UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PETRÓPOLIS Faculdade de Educação Curso de Mestrado em Educação A INFLUÊNCIA DO CONCÍLIO VATICANO II NA VIDA DO COLÉGIO CRISTO REDENTOR DE JUIZ DE FORA: 1962 – 1968 Alfredo da Conceição Santos Petrópolis/RJ 2006 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PETRÓPOLIS Faculdade de Educação Curso de Mestrado em Educação A INFLUÊNCIA DO CONCÍLIO VATICANO II NA VIDA DO COLÉGIO CRISTO REDENTOR DE JUIZ DE FORA: 1962 – 1968 Alfredo da Conceição Santos Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Católica de Petrópolis, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Educação. Orientadora: Professora Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero Petrópolis/RJ 2006 Se nós lhe dermos a solidão, o indivíduo redescobrirá a sociedade. Se lhe assegurarmos liberdade, o Simesmo descobre a transcendência dentro de sua própria obra. Se o deixarmos fazer, ele faz o ser. Se lhe concedermos o lazer, ele realiza o trabalho que muda a qualidade da vida. Se lhe dermos a autonomia, ele reinventa o mundo. Por tudo isso, o imaginário da criança – a ser preservado na idade adulta – constitui a única fonte de renovação possível. (Durmeval Trigueiro Mendes) AGRADECIMENTOS A Deus pela minha vida e pela vida de todos aqueles que fizeram e fazem parte da minha caminhada. À Congregação do Verbo Divino pela oportunidade, incentivo e apoio. Aos amigos do Colégio Cristo Redentor, por acreditarem no meu trabalho. Aos amigos: Pe Carlos, Juarez, Rinaldi, Mana, Maria do Carmo e Jane, pela convivência positiva, dedicação e motivação. A Maria Matilde pelo apoio, pelo carinho e por acreditar em mim. A Elaine, amiga e secretária, pela dedicação e colaboração. Às amigas Patrícia, Andréia, Luisa, Gilca, Simone, Mavanier e Evaci, companheiras de estudo, grande incentivadoras. À professora Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero, pela dedicação e competência, pelo carinho e paciência, por ter acreditado na concretização deste trabalho. Sob sua orientação me sinto educador, me tornei mais humano. À Simone e Gelda, secretárias do Curso de Mestrado pela competência e carinho partilhados. Em especial à minha família: Paulo, Irene, Ana Paula, Ana Cláudia e Fabrício, por me ensinarem a enfrentar o desafio, estimulando, participando e acreditando na concretização do ideal buscado. Enfim, a todas as pessoas que, direta ou indiretamente, colaboraram nesta trajetória. SUMÁRIO Introdução ..........................................................................................................................01 1 A Cidade de Juiz de Fora e a Academia de Comércio: origens e construção 1.1 A Cidade de Juiz de Fora: breves anotações sobre sua história ..............07 1.2 A Fundação Sociedade Anônima Academia de Comércio .....................09 1.3 Dificuldades da Sociedade Anônima Academia de Comércio ...............18 1.4 Doação da Sociedade Anônima Academia de Comércio à Congregação do Verbo Divino ...............................................................20 2 O Concílio Ecumênico Vaticano II e a Congregação do Verbo Divino: alguns comentários ..................................................................................................................25 3 O Colégio Cristo Redentor 3.1. O Colégio Cristo Redentor: 1962 – 1968 .............................................34 3.2. O Colégio Cristo Redentor: algumas questões para reflexão ...............43 4 Conclusões e Recomendações ......................................................................................56 5 Referências Bibliográficas ...........................................................................................60 6 Anexos I – Roteiro para Entrevista e Questionário...................................................................64 II – Escritura de doação da Academia de Comércio à Congregação do Verbo Divino ...........................................................................65 III – Relatório de Verificação Prévia ...........................................................................68 RESUMO A dissertação tem por objetivo estudar as propostas educacionais do Concílio Ecumênico Vaticano II e suas repercussões no Colégio Cristo Redentor de Juiz de Fora, no período de 1962 a 1968, procurando analisar em que medida tais propostas vão ser implementadas no Colégio nesse período. Para atingir o objetivo proposto procuramos trabalhar as seguintes questões: Em que consistiu a proposta educacional do Concílio Vaticano II para as escolas confessionais? Quais as conseqüências que advêm dessa proposta para as escolas confessionais de Juiz de Fora? Que mudanças ela trouxe para a organização administrativa e a prática pedagógica no Colégio Cristo Redentor de 1962 a 1968? Para realizar a pesquisa, trabalhamos com entrevistas e análises de fontes documentais, existentes no acervo do Colégio Cristo Redentor, referentes ao período em estudo, bem como alguns documentos do Concílio Vaticano II e documentos atuais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) referentes a educação. Para desenvolver o presente estudo, procuramos dialogar com autores que escreveram sobre a história desse Colégio e da cidade de Juiz de Fora; dialogamos ainda com alguns pensadores e educadores brasileiros: Durmeval Trigueiro Mendes; Paulo Freire; Anísio Teixeira, entre outros, a fim de aprofundar as concepções de: educação e educador; qualidade e quantidade em educação, bem como a relação teoria e prática. O estudo nos levou a concluir em primeiro lugar que a Igreja sempre interveio e intervém no processo educativo da sociedade; em segundo que não havia, no período analisado (1962 a 1968), um intercâmbio entre as escolas católicas, em Juiz de Fora, e em terceiro, verificamos que o Colégio Cristo Redentor se colocou numa atitude de diálogo e acolhida em relação à formação de seu corpo docente e discente, buscando um trabalho de parceria com os pais e/ou responsáveis pelos alunos. Finalizando, vale ressaltar que não existe pesquisa acabada; esperamos que as questões levantadas neste trabalho ofereçam subsídios e sirvam de motivação para outros estudos que dêem continuidade às questões aqui investigadas discutindo e refletindo, também, sobre o Colégio nos dias atuais. Palavras-chave: Educação; Concílio Vaticano II; Colégio Cristo Redentor. ABSTRACT This dissertation has as its objective to study the proposal of the Second Ecumenical Vatican Council and its repercussion on the Colégio Cristo Redentor in Juiz de Fora, during the period of 1962 to 1968, trying to analyze to what extent the proposed measures are to be implemented in the Colégio during this period. To obtain the proposed objective, the following questions were examined: in what did the educational proposal of the Second Vatican Council consist of for private schools maintained by religious groups? What are the consequences of this proposal for the private schools maintained by religious groups in Juiz de Fora? What changes did it bring to the administrative organization and the pedagogical practice in the Colégio Cristo Redentor in the years of 1962 and 1968? To perform this research, we used interviews and analysis of documental sources which could be found in the files of the Colégio Cristo Redentor, with reference to the period in study, as well as some documents of the Second Vatican Council and the documents of the present day of the National Conference of Bishops of Brazil (CNBB) in what refers to education. To develop the study, we also promote a dialogue with authors who wrote about the history of the Colégio and of the city of Juiz de Fora, and we also dialogued with some Brazilian thinkers and educators: Durmeval Trigueiro Mendes, Paulo Freire, Anísio Teixeira, among others in order to perceive more profoundly the concepts of education and educator, of quality and quantity in education as well the relationship between theory and practice. . The study lead us to the conclusion in the first place that the Church always intervened and still intervenes in the educational process of society; in the second place that there was no exchange and dialogue during the period analyzed (1962 to 1968) between the catholic schools in Juiz de Fora; and finally, we verified that the Colégio Cristo Redentor placed itself in an attitude of dialogue and receptivity in relation to the formation of its teaching staff and pupils, seeking to work in partnership with the parents or those responsible for the students. Finally, we can say that there is no finished research and we hope that the questions raised in this essay will offer a subsidy and serve as a motivation to further studies, which can continue and deepen these questions investigated, discussed and considered, also in the Colégio in the present time. Keywords: Education; Second Vatican Council; Colégio Cristo Redentor 1 INTRODUÇÃO Ao investigar o Colégio Cristo Redentor, procuramos encontrar elementos para uma visão do que ocorreu na sociedade brasileira em relação ao Concílio Vaticano II, durante os anos 60. Seguindo a trilha de Edward Carr, percebemos que os fatos e os documentos não falam por si; falam quando o pesquisador os aborda (p. 12). Segundo ele, observa, a história consiste num, corpo de fatos verificados. Os fatos estão disponíveis para os historiadores nos documentos, nas inscrições, e assim por diante. O historiador deve reuni-los e trabalhá-los (1882, p. 13). O período em estudo (1962 a 1968) é marcado por várias mudanças no país. Para adentrar um pouco nesse contexto, retomamos Carr, quando adverte que vivemos em uma sociedade que pensa em mudanças, estando, a história preocupada com os processos fundamentais de mudanças (idem, p.12), complementando: “o passado que o historiador estuda não é um passado morto, mas um passado que, em algum sentido, está vivo no presente” (idem, p. 22). Assim sendo, faz-se necessário analisar e entender o passado como chave para compreensão do presente. Nessa perspectiva, também, percebemos, que a educação é parte desse processo de mutação da sociedade. Havendo poucos estudos relacionados ao objeto desta pesquisa, como estes: Academia de Comércio de Juiz de Fora, por Wilson de Lima Bastos (1982) e História da Academia de Comércio, por José Vicente César (1991), não chegaram a ser examinados na ótica da questão aqui proposta; assim, nossa opção foi investigar o ponto de vista do ensino confessional de Juiz de Fora, especialmente o do Colégio Cristo Redentor, onde trabalho atualmente como diretor, além da coordenação do setor de ensino religioso – SER. A escolha desse Colégio resultou do reconhecimento de ser ele uma das mais conceituadas escolas confessionais, na época do Concílio Vaticano II (1962/1968), ao nível do ensino secundário, no Município de Juiz de Fora/MG. Com essas preocupações, o estudo tem por objetivo analisar as propostas do Concílio Vaticano II para as escolas confessionais no período de 1962 a 1968, procurando examinar em que medida tais propostas foram implementadas no Colégio Cristo Redentor nesse período. Para viabilizar este objetivo trabalhamos as seguintes questões: 2 a) em que consistiu a proposta educacional do Concílio Vaticano II para as escolas confessionais? b) quais as conseqüências que advêm dessa proposta para escolas confessionais de Juiz de Fora? c) que mudanças ela trouxe para a organização administrativa e a prática pedagógica no Colégio Cristo Redentor de Juiz de Fora, de 1962 a 1968? Na primeira parte do Capítulo 1, registramos alguns dados e fatos sobre a história de Juiz de Fora, seu desenvolvimento de Villa de Santo Antônio do Parahybuna até a cidade atual. Na segunda, relatamos a fundação da Sociedade Anônima Academia de Comércio, com a intenção de resgatar as origens do Colégio Cristo Redentor, o papel de seu fundador e como chegou a ser assumido pela Congregação do Verbo Divino. Na terceira, trabalhamos as dificuldades vivenciadas por essa Sociedade, em termos de divergências internas e também externas, que surgiram no transcurso do ano de 1898, em relação ao Curso de Comércio. Com um número reduzido de alunos e situação financeira sempre precária, a maioria dos acionistas sem visar lucro, mas empenhada na vitória da obra e no bem da educação, liberou doar o patrimônio ao Estado de Minas Gerais, estabelecendo como exigência a conclusão e manutenção do Curso de Comércio. No entanto, o presidente do Estado de Minas Gerais, Sr. Silvano Brandão, vetou o projeto. A quarta parte do primeiro capítulo, refere-se à doação da Sociedade Anônima Academia de Comércio, oferecida aos Jesuítas primeiramente, que após examinar a proposta não puderam aceitá-la. Diante dessa situação, fez-se a doação, por “escrita pública” aos padres salesianos para que se fixassem em Juiz de Fora e continuassem a obra em termos de Academia de Comércio. Convivendo com dificuldades não somente financeiras, mas sobretudo por falta de padres que pudessem vir ajudá-lo, o padre Carlos Graia, de acordo com a direção dos salesianos resolveu transferir a Academia de Comércio para a Congregação do Verbo Divino. Essa Congregação, de posse do prédio, móveis e demais pertences, concluiu em pouco tempo a construção do estabelecimento, assim como montou o Curso Comercial completo. No segundo capítulo desta dissertação, analisamos o Concílio Ecumênico Vaticano II, o Colégio Cristo Redentor e a educação, tecendo alguns comentários. Lembramos que este Concílio se realizou em quatro sessões e que no espaço entre a primeira e a segunda 3 sessão morre o Papa João XXIII, dando seguimento aos trabalhos o Papa Paulo VI. Procuramos situar ainda o significado da Encíclica Mater et Magistra (l961), da Declaração Gravissimum Educationis (l965) e da Constituição Gaudium et Spes (1965) em relação à educação. O Concílio desperta a consciência de que é necessário trilhar um caminho novo, pois uma nova realidade está surgindo e a Igreja não pode ficar à parte. Nessa perspectiva, vê na educação, um dos meios de preparar homens e mulheres que respondam à nova realidade, aos novos desafios que se apresentam na sociedade. Observamos que a Congregação do Verbo Divino, influenciada por esse Concílio, vai repensar sua maneira de ser e atuar na sociedade, percebendo a educação como espaço de missão, investindo nela e despertando em seus confrades a necessidade de assumir escolas e se dedicar à formação da juventude, tendo em vista uma formação capaz de contemplar os valores humanos e cristãos. Dedicamos o terceiro capítulo, desenvolvido em duas partes, ao Colégio Cristo Redentor; a primeira parte analisando esse Colégio, segundo o recorte temporal proposto, de 1962 a 1968. Com o presente estudo verificamos tratar-se de uma época marcada por mudanças de direção. Na tentativa de conhecer melhor o Colégio nesse período utilizamos os seguintes procedimentos: levantamento e análise de fontes documentais existentes no acervo da instituição e realização de entrevistas escritas ou gravadas com quatro professores que trabalharam no Colégio nessa fase, além de dois funcionários que ainda permanecem no estabelecimento, e um ex-aluno. Todas as entrevistas ocorreram no primeiro semestre de 2005. Vale registrar, também, que somente a partir do ano de 1966 é que o Regimento Interno passou a constar do arquivo do Colégio Cristo Redentor. A análise desse documento permitiu inferir que o Colégio passou nesse ano por um período de reforma em sua estrutura, tanto na organização administrativa quanto pedagógica, definindo e reelaborando determinadas questões, objetivos e atividades como por exemplo, seu papel e o funcionamento da Associação de Pais e Mestres e o Círculo de Pais; a questão da educação religiosa; o que competia ao corpo docente e ao corpo discente, como também as competências do padre diretor e do padre prefeito. As modificações observadas deixam perceber que o momento vivido era de mudanças na sociedade brasileira o que se refletia na educação escolar. Para trabalhar esse capítulo, analisamos algumas questões tendo 4 como referência idéias do educador e pensador Durmeval Trigueiro Mendes (1969, 1972, 1973, 1974, 1977, 1987, 2000). Para desenvolver o presente estudo, como assinalamos, foram realizadas sete entrevistas com professores, funcionários e ex-alunos que participaram ou estudaram no Colégio no citado período, a saber: a) - Maria do Carmo Schweigert, que trabalhou na secretaria do Colégio Cristo Redentor na década de 1960. No início da década seguinte passou a exercer o cargo de secretária geral do Colégio. Segundo Maria do Carmo, a organização do arquivo do Colégio começa sob sua coordenação, passando, a partir de então, a recolher material das diversas atividades que aconteciam na instituição. Hoje o acervo do Colégio se encontra arquivado em salas e com funcionários específicos para tal finalidade. b) – Antonio Pereira Gaio, formado em Letras, foi professor na década de 60, lecionando Língua Portuguesa e Latim; hoje o professor Gaio ministra aulas no curso de Letras do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, entidade que ocupa as mesmas instalações do Colégio Cristo Redentor, e pertence, também, à Congregação do Verbo Divino. c) – José Dionísio Ladeira, antes de pertencer ao quadro discente do Colégio Cristo Redentor, já freqüentava a instituição, pois residia em sua proximidade, tendo oportunidade também de participar das missas dominicais. Em 1962, ingressou como aluno do curso científico, pertenceu ao Grêmio Literário da Academia, sendo, inclusive, seu secretário. Em 1965, com o curso científico concluído e tendo sido aprovado no vestibular para o curso de Letras passou a fazer parte do corpo docente do Colégio Cristo Redentor, lecionando a disciplina Língua Portuguesa. Hoje, o professor Dionísio integra o quadro de professores do curso de Letras do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. Essa entrevista é marcada pelo entusiasmo e pela seriedade com que o professor conta a experiência vivida no Colégio. d) – Valter Freesz, desde a década de 60 trabalhava na tesouraria do Colégio, atualmente é o responsável por esse departamento. O fato de trabalhar com as finanças da instituição não lhe permitiu maior vivência em relação à parte pedagógica, mas uma aproximação com a direção ao longo desses anos. 5 e) – José Passini, em sua entrevista, percebe-se o respeito pelo Colégio Cristo Redentor e por sua identidade católica, como também a oportunidade que os diretores da década de 60 lhe proporcionaram de trabalhar na instituição. Sendo espírita, pôde desenvolver seu trabalho sem discriminação e era acolhido, tanto pelos colegas professores quanto pelos alunos, com a mesma consideração que dispensavam aos demais. f) – Juarez Carvalho Venâncio iniciou suas atividades no Colégio Cristo Redentor como aluno, na década de 60; dando continuidade aos estudos fora dessa instituição, formou-se em História, e retornou ao Colégio como professor. Seu dinamismo e a falta de profissional que assumisse o trabalho no departamento de esporte fez com que o professor Juarez se tornasse coordenador desse departamento, onde permanece até hoje. Não abandonou a área de História, mas continua exercendo essa função no Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. Sua entrevista enriquece o estudo pelo dinamismo de sua atuação e pelo contato com os padres da época pesquisada, sendo o esporte um elemento de integração tanto internamente para o Colégio, como para a cidade. Era um departamento visto com muito cuidado pelos padres, por projetar o nome do Colégio além do seu espaço físico. g) - José Francisco Simões, na década de 60 era aluno, sendo atualmente professor de História da Filosofia do curso de Filosofia da Diocese de Juiz de Fora. Coloca-se sempre à disposição para retornar ao Colégio Cristo Redentor, seja na colaboração de algum trabalho específico ou mesmo para uma visita ou encontro de ex-alunos. Utilizamos também as análises de alguns documentos do Concílio Vaticano II e documentos atuais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) referentes à educação. Procuramos trabalhar, ainda, com autores que registraram parte da história do Colégio Cristo Redentor e da cidade de Juiz de Fora como a professora Mabel Salgado Pereira (2004), que analisa os principais movimentos que permeiam o processo de romanização e de reforma católica na Igreja de Juiz de Fora e seus limites; o escritor Wilson de Lima Bastos (1967; 1968) que oferece subsídios para a compreensão da cidade de Juiz de Fora, assim como para o nascimento do projeto do empresário Francisco Baptista de Oliveira, fundador da Academia de Comércio. 6 No desenvolvimento do presente estudo, entramos em contato com as idéias de alguns pensadores e educadores brasileiros, com destaque para Durmeval Trigueiro Mendes (1969; 1974; 1977; 2000), Paulo Freire (1996) e Anísio Teixeira (1999), aprofundando as concepções de: educação e educador; qualidade e quantidade em educação, assim como relação teoria e prática. Paulo Freire oferece uma oportunidade de reflexão sobre nossa prática enquanto educadores, enriquecendo nossa visão e enquanto sujeitos que precisam reconhecer-se uns aos outros como presenças que intervêm, que transformam, que precisam falar do que fazem e também sonham, comparam, valorizam, decidem e rompem, especialmente com o que oprime, limita e intervém em nossas escolhas (1996, p 47). Por sua vez Anísio Teixeira (1977, p 93) adverte que, para educar, temos de conhecer a parcela de conhecimento humano cuja aprendizagem vamos conduzir e orientar, pois é imprescindível conhecer a sociedade e a cultura a que pertencemos. Já Durmeval Trigueiro Mendes alerta para a necessidade de se articular um pensamento que seja coerente com os fatos, e que a educação será basicamente a consciência que a sociedade adquirirá de sua práxis, incluindo conhecimento, valores e técnicas (1969,p 15). No quarto capítulo procuramos sistematizar as questões propostas em nossa pesquisa, apresentando conclusões e, também, sugerindo algumas recomendações. 7 1. A CIDADE DE JUIZ DE FORA E A ACADEMIA DE COMÉRCIO: ORIGENS E CONSTRUÇÃO 1.1 – A cidade de Juiz de Fora: breves anotações sobre sua história Segundo consta da Enciclopédia dos Municípios Brasileiros [v XXV, RJ], a Capitania das Gerais nos anos de 1600 encontrava-se dividida em quatro grandes comarcas: Vila Rica de Ouro Preto, Vila Real de Sabará, Vila do Príncipe do Sêrro Frio e a Vila de São João del’Rei do Rio das Mortes. Essa última, com sede na vila de mesmo nome, abrangia vasto território que se estendia desde Paraopeba e Congonhas, rumo ao Sul, até o legendário Rio Paraibuna e a serra da Mantiqueira, compreendendo a região onde mais tarde surgiria a Villa de Santo Antônio do Parahybuna. Esta Villa nasceu ao longo do Caminho Novo para as minas que, segundo Mabel Salgado Pereira, “era uma ‘picada’, idealizada pelo sertanista Garcia Rodrigues Pais por volta de 1701, ligando a região das minas ao Rio de Janeiro, com o objetivo de facilitar o transporte do ouro extraído e controlar o contrabando” (2004, p 23). A autora acrescenta que o povoado da Villa de Santo Antônio do Parahybuna se desenvolveu inicialmente apenas na margem esquerda do Rio Paraibuna; do lado direito, onde está hoje situado o centro da cidade, era tudo deserto, não havendo habitações. A organização do espaço urbano na margem direita desse rio, onde atualmente se encontra o centro do município, teve início com a partilha dos bens do tenente Tostes, entre seus doze filhos. Um engenheiro, o alemão Henrique Guilherme Fernando Halfeld, casado com Cândida, umas das herdeiras, é o responsável pelo desenho da planta que registra essa partilha, em 1844, consoante com fontes documentais que se encontram no Arquivo Público Mineiro da capital, Belo Horizonte (idem, p 25). Mediante a Lei Provincial nº 472, artigo 8, de 31 de maio de 1850, o povoado é elevado à categoria de Villa de Santo Antônio do Parahybuna. Em 02 de maio de 1856, por meio da Lei Provincial nº 759, a Vila passou à categoria de cidade e, finalmente, em 19 de dezembro de 1865, através da Lei Provincial nº 1.262, constituiu-se no município de Juiz de Fora. 8 Mas, “mesmo com a queda da extração do ouro, o Caminho Novo continuou sendo referência enquanto ponto de ligação com a Corte. A Vila continuou a se desenvolver e, por volta de 1865, fazendo-se sentir plenamente, no plano econômico, a importância do café” (Pereira, 2004, p 26). Passada a fase áurea do café, surgiu, no final do século XIX, a fase da indústria. O progresso da metrópole neste setor foi grande e apresentava índices financeiros apreciáveis, sendo denominada por Rui Barbosa de “Manchester Mineira” (Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, 1959, p 385). No plano do desenvolvimento das relações políticas, Mabel Salgado Pereira informa que: “Ocupavam os cargos na Câmara Municipal aqueles que eram considerados homens bons, capazes de defender os interesses da localidade” (2004, p 27). Vale destacar a presença, na Câmara Municipal, de clérigos ilustrados, com participação ativa na vida política de Juiz de Fora, seguindo a tradição de um clero politizado da primeira metade do século XIX. Nesse contexto, segundo Riolando Azzi: “merece destaque o cônego José de Souza e Silva Roussin que, nas eleições para vereador de 1860, foi o segundo mais votado, com 460 votos, vindo a exercer o cargo de vereador em outros dois mandatos, de 1865 a 1868 e 1869 a 1872” (1994, p 73). Ao longo de seu processo de formação, a cidade, segundo Mabel Salgado Pereira, participou diretamente de grandes momentos da história nacional. No campo da criação de rodovias e da implantação da iluminação pública, a cidade tornou-se pioneira (2004, p 27). Pedro Vasques relata que a primeira estrada de rodagem do Brasil [...] é a maior obra de engenharia em seu tempo na América Latina; deu-se a 7 de agosto de 1852, quando o dinâmico e visionário Mariano Procópio Ferreira Lage obteve do Imperador a autorização para a sua construção. Batizada como “União e Indústria”, a estrada possuía 144 Km, de Petrópolis a Juiz de Fora, que podiam ser percorridos em 12 horas de diligência”. (1997, p. 23) A estrada União Indústria teve papel proeminente na expansão econômica da província de Minas Gerais, facilitando o escoamento da produção e regularizando seu abastecimento. A construção merece destaque também pela formação, em Juiz de Fora, de uma colônia de imigrantes alemães que muito contribuiu para o desenvolvimento de manufaturas, tornando-se o embrião do progresso industrial que irá marcar a cidade no 9 final do século XIX e início do século XX. A respeito da importância dessa estrada no século XIX, Paulino de Oliveira (1953) observa: Nada contribuiu mais para o progresso de Juiz de Fora, nos primeiros anos da formação da cidade, do que a Estrada União e Indústria, essa magnífica rodovia que Agassis, visitando-nos em 1865, considerou célebre tanto pela sua beleza como pela sua execução, classificando-a como uma das maiores do mundo. (p 45) Nesse contexto, o progresso não tardou a chegar. Veio seguindo as curvas do traçado da Estrada União Indústria e, posteriormente, os trilhos da estrada de ferro D. Pedro II, que aqui chegaram na década de 1870. Observa-se que houve um crescimento populacional da cidade do final do século XIX ao início do século XX: “em 1890, o município de Juiz de Fora contava com 55.185 habitantes e, em 1907, já tinha 85.450 habitantes” (Lage, 1915, p 83). 1.2 – A Fundação Sociedade Anônima Academia de Comércio Chegando à Cidade de Juiz de Fora, em 1882, Francisco Baptista de Oliveira instalou a “Casa da Barateza”, que logo se tornou muito conhecida e prestigiada no Estado, sobretudo na Zona da Mata. A sociedade “juizforana”, segundo Wilson de Lima Bastos, o recebeu de braços abertos, apoiando-o em suas iniciativas, nas quais deixou provas inequívocas de grande líder (1982, p 17). Sobre essa passagem, Nelson Lage Mascarenhas assinala: Baptista de Oliveira, de Entre Rios, era um espírito singular. Homem de grande visão, rara capacidade de trabalho e de caráter puríssimo, tinha como traço inconfundível de sua personalidade a vocação do bem. De profunda crença religiosa, procurava imprimir às coisas que fazia agudo sentido de solidariedade humana. Foi um dos maiores benfeitores de Juiz de Fora. A ele deve a cidade iniciativas fecundas. Os dois estabelecimentos de crédito existentes foram criados com a sua participação. Fundou ainda a Academia de Comércio, que tanto contribuiu para o renome do Município, centro irradiador de cultura que atraía gente de todo canto. A própria iluminação elétrica necessitava de seu apoio, sendo ele membro da Companhia Mineira de Eletricidade. Sua casa de comércio – ‘A Barateza’ – era a 10 principal da cidade. Viajando com freqüência à Europa, tinha o espírito polido e arejado. (1934, p 156) Não se tratava, todavia, apenas de um ativo comerciante mas, também, de um cidadão de alta cultura, dedicado às lides jornalísticas e muito preocupado com a questão social. Era um católico fervoroso, dedicado a numerosas obras, tanto no campo religioso, como na área social. Amigo e correligionário de Bernardo Mascarenhas, tornaram-se os dois a viga-mestra do processo de desenvolvimento de Juiz de Fora nas duas últimas décadas do século passado. Os dois, sempre juntos, ao lado de outras influentes personalidades criaram instituições, algumas das quais até hoje continuam em franca atividade, tornando o município reconhecido nacional e internacionalmente. Foi uma das fases marcantes da história de Juiz de Fora. Dentre os principais empreendimentos a que Francisco Baptista de Oliveira dedicou seus melhores esforços, destacamos a fundação da Academia de Comércio, a 30 de março de 1891, cuja inauguração se deu no dia 24 de julho de 1894. Esta iniciativa foi, justamente, a que mais projetou seu nome para a posteridade. Com esse propósito, visitou algumas vezes a Europa, entrando em contato com diversos estabelecimentos de ensino, entre os quais a Escola dos Altos Estudos Comerciais de Paris, que lhe inspirou o desejo de fundar a Academia de Comércio (Bastos, 1967, p 20). Tendo por objetivo o ensino comercial, seus cursos seriam planejados de acordo com o currículo e os programas da Escola de Altos Estudos Comerciais de Paris, onde o imortal mineiro encontrou a inspiração necessária para sua realização. Todavia, uma questão se colocava: a quem confiar a direção dos cursos? Fazia-se indispensável e urgente a contribuição de um especialista pelo menos até a formação do pessoal adequado, o que exigiria bastante tempo. A Academia de Comércio teve, portanto, como primeiro diretor o doutor Georges Quesnel, professor de nacionalidade francesa. Em sua homenagem, temos em Juiz de Fora, atualmente, um dos grupos escolares, à Rua Bernardo Mascarenhas, nº 1045, com seu nome, por iniciativa do Governo Milton Campos, sendo Prefeito do Município o Dr. Dilermando Martins da Costa Cruz Filho. Com esse ato, o Governo de Minas Gerais reconhecia no professor francês o pioneirismo, entre mineiros e brasileiros, em matéria de ensino comercial (Bastos, 1982, p 21). 11 Na Europa era grande o entusiasmo pelo ensino comercial nos últimos trinta anos do século XIX, com a criação, em diversos países, de escolas especializadas. Segundo informa Wilson de Lima Bastos, Na Alemanha, com mais de cem escolas, em graus diversos, destacava-se o ‘Instituto Público de Comércio de Leipzig’. Da mesma forma, na Itália, na Bélgica e na Áustria, distinguindo-se, nelas, respectivamente, a ‘Escola Superior de Comércio de Veneza’, o ‘Instituto Superior de Comércio de Anvers’ e a ‘Academia de Comércio de Praga’, esta última à primeira criada no seu país e cuja organização modelar foi ponto de partida para outras escolas. Diversos outros países, como Holanda, Grécia, Espanha, Suíça, Noruega, Rússia, Rumânia e Turquia, possuíam, à época da fundação da Academia de Comércio de Juiz de Fora, escolas de comércio com resultados altamente positivos. (1982, p 21) Deduz-se das consultas aos arquivos históricos da Prefeitura do Município de Juiz de Fora e da Associação dos Ex-Alunos do Colégio Cristo Redentor que, de 1884 a 1889, Francisco Baptista de Oliveira planejou e executou viagens à Europa. Sentindo de perto o grande desenvolvimento dos estudos comerciais, examinou, em Paris, um projeto para a fundação de uma Academia de Comércio no Brasil. A propósito Bastos assinala: Em contato com seus concidadãos, quando de seu retorno da Europa, deu início ao movimento para a instalação de uma Sociedade que tivesse por objetivo a exploração de uma Academia de Comércio. Pondo mãos à obra, começou em breve o histórico e exemplar movimento para a consecução desse ideal. Após o trabalho com o seu grupo de amigos, aos quais já se achava ligado em diversos outros empreendimentos, voltou sua atenção para a imprensa, procurando despertar à consciência do povo e estimulá-lo a dar sua ajuda moral e material àquela nova e significativa campanha. (1982, p 22) Não terá sido fácil executar a tarefa, não apenas por ser algo novo, naquela época, mas também porque não havia plena consciência das reais necessidades do ensino comercial e pela inteira falta de especialistas no assunto, entre brasileiros. A fibra e a 12 confiança de que desfrutava Baptista de Oliveira constituíam as alavancas necessárias para superar os mais pesados obstáculos, que não foram poucos. Para melhor focalizar o movimento em torno da fundação da Academia de Comércio de Juiz de Fora, recorremos à transcrição de alguns artigos, que constituem testemunhos de sua história, estando preservados no Arquivo da Associação dos Ex-alunos do Colégio Cristo Redentor. Artigo de Gustavo Penna espelha bem o conceito que tinha o idealizador da fundação da Academia de Comércio em 2 de dezembro de 1890: [...] uma academia livre de comércio, modelada pela Academia dos Altos Estudos de Paris [...]. O curso acadêmico será de três anos, abrangendo, além de algumas línguas vivas, aritmética, álgebra e geometria; geografia e história; física, química e história natural; contabilidade, desenho, legislação comercial, datilografia, estenografia, correspondência, história comercial, legislação fiscal e aduaneira; estatística comercial; física aplicada ao comércio e à indústria, matérias primas e efeitos comerciais, cálculo bancário e operações financeiras, química orgânica aplicada ao comércio e à indústria; física e mecânica industrial; tecnologia e economia política. Um edifício construído expressamente, com capacidade para conter 400 alunos, terá todas as dependências de um internato modelo, gabinetes e laboratórios de estudos e experiências, biblioteca e um museu industrial e de efeitos ou produtos comerciais. [...] Sentimos todos que nesta época de extraordinária expansão da vida industrial e do comércio, vai-se cada vez tornando mais viva a necessidade de preparar-se o espírito da nova geração, por meio de uma educação profissional mais sólida, e que não seja o resultado exclusivo da prática [...]. O futuro deste país pertence em grande parte à indústria, e esta, para suportar a guerra da concorrência estrangeira, necessita armar-se e fortalecer-se pela educação técnica [...]. (Jornal O Pharol da Cidade de Juiz de Fora, 2 de dezembro de 1890). Gustavo Penna, autor do texto acima transcrito, focalizava a situação política, econômica e social do país e, particularmente, de Minas Gerais face ao Estado de São Paulo. Mas, um ano após a Proclamação da República, já se mostrava desiludido ao observar: 13 Mais alguns anos desse indiferentismo que mata, e do abuso da política mesquinha, pessoal, verdadeiro ópio que enfeza e abate tão belos talentos, e ainda se dirá com tristeza que estamos para o Estado de São Paulo como o Paraguai para a República Argentina; em muitos pontos do estado mineiro ainda se poderá repetir a frase melancólica dos habitantes da Campanha: Aqui não se vive; morre-se. (idem, ibidem) Completando, o autor fala da rotina mineira e do desvio dos capitais para investimentos em São Paulo, além do êxodo de populações do interior de Minas em demanda de melhores recursos nas indústrias e lavouras paulistas. Foi, possivelmente, lendo o artigo acima, de Gustavo Penna, que alguns mineiros residentes em São Paulo fizeram substanciosa subscrição com o objetivo de ajudarem a obra iniciada por Baptista, como se depreende do telegrama que lhe foi dirigido: A colônia mineira, reunida em sessão solene, aplaude com entusiasmo o vosso procedimento e patriotismo, relativamente à fundação de uma escola de comércio nessa cidade. Pede-vos que designeis o número de ações que esta deve subscrever e as considereis subscritas. Felicitações. – Cícero Bastos, Dr. João de Araújo, Dr. Valadão, Dr. Veiga Filho, Dr. Pedro Lessa, Dr. Lafayette Chagas, Urbano Galvão, Oscar Horta, João Dutra Júnior, Bernardino Café, V. Fagundes, Getúlio Carvalho, Ernesto Carvalho e Dr. Porfírio Machado. E, de fato, não falharam, de acordo com Bastos, alguns mineiros residentes em São Paulo que se reuniram no dia 1° de fevereiro de 1891, à rua Aurora, n° 20, às 13:00 horas, com o objetivo de promoverem entre si os meios de auxiliar o distinto mineiro Francisco Baptista de Oliveira na criação da Escola Comercial de Minas. Entre outros, destacava-se a presença de Cícero Bastos, Dr. Pedro Lessa, Dr. Matias Valadão, Dr. João de Araújo, Dr. Pedro da Veiga Filho, José Theofilo V. Fagundes, Henrique Bastos (Bastos 1982, p 27). Em conseqüência, acrescenta Bastos, reuniu-se a colônia mineira em São Paulo, no dia 28 de março de 1891, cuja ata é reproduzida a seguir: 14 Aos 28 dias do mês de março de 1891, nesta cidade e capital do estado de São Paulo, reunidos em uma das salas do Banco São Paulo e Rio de Janeiro os Srs. Cícero Bastos, Dr. Veiga Filho e Dr. João de Araújo, o primeiro presidente e os dois últimos 1º e 2º secretários da comissão que se formou entre os mineiros residentes nesta cidade com o fim de angariar donativos para a fundação da escola comercial no estado de Minas (cidade de Juiz de Fora) sob a iniciativa do cidadão F. Baptista de Oliveira, o Sr. Presidente expôs que o fim da comissão estava preenchido, tendo a mesma conseguido entre os mineiros residentes no estado e muitos distintos cavalheiros não mineiros angariar a importante e avultada soma de vinte e cinco contos de réis (25:000$000) conforme os Srs. subscritores concederam como donativo à Academia de Comércio de Juiz de Fora para a constituição de seu patrimônio, encarregando-se de fazer chegar a dita quantia à mesma escola à Casa E. Vieira & C. Estabelecida na rua Gonçalves Dias, nº 66, por ordem da firma Bastos & Irmão, desta capital. Foi mais resolvido em nome da comissão que se dissolvia ficar consignado nesta ata o voto do mais solene agradecimento a todos os cavalheiros que apoiaram a fecunda e proveitosa idéia de tão útil instituição, bem como que, em nome dos mineiros residentes nesta capital, se deixassem aqui consignadas sinceras felicitações ao patriótico cidadão Baptista de Oliveira. Face ao exposto, Resolve anexar a esta ata a lista integral de subscritores, publicar pela imprensa e enviar para o arquivo da escola os originais desta ata e lista. Eu, Dr. João de Araújo, secretário, o escrevi e assino. (a) Cícero Bastos, João S. Veiga Filho, Dr. João de Araújo.” (idem, ibidem) No final dessa ata consta a relação das pessoas residentes em São Paulo que contribuíram, de modo espontâneo, para a criação da Academia de Comércio de Juiz de Fora, nos meses de janeiro a março de 1891. Interessante verificar, pela soma das parcelas, que o total seria de 24:930$000 (vinte e quatro contos e novecentos e trinta réis), apresentando, portanto, uma diferença de 70$000 (setenta réis). Mas, de fato, a Sociedade Anônima Academia de Comércio, segundo consta da ata de fundação, recebeu a quantia de 25:000$000 (vinte e cinco contos de réis) (Bastos, 1967, p 30). Na mesma época, a Gazeta de Lavras publicava a nota abaixo, reproduzida em jornais da Cidade de Juiz de Fora, sob o título Academia de Comércio: 15 Parece que vai afinal preencher-se um enorme vácuo que havia no seio de nossa pátria. De certo tempo a esta parte tem-se desenvolvido de modo extraordinário o espírito público, já organizando-se companhias para a exploração de nossas riquezas naturais, já fundando-se empresas de todo o gênero e para múltiplos fins, já despertando-se a atividade, há tanto adormecida, e que agora busca expandir-se por todos os meios que as relações comerciais oferecem. Entretanto, falta-nos absolutamente um instituto, onde vá a nossa sociedade prover-se dos conhecimentos indispensáveis a quem se dedica à profissão do comércio e às empresas com que ele se relaciona intimamente. Esta lacuna é que está em vista de sanar-se. Um mineiro dedicado à sua terra e animado dos mais elevados intuitos, tendo visitado, há pouco, na Europa, diversas academias livres de ensino comercial superior, deseja dotar Minas com um instituto desse gênero. Para esse fim já se dirigiu ao governo, de que espera favores mínimos, quase nulos, em face dos inúmeros benefícios que essa instituição vem trazer-nos, a todos em geral. Nem compreendemos como pode um governo hesitar na resolução de um problema que se impõe como questão vital para esta turma que luta ansiosamente para erguer-se do abatimento, em que jaz manietada, há mais de um século. Fazemos votos para que o prestantíssimo mineiro e distinto cidadão Francisco Batista de Oliveira consiga, no mais breve prazo, a realização de seu magnífico projeto, com que fará um dos maiores benefícios, de que carecem não só Minas como todo o Brasil. Na última semana do mês de abril de 1891, a mesma Gazeta de Lavras sob o mesmo título publicava: O governo deste estado recusou conceder ao cidadão Francisco Baptista de Oliveira a pequena subvenção que lhe foi requerida para a fundação de uma Academia de Comércio em Juiz de Fora. Aquele cidadão resolveu, então, fundar à sua conta e de seus amigos, aquele estabelecimento, dando assim a mais digna resposta ao ato do governo, que reserva o erário do Estado para só abri-lo em favor dos amigos e afilhados. Enviamos ao distinto mineiro o mais entusiástico bravo! O Pharol, jornal de circulação semanal, ainda sobre a Academia de Comércio, na segunda semana do mês de maio de 1891, registra: 16 O nosso distinto conterrâneo Sr. Francisco Baptista de Oliveira transmitiu-nos ontem o seguinte telegrama, que comunicamos aos nossos leitores: Apelando para o patriotismo dos incorporadores dos Bancos Territorial e Mercantil de Minas e de Crédito Real de Minas Gerais, creio ter conseguido quantia equivalente à subvenção que me foi negada pelo governo desse Estado, para a fundação de uma Academia de Comércio nessa cidade. Juiz de Fora vai, pois, possuir tão importante estabelecimento, independente do auxílio dos cofres públicos. Parabéns a essa florescente cidade. Parabéns ao Estado de Minas Gerais. E, acrescenta: Trata-se de importantíssimo melhoramento que, desprezado por quem deveria acolhê-lo com entusiasmo, seria completamente abandonado se sua iniciativa não tivesse partido de um cidadão dotado de suficiente energia para reagir contra a oposição sistemática que o governo tem feito à nossa cidade, procurando embaraçar-lhe o progresso. (idem, ibidem). Merecem destaque os comentários da época publicados na imprensa que, segundo Bastos, embora se tratasse de uma obra de elevado alcance e relevante para o Município de Juiz de Fora, Baptista de Oliveira não contou com o mínimo apoio do Presidente do Estado, o Senhor Cesário Alvim; que marca sem dúvida, de forma clara sua determinação e consciência da importância da obra a ser construída. Por outro lado, é oportuno observar que Afonso Pena, Presidente da República, deu significativo apoio a essa obra (l967, p 20). Para a constituição da Academia de Comércio, Baptista de Oliveira organizou uma sociedade com o capital de duzentos contos de réis, iniciando, desde logo, campanha popular para o grande empreendimento. Assim, com a contribuição efetuada por pessoas de Juiz de Fora e por amigos de outros lugares, no dia 30 de março de 1891, a Sociedade Anônima Academia de Comércio foi oficialmente instituída. A reunião dos fundadores realizou-se no salão do Banco de Crédito Real de Minas Gerais S.A., ocupando a presidência da mesma o ilustre industrial Bernardo Mascarenhas, a primeira e a segunda secretarias, respectivamente, os doutores Francisco Isidoro Lage e 17 Gustavo Penna (Bastos, 1967, p 34). Nessa histórica sessão foi escolhida a primeira diretoria, com esta composição: a) Conselho Administrativo, integrado por, Francisco Baptista de Oliveira, Dr. Francisco Bernardino Rodrígues Silva, Dr. Fernando Lobo Leite Pereira, Dr. Alfredo Ferreira Lage, Dr. Ambrósio Vieira Braga e Bernardo Mascarenhas. b) Conselho Consultivo, composto pelo Conselheiro Affonso Augusto Moreira Penna, Dr. Feliciano Augusto de Oliveira Penna, Dr. Virgílio Martins de Mello Franco, Dr. Constantino Luiz Paletta, Dr. Eduardo de Menezes e Dr. Gustavo Penna. c) Conselho Fiscal, do qual faziam parte os seguintes membros: o Conselheiro João Ribeiro Mendes, o Barão de Santa Helena, o Barão de São Marcelino, o Visconde de Monte Mário, o Dr. João Nogueira Penido e o Coronel João José Vieira. Após a instalação da Sociedade Anônima, com a eleição dos membros dos Conselhos Administrativo, Consultivo e Fiscal, Francisco Baptista de Oliveira declarou que, naquele momento, renunciava a cobrar as despesas que por sua conta e risco fizera. Adquirido o terreno, tendo em mãos um projeto trazido da França e possuindo o capital necessário para o início da construção, pôde, enfim, tornar realidade efetiva seu ideal. Já estando em condições de pôr em funcionamento os cursos, a direção do estabelecimento dirigiu um manifesto ao público que, reproduzido em diversos jornais, inclusive no “Correio de Minas”, de Juiz de Fora, na segunda-feira de 4 de fevereiro de 1893, afirmava: Vencendo o espírito de rotina, que para as carreiras liberais nada mais quer do que a prática, independente de qualquer preparo científico e especial, a Academia de Comércio de Juiz de Fora veio sem dúvida preencher importante lacuna no ensino brasileiro. Modelada pelas melhores organizações pedagógicas para o que foram aproveitados os reparos da crítica competente sobre os planos de estudos das melhores escolas de ensino comercial, espera a academia fornecer aos seus alunos os conhecimentos teóricos e práticos necessários, 18 desenvolvendo-lhes ao mesmo tempo as qualidades morais que reclama a carreira a que se destinam. Para isso, o [...] ensino, como se vê dos programas detalhados de cada cadeira, é teórico, pelo estudo das ciências; pelos cursos de matemática aplicada, química industrial e mercadorias, transportes e material comercial, direito comercial, línguas estrangeiras, desenho e caligrafia; profissional pela aprendizagem metódica do que se faz nas casas comerciais, estabelecimentos industriais, bancos etc., o que, nos devidos termos constitui a lição de coisas; enfim, moral e filosófico, porque é moralizador o trabalho bem dirigido que vai constituir utilíssimo meio de vida e tem alcance filosófico e conhecimento de leis científicas, o estudo das ciências naturais, do direito, da economia política, da história, da evolução do progresso geral da humanidade. A Academia de Comércio pode, pois marchar junto das demais escolas de ensino superior, e os seus laureados serão colocados ao lado dos médicos, dos engenheiros e dos advogados. Serão homens aptos para exercer os cargos de direção em importantes casas ou escritórios comerciais, em bancos ou companhias industriais; de chefes de repartições públicas; de inspetores de alfândegas, de cônsules; para ocupar, enfim, as mais altas posições, no comércio e na administração pública. Conseqüentemente, as aulas tiveram início no dia 26 de julho de 1894. A propósito, notas foram publicadas no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, no dia 5 de fevereiro de 1895, que continuou dando várias notícias. Também, à mesma época, no Jornal do Brasil, de 7 de fevereiro, no Minas Gerais (órgão oficial, em Ouro Preto), de 4 de fevereiro, no Colombo, de Rio Novo, de 17 de fevereiro, e na Gazeta de Lavras, de 16 de fevereiro, foram divulgadas notícias pertinentes. 1.3 – Dificuldades da Sociedade Anônima Academia de Comércio Em 1898, pelo que se deduz de artigo assinado por Felix Franco, pseudônimo usado por Augusto Franco, atuante jornalista e aluno da Academia de Comércio, na qual teve seu ingresso logo após a abertura dos cursos, e publicado no Correio de Minas, de 1º de agosto desse ano era reduzidíssimo o número de alunos, contrariamente ao que tinha ocorrido nos anos anteriores. Observa o articulista que, em 1895, foi significativo em qualidade e em quantidade o número de matrículas: no 1º ano do curso superior havia 12 alunos; no 1º e 2º 19 anos do curso de preparatórios, respectivamente, 19 e 11 alunos, perfazendo um total de 42 alunos. Já no ano seguinte, começou a diminuir sensivelmente, com mais intensidade ainda nos anos subseqüentes, de tal forma que, em 1898, apenas existiam na Academia oito estudantes, sendo quatro no 2º e quatro no 3º ano do curso superior. Não houve matrículas no 1º ano e não funcionou o curso de preparatórios. Bastos relata que Félix Franco, que freqüentara o curso de preparatórios, apresentava as razões do decréscimo ou possível fracasso, observando: • A vida em Juiz de Fora era caríssima, sendo inexeqüível a possibilidade dos alunos não residentes na Cidade poderem se manter fora de um internato. • Esclarecia que não houve grande retirada de alunos, pois os que, em 1897, freqüentavam o curso anexo, em 1898 iriam para o 1º ano do curso superior, o que não se deu por motivo de transformação absurda do curso preparatório em ginasial, o que levava à conclusão de que tal transformação feriu totalmente o curso de comércio, o objetivo principal e talvez único da Academia. • A Academia se transformou em ginásio, em colégio de meninos e não de rapazes. • E, completava Félix Franco: “A criação de um ginásio aqui em Juiz de Fora será, não duvido, de alguma utilidade. Porém, mantê-lo ao lado da Academia é arruiná-la, é exterminá-la”. (1982, p 78) Algumas divergências internas sérias e, também, externas surgiram no transcurso daquele ano de 1898, em relação ao curso superior de comércio e ao curso de letras modelado pelos ginásios oficiais. Com um número pequeno de alunos, segundo Bastos, e a situação financeira sempre precária, a maioria dos acionistas não visando lucros, mas cheia de interesse pela vitória da obra a bem da educação, deliberou – e nisso há algo de sentido patriótico – doar aquele notável patrimônio ao Estado de Minas Gerais sob a condição cláusula de se concluir o edifício e se manter o curso de comércio (1987, p 93). Logo após, em meio a tanto antagonismo de pontos de vista, iniciou-se um movimento com enfoques diferentes. O alerta foi dado pelo ilustre e benemérito Padre Dr. João Emílio, um dos grandes cidadãos que marcaram o passado de Juiz de Fora, em artigo publicado no Jornal do Comércio, de novembro de 1898, sob o título Academia de Comércio, no qual assinala: 20 [...] Após o veto presidencial, que desfechou golpe mortal neste instituto de ensino superior, não ocorreu às cabeças pensantes ou dirigentes da Sociedade Anônima Academia de Comércio, que ela viesse um dia a ser casa de educação sob os moldes dos padres jesuítas, incontestavelmente os primeiros educadores da mocidade[...]. E, complementa: [...] é fora de dúvida que o fundador da Academia de Comércio trata de doar o prédio e seus pertences à Companhia de Jesus para a fundação de um colégio sob a condição de manter um curso comercial [...]. Bem sei que não é sem sacrifícios que o ilustre benemérito mineiro tomou esta resolução, porque por sua vontade se manteria sem dúvida a Academia tal como ele planejou e para cuja realização não poupou esforços. Assim, espera-se que não haja demora para se tornar efetiva esta doação e que o mais breve possível todo povo possa saudar os filhos de S. Inácio de Loyola, como os salvadores do grande e futuroso instituto que o governo rejeitou e a mocidade tem desprezado. Padre João Emílio. (Bastos, 1982, p 97) Esse artigo deve ter despertado a sociedade juisforana para uma tomada de consciência. É bem verdade que Baptista de Oliveira já estava agindo neste sentido, mas de modo cauteloso, com aquela prudência que era uma das características fundamentais de sua personalidade, mas sempre atuante. 1.4 – Doação da Sociedade Anônima Academia de Comércio à Congregação do Verbo Divino Não demorou muito e foi crescendo o número daqueles que vieram endossar a proposta do Padre Dr. João Emílio. Os jesuítas, porém, examinando-a, não puderam aceitála de pronto. Criava-se mais um obstáculo. Manifestações da parte do povo e da imprensa, sempre ao lado da instituição, consideravam, também, com pessimismo, as dificuldades que se antepunham. O último ano do século dezenove, foi crucial para a Academia de Comércio, para Francisco Baptista de Oliveira e seus abnegados companheiros. Segundo Bastos, os responsáveis por esse importante patrimônio procuravam uma solução para os problemas. Seguindo a opinião do Padre Dr. João Emílio, em artigo publicado anteriormente, 21 procuravam, agora, uma Congregação religiosa capaz de estar em condições de aceitar e manter a obra (1967, p 101). Eram relevantes as razões que o Dr. Francisco de Campos Valladares, Presidente do Conselho Administrativo, apresentou, sob o testemunho daquele que fora o verdadeiro esteio da obra, o Dr. Guastavo Penna. A assembléia então, sem maiores discussões e por unanimidade, decretou a dissolução da sociedade anônima. Já antes havia sido lida uma declaração da quase totalidade dos acionistas e plena ratificação de todos os presentes, pela qual se comprometiam a fazer doação de todos seus direitos à entidade religiosa que anuísse à oferta sob cláusulas. Assim, foi efetivamente realizada a doação, por escritura pública, dando-se possibilidade a que os padres salesianos se fixassem em Juiz de Fora e continuassem a obra com as características de Academia de Comércio. Eis que, em setembro, começaram os rumores da tão almejada movimentação do prédio. Enfim, aquela casa iria novamente ser aberta ao público e agora com a dupla função de ciência e fé. A respeito, no dia 14 de setembro de 1900, o Jornal do Comércio da Cidade publica a seguinte nota: Acha-se nesta cidade o Padre Carlos Graia da Congregação dos Salesianos. Esse distinto sacerdote, nomeado para o cargo de diretor do Liceu de Artes, Ofícios e Comércio, que, em breve, será aqui instalado, veio tomar posse do edifício da extinta Academia de Comércio, doado à congregação religiosa, de que é ilustre membro, para a fundação desse estabelecimento, e bem assim providenciar sobre as demais medidas necessárias para a próxima instalação do referido liceu. Segundo Bastos, o ano de 1900 terminou e a obra dos salesianos não teve inicio. Algo estava para acontecer. E, realmente, chegou o ano de 1901, sem nenhuma novidade (1987, p118). Nesse período, já existiam, na cidade, duas congregações religiosas prestando relevantes serviços pastorais: a dos Redentoristas, de Santo Afonso de Liguori, e a do Verbo Divino, do Padre Arnaldo Janssen, essa última congregação dedicava-se, também, à educação da juventude. Lutando com sérias dificuldades, não somente financeiras, mas, sobretudo por falta de padres que pudessem vir ajudá-lo no funcionamento do Liceu, o Padre Carlos Graia, de 22 comum acordo com a direção dos salesianos, resolveu transferir à Congregação do Verbo Divino a doação que fora feita à sua comunidade, com a autorização dos diretores Drs. Francisco de Campos Valladares e Gustavo Penna, que respondiam pelos demais acionistas. A propósito, o Jornal do Comércio de 27 de fevereiro de 1901 comentava: A Congregação do Verbo Divino, mantendo o curso comercial e conservando o mesmo título “Academia do Comércio de Juiz de Fora” estabelecerá anexo um internato e externato de instrução secundária modelado pelo ginásio nacional, que inaugurará ainda este ano. Não lutando com tantas dificuldades anteriormente verificadas, já como sociedade anônima, o instituto poderia estabilizar-se definitivamente. A Congregação do Verbo Divino, de posse do prédio, móveis e demais pertences, poderia terminar em pouco tempo o edifício, assim como montar o curso comercial completo. Os simples fatos da obra ser mantida pelos padres da Congregação do Verbo Divino e ser a Academia de Comércio um centro dinâmico de ciência, de arte e de civismo fizeram dela um centro de formação cristã da juventude e mocidade brasileiras, como resposta às pessoas que manifestavam dúvidas. Em 8 de abril de 1901, a Congregação do Verbo Divino tomou posse do prédio da Academia de Comércio. No entanto, a escritura da transferência de doação, foi firmada somente a 21 de março de 1903 (anexo 2) e especificava, entre os compromissos então firmados, o de prosseguir as obras que demandavam conclusão, manutenção do curso comercial e abertura de um curso ginasial (Bastos, 1982, p 123). A partir daí, entrou a Academia na terceira e definitiva fase de sua existência: a primeira, desde sua fundação como sociedade anônima; a segunda, durante um ano, sob as ordens da Congregação Salesiana; a terceira, com os ilustres padres do Verbo Divino, os quais logo deram início às suas atividades, beneficiando a sociedade de Juiz de Fora. Assim sendo, em 10 de junho de 1901, realizou-se a solenidade de abertura do curso ginasial. Alicerçados em princípios religiosos, morais e científicos, os padres do Verbo Divino implantaram em Juiz de Fora um instituto voltado para a formação da juventude, não se preocupando apenas com os cursos mencionados na escritura de doação, mas realizando 23 uma verdadeira revolução intelectual e de formação científica: aulas, conferências, promoções artísticas. Para tanto, buscava a participação da sociedade. Na Gestão do Padre Newton Gabriel Pimenta (1951–1956), uma fase de grandes dificuldades, principalmente no setor econômico, esteve na Academia de Comércio o Superior Geral da Congregação do Verbo Divino, O Revmo. Padre Aloísio Grosse Kappenberg, quando de sua visita oficial à Província. O objetivo desta visita, segundo as Constituições da Congregação do Verbo Divino, era: Fortalecer nos confrades a consciência de que a Congregação cuida de todos e de cada um. Ao Generalado, no entanto, proporciona informes precisos da vida e do trabalho dos confrades e um quadro realista da condição e das precisões das diversas partes da Congregação. Deve ela conseguir que a vida e a atividade de todos se mantenham dirigidas para a nossa comum finalidade, orientando-se pelas normas da Congregação. (Constituições da Congregação do Verbo Divino art. 626, p 128) Dessa visita, ficou claro, para o Superior Geral da Congregação, a importância, das escolas católicas, no Brasil, levando-o a perceber a necessidade de revitalizar a Congregação no país. Nessa perspectiva, sua primeira preocupação foi a atualização de métodos e técnicas exigidos, modernamente, pela educação e pela ciência. Entre os padres que se especializaram nesse período, destacamos o Padre Leopoldo Kriger, paranaense de Ponta Grossa, educador, pesquisador e sacerdote, dedicou sua pesquisa na área de Botânica, tornando-se referência não somente para a Cidade de Juiz de Fora como para a região que a cerca. Sob sua direção, além do Colégio Academia de Comércio, estavam o Colégio Duque de Caxias em Araraquara, o Colégio Arnaldo em Belo Horizonte, e o Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, do qual foi também fundador, instituições essas pertencentes à Congregação do Verbo Divino. Junto às pesquisas realizadas na Universidade de Juiz de Fora, doou a Universidade, um herbário de alto valor científico. Padre Leopoldo galgou todos os degraus que a carreira do magistério oferecia, além do doutorado em Biologia culminando com o grau de Livre Docência. Desde que assumiram a Academia, em 1901, os verbitas procuraram sempre incluir o estudo e a prática da religião no currículo escolar. Esse empenho está relacionado à 24 finalidade mesma da Congregação do Verbo Divino: “instituição missionária criada para cristianizar as nações”. 25 2. O CONCÍLIO VATICANO II, A CONGREGAÇÃO DO VERBO DIVINO E A EDUCAÇÃO: alguns comentários O Papa João XXIII abriu o Concílio em 11 de outubro de 1962, sendo encerrado em 8 de dezembro de 1965. Segundo Gesuína Burin Stein, o Concílio desenvolveu-se em quatro sessões. A primeira, teve início em 11 de outubro de 1962 e terminou em 8 de dezembro do mesmo ano. No intervalo entre a primeira e a segunda sessão morreu João XXIII, em 3 de junho de 1963, assumindo o pontificado Paulo VI, em 21 de junho do mesmo ano, dando continuidade aos trabalhos do Concílio Ecumênico Vaticano II, realizando a segunda sessão, de 24 de setembro a 4 de dezembro de 1963; a terceira de 14 de setembro a 21 de novembro de 1964 e a quarta e última sessão de 14 de setembro a 7 de dezembro de 1965. A 8 de dezembro do mesmo ano, o Papa Paulo VI comunicou ao mundo a reforma do Santo Ofício (2001, p 5961). A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ao preparar o Documento nº 54, em 1995 faz uma retrospectiva histórica da atuação da Igreja, situando o início da renovação que deu origem, no Brasil, mesmo antes do Concílio Vaticano II, ao planejamento pastoral. Nesse Documento, intitulado Diretrizes gerais da ação evangelizadora no país, para o triênio 1995-1998, assinado em 22 de maio de 1995 pela CNBB, registra-se que O Concílio Vaticano II significou um tempo novo para a vida da Igreja, um sopro do Espírito que se difundiu para além dos quadros intra-eclesiais e dos ambientes religiosos. Ao repensar a missão da Igreja e a sua relação com o mundo, gerou uma nova autoconsciência da Igreja e uma eclesiologia de amplas perspectivas para o trabalho pastoral. (CNBB. Documento nº 54, p 28) Analisando essa declaração, percebemos que o Concílio tinha duplo objetivo: primeiro, assegurar a renovação da Igreja Católica diante do mundo moderno e, segundo, preparar a construção da unidade cristã. Destacamos entre as várias características desse Concílio a abertura ao ecumenismo e ao diálogo com as religiões e as culturas. A década de 60 do século passado foi um período caracterizado por grandes mudanças, tanto no setor econômico, quanto 26 no plano político mundial, sendo um momento de expansão econômica e de desenvolvimento tecnológico, inclusive no Brasil, sobretudo após o golpe militar de 1964. Esse quadro influenciou uma tomada de posição da Igreja Católica frente aos novos desafios da sociedade. Para tanto, a Igreja procurou se abrir para além dos quadros intra-eclesiais e dos ambientes religiosos, na busca de caminhos junto e com o povo. Essa atitude de abertura e diálogo implicam a necessidade de aprender algo do mundo moderno, num momento de acentuados progressos e técnicas da pesquisa científica, de novos meios de comunicação social. Tal posicionamento irá se refletir, antes de tudo, na defesa da liberdade e na promoção da justiça para todos, uma vez que homens e mulheres esclarecidos têm mais e melhores condições de participar da permanente busca da verdade, da construção do bem comum, da solidariedade e da paz. Comentando o Vaticano II, Velasco, observa: “O impacto produzido pelo discurso inaugural de João XXIII despertou a consciência de que era necessário iniciar um caminho novo e que esta era a tarefa fundamental do Concílio” (1996, p 233). Por sua vez, Pierrard comenta que, um dos valores em que se inspirava o Concílio era o de muita esperança, pois João XXIII apresentou o Concílio como uma Assembléia destinada a “tornar a Igreja presente no mundo e sua mensagem sensível à razão e ao coração do homem engajado na revolução técnica do século XX (1978, p. 273). Apoiando-nos em Paulo Freire, lembramos, também, que: O progresso científico e tecnológico que não responde fundamentalmente aos interesses humanos, às necessidades de nossa existência, perde, sua significação. A todo avanço tecnológico haveria de corresponder o empenho real de resposta imediata a qualquer desafio que pusesse em risco a alegria de viver dos homens e das mulheres. (l996 p 130) Nessa linha, urgia, portanto, uma tomada de posição frente ao novo contexto e à nova proposta que se apresentava. A Igreja sentia-se responsável na construção de homens e mulheres que unidos trilhassem o novo caminho, preparando-os aos novos desafios e para que não ficassem à margem do progresso tecnológico nem do novo contexto social e político. 27 Paulo Freire em seu livro Pedagogia da Autonomia (1996) oferece uma oportunidade de reflexão sobre nossa prática e sobre o de enriquecimento de nossa visão enquanto educadores e sujeitos que precisam reconhecer-se e aos outros como presenças que intervêm, que transformam, que precisam falar do que fazem e também sonham, comparam, valorizam, decidem e rompem, especialmente com o que oprime, limita e intervém em nossas escolhas. Reafirma a necessidade de que o educador se convença definitivamente de que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção” (p 47), pois, social e historicamente, o homem vem aprendendo, descobrindo, tentando, inventando e acreditando que ensinar é possível e mudar é preciso (idem, ibidem). Por sua vez, Bertrand resumindo a Encíclica Pacen in Terris, assinala tratar-se de [...] um apelo apaixonado a cada liberdade para contribuir, pela liberdade de todas as outras, na comunhão de valores, e construir, com elas, o bem comum universal, posto ao serviço do desenvolvimento total de cada pessoa humana. (1993, p 290) Merece também destaque a Encíclia Mater et Magistra (1961)1, sobretudo os artigos 219 a 222, que insistem na intensificação do ensino da doutrina social cristã. Esta Encíclica enfatiza, ainda, a eficácia da doutrina social católica na solução de problemas concretos, aos que a desconhecem. A educação é abordada nos artigos 223 a 227, ficando explícita a necessidade de que os filhos recebam não somente instrução social, mas também educação voltada para os problemas e necessidades da sociedade. Educação que deve ser integral, compreendendo a totalidade dos deveres, de modo a despertar a “consciência do exercício cristão das atividades econômico-sociais [...], bem como o método que torne possível o cumprimento dessa obrigação”. O artigo 230 assinala, ainda, que a educação social é uma importante função das Associações e Organizações do Apostolado Leigo, cujos membros devem aproveitar suas experiências quotidianas para educarem a si próprios e contribuírem para a educação social dos jovens. Os artigos 232 a 237 propõem o método “ver, julgar, agir”, para levar à ação concreta os princípios e diretrizes da doutrina da Igreja, convidando os jovens para refletirem sobre os três momentos; insiste, ainda, que os filhos sejam 1 Elaborada com a assessoria do Movimento “Economia e Humanismo”, sob a coordenação do Pe. Lebret. 28 profissionalmente competentes e que se conduzam pelos princípios e diretrizes da doutrina da Igreja. Nessa linha de pensamento, Durmeval Trigueiro faz um alerta sobre a necessidade de se articular um pensamento que seja coerente com os fatos, o que nos faz pensar sobre as Diretrizes do Vaticano II e sua aplicação às escolas católicas no país. Assinala o autor que “Nada parece ser mais urgente para a educação brasileira do que o exercício de um pensamento coerente e articulado com os fatos. Esta é a tarefa precípua da filosofia da educação” (1977, p 93). A partir de numerosas citações e referências a documentos dos papas anteriores que ilustram a importância da educação, a Declaração Gravissimum Educationis, promulgada em outubro de 1965, insiste na necessidade de se “considerar atentamente a importância capital da educação na vida do homem e sua influência sempre maior sobre o progresso social de nossa época”, acrescentando: “a educação de jovens e mesmo certa formação permanente de adultos, se por um lado é mais fácil, por outro se faz mais urgente nas atuais conjunturas” (p 322). O progresso da técnica, da pesquisa científica e os modernos meios de comunicação social oportunizam mais espaço para a cultura intelectual e espiritual e o estreitamento dos laços entre os grupos. A Declaração assinala, também, que por “toda parte empreendem-se esforços para promover, cada vez mais, a educação”. É freqüente a referência ao direito à educação em documentos legais, bem como em numerosos documentos públicos. Mas, embora se multipliquem as escolas, e sejam criados outros tipos de institutos de educação, procurando-se estender a educação a todos, atualizandose os métodos e realizando-se novas experiências nessa área, não podemos deixar de reconhecer que parcela expressiva de brasileiros, em idade escolar estão à margem da formação básica ou não têm efetivamente acesso à educação escolar. A Declaração Gravissimum Educationis frisa, ainda, que os diversos tipos de escolas ligadas à Igreja, inclusive as profissionais e técnicas, as de educação de adultos, assim como as de educação especial deveriam ter em vista o modelo da escola católica e adverte a hierarquia 29 no sentido de ajudarem essas escolas em seu desempenho, sobretudo aquelas que estavam voltadas para “os desprovidos de bens temporais ou que se sentiam privados do auxílio e do afeto da família ou, ainda, mantinham-se alheios no dom da fé”. Propõe que se estabeleça, entre as escolas católicas e com as demais escolas, uma ampla cooperação, para que possam socializar os resultados de pesquisas e descobertas, permutando professores, promovendo tudo quanto favorecesse a ajuda mútua. Nessa perspectiva a Gravissimum Educationis (l965) conclui com uma veemente exortação aos jovens para que, consciente e generosamente, se empenhem no processo educativo, sobretudo onde há falta de professores e onde a educação da juventude está ameaçada. Num segundo momento, o Concílio agradece a grande contribuição de todos quanto se dedicam à educação, exorta-os a perseverarem, esmerando-se na arte pedagógica e no estudo das ciências para promover a renovação interna da Igreja e também ampliar sua benéfica presença no mundo. Abre-se assim o espaço para a especialização e a operacionalização do trabalho que deve desenvolver a Igreja nas escolas confessionais católicas, ao mesmo tempo delega competência às conferências episcopais para legislarem sobre a educação católica em suas respectivas regiões, sempre obedecendo aos seus princípios. Por sua vez, a Gaudium et Spes (1965), citando Pio XII, reafirma “o direito inalienável à educação” que todo homem tem, e estabelecendo que a educação deve adaptar-se “à cultura e às tradições nacionais”, visando à “convivência fraterna [...], ao aprimoramento da pessoa [...] e ao bem estar das sociedades de que o homem é membro, e de cujas tarefas, uma vez adulto, terá que participar. Define, também, quem são os responsáveis pela educação. Num primeiro nível, os pais são os principais responsáveis: “A família é, pois, a primeira escola de virtudes sociais de que precisam todas as sociedades”. E, num segundo nível, é a sociedade civil, pelo princípio da subsidiariedade, que cabe a tarefa de “levar a termo o trabalho da educação, respeitando, porém, os desejos dos pais”. Um terceiro nível, “por motivo especial, cabe à Igreja a tarefa de educar. Não somente porque devem reconhecê-la como sociedade humana, capaz de transmitir a educação, mas por ter como objetivo trabalhar junto a todas as sociedades, promovendo o desenvolvimento integral da pessoa humana na edificação de um mundo melhor (Documentos do Concílio Vaticano II, 1997, p 615). 30 Complementando, ressalta, ainda, a Gaudium et Spes (1965) o papel dos professores, que são os verdadeiros promotores do trabalho de concretização dos propósitos e iniciativas, incitando-os a se prepararem com particular solicitude, tanto na ciência profana como na religiosa, num autêntico apostolado de serviço à comunidade humana. Para melhor desempenho do seu papel, os professores devem e precisam ter o desejo de se prepararem para melhor execução de sua tarefa. Esse desejo deve brotar da liberdade interior que irá se expressar na colaboração da construção de uma sociedade com maior liberdade de ação, mais justa e fraterna. A Constituição Gaudium et Spes (1965) dedicou um parágrafo à “liberdade” (nº 17) que transcrevemos em sua íntegra para que possamos perceber e refletir sobre a concepção de liberdade neste documento. Mas é só na liberdade que o homem pode se converter ao bem. Os homens de hoje apreciam grandemente e procuram com ardor esta liberdade; e com toda a razão. Muitas vezes, porém, fomentam-na de um modo condenável, como se ela consistisse na licença de fazer seja o que for, mesmo o mal, contanto que agrade. A liberdade verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no homem. Pois Deus quis “deixar” o homem entregue à sua própria decisão”, para que busque por si mesmo o seu Criador e livremente chegue à total e beatífica perfeição, aderindo a Ele. Exige, portanto, a dignidade do homem que ele proceda segundo a própria consciência e por livre decisão, ou seja movido e determinado pessoalmente desde dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação externa. O homem atinge esta dignidade quando, libertando-se da escravidão das paixões, tende para seu fim pela livre escolha do bem e procura a sério e com diligente iniciativa os meios convenientes. A liberdade do homem, ferida pelo pecado, só com a ajuda da graça divina pode tornar plenamente efetiva esta orientação para Deus. E cada um deve dar conta da própria vida perante o tribunal de Deus, segundo o bem ou o mal que tiver praticado. (1997, p 556 – 557) Tendo como referência a reflexão apresentada pelo pe. José Comblin na Revista Vida Pastoral de julho/agosto de 2005 (p 18) sob o título “As sete palavras-chave do Concílio 31 Vaticano II”, observamos que a Constituição Gaudim et Spes fez alusão a esse tema diversas vezes. De modo geral, ela acrescenta à palavra liberdade um adjetivo que tende a limitar a sua extensão. O Concílio afirma: “liberdade justa”, “liberdade responsável”, “liberdade honesta”, “liberdade ordenada”, “liberdade autêntica”. O próprio Papa Paulo VI, no seu discurso de conclusão, exaltando os valores humanos, fala das aspirações humanas “à vida, à dignidade da pessoa, à honrada liberdade, à cultura, à renovação da ordem social, à justiça, à paz”. Mas o que importa é que a palavra liberdade seja usada sem condenações. Na tradição anterior, quando um documento eclesiástico usava a palavra liberdade, era no sentido de condenar. Agora a palavra recebe um sentido positivo. A incorporação da palavra liberdade foi decisiva, pois inaugurou nova época. Essa palavra foi até aplicada à vida dentro da Igreja, o que implicou mudança em sua estrutura tanto interna quanto externa (idem, ibidem). Com o Concílio Vaticano II, a Congregação do Verbo Divino também repensou sua ação frente a um novo tempo e aos novos desafios que estavam por vir. Daí por diante os Capítulos Gerais, reuniões com a participação da maioria dos associados da Congregação com suprema autoridade legislativa, podendo ser de ordem geral ou provincial, e até mesmo as Constituições da Congregação sofrerão influências desse Concílio. No Capítulo Geral de 19682, verifica-se que a Congregação do Verbo Divino já havia acolhido as sugestões desse Concílio. Não contando com a presença do fundador, mas dos que davam continuidade à sua obra, percebeu-se que o Concílio Vaticano II acontecia num período caracterizado por grandes mudanças, tanto no setor econômico quanto no plano político mundial, repercutindo numa atitude da Igreja Católica frente aos novos desafios da sociedade, num momento de expansão econômica e de desenvolvimento tecnológico; um tempo de busca de novos caminhos. Esta atitude da Congregação remete a Paulo Freire, quando observa que: “[...] como educador precisamos ir ´lendo` cada vez melhor a leitura do mundo [...]” (1996, p 81). 2 Capítulo é assembléia de confrades, padres e irmãos, da Congregação do Verbo Divino, que tem por finalidade planejar e programar o trabalho missionário, determinando prioridades e estabelecendo normas. Em todos os empreendimentos levam em consideração tanto a necessidade e a urgência, como as possibilidades atuais e previsíveis da Congregação (Constituição do Verbo Divino, artigo 116). 32 No Capítulo Geral, realizado em 2000, o Concílio é visto como uma virada tanto nos aspectos da vida eclesial como também na compreensão e na prática da missão, ao enfatizar que toda a Igreja é missionária, ao mesmo tempo que se reconhece a diversidade de papéis em suas muitas atividades, preferindo situar o ´lugar`, o ´espaço` da missão em situações especificamente missionárias e não tanto em territórios geográficos como era percebido em tempos anteriores. Nessa trilha percebemos ser a educação entendida como um desses espaços de missão que tem por objetivo atingir cada ser humano em sua integridade. Apoiando-nos nas Constituições da Congregação, somos levados a essa ilação, que também serve de ponto de referência para os Capítulos, no parágrafo 3º do artigo 109: “Nosso apostolado na escola deve estar a serviço da evangelização, para que se anuncie a Palavra de Deus e se sinta sua força libertadora, na vida pessoal e social, e se aprofunde no mundo a consciência da universalidade da Igreja e de sua missão”. A Constituição da Congregação ressalta, ainda, a importância do apostolado na escola, bem como a parceria entre educadores, alunos e suas famílias, levando também em conta as circunstâncias de cada contexto, e examinando até que ponto e como a Congregação deve desempenhar seu papel como uma instituição comprometida com a educação e com a missão de despertar nos jovens o desejo de liberdade e de compromisso com a realidade que os cerca (Constituição da Congregação do Verbo Divino, p 25). Assinalamos ainda, através dessa Constituição que ela assume a tarefa de educar e formar a juventude, dentro e fora da escola, fazendo com que a força libertadora se faça sentir na vida social e pessoal. Nessa perspectiva, Durmeval Trigueiro Mendes alerta para a necessidade do compromisso e da ação frente ao desafio da educação. Segundo ele, É necessário libertar a educação e o próprio pedagogo da tendência à inércia. Não se imagina, a rigor, que a liderança das transformações educacionais deva pura e simplesmente transferirse do pedagogo para os cientistas sociais, filósofos e psicólogos. A mudança da sociedade só pode operar-se quando se opera a mudança do todo, requerendo esta, no plano científico, a visão inter e transdisciplinar e, no plano político, o projeto criador. (1977, p 109) 33 Complementando suas idéias adverte que o que vai garantir êxito no processo de desenvolvimento da Nação é uma educação permanente que, para ele [...] pode ser entendia como um sistema aberto, que utiliza toda a potencialidade da escola e da sociedade para produzir os valores, conhecimentos e técnicas que servem de base à práxis humana em toda a sua extensão. (Trigueiro Mendes, 1969, p 15) Na mesma ótica, Trigueiro Mendes observa: “[...] a educação será basicamente a consciência que a sociedade adquirirá de sua práxis, incluindo conhecimentos, valores e técnicas” (idem, p 16). 34 3. O COLÉGIO CRISTO REDENTOR 3.1. O Colégio Cristo Redentor: 1962-1968 Tendo presente o objetivo principal de nosso estudo, procuraremos apresentar como se achava estruturado o Colégio Cristo Redentor nos anos de 1962 a 1968, apoiando-nos em documentos que pertencem ao arquivo dessa instituição. No relatório alusivo às principais atividades ocorridas no Colégio, nos primeiros anos da década de 60, em relação à parte pedagógica, encontram-se registrados: o início e o término do ano letivo; as datas das provas e exames orais; a notificação de aposentadorias, admissão e ausência de professor. No que se refere à distribuição de aulas, no período de 1962 a 1968, o quadro a seguir contém informações sobre as disciplinas oferecidas. QUADRO 1 Distribuição de aulas de acordo com as disciplinas oferecidas Matérias 1ª série 2ª série 3ª série 4ª série Disciplinas indicadas pelo Conselho Federal Português 5 5 5 5 História 3 3 3 3 Geografia 2 2 3 - Matemática 4 4 4 4 Iniciação a Ciências 3 3 - - - - - 3 Ciências Físicas e Biológicas Disciplinas complementares do Sistema Federal Organização Social e Política Brasileira Desenho - - 1 1 - 2 2 2 Disciplinas indicadas pelo estabelecimento Inglês 3 2 3 3 Canto 1 - - - Práticas educativas Educação Física Educação Religiosa TOTAL Cívica-Moral- 1 1 1 1 2 2 2 2 24 24 24 24 35 O professor José Francisco Simões, entrevistado no dia 17 de abril de 2005, assinala que o ensino das disciplinas básicas, que são as indicadas pelo Conselho Federal de Educação, no ensino fundamental e médio ficava sob a responsabilidade de professores reconhecidamente competentes. Acrescenta, o professor Simões, que o ensino de religião era feito com planejamento, acompanhamento e práticas de convivência, direção espiritual, confessores à disposição e, ainda, possibilidade de participação em associações, com destaque para a Cruzada Eucarística e a Associação Campestre da Academia. Segundo esse professor, a educação para a vida foi todo um empenho que não visava apenas à “vestibularização” do aluno. Por sua vez, o Professor Dionísio Ladeira, em entrevista concedida no dia 11 de abril de 2005, lembra do Pe. Adalberto dando aula de religião e do Pe. José Maria dando curso sobre a Doutrina Social da Igreja e o Concílio Vaticano II, que estava em desenvolvimento. A respeito, o professor Juarez Carvalho Venâncio, entrevistado em 25 de abril de 2005, acrescenta que dentre os objetivos específicos do Colégio merece especial destaque a formação religiosa. A escola via na educação um processo global de dinamizar todas as potencialidades do educando, a partir de uma filosofia humano-cristã. Cultivar a dimensão da espiritualização e promover o testemunho de vivências cristãs era uma das metas principais do processo educativo efetuado pelo educandário. No relatório do Colégio referente ao ano de 1965, registra-se o cumprimento das normas contidas no artigo 38 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 4.024 de 20 de dezembro de 19613. Nos dois primeiros itens são apresentados o calendário da escola e o registro do cumprimento do programa, com destaque para as matérias 3 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 4.024 de 20 de dezembro de 1961, artigo 38: Na organização do ensino de grau médio serão observadas as seguintes normas: I – Duração mínima do período escolar: a) cento e oitenta dias de trabalho escolar efetivo, não incluindo o tempo reservado a provas e exames; b) vinte e quatro horas semanais de aulas para o ensino de disciplinas e práticas educativas. II – cumprimento dos programas elaborados tendo-se em vista o período de trabalho escolar; III – formação moral e cívica do educando, através de processo educativo que a desenvolva; IV – atividades complementares de iniciação artística; V – instituição da orientação educativa e vocacional em cooperação com a família; VI – freqüência obrigatória, só podendo prestar exame final, em primeira época, o aluno que houver comparecido, no mínimo, a 75% das aulas dadas. 36 lecionadas. E, no terceiro são mencionadas a Formação Moral e Cívica do educando e outras atividades realizadas, como: a) Atividades extra-curriculares – nessa perspectiva, o Colégio durante o ano letivo de 1965 procurou desenvolver entre os estudantes interesse pelas atividades extraclasse, destinando relativa verba em seu orçamento anual aos clubes de alunos. O departamento de esportes, além de manter os times oficiais do Colégio, promovia intercâmbio com outros estabelecimentos, organizando torneios entre as classes. Nas turmas do Ginásio, os alunos dotados de notas maiores tinham participação em outros torneios, procurando-se, com isso, fazer com que todos alcançassem a média 50, para gozar de privilégios especiais. b) Associação Campestre – era uma entidade estudantil, mantida pelo Colégio durante a década de 60, sob a direção de um professor, que desenvolvia escotismo, obras sociais e estudo organizado de matérias para os alunos menos adiantados. A Associação tinha salas reservadas para suas atividades, funcionando depois das aulas e aos domingos. Constavam das atividades da Associação: acampamentos, excursões, marchas noturnas e caminhadas, bem como levantamento das obras sociais da cidade, atendendo ao apelo da Ação Social da Arquidiocese aos alunos da Associação Campestre. Para tanto, contavam com a colaboração dos alunos do primeiro ano científico, registrando doze mil assistidos. Com essa preocupação o setor de obras sociais do Colégio construiu dois barracos nas favelas e pequenos reparos em alguns casebres, além de realizar cursos extras, oferecidos aos membros da Associação, como de técnica de datilografia, confecção de slides, primeiros socorros, técnicas de como estudar em equipe e como o aluno deve agir para melhorar seu ambiente. c) Cruzada Eucarística – a Cruzada Eucarística, nos anos 60, era uma associação de alunos, coordenada por um padre e tinha como principal finalidade aperfeiçoar o caráter do educando nos princípios da religião católica. Dedicava-se à melhoria da cultura, da educação religiosa cristã e também dos esportes. Reuniam-se aos domingos após a Missa celebrada, especialmente, para os integrantes da associação. d) Coro “Mater Verbi” dos Garotos Cantores da Academia – esse Coro congregava alunos do Colégio, tendo por finalidade a educação artística nessa área. Sua apresentação se dava tanto no próprio Colégio como em várias localidades: Igrejas, Matriz, mesmo fora 37 da cidade. Atualmente, em sua categoria, é o segundo mais antigo do Brasil. Formado por 47 vozes em idade que varia dos 9 aos 20 anos, abrangendo alunos e ex-alunos do Colégio. O relatório descreve, ainda, as atividades complementares de Iniciação Artística. Além das atividades do Coro, o ensino da cadeira de Desenho, que tinha como principal meta desenvolver e revelar as atividades artísticas. Na primeira e segunda séries, dava-se aos alunos a liberdade de desenhar espontaneamente, sempre assistido pelo professor. É também registrado no relatório o Serviço de Orientação Educativa e Vocacional em cooperação com a família, efetuando os seguintes trabalhos: entrevistas pessoais e coletivas; eleições de representante de turma e reuniões periódicas com os mesmos; entrosamento entre professor e aluno; levantamento das lideranças, orientando-se assim a assistência às turmas; levantamento das condições humano-sociais dos alunos para orientação de entrevistas pessoais. e) Escola de Pais – essas escolas tratavam de assuntos relativos à melhor educação do jovem estudante. Os encontros se davam sob a orientação de um professor. Em complementação havia, também, a Semana da Comunidade, que se caracterizava como um momento de entrosamento entre educador e educando, tendo como atividades esportes, conferências e gincanas. No arquivo do acervo do Colégio encontramos um Relatório de Verificação Prévia, no qual constam as condições exigidas para o funcionamento dos estabelecimentos de ensino comercial. Trata-se de um documento apresentado à Diretoria do Ensino Comercial. Esse documento contém o histórico do estabelecimento e informações sobre sua organização pedagógica e disposição do espaço físico. Para uma visão mais completa, colocamos em anexo essa fonte documental (Anexo 3). Somente a partir do ano de 1966 é que encontramos nos arquivos o Regimento Interno do Colégio Cristo Redentor, pois antes não havia um acervo organizado, contendo fontes documentais sobre a história dessa instituição. A partir de então, constatamos que o Colégio passou por um período de reforma em sua estrutura, tanto administrativa quanto pedagógica, definindo e re-elaborando determinadas questões, objetivos e atividades como: a Associação de Pais e Mestres e Círculo de Pais; a educação religiosa; o que competia ao corpo docente e ao corpo discente; as competências do Padre Diretor e do Padre Prefeito. 38 No Regimento Interno, de maio de 1966, destacamos a Associação de Pais e Mestres e Círculos de Pais. Nesse documento consta que essa Associação tinha por finalidade o aperfeiçoamento do educador, pais e professores, para melhor rendimento de sua ação educacional, da coordenação e harmonização dos esforços do lar e da escola para melhor formação, educação e bem/estar dos jovens educandos, nos termos do capítulo XIII, artigo 72. O artigo 73 mostra que são membros efetivos da Associação a diretoria do Colégio, os orientadores educacionais, os pais ou tutores legais dos alunos. E acrescenta: para que seus fins fossem atingidos a associação reunia-se periodicamente durante o ano letivo. Outro item que achamos pertinente destacar encontra-se no artigo 14 do Regimento Interno do Colégio, que dispõe: “O Colégio Cristo Redentor é um estabelecimento católico: isto supõe que os alunos que nele se matriculam sejam católicos, interessados em sólida formação religiosa”, acrescentando o capítulo 15: a fim de tornar-se não somente pessoa instruída mas elemento formado religiosamente. A propósito o Padre José Vicente Cesar ressalta em sua obra a História da Academia de Comércio que, como qualquer estabelecimento católico do país, o Colégio Cristo Redentor tinha o ensino da religião como matéria obrigatória, à qual estavam reservadas duas aulas semanais. A disciplina tinha provas parciais, notas em boletim e reprovação. No caso de reprovação o aluno era convidado a se retirar do Colégio. No entanto, era raro o aluno ser reprovado devido ao sistema de distribuição de notas e a presença na missa já garantia ao aluno nota 5, ou seja, a média suficiente para ser aprovado. A matéria ministrada nas aulas baseava-se nos compêndios em voga: Catecismo da Editora Vozes, catecismo de Spírago, “Luz e Vida”, História Sagrada de Heusser. No científico ficava a critério do professor em ensinar o Novo Testamento da Bíblia ou a explanação das encíclicas “Mater et Magistra”, “Pacem in Terris” e sobre o Corpo Místico. Nos dias atuais, o Colégio tem o Serviço de Ensino Religioso, departamento responsável pelo ensino religioso que busca, sob orientação da Congregação do Verbo Divino e de acordo com as diretrizes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, iluminar, à luz da fé, as experiências de educação dentro do mundo da escola, procurando: a) permitir experiências de comunhão e fraternidade na escola, orientando para seu aprofundamento na comunidade de fé; b) fazer da escola espaço libertador em que 39 educando e educador possam viver os valores evangélicos no dia-a-dia, como agentes de transformação da sociedade. A equipe encarregada da formação religiosa é integrada por leigos comprometidos e interessados na missão de educar e coordenada por um membro da Congregação do Verbo Divino (1991, p 93 – 94). Analisando esses dados, inclinamo-nos a admitir que o momento vivido era de mudanças na sociedade e que se refletia na educação escolar. O Sr. Walter Freesz afirma que a década foi muito agitada, com transformações causadas por fatores internos, como a vinda de padres jovens brasileiros contrastando com os antigos, entre eles alguns estrangeiros, bem como por fatores externos: a instauração do governo militar e a realização do Concílio Vaticano II. O professor Juarez relata, em entrevista concedida a 25 de abril de 2005, que em relação ao Concílio Vaticano II, sabia que estava acontecendo alguma coisa nova, que mexia com a estrutura da Igreja e, portanto, do Colégio. Ocorreu então a retirada dos irmãos e dos padres para uma outra casa ao lado, perdendo contato com eles. Embora, se soubesse que eram muitos, permaneceram no Colégio apenas os padres Leopoldo, José Maria, Gilson, Benito e o Irmão Alcides. No entender desse professor, os padres que aqui chegaram foram preparados para trabalhar no novo contexto que estava surgindo. Acrescenta, ainda, que mesmo havendo consciência, por parte dos professores, de que novos desafios se despontavam, devido ao quadro que se apresentava, não havia contato com as outras escolas da cidade de Juiz de Fora. Os professores se limitavam apenas a lecionar, ficando atentos às ordens do diretor. Até o ano de 1968 havia somente meninos no colégio, segundo consta no quadro de matrícula abaixo. O quadro apresenta-se dividido por ciclo, seguindo a orientação da Lei 4.024/61, art. 34: O ensino médio era ministrado em dois ciclos, o ginasial e o colegial, e abrangia, entre outros, os cursos secundários, técnicos e de formação de professores para o ensino primário e pré-primário. O art. 35 complementa que em cada ciclo haverá disciplinas e práticas educativas obrigatórias e optativas. 40 QUADRO 2 Distribuição de meninos matriculados - 1962 à 1967 Ano 1º ciclo4 diurno 2º ciclo diurno 2º ciclo noturno Total 1962 477 236 235 948 1963 550 289 272 1111 1964 554 296 290 1140 1965 528 276 321 1125 1966 566 277 295 1138 1967 544 328 283 1155 Obs: No acervo do Colégio não foi encontrado o registro dos alunos, referente ao ano de 1968. Esses alunos eram provenientes de classe média alta, conforme relato de alguns entrevistados. Em entrevista concedida pelo professor Dionísio Ladeira (1/04/05), ele observa que provinha da classe média alta para cima o público assistido pela Academia, embora houvesse bolsas oficiais para alguns de classe menos favorecida. Por sua vez, o professor Simões, entrevistado em 17 de abril de 2005, relata ter lecionado a alunos originários de diferentes camadas sociais. Segundo ele, havia grande empenho da comunidade e da própria direção a favor da concessão de descontos e de bolsa integral. Lembra a atitude especial dos padres: Kill, Pimenta e Jögler que estimulavam essa promoção social. Nos relatórios do Colégio, referente ao período de 1962 a 1968, encontramos o registro de alunos provenientes de vários estados e cidades do país. O professor Juarez de Carvalho Venâncio acrescenta em seu depoimento (25/04/2005) que a Academia sempre foi um Colégio “aberto” a todas as pessoas. A filosofia de todos os diretores que passaram pelo Colégio era de não discriminar os alunos para entrar; se não tivessem condições de continuar saíam por conta própria, não por questões ligadas a religião e ao credo. O Ano de 1968 é marcado, também, pela inclusão de meninas no Colégio Cristo Redentor. É aberto o Curso Normal e um total de 34 alunas se inscreveram. Segundo documento existente no acervo do Colégio somente quatro alunas cancelaram matricula durante o curso. Tendo em vista ter sido o 1º ano de funcionamento do Curso Normal, foi adotado o currículo, que aparece no quadro a seguir. 4 Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 4.024/61, artigo 34º e 35º conforme descrito acima. 41 QUADRO III Currículo do Curso Normal – 1ª e 2ª séries Disciplinas 1ª série 2ª série Português 4 3 Matemática 3 2 Estudos Sociais Brasileiros 2 - Sociologia Educacional - 2 Filosofia da Educação - - Introdução à Educação e à Didática Prática e Teórica 3 6 Psicologia Educacional 3 3 Biologia Educacional e Higiene 2 2 Inglês 2 2 Artes Plásticas 1 1 Educação Física 2 2 Educação Moral, Cívica e Religiosa 1 1 Educação Musical 2 1 TOTAL 25 25 Disciplinas obrigatórias Disciplinas optativas Práticas Educativas A década de 60 foi marcada por mudanças de direção segundo o Sr. Walter Freesz (entrevista realizada em 08 de abril de 2005), secretário do Colégio na época, “a designação era feita pelos superiores da Congregação e não ensejava opiniões de terceiros. Quanto ao desempenho desejado do diretor, a Congregação levava em conta a situação atual do Colégio e se havia algum padre com o perfil adequado para o momento, além de autorização legal para exercer o cargo”. Determinam as Constituições da Congregação do Verbo Divino, em seu artigo 27, a disponibilidade de cada confrade em estar pronto a ir onde a Congregação enviasse. Em 1968, o Pe Leopoldo retorna ao Colégio. Segundo depoimento do Prof. Antônio Pereira Gaio (31/03/2005) “a presença do Pe. Leopoldo teve como objetivo levantar a administração do Colégio que passava por fase meio crítica”. Assinala ainda como possível intenção da Congregação expandir as dependências do Colégio e o Pe. Leopoldo era visto como pessoa dinâmica, de largos horizontes na esfera administrativa, um empreendedor, sendo responsável pelas melhorias executadas no Colégio. Em relação ao corpo docente, Maria do Carmo Schweigert, funcionária da secretaria na época e atual secretária do Colégio, relata em seu depoimento (11/04/2005) que: “era 42 formado por sacerdotes da Congregação do Verbo Divino e professores indicados por colegas que lecionavam no Colégio ou pela direção, independente da religião do professor indicado”. O depoimento do professor José Passini (28/04/2005), um espírita indicado para lecionar na escola, acrescenta: “O diretor, padre Gilson Goulart, era um homem “aberto”, disposto a acolher o diferente em sua instituição”, assinalando que o entrosamento com os colegas de trabalho se dava de maneira tranqüila, se sentindo bem acolhido. Segundo esse professor, foi recebido como “um igual”, não havendo referência ou brincadeira em relação a religião. Por isso, observa o professor Passini: “eu me sentia bem, decidindo, portanto, trazer a família para o Colégio, minha esposa e dois filhos, para pertencerem ao quadro discente”. De acordo com o depoimento do professor Antonio Pereira Gaio, concedido em 31 de março de 2005, não havia intercâmbio com as escolas confessionais da época que eram os Colégios Stella Matutina e Santa Catarina, ambas escolas somente para meninas. Lembra também do Colégio Granbery, da Igreja Metodista; com este o intercâmbio se dava através das competições esportivas, sendo um colégio para meninos e meninas. Segundo depoimento do professor Gaio (31/03/2005), nessa época educação se confundia com instrução. Era importante o aluno saber muito. As disciplinas tinham conteúdo pesado. Os professores eram muito exigentes e os alunos no final do ano submetiam-se a provas orais obrigatórias e terminavam o científico bem preparados para prestar o vestibular. A disciplina do aluno era controlada através de caderneta onde eram anotadas as observações dos professores, devendo por ocasião do retorno, ter a assinatura dos responsáveis. O professor José Francisco Simões, em depoimento concedido em 11/04/2005, acrescenta: “alunos formados pelo Colégio Academia, nessa década, eram respeitados e bem aceitos”. O secretário do Colégio, Sr. Walter Freesz, antes de concluir a entrevista (08/04/2005) faz questão de registrar em seu relato que anteriormente e ainda hoje, o Colégio vem influindo no desenvolvimento da sociedade juizforana, formando seus líderes políticos, cientistas, profissionais de diversas áreas e religiosos. 43 3.2 – O Colégio Cristo Redentor: algumas questões para reflexão No item anterior apresentamos o Colégio Cristo Redentor no período de análise em nosso estudo (1962 a 1968); neste, procuraremos examinar alguns aspectos desse período, tendo como referência sobretudo idéias do pensador/educador Durmeval Trigueiro Mendes, visando a um aprofundamento de sua historicidade. Nossa opção por esse pensador ocorre primeiro pela seriedade e competência com que desempenhou seu papel de professor e pesquisador em diferentes funções, seja em cargos públicos ou privados como revela sua biografia; segundo por suas idéias oferecerem importantes contribuições àqueles que desejam pensar a educação brasileira na busca de soluções para os desafios a serem enfrentados, assim como na identificação de conquistas obtidas. Seus trabalhos representam um esforço permanente de procura e de elaboração da identidade de nossa cultura, de modo que sua obra se tornou um apelo a educadores e educandos para que se engajem nesse processo permanente de constituição de um pensamento educacional brasileiro, político e pedagógico, na ótica do poder pelo saber. Durmeval Trigueiro tem como preocupação constante a construção de uma nova sociedade cuja meta prioritária seria articular a subjetividade e a objetividade, incorporadas no trabalho e na práxis. Sua proposta é a de uma educação democrática-socialista, fundamentada em um saber radical: "saber dos valores, encarnados nas estruturas sociais e culturais, acionadas pelos sujeitos históricos" (1985, p. 118). Desde que a educação gera uma forma de consciência, ela torna explícitos os valores e projetos do indivíduo enquanto sujeito singular desse processo e da própria sociedade, como corpo especular desse mesmo sujeito, ou seja, um sistema de significações em que sujeito e sociedade se sustentam, se polarizam em busca de novos valores; o indivíduo então se torna um elemento ativo e criador, tornando imprescindível que desenvolva uma consciência crítica para caminhar sempre adiante. A influência desse pensador no sistema educacional brasileiro, durante as décadas de 60 a 80 do século passado, estimula uma constante reflexão acerca de outras influências, como a Declaração Gravissimum Educationis, que também subsidia o presente estudo, pois a mesma trata da educação cristã, à luz do Concílio Vaticano II. Através dessa Declaração, o Concílio Ecumênico considerou atentamente a relevância da educação na 44 vida do homem e sua influência cada vez maior no progresso social de nosso tempo. Por esse documento, a educação dos jovens e até mesmo a formação continuada dos adultos, tornam-se, nas circunstâncias atuais, não somente viáveis, mas urgentes. Enuncia essa Declaração alguns princípios fundamentais sobre a educação cristã nas escolas, destacando o direito universal à educação, afirmando que Todos os homens, de qualquer raça, condição e idade, por força da dignidade de pessoa, têm direito inalienável à educação [...]; a verdadeira educação, porém, pretende a formação da pessoa humana em ordem ao seu fim último e, ao mesmo tempo, ao bem das sociedades de que o homem é membro [...]. (DCEV II,1962-1965, p. 323-234) Esses princípios norteadores promovem ou devem estimular o desenvolvimento harmônico dos educandos de suas potencialidades físicas, morais e intelectuais, subsidiadas pelas ciências psicológicas, pedagógicas e didáticas, com fim único de desenvolver gradualmente a consciência de responsabilidade pela vida. Outro princípio fundante dessas diretrizes de educação é que todos os cristãos, uma vez assim particularmente considerados, têm direito à educação cristã, que consiste também em fazer com que os mesmos se conscientizem do dom da fé que receberam. Um terceiro princípio de extrema importância que suscita reflexões trata-se dos pais, enquanto educadores em que estes devem ser reconhecidos como os primeiros e principais educadores, criando na família as relações estruturais de amor e fé. A escola, em virtude de sua missão, deve cultivar as faculdades intelectuais e desenvolver a capacidade de julgar corretamente, preparando para a vida profissional e criando nos alunos condições de convívio amigável. O Sagrado Concílio, enquanto se confessa muito grato aos sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos, [...], exorta-os a que perseverem generosamente no trabalho começado e a que, ao imbuir os alunos do espírito de Cristo, se esforcem por se tornar de tal modo eminentes na arte pedagógica e no estudo das ciências, que não só promovam a renovação interna na Igreja mas também conservem e aumentem a sua presença benéfica no mundo hodierno, sobretudo no ambiente intelectual. (DCEV II, 1962-1965, p. 337-338) 45 Nessa trilha, o estudo de Trigueiro Mendes, denominado "Fenomenologia do processo educativo", de forma clara destaca: “qualquer sociedade moderna precisa planejar sua educação, reconhecendo nela a mais fecunda instrumentalidade para o projeto de seu desenvolvimento” (1974, p. 95). Para esse pensador, a educação provém do saber dos valores que, em última análise, estrutura o ser e a cultura do homem dentro de seu projeto existencial, considerando as condições socioculturais que o sujeito interioriza. Comparando as idéias de Trigueiro Mendes com os princípios do Concílio, percebe-se uma proximidade de propostas, a começar pelo planejamento, pelos valores que estruturam tanto a práxis quanto aquele que a experimenta e que recebem as orientações educacionais. Retomando o percurso histórico do tema desta pesquisa, remetemo-nos ao relatório do período 1962 a 1964 encontrado no acervo do Colégio, em que apresentava o calendário da escola; resultados de provas e exames orais; admissão, faltas e aposentadoria de professores, levando-nos a indagar: seriam esses os elementos que a direção da instituição julgava necessários para avaliar o Colégio? Não podemos deixar de contextualizar o período citado, uma vez que o regime militar instaurou mudanças significativas em todos os âmbitos da sociedade. Obviamente, acontecia algo na educação brasileira, até porque, esta era um dos focos centrais do regime instaurado no país, já que os indivíduos foram proibidos de se expressarem livremente, sendo notória a coerção ao aprendizado de um saber que ampliasse posicionamentos e viabilizasse questionamentos, o que não interessava, absolutamente, à política da época. O plano político militar ficou marcado pelo autoritarismo, pela supressão dos direitos constitucionais, pela perseguição política, prisão e tortura dos opositores, e pela imposição da censura prévia aos meios de comunicação. Na economia há uma rápida diversificação e modernização da indústria e serviços, sustentada por mecanismos de concentração de renda, endividamento externo e abertura ao capital estrangeiro. Com a deposição de Jango, o presidente da Câmara, Ranieri Mazzelli, assume formalmente a presidência e permanece no cargo até 15 de abril de 64. Na prática, porém, o poder é exercido pelos ministros militares de seu governo, entre eles, o general Arthur da Costa e 46 Silva. Nesse período é instituído o Ato Institucional nº 1. Os Atos Institucionais são mecanismos adotados pelos militares para legalizar ações políticas não previstas e mesmo contrárias à Constituição do país. De 1964 a 1978 são decretados 16 atos institucionais e complementares à Constituição de 1946. O AI-1, de 9 de abril de 64 transfere poder aos militares e suspende por dez anos os direitos políticos de centenas de pessoas. As cassações de mandatos alteram a composição do Congresso Nacional e intimidam os parlamentares.5 Depois do golpe militar de 1964,6 muitos educadores passaram a ser perseguidos em função de posicionamentos ideológicos. Muitos foram calados para sempre, alguns outros se exilaram, outros se recolheram à vida privada e outros, demitidos, trocaram de função. O Regime Militar espelhou na educação o caráter anti-democrático de sua proposta ideológica de governo: professores foram presos e demitidos; universidades invadidas; estudantes presos, feridos nos confrontos com a polícia, e alguns foram mortos; os estudantes foram calados e a União Nacional dos Estudantes (UNE) proibida de funcionar; o Ministro da Justiça declarou que "estudantes tem que estudar" e "não podem fazer baderna". Esta era a prática do Regime (http://www.pedagogiaemfoco.pro.br, visita em 18/02/2006). Nosso contato com os documentos do acervo do Colégio dos anos de 1962 a 1968, despertou-nos inquietação. Primeiro, pela falta de fontes documentais que oferecessem uma compreensão maior do Colégio nos primeiros anos da década de 1960; segundo, porque, das pessoas convidadas para entrevista, umas já haviam saído do Colégio e não se dispunham a dar seu testemunho, outras porque ainda estão exercendo função na instituição. O que justificaria o silêncio desse segundo grupo seria o fato do Colégio estar no momento atual, 2005 e 2006, passando por uma reforma administrativa por parte da Congregação do Verbo Divino, à qual pertenço há cerca de nove anos. Na entrevista com o professor Antônio Pereira Gaio, em 31 de março de 2005, ele faz 5 Consultar site www.vestibular1.com.br/revisao/r180.htm, visitado em 22/03/2006. 6 Conforme matéria divulgada no site www.pedagogiaemfoco.pro.br, visitado em 18/02/2006, 47 uma observação: No colégio [nos anos de 1960] não havia a figura do coordenador, havia, sim, o padre prefeito de estudos, cargo que era exercido pelo padre José Maria Wisniewski. Não existia relação contínua entre direção e aluno. O padre diretor aparecia nas festividades ou para tomar medidas administrativas ou disciplinares. Presumo até que muitos alunos nem conheciam direito o diretor do colégio. Entendemos que a dinâmica vivida entre educador e educando no seu dia-a-dia, na escola e fora dela, faz da educação um elemento integrador e estimulador. Nessa perspectiva, Durmeval Trigueiro defende a interação permanente entre educador e educando, pois vê o educador caracterizado por uma função do agir que mobiliza fins, valores e objetivos e pela função do fazer, que modifica o homem concreto (Trigueiro Mendes, 1987, p. 1). Assim sendo, o papel do educador não cabe somente ao professor mas também a todo pessoal que trabalha na escola, independente do setor em que atua, devendo ter sempre uma atitude de diálogo na instituição escolar. Nessa ótica, Trigueiro Mendes assinala: A relação entre professor e aluno é, pois, um tipo de interação na qual o saber constituído, mas provisório do professor, é primeiro experienciado pelo aluno para ser depois teorizado. É o momento da interrogação, da descoberta e da invenção, no qual saber constituído e saber constituinte se articulam dialeticamente entre professor e aluno. (idem, ibidem). No entender desse autor, na construção progressiva de cultura como um todo é que se situa a interação permanente entre educador e educando. Vê o educador, no sentido amplo, como educador profissionalizado, tendo duas tarefas amplas: agir no plano ético, acionando fins, valores e objetivos e a tarefa do fazer, proporcionando as mudanças no homem. Ou seja, a transformação do saber e da sociedade seriam decorrência natural da educação. 48 Será interessante articular o saber, nessa perspectiva, à tarefa do educador, numa relação dialética com o aluno, que irá recriá-lo permanentemente e esta vinculação, definindo-a como retro-alimentação, estimulará uma troca entre professor e aluno, cada qual com sua especificidade, mas incontestavelmente uma relação articulada. Nessa percepção, o papel do educador vincula-se, pois, às categorias universais da filosofia e da ciência e à singularidade expressa pela arte. A consciência do particular, do diferenciável, do indivíduo são essenciais à tarefa do educador, favorecendo a apropriação social do saber e a transformação do indivíduo e da sociedade. Ainda, na visão de Durmeval Trigueiro “a educação deverá caracterizar-se, logicamente, pela variedade e flexibilidade dos modelos, quanto ao conteúdo, à duração e à permanência do processo educativo” (1969, p.16-17), e obviamente a dialética professoraluno permeará as transformações experenciadas pela educação em seu percurso de transformação continuada. Para que possamos compreender o processo educativo do Colégio Cristo Redentor apresentamos a proposta curricular desenvolvida no período de 1962 a 1968, que era construída em quatro blocos: a) As disciplinas indicadas pelo Conselho Federal, como aparecem no Quadro I, da página 34. b) as disciplinas complementares a nível federal, que se referem à matéria de Organização Social e Política Brasileira (OSPB) e Moral e Cívica, que, de acordo com o depoimento do professor Juarez Carvalho Venâncio, em 25 de abril de 2005, "era curso organizado pelos militares, tendo como público alvo professores que desejariam dar aulas nessas áreas". Isso pode levar a perceber que havia certa tensão na sociedade em relação ao governo que desejava manter o controle dela e via a escola como um instrumento importante na formação da consciência moral e cívica da juventude. c) as disciplinas, Inglês e Canto, indicadas pelo Colégio, d) as práticas educativas: educação física e educação religiosa. 49 Da maneira como a proposta curricular era apresentada, observamos que a prática educativa deveria se referir a todo o conjunto e não somente a uma parte. Em nosso entender, a formação religiosa é um dos objetivos específicos de um colégio católico e deve ser coerente com a própria proposta da escola, pertencendo ela a uma congregação religiosa, no caso, a Congregação do Verbo Divino. Ressaltamos que a proposta pedagógica numa escola católica para ter sentido assume, não como tarefa isolada, mas em sua essência, todas as ações humanas e conseqüentemente, também religiosas. O ensino religioso deve, pois, brotar do interior da proposta. Constitui disciplina enquanto busca de conhecimentos religiosos e de fundamentos para um compromisso ético na perspectiva de um agir solidário e transformador das realidades aí existentes. Mas, para que a proposta do ensino religioso se torne eficaz em toda a comunidade educativa, ela deveria estar integrada com as outras matérias e receber, também, a adesão dos outros profissionais das diversas áreas; não deveria ser vista como matéria isolada das outras matérias; deveria haver um compromisso ético, tanto dos professores quanto dos alunos, na perspectiva de um agir solidário e transformador frente à sociedade em que estão inseridos, considerando especialmente o momento vivido, na década de 60 do século passado, como um momento de grandes transformações nos setores sociopolítico, econômico e religioso. Trigueiro Mendes observa também que “o pensamento transformador virá dos que se mostrem aptos a exercer, em relação à educação, uma consciência crítica e aperceptiva, envolvendo as conexões que ela mantém com tudo aquilo de que depende seu próprio sentido e valor” (1977, p. 107). E complementa: A pedagogia é, antes de tudo liberdade de olhar. Deixar ver, deixar expressar-se, consentir no tateamento, na busca fora dos trilhos dogmáticos. [...] Precisamos revolver a didática, substituindo o método que institucionaliza a indução professor-aluno pelo método que promove o encontro dos dois no espaço da consciência". (1973. p. 230-233 ) Nessa perspectiva, o trabalho pedagógico tem muita importância no ambiente educativo. Este deve ser constituído pelos elementos coexistentes e cooperantes, que podem oferecer condições favoráveis ao processo educativo. Todo o processo educativo se desenrola em certas condições de espaço e de tempo, na presença de pessoas que 50 mutuamente se influenciam, segundo um programa racionalmente ordenado e livremente aceito. Portanto, pessoas, espaço, tempo, relações, ensino e atividades diversas são elementos a considerar numa visão orgânica do ambiente educativo. Pode-se denominar esse processo como educação permanente, conceito que Trigueiro Mendes (1969, p. 15) traduz como sendo “[...] um sistema aberto, que utiliza toda a potencialidade da escola e da sociedade para produzir os valores, conhecimentos e técnicas que servem de base à práxis humana em toda a sua extensão”. Considera o processo bipolar: em um pólo, a escola e em outro, a própria sociedade, e essa relação dialética promove experiências diferenciadas produzindo uma educação mais coesa e consistente. Em sua proposta educacional democrática, Durmeval propõe a volta da Filosofia ao ensino brasileiro e o fortalecimento das ciências humanas para possibilitar "uma reflexão radical da consciência integrada na práxis" (1985, p. 117), desmistificadora da sociedade atual e instauradora de uma nova cultura, baseada em uma "nova ética” - "ética de verdade, de justiça e de amor" (1985, p. 117). Considera necessário o incentivo a novas linhas de ação criadora fora do sistema oficial, representadas por instituições sociais e grupos culturais. A respeito dessas novas alternativas culturais, Trigueiro Mendes as denomina "instâncias intermediárias entre a particularidade e a totalidade" (1985, p. 105), inserção do subjetivo no objetivo - o que constitui um dos temas recorrentes de seu pensamento. Afirma que são as ciências sociais que proporcionam o paradigma para a compreensão do sentido das ciências exatas e das ciências da natureza. Nas ciências formais, como, por exemplo, a Matemática e a Física, vê a intencionalidade radical enraizada nos objetivos sociais, que são revelados pelo sujeito na práxis, mediante os valores e finalidades que busca efetivar. Atribui, pois, às ciências formais e às ciências da natureza, o caráter de historicidade, cujo sentido só é evidenciado se incorporado às ciências sociais e humanas. Há cerca de quase quatro décadas, afirmava: O futuro provavelmente voltará a ter uma só educação: unificada para todas as classes sociais, impulsionada por uma variedade de técnicas e processos – entre os quais o modelo escolar convencional será apenas uma das possibilidades – 51 transcendente de todo limite cronológico, como um processo de atualização permanente do ponto de vista cultural e profissional. (Trigueiro Mendes, 1969, p. 12-13) Outro ponto que merece nossa atenção no percurso do Colégio Cristo Redentor no período estudado, é a participação dos alunos em obras de ação social da cidade de Juiz de Fora, através da Associação Campestre, segundo consta dos relatórios descritos. Percebemos com isso a influência do Concílio Vaticano II que incentiva a participação ativa dos jovens na vida da comunidade, como ressalta a Declaração Gravissimum Educationis. Embora na entrevista o professor Simões declare que a formação para vida foi todo um empenho que não visava apenas a "vestibularização" do aluno, vemos, através do exame dos relatórios apresentados, que o colégio dava oportunidades para o aluno exercer outras funções fora da sala de aula, mas não o fazia de forma integrada, havendo certa dicotomia entre a formação acadêmica e a formação de valores humanos. Nesse percurso de reflexão é fundante considerar que, sendo a escola inserida socialmente como agência de educação social, tornou-se cada vez mais um mecanismo tanto de aprendizagem para o mundo do trabalho como para o exercício da cidadania. Nessa perspectiva, o ensino religioso, como componente curricular, passa a ser compreendido como elemento da formação integral, visando desenvolver uma vivência e uma filosofia de vida fundamentada na ética, na justiça, nos direitos humanos e na defesa da dignidade do ser humano, portanto, na formação para a cidadania. Essa proposta do Colégio Cristo Redentor, contextualizando-a hoje, à luz das idéias de Durmeval Trigueiro (1974), assume uma similaridade intencional, uma vez que para ele, a educação compreende quatro dimensões básicas: a cidadania, o lazer, o trabalho e a cultura. Cada uma delas, com sua nota distintiva: a dimensão política, a dimensão criativa, a dimensão social e a dimensão que é chave e síntese das demais - a da consciência significante, através da qual se organiza o universo humano. Todavia, os quatro aspectos basicamente se confundem, pois, segundo esse educador, “Qualquer uma das quatro dimensões fertiliza as dimensões restantes: a criatividade é indispensável à participação política, à solidariedade social e à permanência da cultura como criação incessante” (Trigueiro Mendes, 1974, p. 8). Segundo Durmeval, a cidadania estabelece um indispensável quadro de referências 52 para as outras dimensões, uma vez que a personalidade de cada homem interioriza o meio em que ela se projeta e daí extrai as significações que a configuram. Em seu pensamento, a educação completa é a que reúne os quatro aspectos, coerência lógica, que se traduz numa coerência sociológica. Merece destaque também, em nossa reflexão a Escola de Pais, através da qual o Colégio contava com a parceria da família no processo de formação do aluno. No arquivo do Colégio, relativo ao ano letivo de 1965, há relatórios que registram essa parceria e seu funcionamento sob a orientação do professor José Ribeiro. As reuniões eram realizadas somente com os pais dos alunos da 1ª série do Curso Ginasial. A presença às reuniões foi regular e durante o ano efetuaram-se 32 encontros, tendo sido discutidos em todas elas assuntos relativos à melhor educação do jovem estudante. Em relação à participação da família no processo de formação, a Declaração Gravissimum Educationis declara que todos os fiéis devem colaborar espontaneamente, quer na busca dos métodos aptos de educação e de organização dos estudos, quer na formação de professores capazes de educar corretamente os jovens; comprometendo-se, sobretudo mediante associação dos pais, todo o trabalho da escola e em particular a educação moral que na escola deve ser ministrada. Vista sob essa ótica, a educação deve ser entendida como permanente esforço do homem por se constituir e reconstituir-se, buscando a forma histórica na qual possa se reencontrar consigo mesmo, em plenitude de vida humana que é, substancialmente, comunhão social. Esse reencontro que, no horizonte do respectivo momento histórico, coloca o homem em seu lugar próprio, exigindo que sejam considerados dois aspectos fundamentais: autonomia e liberdade no processo educativo. O movimento em direção à liberdade, assim entendida, define o sentido do processo educativo como libertação. A educação, pois, ou é libertadora ou não é educação, como ensina Paulo Freire (1996, p. 105). O educando, portanto, não é um ente natural que faz história, ele é história, faz-se na história, portanto, um ente histórico. Endossando as idéias e ideais de educação dos autores supracitados, podemos mencionar em termos de Filosofia da Educação, a percepção de Anísio Teixeira (1975), que vê a educação como processo intrinsecamente ligado à vida, não devendo ser vista e 53 praticada como preparação para a vida, ela já é vida. Daí a necessidade dos mais rigorosos conhecimentos científicos dos fenômenos relacionados à vida orgânica e social para que a intervenção pedagógica não ocorra indo contra os interesses vitais do educando, que só pode desenvolver-se, humanizar-se, se suas tendências naturais forem respeitadas e estimuladas. Para Durmeval Trigueiro, o pedagogo não poderá continuar sendo exclusivamente o comandante do sistema educacional; são necessários parcerias, intradisciplinaridades, ou seja, as várias ciências que definem o homem estariam mobilizadas para a contínua e desafiadora tarefa da educação, uma vez que a mesma deveria servir não apenas no sentido de desenvolver a inteligência e as habilidades de alguém, mas para ajudar a ampliar sua perspectiva, tornando-a útil à sociedade e ao mundo em geral. Para esse pensador, parece fora de dúvida que a solução para os problemas da educação brasileira não virá de nossos pedagogos. Do ponto de vista do pensamento, virá, sobretudo do filósofo, do cientista social e do educador lato sensu, ou seja, dos que se mostrem aptos para exercer em relação à educação uma consciência crítica e aperceptiva, envolvendo as conexões que ela mantém com tudo aquilo de que depende o seu próprio sentido e valor. (Trigueiro Mendes, 1977, p. 107) Como modelo, temos a educação moral e espiritual que formará o homem para conduzir uma vida disciplinada; daí a importância da educação cristã vista sob os primas dos que a norteiam. Nessa perspectiva, a educação deveria infundir os valores humanos fundamentais, promovendo um comportamento ético. Para tanto, é imprescindível que haja um retorno aos valores humanos, em termos de verdade, conduta correta, paz, amor e nãoviolência. Todos esses cinco valores devem ser harmoniosamente cultivados, o que reitera os preceitos da educação cristã, que promove dentre outros aspectos e fundamentos, a possibilidade de ampliar a concepção de vida, de experimentar relações verdadeiramente sustentadas em bons princípios, seja no plano intelectual, ou no moral. Durmeval Trigueiro acredita na potencialidade criadora do ser humano, por isso sua obra é também sustentada na seguinte premissa: Se nós lhe dermos a solidão, o indivíduo redescobrirá a sociedade. Se lhe assegurarmos liberdade, o Si-mesmo descobre a transcendência dentro de sua própria obra. Se o deixarmos fazer, ele faz o ser. Se lhe concedermos o lazer, ele 54 realiza o trabalho que muda a qualidade da vida. Se lhe dermos a autonomia, ele reinventa o mundo. Por tudo isso, o imaginário da criança - a ser preservado na idade adulta constitui a única fonte de renovação possível. (Trigueiro Mendes, 1973, p. 228) A educação para o autor seria a disciplina do ser intencional e o homem é um ser intencional na medida em que descobre um sentido para sua existência e emprega a força de que é capaz para objetivá-la. A tarefa do educador residiria em descobrir e validar a intencionalidade do educando. Desde que existe, o homem tem partilhado aquilo que o constitui. Convivendo com outros, condição imprescindível para sua própria sobrevivência, enquanto se distingue por aquilo que lhe é particular e específico, caracteriza-se também pelas semelhanças, pelo que possui em comum com os outros homens. Paradoxalmente, igual na desigualdade, marcado ainda pela necessária condição de relacionar-se consigo próprio e com a natureza que o cerca e da qual é parte, o homem forma o mundo, cria a humanidade. Nesse ato formativo de construção do mundo, que se manifesta com a linguagem, revela-se a dimensão comunicacional, mostra aquilo que o homem mais radicalmente partilha e que o constitui: sua racionalidade e sua historicidade. Racionalidade e historicidade devem ser consideradas a base do propriamente humano, o alicerce sobre o qual se configura tudo que diz respeito ao homem, de seus desejos às suas realizações. Durante a realização desta pesquisa procuramos entender quais eram os critérios utilizados pela Congregação do Verbo Divino para nomeação dos padres ou irmãos que desenvolveriam seu trabalho nas escolas. Não obtivemos respostas claras, sabemos que muitos se retiraram, conforme declara o professor Juarez em sua entrevista, mas os motivos não permaneceram claros. Tentamos entrevistas com alguns padres da Congregação, mas não tivemos retorno. Minha convivência com esses padres me leva a crer que alguns se sentiram inclinados em exercer sua vocação de educador dentro da escola e a exerceram com muita dedicação, outros, porém, mesmo dentro da escola, eram mais administradores que educadores, vendo na escola mais um meio de sobrevivência econômica para Congregação e, em decorrência, defendiam mais a quantidade de alunos que a qualidade do ensino. 55 No entender de Trigueiro Mendes, o risco de se priorizar a quantidade consiste em omitir o sistema de referências, no plano dos objetivos, dos valores e dos métodos (1977, p. 96). A escola é o espaço formalizado da construção do conhecimento com estruturas e determinações próprias. Por isso mesmo, atua como instância articuladora dos meios que proporcionam às gerações do futuro, as razões de seu ser e estar no mundo e, como tal, é chamada a fortalecer as predisposições necessárias ao ser humano. Para que este perceba, pense, decida e haja como alguém que está no mundo, numa missão que dá sentido à sua vida. No centro de todo o projeto educativo, que tem a escola como mediação, estão o educando, a criança, o jovem, o adulto. Todos que se matriculam numa escola deveriam ter direito a uma educação de qualidade, alicerçada em princípios que norteiam a busca do desenvolvimento pleno de seu ser no conjunto de suas potencialidades. Numa escola católica, não é possível chegar a esse desenvolvimento sem a devida atenção às diversas dimensões, dentre elas a religiosa. Em síntese, parafraseando Durmeval Trigueiro, cada um de nós, somos responsáveis pela educação como um desafio que constitui uma missão a cumprir (1977, p. 107). 56 4. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES Nesta última parte do trabalho, procuramos mostrar as conclusões a que chegamos tendo como norte às questões que motivaram nossa pesquisa. Nessa trilha, num primeiro momento traçamos o perfil histórico do Colégio Cristo Redentor. O objetivo dessa parte do estudo foi caracterizar o itinerário do Colégio, bem como as motivações que deram origem a sua criação e sua evolução com o decorrer do tempo. O estudo procura resgatar a identidade de um passado, fortalecendo o presente, suscitando esperanças para o futuro, tendo em vista que os momentos vividos pelo Colégio nem sempre foram fáceis, mas apresentava sinais de que, através da educação, poder-se-ia colaborar para o desenvolvimento socioeconômico, político e cultural do país. Num segundo momento, constatamos que existem significativos documentos da Igreja Católica Apostólica Romana dedicados especificamente à educação. Em vista disso, muitos documentos nacionais ou regionais apresentam o mesmo conteúdo dos documentos de caráter universal, mas revestidos de nova linguagem e adaptados às situações reais. Com o Concílio Ecumênico Vaticano II, inaugura-se novo paradigma de compreensão do mundo. Esse novo paradigma situa a Igreja Católica no interior da história, e a partir dessa inserção são estabelecidos novos princípios. Um deles apontado por este Concílio é a educação do homem num sentido total e integral, a fim de superar os egoísmos e divisões entre os homens e entre as nações. Concluímos, pois, que a Igreja Católica interveio e intervém no processo educativo da sociedade. A questão que se levanta é no que diz respeito à divulgação dessas fontes documentais. Os próprios bispos confirmam essa suspeita, quando se referem, não somente aos documentos sobre educação, mas aos documentos da Igreja em geral, ressaltando: “a respeito da difusão dos documentos da Santa Sé e dos Bispos, a comunicação é crucial” (Lineamento para a Assembléia Especial do Sínodo para a América, 1996). Na tentativa de responder à questão relacionada às conseqüências da proposta do Concílio Vaticano II para as escolas confessionais de Juiz de Fora, verificamos que não havia um intercâmbio entre essas escolas; por isso, concluímos que cada escola estaria influenciada pelas diretrizes dos documentos desse Concílio por se tratar da palavra oficial da Igreja Católica. Mas, não havia um espírito de unidade e parceria entre essas 57 instituições, nos anos 60, mesmo porque os Colégios Stella Matutina e Santa Catarina eram para meninas, e o Colégio Grambery pertencente a Igreja Metodista. Na busca de compreender a terceira e última questão proposta como objetivo deste estudo centrado no Colégio Cristo Redentor, constatamos que ele se colocou numa atitude de diálogo e acolhida em relação à formação de seu corpo docente e discente. Outra influência que percebemos do Concílio é o trabalho de parceria com a família. Tanto o Concílio quanto a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei nº 4.024/61, no artigo 1º, alerta para a importância da necessidade de estarem caminhando juntos, escola e família, garantindo uma educação integral da pessoa humana. Outro ponto que concluímos ser conseqüência do espírito de unidade que inspirava o Concílio era o trabalho de assistência social desenvolvido pela escola, que tinha como objetivo a comunidade carente da cidade de Juiz de Fora. O trabalho desenvolvido pelo Serviço de Orientação Educativa permite inferir que o momento era de despertar as lideranças existentes na escola, seja mediante o trabalho social ou dos movimentos ligados à Igreja Católica. Antes de encerrarmos nossa reflexão deixamos registrado o que a nosso ver se apresenta relevante para a educação, tanto em relação às escolas da Congregação do Verbo Divino, quanto para educação em qualquer lugar ou instituição. No presente estudo, vimos que a década de 1960 foi marcada por mudanças de direção no Colégio, esta se dava por nomeação segundo as Constituições da Congregação do Verbo Divino, à qual pertence o Colégio Cristo Redentor. Nesse contexto, cabe destacar a figura do diretor, por ser ele o ator responsável pela dinamização dos demais membros integradores da comunidade escolar. Apoiando-nos em Dermeval Saviani, somos levados a compreender que “O diretor apresenta-se como responsável máximo no âmbito da unidade escolar e seu papel poderia ser definido genericamente nos seguintes termos: garantir o bom funcionamento da escola” (1980, p 189). Entendemos por bom funcionamento da escola ser agente articulador dos diferentes setores/atores da escola, tanto interno quanto externo, bem como da harmonia entre eles. O diretor deve ser o elo de ligação no interior e também no exterior da escola. Numa escola católica, além de ser conhecedor do contexto educacional, leis e decretos, ele é responsável, também, em propagar as diretrizes da educação proposto pela Igreja Católica sendo, portanto, seu representante e da Congregação. Segundo Saviani, ao diretor 58 cabe ter clareza em relação ao objetivo central que é a razão de ser da instituição escolar. E, mais que isso, fazer com que este objetivo seja atingido. O diretor é, por excelência um educador, pois cabe a ele a preservação do caráter educativo da instituição escolar (idem, p 189). Para que a educação se torne participativa, temos que eleger o diálogo como espaço privilegiado da educação. Somente assim o valor da escuta, da solidariedade, do respeito e da humildade terão seu lugar e se concretizarão. O diálogo existe quando as pessoas se colocam como seres de desejo, vontade, sonhos e limites que, num mesmo sentimento de seres humanos, querem crescer e se completarem. Nessa perspectiva, no entender de Antônio Joaquim Severino: “o diálogo é, na verdade, a expressão própria da autêntica comunicação dos homens entre si” (2000, p 85). No diálogo, os parceiros se reconhecem, respeitam-se e se comunicam mutuamente. Há uma abertura entre dialogantes que, somente juntos, podem chegar a um lugar efetivo. Em nossas relações pedagógicas como educadores ousemos perguntar, verdadeiramente, reconhecendo que a pergunta é o motor da aprendizagem. Nossa vida em educação deve silenciar, barrando os barulhos ensurdecedores e, no silêncio, poderemos encontrar o outro que nos responde e o diferente que nos vem ao encontro. Tornemos nossas atitudes em educação dialogal, elejamos o diálogo como centro da sala de aula e como marca da escola. Como conclusões da pesquisa no período de 1962 a 1968, destacamos alguns dados como fundamentais para uma comunidade educativa verbita tornar-se verdadeiramente formadora: a) se destacar pela seriedade de seu projeto pedagógico, ou seja, deve ser um lugar de verdadeiro ensino e aprendizagem; ser, em suma, uma “boa” escola, formando para um pensar crítico e conferindo um senso ético e moral ante a realidade, sério e bem fundamentado; b) educar para o espírito de serviço de reciprocidade e solidariedade, em contraposição ao espírito utilitarista e explorador de nossa sociedade; c) visar à formação da pessoa toda e em todas as suas dimensões, em contraposição à formação de profissionais bem sucedidos, mas despersonalizados em suas opções, objetivos e relações; d) estar voltada para a construção de uma sociedade defensora da vida e garantidora dos direitos de todos; 59 e) deve, enfim, ser capaz de dar aos educandos, aos professores/as e aos funcionários um sentido individual e coletivo para seu ser e que-fazer dentro e fora dos muros da escola, sem esquecer o horizonte do que virá após o tempo da formação escolar. Partindo do pressuposto de que não existe pesquisa acabada temos presente que o estudo poderá ser retomado chegando a uma análise de outros momentos de vida desse Colégio. Nossa recomendação brota do pensamento de que nossa sociedade vive em constante mutação e a educação é parte desse processo. Assim sendo, esperamos que a pesquisa desenvolvida neste trabalho ofereça subsídios para um conhecimento do Colégio em seus primeiros anos e sirva de motivação para que outros educadores dêem continuidade às questões aqui investigadas. Nosso corte temporal foi a década de 60 do século passado, seria de grande valia se encontrássemos futuramente uma pesquisa que nos revelasse os anos posteriores desse Colégio. 60 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AZZI, Riolando. O Estado Leigo e o Projeto Ultramontano. São Paulo: Ed. Paulus, 1994. BASTOS, Wilson de Lima. Francisco Baptista de Oliveira – Um Pioneiro – Sua Vida, Sua Obra, Sua Descendência, Genealogia. Juiz de Fora: Edições Paraibuna, 1967. 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Leia-se: [...] falam quando o pesquisador os aborda (p. 12). p. 1 - § primeiro – última linha – onde se lê: [...] o historiador deverá estar comprometido com o todo que está ocorrendo na sociedade, com a generalização, não deve, pois, estar interessado no particular, mas no que é geral do único (1982, p XIII), leia-se: A história consiste num, corpo de fatos verificados. Os fatos estão disponíveis para os historiadores nos documentos, nas inscrições, e assim por diante. O historiador deve reuni-los e trabalhálos (1982, p. 13). p. 1 - § segundo – onde se lê: p XX, leia-se: p. 12) p. 11 – último parágrafo, primeira linha – onde se lê: [...] não apenas por ser algo novo, [...], leia-se: [...] não apenas por ser algo novo, naquela época, [...]. p. 18 - § segundo – onde se lê: consequentemente, leia-se: conseqüentemente. p. 29 – último § - última linha – onde se lê: (1997, p 615), leia-se: Documentos do Concílio Vaticano II, 1997, p. 615). p. 30 – na citação – tirar aspas. p. 31 - § segundo – onde se lê: (p 18), leia-se: (idem, ibidem) p. 31 – Nota de rodapé, penúltima linha – onde se lê: [...] a necessidade e urgência [...], leia-se: [...] a necessidade e a urgência. p. 35 - § primeiro – penúltima linha – onde se lê: [...] a formação para a vida [...], leia-se: [...] a educação para a vida. p. 39 - § segundo – segunda linha, onde se lê: firma, leia-se: afirma. p. 39 - § quarto – terceira linha, onde se lê: será, leia-se: era. p. 39 - § quarto- quarta linha, onde se lê abrangerá, leia-se: abrangia p. 40 - § primeiro – onde se lê: [...] referentes ao ano de 1962 a 1968, leia-se: [...] referentes ao período de 1962 a 1968. p. 40 – último parágrafo – onde se lê: [...] foi este o currículo adotado [...], leia-se: foi adotado o currículo, que aparece registrado no quadro a seguir. p. 41 - § primeiro – onde se lê: [entrevistas realizadas em 08 de abril de 2005], leia-se: (entrevistas realizadas em 08 de abril de 2005). p. 42 § primeiro – terceira linha – onde se lê: [...] José Passini, (28/04/2005), [...], leia-se: [...] José Passini (28042005), p. 44 – primeira citação, onde se lê: [...] (DCEV II, 1962-1965, p. 323-324)., leia-se: [...]. (DCEV II , 1962-1965, p. 323-324) p. 48 - § quarto – onde se lê: a) As disciplinas indicadas pelo Conselho Federal, leia-se: a) As disciplinas indicadas pelo Conselho Federal, como aparecem registradas no Quadro 1, da página 34. p. 53 – primeira citação – onde se lê: [...] (Trigueiro Mendes, 1977, p. 107). Leia-se: [...]. (Trigueiro Mendes, 1977, p. 107) p. 53 – segunda citação – onde se lê: [...] Trigueiro Mendes, 1973, p. 228). Leia-se: [...]. (Trigueiro Mendes, 1973, p. 228) p. 57 - § terceiro – onde se lê: [...] . (1980, p 189), leia-se: [...] (1980, p 189). p. 58 - § primeiro – onde se lê: (idem, p 189). Leia-se: (idem, p 189). p. 61 – onde se lê: _________. Educação no Brasil, 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora UF, 1999. Leia-se: _________. Educação no Brasil, 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1999. 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