Enem ou Vestibular? Os Dois Em sua origem, o vestibular era elaborado em função do ensino médio (então, 2o grau). Com o déficit de vagas crescente nas universidades, o vestibular foi ganhando uma importância cada vez maior e o processo se inverteu, passando o ensino médio a ter como sua principal meta preparar os alunos para o vestibular. Com isso, os conteúdos e o método de trabalho do ensino médio passaram a ser determinados, em grande parte, pelas universidades. Sendo assim, qualquer alteração nos mecanismos de entrada das universidades tem um impacto profundo no ensino médio que faz parte de nossa combalida educação básica. Portanto, a autonomia que a universidade possui em determinar o seu mecanismo de seleção de novos alunos não pode ser confundido com independência, uma vez que seus movimentos interferem em outros níveis de nosso sistema educacional. O Atual Vestibular O modelo atual de vestibular está longe de ser o adequado. Os alunos são submetidos a um volume absurdo de conteúdos, tornando o Brasil um dos países onde mais se estuda para ingressar na universidade e menos se aprende. Creio que não há nenhum argumento razoável que possa justificar que um aluno precise saber o ciclo das pteridófitas heterosporadas para ter o direito de estudar engenharia civil. Um vestibular que cobrasse com maior profundidade apenas os conteúdos mais relacionados com a futura profissão do candidato tornaria possível uma aprendizagem significativa por parte dos alunos, que não teriam que dispersar energia com conteúdos de diferentes matérias. Além disso, tornaria o estudo deles mais prazeroso porque estariam focados nas disciplinas em que possuem maior afinidade. O Enem Está bastante claro que o Enem surge como mais uma estratégia para aquilo que o governo chama de "democratizar a educação". Nesse contexto, o democratizar não significa dar maiores condições de aprendizado para os que encontram maior dificuldade e sim nivelar por baixo, diminuir o nível para todos de forma a criar uma "igualdade". As questões do Enem estão em um nível de dificuldade muito abaixo do que é hoje o vestibular da UESC e UFBA, por exemplo. A grande dificuldade do Enem é o tempo para fazer a prova, ridículos 3 minutos por questão. Ao diminuir o nível da prova, alguns acreditam que os alunos menos preparados serão beneficiados, "democratizando" a educação. Uma prova fácil demais prejudica os que sabem mais, como disse certa vez um dos coordenadores da Vunesp (responsável pelos vestibulares da UNESP): o Enem não serve para diferenciar o bom do excelente. Em defesa do Enem, alguns argumentam que suas questões exigem maior raciocínio e capacidade de análise. Considerar que os vestibulares atuais exigem dos alunos apenas memória (o "decoreba") é apenas um preconceito. Uma prova de Biologia da UFBA ou da Consultec (que há anos elabora o vestibular da UESC) exige um entendimento muito maior de Biologia do que as questões do Enem. Falo entendimento, não "decoreba". É preciso saber Biologia para responder a essas provas. Nenhum aluno deixa de fazer uma boa prova de Biologia nesses vestibulares porque não decorou o imenso vocabulário dessa disciplina. Ele erra frequentemente por uma dificuldade de compreensão de texto ou por não saber pensar em Biologia na profundidade que é exigida. Quanto às outras disciplinas, deixo que seus professores façam essa análise. O "Cursinho" Os cursinhos geram um ódio irracional em muitas pessoas que querem simplesmente acabá-los. Se a ideia é essa, o Enem não é uma boa opção. Onde o Enem já foi adotado, os pré-vestibulares se tornaram pré-Enem e continuaram cheios de alunos. Só há uma Enem ou Vestibular? Os Dois maneira de acabar com os cursinhos: a UESC oferecer um número de vagas maior do que o de candidatos. Enquanto o número de candidatos for maior, haverá um curso preparatório. Muitos dizem que o cursinho só ensina macetes. Preconceito. Como já foi dito, as provas de vestibulares aqui na Bahia não cabem nesse formato. Ajudo a preparar alunos para o vestibular em Ilhéus e Itabuna há nove anos. Não sei macetes, não sei musiquinhas para ajudar o aluno a decorar um assunto de Biologia e desafio alguém a responder as provas Consultec e UFBA com base em macetes. Ali, é preciso saber Biologia. Para me preparar para essas aulas e me manter atualizado assino as revistas "Ciência Hoje" e "Scientific American". Leio diariamente o caderno de ciência da Folha de São Paulo e compro livros novos que saem sobre Biologia. O conteúdo que aprendo nesses materiais é passado para meus alunos, sendo que alguns se sentem estimulados a comprar e ler os livros. Portanto, não faz sentido tratar as provas desses vestibulares como menos analítica do que é uma prova do Enem. Apesar de tudo isso, o fato é que se construiu a imagem do professor de cursinho quase como um ignorante de sua disciplina que só sabe ensinar o aluno a decorar. Mas, em verdade, qual é o trabalho de um professor de cursinho? Ele não pode entrar em sala de aula cansado ou desanimado, porque só assiste a suas aulas quem quer, não há chamada nem punição para quem abandona sua aula no meio. Ele precisa ter algum humor, mas, se só brincar e não tiver conteúdo, despertará a ira dos alunos. Seu maior desafio é preparar os alunos para uma prova que não será elaborada por ele e que ele sequer conhece quem irá elaborá-la. Se todos os nossos professores de todas as séries tivessem que passar por esse desafio de preparar os alunos para uma prova desconhecida e fossem cobrados a partir do desempenho de seus alunos nessa prova, tenho certeza de que nossa educação daria um salto de qualidade. Uma sugestão Seria importante que o vestibular atendesse a 3 demandas: - Selecionar alunos com um bom conhecimento geral - Permitir que os alunos expressem todo seu potencial - Garantir que os alunos ingressem na universidade com um conhecimento prévio que permita acompanhar os conteúdos no curso que escolheram O Conhecimento geral dos alunos pode ser aferido pela prova do Enem, que é uma prova geral e de nível básico. Portanto, o Enem poderia ser uma boa prova de primeira fase. Mas a prova do Enem, com já dito, não é feita para selecionar a excelência, ela nivela por baixo. Uma segunda fase aberta envolvendo apenas uma ou duas disciplinas mais ligadas ao curso escolhido pelo aluno poderia tanto selecionar os melhores (desculpem-me os demagogos, mas a universidade é, sim, lugar para os melhores estudantes) como certificar de que eles possuem o conhecimento necessário para seguir no seu curso. Esse modelo já foi adotado por algumas universidades federais como a UFMG. Além disso, como a segunda fase envolveria apenas disciplinas mais ligadas ao curso escolhido, o aluno não se veria obrigado a saber tudo de todas as matérias com profundidade, o que é praticamente impossível. Isso tornaria o vestibular mais eficiente para o que se pretende. O Enem sozinho, não seleciona como deveria e não fortalece o aprendizado dos alunos no ensino médio. Pelo contrário, ele reduz a exigência no ensino médio. O vestibular como é feito hoje é irracional, porque não garante um aprendizado significativo, uma vez que os alunos precisam se dedicar a muitas matérias diferentes. A união do Enem com o vestibular é um meio termo vantajoso, uma vez que garante o conhecimento geral e o mais aprofundado naquilo que é interesse do aluno. Enem ou Vestibular? Os Dois A UESC A UESC muitas vezes passa a impressão de não entender sua real dimensão e importância. Quando altera o seu vestibular sem consultar os profissionais envolvidos com o ensino médio, a UESC oscila entre duas possibilidades contraditórias: - Não percebe que é importante demais e que uma mudança na sua seleção afetará o trabalho realizado na educação básica. - Julga-se importante demais, a ponto de imaginar que não precisa consultar a sociedade interessada no seu acesso. Quando a UESC, sozinha, resolveu acabar com sua prova específica aberta, o impacto dessa decisão foi sentido no ensino médio. Os alunos que antes procuravam responder questões abertas e entregavam a seus professores para corrigi-las pararam de fazer isso. A preocupação com a ortografia, com a clareza do texto, se tornou desnecessária. Agora, definitivamente, basta marcar X. Há anos atrás, a UFBA publicou no seu site um longo texto explicando porque seu vestibular tinha uma primeira fase com questões de somatória e uma segunda fase aberta. Ali, a UFBA demonstrou respeito à sociedade, a quem deve satisfações. A Unicamp já publicou um livro explicando em detalhes o que ela considera uma boa resposta, uma resposta mediana e uma resposta ruim. Esses são exemplos de universidades que entendem sua real importância e mantêm um diálogo com seus futuros alunos, demonstrando respeito. Quando a UESC, faltando uma semana para acabar o prazo de inscrição do Enem, publica no seu site que é melhor que o aluno se inscreva no Enem porque talvez neste ano não haja vestibular, ela está agindo com uma arrogância ímpar. Que debate foi feito sobre isso? Com a parte da comunidade externa à UESC, não houve esse debate. Com a comunidade interna, parece que também não houve nenhuma discussão aprofundada, ou talvez não tenha havido discussão nenhuma. Então, por que essa pressa em adotar o Enem neste ano? Esse atropelo dá margem a especulações. Muitos dizem, entre eles professores da UESC, que a adoção do Enem está vinculada a liberação de dinheiro pelo MEC para a UESC. Então é isso? O acesso a UESC se tornou um caça-níqueis? Não acredito, ou não posso acreditar, que uma universidade da importância da UESC tome uma decisão dessa dimensão baseada em dinheiro. Mas só há um meio de terminar com essa especulação: abrir o debate com a sociedade. Os alunos Muito (mal) se fala dos adolescentes. O fato é que convivo com centenas deles que saem de suas casas para assistir a aulas em pleno domingo ou feriado. São alunos que em junho terão direito a apenas uma semana de férias. São alunos que nós professores precisamos pedir que estudem menos porque eles precisam cuidar de sua saúde física e mental. O maior sonho desses adolescentes, nesse momento, é tornarem-se alunos da UESC. Ser aluno da UESC para eles é motivo de orgulho. Está na hora de a UESC demonstrar que também tem orgulho em recebê-los. Nesse momento, esses alunos estão se sentindo perdidos. Muitos compraram os livros de literatura que a UESC recomenda. Apesar de terem um volume de conteúdo imenso para estudar, eles estão lendo esses livros e assistindo a aulas sobre eles. Mas haverá vestibular? Eles não sabem. Qualquer mudança profunda no modelo de acesso à UESC nesta altura do ano, será um desrespeito a esses alunos. É muito triste que jovens em preparação para iniciar sua Enem ou Vestibular? Os Dois vida adulta sejam submetidos a algo tão brasileiro: a mudança de regras em um processo que já está em andamento. Prof. Dorival Filho [email protected]