COMO TRABALHAR A EDUCAÇÃO AMBIENTAL ATRAVÉS DO ESTUDO DO
SOLO EM AULAS DE GEOGRAFIA
Alexssandra Juliane Vaz/Universidade do Estado do Rio de Janeiro
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Rafael Manske dos Anjos/Fundação Universidade Federal do Rio Grande
[email protected]
INTRODUÇÃO
A educação ambiental já vem sendo trabalhada em muitas escolas brasileiras, onde
se discute as problemáticas ambientais e buscam a conscientização do alunado. Porém,
pouco se vê sobre o estudo do solo, muitas das vezes ignorado pelos professores e
totalmente desconhecido pelos alunos. O solo não é trabalhado como ecossistema e não se
desenvolvem estudos sobre a sua importância para os seres vivos e para a própria dinâmica
da natureza.
Existe a necessidade de estudar o solo em sala de aula, não apenas a sua formação e
estruturas, mas a necessidade de preservá-lo como fator fundamental para a existência da
vida, para a extração de recursos, para a produção de alimentos e basicamente como local
de morada das sociedades.
Através da educação ambiental nas aulas de geomorfologia, o solo poderá ser
estudado estabelecendo sua ligação com os demais ecossistemas da Terra, assim como sua
importância para a vida. Estudando sua degradação, tanto por fatores naturais quanto
antrópicos, e compreendendo como ela interfere na vida humana. A geomorfologia como
ciência que estuda os aspectos da superfície da Terra pode e deve ser estudada de forma
integrada com outras ciências, sobretudo as ambientais.
A interdisciplinaridade permite que o estudo do solo se torne atrativo para os
educandos, sendo possível utilizá-lo como instrumento de educação ambiental dentro da
própria escola, ou no bairro em que ela está inserida, promovendo atividades dinâmicas que
apresentem o solo como sendo o próprio relevo terrestre.
Considerando que o meio ambiente é hoje uma das grandes preocupações dos
homens, é necessário despertar nos estudantes a ânsia por pesquisas de cunho ambiental,
criando novas visões para as pesquisas ambientais. Mesmo que já venham sendo feitos
trabalhos teóricos sobre a questão, como os diagnósticos, os estudos de impactos, os
monitoramentos, gerenciamentos, e prognósticos ambientais.
Objetivos
Para que a educação ambiental seja desenvolvida da melhor forma possível dentro
das aulas sobre estudo do solo, existem alguns objetivos específicos que precisam ser
trabalhados junto aos alunos das séries propostas. Assim sendo, pretende-se estudar a
geomorfologia de forma interdisciplinar, partindo da premissa de que esta é uma parte da
geografia pouco explorada nos livros didáticos e que não parece interessante de se trabalhar
nas escolas.
Dentro desse estudo buscar-se-á caracterizar os tipos de solo especificando suas
utilizações e analisando sua importância para as sociedades humanas. O objetivo central
será apresentar as aulas sobre solo como possibilidade de estudar a questão ambiental,
utilizando métodos de ensino simples que possam ser aproveitados por docentes das mais
variadas escolas.
Através da educação ambiental inserida nas aulas de geografia o solo pode ser
valorizado e reconhecido, estabelecendo sua ligação com os demais ecossistemas da Terra.
Estudando sua alteração por fatores naturais e sua degradação por fatores antrópicos, além
de compreender como ele interage com a vida humana.
Neste trabalho abordaremos também a compreensão sobre a dinâmica dos solos,
estabelecendo relação com as interferências humanas nesse ecossistema. Vamos propor um
estudo dos solos em sala de aula que possibilite um outro olhar dos discentes sobre o
mesmo, acreditando que é possível discutir a educação ambiental nas escolas também a
partir do estudo dos solos. Para a partir daí, promover a conscientização ambiental e
problematizar as questões referentes à degradação dos solos. Para finalizar, a eficácia dos
estudos propostos poderá ser testada e/ou comprovada com a realização de grupos de
estudos sobre os solos, formados entre as turmas do colégio, que poderão se articular com a
comunidade local na qual a escola está inserida, visando uma maior interação nos estudos
ambientais que possam gerar resultados na qualidade ambiental do bairro.
Como Definir o que é Solo
Para muitas pessoas o solo é simplesmente aquilo que pisamos, ou o território de um país.
Para os geólogos ele é chamado de regolito, ou manto de intemperismo, para se referir a
camada de material inconsolidado que recobre as rochas de onde extraímos os recursos
minerais. Os biólogos costumam ver o solo como um ecossistema organizado a partir de
transformações físicas e químicas que permitem a produção vegetal e a presença de
organismos, num complexo sistema de trocas. Já a geomorfologia encara o solo como uma
estrutura, que reflete os condicionantes de sua formação, que dará a ele características
próprias.
Sem discordar de tudo isso, nesse estudo pretende-se analisar o solo como base da
produção agropecuária, fonte de alimentos para todas as sociedades humanas, também
como fonte de recursos materiais e minerais, como fundamental na manutenção do ciclo
hidrológico e, naturalmente como base das atividades humanas.
Na educação ambiental o solo vai ser analisado como local de moradia do homem, onde
construímos casas, estradas, fábricas, áreas de lazer, entre outros. Mas também como
ambiente que recebe e acumula nossos resíduos, interferindo na qualidade de vida.
O Solo como Ciência
Existem duas denominações para a ciência do solo, a Pedologia e a Edafologia. A primeira
é empregada para estudar a estrutura dinâmica do solo, seu perfil e sua distribuição nas
paisagens, sua formação e evolução ao longo do tempo, mais os fenômenos que nele
ocorrem. Enquanto a segunda é empregada para designar a ciência que estuda a superfície
do solo e sua capacidade de produção agrícola.
O solo é uma parcela dinâmica e tridimensional da superfície, constituída por um
conjunto de características peculiares internas e externas, com limites definidos de
expressão. Seu limite superior é a superfície terrestre e seu limite inferior é aquele
em que os processos pedogenéticos cessam, ou quando o material originário dos
solos apresenta predominância das expressões dos efeitos do intemperismo geofísico-químico. (PALMIERI E LARACH, 1966, p. 66)
As características do solo variam de um lugar para outro, mas frequentemente só damos
importância à camada mais superficial do solo, que é aquela que visualizamos. O
desconhecimento leva à utilização inadequada, que consequëntemente ocasiona sua
degradação. Porém, diversas ciências fazem estudos sobre o solo, podemos assim, verificar
a sua importância:
- Engenharia Sanitária: estuda a capacidade dos solos para receber contaminantes e técnicas
que evitem a contaminação do lençol freático e dos mananciais, além de tratar solos
contaminados;
- Engenharia Civil: estuda a capacidade de suporte do solo para as diversas edificações,
considerando o peso das estruturas e os tipos de materiais utilizados, que podem agredir
quimicamente o solo;
- Engenharia Florestal: estuda o manejo adequado aos diversos tipos de solo, objetivando a
recuperação de áreas florestais degradadas, e também a plantação de florestas para extração
de madeira, frutos, óleo, borracha, etc.
- Agronomia: estuda os processos que ocorrem nos solos visando o seu manejo adequado
para a manutenção da sua fertilidade;
- Geografia: estuda todos os processos pedogenéticos que originam os solos, a organização
e evolução das paisagens naturais, assim como as forças naturais e humanas que o
modifica. Analisa a questão agrária, e expansão das fronteiras além da relação sociedadenatureza;
- Zootecnologia: estuda o plantio de pastagens para sustentação dos rebanhos e a
capacidade de suporte dos pastos ao pisotear do gado;
- Biologia: estuda o solo como um ecossistema essencial que é a base da cadeia alimentar;
- Hidrologia: estuda o ciclo hidrológico, analisando a água que penetra no solo, forma o
lençol freático e consequentemente os rios, além de pesquisar os aqüíferos como reserva
estratégica de água para a humanidade;
- Geologia: estuda a evolução do planeta, a formação dos recursos minerais como ferro,
alumínio e manganês, e os processos pedogenéticos.
No Brasil, os estudos mais profundos sobre os solos se deram a partir da década de 1950
(Palmieri e Larach, 1966), através de uma comissão do Ministério da Agricultura que
objetivava produzir um inventário sobre os solos do país. Assim sendo, em 1981 foi
publicado pela EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias) o Mapa de
Solos do Brasil. O estudo da geomorfologia no Brasil é feito principalmente por geógrafos
e geomorfólogos.
Processo de Formação do Solo
A pedogênese (processo de formação do solo) ocorre através do intemperismo, mediante o
desmanchamento das rochas, que sofrem modificações físicas e químicas quando expostas
na superfície, e provocam uma reorganização estrutural em camadas no material
intemperizado, formando os horizontes do solo. Esse material intemperizado que origina
um novo solo é mais bem compreendido pelos alunos mediante a explicação dos tipos de
intemperismo, de forma simples e com poucas palavras para que não se torne algo
complexo demais.
Intemperismo Físico: processo mecânico de degradação das rochas, que provoca separação
e fragmentação de uma rocha matriz. Pode ocorrer por variação de pressão e temperatura
que desestabiliza os minerais; variação térmica que provoca movimento de expansão e
contração nos minerais; congelamento da água que penetra nas rochas que ao se expandir
força a abertura de fraturas; cristalização de sais presentes no ar que penetram nas fendas
das rochas, crescem e fazem pressão nas paredes; crescimento de raízes que forçam a
estrutura da rocha; abrasão mecânica, o choque da água contra as rochas provoca a
desagregação de pequenas partículas.
Intemperismo Químico: é facilitado pelo intemperismo físico que aumenta a superfície
exposta das rochas, assim encontrará no novo ambiente novas ligações químicas que darão
início a outras reações que originarão outros minerais. Ocorre principalmente pela reação
química em presença de água, e sua interação com o oxigênio e outros gases.
Intemperismo Biológico: se dá pela fragmentação dos organismos vivos, mecânica e
quimicamente, provoca fragmentação das partículas pelo crescimento das raízes; mistura e
remoção de materiais pela movimentação de animais; efeito químico mediante a respiração
dos seres vivos.
Os processos pedogenéticos são caracterizados por relações ou processos de natureza
física, química e biológica, que resultam de quatro mecanismos básicos: adição (matéria
orgânica, água e material mineral que são adicionados ao solo); remoção (mecanismos que
retiram elementos do perfil do solo, como a erosão e a lixiviação); transformação
(formação de húmus e processos intempéricos que causam modificação); translocação
(ocorre o transporte de um material de um local para o outro, pela movimentação da água
ou pela atuação de organismos). Os solos são formados basicamente por materiais sólidos,
que é a matéria orgânica formada por restos de animais e plantas em decomposição e
minerais, e seus poros podem estar preenchidos de materiais líquidos (ou fase líquida),
composta pela solução do solo (sais minerais, oxigênio e gás carbônico).
Pouquíssimas pessoas sabem como surgiu o solo em que está pisando, talvez por isso não
dêem importância ao seu estudo. Para que haja interesse por parte dos alunos o solo precisa
ser estudado a partir da compreensão dos seus fatores de formação, que possibilita a
percepção da sua complexidade. Os cinco fatores são: Clima: regula o tipo e a intensidade
do processo intempérico além de controlar a taxa de crescimento dos organismos, através
das variações de temperatura, da umidade, do vento, da quantidade regular de sol e chuva;
biosfera: a atuação dos microrganismos no solo, dos animais e vegetais, que podem causar
processos erosivos ou ajudar a evitá-los, como no caso da raiz das árvores e do material
húmico; material de origem: a pedogênese ocorre tanto em solos autóctones quanto nos
alóctones; a variedade de materiais formará solos com suas características químicas; relevo:
as oscilações do relevo determinam posições diferentes para o conjunto do material,
ocorrendo uma distribuição não uniforme da água, da luz e calor do sol, afetando a erosão;
e tempo: influencia na espessura e desenvolvimento do solo, existe o tempo zero quando
começa a formação e um estágio final, com a idade verificam-se solos jovens,
intermediários e maduros.
São esses fatores de formação que dão origem aos processos pedogenéticos, como:
Latolização ou Laterização - Perda de sílica e de bases do solum e enriquecimento relativo
de oxi-hidróxidos de ferro e de alumínio.
Podzolização - domina a translocação de matéria orgânica ou óxidos de ferro e alumínio do
horizonte A para o B.
Gleização - redução de ferro sob condições de excesso de água, comum em solos
hidromórficos.
Salinização - translocação e acumulação se sais solúveis de cloretos e sulfatos de cálcio,
magnésio, sódio e potássio de um horizonte para outro.
Calcificação - translocação e acumulação de carbonato de cálcio de um horizonte para
outro.
É importante ainda enfatizar a degradação dos solos, que são decorrentes de uma série de
fatores, como a erosão, a acidificação, a acumulação de metais pesados, a redução dos
nutrientes no solo, a redução de matéria orgânica, entre outros (Guerra, 1996). O autor
ainda destaca a possível atuação do aquecimento global sobre o solo, que pode causar
interferências devido o aumenta da temperatura.
A primeira conseqüência é o aumento das taxas de intemperismo, bem como a
oxidação de matéria orgânica e outros processos biológicos, além da maior
evaporação para a atmosfera de água dos solos e de outros gases. É bem provável
que o aumento de temperatura altere alguns padrões regionais de distribuição de
chuvas. Com isso, algumas áreas poderiam se tornar mais úmidas, e outras, mais
secas. Além de alterar a erosividade das chuvas, haveria também influência sobre
as propriedades dos solos, que poderiam, em maior ou menos escala, se adaptar a
essas mudanças de temperatura e regimes pluviométricos. (p. 189-190, 1998)
Dentre os processos de degradação do solo, não pode-se deixar de falar do papel da
agricultura, porque os mais comuns estão relacionados a práticas agrícolas inadequadas,
que resultam em: Esgotamento e lixiviação: lavagem do solo que provoca a perda da
fertilidade ou a perda dos nutrientes devido a colheita, onde não ocorre a devida reposição;
leva à necessidade de utilização de elementos tóxicos; Erosão: processo natural que
remove e transporta os horizontes superiores do solo, levando à perda da fertilidade. Pode
ser agravado pelo desmatamento; Salinização: comum em climas áridos e semi-áridos,
ocorre quando a precipitação é menor que a evaporação, provocando a concentração de
sais. Pode se agravar pelo desmatamento e pela irrigação sem drenagem adequada;
Contaminação: devido o uso de insumos agrícolas, despejo de materiais tóxicos e lixo,
ocorre diretamente sobre o solo, ou indiretamente pela drenagem (pelo lençol freático ou
pela utilização de água fluvial imprópria). Essa foi a maior crítica feita à Revolução Verde,
o uso indiscriminado de insumos agrícolas para aumentar a produção e combater as pragas,
pois esses produtos químicos, ao longo do tempo se acumulam no solo, contaminando o
lençol freático, poluem os solos e podem trazer prejuízos à saúde humana. As técnicas
utilizadas comprometem a produção agrícola futuramente por comprometer recursos
naturais.
Compactação: ocorre em pastos inadequados para a criação desse tipo de animal, devido o
pisoteio do gado e pelo uso de máquinas impróprias, muito pesadas.
A desertificação é outro processo decorrente da degradação do solo, que ocorre a partir das
práticas agrícolas impróprias, da ação humana (desmatamento, queimada, irrigação
inadequada, mineração) e pela variação climática, onde ocorrem longos períodos de seca
associados a períodos de chuvas intensas e de curta duração. A desertificação consiste na
esterilidade do solo, que fica impróprio para a agricultura. Vem sendo considerado um
grave problema porque ameaça a produção de alimentos no mundo, já que solos desérticos
não possibilitam plantações devido a ausência de nutrientes e água. E afeta as populações
mais pobres, que ficam ainda mais vulneráveis, perpetuando a fome e a miséria. Essa
população já carente tende a migrar para os centros urbanos. Os pequenos produtores e
camponeses também são prejudicados, com a perda de suas terras, e dificilmente se
restabelecem devido à carência de políticas públicas agrárias.
Estudo do solo em sala de aula
Toda essa teoria é necessária para a obtenção de conhecimentos mínimos sobre o assunto,
que pode ser introduzido nas aulas com imagens de terremotos, erupções vulcânicas,
avalanches e inundações, que são fenômenos naturais de grande impacto associados ao
relevo e à dinâmica da natureza. Seguindo com comentários sobre o assunto, espera-se
fazer com que o aluno se interesse por esse estudo, sem esquecer de trazer a questão para o
seu dia-a-dia. Isso é possível mediante aulas de campo, onde se poderá visualizar tudo
aquilo que foi abordado em sala de aula, e procurar respostas para algumas questões
relacionadas ao solo e a dinâmica da natureza, onde se inclui o homem. Como por
exemplo: de que forma a degradação dos solos afeta os recursos hídricos? Por que a
desertificação é um sério problema para a produção de alimentos? Por que a matéria
orgânica é importante para a estabilidade dos solos? Por que toda atividade biológica
depende do solo? Qual a importância dos organismos vivos para a fertilidade dos solos?
Qual a importância do solo na manutenção do ciclo hidrológico?
Respondidas tais questões, pode-se prosseguir no estudo acrescentando a questão ambiental
de forma mais direta. Onde os estudantes consigam diagnosticar quais das suas ações
rotineiras são capazes de influenciar a dinâmica e qualidade dos solos, e o que é feito em
âmbito mundial pela sociedade, de um modo geral, que agride esse ecossistema. Para
posteriormente, analisar quais as medidas que devem ser tomadas para evitar a
poluição/contaminação e degradação do solo. Buscando a conscientização através da
educação ambiental, da importância de se preservar esse recurso. Através desta
conscientização objetiva-se que os estudantes vejam o solo não apenas como o lugar em
que pisamos, mas como importante parte da natureza, da qual dependem nossas atividades
e nossa sobrevivência.
Espera-se que o aluno já tenha a clara certeza de que os solos não são iguais em todos os
lugares, e que dê importância não apenas ao solo que pisam, mas que reconheçam toda a
organização da estrutura. De acordo com Palmieri e Larach: “Existe, frequentemente, uma
propensão de se dar importância, apenas, à camada superficial ou arável e de desconhecer o
que está abaixo dos primeiros centímetros da superfície. Este fato conduz à utilização
inadequada, provocando, na maioria das vezes, a depauperização do solo e a degradação
ambiental”. (p. 69-70, 1966).
Diante disso, é possível constatar que se faz necessário trabalhar o solo através da educação
ambiental, que não pode ser vista apenas como mais uma forma de educação, porque ela
está na base do desenvolvimento pessoal e social, está intimamente ligada à transformação
social. O conteúdo desta educação não está exclusivamente em uma disciplina, mas
permeia por todas elas. A educação ambiental deve estar diretamente associada à
possibilidade de trabalhar as questões ambientais a partir da experiência dos alunos com o
seu lugar de moradia e com sua vivência cotidiana.
A educação ambiental se faz necessária na tentativa de minimizar a degradação ambiental,
entretanto
o estudo da degradação ambiental não deve ser realizado apenas sob o ponto de
vista físico. Na realidade, para que o problema possa ser entendido de forma
global, integrada, holísitica, deve-se levar em conta as relações existentes entre a
degradação ambiental e a sociedade causadora dessa degradação que, ao mesmo
tempo, sofre os efeitos e procura resolver, recuperar, reconstituir áreas
degradadas”.
(Guerra e Cunha, 1998, p. 337-338).
Os autores acima citados ainda afirmam que a degradação ambiental é um problema social,
porque conforme ela se acelera a produtividade diminui, trazendo conseqüências negativas
não só para o ambiente, mas também para a sociedade. Apesar das próprias condições
naturais, como erosão e deslizamentos, o manejo inadequado do solo é a principal causa da
degradação, seja em áreas rurais ou urbanas. Assim, através da educação ambiental pode
haver um monitoramento a nível local por parte dos estudantes, capaz de intervir e
controlar a degradação ambiental do solo, com base na realização de diagnósticos junto aos
professores.
Os alunos e professores devem ser capazes de diagnosticar problemas ambientais, não
apenas aqueles relacionados aos solos. Segundo Ross (1998), “As análises ambientais
visam atender as relações das sociedades humanas de um determinado território (espaço
físico) com o meio natural, ou seja, com a natureza deste território” (p. 351). O autor
esclarece que a natureza é vista, nesse caso, como suporte para a sobrevivência humana. O
mesmo ainda afirma, que a relação homem-natureza tem que ser entendida de forma
dinâmica, considerando os aspectos culturais, sociais, econômicos e naturais.
A busca da conscientização ambiental a partir do estudo do solo se dará através da
educação ambiental dentro da própria escola. Para o estudo do solo como fonte de
alimentos pode-se criar no terreno das escolas pequenas hortas, plantadas e cultivadas pelos
alunos, para o cultivo de alimentos, que em caso de escola pública, poderão servir para
incrementar a merenda escolar. A não utilização de agrotóxicos e demais produtos
químicos na produção, mostrará aos educandos duas questões, primeiramente a não
poluição do solo, dos rios e do lençol freático por esses insumos, diferente do que ocorre na
agricultura mundial. E segundo, a qualidade dessa produção orgânica e seus benefícios para
a saúde humana.
Para o estudo do solo como fonte de materiais e energia, um simples passeio com a turma
pelas ruas ao redor da escola, mostrará, por exemplo, quantas casas são construídas
utilizando a madeira. A partir daí pode-se discutir a destruição de florestas, a ação das
madeireiras e a necessidade de preservação do solo para o desenvolvimento de outras
árvores e plantas em geral.
Questões relacionadas a água também podem ser trabalhadas a partir do estudo do solo e
sua influência sobre o ciclo hidrológico. . É através do solo que ocorre a recarga dos
mananciais e a depuração das águas, mediando o ciclo da água entre a hidrosfera, a
biosfera, a litosfera e a atmosfera. Além de influenciar na qualidade química e física do
lençol freático e rios. Os recursos hídricos são afetados com a degradação do solo quando
este tem sua parte mais superficial sofrendo processo erosivo, principalmente na ausência
de vegetação, onde a água da chuva sela os poros provocando encrostamento, assim, a água
escoa superficialmente, transportando materiais até a calha do rio, o que provocará um
entulhamento. Com o rápido escoamento da água pluvial pela encosta não ocorre a
infiltração, provocando encolhimento do lençol freático, o que interfere na recarga dos
aqüíferos e na manutenção da dinâmica dos rios.
No quintal da escola ou no laboratório, pode-se revirar a terra, para que os alunos percebam
suas características físicas, mas sobretudo para que visualizem a presença de organismos
vivos, como a microflora e a microfauna que são decompositores da matéria orgânica,
mineralizam os nutrientes e liberam o húmus. Já a macroflora contribui com a perda das
suas folhas que ao cair devolve nutrientes para o solo impedindo o seu empobrecimento,
principalmente os que são carregados pela água da chuva. Os animais contribuem para a
aeração e movimentação dos materiais, além de adicionar matéria orgânica pela excreção e
sua própria decomposição. A parir disso pode-se estabelecer uma ligação com a
problemática das queimadas, que matam os microrganismos e demais seres vivos que
habitam no interior do solo.
Em escolas localizadas em áreas urbanas com elevado número de ruas pavimentadas, com
asfalto, e áreas cimentadas, pode-se analisar a diminuição da capacidade de infiltração da
água no solo. A não penetração da água no solo prejudica o abastecimento do lençol
freático, a recarga de aqüíferos e a formação dos rios. O calçamento de grandes áreas
interfere ainda na formação do húmus, formado a partir da decomposição das folhas das
árvores que caem sobre o solo. Porque a matéria orgânica em decomposição forma o
húmus, porção muito estável, rica em nutrientes e mais ativa que os argilo-minerais, devido
seu comportamento coloidal (os argilo-minerais são importantes na constituição da argila,
possui grande atividade química e propriedades coloidais, e cargas elétricas com afinidade
pela água e demais elementos dissolvidos). Essas características do húmus são importantes
para a estabilidade do solo por dispor da capacidade de aderência, impedindo a separação
das partículas componentes do solo. Solos pobres em matéria orgânica se desprendem com
mais facilidade, por isso são mais instáveis.
Muito provavelmente grande parte do corpo discente mantém a prática de queimar as
folhas que caem nos quintais de suas casas, mas com esse estudo espera-se que os alunos
não encarem as folhas sobre o chão somente como lixo, mas que compreendam a sua
importância na dinâmica de formação do solo, e evitem queimar o lixo, que além de poluir
o ar através da fumaça, retira as propriedades do solo, como já mencionado acima, e mata a
fauna que vive no solo.
Estudar o lançamento de lixo sobre o solo é outra forma de trabalhar a educação ambiental.
Dentro das escolas isso pode ser feito através de uma experiência, que começará no início
do ano letivo e seus resultados avaliados no término do ano. Em uma área pequena e
reservada do pátio da escola, deve-se depositar determinada quantidade de resíduos sólidos,
daqueles que as pessoas costumam jogar nas ruas, sem se preocupar com seus impactos,
como papéis de bala, palitos de picolé, embalagens de biscoito, canudos de refrigerante,
latinhas de alumínio, garrafinhas tipo pet, entre outros. Todos esses resíduos serão cobertos
pela terra escavada e por folhas de árvores. Durante as aulas os alunos deverão discutir o
que acontecerá com aqueles materiais no decorrer de aproximadamente um ano. Decorrido
esse período, com a utilização de pás, aquela área deverá ser revirada. Assim, todos
poderão visualizar que aquele material depositado ainda permanece ali, tendo sofrido
poucas alterações. Dessa forma é possível constatar o quão é lenta e demorada a capacidade
do solo de decompor os resíduos sólidos, criando a conscientização de que o lixo deve ser
depositado em local próprio, para evitar a sujeira nas ruas e a poluição do solo.
Figura: Tempo de decomposição de alguns resíduos sólidos. Fonte: UFRRJ, In
http://www.ufrrj.br/institutos/it/de/acidentes/decompos.jpg
Com os exemplos trabalhados acima, deseja-se que os estudantes compreendam todo o
processo de formação e degradação do solo, e se conscientizem da importância da sua
preservação, para as plantas, para os animais, para a vida e práticas humanas, para a
agricultura, para o ciclo da água. A degradação é um processo contínuo e crescente que
empobrece o solo, resultando em problemas sociais, econômicos e ambientais. As
atividades propostas são exemplos de pequenas análises ambientais, feitas em escala local.
Segundo Ross (1998), dentro da abordagem geográfica, “as análises ambientais são
excelentes suportes técnico-científicos para a elaboração dos Zoneamentos Ambientais e
Sócio-econômicos” (p. 352). Claro que não se espera dos alunos a produção de mapas
altamente elaborados, mas é possível trabalhar em cima de plantas do bairro, ou até da
cidade, e mapas temáticos, que abordem o conteúdo da disciplina, como a própria
geomorfologia.
Conclusão
Com o estudo do solo é possível fazer uma análise da dinâmica da natureza,
compreendendo como os ecossistemas estão inter-relacionados. A partir das interferências
humanas no solo pode-se estudar a problemática da degradação ambiental e suas
implicações para as sociedades humanas. Ao verificar como essa destruição da natureza
ocorre podemos desenvolver a educação ambiental entre os alunos, de forma
interdisciplinar e na escala local, partindo de ações do seu cotidiano, para que eles
percebam os problemas a sua volta e se percebam dentro dessa dinâmica. Além de
Apenas 30% da superfície do planeta Terra corresponde às terras emersas, ou superfícies
firmes, que serve de suporte aos ecossistemas terrestres. Assim, o solo trata-se de uma fina
película sobre a crosta continental que está em constante processo de formação e
destruição. Mas isso não ocorre isoladamente, trata-se de uma co-evolução com os outros
elementos da paisagem, podendo refletir o estado de equilíbrio ou desequilíbrio ambiental.
Dessa forma, concluímos que apesar das alterações naturais ocorridas no solo, como erosão
e deslizamentos de terras, as práticas humanas contribuem consideravelmente para agravar
o processo de degradação do solo, e que essa destruição interfere diretamente na nossa
qualidade de vida, prejudica a produção de alimentos no mundo e compromete a utilização
do solo para as próximas gerações. Assim, através da educação ambiental com base no
estudo do solo é possível pensar em práticas mais sustentáveis de uso desse recurso, que
garanta sua qualidade, não apenas em escala macro, mas trazendo a discussão para dentro
das salas de aula, onde o alunado perceba que os solos possuem perfis, uma estrutura em
camadas, em que o tempo necessário para sua formação é maior que o de uma vida
humana. Necessitando ser estudado não apenas por especialistas, já que as práticas que o
agridem são desenvolvidas, também, em nosso dia-a-dia.
Ainda que os estudos ambientais dentro da geomorfologia seja algo recente, ao homem é
necessário conhecer não só as potencialidades da natureza, mas também as suas
fragilidades, para que as atividades humanas desenvolvidas, tanto econômicas quanto
sociais, sejam compatíveis com as potencialidades e fragilidades dos ambientes naturais.
Para que a humanidade possa viver melhor q com mais qualidade de vida ambiental.
Referência
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