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ENTRE LUZES E SOMBRAS – “A LANTERNA” COMO FONTE
PARA A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NA PRIMEIRA REPÚBLICA
Fernando Antonio Peres – Universidade de São Paulo
“... outra coisa seria andar pela cidade a assaltar escolas só para saber se
fulana teve um oito ou um quinze na matemática do quarto ano e se fulano
era tão indisciplinado como gostava de declarar nas entrevistas. E se para
entrar em cada uma dessas escolas ia ter de sofrer tanto como já havia sofrido
nesta, então seria melhor que se deixasse ficar no remanso da sua casa,
resignado a conhecer do mundo apenas aquilo que as mãos podem alcançar
sem dela sair, palavras, imagens, ilusões”. José Saramago, Todos os Nomes.
A inexistência de séries documentais completas, a carência de fontes primárias e a
quantidade reduzida de memórias escritas pelos próprios militantes anarquistas impõem
limites à investigação dos historiadores da educação. Os módicos recursos dos agentes sociais
que promoveram as diversas iniciativas educacionais de orientação libertária na Primeira
República explicam parte desta escassez documental. A ação repressiva estatal no período
desencadeou uma sistemática destruição de documentos, principalmente de livros e arquivos.
O triunfo de outros interlocutores para o movimento social desde meados da década de 1910 –
principalmente a Igreja católica e os comunistas – contribuiu para que os libertários fossem
condenados ao esquecimento (Romera Valverde, 1996, cap. 1).
A Lanterna, folha “anticlerical e de combate”
A Lanterna, periódico fundado em 1901 em São Paulo, apresentou três fases de
publicação. A primeira fase, dirigida por Benjamin Motta, estendeu-se de 7/3/1901 a
29/2/1904, sendo editados 60 números do jornal, dos quais 28 em edição diária, entre
dezembro de 1903 e janeiro de 1904. A segunda fase, sob direção de Edgard Leuenroth durou
sete anos, estendendo-se de 17/10/1909 a 19/11/1916, com a publicação de 293 números. A
terceira fase, igualmente dirigida por Edgard Leuenroth, iniciou-se em 13/7/1933 e durou até
1935 (A Lanterna, 13/7/1933).
A Lanterna orientava-se por uma linha declaradamente anticlerical. Aliás, o jornal em
questão é definido como um “periódico anarquista que congregava o apoio dos anticlericais”
(Souza, 2000, p. 23). Segundo Boris Fausto, A Lanterna era um “irreverente órgão francomaçom, com uma linguagem insólita” (apud Souza, 2000). Maria Aparecida Dias afirma que
este mesmo jornal foi editado entre 1916 e 1927, também por Leuenroth, com o título de A
Plebe (Dias, 1999, p. 40). A caracterização d’A Lanterna feita por Wlaumir Souza parece-nos
a mais adequada. Julgamos que a afirmação de Fausto aplica-se principalmente à terceira fase
do periódico. O artigo “Ao que vimos – Rumo a Revolução mundial” afirma que o jornal A
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Plebe é a continuação d’A Lanterna, ou melhor, que é A Lanterna ressurgida diante de
“excepcionais exigências do momento” (A Plebe, 9/6/1917).
O Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) da UNICAMP possui praticamente a coleção
completa d’A Lanterna. O CEDEM – Centro de Documentação e Memória – da Universidade
Estadual Paulista (UNESP) possui alguns exemplares do periódico, preservados nos originais
e microfilmados. No CEDEM há os originais dos n.º 110, 140, 142, 170, 181, 206, 214, 243,
246, 258, 259 e 288 da segunda fase do jornal, entre outubro de 1911 e abril de 1916, alguns
dos quais danificados. Há também praticamente todos os números da terceira fase, entre julho
de 1933 e novembro de 1935 (n.º 354 a 399, 401 e 402). Estão microfilmados os exemplares
257 a 263 (de agosto a outubro de 1914), 295 [sic] (de fevereiro de 1915) e 289 (de maio de
1916). O presente artigo deter-se-á na análise dos exemplares 257 a 263, publicados entre 22
de agosto e 3 de outubro de 1914, sempre aos sábados.
O jornal A Lanterna era publicado em formato tablóide, com quatro páginas e os
textos distribuídos, via de regra, em seis colunas. A quarta página era ocupada pela seção
“Biblioteca da ‘Lanterna’”, um catálogo com os títulos – e respectivos preços – de livros e
folhetos. Os livros oferecidos estavam agrupados segundo o critério da língua em que foram
escritos: português, italiano, espanhol e francês1. A última página também continha alguns
anúncios classificados, oferecendo-se produtos e serviços2. Esta página praticamente
permaneceu com a mesma diagramação e conteúdo similar nas edições consideradas.
A primeira página e as páginas centrais do jornal eram ocupadas com artigos que
abordavam temáticas bastante variadas. Nos números selecionados para a elaboração deste
texto, houve um destaque para a avaliação da guerra na Europa. Vários artigos tratavam da
conjuntura econômica, social e política do Brasil, assim como da situação precária em que se
encontravam os trabalhadores nas diversas sociedades capitalistas do mundo. Com relação à
guerra, por exemplo, as opiniões não eram unânimes. Todos os artigos procuravam explicar o
estado de beligerância como resultado inevitável da união de interesses dos clérigos, dos
“argentários” (capitalistas) e das castas militares, expressão da tríade de inimigos dos
trabalhadores: a Religião, o Capital e o Estado. Entretanto, havia dissonâncias quanto ao
procedimento que os operários deveriam adotar diante do conflito bélico mundial. Em alguns
artigos, percebe-se uma certa simpatia pela França, país dos ideais de liberdade e berço tanto
1
Dos 90 títulos de livros anunciados, 33 estavam em português, 46 em italiano, 8 em espanhol e 3 em francês.
Emulsão de Scott, de Scott & Bowne, de Nova Iorque; Engenho Stamato, de Raphael Stamato, do Rio de
Janeiro; Pasta Dentifrícia Carmeine eram alguns dos produtos anunciados. Havia a propaganda do jornal A Voz
do Trabalhador; da revista Novos Horizontes, do Rio de Janeiro; e das Escolas Modernas Nº 1 e Nº 2, de São
Paulo.
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da civilização quanto das primeiras manifestações de emancipação operária. Outros artigos
destacam o atraso político e moral dos impérios Alemão e Austro-Húngaro. E há os que
defendem a mais absoluta neutralidade diante da guerra, pois os países beligerantes são
Estados, organizados para explorar e oprimir os trabalhadores3.
Com relação ao anticlericalismo – fio condutor dos artigos do jornal – os clérigos e as
igrejas eram apresentados n’A Lanterna como os principais inimigos de toda a humanidade.
Os articulistas expressavam total repúdio pela classe clerical e pela religião, com críticas à
superstição do povo e às práticas religiosas em geral. A caridade, por exemplo, era entendida
como hipocrisia e obstáculo à realização da justiça social. O comportamento de padres e
freiras era visto como marca evidente do atraso e causador de malefícios para toda a
sociedade. Entretanto, alguns artigos parecem atacar mais o clero do que a religião; da mesma
forma, a linha anticlerical parece predominar sobre a defesa do ateísmo; igualmente, os
protestantes parecem ser poupados de algumas críticas.
O jornal, nas edições consideradas para a elaboração deste texto, noticiou a morte do
papa Pio X (1903-1914) e a escolha de Bento XV (1914-1922) para o trono pontifício. Nos
artigos que comentam a sucessão papal4, fica evidente a concepção de que a religião e
principalmente o clero representavam os maiores obstáculos ao progresso da humanidade. Os
prejuízos faziam-se sentir na limitação imposta pela prática religiosa à ciência e à saúde
pública, às medidas de profilaxia e de higiene, ao socialismo e aos verdadeiros ideais
republicanos. Os “clericrápulas”, em aliança com a burguesia e com a casta militar, impediam
o pleno desenvolvimento do operariado, pois disseminavam a hipocrisia, a imoralidade e o
comportamento doentio por toda a sociedade. O celibato era violentamente atacado, pois não
era uma prática natural nem era “respeitado” pelo clero hipócrita. A Igreja, uma instituição
rica, perpetuava-se em franca oposição aos ensinamentos cristãos de pobreza e de humildade.
A inquisição, no passado, e os jesuítas e demais ultramontanos, no presente, eram
apresentados como prova do mal que o clero causava à humanidade.
O jornal operário
O operariado representava uma pequena parcela da população brasileira nas primeiras
décadas do século XX. Em crescimento constante, principalmente em razão do fluxo
imigratório desencadeado desde fins do século XIX, o operariado, principalmente em São
Paulo, viveu as experiências da diversidade e da semelhança (Toledo, 1993). As origens
culturais diversas condicionavam a experiência da diversidade: os operários em São Paulo
3
4
A Lanterna, 5/9/1914, 26/9/1914 e 3/10/1914.
A Lanterna, 22/8/1914 e 5/9/1914.
4
eram, em sua maioria, imigrantes europeus. E para as camadas populares européias na época,
as diferenças regionais muitas vezes sobrepujavam as diferenças nacionais. Além disso, a
presença do trabalhador nacional se fazia cada vez mais visível. Por outro lado, a exploração
capitalista, as precárias condições de vida, moradia e trabalho, a discriminação e a violência
definiam a experiência da semelhança. Esta logo transformou-se em experiência de classe e
permitiu a construção de uma identidade também de classe, ao desenvolver “certas formas de
solidariedade [e] certa consciência de coletividade” (Toledo, 1993, p. 37-38).
Os anarquistas assumiram a liderança do movimento operário em São Paulo no início
do século XX. Segundo Edilene Toledo, podemos agrupar os libertários em duas “gerações”.
A primeira constituiu-se de grupos compostos majoritariamente de imigrantes e que se
organizaram, desde fins do século XIX, em torno de jornais em línguas estrangeiras e de vida
brevíssima. Tais grupos dedicaram-se à propaganda e às ações de rua em meio à intensa
repressão do Estado (Toledo, 1993). A segunda “geração” de militantes anarquistas – na qual
a publicação d’A Lanterna encontra-se inserida – foi marcada pelo surgimento de grupos que,
desde os anos iniciais do século XX, adotaram a estratégia de editar jornais em língua
portuguesa e de criar novos instrumentos de propaganda (bibliotecas, centros de estudo e
escolas) e novas práticas de difusão do ideário libertário (através de festas, de apresentações
teatrais e da literatura “útil”, isto é, engajada). Além disso, estes grupos decidiram alargar o
campo de divulgação das idéias anarquistas, ao buscar a adesão de outros segmentos sociais
além do operariado.
O Amigo do Povo foi o primeiro jornal libertário editado em São Paulo em língua
portuguesa e que atingiu certa regularidade na publicação. Foram 63 números entre 1902 e
1904, com periodicidade semanal ou quinzenal. O grupo editor era constituído por Neno
Vasco, Benjamin Mota, Alessandro Cerchiai e Oresti Ristori (Toledo, 1993).
Os temas do anticlericalismo, do antimilitarismo e de crítica à repressão também
estavam presentes n’A Voz do Trabalhador, órgão da Confederação Operária Brasileira
(C.O.B.) e publicação coeva d’A Lanterna5.
O jornal operário foi um produto cultural singular que apresentava estratégias de
circulação bem definidas. Um dos objetivos dos grupos editores era formar uma “comunidade
de leitores”, com a construção de redes de distribuição e multiplicação de discursos e de
solidariedade entre os trabalhadores. A imprensa operária enfrentava crônico problema de
5
A Voz do Trabalhador foi publicado no Rio de Janeiro entre 1908 e 1915. Entre 1908 e 1909 houve 21 edições
e entre 1913 e 1915, 50 edições. Foi criado a partir de uma resolução do I Congresso Operário Brasileiro (1906)
para ser o órgão oficial da confederação operária, propondo-se a veicular notícias de todo o país e a criar canais
de diálogo com outros jornais. Cf. Giglio, 1995.
5
autofinanciamento – que impunha dificuldades de sobrevivência e, via de regra, inviabilizava
a existência da maioria dos jornais – e sofria a oposição e o combate de “malhas de
instituições”, como a polícia, a escola oficial e a Igreja católica (Giglio, 1995, cap. 2).
A distribuição física dos jornais era uma preocupação constante dos grupos libertários.
As informações sobre onde e como encontrar os periódicos aparecem com relativa freqüência
na imprensa operária. Por exemplo, A Lanterna noticiou sua distribuição pela rede ferroviária
de São Paulo (linhas Paulista e Central), através de representantes incumbidos de efetuar a
venda do jornal nas estações ferroviárias6. Desta forma, o mais moderno sistema de transporte
disponível em São Paulo na época era posto a serviço das causas operárias.
Estes jornais – segundo Célia Giglio – também elaboraram estratégias de leitura para
atingir seus objetivos de difusão de idéias. A leitura pela audição era muito comum entre os
operários. Os trabalhadores, muitos dos quais analfabetos, organizavam grupos de estudo para
“ler” e discutir os textos de suas associações de classes e os produzidos nos círculos
libertários. Nos jornais operários, os textos podem ser classificados em dois tipos: os
destinados a uma leitura extensiva e os destinados a uma leitura intensiva. A leitura extensiva
era para ser feita uma única vez, aplicada a artigos que transmitiam informações e notícias. Já
a leitura intensiva dirigia-se aos textos doutrinários, que deveriam ser lidos várias vezes e que
permitiam uma múltipla construção de sentidos. A leitura, principalmente a extensiva, era
facilitada pelo estilo processual adotado para o tratamento das notícias e das informações
veiculadas nos jornais. Além disso, muitos textos eram escritos como se fossem transcrições
da fala, um diálogo com um interlocutor oculto – precisamente o leitor – numa busca de
clareza e inteligibilidade das idéias para pessoas comuns (Giglio, 1995). Nas páginas d’A
Lanterna fica evidente a preocupação dos editores em mesclar artigos de caráter informativo e
noticioso com textos de natureza formativa.
Educação: convívio social e escolas
A formação recomendada pelos editores d’A Lanterna aos trabalhadores era de
natureza política, científica e literária. A ciência – amparada pelo trabalho e promotora da
civilização – era concebida como o melhor contraponto para a religião. Cientistas e escritores
eram apresentados como modelos para a emancipação da humanidade. As matérias científicas
constituíam a quase totalidade do programa de estudos das Escolas Modernas Nº 1 e Nº 2. Em
diversos jornais, obras literárias eram publicadas em capítulos7. Ou seja, ciência e literatura
eram considerados os principais instrumentos para a emancipação da humanidade.
6
7
“Aos nossos assinantes”. A Lanterna, 19/9/1914.
A Lanterna publicava “Os Comuneiros”, de Carlos Malato (1857-1938), anarquista espanhol.
6
Os centros de cultura operária – também denominados de centros de estudos sociais –
eram associações que procuravam concretizar os ideais libertários, desempenhando funções
diversas, dentre as quais a educacional. Havia ações de natureza formativa: criação e
manutenção de escolas, cursos e bibliotecas; realização de conferências, palestras e festas;
organização de grupos culturais; e promoção de atividades de propaganda. Os centros de
cultura também desenvolviam ações de apoio e defesa de operários em dificuldades, de
mobilização e mesmo de assessoria ao movimento sindical. Eram, também, pólos de
aglutinação de “intelectuais e simpatizantes das correntes libertárias”, pertencentes a grupos
sociais de não operários (Giglio, 1995, p. 149).
Aliás, segundo Edilene Toledo (1993), a base de organização dos anarquistas no
princípio do século XX era o “grupo de afinidade”, que congregava sobretudo militantes
libertários e afirmava-se como um centro de discussão de idéias e de realização de atividades
concretas no quotidiano operário: escolas, publicações de livros e opúsculos, importação e
tradução de obras estrangeiras, criação de centros de estudos sociais, bibliotecas, jornais e
grupos de teatro. O grupo de afinidade era um núcleo de atração de novos militantes e um
centro de formação política, com destaque para as iniciativas educacionais, formais e
informais. Se, na concepção libertária, o principal problema da humanidade era moral, a
solução deveria ser revolucionária e transformadora de toda a humanidade. Assim, a
revolução só poderia resultar da propaganda, do ensino, do livro e do exemplo pessoal dos
militantes libertários (Toledo, 1993, p.82).
As convergências e as divergências, as aproximações e os conflitos entre libertários e
setores sociais não operários também representam promissoras perspectivas de estudo no
campo educacional. Os grupos libertários atraíram e aglutinaram descontentes e grupos
radicais de outros matizes políticos. O anticlericalismo – que teve n’A Lanterna um de seus
mais combativos órgãos de propaganda e debate – constituiu-se como um traço de união entre
setores que congregavam liberais desiludidos, livres-pensadores, agnósticos, positivistas,
jacobinistas, intelectuais, maçons, socialistas e anarquistas. Estes grupos assumiram o
anticlericalismo como uma verdadeira bandeira de militância política, marcando as três
primeiras décadas do regime republicano como o “momento de maior afronta à tradição
católica” no Brasil (Oliveira, 1996). Simultaneamente, foi nesta mesma época que a Igreja
católica reorganizou-se internamente, reatando os laços com os setores dominantes da
sociedade brasileira e desenvolvendo suas próprias estratégias educacionais. A renovação da
aliança entre o Estado brasileiro e a Igreja católica, concretizada em torno de 1920,
representou o início de um período de declínio da hegemonia das concepções libertárias entre
7
o operariado no Brasil. O Estado republicano brasileiro aproximou-se da Igreja católica para
fazer reverberar o discurso das elites por todas as esferas sociais, acomodando tensões e
esvaziando pretensões políticas mais radicais. A Igreja, assim, tornou-se uma “sólida barreira
conservadora” para os grupos sociais no poder, ao mesmo tempo que concluía um processo de
reconstrução institucional baseada em reformas internas. Este projeto, conduzido por D.
Sebastião Leme, visava “recatolicizar a sociedade brasileira” (Oliveira, 1996, p. 210 ss.)8.
As vozes dos anticlericais proclamavam o desencanto com a república que não se
concretizou. “Em geral, no Brasil, as classes ilustradas são irreligiosas”. Entretanto, tais
homens ilustrados eram vistos nas igrejas: ateus, livres-pensadores e haeckelianos
compareciam às missas de finados, eram paraninfos em casamentos e padrinhos em batizados.
Isto só pode significar duas coisas, nos diz A Lanterna: hipocrisia ou senilidade. De qualquer
forma, é uma incoerência ser irreligioso e participar das atividades nas igrejas. “E porque essa
gente é incoerente, a República leiga que eles fizeram e governam sofre da mesma doença”9.
Como a república que tinham não era a sociedade que queriam, os anarquistas
propunham o combate ao capitalismo e à grande imprensa, a destruição do Estado e da
burguesia e a “produção de uma outra humanidade” (Toledo, 1993, p. 49). E estes objetivos
somente seriam alcançados pela transformação das pessoas através da propaganda e da
educação. Neste contexto, a imprensa operária foi transformada num dos principais meios de
expressão de idéias e de acesso à consciência revolucionária.
O jornal apresentava-se como o “primeiro educador” (Giglio, 1995, p. 127), numa
postura coerente com o princípio libertário de que a educação ocorre na escola mas,
principalmente, na vida (sobretudo através da convivência social). Apelava-se para uma
crescente organização do operariado, a partir do princípio da solidariedade e da liberdade, sem
poupar críticas à religião, ao militarismo e ao capitalismo. A proposta de educação mais
adequada ao trabalhador era aquela feita nas organizações operárias. Num contexto de poucas
escolas destinadas às classes populares em contraste com as multidões de analfabetos, muitos
militantes anarquistas tornaram-se autodidatas (Romera Valverde, 1996). O autodidatismo
resultava de práticas de ensino mútuo, desenvolvidas principalmente nos centros de estudos
sociais. Ser autodidata constituía-se em necessidade vital para a organização das lutas sociais
numa sociedade excludente. Os autodidatas conviviam em círculos de ativistas do livre8
A reconstrução institucional da Igreja católica baseou-se na ampliação da quantidade de dioceses, na
“importação” de sacerdotes estrangeiros, na melhoria dos seminários, no aumento da disciplina interna do clero,
na criação de colégios para as elites brasileiras, nos primeiros ensaios de aproximação com as camadas populares
(por meio de estratégias educacionais e assistenciais, e da atuação nos círculos operários) e na formação de
intelectuais católicos.
8
pensamento, de sindicalistas libertários, de publicistas e de militantes do anarquismo. Tais
círculos muitas vezes se interpenetravam e tangenciavam outros agrupamentos, em alianças
muitas vezes apenas táticas ou mesmo pontuais. Romera Valverde apresenta uma lista de
autodidatas dedicados à causa libertária10; vários destes militantes aparecem nas páginas d’A
Lanterna, seja como subscritores de artigos, seja como promotores de atividades de
propaganda dos ideais libertários, como, por exemplo, conferências públicas11.
Para os libertários, a escola ideal apresentava formato laico e destinava-se a vulgarizar
e popularizar os saberes científicos. A fundação de escolas de primeiras letras para crianças e
adultos, em cursos diurnos e noturnos, tornou-se um objetivo educacional escolar dos
anarquistas. A escola oficial era vista como uma instituição nefasta, pois apenas substituía os
valores religiosos das escolas clericais pelo valores cívicos e patrióticos. Os libertários
promoveram várias iniciativas de educação escolar na cidade de São Paulo nas duas primeiras
décadas do século XX. Por exemplo, a Escola Germinal (1904) e as Escolas Modernas Nº 1 e
Nº 2. Estas últimas instituições escolares – citadas nas páginas d’A Lanterna – foram
estudadas por Flávio Luizetto (Luizetto, 1984) e Regina Célia Jomini (Jomini, 1989). Cumpre
lembrar que estas e outras escolas operárias foram vítimas de intensa repressão policial12.
A Escola Moderna Nº 1, dirigida pelo professor João Penteado, destinava-se à
instrução e à educação de meninos e meninas, “segundo o método racionalista”. Localizava-se
na rua Saldanha Marinho, 66, no bairro paulistano do Belenzinho e era mantida pela
Sociedade Escola Moderna de São Paulo13. As aulas diurnas ocorriam das 11 às 16 horas, de
segunda à sexta-feira; e aos sábados, das 11 às 13 horas, após o retorno do “passeio
campestre”. As aulas noturnas, de segunda à sexta-feira, realizavam-se das 19 às 21 horas. O
programa dos cursos constava das seguintes matérias: português, aritmética, geografia,
história e princípios de ciências naturais. Previa-se a ampliação deste programa mínimo,
conforme as necessidades e a partir da aceitação do ensino racionalista em São Paulo.
9
A lanterna, 29/8/1914.
Edgard Leuenroth, Pedro Atallo, Helio Negro, Adelino Tavares Pinho, Florentino de Carvalho, José Oiticica,
Gigi Damiani, Tito Batini, Gil Souza Passos, Rodolfo Felipe, Marino Spagnolo, Antonio Avelino Foscolo, Jaime
Cubero, Gimenéz Moreno, Edgar Rodrigues, Oswaldo Salgueiro, Luca Gabriel e Venâncio Pastorini.
11
Por motivos óbvios, era comum os artigos de jornais operários serem assinados com pseudônimos ou nomes
fictícios ou abreviados. Também percebemos tais fenômenos nas páginas d’A Lanterna.
12
O professor Edmundo Rossoni, da Escola Racionalista da Liga dos Vidreiros, foi preso em outubro de 1909 e
expulso do país em dezembro do mesmo ano, conforme noticiou A Voz do Trabalhador (Giglio, 1995, p. 132).
13
Na edição Nº 288 d’A Lanterna, de 15/4/1916, há um anúncio de divulgação da Escola Moderna Nº 1, com o
endereço na avenida Celso Garcia, 262, “no antigo Grupo Escolar”.
10
9
A Escola Moderna Nº 2 localizava-se na rua Miler, 74, no bairro paulistano do Brás14.
Criada sob os auspícios do Comitê Pró-Escola Moderna, oferecia instrução baseada “na
experimentação [e] nas afirmações científicas”, adotando o “método indutivo, demonstrativo
e objetivo”. As aulas ocorriam diariamente, das 12 às 16 horas. Havia horários específicos
para a inscrição de novos alunos, das 10 às 12 e das 16 às 18 horas. A lista de matérias
previstas para o ensino incluía: leitura, caligrafia, gramática, aritmética, geometria, geografia,
botânica, zoologia, mineralogia, física, química, fisiologia, história e desenho.
Em várias edições d’A Lanterna, há referências a atividades promovidas pelas Escolas
Modernas. Por exemplo, uma conferência sobre “a paz universal” na Escola Moderna Nº 2,
proferida pelo professor João Penteado; e, na Escola Moderna Nº 1, uma festa escolar e uma
quermesse15.
Pela análise das informações supracitadas, nota-se algumas diferenças entre as Escolas
Modernas Nº 1 e Nº 2, particularmente no que diz respeito ao atendimento da demanda
(horários de aulas, procedimentos para inscrição de novos alunos, existência de cursos
noturnos) e no detalhamento do currículo. Além disso, não fica claro se o Comitê Pró-Escola
Moderna e a Sociedade Escola Moderna de São Paulo eram a mesma instituição ou
compunham-se de militantes do mesmo “grupo”. Por outro lado, a metodologia e a filosofia
de ensino nas duas Escolas Modernas parecem bastante semelhantes. Nelas, predominava a
crença na vitória das luzes da razão e do progresso sobre as trevas da ignorância, da
superstição e do clericalismo. Aliás, havia uma forte associação do anarquismo a um “sistema
de pensamento cientificista e evolucionista” (Toledo, 1993, p. 120), bastante marcado pelo
spencerianismo. No nosso entender, o vínculo entre o anarquismo e o pensamento de Spencer
constitui-se num tema que merece estudos mais aprofundados, pois apresenta-se como uma
pista promissora para o entendimento dos grupos de afinidade.
Ao comentar a morte do papa Pio X, A Lanterna reafirmou sua tábua de valores: “Nós
nos curvamos reverentes diante dos esquifes de Victor Hugo, de Pasteur, de Letourneau, de
Zolà, de Wirchow; nós acompanhamos, com lágrimas nos olhos, o féretro daqueles que se
chamaram Luiz Gama e José Bonifácio”16. Os homens ilustres que mereciam a admiração e o
respeito dos anticlericais e dos libertários eram os homens de letras (produtores de uma
literatura “útil” às lutas sociais) e os cientistas, os amantes da liberdade e os indivíduos
14
Na edição Nº 295 [sic] d’A Lanterna, de 27/2/1915, há uma informação de que a Escola Moderna Nº 2 estava
instalada na rua Oriente, 166, no Brás.
15
A Lanterna, 29/8/1914; 5/9/1914; 19/9/1914.
16
A Lanterna, 22/8/1914.
10
conscientes da dignidade humana, os promotores do progresso e os responsáveis diretos pelas
descobertas científicas e “sociológicas”, os abolicionistas.
Perspectivas de estudo no campo da história da educação
A leitura d’A Lanterna permite a compreensão da imprensa operária como um
importante lugar de memória da classe operária brasileira nos anos iniciais do século XX.
Simultaneamente, é também um produto cultural, resultado de um processo de apropriação de
bens simbólicos, promovido pelos operários em suas lutas sociais quotidianas. Além de ser a
fonte primária privilegiada para o estudo do movimento operário e para a própria
caracterização da classe trabalhadora nos primórdios do regime republicano no Brasil, a
imprensa operária torna-se uma possibilidade de conhecimento das iniciativas educacionais
não oficiais no período (Ferreira, 1978; Giglio, 1995). Afirma-se, enfim, como possibilidade
de lançar alguma luz na complexa teia de relações sociais presentes na sociedade paulista nas
duas primeiras décadas do século XX. Tal procedimento justifica-se porque este período ainda
é considerado como uma “era de trevas”, apesar dos importantes estudos sobre iniciativas
educacionais de grupos minoritários – protestantes, maçons, espíritas, libertários – efetuados
desde a década de 1980 e que promoveram uma vigorosa (e ainda fecunda) renovação
historiográfica.
O estudo das iniciativas educacionais libertárias em São Paulo na Primeira República
deve buscar a superação da produção historiográfica elaborada nos marcos da história oficial e
centrada nas medidas governamentais, na legislação educacional e, particularmente, nas
reformas de ensino. Fazer um contraponto com a história oficial significa dar voz e
visibilidade às “criaturas comuns” em seu quotidiano; assim, evidenciam-se tanto as práticas
de educação e transmissão de saberes quanto as relações estabelecidas pelos atores sociais
com as instituições (públicas, privadas, sociais e políticas) atuantes no período (Giglio, 1995).
Em suma, o estudo de grupos minoritários e suas estratégias educacionais, sejam
formais ou informais, consubstanciadas em pequenas escolas, bibliotecas, círculos de
autodidatas ou centros de cultura operária reveste-se de especial importância. As páginas dos
jornais operários permitem estudos promissores no campo da história da educação, como: as
estratégias de propaganda, leitura e circulação de textos; a formação política e intelectual dos
grupos sociais excluídos; a articulação de grupos sociais distintos em torno de pautas políticas
comuns; a formação dos grupos de afinidade; a valorização da ciência como paradigma
explicativo da realidade. Tais estudos muito contribuirão para nos fazer trocar a resignação
pela indignação e, entre luzes e sombras, procurar alargar o conhecimento do mundo e dos
homens, de suas palavras, imagens, ilusões...
11
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DIAS, Maria Aparecida Lima. O espírito da educação: Maria Lacerda de Moura (19181935). São Paulo: [s.n.], 1995. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Educação, USP.
FERREIRA, Maria Nazareth. A imprensa operária no Brasil, 1880-1920. Petrópolis:
Vozes, 1978.
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ENTRE LUZES E SOMBRAS – “A LANTERNA” COMO FONTE