O Aeroporto na Cidade Contemporânea Gerson Moura Duarte RESUMO Este artigo propõe uma reflexão acerca da problemática que envolve a questão dos loteamentos irregulares no entorno do Aeroporto Internacional de São Paulo / Guarulhos, e a incompatibilidade desta ocupação, que é um reflexo da falta de fiscalização do poder público e de uma política habitacional eficiente, com a operação aeroportuária atual. Este trabalho também está em consonância com a pesquisa de doutorado “O aeroporto na cidade contemporânea: a relação entre o Aeroporto Internacional de São Paulo e a Cidade de Guarulhos”, com orientação da Professora Dra. Nadia Somekh, junto ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Em 2008, o Governo Federal em razão de constatar a alta densidade demográfica na região localizada ao norte da área patrimonial do Aeroporto Internacional de São Paulo, e a pressão política de alguns setores da sociedade civil contrários a ampliação deste aeroporto, declarou a sua desistência em construir a terceira pista de pouso e decolagem em Guarulhos. Esse fato levou o governo paulista a revogar o decreto que possibilitava a desapropriação da área urbanizada necessária à ampliação do Aeroporto Internacional de São Paulo. Em meio a um crescente aumento da demanda por transporte aéreo no Brasil, a implementação da ampliação do Aeroporto Internacional de São Paulo não será executada como planejada pelo Plano Diretor Aeroportuário; e consequentemente a sua capacidade anual máxima para o processamento de aeronaves, passageiros e carga aérea, deverá ser limitada a um patamar inferior ao que foi previsto, contrariando a necessidade de ampliação da infraestrutura aeroportuária ocasionada pelo desenvolvimento econômico atual do país. INTRODUÇÃO Hoje, os loteamentos irregulares localizados no entorno do Aeroporto Internacional de São Paulo retratam um cenário urbano consolidado na Cidade de Guarulhos. A implementação desses loteamentos ocorreu a partir do final da década de 1980, e portanto, após a inauguração do Aeroporto Internacional de São Paulo, ocorrida em 1985. Essa ocupação urbana irregular caracterizada por edificações unifamiliares de baixo padrão construtivo e sem isolamento acústico não é compatível com a operação aeroportuária. Segundo Pasternak (2009, p.4): “O loteamento clandestino não raro é fruto da ação de um loteador inescrupuloso, mas seus lotes não são invadidos, mas comercializados. Já o loteamento irregular obteve, de alguma forma, o reconhecimento (não a aprovação) do Poder Público”. Para iniciarmos uma reflexão acerca dos loteamentos urbanos irregulares localizados no entorno do Aeroporto Internacional de São Paulo, cabe descrevermos resumidamente que foi na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, que o Governo Federal implantou a Base Aérea de São Paulo na antiga Fazenda Cumbica, localizada no Município de Guarulhos, e nesse mesmo local, aproximadamente quarenta anos depois, a Comissão Coordenadora do Projeto Sistema 1 Aeroportuário da Área Terminal de São Paulo (COPASP) , desenvolveria o planejamento e implantação do Aeroporto Internacional de São Paulo. 2 Conforme consta no Plano Diretor Aeroportuário a escolha da Cidade de Guarulhos para abrigar o Aeroporto Internacional de São Paulo se deu em razão da sua relativa proximidade do centro da Cidade de São Paulo; da sua boa acessibilidade viária; e da existência da Base Aérea de São Paulo que poderia ser utilizada na implantação desse empreendimento para diminuir os custos com desapropriações. Em 20 de janeiro de 1985, o Aeroporto Internacional de São Paulo foi inaugurado. Em 1989, ocorreu uma invasão no sítio patrimonial do Aeroporto Internacional de São Paulo, próximo da área reservada para a implantação da futura terceira pista de pouso e decolagem. Esta invasão originou o assentamento irregular denominado de Malvinas. Em 1990, em consonância com a legislação federal que dispunha sobre a zona de proteção do aeródromo e zoneamento de ruído, foi aprovada a Lei nº 3.733/90 que regulamentava o Uso e Ocupação do Solo no Município de Guarulhos, e estabelecia a área de influência aeroportuária, onde a ocupação residencial deveria ser controlada, e em algumas regiões proibida. Pasternak (2009, p. 5) afirma que: “O estabelecimento de normas e procedimentos para o parcelamento do solo urbano é de competência do Município, obedecidas as regras mais gerais de fixação de normas urbanísticas genéricas e padrões mínimos válidos para todo o território nacional, colocadas por normas federais, como por exemplo, a Lei nº 6.766/79 e a Lei nº 11.977/09. Assim, faz-se necessário o conhecimento da legislação federal e da política municipal para a compreensão e acompanhamento da regularização dos loteamentos”. Apesar de uma constante revisão na Lei de Uso e Ocupação do Solo do Município de Guarulhos, ao longo da década de 1990, onde sempre foram estabelecidas áreas de influência aeroportuária, o que podemos observar é que contrário ao que a lei estabeleceu, ocorreu um grande adensamento urbano nessas regiões, através de loteamentos irregulares e favelas. 1 1 A Comissão Coordenadora do Projeto Sistema Aeroportuário da Área Terminal de São Paulo (COPASP) , foi criada em 1979, pelo Ministério da Aeronáutica, com a finalidade de organizar o planejamento do novo Aeroporto Internacional de São Paulo e concretizar sua construção, esta comissão, também, tinha o objetivo de estudar, projetar e construir um sistema aeroportuário que envolvesse toda a Área Terminal de São Paulo, conforme já ocorria em outras metrópoles com intenso tráfego aéreo, como Nova Iorque, Paris e Londres. O sistema seria constituído pelos aeroportos de Campo de Marte, Congonhas, Guarulhos, Santos e Viracopos. 2 O Plano Diretor Aeroportuário do Aeroporto Internacional de São Paulo / Guarulhos foi desenvolvido entre 1980 e 1981, pela Empresa Internacional Engenharia S.A., sob a coordenação da COPASP. Em 2002, em razão dos resultados do estudo contratado pela INFRAERO e elaborado pela Fundação Universidade de São Paulo – FUSP, que apontaram um aumento significativo na demanda por transporte aéreo nos aeroportos de Guarulhos, Campinas e Congonhas, o Governo do Estado de São Paulo, decretou como sendo de utilidade pública para fins de desapropriação, 2 uma área densamente habitada com 1,3 km localizada ao norte do Aeroporto Internacional de São Paulo, necessária para ampliação do sítio patrimonial do aeroporto e possibilitar a implantação e operação da terceira pista de pouso e decolagem. Porém, nesse mesmo ano, alguns moradores da região atingida pela desapropriação, fundam o Movimento Contra a Terceira Pista, que inicia uma forte oposição à expansão do aeroporto junto à mídia local e nas audiências públicas promovidas pela INFRAERO e Prefeitura de Guarulhos. Em 2008, o Governo Federal em razão de constatar a alta densidade demográfica na região localizada ao norte do sítio aeroportuário e limítrofe ao setor destinado a implantação da futura terceira pista de pouso e decolagem, e a pressão política de alguns setores da sociedade civil contrários a ampliação do aeroporto, declarou a sua desistência em construir a terceira pista do 3 Aeroporto Internacional de São Paulo / Guarulhos . Esse fato levou o governo paulista a revogar o decreto que possibilitava a desapropriação da área urbanizada necessária à ampliação do Aeroporto de Guarulhos. Segundo Pasternak (2009. p. 29): “A história dos loteamentos clandestinos e irregulares mostra que têm sido tolerados e depois anistiados, sem cobrar dos loteadores a infraestrutura que devem ao município e aos moradores. Obras são executadas pelo poder público, que acabam beneficiando o loteador, permitindo a valorização dos lotes remanescentes. Sem dúvida, uma política urbanística eficiente deve impedir que este processo continue, garantindo que a produção da cidade se faça de forma adequada”. Em meio a um crescente aumento da demanda por transporte aéreo no Brasil, a implementação da ampliação do Aeroporto Internacional de São Paulo não será executada como planejada pelo Plano Diretor Aeroportuário; e consequentemente a sua capacidade anual máxima para o processamento de aeronaves, passageiros e carga aérea, deverá ser limitada a um patamar inferior ao que foi previsto. 3 Em 21/01/2008, O Ministro da Defesa Nelson Jobin declarou à Agência Estado que o Governo Federal descartara a construção da terceira pista de pouso e decolagem em Guarulhos, afirmando que todos os estudos mostraram que a construção da terceira pista seria uma obra antieconômica por causa do grande impacto de ordem social, financeira e ambiental. O AEROPORTO NA CIDADE CONTEMPORÂNEA Um aspecto muito importante que devemos abordar é a conceituação de aeroporto contemporâneo. Hoje, um grande aeroporto é muito mais do que apenas um equipamento de transporte aéreo com o objetivo exclusivo de promover através de sua infraestrutura instalada o transporte de passageiros e carga aérea. Em relação ao Aeroporto Internacional de São Paulo, o mesmo assumiu nos últimos anos um papel estratégico na rede de infraestrutura de transportes do país, pois, além de ser o principal aeroporto da América do Sul, a sua operação eficiente tem um grande impacto nas economias local, estadual e nacional. Segundo Silva (1991, p. 118): “A infraestrutura aeroportuária tem um papel muito importante no conjunto das atividades políticas, econômicas e sociais de um Estado, quer seja desenvolvido quer em de desenvolvimento. De qualquer maneira, esta importância deve ser examinada, principalmente no que se refere à utilidade política e econômica para a sociedade.” Outros autores que também se dedicam ao estudo dos aeroportos contemporâneos reconhecem o importante papel que este tipo de infraestrutura exerce nas regiões onde os mesmos se encontram implantados. Segundo Güller (2002), “os aeroportos, como indiscutíveis pontos de encontro regionais e globais, estão se transformando em centros de atividades em si mesmos, é dizer que, em novos pólos de desenvolvimento regional, ou simplesmente em cidades-aeroportos.” O conceito de “cidade-aeroporto” proposto por Güller (2002) se aplica ao aeroporto contemporâneo, que além de gerar riqueza ao seu administrador através do recolhimento das tarifas aeroportuárias advindas do transporte de passageiros e carga aérea, também tem um alto faturamento com a locação de espaços internos e externos de sua área patrimonial para concessões comerciais e de serviços, e para publicidade diversa, atraindo investimentos públicos e privados e, portanto, tornando-o um pólo de desenvolvimento econômico relevante na região onde o mesmo está inserido. Ainda segundo Güller (2002, p. 70): “O conceito de cidade aeroporto também está relacionado com o desenvolvimento regional. Uma cidade aeroporto não se mantém isolada nos limites do aeroporto, mas forma parte de uma estratégia regional mais ampla, que se orienta em realizar a função que exerce o aeroporto nas redes de tráfego terrestres e pretende se beneficiar das atividades derivadas do aeroporto.” Em 2001, a INFRAERO seguindo uma tendência internacional, implantou nos terminais de passageiros do Aeroporto Internacional de São Paulo o conceito denominado por essa empresa de “aeroshopping”, o que aumentou significativamente a sua receita comercial em pouco tempo. Segundo Koolhaas (2000): “Depois de desenvolver durante séculos seus próprios modelos como o mercado, os grandes armazéns e as galerias comerciais, a atividade comercial tem começado a expandir-se nas últimas duas décadas sobre qualquer programa imaginável; aeroportos, estações de trem, museus, bases militares, cassinos, parques temáticos, bibliotecas, escolas, universidades, hospitais, etc. É cada vez mais difícil de distinguir os aeroportos dos shoppings centers.” Portanto, o Aeroporto Internacional de São Paulo possui uma complexidade típica de um aeroporto contemporâneo, que o torna uma “cidade-aeroporto” que produz riqueza e gera milhares de empregos diretos e indiretos, ligados ou não a atividade aeronáutica, afirmando-o como um importante pólo de desenvolvimento econômico dentro do Município de Guarulhos e na Região Metropolitana de São Paulo. CONCLUSÃO O adensamento urbano de áreas próximas dos sítios aeroportuários brasileiros é uma constante, como pode ser observado nas regiões limítrofes dos Aeroportos de Guarulhos, Congonhas / São Paulo e Viracopos / Campinas. No caso desses três importantes aeroportos brasileiros, a ocupação urbana presente no entorno dos mesmos é incompatível com a operação aeroportuária atual, expondo as populações residentes dessas áreas ao risco da atividade aeronáutica. Outra questão importante de ser apontada é o fator ambiental, pois, a operação aeroportuária gera ruído e emanação de gases tóxicos. Em relação ao Município de Guarulhos, na década de 1980, o mesmo estabeleceu na Lei de Uso e Ocupação do Solo a zona de influência aeroportuária, que recomendava o uso residencial controlado ou até mesmo a sua proibição em algumas regiões localizadas no entorno do Aeroporto Internacional de São Paulo, podemos constatar que nesta mesma década teve início um adensamento urbano irregular no entorno desse aeroporto, advindo principalmente das necessidades de serviços do próprio aeroporto, como comprovaremos na pesquisa de doutorado “O aeroporto na Cidade Contemporânea: a relação entre o Aeroporto Internacional de São Paulo e a Cidade de Guarulhos, e ainda da falta de uma política habitacional nas últimas décadas. Portanto, a partir do nosso entendimento acerca dos problemas descritos, consideramos a seguinte hipótese, os Planos Diretores Aeroportuários apesar de terem sido articulados aos Planos Diretores da Cidade de Guarulhos, ambos foram implementados de formas independentes, o que tornou o Aeroporto Internacional de São Paulo num enclave regional quase autônomo dentro do Município de Guarulhos, e por outro lado desencadeou o adensamento populacional de regiões limítrofes ao sítio aeroportuário impróprias para ocupação urbana. BIBLIOGRAFIA COMISSÃO COORDENADORA DO PROJETO SISTEMA AEROPORTUÁRIO DA ÁREA TERMINAL DE SÃO PAULO; INTERNACIONAL DE ENGENHARIA S.A. Plano Diretor Aeroportuário do Aeroporto Internacional de São Paulo / Guarulhos. São Paulo, 1981. EMPRESA BRASILEIRA DE INFRA-ESTRUTURA AEROPORTUÁRIA; ENGEVIX ENGENHARIA LTDA. Plano de Desenvolvimento Aeroportuário do Aeroporto Internacional de São Paulo / Guarulhos. São Paulo, 2004. GÜLLER, Mathis; GÜLLER, Michael. Del aeropuerto a la ciudad-aeropuerto. Barcelona: Editorial Gustavo Gilli, 2002. JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 510p. KOOLHAAS, Rem. La ciudad genérica. Barcelona: Editorial Gustavo Gilli, 1997. 62 p. KOOLHAAS, Rem et al. Mutaciones. Barcelona: Ingoprint, 2000. PASTERNAK, Suzana. Loteamentos irregulares no Município de São Paulo: uma avaliação espacial urbanística. Anais do XIII Encontro Nacional da Associação de Pós-graduação em Planejamento Urbano e Regional. Florianópolis. 2009. 32 p. SILVA, Adyr. Aeroportos e desenvolvimento. Rio de Janeiro: INCAER, Coleção Aeronáutica, Arte Militar e Poder Aeroespacial, n.4, 1991. Gerson Moura Duarte. Graduado em arquitetura e urbanismo pela Universidade Guarulhos (1997) e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2005), onde cursa o doutorado nessa mesma área. Atualmente é professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Nove de Julho UNINOVE. Conta ainda com doze anos de experiência profissional na área de arquitetura e urbanismo, com trabalhos desenvolvidos junto à Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária - INFRAERO.