terra, isso considerando que eles não são simples “formatos” textuais em que o movimento expressa suas propostas, seu tipo de organização, suas idéias, suas lutas, suas necessidades. Assim, os tipos de gêneros textuais podem, em alguma medida, revelar a relação constitutiva entre os sem-terra e seu instrumento lingüístico, ou meio de comunicação 18 interno e externo ao movimento. O surgimento e/ou o desaparecimento de um gênero no Boletim e/ou no Jornal não está ao acaso, a sua utilização está relacionada com as condições materiais de existência do movimento da qual demanda um tipo de comunicação específica por meio de certos gêneros textuais. De forma geral, os gêneros textuais são os seguintes do Boletim ao Jornal. 3.3.3 Boletim - carta “aberta dos colonos” decidida em assembléia; expediente do Boletim; narrativa “sobre a história dos agricultores”: “História do Povo Oprimido”; carta “de apoio”; carta ao papa João Paulo II; nota de “solidariedade”, de “apoio” e do acampamento Encruzilhada Natalino; lista “de instituições, movimentos de apoio e personalidades”; matéria descritiva copiada, extraída do Jornal Zero Hora (12/05/1981) e outros jornais; notícia do acampamento da Encruzilhada Natalino, de outras ocupações; matéria dissertativa sobre questões de reforma agrária, sobre leis; “poesia” de um agricultor; frase “de efeito” ou palavra de ordem; letra de música; “história em quadrinho”; quadrinho; editorial; ilustração; fotografia; calendário de atividades dos agricultores sem terra do país. 3.3.4 Jornal - Editorial; charge; quadrinho; expediente; fotografia; ilustração; desenho; matéria: informativa, descritiva, dissertativa; cartas: do “leitor”, dos sem terra; notas; entrevistas; frases “de efeito” ou palavra de ordem; nota de revisão: “erramos”; matéria para “debate”; cartaz; frases de personalidades, de intelectuais; calendário de atividades de interesse do movimento; fragmento de poema. 4. Contato, observação, relato e aplicação de questionário O trabalho de campo teve o seguinte roteiro: contato, observação, entrevistas e aplicação de questionário: 19 a) duas visitas ao Acampamento Nova Conquista (Castilho-SP, outubro/2003-agosto/2004): uma para observação e uma para aplicação de questionário; b) duas visitas ao Acampamento União da Vitória (Suzanápolis-SP, outubro/2003agosto/2004): uma para observação e uma outra para aplicação de questionário; c) duas visitas à ANCA – Associação Nacional de Cooperativas Agrícolas (São Paulo-SP, novembro/2003-janeiro/2004) para entrevistar a editora do Jornal dos Sem Terra. d) sede do MST em Andradina para fazer contato: uma para observação e marcar uma entrevistas e a outra para entrevista; e) um encontro, entrevista, com o padre René em Andradina (SP) em abril/2004; f) Uma entrevista com estudante Marcelo (simpatizante e colaborador do MST), acadêmico do Diretório Central dos Estudantes (UNICAMP-SP, janeiro/2004). Resumo do corpus (quadros) para análise e discussão se encontram no tópico 5. 4.1 Acampamento Nova Conquista 4.1.1 Primeira visita A primeira visita foi feita a um acampamento na cidade de Castilho-SP (durou o período da manhã), divisa com Mato Grosso do Sul. Após o contato com o Padre René, tive que esperar cerca de duas semanas para ir ao acampamento. O acampamento tem cerca de nove meses de existência, lá estão acampados cento e trinta pessoas, incluindo crianças. A minha chegada coincidiu com o início de uma reunião. Após uma breve conversa com o Padre René, fui apresentado ao grupo por um ritual de saudação (falei um pouco de mim, o que fazia, qual era o meu propósito em visitar um acampamento dos semterra). Em seguida deu-se início a reunião com a leitura da pauta pela coordenadora. Após a reunião o grupo se dispersou, momento em que conversei um pouco com o Padre René. Ele organiza cursos periódicos de “formação de coordenadores”; possui assinatura do Jornal e da Revista do MST, mas não tinha nenhum exemplar recente com ele no momento. 20 Em seguida conversei com a nova coordenadora do Acampamento, a conversa foi rápida também, ela portava uma pasta com fichas de cadastro dos acampados, um caderno de anotações, onde havia uma lista com divisão de tarefas entre outras. O acampamento é composto por diversos barracos, só de um lado da rodovia, de lona preta (velha ou nova) e/ou de plástico grosso de propaganda, com armação de bambu, de madeira velha ou madeira retirada de árvores próximas ao acampamento, amarrados com corda ou arame. Os barracos são pequenos, alguns com divisão interna, os barracos são distribuídos um ao lado do outro com mais ou menos dez a vinte metros de distância. De acordo com a distância entre a cerca da propriedade e a beira rodovia ou estrada, eles ficam mais ou menos distantes. Eles são organizados por famílias. Os banheiros são coletivos. Mais ou menos no centro de acampamento há um barracão para reuniões, que funciona também como “sala de aula” para jovens e adultos. Nos barracos, há dois tipos de energia, de lampião ou de lamparina, que nem todos possuíam. Não havia como arranjar um “bico de energia”. Cada conjunto de famílias é responsável por um tipo de atividade: informação, organização de reunião, limpeza, alimentação, segurança etc.. O acampamento se estendia por mais os menos duzentos metros em frente de uma propriedade que não era a reivindicada, de acordo com o padre René, a propriedade reivindicada fica a cerca de sete quilômetros. Em decorrência de ameaças de morte dos fazendeiros e dos “pistoleiros”, os sem-terra resolveram acampar naquele local. Ver em 5.1 o quadro (síntese) das observações de campo. 4.1.2 Segunda visita: aplicação de questionário A segunda visita também foi rápida (durou o período da manhã), a coordenadora indicou alguns acampados que estavam por perto e que estavam dispostos a responder ao questionário, em um total de sete entrevistados. A proposta do questionário tem como objetivo investigar duas questões básicas: a primeira diz respeito à circulação do jornal do MST em seus acampamentos; a segunda, qual ao uso que se faz do jornal nos acampamentos, considerando os acampamentos em que 21 ele circula. Considera-se também a possibilidade do Jornal não circular em alguns acampamentos. O questionário abrange dois tipos de perguntas, a primeira é objetiva, fechado com possibilidades específicas, já a segunda possui um certo caráter de subjetividade, a partir da qual é possível formular questões sobre o tipo de opinião e representação que os acampados constroem sobre o jornal. Foram tabulados alguns itens significativos do questionário. Ver quadro em 5.2. 4.2 ANCA – Associação Nacional de Cooperativas Agrárias A sede da ANCA é uma casa antiga de dois andares, com muro alto, com cerca eletrificada, possui portões inteiriço de aço, ou seja, de chapa inteiriça, com câmeras de segurança interna e externa. O portão é eletrônico, há sistema de interfone para identificação. 4.2.1 Primeira visita Após a identificação por interfone (nome, procedência, objetivo, indicação) fui atendido pela recepcionista que pediu que aguardasse, pois viria uma pessoa cuja função é receber e conversar com estudantes. Em decorrência da demora ela me ofereceu um café e um copo de água. Como não tinha movimento de expediente aparente, fui conversar com ela dizendo que conhecia (já havia feito contato em 2000) os jornalistas Valdireni e Miltom (hoje editores do Jornal Brasil de Fato) quando fiz a minha dissertação, e que foram eles que me forneceram todo o material (editorial dos boletins e jornais). Com essa informação ela resolveu me indicar para falar diretamente com um dos jornalistas responsáveis pela edição. Veio a Cristiane. Ela foi logo dizendo educadamente que eles estavam fechando o Jornal, mas mesmo assim, pelas referências, ela iria conversar comigo alguns minutos e iria marcar uma outra data para uma conversa mais demorada. 4.2.2 Segunda visita 22 Após várias tentativas frustradas, tanto da minha parte como da parte da Cristiane, de acertar uma data. No mês de maio (2004) conseguimos gravar uma conversa que transcreve a seguir alguns pontos. A entrevista foi gravada em uma sala ante-sala na ANCA. O gravador sobre a mesinha a deixou bastante incomodada durante o tempo da entrevista que durou cerca de uma hora. Ela comentou a respeito de sua trajetória desde a faculdade até ir trabalhar como editora do Jornal. Ver resumo das entrevistas (quadro) em 5.3. 4.3. Sede do MST em Andradina-SP Marquei um encontro com o padre René (17h, 30/04/2004), para agendar uma nova ida ao acampamento Nova Conquista, Município de Castilho-SP. O encontro foi na sede em Andradina (SP) que fica nos fundos do sindicato da CUT, sem acesso direto pela entrada da frente, o acesso à sede do MST fica na outra rua. A sede possui uma estrutura física rústica com três ou quatro cômodos pequenos. Na “recepção” havia vários cartazes pregados nas paredes de Che Guevarra e do próprio MST sobre reforma agrária; um balcão com várias pilhas de jornais e panfletos: Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O número referente ao mês de fevereiro traz em destaque: “MST: 20 anos de lutas, conquista e dignidade”; no número referente ao mês de abril: “MST se mobiliza em todo o Brasil”. Havia também o Jornal Brasil de Fato, panfletos do primeiro de maio, dia do trabalhador. O padre René me “indicou” um outro acampamento, Nova Conquista no município de Suzanápolis-SP. Em seguida me apresentou ao Jadson (mais ou menos 20 anos de idade) e ao Chiquinho (mais ou menos 30 anos de idade), militantes do MST. Eles estão desenvolvendo um trabalho de “revitalização do acampamento”. Ver em 5.4 o quadro a respeito das observações. 4.4 Acampamento União da Vitória 4.4.1. Primeira visita 23 O acampamento é composto por diversos barracos, dos dois lados da estrada, de lona preta (velha ou nova) e/ou de plástico grosso de propaganda, com armação de bambu, de madeira velha ou retirada de árvores, amarrados com corda ou com arame. Os barracos são pequenos, alguns com divisão interna, os barracos são distribuídos dois lados da estrada, um ao lado do outro com mais ou menos dez a vinte metros de distância. De acordo com a distância entre a cerca da propriedade e a beira rodovia ou estrada, eles ficam mais ou menos distantes. Eles são organizados por famílias. Os banheiros são coletivos. Nos barracos, a energia era de lampião ou de lamparina ou ainda de bateria de automóvel. Não havia como arranjar um “bico de energia”. Cada conjunto de família está organizado em coordenação que é responsável por um tipo de atividade: informação, organização de reunião, limpeza, alimentação, segurança entre outras. O acampamento se estendia por mais de quatrocentos metros em uma estrada marginal perto do município. A minha visita já era esperada. Cheguei por volta das nove horas da manhã. Fui recebido pelo Chiquinho, conhecido também por Quiqui. Ao me apresentar para os outros acampados, Chiquinho ressaltou que eu era o “rapaz” de que ele havia falado na reunião da manhã. Em seguida me levou até a barraca do Jadson e a do Paulo César, este último era chamado normalmente por Giraia (mais ou menos 22 anos, veio da Grande São Paulo). O Chiquinho, o Jadson e o Giraia eram nomeados de “militantes do MST” pelos demais acampados. Os três tinham vindo de outros acampamentos do MST e foram designados para o acampamento União da Vitória para fazer a “revitalização do acampamento”. De forma geral, nas sucessivas conversas com os acampados, a história do acampamento é seguinte: a terra já está desapropriada constando inclusive nos órgãos do governo (Estadual e Federal). O antigo dono comprou apenas uma parte “legalmente”. Ele era um alemão que também comprou uma patente de Capitão do Exército com o dinheiro que trouxe da Alemanha. Como a área em volta era devoluta, ele foi se apropriando e expulsando os agricultores. Ali perto havia um rio onde mandava matar as pessoas que se recusavam ir embora. 24 Após a morte do Capitão, a antiga dona, chamada de Suzana, doou uma parte da fazenda para o distrito, onde é o centro da cidade hoje. Em homenagem a ela, o distrito passou a se chamar Suzanápolis. Um outro fato é que os donos morreram sem deixar herdeiros diretos, a terra estava arrendada para um sobrinho que arrendou para um terceiro, chamado Natan. A terra já havia sido vistoriada sucessivas vezes pelo Idaesp – Instituto de Análise de Terra de São Paulo – a pedido do Incra. Em todas às vezes o parecer do Idaesp a considerou “improdutiva”. Foi desapropriada, dividida pelo Incra para ser assentada nela cento e setenta e duas famílias das quais mais da metade já estavam no local aguardando a autorização do Incra para a entrada definitiva que aconteceria após demarcarem os lotes. A verba já havia sido depositada na conta do herdeiro, constando inclusive para o governo Federal e Estadual como assentamento realizado. No entanto, segundo os acampados, para surpresa, um juiz da Comarca Regional pediu a um “consultor” do Fórum para fazer uma vistoria que culminou com “ordem de despejo” dos acampados em favor do Sr. Natan, um arrendatário que trabalha para as grandes usinas de cana da região e tem “costa larga” com a justiça. Diante desse fato que frustrou a todos, o Incra e o movimento já entraram com recurso em uma instância superior. Segundo eles (acampados), na Comarca da Região os pareceres judiciais são sempre em prol dos latifundiários, no entanto a questão neste momento é de tempo, pois uma vez desapropriada, não há mais retorno. Há hoje no acampamento cento e trinta e duas famílias, cerca de quatrocentas pessoas. Elas mantêm “uma boa relação” com as pessoas da cidade e o comércio local que vende na “caderneta” para o MST. Com a chegada do MST na cidade, ninguém queria vender na “caderneta”, no entanto um mercadinho vendeu e com isso acabou se transformando em um supermercado. O prefeito envia um ônibus para buscar as crianças e levar para a escola. No início ele se recusou, mas como foi denunciado ao Conselho Tutelar da Criança e do Menor, ele não resistiu mais. Quando eu cheguei havia um Sargento da Polícia Militar conversando com alguns acampados. Segundo eles, o Sargento estava “aconselhando” alguns a irem embora, no 25 entanto eles apenas ouvem e não dizem nada para não serem preso ou sofrerem ameaças. A polícia usa a estratégia de cada vez mandar um policial diferente. Constatei que em muitas barracas existiam vários cartazes do MST: “Ao Povo Brasileiro e ao Presidente Lula, 10 Mandamentos” (Coordenação Nacional, Caruaru – Agreste de Pernambuco, 8/11/2002); Cartaz do presidente Lula com o Boné do MST; cartaz do Che Guevarra; Carta da Terra; a bandeira da Via Campesina hasteada em frente à entrada da barraca do coordenador Giraia. Vi alguns acampados circulando com o Jornal. Segundo Jadson, o acampamento está dividido em seis núcleos: Che Guevarra, Chico Mendes, Por do Sol, Luiz Beltrame (poeta do MST, sem-terra de 96 anos que participa de todas as marchas do MST, puxou a marcha a Brasília em 1997), Renascer. Os núcleos são grupos de famílias que tem dois coordenadores simultâneos, um homem e uma mulher “necessariamente para trabalhar o gênero”. Cada núcleo é responsável por um tipo de atividade no acampamento. Ver em 5.5 o resumo das anotações que tive com vários acampados. 4.4.2 Segunda visita: aplicação de questionário A segunda visita foi rápida (durou o período da manhã), a coordenadora indicou alguns acampados que estavam por perto e que estavam dispostos a responder ao questionário, em um total de sete entrevistados (ver 4.1.1). Ver em 5.6 o resumo da aplicação do questionário. 4.5 Diretório Central dos Estudantes (UNICAMP) Após as idas aos acampamentos, resolvi entrevistar algum membro do Diretório Central dos Estudantes – DCE - da UNICAMP. Ao chegar no DCE (12/05/2004, por volta das 13h) observei a existência de cartazes do Che Guevara, do MST, de Campanhas Nacionais promovidas pelos movimentos populares etc., fui informado que a Diretoria havia sido destituída em decorrência de problemas “burocráticos/estatutários”. Quem estava respondendo provisoriamente pelo DCE era uma comissão formada pelos representantes do CAs, Centros Acadêmicos, que tinham como objetivo organizar a próxima eleição. 26 Após a minha apresentação e de esclarecer qual era o meu objetivo, uma das representantes me apresentou ao Marcelo José Azevedo (24 anos, estava vestido com uma camisa vermelha do MST, CA do curso de engenharia de alimentos). A conversa aconteceu no salão de reuniões com vários presentes, transcrevo algumas falas do Marcelo que resultou em algumas anotações, ver em 5.7. 5. Análise dos dados Os dados foram organizados e resumidos em quadros como resultado de cada etapa acima para análise e discussão, como segue. 5.1 Quadro 1: Acampamento Nova Conquista: primeira visita Padre René Coordenadora Uso do Jornal Assinatura do Jornal Circulação Possui o Jornal Tipo de Leitura Freqüência de Leitura - + - - + + Individual Individual - Atitude em relação ao Jornal - Obs.: sinal: – (não); + (sim). O primeiro quadro, embora muito simples, nos oferece algumas descrições: nela não consta alguma referência a respeito do uso e da prática do Jornal, não há circulação do Jornal no Acampamento, como também não foi feita nenhuma referência à freqüência de leitura e nem à atitude em relação ao Jornal. No entanto, o Coordenador Regional possui assinatura do Jornal, já a Coordenadora não, condição que não a impede de possuir e ler o Jornal. O fato de o acampamento ser “novo” (sete meses) pode ser um tipo de indicativo entre outros, se levar em conta que há acampamento com cinco anos de existência. Esse fato para a circulação do Jornal e tudo que possa decorrer dessa circulação é significativo. Outro fator pode ser a troca de coordenação (a Coordenadora tinha assumido há poucos dias a função, o coordenador anterior foi enviado para outro assentamento que necessitava 27 de “alguém” mais experiente). No entanto, mesmo sem circulação, a Coordenadora possui e lê o Jornal. A hipótese que poderá ser confirmada nos outros quadros é que o contato, o uso, e a leitura do Jornal não está relacionada diretamente com a circulação no acampamento, ele depende também em alguma instância do tipo de participação e atividade desenvolvida no acampamento pelas lideranças como encontros, passeatas, cursos (como o do Padre René), manifestações etc.. 5.2 Quadro 2: Acampamento Nova Conquista: segunda visita, aplicação de questionário 01 03 04 Informantes Tempo de 5 Acampado (anos) 06 2 3 a a 3 4 4 a 5 5 a 6 Conhece Possui Material do Material? MST? 6 Sim Não Sim Não a 7 07 6 1 - - - 08 09 6 10 1 1 5 11 Há circulação Conhece o Lê o JST? de Material? JST? Freqüência de Leitura Sim Não Sim Não Sim Não + - - 6 5 1 4 - -1 1 12 13 14 15 Há Grupos de Leitura do JST? Sim Não Tipo de Leitura do JST A Importância do Jornal7 Individual Em grupo Coletiva Concorda com o Conteúdo do Jornal6? Sim Não - - - 3 2 5 - - - + - Dos 7 informantes 1 é analfabeto, esse dado incidirá sobre o restante das questões. Neste item, dois informantes não quiseram responder. 7 Neste item, um informante não respondeu. 6 Não Sabe 28 16 17 Há Estímulo à leitura? Sim Não Freqüência de Estímulo a Leitura + - - - - - Esse quadro permite algumas leituras: Dos 7 informantes, 6 conhecem o Jornal e 1 não (coluna 9). Na coluna 4, 6 informantes conhecem o “material do MST” (de comunicação) e 1 não. Essas duas respostas são significativas, pois elas vão incidir sobre outras colunas: 11, 12, 13, 16 e 17, uma vez que dos 6 que conhecem o material, apenas 1 o possui. Essa condição torna as questões das colunas 11, 12, 13, 16 e 17 sem um posicionamento, ou seja, sem resposta. O acampamento a beira da estrada, perto da fazenda que o movimento reivindica para desapropriação, acontece como conseqüência de um processo longo, desde a “convocatória” - para formar um grupo de agricultores sem terra para se constituir em semterra, a organização, a “indicação da fazenda”, informações “técnicas” (IBGE, INCRA, IDAESP, prefeituras etc.) - sobre a fazenda até ao assentamento. Essas considerações são importantes para compreender que a circulação e uso do Jornal nos acampamentos estão relacionados ao tipo de organização local, de acordo com Cristiane (editora do Jornal), o tempo de existência do acampamento é um dos indicadores para a circulação, uso e prática do Jornal, embora não seja o determinante. A circulação e uso do Jornal passam pelo custeio, pela distribuição nas secretarias regionais, locais e até ao tipo de significado que o grupo confere ao Jornal etc.. O fato de conhecimento de algum tipo de material do MST (livros, cartilhas, revistas, panfletos, boletins, informativos, cartazes) e do próprio Jornal (colunas 4 e 9) não chega a garantir a sua aquisição direta (coletiva ou individual), a sua circulação e o seu uso no acampamento (colunas 6 e 8). Esse fato ainda, de alguma forma, inviabiliza práticas de leituras do Jornal como pode ser observado nas colunas 11, 12, 13, 16 e 17. 29 Possuir o Jornal (coluna 6) no acampamento não garante a sua circulação (coluna 8) e a sua leitura (coluna 10, 11, 12, 13, 16, 17), no entanto é significativo que houve respostas à questão nas colunas 14 e 15. A falta de circulação do Jornal (coluna 8) não se constitui em condição para o acampado não conhecê-lo (coluna 9), não possuí-lo (coluna 6), não lê-lo (coluna 11), e ainda em opinar sobre ele (colunas 14 e 15) ou ter algum tipo de atitude em relação a ele. O conhecimento do Jornal (coluna 9) pelos acampados, não implica diretamente na sua circulação (coluna 8) e na sua leitura (coluna 10). 5.3 Quadro 3: ANCA – Associação Nacional de Cooperativas Agrárias: segunda visita Equipe do Jornal Matérias do Jornal Origem do Jornal Função do Jornal Alcance do Jornal Atitude em relação ao Jornal Objetivos do Jornal Circulação interna Circulação externa Tipo de leitura Divisão do Jornal Montagem do Jornal Editora do Jornal: Uso e Prática Havia mudado. Editora, revisão, produção, distribuição, “rede” de colaboradores. Textos, entrevistas, cartas, crônicas, relatos etc. 1982 (1ª. fase como Boletim), 1984 (2ª. passou a Jornal). Para ser lido, informar, formar (formação política), servir de material de estudo. Interno e externo ao movimento. Há uma mística, elo de integração do movimento, preocupação com a norma padrão, os acampados e assentados escrevem cartas para o Jornal, fazem críticas e elogios ao Jornal. Estimular as leituras, estabelecer comunicação entre os agricultores, estabelecer diálogo com a sociedade. Secretarias regionais, acampamentos, assentamentos, assinaturas (individual, entidade), chega de 70% a 80 % do movimento; depende do tipo de organização das regionais (acampamentos e assentamento, mais experientes, menos experientes). Para a sociedade como um todo, há um setor de assinaturas, há assinatura: individual, entidade, nacional e internacional. Individual, grupo (cinco pessoas), debate, discussão. Artigos, cartas, entrevistas, página internacional. Reunião, discussão da pauta, indicações para escrever os artigos (especialistas). Esse quadro descreve o Jornal desde a sua organização funcionamento interno (Equipe do Jornal) até ao seu uso e a sua prática nos acampamentos e assentamentos. Alguns aspectos do Jornal são, de certa forma, iguais aos jornais comerciais quanto ao seu funcionamento, como: “Equipe de Jornal”, “Matérias do Jornal”, “Divisão do Jornal” e “Montagem do Jornal”. Nisso há uma atitude positiva pois demonstra que embora 30 seja de um movimento popular (que no imaginário comum figura como algo precário, inconstante) há uma organicidade que possa demonstrar um tipo de “seriedade” e de “importância” social do movimento. No entanto, os demais itens do quadro marcam um lugar social específico do Jornal, pois sua função, para além de ser lido, é um elemento de divulgação da situação dos sem-terra, formador de “consciência” política de classe, ou seja, um elemento com potencial transformador que precisa ser “trabalhado” (como servir de “material de estudo”) e quanto a sua forma de ser lido e compreendido. Esses aspectos dizem respeito tanto à forma (circulação, uso e prática) interna quanto externa ao movimento considerando o seu alcance. Dois itens importantes, no quadro, que é uma das hipóteses desse trabalho referem-se a sua circulação: interna e externa. O Jornal embora sendo um possui dois objetivos quanto a sua circulação em alguns espaços sociais. A circulação interna corresponde ao seu objetivo interno, no entanto a circulação externa redimensiona esse objetivo como forma de diálogo com a sociedade e marca um espaço de existência perante ela. O item de “atitude em relação ao Jornal” reflete uma certa visão sobre o Jornal que transcende aos aspectos materiais de sua existência, há um sentimento de pertence que mistifica não somente o movimento, mas principalmente o Jornal. 5.4 Quadro 4: Sede do MST em Andradina-SP Atitude em relação ao Jornal Função do Jornal Distribuição do Jornal Uso e prática (Jornal) Padre René Relevante, veículo de comunicação (acampamento, assentamento, sociedade), unifica a luta dos agricultores. Informar, formar (formação política), objeto de discussão, de diálogo (interno e externo ao movimento). Há necessidade de divulgação nas escolas e na comunidade de forma geral, ele não chega a todos acampados e assentados, a Central envia e as regionais distribuem para os coordenadores e militantes. Os coordenadores e militantes fazem discussão em grupo com os acampados e assentados. Esse quadro de forma geral reflete uma atitude comum a respeito do Jornal pelas suas lideranças ou militantes antigos, seu objetivo, seu uso, sua prática e sua circulação. 31 Um fator importante a ser considerado é que esse quadro corresponde à posição de uma liderança política e religiosa, formadora de “quadros” atuando e organizando os acampamentos e os assentamentos de uma região. Esse quadro também demonstra um certo tipo de funcionamento de existência do movimento e do Jornal. Há uma relação entre o que seria ideal (o esperado) e o possível (se considerar o quadro 5.1 e 5.2) em cada acampamento e em cada assentamento. É um tipo de aspecto que depende de condições contextuais e políticas locais. Uma hipótese é que quanto mais tempo de existência possui o assentamento e acampamento, o Jornal se aproxima do ideal de cumprimento de suas funções. 5.5 Quadro 5: Acampamento União da Vitória: primeira visita Atitudes em relação ao Jornal Função Distribuição Uso e prática (Jornal) Artigos do Jornal Acampamento União da Vitória Ele é a base da orientação dos acampados e assentados, o Jornal é para a sociedade conhecer a realidade dos sem-terra; a leitura é caráter político; possui um caráter interno e externo ao movimento; o Jornal é “um cartão postal”; só MST possui Jornal; o Jornal é para saber “de uma ou outra” ocupação; há sempre Jornal para ler; há pessoas (sem-terra) que não gostam do Jornal. Para ser lido, para fazer o “contra-ponto” com as informações da “grande mídia” a respeito do movimento; instrumento de diálogo com a sociedade; a venda do Jornal ajuda financeiramente o acampamento. Todo acampamento e assentamento possuem cota de Jornal (seis, um para cada núcleo); na cidade ainda não havia feita à divulgação; falta militante para divulgar o Jornal; precisa circular por diversos espaços sociais; a leitura é fundamental Leitura coletiva nos núcleos, escolha de tema para discussão, compara as informações do Jornal com as do jornal da “grande mídia”; o Jornal tem sido pouco lido; os analfabetos participam com perguntas na leitura do Jornal; há diferença entre teoria e prática (em relação ao Jornal); Os acampados e assentados colaboram com o Jornal; é fácil escrever para o Jornal. Se considerar as atitudes em relação aos quadros anteriores, o Jornal é tomado como um elemento que não só representa e constitui, mas que também seria o “cerne” do movimento de um lado, e um aspecto secundário de outro. No item “atitudes em relação ao Jornal” as posições demonstram representações distintas e não tão homogêneas internamente, representações que correspondem aos aspectos “subjetivos” (“gostar”, “para ler e saber”, “cartão postal”) e aos aspectos “objetivos” (“caráter político”). Essa tensão 32 demonstra um tipo atitude e de representação que não são estáticas, marcam a dinamicidade na constituição da representação do Jornal e formação do movimento que equivale em alguma instância ao tipo de representação que os sem-terra possuem do seu próprio movimento. O item “função” também apresenta uma atitude tensa, um tipo de representação diversificada no mesmo assentamento, pois conceber a função do Jornal como um “contraponto” aos jornais das “grande mídia” até como elemento que “ajuda financeiramente” aos assentamentos é representar a sua diversidade de uso, de prática e de circulação além de demonstrar o tipo de relação que os sem-terra mantém com o Jornal. Nos itens “distribuição, uso e prática, artigos do Jornal”, a atitude se configura como um ideal, posição comum que o Jornal deve ser lido, divulgado, precisa circular e que todos devem saber o que nele contém. É um tipo de reconhecimento que o Jornal representa o movimento tanto internamente quanto externamente. É importante ressaltar que nesse acampamento o processo pela luta da terra está “bem adiantado” com pareceres positivo a respeito da desapropriação. 5.6 Quadro 6: Acampamento União da Vitória: segunda visita, aplicação de questionário 01 03 04 06 Informantes Tempo de Conhece Acampado (anos) Material de MST? 2 3 4 5 6 Sim Não a a a a a 3 4 5 6 7 Possui Material? Sim Não 07 1 2 5 2 08 09 Há circulação de Material? Sim Não 8 - 3 1 7 10 11 8 Não Conhece o JST? Lê o JST ? Freqüência de Leitura Sim Sim + Não Neste item, um informante não lê por ser analfabeto. - 33 7 - 7 - 6 - 3 3 12 13 14 Há Grupos de Leitura do JST? Sim Não Tipo de Leitura do JST Concorda com o A Importância do Jornal9 Conteúdo do Jornal? Individual Em grupo Coletiva Sim Não 7 1 - 7 - - 7 16 17 Há Estímulo à Leitura Sim Não Freqüência de Estímulo a Leitura + - 7 - 7 15 - + - 6 - Não Sabe - - - - Esse quadro permite algumas leitura: Na coluna 3, mais 50% dos informantes possuem entre 5 a 7 anos de acampado. Esse fato é importante, pois o tempo de acampado pode representar um tipo de “vivência” no movimento, condição que implica participar das atividades não somente do acampamento, mas também do movimento como um todo. Conhecimento do material do MST (coluna 4) (livros, cartilhas, revistas, panfletos, boletins, informativos etc.) e do próprio Jornal (coluna 9) não representa/significa que todos o possuem (coluna 6). Possuir o material do MST (coluna 6), de forma geral, pode ser uma das conseqüências do tempo de acampado (coluna 3) e de “vivência”. A circulação do material do MST (coluna 8), conhecimento do Jornal (coluna 9) e a leitura do Jornal (coluna 10) incidi diretamente sobre: a freqüência de leitura (coluna 11), haver grupos de leitura (coluna 12), haver tipos específico de leitura (coluna 13), haver opiniões sobre o jornal (colunas 14 e 15) e estímulo à leitura (colunas 16 e 17). 9 Neste item, um informante não lê por ser analfabeto. 34 A leitura específica do Jornal (coluna 10) corresponde à existência de uma política de prática de leitura (colunas 12 e 13). Em relação à freqüência de leitura (coluna 11), três responderam haver maior freqüência e três com menor freqüência. Estas respostas estão relacionadas ao fato de que em grande medida (coluna 13) a leitura é feita em grupo de acordo com a divisão de tarefas organizativas. As questões das colunas 12, 13, 16 e 17 dizem respeito não apenas a uma política de leitura do MST, mas a uma forma de organização em torno do Jornal. 5.7 Quadro 7: Diretório Central dos Estudantes (UNICAMP) Uso e prática (Jornal) Assinatura do Jornal Distribuição Atitudes em relação ao Jornal Lê com freqüência; serve para fazer “análise de conjuntura na visão do MST”; para ser distribuído “com quem está próximo”. O DCE possuiu assinatura na gestão 2002/2003, na atual (2003/2004) não possui; sindicato: Metalúrgicos, Químicos. Regional de Campinas. É importante para saber sobre acontecimentos, posição política, o Jornal é bom. É significativa a atitude expressa nesse quadro uma vez que ela representa em alguma medida a atitude que os sem-terra possuem em relação ao Jornal com uma de suas funções externas ao movimento: ele deve circular, ser lido, ser distribuído, ser discutido, levar à sociedade a posição política do movimento de forma que possa conseguir “simpatizantes, colaboradores e defensores da sua causa”. Nesse sentido, o Jornal cumpriu sua função externa. Ver a “atitude em relação ao Jornal” que se configura como positiva. É importante considerar que essa necessidade de que o Jornal seja socialmente “conhecido”, além do já explicitado, diz respeito também à grande mídia que retrata o movimento, sua causa, suas prática significando-se de forma negativa e assim formando representações distintas e polêmicas do movimento. Nesse ponto o Jornal cumpre um papel significativo, pois ele “esclarece” o que é o MST pelo próprio MST. Considerações Finais 35 A partir do percurso feito a respeito da circulação, do uso e da prática do instrumento lingüístico do MST nos espaços internos é possível elaborar algumas considerações, ainda que frágeis, dessa relação entre língua/linguagem, sociedade e cultura. Considerando o instrumento lingüístico enquanto uma prática cultural dos grandes movimentos populares de massa, é significativo observar que ele funciona, para além de um objeto de informação e comunicação social do movimento, como um elemento de formação política interna e externa ao movimento, o que não quer dizer da mesma forma e do mesmo nível em todos os lugares. Dessa forma, ele se constitui em um espaço de encontro e de reconhecimento dos sem-terra considerando seus usos e suas práticas. Esse encontro e reconhecimento são realizados de forma direta (com a circulação do jornal no acampamento) e de forma indireta (quando os sem-terra entram em contato com o jornal em situação externa ao acampamento). A circulação do jornal nos acampamento corresponde a uma política de leitura do movimento, no entanto a circulação, o uso e a prática estão relacionadas às posturas políticas de leituras regionais e localizadas. O que de forma geral não impede que o jornal não “cumpra”, mesmo que parcialmente, um dos aspectos de sua função (informar, formar “consciência”, promover debate, esclarecer ações e conduta do movimento, estabelecer contato com todos os membros do movimento etc.). Uma vez que a circulação, o uso e a prática do Jornal estão relacionadas diretamente a sua circulação interna no acampamento, tomar conhecimento do Jornal independe dessa circulação já que uma das práticas do Jornal é que ele extrapole o espaço interno ao movimento. A circulação, o uso e a prática do Jornal atendem, ainda a uma certa especificidade dos espaços sociais, de acordo com Aléong (2001: 149), uma vez que os espaços “condicionam o conteúdo e as formas de intenção lingüística” considerando ainda que “a língua é o meio de exprimir a qualidade das relações sociais, pode se conceber a existência de normas sociais de comportamento lingüístico”. Estas considerações são significativas para compreender um aspecto da relação não somente da dinâmica do movimento, mas, sobretudo da relação constitutiva do instrumento lingüístico e o sem-terra, não apenas como um ponto de encontro e espaço agregador, mas também como um marco de construção de identidade. 36 A dinâmica entre o instrumento lingüístico e a sua circulação, seu uso e sua prática em espaços sociais onde ocorre, corresponde a um tipo de relação em que, de acordo com Blom e Gumperz (1998: 40) “as situações socais criam a base para a ocorrência de uma escala limitada de relações sociais dentro da ordem de conjuntos específicos de status”. As atitudes em relação ao Jornal demonstram que seu uso, sua circulação e sua prática ocorrem de forma heterogênea a partir da relação em que seria o ideal (o que se espera) e suas representações localizadas. Essas representações muito embora heterogêneas possuem algo comum, a importância em maior ou menor grau do Jornal para os sem-terra. Há um reconhecimento mesmo que parcial de sua significação. As atitudes correspondem e enfocam um tipo de relação interna entre os sem-terra e o Jornal, um aspecto da construção da identidade do movimento, sua organização, sua atuação, no entanto, se esse aspecto não é homogêneo, dado as características históricas dos movimentos populares de grande proporção, a sua constituição aponta a homogeneidade como algo a ser trabalhado politicamente no cotidiano dos acampamentos, assentamentos e espaços externos ao movimento. Referência bibliográfica ALÉONG, S. (2001). Normas lingüísticas, normais sociais: uma perspectiva antropológica. In: BAGNO, M. Norma lingüística e outras normas. São Paulo: Edições Loyola. pp. 14574 ALKMIM, T. (2000) Sociolingüística. Parte I. In MUSSALIN, F. e BENTES, A. C. Introdução à lingüística, domínios e fronteiras. 3a. Ed. São Paulo: Cortez Editora, (2003). pp. 21-47 BISINOTO, L. S. J. As Atitudes dos Falantes como Fator de Reordenação Social e Lingüística. 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